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1 Sociologia da Educação 2 Sociologia da Educação Gestão da Educação a Distância Cidade Universitária – Bloco C Avenida Alzira Barra Gazzola, 650, Bairro Aeroporto. Varginha /MG ead.unis.edu.br 0800 283 5665 Todos os direitos desta edição ficam reservados ao Unis – MG. É proibida a duplicação ou reprodução deste volume (ou parte do mesmo), sob qualquer meio, sem autorização expressa da instituição. 3 Sociologia da Educação Doutoranda e Mestre em Educação. Graduação em Matemática e Filosofia. Especialização em Matemática, Supervisão Escolar, Docência na EaD, Psicopedagogia e Gestão Escolar. Professora no Grupo UNIS/MG nos cursos de graduação a distância nas áreas de: Formação de Professores, Gestão escolar, Metodologia da Matemática, Introdução à Matemática e Estágio Supervisionado; e nos cursos de graduação presencial nas áreas de: Gestão Escolar, Estatística, Filosofia, Desenvolvimento Psicomotor e Educação Inclusiva. Professora na Pós- Graduação Unis/MG nas disciplinas: Introdução à Inclusão Escolar, Prática pedagógica na Inclusão escolar, Gestão da Educação, História da Matemática e Física. Realiza assistência técnica na área pedagógica em unidades de ensino, produz material instrucional de conteúdo e pedagógico para EaD, ministra cursos presenciais relacionados às metodologias do ensino de matemática e educação infantil, políticas públicas, educação inclusiva e projetos pedagógicos Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1472334750581053 Prof. Me. Nidia Mirian Rocha Felix Autoria FELIX, Nidia Mirian Rocha. Guia de Estudo – Sociologia da Educação. Varginha: GEaD-UNIS/MG, 2017. 149 p. 1. Sociologia da Educação 2. Clássicos da sociologia 3. Sociologia cultural. Sociologia da Educação. http://lattes.cnpq.br/1472334750581053 4 Sociologia da Educação Caro (a) aluno (a), Esta disciplina tem como propósito discutir os aspectos que envolvem a formação social como ciência que interpreta as relações educacionais estabelecidas ao longo dos tempos. Portanto, lhe convidamos a aceitar um desafio: permitir-se refletir sobre a educação. Todos nós - professores ou futuros professores - ocupamo-nos da tarefa específica de ensinar, fazendo disso a nossa profissão, esse desafio consiste, sobretudo, em pensar melhor sobre a nossa prática pedagógica, que tem relação direta com as organizações em sociedade. Pensar sobre a prática pedagógica significa essencialmente questionar sobre a relação entre ensino/aprendizagem. Essa é uma via de mão de dupla, que indica a necessidade de tornarmos o conhecimento como algo dinâmico. Como escreveu Guimarães Rosa, em “Grande Sertão: Veredas”, e Paulo Freire sempre parafraseia: “mestre não é quem ensina, mas quem de repente aprende”. Assim, perguntar pelo significado da nossa prática pedagógica quer dizer, então, dispor-se, ao mesmo tempo, a ensinar e a aprender. É enveredar-se rumo a um novo conhecimento, mesmo quando os caminhos se apresentam estreitos. É transitar de um lugar a outro nas aventuras do saber. É dispor-se a enfrentar o “sertão” das ideias, esse lugar sem fronteiras, buscando um porto mais ou mesmo seguro, onde poderemos pronunciar nosso veredicto que tenha relação com o conjunto - conjunto social de intenções educacionais que abarque a todos os envolvidos. Assim, ao perguntarmos sobre o significado da nossa prática pedagógica, queremos ampliar as condições de fazer algo novo e diferente, ao mesmo tempo em que poderemos ter maior clareza do lugar que ocupamos como professores. Um lugar que envolve transformações, não só a transformação pessoal do profissional, mas uma potencialidade para transformação de vidas que perpassam pela atuação educacional. E é nesse sentido que você precisa compreender e interpretar os 5 Sociologia da Educação conceitos e preceitos que envolvem a ciência social, pois um docente consciente, sabedor das teorias que implicam na vida em sociedade, desenvolve um trabalho direcionado, ativo e com apoio real à comunidade em que ele se insere. Tem-se falado muito sobre os meios de comunicação de massa, em relação à necessidade de ampliar a educação do povo. Mas fala-se também sobre a efetiva ampliação das taxas de escolaridade, a universalização do ensino básico, ou seja, a ampliação da educação com dignidade e efetividade concreta para todos os locais em que a educação possa ser sedimentada. É exatamente este o nosso ponto de reflexão, onde estabeleceremos o significado das nossas discussões ao longo da disciplina de Sociologia da Educação. Nesta disciplina faremos uma análise sociológica educacional, pois a escola é um lugar privilegiado, em relação à observação das nossas possibilidades e limites. Analisaremos sistematicamente a escola, sustentando-nos em teóricos da sociologia e apoiando-nos na observação das relações sociais estabelecidas no ambiente escolar. Em síntese, analisaremos com mais clareza o papel dos educadores e como as práticas pedagógicas exprimem o desejo e o poder de mudança. Vamos avançar? Desejo bons estudos! Prof.ª. Nidia Mirian Rocha Felix 6 Sociologia da Educação Interpretação e análise sociológica do fenômeno educacional. Sociedade e educação: relações sociológicas. Estudo sobre o tratamento teórico recebido pela educação no discurso das principais correntes do pensamento sociológico clássico e contemporâneo. Cultura e Ideologia. Educação e desigualdades sociais. Processos educativos e processos sociais. Ver Plano de Estudos da disciplina, disponível no Ambiente Virtual. Sociologia da Educação. Clássicos da sociologia. Sociologia cultural. Ementa Orientações Palavras-chave 7 Sociologia da Educação EMENTA ____________________________________________________________________ 6 ORIENTAÇÕES ______________________________________________________________ 6 PALAVRAS-CHAVE ___________________________________________________________ 6 UNIDADE I – SOCIEDADE E EDUCAÇÃO: RELAÇÕES SOCIOLÓGICAS ________________ 10 1.1 SOCIEDADE E SOCIOLOGIA, QUE RELAÇÃO É ESSA? __________________________________ 11 1.1.1 O QUE É SOCIEDADE? ___________________________________________________ 13 1.2 CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA __________________________________________________ 15 1.2.1 AUGUSTO COMTE: O AMOR COMO PRINCÍPIO, A ORDEM COMO BASE E O PROGRESSO COMO FIM. _________________________________________________________________________ 16 1.2.2 KARL MARX: CRÍTICA AO CAPITALISMO E À EXPLORAÇÃO DO HOMEM ___________________ 17 1.2.3 MAX WEBER: PODER É A CAPACIDADE DE MOBILIZAR PESSOAS. ________________________ 22 1.2.4 DAVI ÉMILE DURKHEIM: “EDUCAÇÃO, IMAGEM E REFLEXO DA SOCIEDADE” ________________ 25 UNIDADE II – INTERPRETAÇÃO E ANÁLISE SOCIOLÓGICA DO FENÔMENO EDUCACIONAL _____________________________________________________________ 32 2.1 SOCIEDADE, EDUCAÇÃO E PROCESSOS DE TRABALHO ________________________________ 34 2.1.1 A EVOLUÇÃO DO CAPITALISMO E A EDUCAÇÃO __________________________________ 41 2.1.2 CAPITALISMO E EDUCADORES CRÍTICOS ________________________________________ 46 2.2 SOCIEDADE, EDUCAÇÃO E A ESTRUTURA DA SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO _________________ 49 2.2.1 AS PRINCIPAIS CORRENTES DO PENSAMENTO SOCIOLÓGICO E A EDUCAÇÃO COMO PROCESSO SOCIAL ____________________________________________________________________ 50 UNIDADE III – AS INSTITUIÇÕES SOCIAIS E A EDUCAÇÃO _________________________ 53 3.1 AS PRIMEIRAS INSTITUIÇÕES SOCIALIZADORAS ______________________________________ 54 3.1.1. AS INSTITUIÇÕES RELIGIOSAS E A EDUCAÇÃO ____________________________________ 56 3.1.2 AS INSTITUIÇÕES RELIGIOSAS E A EDUCAÇÃOproblemas apresentados. A Sociologia da Educação deveria identificar os problemas relativos às instituições de ensino e encontrar uma solução para esses problemas. Assim, surgem as correntes do pensamento sociológico envolvidas com as estruturas educacionais, sobre as quais ampliaremos a discussão no tópico a seguir. 2.2.1 As principais correntes do Pensamento Sociológico e a Educação como Processo Social As reflexões sobre as relações entre Educação, Política e Sociedade tiveram representantes em vários países. Na França, pensadores modernos desenvolveram a pedagogia crítica, que demonstrava como a educação pode ser instrumento de reprodução cultural, social e de interesses ideológicos. Figura 3: Ideologias Fonte:https://lavrapalavra.com/2015/08/07/aja-como-seja-acreditasse-dialogo-com-pascal- lacan-e-althusser/ 51 Sociologia da Educação A escola capitalista, segundo Althusser, é aquela que reproduz a sociedade e impõe a cultura de interesse das classes dominantes. Afirma que, na atualidade, a Escola substituiu a Igreja no controle ideológico da sociedade, pois é no ambiente escolar, que é um espaço de presença obrigatória e onde a criança ou o jovem permanece grande parte do tempo, que se estabelecem as relações e interações. Além da aprendizagem sistemática, científica, outros tipos de conhecimentos e informações são cristalizados. Bourdieu e Passeron sustentam a ideia de que a escola reproduz os interesses do Capitalismo. Fundamentam suas análises nas relações entre o sistema de ensino e o sistema social, concluindo que a origem social do educando influencia em sua formação, que existe uma seletividade no sistema escolar, excluindo as classes populares do ensino superior. A ordem econômica vigente – Capitalismo – que regula as relações de produções, trocas e acumulações reflete também na Educação. Dessa forma, Baudelot e Establet afirmam que existe uma escola capitalista, pois estamos vivendo em uma sociedade de classes sociais e a divisão econômica reflete tanto na escola quanto no meio social. Identificaram que os interesses da burguesia são reproduzidos por essa instituição, pois existem duas escolas, uma burguesa e outra operária. Esse olhar crítico de diversos autores sociais se deve ao fato de que os problemas que geram as desigualdades são aqueles ligados ao fato que tais desigualdades impedem os indivíduos de desenvolverem suas aptidões, dentro de um sistema capitalista em que o processo é altamente seletivo. Pois, quanto mais avança as relações capitalistas, mais exigentes ficam as relações que implicam sua sustentabilidade. Vivenciamos uma fase do capitalismo em que ele exige cada vez mais uma elevação geral no nível de escolarização. Porém, não necessariamente, as pessoas adquirem melhores condições para o enfrentamento de um dos principais problemas que atingem os brasileiros hoje: o problema do acesso aos bens e serviços sociais e ao mundo da empregabilidade digna. 52 Sociologia da Educação Assim, voltemos ao olhar de Durkheim sobre o processo social e escolar, e consideremos que esse pensador entusiasmava-se com a possibilidade de fazer da educação um instrumento de ordenamento das relações sociais, estabelecendo regras de conduta dos indivíduos na sociedade. A educação escolar teria, portanto, uma grande tarefa a cumprir: mais do que socializar, ela deveria difundir uma moral integradora e garantidora dos laços de coesão social, em um contexto de intensificação do processo de divisão do trabalho. Atividades 1. Para Durkheim, a educação é: Um processo de socialização das novas gerações; Um esforço de tornar os indivíduos membros da sociedade. Partindo das duas considerações acima, argumente como esse pensador social defendia esses seus fundamentos sobre o processo educacional. 2. Pesquise e se aprofunde mais sobre as questões que envolvem os conceitos da Sociologia da Educação e elabore em argumento que explique: qual é o objeto de análise da Sociologia? E qual é o da Sociologia da Educação? 53 Sociologia da Educação Compreender como se estabelece o processo educacional permeado pelas diversas instituições; Conhecer como os conceitos relativos às diversas estruturações sociais delineiam as concepções de sujeito, processo educativo e social. Ciclo 03 Unidade III – As Instituições Sociais e a Educação Objetivos da Unidade Plano de Estudos III 54 Sociologia da Educação Nesta unidade, convido-o(a) para uma análise envolvendo as instituições sociais e suas relações educacionais; a família; as instituições religiosas; os processos que envolvem o estado como instituição que exerce controle social com características formais; e os meios de comunicação social. Assim, nossa intenção é estabelecer uma análise sobre o processo educacional permeado pelas diversas organizações, para que se possa compreender o fato social “educacional” e os aspectos relacionados à educação como uma instância que adequa o indivíduo ao meio social. O nosso objetivo, portanto, é identificar que alguns pensadores apontam que as instituições influenciam aspectos na sociedade, reproduzindo e impondo sua cultura, de forma que a classe dominante, devido a diversos fatores, acaba por impor suas ideias e intenções, sobressaindo aos interesses gerais da sociedade. Isso ocorre através de domínios que podem ser exercidos pela força explícita, utilizando até a violência (aparelhos repressivos), a força das ideologias, ou mesmo a coerção sobre os grupos sociais. E então, vamos compreender melhor essas propostas? 3.1 As primeiras instituições socializadoras Antes de iniciarmos nossas discussões, lhe convidamos para uma reflexão, topa? Bom, a questão é: Figura 1: Instituição socializadora: Fonte: Design Educacional EaD Unis 55 Sociologia da Educação Em termos históricos, as concepções de educação têm se modificado consideravelmente. Se realizarmos uma breve retrospectiva, constataremos que, no Brasil, o processo que envolveu a história da Educação teve saltos consideráveis, em um curto espaço de tempo. Somos um País consideravelmente novo, temos um histórico cultural em pleno desenvolvimento. E as instituições de ensino - familiar, escolar, nos âmbitos do estado e meios sociais em geral - possuem um histórico restrito de experiências, no que se refere à formação social. Foi só em meados dos anos 50 e 60 do século passado, que a educação foi percebida como um importante instrumento de equalização social. Mas o que isso quer dizer? Estamos considerando que a Educação é encarada como um instrumento capaz de possibilitar a ascensão dos indivíduos na estrutura social. Dessa maneira, ainda que continuasse assumindo a função de consolidar o Status de determinados grupos, como fez por anos, não só no Brasil, passava a ser desejada e compreendida como um bem para toda a sociedade. Assim, os processos educativos passam a ter caráter de ascensão social, principalmente pelas camadas populares da sociedade. Instituições Socialização No que essa junção implica como significação para o processo de transformação do indivíduo? 56 Sociologia da Educação 3.1.1. As instituições religiosas e a educação No processo social, e ao longo de milhares de anos, a religião teve expressividade e desempenhou um papel de suma importância na convivência humana. A sua diversidade e amplidão de conceitos é marcante na universalidade que caracteriza o fenômeno religioso, presente de uma maneira ou outra, influenciando e diversificando os modos de agir dos diversos grupos sociais.As religiões, tradicionalmente, se caracterizam por um sistema de crença ao sobrenatural - Deuses ou divindades –, é um fenômeno que tem origem na prática social e não individual. Portanto, as suas práticas estão diretamente ligadas a um conjunto de símbolos, sentimentos, rituais. É uma prática que sacraliza divindades e localidades espalhadas pelo mundo. São ações sociais que criam e reproduzem explicações que legitimam e fundamentam o começo do mundo e sua existência, por meio de narrativas fundamentadas em vivências de antepassados. 57 Sociologia da Educação Historicamente, a religião, como um fator social, possui algumas características que, de acordo com Chaui (2003), têm as seguintes serventias: Chaui (2003) promove uma discussão demonstrando que o processo religioso em sociedade tem como potencialidade a busca da compreensão e da influência. Portanto, refletir sobre as religiões traz-nos a compreensão que existem forças superiores e maiores, sendo que, nesse caso, são chamadas de Deuses, espíritos etc. Pois o homem, em geral, tem necessidades que não são apenas de ordem biológica ou fisiológica, você concorda com essa afirmativa? Proteger os seres humanos contra o medo da Natureza Dar aos homens um acesso à verdade do mundo, encontrando explicações para a origem, a forma, a vida e a morte de todos os seres e dos próprios humanos Oferecer aos humanos a esperança de vida após a morte Garantir o respeito às normas, às regras e aos valores da moralidade estabelecida pela sociedade, garantindo a obrigatoriedade da obediência a elas, sob pena de sanções sobrenaturais. Oferecer consolo aos aflitos, dando-lhes uma explicação para a dor 58 Sociologia da Educação Alves (1980, p. 24) descreve que: Nossas necessidades básicas são exigidas também pela imaginação e pelas determinações simbólicas que ganham forma em cada cultura. Assim, a cultura não é uma experiência extrínseca, como se fosse um ornamento, pois o mundo humano, o que constitui o homem, inicia-se justamente quando a dimensão simbólica passa a fazer parte da sua vida, e os processos religiosos possuem essa característica. Nesse contexto, o processo cultural histórico, por meio das simbologias, foi agregando valores e sentidos à nossa cultura religiosa, sendo uma composição do processo simbólico e das experiências religiosas vivenciadas. A religião é uma busca de re-ligação (vem daí a origem do termo religião) e também uma busca ao sentido das coisas que estavam separadas ou perdidas, as quais acreditamos que devessem estar unidas. A religião nasce com o poder que os homens têm de dar nomes às coisas, fazendo uma discriminação entre coisas de importância secundária e coisas nas quais seu destino, sua vida e sua morte dependuram [...]. Com seus símbolos os homens descriminam objetos, tempos e espaços, construindo, com seu auxílio, uma abóbada sagrada com que recobrem o seu mundo. Por quê? Talvez porque, sem ela, o mundo seja por demais frio e escuro. Com seus símbolos sagrados, o homem exorciza o medo e constrói diques contra o caos. 59 Sociologia da Educação Nesta perspectiva, os mediadores do conhecimento (professores, gestores e demais agentes educacionais) necessitam compreender que: Agora, sociologicamente falando, é importante que você reconheça que o tema que envolve o estudo sobre as religiões são fundamentados por alguns pensadores; assim, ao estabelecer estudos sobre os aspectos religiosos, Karl Marx, Émile Durkheim e Max Weber se interessaram pela elaboração de teorias que visam compreender aspectos da vida religiosa e sua influência na sociedade (obs.: os textos a seguir são adaptações1). • 1 (Karl Marx) http://www.napec.org/reflexoes-teologicas/a-religiao-e-o-opio-do-povo-uma- analise-sociologica/ • . (Durkheim e Weber) http://slideplayer.com.br/slide/1251895/ - É fundamental que os educadores compreendam, envolvam-se e, basicamente, respeitem a pluralidade religiosa, bem como estabeleçam a busca pelo envolvimento com a comunidade para o conhecimento dos ritos desenvolvidos nas igrejas católicas e protestantes, orientais tradicionais e recentes, centros espíritas, terreiros de candomblé, de umbanda e assemelhados, circuitos esotéricos. A promoção dos saberes tratados na crença popular e suas expressões contribuem para a formação cultural de um povo. Tais ações, dentro do aspecto sociológico, possuem a intencionalidade de ligação das crenças, promove a tolerância cultural. Contemplar os modos como as rezadeiras, benzedeiras e peregrinos promovem suas ações é oportunizar a interface dos fenômenos religiosos com os recortes de gênero, faixas etárias, classes sociais, da participação política de seus agentes, etc. 60 Sociologia da Educação Os processos religiosos, como sendo a participação na ordem sagrada, em que oferta ao participante dos rituais ou cerimônia um prestígio social especial, ilustrando uma das funções sociais da religião. A religião pode ser definida como um sistema unificado de crenças e de práticas relativas às coisas sagradas. Estas unificam o povo numa comunidade moral (igreja), um compartilhar coletivo de crenças, que por sua vez, é essencial ao desenvolvimento da religião. Dessa forma, o ritual pode ser considerado um mecanismo para reforçar a integração social. A função substancial da religião é a criação, o reforço e manutenção da solidariedade social e da consciência coletiva. É a sociedade que gera todas as coisas sagradas. Portanto, para Durkheim, religião e sociedade são uma coisa só. Visão de Émile Durkheim Em seus estudos com maior amplitude teórica e empírica, analisou e comparou diversas religiões que existiram e que ainda existem no mundo, avaliando o papel que as crenças religiosas exercem na conduta dos indivíduos em sociedade. Estava preocupado em destacar como as religiões oferecem respostas aos problemas básicos da condição humana: contingência, impotência e escassez. Tais respostas se tornam parte da cultura estabelecida e das estruturas institucionais de uma sociedade, que influem de maneira mais íntima nas atitudes práticas dos homens com relação às várias atividades da vida diária, ou seja, no modo como os indivíduos e os grupos orientam suas ações, ou definem suas condutas e se comportam uns em relação aos outros (religião como fator causal na determinação da ação). Procurou pensar a religião como uma das fontes causadoras de mudanças sociais. Buscou provar que as concepções religiosas são, efetivamente, um determinante da conduta econômica e, em consequência, uma das causas das transformações econômicas das sociedades. Visão de Max Weber 61 Sociologia da Educação Concebia a religião como “instrumento de domínio” - a frase pela qual ficou conhecido – “a religião é o ópio do povo” - continua sendo explorada por pesquisadores e líderes religiosos de diversos seguimentos. Deve-se considerar o fato de que Marx era alemão e provinha de uma família judaica e, com o passar dos anos, optou pelo ateísmo; sua opção pelo ateísmo não se deu em decorrência de alguma insatisfação religiosa, mas a partir de uma constatação sociológica, de uma análise dos impactos da religião na vida de um adepto, de um fiel. Karl Marx, ao analisar a situação dos operários ingleses e a doutrinação religiosa por eles sofrida, passa associar a religião ao ópio – uma substância alucinógena de origem asiática e consumida nos subúrbios de Londres, inclusive por operários que buscavamalternativas à rotina desgastante das fábricas. Para Marx, a religião tira do homem a capacidade de compreensão, de análise da materialidade, do chão da fábrica, da periferia. Sua análise, na verdade, aparece como uma continuação aos estudos de Ludwig Feuerbach (1804-1872), contemporâneo, conhecido por sua teologia humanista. Feuerbach entendia que a alienação religiosa faz parte de uma engrenagem ou teoria teológica que busca o sentido da razão e da existência do homem no mundo, em uma tentativa de compreensão da realidade a partir da espiritualidade, do sagrado. Tanto Marx quanto Ludwig Feuerbach saem em defesa do antropocentrismo, da racionalidade. Visão de Karl Marx 62 Sociologia da Educação 3.1.2 As instituições religiosas e a educação Brasileira Para adentrarmos nas discussões que envolvem a formação religiosa no Brasil, primeiramente devemos deixar claro que vamos apresentar um pouco da história da Educação Brasileira e os grandes feitos de personalidades que marcaram profundamente o nosso modo de conceber os processos sociais em nosso país. Para entender um pouco mais sobre o que cada um dos pensadores clássicos da Sociologia pensa sobre o assunto, acesse: TEXTOS COMPLEMENTARES: A função social da Religião em Durkheim - https://bertonesousa.wordpress.com/2013/12/14/a- funcao-social-da-religiao-em-durkheim/; A ordem social nos clássicos da sociologia - http://www.unicampsciencia.com.br/pdf/50bff395021 51.pdf ; VÍDEOS: Clássicos sociológicos – (documentário) https://www.youtube.com/watch?v=4_Rqjt5QYsk https://bertonesousa.wordpress.com/2013/12/14/a-funcao-social-da-religiao-em-durkheim/ https://bertonesousa.wordpress.com/2013/12/14/a-funcao-social-da-religiao-em-durkheim/ http://www.unicampsciencia.com.br/pdf/50bff39502151.pdf http://www.unicampsciencia.com.br/pdf/50bff39502151.pdf https://www.youtube.com/watch?v=4_Rqjt5QYsk 63 Sociologia da Educação Assim, para analisar a Educação brasileira, é importante relembrar a Reforma Religiosa e o surgimento da Contrarreforma, que foram movimentos da Igreja Católica para restabelecer a disciplina eclesiástica, regenerar a vida espiritual e deter o avanço das ideias protestantes, “reforçados” com a criação da Companhia de Jesus, que tinha entre seus objetivos os de fortalecer o Catolicismo, propagar a fé cristã e combater os hereges. Dessa forma, a Educação tornou-se aliada aos interesses dos jesuítas, que atuavam na catequese e na formação de mão de obra para as suas missões. Foi nesse contexto que os jesuítas chegaram ao Brasil, em 1549, no Governo Geral de Tomé de Souza. Os primeiros jesuítas, liderados por Manuel da Nóbrega, fundam, em Salvador, a primeira escola e espalham escolas, missões e seminários. Para iniciar a missão na Colônia, elaboram um plano educacional no qual apareciam as necessidades da Colônia, como a instrução dos indígenas e dos filhos de colonos, visando também a recrutar vocações sacerdotais. Junto a Manoel da Nóbrega, vieram: Aspilcueta Navarro, Leonardo Nunes e os irmãos Vicente Rijo ou Rodrigues e Diogo Jácome. Vicente Rodrigues é considerado o primeiro professor do Brasil, pois, em 1549, funda, em Salvador, a primeira escola de ler e escrever, antecedendo à escola de São Vicente, no litoral paulista. Em 1553, chega à colônia o noviço José de Anchieta, para se juntar aos jesuítas que já haviam se estabelecido no litoral brasileiro. Foi poeta e humanista, falava a língua dos índios, o que facilitou o contato com os nativos. A ele se deve a primeira gramática da língua tupi-guarani: “Arte de Gramática mais usada na costa do Brasil”, um “Dicionário ou Vocabulário da Língua Tupi” e o poema à Virgem Maria “De Beata Virgine Dei Mater Maria”. 64 Sociologia da Educação A fundação, em 1554, do Colégio São Paulo constitui um marco inicial da missão evangelizadora e educadora no Brasil, tornando-se o núcleo de colonização portuguesa mais avançado em direção ao interior do país. A proposta dos jesuítas de uma Educação voltada para as necessidades da Colônia e para o ensino das Letras, Filosofia, Ciências, Artes e Teologia foi, aos poucos, se modificando com a introdução do plano de estudo elaborado em Portugal, o Ratio Studiorum. O Ratio Atque Institutio Studiorum, organizado em 1599 pela Companhia de Jesus, valorizava a instrução do colono português em detrimento ao índio, favorecendo a elite colonial. As regras pedagógicas são claras, salientavam o trabalho hierarquizado, rigoroso. Sintetizando, essas regras determinavam: Aliança sólida com o estudo: apliquem-se aos estudos com seriedade e constância. Novidades de opiniões. Ainda em assuntos que não apresentem perigo algum para a fé e a piedade, ninguém introduza questões novas em matéria de certa importância. Repetições em casa. Todos os dias, exceto aos sábados, dias feriados e festivos. Ordem nos pátios. Preleção. Na preleção, só expliquem os autores antigos, de modo algum os modernos. (Cf.:ARANHA, 1996, p.96, 97). 65 Sociologia da Educação As propostas de ensino vindas do Ratio Studiorum, que deveriam ser seguidas por todos os jesuítas em suas reduções, agrupavam-se em duas partes: - Studia Inferiora - letras humanas, composto de Gramática, Humanidades e Retórica; Filosofia e Ciências (Cosmologia e Física); - Studia Superiora – composto de Teologia e Ciências Sagradas, as quais visam à formação para a vocação religiosa. A formação profissional, principalmente o trabalho manual, era destinada a negros, mestiços e índios. Para a elite, a formação era intelectual em escolas que funcionam com ajuda financeira da metrópole, com característica de intensa disciplina e organização, o que refletia o ideal da Companhia de Jesus. É importante ressaltar que a Educação, implantada na Colônia pelos jesuítas, contribuiu para a formação de uma elite de intelectuais. Essa elite influenciou movimentos importantes na Colônia, como a Inconfidência Mineira, movimento que pregou a independência do Brasil, com a proposta de um governo republicano. Com a intenção de preservar nosso território, o governo português estabelece que os governadores-gerais administrariam a nova terra e, junto a este processo de ocupação política e interesses econômicos, chegam os jesuítas e também os escravos. Era o ano de 1549. Era importante “salvar” as novas almas do continente sul-americano preservando-as das influências das religiões que resultaram da divisão da Igreja Católica (Batistas, Calvinistas, Presbiterianos, Anglicanos...). Assim, no Brasil, desde que foi institucionalizado o começo das estruturas educativas, a Igreja Católica se destacou, teve o monopólio sobre a formação educacional. A Igreja Percebe como algumas dessas ideias ainda estão presentes em nosso dia a dia? Faça uma reflexão sobre as considerações históricas e sociológicas desenvolvidas no Brasil, pense em como toda a estrutura educacional atual possui estruturas no processo histórico. 66 Sociologia da Educação Católica passa a influenciar na educação brasileira a partir da chegada dos primeiros jesuítas, quando foi instituído no Brasil o Governo-Geral. Gandin (1995) faz uma síntese da relação entre Igreja Católica e educação brasileira, o que nos dá a dimensão do que foi essa instituição para a perpetuação da educação nacional: Para compreender melhor o que foram as reformas da época, sugerimos que assista ao filme “A Missão”. [...] A Companhia de Jesus começa sua “missão” no Brasil voltada à catequese dos indígenas que aqui viviam, mas esta atividade logo cede espaço a outras. Estabelecem-se as escolas deler e escrever, voltadas à alfabetização e ao ensino das “boas maneiras” e os seminários onde os futuros padres recebiam lições de moral, filosofia e línguas clássicas. Essa era uma educação que se aplicava exclusivamente às famílias mais influentes: era uma educação da elite colonial. As principais características dessa educação eram a valorização da autoridade, da disciplina e da submissão. A Missão. Registra os conflitos culturais, políticos e econômicos da época. Obs.: Dirigido por Roland Joffé e escrito por Robert Bolt, o filme "A Missão" é uma obra inglesa de 1986, baseada em fatos reais, e trata da época da expulsão dos jesuítas do reino português devido à crise nas relações entre Coroa portuguesa e a Companhia de Jesus. Sugerimos que se mantenha sempre atento aos conceitos que são desenvolvidos nas indicações dos filmes, eles trazem boas referências reflexivas. 67 Sociologia da Educação A organização educacional dos jesuítas se manteve até o governo de D. José I (1750 -1777), quando o 1º Ministro Marques de Pombal - Sebastião José de Carvalho e Melo - toma medidas políticas e econômicas que refletem na Colônia brasileira. Entre elas, a mudança da capital de Salvador para o Rio de Janeiro no ano de 1763, para facilitar o escoamento e o controle dos minérios e a expulsão dos jesuítas das terras portuguesas. Quanto à Educação, determina a secularização do ensino, segundo a qual a prática educativa deixa de ser ministrada pela Igreja e passa a ser responsabilidade do Estado ou de instituições privadas. Criam-se as Aulas Régias de Latim, Grego e Retórica. Essas aulas foram impostas pelo novo Plano de Educação e eram ministradas em escolas públicas, sustentadas pelo imposto cobrado da venda de vinho e aguardente. Os jesuítas são acusados pelo governo português de tentarem constituir um império temporal cristão nas regiões das missões e tramarem contra a vida do rei. Marquês de Pombal determinou o confisco das propriedades jesuíticas, seus bens, colégios e missões. No século XVIII, ocorreram transformações políticas, econômicas e sociais. A Europa se modifica com as revoluções lideradas pela burguesia. Primeiro, na Inglaterra, com a Revolução Gloriosa em 1688, pondo fim ao absolutismo e abrindo o caminho para a industrialização e a supremacia inglesa, que perdurou até a 2ª Guerra Mundial. Depois, a Revolução Francesa, em 1789, quando os revolucionários tiram do poder o rei, a nobreza e a Igreja Católica; pregam ideais influenciados pelo Iluminismo, movimento que: Nessa época, os estudantes brasileiros do ensino superior foram transferidos para a Universidade de Coimbra – Portugal. Na América Espanhola, já existiam universidades desde o século XVI. A Espanha cria na América várias Universidades: a de São Domingos em 1538, as de São Marcos, em Lima, e da Cidade do México em 1551. 68 Sociologia da Educação É nesse momento de transformações que as propostas para mudanças na Educação se fortalecem. Os filósofos Iluministas divulgavam que a Educação deve ser obrigatória, laica, estatal e gratuita. Jean Jacques Rousseau (1712 – 1778), pensador francês, coloca a questão da infância na educação, com a visão de que a criança não é um adulto em miniatura. Sua obra “Emilio” torna-se referência para a Pedagogia. 3.1.2 A instituição Estado e a Educação (processo histórico social) A partir da década de 50, o “american way of life”, o jeito americano de viver, com tecnologia, modernidade e prosperidade, passou a ser modelo para as sociedades capitalistas. E também seu modelo de intervenção do Estado nas questões econômicas e sociais, que recebe o nome de política do bem estar social, pois as questões como educação, saúde, aposentadoria e moradia serão melhores atendidas pelo Estado. Essa política recebe o nome de Estado do Bem Estar Social – Welfare State -, foi um período de conquistas das garantias dos direitos sociais dos trabalhadores. O Capitalismo consolidado, aumento dos empregos e dos salários. O Estado atendendo as questões sociais como saúde, moradia, previdência e educação. Só que alguns países aproveitaram essa fase e investiram no crescimento econômico e no desenvolvimento humano, tecnológico e social. Outros não se preocuparam com as questões estruturais e, consequentemente, as crises futuras do Capitalismo atingiriam com mais intensidade essas sociedades. Procurava libertar o pensamento da repressão dos monarcas terrenos e do despotismo sobrenatural do clero. 69 Sociologia da Educação E foi exatamente isso que ocorreu. Em 1973, acontece a crise do petróleo. Atinge a economia dos países industrializados, dependentes dessa fonte de energia, e o modelo de políticas públicas, provocando, além da crise econômica, uma crise social, com desemprego, falências, miséria, inflação e queda na arrecadação de impostos. Todo o “amparo” que o Estado dispensava a esses segmentos sociais foi reformulado, os benefícios revistos, amenizados ou extintos. Surge uma nova proposta de política econômica, que afirmava que o Estado não deve e não pode “abraçar” a sociedade, fato que, segundo os conservadores, provocava um desequilíbrio nas contas do Estado. Este deveria se ausentar ou minimizar sua presença nas questões sociais, cortando benefícios, privatizando as empresas públicas. É a política do Neoliberalismo que foi colocada em prática. Inicialmente, no Chile, em 1973, no governo de Augusto Pinochet; na Inglaterra por Margareth Thatcher em 1979; nos Estados Unidos por Ronald Reagan em 1980. Na sequência, outros países seguiram esses exemplos e adotaram o modelo liberal. Com essa política, o mercado deve estar acima do Estado. As questões sociais, como a educação, saúde, estradas, transportes, moradias, saneamentos, serão organizados e conduzidos segundo os interesses do mercado. Segundo Anderson (1995) fenômeno distinto do simples liberalismo clássico (...), nasceu logo depois da II Guerra Mundial, na região da Europa e da América do Norte, onde imperava o capitalismo. Foi uma reação teórica e política veemente contra o Estado intervencionista e de bem estar (Seu texto de origem é (FAUSTO, 2000, p. 352). Neoliberalismo 70 Sociologia da Educação Muitos analisaram, questionaram, alertaram, criticaram, elaboraram e efetivaram propostas, com diferenciados métodos, na tentativa de um projeto social em que a Educação promoveria o desenvolvimento de todas as capacidades, principalmente a conscientização do homem como sujeito do processo histórico que envolveu o desenvolvimento político republicano. Figura 2: Uma questão sociológica/educacional Fonte: Design Educacional EaD Unis Outra questão pode ser considerada perante toda essa discussão, não acham? A questão é: e a educação, como se estabeleceu neste dado tempo histórico social? Você deve ter observado que a análise que se faz do Capitalismo sempre converge para as questões sociais, entre elas a Educação. Assim, destacamos que sociólogos, educadores e filósofos não ficaram imunes ao processo e às consequências das novas medidas econômicas, políticas e sociais. 71 Sociologia da Educação Uma série de Reformas Educacionais foi proposta no período Republicano, como a de Rivadávia Correia, em 1911; a de Carlos Maximiliano, em 1915; a de Rocha Vaz, em 1925. A reforma de Vaz, que foi a mais significativa, estabelecendo-se programas oficiais para o ensino, currículos seriados para o ensino secundário e cria o Conselho Nacional de Ensino. Os cursos superiores se destacaram, tanto que havia faculdades de Medicina, Farmácia, Odontologia e Cursos de Direito em várias cidades, mas pouco se fazia para a educação popular. Como afirmaBASBAUM (1986, p.198) sobre a importância dada aos cursos superiores: “éramos um país de doutores e analfabetos”. Na mesma mão do processo de reformulação educacional, tínhamos os avanços políticos, assim, nesse tempo histórico, Washington Luís indica, como candidato oficial para concorrer à Presidência da Republica, o paulista Júlio Prestes, afastando a possibilidade de o governador de Minas Gerais Antônio Carlos de Andrada concorrer ao cargo. Quebrava, assim, a política do Café com Leite, quando São Paulo, produtor de café, e Minas Gerais, produtor de leite, também se revezavam no comando político. Com o impasse, o Estado de Minas se alia aos Estados do Rio Grande do Sul e da Paraíba e, juntos, lançam para a Presidência Getúlio Vargas. Estava formada a Aliança Liberal. O programa da Aliança sintonizava as aspirações das oligarquias regionais independentes do setor cafeeiro que dominavam a política, como as aspirações dos trabalhadores pela regulamentação das Leis Trabalhistas, a anistia que beneficiaria tenentes condenados pelas revoltas políticas e pelo programa instituindo o voto secreto e o voto feminino. Em outubro de 1929, os países capitalistas foram surpreendidos pela crise econômica americana – a quebra da Bolsa de Valores de Nova York - influenciando política e economicamente vários países, inclusive o Brasil. Em meio à crise econômica e política, Vargas afasta o presidente Washington Luís e inicia seu governo. Com promessas de mudanças, esperava-se também maior preocupação com a questão educacional. Era necessário preparar o Brasil para a nova realidade econômica que se estabelece: a industrialização. 72 Sociologia da Educação Com as propostas, a questão educacional ganhou destaque. O governo Vargas cria escolas que atendem à formação de mão de obra de que o país necessitava. De maneira rápida, o país reconhece a característica política do Governo Vargas. A ação centralizadora se reflete no fechamento do Congresso Nacional e na intervenção aos Estados, determina as regras da Economia e dos sindicatos e coloca em prática a política trabalhista. Em 1934, promulga uma nova Constituição, com características nacionalistas e protecionistas. Cria-se o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio e leis de proteção ao trabalhador (regulamentação do trabalho de mulheres e menores, concessão de férias e jornada de trabalho de 8 horas). Veja: Previa a nacionalização progressiva das minas, jazidas minerais e quedas- d’água, julgadas básicas ou essenciais à defesa econômica ou militar do país... No título referente à Família, Educação e Cultura, a Constituição estabelecia o Ensino Primário gratuito e de frequência obrigatória. O ensino religioso seria de frequência facultativa nas escolas públicas, sendo aberto a todas as confissões e não apenas à católica (FIGUEIREDO, 1996, p. 352). As mulheres passam a ter destaque especial na sociedade, participando do mercado de trabalho, da educação e da vida política. Institui-se o voto feminino. Na Constituição, fica proibido fazer diferenças salariais por discriminação de sexo. Em 1930, cria-se o Ministério da Educação e Saúde, instrumento de propaganda do governo e de controle ideológico. As comemorações cívicas com a figura de Vargas são constantes nas instituições escolares (desfiles, festas); as capas dos livros e dos cadernos trazem seu retrato sempre com uma imagem paternalista. A inclusão da obrigatoriedade e gratuidade do Ensino Primário não modifica a estrutura cultural do país, pois esse aspecto, apesar de constar em lei, não se concretiza. 73 Sociologia da Educação A reforma educacional ficou sob responsabilidade do mineiro Francisco Campos, que implanta mudanças de caráter renovador para a educação nacional. Organiza a Universidade do Rio de Janeiro, o Conselho Nacional de Educação, os ensinos secundários, comerciais e a formação do magistério secundário. Percebendo as manobras políticas na Educação, um grupo de reformadores sobressai, como Anísio Teixeira, Fernando Azevedo e Lourenço Filho, e lança o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nacional (1932), documento que expressa o ideal educacional para a época, salientando a relação entre educação e desenvolvimento – democratizar e transformar a sociedade por meio da Escola. Apregoa a necessidade de reestruturar a Educação; considera que esta deve ser vista como um problema social. O documento, elaborado pelos pioneiros da Escola Nova, é de vital importância porque defendia a Educação obrigatória, pública, de qualidade, gratuita e leiga, universal. As propostas dos adeptos da Escola Nova não se efetivaram. Mas suas ideias permaneceram e foram bandeira de movimentos futuros. O período de debates e democracia acabou quando os interesses políticos se tornaram mais fortes e as eleições, que estavam previstas para o ano de 1938, não acontecem, devido às manobras das frentes que apoiavam o governo. Em 10 de novembro de 1937, tem início o Estado Novo: - A Ditadura de Vargas. 3.1.2.1 Educar para produzir (um pouco mais do histórico político social) A centralização política foi característica marcante no Governo Vargas e as mudanças efetuadas deixavam claro que as ideologias populistas e nacionalistas estavam presentes em todos os segmentos. Assim, as reformas educacionais pelas mãos do Ministro Gustavo Capanema salientam mudanças, as quais demonstraram o sentido patriótico do ensino. Os decretos leis que vieram para regulamentar a educação receberam o nome de Leis Orgânicas do Ensino. Nesse período, o ensino industrial prevaleceu com a criação do SENAI - Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial e a lei do Ensino Comercial. Pode-se observar tais fatos em um dos artigos destas Leis: 74 Sociologia da Educação Figura 3: Educação 1940 Fonte: http://www.agencia.ac.gov.br/acre-vence-desafios-na-educacao-e-desponta-no- cenario-nacional/ Nessa época, foi regulamentada a lei do Ensino Primário, Ensino Normal e a criação do SENAC - Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial. O ensino de segundo grau criou dois ciclos: - o primeiro ciclo era o Curso Ginasial com a duração de 4 anos, - o segundo ciclo, subdividido em Clássico e Científico. Formar, em prosseguimento da obra educativa do ensino primário, a personalidade integral dos adolescentes. Acentuar e elevar, na formação espiritual dos adolescentes, a consciência patriótica e a consciência humanística. Dar preparação intelectual geral que possa servir de base a estudos mais elevados de formação especial. O artigo 1º das Finalidades da educação secundária http://www.agencia.ac.gov.br/acre-vence-desafios-na-educacao-e-desponta-no-cenario-nacional/ http://www.agencia.ac.gov.br/acre-vence-desafios-na-educacao-e-desponta-no-cenario-nacional/ 75 Sociologia da Educação Dentre as propostas educacionais, está a inclusão do ensino de História do Brasil e Geografia do Brasil, em separado de História Geral e Geografia Geral. As críticas ao ensino profissionalizante do período Vargas recaem sobre a forma como deixa evidente a separação entre a educação da elite e a educação para os pobres. O lema é: Educar para produzir. As escolas profissionalizantes têm objetivos de formar mão de obra que atenda aos interesses das empresas, do comércio e das indústrias, destinadas à classe popular, enquanto a formação do segundo grau é voltada para preparar os jovens para ingressar nos cursos superiores, a que poucos tinham acesso. No cenário mundial, o momento é de guerra: Aliados (Estados Unidos, França, Inglaterra e Rússia) e Eixo (Alemanha, Itália e Japão) disputam a supremacia mundial. É a Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945). Enquanto isso, no Brasil, convive-se com a centralização política. Vargas dizia ”O Estado é océrebro da nação”. Com a vitória dos Aliados, o Estado autoritário perde forças. Vargas é afastado do poder. Eurico Gaspar Dutra vence as eleições e assume o governo em 1946. Uma nova Constituição é aprovada, refletindo a fase política de democratização. O povo espera por mudanças. O momento é propício para implantar projetos de educação democrática. Os adeptos da Escola Nova se organizam para implantar as reformas tão esperadas. Novo ministério é formado e Clemente Mariani apresenta o projeto da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, um conjunto de leis que tem como objetivo reorganizar a Educação brasileira. Mas os debates, que seriam saudáveis para a democracia, sinalizam para a estagnação da Educação. As frentes políticas não entravam em acordo, principalmente no que se referia ao ensino público e privado. Alguns educadores lutam para preservar os princípios de Educação liberal, obrigatória, gratuita e democrática, fato que desagrada ao grupo conservador. Sem definição quanto ao caminho da Educação e a quais interesses deveria atender, a política educacional do governo de Vargas continuou vigorando. 76 Sociologia da Educação Com as eleições de 1950, Getúlio volta ao poder, acentuando as políticas populistas e nacionalistas contrárias aos interesses nacionais e internacionais. Nessa fase, direciona seu governo para as obras de desenvolvimento do país, como as áreas da siderurgia, petroquímica, energia. Estabelece o monopólio estatal do petróleo; cria a Petrobrás (1953). Não consegue controlar a crise econômica e os preços dos produtos básicos sobem de forma descontrolada, o que provoca onda de protestos e greves. No dia 1º de maio, o governo toma uma medida radical para conter os protestos dos trabalhadores: aumenta o salário mínimo em 100%. A inflação dispara, os protestos continuam, o aumento do salário desagrada aos empresários, e as medidas nacionalistas assustam as multinacionais. A crise se agrava com o atentado na rua Toneleros, onde Carlos Lacerda, jornalista e político que combatia o governo Vargas em seu jornal “A Tribuna”, foi ferido e o major Vaz assassinado. Esse episódio agrava a situação política e social. A falta de apoio de antigos correligionários e a crise que se instalara pressionam Vargas a abandonar o governo, como já havia ocorrido no ano de 1945. Não resistindo ao impasse, o presidente se mata em 24 de agosto de 1954. O país tenta superar a crise com as eleições em 1954. Eleito o mineiro JK. Assim, como o povo espera por mudanças, a Educação também espera pela aprovação da LDBN que continuava em discussão, desde a Constituição de 1946. Lembra-se? Jornal do Século XX – O presidente Getúlio Vargas suicidou-se às 8h35 de hoje, com um tiro no coração, em seus aposentos do terceiro andar do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. Três horas antes, ele entregara ao Ministério uma carta licenciando-se do cargo, sob intensa pressão das Forças Armadas. - Jayme Brener - (1998, p. 195). A morte do presidente provoca comoção geral, até mesmo os grupos que o pressionavam não previam o desfecho trágico. 77 Sociologia da Educação Tem início a fase desenvolvimentista baseada na internacionalização da economia. O lema de JK era “Cinquenta anos de progresso em cinco anos de governo”. Para isso, prepara um projeto que tinha 30 metas, reunidas no Plano de Metas. O Plano de Metas é colocado em ação – energia, transportes, alimentação, indústrias de base e educação. Em seu governo cria a SUDENE, com objetivos de desenvolver o Nordeste, constrói a nova capital, Brasília, corta o país com rodovias, constrói Furnas e Três Marias. Instala fábricas de eletrodomésticos e multinacionais, como a Scania, General Motors, Volkswagem, Ford e outras. Mas nem tudo foi maravilha. Seu governo enfrentou resistências, tentativa de golpes, escalada inflacionária, rompimento com o FMI, oposição da UDN, greves, denuncias de corrupções. Enquanto isso, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação continuava em votação. As eleições presidenciais de 1960 elegem Jânio Quadros. Durante os sete meses de governo, Jânio é considerado polêmico, prega contra o comunismo, mas condecora Che Guevara com A Ordem do Cruzeiro do Sul; proíbe desfiles de mísseis e biquínis nas praias; pratica uma política independente dos Estados Unidos, contrariando sua base de apoio. Tenta fazer um governo distante do Congresso, mas renuncia em agosto de 1961. Espera o apoio popular, das massas, mas ficou sozinho. Em meio a essa grave crise institucional, João Goulart que estava em viagem oficial à China, volta, mas é impedido pelas Forças Armadas de assumir o governo, e tem o apoio do governador Leonel Brizola que inicia a Campanha da Legalidade, forçando o cumprimento da Constituição Federal. Para resolver o impasse, o Congresso aprova o sistema Parlamentarista. O presidente acata a medida e o golpe é adiado. O mineiro Tancredo Neves é escolhido Presidente do Conselho de Ministros. Foi neste período que a LDBN é aprovada em 20 de dezembro de 1961 - Lei nº4.024/61. O governo de João Goulart é apoiado pelo Partido Comunista, pelas Ligas Camponesas, pela baixa oficialidade, por intelectuais, estudantes, grupos radicais do 78 Sociologia da Educação PTB que exigem tomada de posições do Presidente contra a exploração capitalista. Goulart toma medidas que ameaçam os interesses das multinacionais, da alta oficialidade, dos latifundiários e empresários, com o projeto que limitava a remessa de lucros para o exterior, a nacionalização de empresas, o apoio aos movimentos dos militares de baixa patentes, o aumento do Salário Mínimo e as Reformas de Base: Reformas Bancária, Tributária, Urbana, Rural e Educacional. Nesse período, fortaleceu a Pedagogia Libertadora ou Problematizadora de Paulo Freire, associada à Educação de Adultos, enfatizando o homem como “sujeito histórico” do processo ensino-aprendizagem. Sua proposta combate a educação convencional, que é adotada no país, e que atende aos interesses políticos e econômicos, mantendo privilégios, pois não permitia um trabalho de conscientização e transformação da sociedade brasileira. A educação bancária, como era definida por Freire, está embasada em dez princípios: 1- O professor ensina, os alunos são ensinados. 2- O professor sabe tudo, os estudantes não sabem nada. 3- O professor pensa, e pensa pelos estudantes. 4- O professor fala e os estudantes escutam. 5- O professor estabelece a disciplina e os alunos são disciplinados. 6- O professor escolhe, impõe sua opção, os alunos submetem. 7- O professor trabalha e os alunos têm a ilusão de trabalhar graças à ação do professor. 8- O professor escolhe o conteúdo do programa e os alunos – que não são consultados - se adaptam. 9- O professor confunde a autoridade do conhecimento com sua própria autoridade profissional, que ele opõe à liberdade do aluno. 10- O professor é sujeito do processo de formação, os alunos são simples objetos (JUNIOR , 1990, p.122). 79 Sociologia da Educação Propõe um processo pedagógico voltado para a pesquisa, para temas geradores, para o diálogo, para a conscientização e para ação social, envolvendo todas as classes sociais, mas principalmente as camadas mais pobres e populares. A crise política acentua-se. A instabilidade e o imobilismo do Congresso permite às classes, que não coadunam com o governo de “Jango”, também se articularem, reforçando as pretensões das Forças Armadas. Em 13 de março de 1964, João Goulart faz inflamado discurso na Central do Brasil, RJ, pregando a necessidade de reformar o capitalismo brasileiro. A crise dentro da hierarquia do Exército precipita a mobilização militar. Em 31 de março de 1964, as Forças Armadas se unempara assumirem o governo do país. É declarado vago o cargo de Presidente da República. Desde a revolução de 1930, o país passou por períodos distintos, com governos populistas mesclados por períodos de democracia, autoritarismo e nacionalismo. Ocorrem várias mudanças no contexto social, como o êxodo rural e a vida urbana, tomando contornos diferenciados. As mudanças no mercado de trabalho são acrescidas pela presença da mulher; cresce o consumo e ficam evidentes as diferenças de classes sociais. Os meios de comunicações têm papel de destaque na área cultural: rádios, jornais, revistas, almanaques e a TV que chegou ao país na década de 50. Os “Anos Dourados” das décadas passadas, que destacaram obras de Gilberto Freire, mostrando as contribuições da raça negra e indígena para a cultura brasileira na obra “Casa-Grande e Senzala”. Destacam-se música erudita de Heitor Villa- Lobos e a popularidade da Bossa Nova, as poesias de Carlos Drummond de Andrade e os romances de Guimarães Rosa e Graciliano Ramos. “Nenhuma ordem opressora suportaria que os oprimidos perguntassem: Por quê?” Paulo Freire 80 Sociologia da Educação No teatro, Nelson Rodrigues, e no cinema, Glauber Rocha transpõe para a tela temas sociais; o filme “O Pagador de Promessas” de Anselmo Duarte faz história, é premiado com a Palma de Ouro do Festival de Cannes. Nesse panorama, tem início a nova fase política brasileira, era o ano de 1964. As medidas dos governos militares refletem na economia, na cultura, na ideologia e, principalmente, na Educação, pois esse segmento devia “preparar e assegurar” condições de governabilidade ao Estado e desenvolvimento para as classes que apoiam as mudanças propostas pelos governos militares. O governo com o ideal salvacionista do Exército resolveria, em curto espaço de tempo, os problemas que afligiam a burguesia e os grupos que tinham os seus interesses ameaçados. Em eleição indireta, o Alto Comando Militar escolhe para Presidente o Marechal Castello Branco. O governo inicia as mudanças econômicas, tendo como eixo a concentração de renda promovida pela redução salarial, pela tributação, pela expansão do crédito ao consumido, com incentivos ao financiamento e abertura da economia brasileira com atrativos aos investimentos estrangeiros. Quanto ao aspecto político, a centralização é característica do governo, com o fortalecimento do Executivo, exercido por militares ou aliados, controlando a estrutura partidária, extinguindo o pluripartidarismo e aplicando o bipartidarismo - a ARENA aliada ao governo e o MDB fazendo a oposição. O governo censura os meios de Comunicação; a lei de Imprensa e a lei de Segurança Nacional ficam ainda mais rigorosas com o decreto do AI nº - 5; havia repressão política, intervenções em sindicatos, em organizações e escolas. 3.1.3 Os meios de educação social e a educação É essencial que você entenda que, em geral, estamos envolvidos em uma realidade social, isso pode parecer óbvio para você, mas é importante que possamos trazer para as nossas discussões reflexivas em relação à proposta formativa. Pois, ao se considerar que estamos imersos em uma realidade social, considera-se que o tempo todo nos relacionamos com essa realidade, nos adequando aos meios em que estamos inseridos, e correndo o risco de nos sentirmos desadequados ao 81 Sociologia da Educação nosso meio social, o que pode gerar, como consequência, o que muito já se conhece: os diversos problemas psíquicos. De acordo com Nery (2013): A imagem a seguir reflete uma ideia de ascensão reflexiva, observe! Perceba! Percepções Fonte: Design Educacional Unis EaD Mas que ascensão é essa? Na concepção de educação como fator de equalização social, a educação escolar aparece como redentora de todos os problemas da sociedade, seja de natureza social, política ou econômica. Como um dos expoentes dessa concepção Com efeito, o fato de nos sentirmos não enquadrados em nosso meio social gera sofrimento de ordem psíquica, o que faz com que nossa personalidade possa, em certos momentos, desintegrar-se e encontrar-se em um ego esburacado, como nos diz fundamentalmente a psicanálise. Portanto, a educação, em sua concepção mais ampla, de certa forma, nos protege contra a desfragmentação do ego. Caso tenha interesse em se aprofundar um pouco mais no assunto, acesse o livro na biblioteca Virtual do UNIS - Sociologia da Educação - Maria Clara Ramos Nery. 82 Sociologia da Educação educacional, encontra-se Émile Durkheim, cujas ideias sobre o fenômeno educacional vimos na Unidade 1. Então, como fato social, a Educação desenvolve um papel fundamental na socialização do indivíduo. Entretanto, somente alcançará seus objetivos se for realizada de acordo com os interesses que a sociedade define como condições necessárias à sua manutenção. É importante que você compreenda que, na perspectiva de Durkheim, a educação não se apresenta como um elemento para a mudança social e sim para a conservação e funcionamento do sistema social. Como sinônimo de ajustamento social, ela deve ser capaz de adaptar o indivíduo à ordem social vigente, motivo pelo qual Durkheim (1975) enfatizava que a importância do processo educacional se baseia em sua função de transmitir a cultura na sociedade. Então... A questão é essa na visão de Durkheim: Na contramão desse processo, temos que o processo educativo assume a função de equalizador de oportunidades, a escola veiculava o discurso de que precisava garantir a possibilidade de educar a todos indiscriminadamente, evitando que a educação fosse monopolizada por grupos com interesses particulares. Lembra-se que comentamos que esse pensador social considera que, além da Educação traduzir uma doutrina pedagógica, ela é um fato social? A educação é encarada como um processo de adaptação do homem à sociedade, e quando analisada no âmbito escolar, a educação restringe-se à mera transmissão de conhecimentos, fazendo com que, sistematicamente, tradições e regras sociais sejam defendidas pela escola, visando a manter o equilíbrio social. Assim, a educação perpetua e reforça essa homogeneidade, fixando desde cedo, na alma da criança, as semelhanças essenciais que a vida coletiva supõe. 83 Sociologia da Educação Isso seria o ideal, concordam? Mas, o que temos: Nessas lutas, encontramos considerações para uma reflexão mais aprofundada. Assim, devemos refletir que, como todos são colocados em iguais condições de aprendizagem, devem ser tratados igualmente; tanto o êxito quanto o fracasso precisam ser atribuídos a cada indivíduo, independentemente da sua condição social. Se partirmos dessas considerações, podemos compreender que não é a condição social dos indivíduos que leva ao fracasso ou sucesso. É urgente e necessário reconhecer a potencialidade de cada um para o aprendizado. Nesse contexto, não há questionamento em relação à realidade social dos indivíduos, de forma que os possíveis fracassos são entendidos como decorrentes do desinteresse ou da capacidade intelectual de cada um. Entretanto, à medida que ocorre a defesa dessa equalização, a escola começa a lidar com o conflito decorrente da convivência das crianças originárias das classes trabalhadoras... Com aquelas provinientes da classe dominante. Esse dilema pode ser traduzido da seguinte forma: os filhos da classe trabalhadora procuram encontrar na educação uma oportunidade de ascensão social; e os da classe dominante tentam manter, também via educação, o domínio já assegurado pela classe social. 84 Sociologia da Educação É de fundamental importância que você compreenda que, dentro das classificações que envolvem as instituições educacionais, a escola possui um carátersistematizador, aquele em que a educação é formalizada no sentido de mediar condições para que o indivíduo se promova no âmbito social. Uma escola que não respeita e valoriza os estudantes está na contramão de ações contemporâneas. Pois, ao não ofertar à comunidade escolar oportunidades para que seus alunos sejam protagonistas (juntamente com os educadores), está cerceando o processo de construção de seu próprio conhecimento rumo a uma sonhada e necessária autonomia que lhes permita atuar de forma consciente e transformadora das realidades em que vivem. Em suma, uma instituição de ensino que não se preocupa em ofertar uma educação que possibilite a transformação dos indivíduos, que tem como prática a simples conformação de deixar seus alunos ali sentados, pasmos, a observar as peripécias e malabarismos de seus mestres, não está colaborando com a estruturação de mentalidades que venham a dar conta de refletir a sua própria existência e sem possibilidades de ultrapassar as condições impostas pela determinação de outrem. A escola ocupa papel de destaque como aparelho ideológico, pois funciona para preservar as características sociais, que atendam aos interesses das elites e à ordem estabelecida. Dentre os pensadores que criticavam a Educação Reprodutiva da sociedade, estão Louis Althusser, Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, Cristian Baudelot e Roger Establet. Identificando esses aparelhos ideológicos, Althusser (1985. p.68) afirma que: 85 Sociologia da Educação A escola capitalista, segundo Althusser, é aquela que reproduz a sociedade e impõe a cultura de interesse das classes dominantes. Afirma que, na atualidade, a Escola substituiu a Igreja no controle ideológico da sociedade; pois é no ambiente escolar que é um espaço de presença obrigatória e onde a criança ou o jovem permanece grande parte do tempo, que se estabelecem as relações e interações. Além da aprendizagem sistemática, científica, outros tipos de conhecimentos e informações são cristalizados. Bourdieu e Passeron sustentam a ideia de que a escola reproduz os interesses do Capitalismo. Fundamentam suas análises nas relações entre o sistema de ensino e o sistema social, concluindo que a origem social do educando influencia em sua formação, que existe uma seletividade no sistema escolar, excluindo as classes populares do ensino superior. [...] designamos pelo nome de aparelhos ideológicos do Estado um certo número de realidade que apresentam-se ao observador imediato sob a forma de instituições distintas e especializadas... Podemos considerar como aparelhos ideológicos do Estado as seguintes instituições (a ordem de enumeração não têm nenhum significado especial): AIE religiosos (o sistema das diferentes igrejas) AIE escolar (o sistema das diferentes escolas públicas e privadas) AIE familiar AIE jurídico AIE político (os diferentes partidos) AIE sindical AIE de informação (a imprensa, o rádio, a televisão, etc.) AIE cultural (Letras, Belas Artes, esportes, etc.)”. 86 Sociologia da Educação A ordem econômica vigente – Capitalismo –, que regula as relações de produções, trocas e acumulações, reflete também na Educação. Dessa forma, Baudelot e Establet afirmam que existe uma escola capitalista, pois estamos vivendo em uma sociedade de classes sociais, e a divisão econômica reflete tanto na escola quanto no meio social. Identificaram que os interesses da burguesia são reproduzidos por essa instituição, pois existem duas escolas, uma burguesa e outra operária. Currículos, programas, projetos, incentivos, materiais, tecnologias, métodos e salários diferenciam também essa divisão no ensino. É importante que você saiba que, no Brasil. existem educadores e sociólogos que contribuíram para as reflexões, questionamentos e análises da realidade social brasileira. Dentre eles, Carlos Rodrigues Brandão, Dermeval Saviani, Paulo Freire e Florestan Fernandes desenvolveram propostas e métodos para efetivação da Educação como ato político, de conscientização e de libertação. Assuntos que vamos nos aprofundar com pesquisas e discussões ao longo da disciplina. 3.2 Educação contemporânea As nossas discussões, até aqui, giraram em torno do processo que envolve os conceitos sociológicos e educacionais em uma perspectiva determinante em relação às mudanças sociais e à educação, a partir dos aspectos históricos. Assim, os processos globalizantes, econômicos e políticos permeiam os preceitos sociais ao mesmo tempo em que estruturam os sujeitos e as relações que direcionam a formação social. Você já observou essa realidade em seu meio social? Que essas afirmações estão presentes em nossas discussões sobre Educação? Pense sobre essas questões, identifique se você observa as considerações acima ao seu redor? 87 Sociologia da Educação Nesse contexto, tratar dos aspectos relevantes para a formação em sociologia da educação é o mesmo que dar ferramental ao professor para a prática social dentro das unidades escolares, é ofertar uma oportunidade reflexiva para a compreensão dos processos que envolvem o fazer educacional. Falar em contemporaneidade é adentrar em discussões mais profundas, é compreender que a sociedade atual se delineia com outras perspectivas. Os conceitos fundamentais de estrutura social, processos sociais, relações de poder e educação, a partir do século XX, possuem considerações amplas, globalizantes, polarizadas, no sentido de se ter várias influências das diversas sociedades constituídas atualmente. Portanto, o conceito de estrutura social é de fundamental importância para a análise sociológica, com vistas a uma análise da vida social, das vivências individual e grupal nos contextos sociais. Estrutura Social Fonte: istock.com Mas, o que vem a ser esse conceito de estrutura social? Como se constitui e serve de aparato para a compreensão das organizações sociais? 88 Sociologia da Educação 3.2.1 O conceito de estruturação social Saiba que o conceito de ESTRUTURA SOCIAL possui uma importância fundamental para as análises em sociologia. Nery (2013) indica que: Para ampliar os conceitos sobre a Educação contemporânea, convido-o(a) a explorar o seguinte texto: A teoria sociológica contemporânea da superdeterminação pela teoria à historicidade - http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi d=S0102-69922010000100002 Não existe sistema social que esteja isento de uma estrutura; esta nos permite explicar as diferenças entre os sistemas sociais e os padrões sociais que regem as experiências de indivíduos e grupos no contexto das sociedades. Em suma, o conceito de estrutura possibilita chegar à compreensão da vida social. (p. 116) http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69922010000100002 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69922010000100002 89 Sociologia da Educação Analise a imagem a seguir: Estrutura em rede Fonte: istock.com Analisou? Veja que há uma relação entre os elementos (indivíduos) que fazem parte de um todo social. Johnson( 1997) informa-nos que é pelas relações sociais que se estabelece que podemos compreender os sistemas sociais, na medida em que as relações se constituem no grande elo entre as partes que constituem o todo. Afirma ainda que “as partes podem variar das posições que indivíduos ocupam a sistemas inteiros, como grupos, organizações, comunidades e sociedades”. Esse autor contextualiza as relações sociais explicando que elas possuem caráter variável, estando intimamente relacionadasà estrutura, ou melhor, as partes sociais possuem características estruturais, como as de poder, de papéis sociais desempenhados pelos indivíduos ou grupos, estruturas educacionais, religiosas, de comunicação, entre outras que envolvem as atividades em sociedade. 90 Sociologia da Educação Nesse contexto social, as estruturas são formas de ligações que os indivíduos e grupos constituem para as relações interativas e que se desenvolvem em sociedade. É essa interatividade que os meios educacionais precisam compreender, ou seja, em uma análise sociológica, é importante que se entenda as estruturas sociais pelas quais uma determinada sociedade está inserida. A educação, por sua vez, deve envolver-se com tais análises, pois os indivíduos, grupos sociais e sistemas de ensino estão emaranhados em um processo de interligação social. A educação contemporânea possui outras formas de relações sociais, outros mecanismos de convivência em sociedade. Assim, nós, educadores, precisamos compreender que o que mediamos dentro das unidades escolares tem relação direta com as estruturas sociais estabelecidas fora dos muros da escola. Para ampliar a compreensão sobre tais estruturas, convido-o (a) a explorar um pouco mais o tema nos textos indicados a seguir. Nova capacitação para um novo século e uma nova educação - Por Francisco Imbernóm – https://loja.grupoa.com.br/revista- patio/artigo/6912/nova-capacitacao-para-um-novo- seculo-e-uma-nova-educacao.aspx Novas perspectivas para a educação - Moacir Gadotti – https://loja.grupoa.com.br/revista- patio/artigo/6692/novas-perspectivas-para-a- educacao.aspx https://loja.grupoa.com.br/revista-patio/artigo/6912/nova-capacitacao-para-um-novo-seculo-e-uma-nova-educacao.aspx https://loja.grupoa.com.br/revista-patio/artigo/6912/nova-capacitacao-para-um-novo-seculo-e-uma-nova-educacao.aspx https://loja.grupoa.com.br/revista-patio/artigo/6912/nova-capacitacao-para-um-novo-seculo-e-uma-nova-educacao.aspx https://loja.grupoa.com.br/revista-patio/artigo/6692/novas-perspectivas-para-a-educacao.aspx https://loja.grupoa.com.br/revista-patio/artigo/6692/novas-perspectivas-para-a-educacao.aspx https://loja.grupoa.com.br/revista-patio/artigo/6692/novas-perspectivas-para-a-educacao.aspx 91 Sociologia da Educação 3.2.2 O conceito de sujeito Ao pensarmos no sujeito nos tempos atuais, deve-se compreender que ele é um ser social inserido em um contexto e que cada indivíduo determina e é determinado pelo seu meio social. Também é importante considerar que: Tauraine (2003) evidencia que o sujeito possui a seguinte sistematização: Pensar no sujeito em sociologia é pensar no agente, naquele que atua na sociedade, que é influenciado por ela, mas que também influência. Não se encontra solto, não pode ser visto em seu si mesmo, mas contido no emaranhado das relações sociais que regem a vida cotidiana. O sujeito social encontra-se inserido em uma estrutura, em um espaço social, e com ele interage. O sujeito pode ser compreendido como uma personalidade que se socializa, que é levada a adequar-se ao seu meio social envolvente e que sofre em si os determinantes desse mesmo meio. O sujeito não é simplesmente uma forma da razão. Ele só existe mobilizando o cálculo e a técnica, mas, da mesma forma, memória e a solidariedade e, sobretudo, batalhando, indignando-se, esperando, inscrevendo a sua liberdade pessoal em combates sociais e liberações culturais. O sujeito, mais ainda que razão, é liberdade, libertação e negação. (TOURIANE, 2003, p. 75) 92 Sociologia da Educação Imagem: O sujeito e a diversidade - http://terceiroano- csjd2.blogspot.com.br/2015/03/revisando-8-ano-e-b.html Observe que o autor, em suas declarações sobre o contexto dos sujeitos e sua prática, revela-nos um sujeito que possui lutas, fragilidades e se constrói paulatinamente. Uma construção que está diretamente ligada ao seu afazer diário, dotado, portanto, de potencialidades para a transformação do meio em que está inserido, como também propenso a fragilidades que esse meio oferece. A construção do sujeito não culmina jamais na organização de um espaço psicológico, social e cultural perfeitamente protegido. O afastamento da mercadoria e da comunidade nunca está totalmente acabado. O espaço da liberdade se vê constantemente invadido e do sujeito se constitui não somente por aquilo que rejeita, mas também pelo que afirma. Ele não é nunca senhor de si mesmo e do seu meio e sempre faz alguma aliança com o diabo contra os poderes estabelecidos, com o erotismo que subverte os códigos sociais e com uma figura supra-humana, dividida de si mesmo. Aqueles que reduziram o ser humano àquilo que ele faz o encerram da dependência em face da técnica, das empresas e dos estados. O sujeito deve trapacear com as categorias da prática social. Longe de ser o arquiteto de uma cidade ideal, ele faz postiças combinações sempre limitadas e frágeis entre a ação instrumental e a identidade cultural, extraindo a primeira do mundo da mercadoria e a segunda do espaço comunitário. (TOURIANE, 2003, p. 79-80)Imagem: O sujeito e a diversidade - http://terceiroano- csjd2.blogspot.com.br/2015/03/revisando-8-ano-e-b.html Em síntese, o sujeito, ao ser considerado como agente social, não pode ser visto como um ser passivo. Portanto, no meio educacional, cada indivíduo possui a sua estrutura social e traz consigo toda a potencialidade para ser formado e transformado, mas, ao mesmo tempo, traz suas marcas históricas sociais; assim, é transformador dos espaços aos quais ocupa. http://terceiroano-csjd2.blogspot.com.br/2015/03/revisando-8-ano-e-b.html http://terceiroano-csjd2.blogspot.com.br/2015/03/revisando-8-ano-e-b.html 93 Sociologia da Educação É de fundamental importância que o docente e o profissional da educação compreendam que: 3.2.3 O conceito de processos sociais Processo é uma palavra que possui as seguintes características: O sujeito não se constitui fora do espaço social, fora da relação que estabelece com as estruturas sociais vigentes, ele se faz nesse processo de interação intensa com a estrutura na qual se encontra contido. [...] Aqui estamos diante de uma relação que podemos dizer entre criador e criatura, na medida em que o homem constrói todo um universo social que sobre nós exerce suas influências. ( NERY, 2013, p. 119) 1 Método, sistema, modo de fazer uma coisa. 2 Conjunto de manipulações para obter um resultado. 3 O conjunto dos papéis relativos a um negócio. 4 Conjunto dos autos e mais documentos escritos numa causa cível ou criminal. 5 Processamento. 6 Seguimento, decurso. 7 Marcha das fases normais ou mórbidas dos fenômenos orgânicos. 8 Demanda, ação. 9 Processo sumário: aquele que, em atenção à brevidade, dispensa certas formalidades. (AURÉLIO, https://dicionariodoaurelio.com/processo) 94 Sociologia da Educação Ao se falar em processo, principalmente o educativo, estamos nos referindo a uma sistematização que envolve métodos, modos de fazer, manipulações de resultados, processamento, dentre outras características básicas que envolvem o conceito. Agora, pensar a educação e a sua relação com os processos sociais tem efeito abrangente. Abrange as interações entre os sujeitos e as estruturas sociais, análises que apontamos nos itens anteriores. É uma relação que envolve o criador e a criatura, como bem indica Nery (2013): Rodrigues (2007, p.86) considera que, entre os sujeitos sociais e os processos sociais, “o sociólogo precisa ter sempre um olho para as estruturas (aquilo que está estabelecido) e outro olho para os processos (aquilo que estáem mudança)”. É importante reconhecer que o processo que envolve a permanência e mudança são resultantes da tensão que sempre existirá entre o peso das instituições e a capacidade de ação dos sujeitos. Perceba que as práticas dos sujeitos estarão, com certeza, orientadas para manter ou mudar os conteúdos das estruturas, isso é inerente ao homem: a sua capacidade de alterar o mundo que o circunda. Pensar em processos sociais também envolve dirigir nosso olhar para as mudanças que ocorrem na estrutura, naquilo que se encontra em efetiva mudança, pois somos impregnados por essas mesmas mudanças. Na contemporaneidade, a relação entre indivíduo e sociedade é uma estrutura que tem continuidade, mas com uma perspectiva diferenciada, pois a relação atual envolve uma ampliação dessa forma simples, que durante anos foi analisada pelos sociólogos. Em tempos atuais, a relação ocorre entre sujeito e estrutura social, que vai explicar toda e qualquer relação social, pois a sociedade contemporânea traz os aspectos que envolvem a globalização, complexidade nas relações (redes sociais), e devemos lembrar que a sociedade atual é marcadamente excludente. 95 Sociologia da Educação 3.2.4 Relação entre poder e processo educativo Pensar as relações de poder e processo educativo têm significado importante para a relação social que se estabelece nos processos formativos sociais. Assim, alguns pontos são relevantes para essa análise sociológica, dentre elas destacamos o que questiona Rodrigues (2007, p. 91): É importante destacar que o modo como interagimos com a realidade social e pensamos o que está a nossa volta tem relação intrínseca com as construções sociais elaboradas pelos grupos sociais. Nery (2013) destaca que: Como compreender os debates e conflitos sociais que envolvem a educação contemporânea sem levar em conta a configuração atual dos conflitos em torno da economia e do Estado capitalista? Como entender a escola e o ensino atuais sem entender o confronto hoje colocado entre os interesses privados e a regulamentação do estado? Nossas visões de mundo e de ser humano encontram-se intimamente relacionadas com os conflitos e os próprios consensos que se estabelecem no interior da sociedade, de certa forma, são resultados das relações de poder e de força, podendo ser física ou simbólica, que indivíduos e grupos podem exercer uns com relação aos outros. (p. 122) 96 Sociologia da Educação Nesse contexto, convido você a refletir sobre tais declarações. A partir disso, espera-se que você possa compreender que as relações educacionais não são imunes às estruturas de poder que se encontram no contexto social. Na realidade, são resultados do poder econômico e político. Poderes estes que determinam as ações estabelecidas em sociedade, precisando de uma constante vigilância por parte dos agentes educacionais, uma vez que a ideia não é ir contra as estruturas sociais, mas compreendê-las para que possam ser refletidas e utilizadas dentro de um ideal, como apoio às ações educativas. Atividades 1. Com base na leitura realizada nesta unidade, sua percepção de mundo e experiência profissional, liste características essenciais que o professor contemporâneo necessita desenvolver para a mediação dos conhecimentos sociais discentes. 2. Argumente sobre a relação entre sujeito, estruturas sociais (levando em conta as instituições formadoras da sociedade) e as práticas de poder em sociedade. Leve em conta a importância da educação nessa relação para uma transformação social e consciente aos indivíduos. 97 Sociologia da Educação Ao longo desta unidade, refletimos sobre as instituições sociais, as suas estruturas e o processo que envolve a formação (educação) dos sujeitos, ou seja, as contribuições do pensamento sociológico para a compreensão da relação entre a educação e sociedade, procurando analisar as conexões entre as estruturas organizacionais sociais e o trabalho desenvolvido por essas estruturas na formação dos sujeitos. Iniciamos nossas discussões discutindo sobre as diversas instituições formadoras, seu processo e desenvolvimento ao longo dos tempos. Podemos perceber que a educação, em tempos atuais, se apresenta como redentora da sociedade, com potencialidades para amenizar as desigualdades sociais. Estudamos a concepção de educação como fator de reprodução social, apoiando-nos no pensamento dos teóricos críticos-reprodutivistas. Aprofundando o estudo, analisamos os aspectos que têm contribuído para as propostas que envolvem a educação contemporânea e a importância que envolve compreender os conceitos de sujeito, estruturas sociais e as relações de poder, que perduram na prática social. 98 Sociologia da Educação Distinguir as características principais da educação vista como compensatória; Identificar os fenômenos educativos, elementos que o caracterizam como fator de transformação social. Ciclo 04 Unidade IV – Cultura e Ideologia. Educação e desigualdades sociais. Objetivos da Unidade Plano de Estudos IV 99 Sociologia da Educação Convido (a) adentrar em uma reflexão que envolve um aprofundamento sobre as concepções de educação, no que se refere aos processos ideológicos desta prática. Vamos complementar o que já viemos discutindo até agora. O convite é para a compreensão sobre os aspectos que envolvem a relação acerca da escola- sociedade. Vamos tratar da concepção de educação como fator de reprodução social, com base em enfoques que aborda: a educação como fator de equalização social e como reprodutora social. Essa concepção aborda, na verdade, as relações que perpassam a sociedade capitalista, vista como um veículo do sistema econômico, um que na realidade é fortalecido no meio social pelas ações e práticas educativas. O fenômeno educacional como visto em unidades anteriores, é uma ação que requer reflexão, pois a equalização social, deve ser pensada e discutida, uma vez que o fenômeno educativo pode ser compreendido como um processo de resistência cultural e como um elemento que contribui para as transformações sociais. Assim, este estudo que iniciamos agora, terá como intencionalidade a compreensão das práticas educativas desenvolvidas em uma perspectiva micro – a sala de aula e a escola – e outra macro – a realidade social, considerada em sua amplitude. 4.1 A educação como fator de reprodução social Para iniciarmos este estudo, convido-o(a) refletir sobre o seguinte: Fonte: istock.com 100 Sociologia da Educação Refletiu? Ponderou sobre suas ideias e crenças? A concepção educacional processada por nós, tem relação com a particularidade vivenciada de forma histórica e individual, uma realidade que vai se constituindo ao longo das nossas próprias experiências educacionais. Essa prática particular torna impossível a construção de uma defesa de uma educação ideal, perfeita e homogênea para todos os homens, de todos os tempos. Qual é a resposta que obtenho quando paro e penso sobre a concepção que tenho sobre educação? Sua importância e abrangência? Um exercício importante, para você que será, ou é, um profissional da educação, pois ao nos oportunizarmos a refletir sobre a prática essencial da educação, do nosso ferramental de trabalho como docente, estamos, em verdade, verificando que a nossa concepção educacional se sustenta pela visão de mundo que nos circunda, não é mesmo? Daí, as concepçõesBRASILEIRA ____________________________ 62 3.1.2 A INSTITUIÇÃO ESTADO E A EDUCAÇÃO (PROCESSO HISTÓRICO SOCIAL) ________________ 68 3.1.2.1 EDUCAR PARA PRODUZIR (UM POUCO MAIS DO HISTÓRICO POLÍTICO SOCIAL) ___________ 73 3.1.3 OS MEIOS DE EDUCAÇÃO SOCIAL E A EDUCAÇÃO _________________________________ 80 3.2 EDUCAÇÃO CONTEMPORÂNEA ________________________________________________ 86 3.2.1 O CONCEITO DE ESTRUTURAÇÃO SOCIAL _______________________________________ 88 3.2.2 O CONCEITO DE SUJEITO ___________________________________________________ 91 3.2.3 O CONCEITO DE PROCESSOS SOCIAIS __________________________________________ 93 3.2.4 RELAÇÃO ENTRE PODER E PROCESSO EDUCATIVO _________________________________ 95 UNIDADE IV – CULTURA E IDEOLOGIA. EDUCAÇÃO E DESIGUALDADES SOCIAIS. _____ 98 4.1 A EDUCAÇÃO COMO FATOR DE REPRODUÇÃO SOCIAL _______________________________ 99 file://///curimba/GEAD/pubgead/D.E/Módulos%202017/2017-01/1.%20DISCIPLINAS/2º%20Módulo/Sociologia%20da%20Educação/Guia%20de%20Estudos/Finalizado/Sociologia%20da%20Educação.docx%23_Toc481771240 file://///curimba/GEAD/pubgead/D.E/Módulos%202017/2017-01/1.%20DISCIPLINAS/2º%20Módulo/Sociologia%20da%20Educação/Guia%20de%20Estudos/Finalizado/Sociologia%20da%20Educação.docx%23_Toc481771241 file://///curimba/GEAD/pubgead/D.E/Módulos%202017/2017-01/1.%20DISCIPLINAS/2º%20Módulo/Sociologia%20da%20Educação/Guia%20de%20Estudos/Finalizado/Sociologia%20da%20Educação.docx%23_Toc481771242 file://///curimba/GEAD/pubgead/D.E/Módulos%202017/2017-01/1.%20DISCIPLINAS/2º%20Módulo/Sociologia%20da%20Educação/Guia%20de%20Estudos/Finalizado/Sociologia%20da%20Educação.docx%23_Toc481771243 file://///curimba/GEAD/pubgead/D.E/Módulos%202017/2017-01/1.%20DISCIPLINAS/2º%20Módulo/Sociologia%20da%20Educação/Guia%20de%20Estudos/Finalizado/Sociologia%20da%20Educação.docx%23_Toc481771251 file://///curimba/GEAD/pubgead/D.E/Módulos%202017/2017-01/1.%20DISCIPLINAS/2º%20Módulo/Sociologia%20da%20Educação/Guia%20de%20Estudos/Finalizado/Sociologia%20da%20Educação.docx%23_Toc481771251 file://///curimba/GEAD/pubgead/D.E/Módulos%202017/2017-01/1.%20DISCIPLINAS/2º%20Módulo/Sociologia%20da%20Educação/Guia%20de%20Estudos/Finalizado/Sociologia%20da%20Educação.docx%23_Toc481771257 file://///curimba/GEAD/pubgead/D.E/Módulos%202017/2017-01/1.%20DISCIPLINAS/2º%20Módulo/Sociologia%20da%20Educação/Guia%20de%20Estudos/Finalizado/Sociologia%20da%20Educação.docx%23_Toc481771269 8 Sociologia da Educação 4.1.1 EDUCAÇÕES COMO FATOR DE RESISTÊNCIA CULTURAL _____________________________ 103 4.2 PENSAMENTOS SOCIAL COMO FATOR DE RESISTÊNCIA, TRANSFORMAÇÃO E EMANCIPAÇÃO ____ 107 4.2.1 EDUCAÇÕES COMO FATOR DE TRANSFORMAÇÃO SOCIAL __________________________ 109 4.2.2 EDUCAÇÃO COMO PRÁTICA DE LIBERDADE E EMANCIPAÇÃO SOCIAL ___________________ 112 A ESCOLA DOS MEUS SONHOS __________________________________________________ 114 Frei Betto _______________________________________________________________ 114 _____________________________________________________________ RESUMINDO _________________________________________________________________________ 118 UNIDADE V – TEORIAS CONTEMPORÂNEAS QUE CONTRIBUEM PARA O PROCESSO EDUCATIVO ______________________________________________________________ 119 5.1 A NOVA SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO __________________________________________ 120 5.1.1 CONCEPÇÕES E TENDÊNCIAS SOCIOLÓGICAS E AS ABORDAGENS EDUCATIVAS ____________ 126 5.1.2 CONSIDERAÇÕES GERAIS DE ALGUMAS DAS TENDÊNCIAS EDUCACIONAIS: UMA PERSPECTIVA SOCIOLÓGICA ______________________________________________________________ 129 5.2 OS TEÓRICOS CONTEMPORÂNEOS ____________________________________________ 137 5.2.1 KARL MANNHEIM ________________________________________________________ 137 5.2.1 NOBERT ELIAS __________________________________________________________ 138 5.2.2 PIERRE BOURDIEU _______________________________________________________ 141 5.2.3 MICHAEL FOUCAULT _____________________________________________________ 143 5.2.4 ANTHONY GIDDENS _____________________________________________________ 145 ATIVIDADES ________________________________________________________________ 147 REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA ____________________________________________________ 148 file://///curimba/GEAD/pubgead/D.E/Módulos%202017/2017-01/1.%20DISCIPLINAS/2º%20Módulo/Sociologia%20da%20Educação/Guia%20de%20Estudos/Finalizado/Sociologia%20da%20Educação.docx%23_Toc481771275 file://///curimba/GEAD/pubgead/D.E/Módulos%202017/2017-01/1.%20DISCIPLINAS/2º%20Módulo/Sociologia%20da%20Educação/Guia%20de%20Estudos/Finalizado/Sociologia%20da%20Educação.docx%23_Toc481771276 file://///curimba/GEAD/pubgead/D.E/Módulos%202017/2017-01/1.%20DISCIPLINAS/2º%20Módulo/Sociologia%20da%20Educação/Guia%20de%20Estudos/Finalizado/Sociologia%20da%20Educação.docx%23_Toc481771278 file://///curimba/GEAD/pubgead/D.E/Módulos%202017/2017-01/1.%20DISCIPLINAS/2º%20Módulo/Sociologia%20da%20Educação/Guia%20de%20Estudos/Finalizado/Sociologia%20da%20Educação.docx%23_Toc481771278 file://///curimba/GEAD/pubgead/D.E/Módulos%202017/2017-01/1.%20DISCIPLINAS/2º%20Módulo/Sociologia%20da%20Educação/Guia%20de%20Estudos/Finalizado/Sociologia%20da%20Educação.docx%23_Toc481771288 9 Sociologia da Educação 10 Sociologia da Educação Compreender as diferentes concepções de sociedade entre os clássicos da sociologia; Entender a especificidade da escolarização no contexto da educação em geral; Identificar as características de análise da Sociologia em geral. Ciclo 01 Unidade I – Sociedade e Educação: relações sociológicas Objetivos da Unidade Plano de Estudos I 11 Sociologia da Educação É importante destacar que o nosso objeto de estudo, aqui, é a Sociologia da Educação, ou seja, estudaremos uma ciência que trata das relações em sociedade. E, para atingir os objetivos estabelecidos, intencionamos que você compreenda os conceitos que envolvem os processos sociais, as caracterizações da sociologia aplicada à educação e as diferentes concepções de sociedade elaboradas pelos clássicos da sociologia. A nossa intenção, portanto, não é que você apenas distinga essas concepções, mas que, além disso, seja capaz de apresentar argumentos que justifiquem suas conclusões a respeito das ideias sociológicas voltadas para a dinamização escolar, que você compreenda o papel dos sujeitos nos processos sociais e que saiba compreender as dinâmicas do campo das ciências sociais. Lembrando que não existem verdades absolutas nestes processos, mas sim a relatividade, que permeia as considerações dos diversos pontos de vista. E é neste sentido que você, futuro professor, deverá intervir, pois aprenderá a argumentar a favor ou contra determinado assunto. Com este propósito, iniciaremos nossos estudos da primeira Unidade, vamos lá? 1.1 Sociedade e sociologia, que relação é essa? A relação entre a sociedade e as ciências sociais envolve as mudanças, transformações e implantações diversas ao longo da história e estruturara os fazeres em sociedade, sugerindo direções e novos rumos, estabelecendo outras formas de relacionamentos entre o homem e seu meio social. Assim, as ciências e as fundamentações teóricas fazem-se necessárias para investigar, selecionar informações, estabelecer relações e encontrar soluções. Para isso, o pensamento reflexivo faz parte da prática, onde as questões históricas e sociológicas estarão presentes - principalmente na sociedade brasileira, onde as demandas nos remetem a críticas e posicionamentos políticos e ideológicos. 12 Sociologia da Educação Portanto, ao pensarmos sobre a sociedade contemporânea e as questões educacionais, estamos considerando que esse processo se constitui em fatores diversos ao longo da história, que necessitam ser refletidos e analisados. Reflexões que perpassam pelos processos científicos de análise, envolvendo os preceitos dosde educação serem definidas sempre tendo em vista a realidade concreta de uma sociedade historicamente determinada. 101 Sociologia da Educação Portanto, podemos analisar a concepção de educação como fator de equalização social, reprodução social, em uma concepção mais conservadora do processo reflexivo sobre as relações sociais, considerando que: Mas, ao avançarmos em nossas considerações sobre os aspectos que envolvem as concepções educacionais que discutem a escola como um fator de reprodução social, é necessário destacar que a sua fundamentação se apoia na visão de que a escola é um veículo do sistema econômico. Nesse sentido, é de fundamental importância que você compreenda que a escola nesta concepção de ensino seria uma ilusão no sentido de desenvolver a equalização social, pois os processos educativos estabelecidos nas unidades de ensino, representam, no sentido da prática real, uma reprodução da estrutura social. E, a mobilidade social, no sentido de ascensão e distribuição das rendas de forma igualitária são utopias e mito. Lembremo-nos de um dado importante e que tem relevância para os estudos sociológicos, a forma como estabelecemos os processos educativos, à cada época, teve a sua importância. Nesse sentido, não devemos desconsiderar alguns conceitos educacionais que em tempos atuais podem transparecer como conservadores, ou mesmo, ultrapassados, pois quando foram criados, elaborados não eram encarados desta forma, atendia ao que se propunham, por certo apresentavam soluções de apoio reflexivo às questões estabelecidas para cada tempo histórico. Em sociedade é importante compreender que a objetividade é a conquista de uma certa harmonia entre os indivíduos, mas devemos levar em consideração, também que as diferenças sociais, devem ser percebidas como decorrências naturais de suas características pessoas. Além, de se compreender que a sociedade perpetua-se por meio da internalização e reprodução das regras sociais, pelos indivíduos. Fonte: istock.com 102 Sociologia da Educação Dito isto, devemos retroceder um pouco, e considerar que em termos históricos, as concepções de educação, desde as décadas de 50 – 60 do século, passado, no Brasil, foram percebidas como um ferramental importante para a equalização social. Mas, o que quer dizer isto? Fonte - http://br.freepik.com/, Necessariamente, a escola precisa promover um discurso que realmente transforme as vidas em sociedade, uma discussão que seja produtiva no sentido de dar condições diferenciadas a todos os indivíduos na organização social, que tenha como objetivo a luta pela justiça social e por uma redemocratização do acesso e, principalmente, da permanência com dignidade e qualidade nos espaços escolares. Ora, que a educação era um instrumento capaz de possibilitar a ascensão dos indivíduos na estrutura social. Neste contexto, mesmo que tivesse a funcionalidade de consolidar o status de determinados grupos, a educação passava a ser desejada como instrumento de ascensão social, principalmente pelas camadas médias. Assim, ao assumir uma função de equalizadora de oportunidades, a escola veiculava o discurso de que precisava garantir a possibilidade de educar a todos indiscriminadamente, evitando que a educação fosse monopolizada por grupos com interesses particulares. Mas, um dilema é posto na prática, desde a está época: a escola passa a lidar com um conflito decorrente da inserção da classe trabalhadora como oportunidade de ascensão social. http://br.freepik.com/ 103 Sociologia da Educação 4.1.1 Educações como fator de resistência cultural Outro fator preponderante na construção social escolar refere-se à orientação educacional que é estabelecida dentro da escola, uma vez que a principal crítica ao modelo educacional se refere a desconsideração dos aspectos conflituosos na prática educativa, submetendo o educando à passividade. Concepção educacional que coloca a autoridade do professor como eixo do ato pedagógico. Veja que nesta concepção a prática educativa é a de formatação do educando. Mas, como que isso ocorre na prática? Fonte - http://br.freepik.com/ Agindo e tendo uma postura, como as problematizadas, acima, o docente está, na prática, educando o ser natural (o homem) e transformando-o em um indivíduo social, mas você pode se perguntar, qual o problema nesta prática? Não é o correto? Imagem: Atenção - http://br.freepik.com/ Ora, a prática que envolve a formatação discente, é potencializada pela ação docente quando este encaixam o educando em modelos idealizados de homem, expondo e interpretando conteúdos, apenas. Durkheim analisa esta prática e considera que o professor ao agir nestes termos, exerce uma ação formadora e modeladora sobre a conduta do aluno, considerando-o como um objeto. Ou melhor, quanto o professor prioriza a "transmissão" do conhecimento, esta exercendo uma prática educativa que anula o ser histórico e social que é o aluno, a transmissão, tão somente dos conteúdos, demonstra uma concepção docente que implica no não reconhecimento do aluno como um sujeito histórico e participativo, com potencialidades criadoras e transformadoras. http://br.freepik.com/ http://br.freepik.com/ 104 Sociologia da Educação Sim! A prática educativa visa à formação dos seres para a vida social, mas na perspectiva das teorias reprodutivistas do conhecimento, o problema se instala na ideia de que a formação tradicional oferta uma prática que formata os seres humanas, o professor ao adotar a postura de transmissão dos conteúdos culturais, está perpetuando uma perspectiva teórica de exercício da sua autoridade, pois ao transmitir informações aos discentes, aqueles produzidos de geração em geração, em que o mestre (docente) é o “intérprete das grandes ideias morais do seu tempo e do seu país” (DURKHEIM, 1995, p. 34) realiza uma ação que não oportuniza o aluno a construção dos saberes que são inerentes a prática social e requerida por ela. Compreenda, em síntese, que este tipo de postura pedagógica, desenvolve na realidade: Uma postura docente hierárquica superior à do aluno. Ao transmitir os saberes, aqueles estruturados em sociedade, como conhecimento produzido pelas gerações. Esta postura é reconhecida no meio acadêmico como uma ação de superioridade docente, pois ao exigir o silêncio e passividade do discente, exerce o poder em nome dos valores sociais instituídos. E, aquela ação que se espera do processo educativo, não ocorre, sabe qual é? A INTEGRAÇÃO SOCIAL - uma das funções primordiais das ações docentes e, que você, profissional da educação, deverá desenvolver em si, como objetividade primordial para a sua ação, na mediação dos saberes escolares. E, uma pergunta, faz-se necessária neste momento, você até aqui, já tomou consciência que está é a sua principal prática ao desenvolver as ações docentes? Se não, reflita e reveja a sua postura perante a intencionalidade educativa. A esperança é que você utilize estes conhecimentos como uma prática efetiva no desenvolvimento da sua prática educacional. Não se esqueça destes ensinamentos, certo! 105 Sociologia da Educação Mas, voltemos as nossas discussões sobre os teóricos que defendem a postura de uma educação que realmente tenha a consistência emancipatória, vejamos o que pensa Saviani e Althusser, autores com vida reflexiva educacional, ativa, em meados dos anos 70. Marco temporal das mudanças educacionais que vivenciamos, atualmente. Assim Imagem: Saviani – http://www.cesforma.org.br/noticias/dermeval_saviani Nesta mesma linha de pensamentos citamos Louis Althusser (1991) que traz na sua obra “Aparelhos Ideológicos de Estado” a ideia de que: Imagem: Althusser - https://www.revistametapolitica.com/single-post/2015/09/09/El-infinto-adi%C3%B3s-al-marxismo Saviani (1991) desenvolveu estudos sobre a concepção crítico- reprodutivistas, que embansa seus estudos no exame educacional que possa romper com as bases condicionantes da sociedade que levam a desigualdade social. A ideologia não precisa mostrar-se concretamente, a fim de assegurar o poder e o domínio que ela representa. Esse processo ocorrerá por meio de certos mecanismos institucionais denominados pelo referido autor como (AIE - Aparelhos ideológicos de estados.). Ele considerava que a transmissão da ideologia da classe dominante estaria centrada nas disciplinas escolares mais favoráveis ä veiculação de ideias sociais e políticas, como: História as que envolvem os estudos de ordem mais humanas, estudos sociais em geral. Mas, é importante destacar que as demais disciplinas que integram as matrizes curriculares, podem, também trazer aspectos que implicam nesta dissiminação de ideários dominantes. http://www.cesforma.org.br/noticias/dermeval_saviani https://www.revistametapolitica.com/single-post/2015/09/09/El-infinto-adi%C3%B3s-al-marxismo https://www.revistametapolitica.com/single-post/2015/09/09/El-infinto-adi%C3%B3s-al-marxismo 106 Sociologia da Educação Tanto Althusser (um pensador francês) como Saviani (brasileiro) defenderam, em suas pesquisas sociais voltadas para a educação, uma ideia de que o poder da escola, como reprodutora das práticas sociais, impõe a ideologia da classe dominante. Althusser (1991) em especial, vai indicar que antes, a Igreja, exercia o papel de AIE e assegurava uma posição dominante no processo de transmissão dos valores culturais, como visto na Unidade anterior. Esta instituição teve o privilégio de manter tais transmissões, dominando por séculos esta prática. Em meados do século XIX, com o desvinculo desta instituição com o estado (assuntos que você já conhece de outras disciplinas, ou por intermédio de envolvimento com os conhecimentos históricos), ou melhor, com o rompimento histórico entre a instituição Igreja e Estado, a instituição que assumiu a função de repasse dos processos ideológicos de dominação, foi a escola. Ocupando um lugar de difusão dos saberes estruturais da sociedade. Observe que de uns tempos para cá, a escola, transformou-se em um AIE, uma poderosa organização que assumiu um papel fundamental no processo de inculcação da ideologia da classe dominante à classe operária, trabalhadora. Em síntese, ao se pensar a educação como um fator de resistência cultural, estamos considerando que o profissional, o professor, que irá estabelecer as estruturas organizativas que envolve a prática efetiva dos saberes educacionais, necessita compreender que o processo cultural, de tais práticas, envolve ações inculcadas de poder, inseridos pelos diversos aparelhos ideológicos, já comentados, anteriormente, e, que estão envoltos em conceitos e práticas diversas, como os de família, de trabalho e de esforço pessoal no contexto da sociedade capitalista. Sendo assim, convido-o(a) refletir sobre como essa prática é complexa e, exige, dos que estão envolvidos com o processo educativo, um preparo consciente para o desenvolvimento de sua prática. Portanto, por este mesmo motivo, ideologicamente considerando, os problemas sociais recaem sobre as estruturas organizativas educacionais. 107 Sociologia da Educação Assim, culturalmente falando, você ao se envolver com os ferramentais educacionais, como por exemplo os: Imagem: Livro didático - http://br.freepik.com/ A escola como um poderoso AIE, como já indicado, acima, com a sua perspectiva reprodutivistas, ao avançar nos processos formativos da sociedade, vai veiculando questões ideológicas. Assumindo, portanto, um papel fundamental na reprodução de uma realidade, constituindo o trabalho escolar como difusor das ideias burguesas, impondo a classe trabalhadora uma negação da sua visão de mundo, das suas expectativas e construção do seu próprio modo de conceber a realidade. 4.2 Pensamentos social como fator de resistência, transformação e emancipação Como visto na Unidade 1, Marx é uma das personalidades que discutem os processos sociais que mais contribuíram para repensar os modos relativos a divisões em classes no contexto do regime econômico, capitalista. Apesar de não ter escrito sistematicamente sobre as estruturas educacionais, as suas reflexões apresentam uma contribuição significativa para as relações que envolvem a educação. Livros didáticos, em que traz embutidos nos conhecimentos acumulados pela humanidade e problematizados conceitos diversos que, ideologicamente, nos leva a conceber os processos educativos como corretos. É o caso, dos conceitos de famílias que alguns livros abordam, que via de regra estão em desacordo com a realidade vivenciada pelos alunos, abordam conceitos desvinculados da prática social do que seja a família contemporânea, é claro que muitas editoras já atentaram para este fato, mas você como mediador dos saberes culturais, produzidos em sociedade deverá estar atento a estas considerações, até mesmo para saber criticar e reorganizar a estrutura que envolve as práticas educativas dentro de uma postura politicamente correta. http://br.freepik.com/ 108 Sociologia da Educação Imagem: Capitalismo - https://pixabay.com/ Sousa (2002) comenta que o pensamento de Marx contribui de forma significativa na reformulação das teorias críticas que discutem a relação educação/ sociedade. Podemos, portanto, incluir nestas discussões as concepções educacionais que envolvem as teorias crítico-reprodutivistas. Concepção educacional, que como já apontado na unidade anterior, são incapazes de demonstrar, em suas análises, que a escola trabalha tanto na perspectiva da reprodução quanto da transformação social. Sousa (2002, p. 104) afirma que: O Pensamento social como fator de resistência, transformação e emancipação no contexto da sociedade capitalista, tem sido, ao longo de muitos anos, tema de debates e propostas educacionais que minimizem os efeitos perversos deste sistema. Neste contexto, Marx problematizou as ações políticas, ocupando-se dos aspectos que envolviam os trabalhadores, criticando o fato de as transformações de sua época exigirem, cada vez mais, a utilização da mão-de-obra de crianças e adolescentes de ambos os sexos, para que os objetivos da produção capitalista fossem alcançados, o que inviabilizava o ingresso dos filhos do proletariado nas escolas. 109 Sociologia da Educação 4.2.1 Educações como fator de transformação social As insufiências das teorias crítico-reprodutivistas levaram, então, à necessidade de elaboração de outra perspectiva que buscasse, nos conceitos de cultura, poder, ideologia e currículo, os pressupostos básicos ara a discussão da relação escola/sociedade. Partindo das reflexões pedagógicas de base marxista propostas por Gramsci - intelectual italiano do início do século XX [...] trabalha com a concepção de resistência cultural, elemento desconsiderado pelas teorias da reprodução social, [...] Abordagens como a da resistência cultural são acentuadamente críticas e procuram explicitar o caráter da educação e da função do professor numa perspectiva voltada para a transformação social, considerando suas implicações em uma sociedade capitalista. (SOUSA, 2002, p. 104) Para discutirmos este item é importante que você saiba que a ideia de educação voltadas para os aspectos que envolvem a resistência social tem sua fundamentação no pensamento de Gramsci. Um intelectual Italiano que defendeu o ideário de 110 Sociologia da Educação Sousa (2002) informa-nos que Gramsci (1991) entendia que a dominação econômica de uma classe sobre outra exige também o domínio dos poderes políticos e ideológicos. Neste contexto, a classe dominante inculca na classe dominada um consensosocial e uma aceitação dos princípios definidos, por aquela, como sendo verdadeiros, fazendo valer a sua visão de mundo. Processo que leva a dominação política e cultural “de uma classe social sobre outra, sendo a educação um dos instrumentos mais importantes para assegurá-lo. Para conseguir manter seu domínio, a classe dominante produz um discurso dissimulado, pretensamente universal” (SOUSA, 2002, P.109). Tais discursos visam assegurar o poder da classe dominante e, por consequência, promovem a desigualdade social que é oriunda das sociedades capitalistas. Dentro destas perspectivas, o que você necessita compreender é que todos os homens, sem distinção alguma, é um intelectual, mas o que Gramsci queria dizer ao fazer tal afirmativa? Vejamos: Educação transformadora que elevasse o nível cultural da classe trabalhadora – a escola assume um papel fundamental na socialização da cultura de um povo e, consequentemente, no nível de esclarecimento dos grupos sociais. Daí a importância de determos um pouco nossa atenção em algumas das ideias apresentadas por esse teórico em relação à possibilidade de a educação vir a colaborar no processo de transformação social.(SOUSA, 2002, p. 108) 111 Sociologia da Educação Portanto, é fundamental que você compreenda que na sua prática educativa você deve acreditar que toda a comunidade envolvida nos processos educacionais, ou seja, toda ação humana é dotada do elemento intelectual. Portanto, compreenda que as ideias defendidas por Gramsci, a que envolve a intelectualidade humana, está presente nas ações diárias de qualquer ser humano. A mais simples tarefa possui, de certo modo, uma atividade intelectual que leva o agente da atividade a planejar, interagir com a melhor forma de desenvolver a sua tarefa. Convido-o(a) conhecer um pouco mais sobre as ideias Gramsci na próxima unidade, oportunidade em que serão tratadas de forma mais objetiva cada um dos pensamentos dos autores que compõem o processo tradicional e contemporâneo de pensar a Sociologia da Educação. A noção de intelectual, na perspectiva de Gramsci (1982) tem relação com o fato de que no processo de transformação social, os “intelectuais representam o domínio de uma classe e agem, em geral, como mediadores entre a classe à qual pertencem ou que representam e a consciência dessa mesma classe.” (SOUSA, 2002, p. 109) Assim, no ideário deste pensador social, todos os homens são intelectuais, como já afirmado, acima. Porém, de acordo com as condições materiais e ideológicas da organização da cultura, apenas alguns de forma efetiva desempenham a função de agir e pensar sobre o seu meio, com abrangência de interatividade. 112 Sociologia da Educação 4.2.2 Educação como prática de liberdade e emancipação social Reconhecidamente, no Brasil, ao longo das quatro últimas décadas, vários pensadores sociais veem discutindo os processos que envolvem a educação e sua sustentabilidade e potencial de transformação social. Assim, muitos lutam na corrente política, engajando-se nas discussões que envolvem as propostas para as políticas públicas educacionais. Giroux (2003) defende a ideia de que dentro das unidades escolares, não se expressam apenas as atividades de ensino, mas existe uma relação que amplia esta concepção, a de que os espaços escolares são complexos, uma vez que a tríade: cultura, ideologia e visão de mundo estão em constante conflito. Como bem indicou Gramsci, sobre as expressões dominantes e dominados. Giroux também irá apontar que os processos ideológicos das classes dominantes passam a permear a visão de mundo estabelecida nos espaços escolares. As lutas entre ideologias, cultura e visão de mundo estarão presentes nas lutas sociais e afetará as relações escolares e educacionais. Nesse sentido, Freire considera que a educação é definida pela oportunidade de conquista da liberdade, uma liberdade que o sujeito conquista refletindo sobre a sua própria realidade, sobre as suas conquistas reflexivas. Um dos aspectos mais bonitos dos ensinamentos de Freire é considerar que a educação é um ato político, pois passa de domesticadora a libertadora, se no processo mediado do conhecimento, o aluno for oportunizado a refletir sobre as sua existência, questionando não só a sua condição concreta, mas as relações às quais se vê em sociedade e suas concepções de mundo, de se existir e se saber dono de um pensamento reflexivo, libertador. É de suma importância destacar que ao se falar de prática de liberdade e emancipação, estamos abordando, também, as discussões referentes ao que Paulo Freire enfatizou como prática políticas que são também pedagógicas. Pois, Freire (2001) traz a ideia de que não existe uma educação neutra, e afirma que todo ato educativo, é essencialmente, político. 113 Sociologia da Educação E, isto é a essência do fazer educacional, aquele, como já indicado em falas anteriores, neste guia de estudo, que possa fazer valer a voz de todos os acesso e permanência com dignidade de todos na educação. Assim, ao se processar o ato educativo, o efeito deve ser o de esclarecer, libertar e emancipar o indivíduo, levando-o a conhecer a sua realidade concreta, possibilitando-lhe uma visão crítica em relação às suas reais condição de vida. Para ampliar seu conhecimento sobre as ideais de Gramsci e Giroux indicamos os seguintes textos: GRAMSCI E A EDUCAÇÃO: A RENOVAÇÃO DE UMA AGENDA ESQUECIDA – Por Educardo Magroni - http://www.scielo.br/pdf/ccedes/v26n70/a05v2670.pdf ESCOLA E EDUCAÇÃO EM GRAMSCI - Por Michele Corrêa de CASTRO - http://www.bjis.unesp.br/revistas/index.php/ric/article/viewF ile/187/172 Quando a pedagogia é radical – Por Carlos Roberto Drawin. - http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S14 14-98931987000100011 http://www.scielo.br/pdf/ccedes/v26n70/a05v2670.pdf http://www.bjis.unesp.br/revistas/index.php/ric/article/viewFile/187/172 http://www.bjis.unesp.br/revistas/index.php/ric/article/viewFile/187/172 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98931987000100011 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98931987000100011 114 Sociologia da Educação Leia o seguinte texto: A Escola dos meus Sonhos Frei Betto Na escola dos meus sonhos, os alunos aprendem a cozinhar, costurar, consertar eletrodomésticos, a fazer pequenos reparos de eletricidade e de instalações hidráulicas, a conhecer mecânica de automóvel e de geladeira e algo de construção civil. Trabalham em horta, marcenaria e oficinas de escultura, desenho, pintura e música. Cantam no coro e tocam na orquestra. Uma semana ao ano integram-se, na cidade, ao trabalho de lixeiros, enfermeiras, carteiros, guardas de trânsito, policiais, repórteres, feirantes e cozinheiros profissionais. Assim aprendem como a cidade se articula por baixo, mergulhando em suas conexões que, à superfície, nos asseguram limpeza urbana, socorro de saúde, segurança, informação e alimentação. Não há temas tabus. Todas as situações-limite da vida são tratadas com abertura e profundidade: dor, perda, falência, parto, morte, enfermidade, sexualidade e espiritualidade. Ali os alunos aprendem o texto dentro do contexto: a Matemática busca exemplos na corrupção dos precatórios e nos leilões das privatizações; o Português, na fala dos apresentadores de TV e nos textos de jornais; a Geografia, nos suplementos de turismo e nos conflitos internacionais; a Física, nas corridas de Fórmula-1 e nas pesquisas do supertelescópio Huble; a Química, na qualidade dos cosméticos e na culinária; a História, na violência de policiais contra cidadãos, para mostraros antecedentes na relação colonizadores - índios, senhores - escravos, Exército - Canudos, etc. Na escola dos meus sonhos, a interdisciplinaridade permite que os professores de Biologia e de Educação Física se complementem; a multidisciplinaridade faz com que a 115 Sociologia da Educação Na escola dos meus sonhos, a interdisciplinaridade permite que os professores de Biologia e de Educação Física se complementem; a multidisciplinaridade faz com que a História do livro seja estudada a partir da análise de textos bíblicos; a transdisciplinaridade introduz aulas de meditação e dança e associa a história da arte à história das ideologias e das expressões litúrgicas. Se a escola for laica, o ensino religioso é plural: o rabino fala do judaísmo, o pai-de-santo, do candomblé; o padre, do catolicismo; o médium, do espiritismo; o pastor, do protestantismo; o guru, do budismo, etc. Se for católica, há periódicos retiros espirituais e adequação do currículo ao calendário litúrgico da Igreja. Na escola dos meus sonhos, os professores são obrigados a fazer periódicos treinamentos e cursos de capacitação e só são admitidos se, além da competência, comungam os princípios fundamentais da proposta pedagógica e didática. Porque é uma escola com ideologia, visão de mundo e perfil definido do que sejam democracia e cidadania. Essa escola não forma consumidores, mas cidadãos. Ela não briga com a TV, mas leva-a para a sala de aula: são exibidos vídeos de anúncios e programas e, em seguida, analisados criticamente. A publicidade do iogurte é debatida; o produto adquirido; sua química, analisada e comparada com a fórmula declarada pelo fabricante; as incompatibilidades denunciadas, bem como os fatores porventura nocivos à saúde. O programa de auditório de domingo é destrinchado: a proposta de vida subjacente, a visão de felicidade, a relação animador-plateia, os tabus e preconceitos reforçados, etc. poderem manter. Pois é a escola de uma sociedade em que educação não é privilégio, mas direito universal, e o acesso a ela, dever obrigatório. Texto disponível em http://www.bancodeescola.com/freibeto.htm, acessado em 12.07.2016. http://www.bancodeescola.com/freibeto.htm 116 Sociologia da Educação Em suma, não se fecham os olhos à realidade, muda-se a ótica de encará-la. Há uma integração entre escola, família e sociedade. A Política, com P maiúsculo, é disciplina obrigatória. As eleições para o grêmio ou diretório estudantil são levadas a sério e, um mês por ano, setores não vitais da instituição são administrados pelos próprios alunos. Os políticos e candidatos são convidados para debates e seus discursos analisados e comparados às suas práticas. Não há provas baseadas no prodígio da memória nem na sorte da múltipla escolha. Como fazia meu velho mestre Geraldo França de Lima, professor de História (hoje romancista e membro da Academia Brasileira de Letras), no dia da prova sobre a Independência do Brasil, os alunos traziam para a classe a bibliografia pertinente e, dadas as questões, consultavam os textos, aprendendo a pesquisar. Não há coincidência entre o calendário gregoriano e o curricular. João pode cursar o 6º ano em seis meses ou em seis anos, dependendo de sua disponibilidade, aptidão e seus recursos. É mais importante educar do que instruir; formar pessoas que profissionais; ensinar a mudar o mundo que ascender à elite. Dentro de uma concepção holística, ali a ecologia vai do meio ambiente aos cuidados com nossa unidade corpo-espírito e o enfoque curricular estabelece conexões com o noticiário da mídia. Na escola dos meus sonhos, os professores são bem pagos e não precisam pular de colégio em colégio para se poderem manter. Pois é a escola de uma sociedade em que educação não é privilégio, mas direito universal, e o acesso a ela, dever obrigatório. Texto disponível em http://www.bancodeescola.com/freibeto.htm, acessado em 12.07.2016. http://www.bancodeescola.com/freibeto.htm 117 Sociologia da Educação Atividades 1. Ao ler o texto você deve ter percebido que o autor contempla o ideário de uma escola voltada para a emancipação e a liberdade para o discente. Neste sentido, teça comentários, indicando se é possível esta escola? Você acredita que é possível construir esta escola? Ela teria a capacidade de amenizar os impactos sociais, ou seja, as desigualdades? 2. Retire do texto as concepções educacionais que envolvem: a) A educação b) Função social do professor. 118 Sociologia da Educação R e s u m i n d o Resumindo As discussões abordadas nesta unidade tiveram como intencionalidade dois fatores, o primeiro foi o de distinguir as características principais da educação vista como compensatória. E, o segundo fator foi o de identificar os fenômenos educativos, bem como os elementos que o caracterizam como fator de transformação social. Estes dois fatores voltam-se para as práticas educativas que envolvem os fatores de resistência cultural. Fatores que envolvem o que muitos pensadores sociais perseguem a muito tempo: a potencialidade de transformação social por meio de práticas de liberdade e emancipação dos sujeitos. Tendo como referência a relação que envolve a educação e a sociedade. Assim, ao longo desta unidade, visamos à compreensão educacional como decorrentes das percepções do homem, de mundo e de sociedade. Estas concepções estão fundamentadas no ideário de que a educação não é somente transformadora, ou reprodutora do processo educacional, mas se fundamenta em um trabalho dos agentes da educação, em uma prática educacional que possa realmente vir a contribuir para a transformação social. Deixamos claro, também que por mais forte que seja um processo de dominação, nunca podemos deixar que a possibilidade de ação do indivíduo, nos seus aspectos de lutas, sejam deixados de lado, assim a educação deve ser vista como um processo que envolve a emancipação do homem, que lhe dê oportunidades para refletir sobre seus interesses, sobre a sua vivência. Em suma, a intenção desta unidade foi a de propiciar o seu amadurecimento relativo às concepções educacionais que possui, e refletir sobre o alcance do professor na prática educativa. Para finalizarmos nosso caminhar sobre os saberes sociológicos, convido-o (a) conhecer os fundamentos dos principais autores, contemporâneos, relativos a prática sociológica educacional, assim desejamos que você avance na suas análises e boas reflexões! 119 Sociologia da Educação Reconhecer nas teorias sociológicas contemporâneas os processos que contribuem para a compreensão do processo educativo; Identificar de forma geral como se processa a nova sociologia da educação. Ciclo 05 Unidade V – Teorias contemporâneas que contribuem para o processo educativo Objetivos da Unidade Plano de Estudos V 120 Sociologia da Educação Esta unidade tem o propósito de trazer as abordagens teóricas da sociologia da Educação em um contexto social. Você conhecerá as várias abordagens sociológicas para o estudo científico dos problemas educativos, as que procuram superar a descrição pura e simples de informações coletadas pela observação das atividades escolares ou da legislação referente à educação. Assim, é importante que você compreenda que os avanços em sociedade devem ser entendidos e transpostos para a sala de aula, de modo a interpretar os fenômenos que ocorrem nas relações que vão se constituindocomo fatores que envolvem as ações pedagógicas. Neste contexto, por meio dos pensamentos dos autores e teorias apresentadas, a intenção é discutir os temas e problemas priorizados nas investigações para a área educacional, levando em consideração que os autores educacionais, não só brasileiros, mas os estrangeiros contribuem de forma significativa para analisarmos nossas ações em sociedade por meio dos enfoques teóricos. Prevalece, portanto, a concepção de que a educação deve ser considerada uma dimensão da vida social e relacionada a um conjunto de processos sociais. Veremos ao longo deste capítulo uma retomada de algumas ideias desenvolvidas nas primeiras Unidades deste guia, a intensão é debater a maneira como as pesquisas educacionais estão orientadas por essas concepções teóricas, abrangentes, e que tanto influenciam outros pesquisadores, que também produziram trabalhos relevantes e inspiradores para as pesquisas envolvendo a educação e a compreensão desta, no sentido de dar norte as ações pedagógicas de forma mais consciente. Portanto, convido-o(a)s a aprofundar um pouco mais nos pensadores que iremos apresentar e problematizar nesta unidade, topam? 5.1 A nova sociologia da Educação Luiz Pereira e Marialice Foracchi (1979) apud (Piletti e Praxedes, 2010, p. 10) apontam que: Cabe ao sociólogo atentar para a especificidade do fenômeno que ocorre no cotidiano escolar, sem perder de vista seus vínculos com a educação que ocorre no seio das famílias e na sociedade em geral. 121 Sociologia da Educação Uma relação que você deverá se atentar, pois como a sociedade está em um continuo movimento, o seu estudo e compreensão são essenciais. Estudar a educação, o cotidiano escolar, nos parece relevante, principalmente, se considerarmos a sociedade como um “processo social” que tem implícito a necessidade dos agentes sociais se prepararem para a vida em uma sociedade que se transforma, que gera mudanças sociais, que apresentam problemas inéditos para as novas gerações, de modo que não podemos apenas reproduzir as condições sociais que herdamos do passado. Nesse sentido a disciplina Sociologia da Educação, caracterizada como um olhar sociológico sobre o fato educativo tem contribuído para fundamentação do papel que esta disciplina desempenha na compreensão crítica da realidade social, política, econômica e cultura na qual a escola e a educação estão inseridas e contribui para uma formação de educadores. Educadores que possam ser formados com uma visão crítica e que formem indivíduos para compreenderem e transformarem a realidade onde vivem. Mas, quando apontamos a formação crítica, estamos considerando que os processos educacionais promovam ações e práticas que permitam aos seus integrantes o exercício social da prática democrática e vivencial das situações sociais que lhes permitam refletir sobre suas ações dentro da dinâmica da ação-reflexão- ação, um princípio defendido por Paulo Freire na constituição dos sabres críticos, reflexivos. 122 Sociologia da Educação Fonte: Design educacional e instrucional do Unis-MG Com vistas a estas considerações, importante destacar que desde a década de 1970 uma abordagem de orientação crítica abriu espaço na pesquisa educacional na Europa, mais pontualmente na Inglaterra. Este movimento foi denominado de “nova sociologia da educação”, que trouxe como concepção as ideias de reformulação curricular, com referência para as práticas pedagógicas de que o processo social é uma construção, propondo um novo paradigma, introduzindo novas ideias relacionadas as preocupações teóricas e políticas na pesquisa educacional, para investigar o complexo processo em que a estruturação de uma sociedade, que àquela época era percebida dentro das estruturas das desigualdades entre as classes sociais e entre os dominantes do poder político e os dominados. Estas ideias chegaram ao Brasil em meados dos anos 80. Propunham, portanto um novo programa, introduzindo novas preocupações teóricas e políticas na pesquisa educacional. Tais ideias alteravam, sobremaneira, a velha compreensão da sociologia educacional. Segundo Piletti e Praxedes (2010, p. 104) na visão anterior o processo sociológico tinha como prática, uma educação, com uma abordagem que visava à tradição consolidada de pesquisa, baseadas em enquetes para obtenção de dados para tratamento estatístico e descritivo. 123 Sociologia da Educação Pois, trabalhar com um processo sociológico visando um número, uma demonstração das práticas, tão somente, tem relação com uma pedagogia tradicionalista, uma visão que se assemelhou, à época, a algo desconectado das mudanças que o mundo vem presenciando. Realizada no âmbito da London School of Economics, na década de 1950, quase sempre para atender às demandas governamentais na Grã-Bretanha, tais enquetes procuravam informações sobre o desempenho dos alunos e a produtividade do sistema educacional como proposito de formar a mão de obra necessária ao crescimento econômico. (PILETTI e PRAXEDES, 2010, p. 104) Mas, você deve estar ser perguntando, se estas concepções tem relação com a pedagogia proposta para as escolas, como a tradicional? E, respondemos que sim! Pode, sim, fazer esta aproximação 124 Sociologia da Educação Contrariando a estas visões, uma em que o homem, não existia enquanto forma social predominante, a “nova sociologia da educação” trouxe, portanto um novo olhar crítico e desconstrutor para os processos curriculares. Assim, após a conferência de anual de Brisish Sociologia Association, ocorrida em Durkam, 1970, que “a nova perspectiva teórica para os estudos educacionais passou a ser conhecida, graças aos trabalhos que pesquisadores como Basil Bernstein, Michael E. D. Yung e Pierre Bourdieu publicaram.” )PILETTI e PRAXEDES, 2010) É importante que você saiba que: Nessas novas concepções sociológicas surgem reflexões que envolviam a expectativa dos professores e o desempenho dos alunos, a nova sociologia da educação passa a prática de abertura para uma crítica dos seus próprios processos, o que leva a muitos pesquisadores da área a uma capacidade de “transformação constante em direção a novas sistematizações teóricas e abordagens dos problemas empíricos suscitados pela relação entre os currículos e os processos educativos efetivos. ” (PILETTI e PRAXEDES, 2010, p. 101) Neil Keddie (apud Forquin, 1993, p.99) aponta que a esta nova sociologia da educação trouxe uma contribuição para os aspectos educacionais de valor expressivo, pois abriu a oportunidade para que os estudiosos pudessem perceber como que os professores viam os seus alunos, uma vez que a identidade escolar do aluno se estabelece a partir das expectativas do professor. Assim, pode-se identificar que: Os trabalhos destes pesquisadores sociais, constituiram uma expressão da abertura dos autores para uma gama variada de influências teóricas e metodologicas, abertura esta considerada por muitos um ecletismo que se expressa/expressou em pesquisas orientadas por referencias que vão do marxismo ao interacionismo simbólico e à fenomenologia, passando pela adoção de algumas teses de Durkheim e de Weber em vários estudos. E que vamos estudar nos próximos itens, certo? 125 Sociologia da Educação De acordo com Keddie (apud Piletti e Praxedes, 2010) a estratificação social dos conteúdos cognitivos e culturais oferta uma condição, a uma minoria, que domina o processo produtivo social de se apoderar dos processos pedagógicos que levam ao domínio de saberes considerado mais complexo e estratégico para o enfrentamento das questões públicas que envolvem as sociedades. Nesse sentido, os alunos classificados de maneira preconceituosa, na prática educativa,como aqueles que são mais fracos, oriundos das classes desfavorecidas, considerados pelos professores como tendo necessidade de uma ensino mais “concreto”, mais próximo da experiência cotidiana e que recorre mais às histórias, enquanto se presume que os das classes consideradas, mais fortes, os que pertencem a uma camada mais favorecida em sociedade, acedem mais facilmente à compreensão das relações, a conceptualização, ou seja, a formalização dos conhecimentos. Vejamos que estes pensamentos, com base nas pesquisas de Forquin (1993, p. 118) oferta-nos a compreensão de que esta “nova sociologia” não constitui, apenas um contexto de estruturas que coletam informações sobre as práticas educativas para servirem de uma representatividade numérica, mas vão além, sugerem investigações que ofertam aos diversos seguimentos educativos uma possibilidade para análise dos processos que envolvem conhecimentos tais que dão sustentabilidade para a formação de um direcionamento crítico, que passa a ver as relações escolares, dentro dos processos sociais, como algo que deve ser observado, compreendido e atendido no sentido de dar oportunidade a todos para a constituição dos seus modos de se relacionarem que o mundo que o circundam. Ou seja, uma orientação de pesquisa educacionais, que nos leve a investigar processos que envolvem a seleção e exclusão de conhecimentos, tanto na sala de aula quanto na sociedade em geral, constituindo-se de um referencial para a compreensão das Várias pesquisas foram realizadas para a investigação da hipótese de que, nos processos de interação entre professores e alunos, os procedimentos de aprendizagem são influenciados pelos preconceitos dos primeiros. Sendo que o professor atua inconscientemente sobre os alunos, segundo parâmetros preconceituosos, os professores desenvolvem práticas pedagógicas que podem subestimar ou, em alguns casos, superestimar as pontencialidades dos educados. PILETTI e PRAXEDES, 2010, p. 111) 126 Sociologia da Educação desigualdades educacionais, e como estas influencias ofertam manutenção das desigualdades de poder e de riqueza dentro da sociedade contemporânea. Com tais considerações, e compreendendo o processo que envolve as alterações no foco da sociologia educacional, avancemos no sentido de compreender as propostas para as concepções que envolvem as tendências sociológicas, a seguir. 5.1.1 Concepções e tendências sociológicas e as abordagens educativas Esta nova perspectiva de pensar cientificamente as ações do homem em sociedade, tem alguns pontos relevantes ao longo do processo histórico de constituição da sociologia educacional, em nosso País, saibam que desde a década de 50 do século passado, que o consumo de massa vem deixando a penúria para traz, ou seja, o estado de pobreza de muitos. Assim, a prosperidade material, generalizações do crédito, compra de bens e consumo, uma verdadeira corrida para o aumento do Status de vida de muitos, mobilizou ao longo destes tempos as energias, envolvendo progresso e inovação técnica, que tem provocado fascínio para as ações em sociedade. Bom, para dar um direcionamento para as ações devemos compreender que com a abertura para as outras culturas, o processo de globalização é uma influência significativa, assim, podemos listar vários aspectos da cultura americana para a estruturação do ideário social brasileiro, que são eles: Mas, vamos analisar que ações sociais foram estas que movimentaram o imaginário social e que provocaram tantas transformações? 127 Sociologia da Educação Imagens: http://br.freepik.com/ https://mundorockm.wordpress.com/2012/08/17/imagens-de-rock/ http://br.freepik.com/ http://www.weeklystandard.com/the-managers-vs.-the-managed/article/1028522 http://pt.slideshare.net/BrunoNespoliDamasceno/multinacionais-e-o-trabalho Compreenda que este crescimento espetacular da riqueza, provocou inesperadamente uma série de questionamentos e de contestações. Ocorreu na história, em 1968 uma grande denuncia dos aspectos que envolvia o abuso burocrata, da autoridade hierárquica e, principalmente, das desigualdades sociais. A partir desta época, dentro do processo social, surgiram novos desafios, como: O cinema hollywoodiano que atiçou paixões. O rock em muito modificou o gosto musical. O jeans contrapôs-se vivamente ao modo tradicional de nos vestirmos. Os managers (James Burnham) e a tecnoestrutura (John Galbraith) foram pouco a pouco substituindo o antigo patronato de direito divino. As empresas multinacionais passaram a encarnar o poder e a modernidade. Os primeiros computadores abriram novas perspectivas de interatividade social. http://br.freepik.com/ https://mundorockm.wordpress.com/2012/08/17/imagens-de-rock/ http://br.freepik.com/ http://www.weeklystandard.com/the-managers-vs.-the-managed/article/1028522 http://pt.slideshare.net/BrunoNespoliDamasceno/multinacionais-e-o-trabalho 128 Sociologia da Educação Imagens: https://pixabay.com/ https://pixabay.com/ https://pixabay.com/ Passamos, a aprender a criticar os processos, a identificar falhas nos sistemas, as instituições em geral. O que levou a uma grande massa (população) que não se rende aos domínios impostos, a realizarem uma redescoberta dos locais, a compreender e criticar as ações sociais, muitos passaram a perceberem que a democratização do ensino não passa de um engodo; a medicina ocidental cura apenas de forma superficial; a justiça sé serve aos interesses das classes dominantes; a rigidez do meio impede a circulação das elites. Assim, teóricos como Herbert Marcuse e Ivan Illich seduziram uma geração inteira2. O indivíduo não é mais um simples “suporte da estrutura” programado conforme sua origem ou posição social. Tal visão levou muitos a refletir sobre as orientações das instituições, porém muitos ainda necessitam se envolverem com essa evolução social, é sabido que a rentabilidade financeira impregna os espíritos e alienação opõe-se ao convívio sadio, com interlocução e convivência de troca e aprendizado. Enfim, outros ideários passaram a ser intensificados. Neste contexto convido-os a adentrarem em um universo compreensivo sobre algumas destas etapas de transformações sociais, ao longo destas últimas décadas. 2 Vejam no próximo item desta unidade as principais ideias destes autores. Surgem as atividades feministas Discussões envolvendo o processos ecológicos O movimento de defesa dos consumidores https://pixabay.com/ https://pixabay.com/ https://pixabay.com/ 129 Sociologia da Educação 5.1.2 Considerações gerais de algumas das tendências educacionais: uma perspectiva sociológica Imagem: http://grad.nead.ufsj.edu.br/Pedag/disciplinas/index.php?secao=ver_unidade&id_conteudo=335&id_dis ciplina=24&id_unidade=69 É importante que você identifique que no processo que envolve as transformações sociais, nas últimas décadas, alguns dos princípios pedagógicos foram ampliados, estamos vivenciando uma transformação nos modos de conceber o processo educativo. Assim, as tendências conservadoras da educação, que são: Tradicional, Escola Nova e Tecnicista, vivenciadas no Brasil ao longo do século passado, e que ainda são praticadas por muitos docentes nas mediações dos processos escolares, vem Ora, é a que classificamos como conservadoras, aquele tipo de prática pedagógica que tem como fundamentação a noção de que a sociedade é uma soma de indivíduos que deverão ser preparados para serem adequados à vida social por meio do processo educativo. Você viu nas primeiras unidades as considerações sobre os clássicos da sociologia e algumas das concepções que dão estruturas para discussões acerca da educação. Identificou que Durkheim, com suas teorias pedagógicas, apontou que a educação possui um caráter funcionalista einflui em muitas das abordagens sobre a educação no contexto da denominada pedagogia moderna. Mas que pedagogia é esta? http://grad.nead.ufsj.edu.br/Pedag/disciplinas/index.php?secao=ver_unidade&id_conteudo=335&id_disciplina=24&id_unidade=69 http://grad.nead.ufsj.edu.br/Pedag/disciplinas/index.php?secao=ver_unidade&id_conteudo=335&id_disciplina=24&id_unidade=69 130 Sociologia da Educação Pedagogia Tradicional • O indivíduo é assimilador, adaptado social - O pressuposto inicial desta concepção é que o indivíduo deve assimilar os conhecimentos acumulados no decorrer do desenvolvimento do homem em seu estar no mundo, adaptando- o. O aluno seria neste contexto um mero receptor de informações, enriquecendo-o de uma cultural individual, possibilitando o seu desenvolvimento para funções úteis no contexto da sociedade. O professor é visto como o grande transmissor do conhecimento, sendo "dono" deste. O docente, nesta concepção educativa, detém todo o poder cabendo ao aluno ouvi-lo silenciosamente, para poder enriquecer sua cultura individual. Aquele que da melhor forma aprender as informações fornecidas encontrar-se-á apto para concorrer no mercado de trabalho, bem como estará mais bem adaptado ao sistema, podendo galgar os mais promissores postos na escala social, obtendo-se assim, os "cultos especialistas". É importante, que você compreenda que ainda exista muitos cursos que possuem este modo de pensar e de muitos educadores ainda professarem essa forma de agir pedagógica. perdendo aplicabilidade, dando espaços para as pedagogias, ditas progressistas. Para uma identificação simples, apresentaremos um resumo da prática de cada uma, assim você terá condição de identifica-las na prática docente. Vamos iniciar comentando as características principais das pedagógicas conservadoras, e delimitar quais são as suas intersecções. 131 Sociologia da Educação Pedagogia Tecnicista • Relaciona-se com os determinantes de mercado da sociedade capitalista e tem como pressuposto o fato de que o indivíduo se encontra adaptado à sociedade, recebendo informações com base nos determinantes de estímulo- reposta. As informações se constituiriam no estímulo, ao qual deve o indivíduo apresentar uma resposta adequada (MEKSENAS, 2005). Nessa perspectiva educacional, fica a cargo dos especialistas da educação estabelecer e elaborar dos estímulos, o professor tem o papel de ser o instrutor de ensino, o próprio treinador. Neste contexto, tem-se uma ligeireza na no treinamento e profissionalização do aluno. Nesta perspectiva, as aulas são organizadas através de recursos audiovisuais, textos programados ou livros didáticos que se estruturam no eixo pergunta-resposta. Ao aluno não cabe o direito ao debate ou questionamento. Apensas reagem aos estímulos que o instrutor lhe determina. Os alunos se veem sozinhos diante de um texto que deverá seguir com perguntas e respostas. Nem instrutor nem aluno debatem. (MEKSENAS, 2005, p. 54). A forma dialógica do processo de ensino/aprendizagem, não são observados neste contexto formativo, assim a a consciência crítica que permite a ação transformadora da sociedade não é praticada. 132 Sociologia da Educação Pedagogia Nova • O seu principal pressuposto é fazer com que, em vez de acumular os conhecimentos produzidos pela humanidade, o aluno aprenda a maneira como esses conhecimentos se criam, conhecendo as formas e os métodos que lhe permitam chegar às informações produzidas e acumuladas pela civilização humana. Nesta concepção educativa o fundamento educacional se dá no sentido de fazer com que o aluno produza conhecimento, e não simplesmente o transmita. Assim, a figura do aluno e do professor torna-se importantes, o professor neste contexto é visto como orientador, e a aula expositiva passam a não ser tão necessária. O trabalho em grupo, a dinâmica, o debate, passam a ser uma prática valorizada, o importante é levar à valorização da experiência, do aprender fazendo. (MEKSENAS, 2005, p.51) Existe, portanto uma absorção, por parte do aluno, das formas e dos métodos que lhe permitam chegar à informação. Nessa concepção de ensino o processo de ensino/aprendizagem possui um cunho mais democrático. Porém, essa democracia não é uma prática que abarca a todos, ou seja, não envolve o questionamento da realidade presente nas sociedades capitalistas marcadamente desiguais. Isso porque a democracia que se faz envolve a liberdade de ascender socialmente e a manutenção da competição, que não é questionada, mantendo-se de forma camuflada o princípio da adaptação do indivíduo à sociedade, sem que seja construída uma consciência crítica que leve à sua transformação. 133 Sociologia da Educação Mesmo que tenhamos um direcionamento pessimista sobre o processo educacional, brasileiro, é interessante abordarmos as tendências que se despontam dentro de uma ideia progressista do processo educacional. Assim, vamos discutir alguns aspectos relevantes sobre as suas caracterizações e abordar as ideias que indicam as estruturas sociais sobre a educação. Certo? Enfim, pode-se observar que nas três abordagens pedagógicas conservadoras o objetivo primordial é a adaptação e a adequação do indivíduo à sociedade, mas, da mesma forma que indivíduos e grupos devem adaptar- se à sociedade, eles reproduzem esta mesma sociedade em suas condutas, em suas visões de mundo e de homem, em seu ato de vivencia coletivo. Mantém-se a ordem estabelecida, sem questionamento e sem transformações radicais em sua estrutura, permanecendo, assim, a configuração social que se alicerça na desigualdade e na exclusão, como se caracteriza o contexto da sociedade capitalista. No Brasil, em especial, estas tendências são mescladas, pois nenhuma delas foi implantada de forma integral, e o que se percebe, em pleno século XXI que estas tendências, de forma ampliada ou restrita podem ser identificadas nas práticas docentes. O processo de ensino/aprendizagem com todos aqueles que nele se encontram envolvidos não pode ficar imune aos questionamentos da ordem social. É neste sentido que ainda podemos conceber a educação brasileira como conservadora. Perceba que repetimos o que está descrito nas caracterizações das três tendências pedagógicas, existe uma mescla destas percepções e não temos uma verdadeira educação transformadora. 134 Sociologia da Educação Mas, antes de iniciarmos nossas discussões, gostaríamos de trazer um ponto para reflexão: Reconhecidamente, compreende-se que a sociedade capitalista é marcadamente desigual e excludente, na medida em que nela se encontra presente o próprio processo da luta de classes, em que temos uma relação desigual entre capital e trabalho. Desigual porque, enquanto o capital, representado pela burguesia, dona dos meios de produção, tenta conservar seu status quo, seus privilégios, o trabalho, representado pela classe trabalhadora, detentora unicamente de sua força de trabalho, tenta transformar sua realidade, que é sofrida, uma vez que sofre as contradições do modo de produção capitalista. Neste contexto, podemos trazer a reflexão para a prática escolar, pois considerando esses aspectos sociais que não se diferem das práticas sociais, podemos depreender que a desigualdade presente na estrutura social perpassa os espaços da escola, pois a classe que detém o poder econômico no contexto das sociedades detém também o poder ideológico, jurídico e político desta mesma sociedade. Considerando a relação entre infra e superestrutura social, podemos observar que a escola, sendo superestrutural, reproduz as relações presentes no contexto da infraestrutura e exerce também o papel de legitimadora destas mesmas relações, que são desiguais. (NERY, 2013, p. 68) Mas, mesmo com tais observações, temos que compreenderque em todo sistema existe a estruturação de forças contrárias. Nesse contexto, o aspecto dialético, comum a própria dinâmica da vida social, cria forças. Assim, o aspecto contrário, aquele que constrói as concepções e visões de homem e de mundo surge com um caráter de estabelecer uma prática pedagógica mais progressista, trazendo as contradições, as dinâmicas diárias da vida cotidiana, o mundo em geral, para as relações no ambiente escolar. Portanto, a escola, não tem que necessariamente Existe no brasil algum rumor de educação progressista? • No Brasil, desde meados de 1970 temos um direcionamento mais crítico para a proposta educativa. Foi basicamente com a incorporação dos pressupostos marxistas que a pedagogia assumiu concepções mais críticas a respeito do processo educativo, ou seja, da relação ensino/aprendizagem e sua correlação com a sociedade, em geral. O papel que a educação possui na prática social. 135 Sociologia da Educação reproduzir as relações presentes na infraestrutura, na qualidade de instâncias superestrutural que é, ela pode também ser a força contrária que, sendo dinâmica, permita uma análise crítica da realidade social vivenciada por indivíduos e grupos e, assim, levar aos caminhos que possibilitem transformações nos processos de desigualdades sociais presentes na sociedade. Isto ocorre quando a escola estabelece uma prática que permite com que o aluno tome consciência da sua realidade social. Os estabelecimentos escolares, portanto, não podem estabelecer uma prática que leve a simples reprodução das ações sociais, simplesmente. Mas, precisam conscientizar-se de que detém uma força motriz de concepções e visões do processo de ensino/aprendizagem mais progressistas, que possam levar a sua comunidade à transformação da sociedade e, consequentemente, da própria escola. Os movimentos populares, as resistências ao sistema por parte dos alunos, na presença dos professores progressistas e questionadores da ordem vigente, a oportunidade de se ter uma nova concepção de mundo e de homem para além do próprio sistema, são ações que denotam uma visão diferenciada sobre o que vem a ser o processo formativo educacional. Assim, a escola por ser uma instituição social, não é refratária, no sentido de reter, acolher, ao que se passa na sociedade. E, necessita, sempre, incorporar em seu interior os movimentos que buscam questionar e transformar a ordem instituída. Assim, a escola: Com tais considerações, trazemos as ideias da Pedagogia Libertadora, como é denominada essa nova concepção da educação, esta questiona de forma drástica as formas conservadoras de educação. Esta concepção é contraria a ideia de adaptação dos indivíduos ao sistema, que fazem com o que sujeito compreenda sua condição sócio histórico como natural, e não como construção humana, como produto da realização do ser humano em seu estar no mundo. 136 Sociologia da Educação A escola como processo social deve ser aberta, democrática, para preparar ou equipar as pessoas ou grupos para a mudança social, isto é, para o aperfeiçoamento progressivo do homem e a construção de um mundo melhor. (NERY, 2013, p. 70). A pedagogia libertadora não está preocupada apenas com a cultura individual do aluno, nem em modelar o seu comportamento para viver na sociedade capitalista, ao contrário: a proposta da pedagogia libertadora é partir dos problemas enfrentados pelo aluno no seu cotidiano para que ele possa compreender criticamente a sua classe social de origem de modo a ter uma prática transformadora da realidade que o cerca. Em resumo, a preocupação central é aprender a ler nas desigualdades do capitalismo os caminhos que possam levar à alteração dessa mesma sociedade. Nesse sentido, a pedagogia libertadora é progressista: coloca como eixo central a relação educação- política. (MEKSENAS, 2005, p. 87) 137 Sociologia da Educação 5.2 Os teóricos contemporâneos Até aqui, você foi convidado a compreender os processos que envolvem a sociologia da educação com as implicações referentes à prática social e a análise destas. Agora, para finalizarmos nossas considerações, o convite é para que compreenda alguns dos sociólogos, que pensaram o processo educativo de forma mais sistematizada, conhecendo outras nuances referentes à formação social em educação, certo! Assim, vamos adentrar nos aspectos referentes à sociologia da educação contemporânea, ressaltando que existe um fundamento entre os conceitos de estrutura social, sujeito, processos sociais e relações de poder. A relação entre estes elementos e o processo educativo é de fundamental importância para que possamos pensar a educação no contexto de uma abordagem sociológica. Vejamos o que aponta cada um dos autores que trouxemos para a discussão. 5.2.1 Karl Mannheim No ideário de mannheimiano, as técnicas sociais são meios utilizados para um adequado controle social. Referência biográfica - http://www.buscaescolar.com/sociologia/karl-mannheim/ Este pensador possui uma base de suma importância para o planejamento democrático da educação, mas que sentido ele aponta para esta prática, vejamos, a seguir. 138 Sociologia da Educação Este pensador social indica que o comportamento humano é influenciado, de forma tal que se enquadre nos padrões vigentes da interação e organização social. Assim, a educação possui a caracterização de possibilitar o desenvolvimento do equilíbrio social, sem que, seja transformada em uma técnica de manipulação dos grupos sociais. 5.2.1 Nobert Elias Caracteriza, em sua produção sociológica, a sociedade de corte3, abordando o antigo regime e o processo civilizador, apontando as forças motrizes que moveram o homem à civilização e os aspectos essenciais dessa mudança. Faz um estudo sobre as relações de poder e o conceito de habitus, abordando as relações de interdependência do “eu” e o “nós” no processo de constituição do indivíduo. Nobert Elias trata de uma sociologia processual, pois considera a relação existente entre a interdependência da estrutura da personalidade e a estrutura social, estas considerações podem ser compreendidas na seguinte citação: 3 Livro em PDF - https://construindoumaprendizado.files.wordpress.com/2012/12/elias-norbert- a-sociedade-da-corte.pdf Mas como que isso ocorre na prática escolar? 139 Sociologia da Educação Com tais considerações, identificamos o fundamental de Nobert Elias, que é exatamente a presença das ideias de interdependência social do individual, assim ele faz uma abordagem dos processos que envolvem a configuração social, na qual se pode compreender como sendo um processo da dinâmica do indivíduo em sociedade. Nesse contexto, é importante destacar que em sua teoria, cada um desses indivíduos, possuem uma dinâmica específica, formando-se , portanto, o processo de interdependência entre os atores sociais, o que permite a estruturação dos grupos sociais. (NERY, 2013) Outro tema defendido por Elias (1995) é a sociologia processual, que para ele consiste em afirmar que a análise histórica do processo social, não é determinista, pois envolve uma perspectiva de longa duração, na medida em que as transformações sociais de caráter significativo acabam por ocorrer após longos períodos de tempo. E este processo histórico, não está focalizado nas épocas vivenciadas, Elias considera que o fato histórico, isolado na época, anula todo o dinamismo da construção humana de mundo, pois ele acredita que a “história passa Por mais certo que seja que toda pessoa é uma entidade completa em si mesma, um indivíduo quese controla e que não poderá ser controlado ou regulado por mais ninguém se ele próprio não o fizer, não menos certo é que toda a estrutura de seu autocontrole, consciente e inconsciente, constitui um produto reticular formado numa intenção contínua de relacionamentos com outras pessoas, e que a forma individual do adulto é uma forma específica de cada sociedade [...] o indivíduo sempre existe em nível mais fundamental, na relação com os outros e essa relação tem uma estrutura particular que é específica de sua sociedade. Ele adquire sua marca individual a partir da história dessas relações, dessas dependências, e assim, num contexto mais amplo, da história de toda a rede humana em que cresce e vive. Essa história e essa rede humana estão presentes nele e são representadas por ele, quer ele esteja de fato em relação com outras pessoas ou sozinho, quer trabalhe ativamente numa grande cidade ou seja um náufrago numa ilha a mil milhas de sua sociedade. (ELIAS, 1995, p. 31) 140 Sociologia da Educação a ser, um processo que reflete todo o fluxo das interações existentes e que se realizam entre indivíduo e sociedade” (NERY, 2013, p. 132). Dentro das considerações desta sociologia processual, Elias aborda o que considera como Habitus social os padrões de comportamento que são desenvolvidos, aos poucos em sociedade. Comportamento estes aceitos e exigidos socialmente “para o convívio no interior das denominadas “configurações sociais”, que se expressam de modo decisivo na formação das imagens do “eu” e do “nós” e sobre a produção e a reprodução das identidades “eu” e “nós” ao longo das gerações. ” (NERY, 2013, p. 134) Para compreendermos melhor este conceito, vejamos o que ele afirma: O padrão social a que o indivíduo fora inicialmente obrigado a se conformar por restrição externa é finalmente reproduzido, mais suavemente ou menos, no seu intimo através de um autocontrole que opera mesmo contra seus desejos conscientes. Desta forma, o processo sócio histórico de séculos, no curso do qual o padrão do que é julgado vergonhoso e ofensivo é lentamente elevado, reencena-se em forma abreviada na vida do ser humano individual. (ELIAS, 1995, p.34) Elias (1995) considera que as mudanças que se encontram presentes nos costumes sociais acabam por ser internalizadas pelos indivíduos, moldando sua maneira de pensar, das maneiras de sentir e das maneiras de agir. Assim, no ideário de Elias a relação social do indivíduo não é determinista, pois este, o indivíduo em sociedade, na sua interdependência com a sociedade se estrutura na medida que se relaciona com o seu meio social, que se contextualiza com as práticas sociais de seu grupo. O autor, neste contexto, indica que a sociedade faz uma coerção no indivíduo para que este sinta necessidade desta interdependência social. (NERY, p. 132) 141 Sociologia da Educação 5.2.2 Pierre Bourdieu Bourdieu foi um sociólogo Francês que teve como contributo fundamental para a sociologia da Educação as ideais que envolvem os processos educacionais e a constituição cultural de um povo. Assim, a relação dialética entre estruturas sociais e estruturas mentais identificadas no processo de dominação se constitui na sua principal contribuição, fundamentando as suas pesquisas nos elementos relacionados entre os elementos da mediação que envolve o agente social (ator social) e a sociedade (estrutura social). Este pensador social da educação traz em suas pesquisas três elementos fundamentais para que possamos compreender o processo educacional, que são eles: habitus, campo e reprodução. Vejamos como Bourdieu pensa estes tr6es elementos que estruturam os processos educacionais: Habitus • Representa a relação de reciprocidade que se percebe entre o mundo objetivo da estrutura social e o mundo subjetivo das individualidades. Constituindo- se em um sistema de esquemas individuais que se forma por meio do contexto social, mas, sendo internalizada por indivíduos e grupos, essa constituição se manifesta como estruturante das mentes, uma vez que é adquirida, formada pela experiência prática, no contexto da realidade cotidiana. Assim, é uma prática social e individual, expressando a relação de interdependência presente entre o ator social e a sua realidade social , ampliada. O que leva a realidade social, com toda a sua força, adentrar a mente do indivíduo e internalizar esta realidade que terá como consequência a direção das ações do indivíduo. (NERY,2013,p. 138) Campo • É no contexto do campo que o Habitus se configura. É um espaço de luta, por assim dizer, pois é neste espaço que ocorrem as relações existentes entre o que se pode considerar como objetividade e subjetividade nas relações. Sendo equacionada quando se considera que os atores sociais agem dentro de um campo determinado socialmente. (NERY,2013,p. 138) 142 Sociologia da Educação A Reprodução • A dimensão social e as relações de poder se constituem no campo da dominação, o qual é interiorizado como subjetividade. Nesse sentido a sociedade deve ser apreendida como estratificação do poder. Quando Bourdieu escreve a sua obra "A reprodução" define a escola como o espaço onde encontramos formas de serem legitimadas as desigualdades sociais presentes na estrutura mais ampla, na medida em que esta mesma escola deve ser entendida de acordo com as dimensões das classes sociais. É um espaço social que, segundo o autor, encontra-se relacionado com a reprodução das relações de dominação presentes na sociedade. (NERY,2013,p. 138) Do ponto de vista da análise, deixa claro que a escola e sua prática somente podem ser entendidas e compreendidas quando relacionadas ao conjunto das relações entre as classes sociais. E, mais ainda, a caracteriza como um campo que, mais do que qualquer outro, está orientada para a sua própria reprodução, dado que, entre outras razões, ela tem o domínio da sua própria reprodução, embora submetida às pressões externas, geralmente advindas das estratégias dos diferentes grupos e/ou classes sociais na obtenção ou ampliação de capital cultural. [...] Então, não é por acidente que os filhos das classes dominantes têm mais sucesso na obtenção da cultura escolar e, consequentemente, ingressam mais ampla e facilmente na universidade. Como membros de famílias portadoras de considerável capital cultural, tanto intelectual quanto material, eles adquirem um habitus social bastante concordante habitus escolar. Daí a facilidade deles na aquisição dos procedimentos, esquemas operatórios de pensamento e linguagem mais enfaticamente exigidos pela escola, uma vez que, para eles, ao contrário dos filhos pertencentes a segmentos sociais culturalmente desfavorecidos, a experiência escolar é um prolongamento da vida familiar e do seu grupo social. 143 Sociologia da Educação 5.2.3 Michael Foucault De acordo com Nery (2013) Foucault trata em sua obra dos elementos que caracterizam a sociedade disciplinar. Foucault foi um pensador Francês que estudou o processo revelador/desvelador do que é o cotidiano, desenvolvendo um estudo sobre as estratégias de poder-saber presentes no que podemos denominar de mundo da vida. Este autor, também vai considerar a relação de interdependência presente entre o sujeito e a própria estrutura da sociedade. Este pensador social, ao pensar as relações sociais e a interdependência dos sujeitos com o processo social, aponta dois mecanismos sociais, que apresentaremos, a seguir: A constituição do sujeito • A problemática da constituição do sujeito é um discurso predominante nas discussões de Foucault, assim ele considera que o sujeito possui determinações constitutivas por meio da realidade sociais e o contexto sócio histórico específico de cadaum. Partindo, portanto, do sujeito concreto, aquele que está contido em uma realidade, uma estrutura que sofre os efeitos desta mesma estrutura, a qual é constitutiva de subjetividades, que o sujeito se encontra e se constitui, movido pelas determinações da realidade objetivo sobrepõe a realidade subjetiva, dentro do contexto das sociedades disciplinares que o sujeito se encontra, submetido às estruturas sociais, políticas, econômicas e culturais. Assim, ao nos submetermos a tais estruturas, somos efetivamente produto destas mesmas estruturas que se impõem sobre nós. Dessa forma, não existiria muito espaço para o império da vontade individual. (NERY, 2013, p. 142) Enquanto, para os filhos das classes dominantes, a cultura escolar é a sua própria cultura - porém, reelaborada e sistematizada - para os filhos das classes dominadas, a cultura da escola é experimentada como uma "cultura estrangeira". Na transmissão de conhecimentos, a escola se orienta, segundo Bourdieu, pela "pedagogia do implícito", isto é, o sucesso do aluno na aquisição da cultura escolar supõe, de forma implícita, a posse de um capital cultural herdado pelos alunos oriundos das famílias das classes dominantes. A escola, assim, contribui com a reprodução social, ou seja, a garantia da dominação pelos setores sociais dominantes. (BUSETO, 2006, pp. 127/128). 144 Sociologia da Educação Uma questão importante, discutida por Foucault implica os processos formativos do poder-saber que o processo educativo impõe, assim é importante destacar que a instituição escolar, na visão de Foucault, é um dos elementos sociais que aflora as relações de poder, no sentido de que é na escola que encontramos os poderes disciplinares e o “dispositivo do poder-saber, formando as mentes e controlando os corpos, naturalizando as contradições presentes no contexto social. Ao mesmo tempo, ela também pode ser um espaço de resistências” (NERY, 2013, p. 144) Esta ação se deve ao passo que o poder é constituído de forma relacional, entre os atores sociais, e os aspectos que envolvem a subjetividade são constituídos dentro dessas relações, levando-se em conta o espaço sócio histórico específico. Poder e resistência • Ao pensar esta relação Foucault indica que esxista uma dialética, um processo que envolve forças contrárias. Assim, em todas as formas de poder denunciadas por Foucault ele aponta os elementos de resistência. Assim, o poder para este autor é concebido como uma estrtégia, pois é sempre um exercício, e'sempre instauraçaoi de uma tensão, de uma confronto permanente entre o poder e resistência. Ele indinca, em seus estudos que o poder esta inserido em todos os setores da vida, tendo inclusive se constituído em nossa realidade vivenciada, o que Foucault denomina de Tecnologia do indvíduo, manifesta em nossa contemporaneidade. por formas particulares do controle do corpo, controle que é sistemático e também silencioso, o que poodemos também denominar controle disciplinar. (NERY, 2013, p. 142) Na teoria de Foucault a relação de interdependência está presente entre o sujeito e a própria estrutura da sociedade. As estruturas sociais, então, são consideradas constituintes dos sujeitos, na medida em que é por meio delas que se criam visões de homem e de mundo, que dirigirão as condutas, as formas de agir em sociedade, por parte dos indivíduos e grupos. 145 Sociologia da Educação 5.2.4 Anthony Giddens Este sociólogo possui expressão significativa para tempos atuais, de origem Britânica, traz conceitos que envolvem os aspectos relativos à “reflexibilidade” que se sustenta na ideia de que a realidade ao nos atingir, manifesta-se nos indivíduos de formas específicas para a elaboração da realidade. Neste sentido, sempre os indivíduos são capazes de criar algo novo, uma terceira via que nos permite circular adequadamente nos espaços sociais. Sua teoria envolve a dualidade –ação e estrutura – que possuem uma relação de interdependência - sendo que a estrutura é internalizada pelos atores sociais e exteorizadas, por estes. É importante destacar que na concepção deste pensador social, a autonomia do indivíduo possui espaço, pois este é capaz de elaborar a realidade que o cerca e agir no campo da interação social. Esta autonomia não possui um caráter total, ela e, se assim podemos dizer, também limitada pela regularidade da conduta que se encontra estabelecida no processo de interação. Mas o que é fundamento perceber é que a padronização dos comportamentos e das condutas de indivíduos e grupos não se faz de forma rígida, uma vez que existe um espaço que estabelece o que é permitido no contexto da estrutura social. (NERY, 2013, p. 146) De acordo com a cecepção de Giddens na teoria da estruturação, não há reigidez no que se refere às padronizações sociais, que possuem então um caráter dinâmico, no tempo e no espaço, já que os indivíduos não estão distanciados de sua realidade social envolvente. Ao articular teoria da ação e processos de reproduçãop social, Giddens desarticula o conceito de estrutura. De um lado, distingue o estrutural como o conjunto de regras e recursos organizados recursivamente. De outro, destaca os próprios sistemas sociais, entendidos como conjunto estrturais que podem ser definidos como relações entre os atores sociais ou coletividades reproduzidas e organizadas como práticas sociais dotadas de regularidades. (NERY, 2013, p. 146) 146 Sociologia da Educação Outros aspectos são importantes na teoria de Giddens, vejam: De acordo com Giddens, as novas tecnologias e a economia do conhecimento, como ele assim denomina, estão modificando a forma como compreendemos a educação e o próprio ensino regular. Existe uma tendência, na visão deste pensador social educacional, de que o aprendizado e o treinamento fora dos espaços escolares, ou seja, fora da contextualização tradicional das salas de aula. Trata-se de um aspecto importante, pois a escola não é mais a única fonte de transmissão de conhecimento, de saberes no contexto das sociedades contemporâneas; outras fontes estão sendo experienciadas por indivíduos e grupos. Informação • A relação entre a informação e a sua integração aos aspectos educativos. Ele aponta que este campo não é isento de preocupações, mas muito pelo contrário, pois indica que existe uma disparidade entre aqueles que têm acesso e que não tem familiaridade com o uso do computador, e mesmo o acesso a esta tecnologia, pois os que não tiverem acesso a ele, podem sofrer as consequências de uma forma de pobreza informacional. Privatização do ensino • O processo de incorporação das instituições privadas, como empresas, na administração educacional. As instituições escolares estão sendo foco de interesses comerciais, o que pode fazer com que os prossupostos básicos do processo educativo sejam redefinidos. • Giddens menciona ainda que a forma como as escolas e o próprio sistema de ensino estão organizando tende a preservar as deseigualdades de gênero. Ainda se mantêm regras que tendem a especificar o espaço do masculino e o espaço do feminino no contexto da instituições escolares. 147 Sociologia da Educação Atividades Atividades Ao termino desta unidade sugerimos que elabore um quadro comparativo entre os autores citados, destaque na sua comparação os aspectos que envolvem os aspectos indicados em cada uma das colunas do quadro, a seguir: Pensador sociológico Concepção de indivíduo Concepção de sociedade Aspectos que convergentes/ divergentes 148 Sociologia da Educação Referência Bibliográfica CHAUÍ, M., Convite à Filosofia, São Paulo, 13a. ed., Ática, 2003. FIGUEIREDO. A. P. O ensino religioso nométodos Sociológicos da Educação como apoio para a identificação dos fenômenos educacionais. Existem vários questionamentos acerca das possíveis causas do subdesenvolvimento do país e, até mesmo, dos possíveis motivos que ainda determinam a permanência do país nessa classificação. Ouvimos falar de questões econômicas, políticas, tipos de colonização e também do imperialismo, mas nunca se falou tanto na escassez educacional como impulsionadora para o subdesenvolvimento. Podemos tomar como exemplo os países que incentivam a Educação, esse incentivo é um fator preponderante para se tornarem países de “primeiro mundo”. Saiba mais sobre o avanço educacional em: Reportagem: Brasil evolui, mas segue nas últimas posições em ranking de educação https://blog.lyceum.com.br/ranking-de-educacao- mundial-posicao-do-brasil/ Artigo: Destino: educação. Diferentes países. Diferentes respostas http://www.sbec.org.br/destino_educacao_livro_met odologia.pdf http://g1.globo.com/educacao/noticia/%202013/12/brasil%20evolui-mas-segue-nas-ultimas-posicoes-em-ranking-de-%20educacao.html http://g1.globo.com/educacao/noticia/%202013/12/brasil%20evolui-mas-segue-nas-ultimas-posicoes-em-ranking-de-%20educacao.html http://g1.globo.com/educacao/noticia/%202013/12/brasil%20evolui-mas-segue-nas-ultimas-posicoes-em-ranking-de-%20educacao.html http://www.sbec.org.br/destino_educacao_livro_metodologia.pdf http://www.sbec.org.br/destino_educacao_livro_metodologia.pdf 13 Sociologia da Educação À medida que e a Sociologia da Educação se desenvolveu e os sociólogos perceberam que cada problema da sociedade merecia uma abordagem específica, a Sociologia foi se subdividindo em: Sociologia da Cultura, Sociologia do Trabalho, Sociologia da Religião, Sociologia do Conhecimento etc. Compreendemos, portanto, o conhecimento social como uma proposta que se quer desvendar e norteador dos processos em sociedade. Nesse contexto, a Sociologia da Educação serve de campo científico, de tecnologia, que nos permite reconhecer, nas relações sociais, os diversos mecanismos de funcionamento das instituições, servindo, portanto, de ferramental para a análise da realidade que nos cerca. Ao abordar a sociologia que envolve a educação necessitamos contextualizar os conceitos que envolvem a junção dos aspectos sociológicos e educacionais. Assim, temos que: 1.1.1 O que é sociedade? Figura 1: Sociedade, um processo em construção: Fonte: Design Unis EaD Sociologia é a ciência que estuda a sociedade. Sociologia da Educação é o ramo da Sociologia que estuda as formas como a educação acontece nas sociedades. Portanto, sociologia da Educação estuda a própria escola e como ela se relaciona com a sociedade. 14 Sociologia da Educação Essa questão possui várias respostas. Pois, se partirmos de alguns conceitos comuns da vida cotidiana, encontraremos considerações diversas, como: "A sociedade tem culpa das delinquências e da violência!" Nesse caso, o indivíduo que afirma vê o conceito de sociedade de forma muito genérica. Quando um jornal fala sobre a "sociedade do interior", mas faz destaques em matérias apenas com as personalidades famosas; provavelmente, quem registra sobre "a sociedade do interior" vê o conceito de forma restritiva. Quem pretende tornar-se sócio de alguém para a realização de um negócio, fala em "estabelecer uma sociedade". Quando várias pessoas se unem em um grupo "oculto", fala-se em "sociedade anônima" (S.A). As sociedades de amigos, cooperativas etc. Destaca-se, neste rol de conceitos, a "Sociedade dos Poetas Mortos", que é o nome de um filme usado frequentemente nas aulas de História, Artes etc. O filme traz em seu contexto a prática educativa de um professor criativo e as aventuras dos seus alunos pelo processo reflexivo. Mas, e para você, o que é sociedade? Reflita sobre essa questão! 15 Sociologia da Educação Refletiu? É importante que você considere os aspectos que envolvem a sociedade como objeto de análise da ciência chamada sociologia. A sociologia é uma ciência que tem sua origem na segunda metade do século XIX, e que serviu/serve para justificar a sociedade instalada na Europa, uma sociedade capitalista, industrial, ou seja, uma sociedade de mercado. Discutiremos esse assunto mais adiante... Por enquanto, a intenção é compreender apenas os processos que sustentam as relações no nível comparativo entre os conceitos de sociedade e sociologia (da educação). 1.2 Clássicos da Sociologia Agora, iniciaremos um processo reflexivo importante e que faz parte do contexto das estruturas sociais. Pensar sociologicamente implica em discutir sobre algo e em realizar buscas que envolvem a prática reflexiva sobre o que está a nossa volta. E, para que você se familiarize com as questões que envolvem os clássicos da Sociologia, convido-o a conhecer os principais pensadores que contextualizam a Ciência social – Sociologia: Augusto Comte, Karl Marx, Émile Durkheim e Max Weber, além de verificar de que forma cada um deles explicou o processo social, suas teorias, suas ideias e os resultados de suas análises que permanecem e são utilizadas até hoje. Agora, pense: como se fundamentam as engrenagens sociais e os aspectos sociais? 16 Sociologia da Educação 1.2.1 Augusto Comte: O amor como princípio, a ordem como base e o progresso como fim. No século XIX, em um cenário de industrialização - Imperialismo e Capitalismo - surge, com Augusto Comte (1798- 1857 - França), a nova ciência – Sociologia -, que recebe primeiramente a denominação de Física Social. Essa forma de analisar e explicar a sociedade denomina-se Positivismo, que acredita ser a razão humana o caminho para o conhecimento e para as explicações da realidade social. A razão prevalece sobre as explicações filosóficas e teológicas. P o r q u e c iê n ci a? P o r q u e F ís ic a S o ci al ? Ciência porque tem um objeto de estudo: a sociedade. Tenta explicar a sociedade através de pesquisas, experimentos, hipóteses, análises e resultados. A realidade através de um conjunto de teorias, de um discurso formal, organizado. Física Social porque Comte tenta aproximar essas análises às ciências da natureza, de forma precisa, exata, priorizando a objetividade em seus estudos e colocando na Matemática a base do conhecimento. Essa filosofia social positivista se inspirava no método da investigação das ciências da natureza, assim como procurava identificar na vida social as mesmas relações e princípios com os quais os cientistas explicavam a vida natural. A própria sociedade foi concebida como um organismo constituído de partes integradas e coesas que funcionavam harmonicamente, segundo um modelo físico ou mecânico. Por isso o positivismo foi também chamado de organicismo. (COSTA,1997, p.47). Filosofia Social 17 Sociologia da Educação Figura 2: Os Sociólogos Max Weber, Karl Marx e Émile Durkheim: Fonte:http://educiedade.blogspot.com.br/2012/11/sociologia-oo.html 1.2.2 Karl Marx: crítica ao capitalismo e à exploração do homem Para Karl Marx (Treves - Alemanha - 1818–1883), as relações de trabalho, durante o processo histórico, explicam como os homens se organizavam e se relacionavam nas sociedades. Reconhecer o modo como produzem e distribuem as riquezas é fundamental para conhecer o tipo de sociedade em que estamos inseridos. Desta forma, Marx identificou, no processo histórico, o elemento que move a sociedade – a luta de classes, as contradições entre as forças produtivas, e observou que a sociedade está dividida em classes sociais com interesses opostos. As características positivistas de priorizar as ciências exatas, a harmonia social, organização, disciplina, coerção, coesão, tradicionalismo, racionalidadeBrasil – tendências, conquistas, perspectivas. Petrópolis: Vozes, 1996. GANDIN, D. Escola e transformação social. 3.ed. Petrópolis: Vozes, 1995. JUNIOR, P. G. História da Educação. São Paulo: Cortez, 1990. NERY, Maria Clara Ramos. Sociologia da Educação. Curitiba: InterSaberes, 2013. RODRIGUES, A. T. Sociologia da educação. São Paulo: Lamparina, 2007. TOURAINE, Alain. Poderemos viver juntos? Iguais e diferentes. Petrópolis: Vozes, 2003. DURKHEIM, É. A evolução pedagógica. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. DURKHEIM, É. Educação e Sociologia. 10 ed. São Paulo: Melhoramentos, 1975. FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia – saberes necessários à prática educativa. 18ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2001. Giroux, H. A. 2003. Atos Impuros: a prática política dos Estudos Culturais. Porto Alegre: Artmed. GRAMSCI, A. 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Um dos seus líderes foi o professor de Matemática e militar Benjamim Constant. 18 Sociologia da Educação Portanto, cada sociedade tem seu modo de produzir, utilizar e distribuir seus bens. Estes modos de produção podem ser Primitivo, das primeiras organizações humanas, Escravista que predominou na Antiguidade (Grécia e Roma), Asiático presente nas sociedades do Egito Antigo, China, Astecas e Incas, Feudal que predominou na Europa ocidental (século V até XVI), Capitalista e o modo de produção Socialista, onde a propriedade social dos meios de produção são públicos ou coletivos. Para Marx, o estudo do modo de produção é fundamental para compreender como se organiza e funciona uma sociedade. As relações de produção, nesse sentido, são consideradas as mais importantes relações sociais. Os modelos de família, as leis, religião, as ideias políticas, os valores sociais são aspectos cuja explicação depende, em princípio, do estudo do desenvolvimento e do colapso de diferentes modos de produção (COSTA,1997, p. 92). Marx e a Produção Formas como os homens se organizam para produzir. Podem ser: cooperativas, escravistas, servis, capitalistas. Relações de produção: As forças produtivas (capital, ferramentas, máquinas, homem = principal elemento) e as relações de produção (exploração ou cooperação) determinam o modo de produção. Modo de produção: 19 Sociologia da Educação Com o advento da tecnologia, a sociedade se mantém dividida em segmentos, como a burguesia industrial e o proletariado. Estas divisões e o modo como se organizavam são elementos para as reflexões de Marx, registradas em várias obras, produzidas individualmente ou em parceria com Friedrich Engels, centradas na relação entre capital e trabalho. Segundo Marx, as mudanças nas relações de trabalho só ocorreriam com a revolução, com a chegada dos proletários ao poder e quando as forças produtivas estivessem sob controle dos trabalhadores. Acreditava que com o fim da propriedade privada as desigualdades sociais também acabariam. Marx trabalhou com vários conceitos, dentre eles destacamos Alienação. O Manifesto Comunista – Friedrich Engels e Karl Marx O Capital – Karl Marx Marx desenvolve o conceito de alienação mostrando que a industrialização, a propriedade privada e o assalariamento separavam o trabalhador dos meios de produção – ferramentas, matéria-prima, terra e máquina, que se tornaram propriedade privada do capitalista. Separava também ou alienava o trabalhador do fruto do seu trabalho, que também é apropriado pelo capitalista ( COSTA, 1997, p.84-85). Alienação 20 Sociologia da Educação O conceito de alienação pode ser visto, ainda, no sentido de análise dos aspectos que envolvem os processos com os quais o profissional vivencia dentro das organizações, ou seja, é possível identificar que as estratégias de Gestão das empresas elaboraram técnicas capazes de mapear quanto o trabalhador reconhece como saber em relação ao processo produtivo. Mas esses aspectos também são limitadores dessa capacidade. Quando nos referimos a uma análise dos cargos, nada mais é do que o mapeamento do conhecimento e também é a divisão sistêmica do processo produtivo, que serve como agente limitador. Figura 3: Alienação Fonte: Imagem de domínio público Sem falar no processo repetitivo pelo qual o tabalhador passa. Aí, basicamente, está o início da Alienação. No processo mais avançado da alienação, o individuo não consegue identificar a sua verdadeira essência. 21 Sociologia da Educação Outro fator que envolve o processo alienante refere-se às questões da mídia em geral, como bem aponta a Tirinha, vamos analisá-la? Figura 4: Mídia alienante: Fonte: Design EaD em Pixton.com Observem que a massificação da sociedade por meio dos processos que envolvem o capitalismo e o liberalismo alienam o indivíduo nas suas estruturas e no modo como age. Marx considera que na política, agindo no sistema de representatividade (representação da sociedade), as classes dominantes estão sempre no poder e agem segundo os interesses desta elite. Mas uma consideração é importante: precisamos reconhecer que estes conceitos estão presentes no nosso dia a dia. Pense sobre isso! Marx faz a interpretação socioeconômica da História, ao interpretar que o modo como os homens produzem a sua vida material, que está na base, como o capital, a terra, ferramentas, relações de produção (infraestrutura) determinam a estrutura ideológica, como a política, a moral, religião, a mídia, a escola (superestrutura) de uma sociedade. Suas ideias vão inspirar revoluções também no ensino. Vários pensadores como o italiano Antônio Gramsci e o russo Makarenko seguirão Marx, aplicando suas ideias na educação. Karl Marx produziu obras na área da Sociologia, Economia, Filosofia. Suas análises, propostas, reflexões e críticas permaneceram por dois séculos (XIX, XX) e continuam no século XXI, inspirando os movimentos sociais, políticos e econômicos, na luta por uma sociedade mais justa. 22 Sociologia da Educação 1.2.3 Max Weber: poder é a capacidade de mobilizar pessoas. Iniciamos as reflexões com o organizador da Sociologia (Augusto Comte) e em seguida Marx, que considera o Capitalismo o caminho para a desigualdade, afirmando que suas características se estruturam em uma sociedade de classes de exploradores e explorados. Porém, a análise social encontra diferentes parâmetros. Desta forma, temos o alemão Max Weber (1864- 1920) que via no Capitalismo o caminho da modernidade. Viveu na Europa em uma fase de intensos conflitos e mudanças, como a estruturação do Estado Alemão, a Guerra Franco-Prussiana (1871) e a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Após a derrota da Alemanha na 1ª Guerra, participou da elaboração da constituição denominada Constituição de Weimar. Esta vivência vai propiciar a Weber a possibilidade de analisar o funcionamento das instituições burocráticas nas empresas e no Estado e desenvolver o que se denomina Sociologia das Organizações. Considera que o Capitalismo é a expressão da modernidade e da racionalidade; valoriza o empresário, a burguesia e o liberalismo americano, afirmando que este era o modelo do progresso; faz suas análises partindo da ação do homem e das razões que o motivam a realizá-las, o que se denomina de Ação Social. É importante que você fique atento ao período e ao ambiente de vivência dos pensadores, pois, desta forma, compreendem-se as relações que existem entre as questões sociológicas, comportamentais e os paradigmas de cada época - contexto histórico e geográfico (revoluções, guerras, tecnologia, imperialismo, práticas políticas e econômicas). 23 Sociologia da Educação O elemento principal desta análise é o homem, a sua conduta e seu comportamento, que, para Weber, é dotada de sentido. O sujeito age motivado pelas tradições, interesses racionais ou emocionais. Age com subjetividade, tem razões interiores que motivam suas ações. Para esse pensador, a Sociologia é a ciência que o ajudou a compreender a conduta humana, suas causas e consequências. Em sua obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, Weber descreve a atuação dos adeptos do Protestantismo e do Capitalismo, fazendo comparações, estabelecendo relações entre religião, desenvolvimento, comportamento social e economia. Ressalta que as práticasda disciplina ao trabalho, a cultura à poupança e o reemprego produtivo da riqueza, são equilibradas pela ética da religião protestante; Ação Social: conduta humana, pública ou não, a que o agente atribui significado subjetivo. (LAKATOS, 1999). Weber parte de dados estatísticos que lhe mostraram a proeminência de adeptos da Reforma Protestante entre os grandes homens de negócios, empresários bem-sucedidos e mão de obra qualificada. A partir daí procura estabelecer conexões entre a doutrina e a pregação protestante, seus efeitos no comportamento dos indivíduos e sobre o desenvolvimento capitalista (COSTA,1997, p. 75). Protestantismo e Capitalismo 24 Sociologia da Educação difunde ideias de que o Capitalismo deve ser construído por homens com escrúpulos, disciplinados, ascéticos. Esse pensador social reconhece quatro tipos de ações sociais, que são: Ação racional referente a fins. É a ação pensada, calculada, planejada, orientada, especificamente por uma finalidade que se deseja atingir. Quando fazemos um projeto, apontamos os objetivos, isto é, os fins, as metas que pretendemos atingir e os meios através dos quais pretendemos atingir tais fins. Ação racional com relação a valores. É uma ação também pensada, planejada, orientada. Porém, quem age orientado pelos valores não está interessado em criar algo novo. Age em função de algo que está na moda. Ação afetiva, especialmente emocional. É a ação movida por um estado emocional, seja demonstrando afeição, alegria, seja demonstrando tristeza, ódio, rancor, etc. Ação tradicional. É a ação motivada pelo valor da tradição, pelo costume arraigado . Algo é tradicional por se repetir e não modificar com o tempo. Você conhece as relações que se estabelecem entre a prática religiosa dos adeptos da Igreja protestante e o desenvolvimento econômico de alguns países como EUA, Alemanha, Inglaterra e Suíça? Pois é, estão fundamentadas nas ideias de Max Weber! 25 Sociologia da Educação 1.2.4 Davi Émile Durkheim: “educação, imagem e reflexo da sociedade” Émile Durkheim (1858–1917) viveu na França em um tempo de transformações, como a Proclamação da 3ª República Francesa (1871) e a 2ª Revolução Industrial que se espalhou pela Europa e EUA (antes privilégio somente da Inglaterra) com a utilização de novas fontes de energias (petróleo – elétrica) e o fortalecimento das relações de trabalho baseadas no Capitalismo. Abre o caminho para um novo estudo específico: Educação e Sociedade: - A Sociologia da Educação que vai analisar as instituições de ensino, verificando as relações existentes entre escola e sociedade. Em suas análises sociais, parte da objetividade, do fato concreto e, assim como Augusto Comte, reconhece a sociedade como um organismo biológico. Continuação da caixa acima: “Para exemplificar este conceito, observe as imagens abaixo, como cada uma está organizada e reflita: é possível enxergar uma relação entre elas? Figura 5: Vista aérea de Chicago Fonte: https://superjchung.wordpress.com/2009/07/29/aerial-view-of-chicago/ Organicismo: a sociedade funciona como um organismo vivo, onde cada indivíduo tem uma função específica. 26 Sociologia da Educação Figura 6: Célula do Córtex Fonte: https://www.researchgate.net/figure/294893108_fig1_Figure-11-Drawing-of-a-Purkinje-neuron- based-on-a-histological-staining-by-Santiago Figura 7: Planejamento Urbano de Barcelona Fonte: http://conquistapolitica.blogspot.com.br/2012/03/planejamento-urbano-o-caso-de- barcelona.html 27 Sociologia da Educação Durkheim observa que a sociedade atua sobre o indivíduo com o poder da Coerção (pressão), e que existe uma Consciência Coletiva que age como um equalizador das ações, motivando as pessoas do grupo social a se comportarem ou pensarem de maneiras parecidas, definindo o que é normal, moral ou imoral. Durkheim caracterizava a sociedade por tipos diferentes de solidariedade, que considerava como um fator de transformação social: Consciência Coletiva: conjunto de crenças e dos sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma sociedade que formam um sistema determinado com vida própria (Durkheim, APUD COSTA, 1997). A sociedade que atuava antes do capitalismo, que era baseada nos laços familiares e na religiosidade, nas tradições, na partilha do conhecimento e com as mesmas crenças. Como exemplo temos as sociedades indígenas e pré-capitalistas. Solidariedade Mecânica: Característica do capitalismo, da modernidade, em que o trabalhador se especializa, exige formação escolar e as relações provocam independência da Consciência Coletiva. Solidariedade Orgânica: 28 Sociologia da Educação Para estudar a sociedade, Durkheim deixou evidente que seu objeto de estudo eram os Fatos Sociais. Os Fatos Sociais apresentam características como a exterioridade, a generalidade e a universalidade. Então, comportamentos, ações, costumes, regras, leis e tradições que estão evidentes na sociedade são considerados Fatos Sociais. Os fatos sociais são exteriores ao indivíduo, quando chegamos ao meio social eles já estão prontos e devem ser analisados, medidos, comparados com neutralidade, independentes do que pensamos sobre determinado acontecimento. Considerar a imparcialidade na análise social é fundamental para que se tenha resultados com caráter científico. Por exemplo, a língua falada por uma determinada sociedade, a maneira como se realizam a prática educativa, as cerimônias de casamento, o vestuário, as moradias, as moedas e as leis. Estes elementos já estão cristalizados na sociedade para serem seguidos, não dependem só de um sujeito, é geral, normal, universal, estão presentes em todos os grupos, e devem ser seguidos por todos, para que exista a harmonia, e são considerados primordiais para se promover o desenvolvimento social. Fato Social: É toda maneira de agir, fixa ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior, que é geral na extensão de uma sociedade dada, apresentando uma existência própria independente das manifestações individuais que possa ter (Durkheim, APUD COSTA, 1997). Pense nisso! Você já percebeu que, em um grupo social, quando uma pessoa tem opções diferenciadas dos costumes e tradições, quando não está de acordo com os poderes estabelecidos pela sociedade, muitos têm um olhar de censor sobre ela? 29 Sociologia da Educação Segundo Durkheim, é importante que exista a união, um modo parecido de pensar e agir entre os grupos sociais, para que se mantenha a ordem e a disciplina. Denominou a força que atua na sociedade de Coesão. Assim, a Sociologia era o caminho para os problemas sociais da época, conhecendo a sociedade, poderíamos agir sobre ela, em busca da normalidade, sem que existissem conflitos. Dentre os clássicos da sociologia, Durkheim é o pensador que mais se dedicou a escrever sobre Educação. Afirmava que a Educação contribuiria para manter a ordem social. Que a Educação tem o papel de reordenar a sociedade e afastar os conflitos tão comuns na sociedade moderna. A harmonia e a homogeneidade social se estabelecem e se perpetuam através da Educação. O sistema de crenças, normas e valores já está pronto na sociedade, mas necessita de um encaminhamento para incorporá-lo. Durkheim identifica a Educação como o elemento facilitador da incorporação dos comportamentos nos grupos sociais, o caminho da socialização dos jovens. Quanto mais eficiente é a ação educativa, melhor o desenvolvimento da comunidade. Portanto, para ele, “o homem é produto da sociedade”. Sabe qual era o caminho proposto para atingira normalidade e harmonia social? A EDUCAÇÃO! ATENÇÃO: “O homem é produto da sociedade, produto do meio”. Você se lembra de já ter ouvido ou falado essa frase nas conversas informais, fora de qualquer debate científico? Então, saiba que essa ideia se concretizou com os estudos de Émile Durkheim. 30 Sociologia da Educação Para Durkheim, a ação do educador e da Educação é determinante para formar o homem de acordo com os modelos e padrões “desejados” pela sociedade, acatando as leis, regras e normas. Esta ação educativa deve ser laica, obrigatória, pública e sem a interferência do Estado; promover a homogeneidade e harmonia social, difundindo uma moral integradora (coesão social) que levará ao progresso, sem a necessidade dos conflitos sociais (lembra-se de Karl Marx – Teoria do Conflito?). Portanto, a Educação é o caminho da socialização, do ordenamento das relações e do progresso. A sociedade não poderia existir sem que houvesse em seus membros certa homogeneidade, a educação perpetua e reforça essa homogeneidade, fixando de antemão, na alma da criança, certa similitudes essenciais, reclamadas pela vida coletiva (DURKHEIM, “A educação como Processo Socializador: Função Homogeneizadora e Função Diferenciadora”. In: PEREIRA, L. e FORACCHI, M. Educação e Sociedade, São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1972). Atividades 1. Reflita sobre as atuações educacionais ao longo da história e, partindo da sua reflexão, identifique: a. Como funcionam os mecanismos de coerção social? b. Tomando como base as suas experiências educacionais e/ou observações sobre a prática educativa, dê um exemplo de uma situação em que a coerção social é praticada. 2. Quais diferenças existem entre os processos que envolvem a coerção e a coesão escolar na atualidade? 31 Sociologia da Educação 3. Marx elaborou uma teoria crítica do capitalismo, demonstrando que a sociedade capitalista é dividida em classes sociais com interesses opostos. Reflita sobre esses interesses, registrando o que você apreendeu sobre o assunto. 4. Ao se afirmar que a teoria de Max Weber envolve uma sociologia da ação social, estamos dando destaque para os propósitos que os agentes sociais atribuem às suas ações num determinado meio. Comente como as propostas de Weber interferem no processo educacional. 32 Sociologia da Educação Identificar elementos de resistência cultural e transformação social no processo de constituição do fenômeno educativo; Identificar as características principais da educação como um processo de equalização social; Identificar as características principais da concepção de educação como fator de reprodução social. Ciclo 02 Unidade II – Interpretação e Análise Sociológica do Fenômeno Educacional Objetivos da Unidade Plano de Estudos II 33 Sociologia da Educação É importante destacar que você, ao se inserir em um estudo superior, principalmente em um que estabelece a formação profissional de professores, está adentrando nas categorias intelectuais de reflexão sobre os contextos sociais ligados à sistematização das práticas em sociedade. Assim, como um trabalhador da educação, você se especializará no sentido de ofertar a sua força de trabalho em prol da melhoria intelectual de uma determinada comunidade. Enfim, é esse o assunto fundamental desta Unidade, a discussão sobre o papel da educação, o lugar e o tempo em que ela se concretiza, com mediações tangíveis que se estabelecem no reconhecimento da existência das diferenças sociais e culturais vigentes em determinados espaços. Porém, não podemos deixar de reconhecer que existem relações de desigualdades sociais, que permitem a alguns povos/classes exercerem a dominação sobre outros, tornando o processo educativo um instrumento que gera tais desigualdades. Assim, a discussão que se segue tangenciará as práticas educativas laborais, muitas vezes permeadas por ações docentes que podem estar, na realidade, legitimando as condições em que a dominação é exercida, o que se configura como a fraqueza da educação. Convido- o(a) a adentrar nessas discussões, pois são de fundamental importância para a sua base formativa. Vamos lá! Vamos enveredar-nos pelos assuntos? Já refletiu sobre isso? Já dimensionou que você é formador de opiniões, de estruturações sociais? 34 Sociologia da Educação 2.1 Sociedade, educação e processos de trabalho Se lhe questionarem: o que é educação? O que você responderia? Figura 1: Educação, uma resposta? Fonte: Design Unis EaD Refletiu? Registrou suas considerações? Bom, é importante reconhecer que essa questão não é simples, pois demanda que tenhamos uma vivência sobre os processos para considerarmos os fatores que essa questão implica. Pois muitos passam anos na prática educativa e não chegam a um conceito. Assim, nossa tarefa nesta Unidade é discutir os propósitos que envolvem a prática educativa em sociedade, como uma ação que se estabelece na instituição escolar, tendo como agente dessas práticas as ações docentes, ações que envolvem um trabalho - um fazer. Mas, para que possamos compreender a divisão que o trabalho possui, é necessário compreendermos as caracterizações da divisão do trabalho apregoadas por Marx e Durkheim. Nesse sentido, convido-o(a) a se aprofundar nesse assunto com o texto indicado como leitura complementar: TEIXEIRA, Aurenice da Mota . A educação e seus reflexos na divisão social do trabalho - Revista Magistro - ISSN: 2178-7956 . Vol. 8 Num.2, 2013. Disponível em: http://publicacoes.unigranrio.edu.br/index.php/magist ro/article/viewFile/2102/999, acessado em 22.04.2016. http://publicacoes.unigranrio.edu.br/index.php/magistro/article/viewFile/2102/999 http://publicacoes.unigranrio.edu.br/index.php/magistro/article/viewFile/2102/999 35 Sociologia da Educação Reconhecer que a escola, desde que passou a ser reivindicada para todos, começou a ser vista como um direito do cidadão e um dever do estado. Uma educação formal, que concentra o ensino de conteúdos específicos, organizados em um currículo, em um tempo determinado, sequencial, com avaliações, notas, aprovações, reprovações, certificados e diplomas para aqueles que completam determinados níveis de escolarização. Esse novo modo de produção passou a exigir trabalhadores cada vez mais qualificados para o exercício de funções cada vez mais complexas. Para que você possa aprofundar um pouco mais nessas ideias, sugerimos que leia o seguinte artigo: É importante que você compreenda que, nas relações da formação social, os modos de produção capitalista possuem diversidades, vejamos: GUEDES, Maria Denise. Educação e Formação Humana: a contribuição do pensamento de Marx para a análise da função da educação na sociedade capitalista contemporânea. Disponível em: acessado em 13.04.2016 O capitalismo passou a ser o modo de produção dominante na maior parte do mundo. Entretanto, não extinguiu a produção artesanal e a manufatura. Ele as modificou e as submeteu à lógica do mercado que impôs no mundo todo. O que caracteriza a grande indústria, além da divisão técnica do trabalho e do uso crescente da maquinaria, é a submissão do trabalhador à máquina e ao dono dos meios de produção. Capitalismo no modo de produção http://www.unicamp.br/cemarx/anais_v_coloquio_arquivos/arquivos/comunicacoes/gt5/sessao4/Maria_Denise_Guedes.pdf http://www.unicamp.br/cemarx/anais_v_coloquio_arquivos/arquivos/comunicacoes/gt5/sessao4/Maria_Denise_Guedes.pdfhttp://www.unicamp.br/cemarx/anais_v_coloquio_arquivos/arquivos/comunicacoes/gt5/sessao4/Maria_Denise_Guedes.pdf 36 Sociologia da Educação Durkheim considera a divisão do trabalho de uma forma distinta da visão marxista, ele considera que a sociedade se estabelece no sentido do consenso, e perguntava: como a ordem e a estabilidade social são possíveis? E como a educação deverá estar a seu serviço? Marx faz uma severa crítica a essa divisão do trabalho, porque ela não permite a todos os trabalhadores desevolverem suas potencialidades. Ele atribuía grande importância tanto ao trabalho manual quanto ao trabalho intelectual. O grande problema, para ele, era que, na sociedade capitalista, aqueles que se ocupam do trabalho manual estão impedidos de se dedicarem ao trabalho intelectual. Era necessário, portanto, superar as condições adversas que impediam os trabalhadores de refletirem sobre suas condições de existência. Crítica ao processo de trabalho Essa é a visão Marxista do processo educacional. Mas e a visão de Durkheim? Como esse sociólogo via as relações sociais e educacionais em seu tempo? 37 Sociologia da Educação E considera o seguinte: Educação é o mesmo que socialização e tem por objeto formar o ser social, isto é, tornar o ser egoísta que somos ao nascer em um sujeito socialmente ajustado. Toda criança deseja que o mundo seja seu. É através da educação que ela aprende a conviver na sociedade, reconhecendo o outro. Esse ser social é produto da coerção exercida pela sociedade, que tende a moldar a criança à sua imagem, "pressão de que tanto os pais, quanto os mestres não são senão representantes e intermediários" (DURKHEIM, 1990, p. 5). Esse pensador atribuía à escola uma importância fundamental, por dois motivos principais: por um lado, caberia à escola desenvolver aptidões individuais, permitindo aos indivíduos se adequarem à divisão do trabalho. E, por outro lado, relaciona a importância da escola no processo de socialização, criando e difundindo ideias que reforçam as estruturas da sociedade. Educação como formador do ser social Durkheim vê a sociedade como um conjunto de fatos sociais integrados. Fatos sociais e as instituições exercem sobre o indivíduo uma coersão exterior. Assim, a família, Igreja, escola e Estado são instituições que, através dos seus intermediários ou mediadores - Pais, pregadores, professores e governo - impõem-se sobre os indivíduos, moldando-os à sua imagem. Todas as instituições são socializadoras. E socializar, segundo Durkheim, é fazer com que os indivíduos partilhem as ideias e as normas vigentes em uma sociedade. Educação como uma integração de Fatos Sociais 38 Sociologia da Educação Bem, a resposta para essa questão é bastante simples! Toda essa discussão tem como propósito a sua preparação, para que, posteriormente, você possa compreender que os professores devem ser sujeitos sociais do processo educativo, interferindo, assimilando, modificando, criando, interagindo com tudo o que se manifesta em sua volta, desenvolvendo um compromisso de conhecer a realidade a qual pertencem e se inserem, observando e participando da sua construção, evolução e transformação. Em síntese Durkheim acreditava que a sociedade seria mais beneficiada pelo processo educativo. Para ele, "a educação é uma socialização da jovem geração pela geração adulta". E quanto mais eficiente for o processo, melhor será o desenvolvimento da comunidade em que a escola esteja inserida. Nessa concepção durkheimiana - também chamada de funcionalista -, as consciências individuais são formadas pela sociedade. Ela é oposta ao idealismo, de acordo com o qual a sociedade é moldada pelo "espírito" ou pela consciência humana. "A construção do ser social, feita em boa parte pela educação, é a assimilação pelo indivíduo de uma série de normas e princípios - sejam morais, religiosos, éticos ou de comportamento - que baliza a conduta do indivíduo num grupo. O homem, mais do que formador da sociedade, é um produto dela", escreveu Durkheim. Texto adaptado de: http://revistaescola.abril.com.br/formacao/criador- sociologieducacao-423124.shtml, acessado em 24.04.2016. Você deve estar se perguntando: por que conhecer todos esses processos que envolvem questões econômicas e políticas, não é mesmo? 39 Sociologia da Educação Figura 2: Metas e educação: Fonte: Design EaD em Pixton.com Olhares e análises desta realidade social nos impulsionam, despertando um sentimento de pertencimento. Lembrando que a incompletude do ser nunca se esgota, pois encontramo-nos em constante processo de aprendizagem, como já dizia Freire, faz-se necessário que o homem entenda a sua relação com o mundo, este que o circunda, ou seja, o homem é um ser de relações e “[...] não só de contatos, não só está no mundo, mas com o mundo. [...].” (FREIRE, 1989, p.39). Assim, pode-se concluir que somente “o ser humano é um ser de relações num mundo de relações [...]”, a sua presença no mundo implica uma presença que é “um estar com, e dessa forma compreende um permanente defrontamento com o mundo.” (Idem, p. 39) 40 Sociologia da Educação É nesse contexto de envolvimento com o mundo que o processo de aprendizagem surge e que variadas facetas dos saberes sociais somam-se para dar fundamentação às estruturas da sociedade. Dentre essas estruturas, encontramos as fundamentações sociológicas, que são importantes para que o professor possa investigar, analisar, conhecer, refletir, questionar, comparar, selecionar informações, estabelecer relações, encontrar caminhos e diretrizes. A Educação, portanto, tornou-se mais um dos caminhos que buscamos para superar este estágio que é caracterizado pelos indicadores vitais (fome, miséria, doenças), econômicos (renda per capta), políticos (corrupção) e sociais (violência, trabalho infantil e escravo), que nos classificam como subdesenvolvidos. Assim, é importante destacar que, desde os tempos remotos, o homem busca explicações sobre a sociedade. No início, essas respostas eram mitológicas; depois, filosóficas e teológicas; no Século XIX, surge uma ciência específica para explicar o fenômeno social – é a Sociologia. Mas, voltemos à nossa questão: “a educação precisa de respostas!” Podemos considerar que existem tantos tipos de educação quantas forem as sociedades existentes. Sabemos que a sociedade capitalista atual é marcada por profundas desigualdades, em que os interesses políticos e econômicos são predominantes. Portanto, a resposta para o processo educacional é uma ação que promova a formação social de nossos alunos, para que eles possam ter condições de refletir sobre a sua própria condição de vida. Enfim, ao encerrarmos este subcapítulo, é importante que você compreenda que a divisão social do trabalho, seja nas ideias de Marx ou de Durkheim, é inerente ao processo organizativo social e que não há sociedade em que, de alguma forma, o trabalho não seja dividido, mesmo que de forma rudimentar. Sempre encontramos classificações como trabalho masculino/feminino; trabalho urbano/trabalho rural; trabalho mental/trabalho intelectual, etc. Assim, a divisão do trabalho ocorre no processo produtivo, isto é, a fabricação de um produto ocorre em etapas bem definidas, e cada pessoa ou grupo se encarrega da realização de uma tarefa específica. Dessa maneira, nos aprofundaremos mais sobre essas considerações no subitem a seguir. 41 Sociologia da Educação 2.1.1 A Evolução do Capitalismo e a Educação Para estabelecermos as relações entre Capitalismo e Educação, é importante conhecermos os fundamentos que estruturaram esse sistema econômico.O sistema Capitalista surgiu no Século XIV, com o renascimento comercial e urbano (acumulação primitiva), mas se fortaleceu com a Revolução Industrial, por volta de 1755 (Inglaterra – energia do carvão – vapor), e solidificou-se no Século XIX com a II Revolução Industrial, (Inglaterra, França, Alemanha, EUA - Energias: vapor, petróleo e elétrica). Nesta fase, o sistema passa a ser orientado pelas ideias de Adam Smith. Essas ideias se denominaram Liberalismo Econômico. Por que é importante estabelecer essa “ponte”? Lembre-se de que, na Unidade inicial, destacamos as questões do subdesenvolvimento e suas relações com a Educação, porque esse debate está atual. Educação e desenvolvimento estão sempre sendo relacionados. Mas, o que se percebe é que, principalmente em países subdesenvolvidos, os privilégios políticos e econômicos das classes dominantes se estenderam à Educação, e que, nas crises, as diferenças econômicas, políticas e sociais se acentuaram. Para compreendermos essa relação, que tal conhecermos um pouco mais sobre o Capitalismo? 42 Sociologia da Educação Segundo Lakatos, é: Adam Smith- 1723-1790. Nasceu na Escócia. Fundador da ciência econômica e defensor do liberalismo econômico. Investigou sobre as causas da riqueza das nações e desenvolveu ideias sobre a divisão do trabalho, função da moeda e a ação dos bancos. Sua mais famosa obra é “A Riqueza das Nações”. As ideias liberais orientaram o sistema capitalista até 1929, quando ocorre a crise econômica nos Estados Unidos, desencadeada pela superprodução de mercadorias, pela recuperação da Europa na pós Primeira Guerra, pela falta de mercados consumidores e a consequente queda dos preços dos produtos. A crise provoca a Quebra da Bolsa de Valores de Nova York, deflagrando também a crise econômica e social, com desempregos, falências, miséria e corrupção, repercutindo em todo o mundo capitalista. [...] doutrina segundo a qual, para os fenômenos econômicos, existe uma ordem natural, cuja tendência visa ao equilíbrio livre do jogo da concorrência e da não interferência do Estado. Este não deve exercer funções industriais ou comerciais, nem intervir nas relações econômicas entre as pessoas, classes e nações. Aconselha a competição totalmente livre” (1999. P.335 Liberalismo Econômico Compreenda um pouco mais sobre as consequências da crise econômica de 1929 para o Brasil. Acesse:http://historiadomundo.uol.com.br/idade- contemporanea/crisede29.htm http://historiadomundo.uol.com.br/idade-contemporanea/crisede29.htm http://historiadomundo.uol.com.br/idade-contemporanea/crisede29.htm 43 Sociologia da Educação A recuperação da economia americana ocorreu a partir de 1930, com o New Deal, que foi fundamentado nas ideias do pensador inglês John Maynard Keynes – política que se denominou Keynesianismo. O governo americano passou a intervir na Economia, regulamentando os sindicatos, controlando a produção e as atividades na Bolsa de Valores, criando frentes de trabalho com obras públicas (como a construção de pontes e estradas, trabalhos de saneamento urbano) e fornecendo subsídios aos fazendeiros. Essas séries de ações políticas, econômicas e sociais contribuíram para a recuperação da Economia, que ainda vai contar com o impacto da II Guerra Mundial (1939 – 1945). Após a guerra, os planos americanos de ajuda econômica aos países europeus (Plano Marshall) e asiáticos (Plano Colombo) favoreceram para a volta da estabilidade, permitindo que os Estados Unidos eclodissem como potência mundial. Seu expansionismo se acentua a partir desta época, impondo suas ideologias política, econômica e social, que passam a ser modelo para o mundo capitalista, criando uma rede de dependência ao dólar, que se tornou a moeda de referência internacional. Na 2ª Guerra, os EUA tiveram seu território preservado, sem destruições (contrário da Europa, África e Japão), fato que também contribuiu para sua evolução econômica. A partir da década de 50, o “american way of life”, o jeito americano de viver, com tecnologia, modernidade e prosperidade, passou a ser modelo para as sociedades capitalistas. E também seu modelo de intervenção do Estado nas questões econômicas e sociais, que recebe o nome de política do bem estar social, pois as questões como educação, saúde, aposentadoria e moradia serão melhor atendidas pelo Estado. Esta política recebe o nome de Estado do Bem- Estar Social – Welfare [...] A força do dólar que passa a ter a mesma credibilidade e convertibilidade que o ouro, torna-se moeda corrente das transações internacionais. Em 1944, os Acordos de Bretton Woods fixam as regras do novo sistema monetário e financeiro internacional. (MAGNOLI,1996,p.43). 44 Sociologia da Educação State -, foi um período de conquistas das garantias dos direitos sociais dos trabalhadores. O Capitalismo consolidado, aumento dos empregos e dos salários. O Estado atendendo às questões sociais como saúde, moradia, previdência e educação. Só que alguns países aproveitaram esta fase e investiram no crescimento econômico e no desenvolvimento humano, tecnológico e social. Outros não se preocuparam com as questões estruturais e, consequentemente, as crises futuras do Capitalismo atingiriam com mais intensidade essas sociedades. E foi exatamente isso que ocorreu. Em 1973, acontece a crise do petróleo. Atinge a economia dos países industrializados, dependentes dessa fonte de energia, e o modelo de políticas públicas, provocando, além da crise econômica, uma crise social, com desemprego, falências, miséria, inflação e queda na arrecadação de impostos. Todo o “amparo” que o Estado dispensava a esses segmentos sociais foi reformulado, os benefícios revistos, amenizados ou extintos. Surge, então, uma nova proposta de política econômica, que afirmava que o Estado não deve e não pode “abraçar” a sociedade, fato que, segundo os conservadores, provocava um desequilíbrio nas contas do Estado. Este deveria se ausentar ou minimizar sua presença nas questões sociais, cortando benefícios e privatizando as empresas públicas. É a política do Neoliberalismo que foi colocada em prática. Inicialmente, no Chile, em 1973, no governo de Augusto Pinochet; na Inglaterra por Margareth Thatcher em 1979; nos Estados Unidos por Ronald Reagan em 1980. Na sequência, outros países seguiram esses exemplos e adotaram o modelo liberal. 45 Sociologia da Educação Segundo Anderson, Neoliberalismo é: Com essa política, o mercado deve estar acima do Estado. As questões sociais, como a educação, saúde, estradas, transportes, moradias, saneamentos, serão organizados e conduzidos segundo os interesses do mercado. Muitos analisaram, questionaram, alertaram, criticaram, elaboraram e efetivaram propostas, com diferenciados métodos, na tentativa de um projeto social em que a Educação promoveria o desenvolvimento de todas as capacidades, principalmente a conscientização do homem como sujeito do processo histórico. [...] fenômeno distinto do simples liberalismo clássico. Nasceu logo depois da II Guerra Mundial, na região da Europa e da América do Norte, onde imperava o capitalismo. Foi uma reação teórica e política veemente contra o Estado intervencionista e de bem estar (Seu texto de origem é "O Caminho da Servidão", de Friedrich Hayeck, escrito em 1944. (1995. P.09) Neoliberalismo Você deve ter observado que a análise que se faz sobre o Capitalismo sempre converge para as questões sociais, entre elas a Educação. Assim, destacamos que sociólogos, educadores e filósofos não ficaram imunes ao processo e às consequências das novas medidas econômicas, políticas e sociais. 46 Sociologia da Educação 2.1.2 Capitalismoe Educadores Críticos Você deve de se lembrar... Lá no início da apresentação para a disciplina, quando comentamos que a educação é um desafio e como é cada vez mais ampla a sensação de crise, atribuindo-se à educação a responsabilidade pela solução das crises com as quais diversos países convivem. Em verdade, a sociologia da Educação é apenas uma entre as várias ciências da educação que apoiam as reflexões sobre as transformações necessárias para o âmbito educacional, como você terá oportunidade de verificar ao longo do seu curso. Grosso modo, podemos dizer que todas as ciências da educação procuram conhecer melhor os mecanismos de funcionamento da escola, para propiciar novos meios de intervenção. As relações que se estabelecem entre os grupos sociais e no interior de cada um desses grupos motivaram análises, comparações e explicações sobre as mais variadas questões, tais como as práticas políticas, econômicas e religiosas. Com as transformações tecnológicas, as inovações e as revoluções dos Séculos XVIII e XIX, fez-se necessária uma maneira diferente de explicar o comportamento social fundado em valores e práticas diferentes da sociedade medieval, considerando que a Filosofia e a Teologia não conseguiam respostas para as questões da sociedade moderna. Currículos, programas, projetos, incentivos, materiais, tecnologias, métodos e salários, diferenciam também essa divisão no ensino. A pergunta que todas fazem é: como é possível fazer do conhecimento um instrumento de modificação das práticas pedagógicas? 47 Sociologia da Educação Mas não faltaram “vozes” a se levantar contra essa divisão que já ocorria nas classes sociais e se apresentava cada vez mais acentuada no ensino. Marx, no Século XIX, elabora a crítica ao Capitalismo e despertou para a exploração do homem e a importância da Educação na evolução social. Afirma que “a transformação educativa deve ocorrer paralelamente à revolução social” (2004.p.121). Defende a Educação pública e gratuita, de qualidade e sem privilégios. Sua teoria socialista foi colocada em prática em alguns países que conseguiram um bom nível de desenvolvimento no setor educacional. Na Itália, Antonio Gramsci (1891-1937), opositor ao fascismo, escreve, na prisão, Cadernos do Cárcere, onde reflete e critica a Educação dividida entre o ensino clássico para a elite e o ensino profissional para a classe trabalhadora. Acreditava que a educação era o caminho para a transformação. A escola deve ter papel fundamental na conscientização dos direitos e deveres e promover o que Gramsci denomina de humanismo socialista, determinando as novas relações entre o “trabalho intelectual e o trabalho industrial” em toda vida social. Você já observou essa realidade em seu meio social? Que essas afirmações estão presentes em nossas discussões sobre Educação? Alguns países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento apresentam características que refletem as demandas sociais, como um baixo IDH – Índice de Desenvolvimento Humano -, o que se revela diretamente na Educação, influenciando seu financiamento, seus métodos e privilégios, mantendo uma ordem social compatível com os interesses da elite. (...) Escola única inicial de cultura geral, humanística, formativa, que saiba dosar justamente o desenvolvimento da capacidade de trabalhar manualmente (tecnicamente, industrialmente) e o desenvolvimento das capacidades de trabalho intelectual (MANACORDA, 2002). 48 Sociologia da Educação Gramsci criticava a escola burguesa, elitista, dividida em duas frentes, a escola clássica para os dominantes e a profissional para os trabalhadores; defende a escola unitária, em que a formação intelectual e profissional estavam juntas. Considera que a disciplina era fator importante para a formação do homem, mas nega toda ação autoritária. Partindo dessas considerações gerais, podemos pontuar que, no Brasil, existem educadores e sociólogos que contribuíram para as reflexões, questionamentos e análises da realidade social brasileira. Dentre eles, Carlos Rodrigues Brandão, Dermeval Saviani, Paulo Freire e Florestan Fernandes desenvolveram propostas e métodos para efetivação da Educação como ato político, de conscientização e de libertação. Paulo Freire, em especial, foi e é uma grande personalidade para os processos educacionais, nasceu em Recife, Pernambuco, em 1921, foi professor de História e Filosofia da Educação. Presidiu a Comissão Nacional de Cultura Popular e o Plano Nacional de Alfabetização de Adultos. Em 1964, foi exilado no Chile. Quando voltou, lecionou na PUC - São Paulo - e foi Secretário da Educação de São Paulo (1989-1991). Reflita como as considerações de Gramsci são atuais! Suas ideias têm norteado as reformas educacionais não só na Europa, mas em várias partes do mundo! Principais obras: Educação como prática da Liberdade, Pedagogia do Oprimido, Pedagogia da Esperança, Educação e Mudança. Faleceu em 1997. A educação como prática da dominação, como vem sendo objeto desta crítica, mantendo a ingenuidade dos educandos, o que pretende, em seu marco ideológico (nem sempre percebido por muitos dos que a realizam), é indoutriná-los no sentido de sua acomodação ao mundo da opressão (Pedagogia do Oprimido, 1987, p. 66). 49 Sociologia da Educação Em sua crítica sobre Política e Educação, destaca a importância da alfabetização de jovens e adultos, contesta a educação bancária, depositária, que considera o aluno um sujeito despossuído de qualquer conhecimento e, cabe ao professor, que sabe tudo, ser o único responsável pela formação do aluno que, além de saber ler (Eva viu a uva) e escrever, deve ter compreensão do meio em que o sujeito (Eva) está inserido, e quem produz, lucra e consome as mercadorias (uvas). A Pedagogia Libertadora, com o método para a educação de trabalhadores, propõe desenvolver a conscientização e valorizar aqueles que “não tem voz”, mas que são sujeitos no processo histórico. 2.2 Sociedade, educação e a estrutura da sociologia da educação Não posso ser professor se não percebo cada vez melhor que, não poder ser neutra, minha prática exige de mim uma definição. Uma tomada de posição. Decisão. Ruptura. Exige de mim que escolha entre isto e aquilo. Não posso ser professor a favor de quem quer que seja e a favor de não importa o quê. Não posso ser professor a favor simplesmente do Homem ou da Humanidade, frase de uma vaguidade demasiado contrastante com a concretude da prática educativa. Sou professor a favor da decência contra o despudor, a favor da liberdade contra o autoritarismo, a favor da autoridade contra a licenciosidade, da democracia contra a ditadura de direita ou esquerda. Sou professor a favor da luta constante contra qualquer forma de discriminação, contra a dominação econômica dos indivíduos ou das classes sociais. Sou professor contra a ordem capitalista vigente que inventou esta aberração: a miséria na fartura. Sou professor a favor da esperança que me anima apesar de tudo. Sou professor contra o desengano que me consome e imobiliza (1996. p.115) Paulo Freire. 50 Sociologia da Educação Ao considerarmos todos os aspectos que envolvem a emergência e consolidação do modo capitalista e de transformações por ele trazidos, sobretudo, no século XIX, desencadeamos uma série de questões sociais. Essa questão ia dos conflitos de interesses entre as novas classes (burguesia e proletariado) até o problema da miséria dos trabalhadores, o processo de urbanização, a rapidez das transformações, etc. A Sociologia emergiu como uma ciência voltada para a tentativa de compreender a natureza dessas transformações, além disso, ela pretendia também trazer uma resposta aos