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AULA 3 EVOLUÇÃO E COMPORTAMENTO HUMANO Prof. Leonardo Martins A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 2 INTRODUÇÃO Um dos temas mais interessantes no estudo de evolução e comportamento é a cooperação. Afinal, como surgiu a tendência entre os seres humanos (e mesmo entre outros animais) de cooperarem entre si? Não seria mais interessante, nos termos do indivíduo, ser “egoísta” e aproveitar para si mesmo o máximo de recursos disponíveis no ambiente, sem compartilhar? Mesmo que o comportamento de cooperação tenha surgido entre os hominídeos (a família em que o Homo sapiens está incluído), por que aqueles mais “egoístas” entre eles não levaram vantagem (por se beneficiarem da cooperação alheia sem cederem algo de sua parte), de modo a terem aumentadas suas chances de sobrevivência e reprodução, tendo essa característica sido favorecida na seleção natural, extinguindo a cooperação? É o que veremos nesta aula, além de discutir os impactos atuais da questão. TEMA 1 – COOPERAÇÃO E EVOLUÇÃO O dramaturgo alemão Bertold Brecht uma vez escreveu: “De que serve a bondade, se os bons são imediatamente liquidados, ou são liquidados aqueles para os quais são bons? [...] Em vez de serem apenas bons, esforcem-se para criar um estado de coisas que torne possível a bondade ou melhor: que a torne supérflua!” (citado por Yamamoto; Leitão; Eugênio, 2017, p. 101). Essa é uma das primeiras dúvidas que surge quando pensamos no comportamento de cooperação em termos evolutivos. Como ele persistiu, em vez de ser suplantado pelo comportamento concorrente óbvio do egoísmo? De início, temos de recordar alguns pontos fundamentais. Como vimos em outras aulas, a evolução das espécies está ligada à transmissão de genes que surgem por processos naturais de mutação. Em outras palavras, os genes naturalmente apresentam variações, e essas variações trazem implicações na vida dos indivíduos e dos grupos na forma de comportamentos, emoções e pensamentos que esses genes passam a possibilitar. Conforme as características desses ambientes em que os indivíduos estão inseridos, esses comportamentos, emoções e demais manifestações são menos ou mais favoráveis à sua sobrevivência e reprodução ali, o que aumenta ou diminui a probabilidade de transmissão desses genes e manifestações associadas. Após milhares ou milhões de anos, essa maior probabilidade de transmissão de determinados A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 3 genes e características acaba por exercer um efeito de seleção natural, de modo que as gerações muito adiante acabam por ter aquela característica de modo largamente predominante ou exclusivo. Lembremos também que a transmissão de determinada característica pode ocorrer por ela estar associada a outra característica adaptativa, “pegando carona” em sua transmissão, além da transmissão acidental por deriva genética. Vimos também que os genes não determinam nosso comportamento de modo absoluto, como se fôssemos máquinas respondendo a um programa de computador, mas inauguram um leque de possibilidades de comportamentos e outras manifestações dos organismos, sendo que os comportamentos específicos dos indivíduos dentro desse leque resultarão da cultura e de sua própria subjetividade. Crédito: Jacob Lund/Shutterstock. Isso posto, o que nos interessa nesta aula é a cooperação entendida enquanto tendência de comportamento possibilitada pela seleção natural. A discussão é focada, portanto, não na existência de algo como o “gene da cooperação”, mas com o leque de possibilidades de comportamentos ligados, de alguma forma, à cooperação (sendo que a escolha concreta e cotidiana de cada organismo sobre cooperar ou não em dada situação dependerá da cultura em que está inserido e de sua subjetividade individual). O mesmo vale para os demais A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 4 temas das próximas aulas (sexualidade, medo, ansiedade, inteligência e tomada de decisão). A questão inicial diz respeito, portanto, à possibilidade de comportamentos cooperativos permitida pelos genes. Por que a evolução não nos impeliu a comportamentos “egoístas”, dado que, de início, parece ser mais vantajoso? Até Darwin (2003/1859), ao pensar nas formigas e abelhas abdicando da reprodução e se arriscando pela comunidade, reconheceu no comportamento da cooperação o mais difícil obstáculo à sua teoria. Embora a evolução seja observada na espécie, a unidade-alvo da seleção natural é o indivíduo. Por isso não faz sentido dizer, com aparente facilidade, que a cooperação é adaptativa porque favorece o grupo. Isso torna bastante estranho que comportamentos os quais diminuam a chance de um indivíduo passar adiante os genes estejam presentes ao longo da evolução da sua espécie (Yamamoto; Leitão; Eugênio, 2017, p. 105). Crédito: Viesinsh/Shutterstock. Percebemos, entretanto, de modo inequívoco, a presença de comportamentos cooperativos em larga escala não apenas na espécie humana, mas em outros animais também, especialmente mamíferos, envolvendo o custo de tempo e recursos, e até riscos de vida. Não estamos nos referindo apenas ao comportamento de heróis isolados ou da colaboração entre indivíduos com parentesco (o que seria mais fácil de compreender em termos evolutivos), mas ao A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 5 fato de que em todas as culturas humanas e entre diversos animais não humanos existe a cooperação entre indivíduos sem vínculo imediato. A tendência é ainda maior quando a cooperação se dá sobre uma criança ou pessoa indefesa (Yamamoto; Leitão; Eugênio, 2017, p. 102). Isso sugere que a evolução possui um papel nisso, como veremos a partir de agora. TEMA 2 – A INTERAÇÃO RECORRENTE E AS FORMAS DE ALTRUÍSMO Esse enigma começa a ser esclarecido quando consideramos que os indivíduos do mesmo grupo interagem de modo recorrente. Isso significa que os comportamentos de cooperação e altruísmo reverberam dentro do grupo de cada indivíduo, gerando consequências que são relevantes à nossa análise. Quando ocorrem benefícios, em contrapartida, ao emissor do comportamento cooperativo, as vantagens acabam por ser mais claras. Contudo, muitas vezes, o emissor do comportamento não recebe a contrapartida direta, caracterizando altruísmo (Yamamoto; Leitão; Eugênio, 2017). Quando a cooperação ocorre entre parentes, como quando se protege descendentes diretos e indiretos, até sacrificando-se a própria vida, ocorre a chamada seleção de parentesco, com clara implicação evolutiva na transmissão dos genes partilhados dentro da família (Hamilton, 1964). Por isso que, quanto maior o grau de parentesco, maior a chance de haver colaboração, pois maior será a parcela de genes compartilhados. Em humanos isso diz das bases biológicas tanto de condutas socialmente reprováveis como nepotismo quanto de outras muito valorizadas, quanto autossacrifício (Yamamoto; Leitão; Eugênio, 2017, p. 106). Já quando a cooperação ocorre com indivíduos sem grau de parentesco, temos outros fenômenos a serem considerados. Entre eles, estão o chamado altruísmo recíproco, quando há expectativa de alguma retribuição, e a reciprocidade indireta, quando a retribuição é esperada do grupo ou de alguém que teve conhecimento do comportamento cooperativo inicial (Yamamoto; Leitão; Eugênio, 2017). Nos dois casos, a retribuição é o que confere vantagem reprodutiva ao indivíduo que coopera. Nesses casos, cabe lembrar que a existência de retribuições diretas ou indiretas, assim como a sobrevivência e reprodução de parentes não precisam ser considerados conscientemente peloemissor do comportamento. Quando os genes possibilitam a manifestação desse tipo de comportamento, a mera A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 6 ocorrência dessas formas de retribuição já é suficiente para que ocorra a seleção natural desses genes. Por isso os indivíduos que agem de modo cooperativo não precisam ter em vista recompensa; o comportamento pode emergir naturalmente quando a demanda surge no ambiente. Outro detalhe importante é que a grande maioria dos comportamentos cooperativos e altruístas não impõe custos derradeiros ao indivíduo que o emite. Ou seja, geralmente o indivíduo continua vivo e apto à reprodução após a emissão de um comportamento cooperativo, podendo se beneficiar mais facilmente de reciprocidade direta ou indireta. Outro aspecto fundamental do comportamento cooperativo e à retribuição direta é que eles demandam as capacidades cognitivas que vimos na aula anterior em relação ao cérebro social. Os indivíduos engajados em comportamentos cooperativos com retribuição direta precisam reconhecer os indivíduos mais dispostos a emitirem as contrapartidas (Yamamoto; Leitão; Eugênio, 2017, p. 107), o que envolve de memória à teoria da mente. Vemos tal comportamento em humanos como uma das bases da sociedade, havendo o posterior desenvolvimento de todo um conjunto de normas sociais para regular essa propensão impulsionada pela seleção natural. Figura 3 – O ser humano é um ser social Crédito: Pikoso.Kz/Shutterstock. A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 7 Aqui emerge outro aspecto fundamental do comportamento cooperativo, a aprovação social, que é necessária para a compreensão da reciprocidade indireta. O comportamento cooperativo que ocorre na impossibilidade de retribuição direta pode possuir um efeito colateral de enorme impacto na seleção natural: a reputação do indivíduo, que tende a atrair a cooperação de outros indivíduos do grupo (mesmo que estes não tenham se beneficiado da cooperação inicial). A reputação acaba por atuar em, ao menos duas frentes: os indivíduos se mostram confiáveis e eventuais parceiros para retribuições diretas futuras (Yamamoto; Leitão; Eugênio, 2017), e sua generosidade pode inspirar comportamentos de imitação. Experimentos empíricos e simulações verificaram que os mencionados benefícios da conduta cooperativa sem retribuição direta superam os custos para o indivíduo (Wedekind; Braithwaite, 2002). O leitor atento talvez tenha se perguntado: e se o que é selecionado é nossa aptidão a responder a normas de grupo e não tanto a tendência natural a cooperar? Em outras palavras, cooperamos naturalmente ou o fazemos apenas porque as possibilidades de cooperação emergem em contextos grupais com princípios para os quais somos mais sensíveis? Enquanto alguns estudos sugerem que crianças são naturalmente egoístas, outros encontram evidências de comportamento cooperativo bastante precoce, ao redor dos dois anos de idade, sugerindo sua base genética (em vez de aprendizado de normas sociais) (Brownell; Ramani; Zerwas, 2006). Para alguns autores, como Geary (2010), o choro coletivo de bebês com apenas dois dias de vida (quando bebês choram em resposta a outros choros ao redor) seriam precursores da empatia a ser desenvolvida com o amadurecimento cognitivo dos indivíduos, com o surgimento da teoria da mente etc. Os resultados sugestivos de “egoísmo” de crianças mais jovens em alguns experimentos que envolvem cooperação podem significar não a ausência de propensões naturais à cooperação, mas a falta de maturidade cognitiva para fazê- lo. Nesse sentido, é fundamental recordarmos que diversas capacidades de ordem natural possuem períodos críticos de manifestação e diferentes necessidades em relação à maturação do organismo. Como analogia, diversos pássaros possuem aptidão genética para voar, mas precisam que outras etapas do seu desenvolvimento ocorram primeiro para que tal aptidão se manifeste, como o crescimento do corpo e das penas. No entanto, o comportamento cooperativo infantil também parece ser muito sensível a variáveis contextuais, de modo que a A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 8 aparente propensão à cooperação é, no mínimo, catapultada pela compreensão quanto a normas sociais básicas (Yamamoto; Leitão; Eugênio, 2017, p. 110). Em suma, novos estudos são necessários para lapidarmos as conclusões. É natural que alguns conhecimentos sobre assuntos tão difíceis estejam mais consolidados que outros, pois a ciência avança com relativa lentidão. TEMA 3 – MORALIDADE INATA? Um dos pilares do comportamento cooperativo é a noção de moralidade. Esse tema é excepcionalmente vasto para que possamos trazê-lo aqui com profundidade que lhe faça jus. Entretanto, não podemos tratar do tema da cooperação sem recordar alguns resultados interessantes de pesquisas que sugerem algo bastante controverso: aspectos mais basais da moralidade podem ser inatos. A rigor, esse ponto não deveria constituir total surpresa quando recordamos o que vimos em aula anterior sobre o “cérebro social”. Se diversos aspectos de nosso feitio cognitivo constitutivo da espécie são favoráveis à edificação de sociedades e culturas, alguma noção de equilíbrio de oportunidades também poderia sê-lo. Não há dúvida que noções concretas de moralidade e ética têm origem social e psicológica: a definição concreta do que é certo e errado depende da época e do lugar em que estamos, além de nossa história de vida, nossas experiências etc. Mas não é disso que se trata esta seção. Referimo-nos ao que tornariam possíveis essas noções de certo e errado específicas: o alicerce cognitivo inato que torna tais noções “pensáveis”. O leitor atento deve recordar o que foi apresentado anteriormente sobre a genética não ser determinista; ela, em verdade, possibilita diversos comportamentos específicos ao redor de um núcleo comum. Em outras palavras, eventuais tendências morais inatas permitiriam ampla variação de comportamentos morais específicos e adequados a cada época e local. Vejamos, portanto, se há evidências sugestivas da existência de tais propensões. Experimentos com crianças muito jovens (Nelson, 1980; Smetana, 1983) têm sido feitos utilizando jogos de cooperação (em que o indivíduo pode obter vantagens sendo egoísta, mas em que também pode ajudar os demais participantes) e outras variações, demonstrando a existência de noções básicas de equilíbrio de oportunidades, senso de propósito e de punição (ou seja, um rudimento de senso de justiça e igualdade). Algo semelhante tem surgido mesmo A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 9 em estudos com animais não humanos, como macacos, pássaros e cães (Bekoff, 2004). Assim, há décadas evidências empíricas se acumulam a favor da existência de aspectos inatos de formas básicas de senso moral sobre os quais influências culturais incidirão posteriormente para lapidá-las e direcioná-las (uma revisão ampla desse campo pode ser vista, por exemplo, em Hauser, 2006). Por fim, faz sentido o estudo de outras espécies de animais (em vez de fazê-lo apenas com humanos) porque, como vimos na primeira aula, humanos partilham com os outros animais ancestrais comuns ao longo de uma colossal e antiquíssima árvore genealógica. TEMA 4 – OS GRANDES DEUSES Pesquisas mostram que mesmo crianças relativamente novas, ao redor de 8 anos de idade, aprendem rapidamente a ser trapaceiras em experimentos voltados a estudar cooperação. Elas compreendem a importância da colaboração e até mesmo incentivam as demais crianças do experimento a colaborar, mas criam mecanismos para secretamente não colaborar e se beneficiar da colaboração alheia (Yamamoto;Leitão; Eugênio, 2017, p. 110-111). Essa tendência precoce, com diversas pesquisas em adultos e em culturas diversas a confirmá-las, sinaliza essa ambiguidade humana: somos genética e culturalmente sensíveis à cooperação, ao mesmo tempo em que somos capazes de, a depender das circunstâncias, burlar o sistema e trapacear. Uma linha de pesquisa bastante interessante a esse respeito ocorre em uma área acadêmica ainda pouco conhecida no Brasil, chamada Ciência Cognitiva da Religião. Trata-se do estudo cognitivo do comportamento religioso das pessoas com alicerce na teoria da evolução, mas com contribuições de diversas ciências (Pyysiäinen, 2013). Essa é uma das áreas que têm prestado mais contribuições interessantes no estudo da cooperação humana, ao investigar o quanto questões ligadas à religião afetam esse tipo de comportamento. Cabe fazer a ressalva de que a Ciência Cognitiva da Religião não estuda o sobrenatural em si. Seu objeto de estudo é o ser humano. Portanto, as conclusões desse campo sobre os motivos pelos quais as pessoas se comportam dessa ou daquela maneira diante da religião não significam que Deus não exista ou algo do gênero. Isso posto, um dos tipos mais interessantes de estudo da área relaciona o tamanho dos agrupamentos humanos e as características dos deuses que ali são A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 10 cultuados. Estudos sugerem que o ser humano é capaz de gerenciar cognitivamente uma rede não muito grande de pessoas conhecidas. Quando o grupo humano é muito maior que isso, começa a se tornar difícil dedicar a devida atenção a todos, manter amizade, saber em quem confiar, vigiar o comportamento alheio a fim de identificar quem viola as normas do grupo etc. Diante do crescimento populacional humano ao longo dos milênios, sociedades se desenvolveram e atingiram um número de indivíduos vivendo juntos muito maior que aquele com o qual nossa cognição consegue lidar diretamente. Isso forçou o desenvolvimento de diversos recursos culturais para fazer o papel que os indivíduos não conseguem fazer sozinhos, isto é, monitorar uns aos outros, controlar comportamentos desviantes e manter a coesão social. Entre esses recursos está a religião. Os dados históricos e antropológicos sugerem que as formas iniciais de culto religioso não possuíam tal função de amplo controle social, mas serviam para intermediar, de modo mais próximo, a relação entre as pessoas e as divindades locais. Contudo, nos grupos pequenos e muito antigos, tratava-se de deuses menos poderosos e pouco interessados na conduta moral das pessoas. Eram deuses responsáveis “apenas” pela colheita, ou pelo vento, ou pela pesca etc. Apenas quando os grupos humanos começaram a crescer para além do ponto em que o monitoramento do comportamento alheio e o estímulo à cooperação poderiam ser feitos diretamente e com eficácia, começaram a ser cultuados os chamados “Big Gods” (os grandes deuses), que eram descritos como dotados de atributos como onisciência e onipotência, interessados na conduta moral das pessoas, e dispostos a punir os maus e premiar os bons. Assim, os grandes deuses começaram a cumprir funções de controle social que os membros dos grupos não eram cognitivamente capazes de fazer sozinhos, como estimular comportamentos cooperativos e punir os trapaceiros. A emergência e a consolidação do culto a esses grandes deuses tornou, então, possível que os grupos finalmente crescessem de modo potencialmente irrestrito (Henrich et al., 2010; Norenzayan, 2013). A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 11 Figura 4 – Cerâmica de figura negra – Centauro Crédito: Matrioshka/Shutterstock. Como tais estudos são relativamente recentes, muito ainda há que se aprofundar a respeito, e divergências quanto a diversos detalhes ainda persistem. O ponto que nos interessa, contudo, é que a tendência humana à cooperação possui pilares evolutivos de modo aparentemente tanto direto quanto indireto. Por um lado, como vimos, somos capazes de demonstrar comportamentos cooperativos desde muito cedo e de maneira espontânea, seja com parentes, seja com desconhecidos, com ganhos diretos ou indiretos na passagem de nossos genes. Tendências semelhantes, nas devidas proporções, existem em animais não humanos. Tudo isso sugere uma dimensão genética e evolutiva para o comportamento cooperativo. Por sua vez, o desenvolvimento evolutivo do cérebro social, que vimos em aula anterior, possibilitou diversas sofisticações cognitivas como o reconhecimento de pares, o estabelecimento de laços de confiança, a detecção de trapaças, a capacidade de simbolizar e de desenvolver linguagem complexa etc. Todos esses elementos, quando conjugados, possibilitam a construção e a manutenção da cultura, o que inclui novos mecanismos favoráveis à cooperação, entre eles a religião. TEMA 5 – SINALIZAÇÃO CUSTOSA Para finalizarmos nosso estudo sobre evolução e cooperação, especialmente à luz do que acabamos de abordar sobre a relação disso com religião, temos um dos temas mais trabalhados em Ciência Cognitiva da Religião: A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 12 a sinalização custosa. Esse conceito diz respeito às demonstrações reiteradas de comprometimento dos indivíduos com seu grupo por meio de sacrifícios de diversas ordens. Tais sacrifícios sinalizam aos demais membros do grupo o quanto cada indivíduo está comprometido com a coletividade, pois essas condutas representam um custo individual em favor do grupo; por isso o termo sinalização custosa (Maraldi; Martins, 2017). A forma com que a sinalização custosa é tradicionalmente observada e estudada se dá na religião, mais especialmente nos rituais religiosos, embora sinalizações custosas possam acontecer em qualquer arranjo grupal em que a lógica de se sacrificar pelo grupo ocorra. O ponto que nos interessa no momento é que a sinalização custosa se traduz cotidianamente em comportamentos de cooperação e altruísmo, alguns dos quais representam desafios explicativos para quem tenta compreendê-los estando fora dos contextos religiosos em que ocorrem. Entre os exemplos mais comuns está a doação significativa de dinheiro e de outros bens para as lideranças religiosas, a dedicação de tempo e de energia para a realização de obras religiosas (distribuição comunitária de alimentos, trabalhos voluntários etc.). Mais uma das concepções equivocadas que este texto pretende contornar é justamente em relação a esse ponto. Muitos críticos não sistemáticos de condutas religiosas como doar dinheiro as consideram, nos bate-papos do dia a dia e nas redes sociais, como sinônimo de estupidez e “lavagem cerebral”. Contudo, quando consideramos que a sinalização custosa ocorre, em algum nível, em todas as culturas humanas, que existem vantagens diretas e/ou indiretas para aqueles que a praticam, e que tais vantagens possivelmente desempenharam um papel evolutivo com lógica semelhante ao que vimos sobre os tipos de altruísmo (Tema 2 desta aula), tais comportamentos passam a fazer algum sentido. Isso não significa que não haja componentes culturais e pontos dignos de problematização nessas práticas, mas apenas que seu alicerce se evidencia sustentado em aspectos evolutivos ligados ao “cérebro social” que vimos anteriormente. A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 13 Figura 5 – Sinalização custosa mostra engajamento Crédito: Welcomia/Shutterstock. A sinalização custosa mostra aos membros do grupo não somente o engajamento, mas a confiabilidade dos indivíduos, tanto favorecendo a coesão e a sobrevivência do grupo quanto possibilitando, em retorno, as formas de altruísmo direto e indiretoque vimos anteriormente (Maraldi; Martins, 2017). Ou seja, a passagem dos genes dos colaboradores tende, ao menos historicamente e a longo prazo, a ser favorecida pelo retorno que a comunidade dá, seja um retorno subjetivo e afetivo (que também é importante para o sucesso dos indivíduos a longo prazo), seja material (como ocorre em uma religião cristã bastante conhecida no Brasil, em que os membros da comunidade se organizam para ajudar determinado membro a construir sua casa). Inclusive quanto mais sinalizações custosas o indivíduo pratica, maior tende a ser seu retorno da comunidade (Bulbulia; Sosis, 2011; Soler, 2012). Neste momento, dois pontos são fundamentais. Temos de recordar que a tendência a essas condutas cooperativas, quando influenciada por aspectos evolutivos, não necessita ser processada conscientemente. O aspecto consciente e deliberado da ação pode até ocorrer; contudo, isso não é uma condição para que a cooperação se dê. A experiência de cooperar e de se doar pode tranquilamente ser vivenciada enquanto um desejo espontâneo e livre de A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 14 expectativas de recompensa (que, mesmo assim, tendem a ocorrer em algum nível). O segundo ponto é que determinado comportamento de origem evolutiva, mesmo tendo sido adaptativo ao longo da história da espécie, pode não mais sê- lo em dado momento ou cultura. Isso significa que, mesmo sedimentado em algo que fez sentido evolutivo, determinado comportamento de colaboração pode ser, em dado contexto ou época, prejudicial ao sujeito e mesmo à transmissão de seus genes espalhados pela família. Assim, a sinalização custosa e as demais formas de cooperação que vimos não podem nos servir de pretexto para a ausência de senso crítico a respeito quando houver motivos para tal. O estudo evolutivo da cooperação, por ser relativamente recente, ainda tem muito a se desenvolver. Trata-se de um tema particularmente difícil, porque uma fração proporcionalmente muito pequena de comportamentos tende a deixar evidências concretas para seu estudo (como registros escritos ou filmados), o que é ainda mais verdadeiro quando retrocedemos no tempo. Portanto, seu estudo é tipicamente indireto quando nos debruçamos sobre a cooperação há centenas ou milhares de anos. Atualmente podemos fazer observações de campo em diversos contextos sociais, além de experimentos de laboratório com tarefas que envolvam cooperação. De qualquer modo, as limitações metodológicas desses estudos acabam por ficar claras, o que exige passos lentos para a verificação das hipóteses e a consolidação das descobertas. Mas não podemos perder de vista as descobertas já feitas, que se sustentam em evidências de que humanos e outros animais se engajam em condutas cooperativas levados por diversas variáveis do contexto e de sua própria subjetividade, mas alicerçados em capacidades cognitivas e comportamentais originadas, direta ou indiretamente, na seleção natural. A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 15 REFERÊNCIAS BEKOFF, M. Wild justice and fair play: Cooperation, forgiveness, and morality in animals. Biology and Philosophy, v. 19, n. 4, p. 489-520, 2004. BROWNELL, C. A.; RAMANI, G. B.; ZERWAS, S. Becoming a social partner with peers: Cooperation and social understanding in one‐and two‐year‐olds. Child development, v. 77, n. 4, p. 803-821, 2006. BULBULIA, J.; SOSIS, R. Signalling theory and the evolution of religious cooperation. Religion, v. 41, n. 3, 2011, p. 363-388. DARWIN, C. A origem das Espécies. 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