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Medicina felina Guia prático com principais doenças dos felinos @medvetrj Esse guia é um resumo das principais doenças em felinos na veterinária, com o objetivo de auxiliar estudantes servindo como guia prático nos estágios e nas consultas. O guia passou por revisões, mas não estamos livres de cometer erros. Caso alguma informação esteja equivocada, contate-me. As doses aqui descritas se baseiam na literatura citada na bibliografia - principalmente livros de referência atuais que por sua vez retiraram as informações de trabalhos científicos, testes clínicos, e experiência de autores consagrados. Esse resumo foi feito com muito carinho. Espero que gostem! @medvetrj ÍN D IC E MEDICINA FELINA Asma Bordetella Calicivírus felina Clamidiose Micoplasma não hemotrópico Rinotraqueíte viral Cistite idiopática felina Urolitíase Obstruções uretrais Introdução Feline Grimace Scale Principais doenças: Cardiomiopatia hipertrófica Complexo respiratório felino Diabetes Mellitus Doença do trato urinário Doença Renal Crônica Esporotricose Lipidose Hepática Hipertireodismo felino Peritonite infecciosa felina (PIF) Retrovírus felino (FIV/FELV) 4 5 9 13 15 17 19 21 23 25 29 35 38 44 49 58 64 77 80 85 @ M E D V E T R J A medicina felina é um campo da medicina veterinária dedicado especialmente aos gatos. Essa necessidade surgiu devido a algumas necessidades específicas que os felinos apresentam. Antigamente, os gatos eram tratados da mesma forma que os cachorros, ou seja, eram administrados os mesmos tratamentos e medicações. O que se viu, ao longo dos anos, é que são espécies completamente diferentes e que devem ser tratadas de forma diferente. Com profissionais especializados em felinos, pode-se obter diagnósticos mais certeiros e, por consequência, tratamentos mais eficazes. O médico especialista deve conhecer as características comportamentais dos felinos, fisiológicas, metabólicas, nutricionais, farmacológicas e terapêuticas. Para isso, ele precisa saber as particularidades da espécie, agentes tóxicos, métodos e equipamentos para diagnóstico, prevenção e tratamento de doenças. A medicina felina é uma especialização que só traz ganhos para o diagnóstico, prevenção de tratamento de doenças dos gatos. 04 posição das orelhas; contração da região orbital; tensão do focinho; mudanças na posição dos bigodes; posição da cabeça. A Grimace Scale, traduzida por Escala Grimace e abreviada de GS, é um método usado para mensurar a dor e desconforto de animais não humanos, e foi criada a partir de ideias de escalas de nocicepção usadas em humanos, principalmente com o crescimento da preocupação com o bem estar dos animais. Mais recentemente, tem sido desenvolvida a Feline Grimace Scale, ou FGS, a escala específica para os pacientes felinos domésticos, que em tradução adaptada pode ser chamada de Escala Facial Felina. A escala começou a ser elaborada em 2018, a partir de um estudo de Steagall et al, que se propôs a desenvolver e validar o método por meio da avaliação da dor aguda e de ocorrência natural nos gatos participantes do estudo. Segundo a FGS, o comportamento dos animais é pontuado com base nas 5 unidades de ação (action units, ou AU) que fazem parte da escala, sendo que cada AU vale de 0 a 2 pontos. As unidades de ação, consideradas os pontos-chave para diagnosticar a algesia no felino, são: 05 Feline Grimace Scale 06 Fonte: Sanar Ao final da avaliação de cada uma das unidades de ação contabiliza- se o score final. A nota máxima é 10, significando o nível máximo de dor que o gato apresenta. Porém, uma pontuação total de 4 ou mais já indica a presença de dor relevante, sendo necessário que o médico veterinário entre com um protocolo de analgesia específico para o quadro do paciente. 07 08 09 Cardiomiopatia hipertrófica A cardiomiopatia hipertrófica (CMH) é a doença miocárdica mais comum que acomete os felinos e se caracteriza por hipertrofia do ventrículo esquerdo, podendo ser primária (idiopática) ou secundária, sendo resultado de doenças primárias, dentre elas estão o hipertireoidismo, a hipertensão sistêmica e a estenose subaórtica (VARNAVA et al., 2000; NELSON & COUTO, 2009; NORSWORTHY et al., 2009). Cardiomiopatia com fenótipo de hipertrofia: Não existe um padrão. Nem todos os gatos terão espessamento em toda parede docoração. Espessamento da parede do ventrículo esquerdo: muito comum. Doenças primarias: hipertireoidismo felino, não especifica... Não tem idade predominante de ocorrência A prevalência de casos com cardiomiopatia hipertrófica em animais jovens são de raçascomo sphynx, minecoon, bengall... Portanto, quando atendermos essas raças, é importantefalarmos com o tutor da probabilidade dessas doenças. Doença do miocárdio genética e fenotipicamente heterogênea mutação do gene MYBPC - o fato de estar negativo é ótimo, mas dar positivo nãosignifica que será a única característica da mutação que faz desenvolver a doença.Esse exame não esta disponível no Brasil, assim como o de defeito sarcomático dentro dos cardiomiócitos. Principais doenças em felinos 10 Espessamento do miocárdio ventrículo esquerdo - rigidez muscular disfunção diastólica - déficit de relaxamento enchimento ventricular prejudicado - débito cardíaco prejudicado sobrecarga de pressão na diástole Fisiopatologia 11 Estase sanguínea - tem muita predisposição de agregados plaquetários Aumento atrial - distensão das fibras, com micro rompimentos o qual as plaquetas grudam e há formação do trombo indo parar na aorta. Mais comum na artéria ilíaca, gerando uma hipóxia e pouco sangue nos membros posteriores. Não há tosse, não há resistência ao exercício. Ritmo de galope. Sinais clínicos Os felinos com cardiomiopatia hipertrófica podem ter apresentação clínica assintomática e desenvolver sinais após um evento estressante; outros podem apresentar sinais de ICC e/ou sinais de doença tromboembólica (DUNN, 2001; TYLLEY & GOODWIN, 2002). A hipertrofia pode não ser total, estando localizada na parede livre do ventrículo esquerdo,no septo.. Não há um padrão, mas precisamos prestar atenção se há obstrução no fluxo de saída.Dependendo do espessamento, pode haver a volta do sangue. Na sístole há o deslocamentodo folheto anterior da valva mitral, mitral sobre carga atrial Podemos suspeitar na presença do sopro, pois não é normal Tromboembolismo arterial - relação átrio esquerdo/aorta ditara a probabilidade de ter tromboembolismo sendo o ideal estar abaixo de 1,6 Diagnóstico: Ecodoppler! Raio-x, eletro, aferição de PA (pressão arterial), se a causa primaria fortireotóxica ou hipertireoidismo, aumentara, mas caso não, estará diminuída. 12 Marcadores cardíacos (proBNP do IDEXX): não usar em pacientes saudáveis, somente seestiver em estresse que da para saber se a causa é hérnia diafragmática, coração,respiratório... Prognóstico O prognostico nesses felinos depende da gravidade e estágio da doença cardíaca (NORSWORTHY et al., 2009). Os animais assintomáticos geralmente possuem uma sobrevida média de cinco anos (ATKINS, 2009). Casos de insuficiência cardíaca congestiva e tromboembolismo conferem um prognóstico reservado, com média de 2 a 6 meses de sobrevida (NELSON & COUTO, 2009). 13 Complexo respiratorio felino O complexo respiratório felino é o caracterizado um ou conjunto de alterações oftálmicas e/ou respiratórias, causado por um ou vários patogenos. O Herpesvirus felino (FHV-1), Calicivirus felino (FCV), Bordetella bronchiseptica (Bb), Chlamydia felis (CF), Mycoplasma felis (ME) ou pelo vírus da Influenza A (raramente acontecem) o são os agentes infecciosos encontrados em felinos com essa enfermidade. Os agentes primários da infecção são o Herpesvírus felino (rinotraqueíte viral felina) e Calicivirus felino, responsáveis pela sintomatologia respiratória de espirros, secreção nasal e dispneia, bem como sinais oftalmicos, como secreção ocular e conjuntivite. Podem ter ação conjunta ou separada, sendo que os animais com calicivirose ainda podemALIMENTAÇÃO PARA SONDA ESOFÁGICA Energia Metabolizavél: 4.444 kcal/Kg (1000 gr) 1 copo de 200ml –70gr –311 Kcal NER = 70 x PC0,75 Gato: 5 Kg -234 kcal/dia 8% de umidade –100 gr–8 mLde água Em 70 grde ração –5,6 mLde água Necessidade hídrica -60 ml/kg/dia –300 mL Volume de água para diluição –294,4 mL! 75 CONTROLE DE NÁUSEA E VÔMITO Citrato de Maropitant-Cerenia® Doses: 1 mg/kg SC ou IV (CUIDADO) a cada 24 h, 5 dias 4mg/gato VO a cada 24 h, 14 dias (Quimbyet al., 2014) 0,6 –2,9 mg/Kg VO a cada 24 h, 14 dias (Quimbyet al., 2014) Aplicar medicamento refrigerado reduz desconforto na aplicação SC!!! Cloridrato de ondansetrona–VonauVet® Doses:0,1 –1 mg/Kg SC ou IV a cada 6 –12 h 0,5 mg/kg PO ou IV a cada 12 h (Trepanier, J FelineMedSurg, 12, 225-230, 2015.) SUPLEMENTAÇÃO DE VITAMINAS Vitamina K Iniciar antes de procedimentos invasivos Citologia, Biopsia, colocação de sonda esofágica –Prevenção de hemorragia Dose: 0,5 a 1,5 mg/Kg SC ou IM a cada 12 h, 3 dias. Tiamina –B1 Indicação: Sinais neurológicos / Ventroflexãocervical Dose: 50 –100 mg/gato VO a cada 24 horas 7 dias. Cianocobalamina -B12 Indicação: Doença do trato gastrointestinal Dose: 250 mcg/gato SC a cada 7 dias 76 TERAPIA ANTIOXIDANTE Glutationa –Principal antioxidante sistêmico produzido no fígado SAME –S-Adenosilmetionina Precursor fundamental!!! Indicado na maioria das doenças hepáticas ´Avaliar sempre o momento de prescrever!!! Dose: 20 mg/kg (1 ou ÷2 x ao dia)Em jejum e cápsula com revestimento entérico. Manipulação x Industrializado Silimarina–(CARDO MARIANO) Propriedades antioxidantes Aumenta glutationa hepática Retarda a formação de colágeno Estudos clínicos em cães e gatos limitados Dose: 20 –50 mg/Kg/dia VO L-CARNITINA Síntese hepática βOxidação –produção de energia Depleção de L-carnitinina-Acúmulo de Triglicerídeos Reposição: 250 mg/gato/dia OUTROS ASPECTOS TERAPÊUTICOS Controle de dor –Patologia de base (Pancreatite) Uso de antibiótico??Doença de base Gato com sonda esofágica Não usar cefalosporinas ETIOLOGIA Doença multisistêmica resultante da excessivaconcentração de T3 e T4 Distúrbio endócrino mais comum em gatos Hiperplasia adenomatosa benigna (adenoma) -98% doas casos Acometimento de um lobo 70% A arquitetura folicular da tireoide normal é substituída por um ou mais tecidos nodulares hiperplásicos variando de menos de 1mm até 2 cm de Carcinoma é raro 240bpm, sopro sistólico CMH tireotóxica Hipertensão Taquipneia Diagnóstico Sinais clínicos tireoide palpável Hemograma (leucograma de estresse) Enzimas hepáticas – ALT, AST,FA Creatinina (Normal, leve ou moderadamente elevada) Hiperfosfatemia Hiperglicemia moderada Exames de imagem: Ecodopplercardiograma (CMH) 78 TESTES DA FUNÇÃO TIREOIDIANA Nos gatos hipertireoideos há secreção autônoma eexcessiva de hormônios da tireoide em razão do funcionamento anormal daglândula tireoide Dosagem T4 total (Um único valordentro da referência não exclui odiagnóstico) Dosagem de TSH emconjunto - Teste discordante reavaliar em 2 a 4 semanas - Avaliar sempre com sintomatologia clínica - Realizar diagnóstico diferencial TRATAMENTO Tratamento paliativo – Supressão da produção hormonal Tratamento crônico Metimazol: Dose 2,5 a 5,0 mg/gato por via oral acada 12 horas Monitorização: após 3 semanas até achar a dosecerta; após estabilização a cada 3/6 meses Tratamento de suporte: CMH (atenolol bloqueadorseletivo b1) Tratamento definitivo: Iodo radioativo e Cirurgia 78 A PIF é uma doença imunomediada, sistêmica e progressiva e na maior parte das vezes fatal. Etiologia - O agente etiológico da doença é o vírus FIPV, é um coronavírus pertencente à família Coronaviridae. Trata-se de um vírus envelopada RNA de fita simples que infecta macrófago, uma mutação do coronavírus entérico (FECV) Transmissão Na maioria das vezes a transmissão da doença se dá por via oral. Os animais eliminam o vírus nas fezes e o contato destas com animais saudáveis propiciam a infecção.Normalmente o vírus é sensível a altas temperaturas, sendo inativado entre 24 e 48h. Porém, em locais secos, como tapetes, consegue sobreviver por até sete semanas. Por isso a transmissão através e fômites contaminados (indireta) pode ocorrer. Contudo o maior risco de transmissão da doença ainda é o compartilhamento de uma única caixa de área por diversos gatos. Também pode ocorrer a transmissão pelo contato com a secreção nasal provenientes de espirros de um gato infectado. Acredita-se na possibilidade de transmissão vertical, visto que estudos demonstram a ocorrência da PIF em gatos recém nascidos. Manifestações clínicas O período de incubação da doença varia entre poucas semanas a dois anos após a mutação do vírus. 80 Peritonite infecciosa felina (PIF) Os sinais clínicos variam a depender dos órgãos acometidos e podem estar relacionados à febre, infecções que demonstrem resistência a antibióticos e perda de peso e ocorrem por conta da vasculite ou falência de órgãos devido a danos em vasos importantes. Diversos órgãos podem ser acometidos, incluindo rins, pâncreas, olhos e SNC. 81 82 Diagnóstico - O diagnóstico pode ser feito através do RT- PCR ou microscopia eletrônica das fezes. As biópsias e análises histopatológicas podem não ser definitivas dado as alterações de atrofia e fusão das vilosidades, que são inespecíficas da doença. O diagnóstico pode ser difícil devido aos sinais clínicos e alterações laboratoriais inespecíficas. As alterações hematológicas e bioquímicas comumente vistas são: Leucocitose ou leucopenia, proteínas totais aumentadas, hipoalbunemia, alterações nas enzimas hepáticas, aumento nas concentrações de bilirrubina e presença de icterícia. A análise dos líquidos cavitários é de extrema importância nesses casos. Estes normalmente se apresentam nítidos, com cor de palha ou viscosos e podem apresentar alta quantidade de espumas devido ao alto teor de proteínas, e são classificados como transudato ou exsudato modificado. Tratamento - A maior parte dos gatos infectados por PIF vão a óbito, por isso, a diferenciação entre PIF e infecção pelo FCoV entérica é de extrema importância para o prognóstico. Na maioria dos casos o tratamento não é eficaz, entretanto, em alguns poucos casos o animal pode responder bem ao tratamento e prolongar o tempo de vidas. Por ser considerada uma doença imunomediada, o principal objetivo do tratamento é o controle da resposta imune. 83 A prednisolona e ciclofosfamida podem ser administradas em doses imunossupressoras e retardar o curso da doença, mas não promovem a cura. O uso de imunomoduladores é controverso, já que a maior parte dos sinais clínicos é devido à resposta imune do hospedeiro. O uso de quimioterápicos antivirais, como a ribavirina, não têm demonstrado boa resposta nos gatos infectados. O uso do interferon-a-hu-mano se mostrou eficaz quando aplicado por via parenteral após três a sete semanas. O interferon-w- felino também pode ser usado, massua eficácia ainda não foi comprovada. 84 Entre as principais doenças infecciosas que acometem os gatos domésticos o vírus da imunodeficiência felina (FIV) e o vírus da leucemia felina (FeLV) estão entre as mais comuns e importantes. Transmissão - A transmissão é muito fácil e comum e ocorre principalmente através da saliva no FeLV, mas também pode ser através de água contaminada, secreções lacrimais, respiratórias, leite, urina e fezes, no coito e transmissão vertical. O FIV pode ser transmitido também pela saliva, sendo essa a forma mais comum de transmissão, além da transmissão vertical e pelo sêmen e leite. Fisiopatogenia - Apesar da capacidade de causar síndrome da imunodeficiência adquirida em gatos, ou também, AIDS felina, aumentando os riscos de infecções, doenças neurológicas e até mesmo tumores, o FIV não costuma causar uma síndrome clínica grave. Se acompanhados e tomados os devidos cuidados, os gatos com FIV podem viver por muitos anos sem apresentar grandes alterações. Etapas da infecção - Infecções causadas por FIV e FeLV têm progressão crônica e sua evolução ocorre por meio de diferentes estágios da doença. Para ambas as doenças os gatos podem apresentar uma fase longa assintomática sem sinais clínicos. Há diferentes estágios de infecção em animal acometido por FeLV. Novas formas de diagnóstico têm sido empregadas atualmente, para avaliar os novos dados sobre o curso da infecção. 85 Retrovírus felino (FIV/FELV) Classificações referentes às fases da doença: infecção abortiva, infecção regressiva, infecção progressiva, infecções focais ou atípicas. Manifestações clínicas Os sinais clínicos das infecções por retrovírus são muito inespecíficos e podem variar de tumores, distúrbios neurológicos, doenças imunomediadas, distúrbios hematopoiéticos, imunodeficiência e estomatite. Embora a ocorrência de FeLV esteja mais relacionada aos tumores, normalmente o que traz os tutores ao veterinário são distúrbios hematopoéticos em gatos infectados, como anemia. O subgrupo de FelV também pode determinar as diferenças nos quadros clínicos, por exemplo, FeLV-B está mais associado aos tumores, o FeLV-C à anemia não regenerativa. Estudos demonstraram que gatos com FIV possuem cerca de cinco vezes mais chances de desenvolverem linfomas (principalmente de células B) e leucemias, além disso, também foram associados à ocorrência de carcinoma de células escamosas, fibrossarcoma e tumor de mastócitos. A gengivoestomatite ulceroproliferativa crônica é uma manifestação clínica comum em gatos com FIV. Isso ocorre pela proliferação de plasmáticas e linfócitos na mucosa oral, acompanhada por graus variáveis de inflamação neutrofílica e eosinofílica, causando dor, emagrecimento e perda dentária. Diagnóstico O diagnóstico clínico é difícil, devido à inespecificidade dos sintomas. 86 Os exames sorológicos para detecção dos anticorpos da doença ou antígenos virais são amplamente utilizados (ELISA), como também testes mais sensíveis, por exemplo, o PCR, que é eficaz na detecção do DNA pro-viral em diversas fases da infecção. Alterações laboratoriais também podem auxiliar na suspeita e diagnóstico da infecção, como anemia (não regenerativa ou regenerativa), neutropenia persistente, transitória ou cíclica, trombocitopenia, pancitopenia e síndrome do tipo panleucopenia, principalmente em FeLV. Tratamento O tratamento se resume à identificação e segregação dos animais infectados e o acompanhamento destes. O tratamento deve ser feito com base nos sinais clínicos e infecções secundárias com antibióticos, antifúngicos, anti-inflamatórios, fluidoterapia e suporte nutricional. O uso de um antiviral como análogo nucleosídeo zidovudina (AZT) por um período prolongado pode aumentar a expectativa de vida de animais com FIV. Transfusões sanguíneas e a administração de eritropoietina sintética podem ser feitas em animais com anemia severa. A quimioterapia pode ser feita em animais com linfoma e há chances de boa resposta. O interferon alfa humano e levamisol podem ser usados como estimulantes da imunidade. Drogas antirretrovirais podem ter bons resultados se adminitradas até três semanas após a infecção. Os inibidores da translação proteica (exemplo: lamivudina e dideoxicitidina) podem ser usados, mas os efeitos colaterais de hepatoxicidade e mielossupressão devem ser considerados. 87 88 Referências Bibliográficas: Profª MSc. MV. Carla Santos Clinica Medica de Pequenos Animais - Vol. 1 - Editora Sanar https://portalvet.royalcanin.com.br/ CARDIOMIOPATIA HIPERTRÓFICA FELINA: REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Guilherme Matteucciapresentar estomatites e ulcerações em cavidade oral. Normalmente a doença cursa com sintomatologia aguda, contudo, em alguns casos pode haver um curso crônico, principalmente por resposta imunomediada à infecção. É uma doença de alta morbidade e por isso é muito comum em gatos de gatis, abrigos e naqueles com livre acesso à rua e as complicações, em sua maior parte, devem-se a quadros de imunossupressão nos animais acometidos. Apresentação clínica Independentemente do agente infectante os sinais clínicos são muito semelhantes, com algumas poucas particularidades. Na maior parte das vezes não evoluem para doença grave, todavia, o quadro clínico pode piorar em casos de confecções, principalmente, por FIV e FeLV, podendo levar a uma doença sistêmica grave. 14 Secreção nasal mucoide ou mucopurulenta; Espirros e tosse; Conjuntivite; Secreção ocular; Úlceras em boca, gengiva, plano nasal ou língua; Salivação; Febre, letargia e inapetência. Nos casos de infecções bacterianas secundárias alguns gatos podem desenvolver quadros de pneumonia. De um modo geral os principais sinais clínicos são: Tipo viral e os sinais clínicos mais comuns e específicos Calicivirus felino (FCV) Calicivírus felino (FCV) Herpesvirus felino (FHV-1) Herpesvírus felino (FHV-1) C. felis Mycoplasma spp VS-FCV FHV-1 B bronchiseptica Claudicação. Úlceras em cavidade oral. Ceratites e úlceras de córnea - dendríticas. Conjuntivite e ausêncía de sinais respiratórios. Dermatites e úlceras de pele. Tosse. 15 Complexo respiratorio felino Asma Felina Acomete de 1 a 5% da população felina Doenca inflamatoria das vias aereas - secreção Questionar: Qual tipo de areia sanitária que usa? Ter muito pó irrita as vias aéreas. O tutor fuma? Tutor usa incenso? Hiperresponsividade das vias aereas - espasmos da musculatura lisa Limitação de fluxo de ar (reversível em parte) Induzida por alérgenos (ambientais via inalação) - areia, bolor, pólen, ácaro, produtos químicos domésticos Reação de hipersensibilidade tipo I - IgE Cronicidade da asma pode levar a bronquite a bronquite leva ao remodelamento pulmonar. Sinais clínicos: Tosse de trato inferior Esforço respiratório Respiracao de boca aberta - engole ar Taquipineia Vômito Exame físico: Sibilo respiratorio - ocorre na expiração Reflexo de tosse a palpação traqueal Dispneia expiratório 16 Alteração laboratorial: 17 a 46% apresentam eosinofilia (nao relacionado a gravidade da doença) Achados rx: padrão pulmonar bronquial (broncointersticial é mais avançado) - pode gerar calcificação Colapso de lobo pulmonar Campo pulmonar hiperlucido Achados parecidos com bronquite, mas o que diferencia é a clínica 17 Alta densidade populacional fator de risco para infecção Coinfecções Cães com doença respiratória são um fator de risco para gatos Período de incubação 6 dias aproximadamente Bordetella bronchiseptica Bateria cocobacilos, gram negativa. Patógeno primário do trato respiratório. A bactéria é eliminada nas secreções orais e nasais de gatos infectados. Infecção por contato direto, secreções respiratórios transportados pelo ar, ou fômites contaminados. Infecção pela Bordetella bronchiseptica em gatos Patogenia Invade as células dos hospedeiros tornando-se patógeno intracelular assim estabelecendo persistente infecção ou estado portador Mecanismos: Fímbrias e adesinas Facilitam a coinfecção Sinais clínicos Pacientes jovens e com coinfecção sinais mais evidentes Tosse aguda e alta Sensibilidade traqueal Gatos adultos Patogenia As úlceras orais é a apresentação clássicado FCV Formação de vesículas se formam nas margens da língua de gatos infectados devido a necrose epitelial 19 Sinais clínicos Leve a grave Ulceraçãomaiscomum Língua, lábios, palate Gengivite, faucite, stomatitis, hipersalivação, halitose Tratorespiratóriocom disseminação para as conjuntivas , faringe , traqueia, brônquios e bronquíolos Eliminação viral 24 horas após infecção dura de 1 a 3 semanas Infecção aguda resolve dentro de 10 a 14 dias O vírus se espalha ao longo dos nervos sensoriais e atinge os neurônios, principalmente no gânglios trigêmeos, que são os principais locais de latência Quase todos os gatos infectados tornam-se portadores Alguns gatos adultos podem desenvolver lesões na tempo de reativação viral A conjuntivite pode estar associada a úlceras de córnea A ceratite estromal é uma doença secundária reação imunomediada devido à presença de vírus no epitélio ou estroma. Danos aos cornetos nasais na doença aguda predispõe alguns gatos à rinosinusite crônica Herpes Vírus I - Rinotraqueíte Vírus DNA fita dupla, envelopado Distribuído em todo o mundo Replicação no epitélio das via respiratória superior e ocular e neurônios Eliminação viral por secreção nasal, oral e ocular Fonte de infecção direta mais importante!! Patogenia 25 Ulceração e erosão de mucosas, rinite e sinusite Ulcera de córnea Febre, depressão, anorexia Secreção ocular e nasal serosa, serosangunolentasecreção purulenta, conjuntival hiperemia, espirros Menos frequente tosse e salivação Infecção bacteriana secundária Filhotes –pneumonia Sinais Clínicos 26 Foto: Google imagem Clínico!!! PCR /(RealTime) –DNA do FHV Swab conjuntiva, córnea, orofaringe, humor aquoso, sangue ou biópsias Resultados positivos –CAUTELA na interpretação Exames quantitativos –carga viral Diagnóstico diferencial Coinfecção Terapia específica L-Lisina Diagnóstico Tratamento Famciclovir 40 a 90mg/Kg VO a cada 12 horas 62.5 –125 mg/gatos VO a cada 12 horas Quadro oftálmico necessita de doses maiores Dados conflitantes em vivo e em vitro Antagonista da arginina 250 mg/gato VO a cada 12 horas filhote 250 a 500 mg/gatos VO a cada 12 horas adultos Antivirais tópicos – IRRITAÇÂO CONJUTIVAL 27 Tratamento de suporte Interferon alfa – Interferon ômega felino ( Não há no Brasil) Descongestionantes – Afrin Probióticos Hidratação/Nutrição Lavagem nasal/Nebulização Antibióticos (7 a 14 dias)Doxiciclina; Amoxicilina; Amoxicilina com clavulanato; Azitromicina 28 DIABETES MELLITUS O Diabetes Mellitus é uma comorbidade crônica que ocorre quando há deficiência parcial ou completa de produção e secreção de insulina, pelo pâncreas, resultando em hiperglicemia e todas as manifestações clínicas progressivas secundárias a este, que podem evoluir para óbito. Pode-se dizer, também, que Diabetes Mellitus é uma endocrinopatia resultante da falta de insulina ou sua incapacidade em promover atividade. O Diabetes Mellitus é uma patologia multifatorial, que pode desencadear por predisposição genética, insulite imunomediada, pancreatite, obesidade ou por resistência insulínica provocada pela ação de hormônios esteroidais. Em sua maioria, o diabetes não é uma doença reversível, entre as exceções estão o diabetes transitório que ocorre no diestro, gestação ou em hiperplasia endometrial cística, por excesso de secreção de Progesterona e GH mamária (resistência insulínica). A Fisiopatogenia do Diabetes Mellitus em Gatos A fisiopatogenia do Diabetes Mellitus em Cães é muito similar em gatos, exceto por um fator importante, a causa. Em gatos a hipersecreção de insulina promove aumento significativo na produção de amilina, desencadeando Amiloidose. Portanto, a Resistência Insulínica em gatos obesos tem papel fundamental no desenvolvimento de diabetes nesses animais.. A amiloidose nas ilhotas de langerhans promove doença e redução significativa da síntese e secreção de insulina resultando em Hiperglicemia. o limiar renal em gatos é de 280 mg/dl de glicemia. Acima desse valor há alteração na diurese osmótica, poliúria e polidipsia compensatória. As demais alterações são similares ao cão. 29 Manifestações Clínicas O paciente cão ou gato diabético apresenta, portanto, poliúria, polidipsia, perda de peso e polifagia como principal quadro sintomatoló-gico. Além desses, o cão pode apresentar uma catarata bilateral de progressão acelerada. Quando há aumento da concentração de glicose acima de 10% no humor aquoso ocorre uma maior atividade de aldose redutase gerando um produto chamado Sorbitol. O sorbitol sofre ação de desidrogenase gerando frutose e álcool, o que aumenta ainda mais o aporte de água para O Cristalino, causando entumecimento e rompimento da fibra da lente. Portanto, a catarata diabética é caracterizada por apresentar um aspecto de “Y”. A catarata diabética pode também provocar processos infamatórios como uveíte e evoluir para glaucoma. Gatos podem desenvolver neuropatia diabética, o que desencadeia um andar plantígrado típico de gatos diabéticos. Isso ocorre por depleção de mioinositol e desmielinização em neurônios periféricos. . 30 andar plantígrado Foto: Google imagens Diagnóstico Cães e gatos com glicosúria sem hiperglicemia não são considerados diabéticos. Essas alterações podem ocorrer em indivíduos com alterações em túbulos renais. Hiperglicemias leves (entre 120 e 180 mg/dl) não são consideradas diabetes, mas podem levar a indícios de resistência insulínicas. A frutosamina sérica é a avaliação da albumina glicada e indica o controle glicêmico das últimas duas semanas. É uma ferramenta eficaz em controle de pacientes diabéticos ou pode ser utilizado para diagnóstico, principalmente em gatos. Gatos em ambiente hospitalar podem desenvolver Hiperglicemia de estresse que pode chegar a até 300 mg/dl, gerando glicosúria, o que pode atrapalhar o diagnóstico de Diabetes nesses pacientes. Por esse motivo, o diagnóstico em gatos é um pouco mais complexo. A associação de hiperglicemia + glicosúria + manifestações clínicas pode ser beneficiada com a avaliação de frutosamina sérica e B- hidroxibutirato acima de 0,58 mmol/L (avaliação de corpos cetônicos), que também pode ser realizado em consultório através de glicosímetros que possuam fitas para avaliação de cetonemia. A produção de corpos cetônicos para utilização como fonte energética só ocorre em indivíduos que não estão com a captação de glicose intracelular eficaz, isto é, indivíduos diabéticos. Cães e gatos diabéticos em geral não presentam alterações no hemograma, porém em alguns casos podem apresentar anemia normocítica hormocrônica regenerativa, por hipoglicemia intracelular, ou discreta policitemia por desidratação. Cães diabéticos apresentam aumento de atividade de enzimas fosfatase alcalina e alanina transaminase. A dislipidemia pode provocar alterações em função hepática por esteatose hepática, ou provocar lipidose hepática. As concentrações de triglicerídeos e colesterol estão aumentadas 31 devido à redução da atividade da lipase lipoproteica, além de que a deficiência da insulina provocará ativação da lipase hormônio sensível. Paciente cão ou gato diabético com desidratação importante pode apresentar azotemia. O aumento de diurese osmótica pode provocar hipocalemia. A urinálise é um exame muito importante para o paciente cão ou gato diabético. Nele podemos identificar além de glicosúria e cetonúria, proteinúria, lipúria, bacteriúrias, inflamações ou infecções urinárias secundárias à glicosúria. A densidade urinária de cães ou gatos com Diabetes mellitus é entre 1,025 a 1,035. Pacientes com redução de densidade urinaria são suspeitos de apresentarem outras comorbidades, como hiperadrenocorticismo ou insuficiência renal crônical. A ultrassonografia abdominal total é um exame de muita importância para avaliação pancreática, além de avaliação de possíveis causas do Diabetes Mellitus (Hiperadrenocorticismo, Hiperplasia endometrial cística, entre outros). Através da ultrassonografia abdominal também podemos avaliar alterações secundárias ao diabetes (hepatopatias, cistite, entre outros). Tratamento O objetivo do tratamento do paciente diabético consiste na eliminação das manifestações clínicas?. Para alcançar esse objetivo é importante que seja escolhida uma adequada terapia insulínica de acordo com a espécie do pacientee estilo de vida dos tutores. Além disso, a dieta preCisa estar de acordo com a terapia insulínica utilizada e com níveis de nutrientes adequados ao paciente diabético. O cão ou gato diabético pode manter uma rotina de exercícios que auxiliará no controle glicêmico e é importante controlar obesidade nos indivíduos obesos para reduzir resistência insulínica. 32 Para controle ideal do diabetes é fundamental o controle de estresse metabólico, que ocorre em situações de processos inflamatórios, infecciosos, neoplásicos e distúrbios hormonais. Isso deve ser feito para minimizar resistência insulínica e complicações relacionadas. Terapia Insulínica As preparações de insulina são muito estáveis atualmente, à temperatura ambiente, porém ao serem refrigeradas conseguimos mantê-as numa condição mais constante de armazenamento. Isso não significa com gela-las. Também não se recomenda aquecê-las ou agitá-las, o que pode na causar degradação da insulina. Mas após retirada do resfriamento para saministração é importante homogeneizá-las. Deve-se obedecer o tempo de uso para a insulina, entre 30 e 45 dias, mesmo que com um volume residual. A escolha da insulina deve levar em consideração hábitos naturais de cães e gatos. A terapia insulínica deve ser realizada diariamente, conforme tempo de atuação de cada insulina. As insulinas utilizadas para controle de manutenção em pacientes diabéticos são classificadas por tempo de atuação e seu pico de ação. Insulinas de atuação intermediária (entre 12 e 14 horas) utilizadas na rotina de cães e gatos são a Insulina Humana recombinante (NPH U-100/ml) - 0,25 a 0,5 U/kg BID (2) e a Insulina lenta - Insulina suína purificada (Caninsulin U-40/ml) - 0,25 a 0,5 U/kg BID. Entre as insulinas de longa duração (> 18 horas), mais utilizadas na rotina para gatos, estão a Insulina Glargina Lantus ou Basaglar U-100/ml) 1 a 2 U/gato BID, ou, para cães 0,25 U/kg, embora não muito indicada; a Insulina detemir (Levemir U-100/ml) 1 a 2 U/gato BID ou 0,1U/kg no cão, embora não muito indicada pelo tempo de ação e a Insulina protamina de zinco (PZI U-40/ml). 33 O uso correto da seringa de acordo com a Insulina também tem relevância para o tratamento. A insulina regular cristalina é utilizada como de escolha em quadros de descompensação hiperglicêmica, como a cetoacidose diabética. Deve ser administrada por via intramuscular ou por infusão contínua intravenosa. Em cães e gatos com menos de 10 kg, a dose inicial é de 2 U intramuscular, seguida de 1 U intramuscular a cada hora. Demais tratamentos: Manejo alimentar Exercício físico Hipoglicemiantes orais Controle da curva glucêmica seriada Complicações do Diabetes Mellitus Cetoacidose Hipoglicemia Efeito Somogyi 34 Doença do trato urinário superior 35 Cistite idiopática felina A CIF, também chamada de doença idiopática do trato urinário inferior dos felinos, ou cistite intersticial felina, assemelha-se muito a cistite intersticial humana, em sinais clínicos, comorbidades, tendência de recorrência e relação com o estresse. Fisiopatologia - A hipótese que sugere que a doença pode resultar de múltiplas alterações da bexiga urinária, do sistema nervoso central e do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal. Em gatos, parece haver um desequilíbrio no sistema neuroendócrino, de modo que o impulso do sistema nervoso simpático é controlado de forma inadequada pelo cortisol. Esse aumento na atividade pode resultar em uma maior permeabilidade da mucosa da bexiga, que ocasiona os sinais da CIF. Diagnóstico - A CIF é um diagnóstico de exclusão e deve ser realizada uma investigação diagnóstica para descartar outras causas específicas. Devem ser incluídas urinálise, cultura da urina, radiografias abdominais para identificação de urólitos vesicais ou ureterais radiopacos e ultrassonografia do trato urinário para descartar alterações vesicais como pólipos, neoplasias e anormalidades anatômicas, além de constatar inflamação vesical. Tratamento - Mesmo que os quadros de DTUIF não obstrutiva possam se resolver espontaneamente dentro de quatro a sete dias, é indicado o tratamento porque a condição de dor e angústia para o gato, podendo levar à obstrução ureteral. 36 Considerando que a CIF é ocasionada por um desequilíbrio neuro-hormonal na bexiga, um dos pontos fundamentais no tratamento é a redução da ativação noradrenérgica, por meio da redução do estresse e enriquecimento ambiental. Outro ponto fundamental para tratamento e prevenção da CIF é promover maior diluição da urina. Alterações na dieta podem afetar a concentração, o volume, o pH e o conteúdo mineral da urina, porém acredita-se que o fator mais importante seja o estímulo à ingestão hídrica. Anti-inflmatórios e analgésicos têm sido indicados para minimizar o desconforto vesical causado pela inflamação vesical. Porém não foi observada melhora nos sinais clínicos de animais com CIF tratados com anti-inflamatórios não esteriodais (meloxicam por cinco dias) quando comparados a gatos com CIF que não fizeram uso de AINEs. Por outro lado, a persistência dos sinais clínicos por vários dias desde o inicio da apresentação significa que um tratamento sintomático por um período longo pode ser necessário. É importante lembrar que todos os tratamentos atuais para CIF são paliativos e os melhores resultados são obtidos reduzindo o estresse, alimentando com dieta úmida e, se necessário, aliviando o espasmo ureteral. Os antidepressivos tricíclicos deve ser reservados apenas em casos recorrentes muito graves. 37 Alguns termos: Doença renal crônica - Caracterizada por deficiências nas funções dos rins secundárias à perda irreversível e progressiva de néfrons. Azotemia - Aumento nas concentrações séricas de ureia e creatinina; Uremia - Manifestações clínicas associadas ao aumento nas concentrações sanguíneas das toxinas urêmicas. Poliúria - Aumento na produção urinária. Oligúria - Redução na produção urinária. Anúria - Ausência de produção urinária. Polidipsia - Aumento na ingestão. 38 Urolitíase Urólitos ou cálculos urinários são concreções que podem ocorrer em qualquer porção do trato urinário (uretra, bexiga, ureteres e rins), popularmente conhecidos como "pedras". O urólito não deve ser considerado uma doença, e sim uma manifestação de uma doença, uma vez é sempre consequência de outra anormalidade: O urólito nunca deve ser tratado isoladamente (como por retirada cirúrgica), sem que seja feita investigação da causa-base que o predispôs e consequentemente o tratamento adequado e direcionado. Sinais clinicos indicativos de urolitíase podem abranger os mesmos de cistite, mas consistem principalmente de hematúria, anúria, disúria e polaciúria. As lesões secundárias à urolitíase mais prevalentes são cistite, obstrução uretral, hidroureter, hidronefrose, ruptura vesical e pielonefrite, o que reforça a relevância dessa condição para cães e gatos. Existe uma diferença entre urolitíase, cristalúria e sedimento urinário. Cristalúria é a presença de cristais (microscópicos) na urina, detectada por urinálise. Sedimento urinário pode ser composto por elementos como células do trato urinário, hemácias, leucócitos, cilindros, cristais, bactérias e fungos. Ainda que os cristais sejam formados por minerais (como cálcio, fosfato, oxalato, urato, entre outros) como os urólitos, a cristalúria não exige tratamento, assim como o sedimento urinário, sendo necessários apenas acompanhamento, monitoração e tratamento de infecções urina fias e outras doenças concomitantes. Por esse motivo, não é preciso alterar a dieta diante de um quadro de cristalúria sem urolitiase associada. 39 Diagnóstico Informações sobre idade, sexo, raça e de anamnese (sintomas, micção, dieta, fatores predisponentes, histórico anterior de alterações em trato urinário) são fundamentais para suspeitar qual o tipo de cálculo formado. Os sinais clínicos de urolitíase em bexiga são comuns aos de inflamação do trato urinário inferior, como hematúria, disúria, polaciúria e estrangúria. Urólitos que causam obstrução do trato urinário (sejamuretrais ou ureterais) induzem sinais clínicos sistêmicos, como dor, náuseas, êmese, letargia e hiporexia ou anorexia. Os pacientes podem ainda ser assintomáticos e o diagnóstico incidental. Determinar a composição e o tipo de cálculo é a base que define a causa da urolitíase e orienta o tratamento adequado e a prevenção da recorrência dos cálculos. Sendo assim, deve ser realizada a avaliação cristalográfica do cálculo, por meio da análise quantitativa que quantifique cada componente presente) e em camadas. A analise qualitativa não é capaz de classificar o cálculo adequadamente, a não ser que seja todo ele formado por um único mineral (ex. 100% estruvita) A radiografia é um exame fundamental no diagnóstico da urolitiase, onde é possível avaliar formato, posição, quantidade de urólitos presen. tes e radiopacidade (cálculos de estruvita e oxalato de cálcio são radiopacos, enquanto de urato de amônio e cistina são radiotransparentes) e predizer a composição mineral. A ultrassonografia é capaz de detectar tanto cálculos radiopacos quan. to não visíveis no exame radiográfico simples (como urato de amônio e oxalato de cálcio), sendo observada sombra acústica, além de alterações na bexiga, como presença de coágulos e sedimento urinário, espessamen to e irregularidade de parede, entre outras. 40 Como mencionado anteriormente, a urinálise é importante para diagnóstico de infecção urinária associada, por meio da identificação de hematúria, piúria e bacteriúria, assim como a urocultura, uma vez que a presença ou ausência de cristais não é um fator preditivo para o diagnóstico de cálculos. Assim como a cristalúria, o pH deve ser avaliado criteriosa-mente, visto que altera, ao longo do dia, fisiologicamente e sofre influência da dieta e jejum. É importante frisar que a urinálise não é preditiva para a composição do cálculo, mesmo mediante cristalúria. Tratamento Uma vez que os urólitos se formam em supersaturação e em estase urinária, a recomendação terapêutica mais importante e genérica para qualquer tipo de urólito é o estímulo à ingestão hídrica e à micção - be. ber mais água e urinar mais 114,115. A densidade urinária deve ser mantida abaixo de 1,020 para cães e de 1,030 para gatos. O principal objetivo da terapia é reduzir as recidivas de urolitíase. Obstruções uretrais devem ser tratadas com desobstrução após passagem de sonda e retrohidropropulsão. A cirurgia uretral (uretrotomia ou uretrostomia) deve ser evitada, pois pode resultar em alterações anatômicas e funcionais da uretra, além de estenose uretral, incontinência urinaria, infecções urinárias recorrentes e hemorragia. Uretrostomia pode ser considerada para evitar obstruções retrais futuras em animais formadores de cálculos com alta recorrência. É recomendado deslocar o urólito da uretra para a bexiga e prosseguir com cistotomia. Uma das desvantagens da cistotomia é a falha na remoção de todos os cálculos presentes, o que provoca recorrência do quadro de urolitase, e pode ser evitada por meio de inspeção da bexiga com 41 com endoscopia, antes de suturar a bexiga. Quando não há endoscópio disponível, diversas lavagens devem ser feitas tanto na bexiga quanto na uretra. A recorrência de urólitos também pode ocorrer pela presença do fio de sutura. Uma opção segura e rápida é a remoção dos uretrólitos por litotripsia intracorpórea ou cistoscopia com remoção por cesta, independentemente se causam obstrução ou não. Cães machos muito pequenos e gatos machos têm a uretra muito limitada para acomodar um cistoscópio em procedimentos minimamente invasivos. Nesses casos, é indicado deslocar os cálculos por retrohidropropulsão e realizar cistotomia ou cistolitotomia percutânea'. Urólitos vesicais devem ser removidos preferencialmente por procedimentos minimamente invasivos (cistoscopia e recuperação por cesta, litotripsia, cistolitotomia percutânea), por estarem associados a menor tempo de hospitalização, menor tempo de anestesia e recuperação mais rápida do paciente. Além de eliminar o risco de recorrência de urólitos induzida por suturas. A obstrução ureteral parcial ou completa deve ser tratada como emergência por causar dor, hidronefrose e redução abrupta da função renal e diagnosticada por meio de ultrassonografia (hidronefrose, hidroureter proximal), radiografia abdominal (presença de nefroureterólitos) ou urografia excretora, não sendo observada a passagem de contraste após o local de obstrução. Um procedimento raramente efetivo é o tratamento médico conservativo, por meio da indução da diurese com fluidoterapia e infusão contínua de manitol, na tentativa de progredir o cálculo ureteral para a bexiga, o que facilitaria a abordagem cirúrgica. Antagonistas alfa adrenérgicos, como prasozina, e antidepressivos tricíclicos, como amitriptilina, têm sido utilizados com relatos de melhora em alguns casos. 42 Caso seja escolhida essa alternativa, a monitoração deve ser constante e diária, por 24 a 72 horas, sob risco de piora do quadro renal e hidronefrose. Essa terapia deve ser imediatamente suspensa, caso ocorra oligúria/anúria, hipercalemia, azotemia progressiva ou piora da dilatação pélvica, Terapias mais eficazes são a ureterotomia (extração) e a colocação de stents (desvio minimamente invasivo), como o stent ureteral duplo ) em cães de médio e grande porte e o SUB (subcutaneous ureteral bypass, em inglês) em gatos e Cães pequenos. A passagem de stents melhora a função renal, permite a ejeção de bactérias e detritos inflamatórios e possibilita o acesso antimicrobiano ao trato urinário para erradicação de bacteriúria, quando presente. A indicação geral para os casos de nefrolitíase é a monitoração e os nefrólitos só devem ser removidos cirurgicamente, caso estejam provocando dor, obstrução do fluxo urinário (hidronefrose), infecções recorrentes, azotemia ou aqueles que aumentam a ponto de causarem compressão do parênquima renal. Nefrólitos consistentes com a composição de estruvita devem ser dissolvidos por meio de dieta e medicamentos, e, caso estejam associados a infecção (pielonefrite), o conteúdo deve ser drenado e enviado para cultura com antibiograma. Mais de 90% dos nefrólitos e ureterólitos em gatos são compostos primariamente por oxalato de cálcio, não passíveis de dissolução. 43 Tipos de Urólitos A obstrução uretral é uma afecção urológica emergencial na clínica de felinos, sendo considerada uma manifestação comum e potencialmente fatal da doença do trato urinário inferior dos felinos (DTUIF). A obstrução uretral em gatos machos resulta em um quadro de anúria , podendo este, levar o animal a óbito. A obstrução é usualmente causada por mucoproteínas, mas também pode ocorrer em decorrência de urólitos, transtornos funcionais da musculatura e neoplasias. Os felinos obstruídos possuem um processo inflamatório das vias urinárias que é acompanhado da presença de minerais (cristais e/ou cálculos) Etiologia - Existem urólitos formados por diversos tipos de composição mineral, tais como estruvita, oxalato de cálcio, fosfato de cálcio, ácido úrico e uratos, cistina e sílica. Os urólitos de estruvita são mais comuns (Buffington et al., 1997). Os gatos são naturalmente predispostos à formação de urólitos em razão da forte concentração de sua urina. Essa concentração deve-se, em grande parte, a baixa ingestão de água. Isso, devido aos felinos possuírem origem desértica, e adaptaram-se a consumir pouco líquido. Epidemiologia - Os machos são mais propensos a apresentarem a forma obstrutiva, devido à disposição anatômica da uretra longa e estreita O diâmetro uretral interno torna-se progressivamente menor desde sua origem na bexiga até o orifício externo (Oliveira, 1999). Tipicamente na extremidade do pênis, ou próximos das glândulas bulbo uretrais, ocorrem o acúmulo de cristais na uretra, promovendo a obstrução total ou parcial, onde os diâmetros são de respectivamente de 0,7 mm e 1,3 mm (Oliveira, 1999). 44 Obstruções uretrais Fisiopatogenia - Com a obstrução uretral, a bexiga se dilata além da sua capacidade habitual, com o aumentoda pressão intravesical a urina retida ascende novamente aos rins. Sendo assim, promove um aumento da pressão intratubular, opondo forças contra a taxa de filtração glomerular, comprometendo a capacidade de concentração tubular, além de outras funções tubulares, entre elas, a regulação do sódio e a capacidade de reabsorção de água, ainda, prejudicando a excreção de ácidos e potássio, resultando em uremia, acidose e hipercalemia. Mesmo com alívio do bloqueio uretral, a lesão tubular continua durante algum tempo, presumivelmente até solucionar o desequilíbrio hidroeletrolítico e ácido-básico. O dano tubular ou perda de néfrons durante o processo contribui para a poliúria acentuada, observada após o restabelecimento do fluxo urinário normal Sinais clínicos - Os sinais clínicos, de obstrução uretral são semelhantes a qualquer outro tipo de gato que apresente outra causa de doença do trato urinário inferior, como: disúria, polaciúria, urina ectópica, hematúria, sem sucesso em micção, o gato permanece inquieto e lambe bastante o pênis, no prepúcio pode ocorrer a presença de partículas semelhantes a grãos de areia. Também são descritos, ao gato obstruído: angustia, anorexia, hipotermia e ausência de libido ou ereção. Durante o exame clínico observa-se a vesícula urinária repleta e dura (Dowers, 2009). Diagnóstico - O diagnóstico pode ser obtido através do histórico clínico e exame físico do paciente, com o auxílio de métodos em diagnóstico por imagem, como exames radiográficos e ultrassonográficos, ainda os exames laboratoriais constituem em importante ferramenta para designar a evolução da afecção, e o prognóstico do paciente (Lane, 2009). 45 O exame radiográfico é recomendado em todos os casos, devido à possível urolitíase. A ultrassonografia pode ser sensível à detecção de pequenos urólitos ou pequenas massas presentes no trato urinário. A urografia excretora e a cistografia contrastada permitem a identificação de anomalias anatômicas em gatos jovens. A cistoscopia realiza uma avaliação da mucosa da vesícula urinária e uretral, avaliando a presença de pequenos urólitos ou a presença de inflamação ou neoplasia no local (Lane, 2009). As anormalidades nos exames laboratoriais são rotineiramente descritas, como: proteína sérica aumentada, hipercalcemia, hiperfosfatemia, hipermagnesemia, hipercolesteremia, acidose metabólica, creatinina, uréia e outros catabólicos de proteína em séricos níveis aumentados (Buffington, 2001). A urinálise é recomendada para melhor investigação de tipos cristais, proteinúria, hematúria e provável infecção bacteriana. Tratamento - O tratamento da obstrução uretral trata-se de uma emergência, devido ao risco do paciente evoluir ao óbito.Baseia- se no alívio da obstrução, correção dos efeitos sistêmicos da uremia e na prevenção de sua recidiva (Lane, 2009). Para correta inspeção da uretra peniana, implica-se na retenção do prepúcio e na exposição do pênis, utilizando a contenção química para um melhor manejo, associado ao emprego de miorrelaxantes, como o diazepam, para facilitar a inspeção e melhor relaxamento da musculatura da uretra. Desta forma, observamos cuidadosamente a presença ou não de tampão uretral ou urólito, na porção distal da uretra peniana (Lane, 2009). Estes podem ser removidos através de massagens suaves no pênis do gato. Caso não se obtenha sucesso com este método, verifica-se a vesícula urinária que estará repleta. Uma descompressão da bexiga superdistendida, por meio da cistocentese pode facilitar a 46 repulsão de tampões ou urólitos para o interior da vesícula urinária e diminuir a pressão intra-uretral, além de proporcionar uma amostra de urina não contaminada para cultura (Morais, 2004). Porém a cistocentese não é recomendada em casos de obstrução uretral prolongada, ou quando o paciente possuir o histórico de urina demasiadamente vermelha, pois isto sugere uma desvitalização tecidual da vesícula urinária, que com a introdução da agulha, pode resultar em ruptura de bexiga (Lane, 2009). O próximo passo é a introdução da sonda do lúmen uretral até alcançar a oclusão mecânica (tampão, urólito, coágulos etc). O cateter não deve ser forçado para o interior do lúmen uretral até a remoção do material obstrutor, devido à possibilidade ruptura de uretra (Souza, 1998). A porção proximal da sonda uretral deve ser arredondada, atraumática e lubrificada com lubrificante estéril. As sondas uretrais flexíveis ou cateteres uretrais de polipropileno são as preferidas para desobstrução uretral em gatos. Quantidades de solução salina estéril são impelidas sob pressão, deixando que ocorra o escoamento do líquido ao redor da sonda, promovendo uma pressão sobre o material obstrutor, forçando sua remoção (Souza, 1998; Lane, 2009). Após a desobstrução uretral, o material obstrutor é impelido ao interior da vesícula urinária, assim é necessário realizar o processo de lavagem da vesical, que se impele a solução e em seguida a retira, após administrar cerca de 300mL de soro pela sonda no processo de lavagem, verificamos se este volume de líquido foi o suficiente para amolecer os tampões uretrais ou remover os cristais, por meio de uma ligeira compressão manual da vesícula urinária criando uma pressão intra-uretral. 47 A maioria dos tampões uretrais é expelida da uretra após está técnica, não havendo necessidade de cateterizar toda a uretra, pois o local mais comum de obstrução uretral é na uretra peniana que apresenta um diâmetro interno de 0,7 mm. Após o restabelecimento do fluxo urinário, vários estudos demonstraram que alguns gatos obstruem 24 a 48 horas após o alívio da obstrução primária, quando a sonda uretral não é fixada. Recomenda-se a permanência da sonda urinária em sistema de cateter fechado por 24 a 48 horas em gatos com elevado grau de dificuldade para desobstrução, quando em presença de intensa hematúria, quando um calibre do fluxo urinário fraco durante a micção. Após a retirada da sonda, recomenda-se que o animal fique hospitalizado por pelo menos 24 horas para avaliar a recorrência da obstrução, e verificar se o músculo detrusor da bexiga já retornou a sua tonicidade (Souza, 1998; Morais, 2004; Lane, 2009). Os objetivos terapêuticos adicionais são os de corrigir a hipercalemia, o desequilíbrio de ácido/base, a desidratação e a uremia com uma terapia apropriada de líquidos (Markwell et al., 1999). O procedimento cirúrgico é indicado quando os protocolos médicos clínicos são ineficazes, para alivio da obstrução, principalmente quando em associação com infecção urinária periódica, quando o paciente não responde a terapia de dissolução do urólito ou quando urólito não for de possível dissolução, como o oxalato de cálcio, ainda a intervenção cirúrgica é aconselhada quando recidivas do quadro causaram prejuízos significativos na função renal e danos anatômicos, como estenose de uretra (Osborne, 2004). 48 A doença renal crônica (DRC), afecção renal mais comum dos cães e gatos, é caracterizada por deficiência nas funções dos rins, que ocorre subsequentemente a um dano estrutural devido à perda de néfrons, por um período acima de três meses. Os néfrons são as unidades funcionais dos rins: em cães, há aproximadamente 500 mil, e em gatos, 200 mil néfrons por rim. Uma vez que um néfron é perdido, não ocorre regeneração, e sim substituição por tecido conjuntivo fibroso. A perda de parte dos néfrons culmina em mecanismos compensatórios que mantenham as funções renais preservadas, mesmo havendo perda estrutural, por isso a DRC é silenciosa por muito tempo. Entre os mecanismos estão a hipertrofia dos néfrons remanescentes e a hiperfiltração glomerular. Os néfrons hipertrofiados passam a "filtrar" mais, o que aumenta a taxa de filtração glomerular (TFG) por néfron (também chamada FPN - filtração por néfron). Um dos efeitos disso é que a excreção de ureia e creatinina se mantém adequada e as concentrações séricas normais no sangue (sem azotemia), mesmo quando já há grande perda de néfrons e DRC instalada. Enquanto os néfrons remanescentes conseguem compensara perda de outros, as funções renais são preservadas. No entanto, com o tempo, ocorre sobrecarga funcional desses néfrons, que, invariavelmente, sofrem lesão e são também perdidos, em um "efeito cascata”, no qual cada vez mais unidades estruturais funcionais são perdidas e as remanescentes tornam-se sobrecarregadas. Esse é o motivo pelo qual a Drc é uma doença de caráter progressivo e irreversível. 49 Doença Renal Crônica - DRC Fisiopatologia - Para entender a fisiopatologia da DRC, é importante relembrar todas as funções renais conhecidas: equilíbrio hídrico (e controle da concentração urinária), equilíbrio eletrolítico e mineral (regulação das concentrações de eletrólitos, como sódio, potássio e cloreto, e minerais, como cálcio e fósforo), equilíbrio ácido-base, excreção de metabólitos (como as toxinas urêmicas), regulação da pressão arterial e função endócrina (síntese de eritropoetina e renina e conversão da vitamina D). Estadiamento da DRC - A Sociedade Internacional de Interesse Renal (International Renal Interest Society-IRIS), com o objetivo de auxiliar médicos veterinários no diagnóstico, monitoração e tratamento da doença, classificou a DRC em quatro estádios, de acordo com o valor de creatinina e SDMA. Dessa forma o estádio 1 compreende animais não azotêmicos, com creatinina abaixo de 1,4 mg/d para cães e de 1,6 mg/dl para gatos; o estádio 2, azotemia leve, cujo valor de creatinina encontra-se entre 1,4 e 2,8 mg/dl para cães e 1,6 e 2,8 mg/di para gatos; o estádio 3, azotemia moderada, com valor entre 2,9 e 5,0; e o estádio 4, azotemia severa, com valores de creatinina superiores a 5,0 mg/dl. Pelo valor de SDMA, o estádio 1 compreende valores abaixo de 18 µg/dl; estádio 2 para cães 18 a 35 e para gatos 18 a 25 µg/dl; estádio 3 para cães 36 a 54 e para gatos 26 a 38 µg/dl; e estádio 4, SDMA com valores acima de 54 para cães e para gatos acima de 38 µg/dl. A DRC ainda é subestadiada segundo a proteinúria e pressão arterial sistêmica. 50 51 Azotemia e uremia - Os conceitos de azotemia e uremia são diferentes. Azotemia é o aumento das concentrações sanguíneas de ureia e creatinina, um achado laboratorial. Uremia se refere às manifestações clínicas causadas pelo acúmulo das toxinas urêmicas. A azotemia só está presente na doença a partir do estádio 2 de DRC e é detectada muito tardiamente, quando a lesão renal ocasionou uma perda de aproximadamente 75% do total de néfrons. Azotemia é o aumento das concentrações sanguíneas de ureia e creatinina. Uremia abrange as manifestações clínicas causadas pelo acúmulo das toxinas urêmicas. Diagnóstico da DRC O diagnóstico da DRC é baseado na detecção de alterações estruturais renais, que indicam perda de néfrons, e na identificação dos transtornos consequentes às falhas nas diversas funções renais. A avaliação ultrassonográfica dos rins é capaz de detectar alterações morfológicas renais que ocorrem na DRC, as quais podem incluir aumento da ecogenicidade do parênquima renal, perda da definição e alteração na relação córtico-medular, principalmente por espessamento cortical, perda da arquitetura interna, cistos, contornos irregulares, áreas de fibrose e alteração no tamanho é simetria dos rins. A ausência dessas alterações não descarta a ocorrência da doença. À medida que a enfermidade evolui, há mais perda de néfrons e o estágio da doença renal se agrava, sendo, portanto, encontradas mais alterações ultrassonográficas. Por exemplo, quanto mais avançada a doença, menores são as dimensões dos rins acometidos. 52 A urinálise é um exame de grande valia, principalmente pela precocidade diagnóstica. Pacientes em estádio 1 da doença renal podem ser diagnosticados não só pelas alterações estruturais, mas por já apresentarem modificações na densidade urinária, proteinúria, confirmada dosando a relação proteína/creatinina urinária (RPCU), além de achados na sedimentoscopia (cilindrúria e presença de células de descamação do epitélio renal), indicadores de lesão tubular. Tratamento da DRC Por tratar-se de uma enfermidade progressiva e irreversível, o tratamento da DRC em cães e gatos tem como objetivos principais: 1) reduzira morbidade, controlando sinais clínicos do trato gastrointestinal e aqueles oriundos da desidratação, anemia, hipocalemia, hipocalcemia e acidose metabólica; 2) controlar fatores relacionados à progressão da doença e, que, por serem consequência dela, geram quadro de autoperpetuação da DRC (proteinúria, anemia, hiperfosfatemia, HPTSR e hipertensão arterial sistêmica). Tais fatores dificilmente causam sinais clínicos, porém contribuem na diminuição da longevidade. Embora a adequação nutricional do paciente renal seja de suma importância, ainda não existe comprovação de que a dieta retarda a progressão da doença nos estádios 1 e 2, a não ser que seja implementada para tratamento de proteinúria. Adicionalmente, pacientes com anorexia severa podem se beneficiar do uso de sondas e tubos de alimentação. Fluidoterapia intravenosa ou subcutânea é uma terapia adjuvante e tem como único objetivo a reidratação do animal desidratado, por isso não é indicada para todos os pacientes. 53 Esse tipo de tratamento auxilia os poliúricos incapazes de manter- se hidratados mesmo em polidipsia, além dos pacientes desidratados por outras perdas hídricas (como vômitos e diarreia) ou redução na ingestão de água. A escolha da fluidoterapia (volume, tipo de fluido, via de administração) deve ser individualizada e deve ser reavaliada constantemente, principalmente em ambiente de internação. O tipo de fluidoterapia (Ringer lactato, Solução fisiológica NaCI 0,9%, Glicose 5%, entre outros) deve ser selecionado com base nas necessidades eletrolíticas do paciente e inclusão de aditi-vos, como bicarbonato de sódio e cloreto de potássio. A fluidoterapia não substitui a ingestão hídrica oral, e água deve continuar sendo oferecida ao animal, assim como administrada em pacientes em uso de sondas e tubos de alimentação. Não existe calculo do volume de fuidoterapia espectico para o paciente renal: esse deve ser feito com base na taxa de manutenção e desidratação. Deve-se ter cuidado com a administração excessiva de fluido, que pode ocasionar hiper-hidratação, com consequências como hipertensão, edema pulmonar, efusão pleural, vômitos, diarreia, acúmulo de fluido no subcutâneo e congestão renal, o que pode agravar ainda mais a doença renal. 54 O controle dos sintomas gastrointestinais (náuseas, vômitos) e a indução ao apetite podem ser feitos com a utilização de fármacos bloqueadores de receptores H, (ranitidina, famotidina) ou de bomba de prótons (omeprazol), antieméticos (ondansetrona, maropitant), estimulantes do apetite (mirtazapina, ciproeptadina) e fármacos com potencial antiulceroso (sucralfato). Distúrbios eletrolíticos e minerais devem ser corrigidos com a adequação nutricional - que tem fundamental valor no tratamento da hiperfosfatemia ou com o emprego de fármacos e suplementos. Quando a dieta restrita em fósforo não é suficiente para manter os níveis de fósforo nas metas desejadas para cada estádio da DRC, devem ser empregados os quelantes intestinais de fósforo, como hidróxido de alumínio (90 mg/kg/dia), carbonato de cálcio (90 mg/kg/dia) ou sevelamer (160 mg/kg/dia), que podem ser utilizados individualmente ou em combinação. a depender da resposta do paciente e das suas necessidades. 55 Devido a sua ação quelante, esses fármacos devem ser administrados juntamente ou imediatamente após cada refeição, e não é possível alcançar um efeito desejado quando o paciente não faz uso de dietas restritas em fósforo. A hipocalcemia ionizada pode ser corrigida, quando necessário, de forma intravenosa (gluconato de cálcio 10%, 0,5 a 1,5 ml/kg IV, lento e diluído) ou oral (carbonato de cálcio 25-50 mg/kg/dia). Para o tratamento do HPT SR, pode ser prescrito ainda calcitriol (Rocaltrol°, Sigmatriol°), devendo-se ter cuidado em pacientes hiperfosfatêmicos, pois o calcitriol eleva não somente as concentrações de cálcio, mas também de fósforo. Paraos pacientes hipocalêmicos deve ser feita a suplementação de potássio por via intravenosa, com cloreto de potássio 19,1% ou 10%, ou por via oral, com citrato de potássio (50 a 75 mg/kg duas vezes ao dia). Este deve ser administrado separado do hidróxido de alumínio. O tratamento da anemia no paciente renal envolve o ajuste nutricional e a otimização do apetite (uma vez que a desnutrição é uma das causas de anemia na DRC), tratamento de hemorragias gastroentéricas, suplementação de ferro e reposição da eritropoetina (EPO) ou darbepoetina em algumas situações. O tratamento de acidose metabólica consiste na correção das causas de acidose e na suplementação com bicabornato de sódio, que pode ser feita por via oral e parenteral. O tratamento da proteinúria inclui o ajuste nutricional (com dietas com quantidade reduzida de proteínas de alto valor biológico e suplementadas com Ômega 3) e o uso de inibidores de ECA, sendo o benazepril o fármaco de predileção. Uma vez que a DRC é definida por perda irreversível de néfrons, não há terapia para reversão da azotemia renal existente. 56 57 Agentes etiológicos e epidemiologia A esporotricose é uma micose subcutânea causada por fungo dimórfico do complexo Sporothrix schenckii que acomete cães e gatos, além do homem. As principais espécies de importância no Brasil são Sporothrix schenckii, sensu stricto, s. brasiliensis, S. globosa e S. luriei Primariamente, S. schenckii é encontrado disposto no solo, tronco e raízes de árvores, além de plantas e arbustos. Durante muitos anos, foi responsável por causar lesões cutâneas em humanos e animais se machucavam acidentalmente, inoculando o fungo na pele. O hábito natural de gatos afiarem as unhas e cavar o solo para enterrar seus dejetos facilitou o contato dos felinos com o agente e a autoinoculação. Existindo uma população importante de felinos semidomiciliados no país, houve uma disseminação do fungo entre eles, principalmente em machos inteiros que frequentemente brigam entre si por território ou fêmeas no cio. 58 Esporotricose Hoje é uma epizootia reconhecida em diferentes estados brasileiros. A proximidade natural de felinos com o homem e seus hábitos de arranhadura tornaram os gatos, quando infectados, potenciais veiculadores do fungo para os humanos. Algumas pesquisas mostram a adaptação bem-sucedida do fungo ao hospedeiro felino. É provado que os gatos, quando infectados, exibem uma grande quantidade de leveduras capazes de produzir biofilme que aumenta a virulência do fungo e dificulta condutas terapêuticas. Sinais clínicos Apesar de ser considerada uma micose subcutânea, os felinos podem exibir comprometimento importante do sistema respiratório superior ou inferior, ou ainda assumir uma forma disseminada da doença, em que outros órgãos podem ser afetados. Os sinais clínicos iniciam-se poucos dias após a infecção. Em geral, a região da face e orelhas, além dos membros, são os locais de maior ocorrência de lesões, pois são o contato inicial de inoculação pelas garras por ocasião de brigas. As lesões cutâneas iniciam-se como pápulas, nódulos ou bolhas que se rompem e que drenam contéudo serosanguinolento. Após ruptura, formam-se pequenas úlceras que aumentam de tamanho e podem confluir. É muito comum a formação de crostas hemorrágicas que podem ser facilmente removidas com a manipulação. Em pacientes felinos, a autoinoculação permite uma rápida disseminação da levedura e, por consequência, das lesões cutâneas. 59 Com a progressão da doença, poderá haver perda importante de tecido. O comprometimento de linfonodos periféricos também é um sinal clínico comum. Frequentemente o espelho e plano nasal podem ser acometidos, podendo haver perda de tecido ou tumefação leve ou grave. Por esse motivo, é comum observar quadros de espirros e dispneia inspiratória nesses pacientes. Comumente esses animais ficam hiporéticos e o emagrecimento e a desidratação podem ser uma consequência. Em quadros mais raros, os animais acometidos podem desenvolver pneumonia fúngica. E importante ressaltar que a doença poderá progredir associada a comorbidades que favorecem quadros de imunossupressão como a leucemia e a imunodeficiência felina. Em cães, a doença assume, em geral, uma evolução mais benigna, Esses animais adquirem a infecção através de acidentes com felinos infectados. Exibem lesões nodoulcerativas, exsudativas e crostosas mais localizadas principalmente no focinho e face. Em casos graves, podem apresentar lesões generalieadas e comprometimento linfático a e. Por outro lado, os seres humanos podem exibir lesões cutâneas, muco-Cutaneas ou progredir para uma doença sistêmica. A formação de úlceras que não cicatrizam e o comprometimento dos linfonodos são os sintomasmais comuns. Podem demonstrar com frequência nódulos subcutâneos que se arranjam em cadeia até o linfonodo satélite, conhecidos como lesão em "rosário" Diagnóstico Dados sobre a história clínica e do padrão lesional, além da agudicidade das lesões são de grande importância para considerar a esporotricose. 60 Independentemente das opções diagnósticas, terapias recentes à base de antifúngicos tópicos ou sistêmicos podem interferir na sensibilidade dos exames. Os exames complementares que poderão ser solicita-dos para o diagnóstico definitivo estão dispostos a seguir. Citologia O exame citológico das secreções obtidas de lesões primárias é uma opção diagnóstica rápida e de fácil execução. Poderão ser observadas leveduras livres ou dentro de macrófagos. As amostras de lesões oriundas dos felinos normalmente contêm grande quantidade de leveduras. Por outro lado, cães infectados podem ter amostras falso-negativas por, naturalmente, possuírem poucas estruturas fúngicas. O processo inflamatório granulomatoso com grandes quantidades de macrófagos poderá ser auxiliar na suspeita clínica, caso Sporothrix sp. não seja visualizado. Histopatologia Nos casos em que existe a suspeita de esporotricose e as leveduras não foram visualizadas em exame citológico, o médico veterinário poderá retirar fragmentos das lesões através de biópsia cutânea e encaminhar para avaliação histopatológica. A coloração tradicional de hematoxilina-eosina pode ser suficiente para o diagnóstico, porém colorações especiais como PAS evidenciam as leveduras e facilitam a identificação. Vale salientar que as lesões cutâneas por esporotricose são diagnóstico diferencial de outras doenças ulcerativas como 61 carcinoma de células escamosas, leishmaniose, criptococose e histoplasmose, sendo a histopatologia uma opção diagnóstica importante para diferenciá-las. Cultura fúngica O cultivo micológico das secreções ou fragmentos das lesões é o teste de eleição para o diagnóstico da esporotricose, uma vez que possui alta sensibilidade e é o único método de diagnóstico que permite a Identificação da espécie envolvida. Uma desvantagem em relação aos outros métodos é que o crescimento da colônia pode demorar, retardando o diagnóstico da doença. Tratamento e prevenção A droga de eleição para o tratamento da esporotricose é o itraconazol. Em gatos, a recomendação é utilizar 10mg/Kg ou 100mg/gato a cada 24h, enquanto em cães a dose é 10mg/Kg a cada 24h. Em casos refratários a terapia com itraconazol, uma alternativa é a associação ao iodeto de potássio na dose de 5mg/Kg a cada 24h62. O médico veterinário deve estar atento a sinais de iodismo nos felinos que são submetidos a essa droga. Por outro lado, a criocirurgia também pode ser associada à terapia sistêmica com o itraconazol na perspectiva de diminuir a população de leveduras e acelerar o tratamento, principalmente nos casos de esporotricose nasal. Outra alternativa similar é a aplicação intralesional de anfotericina B também associada a administração oral de itraconazol. 62 Terapia tópica à base de antifúngicos azólicos pode auxiliar na diminuição da carga fúngica, reduzindo autoinoculação e contaminação ambiental. Não há uma padronização em relação a duração da terapia, uma vez que a resposta é individual. Os cães costumam serecuperar mais rapidamente, enquanto o tratamento em felinos poderá durar muitos meses. Na prática, observa-se que gatos com lesões no sistema respiratório possuem resposta clínica mais demorada. Em geral, é recomendado que o tratamento seja mantido por pelo menos quatro semanas após remissão clínica da doença. Um ponto muito importante para o sucesso do tratamento é o manejo do paciente infectado. Este precisa ser isolado de outros animais e ter espaço reduzido, evitando contaminação ambiental ou reinfecção. Sendo assim, esses pacientes não podem ter acesso à rua. É importante que objetos destinados à limpeza do local sejam de uso exclusivo e seres humanos precisam estar protegidos com luvas. A higiene do ambiente deve ser realizada com hipoclorito de sódio e todo resto biológico do paciente também precisará ser embebido no hipoclorito antes do descarte para não haver contaminação ambiental. Nesse contexto, animais que vierem a óbito deverão ter a carcaça destruída ou serem cremados, não devendo ser enterrados. 63 Excessiva mobilização periférica de lipídeos Deficiência na formação de lipoproteínas Lipogênese excessiva Inibição da oxidação lipídica Inibição da síntese de lipoproteínas de densidade muito baixa (VLDL) A lipidose hepática (LH), também chamada de “fígado gorduroso” é uma síndrome bem reconhecida em medicina felina e é caracterizada pelo acúmulo excessivo de triglicerídeos no fígado. A doença pode ocorrer em associação com outras doenças subjacentes como obesidade, pancreatite, diabetes e colangiohepatite, ou pode ser idiopática, quando a causa primária não é detectada. Gatos com LH frequentemente apresentam histórico de longo período de inapetência, que pode estar relacionada a manejo alimentar inadequado, eventos estressantes ou fatores crônicos relacionados às comorbidades citadas acima. Este artigo abordará a complexa fisiopatogenia da LH, além de diagnóstico, tratamento, abordagem nutricional e prevenção desta importante afecção na clínica de pequenos animais. Fisiopatogenia da Lipidose Hepática A etiopatogenia da LH ainda não está completamente elucidada pela ciência. Acredita-se que uma combinação de fatores seja responsável pelo seu desenvolvimento, como: A lipidose hepática em gatos geralmente surge quando há longos períodos de inapetência (ex: 36 horas). 64 Lipidose Hepática Durante a privação alimentar, o glicogênio hepático armazenado previamente servirá como fonte de energia reserva para o organismo. Se a ingestão alimentar permanecer comprometida mesmo após os estoques de glicogênio hepático serem consumidos, ocorrerá diminuição dos níveis plasmáticos de insulina na tentativa de manter a glicemia e, com isso, há o estímulo à lipólise periférica. Os ácidos graxos depositados no tecido adiposo são, então, mobilizados para geração de energia, e a taxa de oxidação no fígado aumenta. Com isso, inicia-se uma série de disfunções metabólicas deletérias ao organismo do animal, uma vez que a chegada de lipídios ao fígado excede sua capacidade de oxidação. A liberação maciça de triglicerídeos na circulação pode levar à disfunção hepatocelular, pois o acúmulo de gordura nos hepatócitos compromete a função dessas células e afeta toda a integridade do organismo do animal. Estima-se que mais de 70% dos hepatócitos estejam comprometidos na presença de LH (Figura 1). 65 66 MANIFESTAÇÃO CLÍNICA Lesão hepática aguda necroinflamatória Características clinicopatológicasColestase Comprometimento da perfusão –Injúria oxidativa Depleção de Glutationa Impacto no catabolismo, balanço hídrico eletrolítico, depleção micronutriente Alterações compatíveis com doença de base 67 Sinais clínicos Anorexia Perda de peso Perda de massa muscular Desidratação Náusea/Vomito Icterícia Diarréia/constipação Ventroflexãopescoço Sinais neurológicos –Encefalopatia hepática Diagnóstico presuntivo Histórico, anamnese, sinais clínicos, achados laboratoriais e de imagem Diagnóstico definitivo Citologia (PAAF) Exame Histopatológico do fígado Exame físico Mucosas –Palato ( Bilirrubina > 2,5 mg/dL) Palpação abdominalHepatomegalia Desconforto abdominal Desidratação Imagem: Carla Santos 68 EXAMES LABORATORIAIS Hemograma BioquímicaALT e AST –Enzimas de extravasamento FA e GGT –Enzimas colestáticas Bilirrubina e frações Albumina Eletrólitos: K, P, Mg Testes de coagulação Dosagem de ácidos biliares Glicemia Corpos Cetônicos Lipidograma PRINCIPAIS ALTERAÇÕES LABORATORIAIS Hemograma –Corpúsculos de Heinz ↑Bilirrubina total ( D>I) Leve aumento de transaminases –Comparativa ↑FA > GGTDiagnóstico Presuntivo ↓ K, P e Mg Hiperglicemia/ corpos cetônicos ↑ Triglicerídeos EXAMES DE IMAGEM Radiografia abdominal Ultrassonografia abdominal - Aumento da econegicidade Diagnóstico diferencial outras hepatopatias 69 TRATAMENTO DA LH OBJETIVOS: Restabelecer balanço energético e Terapia de suporte TRATAR CAUSA!!! PONTOS CRÍTICOS NO TRATAMENTO Desidratação Desiquilíbrio eletrolítico Suporte Nutricional DESIDRATAÇÃO E DISTÚRBIO ELETROLÍTICO 70 PARÂMETROS CLÍNICOS PARA AVALIAR DESIDRATAÇÃO EM GATOS Turgor cutâneo Hidratação das mucosas Enoftalmia Protrusão de terceira pálpebra Alterações dos parâmetros de perfusão (hipovolemia/desidratação grave) SINAIS DE HIPOVOLEMIA EM GATOS Bradicardia (FC 2,5 mmol/l -Prognóstico HIDRATAÇÃO DO PACIENTE REPOSIÇÃO Peso (kg) x % desidratação x 10 = Volume reposição em mL Tempo de reposição em 24 hs MANUTENÇÃO Peso (kg)0,75 x 80 = volume requerido em 24 h (mL) Ou Regra prática: 2 a 3 mL/kg/h 71 FLUIDOTERAPIA SUBCUTÂNEA EM GATOS Indicação – Manutenção da hidratação Desidratação leve Frequência/Volume (75 – 150 ml/gato - Sparkes et al., JFMS, 2016) Tempo de absorção CUIDADO COM SOBRECARGA Reposição de potássio DISTÚRBIO ELETROLITÍCO Hipocalemia –Mais comum -Fraqueza muscular, ventroflexãode pescoço, vomito, atonia intestinal Hipofosfatemia–principalmente associado a síndrome da realimentação –hemólise Hipomagnesemia–fraqueza, hipocalemia, arritmia cardíaca, convulsão FLUIDO E REPOSIÇÃO DE POTÁSSIO Cristalóide: Fisiológico Ringer Ringer lactato Cloreto de potássio 10% -10 mL-13,4 mEq Cloreto de potássio 19,1% -10 mL–25,6 mEq 72 REGRA PRÁTICA!!! Avaliar grau de desidratação diariamente Suplementar potássio imediatamente Avaliar potássio sérico e reavaliar dose Avaliar fósforo antes e após iniciar alimentação Em caso de hipocalemia persistente –Avaliar magnésio Acompanhar peso, hemograma e albumina MANEJO NUTRICIONAL PILAR DO TRATAMENTO DA LIPIDOSE HEPÁTICA A nutrição enteral é a chave Restabelecer o balanço energético Anorexia ↔Lipidose Hepática 3 –5 dias já é crítico!!! NUTRIÇÃO ENTERAL Sonda nasoesofágica Sonda esofágica Sonda gástrica REQUERIMENTO ENERGÉTICO DO GATO Gatos magros NEM = 100 kcal x PC0,67 Gatos obesos NEM = 130 kcal x PC0,4 NER = 70 x PC0,75 Cuidado com fator de correção –Sobrecarga alimentar!! 73 SONDA NASOESOFÁGICA Vantagens Não precisa de anestesia geral Fácil de colocar Baixo custo Desvantagens Pouco tempo de permanência Dieta líquida SONDA NASOESOFÁGICA Lidocaína gel Colírio oftálmico anestésico Sonda Fio / Cola Sonda 3,5 a 8 Fr Colar -> Marcar a sonda (narina –7/8 espaço intercostal) 1 a 2 gotas na narina Lubrificar a sonda com gel Fixar Colar Radiografia 1 kg (1000 gr) -6.600 kcal 1 medida –11 gramas –72,6 kcal8 Gato 5 kg –234 kcal/dia –3,5 medidas Quantidade de água: avaliar sonda e requerimento hídrico 74 SONDA ESOFÁGICA Vantagens Fácil de colocar Baixo custo Longa duração Maior variedade de dieta podem ser ofertadas Desvantagens Anestesia Risco de hemorragia Celulite CÁLCULO DE ALIMENTAÇÃO PARA SONDA ESOFÁGICA NER = 70 x PC0,75 Gato: 5 Kg -234 kcal/dia Energia metabolizável: 1.274 kcal/kg 1 lata = 195g = 248,4 kcal Necessidade hídrica -60 ml/kg/dia –300 mL 74% de umidade = 195 g = 144,3 mLde água Necessário repor 155,5 mL CÁLCULO DE