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Imagens do Outro na Cultura Surda

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Karin Strobel 
As imagens do outro sobre a 
cultura surda 
UNNERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA 
Reitor 
Lucio JOS~ Botelho 
Vice-Reitor 
Arioualdo Bolzan 
EDITORA DA UFSC 
Diretor Executive 
Alcides Buss 
Conselho Editorial 
Eunice Sueli Nodari (Presidente) 
Cornglio Celso de Brasil Carnargo 
Carmen Siluia Rial 
Jos6 Rubens Morato Leite 
Maria Cristina Marino Caluo 
Nilcka Lernos Pelandrg 
Regina Carvalho 
Editora da UFSC 
Florian6polis 
2008 
O 2008 Karin Strobel 
Editora da UFSC 
Campus Universitario - Trindade 
Caixa Postal 476 
88010-970 - Florian6polis/SC 
Fones: (48) 372 1-9408, 372 1-9605 e 372 1-9686 
F a : (48) 3721-9680 
edufsc@editora.ufsc.br 
www.editora.ufsc.br 
DiresBo editorial e capa: 
Paulo Roberto da Silva 
Revisgo tecnico-editorial: 
Aldy Verge% Mainguk 
Editorasgo: 
Victor Ernrnanuel Carlson 
Revisgo: 
Sueli Fernands 
Ficha Catalografica 
(Cataloga~io na fonte pela Biblioteca Universitiria da 
Universidade Federal de Santa Catarina) 
S9 19i Strobel, Karin 
As imagens do outro sobre a cultura surda / Karin 
Strobel. - Florian6polis : Ed. da UFSC, 2008. 
118p. : il. 
lnclui bibliografia. 
1. Surdos. 2. Cultura. 3. Surdos - Aspectos. 
I. Titulo. 
CDU: 362.42 
ISBN 978-85-328-0428-0 
"... e naquele instante, observando minha 
filha surda de tr& anos brincando no jardim com 
outras crian~as, eu a tomei pela cintura e a sentei no 
muro. 
A minha frente, sua bela e pequenina jigura 
iluminada pela alegria e o ceu h suas costas. 
Lembro-me bem daquele momento magico e 
la no jundo do meu cora~do agradeci: 
- Obrigada, meu Deus, por t6-la enviado para 
junto de mim!" 
Resewados todos o s direitos de publicacio total ou 
parcial pela Editora da UFSC 
lmpresso no Brasil 
Capitulo 6. Historia Cultural: novas reflex6es sobre a historia 
dos surdos ................................................................ -89 
Capitulo 7. In (exclus60) dos surdos: pratica inter (cultural)? ......... 95 
Capitulo 8. Como podemos compreender e envolver com as 
peculiaridades da cultura surda? .............................. 109 
Nota de reubao 
Ao ser convidada por Karin para a revisgo de seu texto, ainda preliminar, senti- 
me lisonjeada! Imagens nostblgicas, que compuseram nossa histbria, ao longo de 
mais de dez anos de trabalho juntas, povoaram minha mente. 
Lembrei-me da menina de grandes olhos azuis que, ao ingressar na vida aca- 
dgmica, no Curso de Pedagogia, buscava romper as barreiras lingiiisticas que o 
portugugs, sua lingua de fronteira, impunha'entre ela e os conhecimentos tebricos, 
os quais buscava se apropriar, avidamente. 
Em seu percurso, compartilhei com Karin o efeito do desconforto babdlico que 
o portugugs Ihe causava. Sentimentos de estranhamento, bloqueio, impotgncia que 
a atormentavam, diante de signos atravessados pela cultura da oralidade, em que 
se viu exilada, desde a infgncia ... 
Hoje, diante de seu livro, senti-me tentada, de inicio, a exercer o papel de re- 
visora, substituindo palavras, adequando a pontua~So ao c6modo universo lexical 
e pros6dico de minha lingua materna, em que constitui minha subjetividade e 
identidade cultural. 
No entanto, a medida que ia me apropriando das palavras-imagens que habita- 
vam o texto de Karin, que narravam a hist6ria de seu povo surdo, de seus percal~os 
a submissSo da normaliza~do que a sociedade insistiu em lhes imputar, sobretudo 
em forma de coloniza~So lingiiistica, hesitei. 
Em meio a imagens de corpos disciplinados, tampouco dbceis, que lutaram 
heroicamente para manter suas marcas culturais vivas, nSo me permiti exercer a 
I pretensa superioridade do colonizador que assujeita o outro surdo ao seu mod0 de 
se conformar a lingua portuguesa. 
0 texto estava pronto, babdlico, disperso, plural! Seu pensamento fundado 
em belissimas imagens da lingua de sinais, tomou emprestadoros significantes do 
-3 
portugugs para se materializar, fazendo fluir a experigncia da contaminaqho inter- 
cultural; a lingua em que se sentia estrangeira fora hospedada, acolhida em seus 
modos de dizer visuais ... 
De tal mod0 que busquei colaborar da forma que me pareceu mais sensata, 
diante da tarefa que me foi confiada e dos contundentes efeitos de sentido que seu 
discurso produziu em mim. Nho pude negar-lhe a possibilidade de ser sujeito em 
sua propria lingua, dissolvendo sua voz no caldo da lingua majoritaria oficial. 
Premida entre o desejo que sua escritura se apresentasse legivel e a necessidade 
hist6rica de que as idiossincrasias de sua autoria, fossem preservadas, decidi rom- 
per o circulo vicioso das prAticas ouvintistas que, de forma incisiva, Karin buscou 
denunciar. Procurei nho deformar, conformar suas ideias a minha experigncia da 
lingua, nho apagar as marcas de sua autoria, usurpando mais um dos artefatos do 
povo surdo que deve ser considerado: seus modos de dizer o portugues. 
Agrade~o-lhe a oportunidade do exercicio de buscar inverter a logica normali- 
zadora que marcou sua historia, deixando falar seu portugues surdo que se reveste 
de palavras-imagens em uma sintaxe propria, regrada, repleto de verdades sobre 
os modos de produzir sentidos em uma lingua estrangeira. 
Se a lingua e muito mais que um conjunto de regras organizadas segundo uma 
logica formal, se ela delimita um territbrio ideologic0 de enunciaqbo, saturado de 
valores e posicionamentos; se ela se situa na arena de guerras discursivas que cons- 
titui os sujeitos, sua subjetividade, seu lugar no mundo, nbo poderia faze-la calar 
em minha norma hospedeira que Karin, tho bravamente, se ocupou em denunciar 
no mosaic0 lingiiistico e cultural que compde o seu texto. 
Sueli Fernandes 
Doutora Linguista UFPR 
A cultura surda, ao analisarmos a sua historia, vg-se que ela foi marcada por 
muitos estereotipos, seja atraves da imposiqho da cultura dominante, ou das repre- 
sentaqdes sociais que narram o povo surdo como seres deficientes. 
Tem muitos autores que escrevem bonitos livros sobre os surdos, mas eles real- 
mente conhecem-nos? Sabem sobre a cultura surda? Eles sentiram na propria pele 
como e ser surdo? De tal mod0 como lamentou o ex-presidente da World Federation 
of the Deaf - WFD, o surdo sociologo Dr. Yerker Andersson: "[ ...I o conhecimento 
limitado sobre os surdos que os autores ouuintespossuem quando escrevem acerca 
da questio da surdez [. . .I7' (LANE, 1992, p. 13). 
Essa agressho contra a cultura surda pode levar a conflitos das identidades 
surdas e desvalorizaqbo de suas diferenqas. Entretanto, neste livro, ha narrativas das 
experigncias vivenciadas dos sujeitos surdos, as suas resistgncias contra essa opressbo 
cultural, similar de um autgntico povo que luta pels sua cultura, pois 6 atraves dela 
que os sujeitos asseguram a sua sobrevivgncia e afirmam as suas identidades. 
Para a comunidade ouvinte que esta mais proxima de povo surdo - os parentes, 
amigos, interpretes, professores de surdos - para os mesmos, reconhecer a existencia 
da cultura surda nho 6 facil, porque nos seu pensamento habitual acolhem o con- 
ceito unitario da cultura e, ao aceitarem a cultura surda, eles tern de mudar as suas 
visdes usuais para reconhecerem a existgncia de varias culturas, de compreenderem 
os diferentes espaqos culturais obtidos pelos povos diferentes. 
Mas nbo se trata somente de reconhecerem a diferenqa cultural do povo 
surdo, e sim, alem disso, de perceberem a cultura surda atraves do reconhecimento 
de suas diferentes identidades, suas historias, suas subjetividades, suas linguas, 
valorizaqbo de suas formas de viver e de se relacionar. 
?I 
Observamos que, atualmente na sociedade brasileira, esti crescendo o 
, ndmero dos sujeitos ouvintes interessados em aprender a lingua de sinais e alme- 
jamos que a leitura deste livro ilumine e ajude-os na compreensso e na aceitasdo 
da cultura surda. 
0 livro As imagens do outro sobre a cultura surda de Karin Lilian Strobe1 k uma 
publica@o muito importante nos Estudos Surdos. E um livro que traz as imagens do 
outro sobre a culturafaca na comunidade 
dos surdos, 6 pouco provavel que aprenda fluentemente a American Sign 
Language17 [:..I, criando os seus proprios valores fundamentais existentes 
naquela comunidade. A crianea surda corre entcio o risco d e se desenvolver 
sem qualquer tip0 d e comunica~60 concreta, seja ela falada ou gestual. 
Consequentemente esta crianea podera desenuolver problemas d e iden- 
tidade, d e adaptae6o emotional e ate mesmo d e salide mental. 
Ja teve casos em que muitas familias ouvintes foram pedir opiniSo ao povo surdo 
e optaram depois em colocar o filho surdo na cultura ouvinte seguindo conselhos 
de muitos especialistas tambkm ouvintes. 0 anseio de tornar seus filhos surdos 
"normais" perante a sociedade falou mais alto, pois as familias ouvintes no meio da 
comunidade surda sentiram-se "estrangeiras", porque 6 um mundo diferente que 
nSo compreendem e com o qua1 se assustam. Como pronuncia uma surda: 
Faco parte da comunidade dos surdos sinalizados e sempre fui sincera com 
as mdes, sempre digo que sou surda profunda e amo a Lingua d e Sinais, 
sou feliz como Deus m e fez e 1160 pretend0 mudar isso. Mas s6o elas que 
t&m que decidir o futuro dos seus filhos surdos e n6o eu. EIas sabem que 
sou contra elas afastarem ofilho da comunidade surda, privando o direito 
de eles se comunicarem e m Libras, fico muito triste com isso, mas continuo 
sendo amiga das m6es, sempre rezo por elas para que mudem d e ideia 
0s artefatos culturais do povo surdo 
e que essas criancas, no futuro, possam participar da comunidade surda. 
(IRENE M . STOCK)18 
Fui h comunidade surda e entrevistei muitos sujeitos surdos, alguns com familia 
de todos os membros surdos e outros, na maioria, com familia de todos os membros 
ouvintes, com a finalidade de abranger quais diferensas culturais entre eles. 
Na maioria dos casos, com familias ouvintes, o problema encontrado para esses 
sujeitos surdos 6 a carencia de dialogo, entendimento e da falta de nosdo do que 
4 a cultura surda. Cito exemplo abaixo: 
Em muitas ocasides eu ndo entendia o que falauam ao redor da mesa durante 
as refeicdes ou durante as novelas na televisdo e muita vez implorava 6s pessoas 
pela pouca atengdo e explica~do sobre tudo. 
Em familias ouvintes, as criansas surd? observam as conversas e discussdes 
que ndo sSo direcionadas a elas. Igualmente, Le6 Jacobs descreve na autobiografia, 
detalhadamente, o sentimento cometido neste isolamento das criansas surdas com 
famflias ouvintes, dentro da propria casa, devido as barreiras de comunica@io: 
Voc& fica fora da conversa 21 mesa d o jantar. E o que se chama d e isola- 
mento mental. Enquanto todos os outros falam e riem, voc& se mantern 
t6o distante quanto u m brabe solitario n u m desert0 que se estende para o 
horizon te por todos os lados. [. . .] S e n te-se ansiosa por u m contato. Sufoca 
por dentro, mas n6o pode transmitir esse sentimento horrivel a ninguem. 
N6o sabe como faze-lo. Tem a impress60 d e que ninguem compreende 
nem se importa. [...I N6o Ihe e concedida sequer a ilus6o d e participae60. 
1. ..] (SACKS, 1989, p. 136) 
0 que encaixa bem tambem estes anseios destas criansas surdas 4 o que a 
autora surda, Laboritt (1994, p. 59), explica: 
0 s adultos ouvintes que privam seus filhos da lingua d e sinais nunca 
compreender60 o que se passa na c a b e ~ a d e uma crianca surda. H6 a 
solidiio, e a resistencia, a sede d e se comunicar e algumas vezes, o odio. 
A exclus6o da familia, da casa onde todos falam sem se preocupar com 
vote. Porque e precis0 sempre pedir, puxar alguem pela manga ou pelo 
vestido para saber, u m pouco, u m pouquinho, daquilo que se passa e m 
sua volta. Caso contrario, a vida 4 u m filme mudo, sem legendas. 
l7 Lingua de Sinais Americana - ASL A ~ r a d e ~ o a Irene M. Stock pela contribui@o de sua narrativa como exemplo para estp livro. 
As imagens d o outro sobre a cultura surda 0 s artefatos culturais do povo surdo 
Salvo alguns casos, quando tem dialogos e bom vinculo entre eles, isto ocorre 
porque um ou outro membro ouvinte de famllia do filho surdo resolveu se informar 
e aprofundar a respeito da cultura surda, procurando se comunicar e passar todas 
as informaqbes para a crianqa surda em urna relaqgo de dialogo, onde existe urna 
efetiva troca de saberes e da aceitaqgo de identidade surda. 
Nas outras famllias com todos os membros surdos, dos av6s ate os filhos, pas- 
sando por tios, tias, primos, e outros e assim eles passam pelo process0 natural de 
transmissgo da cultura surda. 
Nestas famllias surdas, as crianqas surdas tGm informaqbes que as ajudam a 
compreenderem os artefatos culturais existentes nos povos surdos, tambem pode 
ocorrer que nas famllias surdas tenham um ou mais membros ouvintes, vejamos 
o exemplo em um trecho de urna reportagem sobre urna famllia toda surda com 
um membro ouvinte: 
I...] Sueli Ramalho Segala, 43 anos. Surda, ela ndo sofreu com o 
preconceito' na gravidez. Seus conflitos comegaram quando Felipe 
nasceu. Toda sua familia 6 surda e ele foi o primeiro ouvinte depois de 
tr& geragbes. Apesar de o poi ndo ser deficiente, durante o pre-natal 
o mddico afirmou que a chance de o beb& nascer surdo era de 95%. 
"Foi uma surpresa quando percebemos que ele escutava. Perguntei h 
minha mde corno eu cuidaria dele", conta. Quando o garoto fez 2 anos, 
o casal se separou. Sueli e Felipe foram morar com os pais e o irmdo 
dela. Assim, o menino cresceu em meio a Lingua Brasileira de Sinais e 
a cultura surda. 'W primeira palavra que falou foi em sinais: mamadeira. 
Em portugub falado, ele chamou o pai. Compreendeu desde pequeno 
corno era a nossa comunicagdo." I...] Felipe faz bicos corno intdrprete da 
Libras, unindo dois mundos com linguas e cultura diferentes. (PERRI, 
acesso em: 29 jan. 2008)19 
Nas famllias surdas, os membros surdos tern comportamentos pr6prios deles, 
por exemplo, 6 habitual assistirem televisfio no volume mudo para ngo incomodar os 
vizinhos, todos usam lingua de sinais corno a lingua priorithia do lar, lavam louqas e 
fazem movimentos inesperadamente com barulho alto sem perceberem. Deste modo, 
explicam os autores americanos Lane, Hoffmeister e Bahan (1996), que durante 
as refeiqbes de urna famllia com todos os membros surdos, a crianqa surda esta 
'9 Fonte: http://sentidos. uol. com. brlcanaisimateria. asp?codpag=100&codtipo=1O&subcat=103&canal=revista. 
I 
incluida nas conversas em lingua de sinais desde o inicio e quando chegam visitas 
amigos surdos e ou ouvintes, as conversas continuam sendo conduzidas em lingua 
de sinais e assim a crianqa surda visualizam, recebem informaqbes, categorizam, 
guardam e d5o sentidos a isto. 
H6 uns quinze anos atras eu fui corn urna arniga surda em Sdo Paulo e ficamos 
em casa de outra amiga surda paulista que tem farnilia corn todos os membros 
surdos. Nos tr&s na epoca, durante madrugada ficamos conversando em lingua 
de sinais dando enfase aos diversos assuntos no nivel do interesse de nos corno 
mogas. Conosco estaua um dos membros dessa familia, a irmtizinha rnenor surda 
de 7 anos, que n6o participava nas nossas conversas, mas que observava-nos. Nos 
a mand6vamos ir dormir porque era assunto de adultos. Recentemente encontrei 
esta "irmhinha menor" j6 adulta, urna acadgmica, otirna profissional e inteligente, 
ela comentou que se lembra dos assuntos que conversamos naquela noite. 
Isto reforp o que os autores Lane, Hoffmeister e Bahan colocam: 
0 ambiente visual e a lingua (linguagem), o enriquecimento das interagbes e 
estas pequenas acomodacdes, tudo resulta num grande gasto para o desen- 
volvimento da crianga surda. As maiorias das criancas surdas de pais surdos 
funcionam melhor do que criangas surdas de pais ouvintes nas areas mad&- 
micas, sociais e lingiiisticas. Criangas surdas depais surdos desenvolvem um 
sentido de identidade que d forte e auto-govemada. (1996, p. 27) 
Muitas vezes nestas familias podem ocorrer que as crianqas surdas n5o se 
acham diferentes do restodo mundo, elas crGem que os sujeitos ouvintes e que 
sfio "estranhos", "esquisitos" ou "diferentes" deles, apresento abaixo exemplos de 
diferentes situaqbes: 
"Um papagaio fazia parte da familia, euficava intrigada e imaginando por 
que todos falavam mais com o papagaio do que comigo, neste period0 
comecaram as duuidas e mais duvidas, sem imaginar que eu podia ser 
diferente, ndo me lembro se sabia os nomes das pessoas, demorei muito 
para entender que eu, as pessoas, as coisas tinham nomes." ( V I L W A , 
2001, p. 12) 
0 surdo americano Sam Supalla, que tem varias geraqbes de familia de surdos, 
descreve sua experiencia sobre a amizade de infiincia com urna menina ouvinte 
de sua idade: 
As imagens do outro sobre a cultura surda 0 s artefatos culturais do povo surdo 
I...] Apos alguns encontros tentativos, eles tornaram-se amigos. Ela era 
urna companheira satisfatoria, portm havia o problema de sua "estranhe- 
I za". Ele ndo conseguia falar com ela da maneira que conseguia falar com 
seus irmdo mais velhos e com seus pais. Ela parecia ter urna dificuldade 
extrema de compreender mesmo os gestos mais simples ou mais rudes. 
I...] Um dia, Sam lembra-se vivamente, que ele finalmente entendeu que 
a sua amiga era de fato estranha. Eles estauam brincando na casa dela, 
quando de repente a mde dela chegou at6 eles e animadamente comeGou 
a mexer sua propria boca. Como se por magica, a garota pegou urna , 
casa de boneca e levou-a para um outro local. Sam estava perplex0 e 
foi para casa perguntar a sua miie sobre exatamente que tip0 de afli~do 
que a menina da porta ao lado tinha. Sua mde explicou a ele que ela era 
ouuinte e por razdo disto ela ndo sabia sinalizar; em vez disso, ela e a sua 
m6e falam, movimentam sum bocas para falarem entre si. Sam entGo 
perguntou se esta menina e a familia dela era as linicas "daquele jeito". A 
mde dele explicou que ndo, de fato, quase todas as pessoas eram como i 
seus uizinhos. Era a sua propria familia que era incomum. Aquele foi um 
momento memor6vel para Sam. Ele lembra de pensar o quanto estava 
curiosa a menina da porta ao lado, e se ela era ouuinte, como as pessoas I 
ouuintes eram curiosas. (PADDEN, HUMPHRlES p. 15-16) I 
Esta situaMo abaixo e de outra familia com todos 0s membros surdos que moram 
em S5o Paulo, a filha dep6e a sua experiencia parecida com os demais acima: 
Em criansa, achaua que o mundo era deficiente, em oposi@o a sua propria 
casa, onde todos eram normais. Sendo a Libras a sua lingua materna, 
na rua, ficaua com do das outras criancas, pois elas ndo falavam com as 
mdos. 0 s pais Ihe diziam: ndo falam com as mdos porque ouvem (apon- 
tavam para o ouuido), mas Sueli achava (como e comum a crian~as com 
surdez profunda de nascenca) que ouvido ndo tinha fun~do a ndo ser a I 
de pendurar o brinco, pois o surdo profundo n60 entende o conceit0 de 
som, sendo que apenas sente vibra~des. Ensinaua b amigas o alfabeto 
de sinais, para poderem se entender. Assim aprendeu que todas as coisas 
t im nome (para os surdos, todas as coisas t&m um sinal, ou nome gestual). 
(SUELI RAMALHO, 2008)20 
Dentro dessas famdias surdas, quando tem bichos domesticados, como cachor- I 
I 
ros ou gatos, estes se habituam a entender as ordens dadas em lingua de sinais 
ou arranjam maneiras para ajudar aos membros surdos. Por exemplo, a minha 
20 Fonte: http.//pt wikiped~a. org/wiki/Sueli-Ramalho 
cachorrinha Asteca, ela sabe que sou surda e quando Id em casa tocam a campainha 
na porta, ela vem me avisar com um olhar mexendo o rosto, como urna espkcie de 
linguagem corporal. 
LA em SBo Paulo tem urna familia de pai surdo, m5e surda e duas filhas moqas 
surdas, eles possuem um cachorro labrador que entende a comunicaqBo em gestos, 
quando a moqa surda faz sinal de "passear", o cachorro vibra de alegre indo ate a 
porta, e assim por diante. Tambbm entende do sinal "fazer xixi", "tomar banho", 
"comer" e ate mesmo os sinais de nomes de cada membro de familia. 0 s animais 
criarem vinculo com os sujeitos surdos e t5o corriqueiro para o povo surdo que 
encontramos muitos casos desse tip0 em muitos lares. 
Vejamos abaixo um depoimento da psicologa surda sobre o process0 de apren- 
dizagem do gato dela: 
Sou surda, psicologa clinica e escolar, moro com meus dois filhos, Bru- 
no de 24 anos e Anna de 21 anos que sdo ouvintes. Pretendo contar 
a minha experiincia com o gato branco de olhos azuis, lindo e fofo. 
A Anna ganhou o Rony, o nome do gato, do namorado em 2005, que veio 
ao meu apt0 com 45 dias de vida. Como psicologa eu entendo que os ani- 
mais aprendem por wndicionamento e pensei em urna forma de o Rony 
iria entender o meu comportamento de pessoa surda pois sei que dentro da 
cultura surda, tem inlimeros casos de animais corno: cachorro, papagaios e 
gatos que tem urna comunica~iio visual e forte com os surdos. Entiio, cedo 
aconteceu que o Rony teria urna comunica@o espec$ca comigo, mas teria 
de esperar o tempo de aprendizado. Passou-se dois anos e nesses anos real- 
mente o Rony tem urna comunica~do que diferencia a dos meus doisfilhos 
ouvintes. Eu trabalho o dia inteiro assim como os meusfilhos e a noite nos 
encontramos o Rony e ele tenta obter a aten~do de nos trb. Com o Bruno 
e Anna, Rony mia por trh, a0 lado deles e eles respondem ao chamado e 
o pega dando-lhe o carinho. Rony quando mia para mim ele sabe que dou 
aten~do com muitos mimos e carinho, mas aos poucos foi percebendo que 
se miasse ah-& de mim ou ao lado eu ndo respondia. Rony foi percebendo 
que precisava ficar na minha frente para responder ao chamado e tentou 
miar mesmo nafrentesem parar. Mas foipercebendo que niio adiantava miar 
sem que eu esteja olhando e assim parou de miar se eu niio o olhasse. Aos 
poucos, Rony foi adquirindo o comportamento como passava por tnjs sem 
miar, vai na minhafrentesem miar se ndo estiver olhandopara ele. EntCio ele 
entendeu que seu o olhasse ele miava bem alto e assim ele recebia mimos 
,- 
As imagens do outro sobre a cultura surda 0s artefatos culturais do povo surdo 
e carinhos e comecou fazer assim todos os dias e com meusfilhos ele tinha 
o comportamento diferente, miaua todos os sentidos e sabia que recebia 
carinho e comigo so miaua quando eu olhmre bem na minhafrente Com 
o passar do tempo, deuido ao excess0 de trabalho e pouco tempo para ele, I 
eu comecei a ignora-lo e ele comecou a todo custo encontrar uma maneira 
para que eu o olhasse, entdo aos poucos comecou a me chamar com patas 
e miar. E eu me derreto diante do comportamento dele e dou mimos e 
carinhos. Essa qeri&ncia eu sempre conto para todos, pois k um tipo de 
comunicaedo especial que se desenvolue quondo existe uma interacdo entre 
pessoo e animal atraub de contatos, comportamento visual e 6 possivel 
acontecer. Por esse motivo, dentro do cultura surda, quase todos os surdos 
tem animais em sua casa. (RITA MAESTRI)21 
4.4 Artefato culturalc literatura surda 
Quarto artefato cultural 6 a literatura surda, ela traduz a memoria das vivencias 1 1 
surdas atraves das varias gera~des dos povos surdos. A literatura se multiplica em I 
I diferentes gsneros: poesia, historia de surdos, piadas, literatura infantil, classicos, I 
I fabulas, contos, romances, lendas e outras manifestas6es culturais. Karnopp fa2 , 
refersncia a respeito desse artefato cultural: ''I..] utilizamos a express60 "literatura , 
i surda" para histbrim que t6m a lingua de sinais, a quest60 da identidade e da cultura 
I 
surda presentes na narrativa [...I ". (1989, 102). 
De tal mod0 acrescenta o americano surdo Dr. Andersson "[ ...I pessoas surdas 
de talento jd tentaram criar poesia ou humor em lingua de sinais. Essas inova~6es 
culturais aconteceram em muitos paises. 0 recente "Deaf Way Festival" na Uni- 
versidade Gallaudet provou claramente que a lingua de sinais funciona como um 
enriquecimento cultural ideal." (1992, p. 158). 1 
A literatura surda refere-se as varias experiencias pessoais do povo surdo que, 
I 
muitas vezes, expdem as dificuldades e ouvitorias das opress6es ouvintes, de como 
se saem em diversas situas6es inesperadas, testemunhando as as6es de grandes 
lideres e militantes surdos e sobre a valorizas20 de suas identidades surdas. 
Grande parte dessas narrativas em lingua de sinais tem sido gravada em CD- 
ROOM, videos e DVD, servindo atualmente como fontes para as varias pesquisas 
21 Agradeso a Rita de Cassia Maestri pela contribui@o de sua narrativa como exemplo para este livro. 
realizadas por sujeitos surdos e ouvintes nas universidades, gerando este artefato 
cultural Literatura Surda, que 6 nativa e incomum: 
Diferentes artefatos culturais s8o produzidos no sentido de dar sus- 
tentaedo a determinados discursos sobre os surdos. Entre eles, desta- 
camos a literatura infantil que esta presente em diferentes contextos 
sociais, sendo a escola urn espaGo privilegiado da leitura desses mate-riais. 
Nos irltimos anos, essa literatura tem sido foco de pesquisas na area da 
educacdo justamente por sua insere80 e disseminacdo nus escolas, entre 
professores e alunos, tanto como material de instruedo como de lazer. 
(KARNOPF: 2006, p. 101) 
Muitos escritores e poetas surdos tamb6m registram suas express6es litera- 
rias em lingua portuguesa, como testemunhos compartilhados de suas identidades 
culturais e, assim, a cultura surda passou a ganhar espaso literario com lan~amentos 
de livros e artigos com temas nunca antes imaginados, 
Carol Padden e o Tom Humphries, escritores surdos americanos, lingiiistas 
que escreveram livros "Deaf in america: voices from a culture" e "Inside deaf cultu- 
re", valorizaram a chamada "cultura surda", o que fez uma transformasao positiva 
nos "olhares" sobre o povo surdo. Outro excelente escritor surdo 6 o inglss Paddy 
Ladd, que escreveu o livro "Understanding deaf culture In search of deafhood", 
uma leitura espantosa que mostra muitas veracidades sobre o mundo dos surdos. 
A surda brasileira Gladis Perlin publicou muitos artigos, tais como 'as identidades 
Surdas" (1998) "0 ser e o estar sendo surdos: alteridade diferen~a e identidade" 
(2003); "0 local da cultura surda"; (2004); "Surdos: o discurso do retorno" (2005); 
"Surdos: por uma pedagogia da diferen~a" (2006); "Surdos: cultura e pedagogia" 
(2006); que contribuiram significativamente a compreensgo da cultura surda na 
constru@o de identidades. E um process0 permanente de respeito do "ser surdo7', 
mudando a visa0 da hisMria que garante o valor dos direitos culturais para povo 
surdo, transformando as relashes de poder, desde a vida cotidiana, at6 os espasos 
mais pfiblicos. 
Outros autores surdos brasileiros contribuiram com o artefato cultural literario, 
dentre muitos eu menciono alguns: 
Carolina Hessel: "Por um curriculo em Lingua de Sinais" (2006); 
Celso Baldin: "A juventude - o Rio de Janeiro e..0 carnaval" (2001); 
I 
As imagens do outro sobre a cultura surda 0s artefatos culturais do povo surdo 
Fabiano Souto Rosa: "Literatura Surda: criaqdo e produqzo de imagens 
e textos" (2006); 
Flaviane Reis: "Professor surdo: a politica e a poetica da transgress20 
pedagogics" (2006); 
Gisele Rangel: "Histbria do povo surdo em Porto Alegre: lmagens e 
sinais de urna trajetoria cultural", (2004); 
Jorge Sergio L. Guimarges: "Ate onde vai o surdo" (cr6nicas / 1961); 
Marianne Stumpf: "Sistema Sigwriting: por urna escrita funcional para 
o surdo" (2005); 
Olindina Coelho Possidio "No meu silgncio: Ouvi e Vivi. " (autobio- 
grafia, 2005); 
Patricia Luiza Ferreira Pinto "Identidade cultural surda na diversidade 
brasileira" (2001); 
Ronice de Oliveira "Meus sentimentos em folhas" (livro de poemas, 
2005); 
[Surda declarando urna poesia em Lingua de Sinais) 
I 
Shirley Vilhalva: "Recortes de urna Vida: Descobrindo o AmanhB" 
(autobiografia, 2001), "Por urna pedagogia surda" (2004); 
Wilson Miranda: "Comunidade dos surdos: olhares sobre os contatos 
culturais", (2001). 
Por muitas geraqbes os povos surdos transmitem muitas histbrias atraves de 
lingua de sinais, a maioria delas parte de experiencias das comunidades surdas 
que transmitem seus valores e orgulho da cultura surda que refor~a os vinculos 
que os unem com as geraq6es surdas mais jovens. Seleciono mais urna citaqgo que 
exemplifica o que digo: 
1. ..] Primeiro, como e m outras culturas, elas sdo carregadores d e historia, 
maneiras d e repetir e reformular o passado para o presente. E segundo, nas , 
circunstanciais especiais da Comunidade Surda, estas historias assumem 
urn outro peso: elas sdo u m m e i o vital d e ensinar a sabedoria d o grupo 
para aqueles que ndo t&m familias Surdas. [...I (PADDEN; HUMPHRIES, 
2000, p 38.) 
A literatura surda tambem envolve as piadas surdas que exploram a expressgo 
facial e corporal, o dominio da lingua de sinais e a maneira de contar piada natu- 
ralmente. S6o consideradas extraordinarias na comunidade surda. 
Na maioria das vezes estas piadas e anedotas envolvem a tematica das situaqbes 
engra~adas sobre a incornpreens50 das comunidades ouvintes acerca da cultura 
surda e vice-versa, como 6 o caso da popular piada "A arvore surda": o lenhador 
que grita "madeira" para urna arvore surda e ela n&o cai, e a arvore s6 cai quando 
o lenhador aprende a soletrar "m-a-d-e-i-r-a". 0 sujeito surdo ao contar esta pia- 
da, incorpora os personagens com as expressbes corporais e faciais e os dialogos, 
usando a lingua de sinais, o que faz com que os expectadores prendam a respiraqiio 
no desenrolar da histbria humoristica para depois cairem na risada. 
Estas piadas da cultura surda muitas vezes podem ocorrer sem que a comuni- 
dade ouvinte as compreenda e/ou n%o as achem engraqadas e vice-versa: o povo 
surdo tambkm ngo compreende as piadas da cultura ouvinte. lsto ocorre porque 
os sujeitos surdos usam nas piadas os artefatos culturais do povo surdo, enquanto 
para o povo ouvinte, a tematica da lingua portuguesa e vers6es sonoras sgo mais 
importantes. 
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As imagens do outro sobre a cultura surda 
(AntBnio Campos de Abreu trabalhando a historia dos surdos) 
associa~do de surdos, realizando atividades conjuntas, estudando em urna 
mesma escola, empreendendo lutas e reivindica~6es conjuntas. (KARNOPP 
2005, p. 230-231). 
Dentro da comunidade surda, os sujeitos surdos n5o diferenciam um ao outro 
atravhs de grau de sua s u r d e ~ , ~ ~ e sim que o tal fulano d "surdo" ou "ouvinte", pois 
isto demonstra as suas identidades culturais do pertencimento a comunidade surda. 
Portanto, ser filho de pais surdos e extremamente respeitavel no circulo deles, como 
cita o Wrigley (1996, p. 15): 
A partir de urna visdo dos Surdos, o ato politizado de alegar urna surdez 
"nativa" - ou seja, urna surdez de nascenGa - esta ligado d identidade 
positiva de ndo estar "contaminado" pelo mundo dos que ouvem e suas 
limita~6es epistemol6gicas do som seqiiencial. A "pureza" do conhecimento 
dos Surdos, a verdadeira Surdez, que uem da expulsdo data distra~do 6 
na cultura dos Surdos urna marca de distin~do. Seria melhor ainda se os 
famihares e ate mesmo seus pais fossem tamb6m Surdos. 
0 povo surdo debate muito sobre identidade cultural nos casos de filhos surdos 
de pais surdos, fazendo corn que muitos deles tambdm aspirem ter filhos surdos, 
isto d considerado natural pela comunidade surda. Em uma ocasibo, quando resolvi 
adotar um filho, na vara de infincia, a psic6loga ao conversar comigo disse que 
o meniio era ouvinte e teve uma surdez progressiva. Retrucou preocupada, estir 
consciente que ele vai jicar surdo profundo? Eu respondi: E dai? Para mim isto nbo 
muda nada, para mim ele 6 o menino Richardt e vou aceitir-lo! 
Na area de saude classificam-seossurdos atraves de exames audiometrias. Graus de surdez mais conhecida sio: 
LeveJ Moderadd Severa / Profunda. 
0 s artefatos culturais do povo surdo 
Lane cita situaq6es diferentes d e duas mses surdas quando souberam que suas 
filhas eram surdas, a primeira diz:"Pensei para comigo, ela deve ser surda. N&o fiquei 
desiludida; pensei, vai correr tudo bem. Somos as duas surdas, por isto saberemos 
o que fazer. " (1992, p. 34) e da outra mde que vem de urna grande famflia de sur- 
dos onde todos esperam que ela gere um outro membro surdo: "quero que minha 
filha seja como eu, seja surda" (1992, p. 34), percebemos que a primeira aceitou 
com naturalidade enquanto a outra afirma que a filha ser6 surda, ja que todos os 
membros tambdm o sho. 
Duas mulheres ldsbicas americanas surdas provocam criticas de povo ouvintes 
por deliberadamente optar por ter um beb& &av& de inseminaqgo artificial de 
um homem tambdm surdo fazendo com que aumente a possibilidade delas terem 
filho surdo. 
As duas mulheres surdas disseram que queriam urna crianqa que fosse como 
elas. Em urna entrevista a um jornal, as mulheres declararam que seriam melhores 
m5es de urna crianqa surda que urna pessoa ouvinte. Elas acreditam que sgo capazes 
de entender mais completamente o desenvolvimento da crianqa e oferecer melhor 
orientaqso, e disseram que a escolha n&o foi diferente de optar por um determinado 
sexo. Um trecho desta entrevista: 
[...I parte de urna gera~do que enxerga a surdez ndo como urna deficibncia, 
mas como urna identidade cultural. ';4lgumas pessoas encaram isso corno, 
"Oh, meu Deus, uoc& n6o deviam ter urna crian~a com urna limita~do 
fisica", disse McCullough, a mde adotiva do garoto. "Mas, vocb sabe, as 
pessoas negras t&m urna vida mais dura. Por que ndo poderiam osfuturos 
pais escolher um doador negro se 6 isso que querem? Eles deviam ter essa 
op~do. (THEATHER, 2002) 
Esta d urna situaqgo que precisamos refletir seriamente; mas ate que ponto eles 
chegam? Ser6 acertado desafiar a humanidade para se ter urna crianqa surda? E 
acertado terem urna crianqa surda para se identificarem com identidade cultural 
do povo surdo? Ser6 que o ideal n5o seria adotar urna crianqa que j6 d surda do 
que gerar uma? Este assunto pol6mico envolve muito sobre a questgo de etica 
humana. 
Esta reflex50 precisa ser muito repensada e levar a uma futura discuss50 sQia, 
assim comenta Thoma: "Com a possibilidade da c1onagem.de brg5os humanos 
I"' 
As imagens do outro sobre a cultura surda 1 0s artefatos culturais do povo surdo 
ou mesmo de vidas hurnanas, levanta-se uma discussZo etica sobre ate que ponto 
podemos h e r o uso da ci6ncia para determinar o tip0 de filhos que queremos" 
(2004, p. 58). 
0 padrZo de comportamento do povo surdo versa tambem pela habitual fre- 
qiikncia aos bailes das associa~6es de surdos com seus desfiles de misses surdas, 
discursos longos e repetitivos dos presidentes e representantes de outras associa- 
shes; a entrega de trofeus e medalhas aos atletas surdos nos eventos esportivos de 
surdos. 
Nos bailes e festas promovidos pelas associas6es de surdos, geralmente no salZo, 
h6 poucos sujeitos surdos dansando e a grande maioria est6 conversando em seus 
cantos, pois os sujeitos surdos, quando reencontram seus amigos de muitos lugares 
do pais, sentem mais necessidade de colocar em dia as conversas para saberem as 
novidades do que de dansar. 
E aqueles que dansam no salZo, ou sZo sujeitos ouvintes - amigos ou familiares 
de surdos - ou sZo sujeitos surdos que sentem da vibras5o de musica e gostam de 
dansar. A maioria procura imitar os passos, tentando adivinhar o ritmo musical, 
observando os outros dansando; ou enGo dansam livres a sua maneira, afinal, nestes 
bailes e festas de cultura surda n5o tem regras de ribno musical correto e muitas 
vezes acontece que quando acaba a musica, eles continuam dansando. 
Outro lance curioso que as comunidades surdas tern 6 a tradiqZo de batiiar os 
nomes de seus membros em lingua de sinais, que pode ser uma das caracteristicas 
fisicas da pessoa, ou primeira letra de seu nome, ou de sua profiss50, assim como 
exemplifica Dalcin (2007, p. 205): 
[...I os surdos eram "batizados" por outros surdos da comunidade, atrauts 
de um sinal proprio e que esse sinal seria a identidade de cada um na 
comunidade surda. [...]a comunidade surda ntio se refere ?IS pessoas pelo 
nome proprio, mas pelo sinal proprio recebido no "batismo" quando o 
surdo ingressa na comunidade [...I 
Em principio as associa~des dos surdos funcionavam como espasos de recrea@o 
e lazer, mas com o passar do tempo passaram a ter necessidades de mais discursos 
politicos e de outras praticas esportivas, e as competiqbes eram voltadas somente 
para o futebol. 
A partir dai, houve a necessidade de criar as organizasdes que promovem inter- 
cgmbio dos diversos eventos esportivos dos surdos. No Brasil tem a CBDS - Confe- 
dera@o Brasileira de Desportos de Surdos, CISS - Comitk Internacional de Esportes 
dos Surdos, PANAMDES - Panamericano de Deportes de Sordos, CONSUDES 
- Confederacion Sudarnericana Deportiva de Sordos, que buscam adaptaq6es culturais 
para surdos nas praticas esportivas, como afirma o surdo Zovico (2002, p. 10): 
[...I a prbtica esportiva para os surdos requer apenas algumas adapta~des 
de sinaliza~tio visual, j6 que o surdo n8o possui debilita~ao fisica, sendo 
capaz de competir em grau de igualdade com atletas 1180 surdos. Em um 
jogo de futebol, por exemplo, no lugar do apito scio usadas bandeirinhas 
coloridas. 
No ano de 2002 foi realizada no Brasil, na cidade de Passo Fundo, Estado do 
Rio Grande do Sul, a 1" Olimpiada de Surdos do Brasil. Houve comoventes desfiles 
dos times de varias associaqbes de surdos brasileiras, hasteamento das bandeiras e 
Hino Nacional em lingua de sinais que marcaram a abertura dos jogos. 
A cada quatro anos 6 organizada a Olimpiada Mundial dos Surdos, com com- 
peticdes de jogos esportivos com muitos atletas surdos de varios paises. Na ultima 
olimpiada, no ano de 2007, na Australia, a dupla de v6lei de praia brasileira, 
os atletas surdos Alex Borges e Alexandre Couto, ficaram em quinto lugar. 
0 nadador surdo Terence Parkin, da h c a do Sul, conquistou a medalha de prata 
nos 200 metros nado peito em uma olimpiada internacional de ano 2000, competindo 
com outros atletas ouvintes. Seu treinador costumava ficar ao lado do nadador proximo 
ao bloco para fazer um sinal de saida para o mesmo. Isso antes da FINA autorizar a 
1 induso da luz, que e colocada especialmente pr6xima ao seu bloco na partida. 
1 Em eventos pdblicos como, por exemplo, nas palestras ou apresentasdes 
teatrais os sujeitos surdos nao ouvem os aplausos com as palmas das msos, que 
comovem aos sujeitos ouvintes pelo barulho forte e vibrante; plateias aplaudem para 
sujeitos surdos girando as m5os levantadas no ar, como expde Magnini (2007): 
Num determinado momento subi numa arquibancada e, olhando de cima, 
o que presenciei foi um mar de mtios se agitando ... Enttio me ocorreu 
que aquele espetaculo seria o equivalente ao barulho, se fosse uma festa 
de ouvintes. 
I' 
I"' 
As irnagens do outro sobre a cultura surda 0 s artefatos culturais do povo surdo 
4.6 Artefato cuituralt artes uisuais 
No artefato cultural artes visuais, os povos surdos fazem muitas criaqbes artisticas 
que sintetizam suas emoqbes, suas histdrias, suas subjetividades e a sua cultura. 
0 artista surdo cria a arte para que o mundo saiba o que pensa, para divulgar as 
crenps do povo surdo, para explorar novas formas de "olhar" e interpretar a cultura 
surda. Deste modo, corno assevera o soci6logo surdo Anderson: 'as pessoas surdas 
tamb6m acham a lingua de sinais, corno qualquer outra lingua, uma maneira pode- 
rosa de expandir sua criatividade e prazer artisticos. Teatros nacionais de surdos em 
v6rios paises fizeram programas de grande sucesso. Artistas surdos t&m conseguido 
mostrar linguagem de sinais em suas pinturas, ilustraq5es ou trabalhosesculturais. " 
(1989, p. 158) 
Tem muitos surdos artistas que fazem desenhos, pinturas, esculturas e outras 
manifestaqbes artisticas com a extensdo beleza, equilibria, harmonia e revoltas com 
muitas discriminaqbes sofridas pel0 povo surdo. Como exemplo, hB muitas pinturas 
e esculturas lindas que os artistas surdos produzem em lingua de sinais, cenas de 
opressbes ouvintistas e outros. 
Uma surda, Ana Luiza Caldas (2006, p. 116), defendeu mestrado expondo 
sua pesquisa que k voltada a analise das revelaqbes artisticas de surdos atravks de 
pinturas. Concluiu-se que os sujeitos surdos se identificam com pinturas com arte- 
fatos culturais do povo surdo e tambkm fazem comparaqbes de diferenqas culturais. 
Observe, abaixo, um trecho da dissertaqdo a respeito de duas conversas entre a 
professora surda e as crianqas surdas: 
Na decada de 1950, os alunos surdos praticando esportes (Acervo INES) 
Professora: Eu quero que voc& sinalize o que voc& entende sobre o que 
estir na pintura? 
Vinicius: ela k surda? 
Professora: Ndo sei? Voc& tern corno ver se ela k surda? 
Vinicius: Ndo sei? E u acho que ela k ouvinte ... Surda o u ouvinte? ... 
0 que ela serir? E u ndo sei? (Vinicius obseruando Mona Lisa). 
Alessandra: Tern alguns anirnais que sdo surdos e outros ouvintes, mas 
eles est6o juntos. 
Professora: voc& acha que tern anirnais surdos e ouvintes? 
Alessandra: tern. Antigarnente e u tinha urn cachorro que era surdo. Ele 
ndo falava, ficaua parado. 
Professora: E corno voc& sabia que ele era surdo? 
Revista de uma associa~do de surdos do ano de 1957 (Acervo INES) 
As imagens do outro sobre a cultura surda 0s artefatos culturais do povo surdo 
Alessandra: Ele ouvia um pouquinho. Eu assobiava para ele: Vamos 
brincar!E eleficava parado, mas o outro cachorro era ouvinte. (Alessandra 
observando a Njamala) 
No teatro, a express20 atrav6s das feisdes, corpo e lingua de sinais 6 cons- 
tantemente praticada pelos sujeitos surdos, por isto eles t&m grande talent0 para 
expressar as suas identidades culturais atrav6s de desenhos no ar: as poesias, as 
narrativas e as contasdes das historias. Existem muitos DVDs filmados de poetas 
surdos apresentando suas performances comoventes em lingua de sinais. 
Nas comunidades surdas, muitos sujeitos surdos se destacaram na sociedade, 
assim como Marlee Matlin, atriz surda americana que ganhou o Oscar de melhor atrii 
em filme "Filhos de Silkncio", no ano de 1987, que foi uma vitoria delirante para o 
povo surdo. E Emanuelle Laborit, atrii surda francesa, que al6m de interpretar no 
teatro e no cinema, tambkm escreveu um limo com sucesso estonteante, traduzido 
em v6rias linguas: "0 v60 de gaivota". 
No Brasil tem muitos atores surdos, entre eles, o pesquisador Nelson Pimenta, 
que estudou no National Theatre of the Deaf em Estados Unidos e, atualmente, 
esta concluindo a gradua@o de cinema. Ele possui uma empresa "LSB Videovz3 
(Pintura de urna surda que expBs na exposicdo de arte 
no 4 Seminario Paranaense dos Surdos12007) 
h t t p : / / w . Isbvideo. corn. br/ 
r 
que produz limos, jogos didaticos e DVDs de lingua de sinais com muitas histdrias 
infantis, poesias, dramatiiasdes na cultura surda. 
Outro ator, mimico e clown, o surdo Rimar Romano, que tem trks gerasdes de 
famnia surda, apresenta publicamente suas performances como mimica e teatro-fisico 
junto com os atores ouvintes. Ele e a irm2 fundaram uma Companhia de Teatro 
chamada "Cia. Arte e Si lenci~",~~ Rimar faz apresentasdes teatral para criansas 
surdas e ouvintes em escolas, um dos objetivos mais importante das apresentasdes 
dele 6 divulgar a Libras e cultura surda, como depde Erelisa Vieira (2007): 
[...I o Rimar tem algumasparticularidades, e especialidades, no meu ponto 
de vista ele consegue inserir a cukura surda em sua arte em teatro, Rimar 
coloca em meio a sua dramatizag60, piadas referentes ao campo visual, 
por exemplo, "desculpe, sou surdo ndo vi" fazendo a platkia como um 
todo cair na risada [. . .Iz5 , 
0 ator surdo paulista, atualmente com: 70 anos, o Reinaldo Po10 atua profis- 
sionalmente mais de 50 anos como palhaso fazendo shows em clube de Palmeira, 
ele faz performances divertidas de tal mod0 como nas patina~des. 
Cito um depoimento de um poeta, comediante e dan~arino surdo de cidade 
Caldas Novas - GO, ele criou varios grupos de teatro para ensinar aos outros su- 
jeitos surdos: 
Meu apelido 6 Paul60 Praxedes, atuo ha 14 anos de tempo no teatro com 
surdos. Na 6poca eu estaua preocupado porque os surdos tinham muitos 
problemas na vida social e foi quando eu pensei que queria formar um 
grupo teatral para ensinar a express60 facial e corporal a eles. Alguns 
surdos n6o sabiam ler em portugub os textos sobre cenas e diblogos. 
Ent6o eu, como professor surdo explicava para eles em lingua de sinais 
para que eles entendessem bem. Quando eles ja aprofundaram mais os 
conhecimentos sobre o teatro e foi enttio que criei varios grupos de teatros, 
dentre eles: "Express60 do Sil&ncio" (voltadas para criangas surdas), "M6os 
do Sil&ncio" (pastoral dos surdos da igreja catblica) e "Gesto do Coragdo" 
(para adolescentes e adultos surdos)). 0 meu corag6o esta descompassado 
por causa do meu grande sonho: realizar o primeiro Encontro Nacional 
de Teatro dos Surdos. 26 
24 h t t p : / / w . ciartesilencio. com/index. php. 
25 Fonte: http://www. ciartesilencio. com/static. php?page=depoirnentos. 
26 Agradefo a Paulo Praxedes pela contribui@o do seu depoirnento para este livro. / DepoJlrnento transcrito na integra, 
sern revisbes. I' 
As imagens do outro sobre a cultura surda 0s artefatos culturais do povo surdo 
E tem muitos outros comediantes e artistas, tais como Silas Queirbz, Sandro 
dos Santos Pereira, Heloir Montanher, Celso Badin, Paulo Andrk Bulhdes, Cacau , 
MourSo e assim por adiante. 
A mtisica, por exemplo, nao faz parte de cultura surda, os sujeitos surdos po- 
dem e tem o direito de conhece-la como informaqfio e cdmo relaqfio inter~ultural.~~ 
S5o raros os sujeitos surdos que entendem e gostam de musica e isto tambkm deve 
ser res~eitado. 
(Ator surdo Rimar Romano fazendo sua apresentagio 
para as criangas surdas e ouvintes) 
(Surdos apresentando teatro em 4P Seminario Paranaense 
dos Surdos sob a coordenagdo d e ator Nelson Pimenta) 
Respeitando a cultura surda, substituindo as mtisicas ouvintizadas, surgem ar- 
tistas surdos em diferentes contextos como: mtisicas-sem-~om,~~ danqarinos, atores, 
poetas, pintores, m6gicos, escultores, contadores de hist6rias e outros. 
[...I tradicdo dos contadores d e historias que passam narracdes e, mais 
importante, a tradi~do da arte d e contar historias e m si mesma para gera- 
~ 6 e s mais jouens. Esta auto-educacdo dentro dessas institui~des tem sido 
pouco estudada, mas ela sugere caminhos importantes d e regenera~do 
culturais previamente ignorados. (WRIGLEY, 1996, p. 25) 
I 
27 Segundo Nanni: I...] intercultural ngo se reduz a uma simples rela@o de conhecimento: kata-se da interaGo enke 
sujeitos. lsto significa uma rela@o de troca e de reciprocidade enke pessoas vivas, com rostos e nomes prbprios, 
I 
reconhecendo reciprocamente seus direitos e sua dignidade. Uma relaeo que vai alQm da dimensao individual dos 
sujeitos e envolve suas respectivas identidades culturais diferentes. (apud FLEURI 2001, p. 118) 1 
28 Coreografias de danps em lingua de sinais sem mlisica ... Bom exemplo disto pode ser visto na abertura de video 1 
franc&: "0 Mundo de Surdos". 
4. 'I Artefato cultural8 politica 
Outro artefato cultural influente das comunidades surdas k a politica, que consiste 
em diversos movimentos e lutas do povo surdo pelos seus direitos. -, 
Historicamente o povo surdo brasileiro transmitiu muitas tradiqdes em suas 
organizaqdes das comunidades surdas, o espaqo cultural mais conhecido de todos 
s%o as associa~des de surdos. 
No inicio as associaqdes de surdos tinham exclusivamente o objetivo de natureza 
social devido ao baixo padr%o de vida no skculoXVIII, os sujeitos surdos tinham o 
prop6sito de ajudar uns aos outros em caso de doenqa, morte e desemprego e, alkm 
disso, as associaqdes se propunham a fornecer informaqdes e incentivos atravks de 
conferencias e entretenimentos relevantes. (WIDEL, 1992) 
Atualmente, um dos maiores objetivo das associaqdes dos surdos 6 a politica, 
nestas organizaqdes retinem-se sujeitos surdos em reunides e assemblkias para 
5 
As imagens d o outro sobre a cultura surda 0 s artefatos culturais d o povo surdo 
compartilharem dos mesmos interesses em comuns, lutando pelos seus direitos 
judiciais e da cidadania, em uma determinada localidade, geralmente em uma sede 
I 
prbpria, alugada, ou cedida pel0 Governo. 
I 
Cito abaixo, dentre muitos, alguns lideres e militantes surdos mais conhecidos 
do Brasil que representam importante espaco de articulaG50 cultural politica do 
povo surdo, que contribuiram para a hist6ria dos surdos: 
[...I Ana Regina e Souza Campello, Surda de nascenca, maranhense, ! 
forrnada em Biblioteconomia e Documentacdo e Pedagogia, atualmente 
esth fazendo mestrado na hrea de lingufstica e doutorado na 6rea de 
educaedo e m UFSC. A Ana foi uma militante politica importante no 
Brasil, ela desafiou e participou e m movirnentos na hrea dos surdos 
hh mais de 30 anos e juntamente com outros surdos lideres criou a 
FENEIS (Federacdo Nacional de Educaedo e Integracdo de Surdos), uma 
conceituada institui@o que defende os direitos dos surdos e sua cidadania. 1 
(STROBEL, 2007, p. 22) 
A Federa~go Nacional de EducaGSo de Surdos 1 FENEIS e uma entidade 
, 
filantr6pica, sem fins lucrativos com finalidade socio-cultural, assistencial e edu- ! 
cacional que tem por objetivo a defesa e a luta dos direitos da comunidade surda 
! brasileira. E filiada a Federa~go Mundial dos Surdos / WDF; abaixo vai um trecho , 
I 
da entrevista dada por um dos fundadores surdos, Ant6nio Campos de Abreu, a I 
revista Sentidos: 
Minha primeira experi&ncia foi como diretor da Associacdo dos Surdos 
de Minas Gerais, onde atuei por 32 anos. Depois fundei a Federaqio 
Mineira Desportiva de Surdos e a Confederacdo Brasileira de Desportivo 
dos Surdos, trabalhando como volunthrio. Mais tarde m e uni a um grupo 
t de surdos para fundar a Federacdo Nacional das Associac6es de Surdos. 
Sernpre tive o objetivo de estimular a integracdo entre surdos e ouvintes, I 
valorizar a cultura do surdo, o uso da Libras e a prhtica de esportes. Eve 
a oportunidade de fazer um curso de lideranca nos Estados Unidos, na 
Uniuersidade dos Surdos. E sou membro da Federacdo Mundial de Surdos. 
A vitoria por tudo que j6 conquistamos na Feneis ndo e s6 minha. Eu sou 
! 
muito agradecido a comunidade dos surdos. (GISELE, 2007) 
Ja explicado antes, todavia repito aqui, a outra organizaqgo do artefato cultural 
politica de extrema importgncia para o povo surdo e a ConfederaGBo Brasileira de 
Desportos dos Surdos / CBDS, a mesma organiza e regulamenta praticas de muitas 
(Uma apresentag.30 teatral do comediante 
surdo paranaense Heloir Montanher) 
modalidades de esportes de povo surdos, tambem promove competi~6es entre as 
associa~6es de surdos e outros. 
A pesquisadora Gladis Perlin incentivou a abertura do movimento de Mulheres 
Surdas em muitos estados brasileiros, foi feito o "I Encontro Latino Americana 
de Mulheres Surdas Lideres" no ano de 2004, na cidade de Belo Horizonte, no 
qua1 estiveram presentes as militantes mulheres surdas representando o Brasil, 
Chile, Paraguai e Uruguai. Este encontro teve como objetivo principal debater 
a realidade social da mulher surda na America Latina com 8nfase na sadde, 
violgncia, educa~go, sexualidade, politica, direitos, cidadania, e participaqgo. 
0 intuit0 principal foi o de desencadear movimentos pela mulher surda nos 
paises latino-americanos. 
0 povo surdo luta pela pedagogia surda que parte de um 'blhar" diferente 
direcionado em uma filosofia para educaq&o cultural. Em que a educaqgo da- 
se no momento em que o surdo 4 colocado em contato com sua diferen~a para 
que acontesa a subjetiva$io e as trocas culturais. Fazem refergncia a respeito 
Schmitt, Strobe1 e Vilhalva (2007, p. 28): 
Foi atravh do esboco sobre as praticas discursivas de diversos povos 
culturais assim como o pouo negro, o povo indio, o povo alemdo, o povo 
surdo e outros, d que foi possivel desvendar o quanto hh uma forte ligacdo 
com as rela~6es de transmiss60 de saberes, conhecimentos e assim surgiu 
a pedagogia cultural. 
Este artefato politico abre os espagos dentro de uma educa@o diferente, por 
exemplo: o professor surdo entra em sala de aula e tenta aplicar a teoria proposta 
deparando-se com as diferen~as de identidades culturais dos alunos surdos. EntZio, 
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As irnagens do outro sobre a cultura surda 0s artefatos culturais do povo surdo 
0 dia do Surdo tem u m significado simb6lico muifo importante. Ele 
representa o reconhecimento d e todo u m movimento que teue inicio h6 
poucos anos no Brasil quando o Surdo passou a lutar pelo direito de ter 
sua lingua e sua cultura reconhecidas como uma lingua e uma cultura de 
u m grupo minoritbrio e nbo d e urn grupo de "deficientes". 
Com este artefato cultural politico, vamos refletir sobre as situasbes em que vive- 
mos e levantar desafios para n6s os membros das comunidades surdas, liderando os 
muitos movimentos, contribuirmos para as mudansas positivas das representas8es 
sociais acerca dos povos surdos! 
4.8 Artefato culturalc materiais 
Ha artefatos culturais materiais resultantes da transformas20 da natureza peio 
trabalho humano, e sua utilizas20 e condicionada pelo enleio do comportamento 
cultural dos povos surdos, que auxilia nas acessibilidades nas vidas cotidianas de 
sujeitos surdos, assim como os autores americanos alegam nocaso das criangas 
surdas com familias surdas: 
[...I 0 seu lar jh funciona como u m ambiente que conduz ao uso visual 
como o principal meio de aprendizagern e desenvolvimento. A casa fem 
a rede planejada para responder aos sinais ambientais oisualmente. Por 
exemplo; campainhas e telefones ncio tocam, mas acendem a luz, cada 
u m com seu padrbo. Pais surdos tern T l Y p a r a se comunicar ao telefone. 
(LANE; HOFFMEISTER; BAHAN, 1996, p. 25) 
0 TDD (Telephone Device for the Deaf) - um pouco maior que o telefone con- 
vencional, na parte de cima tem um encaixe de fone e embaixo dele tem um visor 
onde aparece escrito digitado e mais abaixo tem as teclas para digitar -, instrumentos 
luminosos como a campainha em casas e escolas de surdos, despertadores com 
vibradores, legendas closed-caption, baba sinaliradores etc. Cito exemplo de uma 
situasdo de uma m2e surda: 
[...I s6 sabia que ele estava chorando com o auxilio d e urn aparelho 
chamado "babh eletr6nican. 0 microfone ficava acima d o b e r ~ o e o 
sinalizador lurninosos, ligado por u m b n g o fio, ia comigo para todos os 
lugares. Enquanto estava no cozinha fazendo meus afazeres, ficaua de olho 
na l6mpada para saber se esth piscando. S e m problema! (STRNADOVA, 
2000, p. 139) 
Em 1964, tr&s inventores surdos, Robert Weitbrecht, Andrew Saks, e James 
Marsters inventaram o modem do TTY (0 TTY "Teletypewriter", um aparelho 
aue foi inventado por volta de 1910 para transmitir texto por linha telegrafica que 
permitiriam o povo surdo se comunicar atravks de telefone.) 
Robert Weitbrecht, um fisico surdo que durante toda a sua vida sempre de- 
monstrou seu interesse em Cigncias, especialmente em r6dios e telex. Formou-se 
em astronomia na universidade de California em Berkeley e tem trabalhado como 
fisico em instituto de pesquisa de Stanford. Ele era radioamador e usava RTTY 
(TTY tambem era usado por radioamadores, como maneira de transmitir texto por 
radio: RTTY- Radio Teletypewriter); ele queria se comunicar com seu amigo surdo 
o dentista James Marsters e, com isto, foi aperfeisoado o modem de TDD. 
Depois os outros inventores surdos, o negociante Andrew Sacks e o Jim Marsters 
juntaram-se com Weitbrecht. 0 Marsters para verificar se os circuitos de radio do 
teletipo poderiam ser adaptados para o uso sobre a linha de telefone e o Andrew 
Saks inventou as luzes de pisca-pisca e caracteres do telefone. 
Em 1974, a Universidade Gallaudet homenageou o Robert Weitbrecht com 
um titulo especial da ci&ncia pela sua iniciativa da invensgo de TDD. No Brasil o 
primeiro TDD foi trazido dos Estados Unidos por um pai que comprou para seus 
filhos surdos. 
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E, alem disso, ha a acessibilidade de sujeitos surdos em variados espasos, como 
em congressos, julgamentos, aulas, cursos, possibilitada por interpretes de lingua 
' U e sinais, tel2o e cartazes etc. 
Freeman, Carbin e Boese citam que a lingua de sinais est6 abrindo espaso 
na sociedade pela midia e com isto surgem mais interpretes de lingua de sinais 
e atores surdos em comerciais e programas de televisso: ''[,..I 0s noticicirios sdo 
As imagens do outro sobre a cultura surda 
A representag80 imaginaria sobre 
(Uma aula em video-conferencia do curso LetradLibras) 
interpretados, candidatos presidenciais aprendem alguns sinais, pessoas que usam 
sinais sio mostradas na teleuisio nos programas para os adultos e crian~as [...In. 
(1999, p. 221) 
14 
?menina a conuiuer em um mundo normal [. . .]" 
(TAKAHASHI, 1999, p. 3) 
0 que significa mundo normal? Talvez, a mais "sofrida" de todas as represen- 
ta~6es no decorrer da hist6ria dos surdos, e o de "modelar" os sujeitos surdos a 
partir das representas6es hegembnicas. Reflete Wrigley esta afirmasgo: "[ ...I para 
o oralista, convencionaliza~~o [...I tem o objetivo mais amplo: as crian~as surdas 
"passarZo" por ouvintes, tornando-se assim "aceitaveis" como pessoas que parecem 
ouvir" (1996, p. 47) esta representasgo ouvintista ainda e feita atualmente, muitas 
vezes a sociedade ouvintista quer que os surdos sejam iicurados", direcionando-os 
para a ilusZo da esperansa de L'normaliar-se". 
Uma uez eu fui dar aula para urn grupo de profissionais em uma cidade do 
nordeste do Brasil; e uma psic6loga que trabalhaua muitos anos com os surdos e 
sabe a lingua de sinais me fez a pergunta: - Por que uocd n6o faz uma opera~do 
para ouvir? E respondi com outra pergunta: - Para que? Ela me respondeu: -Para 
33 Peguei este depoimento em uma comunidade de Orkut: urna Disponivel em: da net onde permite as pessoas fazer 
amizades, participar em comunidades, fazer comentarios, deixar recados e outros, um espkcie ponto de encontro on- 
line com um ambiente de confraterniza@o. 
As imagens do outro sobre a cultura surda 
uoc& ter urna uida normal! Fiquei refletindo: urna psicdloga que trabalha com os 
surdos h6 muito tempo me via como "anormal", o que tenho de anormal? Sera 
que ouuir 6 normal e nbo ouuir 6 anormal? Como urna psicologa bilingiie pode 
trabalhar com os surdos se os estereotipa de "anormais"? 
A sociedade muitas vezes afirma que o povo surdo tem sua cultura, mas nho 
a conhece. Comentam e afirmam que como na sociedade a maioria dos sujeitos 6 
ouvinte, o sujeito surdo tem que viver e submeter-se a essa maioria que o rodeia. 
Por exemplo, em muitas escolas de surdos os profissionais que trabalham la sho 
ouvintes e tem um "mundo" diferente dos surdos. De acordo com eles, a cultura 
ouvinte 6 superior e vgem seus alunos surdos de forma caridosa e paternalista, que 
necessitam de auxilio para se desenvolver, pois sozinhos nho vho conseguir ou terho 
mais dificuldades. Cito McCleary (2003, p. 3): 
[...I quando o surdo diz, "Eu tenho orgulho de ser surdo", ele choca e 
confunde o ouvinte. 0 ouvinte ndo gosta de ouvir isso, porque comeGa 
a colocar em questdo a certeza que o ouuinte tem sobre o mundo. Ele 
ndo pode mais achar que o surdo e um "coitado", porque um coitado 
ndo tem orgulho de si mesmo. 0 ouuinte fica com medo. 0 mundo do 
ouuinte comeGa a ficar menos seguro, mais complexo. 0 ouvinte ndo 
tem explica~do para o orgulho de o surdo ser surdo. Como e possiuel 
urna pessoa ter orgulho de ser surdo? Para o ouvinte, d um absurdo. 
E um paradoxo. 
Esta cita~ho acima complementa o que Skliar (1998, p. 28) explica sobre pro- 
blema das representa~6es sociais em considerasgo da cultura surda: "[. ..] porque se 
acha que nbo ha nada fora de seu normal, de sua propria auto-referencia cultural; 
nesseplano, a cultura surda seria um desuio, urna anomalia, o espaGo limitado onde 
se produzem atiuidades irreleuantes. " 
Em conseqiigncia disso, esses sujeitos surdos que ngo se reconhecem na cultura 
surda acabam planejando suas ashes para cada situa~ho de mod0 a ser aceito pela 
sociedade ouvinte, defendendo a lingua oral como mais vantajosa do que a lingua 
de sinais para a inclusho na vida social. 
Afirmar que 6 apenas urna quest50 de escolha para o sujeito surdo saber utilizar 
a fala 6 urna visho simplista e inggnua da realidade. Nho podemos esquecer que 
historicamente os sujeitos surdos sempre tiveram estere6tipos sociais como seres 
A representacio imaginaria sobre a cultura surda 
inferiores aos sujeitos ouvintes, como seres "deficientes" que precisavam se adequar, 
caminhar para a "normalidade". Para que isto acontep, eles precisavam se oralizar. 
Isto marcou por muitos anos ao povo surdo. 
0 sujeito surdo que tem vergonha de usar a lingua de sinais nho se reconhece 
como surdo e sim como um deficiente, ou seja, nho conseguiu se libertar da visho 
de surdez que a sociedade atribui. 
0 s sinais podem ser agressivos, diplomciticos, pobticos, filos6ficos, mate- 
mciticos: tudo pode ser express0 por meio de sinais, sem perda nenhuma 
de conteiido. Para aprender a falar, um surdo precisa de horas diarias de 
trabalho cirduo, enquanto o conhecimento dos sinais ocorre de forma 
esponthea, quase imediata. 0 s surdos prk-linguais, ou seja, que nunca 
ouviram ou perderam a audi~do muito cedo, ndo invejam os ouuintes e 
ndo se consideram deficientes. Recuso-me a ser considerada exceptional, 
deficiente. Ndo sou. Sou surda. Para mim, a lingua de sinais corresponde 
a minha voz, meus olhos sdo meus ouvidos. Sinceramente nada me falta. 
E a sociedade que me torna excep-cional. (LABORRIT, 2007)34 
Com a oficialiac;ho da Libras, em abril de 2002, inicia-se a abertura de novos 
espasos para o povo surdo, mas ainda h6 rixas por parte de alguns profissionais que 
trabalham corn sujeitos surdos e dos sujeitos surdos oralizados. Para estes profis- 
sionais oralistas, a lingua de sinais 6 limitada e primitiva, nho sendo aconselhavel 
seu uso, bem como acreditam que a mesma atrapalha no treinamento da fala e na 
integraqho dos sujeitos surdos a sociedade. 
Skliar (1998, p. 28) j6 advertia sobre essas pontua~bes negativas da cultura 
surda, ele pronuncia: 
quando se trata de refletir sobre o fato de que nessa comunidade (de surdos) 
surgem - ou podem surgir - processos culturais especfficos, d comum a 
rejei~do a iddia da "cultura surda", trazendo como argument0 a concep@io 
da cultura universal, a cultura monolitica. [...I A cultura surda ndo d urna 
imagem uelada de uma hipotktica cultura ouvinte. Ndo d o seu rev&. Ndo 
6 uma cultura patologica. 
A musica, por exemplo, nho faz parte de cultura surda. No entanto, embora 
muitas escolas para surdos reconhe~am o povo surdo como grupo cultural e lingii- 
34 Fonte: 
As imagens do outro sobre a cultura surda 
istico, obrigam as crian~as e adultos surdos a fazerem as apresenta~bes de dan~as, 
corais e balks, que s5o pr6prias da cultura ouvinte, o que continua ocupando o 
centro de sua preocupaS50. Melodias e ritmos sonoros harmoniosos n5o foram 
criados pela cultura surda e sim pelos grupos ouvintes. Assim, ela se insere na 
cultura ouvintista. 
Na dbcada de anos 60, quando surgiu a Comunica@o trouxe o reco- 
nhecimento e valoriza@o de lingua de sinais que foi muito oprimida e marginalizada 
por mais de 100 anos, ent5o surgiu em muitas escolas os corais de lingua de sinais, 
que n5o condizem com a express50 da arte surda: 
[. . .] onde a lingua de sinais era utilizada com a musicalidade corno em ballet 
das mdos, pordm com puro portugub ~inalizado,~~ uma protolinguagem 
que ndo 6 nem lingua de sinais pura [...I pois, na realidade, os surdos ndo 
passauam de uentriloquos de maestros ouuintes, sinalizando musicas de 
cultura ouvinte que nem eles mesmos "escutavam", ficando totalmente 
presos ao maestro ouvinte, com os olhos fiwos, apenas imitando e nem 
podendo olhar o publico a que se dirigiam. (ARRIENS, 2003, p. 23) 
Continua Arriens (2003, p. 22): 
[...I nosso nouo milenio, com o ressurgimento do bilingiiismo, ndo se 
fala mais em "Corais Surdos". Porque? Basta visitarmos associa~6es de 
surdos, os unicos locais onde verdadeiramente se fomentam as "culturas 
surdas", e n60 veremos coros de surdos ensaiando e, tampouco, maestros 
partituras, arranjos instrumentais, vocais etc. , pois isso t algo realmente 
pertencente a cultura ouvinte. 
Na maioria de casos, mesmo em corais de lingua de sinais - onde muitos sujeitos 
surdos nem entendiam a musica que produziam - os seus passos, dan~as ou sinais 
s5o controladas por pessoas ouvintes, pois eram realmente musicas que sbo apre- 
ciadas e emocionavam aos ouvidos do pliblico ouvinte, cito exemplos abaixo:Jovens surdas dan~am, [...I, para homenagear os professores pelo seu dia. 
[...I fica evidente um certo descompasso. Quatro das alunas voltam seus 
olharespara um mesmo local, o que me faz intuir que elas buscam orien- 
35 Cornunica@o Total: filosofia de trabalho corn os surdos onde utilizavarn de todos os recursos disponiveis para 
estabelecer urn contato efetivo corn a pessoa surda, dentre eles corno o oral, treinarnento auditivo, desenhos, escrita 
e usavarn rnuito tarnbern o birnodalisrno, isto 6, portuguC sinalido. 
36 Portugues Sinalizado: e o uso de vocabularies de sinais na eshtura de lingua portuguesa, portanto nso e lingua de 
sinais, porque a mesma usa a grarnAtitica pr6pria e diferente de lingua portuguesa. 
A representaglo imaginaria sobre a cultura surda 
t a~do de a@uem, prouavelmente uma professora ouvinte que n6o aparece 
no enquadramento fotogrdfico, mas que, pela necessidade surda de te-la 
junto de si, ndo ocupa o sil&ncio da imagem. Ela d quase uma presenGa 
diluida em quem esta se apresentando. (LOPES, 2004, p. 47) 
Tr& jovens apresentam-se em urn palco que se bcaliza na escola de ou- 
vintes. Elas estdo vestidas com malhas e demonstram uma sincronia em 
seus passos. Fica visivel na fotografia o olhar delas em busca da orienta~do 
sobre como fazer e qua1 passo dar. A dependsncia da orienta~do ouvinte 
vai desde a sinaliza~do do inicio da musica e troca de possos at6 a indica- 
qdo de quando a musica termina para que as bailarinas parem de dan~ar. 
(LOPES, 2004. p. 47) 
Refletindo, vemos que hoje em dia ainda existem muitas praticas ouvintistas e 
escolas usando mBtodos ultrapassados, n5o se preocupando em se atualizar, parti- 
cipando em congresses e cursos. Ou ainda, iniciam dizendo serem a favor da lingua 
de sinais e, aos poucos, sem ningukm perceber v5o deixando-a de lado, assim corno 
afirma Felipe (2003): "Aceita-seprogramas bilingues transithias, que iniciando com 
a libras, gradualmente substituird essa lingua pela lingua portuguesa". 
E porque os sujeitos ouvintes n5o conhecem ou n5o compreendem realmente 
a cultura surda ou nbo aceitam a cultura surda? Na realidade, o problema nbo szo 
os sujeitos surdos, n5o s5o as identidades surdas, nem a lingua de sinais e sim as 
representa~ees estereotipadas e hegembnicas sobre a cultura surda. 
A cultura surda e a lingua de sinais no decorrer da hist6ria de surdos sofreram 
verdadeiras persegui~bes, mas as representa~bes sociais estgo passando por uma 
nova mudan~a para o povo surdo que n5o temem esconder suas identidades cul- 
turais. 0 s sujeitos surdos sabem do que querem bem corno evidencia McCleary 
(2003, p. 2): 
[...I diga para um ouvinte: "Eu tenho orgulho de usar a lingua de sinais 
brasileira". Qual pode ser a rea~do dele? Ele pode pensar, "Sim, claro! 
0 s gestos sdo muito bonitos e expressivos!" Mas ndo 6 por isso que voc& 
tem orgulho! Voc& tem orgulho porque quando voc& usa a lingua de sinais, 
voc& pode ser surdo e feliz ao mesmo tempo. 
0 s povos surdos est5o cada vez mais motivados pela valoriza~5o de suas "di- 
ferenps" e assim respiram com mais orgulho e riqueza da suas condi~6es culturais! 
Menciono um fragment0 da dissertaqiio do pesquisador surdo Miranda (2001, p. 8): 
j' 
As imagens do outro sobre a cultura surda 
Sou surdo! 0 meu jeito de ser j6 marca a diferensa! Neste ponto deuia 
comesar a dissertasdo. Ser surdo, viver nas diferentes comunidades dos 
surdos, conhecer a cultura, a lingua, a histbria e a representas80 que atua 
simbolicamente distinguindo a n& surdos e b comunidade surda 6 uma 
rnarcas8opat-a sustentar o tema em quest8o. A ideia de comunidadesurda 
contestada e continuamente sendo reconstituida, particularmente diante da 
diferenp dejendida porpoucos surdos e ouvintes de extrema esquerda, se 
apresenta mais como uma ameasa b representas80 do outro surdo. 
Historia Cultural: novas reflexties 
sobre a historia dos surdos 
"N6o apenas o sujeito enraiza-se na histbria, mas o prbprio conceit0 de 
sujeito 6 uma invenf$io historicamente determinada" 
(Veiga-Neto) 
HisMria de surdos foi e ainda 6 produzida, com especial atensgo, para as tradi- 
qbes inerentes aos demais autores. A hist6ria dos surdos surgiu elogiando professores 
ouvintes pela iniciativa de trabalhos com os surdos, pela evolus5o da medicina para 
a "cura" da surdez, pelas diversas metodologias criadas pelos ouvintes na educasgo 
dos sujeitos surdos. 
A maioria dos registros historicos foi escrita atravds de metanarrativa~~~ ouvintes, 
depoimentos de profissionais que trabalharam corn os sujeitos surdos, fatos viven- 
ciados por eles, avansos tecnologicos e observaqbes de familiares e amigos ouvintes, 
tornando a historia de surdos em uma visgo critica, isto e, a historia de surdos na 
visa0 de sujeitos ouvintes. Assim como reflete Wrigley (1996, p. 38): 
Pintar psicohistorias de grandes homens lutando para obter um lugar na 
historia das civilizasdes dos que ouvem tern pouco ou nada a ver com 
representar as circunstincias histbricas das pessoas Surdas vivendo a 
margem daquelas sociedades que ouvem. 
37 Metanarrativas: segundo Silva (2000) e "[ ...I qualquer sistema te6rico ou filosofico corn pretensdes de fornecer 
descrigdes ou explicafBes abrangentes e totalizandes do mundo ou da vida social. A mesma coisa que "grande 
narrativa" ou "narrativa mestra". (p. 78) 
As imagens do outro sobre a cultura surda 
Aqui apresento urna nova forma de se abordar os epis6dios historicos conhecidos 
, como Hist6ria Cultural dos Surdos. A escolha se justifica, urna vez que, dos novos 
modelos historiograficos, 6 0 , justamente as hist6rias culturais, que mais trazem 
novos ares na produs50 da hist6ria real dos surdos. 
0 que seria hist6ria cultural dos surdos? Sera que a evolus5o da medicina para 
curar a surdez e diversas metodologias criadas por professores ouvintes n5o s5o 
reais? Quero ilustrar aqui que a hist6ria authtica dos surdos n5o 6 mais urna mera 
hist6ria de surdos no pensamento critico, mas, sim, enxergar a cultura surda como 
um conjunto de significados e costumes partilhados e construidos pel0 povo surdo, 
como exemplifica Burke (2005, p. 86): 
[...I os estudos sobre a historia das viagens muitas vezes focalizam as 
maneiras estereotipadas pela qual urna cultura ndo familiar k percebida e 
descrita e o 'blhar" do viajante, diferenciando o olharimperial, o feminino, 
o pitoresco e outros tipos. hde-se mostrar que alguns viajantes haviam 
lido sobre o pais antes de nele porem os p&, e, ao chegar, viram o que 
haviam aprendido a esperar. 
A historia cultural dos surdos quase nunca nos 4 exposta, visto que tal fato 
! 
5 
seria urna ligas5o respeitavel para a legitimag50 do modelo cultural do ser surdo. A 
hist6ria cultural est6 trazendo urna nova mudanga na vis5o da hist6ria dos surdos. 
Segundo Pesavento (2005, p. 15): 
[...I Ndo se trata de fazer urna Historia do Pensamento ou de urna histo- 
ria Intelectual, ou ainda mesmo de pensar urna Historia da Cultura nos 
uelhos mold es... [...I Trata-se, antes de tudo, de pensar a cultura como 
um conjunto de significados partilhados e construidos pelos homens para 
explicar o mundo. 
Pois, na verdade, a hist6ria dos surdos em padr6es tradicionais n5o produz 
a hist6ria legitima dos povos surdos, que seriam localizadas nos discursos das 
associa-g6es de surdos, de professores surdos, de sujeitos surdos bem-sucedidos, 
de sujeitos surdos lideres, da pedagogia surda, de movimentos politicos dos povos 
surdos e outros. 
A cultura surda produz um conjunto de perspectivas que, em geral, instituem ao 
povo surdo como fonte de 6xtase. A construqiio das identidades surdas que seriam 
o resultado de urna produg50 das representas6es impostas por aqueles que t6m 
Historia Cultural: novas reflexdes sobre a historia dos surdos 
poder de classificar e de nomear subverte a ordem. A definisgo pode ser submetida 
ou resistente, assim como exp6em os diferentes olhares dos profissionais da area de 
saride, educacional e da sociedade,como declara Miranda (2001, p. 22): 
Se a comunidade surda 6, primeiramente, ligada por urna representa- 
 do da identifica~do, tem, conseqiientemente, uma'lingua que influi nu 
diferen~a essencial. Como podemos ver, a politica de significagao opera 
como a necessidade de patria cultural com poder de identificagdo para 
auto-identificar-se, auto-narrar-se ... ela tem razdo de ser e existir. 
0 s defensores da lingua de sinais para os povos surdos asseguram que e na 
posse desta lingua que o sujeito surdo construira a identidade surda, ja que ele 
n5o 4 sujeito ouvinte. A maioria das narrativas tem como base a ideia de que a 
identidade surda esta relacionada a urna quest50 de uso da lingua. 
Mas o que ocorre verdadeiramente 6 que, no encontro do surdo com outro 
surdo que tambdm usa a lingua de sinais se faz brotar novas probabilidades de 
subjetividades, de compartilhar a cultura, de aquisis50 de conhecimentos, que 
n5o s5o plausiveis por meio da lingua oral e da cultura ouvinte. Nota-se que dessa 
forma a identidade esta relacionada tantoaos discursos produzidos quanto ?I natu- 
reza das relas6es sociais, isto 4 pode ocorrer nas fronteira~~~ identificatorias entre o 
pr6prio sujeito surdo e o sujeito ouvinte, quanto obtBm a consideras50 dos demais 
membros do povo surdo na comunidade na qual pertence. 0 pesquisador surdo 
Miranda (2001, p. 23), adverte no que refere ?I identidade surda: "Ela 4 ameasada 
constantemente pelo 'butro". Este outro pode se referir aos surdos que optaram 
pela representas50 da identidade ouvinte. Esta politica de representas50 geralmente 
tera urna incid6ncia negativa" . 
Muitas teorias escritas explanam que os povos surdos t6m tendhcia a formar 
guetos surdos e n5o a comunidade surda. Isto sugere aquilo que o soci6logo america- 
no surdo Anderson (1989) comenta sobre este esteredtipo aplicado As comunidades 
surdas, a insinuaggo praticada no termo gueto surdo 6 sempre revidado quando 
tentamos deliberar a importancia da comunidade surda. 
38 Fronteiras: "Entendemos as identidades essenciais, ou ainda um essencialismo estratkgico de que fala Bhabha como 
constantes do centro de um disco elastic0 em torno do qual existem as fronteiras, nesse sentido 'contornos de fronteiras'. 
Andar na fronteira equivale ao hibridismo". (PERLIN; MIRANDA, 2003, p. 224) 
I - 
As imagens do outro sobre a cultura surda 
Recentemente houve uma virada da historia de surdos na visgo critica para a 
histbria cultural. Este mod0 envolvente na historia cultural de surdos resultou em 
um certo abandon0 dos artigos teoricos tradicionais, para entgo ter mais valorizagho 
de povos surdos, em diversas comunidades surdas e periodos especificos. 
Como resultado dessa "virada cultural", os historiadores abandonaram 
os esquemas te6ricos generalizantes para s e concentrar sobre os valores 
de grupos particulares, em locais e periodos espec$icos. Nesse context0 
surgiram os trabalhos sobre ggnero, minorias Ctnicas e religiosas, h6bitos 
e costumes. (BURKE, 2005) 
A cultura surda passou a ganhar espago nas teorias de historia, assim como 
surgiram constantes adaptagbes de historia legitima do povo surdo para os textos 
escritos, os lan~amentos de livros com temas nunca antes imaginados, como e o 
caso dos artigos de muitos autores surdos, como os ja citados em um dos capitulos 
anteriores deste mesmo livro, sobre os artefatos culturais da literatura surda. 
Como vemos, com o passar do tempo, os povos surdos tiveram a necessidade de 
registrar suas atuagbes do cotidiano, como as conquistas, lingua de sinais, rituais etc. 
que contribuiram comsuas historias num movimento de resgate de seus ideais. 
Estes artigos que contern historias culturais versam sobre o povo surdo e exem- 
plificam as mudangas. Com a historia cultural a dimensgo cultural ganhou novos 
contornos na historia dos surdos. 0 mod0 de subjetividade e de identidades culturais 
de povos surdos no correr da historia tornou-se, portanto, tambdm uma historia de 
conflitos, de lutas contra as praticas ouvintistas, das alteridades e das representagbes 
diferenciadas. Assim como cita Wrigley (1996, p. 11): 
[...I a declara~lio de uma identidade "Ctnica" distinta que vem acom- 
panhando o ressurgimento da consci2ncia dos Surdos nas duas liltimas 
ddcadas f o r p a reavalia~lio data e de outras identidades excluidas das 
equa~bes do "normal". 
0 s povos surdos olham para tr6s e abrangem muitas praticas extasiantes dos 
pioneiros da cultura surda. A historia cultural dos surdos 4 longa e complexa, existe 
ha muitos de anos e contern indmeras formas de se comunicar, ou seja, atraves 
da lingua de sinais, desenhos, expressbes faciais, corporais, imagens visuais, artes, 
movimentos de lutas, criagbes, pedagogias ... 
Historia Cultural: novas reflexaes sobre a historia dos surdos 
Com este limo vamos refletir sobre a situaggo em que os povos surdos vivem e 
levantar desafios para nos, lideres das comunidades surdas, contribuir para mudanp 
da visgo historica dos surdos. 
Entgo o desafio para o povo surdo 6 construir uma nova historia cultural, com 
o reconhecimento e o respeito das diferengas, valorizag50 da lingua, a emancipagiio 
dos sujeitos surdos de todas as formas de opressgo ouvintistas e seu lime desenvol- 
vimento espontgneo de identidade cultural! 
In (ex)clusao dos surdos: pratica inter [cultural)? 
A inclusdo [...I B ser respeitado nus suas diferenps e ndo ter de submeter a 
uma cultura, a uma forma de aprender, a uma lingua que ndo B a sua. 
(G6rdia Vargas) 
A ponderaqso realiada sobre cultura surda e identidades surdas nos capitulos 
anteriores impde a necessidade de refletirmos sobre inclusiio ou exclusi50 dos surdos 
em vdrios espaqos sociais. Etas discussdes auxiliam na cornpreens50 de diferentes 
contextos da histdria de surdos em que se di5o as dibsporas, as lutas, os conflitos 
culturais e diferentes identidades analisando-os com base nos Estudos Surdos, onde 
podemos buscar a realidade cultural do nosso tempo. 
(Lingua de Sinais de Flausino de Gama / ano: 187:) 
I' 
Historia Cultural: novas reflexdes sobre a historia dos surdos 
Esta havendo uma politica em rumo apelidada de "incl~sbo'~, a sociedade co- 
'1 
mesa a perceber a existsncia do povo surdo e procura se organizar para recebg-10s 
de forma adequada, e os proprios sujeitos surdos comesam a exigir seus espasos, 
sua representa~bo de diferensa cultural lingiiistica. 
A inclusao nbo ocorre somente nas escolas, pode ocorrer tamb6m nos restau- 
rantes, nos shoppings, nos trabalhos, nos 6rg5os pliblicos, nas lojas, nas igrejas e 
em outros ambientes de interasgo humana. 
Quando comentamos em "incluir", obviamente 6 porque tem sujeitos que estzo 
"excluidas" isto e, estbo fora. 
Ao longo dos s6culos na historia dos surdos, o poder ouvintista tendem a impor 
sua cultura ouvinte sobre os demais povos surdos debaixo de sua area de influgncia, 
resultando desta mescla os conflitos de representas6es e de identidades surdas. 
Durante muito tempo, devido ao process0 de imposisgo cultural ouvinte no 
povo surdo, vemos um acesso quase irrestrito a cultura surda, por causa de lutas 
de relasees de poderes em ambos os lados. Mas atualmente o povo surdo luta 
As imagens do outro sobre a cultura surda 
com garras e forsa por reconhecimento da representaqbo de diferen~a cultural e 
identidade surda. Silva (2004, p. 133) argumenta: 
"cultura como um campo de produedo de significados no qua1 os dife- 
rentes grupos sociais, situados em posiedes diferenciais de poder, lutam 
pela imposicdo de seus significados a sociedade mais ampla. A cultura 6, 
nessa concep~do, um campo contestado de significacdo ... (a cultura 6 um 
jogo de poder) ". 
Perlin (2004, p. 76), autora surda, afirma: "Percebe-se que o sujeito surdo 
esta descentrado de uma cultura e possui outra cultura. Percebe-se o surdo em seu 
deslocamento da cultura ouvinte ou cultura universal e emergente na problemdtica 
da diferen~a cultural prhpria". 
A crianqa surda fazsurda a partir do olhar do pr6prio surdo. 
Vou apresenta-la como o povo surdo, normalmente, faz. Karin Strobe1 6 sur- 
da. Seu sinal k a configurasdo de mdo K realiiada no espaso neutro h direita com 
movimento para cima para baixo acornpanhado de uma leve rotasso do pulso. 
K-A-R-I-N (soletrado usando o alfabeto manual) 15 o seu nome. 
Ela tem uma longa hist6ria nos movimentos surdos brasileiros. Na luta pel0 
reconhecimento da lingua de sinais, participou de varias mobilkas6es, de eventos 
de sensibilkasdo e de cargos estratkgicos para mudar o olhar do outro. 
No estado do Parana, foi professora em varios niveis educacionais. Atuou na 
forma@o de alunos surdos e na forma60 de profissionais da Area dos Estudos Surdos 
e ocupou posisks politicas. Em Santa Catarina, Karin Strobe1 iniciou sua carreira 
academics com pesquisas relacionadas com a hist6ria da educa60 de surdos. 
Professores, instrutores, intkrpretes de lingua de sinais e colegas passaram pela 
Karin Strobe1 para aprender sobre a cultura surda e sua lingua. Nestes anos todos 
de atuasso, Karin percebeu o quanto k importante ver o outro e perceber como o 
outro a percebe, enquanto surda. 
Assim, este livro se constitui ... A autora percebe que o ser surdo k algo estranho 
ao outro e por isso traz neste livro os artefatos que constituem este ser estranho 
ao ndo surdo. "Cultura surda", "identidade surda", "povo surdo", "comunidade 
surda", "lingua de sinais" sdo aspedos abordados a partir do olhar de uma surda 
que transita entre os mundos surdos e n5o-surdos. 
0 livro se organiza para desconstruir o estranhamento do outro e construir 
outros olhares sobre o ser surdo. Neste sentido, convida o leito~a entrar na jornada 
dos surdos. Com propriedade Karin Strobel pega o leitor pela m5o e faz perseguir 
as trilhas dos surdos de um jeito surdo. 
As imagens do outro sobre a cultura surda s5o descontruidas e a partir dos es- 
combros se traduz outras possibilidades de se ver o mundo dos surdos, ou melhor, 
o povo surdo. Toda o texto 6 situado historicamente, pois as imagens refletem os 
movimentos histbricos que envolveram os surdos. 
No capitulo 1, a autora discute teoricamente o conceito de cultura que 6 fun- 
damental para construir um outro oIhar sobre os surdos. A seguir, no capitulo 2, 
adentra a cultura surda propriamente dita. Inicia com uma provocagbo: os surdos 
t6m cultura? A seguir, no capitulo 3, Karin Strobel, traz outra questgo: povo surdo ou 
comunidade surda? A autora traz esta discuss50 que situa os surdos neste momento 
histbrico que vivemos neste mil6ni0, os surdos constituem um povo. No capitulo 
seguinte, a autora descreve os artefatos culturais deste povo. Parte das experi6ncias 
visuais, conversa sobre a lingua de sinais, uma lingua que tamb6m 6 uma experiencia 
visual, as familias, a literatura, o lazer, as artes, a politica e os materiais. Todos estes 
artefatos concebidos a partir do VER. 
No capitulo 5, Karin Strobe1 adentra o imaginario dos n8o surdos que flutua na 
sociedade brasileira, principalmente por parte dos ouvintes (n5o surdos). A seguir, 
no capitulo 6, a histbria cultural 4 trazida com o olhar na histbria dos surdos que 
chega neste momento em que temos a surdez inventada noutra perspectiva, a dos 
prbprios surdos. 0 imaginario toma outros entornos e ha rupturas com o imaginario 
social representando os surdos a partir da faIta. 0 s surdos s5o reinventados a partir 
dos prbprios surdos construindo outra histbria a partir da cultura. No capitulo 7, 
a autora, ent50, traz a discuss50 da inclus50, algo que permeia as representagees 
imaginarias do ser surdo. Enfim, no Gltimo capitulo, Karin apresenta caminhos para 
adentrar e compreender a cultura surda. A compreensbo parte do reconhecimento 
da diferenga. 
Nesta jornada trazida por Karin Strobel, os leitores chegam ao fim para construir 
um outro olhar sobre os surdos. 0 s surdos, portanto, fazem parte de um aconteci- 
mento que 6 compartilhado pela autora por meio destas trilhas. 
Ronice Muller de Quadros 
1 
Qual o conceito que trazemos sobre a cultura? 
[...I se a compreensdo da cultura exige que se pense 
nos diuersos pouos, nagdes, sociedades e grupos humanos, 
6 porque eles est6o em intera~do. 
I I (Jos4 Luiz dos Santos) 
Podemos iniciar a discuss50 deste livro a partir de alguns questionamentos. 
Qual o conceito que trazemos sobre a cultura? Ha, de fato, cultura surda? 0 povo 
surdo, de fato, produz uma cultura? 0 que os outros falam sobre a cultura surda? 
Porque muitos sujeitos dizem que n5o existe cultura surda? Para obtermos respostas 
i 
dessas reflex6es, analisamos a base tebrica que sustenta o conceito de cultura. 
Nos estudos e pesquisas sobre a cultura percebem-se variag6es, desde concep- 
g6es tradicionais at6 as mais recentes. As vikias suposi~des limitadas em compreender 
a cultura resultam de um conjunto corriqueiro para referir unicamente as manifes- 
tag6es artisticas. Ou 6 identificada como os meios de comunicag50 de massa ou, 
! ent50, cultura di respeito as festas e cerim6nias tradicionais, as lendas e crengas 
de um povo, seu mod0 de se vestir, sua comida e a sua lingua. 
Estes focos sobre a cultura resultam pol6micas entre varias opini6es dos pesqui- 
sadores e dos leigos. Por que ha tantas variag6es de teorias a respeito da cultura? 
0 doutor Lynn comenta que "apesar de uma longa histbria de descri~des e defini~des 
de cultura em v6ria.s tradi~des, o conceito continua a oferecer mais indaga~6es do 
que respostas" (SOUZA, 2006, p. 1). 
Desta forqa, se torna imprescindivel que analisemos o process0 histbrico so- 
bre o conceito de cultura. Para esclarecer as variagdes das teqrias sobre a cultura, 
As imagens do outro sobre a cultura surda Qual o conceit0 que trazemos sobre a cultura? 
tra~arei algumas seqiiencias hist6ricas mostrando as transforma~6es nas rela~6es 
da sociedade com a natureza e, principalmente nas rela~6es de seus membros 
entre si. 
Cada teoria sobre a cultura d o resultado de urna hist6ria particular que inclui 
os escritos de v6rios pesquisadores que tinham suas pr6prias iddias em rela~des as 
culturas diferenciadas. 
Desde o final do sdculo passado, os pesquisadores vem elaborando indmeros 
conceitos sobre cultura e, apesar de a cifra ter ultrapassado mais de 200 defini- 
sees, ainda nbo chegaram a um acordo sobre o significado exato da terminologia. 
0 conceito de cultura d transmitido e interiorizado em diferentes aspectos, assim 
como Moles afirma: "cultura, termo t6o carregado de valores diversos que o seu 
papel uaria notavelmente de um autor para outro e do qua1 se enumeraram mais 
de 250 definicbes" (apud RICOU; NUNES, 2005). 
H6 quem considere a cultura de forma unitaria, ou admita a existencia n60 
de urna cultura, no singular, mas de culturas no plural. A iddia unit6ria de cultura 
est6 relacionada na sociedade com as ideologias hegembnicas, de padroniza~bo, 
de normaliza~bo, onde todos devem se identificar com esta cultura linica em um 
determinado espaGo. 
Conforme assinala Schiller, a cultura d a estrutura daquilo que d chamado de 
"hegem~nia",~ que molda os sujeitos humanos As necessidades de um tip0 de so- 
ciedade politicamente organizada, remodelando-os com base nos atuantes dbceis, 
moderados, de elevados principios, pacificos, conciliadores (apud EAGLETON, 
2005). Isso evidencia que esta sociedade gerou o desejo da necessidade de sermos 
perfeitos para pertencermos a ela, senbo estariamos excluidos. 
Na teoria moderna, a cultura se torna sabedoria grandiosa ou arma ideolbgica, 
urna forma isolada de critica social. Esta teoria possui a iddia de urna cultura unica 
e perfeita, a alteridade e a diferen~a sbo vistas como mancha para a sociedade, 
fazendo com que tenham a necessidade de transformaqbo do "outro", isto 4, como 
j6 ilustrado anteriormente, moldando os sujeitos "diferentes" para serem iguais a 
eles. 
Deste modo, alude doutor Lynn "[ ...I que partia da noc6o da superioridade 
do discurso filosofico que permitiaparte da cultura surda, do povo surdo e tem cgmbio com 
a cultura do povo ouvinte. Quadros (1997) ressalta que, levando-se em conta o 
aspect0 psicossocial da criansa surda, ela apresentara uma socializa~bo satisfatoria 
e integrar-se- a no povo ouvinte se tiver desenvolvido uma identidade cultural com 
o seu grupo; se isto nbo ocorrer, nzo se integrara em nenhum dos contextos, tera 
sQias limitasoes sociais e lingiiisticas. 
Porkm, alguns aspectos da permuta de cultura ainda nbo e realidade atualmen- 
te para o povo surdo, pois, como ja ilustrado no capitulo 5 anterior, a sociedade 
ainda v8 os surdos como "deficientes", "anormais", "doentes" e os lideres surdos 
e membros do povo surdo estao querendo reconhecimento e fortalecimento de 
suas identidades surdas. 
Por isto a prefersncia de surdos em se relacionar com seus semelhantes fortalece 
sua identidade e lhes traz seguransa, 6 nos contatos com seus semelhantes que eles 
se identificam com os outros surdos e encontram relatos e problemas e hist6rias 
semelhantes Bs suas. 
Sobre a inclusgo social, assim como ja comentado anteriormente no capitulo 
artefato visual, ha escassez de recursos visuais que facilitem a acessibilidade dos 
sujeitos surdos 21 vida social. Na sociedade, a maioria das anunciaq6es e informa- 
sees sbo sonoras e de palavras faladas, ai vai um acontecimento ocorrido: Eu e 
minha amiga surda fomos a um grande supermercado reclamar sobre um aparelho 
domhtico que quebrou u p 6 somente quatro meses de uso; no supermercado ale- 
Historia Cultural: novas reflexbes sobre a historia dos surdos 
garam que nds perdemos a garantia porque na hora de compra eles comunicaram 
que deviamos tirar a notafiscal emitida pela loja e que o extrato de caixa ndo tinha 
valor. lsto foi informado na hora de compra, mas como n6s duas somos surdas ndo 
'buvimo~" o comunicado e com isto ficamos prejudicadas. 
A inclusiio de sujeitos surdos em mercado de trabalho depende das acessibili- 
dades adaptados as necessidades culturais dos mesmos com o local e nos relacio- 
namentos dos seus colegas. Cito exemplos que uma funcionaria surda Christiane 
Elizabeth Righettom - oralizada e tem dominio de lingua de sinais - de uma grande 
empresa de renome, dep6e os pontos positivos e negativos dentro do local: 
0 que eu gosto: de ser aceita como eu sou, diferente e surda - Defi- 
ci&ncia auditiva e o termo ttcnico usado na area da saiide, ndo faz parte 
da cultura surda e ndo sou deficiente auditiva, pois ndo tenho problema 
d e a u d i ~ d o - e tambtm de ser irtil e ajudar as pessbas. 
0 que n6o gosto: d e assistir palestras e reunibes, porque ndo entendo 
o que falam. De ficar n o meio das pessoas tagarebndo s e m entender, 
participar e acompanhar as tagarelas. De receber informa~des incom- 
pletas e resumidas, como se fosse u m tecido com retalhos d e pano. 
De pedir alguem fazer liga~des para mim e de receber liga~des atraub d e 
terceiro s6 obtendo as infonna~des incompletas e curtas. De ser considerada 
igual aos funcionarios ouvintes. De ser ma1 atendida e compreendida. 
Para a inclusiio de sujeitos surdos nas empresas, o ideal seria a contrataqdo dos 
servigos dos interpretes e tradutores de lingua de sinais para as reuniees, as palestras 
e os cursos de formag6es oferecidas. 
Tambdm que estas empresas conscientiiem das diferengas lingiiisticas e culturais 
dos sujeitos surdos e permitam acessos de cursos de lingua de sinais aos funcionarios, 
colegas, amigos, vizinhos, familiares e as comunidades em geral, a fim de permitir 
que se comuniquem e convivam com os funcionarios surdos. 
Nas escolas, a educagiio inclusiva niio se refere apenas aos sujeitos surdos, refe- 
re-se tambkm a "educagiio para todos", entiio vamos refletir, o fato desses sujeitos 
estarem dentro da escola significa que eles estdo incluidos? 
A inclusiio, um movimento que tem intensdo de envolver toda a sociedade, 
pordm a sociedade de inclusdo niio ve o sujeito surdo como diferenga cultural, mas 
" Agrade~o a Christiane Elizabeth Righetto pela conb.ibui@o de sua narrativa como exemplo para este livro. 
As imagens do outro sobre a cultura surda 
sim como deficientes necessitados da normaliia@o, cujo padriio-modelo e o ouvinte. 
Entiio como fica a inclusiio dos surdos? Assim como afirma Skliar (1998-b, p. 13) 
sobre a inclusiio de surdos em escolas de ouvintes: 
A distin~ao entre diversidade e di feren~a conduz ao debatesobre o lugar 
que corresponde aos surdos na e d u c a ~ d o especial e na e d u c a ~ d o e m 
geral[ ...I tambem 6 necess6rio romper com a tradi~do segundo a qual, 
uma vez reconhecido o frocasso da escola especial, aparece d e maneira 
implacauel uma iinica o p ~ d o : a escola inclusiva. lsto t, o imperativo da 
integracdo escolar dos surdos nas escolas regulares. 
Infelizmente a maioria das escolas seguem espagos ndo preparados para estas 
diferenps culturais, como d o caso na inclusdo be alunos surdos em escolas regulares. 
Eles de~aram-se com dificuldades de adaptago e com problemas de subjetividades, 
porque nestas escolas niio compartilham suas identidades culturais, assim como 
reflete a pesquisadora Lopes (1998, p. 11 1) sobre esta realidade: 
A representa~ao do surdo como u m doente dificulta a organiza~dopolitica 
desses para reivindicar seus direitos na escola, na midia e nos lugares 
piiblicos. A identidade do sujeito surdo, sob a otica do representa~do 
realista, busca se adaptar a o seu deficit auditiuo e a superacdo do defici- 
Bncia por outras atividades chamadas d e compensat6rias. 
Como comeqou a inclusiio de surdos nas escolas regulares? Com a Declara~iio 
de Salamanca,4l a politica evidenciada na Declarago de Salamanca foi adotada 
na maioria dos paises e na elaboragiio da Lei de Diretriies e Bases da Educasiio, 
Lei n. 9394/96, observamos que no capitulo sobre a educagiio especial ap6ia-se e 
inclui-se parbmetros para a integragiiolinclusiio do aluno especial na escola regular. 
A Declaragiio faz advertcncia a situagiio lingiiistica dos surdos e defende as escolas 
e classes para eles, item 30. 
Foi aprovada uma lei, d que em que constava esta lei? Permitir aos sujeitos 
surdos o acesso ao ensino regular, mas onde estavam os professores preparados? 
Qual era a infra-estrutura das portas que eram abertas ao povo surdo nas escolas? 
0 problema 6 que estas escolas ainda niio respeitam essa advertencia e continuam 
tratando os sujeitos surdos como os demais alunos. 
41 A DeclaraGo de Salamanca: Reconvocando as v%as dedara@es das Naqbes Unidas que culminaram no documento 
dasNa@es Unidas " R e p Padrh sobre Equalizafio de Oportunidades para Pessoas com DeficiZ.ncias", o qual demanda 
os Estados assegurem que a educaqho de pessoas com deficiencias seja parte integmnteco sistema educational. 
In (ex)clusao dos surdos: pratica inter (cultural)? 
[...I os alunos surdos ficardo em classes de ouvintes, sendo que a lingua 
de maior prestigio sera a da professora e dos alunos ouvintes. 0 s surdos, 
embora possam receber a tradu@o simultaneamente do "ensinado" que 
estiver acontecendo em sala de aula, tera de estudar em portugu&s e fazer 
suas provas nessa lingua. (FELIPE, 2003, p. 87) 
Fui uma adolescente revoltada e vivia isolada porque a escola oralista orien- 
tou a minha familia que eu ndo poderia ter contato com outros sujeitos surdos 
adultos, havia muitos estere6tipo~~~ em relacdo a lingua de sinais e, consequen- 
temente, ndo tinha amigos surdos e nem ouvintes. 0 s adolescentes ouvintes me 
achavam chata por eu ter comunicacdo limitada e sem graca e se afastavam. 
Entdo me isolava, me fechava no quarto e chorava todos os dias dizendo que 
era castigo de Deus por ter me feita surda e queria morrer, j6 que na vida n8o 
tinha espaco para mim. lsto k inclusdo? E inclusdo a pessoa ouvinte resolver o 
que k melhor para o sujeito surdo sem "sentir na pr6pria pele" as dificuldades 
e os sofrimentos dos surdos? 
Em conseqiigncia do Congress0 de MilSo, que temproibido por muitos anos 
os surdos a usarem a lingua de sinais, ela sobreviveu gracas a resistgncia do povo 
surdo contra esta pratica ouvintista. Muitas criancas em escolas para surdos, quando 
a lingua de sinais 6 proibida, muitas vezes a praticam as escondidas entre si, assim 
como relata autora surda durante a sua infancia na escola de surdos: 
Quando um de professores se uiraua para escreuer no quadro-negro, 
tinhamos hhbito de trocar informa~des na lingua de sinais, persuadidos 
de que ele nbo nos escutaua, jh que nbo nos via. Ora, no comeGo, ele se 
uoltaua todas as uezes, era estranho, nbo compreendiamos imediatamente 
por qu&. Com o passar do tempo, dei-me conta de que, ao falar com as 
mbos, sem saber, emitiamos ruidos com a boca. Cuidamos entbo de nbo 
mais emitir nenhum som e, desde aquele dia, trocamos nossas l i~des o 
mais tranqiiilamente possiuel. (LABORITT, 1994, p. 84) 
Desta maneira, a "inclusSo" de sujeitos surdos na escola, tendo-se a lingua 
portuguesa como principal forma de comunicacSo, nos faz questionar bem se a 
inclusSo oferecida significa integrar o surdo? Na verdade a palavra correta para as 
'2 Estere6tipos negativos sobre lingua de sinais: se o surdo aprender a lingua de sinais n lo irb se integrar 8 sociedade, 
que irb desaprender a falar, que o surdo ficarb mudo, que a lingua de sinais Q uma lingua pobre e mimica, que n5o 
transmite idbias abstratas e tantos outros. 
As imagens do outro sobre a cultura surda 
experigncias desenvolvidas nSo 6 "inclusdo", e sim urna forcada "adaptacdo" com 
a situacSo do dia-a-dia dentro de escola de ouvintes. 
Durante o recreio durante minha vida escolar (escola de ouvintes), no patio 
de escola onde muitas criancas brincavam, eu ficava ao lado da pipoqueira, urna 
senhora mulata simples e sorridente; eu ficava quietinha, sozinha alheia de tudo e 
ndo tinha um ar muito contente, muitas vezes esta pipoqueira simpatizava comigo, 
me dava pipoca de graca e sorria. Fiquei muito triste quanto soube que ela morreu 
atropelada, perdera a iinica amiga da escola que, mesmo sem palavras, se comu- 
nicava comigo atravks de sorrisos e gestos amigaveis. 
Eu me sentia como urna pessoa e~trangeira~~ no meio ambiente escolar era 
tSo timida que ficava isolada a maior parte de tempo tendo apenas urna ou outra 
colega ouvinte que me ajudava. Skliar (1998, p. 36) esclarece esta situacSo: "0s 
depoimentos de alunos surdos que passaram pelo ensino regular sem urna me- 
todologia especffica mostram como eles se sentem estrangeiros e marginalizados 
nessa situacdo [...I" 
Trago de novo algumas experigncias em escola de ouvintes durante a minha 
infancia: 
Uma vez entrei na sala de aula e todos entregaram trabalho para o professor; eu 
fiquei surpresa e perguntei: "que trabalho?". 0 s colegas disseram que o professor 
avisou verbalmente na ultima aula, s6 que ningukm se lembrou de me avisar. lsto 
tambkm aconteceu com as provas marcadas e depois, na hora, me dava ma1 por 
ndo ter estudado. 
Entdo, quanto me cobrava a leitura labial, eu arrumava todas as "desculpas" 
possiveis para escapar daquela situacdo, inclusivamente disse urna vez que o pro- 
fessor tinha bigode enorme por isto n60 o entendia. A direcdo obrigou-o a tirar o 
bigode, o que ele fez, e fiquei muito sem graca porque continuei ndo entendendo 
e para piorar, ele ficou horrivel com os labios muito finos. Entdo a partir dai desde 
infdncia atk a faculdade comecei a fingir que entendia tudo. 
" Surdos se sentem estrangeiros em wmunidade ouvinte quanto a mesma s6 usam a lingua portuguesa, que Q 
considerada como segunda lingua para os surdos. EnGo o uso de uma cultura e lingua diferente de sua Q estrangeirismo, 
o mesmo sentido como os sujeitos ouvinte diem: "peixe fora d'bgua". ,. 
In (ex)clus2o dos surdos: pratica inter (cultural)? 
Isto era muito comum o que acontecem com os sujeitos surdos, fingir que 
compreendem tudo como estrategia de sobrevivGncia, assim como explica a autora 
Botelho (2002, p. 19): 
[. . .] muitofrequentemente os surdos usam a "simuh@o de compreensdo", 
isto 6, fingem que compreendem e que sabem, para evitar constrangimento 
na tensdo da comunica@o e para que passem despercebidos, aprendem a 
ocultar o sofrimento pelo temor e vergonha de ndo ser como todo mundo, 
isto torna coisas pioresporque aparenta ausgncia de problemas e refor~a o 
equivoco de que a escola regular 6 possivel para todos os surdos [...I 
Na inclus8o e mais dificil quanto as crianqas surdas n8o est8o preparadas e 
ficam totalmente a mercG dos professores n8o usuarios de lingua de sinais e de 
colegas ouvintes que fazem muitas brincadeiras rotineiras da cultura ouvinte como 
por exemplo o "telefone-sem-fio", "cirandinha" e outros, Strobe1 (2006, p. 250) 
afirma que: 
Como uma crian~a surda poderh desenvolver uma lingua se ndo houver 
uma identificaciio corn o surdo adulto? Como o sujeito surdo poderh 
fazer uma identifica~do corn relacdo a sua identidade surda no futuro, se 
ele niio conviver corn outros surdos que facam uso da lingua de sinais? 
Quem foi que disse que 6 s6 o sujeito surdo utilizar-se da lingua de sinais 
que por um "passe de mhgica" ele passarci a ter uma aprendizagem total? 
E a cultura como fica? 
S5o raros os professores habilitados para trabalhar com os alunos surdos em 
sala de aula. Na maioria dos cursos de Pedagogia nas universidades n8o tinham 
estas especializaqBes para esta area - somente agora salvo pel0 decreto n. 5.626, 
de 22 de dezembro de 2005 que da a obrigatoriedade das aberturas de cursos de 
Libras nestes cursos, as coisas podem melhorar futuramente -, voltando ao assunto 
a respeito da falta de preparo dos profissionais que entendam e conheqam a cultura 
surda, cito um exemplo de uma surda, estudante de pedagogia: 
Uma vez na faculdade, durante muitos anos no curso depedagogia sempre 
discutiram muito sobre a importancia de inclusdo de surdos nas escolas 
regulars, etc. Em uma ocasiiio, a professora psic6loga fez uma atiuidade 
que consistia que cada urn dos alunos dizer a qualidade da pessoa es- 
colhida e presentearia corn um bombom e assim por diante. No final de 
tudo, jh presenteados seus colegas escolhidos, nos sobraram duas surdas, 
a intkrprete e a minha miie, a ultima colega ouvinte escolheu a interprete 
As irnagens do outro sobre a cultura surda 
para presentear e ela sem graGa, sem saber qua1 de nos duas escolheria 
para presentear e disse, que escolheria nos duas juntas, a professora impe- 
diu-a dizendo que ndo pode e teria que escolher uma, entdo a interprete 
chateada presenteou a minha mde corn urn bombom. A minha mde, na 
uez dela leuantou, uendo a nossa mhgoa e caras de choramingo e disse a 
professora e a todos os colegas de pedagogia: isto se chama a inclusiio? 
Voc& demonstraram na pratica que "excluiram" as duas surdas! (STRO- 
BEL, 2006, p. 249) 
Em outras palawas, quem esta perdendo com isso tudo s8o os sujeitos surdo 
As crianqas surdas em vez de aprender aumentam-lhes ddvidas e questionamentos 
como exemplifica Lane (1992, p. 39): 
[...I A tipica crian~a surda, que nasceu surda ou que ficou surda antes de 
aprender o inglk, esta completamente perdida no banco da turma de 
ouvintes. 0 que diz o professor? Como Ihe posso tomar claros os meus 
pensamentos? 0 que posso fazer para ser aceito pelas outras crian~as? 
Esta aqui a@u6m presente que me possa explicar certas coisas depois 
das aulas? 
Exponho abaixo os comportamentos que evidenciam as diferenqas culturais 
de sujeito surdo e de sujeito ouvinte na mesma aula, mesmo com a presenqa do 
interprete de lingua de sinais: 
Quando o professor fala durante as aulas, eu tenho de prestar atencdo olhando 
para o interprete, ndo posso desviar o olhar para fazer anotacdes no caderno como 
os outros alunos ouvintes fazem, sendo perco as informac6es transmitidas pel0 
interprete - isto 6 ruim, porque ndo tenho como revisar o que foi dito durante as 
aulas. Nus aulas de matemdtica, o professor faz cdlculos em quadro-negro, eu ndo 
consigoolharpara o quadro e ao interprete ao mesmo tempo, por isto sempre tenho 
de estudar fora de escola para entender e tirar notas boas. 
0 ideal e compartilhar as experigncias das escolas culturais de diferentes espaqos 
para que possam ter continuidade e ampliaqso da pedagogia cultural, por exemplo: 
em Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, o curso LETRASILIBRAS 
aceita prova em lingua de sinais e com isto as outras universidades poder8o aceitar 
e isso entre outros artefatos culturais, sao exemplos da interculturalidade que v8o 
moldando As nossas maneiras de ser e de viver. 
In (ex)clus30 dos surdos: pratica inter (cultural)? 
Reforqo o pensamento de Skliar (1998): Estudos Surdos se constituem enquanto 
um programa de pesquisa em educaqgo, onde as identidades, as linguas, os projetos 
educacionais, a historia, a arte, as comunidades e as culturas surdas sgo focalizadas 
e entendidas a partir da diferenqa, a partir do seu reconhecimento politico, trago 
segundo o Fleuri (2001, p. 117): 
[...I A perspectiua multicultural reconhece as diferen~as dtnicas, culturais 
e religiosas entre grupos que coabitam no mesmo contexto. 0 educador 
que assume urna perspectiua multicultural considera a diuersidade cultural 
como um fato, do qua1 se toma consci&ncia, procurando adaptar-lhe urna 
proposta educatiua. Adaptar-se, neste sentido, significa limitar os danos 
sobre si e sobre os outros. Mas o educador passa na perspectiua multicul- 
tural a intercultural quando constroi um "projeto educatiuo intencional'' 
para promouer a rela~do entre pessoas de culturas diferentes. 
A funqgo social da cultura, da escola, os pap& dos professores em contextos 
de mudanqas fazem com que eles se vgo adaptando as nossas necessidades cultu- 
rais, aos nossos desejos, aos nossos relacionamentos, aos nossos "eus" privado e 
phblico, enfim, vgo modelando nossas subjetividades e construindo as identidades 
deste andamento. Segue um comentario do lider surdo Antonio Campos: 
[...I para aliuio nosso a sociedade recebe melhor os surdos, inclusiue 
em uniuersidades. As pessoas jh conuiuem bem com o surdo, respeitam 
sua identidade e o Gouerno tem cumprido as leis que dizem respeito 
a inclusdo. Antes, a rela~do dos surdos com a sociedade era dificil, 
conflituosa e as pessoas tinham um sentimento de piedade pelo surdo. 
A cria~do de leis e decretos que fauorecem a inclusdo do surdo, a cria~do 
do Prolibras tambdm t&m contribuido muito. (GISELE, 2007) 
A crianqa surda necessita de professores surdos usuarios naturais de lingua de 
sinais e cultura propria em seu process0 de construqgo de identidade e educacio- 
nal. 0 imaginado 6 que os sujeitos surdos tenham contato com os outros surdos 
que constituem o povo surdo, onde acontece o seu desenvolvimento como sujeito 
diferente, sendo um centro de encontro com o semelhante para que desenvolva 
sua identidade cultural, por isto estes defendem a importhncia de termos escola de 
surdos, segundo diz Quadros (2006, p. 35): 
Desse modo, os surdos sonham com espaSos em que a lingua de sinais 
seja a lingua de instru~do, em um ambiente cultural e social que fauore~a 
As irnagens do outro sobre a cultura surda 
o fortalecimento das heran~as surdas para a consolida~do de um grupo 
que se diferencia a partir da experigncia visual. 
Apresento a seguir a narrativa interessante de urna surda mestranda Shirley 
Vilhalva em urna ocasigo de quando fez urna das suas visitas em escolas indigenas, 
em contato marcante com urna india kaxinawaM a fez refletir do seu "eu-surda" 
na inclusgo social: 
Fiz minha pergunta para urna grande mestra idosa india com o acompanha- 
mento da interpreta~cio em libras, a pergunta era sobre a rela~do de como 
ela entendia oprojeto indio surdo e a quest60 em quese encontram quando 
os jouensestudantes indios u&m tendoprocesso de tal urna formagio dentro 
da pedagogia indigena, sabendo que sempre foi urna exigencia do sistema 
aplicado da pedagogia urbana, conhecida como "pedagogia dos brancos". 
A resposta dela: para ser aceita e sobreuiuer, precisei adotar a cultura dos 
ndo-indios deixando de lado a minha cultura indigena, precisei aprender a 
lingua do branco e esquecer a minha, pois a lingua deles tem mais poder de 
uida la fora, precisei da pedagogia dos brancos, pois o meu sistema dentro 
da pedagogia indigena ndo tinha mama ualidade que a deles. Hoje uejo os 
jouens indios sem saber relatarem o seu passado historic0 por desconhe- 
cerem o valor cultural que os mesmos t&m. 0 s brancos que ontem uieram 
para colocar a sua lingua nos indios, u&m hoje trazer de uolta a lingua 
que nos tiraram, anseiam que os indios uoltem e reconstruam sua origem. 
E assim, eu refletindo em compara~do dos indios com os surdos, digo 
que nos surdos tiuemos que deixar de "ser surdo" e passar a ser um 
ouuinte, pois "ser ouuinte" d ser aceito. Tiuemos que arrancar e esconder 
a nossa cultura surda, porque era a parte das exigencias para dar status 
a urna linica lingua oral, pois para eles a lingua esponthnea dos surdos 
era a errada. Na realidade, "ser surdo" tinha que ser escondido para 
aparecer anonimamente "ser ouuinte" para ser aceito na sociedade. 
0 s surdos mant&m o seu mundo, a sua cultura, a sua lingua e se escondem 
de sua comunidade para sobreuiuer num espaGo da maioria. (SHIRLEY 
VILHALVA)45 
Matutando sobre estas propostas da in (ex)clusgo, para o povo surdo ja passa- 
ram por muitos anos de humilhaq6es e de sofrimentos nos quais os sujeitos surdos 
choraram para que em seguida erguerem a cabeqa com orgulho de suas identidades 
" Uma das etnias dos indios. 
" Depoimento transcrito na integra, sem revisbes. 
In (ex)clusao dos surdos: pritica inter (cultural)? 
(Uma lnterprete em urna aula com alunos 
surdos mestrandos e doutorandos em UFSC) 
indo as suas lutas pel'a inclusZo de verdade. 0 s povos surdos hoje mais abertos 
culturalmente n5o se submetem mais e gritam alto "chega de mania de normaliza- 
q50, de reabilitaq507' porque eles est5o mais conscientes 16, de onde eram sempre 
tomadas as decishs por eles e para eles, os povos surdos unicamente querem uma 
escola onde lhes permitam a aprender e nZo fingir que sabem! 
Para finalizar este capitulo, cito um poema "Lamento Oculto de um Surdo" feito 
por Vilhalva (2004), pedagoga surda, que nos faz refletir: 
Quantas uezes eu pedi uma Escola de Surdo e 
voc6 achou melhor uma escola de ouvinte. 
Vdrias vezes eu sinalizei as minha necessidades e 
voc6 as ignorou, colocando as suas ideias no lugar. 
Quantas vezes levantei a mdo para expor minhas iddias 
e voc6 nGo viu. 
S6 prevaleceram os seus objetivos ou 
voc6 tentava me influenciar com a hist6ria 
As imagens do outro sobre a cultura surda 
de que a Lei agora e essa. e 
que a Escola de Surdo ndo pode existir 
por estar no momento da "lnclusdo". 
Eu fiquei esperando mais uma vez ... 
em meu pensamento.. . 
Ser Surdo de Direito B ser 'buvido7'. . . 
6 quando levanto a minha mBo e 
voc6 me permite mostrar o melhor caminho 
dentro de minhas necessidades. 
Se voc& Ouvinte me represents, 
leve os meus ensejos e as minhas solicita~des 
como eu almejo 
e ndo que voc6 pensa como deve ser. 
No meu direito de escolha, 
pulsa dentro de mim: 
Vida, Lingua, Educa~Bo, Cultura 
e um Direito de ser Surdo. 
Entenda somente isso! 
Como podemos compreender e envolver com 
as peculiaridades da cultura surda? 
0 encontro com a comunidade surda permite-lhes sair do lugar do diferen- 
te, do excluido, do estranho, do estrangeiro, para o de "pertencimento", 
um lugar em que se encontram como iguais, sentem-se entendido 
e efetivamente conseguem estabelecer uma relapi0 de troca. 
(Gladis Dalcin) 
Como ja vimos no transcorrer do presente livro, a cultura surda retrata a vida 
que os sujeitos surdos levam; as suas conversas diarias, as ligbes que ensinam entre 
si, as suas artes, os seus desempenhos e os seus mitos compartilhados, o seu jeito de 
mudar o mundo, de entende-lo e de viver nele. Para conhecer e entender a cultura 
surda 6importante a convivencia com a comunidade surda, assim como afirma a 
autora surda Vilhalva (2007): 
Ntio d suficiente conhecer a Lingua Brasileira de Sinais para poder atuar 
eficazmente na escola com o aluno Surdo. E tambdm necesshrio conhecer 
a Cultura Surda atraub daparticipac60 e uiugncia na comunidade Surda, 
aceitactio da diferenp e pacigncia para inteirar-se ne l c~ .~~ 
Considerando que o povo surdo necessita de duas linguas: a lingua de sinais 
na comunicagiio entre seus identicos e da segunda lingua para integrarem se B co- 
munidade ouvinte, essa colocag50 reflete a id6ia de uma relagso intercultural, pois 
o povo surdo pode se aproximar de cultura ouvinte como uma opgiio e ter uma 
Fonte: http://www. planetaeducacao. corn. br/novo/artigo. asp?artigo=977 , 
As imagens do outro sobre a cultura surda I i n (ex)clusio dos surdos: pratica inter (cultural)? 
rela~Zo de trocas e compartilha~iio de ambas as culturas, procurando respeitar as 
suas diferen~as. 
Perlin (2000, p. 27-28) enfatiza as propostas da educaeo dos surdos, a exig6ncia 
para a pratica cultural no curricula, cita dentre elas: 
+ Presen~a do professor surdo na sala de aula para contato com a repre- 
sentaGZo de identidade surda, o que gera urna atitude positiva para 
com essa identidade; 
+ Professor ouvinte com dominio de lingua de sinais e capacitado para 
ensino de portugu6s como segunda lingua, participante do movimen- 
to da comunidade surda, o que vai possibilitar a vivgncia, ou seja, a 
experilkcia cultural presente; 
+ Contato do surdo com a cultura surda, movimento surdo, expressdes 
culturais surdas, o que facilita a sintonia dos estilos de ensino com o 
estilo de aprendizagem e motivacZo dos estudantes. - 
Para os sujeitos "ouvintes", que podem ser os alunos de cursos de lingua de 
sinais, familia, professores de inclusZo, professores bilingiies, intkrpretes, amigos 
e outros, sZo encorajados a ver o mundo de surdos atravks dos seus olhos como 
urna cultura diferente. 
0 mod0 de os sujeitos surdos de agirem e de verem o mundo constitui-se 
numa cultura estrangeira para estes ouvintes. Assim estes ouvintes podem ter suas 
constru@ies interculturais e lingiiisticamente em meio as produ~des de surdos e 
ouvintes, como assevera a int6rprete Aguiar (2006, p. 25-30), segundo na sua dis- 
serta~Zo do mestrado: 
As identidades G o produzidas dentro das culturas, motivo a t e que justifica 
o porqug das mesmas serem culturais. No caso dos ILS,47 a transi~ao entre 
duas culturas (espacos surdos e espacos ouvintes) multifacetadas, os fazem 
flutuar entre esses meios, tomando-o uma producdo cultural e fervilhando 
novas significacbes a partir destas rela~bes desencadeadas. 
No entanto, o fato dos ILS transitarem entre duas linguas, traz conseqii&ncias 
al6m das habilidades visuais e auditivas, isto 6, outras questbes entram e m 
cena, tais como o hibridismo cultural, urna vez que esses profissionais se 
deslocam entre fionteiras culturais (de surdos e ouvintes) e se constituem 
politicamente nesses espacos sociais e culturais que desencadeiam relacbes 
amplamente complexas. Relacbes essas de contestaciio cultural, de per- 
47 ILS. Interprete em lingua de Sinais. 
tencimento ao g u p o de surd- Go algumas das exigencias quando nos 
posicionamos nas fronteiras entre a LS e o portugub. 
0 s motivos para os sujeitos ouvintes decidirem conhecer e promover a cultura 
surda 6 que com isto eles podem fortalecer a imagem da marca surda na vida so- 
cial, aumentar a credibilidade com a rela~iio ao povo surdo, tamb6m pode exaltar 
o relacionamento com a comunidade surda. 
Apresento a seguir algumas sugestdes para aproximar os sujeitos ouvintes da 
cultura surda para que possam compreender suas peculiaridades: 
+ Visitar e freqiientar as comunidades surdas: associa~6es, igrejas, con- 
ven~des, escolas de surdos, eventos esportivos, teatros e outros. 
+ Conviver com os sujeitos surdos em situa~des informais e formais. 
+ Pesquisar e estudar livros ou materiais informativos do Povo Surdo. 
+ Conhecer e ler sobre todos os artefatos culturais do povo surdo. 
+ Procurar respeitar e valorizar as diferen~as culturais do povo surdo tendo 
urna constru~iio intercultural isto 6, urna troca, compartilha~Zo e urna 
aproxima@o harmoniosa entre as ambas das culturas. 
+ Respeitar os espaGos conquistados pelos sujeitos surdos enquanto estZo 
em produ@o cultural, por exemplo: tem muitos sujeitos ouvintes que 
auerem "com~etir" com os surdos e assim fazem com que o povo surdo 
suspeite dos mesmos, devido a longa historia de opressao de lutas de 
rela~des de poderes para conquistarem seus espagos. Tem muitos ouvintes 
que aproveitam dos espaGos conquistados pelos surdos para ensinar a lin- 
gua de sinais e outras coisas, alegando que tem direitos iguais.. . Mas onde 
estZo os direitos de igualdade enquanto na sociedade os sujeitos ouvintes 
geralmente sZo preferidos a dos surdos? Isto acontece nas maiorias de 
empresas, nas universidades, nas institui~des ou at6 mesmo em igrejas, 
que preferem profissionais ouvintes para nbo ter de contratar intbrpretes 
para os profissionais surdos. TambBm pela barreira de comunica@o k 
mais facil contratar um ouvinte, sabendo que para sujeitos surdos 6 mais 
dificil conseguir contatos via telefone, por exemplo. No futuro, quando a 
sociedade tiver urna representa@o sem estereotipos e mais positiva em 
nivel de igualdade entre os surdos e ouvintes, se olharem o povo surdo 
como diferen~a cultural, e nbo como deficientes, dai nZo teriam esta 
"guerra cultural" entre eles. 
Conclui-se que a cultura surda 6 transmitida de geraq5o em geraq50, atraves 
da lingua de sinais, portanto, se faz necesshio para a construq80 da identidade do 
"Ser Surdd', sendo um &ago proprio do povo surdo, tornando possivel a express50 
das subjetividades. Para completar, cito Moura (2007): 
Podemos ver agora festas e m que a cultura Surda 4 levada e m conside- 
ra~do. Podemos presenciar belas representa~des de teatro e m lingua de 
sinais. Podemos perceber a uni6o dos Surdos e de seus familiares e m torno 
de quest6es comuns a todos os individuos de uma sociedade: educapio 
e cidadania. E um belo inicio e esperemos que colha mais e melhores 
frutos no futuro. Outro aspecto importante a ser considerado 6 que, cada 
vez mais, os Surdos passam a ser respons6veis pelos atos p~iblicos e as 
delibera~des que vdo fazer a diferenca na vida de muitos Surdos no futu- 
ro: e o Surdo se responsabilizando e sendo o estandarte de sum pr6prias 
reivindica~des.~ 
A cultura surda 6 profunda e ampla, ela permeia, mesmo que n5o a perceba- 
mos, como sopro da vida ao povo surdo com suas subjetividades e identidades. 
Podemos senti-la em sua essencia nas comunidades surdas! 
Utilizo a lingua dos ouvintes, minha segunda lingua, para expressar mi- 
nha certeza absoluta de que a lingua de sinais t nossa primeira lingua, a 
nosku, aquela que nos permite sermos s e ra humanos "comunicadores". 
Para dizer, tambem, que nada deve ser recusado aos surdos, que todas 
as linguagens podem ser utilizadas, sem gueto e sem osh-acismo, a fim de 
ser ter acesso d vida. (LABORIT, 1994, p. 9) 
Mesmo que existam os diferentes grupos culturais, cada grupo n5o vive isolado, 
em seu mundo particular, mas sim todos os grupos convivem e passam por conflitos 
em emaranhado de rela~des. E 6 por isso que todo grupo cultural, dentro de suas 
peculiaridades deve aprender que n5o ha ninguem melhor que ninguem, mas sim 
de sujeitos diferentes que devem ser considerados coletivamente com todas as suas 
singularidades. 
Bsas particularidades n5o devem ser ignoradas, e sim reconhecidas no &mbito 
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	0-53.pdf
	54-77.pdf
	78-118.pdfacesso a raz60, a uma referencialidade pura 
e portando a uma precis60 e consist2ncia no pensamento [...Iv (SOUZA, 2006, 
p. 2), para esta sociedade a identidade e cultura sbo vistas como essencialista, 
substancialista, pronta e pura para este grupo hegem6nico. 
Na teoria p6s-moderna, Herder propde pluralizar a termina~bo "cultura", falan- 
do das culturas de diferentes nagties e periodos, bem como de diferentes culturas 
sociais e econ6micas dentro da propria na~bo (apud EAGLETON, 2005). 
0 s autores pos-modernos enfatiiam as mdltiplas culturas e se dedicam a in- 
teragir de forma profunda no interior delas. Neste pensamento p6s-moderno, a 
I 
pluralidade encontra-se cruzada com a auto-identidade, em vez de se dissolver em 
identidades distintas. 
A humanidade, ao longo do tempo, adquire conhecimento atravds da lingua, 
crenGas, habitos, costumes, normas de comportamento dentre outras manifesta~6es. 
Partindo do suposto que cultura d a heran~a que o grupo social transmite a seus 
membros atravds de aprendizagem e de convivencia, percebe-se que cada gera~bo 
e sujeito tambdm contribuem para amplia-la e modifica-la. 
Considerar a questbo cultural no plural admite a multiplicidade de manifesta- 
g6es e grupos culturais das mais diversas naturezas tornando o conceito da cultura 
mais amplo. 
Conforme afirma Hall (1997), nas teorias do campo dos Estudos Culturai~,~ 
a cultura que temos determina urna forma de ver, de interpelar, de ser, de explicar 
e.de compreender o mundo. 
0 s Estudos Culturais sbo originados da Inglaterra, depois se expandiram para 
os Estados Unidos e outros paises da Europa e da Amdrica Latina. 0 s Estudos 
Culturais formam um campo de pesquisa interdisciplinar para estudos na area da 
- 
0 termo "hegemonia" deriva do grego "hegemon", que significa lider, guia ou quem dita as regras. No uso geral, 
refere-se ao domfnio e influencia de um pais sobre os oukos e a um principio segundo o qua1 urn grupo de elementos 
6 organizado (EDGAR, A.; SEDGWICK, F? 2003, p. 151). 
"0 termo 'estudos culturais' pode ao mesmo tempo ser amplamente usado para se referir a todos os aspedos do 
estudo da cultura, e como tal ser tomado para incluir as diversas formas em que a cultura 6 compreendida e analisada 
I [...]" (EDGAR, Andrew; SEDGWICK, Peter, 2003). 
I' 
As imagens do outro sobre a cultura surda Qual o conceito que trazemos sobre a cultura? 
cultura. Na sua agenda tematica est5o g2nero e sexualidade, identidades nacionais, 
a pos-colonialismo, etnia, politicas de identidade, discurso e textualidade, pbs-mo- 
dernidade, entre outros. 
De acordo com Culler, "[ ...I o projeto dos Estudos Culturais 6 compreender o 
funcionamento da cultura, particularmente no mundo modemo: como asprodu~6es 
culturais operam e como as identidades culturais sdo construidas e organizadas, 
para indiuiduos e grupos, num mundo de comunidades diuersas e misturadas [...I" 
(1999, p. 49). 
Ent50, nesse campo de Estudos Culturais, a cultura 4 urna ferramenta de trans- 
formasho, de percepgo a forma de ver diferente, n5o mais de homogeneidade, mas 
de vida social constitutiva de jeitos de ser, de fazer, de compreender e de explicar. 
Essa nova marca cultural transporta para urna sensa~5o a cultura grupal, ou seja, 
como ela diferencia os grupos, no que faz emergir a "diferensa". 
Ap6s urna rapida aprecias50 das varias contribui~des teoricas trazidas para os 
conceitos da cultura, retomemos agora o process0 historic0 sobre o significado da 
palavra "cultura" . 
0 vocabulo "cultura" vindo do latim significa o cuidado dispensado a terra 
cultivada; segundo Eagleton (2005) o conceito da cultura, etimologicamente ra- 
ciocinando, 4 proveniente do de natureza, sendo que um dos significados originais 
e "lavoura" ou "cultivo agricola". Isto mostra que o cultivo da linguagem e da 
identidade 6 0 , ent50, os elementos fundamentais de urna cultura. 
Dessa maneira, os elementos mais importantes da cultura podem ser destacados 
como as habilidades dos sujeitos para construir sua identidade em usar a linguagem. 
Ilustrando mais claramente, na "cultura", a palavra natureza significa tanto o que 
esta a nossa volta como o que esta dentro de nos. Poderiamos usar a metafora 
de urna semente que 4 plantada em solo e cresce urna bela planta; mas isto n5o 
ocorre sem a ajuda da natureza, ou seja, do sol, da chuva, do vento, do fertilizan- 
te do solo, que faz a semente reagir e desenvolver. A semente que esta sozinha 
sem ademso da natureza, n5o cresceria urna vez que estaria abandonada e apo- 
drecendo. 
1 
a cultura torna possivel a transformas50 da natureza" (CUCHE, 2002, p. 10). 
Da mesma forma, um ser humano, em contato com o seu espaso cultural, re- 
age, cresce e desenvolve sua identidade, isto significa que os cultivos que fazemos 
I 
1 s5o coletivos e n50 isolados. A cultura n5o vem pronta, dai porque ela sempre 
se modifica e se atualiza, expressando claramente que 1150 surge com o homem 
sozinho e sim das produ~des coletivas que decorrem do desenvolvimento cultural 
experimentado por suas gerasdes passadas. 
"A cultura permite ao homem n5o somente adaptar-se a seu meio, mas tamb4m 
adaptar este meio ao proprio homem, a suas necessidades e seus projetos. Em suma, 
Capitulo 2 
0 s surdos t6m cultura? 
'3eito surdo de ser, de perceber, 
de sentir, de vivenciar, de comunicar, 
de transformar o mundo de mod0 a torn6-lo habitduel. " 
I 
(Gladis Perlin) 
I 
56 discorremos sobre os variados conceitos te6ricos culturais, vamos refletir a 
seguir sobre o que vem ser a cultura surda. 
As pessoas se espantam e questionam com perguntas corno: os surdos tem 
cultura? Como pode haver uma cultura surda? Sera que nas festas dos surdos ha 
musicas? Em rela~iio a essas dlividas, Magnani (2007) argumenta: 
"[ ...I experiencia com os surdos era como a da maioria das pessoas, 
a de alguma vez ter uisto duas pessoas conversando por meio de sinais, 
sem prestar maior atengdo - o olhar ndo treinado ndo vai al6m do que o 
senso comum regi~tra".~ 
Estes questionamentos ocorrem porque as pessoas niio conhecem e niio sabem 
como 6 o mundo dos surdos e fazem suposi~bes errbneas acerca de povo surdo. 
Quando a palavra "surdo" 6 mencionada, que imagens v8m a mente das pessoas? 
Lane (1992, p. 26) explica que 6 comum as pessoas deduzirem que os surdos vivem 
isolados e que para se integrar 6 preciso adquirir a cultura ouvinte isto e, para viver 
"normal", segundo a sociedade 6 preciso ouvir e falar: 
Ao imaginar como 6 a surdez, eu imagino o meu mundo sem som - um 
pensamento aterrorizador e que se ajusta razoavelmente ao estere6tipo que 
Fonte: http://www. n-a-u. org/AntropologiaUrbanadesafiosmetropole. him1 p 
I' 
As imagens do outro sobre a cultura surda 0s surdos t@m cultura? 
projetamos para os membros da comunidade dos surdos. Eu estaria isolado, 
desorientado, incomunichuel e incapaz de receber comunicapio. 
Estas representaqbes imaginarias estfio equivocadas, os povos surdos n5o vivem 
isolados e incomunicaveis, simplesmente os sujeitos surdos tern seus modos de agir 
diferente de sujeitos ouvintes, confira o relato de Magnani (2007) ao se deparar 
com os sujeitos surdos em urna festa junina na comunidade surda: 
Foi urna experihcia diferente: entrei na festa e de repente me vi no meio 
de cerca de dois mil surdos - eu nunca tinha uisto tantos surdos juntos - e 
ali eu 6 que era o estranho! N8o falaua como eles, n8o entendia o que 
diziam, sentia-me caminhando por urna tribo cuja lingua eu n8o conhe- 
cia, cujos costumes me eram alheios. Sequer sabia qua1 era a etiqueta: 
como 6 pedir desculpas, na lingua de sinais, quando a gente esbarra em 
algu6m? No inicio, essa dificuldade causou um certo constrangimento, 
mas logo comecei a circular no meio deles e a apreciar outras formas de 
contato e sociabilidade que, se eu n8o podia decodificar atrau4.s daquela 
lingua, porque eu n80 a dominaua, podiam ser entendidas por meio de 
outros ~6digos.~. 
0 s sujeitos ouvintes v2em os sujeitossurdos com curiosidade e, as vezes, 
zombam por eles serem diferentes. Wrigley (1996, p. 71) explica que a politica ou- 
vintista5 prevaleceu historicamente dentro do modelo clinic0 e demonstra as taticas 
de atitude reparadora e corretiva da surdez, considerado-a como defeito e doenqa, 
sendo necessario de tratamentos para "normaliza-la": 
[...I surdos s8o pessoas que ouuem com ouuidos defeituosos. Se pud4.s- 
semos consertar os ouuidos, eles estariam ouuindo. Esta Iogica comum 
na uerdade 6 comum, mas n8o necessariamente Iogica. 0 s negros s8o 
pessoas brancas que possuem pele escura. Se pudhemos consertar a 
pele, eles seriam brancos. As mulheres s8o homens com genithria erra- 
da ...; e por ai uai. Essas transposi~6es cruas reuelam um tecido social de 
prhticas pelas quais n6s sabemos quais identidades s8o tanto disponiueis 
quanto aceithueis. 
Aporilo aqui um exemplo de urna famflia ouvinte de urna surda que foi levada 
ao medico com a esperanqa de ter possibilidade de fazer urna cirurgia para a "cura" 
. I 
Fonte: http://www. n-a-u. org/AntropologiaUrbanadesafiosmei~opole. hhnl 
Ouvintista: segundo Skliar, "6 um conjunto de representagbes dos ouvintes, a partir do qua1 o surdo esta obrigado a 
I 
olharse e narrar-se como se fosse ouvinte". (1998, p. 15) 
de sua "surdez" e o medico alegou que nfio poderia operar devido as alergias no 
sistema nervoso da menina surda: 
Voltamos para casa e ao chegar comeCou aquela choradeira de novo, e 
eu mais urna vez sem entender por que todos tinham que chorar, Angela 
tentaua me explicar que as pessoas estavam tristes por que eu n80 poderia 
ouuir como urna pessoa ouvinte. Foi muito dificilpara eu entender o que 
acontecia com eles. (VILHALVA, 2001 p. 26). 
Para essa comunidade ouvinte, o nascimento de urna crianqa surda e urna 
catastrofe porque estfio acostumados com padrfio L'normalizador" para integrar 
a vida social e tambem desconhecem o "mundo dos surdos". Por outro lado, na 
maioria das vezes, o povo surdo acolhe o nascimento de cada crianqa surda como 
urna dadiva preciosa e nfio agem como os pais ouvintes que sofrem exagerada- 
mente o desapontamento inicial de gerarem seus filhos surdos, isto e evidenciado 
nas varias geraqbes de famflias com todos Js membros surdos. 
Voltando ao assunto, segundo o discurso ouvintista, o sujeito surdo para estar 
bem integrado a sociedade, deveria se adaptar a cultura ouvinte, porque somente 
assim poderia viver "normalmente". Se nfio conseguir, e considerado "desviante", 
conforme o fato ocorrido com a professora surda Teresa: 
[...I sabia falar, graGas a terapia de fala, desde os 4 anos de idade e por 
ser filha de pais ouvintes e ter seguido, desde muito cedo, a oralidade. 
No entanto, a minha pronlincia era defeituosa. As rea~bes dos alunos, 
alguns a rirem e outros atrapalhados, atingiram-me em cheio como se 
fossem balas. foi por um triz que n8o fugi porta fora. Abri a tempo o meu 
escudo invisivel. EIes acabariam por se habituar a minha fala, era s6 urna 
quest80 de tempo. (OLNEIRA, 2007).6 
Al6m disso, ha os discursos social que veem sujeitos surdos como incapazes e 
deficientes, cito dois acontecimentos recentemente: eu junto de um grupo de alunos 
surdos que passaram vestibular para LetraslLibras conversar com uma assistente 
social da universidade para verem alojamento para eles, elucidei a ela que sou 
doutoranda e eles alunos da gradua~do e finalizei explicando o motivo de estar 
16, a assistente social pegou papel para fazer cadastro e perguntou para nos: 
"vocb sabem ler?", abismada expliquei de novo que sou doutoranda e eles tem 
Fonte: http://profsurdogoulao. blogspot. c o d * 
f 
As irnagens do outro sobrea cultura surda 0s surdos tern cultura? 
graduaqdo, ela repetiu a pergunta ... lrritei-me: "pensa que somos analfabe- 
' ~ o s ? " ~ 
Um sujeito surdo foi a uma consulta medica, o medico fezperguntaspara escrever 
o histbrico da vida dele: ''qua1 o seu grau de instruqdo?" 0 paciente surdo respon- 
deu que estaua fazendo mestrado, mgdico articulou abismado: "voc&? Mestrado?" 
como se ndo acreditasse da resposta. Que tip0 de representaqdo social o medico tem 
de sujeitos surdos? Seres que ndo sdo capazes de estudarem e fazerem mestrado? 
Dentro do povo surdo, os sujeitos surdos n5o diferenciam um de outro de acor- 
do com grau de surdez, e sim o importante para eles k o pertencimento ao grupo 
usando a lingua de sinais e cultura surda que ajudam a definir as suas identidades 
surdas, menciono um fragment0 da dissertaqgo do pesquisador surdo Miranda 
(2001, p. 8): 
Sou surdo! 0 meu jeito de ser jh marca a diferenp! [...I Ser surdo, viuer 
nas diferentes comunidades dos surdos, conhecer a cultura, a lingua, 
a histbria e a representa~do que atua simbolicamente distinguindo a n6s 
surdos e a comunidade surda k uma marca~do para sustentar o tema e m 
questdo. 
Cultura surda 6 o jeito de o sujeito surdo entender o mundo e de modifica-lo 
a fim de se tornblo acessivel e habitavel ajustando-os com as suas percep~bes vi- 
suais, que contribuem para a definiq50 das identidades surdas8 e das "almas" das 
comunidades surdas. Isto significa que abrange a lingua, as idkias, as crenqas, os 
costumes e os habitos de povo surdo. Descreve a pesquisadora surda: 
1.. .] As identidades surdas sdo construidas dentro das representa~6es 
possiveis da cultura surda, elas moldam-se de acordo corn o maior ou 
menor receptividade cultural assumida pelo sujeito. E dentro dessa re- 
ceptividade cultural, tambkm surge aquela luta politica ou consci&ncia 
oposicional pela qua1 o individuo represents a si mesmo, se defende da 
homogeneiza~do, dos aspectos que o tornam corpo menos habitbvel, da 
sensa~do de invalidez, de inclusdo entre os deficientes, de menosvalia 
social. (PERLIN, 2004, p. 77-78) 
' 0 s exemplos citadas nas hases em italic0 no transcurso dos textos do atual livro, na maioria das vezes s&o os meus 
pr6prios depoimentos das experiencias vivenciadas e vistas na cornunidade surda durante a trajet6ria da minha vida 
como "ser surda". 
Para saber mais, ler a respeito das identidades surdas em PERLIN, Gladis T. T. ldentidades surdas. In Skliar Carlos 
(org.) A Surdez: urn olhar sobre as diferen~as. Porto Alegre: Editora Media@o, 1998 
0 essencial 6 entendermos que a cultura surda 4 como algo que penetra na pele 
do povo surdo que participa das comunidades surdas, que compartilha algo que 
tem em comum, seu conjunto de normas, valores e de comportamentos. 
0 que e quais seriam estas normas e valores que tanto fazemos referencia neste 
livro? Por que os sujeitos surdos se comportam difefente dos sujeitos ouvintes? Antes 
de refletirmos sobre estes questionamentos, primeiro gostariamos de abordar como 
a cultura surda 4 transmitida. 
Devido As proibiq6es de compartilhar uma lingua cultural do povo surdo em 
resultado emitido pel0 Congresso Internacional de Educadores de Surdos ocorrido 
em Milgo, na Italia, no ano de 1880, o uso de-lingua de sinais foi definitivamente 
banido a favor da metodologia oralista nas escolas de surdos. 
As crianps surdas n5o podiam participar nas comunidades surdas e, inicialmente, 
I os espaqos compartilhados eram os dormit6fios das instituiqges e asilos, onde os su- 
jeitos surdos eram entregues pelas familias em regime de internato, at4 que estivessem 
aptos para retornar para o convivio familiar, o que, invariavelmente acontecia no inicio 
da idade adulta, assim como citam Padden e Humphries (2000, p. 6): 
Nos dormitbrios, distantes d o controle estruturado da sala d e aula, 
as crian~as surdas sdo introduzidas a vida social das pessoas Surdas. 
No ambiente informal d o dormitbrio aprendem ndo somente a lingua de 
sinais mas o contelido da cultura. Desse modo, as escolas tornam-se centros 
d e atividades das comunidades que as cercam, preservando a prbxima 
gerapio a cultura das gera~6es anteriores. 
Muitas vezes o process0 de transmiss20 cultural de surdos ocorre 
com muitos sujeitos surdos somente na idademais avanqada, ja adultos, 
porque a maioria dos surdos tem famflia ouvintes, ou pela imposiq20 
ouvintista nem freqiientam as escolas de surdos e ficam sem contato por 
muito tempo com a comunidade surda. 
As comunidades surdas no Brasil t8m uma longa hist6ria. 0 povo surdo brasi- 
leiro deixou muitas tradi~6es e hist6rias em suas organizaq6es. Estas organizaq6es 
iniciaram diante de uma necessidade do povo surdo ter um espaqo para se reunir e 
resistir contra as praticas ouvintistas que n5o respeitavam sua cultura. Essas organi- 
zaqbes - as associaq6es de surdos, federaq6es de surdos, igrejas e outros - tambdm 
I' 
As imagens do outro sobre a cultura surda 0s surdos tern cultura? 
Alunos surdos eram internos nesta escola, 
onde que nos dormitorios longe das vigilincias, aprendem nio somente 
a lingua de sinais, mas tambem o contetjdo da cultura. (Foto do acervo INES) 
tiveram e tem o papel importante que 6 a transmissiio cultural, esportiva, politica, 
religiosa e fraternal pelos povos surdos. 
A cultura surda exprime valores, crenqa que, muitas vezes, se originaram e foram 
transmitidas pelos sujeitos surdos de gera~iio passada ou de seus lideres surdos bem 
sucedidos, atravks das associa~des de surdos. Infelizmente, elas niio siio procuradas 
pela familia que procuram as escolas primeiro, porque elas oferecem aos surdos o 
modelo ouvinte pr6xim0, isto 6, "normais", perante a sociedade ouvintista: 
[...I 0 s pais, entretanto, estdo numa fase de crise e d pouco prouhuel 
- - que sejam criticos relatiuamente aquele ponto de vista. Se o profis-sional 
descreuesse a comunidade dos surdos, tal descri~do seria em termos tdo 
concisos que na realidade os pais ndo ueriam uma alternatiua para o esta- 
tuto e destino da sua crianp. 0 especialista profissional e ospaispartilham, 
geralmente, a mama cultura dos ouuintes [...I. (LANE, 1992, p. 38). 
Ha grandes diversidades das comunidades surdas e cada grupo 6 organizado 
de maneiras diferentes de acordo com os mesmos interesses dentre eles, tais como 
a raGa, religigo, profissao e outras caracteristicas distintivas, assim como assevera 
o autor americano Wilcox: "Embora o termo cultura surda seja usado frequente- 
mente, isso n8o significa que todas as pessoas surdas no mundo compartilhem a 
mama cultura" (2005, p. 78). Isto significa que, al6m das varias associagdes de 
surdos ja existentes espalhadas em muitos lugares no mundo, ha, em Buenos Aires 
(Argentina), a associagiio dos surdos oralizados, em Estados Unidos a associaggo 
dos surdos negros, no Brasil a associa~des de surdos gays, comunidade dos surdos 
implantadosg e outros. 
Ao afirmarmos que os surdos brasileiros sdo membros de uma cultura 
surda ndo significa que todas qspessoas surdas no mundo compartilhem a 
mama cultura simplesmenteporque elas ndo ouuem. Ossurdos brasileiros 
sdo membros da cultura surda brasileira da mama forma que os surdos 
americanos sdo membros da cultura surda norte-americana. Esses grupos 
usam lfnguas de sinais diferentes, compartilham experigncias diferentes e 
possuem diferentes experi6ncias de vida. (KARNOPe 2006, p. 99) 
Surdos com Implante Coclear. 
Povo surdo ou comunidade surda? 
"...urn povo acontece quando as pessoas se 
unem em torno de um mesmo sonho. 
E precis0 devolver ao povo a capacidade 
de' sonhar para que ele volte a ser povo" 
(Santo Agostinho) 
Este capitulo proporciona o conhecimento da diferencia~go basica e de supra 
importiincia entre comunidade surda e o povo surdo. 
Pois a elucida~bo dessas duas express6es: "comunidade surda" e "povo surdo" 
6 um pensamento influente que esta se sobrepondo a qualquer outra explica$io, 
sendo referzncia e de interesse hs pesquisas cientificas e historicas, bem viva nos 
tempos atuais. 
E uma inquieta~bo em que muitos sujeitos tentam entender os muitos caminhos 
, que conduziram os grupos de sujeitos surdos hs suas rela~bes culturais presentes, 
I marcados por vis6es diferentes de organiza~Bo de seus movimentos. 
Muitos autores conceituam "comunidade surda" de forma ampla e variada. 
i 0 conceito, algumas vezes, tem sido usado como sinbnimo de grupos de surdos 
I 
que participam nas associa~6es, escolas e outras localiza~6es. EntSo porque alguns 
I autores citam "comunidade surda" enquanto outros citam "povo surdo"? 
A verdade 6 que muitos ja escreveram sobre comunidade surda elou povo 
surdo, e, no entanto, continuamos a fazer as mesmas perguntas. 
1( 
As imagens do outro sobre a cultura surda Povo surdo ou comunidade surda? 
Primeiro vamos refletir os conceitos dessas duas palavras, segundo dicionhio 
a Houaiss, o conceito da "comunidade" seria: 
[...I conjunto de habitantes de um mesmo Estado ou qualquergrupo social 
cujos elementos uiuam numa dada area, sob um gouemo comum e irmana- 
dos por um mesmo legado cultural e historico. [...I conjunto de indiuiduos 
que utilizam o mesmo idioma. I...] Agrupamento de pessoas que, num 
period0 especffico do tempo, usam a mama lingua ou o mesmo dialeto; 
essa comunidade pode coincidir com urna nacdo, se esta for monolingue, 
ou pode ser o conjunto de pouos que tem urna lingua em comum, ou gru- 
pos regionais, profissionais, etc. [...I conjunto de indiuiduos que, em razdo 
de fatores de natureza social - geogrhficos, historicos, culturais, raciais, etc. 
- t&m em comum certas caracteristicas que os distinguem de outros grupos 
no mesmo meio e na mama ocasido. (HOUAISS, 2005).1° 
E o conceito de "povo" seria: 
[...I conjunto de pessoas que falam a mama lingua, t&m costumes e inte- 
resses semelhantes, historia e tradic6es comuns. [...I conjunto de pessoas 
que uiuem em comunidade num determinado territ6rio; nacdo, sociedade 
[...I conjunto de indiuiduos de urna mesma ou de uhrias nacionalidades, 
agrupados num mesmo Estado. [...I conjuntos de pessoas que ndo habitam 
o mesmo pais, mas que estdo ligadas por urna origem, sua religido ou 
qualquer outro lace. (HOUAISS, 2005).11 
EntSo se o povo surdo 4 grupo de sujeitos surdos que usam a mesma lingua, 
que tkm costumes, histbria, tradiqdes comuns e interesses semelhantes, entSo o que 
seria a comunidade surda? 
Para os autores surdos americanos, Padden e Humphries (2000, p. 5), 
Uma comunidade surda 6 um grupo de pessoas que uiuem num determi- 
nado local, partilham os objetiuos comuns dos seus membros, e que por 
diuersos meios trabalham no sentido de alcan~arem estes objetiuos. Uma 
comunidade surda pode incluir pessoas que ndo sdo elas proprias Surdas, 
mas que ap6iam atiuamente os objetiuos da comunidade e trabalham em 
conjunto com as pessoas Surdas para os alcan~ar. 
Continuando com os mesmos autores, Padden e Humphries (2000, p. n5) 
estabeleceram urna diferen~a entre cultura e comunidade: 
lo Fonte: http://houaiss. uol. corn. brbusca. jhtm?verbete=cornunidade&stype=k. 
l1 Fonte: http://houaiss. uol. corn. brbusca. jhtm?verbete=povo&x=15&y=ll&stype=k. 
[...] urna cultura e um conjunto de comportamentos apreendidos de um 
grupo de pessoas que possuem sua propria lingua, ualores, regras de 
comportamento e tradicdes; urna comunidade B um sistema social geral, 
no qua1 um grupo de pessoas uiuem juntas, compartilham metas comuns 
e partilham certas responsabilidades umas com as outras. 
Conforme Padden e Humphries (2000), na comunidade surda tambkm pode 
haver sujeitos surdos e ouvintes. Ja os membros de urna cultura surda comportam-se 
como sujeitos surdos e compartilham entre si das crenps de sujeitos surdos, sendo 
estes membros pertencentes ao povo surdo. 
EntSo entendemos que a comunidade surda de fato nSo 6 s6 de sujeitos surdos, 
ha tambkm sujeitos ouvintes- membros de famflia, intkrpretes, professores, amigos e 
outros- que participam e compartilham os mesmos interesses em comuns em urna 
determinada 1ocalizaqSo. 
I 
Em que lugares? Geralmente em assoc?aqSo de surdos, federaqdes de surdos, 
igrejas e outros. 
Surdos ... Urn povo? Que tipos de povo seriamos nos? 
Quando pronunciamos "povo surdo", estamos nos referindo aos sujeitos surdosque nSo habitam no mesmo local, mas que estho ligados por urna origem, por um 
c6digo dtico de formaqSo visual, independente do grau de evoluqho lingiiistica, 
tais como a lingua de sinais, a cultura surda e quaisquer outros laqos. 
Se urna lingua transborda de urna cultura, 6 um mod0 de organizar urna 
realidade de um grupo que discursa a mesma lingua como elemento em comum, 
concluimos que a cultura surda e a lingua de sinais seriam urna das referkncias do 
povo surdo. 
Agora que ja sabemos o conceito de povo surdo e comunidade surda, separada- 
mente, refletiremos agora a diferenqa entre ambos. Para urna compreensSo melhor 
citarei exemplo de diferen~a de outro tip0 de comunidade e povo: a comunidade 
alemS e o povo alemho. 
As comunidades alemSs no Brasil seriam as col6nias situadas em Santa Ca- 
tarina ou Parana, onde eles tkm escolas alemhs, cultura alemS e lingua alemh e o 
povo seriam os imigrantes alemhes espalhados pel0 Brasil, que nho habitam no 
mesmo local, mas que estho ligados por urna origem, tais cqmo a lingua alemh, 
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As imagens do outro sobre a cultura surda Povo surdo ou comunidade surda? 
costumes dospovos, fazendo com que os diferentes se fundam ao context0 
s6cio-historico e se tornem nada mais e nada menos do que sempre foram 
ndo so aos olhos da natureza, mas tambdm aos olhos daquilo que todas 
religides definem com Deus: iguais. (2001, p. 39-40) 
Quando estamos descrevendo sobre os sujeitos surdos que vivem no Brasil, 
que usam a mesma lingua de sinais do Brasil, que t6m costumes, historia, tradiq6es 
comuns e interesses semelhantes estamos nos referindo ao Povo Surdo do Brasil! 
Nos, brasileiros, somos um pouo em ser, impedido de s&-lo. Um pouo 
mesti~o na carne e no espirito, ja que aqui a mesti~agem jamais foi crime 
ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Essa 
massa de natiuos uiueu por sdculos sem consci&ncia de si ... Assim foi at6 
se definir como uma nova identidade dtnico-nacional, a de brasileiro s... 
(RIBEIRO, 2005) 
Assim, para finalizar, o povo surdo s5o sujeitos surdos que compartilham os 
costumes, historia, tradiq6es em comuns e pertencentes 21s mesmas peculiaridades 
culturais, ou seja, constroi sua conceps5o de mundo atraves do artefato cultural 
visual, isto e, usuarios defensores do que se diz ser povo surdo, seriam os sujeitos 
surdos que podem n5o habitar no mesmo local, mas que est5o ligados por um 
codigo de formaq5o visual independente do nivel lingiiistico. 
0 que sucede e que quando os sujeitos surdos est5o em comunh5o entre eles, 
e quando compartilham suas metas dentro da associaqho de surdos, federa@es, 
igrejas e outros locais da o sentido de estarem em comunidades surdas. 
Nos, o povo surdo, queriamos a oficializa~do da nossa lingua de sinais, entdo 
para conseguir isto, muitas comunidades surdas brasileiras se reuniram e elaboraram 
esta lei e com isto foi oficializada a Lei da LIBRAS n. 10. 436, de 24 de abril de 
2002 que beneficia ao pouo surdo brasileiro. 
0 "pouo" surdo d alegre. Taluez porque tenha havido muito sofrimento 
em sua infhncia. Eles t&m prazer em se comunicar e se alegram sempre. 
Em um patio de recrea~do ou em um restaurante, um grupo de surdos 
que falam d algo incriuelmente uivo. Falamos, falamos, exprimimo-nos Zls 
uezes durante horas. Como se tiukemos uma sede inesgothuel de dizer as 
coisas, das mais superficiais as mais sdrias. 0 s surdos teriam me chamado 
de "Flor que chora", caso eu ndo tiuesse tido acesso 6 sua comunidade 
lingiiistico. A partir dos sete anos tomei-me fahnte e luminosa. A lingua 
de sinais era minha luz, meu sol, ndo pararia mais de me exprimir, aquilo 
saia, sofa, como uma grande abertura em dire~do a luz. Ndo conseguia 
mais parar de falar com as pessoas. Tomei-me "0 sol que vem do cora~do". 
Era um belo sinal. (LABORIT, 1994, p. 75) 
0 s artefatos culturais do povo surdo 
Conhecer o mundo pela visa0 significa, ainda, 
desenvolver urn c6digo visual corn o qual os surdos 
, associam significado e significante 
a partir das informaq6es visuais que extraem do meio. 
(Sandra Patricia de Farias) 
Retomando as reflexbes questionadas: o que e quais seriam estas normas e 
valores do povo surdo e por que os sujeitos surdos se comportam diferente dos 
sujeitos ouvintes? E com isto, trazemos a baila alguns "artefatos culturais" que sZo 
as peculiaridades da cultura surda. 
0 que seriam artefatos culturais? A maioria dos sujeitos est5o habituados a 
apelidar de "artefatos" os objetos ou materiais produzidos pelos grupos culturais, de 
fato, n5o s5o s6 formas individuais de cultura materiais, ou produtos definidos da 
I 
m5o-de-obra humana; tambkm podem incluir "tudo o que se v& e sente" quando se 
est6 em contato com a cultura de uma comunidade, tais como materiais, vestuario, 
1 maneira pela qua1 um sujeito se dirige a outro, tradiq6es, valores e normas, etc. 
~ Segundo constatamos em diversos autores nos campos dos Estudos Culturais, 
o conceit0 "artefatos" n5o se referem apenas a materialismos culturais, mas hquilo 
i 
que na cultura constitui produqbes do sujeito que tem seu pr6prio mod0 de ser, ver, 
entender e transformar o mundo. ~ Traqo comum em todos os sujeitos humanos seria o fato de que somos todos 
i artefatos culturais e, assim, os artefatos ilustram uma cultura,, - 
As irnagens do outro sobre a cultura surda 0 s artefatos culturais do povo surdo 
Vou citar alguns artefatos mais importantes que ilustram a cultura do povo 
, surdo isto 6, as suas atitudes do ser surdo, de ver, de perceber e de modificar 
o mundo. 
4.1 Artefato culturalr erperi8ncia ui8ual 
0 primeiro artefato da cultura surda 6 a experizncia visual em que os sujeitos 
surdos percebem o mundo de maneira diferente, a qual provoca as reflex6es de 
suas subjetividades: De onde viemos? 0 que somos? E para onde queremos ir? 
Qua1 6 a nossa identidade? 
Quando fazemos refergncia a identidade cultural, referimo-nos ao sentimento 
de pertencimento a urna cultura, isto 6 na intera~3o do sujeito surdo com a sua 
comunidade, assim como reflete Hall (2004), 6 a representa~go que atua simbo- 
licamente para classificar o mundo e nossas rela~bes no seu interior. Vou elucidar 
um exemplo de urna situa~3o ocorrida comigo: 
Uma vez meu namorado ouvinte me disse que iria fazer uma surpresa para 
mim pelo meu aniverstrrio; falou que iria me levar a um restaurante bem rom6ntico. 
Fomos a um restaurante escolhido por ele, era um ambiente escuro com velas e 
gores no meio da mesa, fiquei meio constrangida porque nfio conseguia acompanhar 
a leitura labial do que ele me falava por causa de falta de ilumina~fio, pela fumap 
de vela que desfocava a imagem do rosto dele, que era negro; e para piorar, havia 
um homem no canto do restaurante tocando musica que, sem poder escutar, me 
irritava e me fazia perder a concentra~tio por causa dos movimentos dos dedos 
repetidos de vai-e-vem com seu violino. 0 meu namorado percebeu o equivoco e 
resolvemos ir a urna pizzaria! 
Segundo Wilcox, o professor e escritor surdo americano, Ben Bahan propas que 
os sujeitos surdos comeGassem a ser chamadas de "pessoas visuais": 
Usando essa palavra eu me coloco na posi~go das coisas que eu posso 
fazer ao invks das que n&o posso fazer. Identificando-me como urna 
pessoa visual, isso explicaria tudo ao meu redor: os aparelhos TDDs, os 
decodificadores, as campainhas luminosas, a leitura labial e a emergkncia 
de urna lingua visual, a lingua de sinais americana (2005, p. 17). 
0 s sujeitos surdos, com a sua aus6ncia de audi~iio e do som, percebem o 
mundo atrav6s de seus olhos, tudo o que ocorreao redor dele: deste os latidos de 
um cachorro - que 6 demonstrado por meio dos movimentos de sua boca e da 
express30 corporeo-facial bruta - at6 de urna bomba estourando, que 6 obvia aos 
olhos de um sujeito surdo pelas altera~6es ocorridas no ambiente, como os objetos 
que caem abruptamente e a fuma~a que surge; deste mod0 complementam autores 
surdos Perlin e Miranda (2003, p. 218): 
Experikncia visual significa a utiliza~iio da vis&o, em (substitui~20 total 
a audiqao), como meio de comunica@o. Desta experizncia visual surge 
a cultura surda representada pela lingua de sinais, pelo mod0 diferente 
de ser, de se expressar, de conhecer o mundo, de entrar nas artes, no 
conhecimento cientifico e acad&mico. A cultura surda comporta a lingua 
de sinais, a necessidade do intbrprete, de tecnologia de leitura. 
Estas percepq6es visuais abrangem, atraves de express6es faciais 
e corporais, das atitudes dos seres vivos e de objetos em diversas 
circunstbncias. De minha vida surda cotidiana, escolho outro episodio que 
ocorreu comigo para a melhor compreensso da acepq6o deste artefato 
visual: 
Eu estava sentada em sala de aula, em urna classe com outros alunos ouuintes, 
'blhando" distraidamente para os movimentos dos ltrbios da professora que estaua 
falando; de repente, a professora parou subitamente de mouimentar os lirbios e 
virou o rosto assustado para a janela. Percebi que toda a turma fazia o mesmo e 
todos correram para olharpela janela. Eu, meio desnorteada e curiosa, fiz o mesmo 
para ver o que provocou toda a algazarra da turma e percebi tardiamente que tinha 
I 
acontecido uma batida de carro Itr fora. 
Faqo menq5o de outro exemplo parecido, referentes a experigncia visual de 
urna crian~a surda ilustrado no livro "Surdo na Amkrica: Vozes de urna Cultura" 
pelos autores surdos Padden e Humphries (2000, p. 21): 
[...I Jim sentado numa sala pr6ximo de urna porta. De repente sua mge 
aparece, caminhando propositadamente at6 a porta. Ela abre a porta, e 
ha urna visita aguardando na entrada. Mas se a crian~a abrir a porta num 
outro momento, 6 provavel que nenhuma visita esteja la. Como a crian~a, 
que n&o ouve a campainha, entende qual 6 o estimulo para o provavel 
comportamento de abrir a porta e encontrar algukm awardando la? 
As imagens do outro sobre a cultura surda 0 s artefatos culturais do povo surdo 
Poderiamos citar varias ocorrgncias com criansas surdas que nbo 
tgm contato com sujeitos surdos adultos e nem com a comunidade 
surda. Citarei ca um ocorrido em especial com esta criansa surda, 
que corno quaisquer outras criansas, enchem seus pensamentos de 
curiosidades e dlividas sobre tudo o que acontece ao seu redor, s6 
que, corno ela 4 a dnica surda e todos os membros da famflia sbo 
ouvintes, muitas vezes, as suas curiosidades nbo sbo satisfeitas pela 
barreira de comunicasbo. Entbo pode acontecer que ela comece 
a se questionar com estas dlividas: Eu vou crescer? Eu vou ser 
adulta? Eu vou morrer cedo? 
lsto acontece porque a criansa surda sabe que ela 6 diferente das outras pes- 
soas que ouvem, ela dirige seu 'blhar" ao seu redor na vida cotidiana, ela v& que 
tem vizinhos ouvintes, criansas ouvintes, balconistas ouvintes, policiais ouvintes, i 
professores ouvintes, medicos ouvintes, pessoas de famflia ouvintes, at6 os bichos 
sbo ouvintes e ela propria 6 diferente. E corno ela nunca viu um adulto surdo a 
I quem possa ter um vinculo identificatorio, ela pode chegar a conclusbo de que vai 
morrer, ja que nbo existem adultos surdos. 
E complexo para estas criansas surdas que nbo tgm acesso as informasbes roti- , 
neiras pela barreira de comunica~bo, assim corno o sueco lingiiista surdo afirma: 
Se os surdos t&rn contato corn a lingua de sinais desde cedo; assirn a crianca 
surda poderia sentir corno as outras crian~as, fazer perguntas e obter as 
respostas, ou seja, a curiosidade da crian~a surda sera satisfeita rnuitas 
vezes e ter6 rnaior acesso 6s inforrnaq5es. (WALLIS, 1990, p. 16) 
Mais uma vez, cito uma experisncia visual durante minha infdncia surda: i 
Uma uez a empregada dom6stica estaua lauando o quintal no fundo de casa e 
eu ficaua sentada obseruando a hgua suja de lama e sabiio correndo at6 o bueiro. 
No meio data sujeira estaua um bicho estranho de mais ou menos de uns seis 
centimetros que estaua morto. Assustei-me porque o associaua com o bicho que ui 
na televisiio noutro dia, jacar6 enorme que comia as pessoas e tiue muitas noites 
de insbnias com medo da existgncia deste bicho no nosso quintal e que uiria me 
pegar e me comer. S6 agora eu entendo que niio era jacar6 e sim simplesmente 
uma lagartixa. Niio hauia ningu6m que me informasse sobre isto. 
]Isto mostra a necessidade de refletirmos com seriedade na importdncia de 
trazer as criansas surdas ao contato com surdos adultos para criarem um vinculo 
identificatorio cultural, a fim de evitar que esta habitual duvida surgida com o 'blhar" 
ao seu redor na vida cotidiana possa pesar nas suas reflexbes e provocar futuras 
anglistias e ansiedades. Afirmam Freeman, Carbin e Boese: 'tAs pessoas surdas 
ugem o mundo de maneira diferente, em alguns aspectos, porque suas vidas siio 
diferentes. Enquanto as criangas surdas uiio amadurecendo, elas n6o encontram 
modelos satisfatorios dentro de sua familia". (1999, p. 222) 
Este contato criansa surda X adultos surdos, atraves de urna lingua em 
comum, que e a lingua de sinais, 6 que proporcionara o acesso a linguagem e desta 
forma, estara tambem assegurada a identidade e a cultura surda, que 6 transmitida 
naturalmente a criansa surda em contato com a comunidade surda. 
0 s autores surdos Padden e ~ u m ~ h r i e ~ (2000, p. 22) explicam que pode haver 
interpreta~bes diferentes de urna mesma situa~bo, dos sujeitos surdos e ouvintes; 0s 
sujeitos surdos interpretam visualmente, enquanto os sujeitos ouvintes estbo mais 
voltados para a audisbo: 
Urna colher cai e provoca urn sorn quando bate no chdo. AlguCrn a junta, 
mas ndo sirnplesrnente por que ela prouocou urn sorn mas porque saiu 
fora de vista. Ofazendeiro sai para ordenhar as vacas ndo sornente por- 
que elas fazern barulho, mas porque C o arnanhecer, a hora reservada 
para ordenhar. 
Muitas vezes a sociedade dificulta a participasgo dos sujeitos 
surdos, deixando de colocar muitos recursos visuais que promovem suas 
acessibilidades em varios espasos. Cito urna situasgo narrada pela surda 
em urna agencia de banco onde, pela falta de um painel que ilustra o 
numero das senhas da fila para atendimento, a funcionaria esqueceu de 
que havia urna pessoa surda aguardando para ser atendida: 
Cheguei ao banco e peguei a senha de prioridade, avisei a mop do caixa, 
pois nco tinha painel para ver a charnada, fiquei aguardando sentada no 
local reservado e fui vendo que ela ia charnando as pessoas e nada de 
chegar rninha vez. De repente, levantei e disse para a mop do caixa: 
mop, rneu nurnero k 54. Ela disse: Oh! Desculpe esqueci-me de voc& e j6 
passararn rnuitos nurneros, fica ai do lado que logo te atendo. (SHIRLEY 
VILHALVA) l3 
I' 
As imagens do outro sobre a cultura surda 0s artefatos culturais do povo surdo 
Quando tem mudanqas de horarios ou de locais de 8nibus ou avi6es sendo 
anunciados pel0 microfone, os sujeitos surdos geralmente os perdem por ngo terem 
avisos escritos, como em um episodio que ocorreu comigo: 
Eu estava retornando para minha cidade num avido que desceu em Sdo Paulo 
para urna conexdo com outro avido, 16 no Aeroporto de Guarulhos - SP; apelei 
para o atendimento especial porque o aeroporto era muito grande e hauia poucos 
recursos visuais que facilitassem a minha acessibilidade e com isto eu perdia muitas 
informa~6es ditaspelo alto-falante. Entdo a moGa do atendimento especial me deixou 
na sala vip, alegando que o meu avitio estava atrasado. Fiquei esperando 16 na sala 
sozinha cerca de 4 horas seguidas e, quando algukm apareceu na sala e me uiu la, 
perceberam que esqueceram de mim e o meu avido ja tinhaido ha 3 horas. 
Tem algumas atitudes acerca da percepqgo visual entre os sujeitos surdos, por 
exemplo, durante a conversa ficar de frente a frente 6 urna circunsthncia muito va- 
lorizada pelo povo surdo, ngo importando a disthncia, por isso eles evitam virar as 
costas enquanto estgo em interaqgo; se isto ocorre e considerado como insult0 ou 
desinteresse. Tambdm quando estgo conversando distantes um de outro e alguem 
"corta" neste espaqo visual ficando de obstaculo no meio, 6 considerado urna grave 
falta de educa@o para a comunidade surda. 
Tem ocasi6es quando os sujeitos surdos perdem seu campo visual, por exemplo, 
quando apagam a luz ficam desnorteados e em apuros 
[...I um grupo de surdos, do qua1 eu fazia parte, foi uisitar uns arnigos. 
I...] a luz do corredor apagou-se. [...I comeCou o panico. Ndo sabiarnos 
onde se encontrava o interruptor daquele andar e ndo podiamos combinar 
quem de n 6 deueria procura-lo. E se cada um de nos s t 6 esperando pelo 
outro para acender a luz? E s e eu ndo o fizer, e ninguem mais tambkm, 
por quanto tempo ficaremos nessa escuriddo? Parece que todos tiveram 
o mesmo pensamento e sairam a procura do interruptor. ~ r a m o s seis e 
ficarnos esbarrando uns nos outros, sem poder nos cornunicar. Essa situa- 
 do acabou quando um morador entrou no prkdio, por acaso, e acendeu 
a IUZ. (STRNADOVA, 2000, p. 194) 
Eu trago urna situaqgo que ocorreu comigo: 
l3 Agradefo a Shirley Vilhalva pela conbibui@o de sua narrativa como exemplo para este livro. 
r' 
Durante urna viagem, fui ao banheiro dentro de Gnibus, o mesmo era de dois 
andares e o banheiro ficava embaixo. Fiquei presa dentro de banheiro, entrei em 
phnico, porque tudo era fechado sem janelas, era noite e ia demorar uns 3 horas 
para chegar ao meu destino e quando chegar, como avisar ao motorists que estou 
presa? E se me chamarem? Como poderei ouvir? Como posso "ver" se estdo me 
ouvindo e se estdo me chamando? E como vou explicar a eles se ndo posso "ver" 
a resposta deles? Bati com fo r~a na porta, esmurrei a porta com pontapd.. Fiz o 
maior barulho, achando que havia pessoas la fora me aguardando com curiosidade e 
tentando me ajudar. Depois de duas horas, consegui abrir a porta, e vi que ningukm 
percebeu que estava presa, e nem ouviram o meu barulho, sera que houve barulho 
ou era a minha irnagina~do? 
Voltando a expressgo facial e corporal, eles tambem podem desempenhar outro 
papel de suma importhncia na conversaqfiolem lingua de sinais como urna forma de 
transmissgo de mensagens atraves de um context0 que ngo procede da oralidade, 
mas do corpo e de expressao do rosto que funciona algumas vezes, como meio de 
reforqar urna ideia que esta sendo transmitida 
Por exemplo, para constituir tipos de frases na oralidade, percebe-se quando a 
frase esta na forma afirmativa, exclamativa, interrogativa, negativa ou imperativa 
atraves da entonaqgo da voz; no caso de lingua de sinais precisamos estar atento 
a express6es facial e corporal que sgo feitas simultaneamente com certos sinais ou 
com toda a frase. 
Inclusivamente os surdos oralizados14 tambem t6m este artefato cultural visual, 
a maioria deles se apoia na percepqgo visual para ler nos movimentos dos labios 
do interlocutor que articula as palavras e frases da lingua portuguesa. Eles formam 
movimentos para lutar pelos seus direitos de terem legendas em varios programas 
de televisgo e DVDs, mais um dos recursos visuais apelados por eles. 
'Tharnamos de "surdos oraliados" aqueles que n i o convivern corn a comunidade surda e n io usam a lingua de 
sinais, estes se comunicam sornente atraves da fala, escrita e de leitura labial. Tarnbem quero ressaltar que tem rnuitos 
sujeitos surdos que convivem nas cornunidades surdas e usam lingua de sinais tambem sFio oralizados, para estes 
charnarnos de "surdos". I' ,. 
As imagens do outro sobre a cultura surda 0s artefatos culturais do povo surdo 
4.2 Arteiato culturalt lingCii$tico 
0 segundo artefato cultural do povo surdo 6 o lingiiistico, a lingua de sinais e 
um aspect0 fundamental de cultura surda. No entanto incluem tambem os gestos 
denominados "sinais emergentes" ou "sinais caseiros"15 dos sujeitos surdos de zonas 
rurais ou sujeitos surdos isolados de comunidades surdas que procuram entender o 
mundo atraves dos experimentos visuais e se procuram comunicar apontando e criam 
sinais, pois ndo tern conhecimentos de sons e de palavras. Cito situasbes que ocorre 
com estes sujeitos surdos descritos acima: 
Um sujeito surdo em zona rural, isolado da comunidade surda e que nunca 
aprendeu a lingua de sinais, a falar ou escrever, sem ter a no~do de horas e dias de 
semana. , observa ao seu redor que tem um dia da semana em que asfrutas sempre 
sdo colhidas, o dia certo de ir a igreja, os dias em que o caminhdo vem pegar o lixo 
e de quando o sol aparece no horizonte e a hora de ordenhar e pegar ovos, etc. 
Ele acompanha esta rotina de acordo com o seu 'blhar" do dia-a-dia de sua vida e 
cria sinais que representam seu cotidiano. 
Para o sujeito surdo ter acesso as informaqbes e conhecimentos e para construir 
sua identidade 6 fundamental criar urna ligaqdo com o povo surdo em que se usa 
a sua lingua em comum: a lingua de sinais. 
A lingua de sinais 6 urna das principais marca da identidade de um povo surdo, 
pois 6 urna das peculiaridades da cultura surda, 4 urna forma de comunicasdo que 
capta as experiencias visuais dos sujeitos surdos, sendo que 4 esta lingua que vai levar 
o surdo a transmitir e proporcionar-lhe a aquisi~50 de conhecimento universal. 
Faso referencia, mais urna vez, a urna situasdo ocorrida comigo: em escola 
de ouvintes, albm de muitas outras disciplinas, eu tinha aulas de religiSio que ndo 
entendia muito, as iinicas coisas que sabia era que Deus era muito importante e, se 
morresse iria de ficar defrente com Ele, e isto me incomodava, me deixando muito 
ansiosa. Minha mde percebeu e me questionou, expliquei a ela atravbs de gestos e 
vocabularies isolados que, se eu morresse, corno Deus iria me entender? N6o sabia 
falar. Minha mde explicou que Deus entendia qualquer lingua. 
'"inais caseiros correspondem aos gestos ou construe0 simb6lica inventadas no ambit0 familiar, e comum a mnstitui@o 
de um sistema convencional de comunica@o entre mire-ouvinte e crianp-surda, a familia acaba lanpndo miro desse 
recurso apesar de muitas vezes niro aceitar a Lingua de Sinais por pensar que esta atrapalhara a aprendizagem da fala 
do seu filho. (ALBRES, p. 4, acesso em: 13 ago. 2007, h t t p : / / w . editora-arara-azul. corn. br/pdf/artigol5. pdf) 
Mas na verdade eu tinha urna lingua? 
Minha lingua era o portuguQ fragmentado e ininteligivel e gestos caseiros. 
Me apoio em Quadros: 'A lingua portuguesa ndo sera a lingua que acionara natu- 
ralmente o dispositivo devido, b falta de audi@o da crian~a. Essa crian~a ate podera 
vir a adquirir essa lingua, mas nunca de forma natural e espontenea, como ocorre 
com a lingua de sinais". (1997, p. 27). 
Quando um beb2 nasce surdo, ele desenvolve inicialmente as mesmas fases 
de linguagem que o bebe ouvinte: grito de satisfasdo, choro de dor e fome, emite 
sons sem significados ate mais ou menos seis meses de idade e quando chega a 
fase de balbucio 6 que comesa a ser diferenciado um do outro. Porque o bebe 
ouvinte, podendo ouvir os sons do ambiente ao redor de si tenta se comunicar 
emitindo sons, enquanto o bebe surdo, n5o ouve sons do ambiente e, por isto, as 
primeiras "palavra~~~ nbo surgem. ~onse~dentemente fica com a aquisisdo de Iin- 
1 guagem atrasada e limitada por falta de continuidade e acesso aos conhecimentos 
I e informas6es externas.16 
I 
Pelas pesquisas cientificas ja feitas nos Estados Unidos, na Europa e no 
Brasil, comprovaram que as criansas surdas de pais surdos se saem melhor no 
desenvolvimento da linguagem que as outras criansas surdas de pais ouvintes. ! 
Pois as mesmas n5o apresentam os problemas da defasagem de linguagem 
I 
I porque os pais surdosj a estdo se "comunicando" em lingua de sinais com 
I 
os filhos surdos o mais precocemente possivel, esclarecendo todas as suas 
I curiosidades naturais. 
I 
I 0 s sujeitos surdos que tern acesso a lingua de sinais e participa~do da co- 
munidade surda tem maior seguransa, auto-estima e identidade sadia. Por isto 6 
i importante que as criansas surdas convivam com pessoas surdas adultas em quem 
I 
I se identificarem e ter acesso as informaqbes e conhecimentos no seu cotidiano. 
Segundo Moura, Lodi e Harrison (apud LACERDA): 
I [...I a crianca (no contato corn rnodelos surdos adultos) ndo apenas tera 
I assegurada a aquisi~do e desenvolvirnento de linguagem, corno (tarnbem) 
l6 Para saber mais, ler livro: QUADROS, Ronice. Educa@o de surdos: a aquisi@o da linguagem, Porto Alegre: Artes 
Medicas, 1997. >' 
As imagens do outro sobre a cultura surda 0s artefatos culturais do povo surdo 
a integracdo de um autoconceito positivo. Ela ter6 a possibilidade de de- 
senvolver sua identidade como urna representacdo de integridade, ndo 
como a de falta ou de deficiencia I...] podendo se perceber como capaz 
e passive1 de vir a ser. Ela ndo ter6 de ir atrh de urna identidade que ela 
nunca consegue alcancar: a de ouvinte. (2000, p. 68). 
A lingua de sinais k transmitida nas comunidades surdas e, apesar de por muito 
tempo na hist6ria dos surdos ter sofrido a repress50 exercida pelo oralismo, a lingua 
de sinais n5o foi extinta e continuou a ser transmitida, de geraq5o em geraq50, pelos 
povo surdo com muita forqa e garra. 
A lingua de sinais k urna lingua prioritaria do povo surdo que 6 expressa atraves 
da modalidade espacial-visual. A partir da decada de 1950 iniciaram-se estudos 
aprofundados sobre as linguas de sinais corno, por exemplo, o do americano Willian 
Stokoe (1965) e, no Brasil, os ouvintes pioneiros e depois vieram os pesquisado- 
res surdos; corno, por exemplo, os ouvintes Lucinda Ferreira Brito (1986), Ronice 
Quadros (1995; 2004), Tanya Felipe (2002) e Lodenir Karnopp (2004) e os surdos 
lingiiistas Ana Regina e Souza ~ a m ~ e l l o (2007) e Shirley Vilhalva (2007), que pro- 
porcionaram a valorizaq50 da lingua de sinais, dando-lhe status como urna lingua 
legitima do povo surdo. 
No mundo todo, ha, pelo menos, urna lingua de sinais com suas variaqbes 
regionais usada amplamente na comunidade surda de cada pais, diferente daquela 
da lingua falada utilizada na mesma area geografica. 
A lingua de sinais do Brasil n5o pode ser estudada tendo como base a lingua 
portuguesa, porque ela tem gramatica diferenciada, independente da lingua oral. 
Neste artefato lingiiistico do povo surdo, a lingua de sinais tambkm pode passar 
pelas mudanqas hist6ricas - com o passar do tempo, um sinal pode sofrer alteraq6es 
decorrentes dos costumes da geraq5o surda que o utiliza - percebemos tal qua1 com 
a citaq5o de Padden e Humphries (2000, p. 74): 
Lembramos dos artistas Surdos de hoje, os poetas e contadores de hist6- 
ria de nossa gera~do, e a forma de prazer que eles levam a um publico, 
porem tambem estava claro que desde 1940 a performance sinalizada 
havia mudado. [...I os artistas de hoje sdo muito mais auto-conscientes, o 
que chamoriamos de analiticos, sobre sua linguagem [. . . j . 
(Uma surda dando palestra em lingua de sinais) 
Tem alguns detalhes curiosos na forma de como o povo surdo se comunicam: 
no 6nibus os sujeitos surdos comunicam-se atravks de vidro - um sujeito em fora 
e outro dentro de 6nibus; nas cidades, em praqas ou nas praias, sujeitos surdos 
forasteiros que n5o se conhecem uns aos outros procuram um ponto de encontro 
- onde tem urna roda de sujeitos surdos conversando - para encontrarem seus 
semelhantes. 
Outro artefato cultural lingiiistico interessante 6 que estso difundindo um siste- 
ma de escrita para escrever a lingua de sinais. Este sistema k conhecido pel0 nome 
de Sign Writing - SW e foi um fato hist6rico importante para o povo surdo, pois, 
As imagens do outro sobre a cultura surda 0s artefatos culturais do povo surdo 
outrora, diziam que a lingua desse povo era Agrafa. 
Ent5o o Sign Writing foi iniciado quando os pesquisadores de lingua de sinais da 
Dinamarca, depararam-se com os sistemas de escrita de dancas da Valerie Sutton, 
no ano de 1974, e a partir dai evoluiram muitas pesquisas em outros paises que 
chegaram a algumas escolas de surdos no Brasil. 
A pesquisa desse sistema Sign Writing - SW - no Brasil foi desenvolvida pela 
doutora surda Marianne Stumpf junto com os outros, o primeiro contato que ela 
teve com este sistema foi no ano de 1996 e em 2005 defendeu a sua tese com este 
tema. Este sistema agora 4 conhecido no Brasil como ELS "Escrita em Lingua de 
Sinais" . 
(Um graduado de LetrasILibras fazendo prova em SW / polo UFSC) 
Hoje ja tem disciplina de ELS em alguns cursos de graduaeo nas varias Univer- 
I 
I 
I sidades Federais do Brasil, por exemplo, em curso de licenciatura de LetrasILibras 
I utilizam esta disciplina em quinze polos espalhados pelo Brasil e assim este sistema 
de escrita se multiplica e difundida em varias comunidades brasileiras. 
Mesmo a despeito de mais de um s6culo de proibiq5o de seu uso nas escolas 
de surdos, preconceito e marginalizaq50 por parte da sociedade como um todo, as 
linguas de sinais resistiram, demonstrando a necessidade essencial de sua utilizaq5o 
I 
I pelos povos surdos. 
4.3 Artefato cultural^ familiar 
0 nascimento de uma crianqa surda e um acontecimento alegre na existgncia 
I 
I para a maioria das famflias surdas, pois 6 uma ocorrgncia naturalmente benquista 
1 pelo povo surdo que n5o vGem esta crianqa um "problema social" como ocorre 
I com as maiorias das famflias ouvintes. 
No entanto, os pais surdos ao levarem seus filhos surdos aos mkdicos e profis- 
i sionais da area e os mesmos os aconselham a n5o usarem a lingua de sinais alegando 
~ que isto provocaria atraso na aquisiqso de lingua portuguesa, encorajando-os a 
I colocarem aparelhos nos seus filhos argumentando que ouvir som e aprender a 
falar 6 melhor do que nada, assim asseguram autores Lane, Hoffmeister e Bahan 
(1996, p. 30): 
S e os profssionais oferecem tais estranhos conselhos, enxergando a crian~a 
surda ncio como um presente de Deus, mas como um problema, entcio os 
pais surdos que estcio seguros na sua identidade cultural, reconhecendo 
que eles t6m mais experigncia e conhecimento e m criar crian~as surdas 
d o que os profissionais que os aconselham, ignoram tais informa~6es. 
Ressegurados que nada foi encontrado de errado com sua crian~a, que 
ela B simplesmente surda, voltam para casa e prosseguem com suas vidas, 
cercados de recursos d o "Mundo-Surdo", que oferece suporte, encoraja- 
mento, e os meios para existir e contribui como um membro integro da 
sociedade, no mundo, de forma ampla, bem como no "Mundo-Surdo". 
I Enquanto isto, nas famflias ouvintes, durante a gravidez, fantasiam que o filho 
1 esperado e o mais bonito, perfeito, inteligente e ouvinte. Quando nasce um bebg, os 
1 membros da familia brincam, conversam e vivenciam todo o a ~ o r sentido por ele. 
As imagens do outro sobre a cultura surda 
Quando o medico apresenta o diagnostic0 da surdez, os pais ficam chocados, 
deprimem-se e culpam-se por terem gerado um filho dito "nSo normal" e ficam 
frustrados porque v&em nele um sonho desfeito. EntSo, essas familias alimentam 
esperansas de "cura" dessa "defici&nciam, ficam ansiosas e questionam sera que o 
meu filho surdo um dia ouvira? 
Sera que um dia ele falara igual h criansa ouvinte? 
Sera que um dia ele sera mais bem aceito pela sociedade? 
Sera que um dia o meu filho tera uma vida "normal"? 
Como vemos, t&m muitos "seras", nSo existem certezas neste caso, o que sabe- 
mos e que geralmente a familia desta criansa surda nSo procurara a comunidade 
surda, como explica Lane (1992, p. 21), no caso da criansa surda: 
Apesar da crianca surda que foi sujeita ao implante n6o se mover facil- 
mente n o mundo ouvinte, e pouco prov6vel que o

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