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FUNDAMENTOS DE DIDÁTICA Prezado aluno, O objetivo do desenvolvimento das metodologias inovadoras na educação é estimular a autonomia intelectual dos alunos por meio de atividades planejadas e contextualizadas. No contexto atual podemos contar com o uso das tecnologias como ferramentas para potencializar o aprendizado, num processo que visa estimular a autoaprendizagem e a curiosidade do aluno para pesquisar, refletir e analisar possíveis situações, o que é necessário para uma tomada de decisão assertiva. No capítulo Práticas pedagógicas: materiais curriculares e recursos didáticos, base teórica desta Unidade de Aprendizagem, você vai estudar a mudança de paradigma da educação de uma perspectiva conservadora para uma inovadora de educação. Você também vai aprender o conceito de materiais curriculares, bem como sua tipologia, sua função e seus aspectos do planejamento para o uso dos materiais curriculares em práticas educativas. Por último, são apresentados alguns recursos didáticos, materiais e estratégias, que podem ser utilizados como potencializadores de sua prática educativa. Bons estudos! AULA 3 PRÁTICAS PEDAGÓGICAS COTIDIANAS 3 PRÁTICAS, MATERIAIS CURRICULARES E RECURSOS DIDÁTICOS NA PEDAGOGIA ATUAL A sociedade está em constante evolução nos aspectos político, social, econômico e cultural, e essas mudanças têm um impacto significativo no contexto educacional. Não há dúvidas de que as mudanças decorrentes dessa evolução impactam o contexto educacional, sobretudo no que concerne à organização do trabalho pedagógico: o que e como ensinar. De fato, as práticas pedagógicas atuais nos orientam para o rompimento de práticas estanques e consideradas tradicionais de ensino, visando a abrir espaço para novas formas de ensinar e aprender, contextualizando a educação da contemporaneidade. Neste capítulo, você vai conhecer, a partir da visão de autores que versam sobre o assunto, como se constituem as práticas pedagógicas no contexto educacional atual. Você também vai aprender a respeito da importância de relacionar materiais curriculares a objetivos e intenções pedagógicas. Por fim, serão apresentados alguns recursos didáticos que podem potencializar as práticas pedagógicas nas circunstâncias atuais de ensino. As teorias contemporâneas da educação apresentam-se em diferentes versões, das abordagens conservadoras às consideradas críticas e modernas. Essa classificação considera a natureza do trabalho pedagógico, a relação entre sociedade e educação, os objetivos da formação, as metodologias de ensino, o papel do professor e o do aluno, a concepção de sociedade, a relação educativa e a interação entre professor e aluno. Na literatura, são encontradas classificações para as teorias, tendências, correntes e paradigmas da educação. As abordagens teóricas que resultaram nas diferenciações de teorias pedagógicas são conhecidas como liberais e imperaram até o século XIX. As teorias liberais da educação são classificadas em: Pedagogia tradicional; Tecnicismo educacional; Escola Nova. Há, também, as teorias progressistas da educação, consideradas as pedagogias críticas inspiradas na tradição moderna. Elas são classificadas em: Pedagogia libertária; Pedagogia libertadora; Pedagogia crítico-social. Os modelos e as teorias da educação evoluem e acompanham as mudanças estruturais econômicas, sociais, políticas e culturais da sociedade. Isso resulta em profundas reflexões e adaptações acerca do modo como se concebem e desenvolvem as práticas pedagógicas. Um olhar sobre as práticas pedagógicas da atualidade revela que as práticas pedagógicas modernas têm peculiaridades e sofrem inovações que objetivam a superação do paradigma newtoniano, ou cartesiano, da fragmentação do conhecimento e da racionalidade científica, na busca de um modelo de educação que seja coerente com o perfil dos estudantes da atualidade. Nesse sentido, essas práticas são compostas por diferentes concepções por distintos entendimentos sobre as formas de conhecimento, as interações interpessoais, a cooperação na construção do conhecimento, a função da ciência e os conceitos de autonomia, democracia e liberdade. Em consonância com normas educacionais, as práticas pedagógicas atuais convergem para uma educação inovadora, contextualizada, que estimula a subjetividade, a criatividade e a liberdade de criação do estudante. Assim, convergem para uma concepção de educação a partir da compreensão da realidade do estudante, com o intuito de estimular a construção de novas relações sociais para a transformação da realidade social. A contemporaneidade é marcada por um mundo em constante mutação, em processo de globalização e individuação, impactando os sentidos e significados de indivíduos e grupos. O resultado são múltiplas culturas, diversidade e sujeitos plurais. Se, de um lado, a práxis pedagógica centra as suas preocupações em tornar explícito o seu objeto e a sua intencionalidade, por outro lado, esse objeto demanda ser pensado em toda a sua complexidade. Nesse contexto, Libâneo e Santos (2010), ao se referirem às exigências da pedagogia em um mundo em constante mudança, destacam que é imprescindível que aqueles que se dedicam à educação escolar façam opções pedagógicas. Isso significa assumir um posicionamento sobre objetivos e modos de promover o desenvolvimento e a aprendizagem de sujeitos inseridos em contextos socioculturais e institucionais concretos. É necessário reconhecer, sobretudo, que já não cabem práticas pedagógicas passivas, em que o estudante apenas consome a informação transmitida pelo professor. Carbonell (2016) direciona o olhar para ações concretas por meio do cruzamento entre a teoria e a prática, apresentando uma pedagogia contemporânea. Ele explica por que é tão difícil introduzir mudanças significativas para clarear a compreensão sobre o que significa ensinar e aprender e direciona a reflexão para como se constroem os novos discursos e as novas práticas pedagógicas. O autor exemplifica por meio do campo da medicina. Segundo ele, um médico não utiliza somente ensinamentos de 20 anos atrás na sua prática profissional; pelo contrário, deve estar sempre atualizado (CARBONELL, 2016). Então por que com a educação se pensaria de forma diferente? Por que ainda há tanta resistência à mudança? Diante de constantes e diversas transformações sofridas pela sociedade com o decorrer do tempo, Gadotti (2000, p. 6) afirma que: De um novo milênio, a educação apresenta-se numa dupla encruzilhada: de um lado, o desempenho do sistema escolar não tem dado conta da universalização da educação básica de qualidade; de outro, as novas matrizes teóricas não apresentam ainda a consistência global necessária para indicar caminhos realmente seguros numa época de profundas e rápidas transformações. Existem, de fato, um intercâmbio que possibilita reconhecer a relevância das pedagogias sistêmicas, lentas, críticas, inclusivas, não diretivas ou relacionadas a projetos de trabalho ou a inteligências múltiplas. Inclusive, Carbonell (2016) divide os capítulos da sua obra em “As pedagogias não institucionais”, “As pedagogias críticas”, “As pedagogias livres não diretivas”, “As pedagogias de inclusão e de cooperação”, “A pedagogia lenta, serena e sustentável, “A pedagogia sistêmica, “As pedagogias do conhecimento integrado” e “As pedagogias das diversas inteligências”, que são oito formas de entender a educação sob diferentes concepções. Adentrando algumas pedagogias citadas pelo autor, ao falar sobre pedagogias não institucionais, Carbonell (2016) faz referência à educação fora da escola, aquela que acontece, por exemplo, com a aprendizagem-serviço ou com a Wikipedia, experiências representativas das pedagogiasnão institucionais. Howard (2001) utiliza o termo academic service-learning para definir ações que vão além do estágio ou da prestação de um serviço à comunidade. É um modelo de aprendizagem efetivado pela integração ao currículo de um curso do serviço comunitário para o aprendizado acadêmico e a prática da cidadania. Ao tratar das pedagogias livres e não diretivas, Carbonell (2016) fala em educação em liberdade, educação multidimensional para além da razão, escolha do que se quer aprender, jornada de ensino flexível, sem horários e disciplinas, e ambientes, materiais e possibilidades diversificados, como acontece na escola psicopedagógica O Pelouro, na Galícia. Já a pedagogia do conhecimento integrado é relacionada, pelo autor, a projetos de trabalho, conhecimento integrado, embasado na aprendizagem relacional entre conhecimento e contexto, e visão transdisciplinar. Para ele, por si só, a informação não é conhecimento; ela se torna conhecimento quando se estabelecem conexões, contextualiza-se, detectam-se diferenças e similitudes, organiza-se e interpreta-se (CARBONELL, 2016). Vale, neste ponto, lembrar o leitor a respeito das inteligências múltiplas, de Howard Gardner, dos pressupostos da inteligência funcional, da inteligência acadêmica ou analítica, da inteligência criativa e da inteligência prática, elaborados por Robert Sternberg, e o conceito de inteligência emocional, popularizado por Daniel Goleman. Trata-se de estudos que demonstram a importância da interconexão entre as diversas inteligências e como isso reflete no contexto escolar, transformando a informação em conhecimento, o pensamento em ação, habilidades e competências em inovações. Desse modo, reforça-se que tanto os sujeitos que ensinam quanto os que aprendem são concebidos como autores e responsáveis pelos seus próprios processos, exercendo as capacidades de ser e de aprender sem serem subordinados um ao outro. Assim, o conhecimento não é conceitual, um conjunto de preposições, mas um diálogo permanente entre aprendizes e professores. A relação pedagógica não tem o docente como ator principal, mas o aluno, que é estimulado a se desenvolver e dar o melhor de si. A avaliação não busca medir o quanto o estudante sabe sobre o assunto, mas avalia a qualidade dos processos, os resultados alcançados e a capacidade de transferência para diferentes situações. As alternativas pedagógicas, então, focam em melhorar as relações educativas, fomentar maior cooperação, estimular o protagonismo dos alunos e a participação, bem como a democratização da gestão escolar, incentivar a curiosidade dos alunos, transformar a sala de aula em um espaço de pesquisa e diálogo e aproximar a escola da realidade e a realidade da escola. Assim, escola e professores precisam sempre estar atentos às tendências pedagógicas, ao que está sendo aplicado no momento e, principalmente, às leis que estão regendo a educação. Quando se trata de pedagogias educacionais, é muito importante olhar para a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento que regulamenta os processos educacionais na educação básica. A BNCC, homologada em 20 de dezembro de 2017, é norteada por princípios éticos e políticos traçados pelas Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica. Somada aos propósitos que direcionam a educação brasileira para a formação humana integral e para a construção de uma sociedade, é baseada na democracia, direcionando o desenvolvimento de habilidades e os conhecimentos dos estudantes durante a escolaridade básica. A BNCC deve nortear os currículos dos sistemas e das redes de ensino das unidades federativas, bem como as propostas pedagógicas de todas as escolas públicas e privadas de educação infantil, ensino fundamental e ensino médio em território nacional. Quando a escola utiliza a BNCC, significa que as decisões pedagógicas estarão orientadas para o desenvolvimento de competências, por meio da: Indicação clara do que os alunos devem “saber” (considerando a constituição de conhecimentos, habilidades, atitudes e valores) e, sobretudo, do que devem “saber fazer” (considerando a mobilização desses conhecimentos, habilidades, atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho) (BRASIL, 2018, p. 13). Essa explicação elucida a relação da BNCC com as pedagogias do século XXI, em uníssono com a ideia de que alunos devem estar em movimento, colocando em prática os seus conhecimentos para resolver situações diversas. Isso está alinhado do que afirma Carbonell (2016), segundo o qual a informação se torna conhecimento quando o professor a contextualiza para o aluno, de modo que este estabeleça conexões entre o seu aprendizado e a aplicação deste em situações distintas, como acontece na pedagogia do conhecimento integrado. Veja, então, como é importante a relação do aluno com a sua vivência, com a sua experiência, com a sociedade, com conteúdo que possa explorar de forma palpável. Segundo Davis e Oliveira (1990), a concepção interacionista de desenvolvimento se apoia na ideia do processo de aprendizagem e na interação entre organismo e meio. Assim, a aquisição de conhecimento é considerada um processo construído pelo indivíduo durante toda a sua vida, não estando pronto ao nascer nem sendo adquirido passivamente graças à pressão do meio. O interacionismo transforma todos os espaços em ambientes de aprendizagem, ensinando o indivíduo a pensar. Esse intercâmbio entre o indivíduo e o meio, a sua interação com o espaço onde vive e com os ambientes de aprendizagem que frequenta, é abordado por Vygotsky (2007) quando este apresenta a sua premissa de que o ser humano se constitui por meio das suas interações sociais. Logo, segundo o psicólogo russo, ele é transformado pelo meio, e isso ocorre de forma contextualizada, mediada e relacionada às atividades do dia a dia. O aprendizado real não acontece apenas lendo, decorando dados e acumulando informações, mas também despertando, no aluno, a curiosidade de aprender, levando-o para ambientes onde os processos educativos serão conduzidos de uma forma prática e significativa. Com o interacionismo, então, é possível adotar e promover uma visão de mundo diferenciada, mais ampla e humana, possibilitando o estabelecimento de conexões com conhecimentos anteriores de uma forma bem mais significativa (semelhante à abordagem da pedagogia por competências na educação contemporânea). Conforme previsto na BNCC (BRASIL, 2018) e discutido por Carbonell (2016), a valorização da experiência é mencionada na visão interacionista da aprendizagem, que prevê que o fazer de fato, o colocar em prática, é o que transformará a informação em conhecimento. Considere o seguinte exemplo: O professor vai trabalhar o tema “alimentação saudável” e falar sobre os benefícios da vitamina C, presente, por exemplo, em laranjas. Assim, pode realizar uma aula expositiva dialogada, mas também pode levar os alunos a um ambiente externo à sala de aula, onde haja um pomar, com laranjeiras, para ministrar a sua aula. Desse modo, possibilita o estabelecimento de conexões com outras áreas do conhecimento, permitindo que os alunos observem o contexto, troquem informações e, por consequência, construam conhecimentos por meio de um processo de aprendizagem efetivo. O contexto educacional atual demanda proatividade por parte dos alunos. Assim, ao professor, não basta simplesmente repassar o conteúdo. É preciso buscar alternativas para transformá-lo em aprendizagem significativa, gerando conhecimento. É preciso colocar o aluno para agir, relacionando a sua experiência extraclasse com o conteúdo proposto, explicando claramente os objetivos e mediando o processo de ensino e aprendizagem para que ele construa o seu conhecimento de forma colaborativa. Na próxima seção, serão abordadosmateriais curriculares, estratégias e ações pedagógicas que podem ser desenvolvidas pelo professor. Além disso, será explicado como relacioná-los com as propostas pedagógicas, visando a tornar as aulas mais atrativas e a colocar o aluno em movimento, como protagonista do seu aprendizado. 3.1 Materiais curriculares e intenções pedagógicas Pensar na melhoria da qualidade do processo de ensino e aprendizagem na contemporaneidade requer pensar e planejar os tipos de materiais curriculares que serão utilizados nas práticas educativas. Nesse aspecto, cabe a reflexão sobre a intencionalidade da utilização de recursos materiais nos processos educativos. Pedreira e Carneiro (2017) destacam que: O professor, ao planejar a sua aula, define os conteúdos, estabelece os objetivos, escolhe o método e, naturalmente, os materiais de ensino que serão usados. Nesse sentido, o conteúdo, o objetivo e o método são variáveis determinantes na seleção e no uso dos materiais curriculares. Mas não podemos esquecer que essa escolha não é feita de forma isolada, ela está vinculada a uma determinada ideologia educativa (PEDREIRA & CARNEIRO, 2013, p. 1.344) O professor se depara com muitos desafios em sala de aula, sobretudo em busca de acompanhar a atualização do conteúdo, mantendo a sua prática profissional sempre em evolução. Assim, deve buscar treinamento constante, estar atento às diversas mudanças, encontrar formas de despertar e prender a atenção dos alunos e permanecer motivado para se reinventar. Segundo Pedreira e Carneiro (2017), materiais curriculares: São todos aqueles instrumentos que proporcionam, ao educador, referências e critérios para tomar decisões, tanto no planejamento quanto na intervenção direta no processo de ensino/aprendizagem e em sua avaliação. Assim, pois, consideramos materiais curriculares aqueles meios que ajudam os professores a responder aos problemas concretos que as diferentes fases dos processos de planejamento, execução e avaliação lhes apresentam (PEDREIRA & CARNEIRO, 2013, p. 1.344). Os tipos de materiais curriculares que serão utilizados pelos professores podem variar de acordo com os critérios adotados nas suas práticas educativas. Nesse sentido, destaca-se a importância do planejamento, que diz respeito ao alinhamento das intenções pedagógicas aos desafios e às ações necessárias para atingir determinados objetivos. Para Libâneo (2013, p. 222), “o planejamento é um processo de racionalização, organização e coordenação da ação docente, articulando a atividade escolar e a problemática do contexto social”. Ou seja, planejar não é uma ação isolada, que envolve somente pensar sobre o conteúdo didático que será trabalhado. Pelo contrário, planejar envolve refletir sobre o contexto da escola, a organização do trabalho pedagógico, as possibilidades de inovação e a disponibilidade dos recursos. Castro, Tucunduva e Arns (2008) complementam: Planejar é organizar ações. Essa é uma definição simples, mas que mostra uma dimensão da importância do ato de planejar, uma vez que o planejamento deve existir para facilitar tanto o trabalho do professor quanto do aluno. O planejamento deve ser uma organização das ideias e informações (CASTRO; TUCUNDUVA; ARNS, 2006, p. 53). Para planejar as ações pedagógicas, é fundamental entender que os materiais curriculares desempenham funções variadas, que podem ser gerais e específicas. Segundo Pedreira e Carneiro (2017), as funções dos materiais curriculares incluem as seguintes: Motivadora, que diz respeito a captar a atenção do aluno; Estruturadora da realidade, que está relacionada à forma como se apresenta a realidade; Configuradora do tipo de relação que o aluno estabelece com o conteúdo; Controladora do conteúdo que será ensinado; Solicitadora, que atua como um guia metodológico, organizando os processos formativos e comunicativos; Formativa, global ou didática, pois o material pode ajudar no desenvolvimento de atitudes; De depósito de métodos, pois, muitas vezes, esses materiais curriculares se adaptam às necessidades dos professores e condicionam os seus métodos e a sua atuação. Hoje, há uma multiplicidade de materiais curriculares que podem ser utilizados nas práticas educativas. Entre outros, destacam-se o livro didático, o quadro, o projetor multimídia, os diferentes equipamentos para realizar experimentações, filmes, podcasts, recursos de realidade virtual e aumentada, jogos, simuladores, material concreto, material desestruturado e materiais recicláveis. Ou seja, há uma infinidade de recursos. Porém, independentemente do recurso utilizado, o professor deve se colocar como facilitador, incentivador e motivador da aprendizagem, colaborando ativamente para que o aluno atinja os objetivos de aprendizagem (MORAN; MASETTO; BEHRENS, 2000). Como mentor e orientador do processo de ensino e aprendizagem, o professor, ao definir as estratégias das suas práticas educativas, precisa considerar a realidade do aluno. Planejar uma aula inovadora, com recursos digitais, é insuficiente se a escola não oferece os materiais necessários ou se algum aluno da classe não tem condições de adquiri-los. Nesse caso, o planejamento não seria assertivo, pois o aluno que não possui o recurso didático seria excluído da atividade ou exposto a uma situação constrangedora diante dos demais colegas de classe. Por esse e outros motivos, o professor precisa associar o conteúdo a exemplos e situações que o educando perceba como significativos para a sua vida, a partir da sua realidade. Preferencialmente, o professor deve tornar o processo de ensino e aprendizagem mais dinâmico, como envolvendo os alunos na construção e na produção dos próprios materiais curriculares (cultura maker). Assim, precisa ampliar o seu repertório de práticas e pensar em aulas mais interessantes e contextualizadas, que atinjam os objetivos propostos no projeto político-pedagógico (PPP) da escola. Ampliando a reflexão sobre planejamento, vale lembrar o conceito de planejamento reverso, cunhado por Wiggins e McTighe (2019). Os autores sugerem que os planejadores iniciem com uma declaração muito mais criteriosa dos resultados desejados e desenvolvam o currículo a partir dos desempenhos requeridos ou implicados pelos objetivos. Com esse propósito, indicam três estágios do planejamento reverso e orientam a busca pelas respostas de algumas perguntas. Veja a seguir. 1. Identificar os resultados desejados. O que os alunos devem saber, compreender e ser capazes de fazer? Que conteúdos merecem ser trabalhados e avaliados? 2. Determinar evidências aceitáveis. Como saber se o aluno atingiu o resultado esperado? O que considerar para concluir a proficiência desse aluno? 3. Planejar experiências de aprendizagem e ensino. Quais conhecimentos e habilidades os alunos precisam ter e desenvolver para atingir os objetivos? Que atividades vão equipar os alunos com as habilidades e os conhecimentos necessários? A preocupação sobre o processo de aprendizagem dos alunos tem aumentado, pois, compreendendo esse processo, o professor tem mais chances de garantir um aprendizado efetivo. Veja, a seguir, a pirâmide de aprendizagem proposta pelo psiquiatra norte-americano William Glasser. Figura 1 - Pirâmide da aprendizagem Fonte: Adaptado de Lyceum (2021) Por meio da pirâmide de Glasser, é possível concluir que as ações classificadas como de aprendizagem ativa são muito mais efetivas para concretizar o aprendizado. Até esse ponto, nada surpreendente, concorda? Mas a pergunta é: quais materiais curriculares o professor deve utilizar para alcançar as porcentagens mais altas previstas por William Glasser? Segundo Schneider e Krajcik (2002), os materiais curriculares podem apresentar informações como sequenciamento de ações, exemplos de planejamento, narrativas de professores, vídeosde aula, etc., a fim de apoiar o trabalho dos professores. Além disso, o uso de novas tecnologias na educação permite ampliar as possibilidades de materiais, incluindo, além de impressos, materiais audiovisuais e midiáticos. Percebe-se, nesse contexto, que os elementos educativos são valiosos para os alunos e professores, pois consistem em fonte de novas aprendizagens, além de oferecer alternativas para a organização da aula. Assim, é importante destacar que não há um material curricular mais adequado para essa ou aquela prática: a sua escolha vai depender das suas intenções. O principal objetivo das metodologias ativas é incentivar o aprendizado dos alunos de forma autônoma e participativa, a partir de situações reais ou problemas. Também possibilitam que os alunos tenham autonomia e desenvolvam habilidades envolvendo resolução de problemas, colaboração, confiança, protagonismo, senso crítico, empatia e responsabilidade. Na próxima seção, você descobrirá como os recursos didáticos podem contribuir para potencializar as práticas pedagógicas da atualidade. Especificamente, serão apresentados recursos didáticos que podem ser aplicados no processo de ensino e aprendizagem de aulas inovadoras. 3.2 A didática como potencializador da pratica pedagógica Conforme Machado (2017), os recursos didáticos têm diversas funções. Entre elas, estão: Desenvolvimento da capacidade de observação; Ilustração de situações mais abstratas; Aproximação do aluno da sua realidade e da realidade do outro; Motivação; Concretização dos conteúdos da aprendizagem; Fixação da aprendizagem; Desenvolvimento da experimentação concreta. A aplicação de metodologias pedagógicas propicia maior envolvimento do aluno na produção do próprio conhecimento, sobretudo aquelas que preconizam a ludicidade, leituras e debates, estudos de casos e trabalhos práticos, com pesquisa de campo, jogos e brincadeiras, estudos de grupos, etc. De fato, o ensino convencional revelou-se ineficaz, principalmente após o avanço disruptivo da tecnologia, com ampla adoção pela internet. Mais do que nunca, os alunos precisam enxergar a aplicabilidade da teoria, associá-la a atividades do seu cotidiano. Assim, é fundamental que, antes de mais nada, os professores reconheçam a inevitabilidade da aplicação de tecnologias em sala de aula. Há inúmeras ferramentas e estratégias à disposição do educador hoje, mas é preciso avaliar quais realmente serão mais adequadas aos objetivos de aprendizagem de determinado público-alvo. Para utilizar os recursos didáticos adequados, é preciso que a escola e os educadores, primeiramente, conheçam a multiplicidade de ferramentas disponíveis, sobretudo as tecnologias de informação e comunicação (TICs). Desse modo, será possível capacitar todos os envolvidos no uso apropriado desses recursos no processo educativo. Não é raro que o professor tenha passado pela graduação sem receber as informações e a capacitação necessárias para conhecer e utilizar as tecnologias educacionais hoje disponíveis. Isso ocorre, em especial, com professores há muito formados. Por isso é importante que o educador se atualize com frequência, investindo na formação continuada. Também cabe às escolas divulgar e oferecer o constante aperfeiçoamento dos seus educadores. As TICs trazem muitos benefícios e possibilidades para o processo de ensino e aprendizagem, novas formas como um conteúdo pode ser trabalhado com a turma e novas formas de interação entre os envolvidos no processo. Quando há inserção das tecnologias digitais de informação e comunicação (TDICs) em uníssono aos objetivos educacionais e ao público-alvo, tudo pode ser mais atrativo e motivador, considerando que os estudantes estão imersos em tecnologias digitais diariamente. Segundo Soares et al. (2015, p. 3), as TDICs consistem em um “conjunto de bases tecnológicas, envolvendo equipamentos, programas, mídias, associação de diversos ambientes e indivíduos numa rede, facilitando a comunicação entre seus integrantes, ampliando as ações e possibilidades já garantidas pelos meios tecnológicos”. Nesse contexto, o professor pode propor atividades envolvendo e-books, hipertextos e podcasts, por exemplo. Uma alternativa de atividade utilizando e-book é fazer os alunos criarem colaborativamente um livro, de modo que cada equipe escreva um capítulo. Por meio dessa atividade, observa-se o desenvolvimento da proatividade, da criatividade, de habilidades em elaboração e interpretação de textos, etc. Por sua vez, o hipertexto é a criação eletrônica de um texto não sequencial, que leva o leitor a outros textos por meio de links. O hipertexto é uma boa opção para trabalhar o conteúdo de forma mais capilarizada e não hierárquica. O aluno pode seguir para uma ramificação do conteúdo e voltar para outra, explorando-o de uma forma mais dinâmica. Já podcasts são produções em áudio que podem ser ouvidas a qualquer momento, pois ficam gravadas. São estratégias interessantes para trabalhar conteúdo incluindo outras habilidades além de leitura ou escrita. Assim, é um recurso inclusivo para alunos com deficiência visual. Por exemplo, o professor pode pedir que os alunos elaborem resumos de aulas em formato de podcasts ou apresentem, por meio destes, o resultado de uma pesquisa feita em equipe sobre determinado tema. O blog é outra ferramenta interessante para a publicação de conteúdos diversos, como notícias, poesias, diários, artigos, imagens, vídeos, etc. Em um blog, é possível permitir o comentário dos leitores, um recurso para que os alunos possam interagir com os colegas, discutindo a respeito do que foi publicado. O trabalho com jogos também alcança excelentes resultados em sala de aula. No entanto, como acontece com qualquer outra ferramenta, o professor precisa explicar muito bem os objetivos e relacioná-los com o conteúdo, sobretudo, nesse caso, por se trabalhar com ludicidade. Em atividades lúdicas, não é raro que a turma se disperse. Por isso, é importante que sejam informados e frequentemente lembrados a respeito dos objetivos do jogo. Também é fértil disponibilizar alguma recompensa, pois isso desperta o interesse e pode ser motivador para os alunos. Há, ainda, outras metodologias ativas que podem ser aplicadas em sala de aula. O debate é uma delas. Ele consiste em um tipo de discussão formal cujo objetivo é desenvolver, nos alunos, argumentação fundamentada, contra-argumentação, agilidade mental, conforto intelectual e lógico, autoconfiança e fluência em ouvir e aceitar opiniões alheias. Nele, são contrapostas duas ou mais opiniões sobre um tema polêmico, visando ao voto favorável ou à aprovação de um terceiro. Uma opção de aplicação é a realização por videoconferência, caso os alunos não possam ser reunidos ao mesmo tempo no mesmo local. Nesse caso, é necessário utilizar um aplicativo como o Microsoft Teams, agendar um horário e enviar para o link da participação para os alunos. Segundo Leal, Miranda e Nova (2019), outra metodologia ativa interessante é o storytelling, que consiste em uma contação de história fundamentada e com objetivo. Segundo os autores, é uma técnica que prevê um relato fictício ou real, capaz de prender a atenção das pessoas, com o objetivo de ensinar. Inicialmente, o storytelling foi pensado para que o professor introduzisse um assunto em sala de aula. No entanto, ele também pode ser aproveitado como uma atividade para trabalhar habilidades conceituais, procedimentais e atitudinais relativas à contação de histórias. Quando a história está sendo contada, o professor desperta diferentes emoções no aluno, que busca relacionar o que está ouvindo com o que está na sua memória, iniciando um processo cognitivo que levará a aprendizagem. Assim, a história precisa ter começo, meio e fim, seguindo uma estrutura, com contexto, situação dramática,clímax e desfecho. Na década de 1970, Joseph Novak adotou os mapas conceituais, também conhecido como mapas ilustrados, que ainda podem ser utilizados pelos professores. De acordo com Jonassen (2000), essas ferramentas são altamente eficazes no processo de aprendizagem, pois permitem que os alunos bloqueiem conceitos importantes, organizem-nos espacialmente, estabeleçam relações entre eles, rotulem essas conexões e reestruturem seus conhecimentos. Esse processo aprimorou a memorização e a consolidação do conteúdo, permitindo a aplicação desse conhecimento em situações novas. Atualmente, há plataformas online, como o MindMeister, que permitem aos alunos criar seus próprios mapas visuais. Por fim, o professor pode recorrer à árvore de problemas, uma estratégia que visa à análise de problemas por meio da identificação das causas e dos efeitos relativos a um problema central. No tronco, deve ser inserido o problema ou a situação a se analisar; nas raízes, a causa do problema; nos galhos e folhas, os efeitos. Trata- se de uma estratégia para associar e desenvolver ideias e habilidades de análise, reflexão, tomada de decisão e trabalho em equipe. Com todos esses exemplos, você viu quão amplas são as opções de recursos didáticos à disposição do professor. Porém, é fundamental que ele não se esqueça de alinhar os recursos a serem utilizados com os objetivos pedagógicos. Sobretudo, não deve ajustar o objetivo pedagógico ao recurso, mas o contrário: definir o objetivo do conteúdo, aonde o aluno precisa chegar, que habilidades, atitudes e valores serão desenvolvidos, qual conhecimento será adquirido, etc., e só depois pensar qual recurso vai utilizar para possibilitar e dar sentido à aprendizagem do aluno. A educação, em uníssono às mudanças políticas, econômicas e culturais da sociedade, passa por transformações ao longo dos anos. Assim, as práticas pedagógicas precisam se moldar e evoluir. Nesse contexto, o professor precisa desempenhar cada vez mais um papel de facilitador dos processos de aprendizagem, mediando e impulsionando o aprendizado dos alunos, que são os verdadeiros protagonistas da construção dos seus conhecimentos, valores, habilidades e atitudes. Neste capítulo, foi abordada a relevância de o professor, antes de mais nada, ler e analisar os documentos que definem a educação da sua escola e do seu país. Só assim poderá dar início a um planejamento eficiente dos seus passos em sala de aula, de acordo com a legislação e as previsões governamentais do âmbito educacional. Inegavelmente, o planejamento tem grande impacto no processo de ensino e aprendizagem, sendo essencial para garantir os resultados almejados. Para auxiliar o educador, há muitos recursos, ferramentas, metodologias e estratégias disponíveis. Porém, é preciso saber quais empregar em cada contexto, considerando as possibilidades e os objetivos de aprendizagem. É no planejamento que isso será adequadamente avaliado e alinhado às metas do professor para a sua turma. Independentemente das metas, ele deve sempre visar a um processo de ensino e aprendizagem que preze pela construção de conhecimento com significado, em que o conteúdo e a forma de trabalhar sejam associados à realidade dos alunos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: educar é a base. Brasília, DF: MEC, 2018. CARBONELL, J. Pedagogias do século XXI: bases para a inovação educativa. 3. ed. Porto Alegre: Penso, 2016. CASTRO, P.A.P.P.; TUCUNDUVA, C.C.; ARNS, E.M. A importância do planejamento das aulas para organização do trabalho do professor em sua prática docente. Athena: Revista Científica de Educação, v. 10, n. 10, p. 49-62, 2008. DAVIS, C.; OLIVEIRA, Z. Psicologia na educação. São Paulo: Cortez, 1990. GADOTTI, M. Perspectivas atuais da educação. São Paulo em Perspectiva, v. 14, n. 2, p. 3-11, 2000. HOWARD, J. 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