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1 2 Olá, Alunos! Sejam bem-vindos! Esse material foi elaborado com muito carinho para que você possa absorver da melhor forma possível os conteúdos e se preparar para a sua 2ª fase, e deve ser utilizado de forma complementar junto com as aulas. Qualquer dúvida ficamos à disposição via plataforma “pergunte ao professor”. Lembre-se: o seu sonho também é o nosso! Bons estudos! Estamos com você até a sua aprovação! Com carinho, Equipe Ceisc ♥ 3 2ª FASE OAB | PENAL | 41º EXAME Direito Penal SUMÁRIO Arrependimento posterior 1.1. Introdução ......................................................................................................6 1.2. Requisitos .......................................................................................................6 1.3. Critério para redução da pena ........................................................................7 1.4. Como pode cair ..............................................................................................8 1.5. Reparação do dano ou restituição da coisa em situações específicas...........8 1.6. Questões ........................................................................................................9 Crime Impossível 2.1. Introdução ....................................................................................................12 2.2. Crime impossível por ineficácia absoluta do meio ........................................12 2.3. Crime impossível por impropriedade absoluta do objeto ..............................13 2.4. Como pode cair ............................................................................................14 2.5. Questões: .....................................................................................................14 Erro de tipo 3.1. Erro de tipo essencial ...................................................................................17 3.1.1. Introdução .................................................................................................17 3.1.2. Erro de tipo essencial invencível, inevitável ou escusável ........................19 3.1.3. Erro de tipo essencial vencível, evitável ou inescusável ...........................20 3.1.4. Como pode cair .........................................................................................22 3.1.5. Questões: ..................................................................................................23 3.2. Erro de tipo acidental....................................................................................24 3.2.1. Erro sobre o objeto ....................................................................................25 3.2.2. Erro sobre a pessoa ..................................................................................26 4 3.2.2.1. Consequência.........................................................................................26 3.2.2.2. Como pode cair ......................................................................................27 3.2.3. Erro na execução (ABERRATIO ICTUS) ...................................................28 3.2.3.1. Introdução ..............................................................................................28 3.2.3.2. Aberratio ictus com unidade simples ......................................................29 3.2.3.3. Aberratio ictus com resultado duplo .......................................................30 3.2.3.4. Como pode cair ......................................................................................31 3.2.4. Resultado diverso do pretendido (aberratio criminis) ................................32 3.2.4.1. Conceito .................................................................................................32 3.2.4.2. Espécies .................................................................................................32 3.2.4.3. Como pode cair ......................................................................................33 3.3. Questões: .....................................................................................................34 3.4. Erro Provocado Por Terceiro ........................................................................36 Padrão Resposta...................................................................................................................... 38 Olá, aluno(a). Este material de apoio foi organizado com base nas aulas do curso preparatório para a 2ª Fase do 41º Exame da OAB e deve ser utilizado como um roteiro para as respectivas aulas. Além disso, recomenda-se que o aluno assista as aulas acompanhado da legislação pertinente. Bons estudos, Equipe Ceisc. Atualizado em julho de 2024. 5 6 Arrependimento posterior Prof. Nidal Ahmad @prof.nidal 1.1. Introdução Trata-se de causa obrigatória de diminuição da pena que incide quando o agente, responsável pelo crime praticado sem violência ou grave ameaça à pessoa, repara o dano provocado ou restitui a coisa, desde que por ato voluntário do agente, até o recebimento da denúncia ou da queixa. Difere do arrependimento eficaz, porque o arrependimento é manifestado após a consumação do delito até o recebimento da denúncia. Por isso, chama-se arrependimento posterior. 1.2. Requisitos a) Crime cometido sem violência ou grave ameaça à pessoa Nos termos do artigo 16 do Código Penal, cabe arrependimento posterior nos crimes praticados sem violência ou grave ameaça à pessoa. Não se restringe aos crimes contra o patrimônio, podendo ser aplicado a qualquer delito compatível com a reparação do dano decorrente da conduta do agente. Por isso, entende-se, por exemplo, possível a aplicação do arrependimento posterior no peculato doloso (CP, art. 312). Se a reparação do dano ou restituição da coisa foi realizada no contexto de crime praticado com violência ou grave ameaça, como o roubo, por exemplo, não incidirá o arrependimento posterior, podendo incidir a atenuante genérica prevista no art. 65, III, b, do CP. b) Reparação do dano ou restituição da coisa A reparação do dano ou restituição da coisa deve ser voluntária, pessoal e integral. A reparação do dano ou restituição da coisa deve ser realizada de modo voluntário. Não é necessário que seja espontâneo. Logo, pode ser por meio de conselho ou sugestão de terceiro, uma vez que o ato, embora não espontâneo, foi voluntário (aceitou o conselho ou sugestão porque quis). 7 A reparação do dano ou restituição da coisa deve ser sempre integral, podendo, no entanto, ser parcial mediante concordância da vítima. A recusa do ofendido em aceitar a reparação do dano ou restituição da coisa não impede a redução da pena pelo arrependimento posterior. c) Até o recebimento da denúncia ou queixa A reparação do dano ou restituição da coisa deve ser realizada até o recebimento da denúncia ou queixa. Trata-se de um limite temporal. Se a reparação do dano ou restituição da coisa ocorrer após o recebimento da denúncia ou da queixa, mas até sentença, aplica-se a atenuante genérica prevista no art. 65, III, b, do CP. O quadro abaixo ilustra os momentos de incidência dos institutos da desistência voluntária, arrependimento eficaz, arrependimento posterior e atenuante genérica. *Para todos verem: Esquema. Assim, se o agente subtraiu uma TV do seu local de trabalho e, ao chegar em casa com a coisa subtraída, é convencido pela esposa a devolvê-la, o que efetivamente vem a fazer no dia seguinte, mesmo quando o fato já havia sido registrado na delegacia, haverá arrependimento posterior, com reflexo na dosimetria da pena. 1.3. Critério para redução da pena O arrependimento posterior constitui causa de diminuição da pena, devendo ser observadode advogado(a), assumir a causa e apresentar memoriais. Com base nas informações expostas, responda, como advogado(a) contratado por Gilberto, aos itens a seguir. 41 A) Existe argumento de direito material a ser apresentado em favor de Gilberto para evitar sua condenação? (Valor: 0,60) B) Qual o argumento de direito processual a ser apresentado em memoriais para questionar toda a instrução produzida? (Valor: 0,65) Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontuação. Gabarito Comentado A) Sim, o argumento de direito material a ser apresentado em favor de Gilberto é o requerimento da extinção da punibilidade, nos termos do artigo 312, § 3º, do Código Penal. Isso porque, no dia anterior à audiência, Gilberto ressarciu a Administração do prejuízo causado, havendo a reparação do dano antes de ser proferida sentença irrecorrível. B) O argumento de direito processual a ser apresentado é o de que houve nulidade do processo, por violação do disposto no artigo 514 do Código de Processo Penal. Isso porque não houve notificação do réu para apresentação de defesa prévia, antes do recebimento da denúncia, havendo violação do princípio do contraditório e da ampla defesa, nos termos do artigo 514 do Código de Processo Penal e art. 5º, LV, da Constituição Federal/88. 3) QUESTÃO 3 – IX EXAME – 2012-3 Mário está sendo processado por tentativa de homicídio, uma vez que injetou substância venenosa em Luciano, com o objetivo de matá-lo. No curso do processo, uma amostra da referida substância foi recolhida para análise e enviada ao Instituto de Criminalística, ficando comprovado que, pelas condições de armazenamento e acondicionamento, a substância não fora hábil para produzir os efeitos a que estava destinada. Mesmo assim, arguindo que o magistrado não estava adstrito ao laudo, o Ministério Público pugnou pela pronúncia de Mário nos exatos termos da denúncia. Com base apenas nos fatos apresentados, responda justificadamente: A) O magistrado deveria pronunciar Mário, impronunciá-lo ou absolvê-lo sumariamente? (Valor: 0,65) B) Caso Mário fosse pronunciado, qual seria o recurso cabível, o prazo de interposição e a quem deveria ser endereçado? (Valor: 0,60) 42 Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontuação. Gabarito Comentado A) Deveria absolvê-lo sumariamente, por força do art. 415, III, do CPP. Isso porque o caso retratado se trata de crime impossível, previsto no artigo 17 do Código Penal, já que pelas condições de armazenamento e acondicionamento, a substância injetada em Luciano, não fora hábil para produzir os efeitos a que estava destinada. Logo, o fato não constitui crime, diante da atipicidade da conduta de Mário. B) É cabível recurso em sentido estrito, com base no artigo art. 581, IV, do CPP; deve ser interposto no prazo de cinco dias, nos termos do artigo 586 do CPP, a petição de interposição deve ser endereçada ao juiz de 1º grau, que proferiu a decisão, as razões deverão ser endereçadas ao Tribunal de Justiça. 4) QUESTÃO AUTORAL Wilson, irado e nervoso, entra em sua casa, após séria e acirrada discussão com Tobias, seu vizinho, com quem tem profunda desavença. Desesperado, apanha a primeira arma que visualiza. Na sequência, sai ao encalço do vizinho e, tomado por violenta emoção, aponta-lhe a arma, acionando o gatilho várias vezes. Porém, nenhum disparo é detonado, sendo Wilson detido por populares, que chamaram a polícia. Instaurado inquérito policial, a arma foi apreendida e encaminhada a perícia, que constatou que a arma não deflagraria qualquer tiro, porque apresentava defeito. O Ministério Público ofereceu denúncia contra Wilson, pela prática do delito de tentativa de homicídio. Após regular instrução, o Magistrado pronunciou Wilson como incurso no delito do artigo 121, “caput”, c/c o artigo 14, inciso II, ambos do Código Penal. Analise o caso narrado e, com base apenas nas informações dadas, responda, fundamentadamente, aos itens a seguir: A) Qual a peça cabível contra a decisão proferida pelo Magistrado? B) Qual tese de direito material pode ser invocada para absolvição de Wilson? Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontuação. 43 Gabarito Comentado A) A peça cabível é a interposição de Recurso em Sentido Estrito, com base no artigo 581, inciso IV, do Código de Processo Penal. B) A tese de direito material que pode ser invocada para absolvição de Wilson seria a atipicidade da conduta, em face do crime impossível, nos termos do artigo 17 do Código Penal. Isso porque, conforme perícia realizada na arma de fogo, não haveria possibilidade de disparo, restando comprovada a ineficácia absoluta do meio. Logo, deve o juiz proferir sentença de absolvição sumária, com fundamento no artigo 415, inciso III, do Código de Processo Penal. 5) QUESTÃO AUTORAL Mariquinha, apavorada com o fato de ter engravidado de seu namorado, Félix Solano, de vinte e oito anos de idade, resolveu interromper a gravidez, provocando a morte do feto. Diante disso, após ingerir medicamento contendo substância abortiva, começou a passar mal, sendo levada ao hospital, oportunidade em que revelou ao médico a substância ingerida, recebendo a notícia de que o feto estava bem e em desenvolvimento. Observando o seu dever de ofício, o médico comunicou o fato à autoridade policial, que, de imediato, deslocou-se até o hospital. No curso do inquérito policial, uma amostra da referida substância foi recolhida para análise e enviada ao Instituto de Criminalística, ficando comprovado que, pelas condições de armazenamento e quantidade ingerida, não seria hábil para produzir os efeitos a que estava destinada, qual seja, causar o aborto. A autoridade policial concluiu o inquérito policial e encaminhou ao Ministério Público, que, após constatar que Mariquinha respondia a outro processo criminal, ofereceu denúncia, imputando a ela a prática do delito aborto tentado, previsto no artigo 124, c/c o artigo 14, inciso II, ambos do Código Penal. Durante a instrução, Mariquinha exerceu o seu direito de permanecer em silêncio. Encerrada a instrução, após apresentação das alegações derradeiras pelas partes, o Magistrado proferiu decisão de pronúncia, encaminhando a ré a Júri pela prática do crime do artigo 124 c/c o artigo 14, inciso II, ambos do Código Penal. A defesa foi intimada para apresentar a peça correspondente no dia 20 de novembro de 2017 (segunda-feira). Em face dessa situação hipotética, analise o caso narrado e, com base apenas nas informações dadas, responda, fundamentadamente, aos itens a seguir. A) Qual recurso cabível contra a decisão proferido pelo Magistrado? B) Qual a tese de direito material pode ser adotada em favor de Mariquinha? 44 Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontuação. Gabarito Comentado A) O recurso cabível é o Recurso em Sentido Estrito, com base no artigo 581, IV, do Código de Processo Penal. B) A tese de direito material que pode ser adotada em favor de Mariquinha seria a atipicidade da conduta, em face do crime impossível, previsto no artigo 17 do Código Penal. Isso porque o meio utilizado era absolutamente ineficaz para produzir o resultado pretendido, uma vez que uma amostra da substância ingerida foi recolhida para análise e enviada ao Instituto de Criminalística, ficando comprovado que, pelas condições de armazenamento e quantidade ingerida, não seria hábil para produzir os efeitos a que estava destinada, qual seja, causar o aborto. Logo, deve ser proferida sentença de absolvição sumária, com base no artigo 415, inciso III, do Código de Processo Penal. Questões Erro de Tipo 6) QUESTÃO 2 – VII EXAME– 2012-1 Larissa, senhora aposentada de 60 anos, estava na rodoviária de sua cidade quando foi abordada por um jovem simpático e bem vestido. O jovem pediu-lhe que levasse, para a cidade de destino, uma caixa de medicamentos para um primo, que padecia de grave enfermidade. Inocente e seguindo seus preceitos religiosos, a Sra. Larissa atende ao rapaz: pega a caixa, entra no ônibus e segue viagem. Chegando ao local da entrega, a senhora é abordada por policiais que, ao abrirem a caixa de remédios, verificam a existência de 250 gramas de cocaína em seu interior. Atualmente, Larissa está sendo processada pelo crime de tráfico de entorpecente, previsto no art. 33 da Lei nº 11.343, de 23 de agosto de 2006. Considerando a situação anteriormente descrita e empregando os argumentos jurídicos apropriados e a fundamentação legal pertinente, responda: qual é a tese defensiva aplicável à Larissa? (Valor: 1,25). Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontuação. Gabarito Comentado 45 A tese defensiva aplicável é a de atipicidade da conduta, já que Larissa agiu em erro de tipo essencial, previsto no artigo 20, “caput”, do Código Penal. Isso porque Larissa não sabia que estava transportando drogas, supondo ser uma caixa de medicamentos. Nesse caso, há a exclusão do dolo, e, como não existe crime de tráfico na modalidade culposa, o fato será atípico. 7) QUESTÃO 1 – V EXAME – 2011-2 Antônio, pai de um jovem hipossuficiente preso em flagrante delito, recebe de um serventuário do Poder Judiciário Estadual a informação de que Jorge, defensor público criminal com atribuição para representar o seu filho, solicitara a quantia de dois mil reais para defendê-lo adequadamente. Indignado, Antônio, sem averiguar a fundo a informação, mas confiando na palavra do serventuário, escreve um texto reproduzindo a acusação e o entrega ao juiz titular da vara criminal em que Jorge trabalha como defensor público. Ao tomar conhecimento do ocorrido, Jorge apresenta uma gravação em vídeo da entrevista que fizera com o filho de Antônio, na qual fica evidenciado que jamais solicitara qualquer quantia para defendê-lo, e representa criminalmente pelo fato. O Ministério Público oferece denúncia perante o Juizado Especial Criminal, atribuindo a Antônio o cometimento do crime de calúnia, praticado contra funcionário público em razão de suas funções, nada mencionando acerca dos benefícios previstos na Lei nº 9.099/95. Designada Audiência de Instrução e Julgamento, recebida a denúncia, ouvidas as testemunhas, interrogado o réu e apresentadas as alegações orais pelo Ministério Público, na qual pugnou pela condenação na forma inicial, o magistrado concede a palavra à Vossa Senhoria para apresentar alegações finais orais. Em relação à situação anterior, responda aos itens a seguir, empregando os argumentos jurídicos apropriados e a fundamentação legal pertinente ao caso: A) O Juizado Especial Criminal é competente para apreciar o fato em tela? (Valor: 0,30) B) Antônio faz jus a algum benefício da Lei nº 9.099/95? Em caso afirmativo, qual(is)? (Valor: 0,30) C) Antônio praticou crime? Em caso afirmativo, qual? Em caso negativo, por que razão? (Valor: 0,65) Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontuação. 46 Gabarito Comentado A) Não, o Juizado Especial não é o Juízo competente para apreciar o fato, já que a pena máxima cominada ao delito é superior a dois anos, conforme se extrai do artigo 61 da Lei 9099/95. Isso porque a ofensa foi praticada contra funcionário público em razão da função, incidindo a causa de aumento de pena de 1/3 prevista no artigo 141, II, do CP, razão pela qual a pena máxima cominada ao delito será superior a dois anos. B) Sim, suspensão condicional do processo, já que preenchidos os requisitos do art. 89 da Lei nº 9.099/1995, uma vez que o crime prevê pena mínima não superior a um ano, o réu é primário e não responde a outro processo pela prática de crime. C) Antônio não praticou crime, diante da atipicidade da conduta, já que agiu em erro de tipo vencível/inescusável, previsto no artigo 20, “caput”, do Código Penal. Isso porque haverá a exclusão do dolo, respondendo o agente pelo crime na sua modalidade culposa. Como não existe calúnia na modalidade culposa, o fato será atípico. 8) QUESTÃO 2 – OAB FGV – X EXAME – 2013-11 Maria, mulher solteira de 40 anos, mora no Bairro Paciência, na cidade Esperança. Por conta de seu comportamento, sempre foi alvo de comentários maldosos dos vizinhos; alguns até chegavam a afirmar que ela tinha “cara de quem cometeu crime”. Não obstante tais comentários, nunca houve prova de qualquer das histórias contadas, mas o fato é que Maria é conhecida na localidade onde mora por ter má índole, já que sempre arruma brigas e inimizades. Certo dia, com raiva de sua vizinha Josefa, Maria resolve quebrar a janela da residência desta. Para tanto, espera chegar a hora em que sabia que Josefa não estaria em casa e, após olhar em volta para ter certeza de que ninguém a observava, arremessa com força, na direção da casa da vizinha, um enorme tijolo. Ocorre que Josefa, naquele dia, não havia saído de casa e o tijolo, após quebrar a vidraça, atinge também sua nuca. Josefa falece instantaneamente. Nesse sentido, tendo por base apenas as informações descritas no enunciado, responda justificadamente: É correto afirmar que Maria deve responder por homicídio doloso consumado? (Valor: 1,25). Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontuação. Gabarito comentado 47 Não é correto afirmar que Maria deve responder por homicídio doloso consumado, diante da aplicação do resultado diverso do pretendido, previsto no artigo 74 do Código Penal. Isso porque Maria pretendia quebrar a janela da residência de Josefa, e, por erro na execução e acidente, atingiu também Josefa, causando sua morte. Assim, além do resultado pretendido, consistente no crime de dano, ocorreu o resultado diverso do pretendido, devendo, nesse caso, responder por homicídio culposo, já que existe homicídio na modalidade culposa. Como com uma única ação, Maria praticou o crime de dano, previsto no artigo 163 do Código Penal, e homicídio culposo, previsto no artigo 121, § 3º, do Código Penal, com aplicação do concurso formal perfeito ou próprio de crimes, nos termos do artigo 70 do Código Penal, que determina a majoração da pena do crime mais grave de 1/6 até 1/2. 9) QUESTÃO AUTORAL No dia 15 de março de 2013, Silas Graça teria desferido um golpe de faca contra Max Novaes, acertando, todavia, Leleco, que estava próximo a eles. Em razão disso, após a conclusão do inquérito policial, o Ministério Público ofereceu denúncia contra Silas, imputando-lhe a prática do delito do artigo 121, “caput”, do Código Penal, já que Leleco teria falecido. Durante a instrução, Silas afirmou que Max partiu em sua direção com uma faca, buscando matá-lo. Acrescentou que, para se defender da agressão perpetrada por Max, sacou de sua faca e desferiu um golpe contra o agressor, que desviou, tendo, em razão disso, atingido Leleco, que estava próximo a eles. Tal versão foi confirmada pelas testemunhas anteriormente ouvidas pelo Magistrado. Encerrada a instrução, após manifestação do Ministério Público, que pugnou pela pronúncia, nos termos da denúncia, a defesa de Silas foi intimada no dia 10 de julho de 2015 (sexta-feira) para apresentar a peça correspondente. Analise o caso narrado e, com base apnas nas informações dadas, responda, fundamentadamente, aos itens a seguir. A) Qual o meio de impugnação cabível e o último dia do prazo para apresentá-lo? B) Qual(is) o(s) argumento(s) e o pedido a ser formulado em favor de Silas? Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentarsuas respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontuação. Gabarito Comentado A) O meio de impugnação cabível é o oferecimento de Memoriais, com base no artigo 403, §3º do Código de Processo Penal, sendo que o último dia do prazo será no dia 17 de julho de 2015. 48 B) O argumento de direito material que pode ser adotado em favor de Silas seria a incidência do erro na execução, previsto no artigo 73 do Código Penal, e, por consequência, legítima defesa, causa de exclusão da ilicitude, prevista no artigo 23, II, e 25, ambos do Código Penal. Isso porque, para se defender da agressão perpetrada por Max, Silas sacou de sua faca e desferiu um golpe contra o agressor, que desviou, tendo, por acidente e erro na execução, atingido Leleco, que estava próximo a eles. Logo, como devem ser consideradas as condições ou qualidades da pessoa pretendida, que, no caso, seria o agressor injusto, Silas agiu em legítima defesa. Assim, deve o juiz proferir sentença de absolvição sumária, com base no artigo 415, IV, do Código de Processo Penal. 10) QUESTÃO AUTORAL Wilson, pretendendo matar Lucas, de 59 anos, realiza disparos de arma de fogo contra um homem que estava na varanda da residência da vítima, causando a morte deste. Wilson, então, deixa o local satisfeito, por acreditar ter concluído seu intento delitivo, mas vem a descobrir que matara um amigo de Lucas, de 70 anos, que, de costas, era com ele parecido. Após conclusão do inquérito policial, o Ministério Público ofereceu denúncia contra Wilson, imputando-lhe a prática do crime de homicídio doloso, com a causa de aumento de pena em razão da idade da vítima atingida (art. 121, § 4º, do Código Penal). Após regular instrução, o Ministério Público pugnou pela pronúncia nos termos da denúncia. A defesa foi intimada no dia 11 de novembro de 2020, que caiu numa quarta-feira, para se manifestar. Com base na hipótese apresentada, responda, na condição de advogado(a) de Wilson, fundamentadamente, aos itens a seguir. A) Qual peça deverá ser apresentada pela defesa de Wilson e qual o último dia do prazo? Justifique. B) Existe argumento de direito material a ser apresentado em favor de Wilson em busca de uma decisão mais branda do que a postulado pelo Ministério Público? Justifique Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontuação. Gabarito Comentado A) A peça cabível seria memoriais, com base no artigo 403, § 3º, do Código de Processo Penal. O último dia do prazo seria dia 16.11.2020. 49 B) O argumento de direito material a ser apresentado em favor de Wilson para questionar a capitulação atribuída pelo Ministério Público na denúncia seria a incidência do erro sobre a pessoa, previsto no artigo 20, §3º, do Código Penal. Isso porque Wilson pretendia matar Lucas, mas, por erro na identificação, acabou matando um amigo de Lucas, que contava com 70 (setenta) anos de idade. Logo, deve-se considerar as condições e qualidades da vítima pretendida, qual seja, Lucas, que contava com 59 (cinquenta e nove) anos de idade. Assim, deve ser afastada a causa de aumento de pena, prevista no artigo 121, §4º, do Código Penal, já que a vítima pretendida contava com a idade inferior a 60 (sessenta) anos. 50o patamar de 1/3 a 2/3. Para definir o quantum da redução, o juiz deve considerar a celeridade da reparação do dano ou restituição da coisa, bem como o grau de voluntariedade do agente. Quanto mais Durante a execução •Desistência voluntária Esgotada a execução •Arrependimento eficaz Consumação •Arrependimento posterior Recebimento da denúncia ou queixa •Atenuante genérica do art. 65, III, b, do CP 8 célere e sincera a reparação do dano ou restituição da coisa, maior será a redução da pena; quanto mais distante do fato a reparação do dano ou a restituição da coisa e menos sincera, menor será a redução da pena. 1.4. Como pode cair Pode cair em questões dissertativas, sobretudo para diferenciar da atenuante da reparação do dano. Na peça, trata-se de tese subsidiária, já que constitui causa de diminuição da pena. E, nesse caso, deve-se buscar a redução na fração máxima, ou seja, de 2/3. 1.5. Reparação do dano ou restituição da coisa em situações específicas a) Peculato culposo Nos termos do art. 312, § 3º, do CP, no caso do peculato culposo, se anterior à sentença transitada em julgado, a reparação é causa de extinção da punibilidade; se a reparação do dano for posterior à sentença irrecorrível, incidirá causa de diminuição da pena até metade da pena imposta. Se o peculato for doloso, a reparação antes do recebimento da denúncia ensejará a incidência do arrependimento posterior, tendo como consequência a diminuição da pena de 1/3 a 2/3, nos termos do art. 16 do CP. Se a reparação do dano ocorrer após o recebimento da denúncia, incidirá a atenuante genérica do art. 65, III, b, do CP. b) Estelionato mediante emissão de cheque sem fundos No caso da emissão de cheque sem suficiente provisão de fundos, a reparação do dano até o recebimento da denúncia impede o prosseguimento da ação penal, adotando-se uma interpretação a contrario sensu da Súmula nº 554 do STF. Nesse caso, segundo a doutrina, haveria uma causa supralegal de extinção da punibilidade, porque o delito de estelionato exige como pressuposto necessário à sua consumação o efetivo prejuízo da vítima. 9 1.6. Questões 1) QUESTÃO 4 – XXXIV Exame – 2022-2 Geraldo, 30 anos, constrangeu Eugênia, desconhecida que passava pela rua, mediante grave ameaça, a transferir R$ 2.000,00 (dois mil reais) para sua conta. Diante da grave ameaça, Eugênia compareceu ao estabelecimento bancário com Geraldo e fez a transferência devida, sendo liberada em seguida. Eugênia, nervosa, compareceu à sede policial e narrou o ocorrido, sendo instaurado inquérito para identificação do autor do fato. Ocorre que Geraldo, no dia seguinte, antes de qualquer denúncia, arrependeu-se de sua conduta e transferiu de volta para a conta de Eugênia todo o valor antes obtido de maneira indevida. Confirmada a autoria, o Ministério Público ofereceu denúncia em face de Geraldo pela prática do crime de extorsão simples consumada (Art. 158, caput, do Código Penal), sendo decretada sua prisão preventiva, em razão da gravidade do fato e da reincidência. Durante audiência de instrução e julgamento, foi ouvida a vítima, que confirmou os fatos narrados na denúncia. O réu permaneceu em sala 10 de audiência, e o reconhecimento foi realizado ao final da oitiva da vítima, ainda no local, sob o argumento de que, como havia muitos presos no Fórum, não haveria policiais suficientes para transporte de presos até a sala de reconhecimento. Assim, Eugênia apenas apontou para o denunciado e disse que ele seria o autor. As demais testemunhas esclareceram que não presenciaram o ocorrido. Com base no reconhecimento realizado, foi o réu condenado nos termos da denúncia, sendo aplicada pena base de 04 anos; pena intermediária de 04 anos e 03 meses em razão da reincidência, não sendo reconhecidas atenuantes ou outras agravantes; na terceira fase, não foram reconhecidas causas de aumento ou de diminuição de pena. O regime inicial aplicado foi o fechado. Intimado da sentença, esclareça, na condição de advogado de Geraldo em atuação em recurso de apelação, os itens a seguir. A) Qual argumento de direito processual poderá ser apresentado para questionar a produção probatória em audiência? Justifique. (Valor: 0,65) B) Qual argumento de direito material poderá ser apresentado, caso mantida a condenação, em busca da redução da pena aplicada? Justifique. (Valor: 0,60) Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontuação. 2) QUESTÃO 1 – XXXI Exame – 2022-3 Após receber informações de que teria ocorrido subtração de valores públicos por funcionários públicos no exercício da função, inclusive com vídeo das câmeras de segurança da repartição registrando o ocorrido, o Ministério Público ofereceu, sem prévio inquérito policial, uma única denúncia em face de Luciano e Gilberto, em razão da conexão, pela suposta prática do crime de peculato, sendo que, ao primeiro, foi imputada conduta dolosa e, ao segundo, conduta culposa. De acordo com a denúncia, Gilberto, funcionário público, com violação do dever de cuidado, teria contribuído para a subtração de R$ 2.000,00 de repartição pública por parte de Luciano, que teria tido sua conduta facilitada pelo cargo público que exercia. Diante da reincidência de Gilberto, já condenado definitivamente por roubo, não foram à ele oferecidos os institutos despenalizadores. O magistrado, de imediato, sem manifestação das partes, recebeu a denúncia e designou audiência de instrução e julgamento. No dia anterior à audiência, Gilberto ressarciu a Administração do prejuízo causado. Com a juntada de tal comprovação, após a audiência, foram os autos encaminhados às partes para apresentação de alegações finais. O Ministério Público, diante da confirmação dos fatos, requereu a condenação dos réus 11 nos termos da denúncia. Insatisfeito com a assistência técnica que recebia, Gilberto procura você para, na condição de advogado(a), assumir a causa e apresentar memoriais. Com base nas informações expostas, responda, como advogado(a) contratado por Gilberto, aos itens a seguir. A) Existe argumento de direito material a ser apresentado em favor de Gilberto para evitar sua condenação? (Valor: 0,60) B) Qual o argumento de direito processual a ser apresentado em memoriais para questionar toda a instrução produzida? (Valor: 0,65) Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontuação. 12 Crime Impossível Prof. Nidal Ahmad @prof.nidal 2.1. Introdução O crime impossível está previsto no art. 17 do CP. Trata-se de hipótese de tentativa não punível, verificando-se quando a ineficácia absoluta do meio empregado na execução do delito ou impropriedade absoluta do objeto sobre o qual recaiu a conduta do agente tornam impossível a consumação do crime. Embora o art. 17 do CP contenha a expressão “não se pune a tentativa”, o que poderia revelar eventual causa de isenção de pena, o crime impossível, na verdade, tem natureza jurídica de causa excludente da tipicidade. 2.2. Crime impossível por ineficácia absoluta do meio O crime impossível por ineficácia absoluta do meio guarda relação com o meio de execução ou instrumento utilizado pelo agente, que, por sua natureza, será incapaz de produzir qual- quer resultado, ou seja, jamais alcançará a consumação do delito. Constitui crime impossível, por ineficácia absoluta do meio, a conduta da gestante que busca interromper a gravidez com a morte do feto, fazendo uso de substância que não tem efeito abortivo, como, por exemplo, chá de boldo. Da mesma forma, trata-se de crime impossível a conduta do agente que, penalmente imputável, pretendendo matar seu desafeto, aponta em sua direção arma de fogo que não realizanenhum disparo em razão de defeito estrutural que, de forma absoluta, impede o seu funcionamento. Não será punida, ainda, a conduta do agente que portava arma de fogo inapta para efetuar qualquer disparo. É o que decidiu o STJ O crime impossível se caracteriza quando a ineficácia do meio for absoluta. A ineficácia do meio, quando relativa, leva à tentativa e não ao crime impossível, por aplicação da teoria objetiva temperada, adotada pelo Código Penal. Há ineficácia relativa do meio quando, não obstante eficaz à produção do resultado, este não ocorre por circunstâncias acidentais. É o caso do agente que pretende desfechar um tiro 13 de revólver contra a vítima, mas a arma nega o disparo, por defeito daquele projétil específico, embora os demais que constavam no tambor fossem aptos a efetuar disparos. 2.3. Crime impossível por impropriedade absoluta do objeto O crime impossível pela impropriedade absoluta do objeto guarda relação com o objeto material, compreendendo a pessoa ou coisa, sobre o qual recai a conduta do agente. O objeto será absolutamente impróprio quando inexistente ao tempo da conduta do agente ou, ainda, pelas circunstâncias em que se encontra, afigura-se impossível a produção do resultado visado pelo agente. Tomemos como exemplo a conduta do agente, que, ao pretender matar a vítima, desfere vários disparos de arma de fogo contra o corpo dela, verificando-se, após, que, ao receber os disparos, já se encontrava morta, em decorrência de ter sofrido, momentos antes, fulminante ataque cardíaco. Nesse caso, é evidente a impropriedade absoluta do objeto, diante da impossibilidade de ceifar a vida de pessoa que já estava morta. Da mesma forma, caracteriza crime impossível pela impropriedade absoluta do objeto a conduta da mulher que ingere substância abortiva, demonstrando-se, após, que jamais estivera grávida. Trata-se de fato atípico, pois não há objeto material a ser atingido (feto com vida intrauterina), não sendo possível, pois, punir a mulher nem mesmo a título de tentativa de aborto. Considera-se, ainda, crime impossível por impropriedade absoluta do objeto a conduta do punguista que pretende subtrair a carteira da vítima, que, ao tempo da ação, não trazia consigo nenhuma quantia ou bem com valor econômico. Se a impropriedade do objeto for relativa, o agente poderá ser responsa- bilizado criminalmente ao menos na modalidade tentada. Assim, se o punguista, buscando subtrair a carteira da vítima, coloca a mão no seu bolso direito, quando, na verdade, o objeto material se encontra no bolso esquerdo, haverá, à evidência, tentativa de furto, já que se trata de uma circunstância meramente acidental que não torna impossível o crime. A existência de qualquer bem com a vítima impede o reconhecimento da impropriedade absoluta do objeto. 14 2.4. Como pode cair Pode cair em questões dissertativas e como tese absolutória de peça. Por se tratar de causa de exclusão da tipicidade: 2.5. Questões: 3) QUESTÃO 3 – IX EXAME – 2012-3 Mário está sendo processado por tentativa de homicídio, uma vez que injetou substância venenosa em Luciano, com o objetivo de matá-lo. No curso do processo, uma amostra da referida substância foi recolhida para análise e enviada ao Instituto de Criminalística, ficando • Se for resposta à acusação: absolvição sumária, com base no artigo 397, III, do CPP • Se for memoriais ou apelação no procedimento comum: absolvição, com base no artigo 386, III, do CPP • Se for memoriais ou recurso em sentido estrito no procedimento do júri: absolvição sumária, com base no artigo 415, III, do CPP. 15 comprovado que, pelas condições de armazenamento e acondicionamento, a substância não fora hábil para produzir os efeitos a que estava destinada. Mesmo assim, arguindo que o magistrado não estava adstrito ao laudo, o Ministério Público pugnou pela pronúncia de Mário nos exatos termos da denúncia. Com base apenas nos fatos apresentados, responda justificadamente: A) O magistrado deveria pronunciar Mário, impronunciá-lo ou absolvê-lo sumariamente? (Valor: 0,65) B) Caso Mário fosse pronunciado, qual seria o recurso cabível, o prazo de interposição e a quem deveria ser endereçado? (Valor: 0,60) Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontuação. 4) QUESTÃO AUTORAL Wilson, irado e nervoso, entra em sua casa, após séria e acirrada discussão com Tobias, seu vizinho, com quem tem profunda desavença. Desesperado, apanha a primeira arma que visualiza. Na sequência, sai ao encalço do vizinho e, tomado por violenta emoção, aponta-lhe a arma, acionando o gatilho várias vezes. Porém, nenhum disparo é detonado, sendo Wilson detido por populares, que chamaram a polícia. Instaurado inquérito policial, a arma foi apreendida e encaminhada a perícia, que constatou que a arma não deflagraria qualquer tiro, porque apresentava defeito. O Ministério Público ofereceu denúncia contra Wilson, pela prática do delito de tentativa de homicídio. Após regular instrução, o Magistrado pronunciou Wilson como incurso no delito do artigo 121, “caput”, c/c o artigo 14, inciso II, ambos do Código Penal. Analise o caso narrado e, com base apenas nas informações dadas, responda, fundamentadamente, aos itens a seguir: A) Qual a peça cabível contra a decisão proferida pelo Magistrado? B) Qual tese de direito material pode ser invocada para absolvição de Wilson? Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontuação. 16 5) QUESTÃO AUTORAL Mariquinha, apavorada com o fato de ter engravidado de seu namorado, Félix Solano, de vinte e oito anos de idade, resolveu interromper a gravidez, provocando a morte do feto. Diante disso, após ingerir medicamento contendo substância abortiva, começou a passar mal, sendo levada ao hospital, oportunidade em que revelou ao médico a substância ingerida, recebendo a notícia de que o feto estava bem e em desenvolvimento. Observando o seu dever de ofício, o médico comunicou o fato à autoridade policial, que, de imediato, deslocou-se até o hospital. No curso do inquérito policial, uma amostra da referida substância foi recolhida para análise e enviada ao Instituto de Criminalística, ficando comprovado que, pelas condições de armazenamento e quantidade ingerida, não seria hábil para produzir os efeitos a que estava destinada, qual seja, causar o aborto. A autoridade policial concluiu o inquérito policial e encaminhou ao Ministério Público, que, após constatar que Mariquinha respondia a outro processo criminal, ofereceu denúncia, imputando a ela a prática do delito aborto tentado, previsto no artigo 124, c/c o artigo 14, inciso II, ambos do Código Penal. Durante a instrução, Mariquinha exerceu o seu direito de permanecer em silêncio. Encerrada a instrução, após apresentação das alegações derradeiras pelas partes, o Magistrado proferiu decisão de pronúncia, encaminhando a ré a Júri pela prática do crime do artigo 124 c/c o artigo 14, inciso II, ambos do Código Penal. A defesa foi intimada para apresentar a peça correspondente no dia 20 de novembro de 2017 (segunda-feira). Em face dessa situação hipotética, analise o caso narrado e, com base apenas nas informações dadas, responda, fundamentadamente, aos itens a seguir. A) Qual recurso cabível contra a decisão proferido pelo Magistrado? B) Qual a tese de direito material pode ser adotada em favor de Mariquinha? Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontuação. 17 Erro de tipo Prof. Nidal Ahmad @prof.nidal 3.1. Erro de tipo essencial 3.1.1. Introdução Nos termos do artigo 20, caput, do Código Penal, caracteriza-se pelo erro sobre o elemento constitutivo do tipo penal. Antes de mais nada, mostra-seimportante compreender o que significa a expressão elemento constitutivo do tipo penal. A figura típica (ou tipo legal) é composta de elementos específicos ou elementares. Cada expressão que compõe uma figura típica é um elemento que constitui o modelo legal de conduta proibida. Exemplo: O crime de homicídio (CP, art. 121) é composto pelos elementos “matar” “alguém”. “Matar” é um elemento constitutivo do tipo que define o crime de homicídio. “Alguém” é também um elemento constitutivo do tipo que define o crime de homicídio. Se o agente desenvolve conduta sem consciência em relação à realidade a que está inserido, adotando compreensão equivocada da situação de fato, pode-se cogitar da hipótese de erro de tipo. E R R O D E T IP O Essencial Invencível Exclusão DOLO Fato atípico CULPA Fato atípico Vencível Exclusão do dolo Responde por culpa, se tiver previsão legal Acidental Erro do objeto Erro sobre pessoa - art. 20, §3º, CP Aberratio ictus - art. 73, CP Aberratio criminis - art. 74, CP 18 Agora fica mais clara a compreensão de que o erro de tipo é aquele que recai sobre um dos elementos constitutivos do tipo penal. Há uma falsa percepção da realidade que cerca o agente. O agente desenvolve uma conduta sem saber que está praticando um fato típico. Não sabe, em função do erro, que está praticando uma conduta típica. Em outras palavras, o agente, diante do erro, desenvolve conduta sem a plena consciência da presença de um elemento do tipo penal. Se, diante da situação de fato, tivesse atingido essa consciência, não incorreria em erro, e, portanto, não teria praticado a conduta. Exemplo: Durante uma caçada, o agente percebe que há movimentação atrás de arbustos. Supondo ser um animal, atira em direção ao alvo, e, quando vai se certificar do produto da caça, verifica que, na realidade, atingiu uma pessoa, que estava escondida atrás dos arbustos. O contexto fático, na percepção do caçador, era a de que estava atirando contra um animal. Todavia, trata-se de uma falsa percepção da realidade, já que acabou atingindo uma pessoa. O agente errou sobre o elemento constitutivo “alguém”. Desenvolveu uma conduta sem saber que estava praticando um fato típico, ou seja, sem saber que estava incorrendo no tipo penal que descreve o crime de homicídio. Outro exemplo: Imaginemos a conduta de uma pessoa que se apossa do aparelho celular que estava sobre a mesa do escritório, supondo ser seu, quando, na realidade, era do colega de trabalho. A realidade do agente era a de que estava se apossando do seu aparelho celular. Todavia, trata-se de uma falsa percepção da realidade, pois se apossou do aparelho celular que pertence a outra pessoa. O agente não sabia que estava praticando uma conduta típica, pois errou sobre o elemento constitutivo “coisa alheia móvel” do tipo penal que define o crime de furto (CP, art. 155). Dessarte, no erro de tipo, o agente desenvolve conduta sem consciência e vontade em relação a todos os elementos que integram o tipo penal. Há desconformidade entre a realidade e a representação do sujeito que, se a conhecesse, não realizaria a conduta. Se o agente soubesse que era uma pessoa atrás dos arbustos, não teria efetuado o disparo; se o agente tivesse consciência que pertencia a outra pessoa, não teria se apossado do aparelho celular do colega. 19 O erro de tipo essencial pode ser invencível ou vencível. 3.1.2. Erro de tipo essencial invencível, inevitável ou escusável O erro de tipo invencível, inevitável ou escusável é aquele em que qualquer pessoa, nas mesmas circunstâncias, incorreria. É um erro escusável, que não seria evitado ainda que se tratasse de pessoa cautelosa e prudente. Exemplo: Tomemos como exemplo a conduta de um estudante que deixou seu aparelho celular carregando na tomada da sala de aula, saindo para comprar café na cantina da escola. Quando retorna, retira o aparelho celular da tomada, que, na verdade, não era o que havia deixado para carregar, mas outro idêntico, que pertencia à sua colega, que havia retirado o celular do agente da tomada e colocou o seu no lugar. Nesse caso, há evidente erro de tipo, pois o estudante, por conta da falsa percepção da realidade (supõe ser seu o celular, já que idêntico), errou em relação ao elemento “alheio” do tipo que define o crime de furto. E trata-se de erro de tipo invencível, porque qualquer pessoa, nas circunstâncias, consideraria que era o seu aparelho celular que havia deixado carregando na tomada da sala de aula. Outro exemplo: Agente que se embrenha em mata fechada, distante de qualquer centro urbano, com rara circulação de pessoas. Em dado momento, visualiza algo se movimentando atrás da intensa vegetação. Supondo ser um animal, efetua um disparo. Ao verificar o produto da caça, constata, para sua surpresa, que não matou um animal, mas uma pessoa, que, por infeliz coincidência, também caçava no local. Trata-se de erro de tipo, pois o caçador, por conta da falsa percepção da realidade (supôs ser um animal), errou em relação ao elemento “alguém” do tipo que define o crime de homicídio. E, trata- se de erro de tipo invencível, porque qualquer pessoa, nas circunstâncias, consideraria que a movimentação atrás da vegetação seria a de um animal, não sendo possível supor, nem mesmo para uma pessoa mais cautelosa e diligente, que, na verdade, tratava-se de uma pessoa. Da mesma forma, imaginemos um rapaz, imputável, que conhece uma menina no interior de uma boate onde era vedada a entrada de pessoas menores de 18 anos. Os 20 dois, após algumas trocas de carícias, resolvem se dirigir a um motel e ali, de forma consentida, o jovem mantém relações sexuais com a menina. Após, o rapaz descobre que a moça, na verdade, tinha apenas 13 anos e que somente conseguira entrar na casa noturna mediante apresentação de carteira de identidade falsa. Trata-se de erro de tipo invencível ou inevitável, pois qualquer pessoa nas circunstâncias também consideraria que a menina não era menor de 14 anos de idade. O erro de tipo essencial invencível exclui o dolo e a culpa. Há exclusão do dolo, porque desenvolveu a conduta sem consciência e vontade na produção do resultado; há exclusão da culpa, diante da ausência de previsibilidade objetiva. Assim, se a peça for resposta à acusação, o pedido será de absolvição sumária, com base no artigo 397, III, do CPP. Se for memoriais ou apelação, em crimes que não envolvem procedimento do júri, o pedi- do será de absolvição, com base no artigo 386, III, do CPP. Tratando-se de procedimento do júri, ao final da primeira fase, como em memoriais ou recurso em sentido estrito contra a decisão de pronúncia, o pedido será de absolvição sumária, com base no art. 415, III, do CPP. 3.1.3. Erro de tipo essencial vencível, evitável ou inescusável É aquele erro em que uma pessoa mais cautelosa e prudente, nas mesmas circunstâncias, não incorreria. É um erro evitável, indesculpável ou inescusável, que uma pessoa, observando o dever de cuidado objetivo, teria evitado. Considerando o exemplo anterior, imaginemos que outro estudante, menos cauteloso, tivesse deixado seu celular carregando na tomada da sala de aula, saindo, após, para comprar café na cantina da escola. Quando retorna, retira um celular da tomada, que, na verdade, não era o seu aparelho, mas de sua colega, que havia colocado para carregar em substituição ao do estudante. Todavia, não obstante e troca dos aparelhos, o celular da colega, embora pa- recido, era de outro modelo e marca, diferença que uma pessoa mais prudente teria percebido. Nesse caso, há evidente erro de tipo, pois o estudante, por conta da falsa percepção da realidade (supõe ser seu o celular), errou em relação ao elemento “alheio” do tipo que define o crime de furto. No entanto, nesse caso, trata-se erro de tipo vencível, plenamente evitável porque uma pessoa mais diligente teria,nas circunstâncias, percebido que não era seu o aparelho celular que se apossou. 21 Suponha-se, ainda, que o agente resolve caçar em mata próxima à zona urbana, comumente frequentada por outras pessoas, e, ao avistar algo se movimentando atrás da vegetação, supondo ser uma animal, efetua um disparo de arma de fogo. Todavia, na verdade, não se tratava de um animal, mas de uma pessoa que também estava caçando no local. Trata- se de erro de tipo, pois o caçador, por conta da falsa percepção da realidade (supôs ser um animal), errou em relação ao elemento “alguém” do tipo que define o crime de homicídio. E, nesse caso, trata-se de erro de tipo vencível, porque, nas circunstâncias, uma pessoa mais prudente adotaria as cautelas necessárias para se certificar que a movimentação atrás da vegetação seria a de um animal, e não de uma pessoa1. O erro vencível, evitável ou inescusável exclui o dolo, mas não a culpa. Se o erro pode- ria ter sido evitado com emprego de diligência mínima, pode-se responsabilizar o agente pelo crime culposo, desde que previsto em lei nessa modalidade. Assim, se o fato for punido na modalidade culposa, o agente responderá por crime culposo. Quando o tipo, entretanto, não admitir essa modalidade, a consequência será inexoravelmente a exclusão do crime, já que configurará fato atípico. No exemplo do caçador que praticava a caça em mata próxima à zona urbana, onde havia circulação de pessoas, o agente responderá pelo crime de homicídio culposo, já que se trata de erro de tipo vencível, que poderia ter sido evitado, se tivesse empregado um pouco mais de cautela. Isso porque o crime de homicídio prevê a modalidade culposa (CP, art. 121, § 3º). Se não existir previsão do delito na modalidade culposa, o fato praticado mediante erro evitável será atípico. Assim, considerando o exemplo do jovem estudante que não empregou a necessária diligência para identificar se o aparelho celular que se apossou era seu ou não, restará afastado o dolo, permanecendo, no entanto, a possibilidade de responsabilização pelo crime na modalidade culposa, já que se trata de erro de tipo vencível. Todavia, como não existe furto na modalidade culposa, haverá exclusão do crime, já que o fato é atípico. 1 Situação comumente apontada pela doutrina como exemplo de erro de tipo aconteceu em agosto de 2020 no interior de Minas Gerais, em que um caçador foi morto por amigo ao ser confundido com javali (https://g1.globo.com/mg/ sul-de-minas/noticia/2020/08/03). 22 3.1.4. Como pode cair O erro de tipo caiu como tese das peças dos Exames XXXIII, XXIII, XIV Pode cair em questões dissertativas e peça. Na peça, pode cair como tese absolutória ou, até mesmo, de desclassificação. Se for erro de tipo invencível/inevitável, ou, se vencível ou evitável, não existir o crime na modalidade culposa, o fato será atípico. Nesse caso: Na hipótese de erro de tipo vencível ou evitável, se existir previsão do delito na modalidade culposa, e o Ministério Público denunciar pelo crime na modalidade dolosa, pode- se, ao desenvolver a tese do erro de tipo evitável, desclassificar para crime culposo. Imaginemos que o Ministério Público tenha oferecido denúncia pelo crime de homicídio doloso. Com a tese do erro de tipo vencível ou evitável, o candidato deverá desclassificar para homicídio culposo, com a remessa do processo ao juízo competente, nos termos do artigo 419 do CPP. Nesse caso, em peça, será possível alegar, como tese principal, o erro de tipo invencível, buscando a absolvição sumária do réu (art. 415, III, do CPP), e, subsidiariamente, o erro de tipo vencível, buscando a desclassificação para homicídio culposo, nos termos do artigo 419 do CPP. Na peça, nesse caso, não há nada de tese contraditória. • Se for resposta à acusação: absolvição sumária, com base no artigo 397, III, do CPP • Se for memoriais ou apelação no procedimento comum: absolvição, com base no artigo 386, III, do CPP • Se for memoriais ou recurso em sentido estrito no procedimento do júri: absolvição sumária, com base no artigo 415, III, do CPP. 23 3.1.5. Questões: 6) QUESTÃO 2 – VII EXAME – 2012-1 Larissa, senhora aposentada de 60 anos, estava na rodoviária de sua cidade quando foi abordada por um jovem simpático e bem vestido. O jovem pediu-lhe que levasse, para a cidade de destino, uma caixa de medicamentos para um primo, que padecia de grave enfermidade. Inocente e seguindo seus preceitos religiosos, a Sra. Larissa atende ao rapaz: pega a caixa, entra no ônibus e segue viagem. Chegando ao local da entrega, a senhora é abordada por policiais que, ao abrirem a caixa de remédios, verificam a existência de 250 gramas de cocaína em seu interior. Atualmente, Larissa está sendo processada pelo crime de tráfico de entorpecente, previsto no art. 33 da Lei nº 11.343, de 23 de agosto de 2006. Considerando a situação anteriormente descrita e empregando os argumentos jurídicos apropriados e a fundamentação legal pertinente, responda: qual é a tese defensiva aplicável à Larissa? (Valor: 1,25) 7) QUESTÃO 1 – V EXAME – 2011-2 Antônio, pai de um jovem hipossuficiente preso em flagrante delito, recebe de um serventuário do Poder Judiciário Estadual a informação de que Jorge, defensor público criminal com atribuição para representar o seu filho, solicitara a quantia de dois mil reais para defendê-lo adequadamente. Indignado, Antônio, sem averiguar a fundo a informação, mas confiando na palavra do serventuário, escreve um texto reproduzindo a acusação e o entrega ao juiz titular da vara criminal em que Jorge trabalha como defensor público. Ao tomar conhecimento do ocorrido, Jorge apresenta uma gravação em vídeo da entrevista que fizera com o filho de Antônio, na qual fica evidenciado que jamais solicitara qualquer quantia para defendê-lo, e representa criminalmente pelo fato. O Ministério Público oferece denúncia perante o Juizado Especial Criminal, atribuindo a Antônio o cometimento do crime de calúnia, praticado contra funcionário público em razão de suas funções, nada mencionando acerca dos benefícios previstos na Lei nº 9.099/95. Designada Audiência de Instrução e Julgamento, recebida a denúncia, ouvidas as testemunhas, interrogado o réu e apresentadas as alegações orais pelo Ministério Público, na qual pugnou pela condenação na forma inicial, o magistrado concede a palavra à Vossa Senhoria para apresentar alegações finais orais. Em relação à situação 24 anterior, responda aos itens a seguir, empregando os argumentos jurídicos apropriados e a fundamentação legal pertinente ao caso: A) O Juizado Especial Criminal é competente para apreciar o fato em tela? (Valor: 0,30) B) Antônio faz jus a algum benefício da Lei nº 9.099/95? Em caso afirmativo, qual(is)? (Valor: 0,30) C) Antônio praticou crime? Em caso afirmativo, qual? Em caso negativo, por que razão? (Valor: 0,65) 3.2. Erro de tipo acidental É o erro que incide sobre dados acidentais do delito, sobre circunstâncias (qualificadoras, agravantes e causas de aumento de pena) e elementos irrelevantes da conduta típica. Não recai, portanto, sobre elementos essenciais do delito. Logo, no erro de tipo acidental não há exclusão do dolo ou culpa do agente. No erro de tipo acidental, o agente tem consciência do caráter criminoso da sua conduta, mas, por erro meramente secundário, o resultado produzido não sai exatamente conforme o desejado. Em outras palavras, há um crime, embora com resultado não exatamente conforme o desejado, por conta de um erro acidental. Por isso, o erro de tipo acidental não afasta a responsabilização penal do agente. São casos de erro acidental: a) erro sobre o objeto; b) erro sobre pessoa; c) erro na execução (aberratio ictus); d) resultado diverso do pretendido (aberratio criminis); e) erro sobre o nexo causal. 25 Erro de tipo acidentalErro sobre o objeto Erro sobre a pessoa Art. 20, §3º, CP Erro na execução (Aberratio ictus) Art. 73, CP Resultado diverso do pretendido (Aberratio Criminis) Art. 74, CP *Para todos verem: esquema. 3.2.1. Erro sobre o objeto Há erro sobre objeto quando o sujeito supõe que sua conduta recai sobre determinada coisa, mas, na realidade, incide sobre outra. É o caso de o sujeito subtrair farinha pensando ser açúcar. O erro é irrelevante, pois a tutela penal abrange a posse e a propriedade de qualquer coisa, pelo que o agente responde por furto. É o caso, ainda, de o sujeito desejar subtrair joia preciosa, mas apossar-se de objeto com valor reduzido, pois banhado a ouro. O erro é irrelevante, sendo meramente acidental, não influenciando a tipicidade da conduta do agente, pois subtraiu conscientemente coisa alheia móvel, errando, no entanto, quanto ao objeto. Todavia, boa parte da doutrina considera possível, verificando-se o caso concreto, a aplicação do princípio da insignificância, quando, por exemplo, o agente, primário e sem antecedentes criminais, subtrai a réplica de uma joia avaliada em R$ 10,00, supondo ser verdadeira e de elevado valor. 26 3.2.2. Erro sobre a pessoa Ocorre quando há erro de representação, em face do qual o sujeito atinge uma pessoa supondo tratar-se da que pretendia ofender. Pretende atingir certa pessoa, vindo a ofender outra inocente, pensando tratar-se da primeira. Nos termos do art. 20, § 3º, 2ª parte, reza o seguinte: “Não se consideram, neste caso” (erro sobre pessoa), “as condições ou qualidades da vítima, senão as de pessoa contra quem o agente queria praticar o crime”. Significa que no tocante ao crime cometido pelo sujeito, não devem ser considerados os dados subjetivos da pessoa diversa, mas sim os dados em relação à pessoa pretendida. No erro quanto à pessoa, a pessoa pretendida não corre risco de ser atingida, porque, em tese, não estava no local no momento dos fatos. Há um erro de representação, pois o agente se equivoca quanto à pessoa da vítima. Exemplo: Vinícius pretendia matar Dudu, camisa 10 e melhor jogador de futebol do time Energia, seu adversário no campeonato do bairro. No dia de um jogo do Energia, Vinicius vê, de costas, um jogador com a camisa 10 do time rival. Acreditando ser Dudu, efetua diversos disparos de arma de fogo, mas, na verdade, aquele que vestia a camisa 10 era Ricardo, adolescente que substituiria Dudu naquele jogo. Em virtude dos disparos, Ricardo faleceu. Note-se que Vinicius pretendia matar Dudu, mas, por erro na identificação, acabou matando Ricardo. Trata-se, pois, de erro sobre a pessoa. O erro quanto à pessoa é considerado tão secundário que o próprio legislador cuidou de assentar que, embora tenha atingido pessoa diversa (vítima efetiva), o agente responderá como se tivesse atingido a pessoa pretendida (vítima virtual). 3.2.2.1. Consequência Conforme se extrai do art. 20, § 3º, do CP, no contexto de erro quanto à pessoa, o agente não será isento de pena, respondendo pelo delito considerando-se as condições ou qualidades da vítima pretendida. Consideremos, por exemplo, a hipótese do filho desalmado, que, pretendendo matar seu pai, que contava com 55 anos de idade, realiza disparos de arma de fogo contra o homem que estava na varanda da residência do genitor, causando a morte deste. O filho 27 desalmado, então, deixa o local satisfeito, por acreditar ter concluído seu intento delitivo, mas vem a descobrir que matara um amigo de seu pai, que contava com 65 anos de idade, que, de costas, era com ele parecido. Nesse caso, nos termos do art. 20, § 3º, do CP, consideram-se as condições e qualidades da vítima pretendida. Logo, o filho desalmado responderá pelo crime de homicídio, com a incidência da agravante de ter praticado crime contra ascendente, prevista no art. 61, II, e, 1ª parte, do CP. Despreza-se, pois, as condições e características da pessoa atingida, ou seja, o agente não responderá pelo crime de homicídio doloso, com a causa de aumento de pena em razão da idade da vítima efetivamente atingida. De outro lado, consideremos que Wilson, pretendendo matar Tobias, de 70 anos de idade, amigo do seu pai, realiza disparos de arma de fogo contra o homem que estava na varanda da sua residência, causando a morte deste. Wilson, então, deixa o local satisfeito, por acreditar ter concluído seu intento delitivo, mas, logo depois, descobre que, na verdade, matara o seu próprio pai, que estava visitando o amigo, e, de costas, era com ele parecido. Nesse caso, o agente não responderá pelo crime de homicídio doloso, com a agravante por ter praticado crime contra o próprio pai, pois devem ser consideradas as condições e qualidades da vítima pretendida. E, como a vítima pretendida era Tobias, senhor de 70 anos de idade, Wilson responderá pelo crime de homicídio, com a causa de aumento de pena em razão da idade da vítima. Consideremos a hipótese da mãe que, sob o efeito do estado puerperal, logo após o parto, durante a madrugada, vai até o berçário de um hospital e, supondo ser o seu filho recém- nascido, sufoca um bebê até a morte. Após, verifica-se que, na verdade, a criança morta não era o seu filho, que se encontrava no berçário ao lado, mas um bebê diverso, tendo ela se equivocado, portanto, quanto à vítima desejada. Nesse caso, como desejava, sob influência do estado puerperal, matar o seu filho recém-nascido, despreza-se as condições e qualidades do bebê efetivamente morto, devendo ser consideradas às do próprio filho. Assim, a mãe deverá responder pelo crime de infanticídio (CP, art. 123), pois, embora tenha atingido bebê diverso, a responsabilização penal deve ser como se tivesse matado a vítima pretendida, ou seja, seu filho. 3.2.2.2. Como pode cair Pode cair em questões dissertativas e na peça. 28 Em questões dissertativas, o candidato deverá cuidar para não confundir com o erro na execução, sob pena de perda de pontos, sobretudo na hipótese de a banca considerar tese contraditória. Tanto da peça quanto das questões, o erro sobre a pessoa influenciará na correta tipificação da conduta do agente, sempre considerando as condições e qualidades da vítima pretendida. Assim, se o agente foi acusado de ter praticado crime de homicídio contra o pai, aplicando a agravante de ter matado ascendente, e o enunciado proporcionar informações que o agente pretendia praticar crime contra pessoa diversa, mas, por erro sobre a pessoa, já que estava escuro e a vítima pretendida apresentava a mesma estrutura física do pai. Nesse caso, deve-se afastar a agravante de praticar crime contra ascendente, já que se consideram as condições e qualidades de pessoa pretendida. Da mesma forma, é possível a desclassificação do crime para outro menos grave, como, por exemplo, a mãe ter sido denunciado pelo crime de homicídio qualificado, por ter matado um bebê asfixiado, tendo o enunciado proporcionado informações que ela estava sob influência do estado puerperal, e que pretendia matar o próprio filho. Nesse caso, o candidato deverá desenvolver a tese do erro sobre a pessoa, e postular que a ré seja pronunciada pelo crime de infanticídio (CP, art. 123), e não pelo crime de homicídio qualificado pela asfixia e recurso que impossibilitou a defesa da vítima (CP, art. 121, § 2º, III e IV). 3.2.3. Erro na execução (ABERRATIO ICTUS) 3.2.3.1. Introdução Ocorre erro na execução quando o agente, pretendendo atingir uma pessoa, por acidente ou erro no uso dos meios de execução, acaba atingindo pessoa diversa. O agente não erra quanto à identidade da pessoa, mas quanto ao uso dos meios de execução do delito. Com efeito, visualiza como certa a vítima pretendida, mas, por erro na pontaria, por exemplo, acaba atingindo pessoa diversa. A aberratio ictus pode ocorrer quando, por acidente, o agente,em vez de atingir a pessoa pretendida, atinge pessoa diversa. Nesse caso, suponhamos que o agente pretende matar Wilson, deixando na sua mesa de trabalho uma xícara de café contendo veneno. Todavia, quem toma o café é Pedro, que acaba falecendo. Pode ocorrer também quando, por erro nos meios de execução, o agente, em vez de atingir a pessoa pretendida, atinge pessoa diversa. Exemplo: agente pretendendo matar Wilson, 29 visualiza a vítima, tendo-a como certa, faz a mira e efetua o disparo, mas, no entanto, erra o alvo pretendido, atingindo pessoa diversa, que se encontrava próxima ao local. 3.2.3.2. Aberratio ictus com unidade simples Ocorre a aberratio ictus com resultado único quando em face de erro na execução somente a pessoa diversa da pretendida é atingida, resultando lesão corporal ou morte. A consequência jurídica da conduta do agente se encontra retratada no artigo 73, 1ª parte do Código Penal, que faz expressa remissão ao artigo 20, § 3º, do Código Penal. Ou seja, na hipótese de erro na execução, deve-se observar o disposto no artigo 20, § 3º, do Código Penal, segundo o qual, embora tenha atingido pessoa diversa, o agente deve receber tratamento penal considerando-se as condições ou qualidades da pessoa pretendida (vítima virtual), desprezando-se as condições pessoais da vítima efetivamente atingida. É o caso do agente que, pretendendo matar o seu pai, efetua disparo de arma de fogo, mas, por erro na pontaria, acaba atingindo pessoa diversa, que se encontrava próximo ao seu genitor. Nesse caso, teríamos, em tese, tentativa de homicídio em relação ao pai, e homicídio culposo em relação à pessoa diversa. Todavia, como se trata de resultado único, não é possível imputar a prática de dois crimes. Por isso, nos termos do art. 73 c/c 20, § 3º, ambos do CP, deve-se considerar as condições ou qualidades da vítima pretendida. Assim, no caso, embora tenha atingido pessoa diversa, o agente responde como se tivesse atingido a pessoa pretendida, ou seja, como se tivesse matado o próprio pai. Logo, responderá somente pelo crime de homicídio doloso consumado, com a incidência da agravante de ter praticado crime contra ascendente, prevista no art. 61, II, e, 1ª figura, do CP. Consideramos, ainda, a conduta de Wilson, que, após acirrada discussão com Pedro num evento comemorativo, efetuou disparo de arma de fogo contra a vítima pretendida. Contudo o projétil não atingiu Pedro e sim Maria, criança que estava correndo pelo salão da festa, matando-a. Nesse caso, Wilson deverá responder pelo crime de homicídio doloso consumado, sem a agravante de ter praticado crime contra criança. Isso porque devem ser consideradas as condições e qualidades da vítima pretendida (Pedro) e não da pessoa efetivamente atingida (a criança Maria). Imaginemos, por exemplo, que Wilson, pretendendo matar a sua esposa, efetua disparos de arma de fogo em sua direção, mas, por erro na pontaria, acaba atingindo Pedro, que reside 30 na casa em frente a do casal, causando-lhe a morte. Nesse caso, Wilson deverá responder pelo crime de homicídio doloso consumado, com a qualificadora do feminicídio (CP, art. 121, § 2o, VI), uma vez que, embora tenha acertado Pedro, o tratamento penal deve considerar as condições e qualidades da vítima pretendida (esposa). Em que pese constar no art. 73 do CP que o agente responde como se tivesse praticado crime contra a pessoa pretendida, essa regra também alcança eventual causa excludente de ilicitude. Assim, se, ao repelir agressão injusta, o agente, por acidente ou erro no uso dos meios de execução, atinge terceiro inocente, o tratamento penal deve levar em conta as condições ou qualidades da pessoa pretendida, que, no caso, seria o autor da agressão injusta. Logo, estará amparado pela excludente de ilicitude legítima defesa. Imaginemos que Wilson, agindo em legítima defesa contra agressão injusta praticada por José, atinja, por erro na execução, Maria, terceira inocente que estava passando pelo local no momento dos fatos, causando-lhe lesões graves. Nessa situação hipotética, Wilson não será responsabilizado criminalmente pelas lesões corporais graves provocadas em Maria, pois estará abarcado pela legítima defesa, como se tivesse atingido o agressor injusto. 3.2.3.3. Aberratio ictus com resultado duplo A aberratio ictus com resultado duplo ocorre quando o agente, além de atingir a vítima pretendida, atinge também pessoa diversa. Nesse caso, com uma única ação, o agente produz mais de um resultado: atinge a pessoa pretendida e também pessoa diversa. Por essa razão, o art. 73, 2ª parte, do CP faz expressa remissão ao art. 70 do CP, devendo ser aplicada a regra do concurso formal de crimes. Exemplo: Ao pretender matar Wilson, o agente efetua um disparo, que, além de atingir Wilson, atinge também Pedro, que se encontrava atrás da vítima pretendida. Por conta da potência da arma utilizada, o disparo efetuado causou a morte da pessoa pretendida e também a da pessoa diversa. Em tese, teríamos homicídio doloso em relação à vítima pretendida e homicídio culposo em relação à pessoa diversa. 31 Erro na execução Pessoa pretendida Acidente ou erro no uso dos meios de execução Pessoa diversa Com resultado único Consideram-se Condições ou qualidades da pessoa pretendida Com resultado duplo Concurso formal Art. 70 do CP Nesse caso, nos termos do que dispõe o artigo 73, 2ª parte, do Código Penal, deve-se aplicar a regra do artigo 70 do Código Penal, segundo o qual, se o agente com uma única ação praticar dois ou mais crimes, deve-se considerar a pena do crime mais grave, aumentando-a de 1/6 (um sexto) até a 1/2 (metade). *Para todos verem: esquema. 3.2.3.4. Como pode cair Pode cair em questões dissertativas e na peça. Em questões dissertativas, o candidato deverá cuidar para não confundir com o erro sobre a pessoa, sob pena de perda de pontos, sobretudo na hipótese de a banca considerar tese contraditória. A tese do erro na execução influenciará na correta tipificação da conduta do agente, sempre considerando as condições e qualidades da pessoa pretendida. Assim, se o agente pretender matar uma pessoa, erra o disparo e acerta a própria esposa, e for denunciado pelo homicídio qualificado pelo feminicídio (CP, art. 121, § 2º, VI), o candidato, desenvolvendo a tese do erro na execução, de- verá buscar afastar a qualificadora. Da mesma forma, se a pessoa pretendida for o agressor injusto, e, para se defender o agente teve de fazer uso de arma de fogo, mas, por acidente, atingiu pessoa diversa, o candidato deverá adotar a tese da legítima defesa, considerando as condições e qualidades da pessoa pretendida (agressor injusto). Nesse caso, se for resposta à acusação: absolvição sumária, com base no artigo 397, I, do CPP; se for memoriais ou apelação no procedimento comum: absolvição, com base no artigo 386, VI, do CPP; se for memoriais ou recurso em sentido estrito no procedimento do júri: absolvição sumária, com base no artigo 415, IV, do CPP. 32 3.2.4. Resultado diverso do pretendido (aberratio criminis) 3.2.4.1. Conceito A aberratio criminis também resulta de acidente ou erro na execução do crime, mas em contexto distinto da aberratio ictus. Na aberratio criminis, o agente pretende ofender um determinado bem jurídico, mas, por acidente ou erro na execução, acaba produzindo resultado diverso do pretendido. Na verdade, o agente pretendia praticar um crime, mas acaba praticando crime diverso do pretendido. Por essa razão, diz-se que na aberratio criminis há desvio do crime. Enquanto na aberratio ictus, a relação é entre “pessoa x pessoa”, ou seja, o agente, pretendendo atingir uma pessoa, acaba ofendendo pessoa diversa (ou ambas), na aberratio criminis, o agente quer atingir um bem jurídico e ofende outro bem jurídico, produzindo resultado diverso do pretendido.Exemplo: Ao pretender praticar o crime de dano (CP, art. 163), o agente atira uma pedra contra um carro. Todavia, por erro na pontaria, a pedra acabou atingindo uma pessoa que se encontrava próxima ao local. Note-se que o agente pretendia produzir um resultado (dano no veículo), mas acabou produzindo um resultado diverso do pretendido (lesão corporal). 3.2.4.2. Espécies a) Com unidade simples ou resultado único: Na aberratio criminis com unidade simples, o agente somente atinge o bem jurídico diverso do pretendido. Ou seja, o agente quer atingir uma coisa, mas, por acidente ou erro no uso dos meios de execução, ofende somente bem jurídico diverso. Nesse caso, conforme a primeira parte do art. 74 do CP, o agente responderá pelo resultado diverso do pretendido a título de culpa, se o fato é previsto como crime culposo. Assim, se o agente, pretendendo atingir o veículo do desafeto, com o intuito de praticar o crime dano (CP, art. 163), por erro na execução, não atinge o objeto, mas somente uma pessoa que se encontrava próxima ao local. No caso, não responderá por tentativa de dano e o crime culposo, mas somente por um crime: lesão corporal culposa (CP, art. 129, § 6º), se resultar lesão corporal; ou por homicídio culposo (CP, art. 121, § 3º, do CP), se resultar morte. Cumpre ressaltar, por pertinente, que, se o resultado previsto como crime culposo for menos grave ou se o crime não prever modalidade culposa, não se aplica o disposto no art. 74 33 do CP. Assim, se o agente efetua disparos de arma para matar a vítima, mas não o acerta e quebra a vidraça de uma casa ou acertar um carro, deve-se desprezar a hipótese do art. 74 do CP, respondendo por tentativa de homicídio. Primeiro, porque o crime de tentativa de homicídio é mais grave do que o delito de dano; segundo, porque não há previsão legal de dano culposo. b) Com unidade complexa ou resultado duplo Na aberratio criminis com resultado duplo, o agente, além de praticar o crime pretendido, também acaba produzindo um resultado diverso do pretendido, ou seja, com uma ação ou omissão, acaba provocando dois resultados. Nesse caso, como expressamente prevê a parte final do art. 74 do CP, aplica-se a regra do concurso formal de crimes (CP, art. 70), considerando-se a pena do crime mais grave aumentada de 1/6 até 1/2, de acordo com o número de resultados diversos produzidos. Certo dia, imaginemos que o agente, com raiva do vizinho, resolva quebrar a janela da residência dele. Para tanto, espera chegar a hora adequada e, supondo não haver ninguém na residência, o agente arremessa com força, na direção da casa do vizinho, um enorme tijolo, que, além de quebrar a vidraça, atinge também a nuca dele. O vizinho falece instantaneamente. Nesse caso, o agente deverá responder por homicídio culposo em concurso formal com o crime de dano (art. 121, § 3º, e art. 163, na forma do art. 70, todos do CP), considerando-se a pena aplicada ao crime de homicídio culposo, já que mais grave, aumentada de 1/6. 3.2.4.3. Como pode cair Pode cair em questões dissertativas e na peça. Em questões dissertativas, o candidato deverá cuidar para não confundir com erro na execução, sob pena de perda de pontos, sobretudo na hipótese de a banca considerar tese contraditória. A tese do resultado diverso do pretendido influenciará na correta tipificação da conduta do agente. Se, por exemplo, na hipótese de resultado único, o agente, ao invés de atingir um determinado bem, atinge, por acidente, uma pessoa, não poderá responder por dois crimes: tentativa de dano e lesão corporal culposa. Nesse caso, responderá somente pelo crime de lesão corporal culposa. 34 3.3. Questões: 8) QUESTÃO 2 – OAB FGV – X EXAME – 2013-11 Maria, mulher solteira de 40 anos, mora no Bairro Paciência, na cidade Esperança. Por conta de seu comportamento, sempre foi alvo de comentários maldosos dos vizinhos; alguns até chegavam a afirmar que ela tinha “cara de quem cometeu crime”. Não obstante tais comentários, nunca houve prova de qualquer das histórias contadas, mas o fato é que Maria é conhecida na localidade onde mora por ter má índole, já que sempre arruma brigas e inimizades. Certo dia, com raiva de sua vizinha Josefa, Maria resolve quebrar a janela da residência desta. Para tanto, espera chegar a hora em que sabia que Josefa não estaria em casa e, após olhar em volta para ter certeza de que ninguém a observava, arremessa com força, na direção da casa da vizinha, um enorme tijolo. Ocorre que Josefa, naquele dia, não havia saído de casa e o tijolo, após quebrar a vidraça, atinge também sua nuca. Josefa falece instantaneamente. Nesse sentido, tendo por base apenas as informações descritas no 35 enunciado, responda justificadamente: É correto afirmar que Maria deve responder por homicídio doloso consumado? (Valor: 1,25). Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontuação. 9) QUESTÃO AUTORAL No dia 15 de março de 2013, Silas Graça teria desferido um golpe de faca contra Max Novaes, acertando, todavia, Leleco, que estava próximo a eles. Em razão disso, após a conclusão do inquérito policial, o Ministério Público ofereceu denúncia contra Silas, imputando-lhe a prática do delito do artigo 121, “caput”, do Código Penal, já que Leleco teria falecido. Durante a instrução, Silas afirmou que Max partiu em sua direção com uma faca, buscando matá-lo. Acrescentou que, para se defender da agressão perpetrada por Max, sacou de sua faca e desferiu um golpe contra o agressor, que desviou, tendo, em razão disso, atingido Leleco, que estava próximo a eles. Tal versão foi confirmada pelas testemunhas anteriormente ouvidas pelo Magistrado. Encerrada a instrução, após manifestação do Ministério Público, que pugnou pela pronúncia, nos termos da denúncia, a defesa de Silas foi intimada no dia 10 de julho de 2015 (sexta-feira) para apresentar a peça correspondente. Analise o caso narrado e, com base apnas nas informações dadas, responda, fundamentadamente, aos itens a seguir. A) Qual o meio de impugnação cabível e o último dia do prazo para apresentá-lo? B) Qual(is) o(s) argumento(s) e o pedido a ser formulado em favor de Silas? Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontuação. 10) QUESTÃO AUTORAL Wilson, pretendendo matar Lucas, de 59 anos, realiza disparos de arma de fogo contra um homem que estava na varanda da residência da vítima, causando a morte deste. Wilson, então, deixa o local satisfeito, por acreditar ter concluído seu intento delitivo, mas vem a descobrir que matara um amigo de Lucas, de 70 anos, que, de costas, era com ele parecido. Após conclusão do inquérito policial, o Ministério Público ofereceu denúncia contra Wilson, imputando-lhe a prática do crime de homicídio doloso, com a causa de aumento de pena em razão da idade da vítima atingida (art. 121, § 4º, do Código Penal). Após regular instrução, o Ministério Público 36 pugnou pela pronúncia nos termos da denúncia. A defesa foi intimada no dia 11 de novembro de 2020, que caiu numa quarta-feira, para se manifestar. Com base na hipótese apresentada, responda, na condição de advogado(a) de Wilson, fundamentadamente, aos itens a seguir. A) Qual peça deverá ser apresentada pela defesa de Wilson e qual o último dia do prazo? Justifique. B) Existe argumento de direito material a ser apresentado em favor de Wilson em busca de uma decisão mais branda do que a postulado pelo Ministério Público? Justifique Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontuação. 3.4. Erro Provocado Por Terceiro O erro provocado por terceiro está previsto no art. 20, § 2º, do CP, segundo o qual somente o terceiro que determina o erro responderá pelo delito. Ao contráriodo erro de tipo essencial, em que o agente incide no erro sobre os elementos constitutivos do tipo legal por conta própria, no erro provocado por terceiro o agente é induzido por alguém a ter uma falsa percepção da realidade em relação aos elementos constitutivos do tipo legal. Há a figura do agente provocador e do agente provocado. O agente provocador induz o provocado a praticar determinada conduta, razão pela qual se diz que o erro não foi espontâneo, mas em decorrência da atuação de uma terceira pessoa. O terceiro provocador responde pelo delito na condição de autor mediato, podendo a provocação ser dolosa ou culposa. O terceiro provocado figura como autor imediato, podendo sua responsabilidade penal ser excluída, conforme a escusabilidade ou não do erro que incorreu. Há provocação dolosa quando o erro é preordenado pelo terceiro, que conscientemente induz o sujeito a incidir em erro. Neste caso, o terceiro provocador responde pelo crime a título de dolo. Existe determinação (ou provocação) culposa quando o terceiro provocador age com imprudência, negligência ou imperícia. O terceiro provocador responderá a título de culpa pelo delito decorrente da conduta do provocado. O tratamento penal em relação ao agente provocado (autor imediato) vai depender da escusabilidade ou não do erro ao qual foi induzido. Se o erro provocado pelo terceiro for 37 escusável ou inevitável, haverá exclusão do dolo e da culpa, não incidindo, portanto, qualquer responsabilização criminal em relação ao terceiro provocado. Se o erro provocado pelo terceiro for inescusável ou evitável, haverá exclusão do dolo, mas o terceiro provocado responderá pelo crime na modalidade culposa, desde que prevista em lei. Exemplo: Wilson havia alugado um apartamento parcialmente mobiliado e, após o encerramento do contrato de locação, chamou Pedro, seu amigo, que nunca havia estado no imóvel, para ajudá-lo com a retirada de seus pertences. Durante a mudança, Wilson garantiu a Pedro que a televisão que se encontrava na sala era de sua propriedade e deveria ser retirada, embora soubesse que o aparelho pertencia ao proprietário do imóvel. Ao perceber a situação, o proprietário do imóvel registrou boletim de ocorrência contra Wesley e Sidney. Nesse caso, apenas Wilson responderá por furto, pois Pedro agiu em erro de tipo escusável provocado por terceiro, sendo atípica sua conduta. Imaginemos outra situação. “A”, sem verificar se a arma se encontra carregada ou não, entrega o artefato a “B”, afirmando que está sem munição, induzindo-o a acionar o gatilho. Sem maiores cautelas, “B” acionado o gatilho, atingindo “C”, matando-o. O agente provocador “A” responde por homicídio culposo, na condição de autor mediato. Em relação a “B”, agente provocado, verificando-se que se trata de erro inescusável ou evitável, haverá a exclusão do dolo, mas a responsabilização pelo crime de homicídio culposo, já que há previsão legal do crime de homicídio na modalidade culposa. 38 Padrão Resposta 39 Questões Arrependimento Posterior 1) QUESTÃO 4 – XXXIV Exame – 2022-2 Geraldo, 30 anos, constrangeu Eugênia, desconhecida que passava pela rua, mediante grave ameaça, a transferir R$ 2.000,00 (dois mil reais) para sua conta. Diante da grave ameaça, Eugênia compareceu ao estabelecimento bancário com Geraldo e fez a transferência devida, sendo liberada em seguida. Eugênia, nervosa, compareceu à sede policial e narrou o ocorrido, sendo instaurado inquérito para identificação do autor do fato. Ocorre que Geraldo, no dia seguinte, antes de qualquer denúncia, arrependeu-se de sua conduta e transferiu de volta para a conta de Eugênia todo o valor antes obtido de maneira indevida. Confirmada a autoria, o Ministério Público ofereceu denúncia em face de Geraldo pela prática do crime de extorsão simples consumada (Art. 158, caput, do Código Penal), sendo decretada sua prisão preventiva, em razão da gravidade do fato e da reincidência. Durante audiência de instrução e julgamento, foi ouvida a vítima, que confirmou os fatos narrados na denúncia. O réu permaneceu em sala de audiência, e o reconhecimento foi realizado ao final da oitiva da vítima, ainda no local, sob o argumento de que, como havia muitos presos no Fórum, não haveria policiais suficientes para transporte de presos até a sala de reconhecimento. Assim, Eugênia apenas apontou para o denunciado e disse que ele seria o autor. As demais testemunhas esclareceram que não presenciaram o ocorrido. Com base no reconhecimento realizado, foi o réu condenado nos termos da denúncia, sendo aplicada pena base de 04 anos; pena intermediária de 04 anos e 03 meses em razão da reincidência, não sendo reconhecidas atenuantes ou outras agravantes; na terceira fase, não foram reconhecidas causas de aumento ou de diminuição de pena. O regime inicial aplicado foi o fechado. Intimado da sentença, esclareça, na condição de advogado de Geraldo em atuação em recurso de apelação, os itens a seguir. A) Qual argumento de direito processual poderá ser apresentado para questionar a produção probatória em audiência? Justifique. (Valor: 0,65) B) Qual argumento de direito material poderá ser apresentado, caso mantida a condenação, em busca da redução da pena aplicada? Justifique. (Valor: 0,60) Obs.: o(a) examinando(a) deve fundamentar suas respostas. A mera citação do dispositivo legal não confere pontuação. Gabarito Comentado 40 A) O argumento de direito processual a ser apresentado em favor de Geraldo é o da ilegalidade do reconhecimento de Geraldo realizado em audiência, por violação do disposto no artigo 226 do Código de Processo Penal. Isso porque, o reconhecimento não observou as formalidades do artigo 226 do Código de Processo Penal, sobretudo porque não realizado na presença de outras pessoas com características semelhantes àquelas da pessoa a ser reconhecida, mesmo havendo outros presos no local. B) O argumento de direito material seria a incidência da atenuante de reparação do dano, prevista no artigo 65, III, alínea “b”, do Código Penal. Isso porque Geraldo, no dia seguinte, antes de qualquer denúncia, arrependeu-se de sua conduta e transferiu de volta para a conta de Eugênia todo o valor antes obtido de maneira indevida, procurando, minorar as consequências de seu ato e reparou o dano, devolvendo o valor obtido indevidamente. 2) QUESTÃO 1 – XXXI Exame – 2022-3 Após receber informações de que teria ocorrido subtração de valores públicos por funcionários públicos no exercício da função, inclusive com vídeo das câmeras de segurança da repartição registrando o ocorrido, o Ministério Público ofereceu, sem prévio inquérito policial, uma única denúncia em face de Luciano e Gilberto, em razão da conexão, pela suposta prática do crime de peculato, sendo que, ao primeiro, foi imputada conduta dolosa e, ao segundo, conduta culposa. De acordo com a denúncia, Gilberto, funcionário público, com violação do dever de cuidado, teria contribuído para a subtração de R$ 2.000,00 de repartição pública por parte de Luciano, que teria tido sua conduta facilitada pelo cargo público que exercia. Diante da reincidência de Gilberto, já condenado definitivamente por roubo, não foram à ele oferecidos os institutos despenalizadores. O magistrado, de imediato, sem manifestação das partes, recebeu a denúncia e designou audiência de instrução e julgamento. No dia anterior à audiência, Gilberto ressarciu a Administração do prejuízo causado. Com a juntada de tal comprovação, após a audiência, foram os autos encaminhados às partes para apresentação de alegações finais. O Ministério Público, diante da confirmação dos fatos, requereu a condenação dos réus nos termos da denúncia. Insatisfeito com a assistência técnica que recebia, Gilberto procura você para, na condição