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O uso de ludicidade nas aulas de Língua Portuguesa Apresentação A ludicidade dentro da sala de aula traz muitos e duradouros benefícios na questão do ensino- aprendizagem, tornando-se ponto de interação, de interesse e de desenvolvimento para todos os envolvidos nesse processo. É por meio da brincadeira que a criança expressa seus sentimentos e, nesse sentido, utilizar as brincadeiras de forma elaborada e com objetivos, faz com que o aluno sinta-se ativo durante o processo de aprendizagem. Nessa Unidade de Aprendizagem, abordaremos o uso da ludicidade nas aulas de Língua Portuguesa. Primeiramente, veremos as questões que perpassam as reflexões sobre a aquisição da leitura e da escrita durante o processo de alfabetização e letramento, tendo como foco o brincar e a imaginação. Em seguida, vamos aprender como a ludicidade auxilia nesse momento específico da vida escolar através. Por fim, analisaremos quão primordial é o papel da ludicidade no desenvolvimento da oralidade, da leitura e da escrita em língua materna. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Construir debate acerca do desenvolvimento da imaginação e fantasia, quando na construção de consciência linguística. • Desenvolver o trabalho com as linguagens lúdicas, na alfabetização.• Reconhecer a importância do trabalho com a ludicidade, nas aulas de língua materna, no ensino infantil. • Desafio A práxis do professor de língua materna, nas séries iniciais, pode ser determinante para o futuro de seus alunos, enquanto usuários da língua portuguesa. Isso porque as relações de desenvolvimento e crescimento do indivíduo enquanto usuário eficiente da língua estão diretamente ligadas às escolhas e às formas de atuação do professor, em sua iniciação ao aprendizado da língua. Seu desafio consiste em tecer uma reflexão crítica acerca das boas práticas pedagógicas que devem ser escolhidas e praticadas pelo professor de Língua Portuguesa da educação infantil, considerando a aplicação de elementos de ludicidade. Para esse desafio, siga os seguintes passos: 1- Desenvolva uma crítica que reflita a relação entre boas práticas e resultados, no ensino de Língua Portuguesa, nas séries iniciais. 2- Apresente exemplos de boas práticas que contribuam para o aprendizado de língua materna. Infográfico No Infográfico a seguir, você vai ver que por meio das atividades lúdicas, a criança desenvolve elementos humanos necessários à vida inteira, em quaisquer áreas do conhecimento. Prestem atenção em algumas habilidades desenvolvidas por meio da ludicidade utilizada nas aulas de Língua Portuguesa. Dessa forma, o professor ao possibilitar o contato da criança com lúdico e com a imaginação, tanto na Educação Infantil quanto no Ensino Fundamental I, proporciona uma construção mais significativa do conhecimento que beneficia todos os envolvidos no processo de ensino- aprendizagem. Conteúdo do livro A ludicidade tem sido incorporada às práticas educativas por conta de seu importante papel na motivação dos alunos e na promoção de aprendizagens mais significativas. No ensino da Língua Portuguesa, as atividades lúdicas podem contribuir para o desenvolvimento da oralidade e do estabelecimento de uma relação prazerosa com os materiais escritos na Educação Infantil e, para a construção de habilidades de consciência linguística, escrita e leitura, nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Nesse capítulo você irá conceituar a consciência linguística e identificar os elementos que são importantes para o seu desenvolvimento. Irá também refletir sobre a importância da ludicidade no ensino da língua materna, tanto na Educação Infantil, como no Ciclo de Alfabetização. Boa leitura. CONTEÚDO E METODOLOGIA DO ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Debater acerca do desenvolvimento da imaginação e da fantasia quando da construção da consciência linguística. > Desenvolver o trabalho com as linguagens lúdicas na alfabetização. > Reconhecer a importância do trabalho com a ludicidade nas aulas da língua materna, no ensino infantil. Introdução A aprendizagem da leitura e da escrita demanda a compreensão da função que a escrita alfabética tem e da maneira como ela é organizada. A construção da escrita é facilitada pela consciência linguística, que tem como elemento fundamental para o desenvolvimento de suas habilidades a ludicidade, também fundamental para a aprendizagem de outros aspectos da língua materna. Neste capítulo, você poderá refletir sobre a imaginação e a criatividade como elementos da ludicidade e reconhecer o seu papel no desenvolvimento da cons- ciência linguística. Além disso, você também poderá compreender o papel das atividades lúdicas no trabalho com a língua materna na educação infantil e no ciclo de alfabetização. O uso da ludicidade nas aulas de língua portuguesa Maria Elena Roman de Oliveira Toledo A imaginação e a fantasia na construção da consciência linguística A consciência linguística é a habilidade do indivíduo de descrever e de agir sobre os próprios conhecimentos linguísticos. O processo de conscientização linguís- tica se dá progressivamente, partindo de um estágio de inconsciência, até chegar ao nível de consciência plena, que se manifesta quando o indivíduo é capaz de manipular e descrever aquilo que é alvo de sua reflexão, monitorar aquilo que é percebido e julgar o que é aprendido ou deve ser aprendido (BUBLITZ, 2010). Dentre os diferentes níveis de consciência linguística, a consciência fo- nológica tem recebido um destaque maior, como consequência das políticas nacionais de alfabetização que priorizam a consciência fonêmica e a relação grafo-fônica para o desenvolvimento da leitura e da escrita, pensadas a partir da proposta apresentada pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) (BRASIL, 2017). Quando uma criança constata que a palavra “trem” é escrita com poucas letras e que a palavra “moranguinho” é escrita com várias letras, ela está refletindo sobre a relação existente entre o tamanho real dos objetos e a quantidade de letras necessárias para a realização do registro, o que se convencionou chamar “realismo nominal”. Quando ela percebe que as pala- vras “papai” e “pateta” começam com a mesma letra, embora não tenham nada em comum, ela já está associando a escrita ao valor sonoro das sílabas pronunciadas (MORAIS; LEITE, 2005). A reflexão da criança sobre a língua, observando as características das palavras (semelhança sonora com outras palavras da língua, seu tamanho, as partes que as compõem), é característica das habilidades de reflexão fonológica, ou, como é chamada na literatura especializada, de consciência fonológica (MORAIS; LEITE, 2005). A consciência fonológica é uma habilidade metalinguística que se refere à repre- sentação consciente das propriedades fonológicas e das unidades que constituem a fala, incluindo a capacidade de refletir sobre os sons da fala e sua organização na formação das palavras. Essa consciência metalinguística é o reconhecimento pelo indivíduo de que as palavras são formadas por vários sons diferentes, manipuláveis, considerando não só a capacidade de reflexão, como também a de operação com fonemas, sílabas, rimas e aliterações (BUBLITZ, 2010, p. 33). É a consciência fonológica que nos permite perceber os sons das pa- lavras que ouvimos, possibilitando a identificação de rimas e de palavras que começam e terminam com os mesmos sons e de fonemas que podem ser manipulados para a formação de novas palavras (MORAIS; LEITE, 2005). O uso da ludicidade nas aulas de língua portuguesa2 Vários estudos realizados nas últimas décadas têm buscado estabelecer uma relação entre a consciência fonológica e o sucesso/insucesso no processo de alfabetização. Embora não haja estudos conclusivos e as considerações até o momento não tenham chegado a um consenso sobre como se dá a relação entre a consciência fonológica e a leitura e a escrita (sea primeira é pré-requisito para as outras duas ou se, à medida que a leitura e a escrita se desenvolvem, determinam o desenvolvimento da consciência fonológica), sua importância no processo de alfabetização é inegável (MORAIS; LEITE, 2005). Apesar de as habilidades de reflexão fonológica não serem suficientes para que um indivíduo domine a escrita alfabética, elas são uma condição necessária. Intervenções pedagógicas para desenvolver habilidades de reflexão fonológica Ao assumir um compromisso com a educação integral dos indivíduos, a BNCC elencou 10 competências gerais, cujo desenvolvimento deve ser assegurado a todos os alunos da educação básica (BRASIL, 2017). A imaginação e a criatividade estão previstas nas competências elencadas, como elementos fundamentais para a construção de novos conhecimentos. Exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria das ciências, incluindo a investigação, a reflexão, a análise crítica, a imaginação e a criatividade, para investigar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções (inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das diferentes áreas (BRASIL, 2017, p. 9). A menção à criatividade e à imaginação é feita em muitos outros trechos do documento, que sempre as apresenta como partes da ação dos educandos sobre os objetos de conhecimentos visando à construção de novos saberes. No que se refere à construção da consciência linguística, a imaginação e a criatividade são estratégias usadas pelas crianças para inferir o que pode estar escrito quando tentam ler ou escrever algo. Essas estratégias são construídas a partir das relações constantes da criança com o mundo e suas representações. A ludicidade é parte desse processo, pois a criança não vê nesse ato imaginativo algo que não seja uma aventura pelo conhecimento. Brincadeiras cantadas, parlendas, versos e adivinhas são atividades lúdi- cas que já fazem parte do repertório infantil e que podem ser incorporadas às práticas docentes, como forma de provocar a reflexão das crianças sobre as palavras e seus sons. O uso da ludicidade nas aulas de língua portuguesa 3 Os jogos também são ótimos recursos para a construção da consciência fonológica, podendo ser utilizados com o objetivo de oportunizar aos alfa- betizandos (BRANDÃO et al., 2009): � a compreensão de que, para aprender a escrever, é preciso refletir sobre os sons, e não apenas sobre os significados das palavras; � a compreensão que as palavras são formadas por unidades sonoras menores; � o desenvolvimento da consciência fonológica, por meio da exploração dos sons iniciais das palavras (aliterações) ou finais (rimas); � a comparação de palavras quanto às semelhanças e diferenças sonoras; � a percepção de que as palavras têm diferentes partes sonoras iguais; � a identificação da sílaba como unidade fonológica; � a segmentação de palavras em sílabas; � a comparação de palavras quanto ao tamanho, por meio da contagem do número de sílabas. Um exemplo de jogo que pode ser utilizado para o desenvolvimento da consciência fonológica é a trinca mágica (BRANDÃO et al., 2009). O jogo é composto por 24 cartas, que correspondem a oito trincas de cartas contendo figuras de animais, objetos, instrumentos, etc. cujos nomes rimam. Nesse jogo, que é jogado por quatro jogadores, ganha o primeiro a formar uma trinca de cartas com rimas. Outro exemplo de jogo que também pode ser utilizado com o mesmo propósito é a batalha de palavras, que tem por objetivos a identificação da sílaba como unidade fonológica, a segmentação das palavras em sílabas e a comparação das palavras quanto ao número de sílabas (BRANDÃO et al., 2009). Podendo ser jogada por dois jogadores ou duas duplas, a batalha de palavras é um jogo composto por 30 fichas com figuras cujos nomes variam quanto ao número de sílabas. As fichas devem ser distribuídas igualmente entre os dois jogadores, que devem colocá-las com as faces viradas para baixo, uma em cima da outra, formando um monte. Então, os dois jogadores devem desvirar, ao mesmo tempo, a primeira ficha do monte. Aquele que desvirar a palavra com o maior número de sílabas ganha a sua ficha e a ficha desvirada do adversário. Vence o jogo quem tiver mais fichas no final. Esses jogos são apenas exemplos de atividades lúdicas que podem ser propostas pelo professor para que os alunos possam, de maneira prazerosa e lúdica, desenvolver suas habilidades de consciência fonológica. O uso da ludicidade nas aulas de língua portuguesa4 O debate sobre a construção da consciência linguística é bastante amplo. Nesta seção, apresentamos algumas possibilidades de uso da ludicidade no processo de construção do conhecimento sobre a escrita. A seguir, isso será analisado mais detalhadamente em relação aos anos iniciais do ensino fundamental e à educação infantil. A ludicidade na alfabetização Na história da educação brasileira, durante muito tempo as práticas peda- gógicas voltadas para a aquisição da leitura e da escrita estiveram baseadas em métodos de alfabetização que, partindo de diferentes unidades da língua, tinham como elemento comum o pressuposto de que o início do processo de alfabetização é determinado pelo professor. Os métodos de alfabetização pressupunham, então, que as crianças não tinham qualquer conhecimento sobre a escrita antes de a escola empreender ações para que elas começassem a tê-lo e que o processo de alfabetização acontecia pela aquisição de técnicas de codificação (transformação de fonemas em grafemas) e de decodificação (transformação de grafemas em fonemas). Essas técnicas eram adquiridas pelos alunos por meio da reprodução passiva do que era transmitido pelo professor para que eles memorizassem. Nos anos 1980, os estudos realizados por Emilia Ferreiro e Ana Teberosky (1985) demonstraram que a criança constrói conhecimentos sobre a escrita antes de entrar na escola, quando da interação com materiais escritos presen- tes na sociedade. Também demonstraram que a criança participa ativamente do processo de construção da escrita e que esta é uma representação. Assim, ao interagirem com a escrita, que é o objeto do conhecimento, as crianças constroem hipóteses sobre como ela funciona. O livro mais conhecido de Emilia Ferreiro é Psicogênese da língua escrita (1985), escrito em parceria com Ana Teberosky. Essa obra revela os processos de aprendizagem da escrita utilizados pelas crianças, provocando o questionamento dos métodos tradicionais de ensino da leitura e da escrita. A divulgação das ideias de Emília Ferreiro provocou a revisão das práticas alfabetizadoras ao mostrar a necessidade das atividades que colocam a criança em um papel ativo no processo de aprendizagem da leitura e da escrita. O uso da ludicidade nas aulas de língua portuguesa 5 Na busca por caminhos que oportunizassem a ação cognitiva infantil sobre o objeto de conhecimento, a ludicidade passou a ser vista como elemento fundamental para a construção do sistema de escrita. Nesse contexto, há várias possibilidades. Aqui vamos apresentar o papel dos jogos como caminho favorável a uma alfabetização apoiada na ludicidade. Além de ser veículo de expressão e socialização das práticas culturais da humanidade e veículo de inserção no mundo, o jogo também é uma atividade lúdica na qual as crianças se engajam em um mundo imaginário, regido por regras próprias, construídas, em geral, a partir das próprias regras sociais de convivência (BRANDÃO et al., 2009). Na alfabetização, os jogos podem ser importantes aliados para que as crianças reflitam sobre o sistema de escrita sem ter de realizar treinos me- cânicos e desprovidos de significado. Nos momentos de jogo, as crianças mobilizam saberes acerca da lógica de funcio- namento da escrita, consolidando aprendizagens já realizadas ou se apropriando de novos conhecimentos nessa área. Brincando, elas podem compreender os princípios de funcionamento do sistema alfabético e podemsocializar seus saberes com os colegas (BRANDÃO et al., 2009, p. 14). É importante destacar que a simples disponibilização dos jogos em sala de aula não é suficiente para a promoção da aprendizagem. De acordo com Kishimoto (2003), o trabalho pedagógico com jogos demanda a oferta de estímulos externos e a influência de parceiros, bem como a sistematização dos conceitos em situações que não sejam as em que se está jogando. Sendo assim, é papel do professor selecionar os jogos mais adequados para os objetivos didáticos pretendidos, garantir que haja jogos suficientes para que todos os alunos possam participar e planejar ações sistemáticas para que a aprendizagem ocorra de fato. Para a seleção dos jogos que serão utilizados na alfabetização, o professor pode, em um primeiro momento, realizar um levantamento das brincadeiras já conhecidas pelas crianças. Ao fazer isso, certamente o professor perceberá que as crianças já têm construído um amplo repertório de trava-línguas, adivinhas, parlendas, cantigas de roda, versinhos, entre outros. Outros jogos bastante presentes no repertório infantil e que podem ser incorporados às práticas educativas são os jogos de forca, as palavras cruzadas e os jogos de stop (BRANDÃO et al., 2009). A inserção desses jogos nas práticas de alfa- betização pode despertar a atenção e a reflexão sobre a língua de maneira bastante prazerosa. O uso da ludicidade nas aulas de língua portuguesa6 O papel do professor na proposição de jogos nas classes de alfabetização O professor tem um papel fundamental na inserção dos jogos nas classes de alfabetização, como elemento promotor de novas aprendizagens. Para realizar essa inserção, ele precisa não apenas ter clareza sobre os objetivos pedagógicos que pretende atingir, mas também ser capaz de identificar os conhecimentos já construídos pelos alunos sobre a escrita. A identificação dos saberes das crianças é fundamental para a escolha dos jogos mais adequados para cada grupo de alunos. Sem ela, pode acon- tecer de o professor propor jogos muito fáceis, que, por isso, não motivem os alunos, ou, de outro modo, muito difíceis, impedindo as possibilidades de aprendizagem. Para identificar os conhecimentos que as crianças já têm sobre a escrita, antes que elas escrevam convencionalmente, é necessário que o professor realize uma sondagem de escrita. A sondagem de escrita é um instrumento de avaliação diagnóstica, criado por Emilia Ferreiro, que consiste em um ditado de palavras que a criança não conhece de memória e uma frase. De acordo com os registros realizados pelas crianças, é possível identificar os conhecimentos já construídos e planejar ações para a promoção de avanços no percurso de aprendizagem. Para saber mais sobre a sondagem, recomendamos a leitura do artigo “Diag- nóstico na alfabetização para conhecer a nova turma” (MOÇO, 2009), publicado no site Nova Escola. Para que as atividades com os jogos sejam bem-sucedidas, o professor tam- bém deve observar outros aspectos, descritos a seguir (BRANDÃO et al., 2009). � Quando um jogo for apresentado à turma pela primeira vez, é impor- tante que as regras do jogo sejam apresentadas para todos os alunos ao mesmo tempo. � De acordo com o tipo de jogo escolhido, podem-se formar duplas, trios, pequenas ou grandes equipes. Alguns jogos também podem ser jogados individualmente, de modo a atender às demandas específicas de cada aluno. � Sempre que possível, o professor deve retomar as regras do jogo em cada grupo, pedindo que os alunos as expliquem, para ter certeza que todos compreenderam a proposta. O uso da ludicidade nas aulas de língua portuguesa 7 � Sempre que possível, é importante que o professor retome o que foi explorado no jogo, sistematizando as aprendizagens. Por exemplo, se o jogo propunha a identificação de palavras que rimassem entre si, o professor pode pedir que os grupos digam quais foram as palavras que encontraram e registrá-las na lousa. Feito isso, ele pode desafiar os alunos a encontrar outras palavras que rimem com as que já foram registradas. � No início do processo de alfabetização, para subsidiar a reflexão sobre a língua, o professor pode disponibilizar recursos, como o alfabeto móvel ou uma cartela com o alfabeto, para que os alunos os consultem quando necessário. Em lojas físicas ou virtuais, é possível encontrar vários jogos voltados para a reflexão sobre a escrita no processo de alfabetização. O professor pode utilizar esses jogos já disponíveis, criar seus próprios jogos ou, ainda, com um olhar atento, propor variações e novos desafios a partir dos jogos já existentes. Durante as situações de jogo, é fundamental que o professor transite entre os grupos para prestar atenção nas falas das crianças e, sempre que neces- sário, realizar intervenções. O registro dessas observações é um importante instrumento para a avaliação das ações realizadas e para o planejamento de outras ações lúdicas. Importa ressaltar que, mesmo inserida no processo de alfabetização es- colar, a criança continua sendo criança e, como tal, tem o direito de interagir com os objetos do conhecimento utilizando as habilidades que são próprias da infância, como a imaginação e a criatividade. Sendo assim, as situações propostas para a inserção da criança no universo da escrita não podem colocá-la em um lugar de passividade, nem serem tediosas e desprovidas de significado. A ludicidade na abordagem da língua materna na educação infantil A educação infantil é a primeira etapa da educação básica, voltada para o atendimento de crianças com 0 a 5 anos de idade (BRASIL, 1996). Como tal, ela é o início e o fundamento do processo educacional, significando, na maioria das vezes, a primeira inserção das crianças em uma situação de socialização estruturada (BRASIL, 2017). O uso da ludicidade nas aulas de língua portuguesa8 A BNCC (BRASIL, 2017), tendo por base as Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Infantil (BRASIL, 2009), adota as interações e as brincadeiras como eixos estruturantes das práticas pedagógicas desenvolvidas na edu- cação infantil. Na perspectiva adotada pela BNCC (BRASIL, 2017), as interações e a brin- cadeira são experiências pelas quais as crianças podem construir conheci- mentos, desenvolver-se e socializar-se por meio de suas ações e da interação com seus pares e com os adultos. Tendo em vista tanto os eixos estruturantes das práticas pedagógicas quanto as competências gerais da educação básica previstas na BNCC, seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento visam a assegurar, na educação infantil: [...] as condições para que as crianças aprendam em situações nas quais possam desempenhar um papel ativo em ambientes que as convidem a vivenciar desafios e a sentirem-se provocadas a resolvê-los, nas quais possam construir significados sobre si, os outros e o mundo social e natural (BRASIL, 2017, p. 37). O brincar é um dos direitos de aprendizagem da educação infantil, ao lado de conviver, participar, explorar, expressar e conhecer-se. Como direito de aprendizagem, o brincar é previsto, cotidianamente, de diversas formas, em diferentes espaços e tempos e com diferentes parceiros (BRASIL, 2017). A proposição do brincar, tanto como eixo estruturante das práticas pe- dagógicas quanto como direito de aprendizagem, coloca a ludicidade em um lugar de grande relevância para a promoção de aprendizagens e desenvolvi- mento na educação infantil, em respeito às especificidades dessa etapa do desenvolvimento humano. Também como forma de contemplar essas especificidades, o currículo na educação infantil não está organizado de maneira disciplinar, e sim sob a forma de campos de experiências. Considerando que, na educação infantil, as aprendizagens e o desenvolvimento das crianças têm como eixos estruturantes as interações e a brincadeira, assegurando- -lhes os direitos de conviver, brincar, participar, explorar, expressar-se e conhecer- -se, a organização curricular da educaçãoinfantil na BNCC está estruturada em cinco campos de experiências, no âmbito dos quais são definidos os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento (BRASIL, 2017, p. 40). A proposição de campos de experiências como forma de organização curricular visa ao acolhimento das situações e das experiências concretas da vida cotidiana das crianças, bem como dos conhecimentos já construídos por O uso da ludicidade nas aulas de língua portuguesa 9 elas, utilizando-os como pontos de partida para a construção dos saberes que fazem parte do patrimônio cultural da humanidade. Os cinco campos de experiências em que se organiza a educação infantil são apresentados na Figura 1. Figura 1. Campos de experiências na educação infantil. Fonte: Adaptada de Brasil (2017). Embora pensados de maneira interdisciplinar, cada um dos campos de experiências prioriza uma determinada área do currículo. O ensino da língua materna é priorizado no campo de experiências “Escuta, fala, pensamento e imaginação”, detalhado a seguir. Escuta, fala, pensamento e imaginação Um dos objetivos do campo de experiências “Escuta, fala, pensamento e imaginação” é o desenvolvimento da oralidade infantil. Sendo assim, é fun- damental que as crianças vivenciem situações em que possam falar e ouvir, O uso da ludicidade nas aulas de língua portuguesa10 ampliando seus recursos de participação na cultura oral. A participação em situações de escuta de histórias, de conversação, de descrições, de narrativas elaboradas individualmente ou em grupo e de interação com múltiplas lingua- gens possibilita a formação da criança como um sujeito único e pertencente a um grupo cultural (BRASIL, 2017). A curiosidade pela cultura escrita, manifestada desde cedo, deve ser incentivada na escola, em situações nas quais as crianças possam ouvir e acompanhar a leitura de textos de gêneros diversos e observar os diferentes textos que têm uma circulação social efetiva. Sendo assim, a educação infantil deve proporcionar às crianças a imersão na cultura escrita, oportunizando a elas diferentes experiências com textos diversos, em situações contextualiza- das, a partir das quais as crianças possam construir suas hipóteses sobre as funções sociais da escrita e sobre suas formas de representação (BRASIL, 2017). Os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento para a educação infantil na BNCC são propostos de acordo com três grupos etários, a saber (BRASIL, 2017): � bebês (de 0 a 1 ano e 6 meses); � crianças bem pequenas (de 1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses); � crianças pequenas (de 4 anos a 5 anos e 11 meses). Nos três grupos etários, as situações de ensino e aprendizagem da língua materna devem ser pautadas pela ludicidade e pelas interações. É necessário que o professor sempre tenha em mente esses dois eixos estruturantes do trabalho pedagógico para que possa propor situações nas quais sejam ga- rantidas, efetivamente, as condições de aprendizagem, de desenvolvimento e de brincadeira. Cabe ao professor realizar a gestão dos tempos e espaços escolares, bem como organizar os materiais necessários para que as crianças tenham a oportunidade de aprender brincando. A seguir, apresentamos algumas possibilidades e espaços de aprendiza- gem como fonte de inspiração para o planejamento de outras atividades, que devem ser pensadas a partir das particularidades do alunado e das características do contexto em que as ações serão desenvolvidas. � Teatro de fantoches: ao ouvir histórias, as crianças desenvolvem a escuta atenta do outro, ampliam seu vocabulário e começam a per- ceber o encadeamento lógico dos fatos. As crianças podem recontar as histórias contadas pelo professor utilizando os fantoches ou, em pequenos grupos, produzir suas próprias histórias orais. O uso da ludicidade nas aulas de língua portuguesa 11 � Dramatização de histórias conhecidas pelas crianças: as crianças po- dem dramatizar as histórias que fazem parte do repertório do grupo, utilizando fantasias, roupas dos adultos e objetos do cotidiano para a construção do cenário e do figurino. � Músicas: as atividades musicais são importantes para as crianças. Com elas, podem ser explorados gestos, expressões corporais e os sentidos, de uma maneira geral. Para os bebês e para as crianças bem pequenas, a participação nesse tipo de atividade propicia a ampliação do repertório vocabular, bem como o desenvolvimento da oralidade. � Cantos de leitura (canto dos gibis, das revistas, dos livros): organizados pelo professor, nesses cantos as crianças podem interagir com materiais escritos e ler, mesmo sem saber ler. Os cantos de leitura possibilitam, de maneira lúdica, a construção de uma relação prazerosa com o texto escrito e oferecem subsídios para a construção de hipóteses sobre as funções da escrita e seu funcionamento. � Canto do faz de conta: organizado com a ajuda das famílias, que po- dem enviar para a escola objetos e roupas que não estão mais sendo utilizadas, esse espaço propicia a brincadeira de faz de conta, em que as crianças interagem com seus pares e constroem suas narrativas a partir de suas vivências e seus saberes. Tanto as atividades quanto os espaços pensados para propiciar a interação e as brincadeiras devem ser incorporados ao planejamento docente, de modo que façam parte da rotina das classes de educação infantil. Assim, na educação infantil, as experiências com a linguagem têm como fio condutor a construção de algumas competências fundamentais, como a percepção das relações sonoras que a oralidade proporciona e que estão presentes na consciência fonológica necessária à construção da escrita, além do conhecimento sobre a função social da escrita. A construção dessas com- petências é possibilitada pela diversidade de atividades lúdica aqui descritas. Neste capítulo, você pôde compreender que a imaginação e a criatividade infantil são fontes das relações próprias da criança com o mundo que a cerca, tendo aqui como enfoque o desenvolvimento do conhecimento sobre a escrita. Ao brincar e interagir, seja na educação infantil, seja nos primeiros anos do ensino fundamental, a criança estará diante de boas oportunidades para construir o conhecimento e pensar sobre ele, pois ela é um ser integral, curioso, que cria e recria o próprio mundo. O uso da ludicidade nas aulas de língua portuguesa12 Referências BRANDÃO, A. C. P. A. et al. (org.). Jogos de alfabetização. Recife: CEEl/UFPE, 2009. Dis- ponível em: http://www.serdigital.com.br/gerenciador/clientes/ceel/arquivos/5.pdf. Acesso em: 11 maio 2021. BRASIL. Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Diário Oficial da União, Brasília, DF, ano 134, n. 248, seção 1, p. 27833-27841, 23 dez. 1996. Disponível em: https://pesquisa. in.gov.br/imprensa/jsp/visualiza/index.jsp?data=23/12/1996&jornal=1&pagina=1&tot alArquivos=289. Acesso em: 11 maio 2021. BRASIL. Ministério da Educação. Base nacional comum curricular. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2017. 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Acesso em: 11 maio 2021. O uso da ludicidade nas aulas de língua portuguesa 13 Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu funcionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. O uso da ludicidade nas aulas de língua portuguesa14 Dica do professor Assista ao vídeo a seguir e entenda o que é ludicidade, como ela pode ser trabalhada nas aulas de Língua Portuguesa e os empecilhos encontrados em relação à inserção do lúdico nas atividades curriculares das escolas. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/935219ec1efc9835965ebed7bb170986 Exercícios 1) "[...] o significado do lúdico não pode estar restrito apenas aos jogos e brincadeiras. Seria preciso associá-lo a algo alegre, agradável, que o indivíduo faz de forma livre e espontânea” (MEC/SEB, 201. Aponte a alternativa que apresenta as positividades do trabalho com o lúdico, nas aulas de Língua Portuguesa da educação infantil: A) Ocorre pouco envolvimento da criança com o conteúdo aprendido. B) Desenvolve na criança o amor pela leitura, mas desestimula a escrita. C) Há por parte da criança atribuição de significado em relação àquilo que está sendo ensinado. D) Oferta desestímulo para o aprendizado, uma vez que a criança entende que sua função é apenas brincar. E) Desestimula a interação e, portanto, retarda o desenvolvimento da oralidade na criança. 2) Em sala de aula, normalmente, o ensino-aprendizagem acontece por meio de atividades lúdicas, que são desenvolvidas em agrupamento de alunos. Sobre os critérios para realização do planejamento e organização das dinâmicas e dos espaços, é CORRETO: A) não agrupar crianças que possuam conhecimentos aproximados de determinado conteúdo. B) agrupar as crianças que estejam na mesma fase de desenvolvimento. C) agrupar as crianças a partir das suas predileções de atividades e brincadeiras, deixando-as participar de atividades não coordenadas. D) desestimular a criança a participar de algumas atividades, devido à sua dificuldade de aprendizagem. E) planejar a prática de atividades lúdicas, sendo dispensável a análise da fase de aprendizagem em que as crianças se encontram. No primeiro ano do Ensino Fundamental I, o aluno ainda está se desenvolvendo enquanto alfabetizado. Nessa fase ocorre, com frequência, a leitura em voz alta feita pelo professor. 3) Sobre essa prática e sua importância, pode-se afirmar que: A) O professor assume o papel de ledor, mas não de mediador da discussão. B) O professor, ao exercer tal prática, erra, pois impossibilita que o aluno se desenvolva, uma vez que faz por ele. C) O professor deve escolher histórias/textos que povoem a cabeça da criança, desenvolvam a sua imaginação. D) A forma como o professor deverá ler o texto escolhido não interfere na recepção do texto por parte dos alunos. E) Uma boa estratégia é o trabalho com textos literários tradicionais. 4) No que se refere ao uso de jogos didáticos, em aulas de Língua Portuguesa, é comum que o professor trabalhe vários jogos ao mesmo tempo, separando as crianças em grupos ou duplas, a partir da habilidade ou competência que se pretende desenvolver na criança. A alternativa que melhor compreende o uso de jogos didáticos, nas aulas de língua materna, é: A) O agrupamento dos alunos não deve ser pensado, considerando os momentos diferentes da apropriação do sistema de escrita em que as crianças se encontram. B) Não é recomendado que professor planeje situações nas quais todo o grupo participe de um mesmo jogo. C) Uma atividade, por exemplo, que trabalhe a consciência fonológica da criança e que seja uma necessidade de todos poderá ser aplicada a todo o grupo. D) Existem jogos que desenvolvem habilidades específicas e, portanto, devem ser pensados em relação à fase de aprendizagem em que as crianças se encontram. E) Não deve ser preocupação do professor pensar o fator diversidade quando planejar suas aulas lúdicas. 5) A consciência fonológica pode ser desenvolvida na criança através de várias atividades lúdicas. Aponte a alternativa que apresenta um grupo de atividades lúdicas que trabalham a consciência fonológica. A) Teatro, música e contação de histórias. B) Contação de histórias, "auto- ditado" e música. C) Jogos com palavrinhas desconhecidas, cantinho da leitura e desenho. D) Interprete a personagem, leitura de historinha e jogo da forca. E) Colorir, dançar e cantinho da leitura. Na prática Veja a seguir exemplos sobre o uso da ludicidade no ensino de língua materna. Confira uma cartela variada de brincadeiras e jogos que podem ser desenvolvidas nas aulas de Língua Portuguesa, nas séries iniciais: Veja aqui http://pt.slideshare.net/jlsluciano/jogos-delinguaportuguesa?related=1 Saiba + Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: A ludicidade no ensino de língua portuguesa nas séries finais Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. A ludicidade no ensino de língua portuguesa: não é brincar de lecionar e sim lecionar brincando Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Jogos e Atividade Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://portalperiodicos.unoesc.edu.br/achs/article/download/5512/pdf_41/20729+&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br https://repositorio.ufpb.br/jspui/handle/123456789/2932?locale=pt_BR https://www.youtube.com/watch?v=L5uzFoRqAvc