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AULA 5 EVOLUÇÃO E COMPORTAMENTO HUMANO Prof. Leonardo Martins A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 2 INTRODUÇÃO Quando cotidianamente se pensa em evolução e comportamento humano, um dos primeiros pontos que nos vêm à cabeça é a inteligência do Homo sapiens. É comum ouvirmos que nossa espécie se tornou a dominante no planeta por ser a mais inteligente, em uma aparente variação da ideia de senso comum, segundo a qual “o mais forte domina o mais fraco”. Contudo, vimos em outros momentos que evolução não tem relação direta com ser mais forte ou mais inteligente, e sim, com ser mais adaptado ao ambiente específico, por tempo suficiente para que os genes relacionados a essas adaptações se espalhem pela população. Então, somente faz sentido pensar na inteligência como fruto da evolução, se ela tiver propiciado vantagens adaptativas importantes para os indivíduos humanos ao longo de muitos milhares de anos. É o que veremos a seguir. Vimos anteriormente que o cérebro humano, em toda a sua complexidade, consome aproximadamente 20% da energia do organismo (nos dias mais tranquilos), o que representa muito, se considerarmos que se trata de um órgão que representa menos de 2% do peso corporal. Sendo assim, as complexas e exigentes funções cognitivas humanas somente fazem sentido evolutivo se esse consumo de energia valer mesmo a pena para a sobrevivência da espécie. Em outras palavras, se os benefícios forem tipicamente maiores que os custos. Embora a relação entre inteligência e evolução não corresponda à visão do senso comum, o cérebro humano evoluiu, desenvolvendo diversas capacidades, entre elas a inteligência, tão estudada por diversas ciências, como a psicologia, a neurociência, entre outras. Por isso, este texto se dedica a explorar a relação entre inteligência e evolução, apresentando o que as pesquisas dizem a respeito e desfazendo equívocos comuns, em sintonia com o que vem sendo feito em outras discussões. TEMA 1 – INTELIGÊNCIA Existem diversos modos de se definir inteligência, alguns mais específicos, outros mais abrangentes. Uma definição comum e mais especifica entende inteligência como a capacidade de se resolver problemas novos ou sob novos ângulos. Isso porque problemas antigos e conhecidos pelo indivíduo ou pela cultura em que ele se insere não demandariam propriamente inteligência, uma A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 3 vez que sua solução já se encontra disponível, bastando repeti-la mesmo “sem pensar”. Definições mais amplas, contudo, envolvem diversas dimensões que comporiam a inteligência, os chamados fatores, cada qual em um domínio cognitivo específico (Primi, 2003). Um exemplo eloquente e importante de modelo de inteligência composta de fatores é a chamada Teoria de Cattell-Horn-Carroll (CHC) das Habilidades Cognitivas (Schneider; McGrew, 2012). Fruto da união de diferentes pesquisas e perspectivas, o modelo CHC compreende a inteligência como composta de dez fatores (Primi, 2003). Créditos: Billion Photos/Shutterstock. 1.1 - Inteligência fluida (IF) A inteligência fluida (IF) diz respeito à capacidade de solução de problemas novos e pouco dependentes do conhecimento prévio. Ou seja, definições muito estritas de inteligência, tal qual vimos antes, acabam por constituir apenas um fator em modelos mais complexos. A IF inclui a capacidade de relacionar ideias, desenvolver conceitos abstratos, conceber relações de causa e efeito, entre outras associadas. 1.2 - Inteligência cristalizada (IC) A inteligência cristalizada (IC) tem relação com o que é aprendido ao longo da vida em dada cultura e com a aplicação desse aprendizado em situações práticas, incluindo capacidades ligadas ao raciocínio e à cultura gerais. A IC A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 4 possui relação direta com a linguagem e o conhecimento declarativo (ideias e conceitos) e de raciocínio (como fazer coisas, como desenvolver e aplicar tecnologia etc.). 1.3 - Conhecimento quantitativo Trata-se do “estoque”, do “arquivo” em si de conhecimentos declarativos e quantitativos, numéricos, além da capacidade de manipulá-los. 1.4 - Leitura e escrita É a dimensão ligada à compreensão e produção de expressão escrita, o que vai do básico (formular expressão dessa natureza) até a compreensão sutil e sofisticada dos meandros dessa comunicação. 1.5 - Memória de curto prazo Capacidade para manter determinadas informações por um curto período de tempo, para uso e recuperação consciente. 1.6 - Processamento visual Capacidade de processar cognitivamente imagens visuais, o que tem a ver com imaginá-las, operar com elas, retê-las, transformá-las, reconhecê-las etc. O processamento visual afeta diversos domínios da vida prática, entre eles, apenas como exemplo, é impossível ser um bom jogador de xadrez sem um bom processamento visual, pelo qual diversas configurações mentais das posições das peças são comparadas e analisadas. 1.7 - Processamento auditivo É o equivalente sonoro do exposto sobre as imagens visuais, incluindo o processamento cognitivo da linguagem oral e de nuances de produções musicais complexas. A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 5 1.8 – Capacidade, armazenamento e recuperação da memória de longo prazo Como o extenso nome diz, tal é a capacidade de armazenar, manter e trazer à tona conteúdos de memória dos mais variados tipos e formas. A memória, em termos simples, funciona por associação, de modo que essa capacidade não tem relação com um registro frio e sem contexto das informações, mas com a conexão entre os diferentes aprendizados e experiências ao longo da vida. 1.9 - Velocidade de processamento Esse aspecto guarda relação com a capacidade de manter a atenção e realizar rapidamente tarefas simples e automatizadas, com a maior velocidade possível. Em outras palavras, a velocidade de processamento tem a ver com a sustentabilidade de processos cognitivos ao longo de um intervalo de tempo. 1.10 - Rapidez de decisão De modo diferente do item anterior, a rapidez de decisão se relaciona com a velocidade com que se toma decisões em situações complexas ou que requerem processos cognitivos complexos. Como o modelo CHC não é o único a descrever a inteligência (embora seja um dos mais importantes e influentes; lembrando que ele também inclui teorizações sobre detalhes de seu funcionamento e porquês), tal referencial é aqui citado para ilustrar a complexidade e a diversidade de aptidões cognitivas cuja dimensão evolutiva exploraremos. Outros referenciais são possíveis e podem ser compreendidos dentro desse mesmo crivo evolutivo. Por exemplo, a tão falada inteligência emocional tem suas dimensões razoavelmente distribuídas dentro do que vimos em outros momentos e também do modelo CHC (como a capacidade de processar emoções, músicas, nuances comunicacionais, empatia etc.). Já o popular modelo das inteligências múltiplas, de Howard Gardner (1994) considera as seguintes inteligências (pretensamente autônomas): linguística, musical, lógico/matemática, visual/espacial, corporal/cinestésica, interpessoal, intrapessoal e naturalista. Tudo isso já sinaliza direções iniciais para o tema central de nosso curso, como veremos a seguir. A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 6 TEMA 2 – INTELIGÊNCIA E EVOLUÇÃO O caráter multifacetado da inteligência, se combinado ao que estudamos anteriormente sobre diversos aspectos cognitivos, nos sinalizam caminhos iniciais para compreender a participação da evolução. Diversasdimensões da inteligência possuem relações diretas ou indiretas com temas antes tratados. Entre eles, o reconhecimento e o manejo saudável das emoções, o reconhecimento das nuances tanto emocionais quanto comunicacionais e de intencionalidade nos outros indivíduos, a capacidade de aprender com a experiência, tudo isso pode ser aqui resgatado para adiantar parte de nossa compreensão do tema desta aula. Para estimular esse nosso processo de articulação dos conteúdos já vistos, a seleção natural de características cognitivas que se deu no contexto dos agrupamentos humanos (o que vimos nas partes tanto sobre o “cérebro social” quanto sobre sexualidade e seleção de parceiros) nos proporcionou diversos elementos que hoje reconhecemos como parte da inteligência, desde a “cognição fria” da solução de problemas até as nuances sutis que permitem a formação de laços afetivos, como a memória de experiência com os diferentes membros do grupo, a capacidade de se conectar afetivamente e estabelecer comunicação complexa etc. (Boyd; Richerson, 2009; Varella et al., 2017). Créditos: Esteban de Armas/Shutterstock. Ao mesmo tempo, além das habilidades específicas que fazem parte desse domínio, é fundamental que consideremos a inteligência global e multifacetada A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 7 em seus aspectos evolutivos. A maioria dos estudos sobre evolução humana em escala mais ampla defende que nosso sucesso como espécie dominante no planeta se deveu a nosso intelecto superior (Varella et al., 2017). Tal conclusão é bastante compreensível, pois os ganhos que uma inteligência progressivamente sofisticada (e o desenvolvimento concomitante e associado do neocórtex) possibilitam para a sobrevivência e para a transmissão direta e indireta dos genes são bastante óbvios: obstáculos e desafios do ambiente podem ser superados com mais facilidade, parcerias podem ser desenvolvidas em favor da soma de esforços, o aprendizado com base em experiências passadas é otimizado, a antecipação mental das ações aumenta sua eficácia etc. A inteligência tipicamente mais sofisticada, não apenas dos humanos, mas dos primatas em geral, em relação a outras espécies costuma ser explicada de duas formas básicas (que não precisam ser mutuamente excludentes): o ambiente em que primatas evoluíram apresentou problemas especiais em termos das capacidades mentais para lidar com eles e obter alimento; e a vida em grupo para primatas requer tais habilidades mentais (Cartwright, 2002). Em relação a esse último ponto, complementando o que vimos sobre o “cérebro social” e sobre cooperação, anteriormente, as capacidades cognitivas necessárias para interagir eficientemente com outros indivíduos e viver em grupo incluem a competência para manipular e enganar os demais, para obter vantagens sem pagar o devido preço e sem ter comprometido o status de membro cooperativo do grupo. Essa é a chamada “hipótese da inteligência maquiavélica”, que ajudaria a explicar (não apenas em humanos, lembremos, mas em outros primatas) a consolidação de algumas das mais sutis, complexas e diferenciais aptidões cognitivas (Cartwright, 2002, p. 135). Enganar pede habilidades notáveis como a capacidade de se fazer representações mentais, de desenvolver teoria da mente, de antever relações de causa e consequência, entre outras, que são parte fundamental da inteligência complexa. As evidências sugerem (embora ainda exista alguma controvérsia) que apenas chimpanzés, orangotangos, gorilas e humanos conseguem manipular a mente de outros indivíduos para induzir crenças falsas sobre a realidade e, assim, manipulá-los, revelando componentes fundamentais da inteligência mais complexa, como a teoria da mente (Byrne, 1995; Cartwright, 2002). A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 8 TEMA 3 - A HIPÓTESE DO COZIMENTO Uma das direções mais interessantes para compreender o surgimento e a consolidação da inteligência diferencial da espécie humana possui relação justamente com a solução de problemas ligada à busca por alimentos, mas em uma direção ainda mais específica. Segundo essa hipótese, a chamada “hipótese do cozimento”, o gênero Homo (do qual o Homo sapiens restou como seu representante mais bem- sucedido) emergiu graças, em grande parte, ao domínio do fogo para proteção e, mais ainda, para o cozimento dos alimentos. Além da proteção evidente que o fogo possibilitou, facilitando a sobrevivência na escuridão e sendo utilizada como arma, o cozimento de alimentos otimizou a absorção de calorias e nutrientes, de modo que os indivíduos obtinham quantidades ótimas de energia em menos tempo e com digestão mais fácil. Essa digestão facilitada se reflete também em outro aspecto: comparado a outros grandes primatas, os humanos não apenas possuem cérebros grandes, mas entranhas menores, sugerindo que a digestão foi otimizada (Cartwright, 2002, p. 143) Tudo isso pesou na balança dos custos e benefícios de uma inteligência complexa, pendendo-a na direção de ser adaptativo um cérebro tão capaz e tão exigente energeticamente. Sem o fogo, a digestão mais lenta e menos eficiente na absorção de calorias e nutrientes tornaria muito custosa a emergência e a manutenção de um cérebro como o nosso, talvez tornando menos adaptativa ou mesmo desadaptativa nossa inteligência (Wragham, 2010). Créditos: Borkin Vadim/Shutterstock. A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 9 4 - INTELIGÊNCIA DE GÊNERO? Recentemente, temos visto a emergência do termo “inteligência de gênero”, especialmente no contexto corporativo. Como há diversos usos do termo, há diferentes definições. Usualmente, contudo, há um núcleo comum nessas definições: a noção de que mulheres e homens pensam de modo significativamente diferente, com potencialidades distintas que devem ser combinadas em equipes profissionais marcadas pela diversidade e pela busca da excelência. A diversidade e a representatividade feminina são temas de imensa e indubitável importância, devendo ser valorizados. Contudo, como nosso tema é a inteligência sob perspectiva evolucionista, e como não é raro que conceitos científicos sejam usados cotidianamente de formas distorcidas e mesmo pseudocientíficas, cumpre-nos perguntar: a inteligência feminina e masculinas são mesmo muito diferentes? E o modo como os diferentes sexos evoluíram no Homo sapiens justificam algo como “inteligência de gênero”? Ao longo das discussões, vimos algumas diferenças importantes entre os sexos na seleção de parceiros, as quais afetam dimensões da cognição (como o modo que cada um tipicamente processa mentalmente a aparência de representantes do sexo oposto). Mas e com relação a diferenças específicas no domínio da inteligência? Como vimos, os principais modelos descritivos e explicativos sobre inteligência a descrevem como composta de múltiplos fatores. Mas isso não significa que haja diversos tipos independentes e autônomos de inteligência, como é muito dito em conversas cotidianas. Embora se reconheça a existência de muitas habilidades humanas, que não são medidas por testes de inteligência convencionais, a separação de parte dessas habilidades em inteligências distintas não possui grande amparo científico. Ao contrário, elas apresentam diversas relações entre si, o que bate de frente com sua pretensa independência (McGreal, 2013). Isso combina com o que o modelo fatorial de inteligência costuma identificar como fator g, ou inteligência geral, o qual também é medido nos testes. O que nos interessa no momento é que diversos estudos, tanto nacionais quanto internacionais, não encontram diferenças relevantes entre homens e mulheres em relação à inteligência geral (Aluja-Fabregat et al., 2000;Codorniu-Raga; Vigil- Colet, 2003; Flores-Mendonza et al., 2007; Mackintosh, 1996), sendo essa a tendência da literatura científica. A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 10 Tais resultados são curiosos quando se leva em conta os diferentes ritmos de amadurecimento físico entre homens e mulheres, o que levou Lynn (1999) a teorizar que tais diferentes ritmos de maturação física também se aplicam à cognição. Assim, as diferenças cognitivas apareceriam apenas nas etapas do desenvolvimento em que os desenvolvimentos físicos entre os sexos não estivesse pareado: não haveria diferenças entre os sexos entre os 6 e 9 anos (pois é uma fase em que desenvolvimento dos sexos é parelho), havendo leve vantagem para os meninos entre 9 e 10 anos, vantagem para as meninas entre 11 e 12 anos, com nova fase de vantagem para os meninos a partir dos 15 (Lynn; Irwing, 2004). Mas esses resultados mudam conforme os testes utilizados, sugerindo um panorama ainda difuso (Flores-Mendonza et al., 2007). Créditos: Microone/Shutterstock. Com relação à avaliação de habilidades cognitivas específicas em mulheres e em homens, muitos estudos sugerem que as mulheres têm, em média, melhor desempenho em tarefas que requerem rápido acesso e uso de informação semântica e fonológica, velocidade perceptual e memória verbal. Os homens, ao contrário, obtêm melhor desempenho em tarefas que exigem raciocínio matemático e científico, orientação espacial e transformações viso-espaciais na memória de trabalho (Flores- Mendonza et al., 2007, p. 499)1 Como os estudos sobre essas diferenças e semelhanças entre os sexos são ainda novos, as discussões propriamente científicas sobre as implicações evolutivas disso são apenas especulativas e um tanto estereotipadas. Por exemplo, quando se diz que as habilidades femininas mais holísticas possuem relação com a aptidão feminina para cuidar da prole e as masculinas são mais 1 Confira também em Codorniu-Roga, Vigil-Colet, 2003; Halpern, 1997; Lubinsk, 2004; Lynn et al., 2005). A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 11 associadas com aptidões focais necessárias para caçar e lutar. Como veremos daqui a dois parágrafos, a situação não é tão simples. Outro domínio da inteligência em que as diferenças entre os sexos são reportadas de modo contraditório diz respeito à inteligência emocional. As mulheres, contudo, tendem a apresentar resultados mais significativos que homens nesse domínio (por exemplo, Sierra, 2013). Isso pode ser explicado de diversos modos, entre eles a maior aceitação cultural da expressão emocional em mulheres (Gartzia et al., 2012), o que constitui a explicação mais simples. O peso maior das fêmeas no cuidado parental (embora tenhamos visto que o cuidado no Homo sapiens é biparental) e sua seletividade maior de parceiros podem tê-las tornado mais sensíveis à percepção de emoções e outras manifestações sutis da prole e de parceiros potenciais, o que acaba sendo aplicável e útil no convívio social em geral (Brizendine, 2006). Um dos grandes complicadores – senão o maior complicador – no estudo comportamental e cognitivo comparativo entre homens e mulheres é justamente o viés cultural/histórico. Como homens e mulheres foram, ao longo da história, consistentemente expostos a diferentes tipos de oportunidades e expectativas, o que é introjetado e reproduzido pelos indivíduos desde muito cedo em suas vidas, seus comportamentos e formas de pensar acabam por ser drasticamente afetados por esse viés, de modo que se torna difícil reconhecer o que é cultural/subjetivo e o que é – eventualmente – inato e de base evolutiva. E, na eventualidade de uma diferença que não parece ter base cultural, inaugura-se um novo desafio: estabelecer se tais diferenças foram diretamente selecionadas ou se são subprodutos de outras características adaptativas. Isso não significa dizer que não há diferenças biológicas entre os sexos, passíveis de se refletir na cognição. Como vimos, há diferenças, no mínimo, em alguns aspectos importantes. O ponto é que pode ser bastante difícil reconhecer a origem de muitas das diferenças observadas. TEMA 5 – CONCLUSÃO O tema da inteligência merece uma conclusão à parte. Ele foi deixado para compor uma das aulas finais porque organiza e recorda os temas de aulas anteriores, como a evolução do cérebro, a importância do contexto social e da convivência em grupo, da busca por parceiros, do uso de ferramentas e de outros artifícios para a solução de problemas etc. Todos esses elementos parecem fazer A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 12 parte do longo processo de evolução da inteligência humana, com evidências também presentes em outros primatas, que são parentes evolutivos próximos. Cartwright (2002, p. 149) sintetiza todos esses pontos em um esquema de fatores que impulsionaram o desenvolvimento da inteligência humana e do tamanho do cérebro: Fonte: Cartwright, 2002. O tema da inteligência nos permite também desconstruir outra parcela significativa das concepções populares equivocadas (ou “mitos”, na linguagem cotidiana) sobre evolução e comportamento humano. Mas a complexidade do tema da inteligência (que gera diferentes teorias em psicologia, em neurociência e em áreas afins, mesmo quando não nos debruçamos sobre o aspecto evolutivo) e a dificuldade de obtermos evidências para corroborar as hipóteses evolutivas (já que pensamentos e comportamentos ocorridos na pré-história não deixam fósseis para a observação direta) tornam muitas dessas conclusões dependentes de evidências indiretas e da coerência de seus postulados. Em virtude de tudo isso (e de seus análogos em outras áreas de estudo), o conhecimento científico é uma construção lenta e aberta à mudança, desde que devidamente fundamentada. E, ao menos por enquanto, o melhor do esforço científico aponta para o caráter social, instrumental e multifacetado da evolução da inteligência humana. Dieta Crescimento dos grupos sociais Aumento do tamanho do cérebro Seleção sexual Uso de ferramentas Linguagem A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 13 REFERÊNCIAS ALUJA-FABREGAT, A. et al. Sex Differences in General Intelligence Defined as G Among Young Adolescents. Personality and Individual Differences, v. 28, n. 4, p. 813-820, abr. 2000. BOYD, R.; RICHERSON, P. J. Culture and the Evolution of Human Cooperation. Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences, v. 364, n. 1.533, p. 3281-3288, 2009. BRIZENDINE, L. The female brain. Broadway Books, 2006.BYRNE, R. The thinking ape: Evolutionary origins of intelligence. Oxford University Press on Demand, 1995. CARTWRIGHT, J. H. Evolutionary Explanations of Human Behaviour. Routledge, 2002. CODORNIU-RAGA, M. J.; VIGIL-COLET, A. Sex Differences in Psychometric and Chronometric Measures of Intelligence Among Young Adolescents. 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