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Título original: THE MYTHS OF HAPPINESS
© 2013, by Lexikon Editora Digital
Direitos de edição da obra em língua portuguesa adquiridos pela
LEXIKON EDITORA DIGITAL LTDA.
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser
apropriada e estocada em sistema de banco de dados ou processo
similar, em qualquer dorma ou meio, seja eletrônico, de fotocópia,
gravação etc., sem a permissão do detentor do copirraite.
LEXIKON EDITORA DIGITAL LTDA.
Av. Rio Branco, 103 sala 1710 – Centro
20040-005 – Rio de Janeiro – RJ – Brasil
Tel.: (21) 3190 0472 – (21) 2560 2601
www.lexikon.com.br – sac@lexikon.com.br
EDIÇÃO
Beatrice Araújo
REVISÃO
Juliana Trajano/Vera Villar/Lucia Maron
CAPA
Cecilia Costa
IMAGENS DA CAPA
Getty Images
EDITORAÇÃO
Abreu’s System 
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
L999m
Lyubomirsky, Sonja
Os mitos da felicidade [recurso eletrônico] : o que deveria fazer você feliz, mas não faz; o que
não deveria fazer você feliz, mas faz / Sonja Lyubomirsky ; tradução Eduardo Rieche. - 1. ed. -
Rio de Janeiro : Odisseia, 2013.
recurso digital ; 2 MB
Tradução de: The myths of happiness
Formato: epub
Requisitos do sistema: adobe digital editions
Modo de acesso: world wide web
ISBN 9788583001164 (recurso eletrônico)
1. Técnicas de autoajuda. 2. Conduta. 3. Felicidade. 4. Autorrealização. 5. Livros eletrônicos.
I. Rieche, Eduardo. II. Título.
CDD: 158.1
CDU: 159.947
PARA ISABELLA
Sumário
Introdução: Os mitos da felicidade
PARTE I
CONEXÇÕES
CAPÍTULO 1
Eu serei feliz quando...
me casar com a pessoa certa
CAPÍTULO 2
Não poderei ser feliz se... 
meu relacionamento terminar
CAPÍTULO 3
Eu serei feliz quando... 
tiver �lhos
CAPÍTULO 4
Não poderei ser feliz se... 
não tiver um parceiro
PARTE II
TRABALHO E DINHEIRO
CAPÍTULO 5
Eu serei feliz quando...
encontrar o emprego certo
CAPÍTULO 6
Não poderei ser feliz se...
estiver falido
CAPÍTULO 7
Eu serei feliz quando... 
for rico
PARTE III
OLHANDO PARA TRÁS
CAPÍTULO 8
Não poderei ser feliz se...
O resultado do exame for positivo
CAPÍTULO 9
Não poderei ser feliz se...
souber que nunca jogarei pelos Yankees
CAPÍTULO 10
Não poderei ser feliz se... 
os melhores anos da minha vida já tiverem passado
CONCLUSÃO
Onde realmente podemos encontrar a felicidade
Agradecimentos
Notas
“A vida é construída de tal forma que os acontecimentos
não correspondem, não conseguem corresponder
e não corresponderão às nossas expectativas.”
— CHARLOTTE BRONTË
“Aquele que não está contente com o que tem
não se contentaria com o que gostaria de ter.”
— SÓCRATES
“A sorte favorece a mente preparada.”
— LOUIS PASTEUR
INTRODUÇÃO
Os mitos da felicidade
Quase todos nós aderimos ao que eu chamo de os mitos da felicidade – crenças
de que certas conquistas da vida adulta (casamento, �lhos, empregos, riqueza
material) nos deixarão felizes para sempre, e de que certos fracassos ou
adversidades (problemas de saúde, não ter um companheiro, ter pouco
dinheiro) nos deixarão infelizes para sempre. Esta compreensão reducionista da
felicidade é reforçada culturalmente e ainda sobrevive, apesar das provas
esmagadoras de que o nosso bem-estar não funciona sob princípios tão
simplistas.1
Um dos mitos da felicidade é a noção de que “eu serei feliz quando...” Serei
feliz quando conseguir aquela promoção, quando disser “eu aceito”, quando
tiver um bebê, quando for rico, e assim por diante. A falsa premissa não reside
no fato de que a realização de tais sonhos não nos deixará felizes. É quase certo
que sim. O problema é que tais conquistas – mesmo que sejam, a princípio,
perfeitamente satisfatórias – não vão nos deixar tão incomensuravelmente
felizes (ou por tanto tempo) quanto acreditamos. Assim, quando o
cumprimento destes objetivos não nos deixa tão felizes quanto esperávamos,
acreditamos que deve haver algo de errado conosco, ou que somos os únicos a
nos sentirmos assim.
Por outro lado, existe um mito da felicidade igualmente difundido, e
igualmente nocivo. Trata-se da crença de que “não poderei ser feliz se...”.
Quando a sorte não está ao nosso lado, tendemos a ter uma reação exagerada.
Acreditamos que nunca conseguiremos ser felizes de novo, que a nossa vida, tal
como a conhecemos, está acabada.
Meu relacionamento está em crise. Consegui realizar os meus sonhos, mas me
sinto mais vazio do que nunca. Meu trabalho não é mais o que costumava ser. O
resultado do exame foi positivo. Guardo enormes ressentimentos. Espero que este
livro deixe su�cientemente claro que, embora alguns destes grandes desa�os
possam ter o potencial de mudar de�nitiva e permanentemente nossas vidas
para melhor ou para pior, o que realmente controla suas repercussões é a nossa
reação a eles. Na verdade, são as nossas ações iniciais, em primeiro lugar, que
transformam tais acontecimentos em momentos críticos, impedindo-nos de
considerá-los como passagens previsíveis e, até mesmo, naturais da vida, que é
o que eles realmente são. Infelizmente, nossas primeiras reações nos forçam a
escolher respostas dramáticas (e, muitas vezes, desastrosas). Por exemplo, nossa
primeira resposta à percepção de que o nosso emprego deixou de ser
satisfatório talvez fosse chegar à conclusão de que há algo de errado com o
emprego e, imediatamente, começar a procurar uma colocação em outro lugar,
mas a solução com mais recompensas a longo prazo poderia ser, ao contrário, a
de tentar reconsiderar e repensar o nosso emprego – a �m de reexaminar e
reavaliar os pensamentos e sentimentos que alimentamos atualmente.
Este livro abarca dez momentos críticos da vida adulta – começando com os
relacionamentos (casamento, ausência de parceiros, �lhos), passando pelo
dinheiro e pelo trabalho (insatisfação no emprego, sucesso e fracasso
�nanceiros) e terminando com os problemas inerentes à meia-idade e à terceira
idade (problemas de saúde, envelhecimento, arrependimentos). Sinta-se livre
para começar pelos momentos críticos que digam mais respeito a você, ou
sobre os quais tenha mais curiosidade. Espero que todos nós nos
identi�quemos com boa parte dos desa�os e transições que descrevo aqui, já
que alguns deles podem representar uma parte de nós mesmos, o modo como
fomos ontem, como somos hoje e como seremos amanhã. Com o passar dos
anos, as responsabilidades e as perdas se acumulam, e a vida se torna mais
complexa, mais difícil, e, às vezes, mais confusa. Antes de as coisas se
atropelarem, vale a pena analisar longa e detidamente as passagens principais e
os pilares fundamentais das nossas vidas e o que motiva as nossas reações.
Em vez de parecer assustadores ou deprimentes, os momentos críticos
podem sinalizar uma oportunidade de renovação, de crescimento ou de
mudança signi�cativa. No entanto, a maneira como você os acolhe é o que
realmente importa: a ciência mostra que a sorte favorece a mente preparada.
Apresento pesquisas de diversos campos – incluindo a psicologia positiva, a
psicologia social, a psicologia da personalidade e a psicologia clínica –, de
modo a ajudar aqueles que se veem diante de momentos decisivos e
importantes a tomar decisões com sabedoria. Os estudos cientí�cos que discuto
aqui lhe oferecerão uma perspectiva mais ampla – basicamente, uma visão
global de sua situação particular –, e o levarão além de suas expectativas. Não
posso indicar qual o caminho a escolher, mas posso ajudar a fornecer as
ferramentas para que você, por conta própria, seja capaz de tomar decisões
mais saudáveis e mais bem fundamentadas. Posso ajudá-lo a alcançar o estágio
da mente preparada, aquele que sabe onde realmente podemos encontrar a
felicidade e onde não podemos.
Nossos momentos críticos – ocasiões em que, por um instante, sentimos que
nossa vida nunca mais será a mesma, quando nos damos conta de algo ou
recebemos notícias importantes – são momentos-chave em nossas vidas. São os
momentos dos quais nos lembramos e a partir dos quais fazemos escolhas,
momentos que temos de considerar e aos quais temos de responder. Isto é
verdade não apenasquando
nosso cônjuge se torna tão familiar para nós quanto um irmão – quando nos
tornamos uma família –, deixamos de nos sentir sexualmente atraídos um pelo
outro.59
Não é preciso ser um gênio para deduzir que, uma vez que o sexo em um
relacionamento sério de longo prazo e monogâmico envolve o mesmo parceiro
dia após dia, ninguém que seja verdadeiramente humano (ou mamífero)
conseguirá manter o mesmo nível de desejo e ardor que experimentou quando
seu cônjuge era algo novo e desconhecido.60 Podemos amar profundamente
nossos parceiros, podemos idolatrá-los, podemos até estar dispostos a morrer
por eles, mas esses sentimentos não se traduzem em uma paixão sustentada por
anos a �o.
Sustentando esta noção, inúmeras pesquisas têm demonstrado que o desejo,
a satisfação e a frequência sexuais diminuem conforme a duração do
relacionamento.61 Surpreendentemente, este padrão foi encontrado até mesmo
em estudantes universitários (especialmente entre as mulheres) que namoram
há menos de um ano. Na verdade, quando se trata de sexo, a idade não é um
fator tão importante quanto as pessoas pensam. Por exemplo, se alguém
quisesse prever quantas vezes um casal faz sexo, encontraria uma resposta mais
precisa se levase em conta o tempo que ele está junto, mais do que a idade de
ambos.
Este estado de coisas enseja várias questões, começando pelo fato de
evidenciar, claramente, que o amor apaixonado não dura para sempre. Além
disso, nosso esquecimento geral de como esta adaptação hedonista é
extremamente humana, natural e frequente nos leva a culpar a nós mesmos (ou
aos nossos parceiros) pela diminuição da frequência ou do desejo – por
perturbar a nossa fantasia do que o casamento deveria ser. A consequência pode
ser um círculo vicioso: a paixão sexual reduzida é vista como um sintoma de
que algo está errado com nosso relacionamento (quando é apenas um sintoma
do processo normal de adaptação), o que provoca uma erosão ainda maior em
nossa satisfação com o relacionamento, o que, por sua vez, enfraquece ainda
mais o desejo sexual, e assim por diante.62 Livros com títulos como �e Sex-
Starved Marriage: A Couple’s Guide to Boosting �eir Marriage Libido [O
casamento sem sexo: guia de um casal para aumentar a libido no casamento] e
Rekindling Desire: A Step-by-Step Program to Help Low-Sex and No-Sex
Marriages [Reacendendo o desejo: um programa passo a passo para ajudar
casamentos com pouco e nenhum sexo] se tornaram sucessos de vendas, porque
muitos de nós, infelizmente – aliás, quase todos nós – enfrentamos este
problema uma vez ou outra.
Outro problema fundamental refere-se às diferenças de gênero. Ninguém se
surpreenderia ao saber que as diferenças entre homens e mulheres entram em
operação em uma discussão sobre o comportamento sexual. No entanto, as
diferenças de gênero aqui acionadas podem surpreendê-lo. Começando com a
informação previsível, dezenas de pesquisas con�rmaram o óbvio, mostrando
que, em comparação com as mulheres, os homens têm fantasias sexuais mais
frequentes, relatam um desejo sexual mais forte, pensam mais em sexo e
gostariam de fazê-lo com mais frequência.63 Em sintonia com estes resultados,
evidências observacionais, empíricas, clínicas e cientí�cas (para não falar dos
exemplos de maior notoriedade, envolvendo homens proeminentes na política,
nos esportes e na indústria do cinema) apontam para um fato aparentemente
incontestável – o de que os homens são muito mais propensos do que as
mulheres a abandonar o casamento.64 Além disso, as in�delidades masculinas,
quando ocorrem, envolvem um maior número de parceiras sexuais65 (para um
exemplo reconhecidamente extremo, a suposta contagem de Tiger Woods era
de 121 mulheres).66
Portanto, seria lógico que os homens se adaptassem ao sexo com a mesma
parceira mais rapidamente do que as mulheres. Mas, na verdade, os
pesquisadores estão começando a suspeitar do contrário – são as mulheres que
se adaptam mais rapidamente. Primeiro, os estudos mostram que, em um
relacionamento de longo prazo, as mulheres estão mais propensas do que os
homens a perder o interesse pelo sexo, e a perdê-lo mais cedo.67 Em segundo
lugar, as mulheres parecem ser �siologicamente despertadas por uma gama
muito maior de estímulos do que os homens,68 e a ser mais suscitadas por
fantasias de sexo com estranhos69 – as descobertas sugerem que um parceiro
familiar pode se tornar, rapidamente, cada vez menos excitante para elas do
ponto de vista �siológico. Terceiro, a lascívia do sexo feminino tem sido
descrita como dominada por um anseio de ser o objeto de um desejo poderoso
e urgente – o de ser violada, cobiçada e requisitada.70 Considerando-se que os
votos de casamento comprometeram o marido a ter relações sexuais com sua
esposa – e apenas com a sua esposa – para sempre, a esposa se sentiria
pressionada a convencer-se de que a decisão de fazer amor com ela nesta noite
de sexta-feira seria um sinal genuíno do desesperado desejo do marido de
possuí-la. Em parte por esta razão, Marta Meana, pesquisadora de assuntos
relacionados ao sexo, argumenta que as mulheres precisam de um estímulo
mais potente para ativar seu desejo sexual do que os homens. “Se eu não gosto
de bolo tanto quanto você”, explica ela, “é melhor que o bolo seja muito
atraente, para me animar a comê-lo”.71 Todas essas observações levam à
conclusão de que os critérios das mulheres para o sexo apaixonado envolvem
um limiar de excitação e um grau de novidade mais altos do que os masculinos.
A�nal de contas, talvez meus amigos homens estejam certos ao a�rmar que,
para eles, o sexo é como pizza – não existe esta coisa de pizza ruim ou de sexo
ruim. Não é necessário dizer que as mulheres não concordam com isso.
A PAIXÃO PODE SOBREVIVER?
Descobriu-se que dois tipos de relacionamento fazem a paixão durar –
relacionamentos que começam com baixas expectativas e nos quais o amor e o
desejo crescem muito lentamente (por exemplo, em casamentos arranjados) e
relacionamentos caracterizados por uma incerteza implacável (como os
romances inconstantes, abusivos ou do tipo ata e desata). No entanto, tais
relacionamentos têm custos muito altos ou que soam inaceitáveis para a
maioria de nós. Mas e quanto às uniões em que há amor, estabilidade e
comprometimento? Por um lado, conforme descrito anteriormente, muitas
razões conspiram para transformar a busca da paixão permanente em um
esforço infrutífero na maioria dos casamentos. Por outro lado, algumas
pesquisas recentes oferecem pistas sobre como a intensidade e o interesse sexual
podem ser reacendidos e preservados.72
Particularmente, uma fração pequena, porém signi�cativa de casados
professa que a vida sexual com seus cônjuges ainda é fantástica, mesmo depois
de décadas de casamento. Por exemplo, um estudo com 156 casais juntos, em
média, há nove anos, determinou que 13% mostravam sinais de manutenção
de níveis elevados de paixão, ainda que sem o componente obsessivo pernicioso
observado nas fases iniciais do amor. Portanto, cabe a nós aprender com os seus
segredos. Consideremos o exemplo oferecido pelo laboratório da professora
Shelly Gable.
Quase todos nós estabelecemos objetivos para os nossos relacionamentos, e
Gable e seus alunos estavam interessados em estudar as diferenças entre as
pessoas que tinham objetivos de “aproximação” versus de “evitação”. Um
objetivo de aproximação envolveria batalhar por experiências positivas no
relacionamento, como diversão, crescimento e intimidade, enquanto um
objetivo de evitação signi�caria evitar o con�ito ou a rejeição.73 Eu terei
objetivos de aproximação, por exemplo, se tomar para mim a responsabilidade
de tornar o meu relacionamento com meu parceiro mais profundo e mais
caloroso, e se eu conceber formas para que ambos cresçamos. Eu terei objetivos
de evitação se concentrar minhas energias em evitar desentendimentos e brigas,
e me esforçar para garantir que nada de ruim aconteça entre nós. Embora
ambos os tipos de objetivos tenham seus usos, veri�ca-se que aqueles que
nutrem objetivos do relacionamento de aproximação (seja no relacionamentocom o cônjuge, amigo, �lho ou patrão) estão mais propensos a �car satisfeitos
com esse relacionamento, a ter uma atitude positiva e a ser menos solitários e
inseguros.74
O que esses diferentes tipos de objetivos têm a ver com a paixão inabalável?
Gable argumenta que aqueles cujo principal impulso é buscar experiências
positivas com seus parceiros podem considerar a atividade sexual uma forma
ideal de inserir positividade e intimidade em seus casamentos.
Consequentemente, podemos pensar mais em sexo, e resolver fazer sexo mais
vezes para agradar o nosso parceiro, ou para ajudar a desenvolver a intimidade.
Podemos nos tornar mais sensíveis aos estímulos sexuais do nosso parceiro,
reagir mais rapidamente e procurar situações propícias para os momentos
íntimos. Ter objetivos de aproximação também pode, simplesmente, melhorar
o nosso humor e nos deixar em um estado de espírito mais otimista, o que, em
si mesmo, pode aumentar o desejo.
Para testar essa ideia, Gable e seus alunos conduziram uma série de estudos
em que rastrearam o desejo sexual de seus participantes diária ou
quinzenalmente, bem como seus objetivos de aproximação e de evitação,
incluindo objetivos sexuais (por exemplo, eu �z sexo “para atender ao meu
próprio prazer sexual” ou “para expressar o amor pelo meu parceiro”, versus
“para evitar que o meu parceiro �que chateado” ou “para evitar que o meu
parceiro perca o interesse em mim”).75 Os participantes que apresentavam
objetivos de evitação em seu relacionamento informaram que o desejo sexual
diminuiu ao longo dos seis meses do estudo, mas aqueles que tinham objetivos
de aproximação não observaram absolutamente nenhum declínio. Além disso,
quando tanto o desejo sexual quanto os diferentes acontecimentos em um
relacionamento (brigar para decidir o que fazer nas férias, uma visita surpresa
de um amigo em comum) foram acompanhados de um dia para o outro, os
pesquisadores descobriram que as pessoas com objetivos de aproximação, em
comparação com aquelas com objetivos de evitação, se sentiam ainda mais
apaixonadas nos dias bons e vivenciavam uma diminuição da paixão nos dias
ruins menor do que a esperada.
Estes resultados são encorajadores, sugerindo que seria bom que todos nos
esforçássemos para aumentar as experiências positivas em nossos
relacionamentos, em vez de evitar as negativas. Sem dúvida, os terapeutas
conjugais e sexuais podem oferecer estratégias e ferramentas adicionais para
ajudar muitos casais, incluindo a importância de infusões periódicas de
novidade, variedade e surpresa, conforme discutido anteriormente. O resultado
�nal, no entanto, é que a ciência tem descoberto muito pouco sobre como
manter o amor apaixonado, ou se ele é viável, até mesmo dentro de uma
minoria de casamentos. Se esta é uma boa ou má notícia, depende do que
achamos disso. Minha opinião é que a diminuição do amor apaixonado –
assim como crescer ou envelhecer – é, simplesmente, parte de nossa condição
humana.
COMO ALIMENTAR O SEU RELACIONAMENTO
Este capítulo é sobre a sensação irrefutável de que, na melhor das hipóteses,
temos um casamento “mais ou menos”. Não há grande crise, traição ou
incompatibilidade – apenas uma progressiva consciência do tédio ou de
insatisfação. Além disso, a ausência de um grande trauma pode ter um efeito
insidioso, fazendo com que nos sintamos culpados por nosso próprio
descontentamento aparentemente “trivial”. No entanto, o descontentamento
não é trivial, e pode até representar um divisor de águas em nossa relação. Por
isso, é fundamental reconhecer que grande parte de nossa insatisfação decorre
do processo de adaptação hedonista, que essa adaptação é natural e previsível, e
que os passos validados empiricamente para retardá-la, impedi-la ou neutralizá-
la (conforme já descrito) devem ser tomados, idealmente, muito antes do nosso
casamento entrar em apuros. Se pudermos entender que a di�culdade é uma
parte inerente dos relacionamentos sérios, tanto ou quanto a alegria – que
quase todos nós nos deparamos com paixões e satisfações em declínio –,
trabalhar para aprimorar o relacionamento parecerá menos assustador e mais
vantajoso. Ao aprender que não há fórmula mágica para a felicidade em um
casamento, mais escolhas para o futuro se abrirão para nós.
Eu seria negligente se não mencionasse as muitas outras estratégias para
fortalecer os nossos relacionamentos íntimos, apresentadas por diversos
teóricos, psicólogos clínicos e autores de manuais de casamento. Dentre as
práticas recomendadas estão arranjar tempo para �car juntos e conversar,
comunicar-se habilmente (isto é, ouvir verdadeiramente, estar “em sintonia”
com o outro e transmitir admiração, gratidão e afeto), gerir os con�itos, ser
gentil, solidário e leal, e compartilhar sonhos, rituais e responsabilidades um
com o outro.76 Embora não sejam destinadas especi�camente ao combate da
adaptação hedonista, tem sido demonstrado que estas técnicas melhoram a
qualidade e a satisfação de nossas parcerias e, por isso, aplacam o tédio do
relacionamento. Ofereço aqui três estratégias adicionais, baseadas em
evidências.
BENEFICIANDO-SE COM AS BOAS NOTÍCIAS DO SEU
PARCEIRO
Uma das minhas linhas favoritas de pesquisa é como os casais compartilham
experiências positivas entre si. Muitos concordam que um dos maiores
benefícios do casamento é ter uma pessoa a quem você possa se dirigir diante
de acontecimentos estressantes, negativos ou traumáticos. Entretanto, parece
que, embora muitas vezes nos voltemos para os nossos parceiros para que eles
nos ajudem a lidar com as piores coisas que nos acontecem – e,
implicitamente, julguemos o nosso relacionamento a partir do nível de seu
apoio, compaixão e sensibilidade –, também recorremos a eles, muitas vezes,
para compartilhar as melhores coisas (de fato, estudos mostram que as pessoas
fazem isso diariamente, entre 70 e 80% do tempo.)77 A descoberta
surpreendente é que os relacionamentos mais próximos, mais íntimos e mais
con�antes parecem se distinguir não pela forma como os parceiros respondem
a decepções, perdas e retrocessos um do outro, mas como reagem às boas
notícias. Os relacionamentos que se revelaram prósperos foram aqueles em que
os dois elementos do casal respondem “ativa e construtivamente” – isto é, com
interesse e prazer – à sorte e ao sucesso um do outro.78 Quando seu marido
conta que será promovido, uma resposta marcada pela alegria e por perguntas
entusiasmadas o faz saber que você compreende o signi�cado de sua realização
(tanto para ele quanto para você), torna esta realização ainda mais memorável,
valida a sua importância e indica que você se importa. Homens e mulheres que
dizem que seus parceiros respondem desta forma “ativa-construtiva” relatam os
mais altos níveis de satisfação, con�ança e intimidade em seus relacionamentos.
Infelizmente, nem sempre reagimos às boas notícias de nossos parceiros (ou
eles às nossas) da melhor forma possível e, muito pelo contrário, acabamos
oferecendo respostas que prejudicam nossos relacionamentos. Os pesquisadores
descobriram, por exemplo, que quando tomamos conhecimento da promoção
do nosso cônjuge, se formos silenciosamente favoráveis (expressando pouco ou
nenhum entusiasmo), apontarmos as di�culdades ou desvantagens (“Você terá
que trabalhar nos �ns de semana” ou “Isso signi�ca que vamos ter que nos
mudar?”) ou não dissermos nada, estaremos minando a felicidade, o afeto e a
con�ança de nosso relacionamento.
Em suma, apreciar, validar e “valorizar” a boa notícia do nosso parceiro é
uma estratégia e�caz para reforçar nosso relacionamento e, assim, intensi�car o
prazer e a satisfação que podemos obter a partir daí – resumindo, impedir a
adaptação hedonista. Um estudo mostrou que as pessoas que se esforçavam
para demonstrar entusiasmo, apoio e compreensão genuínos diante das boas
notícias de seus parceiros, por menores que fossem – e que faziam isso três
vezes por dia durante uma semana –, se tornavam mais felizes e menos
deprimidas.79 Nunca é tarde demais para começar.
AJUDANDO O PARCEIRO A ATINGIR O SEU “EU” IDEAL
Muitotem sido dito e escrito sobre a importância de “comportamentos
positivos” nos relacionamentos, semelhantes aos que acabei de descrever
(comportamentos de valorização, validação, respeito, conforto e compreensão).
No entanto, como abordarei mais adiante, ser muito positivo ou ser sempre
positivo pode não ser muito adequado aos nossos casamentos, chegando a
prejudicá-los. Um determinado comportamento positivo, porém, tem
propriedades especiais no que diz respeito ao aumento da prosperidade, tanto
de nossos relacionamentos quanto de nossos parceiros. Os pesquisadores o
chamam de a�rmação do parceiro – o ato de acreditar, apoiar e validar valores,
objetivos e sonhos de nossos parceiros.
Enquanto estamos pensando em como concretizar nossas próprias ambições
e aspirações, grandes são as chances de que estejamos concentrados nos passos
que devemos tomar e nos esforços que devemos reunir ao longo do caminho.
O que provavelmente subvalorizamos é o papel que as pessoas mais próximas
podem desempenhar, nos ajudando imensamente – e, às vezes, sem
percebermos – a alcançar nossos objetivos. O grau de sucesso que obtemos no
fortalecimento de nossa personalidade, na aprendizagem de novas habilidades e
na aquisição de novos recursos é, muitas vezes, moldado por outras pessoas, e,
especialmente, por nossos parceiros íntimos ou cônjuges. Os pesquisadores
argumentam que “as pessoas são levadas a re�etir sobre o que seus parceiros
veem nelas e o que depreendem”80 – uma descoberta com um lindo nome, o
fenômeno Michelangelo, em homenagem ao artista renascentista italiano que
esculpiu o David de Florença, e que, supostamente, teria dito: “Eu vi um anjo
no mármore e esculpi até libertá-lo”.81 Como os escultores, temos a capacidade
de in�uenciar e moldar os nossos parceiros, de tal forma que eles sejam capazes
de realizar seus “eus” ideais – suas ambições mais elevadas e mais profundas
sobre si mesmos. Este processo pode-se dar de forma gradual e sutil. Por
exemplo, se meu marido fosse muito tímido, eu poderia ajudá-lo a se tornar
mais extrovertido e alegre, estimulando discretamente as conversas durante o
jantar, de modo a criar a oportunidade perfeita para que ele deliciasse os
convidados com uma de suas mais encantadoras histórias.82 Além disso, minha
expectativa de que ele se socialize pode aumentar sua própria con�ança e dar
origem a uma profecia autorrealizável (ou melhor, que realiza o parceiro).
Também posso extrair o melhor dele – consciente ou inconscientemente –,
desencorajando-o ou afastando-o de quaisquer situações ou comportamentos
que frustrem seus objetivos (como fazer com que ele evite se sentar sempre ao
lado de uma pessoa conhecida em uma festa).
Quando este processo de escultura – o fenômeno Michelangelo – é bem-
sucedido, nossos parceiros acabarão por se assemelhar à pessoa que eles querem
ser (e que nós também queremos), nosso relacionamento terá sido fortalecido,
e nós dois, �nalmente, nos tornaremos mais felizes, como indivíduos e como
casal.83 Quando nosso cônjuge nos rea�rma e ajuda a nos aproximarmos de
nossos “eus” ideais, não nos sentimos mais felizes e mais vivos apenas porque
estamos cumprindo nossos objetivos, mas porque nos consideramos
verdadeiramente compreendidos, satisfeitos e gratos. Nosso amor cresce
quando reconhecemos o quanto nosso cônjuge cuida de nós e está se
esforçando para nos apoiar e encorajar. E, quando somos nós que rea�rmamos
o nosso cônjuge, percebemos um amor ainda mais forte, que deriva do apoio
que estamos oferecendo (“Se estou fazendo todas essas coisas por ela, devo,
realmente, adorá-la”), e o olhar cada vez mais positivo do nosso cônjuge em
decorrência de tal apoio (“Estou descobrindo que ela é uma pessoa
incrivelmente criativa”). Por �m, �camos pessoalmente mais felizes, porque
fazer o bem para os outros, como tem sido demonstrado em diversos estudos,
estimula o bom humor e o bem-estar geral, provavelmente como resultado do
reforço dos vínculos sociais e dos sentimentos elevados de autoe�cácia e
otimismo.84
O PODER DO TOQUE
Quando falamos da importância do toque em um relacionamento amoroso,
pensamos, com toda a probabilidade, em sexo. Esta ligação automática entre o
toque e a atividade sexual é lamentável, porque a importância e o impacto do
toque são muito maiores e mais fortes do que isso.
Um tapinha nas costas, um aperto de mão, um abraço, um braço em torno
do ombro. Tais gestos são, com frequência, extremamente rápidos e, às vezes,
quase imperceptíveis. Mas só porque um leve toque é, muitas vezes,
imperceptível, não signi�ca que ele seja inconsequente. Na verdade, a ciência
do toque sugere que ele pode salvar um casamento “mais ou menos”.
A importância do contato físico para a vida humana – para não mencionar a
vida animal – é inquestionável. Pesquisadores em campos distintos, como
psicologia, antropologia e etologia têm observado os usos do toque em uma
ampla gama de comportamentos, incluindo comunicação de poder ou status,
�erte, brincadeiras, reconciliação, conforto, cooperação e transmissão de
emoções especí�cas.85 O toque nos bebês recém-nascidos é, notavelmente, o
mais desenvolvido de todos os seus sentidos.86 Para os bebês, o contato físico
está ligado a uma melhor saúde física e mental,87 conforme evidenciado, por
exemplo, pelos benefícios do “método canguru”, isto é, de contato direto com a
pele da mãe, em bebês prematuros, e pelo grande dano sofrido por órfãos
privados de toque. Por último, mas igualmente importante, como �cou
poderosamente demonstrado por um casal de famosos psicólogos do
desenvolvimento, o contato físico é fundamental para que uma criança
desenvolva um saudável sentido de vinculação e de segurança ao se relacionar
com quem lhe presta cuidados.88 O toque, o amparo e o carinho de um dos
pais, por exemplo, faz com que a criança se sinta segura e protegida, e é essa
sensação de segurança que lhe dá permissão para explorar o mundo por conta
própria e assumir riscos, mesmo em situações desconhecidas.89
Surpreendentemente, até mesmo as crias (�lhotes) de aranha estão mais
propensas a explorar um novo ambiente se a aranha-mãe as tiver tocado com
mais frequência.90 Por outro lado, tanto os bebês humanos quanto os �lhotes
de animais privados de toque demonstram medo, descon�ança e uma
relutância à exploração.
A importância do toque é inegável, embora seja extremamente
subvalorizada. Evidentemente, existem notáveis diferenças culturais (e
subculturais) na aceitabilidade e na difusão do contato físico na vida cotidiana.
Casais gregos e italianos, por exemplo, usam mais o toque em suas interações
do que casais ingleses, franceses e holandeses.91 Uma diferença cultural como
essa, pessoalmente, me impressionou bastante durante minhas primeiras
semanas na faculdade, pois era a primeira vez que eu morava longe de casa.
Vinda de uma família russa, cresci com enorme contato físico, beijos e abraços,
e eu não sabia, até chegar à faculdade, que nem todos se comportavam da
mesma maneira. Na verdade, ainda me lembro de ter �cado confusa com uma
cena da série A Família Sol, Lá, Si, Dó, em que a �lha mais velha, Marcia, vai
até a mãe para lhe dar um beijo, e a mãe responde (sem qualquer traço de
indelicadeza): “Por que você fez isso?”. Marcia precisa de um motivo para
beijar a sua mãe? Também me surpreendi ao saber que alguns amigos
praticamente não haviam presenciado qualquer forma de toque ou de carinho
físico entre os pais (e também haviam recebido muito pouco, particularmente
na adolescência, e além desta fase). Em suma, muitas famílias e casais nos
Estados Unidos e em dezenas de outras culturas ocidentais e orientais adotam
os comportamentos de mínimo de toques não sexuais.
Se você se sentir entediado ou indiferente em relação ao seu relacionamento,
a inserção diária de mais toques e carinhos (não sexuais) contribuirá bastante
para reacender o afeto e a ternura, e talvez, até, a paixão plena, que �cou
perdida no tempo. Estudos mostram que um simples toque pode ativar regiões
de recompensa em nossos cérebros, reduzir a quantidadede hormônios do
estresse em nossa corrente sanguínea e mitigar a dor física por meio da
diminuição da ativação das partes do cérebro associadas ao estresse.92 Estas
descobertas implicam dizer que o contato físico é praticamente um
medicamento; quando nosso cônjuge nos toca, experimentamos uma
estimulação moderada, nos sentimos menos esgotados e observamos uma
diminuição do desconforto e da angústia.
Nosso cônjuge também pode nos comunicar seus sentimentos através do
toque. Embora essa observação possa parecer óbvia, a capacidade das pessoas de
decodi�car emoções distintas a partir de um mero tapinha no braço foi, de
fato, testada. Em uma série de estudos, por exemplo, pares de participantes que
não se conheciam, provenientes da Espanha e dos Estados Unidos, foram
convidados a ir até um laboratório, onde foram posicionados em ambos os
lados de um anteparo, de modo que não podiam ver um ao outro.93 Um dos
membros de cada par era, então, instruído a tocar o outro no antebraço, através
de um orifício no anteparo, de forma que expressasse uma emoção particular.
Os participantes que foram tocados (bem como os observadores que
simplesmente assistiram ao toque) conseguiram identi�car seis emoções
distintas transmitidas pelo toque – amor, gratidão, compaixão, raiva, medo e
desprezo. Além disso, quando seus parceiros foram autorizados a tocar em
qualquer parte (apropriada) do corpo, e não apenas no antebraço, os
participantes conseguiram identi�car mais duas emoções – felicidade e
tristeza.94
Esta capacidade de reconhecer emoções distintas a partir de um simples
toque pode ser inestimável nas inúmeras situações possíveis de um
relacionamento. Um pequeno gesto de carícia que transmite amor pode
atenuar uma briga. Uma batidinha nas costas comunicando gratidão pode
reforçar a intimidade. Um abraço comunicando a felicidade pela mais recente
conquista de nosso cônjuge pode promover a satisfação. Os cientistas também
demonstraram que certas formas de contato nos fazem recordar da sensação de
segurança que provavelmente sentimos há muito tempo, no abraço de nossa
mãe ou de nosso pai. Um tapinha nas costas ou no ombro pode, assim,
desencadear sentimentos de segurança e conforto, o que nos leva a ser mais
ousados e a assumir riscos (de preferência, de forma proveitosa).95 Além disso,
os cientistas podem prever quais casais permanecerão juntos ou se divorciarão,
tomando por base mais a sua comunicação não verbal (como toques e
pequenos gestos) do que a sua comunicação verbal.96
Tente aumentar o nível de contato físico em seu relacionamento a cada
semana, com uma série preestabelecida de ações. Por exemplo, durante a
primeira semana, acaricie as costas ou o braço do seu cônjuge todas as vezes
que vocês se cruzarem na cozinha; na segunda semana, sente-se sempre perto o
su�ciente para poder tocá-lo; na terceira, nunca deixe de se despedir ou de
cumprimentá-lo com um beijo, e assim por diante. É claro que, dependendo
da personalidade, da formação e do histórico familiar de ambos, a predileção
ou a disponibilidade ao toque não sexual podem variar muito. Se o nível de
conforto for baixo para algum de vocês, seria melhor agir lenta e delicadamente
e, se isso ajudar a sua situação particular, discuta em conjunto seus objetivos
em relação ao contato físico.
A MENTE PREPARADA
Talvez você estivesse convencido de que já havia encontrado todas as respostas.
Você encontrou “o cara”, você se casou, você estava feliz. Com o tempo, no
entanto, as recompensas deixaram de ser tão intensas. Você começou a ter
dúvidas e a �car descontente; depois, vieram os suspiros de indiferença e de
monotonia, e, por �m, os anseios por algo a mais. A percepção de que o seu
casamento não está mais conseguindo lhe trazer felicidade não é o �m da
estrada, e tampouco, o começo. Este capítulo procura explicar as suas
experiências, legitimá-las, oferecer maneiras alternativas de reinvestir em seu
relacionamento e exige que você tenha uma mente preparada.
Para muitos, a primeira reação ao sentimento de estar entediado e infeliz é
concluir que deve haver algo de errado consigo mesmo ou com o
relacionamento, e atribuir a culpa a alguém. O seu “primeiro pensamento” é
que, se o seu casamento não satisfaz todas as suas necessidades de intimidade,
paixão e companheirismo, você (ou o seu parceiro) fracassou. Antes que você
possa compreender que tipo de mudança é possível e qual não é, é preciso
deixar para trás estes primeiros pensamentos e dar atenção a seus pensamentos
secundários. Esta perspectiva mais ancorada na razão signi�ca compreender o
conceito da adaptação hedonista. Ter consciência da onipresença desse
fenômeno pode levá-lo a reconhecer que suas queixas conjugais são naturais e
comuns, eximindo, assim, tanto você quanto o seu cônjuge das
responsabilidades, e a tomar medidas para retardar o processo de adaptação.
Nesse momento, você pode alcançar uma percepção mais positiva do seu
relacionamento. O curso ideal de ação é começar a praticar as estratégias de
impedimento da adaptação e de desenvolvimento do relacionamento o mais
rápido possível. A escolha da estratégia inicial dependerá de suas preferências,
recursos e necessidades. Alguns podem começar mobilizando esforços para
injetar entusiasmo, novidade, variedade e/ou surpresa em seus casamentos.
Outros podem optar por demonstrar apreço por seus relacionamentos,
ajudando a revelar a melhor pessoa que o parceiro pode ser ou respondendo
com mais entusiasmo quando o parceiro for bem-sucedido. Dentro e fora do
quarto, você pode optar por mudar seus objetivos para um modo de
“aproximação” mais positivamente orientado, ou tocar o seu parceiro com mais
frequência e regularidade.
No entanto, se os seus esforços se mostrarem infrutíferos, talvez seja a hora
de concluir que sua perda de interesse e de paixão não poderá ser salva, ou,
então, que não vale a pena salvá-la. Por isso, este caminho alternativo signi�ca
abandonar o seu parceiro e sair em busca de um novo amor. Esta opção pode
trazer grande felicidade, especialmente se você tiver a sorte de encontrar um
parceiro incrível. Cuidado, porém, porque este caminho também pode gerar
grande decepção, já que há uma grande probabilidade de as paixões oscilarem
no novo relacionamento, exatamente como aconteceu no anterior. Você, agora,
está bastante consciente de que o ritmo natural de adaptação, sem dúvida, se
repete. A forma de agir em face a este conhecimento dependerá de você.
CAPÍTULO 2
Não poderei ser feliz se... 
meu relacionamento terminar
Há uma história bem conhecida nos círculos acadêmicos sobre um eminente
professor cuja esposa não falava mais nada de signi�cativo com ele, a não ser
sobre as compras do dia. Uma noite, no teatro, ele teve uma epifania. Ele
estava assistindo a uma peça em que a vida do personagem principal é contada
aos vinte, trinta, quarenta anos, e assim por diante, e, a cada década, o homem
vai vivendo uma vida cada vez mais próxima de um desespero silencioso.
Depois de terminada a peça, o professor pensou: “Esse poderia ser eu”.
Naquela noite, ele decidiu se separar de sua esposa, abandonou seu emprego
em Michigan e voltou para a sua cidade natal, Nova York. Hoje, ele e sua ex-
esposa se casaram novamente e são felizes, vivendo a milhares de quilômetros
de distância um do outro, cada um com uma nova família.
É preciso reconhecer que esta história é um pouco exagerada; poucos de nós
chegamos à conclusão, de um momento para o outro, de que nos casamos com
a pessoa errada e agimos de acordo com esse primeiro pensamento. É muito
mais frequente que esse pensamento �que indo e vindo por semanas ou meses,
ou, até mesmo, anos. Na verdade, as fantasias de divórcio são muito comuns, e,
como seria de se esperar, são muito mais comuns entre as pessoas que, no �nal
das contas, acabam se divorciando. Além disso, uma fantasia de divórcio não se
materializa do nada. A percepção de que nosso relacionamento está em crise é,
de modo geral, precipitada por um ou mais acontecimentos cruciais – talvez,
um sentimento de solidão,estar em sintonias completamente diferentes, não se
preocupar mais com o bem-estar do outro ou descobrir uma in�delidade.
Este capítulo aborda o enfrentamento um problema aparentemente
insuperável em seu relacionamento de longo prazo ou casamento. Talvez vocês
dois estejam atormentados por diferenças irreconciliáveis a respeito de suas
�nanças, ou onde vão �xar residência, ou se vão ou não ter �lhos. Uma das
alternativas é que um de vocês tenha mudado completamente, tido um caso
extraconjugal, deixado de amar ou se recusado a parar de beber. Sem dúvida,
trata-se de um momento extremamente penoso e doloroso. Você fantasia sobre
o divórcio e, mesmo assim, se mostra bastante preocupado em realmente ter de
passar por esta situação, convencido de que sua vida familiar estará para sempre
arruinada. No entanto, tal ansiedade e tal sofrimento podem estar baseados,
notadamente, em uma crença silenciosa em um determinado mito da
felicidade – o de que você não conseguirá ser feliz depois de terminar seu
relacionamento ou de se divorciar. Como quase todos sabem, a experiência de
um amor que se acaba ou de um casamento desfeito pode ser pungentemente
difícil no seu momento mais negro, mas os seres humanos são mestres em
sobreviver e, até mesmo, prosperar nas piores situações. Somos
excepcionalmente engenhosos na elaboração de soluções e em encontrar
caminhos positivos. Ao descrever inúmeras destas soluções e caminhos,
pretendo, de um lado, refutar esse mito da felicidade e, de outro, detalhar os
modos especí�cos para estar à altura da situação e seguir em frente. Um bom
casamento lhe dá asas e traz à tona o melhor de você. Um casamento
conturbado o aprisiona e revela a sua pior natureza. No entanto, um casamento
conturbado não signi�ca que a sua vida acabou ou que a sua chance de
felicidade se foi. As pesquisas sugerem uma série de caminhos a seguir. Uma
das formas de agir é preservar o relacionamento e se ajustar a ele (veremos mais
sobre isso a seguir). Outra é colocar-lhe um �m (veja a seguir também). Mas a
forma mais otimista é aprimorá-lo e reforçá-lo – isto é, tentar salvar seu
casamento. Este é o caminho com o qual eu começo.
UMA NOVA DINÂMICA: FORTALECENDO A SUA RELAÇÃO
EMOÇÕES POSITIVAS SÃO ANTÍDOTOS CONTRA
EMOÇÕES NEGATIVAS
Se valer a pena alimentar ou aprimorar o nosso relacionamento, muitos de nós,
provavelmente, já estamos bastante familiarizados com as várias formas de fazê-
lo. Conforme descrito no capítulo anterior, os terapeutas de casal e de família
aconselham que tentemos um sem-número de aproximações, incluindo não
considerar nossos parceiros como algo corriqueiro, expressar nossa admiração
por eles, compartilhar nossos sonhos e demonstrar-lhes o tipo de gentileza que
demonstramos aos outros. É mais fácil falar do que fazer. Quando
bombardeada por grandes problemas e previsões de um futuro mais sombrio,
esta espécie de lista de tarefas conjugais parece não apenas exagerada, mas
claramente irreal. É mais viável, talvez, “satisfazar” (um amálgama de
“satisfazer” e “bastar”) em nossos casamentos – ou seja, esforçar-se para ser um
cônjuge su�cientemente bom para um marido ou uma esposa su�cientemente
bons, em um casamento su�cientemente bom.
Há momentos na vida em que nosso objetivo primordial deve ser abordar
diretamente os pontos negativos de um casamento problemático, e ofereço
recomendações úteis para esta situação nas seções a seguir, sobre como conviver
e perdoar. No entanto, os psicólogos positivos constataram que, por vezes, o
melhor caminho para a felicidade e a prosperidade não é o enfrentamento
direto, mas o transversal. Em outras palavras, em vez de se concentrar em
como corrigir os pontos negativos e os problemas conjugais, podemos usar
emoções, pensamentos e comportamentos positivos para neutralizar os
negativos. Assim, por exemplo, em vez de lutar veementemente para minimizar
as emoções negativas (como a perda do encanto ou a raiva) que se misturam
internamente quando estamos com o nosso cônjuge, pretenderemos atingir o
mesmo objetivo pela maximização de nossas emoções positivas (como a
tranquilidade ou a afeição). Em vez de lutar veementemente para reduzir
nossos pensamentos negativos (como as ruminações por não nos julgarmos
merecedores de determinado parceiro), devemos procurar desenvolver os
positivos (por exemplo, pensamentos de que o futuro será melhor do que o
passado), sob a noção de que pensamentos positivos anulam os negativos. Em
vez de lutar veementemente para reduzir comportamentos negativos em nosso
relacionamento (como brigas ou revirar os olhos em sinal de desprezo),
devemos procurar multiplicar os comportamentos positivos (como risadas ou
palavras amáveis), de modo que eles possam compensar os negativos. Quando
nosso relacionamento não estiver em uma boa fase – ou tiver atingido o fundo
do poço –, cultivar mais pensamentos, emoções e comportamentos positivos
pode parecer uma batalha difícil e inútil. Talvez seja a última coisa que você
queira ou tenha condições de fazer. No entanto, as pesquisas indicam que,
neste exato momento, tal estratégia é mais do que necessária ou válida.
Considere as rotas de voo de uma companhia aérea – do tipo que você
encontra na parte de trás de uma revista de bordo editada em papel lustroso.
Uma vez que voos regulares saem e chegam de centenas de cidades, todas as
cidades maiores e menores estão conectadas às demais. Algumas cidades são
centrais, por isso muitos voos se dirigem a elas, e outras têm apenas algumas
conexões, tornando-se necessário que você mude de avião várias vezes para
chegar ao seu destino. Os psicólogos cognitivos, que estudam estados mentais
internos, defendem a ideia de que todos nós temos extensas “redes semânticas”,
que se parecem um pouco com estas rotas aéreas. Ao contrário das cidades que
se conectam a outras de várias maneiras, as redes semânticas são compostas por
todas as nossas memórias e pensamentos interligados. Assim, Los Angeles está
ligada a São Francisco por uma linha espessa (representando muitos voos), mas
está conectada a Fresno por uma linha muito �na (representando apenas um
ou dois voos). Da mesma forma, sua memória de ter �cado acamado por conta
de uma pneumonia pode estar fortemente conectada a uma memória da
viagem de negócios que você foi obrigado a cancelar, e tenuemente ligada à
memória de ter tido catapora quando criança.
Se você está desiludido com o seu casamento, é provável que tenha
desenvolvido dezenas – ou, até mesmo, centenas – de memórias negativas,
suposições pessimistas, imagens irascíveis e prognósticos cínicos. Tudo isso está
conectado na rede semântica do seu cérebro, de tal forma que uma memória
ruim leva você a se lembrar de outra, e um pensamento ansioso ativa outra
meia dúzia de pensamentos ansiosos. Esta é uma das razões pelas quais, em um
casamento problemático, uma discussão a respeito de um incidente
insigni�cante pode, com muita facilidade e rapidez, se transformar em
acusações por faltas cometidas anos atrás (“Você nunca se preocupou com a
minha carreira; você se lembra da época em que eu fui promovido, em 1988?”)
ou em prognósticos catastró�cos (“Eu simplesmente não consigo me imaginar
tendo um �lho com você”). Não é de surpreender que este tipo de rede
semântica extremamente negativa pode ser nociva, levando a círculos viciosos
nos quais nossos problemas só tendem a piorar. Por esta razão, os terapeutas
cognitivos, normalmente, costumam tratar a depressão e a ansiedade (e não
apenas os casamentos em crise), tentando acabar com as associações negativas
nas redes semânticas de seus clientes. A crença de que você é pouco atraente,
por exemplo, pode estar ligada à memória da ocasião em que sua esposa
comentou sobre seu ganho de peso e à ideia �xa de que ela não o ama mais. O
trabalho do terapeuta é contestar esses pensamentos usualmente distorcidos,
desa�ando, literalmente, a sua lógica ou oferecendo uma interpretação mais
benevolente.
A terapia cognitiva é bastante e�caz,97 em parte porque, muitas vezes, é
extraordinariamente bem-sucedida ao dissociarnossos pensamentos e
memórias pessimistas uns dos outros. No entanto, uma vez que nem todos têm
tempo, recursos ou meios para frequentar um terapeuta, ofereço aqui uma
estratégia alternativa para lidar com redes semânticas negativas. Ela envolve não
interromper a conexão entre determinados pensamentos e memórias especí�cas
(o que, muitas vezes, tem de ser laboriosamente executado individualmente),
mas infundir, em toda a rede semântica, emoções positivas, que atuarão,
essencialmente, para dissolver ou enfraquecer as conexões entre todas as nossas
imagens, memórias e pensamentos negativos, rancorosos, revoltados e
dolorosos.
Como isso funciona? As emoções positivas têm propriedades notáveis, que as
permitem servir como um antídoto contra os estados negativos. Sentimentos
de alegria, satisfação, interesse, serenidade ou orgulho podem nos ajudar a
perceber nossos casamentos sob uma perspectiva mais ampla e proporcionar
uma “pausa psicológica” em meio à tensão e à provação conjugais, diminuindo
o impacto de quaisquer experiências desagradáveis. Além disso, tais estados
positivos podem anular diretamente os efeitos esporádicos das emoções
negativas. Por exemplo, uma discussão com o nosso cônjuge normalmente nos
induz a �car totalmente alterados – instantaneamente, observamos picos na
pressão arterial, na frequência cardíaca e na temperatura da pele. Deve-se
observar que um simples sentimento positivo transitório (o prazer do sol em
nosso rosto, pensar que vamos sair para almoçar) pode acelerar nossa
recuperação deste estado pouco saudável. Assim, até mesmo as emoções
positivas breves ou insigni�cantes, quando confrontadas com problemas,
podem desenvolver a nossa resiliência e nos ajudar a nos recuperar.98
Estudos também têm demonstrado que, quando vivenciamos alegria,
contentamento, curiosidade ou orgulho, nos sentimos prontos para enfrentar o
mundo; �camos mais conscientes, criativos e abertos a novas experiências; nos
sentimos mais con�antes e mais unidos com aqueles que nos são íntimos;
atribuímos mais signi�cado à vida; e temos a sensação de estar no comando de
nossos próprios destinos.99 E, além disso, quanto mais emoções positivas
sentirmos, mais pensamentos e experiências positivas colheremos, até o ponto
em que nossas emoções positivas acabem desenvolvendo toda uma vida
própria, gerando saudáveis espirais ascendentes. Como disse Barbara
Fredrickson, a maior especialista do mundo no estudo das emoções positivas,
“as emoções positivas (...) desbloqueiam os caminhos do crescimento, levando
as pessoas a se tornarem versões melhores de si mesmas”.100
A busca de uma proporção de três para um. Todos sabemos – na verdade,
sempre soubemos – que emoções positivas, satisfações e pequenos prazeres
provocam sensações realmente boas. Mas agora sabemos que os prazeres das
emoções positivas escondem de nós e de nossos relacionamentos o seu
verdadeiro valor. O próximo passo é decifrar exatamente o que temos de fazer –
quando, como e quanto – para trazer mais emoções positivas para as nossas
vidas. Com base em mais de uma década de pesquisas do seu próprio
laboratório e de laboratórios de outros cientistas, Fredrickson a�rma que
procuramos experimentar pelo menos três vezes mais emoções positivas do que
emoções negativas em nossas vidas – ou seja, uma proporção de emoções
positivas para negativas de, no mínimo, três para um.101 Ela descobriu que
todas as pessoas mais prósperas, todos os casamentos mais prósperos e todos os
grupos de trabalho mais prósperos – aqueles que exibem crescimento,
generosidade e resiliência – demonstram ter proporções maiores do que três
para um. Quando nos encontramos abaixo dessa proporção, as emoções
positivas (ou pensamentos ou interações sociais positivas) que experimentamos
são insu�cientes para respaldar o funcionamento em níveis ótimos. Isto
signi�ca que, se experimentamos aproximadamente a mesma quantidade de
emoções positivas e negativas – e, até mesmo, se experimentamos o dobro de
emoções positivas em relação às negativas –, estamos suscetíveis a �car
debilitados, solitários e angustiados.
Por exemplo, casais felizes se caracterizam por proporções de cerca de cinco
para um em suas expressões verbais e emocionais mútuas, enquanto casais
infelizes exibem proporções de menos de um para um. Signi�cativamente, as
mesmas proporções ideais entre emoções boas e ruins (de cinco para um)
caracterizam as equipes de trabalho produtivas, em comparação com as menos
produtivas. Os cientistas que documentam o cotidiano das pessoas também
descobriram que os indivíduos mais saudáveis e prósperos costumam relatar o
aparecimento de cerca de três eventos bons a cada dia para cada evento
ruim.102 Evidentemente, isso não signi�ca que as experiências negativas são
três vezes piores do que as positivas, mas o que a ciência sugere é que o
“impacto” de uma emoção ruim, de uma observação verbal irônica ou de um
evento desagradável na vida pode se igualar ou superar o de três ou mais
acontecimentos bons. Por isso, seria melhor lutar três vezes mais pelas
experiências boas em detrimento das más, e, idealmente, cerca de cinco vezes
mais. John Gottman, pesquisador do tema do matrimônio e terapeuta de
casais, a�rma que consegue prever quais casais irão se divorciar, simplesmente
levando em consideração a magnitude da proporção entre as experiências boas
e ruins em suas interações mútuas.103
Minha recomendação é fazer um diário dos acontecimentos positivos e
negativos que ocorrem entre você e seu parceiro – por exemplo, quantas vezes
por semana vocês brigam, demonstram afeto, expressam gratidão, criticam,
ignoram, e assim por diante. Calcule a sua proporção entre as coisas boas e
ruins, e determine-se a aumentar o numerador (ou os eventos positivos no seu
casamento – em outras palavras, faça amor, não a guerra) e a reduzir o
denominador (ou os eventos negativos – por exemplo, antecipando e cortando
um con�ito pela raiz). Em outras palavras, da mesma forma que acontece com
sua conta bancária, seu objetivo deve ser o de fazer muito mais depósitos
(positivos) em nome do seu casamento do que saques (negativos). Sugiro
perguntar-se a cada manhã: “O que posso fazer hoje, durante cinco minutos,
para tornar a vida do meu parceiro melhor?”. Estudos têm demonstrado que
comportamentos muito simples – por exemplo, rememorar um evento
enfadonho e engraçado, revelar algo particular, sorrir, ouvir atentamente as
palavras do parceiro, mostrar-se entusiasmado e ser brincalhão ou bem-
humorado – podem afetar nossa felicidade e intimidade conjugais, os
resultados das brigas e, até mesmo, nossa saúde.104 É possível prever o
resultado de uma conversa de quinze minutos entre um casal nos três primeiros
minutos.105 Portanto, faça com que os três primeiros minutos valham a pena!
E, custe o que custar, tente estancar as emoções desagradáveis e as interações
plenas de inveja em seu casamento.
A positividade pode ser excessiva? Os psicólogos positivos não costumam
abordar o assunto de que interações ou emoções positivas em demasia podem
ser prejudiciais. No entanto, quando se trata de casamentos – especi�camente,
quando se trata de um casamento em profunda crise –, até mesmo a
positividade um tanto excessiva pode-se converter em um risco real.
Os terapeutas conjugais costumam ensinar os casais a pensar e a se
comportar de maneira positiva um para com o outro. Desta forma, talvez você
seja incentivado, por exemplo, a fazer atribuições benevolentes às falhas do seu
parceiro (“Ele só gritou comigo na frente do caixa porque teve um dia
estressante”), e talvez seja desencorajado a calcular quantas vezes esta semana
ele acusou ou rejeitou você. Em outras palavras, como Benjamin Franklin
aconselha no Poor Richard’s Almanack [Almanaque do Pobre Ricardo]:
“Mantenha seus olhos bem abertos antes do casamento, e semicerrados
depois”. Metade de todos os casais, no entanto, não se bene�cia nem um
pouco deste tipo de terapia,106 e alguns cientistas conjecturam que isto ocorre
porque, em vez de manter seus olhos semicerrados, os casaismais
problemáticos precisam averiguar o quanto têm se culpado e rejeitado um ao
outro. Eles precisam manter os olhos abertos. Precisam perceber quando estão
sendo negligentes ou maldosos. Em suma, casais em crise precisam monitorar e
reconhecer seus problemas (mesmo que isso os faça sentirem-se mal ou
temporariamente insatisfeitos), para que possam resolvê-los.
Podemos ser aconselhados a não dar importância às pequenas coisas em
nossos relacionamentos, mas a verdade é que estas coisas podem não ser
pequenas. Assim, quando minimizamos uma briga, esquecemos uma mágoa ou
fazemos as pazes muito rapidamente, talvez estejamos deixando de notar e de
resolver um problema maior que está vindo à tona em nosso casamento, e
permitindo que tal problema piore cada vez mais. Os pesquisadores
descobriram que os casais muito felizes ou que têm apenas problemas menores
ou infrequentes se bene�ciam quando fazem atribuições mútuas positivas,
alimentam altas expectativas e não monitoram mágoas ou menosprezos. Mas os
casais que têm problemas mais graves exibem o padrão oposto. Pode parecer
absurdo, mas aqueles que mais se bene�ciam são os que fazem inferências
menos otimistas a respeito do mau comportamento alheio, que expressam
menos expectativas positivas e que estão conscientes das vezes em que
magoaram um ao outro.107 Em suma, aqueles que estão passando por
casamentos muito infelizes devem se esforçar ainda mais para aumentar suas
emoções e interações positivas, mas não à custa de �carem cegos diante de seus
problemas.
A DANÇA DA CONVERSA (SINCRÔNICA)
Tenho predileção por dois estudos recentes, que se dedicaram a medir o grau
com que casais formados em encontros fortuitos e casais de universitários
mostraram “sincronia linguística” (também conhecida como estilo de
linguagem correspondente) em suas conversas.108 Você e seu parceiro exibem
sincronia linguística quando as palavras e as expressões utilizadas por ambos
são mutuamente compartilhadas. Os dois podem, por exemplo, usar muitos
clichês (“eram os bons e velhos tempos”), ou ambos podem usar uma
linguagem rebuscada ou relativamente formal, ou ambos podem gostar de
invocar palavras que remetem às emoções (triste, ansioso, medroso), ou usar uma
série de pausas e hmms, ou ambos podem usar expressões mais populares
(“Tipo, eu tomei um leite totalmente podrão hoje”). Já se constatou que as
pessoas que exibem estilos similares na fala e nos gestos (postura, olhar etc.)
têm mais probabilidades de se sentirem atraídas uma pela outra.109 Em estudos
mais recentes, porém, procurou-se avaliar se casais e casais em potencial
espelhavam sutilmente (e, supõe-se, inadvertidamente) um ao outro no uso de
palavras com determinada função, tais como artigos (uma, a) e pronomes (eu,
você, nós, ele). Isso pode parecer bastante obscuro, mas a utilização coordenada
de palavras com determinada função pode re�etir até que ponto dois
interlocutores estão tentando envolver um ao outro, bem como em que medida
eles têm sucesso em se comunicar e em compreender-se mutamente.
As descobertas intrigantes foram que os casais que se encontravam pela
primeira vez e cujos estilos de linguagem correspondiam, mostravam-se mais
propensos a querer se encontrar novamente, e que os casais de universitários,
cujos estilos de linguagem correspondiam, mostravam-se mais propensos a
ainda estar juntos três meses depois (considerado um tempo longo para um
�erte de faculdade). Aqueles cujos estilos não correspondiam mostraram-se
menos propensos a manifestar interesse romântico mútuo (no estudo dos
encontros fortuitos) e mais propensos a se separar (no estudo com os casais de
namorados). Os pesquisadores também analisaram a sincronia linguística em
cartas e poesias de famosas duplas românticas e platônicas – por exemplo,
Sylvia Plath e Ted Hughes, Elizabeth Barrett Browning e Robert Browning, e
Sigmund Freud e Carl Jung. Sob o critério dos altos e baixos em seus
relacionamentos, as análises mostraram que os momentos mais felizes (por
exemplo, os primeiros quatro anos de casamento de Plath e Hughes) foram
marcados pela maior sincronia linguística, e que seus momentos menos felizes
(dois anos antes do suicídio de Plath, aos trinta anos de idade) foram marcados
por menor sincronia.110
Alguém poderia usar o argumento de que não há nada que possamos fazer
sobre o grau com que a nossa linguagem espelhará a de nossos parceiros – que
o processo é incontrolável e automático –, mas acredito que possamos,
deliberadamente, tentar corresponder aos padrões linguísticos um do outro, e,
como resultado, colher benefícios para o relacionamento. As mulheres parecem
ser naturalmente melhores para esse tipo de mimetismo verbal (assim como o
não verbal) do que os homens,111 mas talvez isso signi�que, apenas, que os
homens têm de se esforçar mais. Você já interrompeu alguma conversa para
atender o telefone, e, imediatamente, se percebeu mudando o modo de falar
para corresponder ao estilo da pessoa que está do outro lado da linha? Às vezes,
isso acontece sem esforço algum, mas, em outras ocasiões, você pode estar
plenamente consciente de que é necessário exercer os controles mental e verbal
(e, portanto, pode se sentir exausto e aliviado depois de terminada a conversa).
Seu corpo também atua para espelhar o do seu interlocutor. Estudos mostram
que, durante uma conversa, duas pessoas normalmente espelham seus
respectivos comportamentos (por exemplo, você se reclina, ela se reclina; você
coça o queixo, ela coça o queixo; você ri, ela ri), em muitas ocasiões sem nem
mesmo perceberem.
Se você consegue mudar conscientemente o seu modo de falar, pode
desenvolver conscientemente uma sincronia linguística com o seu cônjuge ou
parceiro e, por conseguinte, melhorar o seu relacionamento, mesmo que seja
apenas um pouco. A principal razão para que a sincronia bene�cie esses
relacionamentos é que ela é um sinal de que estamos ouvindo e realmente
tentando conhecer e compreender um ao outro. Estar atento é fundamental.
Um ouvinte distraído, por exemplo, parece trazer mais danos a uma
experiência compartilhada do que, até mesmo, um ouvinte hostil.112 Embora
isso possa parecer inicialmente contraditório, quando estamos compartilhando
uma lembrança, um incidente ou um sonho de vida importantes com um
amigo ou parceiro, tendemos a preferir uma reação negativa a reação alguma.
Assim, a sincronia linguística é especialmente valiosa em relacionamentos
problemáticos, que apresentam um nível relativamente maior de conversas
difíceis. Se você conseguir espelhar o modo de falar e os gestos de seu parceiro
durante uma conversa tensa, é mais provável que consigam ouvir um ao outro
e resolver as questões do dia a dia.
MELHORE SUA VIDA: LIDANDO COM UM CASAMENTO PROBLEMÁTICO
Há elementos de uma relação que são muito difíceis de cultivar ou de
aprimorar. Nosso parceiro pode ter uma característica com a qual temos
di�culdade de conviver (temperamento difícil, narcisismo, um vício qualquer).
Ele nos pode ter traído. Seu trabalho pode fazer com que ele passe cinco dias
por semana longe de casa. Talvez nós já tenhamos tentado mudá-lo ou mudar a
situação, sem muito sucesso. Quando estamos enfrentando grandes problemas
em nosso casamento, talvez nos ocorra adotar medidas que nos ensinem a
conviver com nossas di�culdades atuais e a tirar o melhor proveito da situação.
Embora, de início, esse caminho possa parecer um esforço hercúleo, ele nos
ajudará a sobreviver ao gigantesco obstáculo, até que estejamos prontos a fazer
uma grande mudança e nos afastar, ou, talvez, superar o obstáculo e chegar a
uma etapa mais satisfatória.
Para aqueles que escolherem este caminho, as descobertas de três áreas
distintas de pesquisa podem ser inestimáveis. A primeira é buscar consolo e
alegria fora de nossos casamentos – em nossos familiares e amigos. A segunda é
aprender maneiras novas e equilibradas de chegar a um veredicto, avaliar e dar
um sentido à nossa vida cotidiana. A terceira é perdoar.
APOIO SOCIAL
A necessidade de pertencer, de se sentir cuidado e de dependerde outros
indivíduos e grupos para prosperar e sobreviver é parte essencial de nossa
natureza humana (e primata).113 O apoio social é fundamental para nos ajudar
a lidar com experiências estressantes e dolorosas. Quando estamos com
problemas conjugais, procurar um amigo, um parente, um conselheiro
espiritual ou, até mesmo, um animal de estimação114 pode, imediatamente,
fortalecer o nosso espírito e abrandar nossas preocupações. Nossas companhias
podem fazer com que nos sintamos amados e valorizados, podem nos ajudar a
compreender melhor nossa situação e nos dar conselhos especí�cos sobre como
enfrentá-la, e podem nos dar assistência concreta ou �nanceira. Em certo
sentido, um ouvido disposto a nos escutar e um ombro sobre o qual chorar
podem diminuir o sofrimento que estivermos sentindo em nosso casamento e
nos fornecer os recursos dos quais precisamos (con�ança, informações, uma
rota de fuga) para lidar com isso ou adotar outras medidas.
Quando eu era jovem, costumava subestimar profundamente o valor dos
apoios social e emocional. Lembro-me de uma determinada ocasião em que
passei horas e horas chorando – ruminando e me deixando obcecar –, e me
debulhando por um relacionamento fracassado. E, então, depois de expor meus
sentimentos por cerca de uma hora para uma amiga, minha angústia diminuiu
do grau dez para, possivelmente, o grau três. Quanto eu teria pago por uma
pílula que tivesse um efeito salutar tão grande quanto esse?
Quando somos confrontados com um grande problema em nosso casamento
– in�delidade de nosso parceiro, brigas diárias, discordância total em relação a
ter �lhos –, este problema parece tão insuperável e assustador que é difícil
imaginar que o simples afeto e o acolhimento de um amigo ou familiar possam
fazê-lo arrefecer. É claro que, na maioria das vezes, o apoio social não fará um
problema desaparecer, mas pode contribuir bastante para ajudar a resolver o
problema, mitigá-lo e lançar luz sobre nossas reações emocionais. Em um
engenhoso estudo que corrobora este argumento, os pesquisadores recrutaram
voluntários que passavam ao pé de um morro e estavam sozinhos ou com um
amigo.115 Incrivelmente, aqueles que estavam acompanhados – especialmente
com um amigo íntimo e que conheciam há longo tempo – consideraram o
morro menos íngreme do que aqueles que estavam sozinhos. Servindo como
uma metáfora para os desa�os da vida – e os desa�os do casamento em
particular –, colegas e con�dentes podem fazer com que nossos problemas e
nossas tensões também nos pareçam menos graves.
Algumas vezes, quando você sente que deseja abandonar seu cônjuge, a
pessoa que você realmente quer deixar para trás é você mesmo. Na verdade, o
fenômeno Michelangelo pode funcionar tanto de maneira positiva quanto
perniciosa. Em vez de tê-lo ajudado a alcançar o seu “eu” ideal, é possível que
seu parceiro tenha ajudado, ao contrário, a transformá-lo em um indivíduo que
você mesmo despreza. Esta é uma outra situação à qual amigos e familiares
podem prestar um apoio inestimável – ajudando-o a ter uma visão do todo,
renovando a sua con�ança, reconhecendo o quanto você pode ter mudado para
pior, e ajudando a desfazer tais mudanças.
Em suma, se você, algum dia, for surpreendido com a péssima sensação de
que está casado com a pessoa errada, uma das medidas mais valiosas a tomar é
conversar com pessoas de con�ança. Além dos benefícios psicológicos e
concretos que acabei de descrever, você poderá usufruir de bônus neurológicos
e �siológicos. Os cérebros, corações, sistemas neuroendócrinos e imunológicos
das pessoas que contam com um con�dente mostram menos reatividade a
situações nas quais estejam enfrentando alguma mágoa ou pressão, como se
sentirem rejeitadas ou ignoradas.116 Além disso, a mera percepção de poder
contar com o apoio social – por exemplo, o pensamento de que sua mãe estará
sempre lá ao seu lado – pode reduzir o estresse e aumentar seu nível de
felicidade, especialmente diante de desa�os. E você não precisa ser o centro das
atenções, cercado por uma dúzia de pessoas prontas a fazerem sacrifícios por
você. Os benefícios do apoio social se estendem para aqueles que,
simplesmente, participam de grupos em suas comunidades (associação de pais
e mestres, grupo de leitura, clube de corrida, grupo da igreja ou da sinagoga),
e/ou que são capazes de identi�car pelo menos um amigo reciprocamente
íntimo.117 Ter muitos amigos íntimos fora do casamento parece
desnecessário.118
A TÉCNICA DA “MOSCA NA PAREDE”
Um casamento problemático não seria chamado de problemático se não fosse
marcado por uma sucessão de discussões e desrespeitos: Ela foi fria comigo hoje.
Ele me humilhou na frente dos nossos amigos. Ela rejeitou a minha tentativa de
afeto. Ele fez uma compra vultosa sem me consultar. Ela �cou até tarde na rua e se
tranca�ou no quarto depois de chegar em casa. Ele deu alimentos pouco saudáveis
para as crianças e ignorou completamente minhas objeções. Ela perdeu a paciência
com algo insigni�cante. Ele fez com que eu me sentisse uma idiota. Ela não parecia
se preocupar com o que acontecia na minha vida. Sinto-me exausta e um pouco
triste só de imaginar o impacto emocional de tais incidentes. Se alguma dessas
coisas acontece conosco, uma das respostas mais comuns é �car pensando nelas
– passiva e repetidamente –, até que as nossas mentes estejam fervilhando,
cheias de recriminações, preocupações, rejeições, aborrecimentos, apreensões,
dúvidas e vulnerabilidades. Em outras palavras, quanto mais ruminamos sobre
uma mágoa ou um problema, pior nos sentimos, mais negativas se tornam
nossas conclusões, e mais longe �camos de uma solução ou de uma saída.119
No entanto, embora a minha própria pesquisa e as de outros sugiram que é
melhor não pensar sobre isso, e, sim, redirecionar nossa atenção para algo mais
positivo ou, simplesmente, não se inquietar com pequenas coisas,120 muitas
vezes esta recomendação é inalcançável ou impossível de seguir. Quando nossos
parceiros são negligentes ou desdenhosos, o seu comportamento,
provavelmente, é a evidência de um problema que não desaparecerá por conta
própria – um problema que, para o bem ou para o mal, exige uma ação.
Uma linha de pesquisa muito nova sugere uma maneira mais saudável de
absorver as experiências dolorosas: devemos analisar nossos sentimentos
negativos e problemas a partir de uma perspectiva “autodistanciada”.121 Em
outras palavras, devemos tentar observar e pensar sobre nós mesmos através dos
olhos de outra pessoa, como se fôssemos uma mosca na parede. Mais do que
isso, devemos evitar pensar e visualizar nossas experiências passadas (por
exemplo, recordar aquela discussão ou humilhação) com os nossos próprios
olhos, já que tal perspectiva de “autoimersão” geralmente desencadeia uma
ruminação nociva.
A lógica por trás disso é que, quando re�etimos sobre uma experiência ruim
como se fôssemos um observador – como se estivéssemos nos vendo de longe
–, somos capazes de reformular a experiência de uma maneira que nos ajuda a
obter discernimento e chegar a um fechamento. Por outro lado, quando
recordamos o acontecimento negativo através de nossos próprios olhos – como
se estivéssemos no meio da cena –, acabamos reacendendo, com desagradáveis
detalhes, exatamente o que aconteceu, quem disse o quê e como nos sentimos.
Estudos mostram que pessoas que assumem naturalmente uma perspectiva de
autoafastamento ou de “mosca na parede” sobre um episódio recente que tenha
lhes causado rejeição ou irritação, ou que são incentivadas a assumir tal
perspectiva por um experimentador, estão mais propensas a tentar resolver os
seus problemas de uma forma construtiva, e menos propensas a espelhar o
comportamento hostil de seu parceiro.122 Além disso, o autodistanciamento
nos protege contra raiva, tristeza e pessimismo,123 e nos torna menos
�siologicamente reativos ao estresse (por exemplo, com menos picos de pressão
arterial), o que não só é bom para nossas emoções, como também para nossa
saúde física.124
Portanto, da próxima vez que você vivenciar uma pequena ou grandecrise
no seu casamento, deixe o tempo passar, e, em seguida, delibere sobre isso
assumindo o ponto de vista de um observador objetivo – digamos, o seu
terapeuta, um amigo imparcial ou, até mesmo, um estranho –, examinando a si
mesmo e ao seu cônjuge a partir de uma determinada distância. Os cientistas
demonstraram que este exercício impedirá que você se envolva em ruminação
ou evitação circulares,125 conduzindo-o, ao contrário, a uma compreensão mais
clara e coerente da crise, e, inclusive, a uma percepção que lhe permitirá chegar
a alguma solução ou à sensação de fechamento.
GUARDANDO AS EXPERIÊNCIAS NEGATIVAS
É preciso reconhecer e se esforçar para resolver muitos dos problemas que
pairam sobre um casamento, mas há alguns que devem ser aceitos e esquecidos.
Estes são os que devemos “guardar” e pôr de lado. Talvez você esteja se
perguntando que tipo de experimentos fornecem suporte empírico para essa
recomendação, ou como esta ideia pode ser transportada para o laboratório.
Surpreendentemente, veri�ca-se que esse transporte não é necessário. Os
pesquisadores instruíram os participantes a escrever suas lembranças muito
dolorosas e, em seguida, literalmente, pediram-lhes para guardá-las (não em
uma caixa, mas em um envelope).126
Se você fosse reproduzir esta experiência, deveria pensar, primeiro, em algo
que o faça se sentir realmente mal – por exemplo, rememorar um
acontecimento ou uma decisão em seu casamento que você lamenta
profundamente (digamos, a in�delidade de um dos parceiros), ou pensar em
um forte desejo pessoal que tenha sido frustrado (ter um bebê ou mudar de
emprego).127 Em seguida, você registraria por escrito a experiência em algumas
folhas soltas, e isso faria você se sentir ainda pior, pelo menos no início.
Finalmente, você dobraria os papéis, os colocaria dentro de um envelope
pardo, fecharia ou colaria, e o entregaria para o experimentador ou o
descartaria. Descobriu-se que este procedimento enfraquece o impacto
emocional do acontecimento angustiante e faz as pessoas se sentirem menos
tristes, menos arrependidas, menos ansiosas, menos desapontadas e menos
irritadas.
Quando falamos em administrar ou monitorar nossas emoções, muitas vezes
usamos termos relacionados aos invólucros físicos – por exemplo, enterrar a
tristeza, entubar nossas preocupações, pôr um freio em nossa raiva ou varrer
nossos sentimentos para baixo do tapete. Isso porque o ato físico de vedação,
fechamento ou travamento nos ajuda a alcançar o fechamento psicológico de
nossos problemas e tristezas. Depositar nossas preocupações em uma
embalagem que, então, vedaremos, nos dá uma sensação de alívio e de que
nossas emoções estão sob controle. Esta técnica pode parecer, no mínimo,
simples, e, na pior das hipóteses, uma bobagem, mas eu o aconselharia a tentar.
Guardar um objeto relacionado a seus problemas em um recipiente – seja uma
anotação em um diário, uma carta ou uma fotogra�a – pode aliviar grande
parte da angústia, e ajudá-lo a seguir em frente.
O PERDÃO É SEMPRE UMA COISA BOA?
Há poucos minutos, no trabalho, você recebeu um telefonema de seu companheiro
dizendo que ele tinha acabado de chegar em casa depois de passar a noite com outra
pessoa. Vocês estão passando por uma fase difícil, mas, para você, a relação era,
basicamente, boa. Seu companheiro pediu desculpas e quer marcar um encontro
hoje à noite.128
Este cenário hipotético de alta voltagem emocional vem sendo usado por
uma equipe de pesquisadores que estuda como medir e cultivar o perdão.
Imagine, com todas as suas forças, que isso acabou de acontecer com você.
Como você reagiria neste instante? Como você administraria seus sentimentos
e seu relacionamento a partir de hoje? Há espaço, em seu coração, para o
perdão?
Sempre �quei admirada com as pessoas que perdoam genuinamente. Os pais
que perdoam os assassinos de seus �lhos. A pessoa que foi injustamente
aprisionada e perdoa o sistema que a traiu. Provavelmente, o mais famoso
prisioneiro desse tipo foi Nelson Mandela, ex-presidente sul-africano e Prêmio
Nobel da Paz. Quando assumiu o cargo presidencial, em 1994, diz-se que
Mandela a�rmou para a plateia reunida à sua frente, formada por muitas
autoridades, membros da realeza, presidentes e primeiros-ministros de todo o
mundo, que sua maior honra naquele dia era ter entre os convidados três
carcereiros de Robben Island, a prisão onde passara dezoito anos, vivendo em
péssimas condições alimentares e fazendo trabalho forçado em uma pedreira de
calcário. Mais tarde, Mandela explicou que, se não perdoasse, passaria o resto
de seus dias convivendo com a amargura e o ódio.129 Seu ponto de vista não é
apenas profundamente inspirador, mas está devidamente fundamentado por
evidências empíricas. Seja um gesto extraordinário, como nos dramáticos
exemplos citados, ou um desprendimento das ofensas cotidianas, perdoar os
outros pode nos libertar de várias formas.
O QUE DIZ A CIÊNCIA
“Errar é humano; perdoar é divino”.130 Não importa se uma versão deste
ditado tenha nos chegado por meio de artigos de revistas ou por nossas mães; a
maioria de nós já ouviu, em algum lugar, que o perdão é bom para quem o
pratica. O perdão envolve uma mudança na forma como vemos e nos
comportamos em relação às pessoas que nos magoaram – uma mudança que
transforma sentimentos dolorosos e vingativos em boa vontade (ou em
pensamentos, emoções e atos positivos).131 Diz-se que ele libera nossa raiva e
nosso ódio, melhora nossos relacionamentos e, �nalmente, nos deixa mais
felizes e saudáveis. Na verdade, descobriu-se que o verdadeiro perdão reduz
con�itos, minimiza a intrusão de pensamentos negativos, irritadiços ou
depressivos, reforça o pensamento otimista, estimula a satisfação com a vida,
promove o comprometimento e a satisfação no casamento, melhora a saúde
física e, inclusive, aumenta a produtividade no trabalho.132 Se você estiver
magoado com as atitudes de seu cônjuge, analise por alguns minutos as
implicações dessas descobertas.
Estudos de intervenção que ensinam estratégias para promover o perdão
foram realizados com sucesso com diversos grupos, incluindo casais,
sobreviventes de incesto, pais que vivenciaram o suicídio de um �lho, homens
cujas parceiras �zeram abortos contra a sua vontade, crianças prejudicadas em
relacionamentos e casais divorciados envolvidos em con�itos de
parentalidade.133 Os cientistas chegaram à conclusão de que, quando o
cônjuge, por exemplo, nos trata mal e não o perdoamos, sua ofensa se alastrará
para nossas futuras interações e con�itos conjugais e, �nalmente, �cará
pairando como uma nuvem negra sobre nós, impedindo-nos de resolver nossos
problemas. O perdão tem o poder não apenas de evitar essa espiral descendente
viciosa em nosso relacionamento, mas de despertar pensamentos e interações
afetuosos. De fato, um estudo revelou que perdoar uma pessoa (como nosso
parceiro ou nosso vizinho) produz efeitos até mesmo em nossos outros
relacionamentos. O simples fato de lembrar de alguém que perdoamos
fortalece nossos vínculos com a família, os amigos e colegas de trabalho, e nos
torna mais propensos a participar de campanhas bene�centes ou a nos
voluntariar para uma causa nobre.134
PORÉM... A RESSALVA DO CAPACHO
Se o perdão é tão grati�cante, e seus ilustres praticantes são tão virtuosos, por
que muitos de nós relutamos em adotá-lo como prática regular, especialmente
em nossos relacionamentos? Por que temos sentimentos mistos quando
observamos maridos e esposas que se martirizam há anos e que ainda perdoam
seus cônjuges, uma falta atrás da outra? Psicólogos evolucionistas e sociais
oferecem uma resposta plausível. Nossa probabilidade de sobrevivência e de
reprodução depende, por vezes, de sermos tolerantes e, em outras, de sermos
vingativos, e é fundamental diferenciar as situações que merecem uma resposta
ou a outra.135 Por exemplo, quando o perdão é concedido de forma muito
rápida e acrítica, podemos acabar in�igindo nosso autocontrole e autorrespeito,
lamentar nossa incapacidade de nos defender e prejudicar nossos
relacionamentos,impedindo nossos parceiros de aprender uma lição e de se
aprimorar.136 Se perdoamos nosso cônjuge apressadamente e com muita
frequência, corremos o risco de perder de vista os nossos valores, ignorando
problemas reais em nosso relacionamento, e nos tornando um capacho do
outro.
Quando perdoar e quando não perdoar? Recentemente, os cientistas
estabeleceram critérios para as ocasiões em que o perdão é bené�co ou
prejudicial. Essencialmente, se seu marido tiver cometido algum erro e você
acreditar que (1) vocês permanecerão casados porque você dá valor à
preservação do casamento; (2) não é provável que ele repita a ofensa ou a
magoe novamente; e (3) ele raramente se comporta mal, então o perdão terá
consequências positivas. Em um estudo com casais, por exemplo, cônjuges que
perdoaram parceiros que frequentemente se comportavam mal vivenciaram
crescentes problemas de relacionamento ao longo do tempo (e vice-versa), mas
cônjuges que perdoaram parceiros que raramente se comportavam mal
relataram uma satisfação permanente em seus casamentos.137
Outros estudos têm mostrado que pessoas que perdoam cônjuges com
disposição para se redimir ou que se redimiram integralmente experimentam
um forte senso de identidade e um aumento de autoestima, enquanto as que
perdoam cônjuges que não estão dispostos a se redimir ou que não se redimem
adequadamente se sentem signi�cativamente piores em relação a si mesmas.138
Em suma, se sua esposa – que pode ter sido in�el, desonesta ou vil – dá sinais
de que você estará seguro e será valorizado em seu casamento, perdoá-la
reforçará sua sensação de segurança e de autodignidade, preservará o seu
casamento e melhorará os inevitáveis con�itos e problemas. No entanto, é
preciso analisar se nossa propensão a perdoar advém de uma razão legítima e
bem ponderada com vistas a salvar nosso casamento, ou se temos tanto medo
de que se realize a nossa profecia de que nunca seremos felizes se o nosso
casamento acabar, que faremos tudo o que pudermos para evitar um confronto
maior. O perdão é uma escolha que requer um esforço consciente, e este
esforço pode render inúmeros dividendos – tanto para você quanto para seu
relacionamento. Mas se todos os indícios sinalizam que seu parceiro não sente
remorso algum e se comportará mal novamente, então perdoar não será a coisa
mais “divina” a fazer.
PARTINDO, ANTES QUE SEJA TARDE DEMAIS
Você já tentou de tudo, mas a proporção entre as experiências positivas e
negativas em seu casamento é, na melhor da hipóteses, de um para um. Você
está profunda e constantemente infeliz e não quer mais desperdiçar os melhores
anos de sua vida. A separação e o divórcio são decisões tão pessoais que
ninguém – nem mesmo um respeitado terapeuta conjugal – pode recomendar
a um casal que leve ou não adiante essa ideia. Eu também não farei isso, mas
gostaria de compartilhar algumas conclusões e descobertas muito recentes e
fundamentais no campo da ciência social, que podem (ou não) in�uenciar sua
decisão.
O VALOR DA ESPERA
O ditado de que “o tempo curará todas as feridas” é uma daquelas frases que
talvez sejam verdade, pelo menos em certas circunstâncias, mas que é difícil de
se ouvir. Se seu casamento estiver sujeito a ondulações naturais, ou a altos e
baixos, e você já se encontrar nesta parte baixa há algum tempo, é muito
possível que você, simplesmente, consiga resistir. Certa vez, ouvi uma bela
história sobre uma bacia de água barrenta. A água estava suja e o dono não
sabia o que fazer para limpá-la. Ele deveria fervê-la? Congelá-la? Sacudi-la?
Coá-la? Existiria algum produto químico capaz de absorver ou neutralizar a
sujeira? Ele tentou todos esses métodos, mas não deu muito certo. O que
realmente funcionou foi deixar que a bacia de água barrenta assentasse por
algum tempo e se acomodasse. Assim, ele suspendeu todos os seus esforços,
relaxou e, simplesmente, deixou a água se estabilizar. Depois de algum tempo,
percebeu que o lodo começou a se separar do resto por si só, e, em breve, a
água estava novamente cristalina.139
Se você deixar o casamento assentar, talvez perceba que a sujeira se separará
inteiramente do resto, por si só.
APÓS O DIVÓRCIO, VOCÊ APRENDERÁ A LIDAR COM ISSO 
E CRESCERÁ
E se o lodo não se dissolver por si só? Então, talvez, você resolva se separar ou
se divorciar, como fazem mais de 40% dos casais, e a decisão será
assustadora.140 A�nal, algo tão importante como o divórcio não só mudará a
sua vida e a de sua família em um milhão de modos, menores e maiores, mas
também poderá questionar a sua própria história – passado, presente e futuro
–, aquilo que traz coerência e propósito à sua vida. A�nal, não era assim que a
sua história deveria terminar.
De modo geral, as pessoas vivenciam uma gama de emoções durante e
depois do divórcio, que vão da traição e da rejeição à tristeza e ao alívio, da
raiva e do medo à culpa e à autopiedade. Além disso, tais emoções algumas
vezes a�oram dentro de um intervalo de minutos, dando um novo signi�cado
ao termo “montanha-russa emocional”. Talvez você sinta que a sua vida está
uma bagunça e que você está saindo dos eixos. Você pode começar a colocar
em dúvida sua autoestima e seu valor como companheiro. Talvez você esteja se
debruçando sobre montanhas de papéis, ligações intermináveis para seu
advogado, negociações estressantes com o seu ex sobre bens e guarda das
crianças, e �lhos que estão fazendo drama ou se isolando. Para completar, há
grandes chances de você se deparar com novas tensões �nanceiras, pro�ssionais
e sociais. Talvez você esteja sentindo uma enorme pressão para encontrar um
emprego, ou um emprego com melhor remuneração. E, justamente quando
precisa de mais apoio social, você pode estar se sentindo isolado e solitário,
porque as amizades mudam depois do término de um casamento, e alguns dos
“amigos” do casal podem se afastar.
Apesar dos enormes desa�os e desgastes, a maioria das pessoas consegue, de
alguma maneira, sobreviver ao divórcio e, inclusive, prosperar. De fato, a
análise de oito estudos que acompanharam diferentes pessoas antes e depois de
se divorciarem legalmente mostrou que a resposta típica foi uma felicidade
crescente a longo prazo.141 Um dos temas deste livro é que os seres humanos
são incrivelmente resilientes, dotados da capacidade de transformar traumas em
recursos, e experiências ruins em experiências de crescimento – por exemplo, se
recuperar de um divórcio e, até, sair dele mais forte do que antes. Minha
a�rmação favorita a respeito da resiliência é a que a rede�ne como “uma magia
ordinária”, e não como algo que pertence apenas às pessoas extraordinárias com
poderes especiais, a quem nunca poderemos esperar imitar.142 Pelo contrário,
trata-se de uma característica comum, que envolve a habilidade de se recuperar
diante das adversidades e de experimentar emoções positivas. No entanto, já
que quase todos nós não estamos conscientes da usual (embora notável)
predominância desta capacidade, normalmente subestimamos nossa capacidade
de resistir às infelicidades. Preocupamo-nos com o fato de nunca mais sermos
felizes depois de uma adversidade ou de um trauma, como o esfacelamento de
nossa família, e por isso subestimamos esta magia ordinária, que todos
possuímos.
Muita coisa já foi escrita – tanto por pesquisadores quanto por autores de
autoajuda – a respeito dos recursos especí�cos que nos ajudam a crescer e, até
mesmo, a nos “bene�ciar” do tipo de perda, sofrimento e trauma
característicos do divórcio.143 Estas forças nos ajudarão a lidar e a crescer no
decorrer de nossos piores dias. A partir de hoje, pratique alguma das seguintes
atividades, talvez as que você considerar mais naturais ou grati�cantes, ou, pelo
menos, aquelas que lhe causarem, de início, menos ansiedade:
• Procure identi�car o quanto você se fortaleceu depois de sua separação e
do seu divórcio.
• Faça um relato por escrito sobre o que aconteceu durante e após o �m de
seu casamento, como você cresceu e mudou por causa disso, e quais são as
novas prioridades e objetivos que consegue divisarporque se trata de “grandes” momentos, mas porque até
mesmo os impasses aparentemente devastadores podem ser trampolins para
mudanças positivas em nossas vidas. Uma pesquisa recente revelou que as
pessoas que sofreram alguma adversidade (por exemplo, vários acontecimentos
negativos ou momentos de mudança de vida) são, em última análise, mais
felizes (e menos angustiadas, traumatizadas, estressadas ou debilitadas) do que
aquelas que não vivenciaram adversidade alguma.2 Passar por vários momentos
devastadores “nos fortalece” e nos deixa mais bem preparados para lidar com os
desa�os e traumas posteriores, sejam eles grandes ou pequenos. Os
pesquisadores demonstraram que, além de promover a resiliência em geral,
compreender os desa�os de nossas vidas nos ajuda a de�nir e sedimentar nossas
identidades, o que reforça o otimismo sobre o nosso futuro e promove formas
mais e�cazes de lidar com as fontes permanentes de estresse.3 Finalmente,
vivenciar as emoções negativas, como tristeza, preocupação e raiva durante
nossos momentos críticos – quando tais emoções não são crônicas nem graves
–, pode ser extremamente valioso, já que tais emoções nos alertam para
ameaças, equívocos e problemas que exigem a nossa atenção. Em resumo,
aprender a olhar além das expectativas que estão ligadas aos mitos da felicidade
pode ser desconfortável e até doloroso no início, mas tem o potencial de
conduzir à prosperidade e ao crescimento.
Muitos momentos decisivos e importantes podem ser interpretados como
uma encruzilhada, a partir da qual podemos seguir dois ou mais caminhos. O
modo como reagimos a estes momentos – que podem parecer, na ocasião,
como o “�m do caminho” – determinará, em parte, como seus resultados se
processarão. Se compreendermos a forma pela qual os mitos da felicidade
controlam as nossas reações, estaremos mais propensos a responder com
sabedoria. Na verdade, a incapacidade de compreender o impacto do falacioso
“eu serei feliz quando [tiver um parceiro, emprego, dinheiro, �lhos]” pode nos
levar a tomar decisões muito ruins – por exemplo, abrir mão de bons empregos
e casamentos, prejudicar as relações com nossos �lhos, desperdiçar nosso
dinheiro e ferir nossa autoestima. E, se continuarmos a acreditar que “não
poderei ser feliz se [não tiver um parceiro, dinheiro, juventude, realizações
pessoais]”, podemos, inadvertidamente, criar uma profecia autorrealizável, de
tal forma que os momentos decisivos acabem envenenando nossa felicidade e
contaminando os aspectos ainda satisfatórios de nossas vidas.
A maneira como respondemos aos momentos críticos – se �camos
cabisbaixos quando devemos encarar os fatos de frente, ou se �camos parados
quando devemos agir – pode ter efeitos cumulativos ao longo de nossas vidas.
Nestes momentos, determinaremos o futuro.
Era uma vez um velho agricultor que morava em uma pobre aldeia no interior
do país. Seus vizinhos o consideravam rico, porque ele possuía um cavalo, que
vinha sendo utilizado há muitos anos para trabalhar nas lavouras. Um dia, seu
adorado cavalo fugiu. Ao ouvir a notícia, seus vizinhos se reuniram em torno
dele para manifestar a sua compaixão. “Que azar”, disseram simpaticamente.
“Talvez”, respondeu o fazendeiro. Na manhã seguinte, o cavalo retornou, mas
trouxe com ele seis cavalos selvagens. “Que maravilha”, se regozijaram os
vizinhos. “Talvez”, respondeu o velho. No dia seguinte, seu �lho tentou selar e
montar um dos cavalos indomados, foi derrubado e quebrou a perna. Mais
uma vez, os vizinhos visitaram o agricultor para oferecer-lhe consolo naquele
momento de infortúnio. “Talvez”, disse o agricultor. No dia seguinte, os
o�ciais de recrutamento chegaram à aldeia para convocar jovens para o
exército. Vendo o �lho do agricultor com uma perna quebrada, eles o
ignoraram. Os vizinhos parabenizaram o agricultor pela forma satisfatória
como as coisas aconteceram. “Talvez”, respondeu o fazendeiro.
“Alegria e dor tecem trama �na”. O verso de William Blake do poema
“Augúrios de inocência” extrai, simples e elegantemente, a dose de sabedoria
desta história. Ele também ajuda a responder à pergunta de por que os mitos
da felicidade estão equivocados. Podemos estar convencidos de que um
determinado momento decisivo deve nos fazer rir ou chorar, mas a verdade é
que os acontecimentos positivos e negativos estão, muitas vezes, entrelaçados,
tornando as previsões sobre as consequências – que podem advir de maneira
cumulativa e inesperada – extremamente complexas. Da mesma forma, quando
consideramos a melhor – e a pior – coisa que nos aconteceu nos últimos anos,
podemos nos surpreender ao constatar que, muitas vezes, elas são a
mesmíssima coisa. Talvez nossos corações tenham �cado destroçados, mas �car
sozinho pode ter contribuído para solidi�car nossa identidade e nos levado a
encontrar um companheiro mais ideal. Talvez tenhamos sido afastados de uma
carreira à qual dedicamos longos anos, mas o acontecimento pode ter-nos
impulsionado a mudar para uma área mais empolgante. Ou, talvez, tenhamos
�cado entusiasmados depois de vender a empresa por uma grande soma de
dinheiro, mas agora consideramos este um dos maiores erros de nossa vida.4
Em suma, muitas vezes não conseguimos reconhecer de imediato quais são os
acontecimentos que representam uma mudança de vida, nem de que forma. Às
vezes, um acontecimento inegavelmente positivo – ganhar na loteria, ser
promovido, ter um �lho – desperta uma crise ou uma profunda decepção, pois
reagir com uma alegria contida viola as noções daquilo que deveria nos deixar
felizes. E, em outras ocasiões, uma infelicidade – perder um emprego, um
sonho ou um companheiro de toda a vida – é um trampolim para algo
maravilhoso, em parte porque percebemos que estávamos errados ao acreditar
que tais acontecimentos seriam uma ferida eterna.
Em uma série de re�nados experimentos, Tim Wilson, professor da
Universidade da Virgínia, Dan Gilbert, professor da Universidade de Harvard,
e seus colaboradores demonstraram que nosso maior erro é superestimar por
quanto tempo e com que intensidade um acontecimento particularmente
negativo (como um diagnóstico de HIV, ou ser demitido de um emprego que
amamos) nos fará cair em desespero, e por quanto tempo e com que
intensidade um acontecimento particularmente positivo (ganhar a estabilidade
vitalícia, ou ter nosso pedido de casamento aceito) nos fará dar pulos de
alegria.5 O principal motivo pelo qual agimos assim está perfeitamente
resumido em uma máxima dos biscoitos da sorte: “Nada na vida é tão
importante quanto você pensa que é, enquanto você estiver pensando nisso”.
Em outras palavras, exageramos o efeito que uma mudança de vida terá sobre a
nossa felicidade porque não conseguimos prever que não �caremos sempre
pensando nisso.
Quando tentamos antever o quão desanimados nos sentiremos após o
término de um relacionamento ou o quanto �caremos felizes depois de
�nalmente conseguir o dinheiro para comprar a tão sonhada casa de praia, por
exemplo, deixamos de considerar que durante dias, semanas e meses posteriores
ao acontecimento em questão, haverá a interferência de muitos outros
acontecimentos, que servirão para dosar nosso prazer ou atenuar nosso
sofrimento. Aborrecimentos diários (como �car preso no trânsito ou ouvir um
comentário maldoso) e estímulos diários (como encontrar um velho amigo)
têm o potencial de mexer signi�cativamente com as nossas emoções,
atenuando o sofrimento por uma separação ou diluindo a alegria da aquisição
de uma casa nova.
Duas outras forças também conspiram para nos impedir de prever nossos
sentimentos futuros. A primeira é, simplesmente, nossa incapacidade de prever
com precisão o impacto dos momentos de transição que imaginamos. Para
muitos de nós, por exemplo, as cenas de um futuro casamento compreendem
fazer piqueniques românticos a dois, beber champanhe em torno da lareira,
praticar sexo com a frequência que quisermos, colaborar harmoniosamente em
todas as decisões difíceis da vida e ter um bebê angelical dormindo em nossos
braços, com nosso cônjuge oferecendo-se parapara o seu futuro.
• Escolha a coisa mais engraçada que alguém já lhe disse desde o seu
divórcio.
• Pergunte-se o que está sentindo exatamente, e por que, durante este
período de sua vida, e determine-se a compartilhar seus sentimentos com
os outros.
• Faça algo todos os dias – por mais trivial que seja – que o deixe feliz, pelo
menos momentaneamente.
• Tente se lembrar do que o ajudou a se recuperar de traumas anteriores, e
acione esses mesmos recursos novamente.
• Re�ita sobre o que signi�ca a espiritualidade para você e como é possível
usá-la para se conectar aos outros.
• Conecte-se a uma outra pessoa, ajudando-a ou ensinando-lhe algo.
Estas medidas ajudarão a elaborar e a reforçar a sua capacidade de manter
uma atitude positiva, mesmo diante do sofrimento; dar sentido ao
rompimento; redi�nir o que é importante para você; e priorizar aqueles
objetivos que se tornaram signi�cativos e que se mostrem alcançáveis.144 Estas
atividades também visam a “aliviar” o fardo do sofrimento, encorajando-o a
não levar as coisas muito a sério, a aprimorar a sua consciência e sensibilidade
para suas próprias emoções e as dos outros, e a desenvolver sua capacidade de
comunicar seus sentimentos e de se conectar com outras pessoas.145
Finalmente, a adoção destas medidas ajudará você a se engajar em algo mais
importante do que você mesmo e con�ar em outras relações importantes em
sua vida, alheias ao seu casamento.
Por último, mas igualmente importante, há um recurso que quase todos nós
precisamos reforçar. Devido à sua importante in�uência em muitas áreas da
vida, a autoestima é uma das mais estudadas características humanas. Assim,
avaliar o seu nível atual de autoestima deve ser uma prioridade. Para isso,
considere até que ponto você concorda com cada uma das seguintes a�rmações
(1 = discordo totalmente, 2 = discordo, 3 = concordo, 4 = concordo
totalmente):146
_____ 1. Sinto que sou uma pessoa de valor; que estou, pelo menos, em um
nível de igualdade com as outras pessoas.
_____ 2. Sinto que tenho uma série de boas qualidades.
_____ 3. De modo geral, tendo a me considerar um fracasso.
_____ 4. Sou capaz de fazer coisas tão bem quanto a maioria das pessoas.
_____ 5. Sinto que não tenho muito do que me orgulhar, em comparação
com a maioria das outras pessoas.
_____ 6. Adoto uma atitude positiva em relação a mim mesmo.
_____ 7. No geral, estou satisfeito comigo mesmo.
_____ 8. Gostaria de ter mais respeito por mim mesmo.
_____ 9. Com certeza, me sinto inútil às vezes.
_____ 10. Às vezes, acho que não sou bom em nada.
Para determinar a sua pontuação de autoestima, primeiro “inverta a
pontuação” das suas avaliações dos itens 3, 5, 8, 9 e 10 – isto é, se você se
atribuiu uma nota 1, risque-a e mude-a para 4; se você se atribuiu uma nota 2,
mude para 3; altere a nota 3 para 2, e a nota 4 para 1. Agora, some suas dez
avaliações para chegar ao resulado.
A pontuação mais alta de autoestima que se pode obter é 40 (se você
concordar �rmemente com todos os itens de autoestima com valência positiva
e discordar �rmemente de todos os itens negativos) e a mais baixa é 10 (se você
tiver feito o contrário). Pessoas de todas as partes do mundo atingem uma
média de 31 pontos nesta escala; os norte-americanos atingem uma média de
32 pontos. Computar menos do que 31 ou 32 pontos signi�ca que mais de
50% de seus pares têm mais autoestima do que você; computar menos do que
20 pontos sugere que sua pontuação de autoestima encontra-se no terço
inferior da população.
Se sua pontuação estiver abaixo do nível médio, aumentar sua autoestima
talvez tenha de ser um de seus objetivos primários, ainda que desa�ador.
Comece “engatinhando” em direção aos objetivos que o ajudem a realizar algo,
a cultivar amizades, a agir com compaixão para com os outros e a se sentir
melhor sobre si mesmo.147 Inúmeras seções neste livro oferecem diretrizes
sobre como conseguir isso.
DEPOIS DO DIVÓRCIO, A VIDA CONTINUA
As pesquisas sobre adaptação hedonista mostram que nos acostumamos
rapidamente até com os mais negativos acontecimentos. Por exemplo, em
determinado estudo, durante os primeiros dois anos após o divórcio, as pessoas
experimentaram um grande sofrimento psicológico, mas depois pareceram se
recuperar.148 A vida continuou, e uma in�nidade de estímulos e
aborrecimentos do cotidiano, desvinculados da situação em si, prendeu a sua
atenção na maior parte do tempo.
Uma das razões pelas quais abraçamos o mito de que o divórcio (ou qualquer
outra adversidade) nos deixará mais infelizes (e por muito mais tempo) do que
ele realmente deixa é que assumimos que vamos �car tão preocupados com
nosso divórcio e com todas as suas consequências daqui a um ou cinco anos
quanto estamos hoje. Assim, deixamos de considerar os inúmeros outros
acontecimentos que surgirão e competirão pela nossa atenção durante o
próximo ano e os cinco seguintes.149 A�nal, podemos precisar fazer uma
cirurgia dentária ou consertar nosso aparelho de ar-condicionado. Podemos ver
nosso �lho se formar com louvor e podemos restabelecer o contato com um
primo com quem não falamos há anos. Podemos aprender a cozinhar uma
deliciosa paella para nossos amigos, e podemos fazer uma viagem maravilhosa
(ou desastrosa) com nossos �lhos. Em suma, nosso julgamento e nossa
participação serão cobrados por muitas situações, completamente
desconectadas do nosso divórcio. O divórcio não acontece isolado de todo o
resto.150 A vida continua, e outros acontecimentos exercem atração e dissuasão,
controlando nossas emoções tanto ou quanto, ou até mais, do que o trauma
original. Para realmente compreender este conceito, tente o que os
participantes de vários estudos engenhosos foram instruídos a fazer: aqueles
que realmente se dedicaram e anotaram os muitos outros acontecimentos e
compromissos que lhe exigiriam tempo e atenção no futuro (por exemplo,
consultas médicas, jantares, consertos do carro e aumentos salariais previstos
para o próximo ano) se mostraram menos propensos a valorizar as decepções
oriundas do trauma do divórcio.151
Em House Lights [Luzes de casa], um livro sobre a vida familiar, um pai é
confrontado com a situação de nunca mais viver novamente com sua esposa.
Quando ele pergunta à sua �lha o que será de sua vida a partir de então, ela
responde algo que se aplica a todos nós:
Você vai �car triste. (...) Você vai sentir falta dela. Você vai continuar a
atender seus pacientes, a se reunir com outros observadores de aves e a
gravar audiolivros para os cegos. Você vai visitar os amigos, se alimentar e
(...) encher o tanque do carro, (...) comprar mantimentos, (...) frequentar
os concertos na igreja. Limpar seus binóculos com o seu pequeno
equipamento de limpeza de binóculos. Você vai retirar neve, cortar a
grama e varrer as folhas. Você vai ler e cozinhar.152
A verdade é que, a cada mês, o seu divórcio – e as suas repercussões – terá
um impacto menor em sua vida cotidiana do que no mês anterior.
E QUANTO AOS FILHOS?
Você superará isso, talvez perdoe e, até mesmo esqueça, e é possível que a sua
vida se torne in�nitamente melhor, mas e quanto aos �lhos? As pesquisas
mostram que os �lhos são, de longe, a principal razão para que casais infelizes
optem por �car juntos.153 Esta realidade não é nem razoável nem
surpreendente, mas é importante estabelecer se as suposições quanto aos efeitos
do divórcio sobre os �lhos, bem como sobre outros resultados importantes na
vida, são adequadas. A literatura sobre esse assunto engloba duas perspectivas
extremas. A primeira é que o divórcio não acarreta custos de longo prazo para
os �lhos, e a segunda é que implica danos permanentes. Tal como acontece na
maioria das polêmicas, a resposta está em algum lugar intermediário, embora
minha interpretação das pesquisas esteja mais próxima da perspectiva de
poucos efeitos a longo prazo. Em suma, o divórcio, de�nitivamente, tem
alguns efeitos nocivos sobre os �lhos, mas estes efeitos, muitas vezes, são
pequenos e não se aplicam a todas as famílias.154
Por um lado, como seria de se esperar,ser um bom pai após a consumação
do divórcio é mais complicado para ambos os membros do antigo casal. Ambos
têm di�culdade, por exemplo, de monitorar, supervisionar e disciplinar seus
�lhos de forma e�caz e consistente, de oferecer amor e carinho e de dirimir os
con�itos próprios da relação. Este custo decorre dos novos acordos para a
guarda dos �lhos, da fragmentação da coesão familiar e do aumento da
ansiedade, depressão e estresse dos pais. No entanto, os efeitos nocivos,
frequentemente, são de curta duração ou pontuais. Um pesquisador testou, por
exemplo, se os �lhos de pais divorciados eram menos felizes e menos
autocon�antes, tiravam notas mais baixas, tinham relações menos saudáveis e
mostravam mais problemas de comportamento do que os �lhos de famílias
preservadas. Das 177 comparações entre estes dois grupos de crianças, mais da
metade (103) não revelou quaisquer diferenças.155 Outros estudos descobriram
que 75% das crianças cujos pais se divorciaram não sofreram impedimentos de
longo prazo, e que os efeitos do divórcio sobre problemas de conduta, vida
acadêmica e bem-estar eram menores do que os efeitos de gênero.156 Claro,
isso signi�ca que um quarto das crianças sofre com o divórcio, mesmo em
longo prazo, e esta constatação deve ser levada muito a sério. A título de
exemplo, caso nossos pais tenham se divorciado, nosso próprio casamento tem
duas vezes mais probabilidade de acabar em divórcio e nossa saúde estará
sujeita a mais riscos.157
As tentativas de responder à questão de um eventual prejuízo causado aos
�lhos em virtude do divórcio têm, no entanto, uma limitação bastante
importante. Todos os estudos são, necessariamente, correlacionais, pois seria
impossível (e antiético) escolher aleatoriamente alguns casais para se
divorciarem e outros para permanecerem casados. Isso signi�ca que não
podemos descartar o papel dos genes em cada descoberta. O divórcio é
altamente hereditário – o que signi�ca que os genes atuantes em quem se
divorcia ou não (que parecem estar ligados a personalidades especí�cas, como
as geralmente negativas e infelizes) são passados de pais para �lhos.158 Assim,
quando somos informados de que os �lhos de pais divorciados não são tão
bem-sucedidos em certos domínios, o resultado pode ter sido causado pelos
genes compartilhados com seus pais, e não pelos efeitos do divórcio em si.
Outro componente fundamental do quebra-cabeças diz respeito à questão de
saber se devemos insistir em manter um casamento con�ituado por causa de
nossos �lhos. Em outras palavras, o que seria pior para os �lhos: continuar
morando com pais que brigam e sofrem, ou suportar as consequências do
divórcio? A resposta mais direta é que os �lhos se bene�ciam mais quando são
capazes (via divórcio) de fugir às brigas e gritarias de seus pais e à pressão para
escolher um dos lados. Em uma casa onde reinam o sofrimento, as discussões
ou a falta de afeto, os �lhos �cam, essencialmente, expostos ao estresse crônico,
o que os leva a desenvolver o hábito de estar, constantemente, vigilantes e
atentos.159 Minha amiga Josie lembra-se de �car escondida em seu quarto
enquanto seus pais brigavam, lançando objetos um contra o outro.
Frequentemente, ela intervinha nos con�itos, juntando-se à gritaria e tentando
proteger sua mãe, além de temer ouvir o barulho das chaves quando seu pai
abria a porta de casa. Hoje, ela é ultrassensível a qualquer tipo de con�ito;
basta que seu marido levante um pouquinho a voz para que seu coração
dispare. Josie está em terapia e conseguiu manter relacionamentos saudáveis e
bem-sucedidos na vida adulta, mas pagou um preço por isso.
Ao se comparar o rendimento dos �lhos em lares com uma grande dose de
con�ito parental com seu rendimento após o divórcio, a resposta é muito clara:
no primeiro caso, o rendimento é muito pior. Em um determinado estudo, por
exemplo, os �lhos expostos a uma in�nidade de brigas em casa se mostravam
relativamente mais propensos a dramatizar, a �car ansiosos ou deprimidos e a
ter relacionamentos problemáticos com amigos e colegas, mas o fato de os pais
serem casados ou divorciados não tinha impacto algum sobre os seus
problemas. Então, o que importa é o con�ito, e não o divórcio. Naturalmente,
esta evidência também signi�ca que os estudos que descobriram os efeitos
nocivos do divórcio sobre os �lhos podem, simplesmente, ter descoberto os
efeitos do inevitável con�ito associado àqueles divórcios especí�cos.
Notadamente, as pesquisas sobre saúde espelham tais resultados com muita
acuidade. Embora as pessoas que se divorciem relatem mais problemas de
saúde – sistema imunológico mais fraco, mais doenças do coração e diabetes,
sobrevivência menor ao câncer e problemas com o funcionamento físico na
velhice160 –, a saúde dos casais infelizes no casamento sofre tanto ou mais do
que isso.161 De fato, embora possamos não estar cientes disso, no meio de uma
discussão acalorada o funcionamento de nosso sistema imunológico começa a
declinar, nossos ferimentos físicos cicatrizam mais lentamente e nossos níveis
de cálcio coronário aumentam (sinalizando o risco de uma doença cardíaca).162
Como concluiu um psicólogo da saúde, um casamento problemático
representa um fator de risco para doenças cardíacas tão potente quanto o
hábito de fumar regularmente.163
Se você estiver pensando em se divorciar e estiver preocupado sobre como
isso irá impactar o equilíbrio psicológico, o desempenho acadêmico, os
problemas de comportamento e, até mesmo, os relacionamentos futuros de
seus �lhos, você precisa considerar que um lar caloroso, afetuoso e pací�co de
um único pai (ou dois lares) é mais determinante do que um lar habitado por
dois pais em con�ito. A única ressalva é se você suspeitar que o seu �lho não
esteja percebendo os graves problemas que você e o seu cônjuge têm
enfrentado. Embora isso possa parecer improvável, todos nós conhecemos
casais que são capazes de esconder sua infelicidade com tanto primor que sua
separação soa como um choque para todos, incluindo seus amigos mais
próximos e familiares (e, às vezes, até um dos próprios cônjuges). A questão é
que �lhos que não tinham tido qualquer indício de que seus pais estavam
passando por problemas são os que sofrem as consequências mais negativas e
de longo prazo, quando estes pais os surpreendem (e os dilaceram) ao anunciar
o divórcio.164 Esta situação representa um dilema difícil e, talvez, insolúvel:
certamente, seria imprudente brigar na frente de seus �lhos apenas para que
eles não se surpreendam com uma eventual separação. Talvez a melhor maneira
de fazer esta situação avançar é que o casal, já tão acostumado a usar uma
máscara de felicidade, continue a forjar um ambiente acolhedor e estimulante
para seus �lhos, bem como a manter interações amigáveis um com o outro, ao
longo da separação, do divórcio, e para todo o sempre.
A MENTE PREPARADA
O momento da verdade que envolve a possibilidade de abandonar ou
permanecer em um relacionamento é um dos mais difíceis de enfrentar e de
digerir. Você tem a opção de partir. Você tem a opção de �car e fazer o melhor
possível na parte que lhe cabe. Você tem a opção de �car e resolver melhorar a
sua parceria. Uma das lições deste capítulo é que, ao reconhecer os equívocos
que, provavelmente, estão colaborando para o seu momento crítico, você
também se dê conta de que podem existir mais opções do que as já imaginadas.
Por este motivo, apresento aqui inúmeras estratégias para lidar com o
casamento e fortalecê-lo. Quanto mais cedo você começar a praticar essas
estratégias – após a primeira fantasia de divórcio, em vez de após a primeira
separação –, mais e�cazes elas serão. Claro, às vezes uma fantasia de divórcio é
apenas isso: um sonho que lhe dá permissão para descarregar sua raiva e sua
angústia antes de retornar à tarefa de zelar pelo seu casamento. Mas, em outras
ocasiões, as fantasias de divórcio anunciam o que está por vir. Nesse caso,
quanto mais cedo você levar em consideração as pesquisas (por exemplo, que o
divórcio não prejudica irreparavelmente a maioria dos�lhos), mais cedo estará
preparado para tomar uma decisão com base na razão, e não na intuição (a
noção de que você não pode se divorciar, não importando o quão infeliz
esteja).
Acima de tudo, antes de tomar qualquer decisão crucial, é preciso considerar
o quanto de sua infelicidade conjugal depende de você, o quanto depende do
seu cônjuge, o quanto depende da dinâmica de seu casamento e o quanto
depende de circunstâncias além do seu controle. Tal entendimento pode não
alterar sua decisão �nal, mas in�uenciará o componente de seu casamento ou
de sua vida que você deveria procurar mudar. Saber que este mito da felicidade
é equivocado – que sua vida não acaba quando o relacionamento termina –
abre novos caminhos e novas possibilidades positivas de como implementar
aquela mudança.
CAPÍTULO 3
Eu serei feliz quando... tiver �lhos
Estava passeando com uma amiga, quando ela me confessou algo que eu nunca
tinha ouvido alguém dizer em voz alta: “Eu não gosto de ser mãe”. Ela adora
seu �lho, provavelmente mais do que qualquer outra coisa. Ela já vinha
tentando ter um bebê há dez anos, até que �nalmente conseguiu, com a ajuda
de vários tratamentos de fertilidade. Ela é grata por isso. Porém, talvez pelo fato
de o desejo de ter um �lho ter sido tão forte e tão duradouro, e o esforço tão
difícil e estressante, ela levou vários anos para reconhecer a realidade de que,
simplesmente, ser mãe não lhe convinha. Ela não se sente confortável em meio
a um grupo de crianças, e sente que precisa comportar-se como a falsa
“mamãe” na frente de outros pais. Ela não pretende se doar integralmente à
preocupação e aos cuidados incondicionais com outra pessoa. Ela acredita que
os incessantes transtornos, planejamentos e decepções não são um desa�o ou
uma aventura, como algumas de suas amigas e colegas parecem acreditar, mas
um fardo pesado. Devo acrescentar que um observador objetivo não teria
qualquer indício de seus verdadeiros sentimentos. Ela é uma boa mãe e sabe
disso; ela apenas não gosta de ser mãe.
Muitas perguntas podem surgir à mente quando ouvimos essa história.
Deveríamos gostar de ser pais? A�nal, quantos de nós realmente conseguimos
prever o que seria ter um �lho, mesmo depois de ler uma dúzia de livros e
conversado com todos os pais que conhecíamos? E minha amiga não estará
sendo prematura em sua conclusão, considerando-se que, talvez, nenhum
emprego no mundo mude tão drasticamente ao longo do tempo quanto o de
ser pai ou mãe? Em poucos anos, quando seu �lho estiver na escola primária, as
atuais condições de parentalidade di�cilmente serão reconhecíveis, e mais
alguns anos depois, tudo vai mudar de novo, e assim por diante. Na verdade,
em certas ocasiões, ocorre uma evolução enorme na criança e na relação pai-
�lho no curso de um único mês. Por �m, seria esse, simplesmente, um exemplo
extremo, irrelevante para a maioria de nós?
Os �lhos são a fonte de nossa maior alegria e de nossa maior tristeza. Não é
de surpreender, então, que alguns dos nossos mais impactantes e decisivos
momentos estejam compreendidos na vida familiar. Antes de decidirmos se
vamos nos conformar com nossos sentimentos sobre a parentalidade, nos
desesperar com eles ou nos esforçar para combatê-los, é preciso determinar se
nossa situação é assim tão única. A expectativa de que ter �lhos nos fará
imensamente felizes não está apenas enraizada em nossa cultura, mas,
provavelmente, também está ligada à nossa linha evolutiva. Embora este mito
da felicidade possa fazer com que os seres humanos insistam em se reproduzir,
também serve para marcar um momento crítico dentro de um capítulo
arquetípico na vida dos seres humanos. Quando ser pai ou mãe não nos deixa
tão felizes quanto esperávamos, nos sentimos não apenas deprimidos, tristes e
desapontados, mas também envergonhados.
SER PAI NÃO É O QUE EU ESPERAVA: AS SURPREENDENTES
DESCOBERTAS ACERCA DA FELICIDADE TRAZIDA PELOS FILHOS
Talvez você não veja qualquer alegria no fato de ser pai, e abomine a
quantidade de tarefas e transtornos acarretados por esse papel. Talvez você
tenha se cansado e se desiludido com os maçantes dezoito anos ou mais – os
anos de parentalidade que estão às suas costas e, especialmente, à sua frente.
Isso já é su�cientemente ruim, mas, para coroar estes sentimentos indesejáveis,
você se sente como uma aberração e um desajustado em meio a uma cultura de
feroz nuclearidade familiar, temeroso de expressar seus verdadeiros sentimentos
e correr o risco de ser rejeitado pelos outros. Surpreendentemente, em parte
pelo fato de esses sentimentos serem um assunto tão tabu, poucas pessoas
parecem perceber o quanto eles são comuns. A análise de mais de uma centena
de estudos revelou que casais acompanhados antes e depois do nascimento de
um �lho sofreram quedas aparentemente permanentes na satisfação com o
relacionamento.165 As pesquisas também demonstraram que, apesar de muitos
pais manifestarem alegria e júbilo com seu novo papel, se você for mulher,
jovem, solteira e desempregada – e se seus �lhos forem muito pequenos ou
adolescentes; forem enteados ou problemáticos –, ser mãe, provavelmente, a
tornará menos feliz e menos satisfeita com sua vida e com seu parceiro (se você
tiver um), em vez de mais.166
Ter �lhos é caro, cansativo, estressante e emocionalmente desgastante – tanto
que é uma maravilha que, de alguma forma, pareçamos incapazes de prever
com precisão as di�culdades da parentalidade, até o dia em que levamos a
criança para casa. Depois desse dia, no entanto, nenhum pai de recém-nascido
se surpreenderá ao saber que, quando se pergunta às pessoas o seu nível de
felicidade antes e depois de levar para casa o primeiro �lho, os índices
computados na segunda enquete são signi�cativamente menores do que os da
primeira.167 Além disso, a satisfação conjugal sobe depois que o último dos
�lhos sai de casa.168 E, embora as evidências sejam mistas, uma série de estudos
que, simplesmente, comparou a felicidade ou o nível de satisfação de pais e de
não pais nas mais variadas idades e circunstâncias de vida descobriu que os que
tinham �lhos eram menos felizes.169 Em um estudo bastante citado, mães
texanas que exerciam alguma atividade pro�ssional relataram, por exemplo, ter
menos emoções positivas e mais emoções negativas no seu dia a dia. Quando
solicitadas a avaliar como se haviam sentido durante cada uma das horas do dia
anterior, elas consideraram a tarefa de cuidar de seus �lhos apenas um pouco
mais agradável do que se deslocar para o trabalho e realizar serviços
domésticos.170
É claro que, se a criação dos �lhos faz com que você, frequentemente, se
sinta mal-humorado, irritado, furioso, cansado ou incrivelmente transtornado,
você não está sozinho. Você não é o único cujo mundo encolhe depois da
chegada das crianças, e que deve dizer adeus às aventuras arriscadas, às
intimidades espontâneas e às oportunidades repentinas. Você não é o único
cujo casamento pode balançar consideravelmente – pelo menos, quando os
�lhos têm menos de seis anos ou mais de doze171 –, na medida em que
problemas ou irritações insigni�cantes são ampliados para abalos sísmicos
dignos de fazer com que o divórcio seja levado em consideração. Estudos
demonstram que as duas mais importantes fontes de confronto entre casais
casados são as �nanças e os �lhos. No entanto, o estresse e a privação do sono,
sozinhos, são capazes de aumentar o risco de qualquer espécie de con�ito.172
Em termos não muito delicados, um pai de primeira viagem a�rmou: “[Os
�lhos] são uma enorme fonte de alegria, mas transformam qualquer outra
fonte de alegria em uma grande merda”.173
Espero que a constatação de que muitos outros pais passam pelo mesmo tipo
de sofrimento, de tempos em tempos, faça com que nos sintamos menos fora
do padrão e alivie um pouco a nossa culpa. Amar os nossos �lhos não é a
mesma coisa que amar ser pai ou mãe. No entanto, podemos nos bene�ciar ao
nos concentrar apenas naquilo que nossos �lhos nos transmitem, e que não
pode ser capturado pela pergunta “Você é feliz?”. Até mesmo pais que odeiam
serpais vivem momentos signi�cativos, alegres e, inclusive, de euforia, que
contribuem para uma vida bem vivida – quando nosso �lho nasce, quando ele
corre para nossos braços depois de uma separação, quando lê sua primeiríssima
palavra, quando se apresenta em sua primeira peça de teatro na escola, quando
pensar nele suaviza o impacto de um projeto pro�ssional que fracassou, ou
quando ele se forma com louvor. Em um estudo recente, meus colegas e eu
descobrimos que os pais atribuíam mais signi�cado à vida quando passavam
algum tempo com seus �lhos do que no resto de seus dias.174 Uma parte de
estar vivo e de ser um cidadão do mundo signi�ca usar nossas capacidades ao
máximo, desbravar as diferentes dimensões da experiência humana, crescer e
aprender sobre nós mesmos, nos conectar com outras pessoas, cumprir metas
culturalmente prescritas, experienciar uma ampla gama de emoções (das mais
empolgantes às mais deprimentes possíveis), erigir uma identidade única,
escrever a história de nossas vidas e deixar um legado que persistirá para além
da própria duração de nossas existências.175 Os �lhos nos permitem fazer tudo
isso e muito mais.
É claro que, na maioria das vezes, não �camos pensando nesses benefícios
transcendentes; não desperdiçamos nosso tempo saboreando os momentos
memoráveis e profundos que nossos �lhos nos propiciam. Ao contrário, nos
concentramos nas tarefas e obrigações diárias, e, especialmente, nas pequenas
crises e grandes emergências com as quais nos deparamos. Há um ditado sobre
as mães judias, que, na verdade, se aplica a todas as mães e a todos os pais: “A
mãe judia nunca pode ser mais feliz do que o seu �lho menos feliz”. Os
psicólogos têm demonstrado, de forma convincente, que o mal é sempre mais
forte do que o bem, de tal forma que a mágoa de um �lho facilmente supera o
prazer de outro.176 Como consequência, os obstáculos para a felicidade dos
pais – especialmente aquela vivenciada passo a passo – são grandes, e aqueles
que reagem, admitindo que, de modo geral, não apreciam ser pais, estão sendo
perfeitamente racionais.
Não obstante todas as evidências de que aqueles que não gostam de ser pais
não são, simplesmente, irresponsáveis ou insanos, quando se pergunta
con�dencialmente às pessoas sobre seus maiores arrependimentos na vida,
quase ninguém a�rma que lamenta ter tido um �lho. De fato, 94% concordam
que, apesar dos altos custos, as recompensas de ser pai valem o esforço.177 Com
o passar dos anos, as temidas amamentações no meio da noite, os penosos
momentos de aconchegar uma criança inconsolável e as negociações sobre a
hora limite de voltar para casa se metamorfoseiam em memórias preciosas e
nostálgicas, que oferecem satisfação e prazer. Entretanto, o remorso por não ter
tido �lhos, ou não ter tido mais �lhos, é prevalente.178 Devemos ter esses dois
fatos em mente quando formos chamados novamente ao gabinete do vice-
diretor e sentirmos que não conseguiremos aguentar mais nenhum dia neste
papel de pais.
OS ABORRECIMENTOS DO COTIDIANO O DEIXARÃO
MAIS INFELIZ DO QUE OS GRANDES TRAUMAS
Ser pai ou mãe, de fato, é uma tarefa desgastante, fadada a perdurar por muitas
décadas, mas há muitas medidas que podemos tomar para fazer com que os
momentos ruins se tornem mais suportáveis e mais a�rmativos. Uma estratégia
um tanto contraintuitiva é passar alguns minutos distinguindo as principais
di�culdades enfrentadas na criação dos �lhos, começando pelas menores; é
possível, inclusive, listá-las em duas colunas – as “grandes coisas ruins” e as
“pequenas coisas ruins” –, lado a lado.
Recentemente, uma família me descreveu seus problemas, em detalhes
angustiantes. O �lho mais novo de Sarah e James tem uma forma leve da
síndrome de Asperger (que envolve dé�cits sociais), além de transtorno de
dé�cit de atenção. Ele apresenta um rendimento muito bom em algumas
disciplinas escolares e di�culdades em outras. Ele tem um amigo próximo, mas
di�cilmente interage com outros colegas. Em suma, os problemas decorrentes
de seus diagnósticos os inquietam quase todos os dias. “Não é uma coisa
terrível”, disseram os pais. “Existem vários dias bons e semanas boas – às vezes,
ótimos”. Mas há noites em que eles arrancam os cabelos, discutindo sobre
como lidar com o seu mais recente “problema” e quais deveriam ser os seus
próximos passos. O �lho mais velho parece psicologicamente bem ajustado,
mas prefere estar com os amigos a estudar, e por isso eles enfrentam uma
batalha todas as noites em torno dos deveres de casa. Não é de surpreender que
a lista dos grandes transtornos desta família compreenda a saúde mental de seu
�lho mais novo, enquanto os pequenos transtornos incluam a “guerra dos
deveres de casa” de seu �lho mais velho. Na lista de pequenas coisas, eles
também incluem as várias provações, tensões e mágoas vivenciadas
diariamente. Há poucas semanas, por exemplo, Sarah convidou um amigo de
seu �lho mais novo para brincar com ele, mas recebeu uma desculpa
esfarrapada; Sarah está convencida de que a mãe da outra criança simplesmente
não queria que o �lho interagisse com seu caçula. Em seguida, sua secadora de
roupas quebrou, o que provocou uma série de problemas e inconvenientes
aparentemente desproporcionais ao insigni�cante defeito. Por �m, seu �lho
mais velho não conseguia encontrar o novo telefone celular que acabara de
ganhar de aniversário, e eles passaram horas frustrantes procurando o aparelho.
Qual dessas duas listas deve deixar esta família – e a nossa – mais angustiada
e mais infeliz? Embora quase todos nós acreditemos que os itens da coluna das
grandes coisas produzam o impacto maior e mais duradouro, as pesquisas
revelam que isso é um mito. Ao contrário, o oposto é verdadeiro – os
aborrecimentos e as estimulações que experimentamos com nossos �lhos
diariamente impactam nosso bem-estar mais do que os grandes acontecimentos
da vida.179 A ideia paradoxal de que os aborrecimentos são piores do que as
calamidades faz pouco sentido... até avaliarmos por quê.
Alguns anos atrás, quando eu era solteira e vivia sozinha, tive duas
experiências ruins no mesmo dia – fui informada, por uma companhia aérea,
que meu assento na janela (o último), há longo tempo reservado em um voo
internacional, havia sido erroneamente vendido para outro passageiro; no �m
daquele mesmo dia, meu carro foi destruído (“virou uma sanfona”) em um
acidente na autoestrada. O acidente não foi culpa minha e saí ilesa, mas fui
incrivelmente serena e racional em minha reação – pedi ajuda, falei com a
companhia de seguros, �z planos para alugar um carro no dia seguinte etc.
Parecia que eu havia me dado conta, instintivamente, de que se tratava de uma
situação de emergência e que precisava manter a calma, pensar racionalmente e
reunir todos os recursos e as habilidades que eu tinha para administrar a
situação. Minha reação à notícia da companhia aérea, porém, foi o inverso.
Considerei o erro imperdoável, e ainda estava fervilhando por causa disso dias
depois, enquanto dirigia o carro que havia alugado temporariamente.
Os pesquisadores argumentam que, quando vivemos uma situação negativa
signi�cativa – um acidente de carro, um corte de pessoal em nosso emprego, a
suspensão de um �lho na escola – �camos profundamente motivados a
enfrentar e a superar a crise da melhor forma e o mais rapidamente que
pudermos. Buscamos o conforto emocional de amigos, informações e
treinamento pro�ssional de empregadores, segundas opiniões de terapeutas e
médicos, e informações em livros e sites. Além disso, praticamos amplamente o
chamado trabalho cognitivo para aceitar o que aconteceu. Talvez façamos de
tudo para racionalizar, atribuir um sentido ou olhar para o lado positivo do
acidente ou da redução de pessoal. Poucos minutos depois do meu acidente de
carro, eu já havia desabafado com a minha melhor amiga e me convencido de
que “era uma coisa boa”, porque poderia usar o dinheiro do seguro para
comprar o conversível que eu sempre quisera ter. Em contrapartida, tais
esforços de enfrentamento não entram em ação diante de pequenos
desapontamentose aborrecimentos. Por exemplo, não tentei me convencer de
que o funcionário da companhia aérea, sem dúvida, um imigrante mal-
remunerado, cometera um compreensível erro humano, pois estava tendo um
dia difícil. Também não procurei me aconselhar nem me informar com outras
pessoas sobre como lidar com a situação. Eu teria considerado isso um exagero.
Tendemos a não procurar apoio social diante das pequenas coisas ruins, em
parte porque esperamos que os outros não se importem muito com o que nós
nos importamos (até mesmo nossos entes queridos mais próximos �carão
estarrecidos se nos excedermos em nossas ruminações sobre o leite derramado).
Além disso, estudos têm demonstrado que revelar os pequenos traumas leva as
pessoas bem-intencionadas a expressar seu apoio através da minimização ou da
subestimação (“O acesso de raiva de Charlie durante o voo foi lamentável, mas
a viagem poderia ter sido muito pior”) e a insinuar que não deveríamos nos
sentir tão mal quanto estamos nos sentindo, o que faz com que �quemos ainda
piores.180
Em suma, uma vez que os problemas mais graves exigem esforços para
enfrentar e reavaliar nossa situação de forma positiva, além de despertarem um
forte apoio emocional em outras pessoas – ao contrário dos problemas não tão
grandes –, é paradoxal que, muitas vezes, nos deixemos afetar mais pelo
sofrimento e pela angústia com as pequenas coisas do que com as grandes.181
Na verdade, “talvez as coisas pequenas nos magoem justamente porque nós as
chamamos de pequenas”.182 No entanto, a maioria de nós está dolorosamente
consciente disso. Uma série de estudos mostrou, por exemplo, que as pessoas
esperavam rejeitar mais quem as tivesse magoado muito por um longo período
do que quem as tivesse magoado pouco, mas a realidade era o inverso.183
Como consequência, não conseguimos reunir energias adequadas para lidar
com os transtornos cotidianos que enfrentamos na vida, e, especialmente, na
criação de nossos �lhos.
Considere o lado esquerdo daquela coluna com as pequenas coisas ruins
relacionadas aos seus �lhos. Talvez ela inclua a crescente irritação com sua �lha
pelo uso do computador, a discussão de ontem à noite por causa das roupas
espalhadas pelo chão, a preocupação desta manhã com a dor de ouvido do seu
bebê ou a sua insegurança quanto a quem vai cuidar do seu �lho quando você
e o seu parceiro tiverem reuniões de trabalho muito cedo pela manhã. É
importante reunir esforços para lidar com estas questões aparentemente
pequenas, seja buscando ajuda, negociando com os familiares, reinterpretando
os acontecimentos de forma mais positiva ou tirando alguns minutos para
relaxar, recarregar-se ou meditar. Se resolvermos voltar nossa atenção às
pequenas coisas ruins relativas à parentalidade, nos recuperaremos mais
rapidamente, seremos mais felizes e teremos vitalidade e resistência para
enfrentar um novo dia.
ENCONTRANDO O EQUILÍBRIO 
E O SIGNIFICADO EMOCIONAL ATRAVÉS DA ESCRITA
Instintivamente, você saberá não negligenciar a coluna com as “grandes coisas
ruins” relacionadas aos �lhos, mas isso não signi�ca que será fácil. Seu �lho
adolescente pode estar cercado de más companhias ou ter desenvolvido algum
vício prejudicial. Seu �lho que cursa o ensino fundamental pode estar sendo
vítima de bullying. Seu �lho em idade pré-escolar pode ter sido diagnosticado
com uma doença crônica. Seu bebê pode não estar alcançando os níveis de
desenvolvimento esperados. Certos pais não se incomodam com as árduas
tarefas cotidianas relacionadas à criação de seus �lhos, mas, mesmo assim,
�cam desconcertados quando surge algum problema sério.
Além disso, suas provações como pai podem não estar concentradas,
especi�camente, em um único �lho, mas na forma como você está gerenciando
a parentalidade como um todo. A luta constante para manter o equilíbrio –
entre você e o seu cônjuge, e entre a parentalidade e o trabalho – se tornou,
praticamente, um lugar-comum. Embora muitos pais lidem com isso com
desenvoltura, alguns consideram a pressão sofrida por este tipo de malabarismo
um fardo avassalador.
Desde o primeiro dia da chegada de um novo bebê, você se dá conta das
dezenas, se não centenas, de negociações que devem ocorrer entre você e o seu
parceiro sobre como compartilhar as tarefas de cuidar do bebê e manter a
família. Quem vai trocar a próxima fralda, lavar a próxima louça, levantar-se da
próxima vez no meio da noite, tomar a decisão sobre a próxima soneca, levar o
bebê ao médico na semana seguinte e fazer a declaração de imposto de renda
em abril? Além disso, basta que você e o seu parceiro tenham, supostamente,
resolvido os con�itos sobre a divisão de tarefas para que a criança
(inevitavelmente) cresça, ou outra nasça, e tudo muda. O ciclo de negociação –
ou pior, de rixas – começa novamente. Quem vai levar as crianças à escola, às
atividades, à casa dos amigos e ao consultório; tomar decisões sobre os
acampamentos, a vida escolar e os tratamentos médicos; preencher dúzias de
�chas de inscrição, de saúde e de ensino; se encarregar da disciplina; organizar
os cuidados à criança; ajudar na lição de casa; discutir a inscrição na faculdade
ou pesquisar os programas de atletismo? A lista de tarefas e obrigações é
interminável, e alguém sempre terá de estar a postos para assegurar que tudo dê
certo.
O equilíbrio entre casa e trabalho é, sem dúvida, ainda mais difícil de
conciliar do que as disputas em torno das tarefas, pois não há panaceia alguma
para este problema quase universal. A maioria dos pais – mesmo aqueles que
contam com ajuda e cujo trabalho é �exível – concorda que não há horas
su�cientes em um único dia para ser um grande pai e um grande pro�ssional
(sem mencionar uma grande esposa, �lha, amiga etc.). Em uma pesquisa
realizada em 2008, mais da metade dos pais que trabalham fora relatou passar
por momentos difíceis ao administrar as responsabilidades do trabalho e da
família.184
Equilibrar as múltiplas obrigações da carreira e da criação dos �lhos pode ser
extremamente estressante e exaustivo, já que as demandas destes diferentes
papéis competem por sua atenção, tempo e energia, e transbordam de uma área
para a outra. Em um dia de trabalho estressante, por exemplo, os pais tendem a
se afastar �sicamente da família, enquanto as mães se comportam menos
afetuosamente e �cam menos sensíveis aos �lhos.185 Por sua vez, os problemas
com os �lhos geram perturbações no trabalho, fadiga e di�culdade de
concentração no escritório. Além disso, a mera energia mental necessária para
permanecer atento às listas de tarefas a cumprir, tanto em casa quanto no
escritório, e exercer o controle emocional nas frentes doméstica e pro�ssional
(por exemplo, demonstrar ânimo quando pegar seu �lho na creche ou interesse
na opinião de seu supervisor, mesmo que estas sejam as últimas coisas que você
goste de fazer) podem levar à sobrecarga e ao estresse e, em última instância, à
depressão.
Antes que o estresse deste malabarismo se transforme em desespero e
depressão, é importante aprender estratégias que possam ajudá-lo a encontrar o
equilíbrio correto, aceitar a sua situação atual ou tirar o melhor proveito disso
tudo. Uma das estratégias mais e�cazes é escrever ou fazer um diário, a �m de
encontrar um signi�cado emocional para as agruras de ser pai. Jamie
Pennebaker, professor de psicologia da Universidade do Texas, em Austin,
descobriu que tomar nota dos sentimentos mais profundos sobre nossas
di�culdades e tormentos (o que ele chama de extravasamento emocional ou
escrita expressiva) pode reforçar nossas saúdes física e mental.186 Até o
momento, ele e outros cientistas já concluíram mais de uma centena de estudos
que comprovam esta descoberta. Reproduzir os procedimentos adotados por
eles é muito simples: consiga um caderno ou um diário em branco e comece a
anotar – pelo menos por três a cinco dias consecutivos e, de preferência, até
mais do que isso – seus mais profundos pensamentos e sentimentos sobre suas
experiências mais difíceis e mais perturbadoras no exercício de criar seus �lhos.
Quando os cientistascompararam os participantes que escreviam
regularmente sobre seus sofrimentos com os participantes do grupo de
controle, que escreviam sobre um tema neutro ou super�cial, sem conexão com
as emoções (como a disposição dos móveis em seus quartos ou uma descrição
detalhada dos seus sapatos), eles descobriram, de forma consistente, que os
“escritores expressivos” eram mais felizes, mais satisfeitos com suas vidas e
menos deprimidos. Além disso, quando acompanhados dias ou semanas
depois, os escritores expressivos terminaram consultando seus médicos com
menos frequência nos meses seguintes, apresentaram um reforço na função
imune, demonstraram melhor desempenho na escola ou no trabalho, estavam
menos propensos a faltar ao trabalho e mais propensos a encontrar uma nova
colocação depois de serem dispensados do emprego.187
Em suma, a escrita emocionalmente expressiva traz nítidos benefícios
hedonistas, físicos e cognitivos – benefícios capazes de atenuar o implacável
estresse da parentalidade, a angústia dos traumas familiares, e de equilibrar
nossas próprias necessidades e obrigações com as de nossos parceiros, �lhos e
carreira. Manter um diário sobre as experiências da parentalidade é uma das
estratégias mais valiosas das quais podemos nos valer quando tentamos
controlar nossos pensamentos e sentimentos dolorosos ou con�itantes.
A princípio, Pennebaker acreditava que o segredo do sucesso desta estratégia
era a catarse ou o “escoamento” propiciado às pessoas que costumam represar
seus sentimentos. Por exemplo, talvez estivéssemos nos sentindo cronicamente
culpados por chegar em casa tarde do trabalho, aborrecidos com nossa esposa
por ela nunca apreciar nosso trabalho ou extenuados por não sabermos lidar
com o excesso de viagens exigido por nossos empregos. Mas parece que o
segredo não estava, necessariamente, em externar tais sentimentos, e, sim, no
próprio ato de escrever sobre eles – nas palavras em si. Escrever sobre
preocupações e problemas de nossa família nos ajuda a nos conformar e a
compreendê-los. Traduzir nossos transtornos emocionais em palavras faz com
que passemos a lhes dar sentido, nos adaptemos e comecemos a esquecê-los;
em última análise, escrever nos prepara para compartilhar tais transtornos com
as pessoas mais íntimas. Portanto, a linguagem se revela fundamental. O ato de
transformar emoções e imagens intensas em uma narrativa coerente muda
nossa forma de estruturar nosso sofrimento ou nossa dor, de pensar neles e de
integrá-los à nossa história de vida. Certa vez, uma conhecida minha me disse
que escrever sobre experiências perturbadoras as reduz – as achata, as torna
menores. Quando nossos traumas e di�culdades diminuem, eles podem ser
armazenados e dissolvidos de forma mais rápida e mais e�ciente. Se
desenvolvermos o hábito de manter um diário expressivo – e de utilizá-lo,
mesmo diante de pequenos traumas e aborrecimentos –, esta prática trará
benefícios quando transtornos parentais mais graves aparecerem em nosso
caminho, o que é inevitável. Uma vantagem adicional é a recuperação da
avaliação, do senso de humor e da compreensão que, inevitavelmente,
ganharemos quando relermos o diário anos ou décadas depois.
A VISÃO DO TODO
A vida com �lhos – sejam eles bebês, crianças em idade pré-escolar, pré-
adolescentes ou adolescentes – pode signi�car morar em uma casa cheia de
desordem e caos, demandas constantes por tempo, atenção e dinheiro, e
episódios bastante frequentes de irritação, vergonha, arrependimento e raiva,
sem mencionar o pânico por ter de sustentar tudo isso. Alguns �cam tão
atormentados pelo sentimento de estarem acorrentados à vida atual e de assim
permanecerem até o futuro distante que se tornam infelizes e desiludidos ou,
pior, apáticos e deprimidos. Nesses momentos, vale a pena considerar a
perspectiva da “visão do todo” – em primeiro lugar, por que escolhemos ter
�lhos, como nossa experiência de parentalidade mudará e melhorará com o
tempo e o que pretendemos deixar para a sociedade e para as gerações futuras.
Tal perspectiva ampla nos leva a formular as grandes perguntas – qual é o
propósito de nossas vidas, e o que estamos fazendo aqui?
Podemos, também, considerar uma perspectiva mais pessoal – quanto às
nossas prioridades e preocupações principais nas diferentes fases de nossas
vidas. Talvez acordar todos os dias antes do nascer do sol para �car com seu
�lho seja algo que você precise fazer agora; incentivá-lo a aumentar suas notas
seja algo que você terá de fazer daqui a dez anos; e ligar para ele para oferecer-
lhe apoio emocional seja algo que você precise (e queira) fazer daqui a vinte
anos. As pessoas mais velhas, principalmente, se bene�ciam muito quando
mantêm relações positivas com seus �lhos adultos, e relatam que ter netos é
uma das melhores experiências de suas vidas.188 Ainda que as pessoas estejam
tendo �lhos mais tarde do que antigamente, e que essas crianças estejam
permanecendo na casa dos pais por mais tempo, os aumentos monumentais na
expectativa de vida humana signi�cam que os pais têm um número inédito de
anos pós-ninho vazio para passar ao lado de seus �lhos adultos – notáveis 30,5
anos, em média, para as mães e 22 anos para os pais.189 Ao se referir à
sabedoria que acumularam durante suas vidas, os idosos ressaltam a
importância de se ter uma visão global das relações com os �lhos. Resumindo
seu conselho: “O que você tem feito para criar um relacionamento duradouro e
amoroso com seu �lho, desde os seus cinco, dez ou quinze anos, até um
período muito mais longo de sua vida adulta, e até que você mesmo chegue à
meia-idade e à velhice? Porque, acredite em mim, à medida que a vida seguir,
você vai querer que seus �lhos estejam por perto... Quando você estiver na faixa
dos setenta anos ou mais, seus �lhos lhe proporcionarão continuidade,
signi�cado, vinculação e, �nalmente, um sentido geral de que a vida tem um
propósito maior”.190 Em suma, a recompensa pelas suas provações de hoje será
arduamente conquistada, demorará a chegar, mas será muito apreciada.
Mas e quanto ao presente? Saber que �carei satisfeita quando meus �lhos me
ajudarem na minha velhice não ameniza realmente o impacto da birra de um
�lho em idade pré-escolar ou a brutalidade ocasional de um adolescente.
Assumir a perspectiva da visão do todo a respeito de ser pai é difícil e requer
um esforço real, da mesma forma que é um desa�o perdoar depois de ser
repreendido ou ter pensamentos positivos depois de uma decepção. Nós, seres
humanos, somos bastante seduzidos pela estreiteza do aqui e agora; achamos
muito mais fácil aceitar as grati�cações imediatas do que adiar a grati�cação
para trabalhar por atividades signi�cativas. A capacidade de realizar esta última
coisa envolve o que os psicólogos chamam de autorregulação (ou
autocontrole), e, não surpreendentemente, o fracasso na autorregulação é a raiz
de muitos dos males da sociedade. Mas se você consegue chegar ao trabalho
mesmo nos dias em que mais o detesta, ou usar o �o dental sem qualquer
evidência de recompensas, você conseguirá gerenciar adequadamente, e com
uma visão mais ampla, os implacáveis deveres da parentalidade.
Durante uma visita a uma faculdade de administração na Carolina do Norte,
um de seus professores, John Lynch, me contou uma história notável sobre a
aula que um professor de ciências do ensino fundamental costuma ministrar
aos seus alunos. O professor começa a aula retirando um enorme copo de vidro
transparente, vazio e comprido, e preenchendo-o com grandes pedras. “O copo
está cheio?”, pergunta ele às crianças. Elas dizem que sim, que está. Então, ele
se retira da sala de aula por um instante e retorna com um punhado de pedras
menores, que despeja no copo. As pedras pequenas preenchem as lacunas
formadas entre as maiores. Ele pergunta novamente às crianças: “O copo está
cheio?”. Agora, elas já entenderam o que ele está propondo e dizem que não,
que o copo não está completamente cheio. “E como vocês poderiam preenchê-
lo ainda mais?” Elas sugerem usar pedras ainda menores. Então, o professor deciências sai da sala novamente para pegar um pouco de areia, e ele enche o
copo com a areia, de modo que todos os espaços e lacunas restantes, e ainda
visíveis, �quem preenchidos. E, agora, ele pergunta: “Qual é a lição que
tiramos desta demonstração?”. Que não devemos tirar conclusões precipitadas,
dizem alguns. Que há muitas maneiras de resolver um enigma, sugerem outros.
“Não”, diz ele. “A lição é colocar as pedras grandes primeiro.”
A lição do professor de ciências é: comprometa-se, primeiro, com os
“grandes” projetos e objetivos mais signi�cativos de sua vida – contribuir para a
sua comunidade, trabalhar em prol do seu casamento ou criar os seus �lhos –,
mesmo que isso roube o tempo dos “pequenos” planos, cuja grati�cação é
imediata. A partir de hoje, decida quais são as grandes pedras em sua vida,
quais são as pequenas pedras e quais são os punhados de areia, e comprometa-
se antecipadamente com as grandes.
RESERVE UM TEMPO PARA SI
A confusão dos intensos anos de parentalidade torna muito difícil a revisão e a
reconsideração contínuas de nossas prioridades e possibilidades. Quando não
dispomos de tempo para pensar, podemos �car impedidos de enxergar
alternativas viáveis para nossas rotinas. Uma possibilidade é fazer pequenas
pausas no exercício da parentalidade.
Nas últimas duas décadas, a família passou por mudanças culturais sísmicas,
e uma destas mudanças foi o impulso de dedicar mais tempo, e um tempo de
mais qualidade, aos nossos �lhos.191 Até mesmo mães que trabalham em
tempo integral, por exemplo, gastam apenas dez horas a menos por semana
com seus �lhos do que mães que são donas de casa em tempo integral,192 e
ambas são pressionadas a se engajarem em um trabalho intensivo de
hiperparentalidade, que envolve um �uxo aparentemente interminável de
atividades enriquecedoras para os �lhos.193 O resultado são níveis crônicos de
ansiedade, a parentalidade do tudo ou nada, e um perfeccionismo que faz com
que muitos sintam que estão deixando a desejar, não importando o quanto se
esforcem para se tornarem mártires na criação de seus �lhos.
Esta pressão para levar uma vida centrada nos �lhos torna quase impensável
a ideia de se ausentar temporariamente do exercício da parentalidade. Se nos
sentíamos culpados por levar cupcakes comprados prontos para a campanha
bene�cente do pré-escolar, como nos sentiremos por não acompanhar tardes,
dias ou, até mesmo, semanas inteiras da vida de nosso �lho? Porém, a criação
dos �lhos costumava ser, historicamente, uma obrigação coletiva.194 Nossos
ancestrais criavam seus �lhos no contexto de uma aldeia, clã ou tribo maiores,
o que permitia que os cuidados às crianças fossem responsabilidades
compartilhadas entre os muitos membros da família e os vizinhos. Em algumas
culturas e subculturas, esta abordagem perdura até hoje. Até mesmo meus
próprios pais, não muito tempo atrás, lá em seu país de origem, costumavam
nos enviar (meu irmãozinho e eu) para a casa de nossos avós por verões
inteiros, e isso desde que eu tinha dois anos de idade. E mais, meus avós viviam
a 1.500 quilômetros de distância, em Kyshtym, Rússia, o local do terceiro pior
desastre nuclear do mundo, ocorrido uma década antes e causador de milhares
de mortes por envenenamento radioativo.195 Eu nunca sonharia em fazer uma
coisa dessas com meus próprios �lhos (embora meus pais, agora eles próprios
avós, ainda nos implorem em vão para que lhes enviemos os netos todos os
verões), mas certamente haverá um meio-termo nestas alternativas.
Se estivermos esgotados e infelizes – ou pior, deprimidos –, simplesmente
não conseguiremos ser pais exemplares. Reservar um tempo para nós na rotina
diária pode nos revitalizar, nos restaurar, nos fortalecer e nos fazer relembrar
quais são as grandes pedras em nossas vidas. Fazer uma pequena pausa na
parentalidade poderia signi�car pedir a um familiar para assumir os cuidados
da criança, enquanto nós (sozinhos, com o parceiro ou o melhor amigo) nos
afastaríamos por um período de tempo. Meu marido e eu costumavámos fugir
um �m de semana por ano para um hotel agradável em algum bairro
interessante, que ainda não havíamos explorado. Ficava a apenas meia hora de
carro de nossa casa, mas parecia um oceano de distância. Fazer uma pequena
pausa poderia signi�car negociar com um amigo seus serviços de prestador de
cuidados, ou contratar alguém algumas horas por semana para que pudéssemos
relaxar e não fazer absolutamente nada. Poderia signi�car enviar as crianças
para o acampamento ou deixá-las dar uma escapada com as famílias de seus
melhores amigos. As possibilidades são in�nitas. Talvez sintamos muito menos
saudades das crianças do que imaginávamos, ou, então, desejaremos revê-las
com tanta ansiedade que nossas atitudes diante da parentalidade e diante de
nossas prioridades familiares versus pro�ssionais serão transformadas para
sempre.
A MENTE PREPARADA
Se você reforçar o mito de que não poderá ser verdadeiramente feliz sem �lhos,
constatar que você não ama a parentalidade – ou que é ela muito mais punitiva
e desagradável do que você esperava – pode precipitar um momento crítico em
sua vida. Neste caso, eu poderia apostar que o primeiro pensamento que lhe
veio à mente quando percebeu que não gosta de ser pai foi uma versão de “Eu
devo ser uma pessoa ruim”. O problema é que este primeiro pensamento não é
apenas nocivo para a sua felicidade e para a qualidade de sua parentalidade,
como está claramente equivocado. Tomar conhecimento do que as pesquisas
têm a dizer sobre a normalidade deste sentimento e, portanto, a falácia de suas
crenças sobre a quantidade de alegria que seus �lhos lhe trarão, contribuirá
para fazer você perceber que não está sozinho. Adotar uma visão do todo da
parentalidade, re�etir sobre quais situações têm maior impacto em sua
felicidade, manter o equilíbrio através de um diário e fazer uma pequena pausa
na parentalidade o abastecerá de determinação para enfrentar os aspectos
negativos da criação dos �lhos e o capacitará a se deleitar com os aspectos
positivos. Porque, no �m das contas, “Para o mundo você pode ser apenas uma
pessoa, mas para uma pessoa você pode ser o mundo”.196
CAPÍTULO 4
Não poderei ser feliz se... 
não tiver um parceiro
Recebi a seguinte carta de uma mulher que havia tentado uma série de
exercícios para aumentar a felicidade:
[Os exercícios] me ajudaram imensamente, em quase todos os aspectos da
minha vida. Ser feliz tornou-se mais fácil para mim, mas a ideia de não ter
um companheiro realmente me desanima. Posso passar o dia
demonstrando gratidão, expressando bondade e amor, mas, quando vejo
casais felizes, meu coração se dilacera e minha atitude muda. Por dentro,
me sinto muito deprimida e solitária, embora �nja um sorriso quando um
casal me vê observando a dádiva que é o seu amor e o seu
companheirismo. Mesmo que eu seja grata pelo que tenho, �co muito
triste por não ter com quem compartilhar o meu amor. Como posso
encontrar uma maneira de superar o obstáculo da tristeza e da baixa
autoestima diante dos relacionamentos?197
Como demonstra a experiência desta mulher, o sofrimento por estar sozinho
pode ser profundo. Se o pensamento de que você �cará eternamente sozinho o
assombra todos os dias, haverá vários caminhos divergentes de ação ou de
inação. Antes que você possa determinar o caminho que o deixará mais feliz e
realizado, é preciso compreender o signi�cado e as implicações de viver
sozinho, e as fontes que explicam por que você se sente desta forma diante
disso.
O MITO DO SOLTEIRO TRISTE
A maioria das pessoas nos Estados Unidos acaba casando ou estabelecendo um
relacionamento de longo prazo,198 e, se você for um dos poucos que não têm
um companheiro, talvez tenha vivenciado uma variedade de emoções ao longo
dos anos, desde o desapontamento e a solidão até a rejeição e a raiva. Talvez
você tenha, inclusive, sido vítima da discriminação de seus empregadores, da
Receita Federal e do sistema político, estigmatizado pela sociedade, ignorado
pelos pesquisadores e esnobado por amigos que acabaram de iniciarseus
próprios relacionamentos.199 Se você sempre desejou um casamento de conto
de fadas ou preparar o jantar todas as noites com o seu parceiro, permanecer
solteiro é, inegavelmente, muito doloroso. É prudente, no entanto, examinar
em que grau sua fantasia romântica foi suscitada pelas normas sociais (que
estipulam o que se espera que todos nós alcancemos em cada fase da vida) e
alimentada por seus pais, contraparentes e amigos casados. Trata-se da fantasia
que traz consigo a suposição de que você só vai encontrar a verdadeira
felicidade quando encontrar um parceiro ou um cônjuge. Antes de decidir o
que sentir ou como agir, é importante analisar o verdadeiro valor deste mito da
felicidade.
Grande parte da mídia e do interesse acadêmico tem se concentrado na ideia
de que os indivíduos mais felizes são os casados. Embora isso seja tecnicamente
verdadeiro, os pesquisadores demonstraram que estar casado só leva as pessoas
a relatarem que são mais felizes com suas vidas como um todo (em parte
porque a pergunta “Você é feliz como um todo?” provavelmente as obriga a
pesar o fato de estarem casadas como um indício de mais felicidade), mas ser
casado não leva as pessoas, necessariamente, a experimentar mais felicidade ao
longo do tempo.200 Por exemplo, um estudo que acompanhou como as
mulheres casadas ocupam seu tempo durante todas as horas do dia descobriu
que o casamento confere tanto benefícios quanto custos para elas, e que esses
benefícios e custos parecem se anular uns aos outros. As mulheres casadas
consomem menos tempo sozinhas do que as solteiras e mais tempo fazendo
sexo, mas também gastam menos tempo com os amigos, menos tempo lendo
ou assistindo à televisão, e mais tempo executando tarefas, preparando a
comida e cuidando dos �lhos (deve-se notar que quase todas as descobertas
sobre o casamento se aplicam, igualmente, a relacionamentos amorosos sérios e
de longo prazo).
Além disso, embora as pessoas casadas relatem estar mais satisfeitas com suas
vidas como um todo do que aquelas que vivem sozinhas, veri�ca-se que esta
diferença é mais forte, ou se torna apenas evidente, quando a comparação é
feita entre os casados e os divorciados, entre os casados e os separados, ou entre
os casados e os viúvos.201 Os indivíduos que sempre viveram sozinhos se saem
extremamente bem. Estes dados também são compatíveis com um estudo que
mencionei anteriormente – uma pesquisa que acompanhou 1.761 indivíduos
solteiros que se casaram e que ainda estavam casados quinze anos depois. Este
estudo concluiu que o ato do casamento confere aos recém-casados um
impulso de felicidade que dura, em média, dois anos; após o segundo ano de
casamento, eles voltam ao ponto de onde partiram, pelo menos em termos de
felicidade.202 Os solteiros não chegam a experimentar este impulso, mas
também não são impactados pelo seu declínio.
Outra história pode ser contada a respeito dos solteiros e da saúde. A título
de exemplo, embora as pessoas casadas que nunca se divorciaram sejam mais
saudáveis e vivam mais tempo do que aquelas que se divorciaram, as pessoas
que sempre viveram sozinhas são tão saudáveis quanto as que sempre foram
casadas e vivem tanto quanto elas.203 Isto pode parecer surpreendente, já que o
casamento, o amor e os relacionamentos íntimos parecem ser a fonte da
felicidade, da identidade e do signi�cado para muitos de nós. Alguns chegam a
argumentar que nossa cultura valoriza a “nuclearidade intensiva”, a ponto de
considerar-se que as pessoas solteiras perderam as experiências mais
transcendentes da vida e, portanto, como a mulher anônima que me escreveu,
devem ser mais solitárias, mais tristes, mais carentes e, até mesmo, menos
maduras.204 Elas não são.
As pessoas que permanecem solteiras a vida toda não são, seguramente,
desprivilegiadas, uma vez que retiram de outras fontes o valor e o propósito de
suas vidas – de seus amigos, irmãos, parentes, comunidades, empregos, ou da
dedicação a uma grande causa. Resumindo, elas parecem seguir o velho
conselho de não colocar todos os ovos em uma única cesta. Em vez de contar
com os benefícios do casamento, uma mulher solteira que tenha identidades
diferenciadas como corretora, amiga, irmã, ciclista e jardineira é menos
propensa a perder sua autocon�ança, seu senso de competência e sua alegria de
viver quando algo der errado. Não importando suas escolhas, ou a falta delas
na vida, ela sempre terá algo em que se destacar e do que desfrutar, seja um
intenso triatlo, um almoço chique com sua melhor amiga, uma apresentação
de sucesso no trabalho ou uma brincadeira com seus irmãos.
O fato mais notável, porém, é que as pessoas que vivem sozinhas têm
relacionamentos grati�cantes, duradouros e signi�cativos. Em relação aos seus
pares casados (ou que já foram casados), elas tendem a ser mais próximas de
seus irmãos, primos e sobrinhos; continuam a desenvolver novas amizades à
medida que envelhecem; e mantêm mais contato com os amigos. De fato, os
pesquisadores apontam que os amigos íntimos dos solteiros são pessoas que eles
escolheram, enquanto os amigos íntimos dos casados costumam ser escolhidos
para eles (por exemplo, os pais dos amigos de seus �lhos, seus contraparentes,
amigos de seus cônjuges etc.). É de se notar que as mulheres idosas que sempre
foram solteiras têm, normalmente, até uma dúzia de amizades importantes e
signi�cativas, mantidas por décadas.205 Leitores casados – e os que são pais, em
particular: vocês podem dizer o mesmo?
Nenhum indivíduo – nem mesmo o amor de nossas vidas – pode ser todas as
coisas para nós, em todos os momentos e em todas as situações. Às vezes,
desejamos um apoio emocional em uma crise pessoal. Às vezes, queremos
estímulo intelectual ou uma percepção diferenciada sobre o mais recente
acontecimento político. Às vezes, precisamos de assessoria técnica ou
�nanceira. Às vezes, precisamos de um tapinha nas costas que nos estimule.
Outras vezes, �camos desesperados procurando alguém que nos ajude a sair de
um impasse. Aqueles que dependem, na maior parte do tempo, de seus
parceiros – que, possivelmente, não conseguirão preencher todas essas
necessidades – estão em desvantagem. Pessoas solteiras que têm vários círculos
de amigos – os tipos de amigos a quem podem pedir ajuda no meio da noite –,
cultivados e alimentados por décadas, estão igualmente bem posicionadas – ou
até mais bem posicionadas – para se bene�ciar durante emergências,
problemas, tensões e vitórias.
Em suma, uma in�nidade de pesquisas demonstra que as relações
interpessoais fortes, afetuosas e satisfatórias nos deixam felizes.206 No entanto,
o relacionamento principal não precisa ser sexual ou romântico.
SENDO O MELHOR SOLTEIRO QUE VOCÊ PUDER
Quando temos uma enorme sensação de que nunca seremos felizes sem um
parceiro amoroso, podemos escolher inúmeros caminhos. Um deles é nos
esforçar ao máximo para nos comunicarmos, conhecermos e namorarmos
tantas pessoas quanto pudermos. É provável que, oportunamente, alguma delas
acabe se revelando “a pessoa”. Embora eu não aborde essa opção, inúmeros
conselhos, artigos e livros podem nos ajudar a atingir este objetivo. Outro
caminho – abordado na seção a seguir – envolve decidir que podemos, sim, ser
felizes sem um parceiro amoroso, nos libertando desse objetivo e construindo
uma vida plena e rica, mesmo vivendo sozinhos. Claro, estamos livres para
deixar a porta aberta para um futuro relacionamento, evitando, ao mesmo
tempo, que este seja o sonho primordial de nossas vidas. Finalmente, podemos
fazer o máximo para nos tornarmos a pessoa mais feliz, otimista, equilibrada e
bem-sucedida que pudermos, e con�armos que esta nova pessoa na qual nos
tornaremos estará suscetível de atrair o melhor companheiro possível.
Gostaria de começar considerando esta terceira opção – a de que uma pessoa
positiva, feliz e otimista não só desfrutará o máximo de sua solteirice atual, mas
tornará muito mais possível uma vida a dois. De fato, os indivíduos mais
positivos são percebidos como mais �sicamente atraentes, inteligentes,
afetuosos, moral e socialmentehabilidosos do que os menos positivos; não é de
surpreender que se tenha descoberto que eles estão mais propensos a encontrar
parceiros com quem se casar e a erigir parcerias resistentes e satisfatórias.207 Em
um de meus estudos favoritos, por exemplo, as mulheres que transmitiam
positividade em suas fotos nos anuários da faculdade, tiradas aos vinte ou 21
anos de idade, estavam relativamente mais propensas a estarem casadas aos 27
anos e menos propensas a ainda estarem solteiras aos 43.208
Como podemos nos transformar nesta pessoa autenticamente otimista?
Várias recomendações podem ser encontradas na literatura cientí�ca. Em
primeiro lugar, devemos considerar a maneira pela qual um traço como o
otimismo é de�nido, já que alguns de nós podem ter uma ideia errônea sobre
ele. Muitas pessoas caracterizam o otimismo de uma forma que remete à
de�nição oferecida por Voltaire em 1759 – que é “a mania de a�rmar que tudo
está bem quando tudo está mal”.209 Na verdade, muitos pesquisadores como
eu optam por uma de�nição bem mais restrita – a de que esperamos “que tudo,
de alguma forma, talvez não se revele muito ruim”.210 Quando nos sentimos
solitários e sozinhos, criar o nosso melhor “eu” possível exige este tipo de
“pequeno otimismo”, pelo menos no começo – a expectativa de que vamos ter
um bom dia; de que, talvez, não consigamos fazer tudo que queremos, mas
conseguiremos fazer algumas das coisas que queremos; de que, apesar de nem
sempre conseguirmos o que queremos, conseguiremos aquilo de que
precisamos; de que não há problema em con�ar na vida; de que não nos
deixaremos vencer; de que, mesmo que as coisas não saiam bem, elas vão
melhorar.
Independentemente de nosso otimismo ser grande ou pequeno, muitos de
nós vacilamos a respeito de nossas expectativas para o futuro. Felizmente, como
as pesquisas já comprovaram, inúmeras atividades favorecem o pensamento
positivo. A estratégia mais sólida compreende a atualização regular de um
diário, entre dez e vinte minutos por dia, no qual anotamos nossas expectativas
e nossos sonhos para o futuro (por exemplo, “Em dez anos, estarei casado e
terei uma casa própria”), visualizamos sua concretização e descrevemos como
poderemos realizá-los e qual seria a sensação desta conquista. Este exercício –
mesmo quando lhe dedicamos apenas dois minutos –, torna as pessoas mais
felizes e, até mesmo, mais saudáveis.211 Além disso, é uma boa ideia praticar os
músculos do otimismo quando somos confrontados com as pequenas
perguntas que testam nossa autocon�ança (Devo me sentar ao lado do cara que
está lendo o meu romance favorito?), de modo que estejamos mais bem
preparados para as ocasiões das grandes perguntas (Fui feito para o amor?).
Mas e se nossos objetivos e sonhos de encontrar um companheiro forem
extremamente difíceis ou desa�adores, ou, até mesmo, impossíveis? E se nossas
expectativas forem excessivamente altas? Até mesmo os otimistas mais
ferrenhos e mais bem-sucedidos encontrarão barreiras diante de suas
expectativas positivas. As pesquisas mostram que o pensamento otimista nos
ajuda a seguir em frente, apesar das barreiras e das adversidades.212 Quando
praticamos o otimismo, nos tornamos mais con�antes, mais motivados e mais
energicamente engajados em nossos objetivos, tomamos medidas mais
proativas para atingi-los, e �camos mais comprometidos, persistentes e focados
na tarefa. Em outras palavras, nos comportamos de modo a aumentar as
probabilidades de atrair o parceiro certo.
No entanto, sem dúvida, haverá momentos em que os nossos pensamentos
otimistas não conseguirão enfrentar a dura realidade e em que nos deixaremos
seduzir por inferências e conclusões negativas. Em tais situações, podemos
testar um exercício valioso, que ajuda a combater o pensamento negativo,
encontrando, deliberadamente, formas de reinterpretar nossas circunstâncias de
maneira mais positiva. Por exemplo, podemos escrever (1) nosso problema ou
obstáculo atual (pensamentos intrusivos, como “Nunca vou realizar meu sonho
de encontrar o amor verdadeiro”); (2) nossa interpretação inicial (“Porque
arruinei todos os relacionamentos que tive”); e, �nalmente, (3) nossa
reinterpretação positiva (“Amadureci muito nos último cinco anos e, agora,
consigo julgar melhor as pessoas”).
É claro que, às vezes, nosso veredicto fatalista sobre o fato de um
determinado objetivo estar aquém do nosso alcance é basicamente verdadeiro.
Quando minha correspondente anônima escreveu que não tinha “ninguém
com quem compartilhar o [seu] amor”, sua conclusão pode ter sido pessimista,
mas não era infundada ou irracional. Nessa situação, descobriu-se que os
otimistas têm, na verdade, mais chances de desistir de um objetivo impraticável
do que os pessimistas (por exemplo, uma mulher de 39 anos de idade que está
determinada a se casar e a engravidar aos quarenta) e, ao mesmo tempo,
esboçar o melhor quadro possível da situação.213 Essencialmente, praticar o
otimismo nos dá a �exibilidade e a perspectiva da visão geral para avaliar
nossos objetivos e sonhos de forma realista, deixar de lado os inatingíveis,
reconhecer o quanto crescemos ou aprendemos sobre nós mesmos a partir dos
desa�os que já enfrentamos e seguir em frente, encontrando novos objetivos
signi�cativos os quais perseguir.
Aprender a ser mais positivo e mais otimista signi�ca aprender a ver
oportunidades nas di�culdades,214 interpretar o mundo como pleno de
possibilidades e encantos. Se sentirmos que �caremos para sempre sozinhos,
podemos estar certos ou errados, mas não saberemos, a menos que nos
mantenhamos envolvidos, adotemos uma perspectiva positiva e continuemos
tentando.
REORIENTANDO SEUS OBJETIVOS
Enquanto alguns continuarão procurando o Sr. ou a Sra. Ideal, outros podem
optar por se libertar inteiramente desta busca. As razões pelas quais faremos
uma ou outra coisa podem ser complicadas, e, para desvendá-las, talvez seja
necessário explorar por que estamos sozinhos atualmente. Se temos o hábito de
sabotar os relacionamentos porque tivemos modelos fracos, pouca experiência
em relacionamentos ou estamos com medo dos próximos passos (intimidade,
empenho, comprometimento) ou de possíveis armadilhas (rejeição,
in�delidade, ser magoado), podemos pensar em procurar um terapeuta
pro�ssional ou a orientação de amigos e de livros de autoajuda. Como
alternativa, talvez pre�ramos, de fato, �car sozinhos, embora não
reconheçamos isso em nós mesmos (ou não queiramos reconhecer). Ou, talvez,
tenhamos feito a relação custo-benefício e, em vista de nossas condições atuais,
decidido que é bem melhor �car sem um parceiro, ou que a probabilidade de
encontrar um parceiro que combinará com a nossa personalidade e o nosso
estilo de vida é muito baixa.
Se optarmos por desistir do objetivo de passar o resto de nossas vidas ao lado
de uma alma gêmea, como devemos proceder? Os cientistas aprenderam muito
sobre os benefícios da equanimidade diante de sonhos não realizados, bem
como sobre a coragem e a �exibilidade necessárias para renunciar a objetivos
impraticáveis em favor dos mais exequíveis. De fato, as pesquisas mostram que
as pessoas que têm objetivos irrealistas serão signi�cativamente favorecidas se
conseguirem abdicar de tais objetivos e assumir atividades novas e
signi�cativas.215
Estudos comprovam que são necessários três passos para seguir adiante de
forma responsável.216 Em primeiro lugar, começamos por reduzir nossos
esforços para encontrar um companheiro – por exemplo, pedindo aos nossos
amigos para pararem de bancar o cupido e encarando as novas pessoas que
conhecemos não como possíveis parceiros, mas como potenciais amigos e
con�dentes. Segundo, começamos a sentir que o objetivo de encontrar um
parceiro não é tão signi�cativo, importante ou essencial para nossa felicidade
quanto acreditávamos anteriormente,217 talvez amparados pelas pesquisas sobre
o mito do solteiro triste. Em terceiro lugar, identi�camos e começamos a
buscar atividades alternativas (como o fortalecimento de nossas relações com
velhos amigos, a adoção de uma criança, ou voltar a estudar)e, gradualmente,
aprendemos a pensar sobre nós mesmos e sobre nossas identidades de forma
diferente (por exemplo, como um grande amigo, e não como um cônjuge
potencialmente excelente). Hoje em dia, metade de todos os adultos nos
Estados Unidos é solteiro, e pesquisas recentes mostram que cada vez mais
pessoas estão preferindo viver sozinhas, como um estilo de vida.218 Estabelecer
vínculos com uma comunidade de solteiros que encaram positivamente o seu
estado civil pode ser reconfortante e fortalecedor. Em suma, nosso tempo,
nossas energias e nossos esforços aplicados ao objetivo de encontrar um
parceiro de vida se recanalizam para o objetivo de nos tornarmos um amigo,
um líder ou um tio exemplares.
A importância destes três passos tem sido investigada em pessoas que
enfrentam uma variedade de situações – desde os recém-separados a casais em
que um dos parceiros está morrendo de AIDS, até pais de crianças com
necessidades especiais. Em todos os estudos, os indivíduos capazes de seguir em
frente e de se manterem felizes foram os que obtiveram sucesso em (1)
minimizar a importância dos objetivos originais (e agora inatingíveis),
relacionados ao bem-estar do casal (por exemplo, curar a doença de seu
parceiro ou ter uma carreira brilhante ao mesmo tempo em que cuida do �lho
com necessidades especiais) e (2) ressaltar a importância de objetivos
alternativos, mais realistas.219 Se nosso parceiro estiver cronicamente doente,
por exemplo, podemos deixar em suspenso nossa carreira e nos esforçar para
sermos o melhor cuidador e o melhor companheiro que pudermos.
Os pesquisadores também analisaram a busca por novos relacionamentos
íntimos, logo após uma recente separação, e constataram algo ainda mais
relevante para a questão de viver sozinho.220 Eles descobriram que aqueles que
tiveram poucas oportunidades de encontrar um novo parceiro amoroso (neste
caso, pessoas mais velhas versus mais jovens) se mostraram mais propensos a
abandonar o objetivo de encontrar um companheiro, o que levou a uma maior
felicidade ao longo do tempo. Por outro lado, as pessoas mais jovens se
mostraram menos propensas a desistir de tais objetivos, e aquelas que o �zeram
tornaram-se menos felizes com o tempo, e não mais.
Embora esta pesquisa possa parecer um tanto desanimadora, vale a pena
re�etir sobre as suas implicações. Até onde vamos remoer o fato de vivermos
sozinhos ou alimentar a esperança de nos depararmos com essa pessoa ideal,
que pode não existir? Quando vamos aceitar e abraçar nossa vida presente e
seguir adiante com outros planos? Na década de 1950, o eminente psicanalista
Donald Winnicott introduziu o conceito de “mãe su�cientemente boa” – uma
mulher que não se esforça à perfeição para atender imediatamente a todas as
necessidades de seu �lho, mas que, ainda assim, permite que o �lho se
transforme em um adulto bem-ajustado.221 Talvez aqueles que estejam se
confrontando com o ponto fundamental abordado neste capítulo devessem
avaliar se estão levando uma “vida de solteiro su�cientemente boa”. Para
muitos de nós, a resposta será não, e continuaremos insistindo em nos
tornarmos a melhor pessoa possível – uma pessoa que terá mais probabilidades
de atrair um parceiro adequado. Alguns de nós, no entanto, poderão se
surpreender ao descobrir que a resposta será sim, pelo menos por enquanto.
A MENTE PREPARADA
O momento crítico do “estou sozinho e sinto que sempre estarei” é,
inegavelmente, doloroso para muitos indivíduos. Se você estiver neste impasse,
é possível continuar ruminando sobre sua situação e permanecer imerso em
tristeza. Alternativamente, você pode ter uma atitude proativa a respeito disso
– se esforçando para prosperar como indivíduo e �cando aberto à possibilidade
de vínculos. Ou você pode descobrir que não precisa de um homem (ou de
uma mulher) para deixá-lo feliz. Se o seu primeiro pensamento for “eu nunca
serei feliz sozinho” ou “eu sou um fracassado”, avalie se o desejo de se casar é
genuinamente seu ou se é ditado por sua família ou pela cultura geral. As
pesquisas mostram, de forma contundente, que as pessoas casadas não são mais
felizes do que as solteiras e que as solteiras têm desfrutado de grande felicidade
e obtido signi�cado a partir de outros relacionamentos e de outras buscas. Se
você não gostar de viver sozinho, mude. Se você não puder ou não quiser
mudar sua vida, mude a maneira de pensar sobre isso. A verdade é que o mito
da felicidade segundo o qual só se pode ser feliz com um parceiro é tão
poderoso quanto equivocado. Saber disso deveria fazê-lo deter-se – e cultivar
esperanças –, abrindo novos caminhos e perspectivas.
Parte II
TRABALHO E DINHEIRO
Se tivermos trabalhado em tempo parcial na faculdade e mais quarenta horas
por semana até completarmos 67 anos de idade, teremos trabalhado quase 100
mil horas ao longo de nossas vidas, com um quarto de nosso tempo de vigília
dedicado aos nossos empregos. A jornada média de trabalho nos Estados
Unidos é de nove horas e meia de duração, sendo que, entre nós, 35%
trabalham nos �ns de semana e 31% trabalham mais de cinquenta horas por
semana.222 Evidentemente, a “média” signi�ca que metade de nós trabalha
mais – e, muitas vezes, muito mais do que isso. A maioria dos que têm um
emprego ou uma carreira considera-os parte vital de suas identidades, repleta
de conquistas e frustrações. Além disso, é de nossos empregos que obtemos
dinheiro para nos sustentar, para nos divertir ou para nos fazer sofrer, por
realizar muito pouco ou por gastar imprudentemente o que ganhamos. Na
verdade, quando se pergunta às pessoas o que gostariam de ter nesse momento,
muitas a�rmam querer “mais dinheiro”.223 Não é de surpreender, então, que os
mitos sobre aquilo que nos traz a maior felicidade (encontrar o emprego ideal,
ser bem-sucedido e rico) e a maior infelicidade (fazer muito pouco dinheiro)
permeassem nossa vida pro�ssional e nossa vida geradora de renda ao longo de
quatro ou cinco décadas, e ensejassem momentos críticos preocupantes para
nós. Nos próximos três capítulos, desmonto as evidências destes mitos da
felicidade e ofereço inúmeras ideias para você conseguir superar tais momentos
críticos e prosperar.
CAPÍTULO 5
Eu serei feliz quando... 
encontrar o emprego certo
Você considera que seu trabalho deixou de ser satisfatório – ou pior, que está
insuportável? Se for este o caso, pesquisas recentes mostram que, mais do que
nunca, os norte-americanos vivenciam a mesma experiência.224 Talvez você
esteja esgotado, entediado ou cansado com o seu emprego, ou sinta que o
sucesso pro�ssional o iludiu decisiva e irrevogavelmente. Além do mais, a
sensação de que seu trabalho não é mais o que costumava ser pode instigar um
momento crítico doloroso, que o força a questionar sua capacidade de
julgamento, suas habilidades, sua disponibilidade e sua motivação. Este
capítulo concentra-se no mito da felicidade que alimenta tal momento crítico –
a saber, que toda a felicidade que tenha lhe escapado até agora se materializará
depois que você conseguir o emprego “certo” ou perfeito. Lidar com este mito
requer uma compreensão da onipresença e das verdadeiras fontes do mal-estar
relativos ao seu emprego ou ao seu grau de sucesso. Só então você estará
preparado para fazer escolhas saudáveis e dar os próximos passos. Alguns destes
passos são detalhados aqui.
ACOSTUMANDO-SE COM SEU EMPREGO
No capítulo 1, foquei no momento decisivo em que você chega à conclusão de
que está entediado com o seu casamento. Haveria um ponto paralelo, em que
você reconheça que está entediado com o seu emprego? Embora amor e
trabalho possam parecer ter poucas coisas em comum – por qual outra razão
seria preciso “equilibrá-los”? –, ambos são, como Freud habilmente reconheceu,
molas propulsoras de nossa saúde mental.225 Além disso, assim como as
relações interpessoais, o trabalho é um aspecto de sua vida ao qual você está
propenso a se adaptar hedonisticamente e a considerar corriqueiro – situação
que dá origem à apatia e ao tédio que abastecem aquele sentimento dolorosotrocar todas as fraldas. Nós não
tendemos a visualizar as tensões, os altos e baixos, o desgaste das paixões, os
desencontros, os mal-entendidos e as desilusões do amor de longa duração –
tudo aquilo que contribui para provocar um curto-circuito no período de lua
de mel de um casamento. Da mesma forma, nossas mentes pintam cenas
excessivamente sombrias e pessimistas do que seria vivenciar o desemprego,
arrepender-se profundamente ou �car solteiro.
O segundo fator que ajuda a frustrar nossas previsões é que subestimamos a
força do que Gilbert e Wilson chamam de nosso “sistema imunológico
psicológico”. Assim como nossas células imunológicas nos protegem de agentes
patógenos e de doenças, veri�ca-se que temos uma série de habilidades e
talentos que subvalorizamos ou que somos incapazes de antecipar – desde a
habilidade para racionalizar nossas falhas à capacidade de estar à altura de
nossas responsabilidades –, e que nos protege de sucumbir em face à
adversidade ou ao estresse. As pessoas são bastante resilientes e muito ágeis em
desconsiderar, negar ou bloquear as experiências negativas, ou transformá-las
em algo positivo. Quando imaginamos como nos sentiríamos ao saber que
nossa jornada de trabalho foi seriamente reduzida, não percebemos que o
desânimo e a insegurança iniciais que experimentaremos serão amenizados pela
melhora de nosso preparo físico (utilizando aquelas horas extras para ir à
academia), por uma proximidade maior com nossos �lhos (utilizando aquelas
horas extras para ir ao playground), pela constatação de que, a�nal de contas,
nós nunca almejamos realmente ser corretores (aproveitando os encontros
íntimos nos �ns de noite com nosso parceiro) e por nosso senso de
amadurecimento (apreciando a forma como aquele revés revelou pontos fortes
que nem sabíamos ter). Não me interpretem mal: é improvável que a
desventura inicial após a rejeição ou a perda de um emprego se metamorfoseie
em prazer, mas estudos mostram que é muito provável que a angústia seja
amortecida pelo nosso sistema imunológico psicológico.6
O nosso sistema imunológico psicológico também opera, particularmente,
após acontecimentos positivos. Conforme abordarei detalhadamente nos
capítulos 2, 6 e 8, os seres humanos têm uma capacidade gigantesca de se
adaptarem a novos relacionamentos, empregos e condições materiais, e o
resultado disso é que, com o tempo, até mesmo tais grati�cantes mudanças de
vida se tornam cada vez menos satisfatórias. Este fenômeno, chamado de
“adaptação hedonista”, é um tema importante do livro, pois nossa tendência de
nos acostumarmos com quase tudo de positivo que nos acontece é um grande
obstáculo para a nossa felicidade. A�nal, se, em última instância, consideramos
nossos novos empregos, novos amores, novas casas e novas conquistas algo
corriqueiro, então como conseguiremos perpetuar a nossa alegria e a nossa
satisfação por estas coisas? Em resposta a esta pergunta, ofereço recomendações
baseadas em evidências de como evitar ou superar tal obstáculo e encontrar o
caminho para a prosperidade e a realização.
Meu argumento é o de que, uma vez compreendendo os equívocos e os
vieses que motivam nossas reações, perceberemos que, independentemente da
clareza dos próximos passos, não existe um caminho correto e adequado, ou
uma única forma de considerar a nossa situação. Ao contrário, existem vários
caminhos. Espero que a leitura deste livro nos conduza a uma melhor
compreensão das nossas próprias trajetórias. Há muito risco e há muito em
risco, já que qualquer caminho que escolhamos terá efeitos cumulativos nos
próximos anos – e não será possível voltar atrás. “Porque tudo o que fazemos”,
escreveu James Salter em seu romance sobre o casamento, Light years [Anos-
luz], “e até mesmo o que não fazemos, nos impede de fazer o oposto. Os atos
anulam as suas próprias alternativas, e este é o paradoxo”.7
Em seu sucesso de vendas Blink: A decisão num piscar de olhos, Malcolm
Gladwell aprimorou a ideia de que as decisões tomadas em um piscar de um
olhos – baseadas em pouca informação, em pura emoção e nos instintos – são,
muitas vezes, melhores do que as cuidadosamente fundamentadas e avaliadas.8
A cultura popular, alimentada por reportagens da mídia, absorveu esta ideia de
bem-estar com muito gosto. A�nal, a noção de con�ar na intuição para tomar
decisões e fazer julgamentos importantes – não ter de fazer nenhum trabalho! –
é incrivelmente atraente, especialmente para a mente dos norte-americanos
ansiosos por soluções rápidas.
Neste livro, argumento que o segundo – ou, até mesmo, o terceiro –
pensamento pode ser o melhor pensamento. Minha abordagem é: “Pense, não
pisque”.
O debate que procura estabelecer se o primeiro pensamento é melhor do que
o segundo (ou o enésimo) data de muitos e muitos anos. Desde Platão e
Aristóteles, �lósofos, escritores, e, nas últimas décadas, psicólogos sociais e
cognitivos têm feito a distinção entre dois mecanismos diferentes sob os quais
nossos cérebros operam ao fazer julgamentos e tomar decisões.9 O primeiro
deles (com o repulsivo nome de Sistema 1; eu o chamarei de intuitivo) foi o
que Gladwell descreveu em Blink. Quando con�amos em nossas intuições,
instintos ou emoções pontuais para decidir se devemos largar o nosso emprego,
estamos con�ando em nosso sistema intuitivo. Tais decisões são tomadas de
forma tão rápida e automática que não temos consciência do que exatamente
as in�uenciou. Nestas páginas, esclarecerei os equívocos sobre a nossa
felicidade, que in�uenciam cada um destes primeiros pensamentos.
O segundo mecanismo sob o qual nossas mentes funcionam (identi�cado
pelos cientistas como Sistema 2, mas que chamarei de racional) é muito mais
deliberado. Quando contamos com a razão ou com o pensamento racional
para decidir se desejamos dispensar nosso empregador e trocá-lo por um novo,
reunimos energia e esforços, dedicamos nosso tempo, avaliamos sistemática e
criteriosamente e podemos fazer uso de determinados princípios ou regras. Isto
é, precisamente, o que este livro vai encorajar – e ajudar – a fazer.
Durante os últimos cinquenta anos, uma vasta literatura no campo da
psicologia vem documentando os muitos equívocos e vieses que levam os seres
humanos a tomar más decisões com base em suas intuições.10 Para dizer a
verdade, muitas vezes cometemos erros custosos quando fazemos determinadas
escolhas. Isto porque o nosso sistema intuitivo – no qual muitos de nós
depositamos grande con�ança – se vale, normalmente, de atalhos mentais
rápidos e super�ciais, ou de regras gerais (“Você �cou sabendo do tiroteio no
cinema? Acho melhor �car em casa, vendo televisão”), que, muitas vezes, nos
desviam do caminho. No entanto, apesar das armadilhas inerentes ao sistema
intuitivo, nossos primeiros pensamentos intuitivos são, de modo geral, muito
mais atraentes do que o segundo e o terceiro pensamentos, que costumam ser
bastante ponderados. Com efeito, devido ao fato de os julgamentos intuitivos
muitas vezes parecerem emergir de forma espontânea e automática, sem que os
tenhamos suscitado, nós os interpretamos quase como uma “premissa” ou um
fato consumado.11 Assim, quando temos um forte sentimento de que devemos
abandonar de�nitivamente o nosso emprego, por mais que esse sentimento
esteja enraizado em mitos sobre a felicidade, atribuímos a essa intuição um
signi�cado e uma importância extras, porque ela, simplesmente, nos “parece
correta”. Na verdade, temos a tendência a preferir os instintos, mesmo quando
eles são, obviamente, irracionais.
Não quero dizer, com isso, que pensar duas ou três vezes será sempre a
melhor abordagem, principalmente quando nossas cabeças e corações nos
oferecerem conselhos con�itantes. Mas a verdade é que nossas reações iniciais
(ou nossos primeiros pensamentos) aos momentos críticos (por exemplo,
“Minha vida está indo ladeira abaixo” ou “Nunca encontrarei alguém para
amar novamente”) estão contaminadas por nossa parcialidade, e regidas por
falácias pelas quais nos deixamos envolver, acerca do que poderia e do que não
poderia nos trazerde que o seu trabalho deixou de ser prazeroso, e que você seria muito mais feliz
fazendo outra coisa. Uma das possibilidades, logicamente, é encontrar um
novo caminho pro�ssional. Ou você pode tentar identi�car em que medida o
seu tédio se deve à sua situação de trabalho especí�ca (e problemática) e em
que medida ele se deve ao processo generalizado e previsível da adaptação
hedonista, que, provavelmente, se repetirá em seu próximo emprego. Neste
último caso, uma série de abordagens empiricamente comprovadas pode afastar
a sensação de que seu trabalho não é mais satisfatório e deter o avanço da
adaptação hedonista. Antes de tomar uma decisão drástica, teste essas
estratégias para determinar se elas teriam algum sucesso com você, ou se a sua
situação no emprego é irremediável. Acima de tudo, saiba que, quando o seu
trabalho não lhe estiver parecendo mais satisfatório, ainda há esperanças.
Tenho colegas que mudam de emprego com frequência, fazendo com que
suas famílias se mudem de uma costa à outra a cada dois ou três anos. Eles
parecem sinceramente empolgados com todas as novas oportunidades e se
lançam mais uma vez à tarefa de redesenhar seus compromissos de trabalho e
estilos de vida. Então, inevitavelmente, depois de um ano ou algo assim, da
mesma forma que os alunos do segundo ano da faculdade passam por uma
“crise do segundo ano”, eles começam a se sentir um pouco entediados ou
inquietos, ou a desenvolver queixas justi�cáveis sobre o seu novo supervisor,
colegas e tarefas, ou sobre as locomoções diárias. Pouco a pouco, começam a
fantasiar sobre alguma posição em outro lugar que lhes pareça ainda melhor –
talvez um emprego com um chefe mais razoável, ou uma locomoção menos
cansativa, colegas mais prestativos e tarefas menos pesadas.
Claro, nem todo mundo tem a opção de se mudar com frequência e trocar
de emprego, o que sugere que há muito mais pessoas sonhando em fazer o que
algumas pessoas têm a sorte de poder realizar. No entanto, serão esses
andarilhos pro�ssionais, verdadeiramente, pessoas de sorte? Eles �cam
realmente felizes a cada novo posto de trabalho? Em caso a�rmativo, esse
benefício compensaria os custos de amizades interrompidas, do afastamento de
suas raízes e de seus bairros, e das transferências para distritos escolares
desconhecidos? Embora cada um deva pesar individualmente os prós e os
contras, nós nos bene�ciaríamos se levássemos em consideração as pesquisas
que esclarecem por que todos estamos propensos a nos deixar imolar por
empregos perfeitamente decentes e que investigam se há algo que se possa fazer
sobre isso.
Um estudo seminal sobre o tema acompanhou gerentes de alto nível por
cinco anos, a �m de medir sua satisfação com o trabalho antes e depois de uma
mudança voluntária de emprego, tal como uma promoção ou uma realocação
dentro da mesma empresa, para uma cidade mais bonita.226 Os gerentes eram,
em sua maioria, do sexo masculino, majoritariamente brancos, com média de
45 anos de idade, e um salário anual de US$ 135 mil. Eles estavam indo bem
no trabalho. Os pesquisadores descobriram, no entanto, que esses gerentes
experimentavam uma explosão de satisfação – basicamente, um período de lua
de mel – logo após a mudança de emprego, mas sua satisfação caía dentro de
um ano, retornando ao nível original anterior à mudança. Em outras palavras,
eles viviam uma espécie de efeito ressaca. Por outro lado, os gerentes que
optaram por não mudar de emprego durante o mesmo intervalo de cinco anos
experimentram mudanças insigni�cantes no nível de satisfação que sentiam em
relação a seus empregos. Assim, enquanto eu (por exemplo) permaneci na
mesma posição e não �quei mais ou menos feliz por causa disso um ano após o
outro, meus colegas peregrinos vivenciaram repetidas quedas e picos de
felicidade.
O chamado efeito ressaca é uma prova conclusiva da adaptação hedonista
aos nossos empregos. Os seres humanos são capazes de se adaptarem a quase
tudo em sua vida pro�ssional e, especialmente, a qualquer coisa que permaneça
imutável. Recentemente, uma das minhas ex-alunas me escreveu para confessar
que, ao chegar ao seu novo emprego em São Francisco,
(...) Fiquei tão encantada com a vista sobre a baía que tirei várias fotos.
Hoje, me divirto a cada vez que o ônibus vermelho de dois andares passa
pela janela [do meu escritório] e todos se debruçam para tirar fotos. Sei
que a vista é incrível, porque as pessoas vêm aqui e me dizem isso, mas eu
já estou 100% adaptada – na verdade, diria que estou totalmente adaptada
a todo o estilo de vida aqui, e que retornei ao ponto de partida.
Nós nos acostumamos com as cidades em que vivemos, com nosso sorvete
favorito, nossa obra de arte favorita e nossas músicas favoritas; com as casas e
carros novos, com os aumentos salariais (falaremos mais sobre isso a seguir); e,
como detalhei no capítulo 1, com os relacionamentos e, inclusive, com o
sexo.227 Quando alcançamos um objetivo, �camos contentes apenas por algum
tempo, até começarmos a sentir que não �caremos satisfeitos enquanto não
conquistarmos algo ainda maior. Desta forma, aumentamos contínua e
exponencialmente nossas expectativas e nossos desejos. De modo geral, isso
não é ruim. Esforçar-se incessantemente por mais é, com certeza, uma
característica da adaptação evolutiva; se a realização de nossos objetivos nos
propiciasse uma sensação totalmente complacente e satisfatória, nossa
sociedade não testemunharia muito progresso. Se estivéssemos sempre
contentes com o status quo, nunca nos esforçaríamos para realizar mais, como
construir armários melhores, publicar mais livros, aprender mais línguas,
encontrar novas fontes de alimento e fazer novas descobertas cientí�cas. Se
permanecêssemos em uma euforia de autossatisfação diante de nossa mais
recente conquista, não seríamos capazes de competir de forma e�caz com os
outros, e poderíamos deixar de reconhecer perigos e oportunidades em nossos
ambientes.
Antes de examinar as possíveis maneiras de combater, prevenir ou retardar o
processo de saturação com nossos empregos, é importante saber exatamente o
que acontece conosco durante o processo de adaptação, e por quê. De fato,
entram em ação duas explicações principais – ao longo do tempo, sentimos
cada vez menos prazer e nossas aspirações aumentam.
Quando começamos a trabalhar em uma nova e invejável posição, obtemos
um grande impulso de bem-estar, e, até mesmo, de euforia. Pensamos com
frequência no novo emprego (e no que mais nos agrada nele) e
experimentamos muitas emoções positivas, resultado da cadeia de
acontecimentos positivos acionada pelo emprego – e pelas oportunidades
recém-descobertas de novos relacionamentos, desa�os, aprendizado e
aventuras. No entanto, nas palavras de um dos meus alunos de pós-graduação,
essas poças de prazer secam lentamente e, no �m, evaporam por completo. A
empolgação diante de nossas novas responsabilidades pro�ssionais continua a
decair após a décima e a vigésima vez que as vivenciamos, e assim por diante.
O entusiasmo, a felicidade e o orgulho que costumávamos sentir �cam cada
vez menores, ao mesmo tempo em que nos concentramos cada vez menos na
novidade representada pelo emprego e voltamos nossa atenção às incontáveis
di�culdades, estímulos e distrações do cotidiano.228 Depois de um tempo no
escritório ou no local de trabalho, nem damos mais atenção às coisas que nos
faziam sorrir.
Em paralelo, conforme vamos obtendo um prazer cada vez menor com nosso
novo cargo, outra coisa crítica acontece – o aumento de nossas expectativas. Na
verdade, isso pode minar a nossa felicidade até mesmo se formos abençoados
com um emprego que continue nos trazendo tantas alegrias quanto em 2011
ou 2001. Portanto, o emprego que costumava ser especial, se torna, agora,
nosso direito e privilégio. Seja no tocante ao aumento de nossa remuneração, à
autoridade, à �exibilidade ou ao controle de nosso tempo, começamos a
acreditar que isso é o mínimo que merecemos. Começamos a sentir que nossas
novas e estimulantes experiências pro�ssionais simplesmente se tornaram parte
denossa nova vida – o nosso “novo normal” –, e terminamos considerando
previsível a felicidade que desfrutamos agora. Esta nova (e extremamente
comum) dinâmica tem a infeliz consequência de não apenas atenuar nossa
felicidade – fazendo-nos retornar àquilo que sentíamos antes mesmo de efetivar
a mudança –, como de nos impulsionar a distender os limites, a querer mais e
mais, de modo que quase nunca �camos satisfeitos com o que temos, mesmo
quando a sorte nos favorece com a abundância. Em um exemplo extremo,
depois de �riller ter-se tornado o álbum mais vendido de todos os tempos,
Michael Jackson declarou que só �caria satisfeito se o seu álbum seguinte
vendesse o dobro de cópias. No �m, ele vendeu 70% a menos. A maioria dos
músicos teria dado a vida para vender 30 milhões de cópias, mas, para Jackson,
o contraste com seu sucesso anterior foi bastante penoso.
Assim, praticamente devido às mesmas razões pelas quais nos adaptamos aos
nossos relacionamentos, nos adaptamos pronta e rapidamente aos nossos
empregos. Saber disso deveria nos fazer re�etir, e, talvez, nos obrigar a hesitar
um pouco antes de abandonar um emprego. Mas só porque a adaptação
hedonista é natural e evolutivamente adaptativa – o desejo por doces, o ciúme
sexual e o medo de animais selvagens são todos naturais e evolutivamente
adaptativos – não signi�ca que não possamos alterá-la.
REFREANDO SUAS AMBIÇÕES
As ambições imoderadas são nocivas para a felicidade. Por um lado, quanto
mais conquistamos, mais felizes somos. Mas, ao mesmo tempo, quanto mais
conquistamos, mais desejamos, o que vai de encontro ao aumento de
felicidade. Um bom exemplo está na constatação de que as pessoas mais
escolarizadas estão (surpreendentemente) menos satisfeitas com as suas
vidas.229 Em outras palavras, a maior satisfação com a vida que poderia se
obter a partir de um MBA em Michigan (por exemplo, as amizades, os
contatos pro�ssionais e o prestígio a ele associados) é contrabalançada pelo
aumento de ambições e o risco inerente de decepções e desgostos (“Tenho um
MBA em uma escola altamente bem-avaliada – por que não consigo uma
colocação bem remunerada em Wall Street?”). Um novo emprego que seja mais
bem remunerado, mais estimulante e mais grati�cante do que o nosso emprego
anterior nos fará felizes, mas, antes que possamos nos dar conta, teremos
começado a exigir uma remuneração, estimulação e grati�cações ainda mais
elevadas para nos considerarmos felizes.
Como podemos evitar que consideremos nossos empregos algo corriqueiro?
Uma das mais e�cazes – e mais difíceis – estratégias é reduzir progressivamente
nossos desejos e conter o aumento de nossas expectativas.230 Não estou
querendo dizer que devamos esperar menos de nossos empregos.
Simplesmente, não devemos permitir que nossos desejos continuem
aumentando desproporcionalmente, até o ponto em que acabemos nos
sentindo no direito de acreditar que só seríamos felizes se tivéssemos mais e
mais disto ou daquilo. Considerando-se os desa�os inerentes à contenção de
nossas ambições, precisaremos de um arsenal completo de instrumentos
psicológicos à nossa disposição para realizar esta tarefa. Sugiro tentar, então,
ajustar as múltiplas abordagens (muitas vezes, simultaneamente), e não desistir
facilmente. Cinco destes instrumentos psicológicos são descritos a seguir.
REATIVE CONCRETAMENTE
Rememore regularmente e de forma concreta como era a sua antiga (e menos
satisfatória) vida pro�ssional.231 Se você recebia um salário menor, de�na
determinados períodos de tempo (digamos, uma semana por mês) para limitar
os seus gastos, de modo a fazê-los corresponder aos seus antigos hábitos de
consumo. Se você costumava ter colegas antipáticos, almoce sozinho de vez em
quando. Se você trabalhava regularmente no turno da noite, esforce-se,
periodicamente, para �car acordado até mais tarde novamente. Este tipo de
reativação o encorajará a apreciar seu emprego atual e a obter mais prazer com
ele, simplesmente rememorando ou se transportando mentalmente às épocas
passadas (e menos afortunadas).
OBSERVE CONCRETAMENTE
Certa vez, visitei um dos escritórios do Google para dar uma palestra sobre
felicidade, e acabamos discutindo como as pessoas se adaptavam facilmente às
boas coisas da vida. Alguns funcionários �zeram uma visita guiada comigo e
con�denciaram-me o quanto amavam os seus empregos, mas que �cavam
totalmente esgotados trabalhando lá, e que achavam que nunca mais
conseguiriam trabalhar em nenhum outro lugar. Eles têm direito a almoço e
jantar gratuitos todos os dias, uma série de guloseimas, palestras com autores-
visitantes e dezenas de jogos e distrações (incluindo uma sala com bateria e
guitarra). Eles estão autorizados, até mesmo, a levar seus animais de estimação
para o trabalho. Quando começaram a trabalhar lá, tais regalias lhes pareceram
incríveis, mas não demorou muito tempo para que se acostumassem com elas e
ainda encontrassem coisas das quais reclamar (por exemplo, “Não, torta de
caranguejo de novo!”). Minha recomendação foi a de que eles deveriam se
esforçar para prestar atenção a outros locais de trabalho – talvez, até, seus
antigos escritórios, caso fosse possível.
Faça visitas ocasionais aos lugares de trabalho de seus amigos, conhecidos ou
ex-colegas, e, discretamente, compare-os com o seu. Tais observações causarão
uma impressão mais duradoura e o ajudarão a sentir-se privilegiado com sua
vida pro�ssional.
SEJA GENUINAMENTE GRATO
Mantenha um diário de gratidão – uma lista em sua mente, no papel ou no seu
smartphone232– que o ajude a contemplar, regularmente, os aspectos positivos
do seu emprego. Nada abate mais a gratidão do que as expectativas
extremamente altas, e quanto maiores as suas expectativas, menos gratidão você
sentirá. Se sua expectativa para amanhã for sair do trabalho às cinco da tarde, e
você conseguir, é altamente improvável que se sinta grato por isso. O problema
com a prática da gratidão, porém, é que é extremamente difícil mantê-la e levá-
la a cabo de uma maneira sincera e genuína. O mesmo acontece com a
manutenção de um programa de condicionamento físico rigoroso, uma dieta
saudável ou uma prática diária autoimposta de algum instrumento musical. O
segredo é reunir esforços e empenho – dois atributos que estão ao alcance de
todos nós.233
MUDE O SEU PONTO DE REFERÊNCIA
Quando você pensa em seu emprego dos sonhos, qual é o seu ponto de
referência? Para muitos de nós, é um emprego mais bem remunerado, menos
estressante, mais envolvente, mais confortável e mais grati�cante. Talvez seja o
emprego que nosso amigo de escola tenha agora, ou o emprego descrito no
artigo que lemos ou no �lme que vimos. Entretanto, há grandes chances de
que o nosso ponto de referência seja um emprego de fantasia, que talvez não
exista no mundo real. Você sonha em ser um jogador de futebol pro�ssional,
um diretor de cinema, um senador, um detetive de homicídios, um jornalista
investigativo, um neurocirurgião, um autor de sucesso ou um biólogo
marinho? Se assim for, é bem provável que esteja perdendo de vista o fato de
que mesmo essas atividades aparentemente fabulosas apresentam períodos de
alto estresse, monotonia, colegas possivelmente desagradáveis, tarefas ingratas,
resultados exasperantes e longas jornadas de trabalho. Por exemplo, o trabalho
de piloto de testes de videogame, classi�cado na lista dos vinte “incríveis
empregos dos sonhos”,234 requer longos períodos de concentração, que podem
ser estressantes e desgastantes. Um destes pilotos descreveu o seu primeiro dia
de trabalho integral realizando testes de videogames desta forma: “Nas últimas
duas horas, senti náuseas. Intensas”.235 Ex-espiões internacionais contam
histórias semelhantes. De acordo com Lindsay Moran, autora de Blowing My
Cover [Arrancando o meu disfarce]: “Bem, certamente eu não esperava que ela
fosse tão perfeita quanto em um �lme de James Bond, mas, no �m das contas,
a CIA é um monte de gente sentada em cubículos com seus pares de sapatos
tradicionais, e este é um tipo de realidade provavelmente chocante para muitaspessoas como eu, que chegam à agência esperando algo mais glamouroso”.236
O meu argumento é que o emprego dos sonhos é um ponto de referência
frágil. Mude-o para algo mais apropriado ou que induza à gratidão – como o
cargo similar, mas um pouco menos grati�cante, ao qual você se candidatou
anteriormente, ou o emprego que você tinha antes de sua promoção, ou o
emprego completamente diferente na escola, hospital, shopping, granja, fábrica
ou escritório mais próximos. Também é importante mudar o seu ponto de
referência de tempos em tempos, a �m de exercer sua capacidade de visualizar
tipos alternativos de emprego e de situações.
TORNE ESTE DIA NO EMPREGO O SEU “ÚLTIMO”
No momento, estou conduzindo uma “intervenção de felicidade” de um mês
de duração, em que os participantes estão sendo instruídos a viver o presente
mês como se fosse o seu último. As instruções não dizem respeito a imaginar
que eles estão com uma doença terminal, mas, ao contrário, imaginar, tão
integral e �elmente quanto possível, que estão prestes a passar muito tempo
longe de seus empregos, escolas, amigos e famílias, por um período inde�nido.
Pesquisas anteriores sugerem que este exercício nos estimularia a apreciar
profundamente o que estamos nos preparando para abandonar. Quando
acreditamos que estamos vendo (ou ouvindo, fazendo ou experimentando) as
coisas pela última vez, iremos vê-las (ou ouvi-las, fazê-las ou experimentá-las)
como se fosse a primeira vez.237 Assim, os funcionários do Google poderiam
apreciar novamente suas tortas de caranguejo, a estimulação intelectual e os
animais de estimação sob suas mesas; e poderíamos apreciar nosso gerente
escrupuloso, nosso horário �exível e nossas oportunidades de viajar.
REFLEXÕES FINAIS
Talvez você tenha notado que muitas das técnicas anteriores trazem, como
consequência, o aumento do apreço por nossos empregos atuais. Isso não é
coincidência, já que a apreciação pode ser uma das formas mais efetivas de
controlar as expectativas. Um autêntico sentido de gratidão com a nossa
carreira é, simplesmente, incompatível com o apego a níveis crescentes de
satisfação.
Certa vez, uma estudante indiana se aproximou de mim em uma conferência
para me contar que o casamento de seus pais fora arranjado, e que ela sempre
quis saber como eles conseguiam fazê-lo funcionar. Quando ela lhes
perguntou, eles confessaram que o seu segredo – pelo menos, em seus
primeiros anos juntos – era não ter, absolutamente, nenhuma expectativa! “Dessa
forma”, disse o pai, “quando minha esposa fazia qualquer coisa maravilhosa –
ou agradável, ou, até mesmo, normal – eu �cava feliz”. Em minha opinião, é
verdadeiramente notável como este casal conseguiu refrear suas expectativas.
Isso deve exigir talento, ou, pelo menos, um trabalho muito árduo. A lição que
�ca para o resto de nós, no entanto, é que se esse casal conseguiu manter um
nível zero de expectativas, então podemos, pelo menos, ser bem-sucedidos ao
restringir as nossas.
Contudo, um pequeno obstáculo ainda persiste. Um grande número de
pesquisas tem demonstrado que objetivos elevados e expectativas elevadas são
fundamentais no domínio do comportamento humano.238 Se desejamos e
esperamos nos sair bem em uma entrevista de emprego, em juntas médicas ou
em um primeiro encontro, temos mais chances de ser bem-sucedidos.
Objetivos ambiciosos podem promover a autocon�ança, fazer com que nos
esforcemos mais, combater a ansiedade e engendrar profecias autorrealizáveis.
Então, como poderemos conciliar estas descobertas com a recomendação de
reduzir nossas ambições? A resposta está em considerar, em primeiro lugar, o
nosso histórico, e, em seguida, o domínio em questão.
Primeiro, faz parte de nosso histórico pular de emprego em emprego (ou de
relacionamento em relacionamento e de casa em casa)? Se nossa posição se
mostra realmente insatisfatória ou se encontra estagnada, então nossos esforços
para almejar uma direção diferente ou uma �nalidade maior serão válidos.
Mas, se para os padrões da maioria das pessoas temos um emprego
perfeitamente adequado, nossas expectativas estão desequilibrando nossa
realidade e nos roubando de todos os prazeres, exceto os mais fugazes.
Segundo, quando recomendo que nossas ambições sobre nossos empregos
sejam progressivamente reduzidas, estou me referindo às ambições em relação à
nossa carreira, posição e vida pro�ssional em geral (“Este emprego é
su�cientemente bom para mim, ou mereço algo melhor?”), e não ao nosso
desempenho especí�co no trabalho (“Estou con�ante com a minha
apresentação com PowerPoint amanhã?”). Quando se trata de nosso
desempenho e das realizações especí�cas no trabalho, sempre devemos sonhar
alto.
VENCENDO O RITMO ULTRADIANO
Em 9 de agosto de 2010, um jato da JetBlue Airways chegou ao Aeroporto
Internacional John F. Kennedy, em Nova York, proveniente de Pittsburgh,
Pensilvânia. Enquanto a aeronave taxiava na pista, houve uma briga entre um
passageiro e um comissário de bordo. O comissário de bordo, Steven Slater,
aparentemente chegando à conclusão de que não aguentava mais, dirigiu vários
impropérios aos passageiros através do intercomunicador (“Vão se f ***!”),
pegou duas cervejas Blue Moon do carrinho de bebidas (“Vou dar o fora
daqui!”) e acionou a rampa de evacuação de emergência, deslizando e
desaparecendo nos anais da história popular. Embora o acionamento
imprudente do escorregador tenha colocado em risco a vida de indivíduos que
estavam na pista e custado US$ 10 mil à companhia aérea, Slater se tornou um
herói instantâneo da classe trabalhadora, produzindo efeitos em funcionários
descontentes em todos os lugares, desejosos, eles também, de poder dizer aos
seus patrões que pegassem o seu emprego e en�assem onde bem entendessem.
Ainda assim, não nos sentimos insatisfeitos com nossos empregos o tempo
todo. Mais provavelmente, experimentamos o mal-estar ou a exasperação de
tempos em tempos. Você �caria surpreso ao descobrir que esses pontos baixos
– os momentos em que você anseia ir embora ou deslizar pela rampa de
emergência de modo genial – ocorrem a cada noventa minutos? Se
compreendêssemos este fato, poderíamos antecipar tais momentos e evitá-los.
Os comissários de bordo e os assalariados estressados deste mundo pensariam
duas vezes.
A maioria de nós já ouviu falar dos ritmos circadianos – ciclos diários que
regulam nosso sono (perto da hora de dormir e ao longo da noite) e nossos
estados de alerta e de vigília (ao acordar e ao longo do dia). A palavra
circadiano signi�ca “cerca de um dia”, e, portanto, um ritmo circadiano ocorre
uma vez a cada período de 24 horas. Essencialmente, o ritmo circadiano é o
nosso relógio biológico interno, sensível à luz e ao escuro.
Poucos de nós, no entanto, já ouviram falar de um outro tipo de ciclo
corporal, chamado ritmo ultradiano. O ciclo de estágios ultradianos se
completa, mais ou menos, a cada noventa minutos, durante o sono (mas não
mais do que 120 minutos). Além disso, também continuamos a experimentar
estes ciclos de noventa a 120 minutos enquanto estamos acordados. Na prática,
isso signi�ca que, entre uma hora e meia a duas horas depois de levantar a cada
manhã, nos sentimos particularmente vigorosos e focados – capazes de
sustentar a concentração e a energia ao longo de nossas atividades. Ao �m deste
intervalo, no entanto, experimentamos um período de vinte minutos de fadiga,
letargia e di�culdade de concentração. Este é o “ritmo ultradiano”.
Os gurus de negócios têm se apropriado astuciosamente dessas ideias para
usá-las como conselhos práticos em treinamentos de executivos e líderes
empresariais. Sua mensagem é que todos os funcionários devem estar cientes de
seus ritmos ultradianos, e que, quando sentirem a aproximação do período de
vinte minutos de perda de foco, em vez de confrontá-lo (arriscando cair em
ine�ciência e erros), comam uma barra de chocolate ou fumem um cigarro.
Eles devem fazer uma pequena pausa, o que lhes trará revitalização e renovação.
Nessas horas, é preciso relaxar ou mudar a atividade para algo completamente
diferente– por exemplo, tirar um cochilo revigorante de vinte minutos (a
duração comprovada para nos dar mais “retorno sobre o investimento”,)239 dar
uma caminhada ao ar livre, meditar, ouvir música, ler um capítulo de um
romance ou fofocar com colegas (mas não sobre trabalho).240 Em um estudo
realizado com funcionários de doze agências do banco Wachovia, em Nova
Jersey, aqueles solicitados a renovar suas energias com alguma das maneiras
descritas relataram estar mais engajados e satisfeitos com seu trabalho,
mostraram melhoria das relações com os clientes e produziram 13% a mais de
receitas em operações de crédito e 20% a mais de receitas em depósitos do que
o grupo de controle.241
Pense na última vez em que se sentiu particularmente insatisfeito ou
estressado no trabalho. É altamente provável que você estivesse atravessando
um desses vinte minutos de ritmo ultradiano. Isso não signi�ca, é claro, que
aqueles sentimentos de descontentamento ou de aborrecimento não sejam
sintomas de um problema real, mas signi�ca, sim, que devemos ser cautelosos
sobre interpretá-los de forma mais grave do que de fato são. Muitos de nós
passamos por momentos em que nos sentimos inteiramente “fartos” – com
nossas carreiras, cônjuges, �lhos, e, até mesmo, com nossas vidas. Olhando em
retrospectiva, reconhecemos que tais pensamentos são tipicamente irre�etidos e
de curta duração. Uma boa dica é estar consciente de que o ritmo ultradiano é
recorrente ao longo do dia, e que os momentos em que nossos corpos passam
de um alto pico de energia para um nível mínimo e letárgico são
oportunidades de a�oramento dos pensamentos mais pessimistas. Antes de
tomar quaisquer decisões precipitadas, neutralize seus ritmos ultradianos
fazendo pausas relaxantes e alternando os canais. Se os pensamentos persistirem
inde�nidamente, então estará hora de levá-los a sério.
EDITANDO O FILME DA SUA VIDA E VISLUMBRANDO 
UM FUTURO MELHOR
A sensação de que nosso trabalho simplesmente não está mais nos satisfazendo
pode desabar sobre nós algum dia, e quando isso acontecer, ela pode ser tão
poderosa que não conseguiremos abstraí-la. Qualquer uma das vantagens do
emprego no passado ou das possibilidades de crescimento no futuro não serão
nada perto da força e da intensidade das emoções daquele dia. Antes de
permitir que esse sentimento dite nossas ações e decisões, temos de recuar e
reavaliar imparcialmente nossas experiências passadas e nossas possibilidades
futuras.
O SEU PASSADO
Em seu livro de memórias, publicado cinco anos antes de sua morte,
Christopher Reeve – o ator, que, para muitas pessoas, era o Super-Homem
antes que um acidente de cavalo o deixasse tetraplégico – escreveu o seguinte:
“Levei um bom tempo para aprender que o cinema e a vida real eram duas
coisas diferentes. Isso continua a ser útil para mim até hoje, quando lembro
que as histórias da minha vida, minhas interpretações dos acontecimentos, são
como os rolos de um �lme, e que posso trocar esses rolos.”242 Este é um
discernimento signi�cativo, sugerindo que o nosso passado não é nem uma
folha completamente em branco, nem um conjunto �xo de circunstâncias,
experiências e acontecimentos. Mais do que isso, temos um grau de controle
sobre a nossa história, porque determinamos quais experiências enfatizamos e
quais minimizamos, de quais acontecimentos nos lembramos seletivamente e
de quais esquecemos, quais circunstâncias estão vívidas em nossas mentes e
quais estão fracas ou distorcidas. Nós realmente acreditamos que os últimos
oito anos de nossas carreiras foram um fardo mal vivido, improdutivo e pouco
recompensador? Em caso a�rmativo, qual o nosso grau de parcialidade e o
quanto estamos nos empenhando para evitar que nossa história pro�ssional
corrobore este ponto de vista? Um observador objetivo não chegaria a uma
conclusão totalmente diferente? Para escolher o melhor curso de ação para si
mesmo, estas questões – e suas implicações – devem ser consideradas com toda
a honestidade. Registrar por escrito as evidências das visões pessimista e
otimista de nossas experiências pro�ssionais pode ajudar a iluminar os fatos e a
esclarecer nossa perspectiva.
O SEU FUTURO
Embora tenhamos um grande controle sobre a forma como observamos e
experimentamos nosso passado, temos muito mais controle sobre a forma
como encaramos o nosso futuro. A razão é óbvia: o futuro ainda não chegou e,
assim, está repleto de possibilidades, oportunidades e paisagens inexploradas.
Infelizmente, em vez de visualizar um panorama futuro atraente para nossa
atual vida pro�ssional, muitos de nós nos �xamos nas montanhas de obstáculos
ao longo do caminho. Porém, é muito mais fácil (e mais agradável) adotarmos
“fantasias de fuga”, o que nos permite imaginar um emprego dos sonhos
alternativo, com todos os aspectos positivos de que atualmente carecemos e,
logicamente, nenhum aspecto negativo.
Antes de nos obrigar a procurar aquele emprego dos sonhos, considero
fundamental reexaminar nossos prognósticos sobre o que pode acontecer com
nosso emprego atual. Por exemplo, da mesma forma que os terapeutas
cognitivos ensinam seus pacientes deprimidos a combater seus pensamentos
negativos (“Minha chefe quer se vingar de mim”), encontrando evidências que
os invalidem (“Na semana passada, ela elogiou meu trabalho diante de todo o
departamento”), podemos aprender a repensar e a contestar nossos
prognósticos pessimistas. Como mencionei anteriormente, não proponho que
devamos nos persuadir a acreditar que tudo será, para sempre, cor-de-rosa.
Pensar positivamente sobre o futuro pode signi�car, simplesmente, dizer para
nós mesmos: “Esse projeto vai ser difícil, mas vou encará-lo” ou “Minhas
últimas tarefas têm sido fastidiosas, mas se a história servir como exemplo, um
grande desa�o surgirá em breve”. O resultado é que nós nos treinamos para
interpretar os períodos de estresse ou monotonia em nosso trabalho como
efêmeros e restritos, e não como intermináveis e com implicações de longo
alcance. Essa nova perspectiva esclarecerá o quanto nosso emprego atual é
verdadeiramente desprezível – ou razoável.
NÃO ESTOU FICANDO PODEROSO, NEM FAMOSO, 
NEM GANHANDO UM PRÊMIO NOBEL
Tivemos grandes ambições. Trabalhamos duro. Fizemos muitas coisas certas.
No entanto, apesar dos nossos esforços e conquistas e de alguns golpes de sorte,
somos surpreendidos, algum dia, com a ideia de que nosso sucesso estagnou e
desapareceu. Vemos amigos, amigos de amigos e ex-colegas nos deixando para
trás. Enquanto nossa carreira estacionou, eles estão comemorando a
prosperidade de seus negócios, a compra de sua segunda (e terceira) casa,
aparecendo na televisão como lideranças e sendo tratados como celebridades
em cerimônias de premiação. O que deu errado? Por que não estamos entre os
2,1 milhões de norte-americanos considerados altos executivos?243 Por que
nossos talentos não foram reconhecidos?
Quando percebemos que estamos insistindo em tais questões, é hora de
recuar e reavaliar nossas prioridades, nossos objetivos e nossos pontos de
referência. Assim como o sentimento de que nosso trabalho não é mais
satisfatório, este dilema é alimentado pelo mito da felicidade de que “Eu só
serei feliz quando... for bem-sucedido” e, portanto, tem o potencial de criar
falsos sentimentos de insatisfação. No entanto, a sensação de que não
conseguimos realizar nossos sonhos pro�ssionais exige novas recomendações.
Seguir as sugestões que descrevo a seguir ajudará a avaliar nossas conquistas de
forma mais realista e mais complacente, e, antes de mais nada, prevenir o
surgimento daquelas incômodas perguntas.
LIVRANDO-SE DE COMPARAÇÕES PERNICIOSAS COM OS OUTROS
Em grande parte do tempo, é impossível não nos compararmos com os outros.
Sempre que vamos jantar na casa de um amigo, ou perguntar aos nossos
vizinhos ou cônjuges como estão passando o dia, ou ligar o aparelho de
televisão, somos inundados com informações sobre as vitórias e as tragédias de
outras pessoas, suas opiniões, seu estilo de vida, sua personalidade e seu
casamento. Somos bombardeados por imagens de mansõesde Hollywood
versus apartamentos com jardim, rostos bonitos versus corpos rechonchudos,
virtuoses no violino versus ineptos que caíram no ostracismo. Somos
confrontados com indivíduos cujos sucessos parecem ampliar o grau de
desperdício de nossos próprios potenciais – pessoas cujas carreiras parecem
existir apenas como uma censura à nossa.
As comparações sociais surgem naturalmente, automaticamente e sem
qualquer esforço. Não por acaso, os estudos comprovaram que nos comparar
com os outros – seja uma criança que percebe que seu colega tem uma mochila
mais legal, ou uma executiva que descobre que seu salário é maior do que o de
sua colega – tem um profundo efeito não apenas em nossas autoavaliações,
como, também, em nosso humor e em nosso bem-estar emocional.244 Na
verdade, deve-se atribuir às comparações com as outras pessoas a principal
responsabilidade por nossas sensações de inadequação e descontentamento.
Para a maioria de nós, as sensações de de�ciência ou de não estar à altura de
algum padrão elevado são fruto da observação do sucesso dos outros, seja um
sucesso real ou imaginário. Em vez de nos perguntarmos “Será que minha
carreira (ou produtividade, ou nível de renda) satisfaz minhas necessidades?”,
perguntamos: “Quão bons são minha carreira, minha produtividade e meu
nível de renda, em comparação com os do meu vizinho?”. Em vez de,
individualmente, nos sentirmos cada vez mais ricos, sentimos, ao contrário,
que estamos alcançando novos níveis de pobreza relativa.245
Contudo, não podemos, simplesmente, ignorar todas as comparações ou não
prestar atenção alguma às outras pessoas. Ciente deste fato, comecei a
investigar, no terceiro ano do curso de pós-graduação, a questão das
comparações que costumamos fazer. Esta linha de pesquisa, como veremos em
breve, revelou que o segredo para �carmos satisfeitos com as nossas conquistas
não reside em ignorar os pontos fortes e as realizações das outras pessoas, mas
em não sofrer as consequências negativas de tais observações. Em outras
palavras, não se deixe afetar pelas comparações sociais.
Realizei uma série de estudos para veri�car se aqueles que têm a capacidade
de desconsiderar o impacto de comparações desfavoráveis com seus pares são
realmente mais felizes em relação a si mesmos e às suas vidas, de modo geral,
do que aqueles que não a têm.246 Em um experimento, por exemplo,
convoquei dois voluntários ao mesmo tempo e pedi a cada um deles para usar
dois fantoches de mão – Chipmunk e Otter –, com o objetivo de ensinar uma
lição sobre amizade a um público imaginário de alunos da primeira série.247 Os
dois voluntários se revezaram nesta ação diante de um espelho falso, enquanto
eram ostensivamente avaliados e �lmados. Ao término do experimento,
criamos um pequeno artifício, levando cada voluntário a acreditar que havia
executado muito mal a tarefa (ou seja, que a nota média atribuída pelos juízes
havia sido 2, em um máximo de 7 pontos), mas também a acreditar que o
segundo voluntário havia se saído ainda pior (recebendo uma decepcionante
nota 1). Por outro lado, um segundo grupo de voluntários foi levado a
acreditar que havia se saído muito bem (tendo recebido dos juízes uma
pontuação média de 6, em um máximo de 7 pontos), mas que seus pares
haviam sido ainda mais bem-sucedidos (obtendo uma excelente pontuação 7).
Também pedi a alguns participantes que realizassem sozinhos a tarefa – sem
um parceiro –, e eles receberam avaliações “excelente” ou “insu�ciente”, sem
nada saber a respeito do desempenho de outros eventuais participantes.
Anos mais tarde, eu, de alguma forma, ainda �co surpresa com os resultados.
Para analisar os dados, dividi os participantes entre aqueles que, antes de
executar a tarefa, relataram estar muito felizes e os que relataram estar
relativamente infelizes. Quando examinei o “antes” e o “depois” dos dados dos
participantes muito felizes, descobri que aqueles que �caram sabendo que
haviam tido um desempenho muito ruim relataram se sentir menos positivos,
menos con�antes e mais tristes depois de concluído o estudo. Sua reação ao
aparente fracasso era perfeitamente natural e não de todo surpreendente. Por
outro lado, ao tomarem conhecimento de que haviam se saído extremamente
bem (nota 6, em um máximo de 7), os participantes muito felizes se sentiram,
na sequência, melhores em todos os aspectos, e, notadamente, o prazer por seu
aparente sucesso não se deixou abater quando eles foram informados de que
alguém havia apresentado um desempenho ainda melhor.
Os resultados dos participantes infelizes, no entanto, foram impressionantes.
Suas reações, ao que parece, se deixavam governar mais pelos comentários
oferecidos aos seus pares do que pelas avaliações relativas ao seu próprio
desempenho. De fato, o estudo descreve um quadro cruel e bastante
desagradável de uma pessoa infeliz. Os voluntários mais infelizes do meu
estudo relataram se sentir mais felizes e mais seguros quando recebiam uma
avaliação ruim (mas quando ouviam dizer que seus pares haviam se saído ainda
pior) do que quando recebiam uma avaliação excelente (mas ouviam dizer que
seus pares haviam se saído ainda melhor). Parece que as pessoas infelizes
aderiram à máxima sarcástica, atribuída a Gore Vidal: “Para a verdadeira
felicidade, não basta ser bem-sucedido... É preciso que os amigos fracassem”.
Minha conclusão a respeito deste estudo, assim como de meia dúzia de
outros estudos que já conduzi sobre este tema, é que, quando se faz a pergunta
“Eu sou bom (bem-sucedido, inteligente, afável, próspero, ético)?”, aqueles que
normalmente con�am em seus próprios padrões internos e objetivos são mais
felizes. Esses hábitos nos tornam menos suscetíveis ao impacto de julgamentos
externos e de realidades exteriores (por exemplo, descobrir que nosso vizinho
está dirigindo um programa-piloto de televisão ou que nosso ex-colega está na
capa da California Lawyer). Em contraste, aqueles que baseiam suas
autoavaliações em comparações com as outras pessoas são os mais infelizes, e
tal prática acaba por se revelar bastante imprudente. Pense nisso: sentir-se triste
ou pessoalmente esvaziado como resultado do sucesso, das realizações e vitórias
de outras pessoas, e sentir-se aliviado em vez de desapontado ou solidário
diante dos fracassos e derrotas de outras pessoas é uma péssima receita para a
felicidade.
O hábito de comparação social começa cedo na vida. Na infância,
aprendemos que o bom desempenho é medido, frequentemente, em termos
relativos. Muitas vezes, somos comparados com as boas maneiras dos nossos
irmãos, com os talentos de nossos colegas e, até mesmo, com as notas
excelentes e com os troféus que nossos pais ganharam quando crianças.
Consequentemente, fomos condicionados a querer saber como estamos indo
em relação aos outros e, de preferência, saber que estamos em uma situação
melhor. Como resultado desse condicionamento precoce, fazer comparações
sociais é forçoso e inevitável. O hábito é tão arraigado que se descobriu que,
assim como os seres humanos, até os macacos-prego são sensíveis às
comparações com seus pares símios.248 No entanto, pelo fato de sempre existir
alguém em melhor situação – mais rico, mais talentoso, mais popular ou mais
magro –, tais comparações fazem com que nos sintamos mal com mais
frequência do que nos sentimos bem.249 O objetivo, como demonstram meus
estudos, é depender um pouco menos dos outros para determinar a nossa
autoestima e con�ar um pouco mais em nossos padrões pessoais.
Se, algum dia, você chegar à conclusão de que “não conseguiu”, essa
conclusão estará baseada em seus objetivos pessoais ou em alguma norma ou
padrão estabelecido pelos demais? Os seus sentimentos sobre as vitórias (ou a
falta de vitórias) que obteve no passado são ditados pelo que os outros pensam?
Se a sua resposta for sim, a minha pesquisa sugere que, sempre que possível,
você deve se esforçar para ignorar tais comparações sociais injustas – por
exemplo, gritando “pare” ou desviando imediatamente a atenção para uma
tarefa agradável quando for supreendido fazendoisso. E, quando não for
possível ignorar, você deve se esforçar para sentir schlep naches (termo em
iídiche para “prazer decorrente da realização dos outros”), em vez de
schadenfreude (termo em alemão para “prazer decorrente da desgraça dos
outros”). Quando “não houver qualquer cobrança, sentimento de
empobrecimento, indício de ansiedade relacionados à descoberta de que
alguém é muito mais bem-sucedido do que você em um determinado
campo”,250 você terá alcançado mais maturidade – e, portanto, felicidade – do
que a média das pessoas. Em vez de lamentar sua falta de realizações, você
reconhecerá os esforços que empreendeu até agora e tomará as medidas
necessárias para chegar à próxima etapa.
A BUSCA DA FELICIDADE E A FELICIDADE DA BUSCA
Talvez as suas apreensões por não ter alcançado o que gostaria a esta altura da
vida não sejam totalmente infundadas. Se for este o caso, sua prioridade deve
ser corrigir a situação – identi�car aquilo que você quer e agir para consegui-lo.
Um grande número de pesquisas – algumas antigas e clássicas, algumas novas e
de ponta – sugere as formas ideais para nos inspirar, de�nir objetivos
signi�cativos e batalhar para alcançá-los. Aplicar estes resultados em nossas
próprias vidas aumentará a probabilidade de que sejamos mais felizes e mais
bem-sucedidos. No entanto, devemos sempre ter em mente que a realização de
nosso sonho não é a fórmula mágica para a felicidade; como explico adiante, a
coisa mais importante é o esforço que empenhamos.
Quando os cientistas estudam a “perseguição de objetivos”, eles estão
estudando, essencialmente, a in�nita variedade de projetos, esquemas, planos,
tarefas, esforços, empreendimentos, missões e ambições (grandes e pequenos)
que realizamos em nossas vidas cotidianas. Quando se trata de nossas vocações
pro�ssionais ou atividades de lazer, inúmeras pesquisas têm demonstrado que
aqueles que estão apenas se empenhando (e não necessariamente conquistando
algo) são mais felizes, especialmente quando seus objetivos com relação ao
trabalho e às atividades de lazer são realistas, �exíveis, valorizados por nossas
culturas, autênticos, imateriais e não interferem negativamente em outros
aspectos de suas vidas.251
No entanto, a pesquisa explicita uma ironia. O momento crítico que está no
cerne desta seção diz respeito à nossa ansiedade por ainda não termos realizado
nossos sonhos, embora as evidências empíricas revelem que o fator crítico para
determinar se a busca dos objetivos nos deixa felizes reside na apreciação do
próprio percurso, e não na consecução do objetivo �nal (o sonho). Esta
descoberta, é claro, contradiz as fortes crenças e intuições de muitas pessoas de
que a realização do objetivo é o padrão de excelência. Na verdade, ela contradiz
um dos principais mitos da felicidade, que nos recomenda esperar por ela para
que possamos realizar nossos sonhos. No entanto, quando �nalmente
conquistamos aquele papel em uma peça da Broadway, ou aquela promoção ou
aquele prêmio, sentimos uma emoção imediata, mas tal emoção é, muitas
vezes, seguida de saciedade, aumento de expectativas e, inclusive,
desapontamento.252 Quando Paul Krugman, economista e colunista do New
York Times, soube que tinha ganho o há muito cobiçado Prêmio Nobel, “a
reação de sua esposa, Robin, assim que a emoção inicial passou, foi: ‘Paul, você
não tem tempo para isso’”.253 De forma similar, um de meus colegas ganhou a
maior honraria de sua área, o prêmio de cientista eminente, concedido pela
American Psychological Association. Quando lhe perguntaram quanto tempo
durou o impulso de felicidade, ele respondeu: “Um dia”.
Por outro lado, se apreciarmos as lutas que empreendermos ao longo do
caminho, obteremos prazer e satisfação simplesmente por perseguir ou
trabalhar em prol de nosso objetivo. Idealmente, aprimoraremos nossas
habilidades, descobriremos novas oportunidades, cresceremos, nos
esforçaremos, aprenderemos e nos tornaremos mais capazes e experientes. Seja
em nossas áreas de atuação ou em nossas atividades de lazer, a acumulação
gradual de conhecimento e experiência possibilitará cada vez mais
oportunidades de apreciação e deleite, assim como (de acordo com alguns
cientistas) a satisfação de nossa necessidade inata de sermos desa�ados e
utilizarmos ao máximo nossos potenciais. Não importa se o objetivo que
valorizamos for inventar algo especial ou terminar a escola; ele nos dará algo
por que batalhar e desejar.
Além disso, a busca do objetivo, em si mesma, dá estrutura e signi�cado à
nossa vida cotidiana, criando obrigações, prazos e horários, bem como
oportunidades de dominar novas habilidades e interagir com os outros. Assim,
no decorrer de nossas buscas, podemos atingir um senso de propósito em
nossas vidas, uma sensação de e�cácia diante de nosso progresso e de domínio
sobre o nosso tempo. Todas essas coisas deixam as pessoas felizes. E uma vez
que consigamos dar um passo importante nessa direção (por exemplo, ao
completar um estágio ou um artigo), deveríamos saborear esta etapa ou
subobjetivo cumprido (que deveria, merecidamente, nos propiciar um pequeno
afago emocional e no ego) antes de passarmos para um novo objetivo.254 Em
suma, em vez de nos concentrarmos demais em sermos os primeiros na linha
de chegada, devemos nos concentrar – e desfrutar disso tanto ou quanto
possível – em cumprir as várias etapas necessárias para progredir.
A PERGUNTA DE 1BILHÃO DE DÓLARES
Muitos escritores e pesquisadores, de Malcolm Gladwell (autor de O ponto da
virada — �e Tipping Point e Fora de série — Outliers) a Dean Simonton
(estudioso da criatividade na Universidade da Califórnia, em Davis), têm
explorado a questão do que faz as pessoas serem bem-sucedidas.255 É a
inteligência inata ou o trabalho árduo? É a conscientização ou o talento?
Muitos já concluíram que a resposta é a simples diligência – ou seja, é preciso
investir aproximadamente dez mil horas de determinado tipo de esforço ou
prática deliberada em algo, antes que possamos nos tornar verdadeiros
especialistas ou ser bem-sucedidos em qualquer campo, seja tocando violino,
escrevendo romances, lançando bolas de beisebol ou realizando cirurgias no
cérebro. Considero tais descobertas muito interessantes e contundentes,256 mas
sempre acreditei que um elemento fundamental permanecia ausente desse
debate. Esse elemento é, verdadeiramente, a pergunta de US$ 1 bilhão: como
podemos nos obrigar a perfazer aquelas dez mil horas?257 Onde se obtém a
centelha ou a motivação para autodeterminar-se a praticar cinco horas de
violino por dia ou, como fez Benjamin Franklin, passar a limpo e reescrever
laboriosamente ensaios já publicados (da prosa ao verso, e vice-versa)? Onde
alguém encontra a motivação para acordar às cinco horas da manhã a �m de
realizar tais coisas? Se a resposta for um temperamento inato (que alguns são
naturalmente mais motivados e conscienciosos do que outros) ou a presença de
um pai, cônjuge ou treinador draconianos,258 então as esperanças de muitas
pessoas de chegar a alguma forma semelhante de excelência provavelmente
resultarão infrutíferas.
As pesquisas, porém, não con�rmam esta conclusão pessimista. Hoje, já
conhecemos muito a respeito dessa centelha ou motivação da qual precisamos
para nos dedicarmos integralmente; sabemos o que a debilita e temos algumas
boas ideias sobre o que é capaz de estimulá-la. Essencialmente, se queremos ser
um pequeno empresário, um cineasta, um analista político, um corretor de
seguros ou ter um blog sobre gastronomia, teremos muito mais chances de ser
bem-sucedidos e felizes em nossa tentativa se estivermos batalhando para
alcançar esses objetivos, porque eles nos parecem inerentemente interessantes e
agradáveis, ou se batalhar por eles expressar nossos valores mais importantes –
em outras palavras, se a nossa motivação for intrínseca.259
Embora qualquer objetivo – mesmo um objetivo mal-orientado ou mal-
intencionado – possa, potencialmente, ser intrínseco, os objetivos ideais são
aqueles que, em termos gerais, alimentam nossos impulsos básicos de crescer,
defazer com que nos sintamos competentes e autossu�cientes, de nos conectar
com os outros e de contribuir para nossas comunidades. Ficamos infelizes – e
menos propensos a sermos bem-sucedidos – quando estamos perseguindo
objetivos que não são verdadeiramente os nossos, e quando fazemos isso
simplesmente para obter aprovação (por exemplo, de nossos pais ou colegas) ou
para evitar a culpa. Tais objetivos “extrínsecos” incluem esforçar-se para �car
rico, bonito, popular, poderoso ou famoso.260
Quando buscamos uma carreira ou uma tarefa como um �m em si mesmas,
estamos mais propensos a experimentar intensamente a concentração, o
engajamento, o �uxo, a curiosidade e a persistência. Mas como se adquire esse
tipo de espírito e motivação? Deve-se começar do início. Isto é, o eixo mais
importante é aquele a partir do qual você escolhe o que realmente quer. Faça a
si mesmo as seguintes perguntas sobre a sua ambição ou o seu sonho que não
foram realizados até agora.
• O seu objetivo – digamos, iniciar o seu próprio negócio – é exequível?
• A quem pertence o objetivo – a você ou a outra pessoa?
• Ele está em con�ito com um plano de longa data (por exemplo, passar
bastante tempo com a família ou viajar ao redor do mundo)?
• Você realmente se sente “você mesmo” quando está batalhando por sua
ambição ou fantasiando sobre isso?
• Você espera crescer ao longo do processo ou desenvolver relacionamentos
duradouros?
• Você ainda continuaria tentando, caso as recompensas fossem muito mais
modestas?
Você não é obrigado a concordar com estes sentimentos o tempo todo. Sou
apaixonada pelo meu trabalho, mas, ainda assim, �co irritada quando ele
invade demais o tempo da minha família e do meu lazer, ou quando é
monótono. Mas se a sua resposta for um redondo “não” a pelo menos duas
dessas perguntas, será extremamente difícil, se não impossível, desejar ter uma
motivação intrínseca que não existe. Nesse caso, talvez você pre�ra mudar suas
prioridades e objetivos – por exemplo, da administração de um banco para a
administração de uma organização sem �ns lucrativos, da riqueza para a
�lantropia, do ensino para a escrita ou da escrita para o ensino.
Alternativamente, às vezes é possível reformular o seu trabalho. Talvez haja um
propósito nobre por trás disso que você não tenha considerado. Talvez você
possua algum talento – escrever, falar em público, trabalhar em rede, organizar
– que tenha passado despercebido, e que você possa exercer em sua posição
atual.
Finalmente, se houver períodos repetitivos ou inoperantes em seu trabalho,
talvez você consiga tirar algum partido deles, crescendo de alguma maneira.
Muitos empregos envolvem períodos de tempo em que você �ca esperando
algo acontecer. Um representante de vendas pode �car ocioso, esperando pela
próxima venda, e um taxista pode �car esperando pela próxima corrida. Outras
ocupações envolvem tarefas manuais – digitação de cartas, clicar em anúncios
on-line, operação de máquinas, pintar casas –, nas quais a mente não está
impedida de vagar. Por que não usar esse tempo para se instruir ou crescer?
Caminhoneiros de longa distância, processadores de dados e pescadores de
linguado, por exemplo, relataram descobrir novas ideias e desfrutar mais de
seus dias quando usavam o seu tempo de trabalho ouvindo podcasts de cursos
de universidades de todas as partes do mundo sobre diversos temas, como
�loso�a existencial, clássicos mundiais e física teórica.261
Uma vez que tenhamos escolhido ou reformulado nossos objetivos até eles se
tornarem pessoalmente signi�cativos, satisfatórios e envolventes, podemos
recorrer a várias outras linhas de pesquisa para dar sustentação ao nosso
comprometimento e à nossa motivação. Primeiro, os estudos mostram que
temos muito mais chances de sermos bem-sucedidos quando tomamos uma
resolução pública de realizar algo, seja para solicitar aquele tão postergado
certi�cado ou para começar a procurar um emprego em tempo integral.262 Em
segundo lugar, devemos empreender grandes esforços para convencer aqueles
que nos são mais próximos do valor de nossas buscas, e, depois, atrair e cultivar
a sua ajuda e o seu amparo. Conseguiremos manter nossa motivação em níveis
elevados se nossos parceiros ou melhores amigos não apenas apoiarem os nossos
sonhos, mas nos inspirarem, tratando-nos como se já possuíssemos a
experiência, a autoridade, a realização ou o título que buscamos.263
Finalmente, seria bom seguir a recomendação do psicólogo Abraham
Maslow, de escolher o crescimento em detrimento da segurança – em outras
palavras, assumir riscos potencialmente válidos, em vez de escolher fazer o que
é conhecido, confortável e familiar. Pense na busca daquele sonho impossível –
aquele que o angustia por ainda não ter realizado –, e pergunte-se se correr
algum risco não poderia trazer um retorno potencialmente maior. Fazer duas
colunas – uma para a lista dos benefícios esperados e uma para a dos prováveis
custos – o ajudará a encontrar a resposta. Não tenho predileção alguma pela
expressão “sair da nossa zona de conforto”, mas é basicamente isso que estou
sugerindo que tentemos – ou seja, fazer algo para favorecer a realização dos
sonhos que queríamos ter alcançado, mas que vimos relutando em perseguir.
As pessoas que tentaram este exercício o consideraram extremamente
desa�ador, mas também expansivo, capacitador e inspirador.264
A MENTE PREPARADA
Se tivermos vivido a nossa vida acreditando que conseguir o emprego perfeito
nos trará a felicidade vitalícia, talvez �quemos profundamente transtornados ao
constatar que, assim que aquele emprego for nosso, a felicidade resultante não
será tão grande, ou tão permanente, como imaginávamos que seria. Em outras
palavras, na raiz desse mito da felicidade está o equívoco de que, embora não
estejamos felizes hoje, certamente seremos felizes quando nos tornarmos sócios
da empresa na qual trabalhamos, quando estivermos tocando nossos próprios
projetos, quando inaugurarmos nossa primeira exposição em uma galeria,
quando vendermos nosso roteiro para o cinema, quando estivermos
administrando nossa própria loja ou quando ganharmos o Prêmio Nobel.
Deparamos-nos, porém com um problema quando a conquista daquele
emprego aparentemente perfeito não nos deixa tão felizes quanto esperávamos
e quando aquela felicidade é tão breve. O que explica essa experiência
desagradável é o inexorável processo de adaptação hedonista. Assim, um
primeiro passo fundamental é compreender que todos se habituam à novidade,
à empolgação e aos desa�os de um novo emprego ou empreendimento. Esta
nova percepção pode sugerir uma explicação alternativa para o nosso mal-estar
pro�ssional. Isto é, pode não haver nada de errado com o emprego, nossa
motivação ou nossa ética pro�ssional. Talvez estejamos apenas vivenciando um
processo que ocorre naturalmente, e que é demasiadamente humano.
O segundo passo é entender o que podemos fazer, de forma proativa, para
retardar ou, até mesmo, reverter o processo de nos entediarmos
progressivamente com os nossos empregos, e começar a colocar em prática, o
mais cedo possível, as estratégias relevantes. Se, no �m, tais esforços se
mostrarem inúteis, se o emprego estiver realmente abaixo do padrão ou se o
trabalho não corresponder adequadamente às nossas preferências e habilidades,
�caremos mais con�antes de que seguir em frente é uma decisão a que
chegaremos com uma mente preparada – ou seja, com base em uma análise e
um esforço fundamentados, e não nos instintos amparados pela emoção.
Alternativamente, talvez estejamos profundamente descontentes por não
estar, hoje, no estágio que pensávamos que estaríamos em nossas pro�ssões. No
entanto, a mensagem deste capítulo é que, se almejamos o sucesso –
reconhecimento, autoridade, prêmios – por acreditar que a nossa felicidade
depende disso, estaremos limitando nossa felicidade hoje e comprometendo-a
no futuro. A conclusão provém de inúmeras pesquisas, que felizmente (ou
infelizmente) podem ser resumidas em um lugar comum: “A felicidade não está
fora de nós, mas dentro de nós”. Pormais prosaica que essa a�rmação possa
parecer, a verdade, algumas vezes, pode estar disfarçada sob uma banalidade.
Podemos lamentar genuinamente o fato de ainda não termos conquistado isso
ou aquilo (enquanto nossos amigos já conquistaram), e esta lamentação pode,
realmente, nos deixar infelizes, mas conquistar isso ou aquilo não colocará um
�m à nossa infelicidade. Evitar as comparações nocivas, concentrarmo-nos em
nossos próprios padrões internos e focalizar o percurso da busca de nossos
sonhos, e não o resultado �nal, redirecionará nossa atenção e nossas energias da
mentalidade do “Eu serei feliz quando...” para horizontes mais frutíferos.
CAPÍTULO 6
Não poderei ser feliz se... 
estiver falido
Um dos momentos decisivos mais traumáticos na vida é constatar que
perdemos nossa casa, nosso trabalho ou a poupança que estava sendo reservada
para a nossa aposentadoria. Embargo, falência, desemprego, despejo – estas são
palavras que acionam os botões de emergência, causam noites de insônia e
precipitam a desesperança e o pânico. No início, talvez sejamos bombardeados
por um �uxo de sentimentos devastadores – perdemos tudo, estamos
derrotados e não temos mais perspectivas. Não conseguimos nem imaginar que
seremos felizes novamente.
Talvez, alguns consigam sair do buraco �nanceiro e sobreviver a ponto de
prosperar novamente, mas muitos passarão pela experiência de viver de
contracheque em contracheque, sem condições de adquirir nada além das
necessidades básicas, mal conseguindo se manter, com medo da próxima crise
ou desditosos por serem pobres. Nos últimos anos até mesmo aqueles com uma
situação relativamente confortável têm sentido insegurança �nanceira. Há
trinta anos, a chance de que um de nós sofresse uma queda nos rendimentos
era de 17%, e aproximadamente o mesmo número se preocupava com uma
possível demissão; hoje essa chance é de uma em cada quatro, e a maioria está
preocupada.265 Se e quando a economia mundial melhorar, é bem provável
que a ansiedade diante da falência ainda seja prevalente. À luz de nossas crises
�nanceiras pessoais – e, em grande parte, incontroláveis –, como
administraremos tal ansiedade? É possível viver uma vida carente de recursos e
considerá-la boa?
O DINHEIRO COMPRA A FELICIDADE? 
FINALMENTE, UMA RESPOSTA REAL E IMEDIATA
É raro encontrar um indivíduo que acredite que conseguiria ser feliz sem
dinheiro. Meu primeiro objetivo neste capítulo é examinar este mito da
felicidade e desa�ar a crença, profundamente arraigada, de que precisamos de
dinheiro para nos sentirmos confortáveis, seguros e satisfeitos. Meu segundo
objetivo é oferecer recomendações, baseadas em pesquisas, de como poderemos
manter uma boa qualidade de vida com uma renda reduzida ou instável –
como poderemos transformar limões em limonada, fazer o melhor com menos
e gastar o pouco que temos de maneira sábia e parcimoniosa.
Muito tem sido dito e escrito sobre a questão de o dinheiro trazer ou não
trazer a felicidade, e as conclusões oferecidas podem diferir radicalmente,
dependendo de quais psicólogos, economistas ou analistas consultamos. Já li
muito a respeito da ligação entre o bem-estar e o triunvirato formado por
riqueza, nível de renda e bens materiais. Também já conversei sobre o tema
com diversos especialistas (e ouvi suas opiniões). As informações são confusas e
contraditórias, mas acredito que posso apresentar algumas conclusões
fundamentadas e baseadas em dados.
PRIMEIRO, O NÍVEL DE RENDA E A FELICIDADE ESTÃO, DE FATO,
SIGNIFICATIVAMENTE CORRELACIONADOS, EMBORA A
RELAÇÃO NÃO SEJA TÃO FORTE266
Em outras palavras, é verdade que, quanto mais alto estivermos na escala
econômica, mais felizes nos consideraremos. Sob muitos aspectos, este
resultado não é de todo surpreendente, considerando-se que ter dinheiro não
apenas nos dá oportunidade de aquirir facilidades e luxos, mas nos propicia
mais status e respeito, mais tempo de lazer e de trabalho grati�cante, acesso a
cuidados de saúde e a nutrição superiores, e mais segurança, autonomia e
controle. Pessoas mais ricas levam vidas mais saudáveis, têm os meios
necessários para �car o tempo que quiserem com as pessoas das quais gostam,
vivem em bairros mais seguros e em condições menos congestionadas, e
desfrutam de proteções fundamentais quando confrontadas com adversidades
como doenças, de�ciência ou divórcio. Na verdade, é espantoso que a
correlação entre dinheiro e felicidade individual não seja mais forte do que é.
No entanto, caberiam duas ressalvas importantes. Em primeiro lugar, a
correlação entre felicidade e dinheiro só vale para um certo tipo de felicidade.
Quando se pede às pessoas que avaliem seu nível de felicidade ou de satisfação
geral, aquelas que têm mais dinheiro informam estar mais felizes e mais
satisfeitas. Mas, quando se pergunta o seu nível de felicidade espontânea na
vida cotidiana – por exemplo, “O quão alegre, estressado, irritado, afetuoso e
triste você estava ontem?” –, as pessoas com mais dinheiro raramente terão
experimentado sentimentos de felicidade.267 Este padrão de resultados sugere
que a riqueza nos deixa felizes quando pensamos em nossas vidas (“No geral,
eu sou feliz? Bem, estou levando uma vida boa”), embora o dinheiro tenha um
impacto muito menor sobre nossos sentimentos quando, de fato, vivemos as
nossas vidas (“Eu estou feliz hoje?”).268
A segunda ressalva, que pode ser ainda mais importante do que a primeira, é
que quando psicólogos, sociólogos e economistas discutem a correlação entre
dinheiro e felicidade, eles assumem, invariavelmente, que o dinheiro é o fator
causal. Mas, evidentemente, a relação causal poderia ser (e, sem dúvida, é) uma
via de mão dupla. Isto é, dinheiro compra felicidade, mas felicidade também
compra dinheiro. Na verdade, vários estudos têm sugerido que as pessoas mais
felizes são relativamente mais competentes ou mais talentosas quando se trata
de ganhar mais dinheiro.269
SEGUNDO, A CORRELAÇÃO ENTRE DINHEIRO E FELICIDADE 
É MUITO MAIS FORTE PARA AS PESSOAS MAIS POBRES DO QUE PARA AS MAIS
RICAS270
Isto é, quando nossas necessidades básicas de alimentação, segurança, saúde e
moradia adequadas não tiverem sido atendidas, um aumento no nível de renda
fará uma diferença muito maior para nós do que se estivéssemos em uma
situação relativamente confortável. Outra maneira de formular a questão é: o
dinheiro nos deixa mais felizes se ele nos impedir de �carmos pobres. A�nal,
aqueles que têm muito pouco dinheiro estão mais propensos a serem
despejados de suas casas, a passarem fome, a viverem em uma comunidade
perigosa, a terem um �lho que abandonará a escola, a não disporem de
recursos para obter atendimento médico ou a não conseguirem administrar o
sofrimento, o estresse e as exigências práticas de uma doença ou de�ciência.271
Até mesmo um aumento modesto no nível de renda pode aliviar ou prevenir
algumas dessas situações adversas.
Essas ideias ajudam a explicar a razão pela qual o dinheiro deixa as pessoas
mais pobres mais felizes. Mas por que o dinheiro teria um efeito relativamente
fraco sobre a felicidade das pessoas mais ricas? Uma resposta é que, conforme o
nível de renda ultrapassa um determinado patamar, seus efeitos positivos (por
exemplo, a capacidade de voar na primeira classe ou de contratar médicos
especialistas de alto nível) podem ser neutralizados por alguns efeitos negativos,
como restrições maiores de tempo (mais horas de trabalho e mais locomoções)
e mais estresse (pelo fato de ocupar cargos de poder, �car angustiado em
relação aos investimentos e problemas com �lhos que abusam dos limites).272
Considerando-se que a riqueza permite que as pessoas experimentem o melhor
que a vida tem a oferecer, talvez ela até reduza a capacidade de saborear os
pequenos prazeres da vida.273
TERCEIRO, A CORRELAÇÃO ENTRE DINHEIRO E FELICIDADE
É AINDA MAIS FORTE QUANDO SE COMPARAM AS NAÇÕES
(E NÃO OS INDIVÍDUOS)
Em outras palavras, aqueles que vivem em nações mais ricas são muito mais
felizes do que aqueles que vivem em nações mais pobres.274 Uma enorme
ressalva,no entanto, é que as nações mais ricas não têm apenas PIBs maiores
do que as mais pobres; elas também estão mais propensas a se caracterizar pela
democracia, liberdade e direitos iguais, e estão menos propensas a experimentar
instabilidade política ou corrupção e suborno desenfreados.
Consequentemente, não está su�cientemente claro o que realmente estabelece
a correlação entre riqueza e felicidade no nível das nações.
QUARTO, EM MUITOS PAÍSES, APESAR DO AUMENTO DAS
PERSPECTIVAS ECONÔMICAS DA POPULAÇÃO, A MÉDIA
RELATA QUE OS NÍVEIS DE FELICIDADE NÃO MUDARAM275
Esta última conclusão parece intrigante, à luz do fato de que as pessoas que
têm mais dinheiro são mais felizes. Por isso, é esta descoberta especí�ca que, de
modo geral, serve de sustentação para quaisquer declarações na mídia ou em
outros lugares, de que o dinheiro não compra felicidade. Com base no que
descrevi sobre as pesquisas anteriores, você, provavelmente, já pode especular
sobre a razão, por exemplo, de os norte-americanos não terem �cado mais
felizes quando os seus rendimentos triplicaram.276 Primeiro, rendimentos mais
elevados suscitam ambições mais elevadas, de tal forma que, agora,
consideraríamos necessário aquilo que, certa vez, já consideramos exorbitante
ou opcional – um período de férias, um carro ou saneamento básico. E, em
segundo lugar, rendimentos mais elevados forçam uma mudança em nossas
comparações sociais, de tal forma que, agora, nos sentiríamos mais pobres em
relação às pessoas de nossas vizinhanças e de nossos escritórios que tenham um
pouco mais do que nós.277
COMO SER FELIZ COM MENOS APLICANDO 
A ANTIGA VIRTUDE DA PARCIMÔNIA
O resultado �nal das centenas de estudos sobre o assunto é que ter dinheiro
pode nos fazer felizes, e não ter dinheiro pode, de�nitivamente, nos deixar
infelizes, mas o poder do dinheiro é muito menor do que o esperado. Para
exempli�car, embora as di�culdades �nanceiras possam exercer muitos efeitos
prejudiciais sobre nossas vidas, sua in�uência sobre nossa felicidade é
comparativamente pequena, porque, como vimos neste livro, muitos outros
fatores in�uenciam a nossa felicidade, de forma ainda mais potentes. Sabendo
disso, se tivermos pouco dinheiro, quer pelas circunstâncias ou por escolha,
seria possível viver a nossa vida de tal forma que nossa carência ou insegurança
�nanceira não nos impedisse de �orescer e prosperar? Ou ser feliz com menos é
apenas uma falácia piegas, propagada pelos ricos?
As evidências empíricas sugerem que ser feliz com menos não é uma falácia.
Já faz algum tempo que meu aluno de pós-graduação, Joe Chancellor, e eu
temos re�etido sobre esta questão – uma questão que se tornou ainda mais
urgente à luz dos problemas econômicos mundiais, traduzidos em desemprego
recorde, endividamento e falências que se abateram sobre incontáveis famílias
norte-americanas. O resultado do nosso trabalho conjunto é a proposta
seguinte, que pode ser resumida nestes termos: se as pessoas com orçamentos
apertados desejam extrair o máximo de felicidade gastando menos, devem
colocar em prática os ensinamentos da antiga virtude da parcimônia.
Embora alguns de nós associemos parcimônia com agir de forma inferior,
mesquinha ou avarenta, o termo, no fundo, tem origem na palavra prosperar.
Em sua essência, a parcimônia está relacionada ao uso ideal e mais e�caz de
recursos limitados. Historicamente, a parcimônia tem sido equiparada com a
diligência (isto é, quanto mais duramente batalhamos pelas recompensas,
menos provável é que as desperdicemos), a temperança (isto é, refreamos o
excesso praticando moderação e autocontenção) e a busca por atividades
satisfatórias e produtivas (isto é, evitamos o desperdício de nossos recursos em
atividades frívolas). A parcimônia tem uma história antiga e consagrada, tendo
sido promovida e festejada por escritores, �lósofos, empresários e pensadores
tão diversos quanto Sócrates, Rei Salomão, Confúcio, Benjamin Franklin,
Alexis de Tocqueville, Max Weber, e, mais recentemente, Warren Bu�ett.
Todos nós podemos aplicar os princípios da parcimônia, com o objetivo de
gastar menos enquanto desfrutamos mais, assim como de asssegurar que os
salários reduzidos não abalem completamente nossa felicidade. Além disso, o
comportamento parcimonioso, em si mesmo, pode fazer com que nos sintamos
bem (realçando nossa melhor natureza), transmitir uma sensação de controle
(realçando nossa capacidade de administrar nossas �nanças) e, até mesmo,
promover o sucesso. Estudos demonstram, por exemplo, que crianças com
capacidade de adiar a grati�cação (uma característica fundamental da
parcimônia) acabam recebendo melhores avaliações dos professores, maior
pontuação no vestibular, são admitidas nas melhores faculdades, têm menos
chances de se tornarem agressivas quando adolescentes e estão menos
propensas a ter problemas com drogas na vida adulta.278 Pesquisas realizadas
no meu laboratório e em outros laboratórios revelam uma série de estratégias e
práticas para viabilizar o comportamento parcimonioso.
NÃO SEJA O DEVEDOR QUE SE TORNA ESCRAVO DO CREDOR
Certa vez, Albert Einstein de�niu maliciosamente a relatividade com o
seguinte aforisma: “Coloque sua mão sobre um fogão quente por um minuto,
e parecerá uma hora. Sente-se ao lado de uma garota bonita por uma hora, e
parecerá um minuto”. Os psicólogos se referem a esta constatação como “o mal
é mais forte do que o bem”279 ou “a dor é mais intensa do que o prazer”.
Como mencionei no capítulo 2, duas décadas de pesquisas demonstraram que
sofremos um “impacto” emocional muito maior com as experiências negativas
(do qual, às vezes, nunca nos recuperamos) do que com as positivas (às quais
rapidamente nos acostumamos).280
Em termos práticos, esses resultados sugerem que, se uma aquisição
importante nos deixa ainda mais endividados, a emoção da compra será
fortemente superada pelo fardo do endividamento. Este exemplo não é
meramente hipotético, considerando-se que a dívida do consumidor não
segurado nos Estados Unidos atinge a média de quase US$ 8 mil para cada
homem, mulher e criança; e um em cada dois norte-americanos admite estar
preocupado com suas dívidas.281 Embora possa parecer óbvio para os
parcimoniosos, os devedores que têm pouca ou nenhuma reserva e que
continuam dependendo de crédito para gastar e consumir sofrerão
continuamente de ansiedade diante da efetivação dos pagamentos, da
diminuição dos rendimentos e da inadimplência nos empréstimos. A menos
que estejamos fazendo os empréstimos para pagar a conta de luz ou salvar a
vida de nosso �lho, os custos dos gastos excessivos e do endividamento
superam enormemente os benefícios obtidos até mesmo com a mais sedutora
das aquisições.
Outro exemplo envolve os enormes custos psíquicos daqueles cuja única
riqueza é a própria casa em que vivem. Morar em uma casa maior com um
quintal maior nos dá prazer, mas este prazer diminui com o passar do tempo,
até que mal notemos todos os metros quadrados ou os banheiros reformados. E
o mais importante é o fato de que nosso prazer com a casa é incapaz de se
igualar ao sofrimento e à preocupação de conseguir honrar as prestações
hipotecárias mensais. Sair de uma situação em que toda a riqueza está
depositada em sua casa para outra, em que a casa é mais uma de suas riquezas,
signi�ca menos estresse diário e mais felicidade espontânea.
O que isso tudo tem a ver com o modo pelo qual poderemos ser felizes com
menos? A felicidade não é, apenas, se sentir bem – é, também, não se sentir
mal. Considerando-se que reduzir as experiências negativas (como as
preocupações associadas a dívidas) traz um retorno de três a cinco vezes maior
sobre a felicidade do que criar experiências positivas (como a compra de uma
televisão nova),282 a medida mais sensata a ser tomada – e o primeiro passo
para adotar qualquer estratégia para apreciar a vida com menos – é diminuir ou
eliminar a dívida antes de comprometer o dinheiro com quaisquer serviços ou
mercadorias supér�uos.
GASTE SEU DINHEIRO EM EXPERIÊNCIAS, E NÃO EM BENS
Há cada vez mais evidências comprovandoque são as experiências – e não as
coisas – que nos fazem felizes.283 Muitas experiências, como caminhar com
amigos ou promover uma noite de jogos com a família, são praticamente
gratuitas. E muitas outras – viagens rodoviárias, jantares regados a álcool,
torneios esportivos, aulas de culinária, shows de rock – custam dinheiro. É
claro que, às vezes, uma tênue linha separa as experiências e as coisas. O
console de jogos Wii é tanto um objeto material quanto um canal de
experiências, aprendizado e aventura. Assim, parece que as pessoas mais felizes
são aquelas mais hábeis em extrair experiências de todas as coisas nas quais
investem seu dinheiro, seja uma guitarra, um bilhete de avião, um livro de
fotos, um vestido, uma câmera, aulas de decoração de bolos ou um tênis de
corrida.
Antes de mudar nossos hábitos de despesas e de consumo em uma direção
completamente nova, é importante considerar as razões e o conhecimento
cientí�co que sustentam esta noção. Por que as experiências são superiores às
coisas?
Primeiro, pelo fato de quase todos os bens permanecerem praticamente
estáveis depois de sua aquisição, nos adaptamos a eles muito mais rapidamente.
Após abrir a caixa e colocar o nosso novo item na prateleira ou no armário, não
levará muito tempo até que tenhamos a sensação de que ele sempre esteve lá, e
nem sequer o notaremos mais.
Segundo, as experiências são intrinsecamente mais sociais – mais propensas a
serem compartilhadas, antecipadas e relembradas com outras pessoas – do que
as coisas. Tirar férias ou jogar boliche com um amigo tem muito mais chances
de sedimentar nossa amizade do que falar ou mostrar nosso novo relógio de
pulso ou nosso novo dormitório.
Terceiro, à luz das pesquisas que ressaltam o risco das comparações sociais,
não é de surpreender que uma razão pela qual as experiências nos fazem mais
felizes do que os bens materiais é que �camos menos propensos a compará-las
com as experiências alheias. O motivo principal é que, simplesmente, são
necessários um esforço e uma imaginação muito maiores para equiparar a lua
de mel que passamos na praia com a lua de mel de nosso amigo que optou por
um roteiro turístico. Mesmo que conseguíssemos fazer esta comparação, seria
improvável que nosso prazer diminuísse ao tomarmos conhecimento de que
nosso vizinho está desfrutando de uma experiência formidável. Meu marido e
eu amamos o show de Paul McCartney, e não nos importamos nem um pouco
se as pessoas da oitava �la gostaram ainda mais do que nós. Mas poderemos
nos deleitar um pouquinho menos com nosso novo automóvel com porta
traseira todas as vezes que nosso vizinho passar por nós a bordo de seu
conversível.
Quarto, em relação às coisas, as experiências também estão menos inclinadas
a sofrer outro tipo de comparação – a comparação com o que poderiam ter
sido.284 Pelo fato de utensílios e bolsas comprados em lojas (o que não
acontece com aulas de balé ou excursões) serem tão fáceis de organizar lado a
lado, estamos muito mais propensos a nos arrependermos de ter comprado os
itens anteriores, mesmo que sejam totalmente satisfatórios, se encontrarmos
um preço ainda melhor. Por razões semelhantes, é mais difícil escolher coisas
materiais do que experiências, e uma escolha não tão perfeita de um item que
se pode segurar ou tocar tem mais chances de nos atormentar, muito tempo
depois de sua aquisição.
Quinto, enquanto os objetos materiais normalmente se desgastam e perdem
o interesse ao longo do tempo, até que �quemos ansiosos para substituí-los, as
experiências podem, de fato, tornarem-se ainda mais positivas e mais agradáveis
com o passar do tempo. Um �m de semana, um jantar ou uma conversa
maravilhosos podem tornar-se mais atraentes e mais belos em nossas memórias,
a ponto de nos esquecermos ou negligenciarmos quaisquer tensões (por
exemplo, se nos perdemos no caminho, se nos aborrecemos com o trânsito) ou
transtornos (derramar café quente na roupa, mau tempo) e só nos lembrarmos
dos aspectos positivos.285 Estamos mais propensos a revisitar mentalmente
nossas experiências passadas do que nossas compras,286 e, quanto mais nós as
revisitamos e as reproduzimos, mais elas �orescem, e mais ricas são as histórias
que nos propiciam.
Sexto, as experiências nos fazem mais felizes do que as coisas porque estamos
mais propensos a nos identi�carmos com elas e menos propensos a querer
negociá-las.287 A�nal, somos a soma de nossas experiências, e não a soma de
nossas posses. Quando possuímos algo, isso está fora de nós – na nossa
prateleira, em nossos ombros ou na sala de estar. Quando experimentamos
algo, isso está dentro de nós – dentro de nossas mentes e de nossas memórias.
Sétimo, as experiências – como escalar uma montanha, visitar um local
remoto ou aprender a mergulhar – podem envolver desa�os e aventuras, e
exercer um esforço para enfrentar um aprendizado ou uma viagem difíceis,
saboreando a sensação de uma conquista arduamente alcançada, nos deixa
felizes. A menos que nossa nova aquisição seja uma prancha de snowboard ou
uma asa delta, é improvável que ela nos traga o mesmo nível de estímulo e de
desa�o.
Finalmente, as coisas não nos fazem tão felizes quanto as experiências
porque um foco inadequado na aquisição de bens materiais implica muitos
custos. Conforme descreverei com mais detalhes no próximo capítulo, os
materialistas relatam menos satisfação e signi�cado em suas vidas, têm relações
sociais mais fúteis, são mais inseguros e menos queridos pelos outros do que as
pessoas que não são materialistas.288
Em resumo, as pesquisas a respeito da superioridade das experiências sobre
os bens materiais são extremamente persuasivas, e todos nós – mas
especialmente aqueles com orçamentos apertados – deveríamos colocar em
prática as suas recomendações. No entanto, é importante lembrar que as coisas
materiais também podem nos fazer felizes – desde que as transformemos em
experiências. Poderíamos convidar nossa família e nossos amigos a se
aventurarem em nosso novo carro; poderíamos dar uma festa em nosso novo
terraço; e poderíamos executar um programa de autoaperfeiçoamento em nosso
novo smartphone.
GASTE SEU DINHEIRO EM VÁRIOS PEQUENOS PRAZERES, 
E NÃO EM ALGUNS MAIORES
Uma estratégia de parcimônia de simples execução é sugerida pelas pesquisas
sobre os benefícios emocionais de forjar experiências positivas que sejam
frequentes, mais do que intensas (por exemplo, vários jantares modestos em
restaurantes, em vez de um único banquete),289 e isoladas, mais do que
combinadas (racionar nossos episódios favoritos de Sopranos a cada semana, em
vez de estourar o orçamento comprando vários de uma vez).290 Assim, embora
os publicitários possam nos dizer o contrário, devemos procurar gastar nosso
dinheiro em uma série de pequenos prazeres intermitentes (por exemplo,
buquês de �ores frescas ou telefonemas de longa distância para amigos
íntimos), em vez de uma grande e onerosa facilidade (digamos, um
extravagante sistema de som).
Esta prática acaba sendo não apenas grati�cante como relativamente barata.
A razão é que, quando desfrutamos de uma experiência positiva – seja um
�lme emocionante, meia hora em uma cadeira de massagem ou uma deliciosa
fatia de bolo de limão –, “o banquete está na primeira garfada”.291 Em outras
palavras, a cada minuto, hora ou semana que passa, nossa capacidade de
desfrutar a mesma experiência diminui. No entanto, nossa capacidade de
desfrutar e apreciar pode ser reabastecida após uma pequena pausa.292 Assim,
desmembrar o consumo em doses menores e distribuí-lo ao longo do tempo
pode multiplicar estas “primeiras garfadas” e aumentar nosso prazer.
Usufruiremos mais de uma barra de chocolate amargo se a cortarmos em
quadrados e comermos um pedaço por dia do que se a devorarmos de uma
única vez. Obteremos mais prazer se dividirmos nosso dinheiro para despesas
pessoais, ainda que escasso, em diversas porções, e as utilizarmos uma ou duas
vezes por semana. A título de exemplo, um pesquisador entrevistou pessoas de
todos os níveis de renda no Reino Unido e descobriu que aquelasa felicidade. Meu objetivo é evidenciar e desconstruir tais
parcialidades e falácias.
O desa�o, evidentemente, é como fazer isso – como mudar nossas reações
habituais às grandes mudanças ou revelações da vida, passando de uma
abordagem puramente intuitiva, enraizada na desinformação sobre a felicidade,
para uma reação mais racional. Depois de compreender os pressupostos que
regem as suas reações, você deverá decidir como agir, ou se deverá mudar a sua
perspectiva (e em que grau). Desta forma, substituirá a dependência dos mitos
da felicidade por uma mente preparada – uma mente pronta a tomar uma
decisão melhor, baseada na razão, e a pensar, em vez de piscar. Considere a
situação abordada no capítulo 1 – o seu casamento �cou entediante. Seu
primeiro pensamento pode ser: “Não desejo mais o meu marido como
costumava desejar, por isso o nosso casamento não deve estar funcionando, ou,
talvez, ele não seja mais a pessoa certa para mim”. Com base em evidências
teóricas e empíricas, desmascararei a falácia que sustenta o seu pensamento – a
noção de que o casamento é permanentemente satisfatório – e oferecerei
recomendações sobre a forma de abordar, remediar ou lidar com a sua situação.
Como, portanto, tomar uma decisão sobre os próximos passos a seguir em
circunstâncias como essas? Os psicólogos oferecem inúmeras sugestões práticas,
amparadas em evidências.12
Primeiro, faça um registro mental de suas intuições iniciais ou de suas
reações instintivas sobre o caminho a ser seguido – talvez você possa, até
mesmo, registrá-las por escrito – e, em seguida, arquive-as. Depois de passar
algum tempo pensando sistematicamente sobre a situação, você pode
reconsiderar a reação instintiva inicial à luz de novas informações ou ideias. Em
segundo lugar, busque a opinião de alguém que não esteja envolvido na
situação (um amigo imparcial ou um terapeuta), ou, simplesmente, faça um
esforço para adotar a perspectiva de um observador objetivo. O segredo é
libertar-se dos pequenos detalhes do seu problema particular (digamos, que
você tem constatado atualmente uma diminuição da paixão) e tentar
considerar a classe mais ampla de problemas à qual o seu problema pertence
(digamos, a escala da atração física em um relacionamento de longo prazo).
Terceiro, considere o oposto do que os seus instintos lhe dizem para fazer, e,
sistematicamente, repasse as consequências em sua mente. E, �nalmente,
quando o seu dilema envolver múltiplas decisões (em vez de apenas uma), pese
todas as suas opções simultaneamente, e não em separado. As pesquisas
revelam que tal decisão “conjunta” é mais bem-sucedida e menos propensa à
parcialidade do que a tomada de decisão “em separado”.
Embora estas quatro recomendações não sejam panaceias, elas têm o
potencial de nos orientar e nos ajudar a tomar a decisão quanto ao caminho a
seguir ante os desa�os e os momentos decisivos da vida. No entanto, devemos
estar vigilantes para que nossa análise cuidadosa e sistemática não se transforme
em ruminação ou em uma ideia �xa sobre as escolhas de nossas vidas; a
ruminação é um hábito perigoso, suscetível de desencadear um círculo vicioso
de grandes preocupações, tristezas, desesperanças e “paralisias da análise”. Se o
segundo e o terceiro pensamentos estiverem se mostrando recorrentes ou
andando em círculos, isso signi�ca que estamos ruminando, e não analisando.
Em suma, quando estamos diante de uma epifania ou de uma grande
mudança de vida, é natural querer agir rápida e instintivamente. Mas há
grande valor em esperar e pensar, sem apressar-se para chegar às conclusões.
Nosso primeiro pensamento não resolverá a questão. Embora não seja fácil
identi�car um curso ideal de ação, podemos começar por rejeitar nossos
primeiros pensamentos e permanecer atentos às várias respostas potenciais para
os momentos críticos da vida.
Eu não poderia aconselhar ninguém a seguir uma trajetória especí�ca. Cada
um deve escolher e modelar o seu próprio caminho. Dependendo de nossas
histórias pessoais, nossas redes de apoio social, nossas personalidades, objetivos
e recursos, alguns caminhos ou desvios podem ser mais ou menos adequados,
bené�cos e grati�cantes. Os pesquisadores demonstraram que, quando as
pessoas se comportam de formas que se encaixam às suas personalidades,
interesses e valores, elas se tornam mais satisfeitas, mais con�antes, mais bem-
sucedidas, mais engajadas no que estão fazendo e se sentem “bem” em relação a
isso.13 O objetivo de Os mitos da felicidade é, ao contrário, tomar por base as
mais recentes pesquisas cientí�cas para ampliar as perspectivas dos leitores
sobre os momentos críticos que estão enfrentando, desmantelar as falsas
crenças sobre a felicidade que regem as suas reações iniciais e apresentar as
ferramentas das quais eles podem se valer para dar os seus próprios veredictos e
desenvolver novas habilidades e hábitos mentais. Enriquecidos com a sabedoria
contraintuitiva e a distância edi�cante dos seus problemas, seus próximos
momentos críticos serão acolhidos por uma mente preparada.
Embora nossos momentos críticos possam, inicialmente, parecer
decepcionantes, confusos ou, até mesmo, trágicos, são oportunidades para
mudar nossas vidas ou, no mínimo, para ter uma visão mais clara da situação.
Com um novo entendimento, seremos mais capazes de usar os grandes desa�os
para fazer grandes progressos. A mensagem de Os mitos da felicidade é que, em
última análise, todos nós podemos identi�car os passos a adotar para seguir em
direção a uma vida plena e nos ajudarmos a atingir e a superar os potenciais de
nossa felicidade.
PARTE I
CONEXÕES
Os desa�os centrais nesta seção do livro – o sofrimento de ter ou não ter um
relacionamento íntimo – são particularmente angustiantes para muitos de nós.
Apenas a título de exemplo, uma descrição especialmente sugestiva que ouvi a
respeito do estresse provocado pelo divórcio é que ele se equivale ao estresse de
sofrer um acidente de carro todos os dias, durante seis meses seguidos. Talvez
chegue o momento em que nos perguntemos: “Devo continuar com o meu
parceiro, ou devo abandoná-lo?”, ou “Devo ser otimista em relação ao
casamento, ou perder as esperanças de encontrar uma alma gêmea?”. As
respostas a estas questões são complexas, mas, felizmente, uma grande
quantidade de estudos psicológicos esclarece, em primeiro lugar, por que
chegamos a tais momentos críticos, e, ainda, a natureza dos caminhos nos
quais esses momentos podem desembocar. Quando �camos profundamente
perturbados com nossa vida amorosa ou familiar, é fundamental que, antes de
agir, examinemos nossas expectativas de encontrar um parceiro vitalício e ter
�lhos, ambas culturalmente determinadas. Como a maioria de nós compartilha
e alimenta profundamente tais expectativas, acreditamos piamente que o
cumprimento das etapas relevantes para um relacionamento (encontrar a
pessoa certa ou ter �lhos) nos fará felizes para sempre, e de que o não
cumprimento de tais etapas (não encontrar um parceiro, ou descobrir que a
pessoa certa se transformou na pessoa errada) nos deixará para sempre infelizes.
Nesta seção, espero que sejamos levados a nos confrontar com essas
expectativas e suposições, e a levar em consideração as convincentes pesquisas
que mostram o quanto podemos estar errados. Estudos mostram, por exemplo,
que as pessoas se adaptam muito bem aos desa�os, como estar ou �car solteiro,
ou suportar as provações e tribulações de ser pai ou mãe. Por outro lado,
também somos muito rápidos em nos habituarmos a mudanças positivas
circunstanciais, como novos casamentos e novos empregos. Tanto o meu
laboratório quanto os laboratórios de outros psicólogos sociais e economistas
comportamentais têm investigado sistematicamente o fenômeno de como
consideramos nossas próprias vidas algo corriqueiro e, mais importante ainda,
como podemos evitar ou retardar tal acomodação quando nos descobrimos
entediados, por exemplo, com nossos casamentos e nossas vidas sexuais. Os
ensinamentos deste conjunto de trabalhos podem nos conduzir aque se
permitiam fazer despesas de baixo custo com frequência – piqueniques,
generosos copos de café e dvds prediletos – estavam mais satisfeitas com suas
vidas.293 Outros cientistas descobriram que atividades gratuitas ou de baixo
custo podem render pequenos impulsos cumulativos de felicidade a curto
prazo, que, gradativamente, produzirão um grande impacto sobre a felicidade a
longo prazo.294
RECICLE A FELICIDADE E ALUGUE-A
Outra série de estratégias que nos ajudará a extrair a maior satisfação possível
do menor dos salários envolve as práticas parcimoniosas de alugar em vez de
comprar, e de tirar o melhor proveito daquilo que já possuímos. Os seres
humanos procuram, instintivamente, variedade e novidade em seus
ambientes,295 e este impulso inato é, sem dúvida, uma das razões pelas quais
muitos de nós sentimos a necessidade de comprar algo novo a cada semana. No
entanto, a busca por variedade não precisa resultar em comportamento
perdulário e ambientalmente oneroso. Ao contrário, podemos reciclar a
felicidade sendo mais conscienciosos e apreciando as coisas materiais que já
possuímos. Como observou o poeta Allen Ginsberg: “Você terá dois tapetes se
estiver duas vezes mais consciente do tapete”.296
Também podemos reciclar a felicidade usando nossos bens materiais e
aquisições de novas maneiras, o que pode nos propiciar um �uxo de
experiências e emoções positivas, sem custo algum. Podemos, por exemplo,
transformar nossos bens em atividades, compartilhando nosso apartamento e
nosso carro com amigos ou usando nosso iPod para aprender a língua de sinais.
Podemos planejar a utilização de nosso jardim de forma deliberadamente
diferenciada, ou buscar novas oportunidades e amizades levando nossa bicicleta
ergométrica ou nosso computador para o lado de fora. Podemos tirar nosso
tapete de ioga do armário e iniciar um novo programa de exercícios físicos, ou
reler todos os clássicos em nossas prateleiras. Podemos emprestar nossa lavadora
e secadora a um amigo que esteja precisando.
Mesmo que a compra de uma experiência (por exemplo, uma viagem
familiar) ou de um bem (por exemplo, uma casa ou um carro) esteja perdida
no passado, ainda podemos extrair prazer ao apreciá-la e rememorá-la. Folhear
um álbum de fotos ou assistir a vídeos antigos (nós no Grand Canyon, eu
dirigindo minha moto) nos ajuda a reviver a experiência e os sentimentos
positivos que tivemos naquele momento.297 Conforme vamos trazendo os fatos
à memória, uma foto pode nos lembrar de um detalhe agradável ou engraçado
do qual havíamos esquecido, como o garçom bonito que �ertou conosco ou a
tempestade que nos encharcou. Ao prestar atenção redobrada a nosso prazer
momentâneo – digamos, falar sobre as férias de vários anos atrás ou vestir a
jaqueta jeans velha que adorávamos usar –, aumentamos ainda mais nosso
prazer. Podemos saboreá-lo ao fechar os olhos e deleitar-nos com uma
memória, perfume ou som; ao compartilhar a experiência com os outros; e ao
vibrar com o prazer, em vez de nos deixar obcecar por ele. Dessa forma,
revisitar mentalmente e desfrutar de experiências e coisas memoráveis que
adquirimos há muito tempo pode continuar a nos propiciar, até hoje, impulsos
de felicidade. Em vez de deixar que nossos bens e experiências pelos quais já
pagamos �quem se acumulando nas prateleiras, nos armários e na memória,
podemos revivê-los literalmente (por exemplo, retirando do armário nosso
desbotado jogo de conhecimentos gerais) ou metaforicamente (por exemplo,
rememorando as férias da primavera) no presente, e, com isso, estaremos, ao
mesmo tempo, poupando nosso dinheiro, reduzindo nossa pegada ecológica e
nos sentindo felizes.
Outra estratégia parcimoniosa de aumento da felicidade tem, infelizmente,
uma péssima reputação – o aluguel. Muitos de nós acreditamos que podemos
extrair signi�cativamente mais felicidade de um objeto que possuímos do que
de um objeto alugado, mas nossa experiência re�ete apenas um viés cognitivo
bem conhecido, que nos leva a gostar mais de alguma coisa (de qualquer coisa)
depois que a adquirimos.298 Entretanto, como na maioria dos casos de
raciocínio tendencioso, podemos superar esse viés com um pouco de esforço e
de informação. A diferença de custo entre comprar um livro e pegá-lo
emprestado em uma biblioteca, entre comprar um DVD e alugá-lo, ou entre
comprar uma cabana na montanha e alugá-la é, muitas vezes, imensa. No
entanto, não desfrutaremos necessariamente menos de um �lme, de um livro
ou de uma cabana alugados pelo fato de não possuírmos seus respectivos títulos
de propriedade. A bem da verdade, os itens alugados não são afetados pela
utilidade marginal decrescente que caracteriza os bens próprios, considerando-
se que obtemos um prazer cada vez menor destes últimos ao longo do tempo.
Além disso, as coisas alugadas nos permitem desfrutar de uma maior variedade
e, portanto, de maior prazer, porque podemos alugar algo diferente a cada vez,
ou viajar para cabanas na montanha em várias localidades, em vez de apenas
uma. Finalmente, os itens alugados não trazem consigo os custos, os
aborrecimentos e o estresse geralmente característicos dos bens adquiridos, tais
como avarias, perdas e reparos. Considere, por exemplo, dois grupos de
indivíduos bastante similares quanto a seus rendimentos, sua saúde e seus tipos
de moradia. A única diferença entre eles é que um grupo é formado por
proprietários de seus imóveis e o outro, por locatários. Os pesquisadores
descobriram – ao contrário das crenças populares sobre o “sonho americano” –
que os proprietários são menos felizes do que os inquilinos, sofrem mais por
possuir seus imóveis e passam mais tempo dedicando-se a tarefas domésticas e
menos tempo interagindo com seus amigos e vizinhos.299 Se você não
consegue comprar muitas das coisas que considera grati�cantes, divertidas, ou
que tornam a vida cotidiana mais fácil, alugue-as.
OS BENEFÍCIOS DE VIVER COM MENOS: 
COMO MENOS PODERIA SER MAIS
A nova e assustadora era econômica que assolou o mundo em 2008 gerou
muita inquietação pública quanto ao declínio de nosso estilo de vida atual, em
meio a um punhado de tons de esperança. Os pessimistas opinaram sobre o
desaparecimento da vida tal como a conhecemos. Por outro lado, os otimistas
previram que o impacto e o custo do iminente desastre �nanceiro e da
insegurança generalizada mudariam nossas atitudes e melhoriam nosso
comportamento como consumidores, trazendo, por �m, um maior signi�cado
às nossas vidas e uma maior valorização daquilo que já possuímos, além de
fomentar o tão necessário desprezo pela cultura materialista que permeia nossa
vida e prejudica o planeta. Em apoio a esta perspectiva, os cientistas
demonstraram que, para administrar os impactos das adversidades da vida,
precisamos expressar gratidão por nossa relativa sorte (em vez de desejar mais
sorte), cultivar um sentido de conexão com a família e os amigos, aprimorar
competências e conhecimentos e sair de nós mesmos, a �m de contribuir com
os outros.300
Trata-se, simplesmente, de um clichê infeliz, ou menos pode ser, realmente,
mais? Muitas pessoas sentem que não ganham o su�ciente para realmente
aproveitar a vida, e quando alguém lhes diz que suas di�culdades têm um lado
bom, elas se sentem ofendidas. Tenho a intenção de convencê-las do contrário,
embora meus argumentos se apliquem apenas àquelas pessoas cujas
circunstâncias ou contratempos �nanceiros não lhes deixaram tão
empobrecidas a ponto de não poderem mais atender às suas necessidades
básicas. As pesquisas sugerem que uma nova atitude em relação ao dinheiro, ao
tempo, às despesas e aos bens materiais pode estimular as pessoas a enfrentarem
a situação de uma maneira ainda não imaginada anteriormente, a contribuir de
forma mais positiva para a sociedade, a prosperar através da cooperação e da
interdependência e a viver de maneira mais autêntica e tranquila. Eis aqui
algumas maneiras especí�cas nas quais ter menos pode, realmente, melhorar
nossas vidas e desa�ar a veracidade do mito de que ninguém pode ser feliz sem
dinheiro.
REUNINDO-SE COMOS OUTROS
Ter menos signi�ca que estamos mais propensos a unir esforços, a mostrar
preocupação com os outros e a nos ajudar mutuamente. Todos nós já ouvimos
histórias sobre a Grande Depressão da década de 1930, quando as famílias se
reuniam ao redor da lareira, do rádio, dos jogos de tabuleiro, em caminhadas e
visitas a museus, e outras atividades de lazer gratuitas ou de baixo custo.
Evidentemente, trata-se de uma visão higienizada e idealizada das di�culdades
(como exercício hipotético, basta imaginar as “maravilhosas” experiências que
você terá se relacionando com seus pais quando voltar a morar com eles, como
alguns de nossos amigos foram obrigados a fazer no ano passado), mas o
quadro tem um fundo de verdade. Além disso, se o seu cargo tiver sido extinto
ou limitado, você pode optar por gastar mais tempo realizando serviços à
comunidade, e, se você for espiritualista ou religioso, poderá procurar sua
comunidade de fé. Todas essas consequências são positivas.
MUDANDO AS PERSPECTIVAS E AS PRIORIDADES
Perder nosso emprego pode ser a oportunidade ideal para encontrarmos algo de
que gostamos. A sensação de que perdemos tudo pode alimentar uma ambição
e uma motivação imensas, até porque não teremos outra escolha. Não perder o
emprego enquanto aqueles que nos rodeiam foram demitidos, pode fomentar
um sentimento de gratidão por ainda estarmos empregados (mesmo que
costumássemos reclamar incessantemente do emprego), bem como uma
motivação redobrada para mostrar o melhor que pudermos. Reconhecer que o
dinheiro não é o Santo Graal nos ajuda a mudar nossas prioridades para
focalizar no que realmente importa, em nossas famílias, nossa saúde, a paz
mundial ou a beleza da natureza. Quando a vida é dura, torna-se ainda mais
importante enumerar nossas dádivas e saborear as pequenas coisas da vida.
Quando a vida é dura, reconhecemos que somos mais fortes e mais capazes de
cuidar de nós mesmos e de nossos entes queridos, muito mais do que
poderíamos ter imaginado.
SENDO CRIATIVO
Quando temos muito dinheiro, podemos entrar em uma loja e comprar o
primeiro objeto que cobiçamos. Quando temos pouco dinheiro, somos
forçados a aprender a fazer escolhas difíceis – a reconsiderar o que realmente
vale a pena comprar e o que não vale. Também somos obrigados a ser criativos
em relação a como obter o que precisamos. Durante o auge da recessão nos
Estados Unidos, em 2008, as vendas de garagem dispararam; as pessoas
livravam-se de “coisas de que não precisavam” e vendiam-nas para quem
precisava. Outros deram início a inovadores sistemas de troca, a �m de atingir
o mesmo objetivo. Não é de admirar que as inovações e os empreendimentos
prosperem durante as crises econômicas.301 Começar com poucas coisas ou
com nada nos dá a liberdade de arriscar e reconstruir tudo de novo.
PRESERVANDO
Finalmente, quanto menos dinheiro e menos bens tivermos, menos
probabilidade haverá de que dani�quemos o ambiente. Compramos menos,
consumimos menos e dirigimos menos. Diminuímos nosso ritmo e gastamos
nosso tempo de forma a fazer uma utilização menos intensiva de recursos. Para
economizar, �camos mais inclinados a colocar um suéter do que a ligar o
aquecedor, ou a ir a pé em vez de dirigir. Também produzimos menos resíduos.
Estamos mais propensos a reutilizar coisas antigas – roupa de cama,
brinquedos, frascos –, em vez de jogá-las fora, e estamos mais propensos a não
desperdiçar os alimentos.
UMA RESSALVA
Em suma, as evidências empíricas e teóricas sugerem que viver com menos tem
alguns benefícios claros. No entanto, não pretendo subestimar ou menosprezar
as di�culdades e privações enfrentadas por pessoas que se veem desprovidas não
só de luxos, mas de garantias básicas. Quando minha família imigrou para os
Estados Unidos, eu era jovem, mas tenho lembranças indeléveis da angústia e
da impotência de viver de contracheque em contracheque, do medo do
próximo imprevisto (avaria do carro, doença) que alteraria por completo toda a
nossa vida, e do sofrimento de não poder ter as roupas ou os brinquedos que
meus colegas tinham. Um pouco como as pessoas que atingiram a maioridade
na década de 1930 e nunca perderam seus hábitos frugais, nunca esqueci o que
signi�ca ser pobre. A maioria das minhas outras lembranças indeléveis, no
entanto, envolve toda a minha família sentada ao redor da mesa de jantar,
todas as noites, comendo costeletas de peru e batatas fritas, falando por horas
sobre política, literatura e �lmes, e fantasiando sobre nosso futuro. Nem tudo
era sombrio, mas se eu soubesse o que sei hoje, minha família teria �cado mais
bem preparada para tirar o melhor proveito daquela situação.
A MENTE PREPARADA
Alguns chegam ao ponto em que será preciso admitir para si mesmos que, por
causa de um grande infortúnio, ou de uma sequência de pequenos
contratempos, ou da má sorte, poderão permanecer falidos por um
longuíssimo período. Outros têm apenas a si mesmos para culpar, talvez por
terem feito más escolhas sobre como gastar, consumir e esbanjar o dinheiro, ou
por não terem tido força de vontade, empenho ou motivação su�cientes. Para a
maioria das pessoas, a solução é, provavelmente, muito mais complicada do
que isso. Mas, independente da causa, se nossa intuição nos disser que só
poderemos ser felizes com muito mais dinheiro, é fundamental analisar os
dados que apresento neste capítulo e que sugerem o contrário. Colocar em
prática um ou mais dos quatro princípios parcimoniosos que descrevi – e fazê-
lo imediatamente, em vez de deixar para mais tarde – pode tanto evitar um
desastre econômico quanto ajudar a extrair a maior quantidade de felicidade
das pequenas coisas. Em vez de �car remoendo nossa infelicidade, podemos
nos concentrar nos meios pelos quais poderemos ser felizes com menos e em
gastar nosso dinheiro de modo correto.
CAPÍTULO 7
Eu serei feliz quando... 
for rico
No dia de nossa entrevista, Jack Barnes usava uma chamativa camisa xadrez
abóbora, uma gravata listrada de seda azul-marinho, um relógio Cartier e muito
produto de cabelo para um homem de cinquenta anos de idade. Sua pele é escura e
de textura grossa – fato que compreendi melhor assim que ele me descreveu o
condomínio em que vive no Havaí, de US$ 2,5 milhões. Jack se expressa em um
tom con�ante, e, até mesmo, arrogante, mas é um homem simpático e inteligente.
Estamos em um restaurante chique, e ele me diz que posso pedir qualquer coisa que
não esteja no menu. Peço batata frita e ele franze a testa. “Mas isso está cheio de
más calorias.”
Jack sonhava em ser médico desde os quatro anos de idade, �ngindo-se de doutor
com um jaleco médico que ganhara no Halloween. “Quando somos crianças,
geralmente queremos ser uma centena de coisas diferentes. Um espião, um vaqueiro,
um palhaço. Eu sempre quis ser médico.” Jack cursou a Brown University e se
formou com uma série de honras acadêmicas, vários troféus de atletismo e um
exame admissional de conhecimentos gerais quase perfeito. Ele dá um sorriso
pretensioso e confessa que só se candidatou às três melhores escolas de medicina, e
que passou em todas as três. “Eu tinha tudo organizado. Eu, simplesmente, já sabia
que era aquilo o que eu pretendia fazer. Aos quinze anos, sabia que a minha
especialidade seria cirurgia plástica. Sabia que queria fazer com que as pessoas se
sentissem bonitas. Há algo de muito poderoso nesta sensação de poder dizer: ‘Olhe,
esta é a sua posição atual, e num instante, posso levá-la até aqui’. É como brincar
de ser Deus – ter o potencial para, literalmente, recriar a vida humana. Sou eu que
decido a aparência das pessoas e como elas se sentem.”
Quando Jack estava com trinta anos, seu consultório particular já era bastante
próspero. Ele foi apresentado à sua futura esposa por um amigo, mas ela não se
mostrou interessada. “Eu disse que ela era bonita, e a convidei para sair comigo.
Fui bastante inoportuno. Depois desse nosso primeiro encontro, deixei mensagens
para ela todas as noites. Finalmente, ela ligou de volta, recusando os meus apelos.
Eu disse que ela era boba, porque nós iríamosnos casar, e, dois meses depois, pedi a
sua mão. Nós nos apaixonamos perdidamente.”
Jack e sua esposa apreciavam a vida de casados, passavam períodos viajando
juntos e comemoravam os sucessos pro�ssionais de Jack. Conforme seu consultório se
ampliava, Jack expandiu sua especialidade, com a implantação de atendimento
para um público selecionado, que incluía, especi�camente, as socialites de alto
poder aquisitivo de Nova York, Connecticut e Massachusetts. O dinheiro entrou, o
dinheiro saiu, e, no intervalo de quatro anos, Jack havia comprado duas casas de
férias, dois carros desportivos e um iate de cruzeiro. “Eu tinha tanto dinheiro que
nem sabia o que fazer com ele. Quero dizer, literalmente, minha esposa e eu
tínhamos tudo o que queríamos. Primeira classe em todos os lugares, vinho de safras
raras, anéis de diamante, clube de campo. Eu estava fazendo rios de dinheiro.”
Por um tempo, Jack apreciou o sucesso e a prosperidade pro�ssionais. Ele amava o
poder que o dinheiro lhe trazia. Mas logo percebeu que o signi�cado de seu trabalho
e de seu estilo de vida começava a esmorecer. “Eu tinha di�culdade em me sentir
motivado, e tinha di�culdade de sair da cama pelas manhãs. É disso que eu mais
me lembro. Lembro-me, literalmente, de sentir como se fosse um fardo. Eu
costumava ter muita vitalidade. Eu me levantava às cinco e meia da manhã, ia
para a academia e atendia meu primeiro paciente às oito horas. Eu operava até o
meio-dia, almoçava na minha mesa e, em seguida, voltava e trabalhava até as oito
da noite. Uma das características deste meu público seleto era que eu atendia
pacientes 24 horas por dia, sete dias por semana.” Jack decidiu, realmente, lutar
contra isso – parou de aceitar novos clientes e começou a mentir para sua esposa
sobre o número de pacientes que estava atendendo.
Neste ponto, percebendo que tinha tudo o que queria, mas era completamente
infeliz, ele começou a se consultar com um ilustre psiquiatra, três vezes por semana.
“Um dia, eu estava deitado lá, falando novamente sobre o sentimento de vazio, e o
Dr. G. disse: ‘Por que você não vai fazer outra coisa? Obviamente, o que você faz
não está lhe trazendo mais felicidade como costumava trazer. Você quer morrer
infeliz?’. Aquilo teve o efeito de uma pancada na minha cabeça. Eu não queria
morrer infeliz, mas, simplesmente, não estava no meu dicionário mudar meu foco,
mudar minha vida. Acho que me senti obrigado a �car onde estava, e apenas fazer
o melhor que eu podia”.
Quando perguntei a Jack sobre o momento especí�co em que ele percebeu que seu
dinheiro e seu sucesso não o faziam mais feliz, ele respondeu que foi aos poucos, mas
o momento decisivo foi um dia em que uma nova paciente, após várias consultas,
perguntou se poderia operar os seios no dia de Natal, pois era o único dia em que
ela estaria disponível. Ela assinou um cheque nominal a Jack como forma de
adiantamento, no valor de US$ 75 mil. “Lembro-me de ver o cheque e, depois, de
�car olhando �xamente para ele. Simplesmente, não era mais ali que eu queria
estar.”302
Em vez de perceber que perdemos tudo, e se percebêssemos, assim como
Jack, que, aparentemente, temos tudo – pelo menos, no papel – e, mesmo
assim, ainda não estamos felizes? De certa forma, o momento crítico que
abordo aqui é exatamente o contrário do anterior. Isto é, descrevo aqueles
momentos em que �nalmente atingimos nossos objetivos – especialmente no
que diz respeito a ganhar dinheiro – e a subsequente e, de modo geral,
inesperada desordem. Por quê? Porque nos agarramos à crença de que, assim
que alcançarmos a riqueza, o sucesso ou seja lá o que tivermos sonhado
alcançar, seremos �nalmente felizes, e quando essa felicidade se mostra fugaz ou
de curta duração, nos deparamos com emoções heterogêneas, decepção e, até
mesmo, depressão. Tais experiências são lastimáveis, porque são evitáveis. Neste
capítulo, desmisti�co esse processo, explicando que o �o condutor de
experiências como fazer sucesso e �car rico é a adaptação hedonista aos
acontecimentos muito positivos (e não às mudanças de vida mais típicas,
discutidas anteriormente). Compreender o papel que a adaptação desempenha
em nossas reações a esse momento crítico – até o estágio em que �nalmente
conseguimos o que queremos – não apenas pode ajudar a nos preparar para
esse momento, mas aumentar nossas chances de prosperar e avançar rumo a
uma direção positiva, em vez de fraquejar e se deixar abater pelo
descontentamento.
O DINHEIRO NÃO É TUDO AQUILO QUE SE SUPUNHA
Meu orientador de doutorado gostava de dizer que há muito poucas coisas na
vida que são tudo aquilo que se supunha. Essa dose de sabedoria é
particularmente aplicável à riqueza. Nossas fantasias sobre nosso primeiro
milhão ou a casa de praia dos sonhos quase nunca são tão emocionantes na
vida real quanto o são em nossa imaginação, e, mesmo quando o são, a
sensação de prazer não consegue ser mantida por muito tempo.303 Pior ainda,
nossa tendência a �carmos satisfeitos apenas por breves instantes – de obter
apenas “uma espuma de alegria fugidia”, nas palavras de Shakespeare,304 e nada
mais – tem a consequência perniciosa de abalar a felicidade decorrente de,
�nalmente, termos alcançado um parâmetro de prosperidade.
Por que isso acontece? A primeira parte da resposta é que nunca poderemos
experimentar algo pela primeira vez duas vezes. Esta é a verdade essencial sobre
chegar ao alto da montanha ou ao auge da carreira. Os momentos, semanas ou
anos de caminhada até o topo podem ser estressantes, mas são entusiasmantes.
Há um arrebatamento, um autocontrole, e, inclusive, uma ousadia quando nos
aproximamos da realização de um sonho. Diz-se que, quando um furacão está
prestes a eclodir, as pessoas experimentam um nível elevado de foco,
conectividade e envolvimento.305 É a mesma sensação de quando obtemos
sucesso ou estamos prestes a obtê-lo, e é uma sensação maravilhosa – por
algum tempo. Em seu livro Em busca da perfeição, Tal Ben-Shahar descreve o
sentimento de realização e de felicidade verdadeira que sentiu depois de se
tornar o mais jovem campeão de seu país no torneio nacional de squash. Esse
sentimento durou três horas.306
Muitos de nós já tivemos experiências semelhantes – quando a satisfação por
termos, en�m, �cado famosos ou ricos parece decrescer em proporção direta à
distância do ponto de partida de nossa trajetória até o sucesso. A parte
interessante são as variações que acontecem a seguir. Para Ben-Shahar, o
momento de triunfo foi quase imediatamente acompanhado da constatação de
que a sua vitória não era tão signi�cativa, e que o que ele realmente desejava
alcançar era o status de campeão mundial. Ele começou a treinar
imediatamente. Jack Barnes, o cirurgião plástico, seguiu o conselho de seu
psiquiatra e não tomou quaisquer decisões precipitadas. Ao contrário, partiu
para um retiro de meditação silenciosa por três semanas e passou seus dias
re�etindo, sem se comunicar com ninguém. Ele retornou com uma percepção
renovada de si mesmo e com a �rme decisão de dedicar parte de seus horários
no consultório a um trabalho gratuito e voluntário com famílias sem seguro de
saúde, a �m de reparar deformações congênitas e acidentais em crianças e
adultos. Hoje, na casa dos cinquenta anos, Jack já fundou quatro clínicas
móveis de cirurgia craniofacial na América do Sul e frequentemente viaja até lá
como médico voluntário, para realizar cirurgias de reparação de lábio leporino
e fenda de palato. Ele nunca mais parou.
Em contraste, um próspero e poderoso empreendedor que, certa vez, à saída
do aeroporto, me ofereceu uma carona de uma hora de duração em sua
limusine, relatou sua experiência de “se tornar um multimilionário com 29
anos de idade” e acabar envolvido em graves problemas com drogas e álcool,
“devido ao vazio que veio depois“. Ele �cou anos mergulhado em uma espiral
descendente, até que um empurrão de seus pais ajudou-o a voltar à vida. E
Anthony, um gestor de fundos de cobertura que entrevistei, me contou como,
na década seguinte à faculdade, sua capacidade de ganhar dinheiroultrapassou
em muito a de todos os seus familiares, amigos e ex-colegas. Em vez de sentir
êxtase, ele se viu consumido pela culpa com o próprio sucesso, alimentando
uma sensação inequívoca de que os outros invejavam ou menosprezavam o que
ele acreditava merecer. Finalmente, conheço uma atriz que atingiu o ápice de
sua carreira aos quarenta e poucos anos de idade, quando suas atuações lhe
rendiam salários que humilhavam muitos dos salários de seus pares. Mais uma
vez, em vez de �car feliz, ela reagiu com uma insegurança impressionante. Se a
magia e a “excepcionalidade” não perdurassem, a�rmou, ela preferiria se matar.
Alguns desses exemplos podem parecer extremos, mas re�etem o sentido de
ser “deteriorado por” ou “dependente de” dinheiro e sucesso, e, então, tomar
alguma medida – ou não – a esse respeito. Quando, �nalmente, nos tornamos
o chefe de nosso chefe, nos sentimos empolgados, e quando essa empolgação
não perdura, como geralmente acontece, podemos experimentar um vazio,
uma frustração de expectativas e uma decepção. A�nal, os seres humanos são
programados para o desejo e não para apreciar; para lutar por mais e não para
se contentar com o que têm.307 As pesquisas sugerem que após os
acontecimentos extremamente positivos, as experiências medianamente
positivas (como almoçar com um amigo) tornam-se neutras ou maçantes, e as
experiências medianamente negativas (como �car preso no trânsito) tornam-se
intensamente negativas.308 Outra razão pela qual as pessoas podem reagir
negativamente ao sucesso é que até mesmo as realizações e a prosperidade tão
desejadas podem desestabilizar e perturbar nossa vida (por exemplo, talvez seja
preciso nos transferirmos ou assumirmos responsabilidades novas e
desconhecidas), nossos papéis (por exemplo, mudar do setor criativo para o
administrativo) e nossa visão de nós mesmos. Por mais positivas que sejam, tais
mudanças são estressantes, e, consequentemente, estão associadas ao aumento
da incidência de transtornos de humor, doenças e, até mesmo, de
hospitalização.309
ACOSTUMANDO-SE COM DINHEIRO
Para muitos de nós, dinheiro e sucesso são uma coisa só. Na última pesquisa
com calouros universitários dos Estados Unidos, em que mais de 200 mil
estudantes de 279 faculdades e universidades foram questionados sobre seus
objetivos mais importantes na vida, 77% escolheram “ser muito bem-sucedido
�nanceiramente”.310 Estar em boa situação �nanceira pode trazer inúmeras
facilidades e vantagens – além de nos capacitar a comprar mais coisas, nos
ajudar a conhecer parceiros potenciais e proporcionar segurança e estabilidade
–, mas um fato inevitável é que nós nos acostumaremos com isso. Os
economistas descobriram, por exemplo, que dois terços dos benefícios de um
aumento de renda desaparecem depois de apenas um ano, em parte porque
nossas despesas e novas “necessidades” aumentam concomitantemente, e
também porque começamos a conviver com pessoas com poder aquisitivo mais
elevado.311 Além disso, conforme descrevi no capítulo anterior, embora ter
mais dinheiro aumente nossa satisfação com a vida, isso tem pouco ou nenhum
impacto sobre as emoções positivas e negativas cotidianas, e sobre as
estimulações e os aborrecimentos que vivenciamos.312
No começo, mais riqueza nos proporciona um padrão de vida melhor, e os
confortos e as extravagâncias extras propiciam prazer adicional. Então, nós nos
acostumamos – e talvez, até, nos “viciemos” – com o padrão mais elevado de
vida, até o ponto de não �carmos satisfeitos, a menos que aumentemos a
dosagem, adquirindo ainda mais coisas. No entanto, aqueles que não estão
atualizados sobre as últimas descobertas da psicologia e da economia não
conseguem antever este desfecho, e acabam assumindo que o aumento da
riqueza deveria trazer mais felicidade do que realmente traz.313 Além disso,
quando não obtemos o prazer esperado, presumimos que a culpa não está na
natureza humana, mas em nossa incapacidade de adquirir o objeto certo, o que
nos faz voltar ao shopping, ao corretor de imóveis ou à agência de automóveis.
Mais de dois séculos atrás, antecipando as pesquisas que comprovariam que
as pessoas se acostumam com o dinheiro e com as coisas materiais que ele traz
consigo, Adam Smith escreveu sobre como as normas da sociedade podem criar
novas “necessidades”, de tal forma que se torna uma vergonha renegá-las.314
Para usar um exemplo ainda não disponível na época de Smith, quando
viajamos pela primeira vez na classe executiva, e percebemos que nossos pares
com o mesmo nível de renda sempre fazem o mesmo, é impossível voltar a
andar de econômica.
Por falar em pessoas com o mesmo nível de renda, parece que o que nossos
pares estão ganhando determina nossa felicidade ainda mais do que o que nós
estamos ganhando, não importa o quão generosa seja nossa renda. Em outras
palavras, a pessoa média (embora, como vimos anteriormente, não a mais feliz)
se preocupa mais com a comparação social, com o status, com as listas de
classi�cações e com os chamados bens posicionais do que com o valor absoluto
de sua conta bancária ou reputação. Um famoso estudo de 1998 mostrou que
as pessoas prefeririam viver em um mundo no qual recebessem um salário
anual de US$ 50 mil (quando as outras estariam recebendo US$ 25 mil) do
que um salário anual de US$ 100 mil (quando as outras estariam recebendo
US$ 200 mil). Da mesma forma, pesquisadores do Reino Unido
demonstraram que as pessoas prefeririam doar parte de seu próprio dinheiro, se
isso signi�casse que as outras pessoas teriam menos.315 Em suma, são muitas as
razões pelas quais nos acostumamos a ter dinheiro, e as consequências de tal
panorama são inoportunas.
OS CUSTOS DO CONSUMO E DO MATERIALISMO
Quanto mais dinheiro temos, mais nos acostumamos com isso, e mais
queremos. Esta realidade tem duas consequências potencialmente prejudiciais,
uma menos favorável do que a outra. Primeiro, deixamos de desfrutar de nossa
riqueza da forma que deveríamos desfrutar. Segundo, nosso desejo de comprar
e de possuir em quantidades ainda maiores, a �m de atingir o mesmo nível de
prazer, pode nos colocar no caminho do materialismo e do consumismo
descontrolados, de tal forma que passemos a gastar cada vez mais dinheiro, mas
a felicidade daí decorrente será cada vez menor.
Será que todos nós reconheceríamos as tendências materialistas em nós
mesmos quando nos deparássemos com elas? Se você não tiver certeza, avalie
até que ponto concorda com cada uma das seguintes a�rmações (1 = discordo
totalmente, 2 = discordo, 3 = neutro, 4 = concordo, 5 = concordo
totalmente):316
_____ 1. Admiro as pessoas que possuem casas, carros e roupas caras.
_____ 2. Meus bens revelam muito sobre o quanto progredi na vida.
_____ 3. Gosto de ter coisas que impressionem as pessoas.
_____ 4. Tento levar uma vida simples, no que diz respeito aos bens
materiais.
_____ 5. Comprar coisas me dá muito prazer.
_____ 6. Gosto de ter muito luxo na minha vida.
_____ 7. Minha vida seria melhor se eu tivesse algumas coisas que não
tenho.
_____ 8. Eu �caria mais feliz se pudesse comprar mais coisas.
_____ 9. Às vezes, me incomoda bastante não poder comprar todas as coisas
que eu gostaria de comprar.
Para determinar a sua pontuação de materialismo, primeiro “inverta a
pontuação” da sua avaliação do quarto item (“levar uma vida simples”) – isto é,
se você se atribuiu uma nota 1, risque-a e mude-a para 5; se você se atribuiu
uma nota 2, mude para 4; altere a nota 4 para 2, e altere a nota 5 para 1.
Agora, some seus nove votos para chegar ao resultado. Os pesquisadores
descobriram que, em média, as pessoas marcam 26,2 pontos nesta escala. Isto
signi�ca que, se a maior parte de suas respostas tendeu para “neutro” e uma ou
duas foram “discordo”, suas tendências materialistas são de nível médio. Se a
sua soma chegou mais perto de 36 (ou seja, se você concordou com a maioria
dos itens), sua pontuação de materialismo encontra-se nos 20% superiores em
relação aos seus pares.317
Por que é importante identi�car as tendências materialistas? Inúmeras
pesquisas comprovaramque o materialismo exaure a felicidade, ameaça a
satisfação com nossos relacionamentos, prejudica o meio ambiente, nos deixa
menos amistosos, simpáticos e compreensivos, e nos torna menos suscetíveis a
ajudar os outros e a contribuir para nossas comunidades.318
Uma das primeiras considerações é o dano em nível global in�igido pelo
materialismo desenfreado, que inclui a criação de bolhas, surtos e falências
econômicas e a devastação do planeta, uma vez que os materialistas tendem a
usar mais os recursos mundiais e a se envolver em menos comportamentos
ambientalmente amigáveis.319 Segundo, em nível individual, as pessoas
materialistas são menos satisfeitas e agradecidas por suas vidas, têm menos
propósitos, se sentem menos competentes de modo geral, são mais antissociais
e estabelecem vínculos mais fracos com os outros. Na verdade, quando se trata
de relacionamentos, aqueles que têm objetivos materialistas não apenas
classi�cam suas interações sociais de forma mais negativa, como as pessoas em
geral também classi�cam suas relações com os materialistas como menos
satisfatórias.320
Nem todos os que são prósperos estão obcecados por fama, poder e riquezas;
nem todos estão infectados pelo chamado vírus a�uenza.321 Mas é um risco
estarmos cercados por facilidades e luxos, pois isso ameaça nossa felicidade.
Como sustentam há muito tempo os �lósofos, as personalidades religiosas e os
psicólogos humanistas, a busca por dinheiro e reputação afasta radicalmente
nossas energias e nosso entusiasmo dos vínculos sociais e das experiências de
crescimento mais profundas e signi�cativas, nos impedindo de atingir
integralmente nossos potenciais. Como gastamos mais tempo ganhando
dinheiro, os “custos” das oportunidades de ler poesia, brincar com nosso �lho
ou dar um passeio com um amigo tornam-se tão elevados que passamos a achar
“irracional” fazer tais coisas.322 Mais uma razão para se inteirar do que as
pesquisas têm a dizer sobre a forma de evitar os excessos do consumo e do
materialismo e de gastar dinheiro de uma maneira que nos traga felicidade.
COMO O DINHEIRO PODE TRAZER FELICIDADE
O sonho americano, enraizado na Declaração da Independência dos Estados
Unidos, mas expresso pela primeira vez em 1931, sempre incluiu o desejo de
prosperidade e abundância material.323 Com o tempo, no entanto, acredito
que o sonho mudou de formato, deixando de almejar simplesmente a riqueza –
e apenas isso –, para apreciar riqueza e felicidade. Como dizia um famoso
anúncio da Lexus, “Quem disse que o dinheiro não pode comprar a felicidade
não está gastando onde deve”.324 A ciência psicológica sugere seis princípios
sob os quais viver, caso queiramos desfrutar ao máximo de nosso dinheiro.
Quatro são descritos a seguir e outros dois (referentes a gastar dinheiro em
experiências e a resguardar tais experiências) no capítulo anterior.325
GASTE DINHEIRO EM ATIVIDADES QUE SATISFAÇAM SUAS
NECESSIDADES
Se o dinheiro não estiver nos fazendo felizes, talvez o estejamos gastando para
nos equiparar aos vizinhos, con�rmar nossa riqueza ou demonstrar aparência,
poder e status. O problema, então, não está no dinheiro, mas na forma como o
usamos. Talvez a forma mais direta e mais con�ável de maximizar a felicidade e
a satisfação que podemos extrair do dinheiro é através da busca por atividades
que satisfaçam nossas necessidades – por exemplo, aplicando nosso capital em
nosso próprio aprimoramento como pessoas, no amadurecimento, e no
fortalecimento dos vínculos interpessoais. Em outras palavras, as compras ou
despesas que produzem o maior benefício emocional são as que envolvem
objetivos que satisfaçam pelo menos uma das três necessidades humanas básicas
– (1) competência (ou seja, sentir-se capaz ou hábil), (2) conectividade (ou
seja, pertencer e se sentir conectado aos outros) e (3) autonomia (ou seja, ter a
sensação de domínio e de controle sobre a própria vida).326 Os pesquisadores
têm demonstrado que tais atividades trazem a felicidade e, igualmente
importante, não estimulam o desejo cada vez maior por mais e mais coisas, à
semelhança de um vício.327
Finalmente, gastar dinheiro em objetivos que satisfaçam as necessidades,
como dominar um esporte novo, festejar a conquista de um amigo ou levar o
sobrinho para fazer um safári, pode desencadear “espirais ascendentes” – isto é,
�uxos de bom humor, pensamentos otimistas e gestos amáveis que ganham
impulso, se propagam, se espalham e se reforçam mutuamente, conforme vão
surgindo.328 Eu compro cordas de bela sonoridade para o meu violino, o que
me deleita, faz minha �lha sorrir e me dar um abraço, o que, por sua vez, me
provoca um sentimento de competência e gratidão, o que me estimula a
preparar a bebida de café favorita do meu marido, reforçando o nosso
casamento. Às vezes, é incrível como gastar dinheiro em um único item – neste
caso, um que sustenta uma grati�cante atividade de lazer – pode precipitar
tantas repercussões felizes.
Quais seriam os tipos de atividades pelos quais deveríamos pagar para
satisfazer nossas necessidades de competência, conectividade e autonomia? Isso
depende de cada pessoa. Para algumas, talvez seja a aquisição do software que
melhorará o seu francês, de uma passagem aérea para visitar um velho amigo
ou de um presente surpresa para um professor. Para outras, talvez seja algo
completamente diferente, dependendo de suas circunstâncias, preferências e
habilidades. Além disso, muitos tipos de atividades não apenas trazem prazer
naquele momento especí�co, como também satisfazem várias necessidades
simultaneamente. Viajar para um lugar distante a �m de ajudar as vítimas de
um desastre natural (ou para reparar fendas de palato), por exemplo, é uma
contribuição para uma comunidade, uma oportunidade de aprender princípios
básicos de enfermagem ou técnicas de engenharia e uma chance de forjar novos
vínculos permanentes. Na verdade, gastar dinheiro em atividades que
satisfaçam as necessidades pode trazer mais “retorno sobre o investimento” do
que qualquer outra estratégia.
GASTE DINHEIRO COM OS OUTROS, E NÃO CONSIGO MESMO
Ter dinheiro signi�ca ser capaz de contribuir substancialmente para nossas
comunidades e, até mesmo, de mudar o mundo. Seja através da �lantropia
(por exemplo, fazendo doações para o distrito escolar local ou ajudando a
imunizar nações inteiras) ou do compartilhamento de nossa riqueza com a
família e os amigos, nosso dinheiro pode in�uenciar profundamente nossa
felicidade e a dos outros. Talvez isso possa surpreender algumas pessoas, mas
quanto mais rico o indivíduo, menor é a porcentagem de sua renda que se
destina a ações bene�centes, sendo que famílias norte-americanas com renda
superior a US$ 300 mil por ano doam meros 4% dos seus rendimentos, e os
bilionários doam ainda menos.329
Em uma série de estudos inovadores, a professora Elizabeth Dunn e seus
colaboradores da Universidade de British Columbia se determinaram a veri�car
a noção de que o dinheiro pode comprar a felicidade, mas apenas se for gasto
pró-socialmente – ou seja, quando investimos nos outros, e não em nós
mesmos.330 Primeiro, eles pesquisaram uma amostra nacionalmente
representativa de mais de seiscentos residentes nos Estados Unidos, a respeito
de seus hábitos de consumo, e descobriram que quanto mais eles gastavam seu
dinheiro em presentes para os outros e em doações bene�centes, mais felizes
�cavam. Claramente, o montante gasto com presentes para si mesmos, contas e
despesas não se relacionava com a sua própria felicidade. Em seguida, os
pesquisadores �zeram perguntas idênticas a funcionários, antes e depois de
terem recebido, inesperadamente, uma considerável quantia – especi�camente,
um bônus empresarial, com valor médio de US$ 5 mil. Surpreendentemente, o
grau com que o bônus impulsionou a felicidade dos funcionários não
dependeu nem de seu tamanho, nem se ele foi gasto na compra de algo para si
mesmos, em suas contas ou despesas, ou em pagamentos de hipoteca ou
aluguel. O que realmente importou para a felicidade foi o percentual do bônus
aplicado em instituiçõesbene�centes ou em compras para os outros.
Ambos os estudos são correlacionais, o que signi�ca que não se pode
concluir peremptoriamente que foram os gastos pró-sociais que propiciaram
maior felicidade do que o inverso. Para con�rmar a orientação do nexo causal,
os mesmos pesquisadores �zeram um experimento em que abordaram
aleatoriamente pessoas que estavam andando no campus da Universidade de
British Columbia, entregaram um envelope contendo US$ 5,00 ou US$ 20,00
e pediram à metade dos participantes para gastar o dinheiro em uma despesa,
uma conta ou um presente para si mesmos, solicitando à outra metade, porém,
que investisse o dinheiro em uma doação ou em um presente para alguém. As
instruções e os envelopes foram entregues pela manhã, e as despesas tinham de
ser executadas até as cinco horas da tarde. Quando os participantes foram
contatados à noite, aqueles que haviam gasto o dinheiro com outras pessoas
(fosse US$ 5,00 ou US$ 20,00) estavam signi�cativamente mais felizes do que
aqueles que haviam usado o dinheiro consigo mesmos. Na verdade, o simples
fato de pensar em gastar dinheiro com os outros já deixa as pessoas mais felizes
do que pensar em gastá-lo consigo mesmas, e este efeito tem sido comprovado
não apenas entre os norte-americanos, mas também entre os africanos da costa
oriental.331
A descoberta de que investir nossa riqueza em outras pessoas nos deixa felizes
parece su�cientemente óbvia, prescindindo de explicações.332 Quando
oferecemos algo aos outros, nos sentimos não apenas mais positivos sobre nós
mesmos (isto é, somos pessoas altruístas e compassivas), mas também sobre os
destinatários (eles são merecedores de nossa bondade e respeito). Nós nos
sentimos menos angustiados com a pobreza e o sofrimento no mundo e em
nossas vizinhanças, e passamos a apreciar mais nossa própria sorte.
Conseguimos nos desconectar de nossos pequenos problemas e ruminações.
Compartilhar com os outros – naturalmente, quando isso não é feito de forma
anônima – também estimula interações sociais positivas, gera novas amizades e
relacionamentos, e fortalece os antigos. Devido a todas estas razões, como os
experimentos de meu próprio laboratório demonstraram, promover a
generosidade e a bondade é um dos mais poderosos meios para reforçar e
sustentar o bem-estar.333
Até mesmo aqueles com poucos recursos são capazes de contribuir com uma
pequena parcela de seus rendimentos e oferecê-la aos outros, mas aqueles que
têm recursos em abundância, como Jack Barnes, são verdadeiramente
abençoados por poderem usar o seu dinheiro para mudar vidas. Nosso dinheiro
pode �nanciar hospitais ou escolas, prover alimentos para aqueles que passam
fome, oferecer cuidados de saúde para os enfermos e ensinar os analfabetos. Em
menor escala, levar um colega para almoçar, uma criança ao circo ou um
namorado ao jogo do Lakers pode trazer ainda mais alegria para quem
presenteia do que para o receptor.
GASTE DINHEIRO PARA SE DEDICAR A VOCÊ
Vivemos uma época em que se costuma dizer que o tempo é um recurso mais
importante do que o dinheiro. Isto não foi sempre assim, é claro, e ainda não é
uma realidade para muitas pessoas e culturas. Mas, se você tiver sorte, terá
dinheiro su�ciente para proporcionar a si mesmo bastante tempo de lazer. A
ironia é que, nos Estados Unidos, quanto mais ricas as pessoas, maior o
número de horas que dedicam ao trabalho (este padrão parece ser invertido na
Europa).334
Se gastarmos nosso dinheiro para ter mais horas “livres” por dia – reduzindo,
por exemplo, nossa jornada de trabalho (porque já produzimos o su�ciente) ou
pagando outras pessoas para executar tarefas que demandam tempo (por
exemplo, consertar o encanamento, �car na �la da agência de correios,
preencher documentos maçantes, ligar para companhias aéreas) –, podemos
passar nosso tempo desfrutando daquelas coisas da vida que, segundo sugerem
as evidências empíricas e teóricas, nos fazem felizes. Essencialmente, essas
atividades incluem os tipos de buscas que satisfazem as necessidades,
mencionados anteriormente – por exemplo, se conectar com amigos; cultivar
relacionamentos íntimos; socializar-se em festas; consumir arte, música e
literatura; aprender novos idiomas e habilidades; aprimorar talentos e
apresentar-se como voluntário no hospital, igreja ou abrigo de animais de
nosso bairro. Signi�cativamente, estas são precisamente as atividades que
pessoas em risco de morte, como alpinistas apanhados por uma nevasca no
monte Everest,335 gostariam de ter praticado por mais tempo em suas vidas
cotidianas.
É aí que está o problema. A principal questão é a forma como utilizamos o
tempo extra que adquirimos. Se, em vez de fazer algo signi�cativo, interessante,
frutífero ou que promova o crescimento, desperdiçamos nossas horas assistindo
despreocupadamente a programas de televisão, �cando obcecados com nossa
aparência ou nossas facilidades, ou nos mantendo à deriva, pulando a esmo de
um empreendimento para outro, então, certamente, nossas riquezas não nos
trarão a felicidade.
GASTE DINHEIRO AGORA, MAS ESPERE PARA DESFRUTAR
Uma fonte de prazer frequentemente ignorada quando se compra algo novo –
seja um pacote de férias ou um telescópio – é a expectativa da espera.
Infelizmente, muitos de nós equiparamos a expectativa com apreensão e a
espera com tédio ou impaciência. Gostaria de tentar convencê-los do contrário.
Considere o seguinte exercício hipotético, que tomei emprestado de um de
meus estudos favoritos. Você acabou de descobrir que terá a oportunidade de
beijar sua estrela de cinema favorita – digamos, um ator atraente e genial, ou a
atriz por quem você tem uma enorme queda (isso é hipotético, portanto
assuma que você está solteiro e disponível). Criteriosamente, o beijo será
realizado dentro de três horas ou de três dias. O que você prefere? Se você for
como a maioria das pessoas, optará por esperar três dias.336 Aparentemente, o
prazer da expectativa é quase tão valorizado quanto a experiência que está
sendo aguardada.
Embora os pesquisadores ainda tenham de realizar este estudo, no qual os
índices de felicidade das pessoas sejam mensurados antes, durante e depois de
beijar a sua celebridade favorita, eles conseguiram empreender investigações
similares com outros tipos de experiências positivas. Um mês antes de
embarcar em uma turnê guiada de doze dias para várias cidades europeias, por
exemplo, os ansiosos viajantes a�rmavam esperar desfrutar muito mais de sua
viagem do que efetivamente desfrutaram naqueles doze dias. Resultados
idênticos foram encontrados quando se investigaram as expectativas de
estudantes três dias antes do feriado de Ação de Graças, e de habitantes do
meio-oeste três semanas antes de uma viagem de bicicleta por toda a
Califórnia.337 De fato, pesquisadores que conduziram um estudo com mil
turistas holandeses concluíram que a maior parcela de felicidade extraída das
férias é, de longe, decorrente do período de expectativa, sugerindo que não
apenas devemos prolongar esse período, como procurar tirar várias férias de
curta duração, em vez de férias extensas.338
O período de tempo entre o dia em que compramos algo (uma futura
viagem, um extravagante jantar italiano ou um champanhe caro) e o dia em
que, de fato, o desfrutamos parece ter qualidades especiais, dando-nos a
oportunidade de compartilhar nossas expectativas e planos com os amigos,
saborear o objeto ou experiência futuros (por exemplo, fantasiar sobre pedalar
nos campos da Toscana), nos programar e nos preparar para isso (por exemplo,
um dia de jejum antes de uma refeição cinco estrelas). No meu quadragésimo
aniversário, ganhei uma viagem surpresa do meu marido. Ele me disse
vagamente o que colocar na bagagem, dirigiu até o aeroporto e reteve o meu
cartão de embarque, para que eu não conseguisse adivinhar o destino. Mesmo
dentro do avião, onde �nalmente �quei sabendo que estávamos indo para a
área da Baía de São Francisco, eu não poderia imaginar todas as surpresas que a
viagem prometia (e que, admiravelmente, cumpriria). Meus quarenta anos
terminaramsendo, de longe, o melhor aniversário que já tive, e �zemos uma
refeição tão impressionante que nos comprometemos a batizar o nosso
(improvável) futuro �lho com o nome do chef.339 Mas a viagem surpresa
sofreu com uma inesperada limitação – eu não consegui antecipá-la e saboreá-
la com antecedência.
A recomendação óbvia de todas estas pesquisas é que devemos pagar por
nosso objeto desejado dias ou semanas antes de tê-lo em mãos ou de
experienciá-lo. Segundo esta lógica, sempre teremos algo maravilhoso a nos
esperar no futuro. É claro que, desde o advento do crédito rápido e fácil,
muitos indivíduos fazem exatamente o inverso, seguindo respeitosamente os
princípios da economia – em vez de pagar agora e desfrutar mais tarde,
desfruta-se a compra agora e paga-se depois. Esta abordagem oposta favorece as
compras por impulso e, pelas minhas contas, estimula pelo menos quatro dos
sete pecados capitais (gula, avareza, preguiça e luxúria).340 Mesmo que
possamos nos dar ao luxo de fazer compras por impulso tanto quanto
desejarmos, tais compras com “grati�cação instantânea” não são as que nos
deixam satisfeitos de forma duradoura.341 Em vez de fazer isso, adie as férias,
armazene o Borgonha e agende a entrega de seu utensílio para o próximo mês.
Você será mais feliz assim.
NÃO DEIXE QUE O SUCESSO AMPLIFIQUE OS SEUS FRACASSSOS
Em seu livro de memórias, Goldie Hawn, atriz vencedora do Oscar, relata que,
no início, acreditava que fazer sucesso em Hollywood a faria feliz – mas isso
não aconteceu, não em um primeiro momento.
Acho que foi necessário me tornar bem-sucedida para entender (...) que o
sucesso só ressalta quem você é. (...) As pessoas que são desagradáveis
tornam-se mais desagradáveis. As pessoas que são felizes tornam-se mais
felizes. As pessoas que são mesquinhas acumulam dinheiro e vivem o resto
de suas vidas com medo de perdê-lo. As pessoas que são generosas usam
seus dons para ajudar as pessoas e tentam fazer do mundo um lugar
melhor.342
Todos nós temos amigos ou parceiros que realçam ou ampli�cam nossas
personalidades, preferências e hábitos. Ficamos mais liberais quando estamos
com eles, ou nos tornamos mais machistas, mais intelectuais ou mais
extrovertidos, mais maliciosos ou mais rudes. Se chegar ao auge do sucesso
ajuda a ressaltar nossas maiores qualidades e nossos piores defeitos, então a
hora de se preparar para esse momento é agora. Identi�que a fraqueza que você
tema ser enfatizada e desenvolva um programa de autoaperfeiçoamento (com
base nos conselhos de sua avó, em um vídeo de autoajuda ou, simplesmente,
no bom senso), com o intuito de dominá-la. Eis aqui alguns exemplos.
Você tem a tendência de ser ríspido com as pessoas que emprega ou
supervisiona – com seu auxiliar de escritório, talvez, ou com seu jardineiro ou
sua babá? Em caso a�rmativo, alcançar o sucesso poderá levá-lo a agredir
aqueles que ocupam posições hierárquicas inferiores. Ao longo das próximas
quatro semanas, quando estiver insatisfeito com o trabalho de alguém e lhe vier
a vontade de ser brusco ou inclemente, determine-se a imaginar que aquela
pessoa é o seu terapeuta, um clérigo ou um chefe, e trate-a adequadamente.
Outro exemplo desse fenômeno é que, talvez, você tenha uma fraqueza por
compras por impulso na Internet – pela aquisição de utensílios, brinquedos
para seus �lhos e outras coisas das quais você, em verdade, não precisa. Se for o
caso, é provável que esta característica seja exacerbada com o aumento da
riqueza. A partir de agora, determine-se a esperar 48 horas sempre que estiver
ávido por fazer compras, e reavalie esse desejo mais tarde. Ou melhor, no início
de cada mês, faça uma lista dos itens de que (1) você realmente precisa e que
(2) você realmente deseja, e imponha-se um determinado limite de gastos,
estipulando que a segunda lista não poderá ser tocada até que a primeira se
esgote.
Por outro lado, você costuma se esquecer de se mostrar agradecido, e teme
que o sucesso possa tornar ainda mais difícil a demonstração de gratidão?
Felizmente, existem vários exercícios para estimular a prática da gratidão,
empiricamente testados. Determine-se a escrever uma carta para si mesmo a
cada semana, contemplando um aspecto diferente de sua sorte.
A MENTE PREPARADA
Quando conquistamos – pelo menos, no papel – grande parte daquilo que
sempre quisemos conquistar, a vida pode se tornar maçante e, até mesmo,
vazia. Resta muito pouco a desejar. Muitos indivíduos prósperos não entendem
por que não são verdadeiramente felizes e, assim, podem ser tentados a
concluir que não é possível adquirir a felicidade duradoura com sucesso,
dinheiro ou bens materiais. Como deve ter �cado óbvio a partir da mensagem
principal deste capítulo, acredito que este mito da felicidade está equivocado.
Não seja um escravo dos exercícios hedonistas. As práticas que descrevo aqui
ajudarão a evitar seu sofrimento diante do eventual declínio da sorte. E, se você
for particularmente tenaz ou particularmente sortudo, seus esforços renderão
consideráveis recompensas hedonistas. O segredo para adquirir a felicidade não
está em nosso grau de sucesso, mas no que fazemos com ele; não está no
elevado nível de renda que possuímos, mas em como alocamos estes recursos.
Parte III
OLHANDO PARA TRÁS
Chegar ao auge da idade adulta, da meia-idade e da velhice signi�ca passar por
uma série de momentos críticos decisivos, que envolvem evocar nosso passado,
atravessar o presente e administrar adversidades das quais nenhuma pessoa
estará livre, por mais bem-aventurada que seja. Este é um momento da vida em
que nosso potencial não realizado pode �car ainda mais evidente; em que
podemos nos perguntar se, simplesmente, desperdiçamos alguns de nossos
anos; em que ansiamos ser jovens de novo; em que colocamos na balança
nossos arrependimentos; e em que nos confrontamos com tudo aquilo que
poderíamos ter feito. Além disso, estas passagens signi�cativas da vida, ainda
que esperadas, provavelmente instigarão novos momentos críticos, caso
acreditemos que não conseguiremos mais ser felizes depois de receber um
diagnóstico desfavorável, depois de perceber que o tempo para realizar muitos
dos nossos sonhos se esgotou, ou quando �carmos “velhos e cinzas”. Este é o
momento de reconsiderar estas crenças alicerçadas pelo medo e descobrir
estratégias mais saudáveis para responder às passagens da vida e suas revelações.
A
CAPÍTULO 8
Não poderei ser feliz se... 
o resultado do exame for positivo
lgumas re�exões signi�cam uma súbita percepção ou uma epifania.
Outras envolvem acontecimentos que fogem ao nosso controle, e que nos
derrubam em vez de nos estimular. Receber um terrível diagnóstico ou
notícias ruins sobre um problema de saúde representa um acontecimento desse
tipo. Em seu livro de memórias Resilience [Resiliência], a falecida Elizabeth
Edwards descreve o momento em que descobriu que seu câncer de mama havia
reincidido – quando já não podia continuar acreditando que morreria de alguma
outra causa. Ela lembrava...
(...) o que eu estava vestindo, o clima, as palavras que o médico usou, onde
John e Cate [o marido e a �lha] estavam sentados. Desde aquele primeiro e
pequenino quarto de hospital, (...) onde ouvimos pela primeira vez a
palavra “câncer”, dita em voz alta, até aquele quarto no subsolo, com uma
cama e uma pia, onde John e eu �camos horas esperando os resultados da
cintilogra�a óssea e da tomogra�a computadorizada, até o último quarto,
(...) onde �camos sabendo que o câncer não estava mais controlado e que
havia se espalhado para novos lugares, os silenciosos momentos de mudança
de vida vão adquirindo uma dimensão impressionante. (...) O câncer estava
de volta. Bem, suponho que os médicos prefeririam dizer que ele nunca
havia desparecido de fato. Naquele momento, quando tive a certeza de que
conviveria com aquele câncer todos os dias, até o dia em que ele �nalmente
levasse embora a minha vida, todas as razões para viver e todas as razões
para morrer, a maneira como eu gostaria de viver, tudo isso passou em
minha mente, (...)até eu escolher um parceiro dentre tantos. Viver. Morrer.
Lutar. Me aconchegar. Procurar um abraço. Dar um abraço. Chorar.
Chorar. Chorar.343
Quando, relutantemente, levamos em consideração essas mudanças de
circunstâncias que se abatem sobre nós – ou quando nossos piores temores se
concretizam –, não conseguimos nos imaginar superando o estágio do choro e
do desespero. Não conseguimos nos imaginar sentindo a felicidade novamente.
Neste capítulo, espero convencê-lo de que suas reações e preocupações a respeito
desse cenário mais pessimista são determinadas por um dos mitos da felicidade.
Diante de exames com resultados positivos, há muito o que fazer para aumentar
as chances de que o período de convivência com a doença não seja todo ele
sofrido e despropositado – na verdade, este pode ser um momento de
crescimento e de apreensão de signi�cado –, e há centenas de estudos que
fundamentam essa possibilidade.
VOCÊ VÊ AQUILO QUE CONCORDA EM VER
Quando recebemos um diagnóstico fatídico, somos compelidos a nos concentrar
em uma determinada informação ou problema e a relembrar detalhes ou
sintomas especí�cos, inclusive quando não queremos fazê-lo. No entanto,
mesmo nesta situação, quando as coisas ruins desabam sobre nós, veri�ca-se que
temos muito mais domínio sobre nossas realidades do que acreditamos. Edwards
entendeu que a sua doença acabaria por tirar-lhe a vida. A hora em que isso
aconteceria não estava sob seu controle, mas o que estava sob seu controle era o
que a doença a privava de fazer, aqui e agora. Ela escreveu:
Parte da resistência à doença diz respeito, simplesmente, a não deixar que o
medo do amanhã controle a qualidade do dia de hoje. (...) Preservar a
energia diante do medo pode parecer uma incapacidade de aceitação, mas o
medo não muda o prognóstico. Ele só muda a forma como eu me sentiria
entre hoje e o momento em que o inevitável acontecer.344
A apreciação desta ideia – de que temos o poder de decidir o que a nossa
experiência é e o que não é, de que temos o poder de resolver o que a nossa vida
foi no passado e como será no futuro – tem o potencial para transformar nossas
vidas.345 Tenha em mente que, em todos os minutos do seu dia, você está
escolhendo prestar atenção em algumas coisas e optando por ignorar,
negligenciar, reprimir ou abandonar a maioria das outras. Aquilo que você
escolhe focalizar torna-se parte de sua vida e o resto é desprezado. Você pode ter
uma doença crônica, por exemplo, e passar a maior parte dos seus dias
ruminando sobre como ela arruinou a sua vida, ou pode passar os seus dias se
concentrando em sua rotina de exercícios, ou conhecendo melhor suas
sobrinhas, ou se conectando com seu lado espiritual. Podemos mudar nossas
vidas alterando, simplesmente, nossas atitudes mentais.346
Esta forma de abordar a doença está traduzida em uma das minhas frases
prediletas, retirada do livro Principles of Psychology [Princípios de psicologia],
publicado em 1890. “A minha experiência é aquilo em que eu decido prestar
atenção”, escreveu o �lósofo William James. “Apenas aqueles itens que eu noto
formam minha mente”.347 Esta ideia – que é realmente extraordinária quando
re�etimos sobre ela – sugere que a nossa experiência de vida é aquela que
escolhemos focalizar. Se não estamos vendo, ouvindo ou sentindo algo, é como se
isso sequer existisse – pelo menos, não para nós. Por que será que, algumas vezes,
nossas perspectivas de saúde parecem sombrias e, em outros momentos, repletas
de esperança? Por que, às vezes, o tempo voa e, em outras, �ca parado? Porque
grande parte da forma como experimentamos o mundo é determinada por
aquilo em que nos concentramos. Dentre a in�nidade de estímulos existentes
em nossos ambientes – nossos pensamentos, memórias e expectativas atuais;
rostos, necessidades e conversas de pessoas que fazem parte de nossas vidas; todas
as paisagens e sons que nos rodeiam, e todos os objetos que estão ao nosso
alcance, naturais e criados pelo homem –, nós, �nalmente, escolhemos (ou nos
sentimos compelidos a escolher) alguns, ignorando todos os outros. Na
realidade, este processo de ajuste de foco é adaptativo, sendo responsável por
nossa sobrevivência. Os seres humanos não conseguiriam prestar atenção a tudo
que está disponível aos seus sentidos; se o �zessem, �cariam sobrecarregados,
saturados, e se tornariam totalmente disfuncionais (por exemplo, a
esquizofrenia, que leva à completa debilitação quando não tratada, caracteriza-
se, em parte, pela incapacidade do cérebro de �ltrar as informações irrelevantes;
os esquizofrênicos são bombardeados por estímulos demais, dos quais têm muita
di�culdade em extrair um sentido).348 Na verdade, o próprio termo “prestar
atenção” implica um custo – um interesse hedonista, talvez –, o de que devemos
nos privar de algo. Quando prestamos atenção a uma coisa, necessariamente não
podemos prestar atenção a outras. O custo reside tanto na energia dispendida
quanto nos objetos que mereceriam a nossa atenção, mas aos quais temos,
necessariamente, de renunciar.
A maioria de nós conhece pelo menos uma pessoa que tende a sair do ar de
vez em quando, e quando isso acontece, temos a nítida impressão de que ela está
se refugiando em seu pequeno mundo particular. A metáfora “pequeno mundo
particular” é, de fato, mais precisa do que imaginamos. Tente se lembrar da
última vez que interagiu com um grupo de pessoas – digamos, no almoço com
seus colegas ou conversando com outros pais, enquanto esperava para pegar seus
�lhos. Você se surpreenderia ao descobrir que os vários integrantes do seu grupo
estavam concentrados em coisas completamente diferentes? Um deles talvez
estivesse tão consternado diante de notícias recentes e desoladoras que só
conseguia pensar nisso. Outro talvez tenha �cado desconcertado, porque a
pessoa em quem estava interessado acabara de entrar no recinto. Um terceiro
pode ter tido di�culdade em focalizar qualquer outra coisa, a não ser a dor
lancinante em seu ombro. E outra pessoa talvez tenha sido assaltada por
pensamentos intrusivos sobre a reunião que teria no dia seguinte. Em suma, não
seria errado dizer que, embora os vários indivíduos do grupo estivessem,
basicamente, na mesma situação, naquele momento cada um deles estava
vivendo em um mundo social subjetivo, isolado dos demais.
Isso torna bastante espinhosa a questão do que é “a realidade”. A sua realidade
é diferente da minha, e a diferença provém daquilo que cada um de nós escolhe
focalizar no tempo do qual dispomos. As memórias que moldam a história da
sua vida – e da minha – estão sujeitas às mesmas limitações; eu posso escolher
(talvez, inconscientemente) me lembrar de determinados fatos de muitos anos
atrás (ou, até mesmo, de ontem), e você pode escolher se lembrar de algo muito
diferente. Como resultado, algumas vezes dois indivíduos compartilham um
conjunto de experiências (por exemplo, terem crescido juntos, ou tomado conta
de uma criança doente juntos), e, mesmo assim, ao olhar para trás e para este
passado comum, terem lembranças e percepções muito divergentes, como se
nunca houvessem compartilhado o mesmo conjunto de experiências.
Um dos meus estudos favoritos fornece suporte empírico para essa ideia de
“realidades diferentes”.349 Ambos os membros de um casal foram convidados a
enumerar as atividades e acontecimentos de suas vidas em determinada semana.
Por exemplo, na semana passada, você e o seu cônjuge brigaram? Viram televisão
juntos? Tiveram relações sexuais? Participaram de algum evento esportivo?
Enfrentaram algum problema com os �lhos? A descoberta surpreendente do
estudo foi que maridos e esposas não conseguiram chegar a nenhum acordo
entre si. De fato, se um estranho, em vez de seu marido, tivesse preenchido o
questionário e, simplesmente, adivinhado os acontecimentos que ocorreram em
sua vida familiar na semana passada, as respostas dele teriam combinado com as
suas na mesma proporção que as de seu marido. Em suma, estes resultados
sugerem que o seu cônjuge está vivenciando um mundo totalmente diferente do
seu.
As razõesque explicam parte desses nossos “mundos” únicos estão
relacionadas com os impactos provocados pelos desígnios do destino; os
pesquisadores, porém, �zeram várias descobertas sobre como podemos seguir
ajustando, consciente e deliberadamente, tais mundos. Talvez não haja nenhuma
outra situação em que esses ensinamentos sejam tão importantes quanto diante
de uma crise de saúde. Neste capítulo, apresento algumas maneiras saudáveis de
reagir quando os resultados dos exames forem positivos, ou melhor, hábitos que
podem ser desenvolvidos muito tempo antes de tais resultados surgirem.
FOCO É IMPORTANTE
Em uma palavra, a ciência psicológica é bastante persuasiva quanto à noção de
que controlamos aquilo que vemos, focalizamos ou ignoramos. Mas como
teremos sucesso na tarefa quase sempre assustadora de decidir perceber o mundo
de determinada maneira, especialmente quando, muitas vezes, os
acontecimentos daquele mundo – más notícias, diagnósticos angustiantes,
transtornos e agressões diárias – interferem em nossa atenção de modo tão
incisivo?350 Responderei começando com um exemplo reconhecidamente
extremo, que tomei emprestado do eminente economista e escritor Robert
Frank:
Um sobrevivente do Holocausto me disse, certa vez, que sua passagem pelos
campos ocorreu em dois espaços psicológicos distintos. Em um deles, ele
estava absolutamente consciente do indizível horror de sua situação. Mas,
no outro, a vida parecia estranhamente normal. Neste segundo espaço,
todos os dias estavam repletos de desa�os, e os dias em que ele lidava
relativamente bem com esses desa�os se pareciam muito com os dias felizes
do passado. Para sobreviver, explicou ele, foi fundamental passar o maior
tempo possível no segundo espaço, e o menor tempo possível no
primeiro.351
O modo como este indivíduo conseguiu fazer o que fez envolveu, nas palavras
de William James, “tomar posse pela mente” – ou atenção focada. Todos nós
somos capazes de tal proeza, embora muito esforço e comprometimento se
revelem necessários. Um motivo pelo qual pode ser desgastante resistir às
deprimentes ruminações pessimistas em torno de nossa doença (ou focalizar os
pontos positivos) é que tal esforço pode esgotar nossa energia vital e nossos
recursos mentais. Assim, alguns pesquisadores argumentam que devemos dar,
regularmente, um descanso à nossa atenção.352 Podemos fazer isso dormindo
(embora só possamos dormir umas tantas horas e nem tanto quanto
gostaríamos) ou con�ando mais em nossos comportamentos e pensamentos
automáticos ou habituais, ainda que isso também possa ser arriscado, caso
tenhamos muitos hábitos ruins.
A paz da natureza. Uma sugestão interessante sobre como podemos
“descansar” nossa atenção quando nos sentirmos mentalmente sobrecarregados –
e reforçar, assim, nossa capacidade de manter o foco em coisas que nos fazem
felizes (ou pelo menos, menos infelizes) – é passar mais tempo em contato com a
natureza ou próximo a ela. Os pesquisadores descobriram que, quando
experimentamos ambientes naturais – sentados sob uma árvore de carvalho,
observando um pôr do sol ou, até mesmo, folheando fotos da natureza –, nossa
atenção se rende aos nossos sentidos (sentir o cheiro do oceano, identi�car as
cores de um arco-íris), o que exige pouco ou nenhum esforço mental e propicia
a re�exão.353 Por outro lado, quando experimentamos ambientes antinaturais –
sentados em um banco de metal, observando um avião ou mandando mensagens
de texto em nossos telefones –, nossa atenção é arrebatada de forma dramática
pela força (uma sirene de polícia, um outdoor da Toyota), obrigando-nos a
reunir esforços mentais para direcionar nossa atenção para outro lugar – por
exemplo, tentar ler, apesar das buzinas dos carros, ou ignorar as imagens nos
anúncios. Não é surpreendente, então, que ambientes antinaturais (tipicamente
urbanos), com todas as suas poderosas e onipresentes distrações, não sejam
muito calmos ou relaxantes.
Assim, enquanto os ambientes urbanos ou arti�ciais implicam o esgotamento
das mentes, a maioria das pessoas considera os ambientes naturais restauradores;
a natureza aumenta a felicidade e alivia o estresse.354 Mas a natureza também é
restauradora no que diz respeito ao nosso poder de atenção.355 Passar algum
tempo remando em um lago, fazer um piquenique sob a copa de árvores de
bétula, capinar um jardim ou deitar-se para observar as nuvens reconstituirá
nossos recursos mentais para enfrentar os problemas de nossas vidas. Uma série
de estudos demonstrou, por exemplo, que as pessoas que passaram quinze
minutos passeando em um ambiente natural não apenas sentiram mais prazer,
mas também foram capazes de resolver mais facilmente um problema menor –
ou uma “ponta solta” – em suas vidas, em comparação com pessoas que
passearam em um ambiente urbano ou que assistiram a vídeos de paisagens da
natureza.356
A paz da meditação. Outra maneira de desenvolver a capacidade de
redirecionar nossa atenção – digamos, dos pensamentos negativos intrusivos
sobre nossa saúde para pensamentos agradáveis sobre uma iminente viagem – é
treinando nossas mentes na prática das estratégias de meditação. Há muitos
estilos diferentes de meditação. Eles podem estar enraizados em diversas
tradições culturais e se apoiarem em técnicas diferentes, mas, em sua essência, a
maioria das técnicas tem muito em comum. A meditação envolve relaxar nossos
corpos, exercitar nossa respiração e ter consciência do aqui e agora. De modo
geral, é praticada em um lugar especial, reservado para tal propósito, e longe das
preocupações cotidianas. Um de seus objetivos centrais é conseguir uma
tranquilidade ou silêncio interiores, livres dos pensamentos aparentemente
automáticos que se insinuam constantemente em nossas mentes.
Apesar da diversidade de técnicas de meditação praticadas em todo o mundo e
ao longo da história, três métodos sobressaem. O primeiro, usado na meditação
hindu, envolve a repetição de uma palavra ou frase (mantra aka ou incantação).
A segunda técnica (na meditação budista) envolve focalizar nossa respiração,
que, não por acaso, está sempre conosco, ou atividades repetitivas, como varrer o
chão ou dobrar tecidos (na meditação Zen). Finalmente, uma técnica de
meditação bastante usada, e um tanto difícil de descrever, requer que deixemos
nossos pensamentos transcorrerem livremente em nossas mentes, sem fazer
qualquer interferência. Isto é, nós simplesmente observamos nossos pensamentos
de forma passiva e os deixamos �uir, sem criticá-los nem tentar entendê-los ou
afastá-los. Em cada uma destas técnicas, quando fraquejamos (por exemplo,
quando deixamos que um pensamento intrusivo nos incomode, ou permitimos
que nossa atenção se desvie de nossa respiração), somos ensinados a monitorar e
a reconhecer a falha, e a recuperar o foco. Assim, quanto mais praticarmos a
meditação, mais conseguiremos perceber quando nossa mente estiver divagando,
mais conseguiremos nos livrar de um objeto indesejado (por exemplo, o
pensamento “Eu não consigo dar conta disso”) e mais conseguiremos
redirecionar nossa atenção para um objeto desejado (o pensamento “Eu tenho
forças”).
Por que as pessoas meditam? Muitas fazem isso pelo desejo de encontrar um
refúgio dos aborrecimentos, tensões e perturbações da vida cotidiana, de
alcançar uma sensação de paz e tranquilidade, e de recuperar a energia e a
concentração. Chegar a esse estágio é muito difícil, exigindo grandes esforços,
prática, disciplina, foco, destreza e, até mesmo, luta interior. No entanto, os
benefícios são enormes. Em experimentos nos quais as pessoas foram
incentivadas a praticar a meditação (versus uma atividade neutra), descobriu-se
que a meditação intensi�cava a empatia (conforme demonstrado pelo
“despertar” dos circuitos cerebrais ligados à empatia, em exames de ressonância
magnética do cérebro durante estados meditativos), promovia a emergência de
emoções positivas, aliviava o estresse e os sintomas de saúde, fortalecia a função
imunológica e aumentava, até mesmo, a pontuação nos testes de inteligência.357
Mais interessantes ainda foramos resultados do efeito salutar da meditação sobre
a atenção.358 Como seria de se esperar, quando dedicamos tempo, esforço e
persistência à prática da meditação, nossa capacidade de nos concentrar,
direcionar e redirecionar a atenção melhora signi�cativamente.
Em suma, o poder da atenção. Aquilo que focamos, aquilo em que prestamos
atenção, aquilo que vemos seletivamente em nossos mundos é decisivo. Se
optarmos por prestar atenção no fato de que ainda somos capazes de subir
escadas, e se decidirmos ignorar o familiar que sempre faz com que nos sintamos
culpados, estaremos, na verdade, diminuindo, solitária e poderosamente, a
in�uência do ambiente – dos impactos do mundo – em nosso bem-estar.
Quando estivermos enfrentando uma doença ou qualquer perspectiva sombria,
aquilo em que escolhermos prestar atenção governará, em grande parte, a
qualidade de nossa vida.
O EFEITO MATEUS
• A enorme descarga de glicose ao comer um denso chocolate amargo
• Uma gargalhada gutural
• Um gole de um ótimo vinho seco
• Um dia de descanso mais do que merecido
• A sensação de júbilo com o elogio de um supervisor
• Um momento de interação com uma criança
• Um choro de desabafo
• Um sentimento de singularidade
• Um instante de admiração em um museu
Estes são os grandes e pequenos momentos, prazeres e realizações e
grati�cações conquistadas a muito custo, que iluminam a sua vida. São temas
que nem parecem caber em um capítulo sobre os resultados positivos de exames,
mas você verá que cabem. Conforme descrevi anteriormente, um número cada
vez maior de pesquisas, realizadas por Barbara Fredrickson e outros cientistas,
vêm demonstrando que a emergência de emoções positivas e de prazer não
apenas parece boa, ela é boa – boa para você, seus amigos, suas famílias,
comunidades e, até mesmo, para a sociedade em geral.359 Em outras palavras, as
emoções positivas têm consequências reais e duradouras para suas faculdades
intelectuais, sua competência social, seus recursos psicológicos e, inclusive, suas
habilidades físicas. Além disso, as experiências emocionais positivas geram as
chamadas espirais ascendentes. O prazer gera prazer, o que melhora o seu
sistema imunológico; torna você mais amigável e mais acessível; faz com que
você seja mais produtivo, mais criativo e mais persistente na consecução de seus
objetivos; obriga-o a atribuir mais signi�cado à sua vida e reforça sua capacidade
de lidar com con�itos, tensões e contratempos.360 Portanto, as emoções positivas
engendram o sucesso, e o sucesso traz ainda mais sucesso. Os sociólogos
batizaram esse fenômeno de efeito Mateus,361 com base na parábola encontrada
no Evangelho de Mateus: “Pois, a quem tem será dado ainda mais, será dado em
abundância”.362 Felizmente, quanto mais rico você for em emoções positivas,
mais rico se tornará em todos os domínios da vida – em seu trabalho, em seus
relacionamentos, em seu lazer e em sua saúde.
Nas minhas aulas, pesquisas e entrevistas com cidadãos comuns, �quei
impressionada ao saber que quase todos eles, surpreendentemente, não têm a
menor consciência de quais experiências os deixam felizes (ou curiosos,
entusiastas, serenos, carinhosos, absortos ou orgulhosos) e quais não os deixam.
Por esta razão, comecei a ensinar as pessoas a manter um diário de “experiências
do cotidiano”, a �m de registrar suas emoções em determinados momentos ao
longo do dia (digamos, às 9 horas, às 14 horas e às 19 horas, todos os dias,
durante uma semana) e informar a que acontecimentos, situações, pessoas ou
atividades aquelas emoções correspondiam. Assim, por exemplo, às 9 horas de
terça-feira, até que ponto você estava se sentindo con�ante, feliz, tenso, calmo
ou comprometido? Onde você estava? Em casa, em seu carro, em um café? Você
estava sozinho ou interagindo com alguém (e, em caso a�rmativo, com quem)?
O que você estava fazendo exatamente? Esta é uma maneira simples e e�caz de
determinar quais são as experiências diárias que provocam emoções positivas. Já
que você sabe que sempre se divertirá com Gary, �cará envolvido e focado ao
ouvir o noticiário internacional, será afetuoso com o seu gato, e se sentirá
radiante comendo sushi no parque, você deveria tentar se bene�ciar destas coisas
com mais frequência e apreciá-las mais ao executá-las.
Seriam tais experiências positivas muito insigni�cantes para realmente
impactar nossa felicidade e nos ajudar a lidar com as di�culdades reais?
Considerando-se o que sabemos sobre os benefícios das emoções positivas,
deveríamos nos esforçar para experimentar surtos elevados e intensos de emoção,
em vez de buscar os impulsos frequentes e usuais de prazer? No capítulo 6,
recomendei que investíssemos nosso dinheiro em vários pequenos prazeres, em
vez de apenas alguns prazeres maiores. Isto porque os resultados das pesquisas
privilegiam o que é usual e não o que é intenso. A conclusão a que se chega é de
que o segredo para a felicidade e a saúde (e para todos seus auspiciosos
subprodutos) não é a intensidade da felicidade que sentimos, mas a frequência
com que nos sentimos positivos ou felizes.363 Por exemplo, em um estudo que
acompanhou pessoas com idades entre dezoito e 94 anos ao longo de treze anos,
aquelas com momentos positivos mais frequentes (e não mais intensos) viveram
por mais tempo.364 De fato, comportamentos aparentemente triviais podem
oferecer estímulos regulares ao humor, cumulativos ao longo do tempo.
Conforme escreveram os pesquisadores do MIT, de Harvard e da Duke: “Não se
pode ganhar na loteria todos os dias, mas é possível fazer exercícios ou participar
de cerimônias religiosas regularmente, e esses comportamentos repetidos podem
ser su�cientes para aumentar o bem-estar ao longo do tempo”.365 Os cientistas
testaram a hipótese pesquisando em uma academia de ginástica, em duas turmas
de ioga e em 37 locais de culto de doze religiões diferentes. Conforme se
esperava, eles descobriram que praticar exercícios vários dias por semana e
frequentar cerimônias religiosas semanalmente proporcionava um �uxo
garantido (ainda que pequeno) de estímulos à felicidade das pessoas. Além disso,
quanto maior a frequência com que as pessoas participavam destas atividades,
mais felizes elas se sentiam.
As evidências cientí�cas oferecem três lições de sabedoria – primeiro, os
pequenos surtos de alegria, tranquilidade ou prazer não são nem um pouco
triviais; segundo, é a frequência, e não a intensidade, o que importa; e, terceiro,
a maioria das pessoas parece não saber disso. Se você vier a compreender quais
indivíduos, situações, lugares, coisas ou, até mesmo, horas do dia fazem você se
sentir feliz, e passar, então, a se esforçar para aumentar a regularidade desses
momentos, você obterá uma ferramenta hedonista que lhe será bastante útil em
tempos de crise, quando o médico trouxer más notícias ou em outras situações
semelhantes.
HÁ ALGUM PROBLEMA EM SER FELIZ EM MEIO AO SOFRIMENTO?
Tenho plena consciência de que falar em buscar prazer diante de uma crise de
saúde faz com que algumas pessoas estremeçam. De fato, a ideia de que é
admissível e até desejável ser feliz em meio ao sofrimento – seja o seu próprio ou
o de outros – parece de mau gosto. Você não pode – e não deveria – se sentir
verdadeiramente feliz quando um amigo íntimo está morrendo de câncer ou
quando você sabe que, em breve, perderá sua capacidade de ouvir, enxergar ou
dirigir, ou quando reconhece, com muita clareza, que o mundo está repleto de
pobreza, guerra, opressão e maldade. Você não pode ser feliz quando crianças
estão sofrendo, quando as vidas de muitas pessoas se desfraldam em silencioso
desespero, quando sonhos são desfeitos e problemas sociais são onipresentes.
Minha resposta a esta questão um tanto egoísta se divide em três partes.
Primeiro, reconheça o nível de injustiça do sofrimento que existe no mundo e
reaja sendo grato por sua própria sorte. Em segundo lugar, saiba que adiar a
própria felicidade até que todos os problemas dos amigos e do mundo sejam
resolvidos não será proveitoso para ninguém. Evidentemente, precisamosalgumas
percepções e decisões inesperadas.
Oferecerei uma série de ideias de como você pode se tornar mais feliz e
realizado combatendo esta acomodação insidiosa e, em última instância,
determinando até que ponto deve persistir na reivindicação de sua antiga
felicidade, na melhoria do status quo ou, ao contrário, dar um passo em direção
a uma mudança radical. Embora eu não possa lhe dizer o que fazer, posso
instrumentalizá-lo com as mais recentes descobertas, lançando luz sobre os
prováveis caminhos que você encontrará, ao mesmo tempo em que apresento
as ferramentas que podem ser usadas para desenvolver uma resposta apropriada
– ou, em vez disso, uma resposta que seja melhor para você. Felizmente, a
abundância de novas pesquisas sobre os relacionamentos íntimos pode expor as
falácias que sustentam suas reações a um casamento infeliz, ao divórcio, a ter
�lhos ou à vida de solteiro, e a sua nova compreensão abrirá um leque de
trajetórias possíveis e disponíveis. Todo mundo vai-se reconhecer, em algum
momento, nas conclusões e nos impactos desta nova ciência. Quando você
parar de avaliar a sua situação em termos simplistas (“Eu preciso manter a
relação” ou “Eu preciso romper”), as suas opções sobre quais medidas tomar
aumentarão consideravelmente.
CAPÍTULO 1
Eu serei feliz quando...
me casar com a pessoa certa
Se você estiver casado ou envolvido em um relacionamento sério há algum
tempo, pode estar vivenciando algo que esteja relutante em compartilhar até
mesmo com os seus familiares e amigos mais próximos – o tédio. Embora isso
possa parecer um problema insigni�cante ou autocomplacente, esta situação
pode ser de�agrada com pequenas dúvidas e queixas e, �nalmente, se
transformar em uma bola de neve de insatisfações e devaneios desagregadores,
que não apenas o a�igem como envenenam o seu relacionamento. Seu
primeiro instinto pode ser colocar um �m ao casamento, mas você não tem
certeza se deve fazer isso, nem o modo de proceder. Por outro lado, você pode
estar sofrendo, consumido pela culpa, ruminando seus sentimentos, dando
desculpas e oscilando entre a paralisia e o pânico.
Antes de dar qualquer passo, é fundamental levar em consideração o mito da
felicidade que, provavelmente, está orquestrando estes primeiros instintos.
Trata-se do pressuposto de que “Eu serei feliz quando... me casar com a pessoa
certa”.14 Talvez você tenha dedicado grande quantidade de tempo, energia e
re�exão para encontrar um parceiro adequado ou ideal, e tenha se empenhado
em cultivar o seu casamento. No entanto, apesar dos seus esforços e da sorte
favorável, você está começando a perceber que seu casamento não está lhe
proporcionando a satisfação que pensou que teria, ou que já teve. Este é um
momento determinante, já que ele o convida a entender se as suas expectativas
são realistas e se você está exigindo demais de seu casamento. Como descrevo a
seguir, até mesmo os casamentos mais felizes não conseguem manter o nível de
satisfação inicial, e só será possível se reaproximar daquele nível inicial com
uma grande quantidade de energia e comprometimento.
Este capítulo trata das escolhas e dos discernimentos possíveis para os que
estão casados ou envolvidos em um relacionamento de longo prazo que deixou
de satisfazê-los. Você pode continuar a se sentir atormentado por seus
pensamentos e esperar que eles desapareçam com o tempo, ou pode se esforçar
para entender a sua causa e agir para resolvê-los ou atenuá-los. As abordagens
que descrevo ensinam você e seu parceiro a reinvestir em seu relacionamento.
A�nal, o que está em jogo é a promessa de caminhos novos, satisfatórios e
positivos.
ESTOU ENTEDIADO COM O MEU CASAMENTO, 
OU ACOSTUMANDO-SE COM O SEU CÔNJUGE
Como mencionei anteriormente, um dos meus principais interesses cientí�cos
é a área de adaptação hedonista – ou seja, o fato de que os seres humanos têm a
capacidade extraordinária de se habituar ou se acostumar com a maioria das
mudanças de vida.15 Tema em destaque hoje em dia nos campos da psicologia
e da economia, a adaptação hedonista explica por que tanto a emoção da
vitória quanto a agonia da derrota diminuem com tempo.16 O que é
particularmente fascinante neste fenômeno, no entanto, é que ele é mais
pronunciado quando se trata de experiências positivas. Com efeito, veri�ca-se
que estamos propensos a considerar como rotineiras quase todas as coisas
positivas que nos acontecem. Quando nos mudamos para um apartamento
lindo com uma vista incrível, quando nos submetemos a uma cirurgia plástica,
quando compramos um novo e extravagante automóvel ou um smartphone de
enésima geração, quando conquistamos a diretoria executiva e um aumento
salarial, quando nos deixamos absorver por uma nova atividade de lazer e, até
mesmo, quando nos casamos, obtemos um estímulo imediato de felicidade
com a melhoria de nossa situação; a emoção, no entanto, dura apenas um
curto período de tempo. Ao longo dos dias, semanas e meses seguintes,
percebemos que nossas expectativas aumentam vertiginosamente, e começamos
a considerar nossas novas e aprimoradas circunstâncias como algo corriqueiro.
Nos encontramos em uma “estagnação da felicidade”.17 Discutirei as
implicações da adaptação hedonista a nosso emprego e nível de renda nos
capítulos 5 e 7; aqui, porém, o foco é a adaptação ao casamento.
Em minha opinião, casar-me com o meu marido foi a melhor coisa que já
me ocorreu – um acontecimento que me trouxe imensa alegria, que ecoa até
hoje, e que tem dado origem a inúmeras e maravilhosas repercussões em minha
vida. Entretanto, o mais famoso estudo a abordar este tema descobriu que,
embora o indivíduo experimente, em média, um estímulo considerável de
felicidade quando se casa, esse estímulo só dura cerca de dois anos, após o qual
os então recém-casados retornam ao nível de felicidade anterior à união.18
Quando você se apaixona, provavelmente consegue �car feliz mesmo estando
preso no trânsito ou escovando os dentes. Mas essa fase não dura muito tempo.
Então, se algum dia você constatar que está menos eufórico e menos
enamorado do que no início de seu relacionamento, estará vivenciando o que a
maioria dos outros seres humanos já vivenciou antes,19 e todos os amigos que
a�rmarem o contrário (com raras exceções) estarão, provavelmente, mentindo
para você ou para si próprios.
A felicidade conjugal, como a felicidade por um novo emprego ou por um
carro novo, é altamente propensa à adaptação hedonista, mas a paixão, o
arrebatamento e a atração eletrizante trazem consigo a responsabilidade
adicional de terem uma vida útil ainda mais curta. Quando nos apaixonamos
pela primeira vez, se tivermos sorte, experimentaremos o que os pesquisadores
chamam de amor apaixonado; ao longo dos anos, porém, este tipo de amor
geralmente se transforma em amor sociável.20 O amor apaixonado é um estado
de desejo, saudade e atração intensos, enquanto o amor sociável é composto
mais de afeição, conexão e admiração profundas. Se você estiver se
perguntando que tipo de amor está vivenciando agora – ou teve no passado –,
considere até que ponto você concorda com as declarações seguintes.21 Quanto
ao amor apaixonado:
• É difícil trabalhar, porque estou sempre pensando no meu parceiro.
• Estou tão envolvida com meu parceiro que não conseguiria estar nem um
pouco interessada em outra pessoa.
• Estou com muito medo de que meu parceiro possa me rejeitar.
Quanto ao amor sociável:
• Meu parceiro é uma das pessoas mais amáveis que conheço.
• Meu parceiro é o tipo de pessoa que eu gostaria de ser.
• Tenho grande con�ança no bom senso do meu parceiro.
Há razões evolutivas, �siológicas e práticas que explicam por que o amor
apaixonado não pode perdurar por muito tempo. Eu arriscaria dizer que, se
continuássemos obcecados por nossos parceiros e praticássemos sexo várias
vezes ao dia – todos os dias –, não seríamos muito produtivos no trabalho ou
atenciosos com nossos �lhos, nossos amigos ou nossa saúde. Para citar uma
frase do �lme Antes do pôr do sol, de 2004, sobre dois ex-amantes que, por
acaso,observar e nos esforçar para corrigir a infelicidade e o sofrimento. No entanto,
como já �cou comprovado por uma in�nidade de pesquisas, quanto mais felizes
formos, mais bem posicionados estaremos para realizar exatamente isso. Quanto
mais felizes formos, mais energia, con�ança e motivação teremos. Quanto mais
felizes formos, mais saudáveis �caremos, e, portanto, mais produtivos e criativos,
mais orientados para a ação e mais inclinados a contribuir com os outros.
Portanto, meu argumento �nal é que, se nos esforçarmos e obtivermos sucesso
na consecução da nossa própria felicidade, também estaremos relativamente
mais propensos a ajudar os outros – e a nós mesmos.
E QUANTO ÀS EMOÇÕES NEGATIVAS?
Sabemos, agora, que as emoções positivas trazem numerosas recompensas, mas
as emoções negativas podem ser uma coisa boa? Inegavelmente, elas são. Há
momentos e situações em que precisamos sentir a raiva que nos motiva a
combater a exploração ou a injustiça, a ansiedade que nos ajuda a nos preparar
para uma ameaça ou desa�o, ou a tristeza que nos leva a re�etir sobre o que está
acontecendo de errado e tomar medidas para corrigir ou aceitar a situação. De
fato, na próxima seção, apresento uma teoria que sugere que precisamos
experimentar a imediata repercussão emocional negativa de uma comoção antes
de dar início aos ajustes positivos e restauradores. Além disso, alguns estudos
mostram que, em determinadas situações, emoções negativas moderadas (como
um estado de ânimo triste) podem facilitar melhores julgamentos e menos
estereotipia. Finalmente, as experiências negativas podem servir como um
contraponto aos aspectos positivos de nossas vidas, e nos ajudar a apreciá-los.
Um amigo querido chegou muito próximo da morte após ter uma infecção que
o deixou paralisado e incapaz de comer ou respirar por conta própria durante
semanas. Ele se recuperou, mas, depois da doença, a�rmou que as coisas que
costumavam ser apenas levemente positivas – como um dia de sol, beber uma
Coca-Cola Diet ou falar ao telefone com um de seus �lhos já adultos – se
tornaram intensamente positivas. Algumas culturas ainda consideram o
sofrimento um meio para se alcançar determinado �m – desenvolver a
personalidade ou obter a salvação espiritual –, ou, inclusive, um �m em si
mesmo. “Você não pode morrer – ainda não sofreu o bastante!” é um
comentário tradicional na Grécia para alguém que reclama da fragilidade de seu
estado de saúde.
Há um valor na tristeza. Há um valor em reconhecer seus próprios problemas
e males (e os do mundo). Há um valor em aprender a lição de que a vida nem
sempre é boa ou razoável. O sofrimento, no entanto, nunca é algo bom. Grande
parte do sofrimento que as pessoas sentem é angustiante, imerecido e não
conduz a nada de bom.
ESTRATÉGIAS BASEADAS EM EVIDÊNCIAS 
PARA ENFRENTAR AS MÁS NOTÍCIAS
Uma doença grave pode destruir ou estilhaçar muitas coisas – nossa autoestima,
nossos relacionamentos, nosso corpo físico, nossa fé religiosa, nossa esperança e
otimismo, nossa energia, nossa evolução. Como reuniremos as peças depois de
seu dilaceramento? Às vezes, essa tarefa pode parecer incrivelmente difícil.
Quando um ente querido se vai ou quando nos vemos privados da função de
algo realmente fundamental (um braço, um rim, o nosso olfato), não
conseguimos, realmente, reconstituir as coisas como elas eram antes. A única
coisa que podemos esperar é criar uma estrutura completamente nova a partir do
que restou. Sei que tudo isso soa muito abstrato, mas há uma história instrutiva
que esclarece esta noção.366
Era uma vez um pintor. Ele era muito competente no que fazia, mas seu
verdadeiro sonho era ser bem-sucedido como marceneiro. Um dia, a esposa do
pintor comentou que a família precisava de uma mesa nova, e perguntou se ele
poderia ajudar. Ele �cou muito contente, pois amava sua esposa e queria fazê-la
feliz, e realmente queria se dedicar à marcenaria. O pintor trabalhou por dias e
noites a �o, e acabou construindo uma mesa simples, mas muito sólida e
resistente. A mesa se tornou o centro do seu lar. Era onde a família se reunia
para contar histórias, fazer refeições, tomar chá e se divertir com jogos de
tabuleiro. Sobre a mesa, o pintor e sua esposa sovavam massas de pizza,
escreviam cartas a seus entes queridos e ajudavam os �lhos nos exercícios de
caligra�a. A mesa era sólida e resistente, assim como sua família.
Um dia, quando eles estavam fora, um ladrão invadiu a casa e, por razões
nunca plenamente esclarecidas, roubou uma das pernas da mesa. O artista e sua
esposa �caram desolados, mas amavam tanto aquela mesa que decidiram fazer o
melhor uso possível dela, mesmo que agora ela só tivesse três pernas. No
entanto, a superfície da mesa �cara desnivelada, e, portanto, sempre que eles
colocavam alguma coisa na extremidade com a perna faltante, o objeto
escorregava imediatamente. Então, com o intuito de equilibrar a mesa, eles
tentaram colocar um enorme e pesado livro do lado oposto, mas isso também
não funcionou. O livro ocupava muito espaço e a perna oposta começou a ceder
sob o seu peso. A mesa estava a ponto de desabar.
O artista �cou muito triste. Levou a mesa de volta para a o�cina e trabalhou
nela por longas noites. Ele cinzelou, entalhou, moldou e esculpiu. Por �m, saiu
da o�cina com uma nova mesa. Era um pouco menor, mas linda, e tão sólida e
funcional quanto a antiga. Esta nova mesa tinha apenas três pernas.
Após uma crise de saúde, o seu novo “eu” é como esta mesa nova de três
pernas. Talvez você tenha sido sólido e resistente antes de sua vida mudar, mas
agora, independentemente de seu diagnóstico ser câncer ou diabetes, doença
pulmonar ou infertilidade, e por razões que você nunca conseguirá desvendar,
uma parte de você foi roubada. De início, você pode tentar manter, inutilmente,
um senso de equilíbrio interior – esforçando-se para contrapesar seu trabalho,
sua família e sua saúde mental –, mas a oscilação permanecerá. Você
empreenderá esforços hercúleos para compensar o que perdeu, a �m de evitar
que tudo desabe. No entanto, não conseguirá recompor realmente a si mesmo e
a sua vida. Você precisará criar um novo “eu”, que, espera-se, seja tão sólido e tão
saudável quanto seu antigo “eu”, mas que, sem dúvida, será diferente.
Aparentemente, o triângulo é uma �gura geométrica mais forte do que o
quadrado, e é por este motivo que os triângulos são tão frequentes na natureza
(para formar moléculas superfortes – como as proteínas e o DNA), além de
serem utilizados em construções.367 Duas teorias baseadas em evidências,
descritas a seguir, o instrumentalizarão com algumas estratégias necessárias para
enfrentar as más notícias, de modo que o seu novo “eu”, assim como a mesa de
três pernas, também possa tornar-se mais sólido.
MOBILIZE-E-MINIMIZE
Enfrentar é o que todos nós fazemos quando tentamos reagir, administrar ou
lidar com as coisas ruins que nos acontecem. Os pesquisadores vêm estudando o
enfrentamento por muitas décadas, e, hoje, já acumulam conhecimento
su�ciente sobre que tipos de estratégias de enfrentamento funcionam e quais não
funcionam, para quais pessoas e em que situações. Uma das abordagens mais
poderosas foi proposta por Shelley Taylor, professora da UCLA, que argumenta
que acontecimentos que colocam a vida em risco, como uma doença grave,
normalmente provocam duas reações consecutivas – uma de curto prazo e outra
subsequente, de longo prazo.368
Mobilização. Nossa primeira reação – imediata e de curtíssima duração – é
mobilizar recursos para lidar com o acontecimento negativo (por exemplo, o
diagnóstico inicial, o surgimento de novos e angustiantes sintomas ou a
constatação de uma piora). No consultório médico, por exemplo, podemos �car
instantaneamente despertos do ponto de vista �siológico (isto é, demonstrando
aumento de frequência cardíaca e respiração acelerada – uma reação física),
começar a conjecturar sobre como poderíamos ter evitado isso (reação cognitiva
ou relacionada ao pensamento), �car deprimidos (reação emocional) ou procurar
um ombro para chorar (reação social).se encontram novamente depois de uma década, se a paixão não tivesse
arrefecido, “acabaríamos não fazendo nada com as nossas vidas”.22 De fato, o
amor apaixonado compartilha algumas características centrais com o vício e o
narcisismo, e, se ele se mantivesse inalterável, acabaria por cobrar seu preço.
Em todo caso, constatou-se que a paixão e a atração química intensas,
evidentes no início de um caso de amor, se reduzem a um nível neutro dentro
de alguns anos,23 quando o caso de amor se transforma em um compromisso
sério, seja em nível de relacionamento ou de casamento.24 Além disso, esta
mudança de sentimentos é, muitas vezes, acompanhada por um declínio na
satisfação global, à medida que a diversão e o lazer típicos da fase de lua de mel
se transformam na dura rotina diária e os parceiros deixam de empregar seu
melhor comportamento e de se esforçar para serem constantemente sensíveis e
atenciosos um para com o outro.25
Felizmente, como os psicólogos evolucionistas podem a�rmar, tanto o amor
apaixonado quanto o amor sociável são essenciais para que os seres humanos
possam sobreviver e se reproduzir. Enquanto o amor apaixonado é necessário
para nos estimular a formar parcerias e a direcionar todas as nossas energias
para a construção de um novo relacionamento, o amor sociável parece ser
decisivo para alimentar uma parceria comprometida e estável pelo tempo
su�ciente para reproduzir nossos genes (ou seja, ter �lhos) e garantir que eles
sobrevivam e prosperem. Deve-se dizer que ambos os tipos de amor trazem a
sua marca própria de felicidade – talvez um deles seja mais empolgante e o
outro, mais signi�cativo.
À luz da deterioração natural da paixão e da alegria vivenciadas no início do
casamento, parece que estamos alimentando expectativas vãs de que os
relacionamentos de longo prazo continuarão a servir como veículos para nossos
desejos e para nossa satisfação. Na verdade, eu diria, com mais veemência
ainda, que romanceamos a ideia de romance, e isso nos leva a interpretar
equivocadamente a função, a complexidade e o ciclo de vida típicos do
casamento, deixando-nos desapontados quando nossos casamentos não
satisfazem permanentemente nossos anseios de satisfação, de paixão, de
intimidade e de permanência. Conforme re�etirmos sobre nossas experiências
de tédio, de paixão anêmica ou de pequenos descontentamentos em nossas
parcerias atuais, deveríamos reexaminar essas premissas e estabelecer até que
ponto nossas experiências podem ser, simplesmente, manifestações de um
processo extraordinariamente comum.
As pesquisas do meu laboratório e dos laboratórios de vários colegas sugerem
inúmeros segredos para superar, prevenir ou, pelo menos, abrandar a adaptação
hedonista nos relacionamentos sérios. A primeira recomendação você já
começou a seguir simplesmente lendo este livro, qual seja, dar-se conta do
quanto este fenômeno é comum e reconhecer que seus próprios
relacionamentos se encaminham, cada vez mais, para a normalidade. Ao
reconhecer o mito da felicidade que está por trás da sua consternação e do seu
descontentamento, você pode começar a compreender e a eximir suas
experiências de culpa, tomando medidas para aprimorá-las. Em seguida, vem a
parte difícil, já que retardar o processo pelo qual você passa a considerar o seu
parceiro (e outras coisas em sua vida) algo cada vez mais rotineiro requer um
esforço redobrado – um esforço que pode ser necessário em todas as semanas
de sua vida de casado. Na verdade, se quisermos encontrar uma boa solução
para o momento crítico que está no cerne deste capítulo, o processo de
resistência à adaptação deve começar, idealmente, muito antes de aquele
momento crítico surgir.
POR QUE VOCÊ SE ADAPTA ÀS COISAS BOAS
Conheci Keith no dia 4 de julho, há oito anos, em um churrasco. Eu não tinha
outros planos e, como estava quente demais para �car em casa, resolvi fazer
companhia à amiga que mora comigo. Todas as pessoas que estavam lá eram
bastante agradáveis, mas eu não as conhecia, e �quei perambulando pelo interior
da casa refrigerada, folheando os livros nas prateleiras. Foi aí que Keith entrou,
usando seus óculos de Harry Potter. Ele era magro e muito alto, com um cabelo
castanho desgrenhado, precisando urgentemente de um corte, e um rosto franco. Ele
sorriu para mim e tive a sensação de que o mundo inteiro me sorria.
Assim começou o período mais emocionante e vibrante da minha vida. Keith
estava determinado a �car comigo e eu estava me apaixonando. A cada dia, a cada
semana, havia uma expectativa – algo divertido, interessante ou surpreendente. O
tempo passava com incrível rapidez. Eu tinha di�culdade para me concentrar no
trabalho. Nós éramos iguaizinhos um ao outro.
Fazíamos jantares à luz de velas e Keith preparava um molho curry caseiro. De
vez em quando, escapávamos do trabalho à tarde e nos encontrávamos para fazer
amor na minha casa ou na dele – e, uma vez, fomos até um hotel de luxo. Nós
compartilhávamos os pensamentos mais íntimos, discutíamos nossos traumas de
adolescência, e, com o tempo, fantasiávamos em voz alta sobre como iríamos
batizar nossos �lhos e em quais das nossas casas favoritas (que costumávamos ver em
nossos passeios de carro) viveríamos. Ah, e nós dançávamos. Adorávamos dançar.
Eu me sentia mais forte, mais feliz, mais bonita, mais autocon�ante, em todos os
sentidos. Keith não é uma pessoa extrovertida, mas tem inúmeros amigos �éis, e,
portanto, conheci muitas pessoas. Minha melhor amiga hoje em dia é alguém que
conheci naquele tempo.
É claro, houve muitos momentos marcantes. Nosso primeiro beijo, a primeira vez
que Keith disse “eu te amo”, a nossa primeira viagem juntos (para Vegas). O
problema com os momentos marcantes, evidentemente, é que eles só podem
acontecer uma vez. O segundo beijo, a sétima vez que ele disse “eu te amo” e todas
as férias subsequentes juntos não foram tão especiais e não geraram tanta alegria
quanto a primeira vez. Com o tempo, e conforme o nosso relacionamento progredia,
as coisas maravilhosas não aconteciam mais com tanta frequência ou intensidade.
Ele parou de dizer “eu te amo” várias vezes por dia; tínhamos menos conversas
empolgantes sobre a nossa vida futura em conjunto e a frequência com que eu
espontaneamente sorria ao pensar em beijá-lo ou com que me considerava
incrivelmente bem-aventurada diminuiu, inevitavelmente.
Não demorou muito para que eu me acostumasse com a ideia de estar
namorando, com o tempo que passávamos juntos à noite e nos �ns de semana, e
com o orgulho que sentia quando contava à minha família e aos meus amigos tudo
sobre Keith. Não importava que Keith me amasse e fosse �el a mim; agora, eu
começava a desejar que ele propusesse que morássemos juntos. E depois que ele
realmente me propôs isso e que nós decoramos nossa casa alugada, comecei a querer
ainda mais – casamento, �lhos.
Hoje, não há nada de errado na minha vida com Keith e nossos �lhos. Nada,
exceto a dolorosa constatação de que nunca poderemos trazer de volta os primeiros
dias. Naquela época, tínhamos muito tempo livre, tempo que passávamos tomando
café, assistindo a �lmes e viajando; hoje, temos uma série de responsabilidades e
tarefas. Às vezes, uma semana inteira passa sem que nós realmente conversemos, e
acabamos nos esbarrando na cozinha. Agora, desapontamos um ao outro algumas
vezes, e não somos mais tão atentos ou generosos como costumávamos ser. Perdemos
o vigor. Uma vez, Keith me disse que havia estado em uma convenção noturna de
quadrinhos, e eu percebi que não me lembrava de alguma vez na vida em que ele
houvesse comparecido a alguma convenção daquele tipo, e que não nem tinha ideia
de que ele gostava de quadrinhos. É como se tivéssmos nos transformado em pessoas
diferentes, mesmo sem perceber, e isso me tortura. Observo seus olhos admirando
uma mulher atraente e nem sinto ciúmes, porque eu também olho e porque estou
certa de que ele nunca abandonará a nossa família. Então, como poderemos nos
mostrar atraentes um para o outro? Que expectativas poderemos ter?
Jennifer, 35 anos, fotógrafa freelance decrianças26
A experiência de Jennifer é diabolicamente comum. No �m, quase todos nós
nos acostumamos com nossos casamentos e nossos parceiros, e a ciência da
adaptação explica por quê. Embora essa situação traga algumas consequências
desagradáveis, elas também revelam as formas pelas quais podemos lidar com
esse problema quase universal. Da mesma forma que entender uma doença
induz à percepção de como tratá-la, um dos benefícios envolvidos na
compreensão de um fenômeno psicológico é perceber como poderemos
controlá-lo. Para este �m, meu colaborador Ken Sheldon e eu desenvolvemos
uma teoria de como impedir, enfrentar e retardar a adaptação.27 Descrevo, a
seguir, uma série de estratégias práticas sugeridas por nossa teoria, que serão
valiosas quando estivermos dizendo a nós mesmos: “Depois de encontrar a
pessoa certa, pensei que seria feliz por algum tempo, mas agora estou
insatisfeito e entediado”.
A IMPORTÂNCIA DE APRECIAR
Um dos indícios que permite saber se você está adaptado ao seu parceiro é
deixar de apreciá-lo. Apreciar verdadeiramente alguém signi�ca valorizá-lo, ser-
lhe grato, desfrutar o tempo em sua companhia e permanecer bastante
consciente do bem que ele proporcionou à sua vida. Quando você se casou,
por exemplo, a mudança de circunstâncias foi emocionante e original. Você
gostava de usar as palavras marido e mulher, e estava plenamente consciente e
grato por todas as vantagens trazidas pelo casamento. Você apreciava o seu
cônjuge e pensava nele com frequência, talvez constantemente. Chegou o
momento, no entanto, que ser casado – ser chamado de marido ou esposa,
sentar-se na mesa da cozinha com o seu cônjuge, cumprimentá-lo
apaixonadamente no �m do dia – deixou de ser uma novidade ou de
surpreendê-lo. A�nal, sua vida diária é, sem dúvida, cheia de altos e baixos,
completamente alheios ao fato de você ser casado – frustração no trabalho,
problemas com o carro, um programa de exercícios bem-sucedido, uma visita
surpresa de um amigo do colégio. Todos esses acontecimentos cotidianos
suscitam as suas próprias reações emocionais, fazendo você se sentir estressado,
bem-humorado, alegre ou aliviado, e podem, eventualmente, ofuscar a
condição de seu novo estado civil, fazendo com que ele perca importância no
panorama geral da sua vida.28 No entanto, o ensinamento é que, se
continuarmos a nos mostrar gratos, a apreciar e a estar atentos ao nosso novo
cônjuge – se ele aparecer frequentemente em nossas mentes e nos inspirar
fortes reações emocionais –, conseguiremos evitar considerá-lo algo corriqueiro.
Vários estudos corroboram esta noção, incluindo um de nosso próprio
laboratório, que revelou que as pessoas que se esforçam em continuar
apreciando os bons momentos de suas vidas são menos propensas a se adaptar a
eles.29
A apreciação tem uma importância vital, por várias razões. Primeiro, apreciar
nosso relacionamento nos obriga a extrair o máximo de satisfação possível dele
e nos ajuda a nos mostrarmos gratos por isso, a saboreá-lo, a desfrutá-lo, sem
considerá-lo algo rotineiro. Em segundo lugar, nos sentimos mais positivos a
nosso respeito e mais conectados com os outros.30 Em terceiro lugar, nossa
expressão de apreço motiva a nós e aos nossos parceiros a redobrar os esforços
para cuidar do relacionamento.31 E, �nalmente, a apreciação ajuda a evitar que
�quemos muito “mimados”, que prestemos muita atenção às comparações
sociais (“O marido da minha amiga Kelly, ao contrário do meu, prepara toda a
comida!”) e que sintamos inveja. Em outras palavras, apreciar os pontos
positivos de nossos relacionamentos e reavaliá-los como presentes ou “dádivas”
nos leva a nos concentrar no que temos hoje, em vez de prestarmos atenção ao
que nossos amigos e vizinhos têm ou naquilo que nós gostaríamos de ter.
Vários experimentos de meu próprio laboratório e dos laboratórios dos meus
colegas demonstraram que pessoas que praticam regularmente o apreço ou a
gratidão – que, por exemplo, “enumeram suas dádivas” uma vez por semana ao
longo de uma a doze semanas consecutivas, ou trocam elogios com as pessoas
que lhes foram amáveis e signi�cativas – se tornam, seguramente, mais felizes e
mais saudáveis, e continuam mais felizes até seis meses após o término daquele
evento.32 Esta é uma prova conclusiva de que apreciar uma circunstância
positiva (como o casamento) pode nos ajudar a desa�ar a adaptação à situação.
Exercícios simples, como anotar o que você gosta em seu parceiro ou no seu
casamento, ou redigir uma carta de agradecimento ao seu companheiro (sem,
necessariamente, compartilhá-la), têm se mostrado altamente e�cazes.
Outra maneira de realmente apreciar e desfrutar de nosso relacionamento é
imaginar subtraí-lo de nossas vidas.33 E se nós nunca tivéssemos sido
apresentadas ao nosso marido? Nesse caso, uma in�nidade de coisas boas que
está acontecendo hoje em nossas vidas poderia não ter acontecido. Se não for
levada ao extremo (o que poderia fazer com que não nos sentíssemos
merecedores do que temos, ou �cássemos ansiosos com a ideia de perder tudo),
essa estratégia de “subtração” pode ser ainda mais e�caz do que as tentativas
explícitas de demonstrar gratidão.34
Em suma, os exercícios de apreciação trarão alegria ao lembrar os pontos
positivos que �caram esquecidos dentro de nosso relacionamento, vivendo o
aqui e agora e mantendo uma perspectiva positiva e otimista. Quando
valorizamos os pontos fortes de nosso parceiro, quando nos transportamos
mentalmente para os dias em que estivemos mais próximos ou quando
realmente apreciamos o momento presente, deixamos de considerar o nosso
relacionamento como algo corriqueiro.
A IMPORTÂNCIA DA VARIEDADE
Nem todas as mudanças de vida estão igualmente sujeitas à adaptação
hedonista. No meu trabalho com Ken Sheldon, descobrimos que nossos
participantes mostravam-se muito menos propensos a se acostumarem com as
mudanças que envolviam um engajamento diferenciado, dinâmico e
empenhado (por exemplo, aprender uma nova língua ou fazer um novo amigo)
do que como aquelas que eram relativamente estáticas e imutáveis (mudar-se
para um apartamento melhor ou conseguir um empréstimo de que se precisa
muito).35 Além disso, as mudanças dinâmicas parecem exercer um impacto
duradouro na felicidade das pessoas. Depois de passar por uma mudança
dinâmica, os participantes de nossos estudos ainda permaneciam mais felizes
por seis a doze semanas, ou mais. Depois de passar por uma mudança estática,
nossos participantes pareciam já estar emocionalmente acostumados com isso
entre seis e doze semanas depois.36 Também despertou interesse o fato de que,
para os participantes que a�rmaram que uma mudança particular acrescentou
alguma variedade em suas vidas (por exemplo, os levou regularmente a
conhecer novas pessoas) e que relataram continuar apreciando tal mudança de
vida, as chances de usufruir mais felicidade depois daquela mudança eram
ainda maiores.
O ensinamento é que, para evitar a adaptação, é fundamental nos
assegurarmos de que nossos casamentos sejam temperados com uma abundante
variedade. Na verdade, por de�nição, a adaptação acontece quando nos
deparamos com algo constante ou repetido37 – quando todas as saídas à noite
nos �ns de semana signi�cam um jantar e um �lme, ou quando a intimidade
ou o compromisso que sentimos com nosso parceiro tiverem atingido um
equilíbrio estável. Há um componente na variedade – a variedade em nossos
pensamentos, sentimentos e comportamentos – que é, por essência,
estimulante e recompensador.38 De fato, ser exposto à variedade e à novidade
parece ter efeitos semelhantes em nosso cérebro – especi�camente sobre a
atividade que envolve o neurotransmissor dopamina39 – aos dos “estimulantes”
farmacológicos, às emoções positivas e aos comportamentos de busca de
recompensa.40 Assim, podemos maximizar e ajudar a sustentar (pelo menos,
em parte) a felicidade de nossos casamentos e o entusiasmo com o tempo que
passamos juntos misturando as coisas – variando o que fazemos com nossos
parceiros, mudando nossas mentes e sendo espontâneos. Talvez pareçaum
conselho banal, mas a variedade pode, de fato, permitir que nossos
relacionamentos e nosso amor permaneçam vivos, signi�cativos e positivos.
Como uma analogia muito simples, considere um experimento que meus
alunos e eu �zemos. Instruímos nossos participantes a praticar boas ações a
cada semana, por um período de dez semanas.41 Alguns foram instruídos a
variar suas boas ações (por exemplo, dar ao seu animal de estimação um
tratamento especial um dia e preparar o café da manhã para o seu parceiro no
dia seguinte), enquanto outros foram instruídos a fazer coisas semelhantes
todas as vezes (por exemplo, preparar o café da manhã para o seu parceiro
continuamente). Não é de surpreender que os únicos que �caram mais felizes
foram aqueles que variaram seus atos de generosidade.
A IMPORTÂNCIA DA SURPRESA
Outro fator fundamental na busca da felicidade conjugal duradoura (e na
prevenção da adaptação hedonista) é o elemento surpresa. Apesar de variedade
e surpresa parecerem conceitos muito semelhantes – e que, com certeza, muitas
vezes andam juntos –, eles, na verdade, são distintos. Por exemplo, uma série
de acontecimentos (como os �lmes que você consegue assistir em um único
verão) pode ser variada, mas não surpreendente, e, embora um único
acontecimento (como uma con�ssão inesperada) possa ser surpreendente, um
único acontecimento, por de�nição, não pode ser variável.
O início dos relacionamentos guarda um milhão de surpresas para nós: como
ela vai reagir quando eu lhe contar sobre o meu interesse em mágica? Será que
ela gosta de ser tocada desta ou daquela forma? Será que ela deseja ter �lhos
com tanta vontade quanto eu? Ele é engraçado quando sai para jantar? Como
realmente são os seus amigos e familiares? Em resumo, novos relacionamentos,
como novos empregos, atividades de lazer e viagens, têm o potencial de gerar
muitas experiências, desa�os e encantamentos surpreendentes, além de novas
oportunidades. Ademais, os novos relacionamentos têm o que os pesquisadores
chamam de “o fascínio da ambiguidade”: quando não conhecemos muito bem
nossos parceiros, podemos ver neles aquilo que queremos.42 No entanto, com
o tempo, nossos parceiros se tornam totalmente conhecidos, caímos em uma
rotina e o número de surpresas diminui, chegando, até mesmo, a se esgotar.
Durante o primeiro ano juntos, nossos parceiros podem revelar um lado de si
mesmos que nunca soubemos. Durante o décimo ano, tal experiência é muito
menos provável. Em algum momento, podemos sentir que já conhecemos tudo
o que há para conhecer em nosso cônjuge, e que não existe mais surpresa
alguma.
O que há de tão especial na surpresa? Quando constatamos uma novidade
em nossos ambientes (“Nunca reparei no quanto ele é cuidadoso com
estranhos”), �camos atentos e, portanto, somos mais suscetíveis de apreciá-la,
contemplá-la e recordá-la.43 Estaremos menos propensos a considerar nosso
casamento como algo corriqueiro quando ele continuar a nos proporcionar
fortes reações emocionais (é importante notar que este argumento também se
aplica a reações negativas, mas aqui, evidentemente, estou falando de emoções
positivas). Além disso, a incerteza, em si mesma, pode aumentar o prazer dos
acontecimentos positivos. Uma série de estudos demonstrou, por exemplo, que
as pessoas experimentam episódios mais duradouros de felicidade quando são
alvo de um ato inesperado de gentileza e permanecem em dúvida sobre quem
fez isso e por quê.44 Tais reações podem ser, inclusive, mapeadas em nossos
cérebros. Em um experimento, quando participantes sedentos foram
informados de que iriam, �nalmente, beber algo, aqueles que não sabiam o que
lhes seria oferecido (ou seja, água ou uma bebida mais interessante) mostraram
mais atividade nas partes do cérebro ligadas às emoções positivas.45 Nosso
objetivo, então, deve ser o de criar mais momentos inesperados e prazeres
imprevisíveis em nosso relacionamento – surpresas que nos inspirem e nos
deleitem. Talvez isso não seja tão fácil quanto parece, mas várias estratégias se
mostraram bem-sucedidas.
UMA PITADA DE NOVIDADE E UM GOSTINHO DE SURPRESA
Para muitos, a recomendação de que devemos ser mais espontâneos soa um
tanto perversa. O mesmo pode ser dito em relação às recomendações para
provocar, deliberadamente, surpresa e variedade em nossas vidas. Em princípio,
estou de acordo, mas seguir estas recomendações é mais viável do que parece. É
claro que �car sentado, esperando que surpresa, mistério e aleatoriedade surjam
em nossas vidas não vai funcionar. É muito mais e�caz participar de atividades
já conhecidas para produzir experiências variadas e surpreendentes. É muito
simples viajar para lugares novos com nossos parceiros – por de�nição, uma
atividade em que não somos mais escravos das rotinas diárias, temos mais
tempo para relaxar e re�etir, e estamos mais propensos às experiências do acaso.
Ou, então, mostrar mais disponibilidade para nos socializarmos com um
conjunto mais vasto de conhecidos e amigos, ou sermos receptivos a novas
oportunidades e aventuras. Quando você e seu namorado forem convidados
para uma intrigante campanha de arrecadação de fundos por alguém que
conheceram na academia, aceitem. Quando �carem sabendo de um badalado
restaurante em uma parte suspeita da cidade, experimentem. Quando seu
cônjuge desenvolver um novo interesse por arte, pela Espanha, por bicicleta ou
por jogos on-line de múltiplos jogadores, junte-se a ele nesta odisseia para se
informar mais.
Alguns pesquisadores propõem que as novidades exigem uma abordagem
direta – ou seja, reunir esforços para, literalmente, perceber coisas novas acerca
do seu parceiro. Por exemplo, todos os dias da próxima semana, determine-se a
detectar de que modo o seu parceiro está diferente naquele dia. Este exercício
extremamente simples pode tornar o parceiro mais atraente e sedutor. Embora
todas as vezes que vocês leem o jornal de domingo juntos, todas as vezes que se
beijam e todas as vezes que fazem pasta e fagioli pareçam exatamente iguais às
anteriores, tente observar as formas em que cada ocasião é realmente diferente
uma da outra. Corroborando esta ideia, um estudo pediu que as pessoas
escolhessem uma atividade da qual não gostavam (como passar o aspirador de
pó, usar o transporte público para ir ao trabalho ou assistir a American Idol) e,
em seguida, as instruiu a prestar atenção a três novidades ou qualidades
desconhecidas naquela atividade, enquanto estavam envolvidas nela (“O
zumbido do aspirador me leva de volta à segunda série”, ou “Eu nunca me dei
conta de como o Ryan Seacrest é baixinho”). Aqueles a quem se pediu que
procurassem por novidades acabaram gostando mais da atividade e se mostram
mais propensos a repeti-la por conta própria.46
Outra técnica para impedir que nos acostumemos com algo ou com alguém
implica arejar as nossas rotinas. Uma interessante linha de pesquisa descobriu
que interromper experiências positivas as torna mais agradáveis. A princípio, o
argumento parece contraditório. Quando seu cônjuge está lhe aplicando uma
excelente massagem, ou quando vocês estão ouvindo juntos o seu álbum
favorito, ou assistindo a um �lme hilariante, ou apreciando uma caminhada
nas montanhas sob ótimas condições climáticas, a última coisa que você quer é
interromper o que está fazendo. No entanto, veri�ca-se que as pessoas
desfrutam mais das massagens quando são interrompidas em intervalos de
vinte minutos, desfrutam mais dos programas de televisão quando são
interrompidos pelos comerciais e desfrutam mais das músicas das quais gostam
quando são interrompidas em intervalos de vinte segundos.47
O segredo para entender tais resultados é reconhecer que podemos nos
adaptar a uma experiência positiva de curto prazo, como assistir a um �lme ou
receber uma massagem, exatamente da mesma maneira que nos adaptamos a
uma grande mudança de vida, como nos casar ou nos mudar para a Flórida. A
experiência moderadamente agradável de assistir a uma comédia nos oferece
um pouco menos de prazer e de satisfação conforme ela é executada –não
porque a desfrutemosmenos, mas porque, gradualmente, nos acostumamos
com a sensação agradável (ou com a diversão, ou com a inteligência, ou com o
suspense), a ponto de ela se tornar a nossa nova norma ou padrão. Nesse
ponto, seria necessário um abalo ainda mais agradável para evocar uma resposta
emocional mais forte em nós. Essencialmente, as interrupções conseguem deter
este processo de relaxamento com a experiência em questão e “reprogramá-la”
para uma maior intensidade de satisfação.48 Uma pausa durante uma
massagem ou uma conversa emocionante, por exemplo, pode ampliar a nossa
expectativa para a sua retomada e nos fornecer a oportunidade de desfrutar o
que virá a seguir. William James, que aconselhou as pessoas a reavivar as
atividades maçantes com “rupturas de rotina”, teria concordado
entusiasticamente.49
Art Aron, professor da universidade SUNY-Stony Brook e importante
autoridade em assuntos relacionados ao amor, argumenta que, para afastar o
tédio no casamento, os casais devem mutuamente se engajar no que ele chama
de atividades “expansivas” – isto é, atividades novas que sejam estimulantes,
produzam novas experiências e ensinem novas habilidades – e desa�ar um ao
outro a crescer. Em um experimento clássico, casais de meia-idade de classe
média alta foram apresentados a uma lista de atividades que ambos haviam
relatado fazer raramente e que lhes pareciam “agradáveis” (como cozinha
criativa, visitar amigos ou ver um �lme) ou “empolgantes” (dançar, esquiar ou
assistir a concertos).50 Então, ao longo das dez semanas seguintes, eles foram
instruídos a escolher uma dessas atividades a cada semana e passar noventa
minutos praticando-a juntos. Ao �m das dez semanas, aqueles casais que se
envolveram com as atividades “empolgantes” relataram estar mais satisfeitos
com seus casamentos do que aqueles que simplesmente �zeram coisas
“agradáveis” ou divertidas juntos.
Aron obteve resultados semelhantes quando instruiu os casais a visitar seu
laboratório e a executar uma tarefa muito breve (sete minutos), que podia ser
neutra ou nova e �siologicamente estimulante.51 É difícil, em sete minutos e
em uma sala estranha, que um casal consiga chegar a um acordo sobre uma
atividade empolgante para ambos, mas esses pesquisadores desenvolveram um
tipo de exercício excêntrico, que pode soar familiar para quem já participou de
retiros empresariais para fortalecer a equipe de trabalho. A atividade consistia
em ultrapassar obstáculos sobre um colchonete de nove metros de extensão,
conectado ao seu parceiro com tiras de velcro em um pulso e em um tornozelo,
rastejando sobre as mãos e os joelhos o tempo todo, e carregando uma
almofada redonda, que tinha de ser sustentada por ambos os corpos ou
cabeças. A atividade neutra também exigia que se rastejasse sobre um
colchonete, mas o objetivo principal era rolar uma bola de um para o outro.
Independentemente de serem casais de namorados ou casados há muito tempo,
aqueles que executaram a atividade nova em conjunto mostraram-se mais
propensos, após a atividade, a concordar com a�rmações do tipo “Eu me sinto
feliz quando estou fazendo algo para deixar o meu parceiro feliz” e “Eu sinto
‘formigamento’ e ‘batimento cardíaco aumentado’ quando penso no meu
parceiro” do que os que executaram a atividade neutra. Ainda mais
impressionante foi o fato de que, no tocante aos planos futuros, os casais que
haviam participado da atividade empolgante demonstraram mais
comportamentos positivos um para com o outro (mais aceitação, por exemplo,
e menos hostilidade), após a atividade, do que aqueles que haviam participado
da tarefa neutra.
Não é difícil imaginar que, para muitos casais, completar a excêntrica tarefa
de rastejar pode ensejar o riso histérico. Ainda que, às vezes, eu considere tais
exercícios de mau gosto, não posso ignorar o fato de que eles levam as pessoas a
se sentirem mais próximas, mais calorosas e, inclusive, mais atraídas uma pela
outra. Surpreendentemente, os efeitos de atividades tão curtas como essa
podem durar até sete horas.52 No entanto, não há necessidade de sair por aí
comprando tiras de velcro e almofadas redondas; os efeitos sobre a qualidade
da relação são semelhantes quando, simplesmente, nos sentamos com nossos
cônjuges para criar uma lista de coisas que ambos gostaríamos de fazer e que
consideramos empolgantes. Os pesquisadores suspeitam que a participação
conjunta em atividades empolgantes e novas desencadeia sentimentos positivos
(nesse sentido, a apreensão que sentimos quando praticamos escalada pode ser
interpretada como um reforço à atração),53 estimula a interdependência e a
proximidade dos casais (devido ao aspecto colaborativo de muitas dessas
atividades, como rastejar sobre o colchonete), nos leva a aprender coisas novas
sobre o outro (como em um estudo que instruía os casais a escolherem cartões
com perguntas íntimas e a se revezarem para respondê-las)54 e gera emoções
positivas em geral (como orgulho, divertimento, curiosidade, alegria), o que
tende a colorir todos os aspectos de nossas vidas com pinceladas mais positivas
e mais otimistas, incluindo nossos casamentos.
NÃO ESTOU MAIS APAIXONADO, 
OU ACOSTUMANDO-SE COM O SEXO COM SEU CÔNJUGE
Mesmo no mais feliz dos casamentos, chegará um momento em que já não
obteremos o mesmo estímulo de felicidade ao passar algum tempo com nosso
cônjuge – ou com qualquer uma das formas complementares de matrimônio –,
como já obtivemos um dia. Um dos infelizes corolários deste processo natural
de desdobramento é que, no �m, também obteremos menos prazer no sexo
conjugal.55 Nenhum de nós deveria �car surpreendido ou atormentado com
isso, mas muitos, claramente, �cam. Quando acabamos de descobrir a paixão,
quando ela ainda está no auge e ainda nos tira o fôlego, �camos tão
intensamente governados por emoções, pensamentos e fantasias pontuais que
não conseguimos imaginar o dia em que a intensidade destas sensações
arrefecerá.
O fato desagradável é que a paixão e, especi�camente, a excitação sexual são
particularmente propensas à acomodação. Experimentos de laboratório, que
acompanharam as alterações na excitação sexual em resposta à apresentação
repetida de fotos eróticas ou instruções para se entregar a fantasias sexuais,
revelaram que homens e mulheres mostraram excitação reduzida (avaliada
tanto pela simples solicitação quanto pela mensuração do ingurgitamento
genital real) ao longo do tempo.56 Em última análise, a familiaridade nem
sempre levará ao desprezo, mas ela, certamente, gera indiferença. Nas palavras
de Raymond Chandler, “O primeiro beijo é mágico. O segundo é íntimo. O
terceiro é rotina”.57
Por outro lado, a novidade pode servir como um poderoso afrodisíaco,
conforme ilustrado pelo “efeito Coolidge”. Segundo a lenda, certa manhã, o
ex-presidente americano Calvin Coolidge e a primeira-dama Grace Anna
Goodhue foram visitar um aviário em Kentucky. Durante o passeio, a senhora
Coolidge quis saber do agricultor por que tão poucos galos rendiam um
número tão grande de ovos. O agricultor explicou, orgulhosamente, que seus
galos cumpriam seus deveres dezenas de vezes por dia. A Sra. Coolidge �cou
muito impressionada com isso e respondeu, incisivamente: “Diga isso ao
presidente”. O Sr. Coolidge, tendo ouvido o comentário sobre o desempenho
dos galos, perguntou ao fazendeiro: “E é sempre com a mesma galinha todas as
vezes?”. “Ah, não, senhor presidente”, respondeu o fazendeiro, “cada vez com
uma galinha diferente”. O presidente balançou a cabeça lentamente, sorriu e
disse: “Diga isso à Sra. Coolidge!”.58
Seja ou não uma história apócrifa, ela batizou o fenômeno segundo o qual
quase todos os membros das espécies de mamíferos sociais demonstrarão um
desejo e um desempenho sexual renovados quando novos parceiros receptivos
lhes forem apresentados. Os seres humanos parecem ser tão suscetíveis ao efeito
Coolidge quanto os galos e as galinhas. De fato, biólogos evolucionistas
postulam que a variedade sexual é evolutivamente adaptável; ela evoluiu para
evitar o incesto e a endogamia em ambientes ancestrais. A ideia é que,

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