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AULA 5 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
EVOLUÇÃO E 
COMPORTAMENTO 
HUMANO 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Leonardo Martins 
 
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INTRODUÇÃO 
Quando cotidianamente se pensa em evolução e comportamento humano, 
um dos primeiros pontos que nos vêm à cabeça é a inteligência do Homo sapiens. 
É comum ouvirmos que nossa espécie se tornou a dominante no planeta por ser 
a mais inteligente, em uma aparente variação da ideia de senso comum, segundo 
a qual “o mais forte domina o mais fraco”. 
Contudo, vimos em outros momentos que evolução não tem relação direta 
com ser mais forte ou mais inteligente, e sim, com ser mais adaptado ao ambiente 
específico, por tempo suficiente para que os genes relacionados a essas 
adaptações se espalhem pela população. Então, somente faz sentido pensar na 
inteligência como fruto da evolução, se ela tiver propiciado vantagens adaptativas 
importantes para os indivíduos humanos ao longo de muitos milhares de anos. É 
o que veremos a seguir. Vimos anteriormente que o cérebro humano, em toda a 
sua complexidade, consome aproximadamente 20% da energia do organismo 
(nos dias mais tranquilos), o que representa muito, se considerarmos que se trata 
de um órgão que representa menos de 2% do peso corporal. Sendo assim, as 
complexas e exigentes funções cognitivas humanas somente fazem sentido 
evolutivo se esse consumo de energia valer mesmo a pena para a sobrevivência 
da espécie. Em outras palavras, se os benefícios forem tipicamente maiores que 
os custos. 
Embora a relação entre inteligência e evolução não corresponda à visão do 
senso comum, o cérebro humano evoluiu, desenvolvendo diversas capacidades, 
entre elas a inteligência, tão estudada por diversas ciências, como a psicologia, a 
neurociência, entre outras. Por isso, este texto se dedica a explorar a relação entre 
inteligência e evolução, apresentando o que as pesquisas dizem a respeito e 
desfazendo equívocos comuns, em sintonia com o que vem sendo feito em outras 
discussões. 
TEMA 1 – INTELIGÊNCIA 
Existem diversos modos de se definir inteligência, alguns mais específicos, 
outros mais abrangentes. Uma definição comum e mais especifica entende 
inteligência como a capacidade de se resolver problemas novos ou sob novos 
ângulos. Isso porque problemas antigos e conhecidos pelo indivíduo ou pela 
cultura em que ele se insere não demandariam propriamente inteligência, uma 
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vez que sua solução já se encontra disponível, bastando repeti-la mesmo “sem 
pensar”. Definições mais amplas, contudo, envolvem diversas dimensões que 
comporiam a inteligência, os chamados fatores, cada qual em um domínio 
cognitivo específico (Primi, 2003). 
Um exemplo eloquente e importante de modelo de inteligência composta 
de fatores é a chamada Teoria de Cattell-Horn-Carroll (CHC) das Habilidades 
Cognitivas (Schneider; McGrew, 2012). Fruto da união de diferentes pesquisas e 
perspectivas, o modelo CHC compreende a inteligência como composta de dez 
fatores (Primi, 2003). 
 
Créditos: Billion Photos/Shutterstock. 
1.1 - Inteligência fluida (IF) 
A inteligência fluida (IF) diz respeito à capacidade de solução de problemas 
novos e pouco dependentes do conhecimento prévio. Ou seja, definições muito 
estritas de inteligência, tal qual vimos antes, acabam por constituir apenas um 
fator em modelos mais complexos. A IF inclui a capacidade de relacionar ideias, 
desenvolver conceitos abstratos, conceber relações de causa e efeito, entre 
outras associadas. 
1.2 - Inteligência cristalizada (IC) 
A inteligência cristalizada (IC) tem relação com o que é aprendido ao longo 
da vida em dada cultura e com a aplicação desse aprendizado em situações 
práticas, incluindo capacidades ligadas ao raciocínio e à cultura gerais. A IC 
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possui relação direta com a linguagem e o conhecimento declarativo (ideias e 
conceitos) e de raciocínio (como fazer coisas, como desenvolver e aplicar 
tecnologia etc.). 
1.3 - Conhecimento quantitativo 
Trata-se do “estoque”, do “arquivo” em si de conhecimentos declarativos e 
quantitativos, numéricos, além da capacidade de manipulá-los. 
1.4 - Leitura e escrita 
É a dimensão ligada à compreensão e produção de expressão escrita, o 
que vai do básico (formular expressão dessa natureza) até a compreensão sutil e 
sofisticada dos meandros dessa comunicação. 
1.5 - Memória de curto prazo 
Capacidade para manter determinadas informações por um curto período de 
tempo, para uso e recuperação consciente. 
1.6 - Processamento visual 
Capacidade de processar cognitivamente imagens visuais, o que tem a ver 
com imaginá-las, operar com elas, retê-las, transformá-las, reconhecê-las etc. O 
processamento visual afeta diversos domínios da vida prática, entre eles, apenas 
como exemplo, é impossível ser um bom jogador de xadrez sem um bom 
processamento visual, pelo qual diversas configurações mentais das posições das 
peças são comparadas e analisadas. 
1.7 - Processamento auditivo 
É o equivalente sonoro do exposto sobre as imagens visuais, incluindo o 
processamento cognitivo da linguagem oral e de nuances de produções musicais 
complexas. 
 
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1.8 – Capacidade, armazenamento e recuperação da memória de longo 
prazo 
Como o extenso nome diz, tal é a capacidade de armazenar, manter e 
trazer à tona conteúdos de memória dos mais variados tipos e formas. A memória, 
em termos simples, funciona por associação, de modo que essa capacidade não 
tem relação com um registro frio e sem contexto das informações, mas com a 
conexão entre os diferentes aprendizados e experiências ao longo da vida. 
1.9 - Velocidade de processamento 
Esse aspecto guarda relação com a capacidade de manter a atenção e 
realizar rapidamente tarefas simples e automatizadas, com a maior velocidade 
possível. Em outras palavras, a velocidade de processamento tem a ver com a 
sustentabilidade de processos cognitivos ao longo de um intervalo de tempo. 
1.10 - Rapidez de decisão 
De modo diferente do item anterior, a rapidez de decisão se relaciona com 
a velocidade com que se toma decisões em situações complexas ou que 
requerem processos cognitivos complexos. 
Como o modelo CHC não é o único a descrever a inteligência (embora seja 
um dos mais importantes e influentes; lembrando que ele também inclui 
teorizações sobre detalhes de seu funcionamento e porquês), tal referencial é aqui 
citado para ilustrar a complexidade e a diversidade de aptidões cognitivas cuja 
dimensão evolutiva exploraremos. Outros referenciais são possíveis e podem ser 
compreendidos dentro desse mesmo crivo evolutivo. Por exemplo, a tão falada 
inteligência emocional tem suas dimensões razoavelmente distribuídas dentro do 
que vimos em outros momentos e também do modelo CHC (como a capacidade 
de processar emoções, músicas, nuances comunicacionais, empatia etc.). Já o 
popular modelo das inteligências múltiplas, de Howard Gardner (1994) considera 
as seguintes inteligências (pretensamente autônomas): linguística, musical, 
lógico/matemática, visual/espacial, corporal/cinestésica, interpessoal, 
intrapessoal e naturalista. Tudo isso já sinaliza direções iniciais para o tema 
central de nosso curso, como veremos a seguir. 
 
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TEMA 2 – INTELIGÊNCIA E EVOLUÇÃO 
O caráter multifacetado da inteligência, se combinado ao que estudamos 
anteriormente sobre diversos aspectos cognitivos, nos sinalizam caminhos iniciais 
para compreender a participação da evolução. Diversasdimensões da inteligência 
possuem relações diretas ou indiretas com temas antes tratados. Entre eles, o 
reconhecimento e o manejo saudável das emoções, o reconhecimento das 
nuances tanto emocionais quanto comunicacionais e de intencionalidade nos 
outros indivíduos, a capacidade de aprender com a experiência, tudo isso pode 
ser aqui resgatado para adiantar parte de nossa compreensão do tema desta aula. 
Para estimular esse nosso processo de articulação dos conteúdos já vistos, a 
seleção natural de características cognitivas que se deu no contexto dos 
agrupamentos humanos (o que vimos nas partes tanto sobre o “cérebro social” 
quanto sobre sexualidade e seleção de parceiros) nos proporcionou diversos 
elementos que hoje reconhecemos como parte da inteligência, desde a “cognição 
fria” da solução de problemas até as nuances sutis que permitem a formação de 
laços afetivos, como a memória de experiência com os diferentes membros do 
grupo, a capacidade de se conectar afetivamente e estabelecer comunicação 
complexa etc. (Boyd; Richerson, 2009; Varella et al., 2017). 
 
Créditos: Esteban de Armas/Shutterstock. 
Ao mesmo tempo, além das habilidades específicas que fazem parte desse 
domínio, é fundamental que consideremos a inteligência global e multifacetada 
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em seus aspectos evolutivos. A maioria dos estudos sobre evolução humana em 
escala mais ampla defende que nosso sucesso como espécie dominante no 
planeta se deveu a nosso intelecto superior (Varella et al., 2017). Tal conclusão é 
bastante compreensível, pois os ganhos que uma inteligência progressivamente 
sofisticada (e o desenvolvimento concomitante e associado do neocórtex) 
possibilitam para a sobrevivência e para a transmissão direta e indireta dos genes 
são bastante óbvios: obstáculos e desafios do ambiente podem ser superados 
com mais facilidade, parcerias podem ser desenvolvidas em favor da soma de 
esforços, o aprendizado com base em experiências passadas é otimizado, a 
antecipação mental das ações aumenta sua eficácia etc. 
A inteligência tipicamente mais sofisticada, não apenas dos humanos, mas 
dos primatas em geral, em relação a outras espécies costuma ser explicada de 
duas formas básicas (que não precisam ser mutuamente excludentes): o ambiente 
em que primatas evoluíram apresentou problemas especiais em termos das 
capacidades mentais para lidar com eles e obter alimento; e a vida em grupo para 
primatas requer tais habilidades mentais (Cartwright, 2002). 
Em relação a esse último ponto, complementando o que vimos sobre o 
“cérebro social” e sobre cooperação, anteriormente, as capacidades cognitivas 
necessárias para interagir eficientemente com outros indivíduos e viver em grupo 
incluem a competência para manipular e enganar os demais, para obter 
vantagens sem pagar o devido preço e sem ter comprometido o status de membro 
cooperativo do grupo. Essa é a chamada “hipótese da inteligência maquiavélica”, 
que ajudaria a explicar (não apenas em humanos, lembremos, mas em outros 
primatas) a consolidação de algumas das mais sutis, complexas e diferenciais 
aptidões cognitivas (Cartwright, 2002, p. 135). Enganar pede habilidades notáveis 
como a capacidade de se fazer representações mentais, de desenvolver teoria da 
mente, de antever relações de causa e consequência, entre outras, que são parte 
fundamental da inteligência complexa. As evidências sugerem (embora ainda 
exista alguma controvérsia) que apenas chimpanzés, orangotangos, gorilas e 
humanos conseguem manipular a mente de outros indivíduos para induzir crenças 
falsas sobre a realidade e, assim, manipulá-los, revelando componentes 
fundamentais da inteligência mais complexa, como a teoria da mente (Byrne, 
1995; Cartwright, 2002). 
 
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TEMA 3 - A HIPÓTESE DO COZIMENTO 
Uma das direções mais interessantes para compreender o surgimento e a 
consolidação da inteligência diferencial da espécie humana possui relação 
justamente com a solução de problemas ligada à busca por alimentos, mas em 
uma direção ainda mais específica. 
Segundo essa hipótese, a chamada “hipótese do cozimento”, o gênero 
Homo (do qual o Homo sapiens restou como seu representante mais bem-
sucedido) emergiu graças, em grande parte, ao domínio do fogo para proteção e, 
mais ainda, para o cozimento dos alimentos. Além da proteção evidente que o 
fogo possibilitou, facilitando a sobrevivência na escuridão e sendo utilizada como 
arma, o cozimento de alimentos otimizou a absorção de calorias e nutrientes, de 
modo que os indivíduos obtinham quantidades ótimas de energia em menos 
tempo e com digestão mais fácil. Essa digestão facilitada se reflete também em 
outro aspecto: comparado a outros grandes primatas, os humanos não apenas 
possuem cérebros grandes, mas entranhas menores, sugerindo que a digestão 
foi otimizada (Cartwright, 2002, p. 143) 
Tudo isso pesou na balança dos custos e benefícios de uma inteligência 
complexa, pendendo-a na direção de ser adaptativo um cérebro tão capaz e tão 
exigente energeticamente. Sem o fogo, a digestão mais lenta e menos eficiente 
na absorção de calorias e nutrientes tornaria muito custosa a emergência e a 
manutenção de um cérebro como o nosso, talvez tornando menos adaptativa ou 
mesmo desadaptativa nossa inteligência (Wragham, 2010). 
 
Créditos: Borkin Vadim/Shutterstock. 
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4 - INTELIGÊNCIA DE GÊNERO? 
Recentemente, temos visto a emergência do termo “inteligência de gênero”, 
especialmente no contexto corporativo. Como há diversos usos do termo, há 
diferentes definições. Usualmente, contudo, há um núcleo comum nessas 
definições: a noção de que mulheres e homens pensam de modo 
significativamente diferente, com potencialidades distintas que devem ser 
combinadas em equipes profissionais marcadas pela diversidade e pela busca da 
excelência. 
A diversidade e a representatividade feminina são temas de imensa e 
indubitável importância, devendo ser valorizados. Contudo, como nosso tema é a 
inteligência sob perspectiva evolucionista, e como não é raro que conceitos 
científicos sejam usados cotidianamente de formas distorcidas e mesmo 
pseudocientíficas, cumpre-nos perguntar: a inteligência feminina e masculinas são 
mesmo muito diferentes? E o modo como os diferentes sexos evoluíram no Homo 
sapiens justificam algo como “inteligência de gênero”? Ao longo das discussões, 
vimos algumas diferenças importantes entre os sexos na seleção de parceiros, as 
quais afetam dimensões da cognição (como o modo que cada um tipicamente 
processa mentalmente a aparência de representantes do sexo oposto). Mas e 
com relação a diferenças específicas no domínio da inteligência? 
Como vimos, os principais modelos descritivos e explicativos sobre 
inteligência a descrevem como composta de múltiplos fatores. Mas isso não 
significa que haja diversos tipos independentes e autônomos de inteligência, como 
é muito dito em conversas cotidianas. Embora se reconheça a existência de 
muitas habilidades humanas, que não são medidas por testes de inteligência 
convencionais, a separação de parte dessas habilidades em inteligências distintas 
não possui grande amparo científico. Ao contrário, elas apresentam diversas 
relações entre si, o que bate de frente com sua pretensa independência (McGreal, 
2013). Isso combina com o que o modelo fatorial de inteligência costuma 
identificar como fator g, ou inteligência geral, o qual também é medido nos testes. 
O que nos interessa no momento é que diversos estudos, tanto nacionais quanto 
internacionais, não encontram diferenças relevantes entre homens e mulheres em 
relação à inteligência geral (Aluja-Fabregat et al., 2000;Codorniu-Raga; Vigil-
Colet, 2003; Flores-Mendonza et al., 2007; Mackintosh, 1996), sendo essa a 
tendência da literatura científica. 
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Tais resultados são curiosos quando se leva em conta os diferentes ritmos 
de amadurecimento físico entre homens e mulheres, o que levou Lynn (1999) a 
teorizar que tais diferentes ritmos de maturação física também se aplicam à 
cognição. Assim, as diferenças cognitivas apareceriam apenas nas etapas do 
desenvolvimento em que os desenvolvimentos físicos entre os sexos não 
estivesse pareado: não haveria diferenças entre os sexos entre os 6 e 9 anos (pois 
é uma fase em que desenvolvimento dos sexos é parelho), havendo leve 
vantagem para os meninos entre 9 e 10 anos, vantagem para as meninas entre 
11 e 12 anos, com nova fase de vantagem para os meninos a partir dos 15 (Lynn; 
Irwing, 2004). Mas esses resultados mudam conforme os testes utilizados, 
sugerindo um panorama ainda difuso (Flores-Mendonza et al., 2007). 
 
Créditos: Microone/Shutterstock. 
Com relação à avaliação de habilidades cognitivas específicas em 
mulheres e em homens, 
muitos estudos sugerem que as mulheres têm, em média, melhor 
desempenho em tarefas que requerem rápido acesso e uso de 
informação semântica e fonológica, velocidade perceptual e memória 
verbal. Os homens, ao contrário, obtêm melhor desempenho em tarefas 
que exigem raciocínio matemático e científico, orientação espacial e 
transformações viso-espaciais na memória de trabalho (Flores-
Mendonza et al., 2007, p. 499)1 
Como os estudos sobre essas diferenças e semelhanças entre os sexos 
são ainda novos, as discussões propriamente científicas sobre as implicações 
evolutivas disso são apenas especulativas e um tanto estereotipadas. Por 
exemplo, quando se diz que as habilidades femininas mais holísticas possuem 
relação com a aptidão feminina para cuidar da prole e as masculinas são mais 
 
1 Confira também em Codorniu-Roga, Vigil-Colet, 2003; Halpern, 1997; Lubinsk, 2004; Lynn et al., 
2005). 
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associadas com aptidões focais necessárias para caçar e lutar. Como veremos 
daqui a dois parágrafos, a situação não é tão simples. 
Outro domínio da inteligência em que as diferenças entre os sexos são 
reportadas de modo contraditório diz respeito à inteligência emocional. As 
mulheres, contudo, tendem a apresentar resultados mais significativos que 
homens nesse domínio (por exemplo, Sierra, 2013). Isso pode ser explicado de 
diversos modos, entre eles a maior aceitação cultural da expressão emocional em 
mulheres (Gartzia et al., 2012), o que constitui a explicação mais simples. O peso 
maior das fêmeas no cuidado parental (embora tenhamos visto que o cuidado no 
Homo sapiens é biparental) e sua seletividade maior de parceiros podem tê-las 
tornado mais sensíveis à percepção de emoções e outras manifestações sutis da 
prole e de parceiros potenciais, o que acaba sendo aplicável e útil no convívio 
social em geral (Brizendine, 2006). 
Um dos grandes complicadores – senão o maior complicador – no estudo 
comportamental e cognitivo comparativo entre homens e mulheres é justamente 
o viés cultural/histórico. Como homens e mulheres foram, ao longo da história, 
consistentemente expostos a diferentes tipos de oportunidades e expectativas, 
o que é introjetado e reproduzido pelos indivíduos desde muito cedo em suas 
vidas, seus comportamentos e formas de pensar acabam por ser drasticamente 
afetados por esse viés, de modo que se torna difícil reconhecer o que é 
cultural/subjetivo e o que é – eventualmente – inato e de base evolutiva. E, na 
eventualidade de uma diferença que não parece ter base cultural, inaugura-se um 
novo desafio: estabelecer se tais diferenças foram diretamente selecionadas ou 
se são subprodutos de outras características adaptativas. Isso não significa dizer 
que não há diferenças biológicas entre os sexos, passíveis de se refletir na 
cognição. Como vimos, há diferenças, no mínimo, em alguns aspectos 
importantes. O ponto é que pode ser bastante difícil reconhecer a origem de 
muitas das diferenças observadas. 
TEMA 5 – CONCLUSÃO 
O tema da inteligência merece uma conclusão à parte. Ele foi deixado para 
compor uma das aulas finais porque organiza e recorda os temas de aulas 
anteriores, como a evolução do cérebro, a importância do contexto social e da 
convivência em grupo, da busca por parceiros, do uso de ferramentas e de outros 
artifícios para a solução de problemas etc. Todos esses elementos parecem fazer 
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parte do longo processo de evolução da inteligência humana, com evidências 
também presentes em outros primatas, que são parentes evolutivos próximos. 
Cartwright (2002, p. 149) sintetiza todos esses pontos em um esquema de fatores 
que impulsionaram o desenvolvimento da inteligência humana e do tamanho do 
cérebro: 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: Cartwright, 2002. 
O tema da inteligência nos permite também desconstruir outra parcela 
significativa das concepções populares equivocadas (ou “mitos”, na linguagem 
cotidiana) sobre evolução e comportamento humano. 
Mas a complexidade do tema da inteligência (que gera diferentes teorias em 
psicologia, em neurociência e em áreas afins, mesmo quando não nos 
debruçamos sobre o aspecto evolutivo) e a dificuldade de obtermos evidências 
para corroborar as hipóteses evolutivas (já que pensamentos e comportamentos 
ocorridos na pré-história não deixam fósseis para a observação direta) tornam 
muitas dessas conclusões dependentes de evidências indiretas e da coerência de 
seus postulados. Em virtude de tudo isso (e de seus análogos em outras áreas de 
estudo), o conhecimento científico é uma construção lenta e aberta à mudança, 
desde que devidamente fundamentada. E, ao menos por enquanto, o melhor do 
esforço científico aponta para o caráter social, instrumental e multifacetado da 
evolução da inteligência humana. 
 
Dieta 
Crescimento dos 
grupos sociais 
Aumento do 
tamanho do 
cérebro 
Seleção sexual 
Uso de 
ferramentas 
Linguagem 
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