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Título original: THE MYTHS OF HAPPINESS © 2013, by Lexikon Editora Digital Direitos de edição da obra em língua portuguesa adquiridos pela LEXIKON EDITORA DIGITAL LTDA. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser apropriada e estocada em sistema de banco de dados ou processo similar, em qualquer dorma ou meio, seja eletrônico, de fotocópia, gravação etc., sem a permissão do detentor do copirraite. LEXIKON EDITORA DIGITAL LTDA. Av. Rio Branco, 103 sala 1710 – Centro 20040-005 – Rio de Janeiro – RJ – Brasil Tel.: (21) 3190 0472 – (21) 2560 2601 www.lexikon.com.br – sac@lexikon.com.br EDIÇÃO Beatrice Araújo REVISÃO Juliana Trajano/Vera Villar/Lucia Maron CAPA Cecilia Costa IMAGENS DA CAPA Getty Images EDITORAÇÃO Abreu’s System CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ L999m Lyubomirsky, Sonja Os mitos da felicidade [recurso eletrônico] : o que deveria fazer você feliz, mas não faz; o que não deveria fazer você feliz, mas faz / Sonja Lyubomirsky ; tradução Eduardo Rieche. - 1. ed. - Rio de Janeiro : Odisseia, 2013. recurso digital ; 2 MB Tradução de: The myths of happiness Formato: epub Requisitos do sistema: adobe digital editions Modo de acesso: world wide web ISBN 9788583001164 (recurso eletrônico) 1. Técnicas de autoajuda. 2. Conduta. 3. Felicidade. 4. Autorrealização. 5. Livros eletrônicos. I. Rieche, Eduardo. II. Título. CDD: 158.1 CDU: 159.947 PARA ISABELLA Sumário Introdução: Os mitos da felicidade PARTE I CONEXÇÕES CAPÍTULO 1 Eu serei feliz quando... me casar com a pessoa certa CAPÍTULO 2 Não poderei ser feliz se... meu relacionamento terminar CAPÍTULO 3 Eu serei feliz quando... tiver �lhos CAPÍTULO 4 Não poderei ser feliz se... não tiver um parceiro PARTE II TRABALHO E DINHEIRO CAPÍTULO 5 Eu serei feliz quando... encontrar o emprego certo CAPÍTULO 6 Não poderei ser feliz se... estiver falido CAPÍTULO 7 Eu serei feliz quando... for rico PARTE III OLHANDO PARA TRÁS CAPÍTULO 8 Não poderei ser feliz se... O resultado do exame for positivo CAPÍTULO 9 Não poderei ser feliz se... souber que nunca jogarei pelos Yankees CAPÍTULO 10 Não poderei ser feliz se... os melhores anos da minha vida já tiverem passado CONCLUSÃO Onde realmente podemos encontrar a felicidade Agradecimentos Notas “A vida é construída de tal forma que os acontecimentos não correspondem, não conseguem corresponder e não corresponderão às nossas expectativas.” — CHARLOTTE BRONTË “Aquele que não está contente com o que tem não se contentaria com o que gostaria de ter.” — SÓCRATES “A sorte favorece a mente preparada.” — LOUIS PASTEUR INTRODUÇÃO Os mitos da felicidade Quase todos nós aderimos ao que eu chamo de os mitos da felicidade – crenças de que certas conquistas da vida adulta (casamento, �lhos, empregos, riqueza material) nos deixarão felizes para sempre, e de que certos fracassos ou adversidades (problemas de saúde, não ter um companheiro, ter pouco dinheiro) nos deixarão infelizes para sempre. Esta compreensão reducionista da felicidade é reforçada culturalmente e ainda sobrevive, apesar das provas esmagadoras de que o nosso bem-estar não funciona sob princípios tão simplistas.1 Um dos mitos da felicidade é a noção de que “eu serei feliz quando...” Serei feliz quando conseguir aquela promoção, quando disser “eu aceito”, quando tiver um bebê, quando for rico, e assim por diante. A falsa premissa não reside no fato de que a realização de tais sonhos não nos deixará felizes. É quase certo que sim. O problema é que tais conquistas – mesmo que sejam, a princípio, perfeitamente satisfatórias – não vão nos deixar tão incomensuravelmente felizes (ou por tanto tempo) quanto acreditamos. Assim, quando o cumprimento destes objetivos não nos deixa tão felizes quanto esperávamos, acreditamos que deve haver algo de errado conosco, ou que somos os únicos a nos sentirmos assim. Por outro lado, existe um mito da felicidade igualmente difundido, e igualmente nocivo. Trata-se da crença de que “não poderei ser feliz se...”. Quando a sorte não está ao nosso lado, tendemos a ter uma reação exagerada. Acreditamos que nunca conseguiremos ser felizes de novo, que a nossa vida, tal como a conhecemos, está acabada. Meu relacionamento está em crise. Consegui realizar os meus sonhos, mas me sinto mais vazio do que nunca. Meu trabalho não é mais o que costumava ser. O resultado do exame foi positivo. Guardo enormes ressentimentos. Espero que este livro deixe su�cientemente claro que, embora alguns destes grandes desa�os possam ter o potencial de mudar de�nitiva e permanentemente nossas vidas para melhor ou para pior, o que realmente controla suas repercussões é a nossa reação a eles. Na verdade, são as nossas ações iniciais, em primeiro lugar, que transformam tais acontecimentos em momentos críticos, impedindo-nos de considerá-los como passagens previsíveis e, até mesmo, naturais da vida, que é o que eles realmente são. Infelizmente, nossas primeiras reações nos forçam a escolher respostas dramáticas (e, muitas vezes, desastrosas). Por exemplo, nossa primeira resposta à percepção de que o nosso emprego deixou de ser satisfatório talvez fosse chegar à conclusão de que há algo de errado com o emprego e, imediatamente, começar a procurar uma colocação em outro lugar, mas a solução com mais recompensas a longo prazo poderia ser, ao contrário, a de tentar reconsiderar e repensar o nosso emprego – a �m de reexaminar e reavaliar os pensamentos e sentimentos que alimentamos atualmente. Este livro abarca dez momentos críticos da vida adulta – começando com os relacionamentos (casamento, ausência de parceiros, �lhos), passando pelo dinheiro e pelo trabalho (insatisfação no emprego, sucesso e fracasso �nanceiros) e terminando com os problemas inerentes à meia-idade e à terceira idade (problemas de saúde, envelhecimento, arrependimentos). Sinta-se livre para começar pelos momentos críticos que digam mais respeito a você, ou sobre os quais tenha mais curiosidade. Espero que todos nós nos identi�quemos com boa parte dos desa�os e transições que descrevo aqui, já que alguns deles podem representar uma parte de nós mesmos, o modo como fomos ontem, como somos hoje e como seremos amanhã. Com o passar dos anos, as responsabilidades e as perdas se acumulam, e a vida se torna mais complexa, mais difícil, e, às vezes, mais confusa. Antes de as coisas se atropelarem, vale a pena analisar longa e detidamente as passagens principais e os pilares fundamentais das nossas vidas e o que motiva as nossas reações. Em vez de parecer assustadores ou deprimentes, os momentos críticos podem sinalizar uma oportunidade de renovação, de crescimento ou de mudança signi�cativa. No entanto, a maneira como você os acolhe é o que realmente importa: a ciência mostra que a sorte favorece a mente preparada. Apresento pesquisas de diversos campos – incluindo a psicologia positiva, a psicologia social, a psicologia da personalidade e a psicologia clínica –, de modo a ajudar aqueles que se veem diante de momentos decisivos e importantes a tomar decisões com sabedoria. Os estudos cientí�cos que discuto aqui lhe oferecerão uma perspectiva mais ampla – basicamente, uma visão global de sua situação particular –, e o levarão além de suas expectativas. Não posso indicar qual o caminho a escolher, mas posso ajudar a fornecer as ferramentas para que você, por conta própria, seja capaz de tomar decisões mais saudáveis e mais bem fundamentadas. Posso ajudá-lo a alcançar o estágio da mente preparada, aquele que sabe onde realmente podemos encontrar a felicidade e onde não podemos. Nossos momentos críticos – ocasiões em que, por um instante, sentimos que nossa vida nunca mais será a mesma, quando nos damos conta de algo ou recebemos notícias importantes – são momentos-chave em nossas vidas. São os momentos dos quais nos lembramos e a partir dos quais fazemos escolhas, momentos que temos de considerar e aos quais temos de responder. Isto é verdade não apenasquando nosso cônjuge se torna tão familiar para nós quanto um irmão – quando nos tornamos uma família –, deixamos de nos sentir sexualmente atraídos um pelo outro.59 Não é preciso ser um gênio para deduzir que, uma vez que o sexo em um relacionamento sério de longo prazo e monogâmico envolve o mesmo parceiro dia após dia, ninguém que seja verdadeiramente humano (ou mamífero) conseguirá manter o mesmo nível de desejo e ardor que experimentou quando seu cônjuge era algo novo e desconhecido.60 Podemos amar profundamente nossos parceiros, podemos idolatrá-los, podemos até estar dispostos a morrer por eles, mas esses sentimentos não se traduzem em uma paixão sustentada por anos a �o. Sustentando esta noção, inúmeras pesquisas têm demonstrado que o desejo, a satisfação e a frequência sexuais diminuem conforme a duração do relacionamento.61 Surpreendentemente, este padrão foi encontrado até mesmo em estudantes universitários (especialmente entre as mulheres) que namoram há menos de um ano. Na verdade, quando se trata de sexo, a idade não é um fator tão importante quanto as pessoas pensam. Por exemplo, se alguém quisesse prever quantas vezes um casal faz sexo, encontraria uma resposta mais precisa se levase em conta o tempo que ele está junto, mais do que a idade de ambos. Este estado de coisas enseja várias questões, começando pelo fato de evidenciar, claramente, que o amor apaixonado não dura para sempre. Além disso, nosso esquecimento geral de como esta adaptação hedonista é extremamente humana, natural e frequente nos leva a culpar a nós mesmos (ou aos nossos parceiros) pela diminuição da frequência ou do desejo – por perturbar a nossa fantasia do que o casamento deveria ser. A consequência pode ser um círculo vicioso: a paixão sexual reduzida é vista como um sintoma de que algo está errado com nosso relacionamento (quando é apenas um sintoma do processo normal de adaptação), o que provoca uma erosão ainda maior em nossa satisfação com o relacionamento, o que, por sua vez, enfraquece ainda mais o desejo sexual, e assim por diante.62 Livros com títulos como �e Sex- Starved Marriage: A Couple’s Guide to Boosting �eir Marriage Libido [O casamento sem sexo: guia de um casal para aumentar a libido no casamento] e Rekindling Desire: A Step-by-Step Program to Help Low-Sex and No-Sex Marriages [Reacendendo o desejo: um programa passo a passo para ajudar casamentos com pouco e nenhum sexo] se tornaram sucessos de vendas, porque muitos de nós, infelizmente – aliás, quase todos nós – enfrentamos este problema uma vez ou outra. Outro problema fundamental refere-se às diferenças de gênero. Ninguém se surpreenderia ao saber que as diferenças entre homens e mulheres entram em operação em uma discussão sobre o comportamento sexual. No entanto, as diferenças de gênero aqui acionadas podem surpreendê-lo. Começando com a informação previsível, dezenas de pesquisas con�rmaram o óbvio, mostrando que, em comparação com as mulheres, os homens têm fantasias sexuais mais frequentes, relatam um desejo sexual mais forte, pensam mais em sexo e gostariam de fazê-lo com mais frequência.63 Em sintonia com estes resultados, evidências observacionais, empíricas, clínicas e cientí�cas (para não falar dos exemplos de maior notoriedade, envolvendo homens proeminentes na política, nos esportes e na indústria do cinema) apontam para um fato aparentemente incontestável – o de que os homens são muito mais propensos do que as mulheres a abandonar o casamento.64 Além disso, as in�delidades masculinas, quando ocorrem, envolvem um maior número de parceiras sexuais65 (para um exemplo reconhecidamente extremo, a suposta contagem de Tiger Woods era de 121 mulheres).66 Portanto, seria lógico que os homens se adaptassem ao sexo com a mesma parceira mais rapidamente do que as mulheres. Mas, na verdade, os pesquisadores estão começando a suspeitar do contrário – são as mulheres que se adaptam mais rapidamente. Primeiro, os estudos mostram que, em um relacionamento de longo prazo, as mulheres estão mais propensas do que os homens a perder o interesse pelo sexo, e a perdê-lo mais cedo.67 Em segundo lugar, as mulheres parecem ser �siologicamente despertadas por uma gama muito maior de estímulos do que os homens,68 e a ser mais suscitadas por fantasias de sexo com estranhos69 – as descobertas sugerem que um parceiro familiar pode se tornar, rapidamente, cada vez menos excitante para elas do ponto de vista �siológico. Terceiro, a lascívia do sexo feminino tem sido descrita como dominada por um anseio de ser o objeto de um desejo poderoso e urgente – o de ser violada, cobiçada e requisitada.70 Considerando-se que os votos de casamento comprometeram o marido a ter relações sexuais com sua esposa – e apenas com a sua esposa – para sempre, a esposa se sentiria pressionada a convencer-se de que a decisão de fazer amor com ela nesta noite de sexta-feira seria um sinal genuíno do desesperado desejo do marido de possuí-la. Em parte por esta razão, Marta Meana, pesquisadora de assuntos relacionados ao sexo, argumenta que as mulheres precisam de um estímulo mais potente para ativar seu desejo sexual do que os homens. “Se eu não gosto de bolo tanto quanto você”, explica ela, “é melhor que o bolo seja muito atraente, para me animar a comê-lo”.71 Todas essas observações levam à conclusão de que os critérios das mulheres para o sexo apaixonado envolvem um limiar de excitação e um grau de novidade mais altos do que os masculinos. A�nal de contas, talvez meus amigos homens estejam certos ao a�rmar que, para eles, o sexo é como pizza – não existe esta coisa de pizza ruim ou de sexo ruim. Não é necessário dizer que as mulheres não concordam com isso. A PAIXÃO PODE SOBREVIVER? Descobriu-se que dois tipos de relacionamento fazem a paixão durar – relacionamentos que começam com baixas expectativas e nos quais o amor e o desejo crescem muito lentamente (por exemplo, em casamentos arranjados) e relacionamentos caracterizados por uma incerteza implacável (como os romances inconstantes, abusivos ou do tipo ata e desata). No entanto, tais relacionamentos têm custos muito altos ou que soam inaceitáveis para a maioria de nós. Mas e quanto às uniões em que há amor, estabilidade e comprometimento? Por um lado, conforme descrito anteriormente, muitas razões conspiram para transformar a busca da paixão permanente em um esforço infrutífero na maioria dos casamentos. Por outro lado, algumas pesquisas recentes oferecem pistas sobre como a intensidade e o interesse sexual podem ser reacendidos e preservados.72 Particularmente, uma fração pequena, porém signi�cativa de casados professa que a vida sexual com seus cônjuges ainda é fantástica, mesmo depois de décadas de casamento. Por exemplo, um estudo com 156 casais juntos, em média, há nove anos, determinou que 13% mostravam sinais de manutenção de níveis elevados de paixão, ainda que sem o componente obsessivo pernicioso observado nas fases iniciais do amor. Portanto, cabe a nós aprender com os seus segredos. Consideremos o exemplo oferecido pelo laboratório da professora Shelly Gable. Quase todos nós estabelecemos objetivos para os nossos relacionamentos, e Gable e seus alunos estavam interessados em estudar as diferenças entre as pessoas que tinham objetivos de “aproximação” versus de “evitação”. Um objetivo de aproximação envolveria batalhar por experiências positivas no relacionamento, como diversão, crescimento e intimidade, enquanto um objetivo de evitação signi�caria evitar o con�ito ou a rejeição.73 Eu terei objetivos de aproximação, por exemplo, se tomar para mim a responsabilidade de tornar o meu relacionamento com meu parceiro mais profundo e mais caloroso, e se eu conceber formas para que ambos cresçamos. Eu terei objetivos de evitação se concentrar minhas energias em evitar desentendimentos e brigas, e me esforçar para garantir que nada de ruim aconteça entre nós. Embora ambos os tipos de objetivos tenham seus usos, veri�ca-se que aqueles que nutrem objetivos do relacionamento de aproximação (seja no relacionamentocom o cônjuge, amigo, �lho ou patrão) estão mais propensos a �car satisfeitos com esse relacionamento, a ter uma atitude positiva e a ser menos solitários e inseguros.74 O que esses diferentes tipos de objetivos têm a ver com a paixão inabalável? Gable argumenta que aqueles cujo principal impulso é buscar experiências positivas com seus parceiros podem considerar a atividade sexual uma forma ideal de inserir positividade e intimidade em seus casamentos. Consequentemente, podemos pensar mais em sexo, e resolver fazer sexo mais vezes para agradar o nosso parceiro, ou para ajudar a desenvolver a intimidade. Podemos nos tornar mais sensíveis aos estímulos sexuais do nosso parceiro, reagir mais rapidamente e procurar situações propícias para os momentos íntimos. Ter objetivos de aproximação também pode, simplesmente, melhorar o nosso humor e nos deixar em um estado de espírito mais otimista, o que, em si mesmo, pode aumentar o desejo. Para testar essa ideia, Gable e seus alunos conduziram uma série de estudos em que rastrearam o desejo sexual de seus participantes diária ou quinzenalmente, bem como seus objetivos de aproximação e de evitação, incluindo objetivos sexuais (por exemplo, eu �z sexo “para atender ao meu próprio prazer sexual” ou “para expressar o amor pelo meu parceiro”, versus “para evitar que o meu parceiro �que chateado” ou “para evitar que o meu parceiro perca o interesse em mim”).75 Os participantes que apresentavam objetivos de evitação em seu relacionamento informaram que o desejo sexual diminuiu ao longo dos seis meses do estudo, mas aqueles que tinham objetivos de aproximação não observaram absolutamente nenhum declínio. Além disso, quando tanto o desejo sexual quanto os diferentes acontecimentos em um relacionamento (brigar para decidir o que fazer nas férias, uma visita surpresa de um amigo em comum) foram acompanhados de um dia para o outro, os pesquisadores descobriram que as pessoas com objetivos de aproximação, em comparação com aquelas com objetivos de evitação, se sentiam ainda mais apaixonadas nos dias bons e vivenciavam uma diminuição da paixão nos dias ruins menor do que a esperada. Estes resultados são encorajadores, sugerindo que seria bom que todos nos esforçássemos para aumentar as experiências positivas em nossos relacionamentos, em vez de evitar as negativas. Sem dúvida, os terapeutas conjugais e sexuais podem oferecer estratégias e ferramentas adicionais para ajudar muitos casais, incluindo a importância de infusões periódicas de novidade, variedade e surpresa, conforme discutido anteriormente. O resultado �nal, no entanto, é que a ciência tem descoberto muito pouco sobre como manter o amor apaixonado, ou se ele é viável, até mesmo dentro de uma minoria de casamentos. Se esta é uma boa ou má notícia, depende do que achamos disso. Minha opinião é que a diminuição do amor apaixonado – assim como crescer ou envelhecer – é, simplesmente, parte de nossa condição humana. COMO ALIMENTAR O SEU RELACIONAMENTO Este capítulo é sobre a sensação irrefutável de que, na melhor das hipóteses, temos um casamento “mais ou menos”. Não há grande crise, traição ou incompatibilidade – apenas uma progressiva consciência do tédio ou de insatisfação. Além disso, a ausência de um grande trauma pode ter um efeito insidioso, fazendo com que nos sintamos culpados por nosso próprio descontentamento aparentemente “trivial”. No entanto, o descontentamento não é trivial, e pode até representar um divisor de águas em nossa relação. Por isso, é fundamental reconhecer que grande parte de nossa insatisfação decorre do processo de adaptação hedonista, que essa adaptação é natural e previsível, e que os passos validados empiricamente para retardá-la, impedi-la ou neutralizá- la (conforme já descrito) devem ser tomados, idealmente, muito antes do nosso casamento entrar em apuros. Se pudermos entender que a di�culdade é uma parte inerente dos relacionamentos sérios, tanto ou quanto a alegria – que quase todos nós nos deparamos com paixões e satisfações em declínio –, trabalhar para aprimorar o relacionamento parecerá menos assustador e mais vantajoso. Ao aprender que não há fórmula mágica para a felicidade em um casamento, mais escolhas para o futuro se abrirão para nós. Eu seria negligente se não mencionasse as muitas outras estratégias para fortalecer os nossos relacionamentos íntimos, apresentadas por diversos teóricos, psicólogos clínicos e autores de manuais de casamento. Dentre as práticas recomendadas estão arranjar tempo para �car juntos e conversar, comunicar-se habilmente (isto é, ouvir verdadeiramente, estar “em sintonia” com o outro e transmitir admiração, gratidão e afeto), gerir os con�itos, ser gentil, solidário e leal, e compartilhar sonhos, rituais e responsabilidades um com o outro.76 Embora não sejam destinadas especi�camente ao combate da adaptação hedonista, tem sido demonstrado que estas técnicas melhoram a qualidade e a satisfação de nossas parcerias e, por isso, aplacam o tédio do relacionamento. Ofereço aqui três estratégias adicionais, baseadas em evidências. BENEFICIANDO-SE COM AS BOAS NOTÍCIAS DO SEU PARCEIRO Uma das minhas linhas favoritas de pesquisa é como os casais compartilham experiências positivas entre si. Muitos concordam que um dos maiores benefícios do casamento é ter uma pessoa a quem você possa se dirigir diante de acontecimentos estressantes, negativos ou traumáticos. Entretanto, parece que, embora muitas vezes nos voltemos para os nossos parceiros para que eles nos ajudem a lidar com as piores coisas que nos acontecem – e, implicitamente, julguemos o nosso relacionamento a partir do nível de seu apoio, compaixão e sensibilidade –, também recorremos a eles, muitas vezes, para compartilhar as melhores coisas (de fato, estudos mostram que as pessoas fazem isso diariamente, entre 70 e 80% do tempo.)77 A descoberta surpreendente é que os relacionamentos mais próximos, mais íntimos e mais con�antes parecem se distinguir não pela forma como os parceiros respondem a decepções, perdas e retrocessos um do outro, mas como reagem às boas notícias. Os relacionamentos que se revelaram prósperos foram aqueles em que os dois elementos do casal respondem “ativa e construtivamente” – isto é, com interesse e prazer – à sorte e ao sucesso um do outro.78 Quando seu marido conta que será promovido, uma resposta marcada pela alegria e por perguntas entusiasmadas o faz saber que você compreende o signi�cado de sua realização (tanto para ele quanto para você), torna esta realização ainda mais memorável, valida a sua importância e indica que você se importa. Homens e mulheres que dizem que seus parceiros respondem desta forma “ativa-construtiva” relatam os mais altos níveis de satisfação, con�ança e intimidade em seus relacionamentos. Infelizmente, nem sempre reagimos às boas notícias de nossos parceiros (ou eles às nossas) da melhor forma possível e, muito pelo contrário, acabamos oferecendo respostas que prejudicam nossos relacionamentos. Os pesquisadores descobriram, por exemplo, que quando tomamos conhecimento da promoção do nosso cônjuge, se formos silenciosamente favoráveis (expressando pouco ou nenhum entusiasmo), apontarmos as di�culdades ou desvantagens (“Você terá que trabalhar nos �ns de semana” ou “Isso signi�ca que vamos ter que nos mudar?”) ou não dissermos nada, estaremos minando a felicidade, o afeto e a con�ança de nosso relacionamento. Em suma, apreciar, validar e “valorizar” a boa notícia do nosso parceiro é uma estratégia e�caz para reforçar nosso relacionamento e, assim, intensi�car o prazer e a satisfação que podemos obter a partir daí – resumindo, impedir a adaptação hedonista. Um estudo mostrou que as pessoas que se esforçavam para demonstrar entusiasmo, apoio e compreensão genuínos diante das boas notícias de seus parceiros, por menores que fossem – e que faziam isso três vezes por dia durante uma semana –, se tornavam mais felizes e menos deprimidas.79 Nunca é tarde demais para começar. AJUDANDO O PARCEIRO A ATINGIR O SEU “EU” IDEAL Muitotem sido dito e escrito sobre a importância de “comportamentos positivos” nos relacionamentos, semelhantes aos que acabei de descrever (comportamentos de valorização, validação, respeito, conforto e compreensão). No entanto, como abordarei mais adiante, ser muito positivo ou ser sempre positivo pode não ser muito adequado aos nossos casamentos, chegando a prejudicá-los. Um determinado comportamento positivo, porém, tem propriedades especiais no que diz respeito ao aumento da prosperidade, tanto de nossos relacionamentos quanto de nossos parceiros. Os pesquisadores o chamam de a�rmação do parceiro – o ato de acreditar, apoiar e validar valores, objetivos e sonhos de nossos parceiros. Enquanto estamos pensando em como concretizar nossas próprias ambições e aspirações, grandes são as chances de que estejamos concentrados nos passos que devemos tomar e nos esforços que devemos reunir ao longo do caminho. O que provavelmente subvalorizamos é o papel que as pessoas mais próximas podem desempenhar, nos ajudando imensamente – e, às vezes, sem percebermos – a alcançar nossos objetivos. O grau de sucesso que obtemos no fortalecimento de nossa personalidade, na aprendizagem de novas habilidades e na aquisição de novos recursos é, muitas vezes, moldado por outras pessoas, e, especialmente, por nossos parceiros íntimos ou cônjuges. Os pesquisadores argumentam que “as pessoas são levadas a re�etir sobre o que seus parceiros veem nelas e o que depreendem”80 – uma descoberta com um lindo nome, o fenômeno Michelangelo, em homenagem ao artista renascentista italiano que esculpiu o David de Florença, e que, supostamente, teria dito: “Eu vi um anjo no mármore e esculpi até libertá-lo”.81 Como os escultores, temos a capacidade de in�uenciar e moldar os nossos parceiros, de tal forma que eles sejam capazes de realizar seus “eus” ideais – suas ambições mais elevadas e mais profundas sobre si mesmos. Este processo pode-se dar de forma gradual e sutil. Por exemplo, se meu marido fosse muito tímido, eu poderia ajudá-lo a se tornar mais extrovertido e alegre, estimulando discretamente as conversas durante o jantar, de modo a criar a oportunidade perfeita para que ele deliciasse os convidados com uma de suas mais encantadoras histórias.82 Além disso, minha expectativa de que ele se socialize pode aumentar sua própria con�ança e dar origem a uma profecia autorrealizável (ou melhor, que realiza o parceiro). Também posso extrair o melhor dele – consciente ou inconscientemente –, desencorajando-o ou afastando-o de quaisquer situações ou comportamentos que frustrem seus objetivos (como fazer com que ele evite se sentar sempre ao lado de uma pessoa conhecida em uma festa). Quando este processo de escultura – o fenômeno Michelangelo – é bem- sucedido, nossos parceiros acabarão por se assemelhar à pessoa que eles querem ser (e que nós também queremos), nosso relacionamento terá sido fortalecido, e nós dois, �nalmente, nos tornaremos mais felizes, como indivíduos e como casal.83 Quando nosso cônjuge nos rea�rma e ajuda a nos aproximarmos de nossos “eus” ideais, não nos sentimos mais felizes e mais vivos apenas porque estamos cumprindo nossos objetivos, mas porque nos consideramos verdadeiramente compreendidos, satisfeitos e gratos. Nosso amor cresce quando reconhecemos o quanto nosso cônjuge cuida de nós e está se esforçando para nos apoiar e encorajar. E, quando somos nós que rea�rmamos o nosso cônjuge, percebemos um amor ainda mais forte, que deriva do apoio que estamos oferecendo (“Se estou fazendo todas essas coisas por ela, devo, realmente, adorá-la”), e o olhar cada vez mais positivo do nosso cônjuge em decorrência de tal apoio (“Estou descobrindo que ela é uma pessoa incrivelmente criativa”). Por �m, �camos pessoalmente mais felizes, porque fazer o bem para os outros, como tem sido demonstrado em diversos estudos, estimula o bom humor e o bem-estar geral, provavelmente como resultado do reforço dos vínculos sociais e dos sentimentos elevados de autoe�cácia e otimismo.84 O PODER DO TOQUE Quando falamos da importância do toque em um relacionamento amoroso, pensamos, com toda a probabilidade, em sexo. Esta ligação automática entre o toque e a atividade sexual é lamentável, porque a importância e o impacto do toque são muito maiores e mais fortes do que isso. Um tapinha nas costas, um aperto de mão, um abraço, um braço em torno do ombro. Tais gestos são, com frequência, extremamente rápidos e, às vezes, quase imperceptíveis. Mas só porque um leve toque é, muitas vezes, imperceptível, não signi�ca que ele seja inconsequente. Na verdade, a ciência do toque sugere que ele pode salvar um casamento “mais ou menos”. A importância do contato físico para a vida humana – para não mencionar a vida animal – é inquestionável. Pesquisadores em campos distintos, como psicologia, antropologia e etologia têm observado os usos do toque em uma ampla gama de comportamentos, incluindo comunicação de poder ou status, �erte, brincadeiras, reconciliação, conforto, cooperação e transmissão de emoções especí�cas.85 O toque nos bebês recém-nascidos é, notavelmente, o mais desenvolvido de todos os seus sentidos.86 Para os bebês, o contato físico está ligado a uma melhor saúde física e mental,87 conforme evidenciado, por exemplo, pelos benefícios do “método canguru”, isto é, de contato direto com a pele da mãe, em bebês prematuros, e pelo grande dano sofrido por órfãos privados de toque. Por último, mas igualmente importante, como �cou poderosamente demonstrado por um casal de famosos psicólogos do desenvolvimento, o contato físico é fundamental para que uma criança desenvolva um saudável sentido de vinculação e de segurança ao se relacionar com quem lhe presta cuidados.88 O toque, o amparo e o carinho de um dos pais, por exemplo, faz com que a criança se sinta segura e protegida, e é essa sensação de segurança que lhe dá permissão para explorar o mundo por conta própria e assumir riscos, mesmo em situações desconhecidas.89 Surpreendentemente, até mesmo as crias (�lhotes) de aranha estão mais propensas a explorar um novo ambiente se a aranha-mãe as tiver tocado com mais frequência.90 Por outro lado, tanto os bebês humanos quanto os �lhotes de animais privados de toque demonstram medo, descon�ança e uma relutância à exploração. A importância do toque é inegável, embora seja extremamente subvalorizada. Evidentemente, existem notáveis diferenças culturais (e subculturais) na aceitabilidade e na difusão do contato físico na vida cotidiana. Casais gregos e italianos, por exemplo, usam mais o toque em suas interações do que casais ingleses, franceses e holandeses.91 Uma diferença cultural como essa, pessoalmente, me impressionou bastante durante minhas primeiras semanas na faculdade, pois era a primeira vez que eu morava longe de casa. Vinda de uma família russa, cresci com enorme contato físico, beijos e abraços, e eu não sabia, até chegar à faculdade, que nem todos se comportavam da mesma maneira. Na verdade, ainda me lembro de ter �cado confusa com uma cena da série A Família Sol, Lá, Si, Dó, em que a �lha mais velha, Marcia, vai até a mãe para lhe dar um beijo, e a mãe responde (sem qualquer traço de indelicadeza): “Por que você fez isso?”. Marcia precisa de um motivo para beijar a sua mãe? Também me surpreendi ao saber que alguns amigos praticamente não haviam presenciado qualquer forma de toque ou de carinho físico entre os pais (e também haviam recebido muito pouco, particularmente na adolescência, e além desta fase). Em suma, muitas famílias e casais nos Estados Unidos e em dezenas de outras culturas ocidentais e orientais adotam os comportamentos de mínimo de toques não sexuais. Se você se sentir entediado ou indiferente em relação ao seu relacionamento, a inserção diária de mais toques e carinhos (não sexuais) contribuirá bastante para reacender o afeto e a ternura, e talvez, até, a paixão plena, que �cou perdida no tempo. Estudos mostram que um simples toque pode ativar regiões de recompensa em nossos cérebros, reduzir a quantidadede hormônios do estresse em nossa corrente sanguínea e mitigar a dor física por meio da diminuição da ativação das partes do cérebro associadas ao estresse.92 Estas descobertas implicam dizer que o contato físico é praticamente um medicamento; quando nosso cônjuge nos toca, experimentamos uma estimulação moderada, nos sentimos menos esgotados e observamos uma diminuição do desconforto e da angústia. Nosso cônjuge também pode nos comunicar seus sentimentos através do toque. Embora essa observação possa parecer óbvia, a capacidade das pessoas de decodi�car emoções distintas a partir de um mero tapinha no braço foi, de fato, testada. Em uma série de estudos, por exemplo, pares de participantes que não se conheciam, provenientes da Espanha e dos Estados Unidos, foram convidados a ir até um laboratório, onde foram posicionados em ambos os lados de um anteparo, de modo que não podiam ver um ao outro.93 Um dos membros de cada par era, então, instruído a tocar o outro no antebraço, através de um orifício no anteparo, de forma que expressasse uma emoção particular. Os participantes que foram tocados (bem como os observadores que simplesmente assistiram ao toque) conseguiram identi�car seis emoções distintas transmitidas pelo toque – amor, gratidão, compaixão, raiva, medo e desprezo. Além disso, quando seus parceiros foram autorizados a tocar em qualquer parte (apropriada) do corpo, e não apenas no antebraço, os participantes conseguiram identi�car mais duas emoções – felicidade e tristeza.94 Esta capacidade de reconhecer emoções distintas a partir de um simples toque pode ser inestimável nas inúmeras situações possíveis de um relacionamento. Um pequeno gesto de carícia que transmite amor pode atenuar uma briga. Uma batidinha nas costas comunicando gratidão pode reforçar a intimidade. Um abraço comunicando a felicidade pela mais recente conquista de nosso cônjuge pode promover a satisfação. Os cientistas também demonstraram que certas formas de contato nos fazem recordar da sensação de segurança que provavelmente sentimos há muito tempo, no abraço de nossa mãe ou de nosso pai. Um tapinha nas costas ou no ombro pode, assim, desencadear sentimentos de segurança e conforto, o que nos leva a ser mais ousados e a assumir riscos (de preferência, de forma proveitosa).95 Além disso, os cientistas podem prever quais casais permanecerão juntos ou se divorciarão, tomando por base mais a sua comunicação não verbal (como toques e pequenos gestos) do que a sua comunicação verbal.96 Tente aumentar o nível de contato físico em seu relacionamento a cada semana, com uma série preestabelecida de ações. Por exemplo, durante a primeira semana, acaricie as costas ou o braço do seu cônjuge todas as vezes que vocês se cruzarem na cozinha; na segunda semana, sente-se sempre perto o su�ciente para poder tocá-lo; na terceira, nunca deixe de se despedir ou de cumprimentá-lo com um beijo, e assim por diante. É claro que, dependendo da personalidade, da formação e do histórico familiar de ambos, a predileção ou a disponibilidade ao toque não sexual podem variar muito. Se o nível de conforto for baixo para algum de vocês, seria melhor agir lenta e delicadamente e, se isso ajudar a sua situação particular, discuta em conjunto seus objetivos em relação ao contato físico. A MENTE PREPARADA Talvez você estivesse convencido de que já havia encontrado todas as respostas. Você encontrou “o cara”, você se casou, você estava feliz. Com o tempo, no entanto, as recompensas deixaram de ser tão intensas. Você começou a ter dúvidas e a �car descontente; depois, vieram os suspiros de indiferença e de monotonia, e, por �m, os anseios por algo a mais. A percepção de que o seu casamento não está mais conseguindo lhe trazer felicidade não é o �m da estrada, e tampouco, o começo. Este capítulo procura explicar as suas experiências, legitimá-las, oferecer maneiras alternativas de reinvestir em seu relacionamento e exige que você tenha uma mente preparada. Para muitos, a primeira reação ao sentimento de estar entediado e infeliz é concluir que deve haver algo de errado consigo mesmo ou com o relacionamento, e atribuir a culpa a alguém. O seu “primeiro pensamento” é que, se o seu casamento não satisfaz todas as suas necessidades de intimidade, paixão e companheirismo, você (ou o seu parceiro) fracassou. Antes que você possa compreender que tipo de mudança é possível e qual não é, é preciso deixar para trás estes primeiros pensamentos e dar atenção a seus pensamentos secundários. Esta perspectiva mais ancorada na razão signi�ca compreender o conceito da adaptação hedonista. Ter consciência da onipresença desse fenômeno pode levá-lo a reconhecer que suas queixas conjugais são naturais e comuns, eximindo, assim, tanto você quanto o seu cônjuge das responsabilidades, e a tomar medidas para retardar o processo de adaptação. Nesse momento, você pode alcançar uma percepção mais positiva do seu relacionamento. O curso ideal de ação é começar a praticar as estratégias de impedimento da adaptação e de desenvolvimento do relacionamento o mais rápido possível. A escolha da estratégia inicial dependerá de suas preferências, recursos e necessidades. Alguns podem começar mobilizando esforços para injetar entusiasmo, novidade, variedade e/ou surpresa em seus casamentos. Outros podem optar por demonstrar apreço por seus relacionamentos, ajudando a revelar a melhor pessoa que o parceiro pode ser ou respondendo com mais entusiasmo quando o parceiro for bem-sucedido. Dentro e fora do quarto, você pode optar por mudar seus objetivos para um modo de “aproximação” mais positivamente orientado, ou tocar o seu parceiro com mais frequência e regularidade. No entanto, se os seus esforços se mostrarem infrutíferos, talvez seja a hora de concluir que sua perda de interesse e de paixão não poderá ser salva, ou, então, que não vale a pena salvá-la. Por isso, este caminho alternativo signi�ca abandonar o seu parceiro e sair em busca de um novo amor. Esta opção pode trazer grande felicidade, especialmente se você tiver a sorte de encontrar um parceiro incrível. Cuidado, porém, porque este caminho também pode gerar grande decepção, já que há uma grande probabilidade de as paixões oscilarem no novo relacionamento, exatamente como aconteceu no anterior. Você, agora, está bastante consciente de que o ritmo natural de adaptação, sem dúvida, se repete. A forma de agir em face a este conhecimento dependerá de você. CAPÍTULO 2 Não poderei ser feliz se... meu relacionamento terminar Há uma história bem conhecida nos círculos acadêmicos sobre um eminente professor cuja esposa não falava mais nada de signi�cativo com ele, a não ser sobre as compras do dia. Uma noite, no teatro, ele teve uma epifania. Ele estava assistindo a uma peça em que a vida do personagem principal é contada aos vinte, trinta, quarenta anos, e assim por diante, e, a cada década, o homem vai vivendo uma vida cada vez mais próxima de um desespero silencioso. Depois de terminada a peça, o professor pensou: “Esse poderia ser eu”. Naquela noite, ele decidiu se separar de sua esposa, abandonou seu emprego em Michigan e voltou para a sua cidade natal, Nova York. Hoje, ele e sua ex- esposa se casaram novamente e são felizes, vivendo a milhares de quilômetros de distância um do outro, cada um com uma nova família. É preciso reconhecer que esta história é um pouco exagerada; poucos de nós chegamos à conclusão, de um momento para o outro, de que nos casamos com a pessoa errada e agimos de acordo com esse primeiro pensamento. É muito mais frequente que esse pensamento �que indo e vindo por semanas ou meses, ou, até mesmo, anos. Na verdade, as fantasias de divórcio são muito comuns, e, como seria de se esperar, são muito mais comuns entre as pessoas que, no �nal das contas, acabam se divorciando. Além disso, uma fantasia de divórcio não se materializa do nada. A percepção de que nosso relacionamento está em crise é, de modo geral, precipitada por um ou mais acontecimentos cruciais – talvez, um sentimento de solidão,estar em sintonias completamente diferentes, não se preocupar mais com o bem-estar do outro ou descobrir uma in�delidade. Este capítulo aborda o enfrentamento um problema aparentemente insuperável em seu relacionamento de longo prazo ou casamento. Talvez vocês dois estejam atormentados por diferenças irreconciliáveis a respeito de suas �nanças, ou onde vão �xar residência, ou se vão ou não ter �lhos. Uma das alternativas é que um de vocês tenha mudado completamente, tido um caso extraconjugal, deixado de amar ou se recusado a parar de beber. Sem dúvida, trata-se de um momento extremamente penoso e doloroso. Você fantasia sobre o divórcio e, mesmo assim, se mostra bastante preocupado em realmente ter de passar por esta situação, convencido de que sua vida familiar estará para sempre arruinada. No entanto, tal ansiedade e tal sofrimento podem estar baseados, notadamente, em uma crença silenciosa em um determinado mito da felicidade – o de que você não conseguirá ser feliz depois de terminar seu relacionamento ou de se divorciar. Como quase todos sabem, a experiência de um amor que se acaba ou de um casamento desfeito pode ser pungentemente difícil no seu momento mais negro, mas os seres humanos são mestres em sobreviver e, até mesmo, prosperar nas piores situações. Somos excepcionalmente engenhosos na elaboração de soluções e em encontrar caminhos positivos. Ao descrever inúmeras destas soluções e caminhos, pretendo, de um lado, refutar esse mito da felicidade e, de outro, detalhar os modos especí�cos para estar à altura da situação e seguir em frente. Um bom casamento lhe dá asas e traz à tona o melhor de você. Um casamento conturbado o aprisiona e revela a sua pior natureza. No entanto, um casamento conturbado não signi�ca que a sua vida acabou ou que a sua chance de felicidade se foi. As pesquisas sugerem uma série de caminhos a seguir. Uma das formas de agir é preservar o relacionamento e se ajustar a ele (veremos mais sobre isso a seguir). Outra é colocar-lhe um �m (veja a seguir também). Mas a forma mais otimista é aprimorá-lo e reforçá-lo – isto é, tentar salvar seu casamento. Este é o caminho com o qual eu começo. UMA NOVA DINÂMICA: FORTALECENDO A SUA RELAÇÃO EMOÇÕES POSITIVAS SÃO ANTÍDOTOS CONTRA EMOÇÕES NEGATIVAS Se valer a pena alimentar ou aprimorar o nosso relacionamento, muitos de nós, provavelmente, já estamos bastante familiarizados com as várias formas de fazê- lo. Conforme descrito no capítulo anterior, os terapeutas de casal e de família aconselham que tentemos um sem-número de aproximações, incluindo não considerar nossos parceiros como algo corriqueiro, expressar nossa admiração por eles, compartilhar nossos sonhos e demonstrar-lhes o tipo de gentileza que demonstramos aos outros. É mais fácil falar do que fazer. Quando bombardeada por grandes problemas e previsões de um futuro mais sombrio, esta espécie de lista de tarefas conjugais parece não apenas exagerada, mas claramente irreal. É mais viável, talvez, “satisfazar” (um amálgama de “satisfazer” e “bastar”) em nossos casamentos – ou seja, esforçar-se para ser um cônjuge su�cientemente bom para um marido ou uma esposa su�cientemente bons, em um casamento su�cientemente bom. Há momentos na vida em que nosso objetivo primordial deve ser abordar diretamente os pontos negativos de um casamento problemático, e ofereço recomendações úteis para esta situação nas seções a seguir, sobre como conviver e perdoar. No entanto, os psicólogos positivos constataram que, por vezes, o melhor caminho para a felicidade e a prosperidade não é o enfrentamento direto, mas o transversal. Em outras palavras, em vez de se concentrar em como corrigir os pontos negativos e os problemas conjugais, podemos usar emoções, pensamentos e comportamentos positivos para neutralizar os negativos. Assim, por exemplo, em vez de lutar veementemente para minimizar as emoções negativas (como a perda do encanto ou a raiva) que se misturam internamente quando estamos com o nosso cônjuge, pretenderemos atingir o mesmo objetivo pela maximização de nossas emoções positivas (como a tranquilidade ou a afeição). Em vez de lutar veementemente para reduzir nossos pensamentos negativos (como as ruminações por não nos julgarmos merecedores de determinado parceiro), devemos procurar desenvolver os positivos (por exemplo, pensamentos de que o futuro será melhor do que o passado), sob a noção de que pensamentos positivos anulam os negativos. Em vez de lutar veementemente para reduzir comportamentos negativos em nosso relacionamento (como brigas ou revirar os olhos em sinal de desprezo), devemos procurar multiplicar os comportamentos positivos (como risadas ou palavras amáveis), de modo que eles possam compensar os negativos. Quando nosso relacionamento não estiver em uma boa fase – ou tiver atingido o fundo do poço –, cultivar mais pensamentos, emoções e comportamentos positivos pode parecer uma batalha difícil e inútil. Talvez seja a última coisa que você queira ou tenha condições de fazer. No entanto, as pesquisas indicam que, neste exato momento, tal estratégia é mais do que necessária ou válida. Considere as rotas de voo de uma companhia aérea – do tipo que você encontra na parte de trás de uma revista de bordo editada em papel lustroso. Uma vez que voos regulares saem e chegam de centenas de cidades, todas as cidades maiores e menores estão conectadas às demais. Algumas cidades são centrais, por isso muitos voos se dirigem a elas, e outras têm apenas algumas conexões, tornando-se necessário que você mude de avião várias vezes para chegar ao seu destino. Os psicólogos cognitivos, que estudam estados mentais internos, defendem a ideia de que todos nós temos extensas “redes semânticas”, que se parecem um pouco com estas rotas aéreas. Ao contrário das cidades que se conectam a outras de várias maneiras, as redes semânticas são compostas por todas as nossas memórias e pensamentos interligados. Assim, Los Angeles está ligada a São Francisco por uma linha espessa (representando muitos voos), mas está conectada a Fresno por uma linha muito �na (representando apenas um ou dois voos). Da mesma forma, sua memória de ter �cado acamado por conta de uma pneumonia pode estar fortemente conectada a uma memória da viagem de negócios que você foi obrigado a cancelar, e tenuemente ligada à memória de ter tido catapora quando criança. Se você está desiludido com o seu casamento, é provável que tenha desenvolvido dezenas – ou, até mesmo, centenas – de memórias negativas, suposições pessimistas, imagens irascíveis e prognósticos cínicos. Tudo isso está conectado na rede semântica do seu cérebro, de tal forma que uma memória ruim leva você a se lembrar de outra, e um pensamento ansioso ativa outra meia dúzia de pensamentos ansiosos. Esta é uma das razões pelas quais, em um casamento problemático, uma discussão a respeito de um incidente insigni�cante pode, com muita facilidade e rapidez, se transformar em acusações por faltas cometidas anos atrás (“Você nunca se preocupou com a minha carreira; você se lembra da época em que eu fui promovido, em 1988?”) ou em prognósticos catastró�cos (“Eu simplesmente não consigo me imaginar tendo um �lho com você”). Não é de surpreender que este tipo de rede semântica extremamente negativa pode ser nociva, levando a círculos viciosos nos quais nossos problemas só tendem a piorar. Por esta razão, os terapeutas cognitivos, normalmente, costumam tratar a depressão e a ansiedade (e não apenas os casamentos em crise), tentando acabar com as associações negativas nas redes semânticas de seus clientes. A crença de que você é pouco atraente, por exemplo, pode estar ligada à memória da ocasião em que sua esposa comentou sobre seu ganho de peso e à ideia �xa de que ela não o ama mais. O trabalho do terapeuta é contestar esses pensamentos usualmente distorcidos, desa�ando, literalmente, a sua lógica ou oferecendo uma interpretação mais benevolente. A terapia cognitiva é bastante e�caz,97 em parte porque, muitas vezes, é extraordinariamente bem-sucedida ao dissociarnossos pensamentos e memórias pessimistas uns dos outros. No entanto, uma vez que nem todos têm tempo, recursos ou meios para frequentar um terapeuta, ofereço aqui uma estratégia alternativa para lidar com redes semânticas negativas. Ela envolve não interromper a conexão entre determinados pensamentos e memórias especí�cas (o que, muitas vezes, tem de ser laboriosamente executado individualmente), mas infundir, em toda a rede semântica, emoções positivas, que atuarão, essencialmente, para dissolver ou enfraquecer as conexões entre todas as nossas imagens, memórias e pensamentos negativos, rancorosos, revoltados e dolorosos. Como isso funciona? As emoções positivas têm propriedades notáveis, que as permitem servir como um antídoto contra os estados negativos. Sentimentos de alegria, satisfação, interesse, serenidade ou orgulho podem nos ajudar a perceber nossos casamentos sob uma perspectiva mais ampla e proporcionar uma “pausa psicológica” em meio à tensão e à provação conjugais, diminuindo o impacto de quaisquer experiências desagradáveis. Além disso, tais estados positivos podem anular diretamente os efeitos esporádicos das emoções negativas. Por exemplo, uma discussão com o nosso cônjuge normalmente nos induz a �car totalmente alterados – instantaneamente, observamos picos na pressão arterial, na frequência cardíaca e na temperatura da pele. Deve-se observar que um simples sentimento positivo transitório (o prazer do sol em nosso rosto, pensar que vamos sair para almoçar) pode acelerar nossa recuperação deste estado pouco saudável. Assim, até mesmo as emoções positivas breves ou insigni�cantes, quando confrontadas com problemas, podem desenvolver a nossa resiliência e nos ajudar a nos recuperar.98 Estudos também têm demonstrado que, quando vivenciamos alegria, contentamento, curiosidade ou orgulho, nos sentimos prontos para enfrentar o mundo; �camos mais conscientes, criativos e abertos a novas experiências; nos sentimos mais con�antes e mais unidos com aqueles que nos são íntimos; atribuímos mais signi�cado à vida; e temos a sensação de estar no comando de nossos próprios destinos.99 E, além disso, quanto mais emoções positivas sentirmos, mais pensamentos e experiências positivas colheremos, até o ponto em que nossas emoções positivas acabem desenvolvendo toda uma vida própria, gerando saudáveis espirais ascendentes. Como disse Barbara Fredrickson, a maior especialista do mundo no estudo das emoções positivas, “as emoções positivas (...) desbloqueiam os caminhos do crescimento, levando as pessoas a se tornarem versões melhores de si mesmas”.100 A busca de uma proporção de três para um. Todos sabemos – na verdade, sempre soubemos – que emoções positivas, satisfações e pequenos prazeres provocam sensações realmente boas. Mas agora sabemos que os prazeres das emoções positivas escondem de nós e de nossos relacionamentos o seu verdadeiro valor. O próximo passo é decifrar exatamente o que temos de fazer – quando, como e quanto – para trazer mais emoções positivas para as nossas vidas. Com base em mais de uma década de pesquisas do seu próprio laboratório e de laboratórios de outros cientistas, Fredrickson a�rma que procuramos experimentar pelo menos três vezes mais emoções positivas do que emoções negativas em nossas vidas – ou seja, uma proporção de emoções positivas para negativas de, no mínimo, três para um.101 Ela descobriu que todas as pessoas mais prósperas, todos os casamentos mais prósperos e todos os grupos de trabalho mais prósperos – aqueles que exibem crescimento, generosidade e resiliência – demonstram ter proporções maiores do que três para um. Quando nos encontramos abaixo dessa proporção, as emoções positivas (ou pensamentos ou interações sociais positivas) que experimentamos são insu�cientes para respaldar o funcionamento em níveis ótimos. Isto signi�ca que, se experimentamos aproximadamente a mesma quantidade de emoções positivas e negativas – e, até mesmo, se experimentamos o dobro de emoções positivas em relação às negativas –, estamos suscetíveis a �car debilitados, solitários e angustiados. Por exemplo, casais felizes se caracterizam por proporções de cerca de cinco para um em suas expressões verbais e emocionais mútuas, enquanto casais infelizes exibem proporções de menos de um para um. Signi�cativamente, as mesmas proporções ideais entre emoções boas e ruins (de cinco para um) caracterizam as equipes de trabalho produtivas, em comparação com as menos produtivas. Os cientistas que documentam o cotidiano das pessoas também descobriram que os indivíduos mais saudáveis e prósperos costumam relatar o aparecimento de cerca de três eventos bons a cada dia para cada evento ruim.102 Evidentemente, isso não signi�ca que as experiências negativas são três vezes piores do que as positivas, mas o que a ciência sugere é que o “impacto” de uma emoção ruim, de uma observação verbal irônica ou de um evento desagradável na vida pode se igualar ou superar o de três ou mais acontecimentos bons. Por isso, seria melhor lutar três vezes mais pelas experiências boas em detrimento das más, e, idealmente, cerca de cinco vezes mais. John Gottman, pesquisador do tema do matrimônio e terapeuta de casais, a�rma que consegue prever quais casais irão se divorciar, simplesmente levando em consideração a magnitude da proporção entre as experiências boas e ruins em suas interações mútuas.103 Minha recomendação é fazer um diário dos acontecimentos positivos e negativos que ocorrem entre você e seu parceiro – por exemplo, quantas vezes por semana vocês brigam, demonstram afeto, expressam gratidão, criticam, ignoram, e assim por diante. Calcule a sua proporção entre as coisas boas e ruins, e determine-se a aumentar o numerador (ou os eventos positivos no seu casamento – em outras palavras, faça amor, não a guerra) e a reduzir o denominador (ou os eventos negativos – por exemplo, antecipando e cortando um con�ito pela raiz). Em outras palavras, da mesma forma que acontece com sua conta bancária, seu objetivo deve ser o de fazer muito mais depósitos (positivos) em nome do seu casamento do que saques (negativos). Sugiro perguntar-se a cada manhã: “O que posso fazer hoje, durante cinco minutos, para tornar a vida do meu parceiro melhor?”. Estudos têm demonstrado que comportamentos muito simples – por exemplo, rememorar um evento enfadonho e engraçado, revelar algo particular, sorrir, ouvir atentamente as palavras do parceiro, mostrar-se entusiasmado e ser brincalhão ou bem- humorado – podem afetar nossa felicidade e intimidade conjugais, os resultados das brigas e, até mesmo, nossa saúde.104 É possível prever o resultado de uma conversa de quinze minutos entre um casal nos três primeiros minutos.105 Portanto, faça com que os três primeiros minutos valham a pena! E, custe o que custar, tente estancar as emoções desagradáveis e as interações plenas de inveja em seu casamento. A positividade pode ser excessiva? Os psicólogos positivos não costumam abordar o assunto de que interações ou emoções positivas em demasia podem ser prejudiciais. No entanto, quando se trata de casamentos – especi�camente, quando se trata de um casamento em profunda crise –, até mesmo a positividade um tanto excessiva pode-se converter em um risco real. Os terapeutas conjugais costumam ensinar os casais a pensar e a se comportar de maneira positiva um para com o outro. Desta forma, talvez você seja incentivado, por exemplo, a fazer atribuições benevolentes às falhas do seu parceiro (“Ele só gritou comigo na frente do caixa porque teve um dia estressante”), e talvez seja desencorajado a calcular quantas vezes esta semana ele acusou ou rejeitou você. Em outras palavras, como Benjamin Franklin aconselha no Poor Richard’s Almanack [Almanaque do Pobre Ricardo]: “Mantenha seus olhos bem abertos antes do casamento, e semicerrados depois”. Metade de todos os casais, no entanto, não se bene�cia nem um pouco deste tipo de terapia,106 e alguns cientistas conjecturam que isto ocorre porque, em vez de manter seus olhos semicerrados, os casaismais problemáticos precisam averiguar o quanto têm se culpado e rejeitado um ao outro. Eles precisam manter os olhos abertos. Precisam perceber quando estão sendo negligentes ou maldosos. Em suma, casais em crise precisam monitorar e reconhecer seus problemas (mesmo que isso os faça sentirem-se mal ou temporariamente insatisfeitos), para que possam resolvê-los. Podemos ser aconselhados a não dar importância às pequenas coisas em nossos relacionamentos, mas a verdade é que estas coisas podem não ser pequenas. Assim, quando minimizamos uma briga, esquecemos uma mágoa ou fazemos as pazes muito rapidamente, talvez estejamos deixando de notar e de resolver um problema maior que está vindo à tona em nosso casamento, e permitindo que tal problema piore cada vez mais. Os pesquisadores descobriram que os casais muito felizes ou que têm apenas problemas menores ou infrequentes se bene�ciam quando fazem atribuições mútuas positivas, alimentam altas expectativas e não monitoram mágoas ou menosprezos. Mas os casais que têm problemas mais graves exibem o padrão oposto. Pode parecer absurdo, mas aqueles que mais se bene�ciam são os que fazem inferências menos otimistas a respeito do mau comportamento alheio, que expressam menos expectativas positivas e que estão conscientes das vezes em que magoaram um ao outro.107 Em suma, aqueles que estão passando por casamentos muito infelizes devem se esforçar ainda mais para aumentar suas emoções e interações positivas, mas não à custa de �carem cegos diante de seus problemas. A DANÇA DA CONVERSA (SINCRÔNICA) Tenho predileção por dois estudos recentes, que se dedicaram a medir o grau com que casais formados em encontros fortuitos e casais de universitários mostraram “sincronia linguística” (também conhecida como estilo de linguagem correspondente) em suas conversas.108 Você e seu parceiro exibem sincronia linguística quando as palavras e as expressões utilizadas por ambos são mutuamente compartilhadas. Os dois podem, por exemplo, usar muitos clichês (“eram os bons e velhos tempos”), ou ambos podem usar uma linguagem rebuscada ou relativamente formal, ou ambos podem gostar de invocar palavras que remetem às emoções (triste, ansioso, medroso), ou usar uma série de pausas e hmms, ou ambos podem usar expressões mais populares (“Tipo, eu tomei um leite totalmente podrão hoje”). Já se constatou que as pessoas que exibem estilos similares na fala e nos gestos (postura, olhar etc.) têm mais probabilidades de se sentirem atraídas uma pela outra.109 Em estudos mais recentes, porém, procurou-se avaliar se casais e casais em potencial espelhavam sutilmente (e, supõe-se, inadvertidamente) um ao outro no uso de palavras com determinada função, tais como artigos (uma, a) e pronomes (eu, você, nós, ele). Isso pode parecer bastante obscuro, mas a utilização coordenada de palavras com determinada função pode re�etir até que ponto dois interlocutores estão tentando envolver um ao outro, bem como em que medida eles têm sucesso em se comunicar e em compreender-se mutamente. As descobertas intrigantes foram que os casais que se encontravam pela primeira vez e cujos estilos de linguagem correspondiam, mostravam-se mais propensos a querer se encontrar novamente, e que os casais de universitários, cujos estilos de linguagem correspondiam, mostravam-se mais propensos a ainda estar juntos três meses depois (considerado um tempo longo para um �erte de faculdade). Aqueles cujos estilos não correspondiam mostraram-se menos propensos a manifestar interesse romântico mútuo (no estudo dos encontros fortuitos) e mais propensos a se separar (no estudo com os casais de namorados). Os pesquisadores também analisaram a sincronia linguística em cartas e poesias de famosas duplas românticas e platônicas – por exemplo, Sylvia Plath e Ted Hughes, Elizabeth Barrett Browning e Robert Browning, e Sigmund Freud e Carl Jung. Sob o critério dos altos e baixos em seus relacionamentos, as análises mostraram que os momentos mais felizes (por exemplo, os primeiros quatro anos de casamento de Plath e Hughes) foram marcados pela maior sincronia linguística, e que seus momentos menos felizes (dois anos antes do suicídio de Plath, aos trinta anos de idade) foram marcados por menor sincronia.110 Alguém poderia usar o argumento de que não há nada que possamos fazer sobre o grau com que a nossa linguagem espelhará a de nossos parceiros – que o processo é incontrolável e automático –, mas acredito que possamos, deliberadamente, tentar corresponder aos padrões linguísticos um do outro, e, como resultado, colher benefícios para o relacionamento. As mulheres parecem ser naturalmente melhores para esse tipo de mimetismo verbal (assim como o não verbal) do que os homens,111 mas talvez isso signi�que, apenas, que os homens têm de se esforçar mais. Você já interrompeu alguma conversa para atender o telefone, e, imediatamente, se percebeu mudando o modo de falar para corresponder ao estilo da pessoa que está do outro lado da linha? Às vezes, isso acontece sem esforço algum, mas, em outras ocasiões, você pode estar plenamente consciente de que é necessário exercer os controles mental e verbal (e, portanto, pode se sentir exausto e aliviado depois de terminada a conversa). Seu corpo também atua para espelhar o do seu interlocutor. Estudos mostram que, durante uma conversa, duas pessoas normalmente espelham seus respectivos comportamentos (por exemplo, você se reclina, ela se reclina; você coça o queixo, ela coça o queixo; você ri, ela ri), em muitas ocasiões sem nem mesmo perceberem. Se você consegue mudar conscientemente o seu modo de falar, pode desenvolver conscientemente uma sincronia linguística com o seu cônjuge ou parceiro e, por conseguinte, melhorar o seu relacionamento, mesmo que seja apenas um pouco. A principal razão para que a sincronia bene�cie esses relacionamentos é que ela é um sinal de que estamos ouvindo e realmente tentando conhecer e compreender um ao outro. Estar atento é fundamental. Um ouvinte distraído, por exemplo, parece trazer mais danos a uma experiência compartilhada do que, até mesmo, um ouvinte hostil.112 Embora isso possa parecer inicialmente contraditório, quando estamos compartilhando uma lembrança, um incidente ou um sonho de vida importantes com um amigo ou parceiro, tendemos a preferir uma reação negativa a reação alguma. Assim, a sincronia linguística é especialmente valiosa em relacionamentos problemáticos, que apresentam um nível relativamente maior de conversas difíceis. Se você conseguir espelhar o modo de falar e os gestos de seu parceiro durante uma conversa tensa, é mais provável que consigam ouvir um ao outro e resolver as questões do dia a dia. MELHORE SUA VIDA: LIDANDO COM UM CASAMENTO PROBLEMÁTICO Há elementos de uma relação que são muito difíceis de cultivar ou de aprimorar. Nosso parceiro pode ter uma característica com a qual temos di�culdade de conviver (temperamento difícil, narcisismo, um vício qualquer). Ele nos pode ter traído. Seu trabalho pode fazer com que ele passe cinco dias por semana longe de casa. Talvez nós já tenhamos tentado mudá-lo ou mudar a situação, sem muito sucesso. Quando estamos enfrentando grandes problemas em nosso casamento, talvez nos ocorra adotar medidas que nos ensinem a conviver com nossas di�culdades atuais e a tirar o melhor proveito da situação. Embora, de início, esse caminho possa parecer um esforço hercúleo, ele nos ajudará a sobreviver ao gigantesco obstáculo, até que estejamos prontos a fazer uma grande mudança e nos afastar, ou, talvez, superar o obstáculo e chegar a uma etapa mais satisfatória. Para aqueles que escolherem este caminho, as descobertas de três áreas distintas de pesquisa podem ser inestimáveis. A primeira é buscar consolo e alegria fora de nossos casamentos – em nossos familiares e amigos. A segunda é aprender maneiras novas e equilibradas de chegar a um veredicto, avaliar e dar um sentido à nossa vida cotidiana. A terceira é perdoar. APOIO SOCIAL A necessidade de pertencer, de se sentir cuidado e de dependerde outros indivíduos e grupos para prosperar e sobreviver é parte essencial de nossa natureza humana (e primata).113 O apoio social é fundamental para nos ajudar a lidar com experiências estressantes e dolorosas. Quando estamos com problemas conjugais, procurar um amigo, um parente, um conselheiro espiritual ou, até mesmo, um animal de estimação114 pode, imediatamente, fortalecer o nosso espírito e abrandar nossas preocupações. Nossas companhias podem fazer com que nos sintamos amados e valorizados, podem nos ajudar a compreender melhor nossa situação e nos dar conselhos especí�cos sobre como enfrentá-la, e podem nos dar assistência concreta ou �nanceira. Em certo sentido, um ouvido disposto a nos escutar e um ombro sobre o qual chorar podem diminuir o sofrimento que estivermos sentindo em nosso casamento e nos fornecer os recursos dos quais precisamos (con�ança, informações, uma rota de fuga) para lidar com isso ou adotar outras medidas. Quando eu era jovem, costumava subestimar profundamente o valor dos apoios social e emocional. Lembro-me de uma determinada ocasião em que passei horas e horas chorando – ruminando e me deixando obcecar –, e me debulhando por um relacionamento fracassado. E, então, depois de expor meus sentimentos por cerca de uma hora para uma amiga, minha angústia diminuiu do grau dez para, possivelmente, o grau três. Quanto eu teria pago por uma pílula que tivesse um efeito salutar tão grande quanto esse? Quando somos confrontados com um grande problema em nosso casamento – in�delidade de nosso parceiro, brigas diárias, discordância total em relação a ter �lhos –, este problema parece tão insuperável e assustador que é difícil imaginar que o simples afeto e o acolhimento de um amigo ou familiar possam fazê-lo arrefecer. É claro que, na maioria das vezes, o apoio social não fará um problema desaparecer, mas pode contribuir bastante para ajudar a resolver o problema, mitigá-lo e lançar luz sobre nossas reações emocionais. Em um engenhoso estudo que corrobora este argumento, os pesquisadores recrutaram voluntários que passavam ao pé de um morro e estavam sozinhos ou com um amigo.115 Incrivelmente, aqueles que estavam acompanhados – especialmente com um amigo íntimo e que conheciam há longo tempo – consideraram o morro menos íngreme do que aqueles que estavam sozinhos. Servindo como uma metáfora para os desa�os da vida – e os desa�os do casamento em particular –, colegas e con�dentes podem fazer com que nossos problemas e nossas tensões também nos pareçam menos graves. Algumas vezes, quando você sente que deseja abandonar seu cônjuge, a pessoa que você realmente quer deixar para trás é você mesmo. Na verdade, o fenômeno Michelangelo pode funcionar tanto de maneira positiva quanto perniciosa. Em vez de tê-lo ajudado a alcançar o seu “eu” ideal, é possível que seu parceiro tenha ajudado, ao contrário, a transformá-lo em um indivíduo que você mesmo despreza. Esta é uma outra situação à qual amigos e familiares podem prestar um apoio inestimável – ajudando-o a ter uma visão do todo, renovando a sua con�ança, reconhecendo o quanto você pode ter mudado para pior, e ajudando a desfazer tais mudanças. Em suma, se você, algum dia, for surpreendido com a péssima sensação de que está casado com a pessoa errada, uma das medidas mais valiosas a tomar é conversar com pessoas de con�ança. Além dos benefícios psicológicos e concretos que acabei de descrever, você poderá usufruir de bônus neurológicos e �siológicos. Os cérebros, corações, sistemas neuroendócrinos e imunológicos das pessoas que contam com um con�dente mostram menos reatividade a situações nas quais estejam enfrentando alguma mágoa ou pressão, como se sentirem rejeitadas ou ignoradas.116 Além disso, a mera percepção de poder contar com o apoio social – por exemplo, o pensamento de que sua mãe estará sempre lá ao seu lado – pode reduzir o estresse e aumentar seu nível de felicidade, especialmente diante de desa�os. E você não precisa ser o centro das atenções, cercado por uma dúzia de pessoas prontas a fazerem sacrifícios por você. Os benefícios do apoio social se estendem para aqueles que, simplesmente, participam de grupos em suas comunidades (associação de pais e mestres, grupo de leitura, clube de corrida, grupo da igreja ou da sinagoga), e/ou que são capazes de identi�car pelo menos um amigo reciprocamente íntimo.117 Ter muitos amigos íntimos fora do casamento parece desnecessário.118 A TÉCNICA DA “MOSCA NA PAREDE” Um casamento problemático não seria chamado de problemático se não fosse marcado por uma sucessão de discussões e desrespeitos: Ela foi fria comigo hoje. Ele me humilhou na frente dos nossos amigos. Ela rejeitou a minha tentativa de afeto. Ele fez uma compra vultosa sem me consultar. Ela �cou até tarde na rua e se tranca�ou no quarto depois de chegar em casa. Ele deu alimentos pouco saudáveis para as crianças e ignorou completamente minhas objeções. Ela perdeu a paciência com algo insigni�cante. Ele fez com que eu me sentisse uma idiota. Ela não parecia se preocupar com o que acontecia na minha vida. Sinto-me exausta e um pouco triste só de imaginar o impacto emocional de tais incidentes. Se alguma dessas coisas acontece conosco, uma das respostas mais comuns é �car pensando nelas – passiva e repetidamente –, até que as nossas mentes estejam fervilhando, cheias de recriminações, preocupações, rejeições, aborrecimentos, apreensões, dúvidas e vulnerabilidades. Em outras palavras, quanto mais ruminamos sobre uma mágoa ou um problema, pior nos sentimos, mais negativas se tornam nossas conclusões, e mais longe �camos de uma solução ou de uma saída.119 No entanto, embora a minha própria pesquisa e as de outros sugiram que é melhor não pensar sobre isso, e, sim, redirecionar nossa atenção para algo mais positivo ou, simplesmente, não se inquietar com pequenas coisas,120 muitas vezes esta recomendação é inalcançável ou impossível de seguir. Quando nossos parceiros são negligentes ou desdenhosos, o seu comportamento, provavelmente, é a evidência de um problema que não desaparecerá por conta própria – um problema que, para o bem ou para o mal, exige uma ação. Uma linha de pesquisa muito nova sugere uma maneira mais saudável de absorver as experiências dolorosas: devemos analisar nossos sentimentos negativos e problemas a partir de uma perspectiva “autodistanciada”.121 Em outras palavras, devemos tentar observar e pensar sobre nós mesmos através dos olhos de outra pessoa, como se fôssemos uma mosca na parede. Mais do que isso, devemos evitar pensar e visualizar nossas experiências passadas (por exemplo, recordar aquela discussão ou humilhação) com os nossos próprios olhos, já que tal perspectiva de “autoimersão” geralmente desencadeia uma ruminação nociva. A lógica por trás disso é que, quando re�etimos sobre uma experiência ruim como se fôssemos um observador – como se estivéssemos nos vendo de longe –, somos capazes de reformular a experiência de uma maneira que nos ajuda a obter discernimento e chegar a um fechamento. Por outro lado, quando recordamos o acontecimento negativo através de nossos próprios olhos – como se estivéssemos no meio da cena –, acabamos reacendendo, com desagradáveis detalhes, exatamente o que aconteceu, quem disse o quê e como nos sentimos. Estudos mostram que pessoas que assumem naturalmente uma perspectiva de autoafastamento ou de “mosca na parede” sobre um episódio recente que tenha lhes causado rejeição ou irritação, ou que são incentivadas a assumir tal perspectiva por um experimentador, estão mais propensas a tentar resolver os seus problemas de uma forma construtiva, e menos propensas a espelhar o comportamento hostil de seu parceiro.122 Além disso, o autodistanciamento nos protege contra raiva, tristeza e pessimismo,123 e nos torna menos �siologicamente reativos ao estresse (por exemplo, com menos picos de pressão arterial), o que não só é bom para nossas emoções, como também para nossa saúde física.124 Portanto, da próxima vez que você vivenciar uma pequena ou grandecrise no seu casamento, deixe o tempo passar, e, em seguida, delibere sobre isso assumindo o ponto de vista de um observador objetivo – digamos, o seu terapeuta, um amigo imparcial ou, até mesmo, um estranho –, examinando a si mesmo e ao seu cônjuge a partir de uma determinada distância. Os cientistas demonstraram que este exercício impedirá que você se envolva em ruminação ou evitação circulares,125 conduzindo-o, ao contrário, a uma compreensão mais clara e coerente da crise, e, inclusive, a uma percepção que lhe permitirá chegar a alguma solução ou à sensação de fechamento. GUARDANDO AS EXPERIÊNCIAS NEGATIVAS É preciso reconhecer e se esforçar para resolver muitos dos problemas que pairam sobre um casamento, mas há alguns que devem ser aceitos e esquecidos. Estes são os que devemos “guardar” e pôr de lado. Talvez você esteja se perguntando que tipo de experimentos fornecem suporte empírico para essa recomendação, ou como esta ideia pode ser transportada para o laboratório. Surpreendentemente, veri�ca-se que esse transporte não é necessário. Os pesquisadores instruíram os participantes a escrever suas lembranças muito dolorosas e, em seguida, literalmente, pediram-lhes para guardá-las (não em uma caixa, mas em um envelope).126 Se você fosse reproduzir esta experiência, deveria pensar, primeiro, em algo que o faça se sentir realmente mal – por exemplo, rememorar um acontecimento ou uma decisão em seu casamento que você lamenta profundamente (digamos, a in�delidade de um dos parceiros), ou pensar em um forte desejo pessoal que tenha sido frustrado (ter um bebê ou mudar de emprego).127 Em seguida, você registraria por escrito a experiência em algumas folhas soltas, e isso faria você se sentir ainda pior, pelo menos no início. Finalmente, você dobraria os papéis, os colocaria dentro de um envelope pardo, fecharia ou colaria, e o entregaria para o experimentador ou o descartaria. Descobriu-se que este procedimento enfraquece o impacto emocional do acontecimento angustiante e faz as pessoas se sentirem menos tristes, menos arrependidas, menos ansiosas, menos desapontadas e menos irritadas. Quando falamos em administrar ou monitorar nossas emoções, muitas vezes usamos termos relacionados aos invólucros físicos – por exemplo, enterrar a tristeza, entubar nossas preocupações, pôr um freio em nossa raiva ou varrer nossos sentimentos para baixo do tapete. Isso porque o ato físico de vedação, fechamento ou travamento nos ajuda a alcançar o fechamento psicológico de nossos problemas e tristezas. Depositar nossas preocupações em uma embalagem que, então, vedaremos, nos dá uma sensação de alívio e de que nossas emoções estão sob controle. Esta técnica pode parecer, no mínimo, simples, e, na pior das hipóteses, uma bobagem, mas eu o aconselharia a tentar. Guardar um objeto relacionado a seus problemas em um recipiente – seja uma anotação em um diário, uma carta ou uma fotogra�a – pode aliviar grande parte da angústia, e ajudá-lo a seguir em frente. O PERDÃO É SEMPRE UMA COISA BOA? Há poucos minutos, no trabalho, você recebeu um telefonema de seu companheiro dizendo que ele tinha acabado de chegar em casa depois de passar a noite com outra pessoa. Vocês estão passando por uma fase difícil, mas, para você, a relação era, basicamente, boa. Seu companheiro pediu desculpas e quer marcar um encontro hoje à noite.128 Este cenário hipotético de alta voltagem emocional vem sendo usado por uma equipe de pesquisadores que estuda como medir e cultivar o perdão. Imagine, com todas as suas forças, que isso acabou de acontecer com você. Como você reagiria neste instante? Como você administraria seus sentimentos e seu relacionamento a partir de hoje? Há espaço, em seu coração, para o perdão? Sempre �quei admirada com as pessoas que perdoam genuinamente. Os pais que perdoam os assassinos de seus �lhos. A pessoa que foi injustamente aprisionada e perdoa o sistema que a traiu. Provavelmente, o mais famoso prisioneiro desse tipo foi Nelson Mandela, ex-presidente sul-africano e Prêmio Nobel da Paz. Quando assumiu o cargo presidencial, em 1994, diz-se que Mandela a�rmou para a plateia reunida à sua frente, formada por muitas autoridades, membros da realeza, presidentes e primeiros-ministros de todo o mundo, que sua maior honra naquele dia era ter entre os convidados três carcereiros de Robben Island, a prisão onde passara dezoito anos, vivendo em péssimas condições alimentares e fazendo trabalho forçado em uma pedreira de calcário. Mais tarde, Mandela explicou que, se não perdoasse, passaria o resto de seus dias convivendo com a amargura e o ódio.129 Seu ponto de vista não é apenas profundamente inspirador, mas está devidamente fundamentado por evidências empíricas. Seja um gesto extraordinário, como nos dramáticos exemplos citados, ou um desprendimento das ofensas cotidianas, perdoar os outros pode nos libertar de várias formas. O QUE DIZ A CIÊNCIA “Errar é humano; perdoar é divino”.130 Não importa se uma versão deste ditado tenha nos chegado por meio de artigos de revistas ou por nossas mães; a maioria de nós já ouviu, em algum lugar, que o perdão é bom para quem o pratica. O perdão envolve uma mudança na forma como vemos e nos comportamos em relação às pessoas que nos magoaram – uma mudança que transforma sentimentos dolorosos e vingativos em boa vontade (ou em pensamentos, emoções e atos positivos).131 Diz-se que ele libera nossa raiva e nosso ódio, melhora nossos relacionamentos e, �nalmente, nos deixa mais felizes e saudáveis. Na verdade, descobriu-se que o verdadeiro perdão reduz con�itos, minimiza a intrusão de pensamentos negativos, irritadiços ou depressivos, reforça o pensamento otimista, estimula a satisfação com a vida, promove o comprometimento e a satisfação no casamento, melhora a saúde física e, inclusive, aumenta a produtividade no trabalho.132 Se você estiver magoado com as atitudes de seu cônjuge, analise por alguns minutos as implicações dessas descobertas. Estudos de intervenção que ensinam estratégias para promover o perdão foram realizados com sucesso com diversos grupos, incluindo casais, sobreviventes de incesto, pais que vivenciaram o suicídio de um �lho, homens cujas parceiras �zeram abortos contra a sua vontade, crianças prejudicadas em relacionamentos e casais divorciados envolvidos em con�itos de parentalidade.133 Os cientistas chegaram à conclusão de que, quando o cônjuge, por exemplo, nos trata mal e não o perdoamos, sua ofensa se alastrará para nossas futuras interações e con�itos conjugais e, �nalmente, �cará pairando como uma nuvem negra sobre nós, impedindo-nos de resolver nossos problemas. O perdão tem o poder não apenas de evitar essa espiral descendente viciosa em nosso relacionamento, mas de despertar pensamentos e interações afetuosos. De fato, um estudo revelou que perdoar uma pessoa (como nosso parceiro ou nosso vizinho) produz efeitos até mesmo em nossos outros relacionamentos. O simples fato de lembrar de alguém que perdoamos fortalece nossos vínculos com a família, os amigos e colegas de trabalho, e nos torna mais propensos a participar de campanhas bene�centes ou a nos voluntariar para uma causa nobre.134 PORÉM... A RESSALVA DO CAPACHO Se o perdão é tão grati�cante, e seus ilustres praticantes são tão virtuosos, por que muitos de nós relutamos em adotá-lo como prática regular, especialmente em nossos relacionamentos? Por que temos sentimentos mistos quando observamos maridos e esposas que se martirizam há anos e que ainda perdoam seus cônjuges, uma falta atrás da outra? Psicólogos evolucionistas e sociais oferecem uma resposta plausível. Nossa probabilidade de sobrevivência e de reprodução depende, por vezes, de sermos tolerantes e, em outras, de sermos vingativos, e é fundamental diferenciar as situações que merecem uma resposta ou a outra.135 Por exemplo, quando o perdão é concedido de forma muito rápida e acrítica, podemos acabar in�igindo nosso autocontrole e autorrespeito, lamentar nossa incapacidade de nos defender e prejudicar nossos relacionamentos,impedindo nossos parceiros de aprender uma lição e de se aprimorar.136 Se perdoamos nosso cônjuge apressadamente e com muita frequência, corremos o risco de perder de vista os nossos valores, ignorando problemas reais em nosso relacionamento, e nos tornando um capacho do outro. Quando perdoar e quando não perdoar? Recentemente, os cientistas estabeleceram critérios para as ocasiões em que o perdão é bené�co ou prejudicial. Essencialmente, se seu marido tiver cometido algum erro e você acreditar que (1) vocês permanecerão casados porque você dá valor à preservação do casamento; (2) não é provável que ele repita a ofensa ou a magoe novamente; e (3) ele raramente se comporta mal, então o perdão terá consequências positivas. Em um estudo com casais, por exemplo, cônjuges que perdoaram parceiros que frequentemente se comportavam mal vivenciaram crescentes problemas de relacionamento ao longo do tempo (e vice-versa), mas cônjuges que perdoaram parceiros que raramente se comportavam mal relataram uma satisfação permanente em seus casamentos.137 Outros estudos têm mostrado que pessoas que perdoam cônjuges com disposição para se redimir ou que se redimiram integralmente experimentam um forte senso de identidade e um aumento de autoestima, enquanto as que perdoam cônjuges que não estão dispostos a se redimir ou que não se redimem adequadamente se sentem signi�cativamente piores em relação a si mesmas.138 Em suma, se sua esposa – que pode ter sido in�el, desonesta ou vil – dá sinais de que você estará seguro e será valorizado em seu casamento, perdoá-la reforçará sua sensação de segurança e de autodignidade, preservará o seu casamento e melhorará os inevitáveis con�itos e problemas. No entanto, é preciso analisar se nossa propensão a perdoar advém de uma razão legítima e bem ponderada com vistas a salvar nosso casamento, ou se temos tanto medo de que se realize a nossa profecia de que nunca seremos felizes se o nosso casamento acabar, que faremos tudo o que pudermos para evitar um confronto maior. O perdão é uma escolha que requer um esforço consciente, e este esforço pode render inúmeros dividendos – tanto para você quanto para seu relacionamento. Mas se todos os indícios sinalizam que seu parceiro não sente remorso algum e se comportará mal novamente, então perdoar não será a coisa mais “divina” a fazer. PARTINDO, ANTES QUE SEJA TARDE DEMAIS Você já tentou de tudo, mas a proporção entre as experiências positivas e negativas em seu casamento é, na melhor da hipóteses, de um para um. Você está profunda e constantemente infeliz e não quer mais desperdiçar os melhores anos de sua vida. A separação e o divórcio são decisões tão pessoais que ninguém – nem mesmo um respeitado terapeuta conjugal – pode recomendar a um casal que leve ou não adiante essa ideia. Eu também não farei isso, mas gostaria de compartilhar algumas conclusões e descobertas muito recentes e fundamentais no campo da ciência social, que podem (ou não) in�uenciar sua decisão. O VALOR DA ESPERA O ditado de que “o tempo curará todas as feridas” é uma daquelas frases que talvez sejam verdade, pelo menos em certas circunstâncias, mas que é difícil de se ouvir. Se seu casamento estiver sujeito a ondulações naturais, ou a altos e baixos, e você já se encontrar nesta parte baixa há algum tempo, é muito possível que você, simplesmente, consiga resistir. Certa vez, ouvi uma bela história sobre uma bacia de água barrenta. A água estava suja e o dono não sabia o que fazer para limpá-la. Ele deveria fervê-la? Congelá-la? Sacudi-la? Coá-la? Existiria algum produto químico capaz de absorver ou neutralizar a sujeira? Ele tentou todos esses métodos, mas não deu muito certo. O que realmente funcionou foi deixar que a bacia de água barrenta assentasse por algum tempo e se acomodasse. Assim, ele suspendeu todos os seus esforços, relaxou e, simplesmente, deixou a água se estabilizar. Depois de algum tempo, percebeu que o lodo começou a se separar do resto por si só, e, em breve, a água estava novamente cristalina.139 Se você deixar o casamento assentar, talvez perceba que a sujeira se separará inteiramente do resto, por si só. APÓS O DIVÓRCIO, VOCÊ APRENDERÁ A LIDAR COM ISSO E CRESCERÁ E se o lodo não se dissolver por si só? Então, talvez, você resolva se separar ou se divorciar, como fazem mais de 40% dos casais, e a decisão será assustadora.140 A�nal, algo tão importante como o divórcio não só mudará a sua vida e a de sua família em um milhão de modos, menores e maiores, mas também poderá questionar a sua própria história – passado, presente e futuro –, aquilo que traz coerência e propósito à sua vida. A�nal, não era assim que a sua história deveria terminar. De modo geral, as pessoas vivenciam uma gama de emoções durante e depois do divórcio, que vão da traição e da rejeição à tristeza e ao alívio, da raiva e do medo à culpa e à autopiedade. Além disso, tais emoções algumas vezes a�oram dentro de um intervalo de minutos, dando um novo signi�cado ao termo “montanha-russa emocional”. Talvez você sinta que a sua vida está uma bagunça e que você está saindo dos eixos. Você pode começar a colocar em dúvida sua autoestima e seu valor como companheiro. Talvez você esteja se debruçando sobre montanhas de papéis, ligações intermináveis para seu advogado, negociações estressantes com o seu ex sobre bens e guarda das crianças, e �lhos que estão fazendo drama ou se isolando. Para completar, há grandes chances de você se deparar com novas tensões �nanceiras, pro�ssionais e sociais. Talvez você esteja sentindo uma enorme pressão para encontrar um emprego, ou um emprego com melhor remuneração. E, justamente quando precisa de mais apoio social, você pode estar se sentindo isolado e solitário, porque as amizades mudam depois do término de um casamento, e alguns dos “amigos” do casal podem se afastar. Apesar dos enormes desa�os e desgastes, a maioria das pessoas consegue, de alguma maneira, sobreviver ao divórcio e, inclusive, prosperar. De fato, a análise de oito estudos que acompanharam diferentes pessoas antes e depois de se divorciarem legalmente mostrou que a resposta típica foi uma felicidade crescente a longo prazo.141 Um dos temas deste livro é que os seres humanos são incrivelmente resilientes, dotados da capacidade de transformar traumas em recursos, e experiências ruins em experiências de crescimento – por exemplo, se recuperar de um divórcio e, até, sair dele mais forte do que antes. Minha a�rmação favorita a respeito da resiliência é a que a rede�ne como “uma magia ordinária”, e não como algo que pertence apenas às pessoas extraordinárias com poderes especiais, a quem nunca poderemos esperar imitar.142 Pelo contrário, trata-se de uma característica comum, que envolve a habilidade de se recuperar diante das adversidades e de experimentar emoções positivas. No entanto, já que quase todos nós não estamos conscientes da usual (embora notável) predominância desta capacidade, normalmente subestimamos nossa capacidade de resistir às infelicidades. Preocupamo-nos com o fato de nunca mais sermos felizes depois de uma adversidade ou de um trauma, como o esfacelamento de nossa família, e por isso subestimamos esta magia ordinária, que todos possuímos. Muita coisa já foi escrita – tanto por pesquisadores quanto por autores de autoajuda – a respeito dos recursos especí�cos que nos ajudam a crescer e, até mesmo, a nos “bene�ciar” do tipo de perda, sofrimento e trauma característicos do divórcio.143 Estas forças nos ajudarão a lidar e a crescer no decorrer de nossos piores dias. A partir de hoje, pratique alguma das seguintes atividades, talvez as que você considerar mais naturais ou grati�cantes, ou, pelo menos, aquelas que lhe causarem, de início, menos ansiedade: • Procure identi�car o quanto você se fortaleceu depois de sua separação e do seu divórcio. • Faça um relato por escrito sobre o que aconteceu durante e após o �m de seu casamento, como você cresceu e mudou por causa disso, e quais são as novas prioridades e objetivos que consegue divisarporque se trata de “grandes” momentos, mas porque até mesmo os impasses aparentemente devastadores podem ser trampolins para mudanças positivas em nossas vidas. Uma pesquisa recente revelou que as pessoas que sofreram alguma adversidade (por exemplo, vários acontecimentos negativos ou momentos de mudança de vida) são, em última análise, mais felizes (e menos angustiadas, traumatizadas, estressadas ou debilitadas) do que aquelas que não vivenciaram adversidade alguma.2 Passar por vários momentos devastadores “nos fortalece” e nos deixa mais bem preparados para lidar com os desa�os e traumas posteriores, sejam eles grandes ou pequenos. Os pesquisadores demonstraram que, além de promover a resiliência em geral, compreender os desa�os de nossas vidas nos ajuda a de�nir e sedimentar nossas identidades, o que reforça o otimismo sobre o nosso futuro e promove formas mais e�cazes de lidar com as fontes permanentes de estresse.3 Finalmente, vivenciar as emoções negativas, como tristeza, preocupação e raiva durante nossos momentos críticos – quando tais emoções não são crônicas nem graves –, pode ser extremamente valioso, já que tais emoções nos alertam para ameaças, equívocos e problemas que exigem a nossa atenção. Em resumo, aprender a olhar além das expectativas que estão ligadas aos mitos da felicidade pode ser desconfortável e até doloroso no início, mas tem o potencial de conduzir à prosperidade e ao crescimento. Muitos momentos decisivos e importantes podem ser interpretados como uma encruzilhada, a partir da qual podemos seguir dois ou mais caminhos. O modo como reagimos a estes momentos – que podem parecer, na ocasião, como o “�m do caminho” – determinará, em parte, como seus resultados se processarão. Se compreendermos a forma pela qual os mitos da felicidade controlam as nossas reações, estaremos mais propensos a responder com sabedoria. Na verdade, a incapacidade de compreender o impacto do falacioso “eu serei feliz quando [tiver um parceiro, emprego, dinheiro, �lhos]” pode nos levar a tomar decisões muito ruins – por exemplo, abrir mão de bons empregos e casamentos, prejudicar as relações com nossos �lhos, desperdiçar nosso dinheiro e ferir nossa autoestima. E, se continuarmos a acreditar que “não poderei ser feliz se [não tiver um parceiro, dinheiro, juventude, realizações pessoais]”, podemos, inadvertidamente, criar uma profecia autorrealizável, de tal forma que os momentos decisivos acabem envenenando nossa felicidade e contaminando os aspectos ainda satisfatórios de nossas vidas. A maneira como respondemos aos momentos críticos – se �camos cabisbaixos quando devemos encarar os fatos de frente, ou se �camos parados quando devemos agir – pode ter efeitos cumulativos ao longo de nossas vidas. Nestes momentos, determinaremos o futuro. Era uma vez um velho agricultor que morava em uma pobre aldeia no interior do país. Seus vizinhos o consideravam rico, porque ele possuía um cavalo, que vinha sendo utilizado há muitos anos para trabalhar nas lavouras. Um dia, seu adorado cavalo fugiu. Ao ouvir a notícia, seus vizinhos se reuniram em torno dele para manifestar a sua compaixão. “Que azar”, disseram simpaticamente. “Talvez”, respondeu o fazendeiro. Na manhã seguinte, o cavalo retornou, mas trouxe com ele seis cavalos selvagens. “Que maravilha”, se regozijaram os vizinhos. “Talvez”, respondeu o velho. No dia seguinte, seu �lho tentou selar e montar um dos cavalos indomados, foi derrubado e quebrou a perna. Mais uma vez, os vizinhos visitaram o agricultor para oferecer-lhe consolo naquele momento de infortúnio. “Talvez”, disse o agricultor. No dia seguinte, os o�ciais de recrutamento chegaram à aldeia para convocar jovens para o exército. Vendo o �lho do agricultor com uma perna quebrada, eles o ignoraram. Os vizinhos parabenizaram o agricultor pela forma satisfatória como as coisas aconteceram. “Talvez”, respondeu o fazendeiro. “Alegria e dor tecem trama �na”. O verso de William Blake do poema “Augúrios de inocência” extrai, simples e elegantemente, a dose de sabedoria desta história. Ele também ajuda a responder à pergunta de por que os mitos da felicidade estão equivocados. Podemos estar convencidos de que um determinado momento decisivo deve nos fazer rir ou chorar, mas a verdade é que os acontecimentos positivos e negativos estão, muitas vezes, entrelaçados, tornando as previsões sobre as consequências – que podem advir de maneira cumulativa e inesperada – extremamente complexas. Da mesma forma, quando consideramos a melhor – e a pior – coisa que nos aconteceu nos últimos anos, podemos nos surpreender ao constatar que, muitas vezes, elas são a mesmíssima coisa. Talvez nossos corações tenham �cado destroçados, mas �car sozinho pode ter contribuído para solidi�car nossa identidade e nos levado a encontrar um companheiro mais ideal. Talvez tenhamos sido afastados de uma carreira à qual dedicamos longos anos, mas o acontecimento pode ter-nos impulsionado a mudar para uma área mais empolgante. Ou, talvez, tenhamos �cado entusiasmados depois de vender a empresa por uma grande soma de dinheiro, mas agora consideramos este um dos maiores erros de nossa vida.4 Em suma, muitas vezes não conseguimos reconhecer de imediato quais são os acontecimentos que representam uma mudança de vida, nem de que forma. Às vezes, um acontecimento inegavelmente positivo – ganhar na loteria, ser promovido, ter um �lho – desperta uma crise ou uma profunda decepção, pois reagir com uma alegria contida viola as noções daquilo que deveria nos deixar felizes. E, em outras ocasiões, uma infelicidade – perder um emprego, um sonho ou um companheiro de toda a vida – é um trampolim para algo maravilhoso, em parte porque percebemos que estávamos errados ao acreditar que tais acontecimentos seriam uma ferida eterna. Em uma série de re�nados experimentos, Tim Wilson, professor da Universidade da Virgínia, Dan Gilbert, professor da Universidade de Harvard, e seus colaboradores demonstraram que nosso maior erro é superestimar por quanto tempo e com que intensidade um acontecimento particularmente negativo (como um diagnóstico de HIV, ou ser demitido de um emprego que amamos) nos fará cair em desespero, e por quanto tempo e com que intensidade um acontecimento particularmente positivo (ganhar a estabilidade vitalícia, ou ter nosso pedido de casamento aceito) nos fará dar pulos de alegria.5 O principal motivo pelo qual agimos assim está perfeitamente resumido em uma máxima dos biscoitos da sorte: “Nada na vida é tão importante quanto você pensa que é, enquanto você estiver pensando nisso”. Em outras palavras, exageramos o efeito que uma mudança de vida terá sobre a nossa felicidade porque não conseguimos prever que não �caremos sempre pensando nisso. Quando tentamos antever o quão desanimados nos sentiremos após o término de um relacionamento ou o quanto �caremos felizes depois de �nalmente conseguir o dinheiro para comprar a tão sonhada casa de praia, por exemplo, deixamos de considerar que durante dias, semanas e meses posteriores ao acontecimento em questão, haverá a interferência de muitos outros acontecimentos, que servirão para dosar nosso prazer ou atenuar nosso sofrimento. Aborrecimentos diários (como �car preso no trânsito ou ouvir um comentário maldoso) e estímulos diários (como encontrar um velho amigo) têm o potencial de mexer signi�cativamente com as nossas emoções, atenuando o sofrimento por uma separação ou diluindo a alegria da aquisição de uma casa nova. Duas outras forças também conspiram para nos impedir de prever nossos sentimentos futuros. A primeira é, simplesmente, nossa incapacidade de prever com precisão o impacto dos momentos de transição que imaginamos. Para muitos de nós, por exemplo, as cenas de um futuro casamento compreendem fazer piqueniques românticos a dois, beber champanhe em torno da lareira, praticar sexo com a frequência que quisermos, colaborar harmoniosamente em todas as decisões difíceis da vida e ter um bebê angelical dormindo em nossos braços, com nosso cônjuge oferecendo-se parapara o seu futuro. • Escolha a coisa mais engraçada que alguém já lhe disse desde o seu divórcio. • Pergunte-se o que está sentindo exatamente, e por que, durante este período de sua vida, e determine-se a compartilhar seus sentimentos com os outros. • Faça algo todos os dias – por mais trivial que seja – que o deixe feliz, pelo menos momentaneamente. • Tente se lembrar do que o ajudou a se recuperar de traumas anteriores, e acione esses mesmos recursos novamente. • Re�ita sobre o que signi�ca a espiritualidade para você e como é possível usá-la para se conectar aos outros. • Conecte-se a uma outra pessoa, ajudando-a ou ensinando-lhe algo. Estas medidas ajudarão a elaborar e a reforçar a sua capacidade de manter uma atitude positiva, mesmo diante do sofrimento; dar sentido ao rompimento; redi�nir o que é importante para você; e priorizar aqueles objetivos que se tornaram signi�cativos e que se mostrem alcançáveis.144 Estas atividades também visam a “aliviar” o fardo do sofrimento, encorajando-o a não levar as coisas muito a sério, a aprimorar a sua consciência e sensibilidade para suas próprias emoções e as dos outros, e a desenvolver sua capacidade de comunicar seus sentimentos e de se conectar com outras pessoas.145 Finalmente, a adoção destas medidas ajudará você a se engajar em algo mais importante do que você mesmo e con�ar em outras relações importantes em sua vida, alheias ao seu casamento. Por último, mas igualmente importante, há um recurso que quase todos nós precisamos reforçar. Devido à sua importante in�uência em muitas áreas da vida, a autoestima é uma das mais estudadas características humanas. Assim, avaliar o seu nível atual de autoestima deve ser uma prioridade. Para isso, considere até que ponto você concorda com cada uma das seguintes a�rmações (1 = discordo totalmente, 2 = discordo, 3 = concordo, 4 = concordo totalmente):146 _____ 1. Sinto que sou uma pessoa de valor; que estou, pelo menos, em um nível de igualdade com as outras pessoas. _____ 2. Sinto que tenho uma série de boas qualidades. _____ 3. De modo geral, tendo a me considerar um fracasso. _____ 4. Sou capaz de fazer coisas tão bem quanto a maioria das pessoas. _____ 5. Sinto que não tenho muito do que me orgulhar, em comparação com a maioria das outras pessoas. _____ 6. Adoto uma atitude positiva em relação a mim mesmo. _____ 7. No geral, estou satisfeito comigo mesmo. _____ 8. Gostaria de ter mais respeito por mim mesmo. _____ 9. Com certeza, me sinto inútil às vezes. _____ 10. Às vezes, acho que não sou bom em nada. Para determinar a sua pontuação de autoestima, primeiro “inverta a pontuação” das suas avaliações dos itens 3, 5, 8, 9 e 10 – isto é, se você se atribuiu uma nota 1, risque-a e mude-a para 4; se você se atribuiu uma nota 2, mude para 3; altere a nota 3 para 2, e a nota 4 para 1. Agora, some suas dez avaliações para chegar ao resulado. A pontuação mais alta de autoestima que se pode obter é 40 (se você concordar �rmemente com todos os itens de autoestima com valência positiva e discordar �rmemente de todos os itens negativos) e a mais baixa é 10 (se você tiver feito o contrário). Pessoas de todas as partes do mundo atingem uma média de 31 pontos nesta escala; os norte-americanos atingem uma média de 32 pontos. Computar menos do que 31 ou 32 pontos signi�ca que mais de 50% de seus pares têm mais autoestima do que você; computar menos do que 20 pontos sugere que sua pontuação de autoestima encontra-se no terço inferior da população. Se sua pontuação estiver abaixo do nível médio, aumentar sua autoestima talvez tenha de ser um de seus objetivos primários, ainda que desa�ador. Comece “engatinhando” em direção aos objetivos que o ajudem a realizar algo, a cultivar amizades, a agir com compaixão para com os outros e a se sentir melhor sobre si mesmo.147 Inúmeras seções neste livro oferecem diretrizes sobre como conseguir isso. DEPOIS DO DIVÓRCIO, A VIDA CONTINUA As pesquisas sobre adaptação hedonista mostram que nos acostumamos rapidamente até com os mais negativos acontecimentos. Por exemplo, em determinado estudo, durante os primeiros dois anos após o divórcio, as pessoas experimentaram um grande sofrimento psicológico, mas depois pareceram se recuperar.148 A vida continuou, e uma in�nidade de estímulos e aborrecimentos do cotidiano, desvinculados da situação em si, prendeu a sua atenção na maior parte do tempo. Uma das razões pelas quais abraçamos o mito de que o divórcio (ou qualquer outra adversidade) nos deixará mais infelizes (e por muito mais tempo) do que ele realmente deixa é que assumimos que vamos �car tão preocupados com nosso divórcio e com todas as suas consequências daqui a um ou cinco anos quanto estamos hoje. Assim, deixamos de considerar os inúmeros outros acontecimentos que surgirão e competirão pela nossa atenção durante o próximo ano e os cinco seguintes.149 A�nal, podemos precisar fazer uma cirurgia dentária ou consertar nosso aparelho de ar-condicionado. Podemos ver nosso �lho se formar com louvor e podemos restabelecer o contato com um primo com quem não falamos há anos. Podemos aprender a cozinhar uma deliciosa paella para nossos amigos, e podemos fazer uma viagem maravilhosa (ou desastrosa) com nossos �lhos. Em suma, nosso julgamento e nossa participação serão cobrados por muitas situações, completamente desconectadas do nosso divórcio. O divórcio não acontece isolado de todo o resto.150 A vida continua, e outros acontecimentos exercem atração e dissuasão, controlando nossas emoções tanto ou quanto, ou até mais, do que o trauma original. Para realmente compreender este conceito, tente o que os participantes de vários estudos engenhosos foram instruídos a fazer: aqueles que realmente se dedicaram e anotaram os muitos outros acontecimentos e compromissos que lhe exigiriam tempo e atenção no futuro (por exemplo, consultas médicas, jantares, consertos do carro e aumentos salariais previstos para o próximo ano) se mostraram menos propensos a valorizar as decepções oriundas do trauma do divórcio.151 Em House Lights [Luzes de casa], um livro sobre a vida familiar, um pai é confrontado com a situação de nunca mais viver novamente com sua esposa. Quando ele pergunta à sua �lha o que será de sua vida a partir de então, ela responde algo que se aplica a todos nós: Você vai �car triste. (...) Você vai sentir falta dela. Você vai continuar a atender seus pacientes, a se reunir com outros observadores de aves e a gravar audiolivros para os cegos. Você vai visitar os amigos, se alimentar e (...) encher o tanque do carro, (...) comprar mantimentos, (...) frequentar os concertos na igreja. Limpar seus binóculos com o seu pequeno equipamento de limpeza de binóculos. Você vai retirar neve, cortar a grama e varrer as folhas. Você vai ler e cozinhar.152 A verdade é que, a cada mês, o seu divórcio – e as suas repercussões – terá um impacto menor em sua vida cotidiana do que no mês anterior. E QUANTO AOS FILHOS? Você superará isso, talvez perdoe e, até mesmo esqueça, e é possível que a sua vida se torne in�nitamente melhor, mas e quanto aos �lhos? As pesquisas mostram que os �lhos são, de longe, a principal razão para que casais infelizes optem por �car juntos.153 Esta realidade não é nem razoável nem surpreendente, mas é importante estabelecer se as suposições quanto aos efeitos do divórcio sobre os �lhos, bem como sobre outros resultados importantes na vida, são adequadas. A literatura sobre esse assunto engloba duas perspectivas extremas. A primeira é que o divórcio não acarreta custos de longo prazo para os �lhos, e a segunda é que implica danos permanentes. Tal como acontece na maioria das polêmicas, a resposta está em algum lugar intermediário, embora minha interpretação das pesquisas esteja mais próxima da perspectiva de poucos efeitos a longo prazo. Em suma, o divórcio, de�nitivamente, tem alguns efeitos nocivos sobre os �lhos, mas estes efeitos, muitas vezes, são pequenos e não se aplicam a todas as famílias.154 Por um lado, como seria de se esperar,ser um bom pai após a consumação do divórcio é mais complicado para ambos os membros do antigo casal. Ambos têm di�culdade, por exemplo, de monitorar, supervisionar e disciplinar seus �lhos de forma e�caz e consistente, de oferecer amor e carinho e de dirimir os con�itos próprios da relação. Este custo decorre dos novos acordos para a guarda dos �lhos, da fragmentação da coesão familiar e do aumento da ansiedade, depressão e estresse dos pais. No entanto, os efeitos nocivos, frequentemente, são de curta duração ou pontuais. Um pesquisador testou, por exemplo, se os �lhos de pais divorciados eram menos felizes e menos autocon�antes, tiravam notas mais baixas, tinham relações menos saudáveis e mostravam mais problemas de comportamento do que os �lhos de famílias preservadas. Das 177 comparações entre estes dois grupos de crianças, mais da metade (103) não revelou quaisquer diferenças.155 Outros estudos descobriram que 75% das crianças cujos pais se divorciaram não sofreram impedimentos de longo prazo, e que os efeitos do divórcio sobre problemas de conduta, vida acadêmica e bem-estar eram menores do que os efeitos de gênero.156 Claro, isso signi�ca que um quarto das crianças sofre com o divórcio, mesmo em longo prazo, e esta constatação deve ser levada muito a sério. A título de exemplo, caso nossos pais tenham se divorciado, nosso próprio casamento tem duas vezes mais probabilidade de acabar em divórcio e nossa saúde estará sujeita a mais riscos.157 As tentativas de responder à questão de um eventual prejuízo causado aos �lhos em virtude do divórcio têm, no entanto, uma limitação bastante importante. Todos os estudos são, necessariamente, correlacionais, pois seria impossível (e antiético) escolher aleatoriamente alguns casais para se divorciarem e outros para permanecerem casados. Isso signi�ca que não podemos descartar o papel dos genes em cada descoberta. O divórcio é altamente hereditário – o que signi�ca que os genes atuantes em quem se divorcia ou não (que parecem estar ligados a personalidades especí�cas, como as geralmente negativas e infelizes) são passados de pais para �lhos.158 Assim, quando somos informados de que os �lhos de pais divorciados não são tão bem-sucedidos em certos domínios, o resultado pode ter sido causado pelos genes compartilhados com seus pais, e não pelos efeitos do divórcio em si. Outro componente fundamental do quebra-cabeças diz respeito à questão de saber se devemos insistir em manter um casamento con�ituado por causa de nossos �lhos. Em outras palavras, o que seria pior para os �lhos: continuar morando com pais que brigam e sofrem, ou suportar as consequências do divórcio? A resposta mais direta é que os �lhos se bene�ciam mais quando são capazes (via divórcio) de fugir às brigas e gritarias de seus pais e à pressão para escolher um dos lados. Em uma casa onde reinam o sofrimento, as discussões ou a falta de afeto, os �lhos �cam, essencialmente, expostos ao estresse crônico, o que os leva a desenvolver o hábito de estar, constantemente, vigilantes e atentos.159 Minha amiga Josie lembra-se de �car escondida em seu quarto enquanto seus pais brigavam, lançando objetos um contra o outro. Frequentemente, ela intervinha nos con�itos, juntando-se à gritaria e tentando proteger sua mãe, além de temer ouvir o barulho das chaves quando seu pai abria a porta de casa. Hoje, ela é ultrassensível a qualquer tipo de con�ito; basta que seu marido levante um pouquinho a voz para que seu coração dispare. Josie está em terapia e conseguiu manter relacionamentos saudáveis e bem-sucedidos na vida adulta, mas pagou um preço por isso. Ao se comparar o rendimento dos �lhos em lares com uma grande dose de con�ito parental com seu rendimento após o divórcio, a resposta é muito clara: no primeiro caso, o rendimento é muito pior. Em um determinado estudo, por exemplo, os �lhos expostos a uma in�nidade de brigas em casa se mostravam relativamente mais propensos a dramatizar, a �car ansiosos ou deprimidos e a ter relacionamentos problemáticos com amigos e colegas, mas o fato de os pais serem casados ou divorciados não tinha impacto algum sobre os seus problemas. Então, o que importa é o con�ito, e não o divórcio. Naturalmente, esta evidência também signi�ca que os estudos que descobriram os efeitos nocivos do divórcio sobre os �lhos podem, simplesmente, ter descoberto os efeitos do inevitável con�ito associado àqueles divórcios especí�cos. Notadamente, as pesquisas sobre saúde espelham tais resultados com muita acuidade. Embora as pessoas que se divorciem relatem mais problemas de saúde – sistema imunológico mais fraco, mais doenças do coração e diabetes, sobrevivência menor ao câncer e problemas com o funcionamento físico na velhice160 –, a saúde dos casais infelizes no casamento sofre tanto ou mais do que isso.161 De fato, embora possamos não estar cientes disso, no meio de uma discussão acalorada o funcionamento de nosso sistema imunológico começa a declinar, nossos ferimentos físicos cicatrizam mais lentamente e nossos níveis de cálcio coronário aumentam (sinalizando o risco de uma doença cardíaca).162 Como concluiu um psicólogo da saúde, um casamento problemático representa um fator de risco para doenças cardíacas tão potente quanto o hábito de fumar regularmente.163 Se você estiver pensando em se divorciar e estiver preocupado sobre como isso irá impactar o equilíbrio psicológico, o desempenho acadêmico, os problemas de comportamento e, até mesmo, os relacionamentos futuros de seus �lhos, você precisa considerar que um lar caloroso, afetuoso e pací�co de um único pai (ou dois lares) é mais determinante do que um lar habitado por dois pais em con�ito. A única ressalva é se você suspeitar que o seu �lho não esteja percebendo os graves problemas que você e o seu cônjuge têm enfrentado. Embora isso possa parecer improvável, todos nós conhecemos casais que são capazes de esconder sua infelicidade com tanto primor que sua separação soa como um choque para todos, incluindo seus amigos mais próximos e familiares (e, às vezes, até um dos próprios cônjuges). A questão é que �lhos que não tinham tido qualquer indício de que seus pais estavam passando por problemas são os que sofrem as consequências mais negativas e de longo prazo, quando estes pais os surpreendem (e os dilaceram) ao anunciar o divórcio.164 Esta situação representa um dilema difícil e, talvez, insolúvel: certamente, seria imprudente brigar na frente de seus �lhos apenas para que eles não se surpreendam com uma eventual separação. Talvez a melhor maneira de fazer esta situação avançar é que o casal, já tão acostumado a usar uma máscara de felicidade, continue a forjar um ambiente acolhedor e estimulante para seus �lhos, bem como a manter interações amigáveis um com o outro, ao longo da separação, do divórcio, e para todo o sempre. A MENTE PREPARADA O momento da verdade que envolve a possibilidade de abandonar ou permanecer em um relacionamento é um dos mais difíceis de enfrentar e de digerir. Você tem a opção de partir. Você tem a opção de �car e fazer o melhor possível na parte que lhe cabe. Você tem a opção de �car e resolver melhorar a sua parceria. Uma das lições deste capítulo é que, ao reconhecer os equívocos que, provavelmente, estão colaborando para o seu momento crítico, você também se dê conta de que podem existir mais opções do que as já imaginadas. Por este motivo, apresento aqui inúmeras estratégias para lidar com o casamento e fortalecê-lo. Quanto mais cedo você começar a praticar essas estratégias – após a primeira fantasia de divórcio, em vez de após a primeira separação –, mais e�cazes elas serão. Claro, às vezes uma fantasia de divórcio é apenas isso: um sonho que lhe dá permissão para descarregar sua raiva e sua angústia antes de retornar à tarefa de zelar pelo seu casamento. Mas, em outras ocasiões, as fantasias de divórcio anunciam o que está por vir. Nesse caso, quanto mais cedo você levar em consideração as pesquisas (por exemplo, que o divórcio não prejudica irreparavelmente a maioria dos�lhos), mais cedo estará preparado para tomar uma decisão com base na razão, e não na intuição (a noção de que você não pode se divorciar, não importando o quão infeliz esteja). Acima de tudo, antes de tomar qualquer decisão crucial, é preciso considerar o quanto de sua infelicidade conjugal depende de você, o quanto depende do seu cônjuge, o quanto depende da dinâmica de seu casamento e o quanto depende de circunstâncias além do seu controle. Tal entendimento pode não alterar sua decisão �nal, mas in�uenciará o componente de seu casamento ou de sua vida que você deveria procurar mudar. Saber que este mito da felicidade é equivocado – que sua vida não acaba quando o relacionamento termina – abre novos caminhos e novas possibilidades positivas de como implementar aquela mudança. CAPÍTULO 3 Eu serei feliz quando... tiver �lhos Estava passeando com uma amiga, quando ela me confessou algo que eu nunca tinha ouvido alguém dizer em voz alta: “Eu não gosto de ser mãe”. Ela adora seu �lho, provavelmente mais do que qualquer outra coisa. Ela já vinha tentando ter um bebê há dez anos, até que �nalmente conseguiu, com a ajuda de vários tratamentos de fertilidade. Ela é grata por isso. Porém, talvez pelo fato de o desejo de ter um �lho ter sido tão forte e tão duradouro, e o esforço tão difícil e estressante, ela levou vários anos para reconhecer a realidade de que, simplesmente, ser mãe não lhe convinha. Ela não se sente confortável em meio a um grupo de crianças, e sente que precisa comportar-se como a falsa “mamãe” na frente de outros pais. Ela não pretende se doar integralmente à preocupação e aos cuidados incondicionais com outra pessoa. Ela acredita que os incessantes transtornos, planejamentos e decepções não são um desa�o ou uma aventura, como algumas de suas amigas e colegas parecem acreditar, mas um fardo pesado. Devo acrescentar que um observador objetivo não teria qualquer indício de seus verdadeiros sentimentos. Ela é uma boa mãe e sabe disso; ela apenas não gosta de ser mãe. Muitas perguntas podem surgir à mente quando ouvimos essa história. Deveríamos gostar de ser pais? A�nal, quantos de nós realmente conseguimos prever o que seria ter um �lho, mesmo depois de ler uma dúzia de livros e conversado com todos os pais que conhecíamos? E minha amiga não estará sendo prematura em sua conclusão, considerando-se que, talvez, nenhum emprego no mundo mude tão drasticamente ao longo do tempo quanto o de ser pai ou mãe? Em poucos anos, quando seu �lho estiver na escola primária, as atuais condições de parentalidade di�cilmente serão reconhecíveis, e mais alguns anos depois, tudo vai mudar de novo, e assim por diante. Na verdade, em certas ocasiões, ocorre uma evolução enorme na criança e na relação pai- �lho no curso de um único mês. Por �m, seria esse, simplesmente, um exemplo extremo, irrelevante para a maioria de nós? Os �lhos são a fonte de nossa maior alegria e de nossa maior tristeza. Não é de surpreender, então, que alguns dos nossos mais impactantes e decisivos momentos estejam compreendidos na vida familiar. Antes de decidirmos se vamos nos conformar com nossos sentimentos sobre a parentalidade, nos desesperar com eles ou nos esforçar para combatê-los, é preciso determinar se nossa situação é assim tão única. A expectativa de que ter �lhos nos fará imensamente felizes não está apenas enraizada em nossa cultura, mas, provavelmente, também está ligada à nossa linha evolutiva. Embora este mito da felicidade possa fazer com que os seres humanos insistam em se reproduzir, também serve para marcar um momento crítico dentro de um capítulo arquetípico na vida dos seres humanos. Quando ser pai ou mãe não nos deixa tão felizes quanto esperávamos, nos sentimos não apenas deprimidos, tristes e desapontados, mas também envergonhados. SER PAI NÃO É O QUE EU ESPERAVA: AS SURPREENDENTES DESCOBERTAS ACERCA DA FELICIDADE TRAZIDA PELOS FILHOS Talvez você não veja qualquer alegria no fato de ser pai, e abomine a quantidade de tarefas e transtornos acarretados por esse papel. Talvez você tenha se cansado e se desiludido com os maçantes dezoito anos ou mais – os anos de parentalidade que estão às suas costas e, especialmente, à sua frente. Isso já é su�cientemente ruim, mas, para coroar estes sentimentos indesejáveis, você se sente como uma aberração e um desajustado em meio a uma cultura de feroz nuclearidade familiar, temeroso de expressar seus verdadeiros sentimentos e correr o risco de ser rejeitado pelos outros. Surpreendentemente, em parte pelo fato de esses sentimentos serem um assunto tão tabu, poucas pessoas parecem perceber o quanto eles são comuns. A análise de mais de uma centena de estudos revelou que casais acompanhados antes e depois do nascimento de um �lho sofreram quedas aparentemente permanentes na satisfação com o relacionamento.165 As pesquisas também demonstraram que, apesar de muitos pais manifestarem alegria e júbilo com seu novo papel, se você for mulher, jovem, solteira e desempregada – e se seus �lhos forem muito pequenos ou adolescentes; forem enteados ou problemáticos –, ser mãe, provavelmente, a tornará menos feliz e menos satisfeita com sua vida e com seu parceiro (se você tiver um), em vez de mais.166 Ter �lhos é caro, cansativo, estressante e emocionalmente desgastante – tanto que é uma maravilha que, de alguma forma, pareçamos incapazes de prever com precisão as di�culdades da parentalidade, até o dia em que levamos a criança para casa. Depois desse dia, no entanto, nenhum pai de recém-nascido se surpreenderá ao saber que, quando se pergunta às pessoas o seu nível de felicidade antes e depois de levar para casa o primeiro �lho, os índices computados na segunda enquete são signi�cativamente menores do que os da primeira.167 Além disso, a satisfação conjugal sobe depois que o último dos �lhos sai de casa.168 E, embora as evidências sejam mistas, uma série de estudos que, simplesmente, comparou a felicidade ou o nível de satisfação de pais e de não pais nas mais variadas idades e circunstâncias de vida descobriu que os que tinham �lhos eram menos felizes.169 Em um estudo bastante citado, mães texanas que exerciam alguma atividade pro�ssional relataram, por exemplo, ter menos emoções positivas e mais emoções negativas no seu dia a dia. Quando solicitadas a avaliar como se haviam sentido durante cada uma das horas do dia anterior, elas consideraram a tarefa de cuidar de seus �lhos apenas um pouco mais agradável do que se deslocar para o trabalho e realizar serviços domésticos.170 É claro que, se a criação dos �lhos faz com que você, frequentemente, se sinta mal-humorado, irritado, furioso, cansado ou incrivelmente transtornado, você não está sozinho. Você não é o único cujo mundo encolhe depois da chegada das crianças, e que deve dizer adeus às aventuras arriscadas, às intimidades espontâneas e às oportunidades repentinas. Você não é o único cujo casamento pode balançar consideravelmente – pelo menos, quando os �lhos têm menos de seis anos ou mais de doze171 –, na medida em que problemas ou irritações insigni�cantes são ampliados para abalos sísmicos dignos de fazer com que o divórcio seja levado em consideração. Estudos demonstram que as duas mais importantes fontes de confronto entre casais casados são as �nanças e os �lhos. No entanto, o estresse e a privação do sono, sozinhos, são capazes de aumentar o risco de qualquer espécie de con�ito.172 Em termos não muito delicados, um pai de primeira viagem a�rmou: “[Os �lhos] são uma enorme fonte de alegria, mas transformam qualquer outra fonte de alegria em uma grande merda”.173 Espero que a constatação de que muitos outros pais passam pelo mesmo tipo de sofrimento, de tempos em tempos, faça com que nos sintamos menos fora do padrão e alivie um pouco a nossa culpa. Amar os nossos �lhos não é a mesma coisa que amar ser pai ou mãe. No entanto, podemos nos bene�ciar ao nos concentrar apenas naquilo que nossos �lhos nos transmitem, e que não pode ser capturado pela pergunta “Você é feliz?”. Até mesmo pais que odeiam serpais vivem momentos signi�cativos, alegres e, inclusive, de euforia, que contribuem para uma vida bem vivida – quando nosso �lho nasce, quando ele corre para nossos braços depois de uma separação, quando lê sua primeiríssima palavra, quando se apresenta em sua primeira peça de teatro na escola, quando pensar nele suaviza o impacto de um projeto pro�ssional que fracassou, ou quando ele se forma com louvor. Em um estudo recente, meus colegas e eu descobrimos que os pais atribuíam mais signi�cado à vida quando passavam algum tempo com seus �lhos do que no resto de seus dias.174 Uma parte de estar vivo e de ser um cidadão do mundo signi�ca usar nossas capacidades ao máximo, desbravar as diferentes dimensões da experiência humana, crescer e aprender sobre nós mesmos, nos conectar com outras pessoas, cumprir metas culturalmente prescritas, experienciar uma ampla gama de emoções (das mais empolgantes às mais deprimentes possíveis), erigir uma identidade única, escrever a história de nossas vidas e deixar um legado que persistirá para além da própria duração de nossas existências.175 Os �lhos nos permitem fazer tudo isso e muito mais. É claro que, na maioria das vezes, não �camos pensando nesses benefícios transcendentes; não desperdiçamos nosso tempo saboreando os momentos memoráveis e profundos que nossos �lhos nos propiciam. Ao contrário, nos concentramos nas tarefas e obrigações diárias, e, especialmente, nas pequenas crises e grandes emergências com as quais nos deparamos. Há um ditado sobre as mães judias, que, na verdade, se aplica a todas as mães e a todos os pais: “A mãe judia nunca pode ser mais feliz do que o seu �lho menos feliz”. Os psicólogos têm demonstrado, de forma convincente, que o mal é sempre mais forte do que o bem, de tal forma que a mágoa de um �lho facilmente supera o prazer de outro.176 Como consequência, os obstáculos para a felicidade dos pais – especialmente aquela vivenciada passo a passo – são grandes, e aqueles que reagem, admitindo que, de modo geral, não apreciam ser pais, estão sendo perfeitamente racionais. Não obstante todas as evidências de que aqueles que não gostam de ser pais não são, simplesmente, irresponsáveis ou insanos, quando se pergunta con�dencialmente às pessoas sobre seus maiores arrependimentos na vida, quase ninguém a�rma que lamenta ter tido um �lho. De fato, 94% concordam que, apesar dos altos custos, as recompensas de ser pai valem o esforço.177 Com o passar dos anos, as temidas amamentações no meio da noite, os penosos momentos de aconchegar uma criança inconsolável e as negociações sobre a hora limite de voltar para casa se metamorfoseiam em memórias preciosas e nostálgicas, que oferecem satisfação e prazer. Entretanto, o remorso por não ter tido �lhos, ou não ter tido mais �lhos, é prevalente.178 Devemos ter esses dois fatos em mente quando formos chamados novamente ao gabinete do vice- diretor e sentirmos que não conseguiremos aguentar mais nenhum dia neste papel de pais. OS ABORRECIMENTOS DO COTIDIANO O DEIXARÃO MAIS INFELIZ DO QUE OS GRANDES TRAUMAS Ser pai ou mãe, de fato, é uma tarefa desgastante, fadada a perdurar por muitas décadas, mas há muitas medidas que podemos tomar para fazer com que os momentos ruins se tornem mais suportáveis e mais a�rmativos. Uma estratégia um tanto contraintuitiva é passar alguns minutos distinguindo as principais di�culdades enfrentadas na criação dos �lhos, começando pelas menores; é possível, inclusive, listá-las em duas colunas – as “grandes coisas ruins” e as “pequenas coisas ruins” –, lado a lado. Recentemente, uma família me descreveu seus problemas, em detalhes angustiantes. O �lho mais novo de Sarah e James tem uma forma leve da síndrome de Asperger (que envolve dé�cits sociais), além de transtorno de dé�cit de atenção. Ele apresenta um rendimento muito bom em algumas disciplinas escolares e di�culdades em outras. Ele tem um amigo próximo, mas di�cilmente interage com outros colegas. Em suma, os problemas decorrentes de seus diagnósticos os inquietam quase todos os dias. “Não é uma coisa terrível”, disseram os pais. “Existem vários dias bons e semanas boas – às vezes, ótimos”. Mas há noites em que eles arrancam os cabelos, discutindo sobre como lidar com o seu mais recente “problema” e quais deveriam ser os seus próximos passos. O �lho mais velho parece psicologicamente bem ajustado, mas prefere estar com os amigos a estudar, e por isso eles enfrentam uma batalha todas as noites em torno dos deveres de casa. Não é de surpreender que a lista dos grandes transtornos desta família compreenda a saúde mental de seu �lho mais novo, enquanto os pequenos transtornos incluam a “guerra dos deveres de casa” de seu �lho mais velho. Na lista de pequenas coisas, eles também incluem as várias provações, tensões e mágoas vivenciadas diariamente. Há poucas semanas, por exemplo, Sarah convidou um amigo de seu �lho mais novo para brincar com ele, mas recebeu uma desculpa esfarrapada; Sarah está convencida de que a mãe da outra criança simplesmente não queria que o �lho interagisse com seu caçula. Em seguida, sua secadora de roupas quebrou, o que provocou uma série de problemas e inconvenientes aparentemente desproporcionais ao insigni�cante defeito. Por �m, seu �lho mais velho não conseguia encontrar o novo telefone celular que acabara de ganhar de aniversário, e eles passaram horas frustrantes procurando o aparelho. Qual dessas duas listas deve deixar esta família – e a nossa – mais angustiada e mais infeliz? Embora quase todos nós acreditemos que os itens da coluna das grandes coisas produzam o impacto maior e mais duradouro, as pesquisas revelam que isso é um mito. Ao contrário, o oposto é verdadeiro – os aborrecimentos e as estimulações que experimentamos com nossos �lhos diariamente impactam nosso bem-estar mais do que os grandes acontecimentos da vida.179 A ideia paradoxal de que os aborrecimentos são piores do que as calamidades faz pouco sentido... até avaliarmos por quê. Alguns anos atrás, quando eu era solteira e vivia sozinha, tive duas experiências ruins no mesmo dia – fui informada, por uma companhia aérea, que meu assento na janela (o último), há longo tempo reservado em um voo internacional, havia sido erroneamente vendido para outro passageiro; no �m daquele mesmo dia, meu carro foi destruído (“virou uma sanfona”) em um acidente na autoestrada. O acidente não foi culpa minha e saí ilesa, mas fui incrivelmente serena e racional em minha reação – pedi ajuda, falei com a companhia de seguros, �z planos para alugar um carro no dia seguinte etc. Parecia que eu havia me dado conta, instintivamente, de que se tratava de uma situação de emergência e que precisava manter a calma, pensar racionalmente e reunir todos os recursos e as habilidades que eu tinha para administrar a situação. Minha reação à notícia da companhia aérea, porém, foi o inverso. Considerei o erro imperdoável, e ainda estava fervilhando por causa disso dias depois, enquanto dirigia o carro que havia alugado temporariamente. Os pesquisadores argumentam que, quando vivemos uma situação negativa signi�cativa – um acidente de carro, um corte de pessoal em nosso emprego, a suspensão de um �lho na escola – �camos profundamente motivados a enfrentar e a superar a crise da melhor forma e o mais rapidamente que pudermos. Buscamos o conforto emocional de amigos, informações e treinamento pro�ssional de empregadores, segundas opiniões de terapeutas e médicos, e informações em livros e sites. Além disso, praticamos amplamente o chamado trabalho cognitivo para aceitar o que aconteceu. Talvez façamos de tudo para racionalizar, atribuir um sentido ou olhar para o lado positivo do acidente ou da redução de pessoal. Poucos minutos depois do meu acidente de carro, eu já havia desabafado com a minha melhor amiga e me convencido de que “era uma coisa boa”, porque poderia usar o dinheiro do seguro para comprar o conversível que eu sempre quisera ter. Em contrapartida, tais esforços de enfrentamento não entram em ação diante de pequenos desapontamentose aborrecimentos. Por exemplo, não tentei me convencer de que o funcionário da companhia aérea, sem dúvida, um imigrante mal- remunerado, cometera um compreensível erro humano, pois estava tendo um dia difícil. Também não procurei me aconselhar nem me informar com outras pessoas sobre como lidar com a situação. Eu teria considerado isso um exagero. Tendemos a não procurar apoio social diante das pequenas coisas ruins, em parte porque esperamos que os outros não se importem muito com o que nós nos importamos (até mesmo nossos entes queridos mais próximos �carão estarrecidos se nos excedermos em nossas ruminações sobre o leite derramado). Além disso, estudos têm demonstrado que revelar os pequenos traumas leva as pessoas bem-intencionadas a expressar seu apoio através da minimização ou da subestimação (“O acesso de raiva de Charlie durante o voo foi lamentável, mas a viagem poderia ter sido muito pior”) e a insinuar que não deveríamos nos sentir tão mal quanto estamos nos sentindo, o que faz com que �quemos ainda piores.180 Em suma, uma vez que os problemas mais graves exigem esforços para enfrentar e reavaliar nossa situação de forma positiva, além de despertarem um forte apoio emocional em outras pessoas – ao contrário dos problemas não tão grandes –, é paradoxal que, muitas vezes, nos deixemos afetar mais pelo sofrimento e pela angústia com as pequenas coisas do que com as grandes.181 Na verdade, “talvez as coisas pequenas nos magoem justamente porque nós as chamamos de pequenas”.182 No entanto, a maioria de nós está dolorosamente consciente disso. Uma série de estudos mostrou, por exemplo, que as pessoas esperavam rejeitar mais quem as tivesse magoado muito por um longo período do que quem as tivesse magoado pouco, mas a realidade era o inverso.183 Como consequência, não conseguimos reunir energias adequadas para lidar com os transtornos cotidianos que enfrentamos na vida, e, especialmente, na criação de nossos �lhos. Considere o lado esquerdo daquela coluna com as pequenas coisas ruins relacionadas aos seus �lhos. Talvez ela inclua a crescente irritação com sua �lha pelo uso do computador, a discussão de ontem à noite por causa das roupas espalhadas pelo chão, a preocupação desta manhã com a dor de ouvido do seu bebê ou a sua insegurança quanto a quem vai cuidar do seu �lho quando você e o seu parceiro tiverem reuniões de trabalho muito cedo pela manhã. É importante reunir esforços para lidar com estas questões aparentemente pequenas, seja buscando ajuda, negociando com os familiares, reinterpretando os acontecimentos de forma mais positiva ou tirando alguns minutos para relaxar, recarregar-se ou meditar. Se resolvermos voltar nossa atenção às pequenas coisas ruins relativas à parentalidade, nos recuperaremos mais rapidamente, seremos mais felizes e teremos vitalidade e resistência para enfrentar um novo dia. ENCONTRANDO O EQUILÍBRIO E O SIGNIFICADO EMOCIONAL ATRAVÉS DA ESCRITA Instintivamente, você saberá não negligenciar a coluna com as “grandes coisas ruins” relacionadas aos �lhos, mas isso não signi�ca que será fácil. Seu �lho adolescente pode estar cercado de más companhias ou ter desenvolvido algum vício prejudicial. Seu �lho que cursa o ensino fundamental pode estar sendo vítima de bullying. Seu �lho em idade pré-escolar pode ter sido diagnosticado com uma doença crônica. Seu bebê pode não estar alcançando os níveis de desenvolvimento esperados. Certos pais não se incomodam com as árduas tarefas cotidianas relacionadas à criação de seus �lhos, mas, mesmo assim, �cam desconcertados quando surge algum problema sério. Além disso, suas provações como pai podem não estar concentradas, especi�camente, em um único �lho, mas na forma como você está gerenciando a parentalidade como um todo. A luta constante para manter o equilíbrio – entre você e o seu cônjuge, e entre a parentalidade e o trabalho – se tornou, praticamente, um lugar-comum. Embora muitos pais lidem com isso com desenvoltura, alguns consideram a pressão sofrida por este tipo de malabarismo um fardo avassalador. Desde o primeiro dia da chegada de um novo bebê, você se dá conta das dezenas, se não centenas, de negociações que devem ocorrer entre você e o seu parceiro sobre como compartilhar as tarefas de cuidar do bebê e manter a família. Quem vai trocar a próxima fralda, lavar a próxima louça, levantar-se da próxima vez no meio da noite, tomar a decisão sobre a próxima soneca, levar o bebê ao médico na semana seguinte e fazer a declaração de imposto de renda em abril? Além disso, basta que você e o seu parceiro tenham, supostamente, resolvido os con�itos sobre a divisão de tarefas para que a criança (inevitavelmente) cresça, ou outra nasça, e tudo muda. O ciclo de negociação – ou pior, de rixas – começa novamente. Quem vai levar as crianças à escola, às atividades, à casa dos amigos e ao consultório; tomar decisões sobre os acampamentos, a vida escolar e os tratamentos médicos; preencher dúzias de �chas de inscrição, de saúde e de ensino; se encarregar da disciplina; organizar os cuidados à criança; ajudar na lição de casa; discutir a inscrição na faculdade ou pesquisar os programas de atletismo? A lista de tarefas e obrigações é interminável, e alguém sempre terá de estar a postos para assegurar que tudo dê certo. O equilíbrio entre casa e trabalho é, sem dúvida, ainda mais difícil de conciliar do que as disputas em torno das tarefas, pois não há panaceia alguma para este problema quase universal. A maioria dos pais – mesmo aqueles que contam com ajuda e cujo trabalho é �exível – concorda que não há horas su�cientes em um único dia para ser um grande pai e um grande pro�ssional (sem mencionar uma grande esposa, �lha, amiga etc.). Em uma pesquisa realizada em 2008, mais da metade dos pais que trabalham fora relatou passar por momentos difíceis ao administrar as responsabilidades do trabalho e da família.184 Equilibrar as múltiplas obrigações da carreira e da criação dos �lhos pode ser extremamente estressante e exaustivo, já que as demandas destes diferentes papéis competem por sua atenção, tempo e energia, e transbordam de uma área para a outra. Em um dia de trabalho estressante, por exemplo, os pais tendem a se afastar �sicamente da família, enquanto as mães se comportam menos afetuosamente e �cam menos sensíveis aos �lhos.185 Por sua vez, os problemas com os �lhos geram perturbações no trabalho, fadiga e di�culdade de concentração no escritório. Além disso, a mera energia mental necessária para permanecer atento às listas de tarefas a cumprir, tanto em casa quanto no escritório, e exercer o controle emocional nas frentes doméstica e pro�ssional (por exemplo, demonstrar ânimo quando pegar seu �lho na creche ou interesse na opinião de seu supervisor, mesmo que estas sejam as últimas coisas que você goste de fazer) podem levar à sobrecarga e ao estresse e, em última instância, à depressão. Antes que o estresse deste malabarismo se transforme em desespero e depressão, é importante aprender estratégias que possam ajudá-lo a encontrar o equilíbrio correto, aceitar a sua situação atual ou tirar o melhor proveito disso tudo. Uma das estratégias mais e�cazes é escrever ou fazer um diário, a �m de encontrar um signi�cado emocional para as agruras de ser pai. Jamie Pennebaker, professor de psicologia da Universidade do Texas, em Austin, descobriu que tomar nota dos sentimentos mais profundos sobre nossas di�culdades e tormentos (o que ele chama de extravasamento emocional ou escrita expressiva) pode reforçar nossas saúdes física e mental.186 Até o momento, ele e outros cientistas já concluíram mais de uma centena de estudos que comprovam esta descoberta. Reproduzir os procedimentos adotados por eles é muito simples: consiga um caderno ou um diário em branco e comece a anotar – pelo menos por três a cinco dias consecutivos e, de preferência, até mais do que isso – seus mais profundos pensamentos e sentimentos sobre suas experiências mais difíceis e mais perturbadoras no exercício de criar seus �lhos. Quando os cientistascompararam os participantes que escreviam regularmente sobre seus sofrimentos com os participantes do grupo de controle, que escreviam sobre um tema neutro ou super�cial, sem conexão com as emoções (como a disposição dos móveis em seus quartos ou uma descrição detalhada dos seus sapatos), eles descobriram, de forma consistente, que os “escritores expressivos” eram mais felizes, mais satisfeitos com suas vidas e menos deprimidos. Além disso, quando acompanhados dias ou semanas depois, os escritores expressivos terminaram consultando seus médicos com menos frequência nos meses seguintes, apresentaram um reforço na função imune, demonstraram melhor desempenho na escola ou no trabalho, estavam menos propensos a faltar ao trabalho e mais propensos a encontrar uma nova colocação depois de serem dispensados do emprego.187 Em suma, a escrita emocionalmente expressiva traz nítidos benefícios hedonistas, físicos e cognitivos – benefícios capazes de atenuar o implacável estresse da parentalidade, a angústia dos traumas familiares, e de equilibrar nossas próprias necessidades e obrigações com as de nossos parceiros, �lhos e carreira. Manter um diário sobre as experiências da parentalidade é uma das estratégias mais valiosas das quais podemos nos valer quando tentamos controlar nossos pensamentos e sentimentos dolorosos ou con�itantes. A princípio, Pennebaker acreditava que o segredo do sucesso desta estratégia era a catarse ou o “escoamento” propiciado às pessoas que costumam represar seus sentimentos. Por exemplo, talvez estivéssemos nos sentindo cronicamente culpados por chegar em casa tarde do trabalho, aborrecidos com nossa esposa por ela nunca apreciar nosso trabalho ou extenuados por não sabermos lidar com o excesso de viagens exigido por nossos empregos. Mas parece que o segredo não estava, necessariamente, em externar tais sentimentos, e, sim, no próprio ato de escrever sobre eles – nas palavras em si. Escrever sobre preocupações e problemas de nossa família nos ajuda a nos conformar e a compreendê-los. Traduzir nossos transtornos emocionais em palavras faz com que passemos a lhes dar sentido, nos adaptemos e comecemos a esquecê-los; em última análise, escrever nos prepara para compartilhar tais transtornos com as pessoas mais íntimas. Portanto, a linguagem se revela fundamental. O ato de transformar emoções e imagens intensas em uma narrativa coerente muda nossa forma de estruturar nosso sofrimento ou nossa dor, de pensar neles e de integrá-los à nossa história de vida. Certa vez, uma conhecida minha me disse que escrever sobre experiências perturbadoras as reduz – as achata, as torna menores. Quando nossos traumas e di�culdades diminuem, eles podem ser armazenados e dissolvidos de forma mais rápida e mais e�ciente. Se desenvolvermos o hábito de manter um diário expressivo – e de utilizá-lo, mesmo diante de pequenos traumas e aborrecimentos –, esta prática trará benefícios quando transtornos parentais mais graves aparecerem em nosso caminho, o que é inevitável. Uma vantagem adicional é a recuperação da avaliação, do senso de humor e da compreensão que, inevitavelmente, ganharemos quando relermos o diário anos ou décadas depois. A VISÃO DO TODO A vida com �lhos – sejam eles bebês, crianças em idade pré-escolar, pré- adolescentes ou adolescentes – pode signi�car morar em uma casa cheia de desordem e caos, demandas constantes por tempo, atenção e dinheiro, e episódios bastante frequentes de irritação, vergonha, arrependimento e raiva, sem mencionar o pânico por ter de sustentar tudo isso. Alguns �cam tão atormentados pelo sentimento de estarem acorrentados à vida atual e de assim permanecerem até o futuro distante que se tornam infelizes e desiludidos ou, pior, apáticos e deprimidos. Nesses momentos, vale a pena considerar a perspectiva da “visão do todo” – em primeiro lugar, por que escolhemos ter �lhos, como nossa experiência de parentalidade mudará e melhorará com o tempo e o que pretendemos deixar para a sociedade e para as gerações futuras. Tal perspectiva ampla nos leva a formular as grandes perguntas – qual é o propósito de nossas vidas, e o que estamos fazendo aqui? Podemos, também, considerar uma perspectiva mais pessoal – quanto às nossas prioridades e preocupações principais nas diferentes fases de nossas vidas. Talvez acordar todos os dias antes do nascer do sol para �car com seu �lho seja algo que você precise fazer agora; incentivá-lo a aumentar suas notas seja algo que você terá de fazer daqui a dez anos; e ligar para ele para oferecer- lhe apoio emocional seja algo que você precise (e queira) fazer daqui a vinte anos. As pessoas mais velhas, principalmente, se bene�ciam muito quando mantêm relações positivas com seus �lhos adultos, e relatam que ter netos é uma das melhores experiências de suas vidas.188 Ainda que as pessoas estejam tendo �lhos mais tarde do que antigamente, e que essas crianças estejam permanecendo na casa dos pais por mais tempo, os aumentos monumentais na expectativa de vida humana signi�cam que os pais têm um número inédito de anos pós-ninho vazio para passar ao lado de seus �lhos adultos – notáveis 30,5 anos, em média, para as mães e 22 anos para os pais.189 Ao se referir à sabedoria que acumularam durante suas vidas, os idosos ressaltam a importância de se ter uma visão global das relações com os �lhos. Resumindo seu conselho: “O que você tem feito para criar um relacionamento duradouro e amoroso com seu �lho, desde os seus cinco, dez ou quinze anos, até um período muito mais longo de sua vida adulta, e até que você mesmo chegue à meia-idade e à velhice? Porque, acredite em mim, à medida que a vida seguir, você vai querer que seus �lhos estejam por perto... Quando você estiver na faixa dos setenta anos ou mais, seus �lhos lhe proporcionarão continuidade, signi�cado, vinculação e, �nalmente, um sentido geral de que a vida tem um propósito maior”.190 Em suma, a recompensa pelas suas provações de hoje será arduamente conquistada, demorará a chegar, mas será muito apreciada. Mas e quanto ao presente? Saber que �carei satisfeita quando meus �lhos me ajudarem na minha velhice não ameniza realmente o impacto da birra de um �lho em idade pré-escolar ou a brutalidade ocasional de um adolescente. Assumir a perspectiva da visão do todo a respeito de ser pai é difícil e requer um esforço real, da mesma forma que é um desa�o perdoar depois de ser repreendido ou ter pensamentos positivos depois de uma decepção. Nós, seres humanos, somos bastante seduzidos pela estreiteza do aqui e agora; achamos muito mais fácil aceitar as grati�cações imediatas do que adiar a grati�cação para trabalhar por atividades signi�cativas. A capacidade de realizar esta última coisa envolve o que os psicólogos chamam de autorregulação (ou autocontrole), e, não surpreendentemente, o fracasso na autorregulação é a raiz de muitos dos males da sociedade. Mas se você consegue chegar ao trabalho mesmo nos dias em que mais o detesta, ou usar o �o dental sem qualquer evidência de recompensas, você conseguirá gerenciar adequadamente, e com uma visão mais ampla, os implacáveis deveres da parentalidade. Durante uma visita a uma faculdade de administração na Carolina do Norte, um de seus professores, John Lynch, me contou uma história notável sobre a aula que um professor de ciências do ensino fundamental costuma ministrar aos seus alunos. O professor começa a aula retirando um enorme copo de vidro transparente, vazio e comprido, e preenchendo-o com grandes pedras. “O copo está cheio?”, pergunta ele às crianças. Elas dizem que sim, que está. Então, ele se retira da sala de aula por um instante e retorna com um punhado de pedras menores, que despeja no copo. As pedras pequenas preenchem as lacunas formadas entre as maiores. Ele pergunta novamente às crianças: “O copo está cheio?”. Agora, elas já entenderam o que ele está propondo e dizem que não, que o copo não está completamente cheio. “E como vocês poderiam preenchê- lo ainda mais?” Elas sugerem usar pedras ainda menores. Então, o professor deciências sai da sala novamente para pegar um pouco de areia, e ele enche o copo com a areia, de modo que todos os espaços e lacunas restantes, e ainda visíveis, �quem preenchidos. E, agora, ele pergunta: “Qual é a lição que tiramos desta demonstração?”. Que não devemos tirar conclusões precipitadas, dizem alguns. Que há muitas maneiras de resolver um enigma, sugerem outros. “Não”, diz ele. “A lição é colocar as pedras grandes primeiro.” A lição do professor de ciências é: comprometa-se, primeiro, com os “grandes” projetos e objetivos mais signi�cativos de sua vida – contribuir para a sua comunidade, trabalhar em prol do seu casamento ou criar os seus �lhos –, mesmo que isso roube o tempo dos “pequenos” planos, cuja grati�cação é imediata. A partir de hoje, decida quais são as grandes pedras em sua vida, quais são as pequenas pedras e quais são os punhados de areia, e comprometa- se antecipadamente com as grandes. RESERVE UM TEMPO PARA SI A confusão dos intensos anos de parentalidade torna muito difícil a revisão e a reconsideração contínuas de nossas prioridades e possibilidades. Quando não dispomos de tempo para pensar, podemos �car impedidos de enxergar alternativas viáveis para nossas rotinas. Uma possibilidade é fazer pequenas pausas no exercício da parentalidade. Nas últimas duas décadas, a família passou por mudanças culturais sísmicas, e uma destas mudanças foi o impulso de dedicar mais tempo, e um tempo de mais qualidade, aos nossos �lhos.191 Até mesmo mães que trabalham em tempo integral, por exemplo, gastam apenas dez horas a menos por semana com seus �lhos do que mães que são donas de casa em tempo integral,192 e ambas são pressionadas a se engajarem em um trabalho intensivo de hiperparentalidade, que envolve um �uxo aparentemente interminável de atividades enriquecedoras para os �lhos.193 O resultado são níveis crônicos de ansiedade, a parentalidade do tudo ou nada, e um perfeccionismo que faz com que muitos sintam que estão deixando a desejar, não importando o quanto se esforcem para se tornarem mártires na criação de seus �lhos. Esta pressão para levar uma vida centrada nos �lhos torna quase impensável a ideia de se ausentar temporariamente do exercício da parentalidade. Se nos sentíamos culpados por levar cupcakes comprados prontos para a campanha bene�cente do pré-escolar, como nos sentiremos por não acompanhar tardes, dias ou, até mesmo, semanas inteiras da vida de nosso �lho? Porém, a criação dos �lhos costumava ser, historicamente, uma obrigação coletiva.194 Nossos ancestrais criavam seus �lhos no contexto de uma aldeia, clã ou tribo maiores, o que permitia que os cuidados às crianças fossem responsabilidades compartilhadas entre os muitos membros da família e os vizinhos. Em algumas culturas e subculturas, esta abordagem perdura até hoje. Até mesmo meus próprios pais, não muito tempo atrás, lá em seu país de origem, costumavam nos enviar (meu irmãozinho e eu) para a casa de nossos avós por verões inteiros, e isso desde que eu tinha dois anos de idade. E mais, meus avós viviam a 1.500 quilômetros de distância, em Kyshtym, Rússia, o local do terceiro pior desastre nuclear do mundo, ocorrido uma década antes e causador de milhares de mortes por envenenamento radioativo.195 Eu nunca sonharia em fazer uma coisa dessas com meus próprios �lhos (embora meus pais, agora eles próprios avós, ainda nos implorem em vão para que lhes enviemos os netos todos os verões), mas certamente haverá um meio-termo nestas alternativas. Se estivermos esgotados e infelizes – ou pior, deprimidos –, simplesmente não conseguiremos ser pais exemplares. Reservar um tempo para nós na rotina diária pode nos revitalizar, nos restaurar, nos fortalecer e nos fazer relembrar quais são as grandes pedras em nossas vidas. Fazer uma pequena pausa na parentalidade poderia signi�car pedir a um familiar para assumir os cuidados da criança, enquanto nós (sozinhos, com o parceiro ou o melhor amigo) nos afastaríamos por um período de tempo. Meu marido e eu costumavámos fugir um �m de semana por ano para um hotel agradável em algum bairro interessante, que ainda não havíamos explorado. Ficava a apenas meia hora de carro de nossa casa, mas parecia um oceano de distância. Fazer uma pequena pausa poderia signi�car negociar com um amigo seus serviços de prestador de cuidados, ou contratar alguém algumas horas por semana para que pudéssemos relaxar e não fazer absolutamente nada. Poderia signi�car enviar as crianças para o acampamento ou deixá-las dar uma escapada com as famílias de seus melhores amigos. As possibilidades são in�nitas. Talvez sintamos muito menos saudades das crianças do que imaginávamos, ou, então, desejaremos revê-las com tanta ansiedade que nossas atitudes diante da parentalidade e diante de nossas prioridades familiares versus pro�ssionais serão transformadas para sempre. A MENTE PREPARADA Se você reforçar o mito de que não poderá ser verdadeiramente feliz sem �lhos, constatar que você não ama a parentalidade – ou que é ela muito mais punitiva e desagradável do que você esperava – pode precipitar um momento crítico em sua vida. Neste caso, eu poderia apostar que o primeiro pensamento que lhe veio à mente quando percebeu que não gosta de ser pai foi uma versão de “Eu devo ser uma pessoa ruim”. O problema é que este primeiro pensamento não é apenas nocivo para a sua felicidade e para a qualidade de sua parentalidade, como está claramente equivocado. Tomar conhecimento do que as pesquisas têm a dizer sobre a normalidade deste sentimento e, portanto, a falácia de suas crenças sobre a quantidade de alegria que seus �lhos lhe trarão, contribuirá para fazer você perceber que não está sozinho. Adotar uma visão do todo da parentalidade, re�etir sobre quais situações têm maior impacto em sua felicidade, manter o equilíbrio através de um diário e fazer uma pequena pausa na parentalidade o abastecerá de determinação para enfrentar os aspectos negativos da criação dos �lhos e o capacitará a se deleitar com os aspectos positivos. Porque, no �m das contas, “Para o mundo você pode ser apenas uma pessoa, mas para uma pessoa você pode ser o mundo”.196 CAPÍTULO 4 Não poderei ser feliz se... não tiver um parceiro Recebi a seguinte carta de uma mulher que havia tentado uma série de exercícios para aumentar a felicidade: [Os exercícios] me ajudaram imensamente, em quase todos os aspectos da minha vida. Ser feliz tornou-se mais fácil para mim, mas a ideia de não ter um companheiro realmente me desanima. Posso passar o dia demonstrando gratidão, expressando bondade e amor, mas, quando vejo casais felizes, meu coração se dilacera e minha atitude muda. Por dentro, me sinto muito deprimida e solitária, embora �nja um sorriso quando um casal me vê observando a dádiva que é o seu amor e o seu companheirismo. Mesmo que eu seja grata pelo que tenho, �co muito triste por não ter com quem compartilhar o meu amor. Como posso encontrar uma maneira de superar o obstáculo da tristeza e da baixa autoestima diante dos relacionamentos?197 Como demonstra a experiência desta mulher, o sofrimento por estar sozinho pode ser profundo. Se o pensamento de que você �cará eternamente sozinho o assombra todos os dias, haverá vários caminhos divergentes de ação ou de inação. Antes que você possa determinar o caminho que o deixará mais feliz e realizado, é preciso compreender o signi�cado e as implicações de viver sozinho, e as fontes que explicam por que você se sente desta forma diante disso. O MITO DO SOLTEIRO TRISTE A maioria das pessoas nos Estados Unidos acaba casando ou estabelecendo um relacionamento de longo prazo,198 e, se você for um dos poucos que não têm um companheiro, talvez tenha vivenciado uma variedade de emoções ao longo dos anos, desde o desapontamento e a solidão até a rejeição e a raiva. Talvez você tenha, inclusive, sido vítima da discriminação de seus empregadores, da Receita Federal e do sistema político, estigmatizado pela sociedade, ignorado pelos pesquisadores e esnobado por amigos que acabaram de iniciarseus próprios relacionamentos.199 Se você sempre desejou um casamento de conto de fadas ou preparar o jantar todas as noites com o seu parceiro, permanecer solteiro é, inegavelmente, muito doloroso. É prudente, no entanto, examinar em que grau sua fantasia romântica foi suscitada pelas normas sociais (que estipulam o que se espera que todos nós alcancemos em cada fase da vida) e alimentada por seus pais, contraparentes e amigos casados. Trata-se da fantasia que traz consigo a suposição de que você só vai encontrar a verdadeira felicidade quando encontrar um parceiro ou um cônjuge. Antes de decidir o que sentir ou como agir, é importante analisar o verdadeiro valor deste mito da felicidade. Grande parte da mídia e do interesse acadêmico tem se concentrado na ideia de que os indivíduos mais felizes são os casados. Embora isso seja tecnicamente verdadeiro, os pesquisadores demonstraram que estar casado só leva as pessoas a relatarem que são mais felizes com suas vidas como um todo (em parte porque a pergunta “Você é feliz como um todo?” provavelmente as obriga a pesar o fato de estarem casadas como um indício de mais felicidade), mas ser casado não leva as pessoas, necessariamente, a experimentar mais felicidade ao longo do tempo.200 Por exemplo, um estudo que acompanhou como as mulheres casadas ocupam seu tempo durante todas as horas do dia descobriu que o casamento confere tanto benefícios quanto custos para elas, e que esses benefícios e custos parecem se anular uns aos outros. As mulheres casadas consomem menos tempo sozinhas do que as solteiras e mais tempo fazendo sexo, mas também gastam menos tempo com os amigos, menos tempo lendo ou assistindo à televisão, e mais tempo executando tarefas, preparando a comida e cuidando dos �lhos (deve-se notar que quase todas as descobertas sobre o casamento se aplicam, igualmente, a relacionamentos amorosos sérios e de longo prazo). Além disso, embora as pessoas casadas relatem estar mais satisfeitas com suas vidas como um todo do que aquelas que vivem sozinhas, veri�ca-se que esta diferença é mais forte, ou se torna apenas evidente, quando a comparação é feita entre os casados e os divorciados, entre os casados e os separados, ou entre os casados e os viúvos.201 Os indivíduos que sempre viveram sozinhos se saem extremamente bem. Estes dados também são compatíveis com um estudo que mencionei anteriormente – uma pesquisa que acompanhou 1.761 indivíduos solteiros que se casaram e que ainda estavam casados quinze anos depois. Este estudo concluiu que o ato do casamento confere aos recém-casados um impulso de felicidade que dura, em média, dois anos; após o segundo ano de casamento, eles voltam ao ponto de onde partiram, pelo menos em termos de felicidade.202 Os solteiros não chegam a experimentar este impulso, mas também não são impactados pelo seu declínio. Outra história pode ser contada a respeito dos solteiros e da saúde. A título de exemplo, embora as pessoas casadas que nunca se divorciaram sejam mais saudáveis e vivam mais tempo do que aquelas que se divorciaram, as pessoas que sempre viveram sozinhas são tão saudáveis quanto as que sempre foram casadas e vivem tanto quanto elas.203 Isto pode parecer surpreendente, já que o casamento, o amor e os relacionamentos íntimos parecem ser a fonte da felicidade, da identidade e do signi�cado para muitos de nós. Alguns chegam a argumentar que nossa cultura valoriza a “nuclearidade intensiva”, a ponto de considerar-se que as pessoas solteiras perderam as experiências mais transcendentes da vida e, portanto, como a mulher anônima que me escreveu, devem ser mais solitárias, mais tristes, mais carentes e, até mesmo, menos maduras.204 Elas não são. As pessoas que permanecem solteiras a vida toda não são, seguramente, desprivilegiadas, uma vez que retiram de outras fontes o valor e o propósito de suas vidas – de seus amigos, irmãos, parentes, comunidades, empregos, ou da dedicação a uma grande causa. Resumindo, elas parecem seguir o velho conselho de não colocar todos os ovos em uma única cesta. Em vez de contar com os benefícios do casamento, uma mulher solteira que tenha identidades diferenciadas como corretora, amiga, irmã, ciclista e jardineira é menos propensa a perder sua autocon�ança, seu senso de competência e sua alegria de viver quando algo der errado. Não importando suas escolhas, ou a falta delas na vida, ela sempre terá algo em que se destacar e do que desfrutar, seja um intenso triatlo, um almoço chique com sua melhor amiga, uma apresentação de sucesso no trabalho ou uma brincadeira com seus irmãos. O fato mais notável, porém, é que as pessoas que vivem sozinhas têm relacionamentos grati�cantes, duradouros e signi�cativos. Em relação aos seus pares casados (ou que já foram casados), elas tendem a ser mais próximas de seus irmãos, primos e sobrinhos; continuam a desenvolver novas amizades à medida que envelhecem; e mantêm mais contato com os amigos. De fato, os pesquisadores apontam que os amigos íntimos dos solteiros são pessoas que eles escolheram, enquanto os amigos íntimos dos casados costumam ser escolhidos para eles (por exemplo, os pais dos amigos de seus �lhos, seus contraparentes, amigos de seus cônjuges etc.). É de se notar que as mulheres idosas que sempre foram solteiras têm, normalmente, até uma dúzia de amizades importantes e signi�cativas, mantidas por décadas.205 Leitores casados – e os que são pais, em particular: vocês podem dizer o mesmo? Nenhum indivíduo – nem mesmo o amor de nossas vidas – pode ser todas as coisas para nós, em todos os momentos e em todas as situações. Às vezes, desejamos um apoio emocional em uma crise pessoal. Às vezes, queremos estímulo intelectual ou uma percepção diferenciada sobre o mais recente acontecimento político. Às vezes, precisamos de assessoria técnica ou �nanceira. Às vezes, precisamos de um tapinha nas costas que nos estimule. Outras vezes, �camos desesperados procurando alguém que nos ajude a sair de um impasse. Aqueles que dependem, na maior parte do tempo, de seus parceiros – que, possivelmente, não conseguirão preencher todas essas necessidades – estão em desvantagem. Pessoas solteiras que têm vários círculos de amigos – os tipos de amigos a quem podem pedir ajuda no meio da noite –, cultivados e alimentados por décadas, estão igualmente bem posicionadas – ou até mais bem posicionadas – para se bene�ciar durante emergências, problemas, tensões e vitórias. Em suma, uma in�nidade de pesquisas demonstra que as relações interpessoais fortes, afetuosas e satisfatórias nos deixam felizes.206 No entanto, o relacionamento principal não precisa ser sexual ou romântico. SENDO O MELHOR SOLTEIRO QUE VOCÊ PUDER Quando temos uma enorme sensação de que nunca seremos felizes sem um parceiro amoroso, podemos escolher inúmeros caminhos. Um deles é nos esforçar ao máximo para nos comunicarmos, conhecermos e namorarmos tantas pessoas quanto pudermos. É provável que, oportunamente, alguma delas acabe se revelando “a pessoa”. Embora eu não aborde essa opção, inúmeros conselhos, artigos e livros podem nos ajudar a atingir este objetivo. Outro caminho – abordado na seção a seguir – envolve decidir que podemos, sim, ser felizes sem um parceiro amoroso, nos libertando desse objetivo e construindo uma vida plena e rica, mesmo vivendo sozinhos. Claro, estamos livres para deixar a porta aberta para um futuro relacionamento, evitando, ao mesmo tempo, que este seja o sonho primordial de nossas vidas. Finalmente, podemos fazer o máximo para nos tornarmos a pessoa mais feliz, otimista, equilibrada e bem-sucedida que pudermos, e con�armos que esta nova pessoa na qual nos tornaremos estará suscetível de atrair o melhor companheiro possível. Gostaria de começar considerando esta terceira opção – a de que uma pessoa positiva, feliz e otimista não só desfrutará o máximo de sua solteirice atual, mas tornará muito mais possível uma vida a dois. De fato, os indivíduos mais positivos são percebidos como mais �sicamente atraentes, inteligentes, afetuosos, moral e socialmentehabilidosos do que os menos positivos; não é de surpreender que se tenha descoberto que eles estão mais propensos a encontrar parceiros com quem se casar e a erigir parcerias resistentes e satisfatórias.207 Em um de meus estudos favoritos, por exemplo, as mulheres que transmitiam positividade em suas fotos nos anuários da faculdade, tiradas aos vinte ou 21 anos de idade, estavam relativamente mais propensas a estarem casadas aos 27 anos e menos propensas a ainda estarem solteiras aos 43.208 Como podemos nos transformar nesta pessoa autenticamente otimista? Várias recomendações podem ser encontradas na literatura cientí�ca. Em primeiro lugar, devemos considerar a maneira pela qual um traço como o otimismo é de�nido, já que alguns de nós podem ter uma ideia errônea sobre ele. Muitas pessoas caracterizam o otimismo de uma forma que remete à de�nição oferecida por Voltaire em 1759 – que é “a mania de a�rmar que tudo está bem quando tudo está mal”.209 Na verdade, muitos pesquisadores como eu optam por uma de�nição bem mais restrita – a de que esperamos “que tudo, de alguma forma, talvez não se revele muito ruim”.210 Quando nos sentimos solitários e sozinhos, criar o nosso melhor “eu” possível exige este tipo de “pequeno otimismo”, pelo menos no começo – a expectativa de que vamos ter um bom dia; de que, talvez, não consigamos fazer tudo que queremos, mas conseguiremos fazer algumas das coisas que queremos; de que, apesar de nem sempre conseguirmos o que queremos, conseguiremos aquilo de que precisamos; de que não há problema em con�ar na vida; de que não nos deixaremos vencer; de que, mesmo que as coisas não saiam bem, elas vão melhorar. Independentemente de nosso otimismo ser grande ou pequeno, muitos de nós vacilamos a respeito de nossas expectativas para o futuro. Felizmente, como as pesquisas já comprovaram, inúmeras atividades favorecem o pensamento positivo. A estratégia mais sólida compreende a atualização regular de um diário, entre dez e vinte minutos por dia, no qual anotamos nossas expectativas e nossos sonhos para o futuro (por exemplo, “Em dez anos, estarei casado e terei uma casa própria”), visualizamos sua concretização e descrevemos como poderemos realizá-los e qual seria a sensação desta conquista. Este exercício – mesmo quando lhe dedicamos apenas dois minutos –, torna as pessoas mais felizes e, até mesmo, mais saudáveis.211 Além disso, é uma boa ideia praticar os músculos do otimismo quando somos confrontados com as pequenas perguntas que testam nossa autocon�ança (Devo me sentar ao lado do cara que está lendo o meu romance favorito?), de modo que estejamos mais bem preparados para as ocasiões das grandes perguntas (Fui feito para o amor?). Mas e se nossos objetivos e sonhos de encontrar um companheiro forem extremamente difíceis ou desa�adores, ou, até mesmo, impossíveis? E se nossas expectativas forem excessivamente altas? Até mesmo os otimistas mais ferrenhos e mais bem-sucedidos encontrarão barreiras diante de suas expectativas positivas. As pesquisas mostram que o pensamento otimista nos ajuda a seguir em frente, apesar das barreiras e das adversidades.212 Quando praticamos o otimismo, nos tornamos mais con�antes, mais motivados e mais energicamente engajados em nossos objetivos, tomamos medidas mais proativas para atingi-los, e �camos mais comprometidos, persistentes e focados na tarefa. Em outras palavras, nos comportamos de modo a aumentar as probabilidades de atrair o parceiro certo. No entanto, sem dúvida, haverá momentos em que os nossos pensamentos otimistas não conseguirão enfrentar a dura realidade e em que nos deixaremos seduzir por inferências e conclusões negativas. Em tais situações, podemos testar um exercício valioso, que ajuda a combater o pensamento negativo, encontrando, deliberadamente, formas de reinterpretar nossas circunstâncias de maneira mais positiva. Por exemplo, podemos escrever (1) nosso problema ou obstáculo atual (pensamentos intrusivos, como “Nunca vou realizar meu sonho de encontrar o amor verdadeiro”); (2) nossa interpretação inicial (“Porque arruinei todos os relacionamentos que tive”); e, �nalmente, (3) nossa reinterpretação positiva (“Amadureci muito nos último cinco anos e, agora, consigo julgar melhor as pessoas”). É claro que, às vezes, nosso veredicto fatalista sobre o fato de um determinado objetivo estar aquém do nosso alcance é basicamente verdadeiro. Quando minha correspondente anônima escreveu que não tinha “ninguém com quem compartilhar o [seu] amor”, sua conclusão pode ter sido pessimista, mas não era infundada ou irracional. Nessa situação, descobriu-se que os otimistas têm, na verdade, mais chances de desistir de um objetivo impraticável do que os pessimistas (por exemplo, uma mulher de 39 anos de idade que está determinada a se casar e a engravidar aos quarenta) e, ao mesmo tempo, esboçar o melhor quadro possível da situação.213 Essencialmente, praticar o otimismo nos dá a �exibilidade e a perspectiva da visão geral para avaliar nossos objetivos e sonhos de forma realista, deixar de lado os inatingíveis, reconhecer o quanto crescemos ou aprendemos sobre nós mesmos a partir dos desa�os que já enfrentamos e seguir em frente, encontrando novos objetivos signi�cativos os quais perseguir. Aprender a ser mais positivo e mais otimista signi�ca aprender a ver oportunidades nas di�culdades,214 interpretar o mundo como pleno de possibilidades e encantos. Se sentirmos que �caremos para sempre sozinhos, podemos estar certos ou errados, mas não saberemos, a menos que nos mantenhamos envolvidos, adotemos uma perspectiva positiva e continuemos tentando. REORIENTANDO SEUS OBJETIVOS Enquanto alguns continuarão procurando o Sr. ou a Sra. Ideal, outros podem optar por se libertar inteiramente desta busca. As razões pelas quais faremos uma ou outra coisa podem ser complicadas, e, para desvendá-las, talvez seja necessário explorar por que estamos sozinhos atualmente. Se temos o hábito de sabotar os relacionamentos porque tivemos modelos fracos, pouca experiência em relacionamentos ou estamos com medo dos próximos passos (intimidade, empenho, comprometimento) ou de possíveis armadilhas (rejeição, in�delidade, ser magoado), podemos pensar em procurar um terapeuta pro�ssional ou a orientação de amigos e de livros de autoajuda. Como alternativa, talvez pre�ramos, de fato, �car sozinhos, embora não reconheçamos isso em nós mesmos (ou não queiramos reconhecer). Ou, talvez, tenhamos feito a relação custo-benefício e, em vista de nossas condições atuais, decidido que é bem melhor �car sem um parceiro, ou que a probabilidade de encontrar um parceiro que combinará com a nossa personalidade e o nosso estilo de vida é muito baixa. Se optarmos por desistir do objetivo de passar o resto de nossas vidas ao lado de uma alma gêmea, como devemos proceder? Os cientistas aprenderam muito sobre os benefícios da equanimidade diante de sonhos não realizados, bem como sobre a coragem e a �exibilidade necessárias para renunciar a objetivos impraticáveis em favor dos mais exequíveis. De fato, as pesquisas mostram que as pessoas que têm objetivos irrealistas serão signi�cativamente favorecidas se conseguirem abdicar de tais objetivos e assumir atividades novas e signi�cativas.215 Estudos comprovam que são necessários três passos para seguir adiante de forma responsável.216 Em primeiro lugar, começamos por reduzir nossos esforços para encontrar um companheiro – por exemplo, pedindo aos nossos amigos para pararem de bancar o cupido e encarando as novas pessoas que conhecemos não como possíveis parceiros, mas como potenciais amigos e con�dentes. Segundo, começamos a sentir que o objetivo de encontrar um parceiro não é tão signi�cativo, importante ou essencial para nossa felicidade quanto acreditávamos anteriormente,217 talvez amparados pelas pesquisas sobre o mito do solteiro triste. Em terceiro lugar, identi�camos e começamos a buscar atividades alternativas (como o fortalecimento de nossas relações com velhos amigos, a adoção de uma criança, ou voltar a estudar)e, gradualmente, aprendemos a pensar sobre nós mesmos e sobre nossas identidades de forma diferente (por exemplo, como um grande amigo, e não como um cônjuge potencialmente excelente). Hoje em dia, metade de todos os adultos nos Estados Unidos é solteiro, e pesquisas recentes mostram que cada vez mais pessoas estão preferindo viver sozinhas, como um estilo de vida.218 Estabelecer vínculos com uma comunidade de solteiros que encaram positivamente o seu estado civil pode ser reconfortante e fortalecedor. Em suma, nosso tempo, nossas energias e nossos esforços aplicados ao objetivo de encontrar um parceiro de vida se recanalizam para o objetivo de nos tornarmos um amigo, um líder ou um tio exemplares. A importância destes três passos tem sido investigada em pessoas que enfrentam uma variedade de situações – desde os recém-separados a casais em que um dos parceiros está morrendo de AIDS, até pais de crianças com necessidades especiais. Em todos os estudos, os indivíduos capazes de seguir em frente e de se manterem felizes foram os que obtiveram sucesso em (1) minimizar a importância dos objetivos originais (e agora inatingíveis), relacionados ao bem-estar do casal (por exemplo, curar a doença de seu parceiro ou ter uma carreira brilhante ao mesmo tempo em que cuida do �lho com necessidades especiais) e (2) ressaltar a importância de objetivos alternativos, mais realistas.219 Se nosso parceiro estiver cronicamente doente, por exemplo, podemos deixar em suspenso nossa carreira e nos esforçar para sermos o melhor cuidador e o melhor companheiro que pudermos. Os pesquisadores também analisaram a busca por novos relacionamentos íntimos, logo após uma recente separação, e constataram algo ainda mais relevante para a questão de viver sozinho.220 Eles descobriram que aqueles que tiveram poucas oportunidades de encontrar um novo parceiro amoroso (neste caso, pessoas mais velhas versus mais jovens) se mostraram mais propensos a abandonar o objetivo de encontrar um companheiro, o que levou a uma maior felicidade ao longo do tempo. Por outro lado, as pessoas mais jovens se mostraram menos propensas a desistir de tais objetivos, e aquelas que o �zeram tornaram-se menos felizes com o tempo, e não mais. Embora esta pesquisa possa parecer um tanto desanimadora, vale a pena re�etir sobre as suas implicações. Até onde vamos remoer o fato de vivermos sozinhos ou alimentar a esperança de nos depararmos com essa pessoa ideal, que pode não existir? Quando vamos aceitar e abraçar nossa vida presente e seguir adiante com outros planos? Na década de 1950, o eminente psicanalista Donald Winnicott introduziu o conceito de “mãe su�cientemente boa” – uma mulher que não se esforça à perfeição para atender imediatamente a todas as necessidades de seu �lho, mas que, ainda assim, permite que o �lho se transforme em um adulto bem-ajustado.221 Talvez aqueles que estejam se confrontando com o ponto fundamental abordado neste capítulo devessem avaliar se estão levando uma “vida de solteiro su�cientemente boa”. Para muitos de nós, a resposta será não, e continuaremos insistindo em nos tornarmos a melhor pessoa possível – uma pessoa que terá mais probabilidades de atrair um parceiro adequado. Alguns de nós, no entanto, poderão se surpreender ao descobrir que a resposta será sim, pelo menos por enquanto. A MENTE PREPARADA O momento crítico do “estou sozinho e sinto que sempre estarei” é, inegavelmente, doloroso para muitos indivíduos. Se você estiver neste impasse, é possível continuar ruminando sobre sua situação e permanecer imerso em tristeza. Alternativamente, você pode ter uma atitude proativa a respeito disso – se esforçando para prosperar como indivíduo e �cando aberto à possibilidade de vínculos. Ou você pode descobrir que não precisa de um homem (ou de uma mulher) para deixá-lo feliz. Se o seu primeiro pensamento for “eu nunca serei feliz sozinho” ou “eu sou um fracassado”, avalie se o desejo de se casar é genuinamente seu ou se é ditado por sua família ou pela cultura geral. As pesquisas mostram, de forma contundente, que as pessoas casadas não são mais felizes do que as solteiras e que as solteiras têm desfrutado de grande felicidade e obtido signi�cado a partir de outros relacionamentos e de outras buscas. Se você não gostar de viver sozinho, mude. Se você não puder ou não quiser mudar sua vida, mude a maneira de pensar sobre isso. A verdade é que o mito da felicidade segundo o qual só se pode ser feliz com um parceiro é tão poderoso quanto equivocado. Saber disso deveria fazê-lo deter-se – e cultivar esperanças –, abrindo novos caminhos e perspectivas. Parte II TRABALHO E DINHEIRO Se tivermos trabalhado em tempo parcial na faculdade e mais quarenta horas por semana até completarmos 67 anos de idade, teremos trabalhado quase 100 mil horas ao longo de nossas vidas, com um quarto de nosso tempo de vigília dedicado aos nossos empregos. A jornada média de trabalho nos Estados Unidos é de nove horas e meia de duração, sendo que, entre nós, 35% trabalham nos �ns de semana e 31% trabalham mais de cinquenta horas por semana.222 Evidentemente, a “média” signi�ca que metade de nós trabalha mais – e, muitas vezes, muito mais do que isso. A maioria dos que têm um emprego ou uma carreira considera-os parte vital de suas identidades, repleta de conquistas e frustrações. Além disso, é de nossos empregos que obtemos dinheiro para nos sustentar, para nos divertir ou para nos fazer sofrer, por realizar muito pouco ou por gastar imprudentemente o que ganhamos. Na verdade, quando se pergunta às pessoas o que gostariam de ter nesse momento, muitas a�rmam querer “mais dinheiro”.223 Não é de surpreender, então, que os mitos sobre aquilo que nos traz a maior felicidade (encontrar o emprego ideal, ser bem-sucedido e rico) e a maior infelicidade (fazer muito pouco dinheiro) permeassem nossa vida pro�ssional e nossa vida geradora de renda ao longo de quatro ou cinco décadas, e ensejassem momentos críticos preocupantes para nós. Nos próximos três capítulos, desmonto as evidências destes mitos da felicidade e ofereço inúmeras ideias para você conseguir superar tais momentos críticos e prosperar. CAPÍTULO 5 Eu serei feliz quando... encontrar o emprego certo Você considera que seu trabalho deixou de ser satisfatório – ou pior, que está insuportável? Se for este o caso, pesquisas recentes mostram que, mais do que nunca, os norte-americanos vivenciam a mesma experiência.224 Talvez você esteja esgotado, entediado ou cansado com o seu emprego, ou sinta que o sucesso pro�ssional o iludiu decisiva e irrevogavelmente. Além do mais, a sensação de que seu trabalho não é mais o que costumava ser pode instigar um momento crítico doloroso, que o força a questionar sua capacidade de julgamento, suas habilidades, sua disponibilidade e sua motivação. Este capítulo concentra-se no mito da felicidade que alimenta tal momento crítico – a saber, que toda a felicidade que tenha lhe escapado até agora se materializará depois que você conseguir o emprego “certo” ou perfeito. Lidar com este mito requer uma compreensão da onipresença e das verdadeiras fontes do mal-estar relativos ao seu emprego ou ao seu grau de sucesso. Só então você estará preparado para fazer escolhas saudáveis e dar os próximos passos. Alguns destes passos são detalhados aqui. ACOSTUMANDO-SE COM SEU EMPREGO No capítulo 1, foquei no momento decisivo em que você chega à conclusão de que está entediado com o seu casamento. Haveria um ponto paralelo, em que você reconheça que está entediado com o seu emprego? Embora amor e trabalho possam parecer ter poucas coisas em comum – por qual outra razão seria preciso “equilibrá-los”? –, ambos são, como Freud habilmente reconheceu, molas propulsoras de nossa saúde mental.225 Além disso, assim como as relações interpessoais, o trabalho é um aspecto de sua vida ao qual você está propenso a se adaptar hedonisticamente e a considerar corriqueiro – situação que dá origem à apatia e ao tédio que abastecem aquele sentimento dolorosotrocar todas as fraldas. Nós não tendemos a visualizar as tensões, os altos e baixos, o desgaste das paixões, os desencontros, os mal-entendidos e as desilusões do amor de longa duração – tudo aquilo que contribui para provocar um curto-circuito no período de lua de mel de um casamento. Da mesma forma, nossas mentes pintam cenas excessivamente sombrias e pessimistas do que seria vivenciar o desemprego, arrepender-se profundamente ou �car solteiro. O segundo fator que ajuda a frustrar nossas previsões é que subestimamos a força do que Gilbert e Wilson chamam de nosso “sistema imunológico psicológico”. Assim como nossas células imunológicas nos protegem de agentes patógenos e de doenças, veri�ca-se que temos uma série de habilidades e talentos que subvalorizamos ou que somos incapazes de antecipar – desde a habilidade para racionalizar nossas falhas à capacidade de estar à altura de nossas responsabilidades –, e que nos protege de sucumbir em face à adversidade ou ao estresse. As pessoas são bastante resilientes e muito ágeis em desconsiderar, negar ou bloquear as experiências negativas, ou transformá-las em algo positivo. Quando imaginamos como nos sentiríamos ao saber que nossa jornada de trabalho foi seriamente reduzida, não percebemos que o desânimo e a insegurança iniciais que experimentaremos serão amenizados pela melhora de nosso preparo físico (utilizando aquelas horas extras para ir à academia), por uma proximidade maior com nossos �lhos (utilizando aquelas horas extras para ir ao playground), pela constatação de que, a�nal de contas, nós nunca almejamos realmente ser corretores (aproveitando os encontros íntimos nos �ns de noite com nosso parceiro) e por nosso senso de amadurecimento (apreciando a forma como aquele revés revelou pontos fortes que nem sabíamos ter). Não me interpretem mal: é improvável que a desventura inicial após a rejeição ou a perda de um emprego se metamorfoseie em prazer, mas estudos mostram que é muito provável que a angústia seja amortecida pelo nosso sistema imunológico psicológico.6 O nosso sistema imunológico psicológico também opera, particularmente, após acontecimentos positivos. Conforme abordarei detalhadamente nos capítulos 2, 6 e 8, os seres humanos têm uma capacidade gigantesca de se adaptarem a novos relacionamentos, empregos e condições materiais, e o resultado disso é que, com o tempo, até mesmo tais grati�cantes mudanças de vida se tornam cada vez menos satisfatórias. Este fenômeno, chamado de “adaptação hedonista”, é um tema importante do livro, pois nossa tendência de nos acostumarmos com quase tudo de positivo que nos acontece é um grande obstáculo para a nossa felicidade. A�nal, se, em última instância, consideramos nossos novos empregos, novos amores, novas casas e novas conquistas algo corriqueiro, então como conseguiremos perpetuar a nossa alegria e a nossa satisfação por estas coisas? Em resposta a esta pergunta, ofereço recomendações baseadas em evidências de como evitar ou superar tal obstáculo e encontrar o caminho para a prosperidade e a realização. Meu argumento é o de que, uma vez compreendendo os equívocos e os vieses que motivam nossas reações, perceberemos que, independentemente da clareza dos próximos passos, não existe um caminho correto e adequado, ou uma única forma de considerar a nossa situação. Ao contrário, existem vários caminhos. Espero que a leitura deste livro nos conduza a uma melhor compreensão das nossas próprias trajetórias. Há muito risco e há muito em risco, já que qualquer caminho que escolhamos terá efeitos cumulativos nos próximos anos – e não será possível voltar atrás. “Porque tudo o que fazemos”, escreveu James Salter em seu romance sobre o casamento, Light years [Anos- luz], “e até mesmo o que não fazemos, nos impede de fazer o oposto. Os atos anulam as suas próprias alternativas, e este é o paradoxo”.7 Em seu sucesso de vendas Blink: A decisão num piscar de olhos, Malcolm Gladwell aprimorou a ideia de que as decisões tomadas em um piscar de um olhos – baseadas em pouca informação, em pura emoção e nos instintos – são, muitas vezes, melhores do que as cuidadosamente fundamentadas e avaliadas.8 A cultura popular, alimentada por reportagens da mídia, absorveu esta ideia de bem-estar com muito gosto. A�nal, a noção de con�ar na intuição para tomar decisões e fazer julgamentos importantes – não ter de fazer nenhum trabalho! – é incrivelmente atraente, especialmente para a mente dos norte-americanos ansiosos por soluções rápidas. Neste livro, argumento que o segundo – ou, até mesmo, o terceiro – pensamento pode ser o melhor pensamento. Minha abordagem é: “Pense, não pisque”. O debate que procura estabelecer se o primeiro pensamento é melhor do que o segundo (ou o enésimo) data de muitos e muitos anos. Desde Platão e Aristóteles, �lósofos, escritores, e, nas últimas décadas, psicólogos sociais e cognitivos têm feito a distinção entre dois mecanismos diferentes sob os quais nossos cérebros operam ao fazer julgamentos e tomar decisões.9 O primeiro deles (com o repulsivo nome de Sistema 1; eu o chamarei de intuitivo) foi o que Gladwell descreveu em Blink. Quando con�amos em nossas intuições, instintos ou emoções pontuais para decidir se devemos largar o nosso emprego, estamos con�ando em nosso sistema intuitivo. Tais decisões são tomadas de forma tão rápida e automática que não temos consciência do que exatamente as in�uenciou. Nestas páginas, esclarecerei os equívocos sobre a nossa felicidade, que in�uenciam cada um destes primeiros pensamentos. O segundo mecanismo sob o qual nossas mentes funcionam (identi�cado pelos cientistas como Sistema 2, mas que chamarei de racional) é muito mais deliberado. Quando contamos com a razão ou com o pensamento racional para decidir se desejamos dispensar nosso empregador e trocá-lo por um novo, reunimos energia e esforços, dedicamos nosso tempo, avaliamos sistemática e criteriosamente e podemos fazer uso de determinados princípios ou regras. Isto é, precisamente, o que este livro vai encorajar – e ajudar – a fazer. Durante os últimos cinquenta anos, uma vasta literatura no campo da psicologia vem documentando os muitos equívocos e vieses que levam os seres humanos a tomar más decisões com base em suas intuições.10 Para dizer a verdade, muitas vezes cometemos erros custosos quando fazemos determinadas escolhas. Isto porque o nosso sistema intuitivo – no qual muitos de nós depositamos grande con�ança – se vale, normalmente, de atalhos mentais rápidos e super�ciais, ou de regras gerais (“Você �cou sabendo do tiroteio no cinema? Acho melhor �car em casa, vendo televisão”), que, muitas vezes, nos desviam do caminho. No entanto, apesar das armadilhas inerentes ao sistema intuitivo, nossos primeiros pensamentos intuitivos são, de modo geral, muito mais atraentes do que o segundo e o terceiro pensamentos, que costumam ser bastante ponderados. Com efeito, devido ao fato de os julgamentos intuitivos muitas vezes parecerem emergir de forma espontânea e automática, sem que os tenhamos suscitado, nós os interpretamos quase como uma “premissa” ou um fato consumado.11 Assim, quando temos um forte sentimento de que devemos abandonar de�nitivamente o nosso emprego, por mais que esse sentimento esteja enraizado em mitos sobre a felicidade, atribuímos a essa intuição um signi�cado e uma importância extras, porque ela, simplesmente, nos “parece correta”. Na verdade, temos a tendência a preferir os instintos, mesmo quando eles são, obviamente, irracionais. Não quero dizer, com isso, que pensar duas ou três vezes será sempre a melhor abordagem, principalmente quando nossas cabeças e corações nos oferecerem conselhos con�itantes. Mas a verdade é que nossas reações iniciais (ou nossos primeiros pensamentos) aos momentos críticos (por exemplo, “Minha vida está indo ladeira abaixo” ou “Nunca encontrarei alguém para amar novamente”) estão contaminadas por nossa parcialidade, e regidas por falácias pelas quais nos deixamos envolver, acerca do que poderia e do que não poderia nos trazerde que o seu trabalho deixou de ser prazeroso, e que você seria muito mais feliz fazendo outra coisa. Uma das possibilidades, logicamente, é encontrar um novo caminho pro�ssional. Ou você pode tentar identi�car em que medida o seu tédio se deve à sua situação de trabalho especí�ca (e problemática) e em que medida ele se deve ao processo generalizado e previsível da adaptação hedonista, que, provavelmente, se repetirá em seu próximo emprego. Neste último caso, uma série de abordagens empiricamente comprovadas pode afastar a sensação de que seu trabalho não é mais satisfatório e deter o avanço da adaptação hedonista. Antes de tomar uma decisão drástica, teste essas estratégias para determinar se elas teriam algum sucesso com você, ou se a sua situação no emprego é irremediável. Acima de tudo, saiba que, quando o seu trabalho não lhe estiver parecendo mais satisfatório, ainda há esperanças. Tenho colegas que mudam de emprego com frequência, fazendo com que suas famílias se mudem de uma costa à outra a cada dois ou três anos. Eles parecem sinceramente empolgados com todas as novas oportunidades e se lançam mais uma vez à tarefa de redesenhar seus compromissos de trabalho e estilos de vida. Então, inevitavelmente, depois de um ano ou algo assim, da mesma forma que os alunos do segundo ano da faculdade passam por uma “crise do segundo ano”, eles começam a se sentir um pouco entediados ou inquietos, ou a desenvolver queixas justi�cáveis sobre o seu novo supervisor, colegas e tarefas, ou sobre as locomoções diárias. Pouco a pouco, começam a fantasiar sobre alguma posição em outro lugar que lhes pareça ainda melhor – talvez um emprego com um chefe mais razoável, ou uma locomoção menos cansativa, colegas mais prestativos e tarefas menos pesadas. Claro, nem todo mundo tem a opção de se mudar com frequência e trocar de emprego, o que sugere que há muito mais pessoas sonhando em fazer o que algumas pessoas têm a sorte de poder realizar. No entanto, serão esses andarilhos pro�ssionais, verdadeiramente, pessoas de sorte? Eles �cam realmente felizes a cada novo posto de trabalho? Em caso a�rmativo, esse benefício compensaria os custos de amizades interrompidas, do afastamento de suas raízes e de seus bairros, e das transferências para distritos escolares desconhecidos? Embora cada um deva pesar individualmente os prós e os contras, nós nos bene�ciaríamos se levássemos em consideração as pesquisas que esclarecem por que todos estamos propensos a nos deixar imolar por empregos perfeitamente decentes e que investigam se há algo que se possa fazer sobre isso. Um estudo seminal sobre o tema acompanhou gerentes de alto nível por cinco anos, a �m de medir sua satisfação com o trabalho antes e depois de uma mudança voluntária de emprego, tal como uma promoção ou uma realocação dentro da mesma empresa, para uma cidade mais bonita.226 Os gerentes eram, em sua maioria, do sexo masculino, majoritariamente brancos, com média de 45 anos de idade, e um salário anual de US$ 135 mil. Eles estavam indo bem no trabalho. Os pesquisadores descobriram, no entanto, que esses gerentes experimentavam uma explosão de satisfação – basicamente, um período de lua de mel – logo após a mudança de emprego, mas sua satisfação caía dentro de um ano, retornando ao nível original anterior à mudança. Em outras palavras, eles viviam uma espécie de efeito ressaca. Por outro lado, os gerentes que optaram por não mudar de emprego durante o mesmo intervalo de cinco anos experimentram mudanças insigni�cantes no nível de satisfação que sentiam em relação a seus empregos. Assim, enquanto eu (por exemplo) permaneci na mesma posição e não �quei mais ou menos feliz por causa disso um ano após o outro, meus colegas peregrinos vivenciaram repetidas quedas e picos de felicidade. O chamado efeito ressaca é uma prova conclusiva da adaptação hedonista aos nossos empregos. Os seres humanos são capazes de se adaptarem a quase tudo em sua vida pro�ssional e, especialmente, a qualquer coisa que permaneça imutável. Recentemente, uma das minhas ex-alunas me escreveu para confessar que, ao chegar ao seu novo emprego em São Francisco, (...) Fiquei tão encantada com a vista sobre a baía que tirei várias fotos. Hoje, me divirto a cada vez que o ônibus vermelho de dois andares passa pela janela [do meu escritório] e todos se debruçam para tirar fotos. Sei que a vista é incrível, porque as pessoas vêm aqui e me dizem isso, mas eu já estou 100% adaptada – na verdade, diria que estou totalmente adaptada a todo o estilo de vida aqui, e que retornei ao ponto de partida. Nós nos acostumamos com as cidades em que vivemos, com nosso sorvete favorito, nossa obra de arte favorita e nossas músicas favoritas; com as casas e carros novos, com os aumentos salariais (falaremos mais sobre isso a seguir); e, como detalhei no capítulo 1, com os relacionamentos e, inclusive, com o sexo.227 Quando alcançamos um objetivo, �camos contentes apenas por algum tempo, até começarmos a sentir que não �caremos satisfeitos enquanto não conquistarmos algo ainda maior. Desta forma, aumentamos contínua e exponencialmente nossas expectativas e nossos desejos. De modo geral, isso não é ruim. Esforçar-se incessantemente por mais é, com certeza, uma característica da adaptação evolutiva; se a realização de nossos objetivos nos propiciasse uma sensação totalmente complacente e satisfatória, nossa sociedade não testemunharia muito progresso. Se estivéssemos sempre contentes com o status quo, nunca nos esforçaríamos para realizar mais, como construir armários melhores, publicar mais livros, aprender mais línguas, encontrar novas fontes de alimento e fazer novas descobertas cientí�cas. Se permanecêssemos em uma euforia de autossatisfação diante de nossa mais recente conquista, não seríamos capazes de competir de forma e�caz com os outros, e poderíamos deixar de reconhecer perigos e oportunidades em nossos ambientes. Antes de examinar as possíveis maneiras de combater, prevenir ou retardar o processo de saturação com nossos empregos, é importante saber exatamente o que acontece conosco durante o processo de adaptação, e por quê. De fato, entram em ação duas explicações principais – ao longo do tempo, sentimos cada vez menos prazer e nossas aspirações aumentam. Quando começamos a trabalhar em uma nova e invejável posição, obtemos um grande impulso de bem-estar, e, até mesmo, de euforia. Pensamos com frequência no novo emprego (e no que mais nos agrada nele) e experimentamos muitas emoções positivas, resultado da cadeia de acontecimentos positivos acionada pelo emprego – e pelas oportunidades recém-descobertas de novos relacionamentos, desa�os, aprendizado e aventuras. No entanto, nas palavras de um dos meus alunos de pós-graduação, essas poças de prazer secam lentamente e, no �m, evaporam por completo. A empolgação diante de nossas novas responsabilidades pro�ssionais continua a decair após a décima e a vigésima vez que as vivenciamos, e assim por diante. O entusiasmo, a felicidade e o orgulho que costumávamos sentir �cam cada vez menores, ao mesmo tempo em que nos concentramos cada vez menos na novidade representada pelo emprego e voltamos nossa atenção às incontáveis di�culdades, estímulos e distrações do cotidiano.228 Depois de um tempo no escritório ou no local de trabalho, nem damos mais atenção às coisas que nos faziam sorrir. Em paralelo, conforme vamos obtendo um prazer cada vez menor com nosso novo cargo, outra coisa crítica acontece – o aumento de nossas expectativas. Na verdade, isso pode minar a nossa felicidade até mesmo se formos abençoados com um emprego que continue nos trazendo tantas alegrias quanto em 2011 ou 2001. Portanto, o emprego que costumava ser especial, se torna, agora, nosso direito e privilégio. Seja no tocante ao aumento de nossa remuneração, à autoridade, à �exibilidade ou ao controle de nosso tempo, começamos a acreditar que isso é o mínimo que merecemos. Começamos a sentir que nossas novas e estimulantes experiências pro�ssionais simplesmente se tornaram parte denossa nova vida – o nosso “novo normal” –, e terminamos considerando previsível a felicidade que desfrutamos agora. Esta nova (e extremamente comum) dinâmica tem a infeliz consequência de não apenas atenuar nossa felicidade – fazendo-nos retornar àquilo que sentíamos antes mesmo de efetivar a mudança –, como de nos impulsionar a distender os limites, a querer mais e mais, de modo que quase nunca �camos satisfeitos com o que temos, mesmo quando a sorte nos favorece com a abundância. Em um exemplo extremo, depois de �riller ter-se tornado o álbum mais vendido de todos os tempos, Michael Jackson declarou que só �caria satisfeito se o seu álbum seguinte vendesse o dobro de cópias. No �m, ele vendeu 70% a menos. A maioria dos músicos teria dado a vida para vender 30 milhões de cópias, mas, para Jackson, o contraste com seu sucesso anterior foi bastante penoso. Assim, praticamente devido às mesmas razões pelas quais nos adaptamos aos nossos relacionamentos, nos adaptamos pronta e rapidamente aos nossos empregos. Saber disso deveria nos fazer re�etir, e, talvez, nos obrigar a hesitar um pouco antes de abandonar um emprego. Mas só porque a adaptação hedonista é natural e evolutivamente adaptativa – o desejo por doces, o ciúme sexual e o medo de animais selvagens são todos naturais e evolutivamente adaptativos – não signi�ca que não possamos alterá-la. REFREANDO SUAS AMBIÇÕES As ambições imoderadas são nocivas para a felicidade. Por um lado, quanto mais conquistamos, mais felizes somos. Mas, ao mesmo tempo, quanto mais conquistamos, mais desejamos, o que vai de encontro ao aumento de felicidade. Um bom exemplo está na constatação de que as pessoas mais escolarizadas estão (surpreendentemente) menos satisfeitas com as suas vidas.229 Em outras palavras, a maior satisfação com a vida que poderia se obter a partir de um MBA em Michigan (por exemplo, as amizades, os contatos pro�ssionais e o prestígio a ele associados) é contrabalançada pelo aumento de ambições e o risco inerente de decepções e desgostos (“Tenho um MBA em uma escola altamente bem-avaliada – por que não consigo uma colocação bem remunerada em Wall Street?”). Um novo emprego que seja mais bem remunerado, mais estimulante e mais grati�cante do que o nosso emprego anterior nos fará felizes, mas, antes que possamos nos dar conta, teremos começado a exigir uma remuneração, estimulação e grati�cações ainda mais elevadas para nos considerarmos felizes. Como podemos evitar que consideremos nossos empregos algo corriqueiro? Uma das mais e�cazes – e mais difíceis – estratégias é reduzir progressivamente nossos desejos e conter o aumento de nossas expectativas.230 Não estou querendo dizer que devamos esperar menos de nossos empregos. Simplesmente, não devemos permitir que nossos desejos continuem aumentando desproporcionalmente, até o ponto em que acabemos nos sentindo no direito de acreditar que só seríamos felizes se tivéssemos mais e mais disto ou daquilo. Considerando-se os desa�os inerentes à contenção de nossas ambições, precisaremos de um arsenal completo de instrumentos psicológicos à nossa disposição para realizar esta tarefa. Sugiro tentar, então, ajustar as múltiplas abordagens (muitas vezes, simultaneamente), e não desistir facilmente. Cinco destes instrumentos psicológicos são descritos a seguir. REATIVE CONCRETAMENTE Rememore regularmente e de forma concreta como era a sua antiga (e menos satisfatória) vida pro�ssional.231 Se você recebia um salário menor, de�na determinados períodos de tempo (digamos, uma semana por mês) para limitar os seus gastos, de modo a fazê-los corresponder aos seus antigos hábitos de consumo. Se você costumava ter colegas antipáticos, almoce sozinho de vez em quando. Se você trabalhava regularmente no turno da noite, esforce-se, periodicamente, para �car acordado até mais tarde novamente. Este tipo de reativação o encorajará a apreciar seu emprego atual e a obter mais prazer com ele, simplesmente rememorando ou se transportando mentalmente às épocas passadas (e menos afortunadas). OBSERVE CONCRETAMENTE Certa vez, visitei um dos escritórios do Google para dar uma palestra sobre felicidade, e acabamos discutindo como as pessoas se adaptavam facilmente às boas coisas da vida. Alguns funcionários �zeram uma visita guiada comigo e con�denciaram-me o quanto amavam os seus empregos, mas que �cavam totalmente esgotados trabalhando lá, e que achavam que nunca mais conseguiriam trabalhar em nenhum outro lugar. Eles têm direito a almoço e jantar gratuitos todos os dias, uma série de guloseimas, palestras com autores- visitantes e dezenas de jogos e distrações (incluindo uma sala com bateria e guitarra). Eles estão autorizados, até mesmo, a levar seus animais de estimação para o trabalho. Quando começaram a trabalhar lá, tais regalias lhes pareceram incríveis, mas não demorou muito tempo para que se acostumassem com elas e ainda encontrassem coisas das quais reclamar (por exemplo, “Não, torta de caranguejo de novo!”). Minha recomendação foi a de que eles deveriam se esforçar para prestar atenção a outros locais de trabalho – talvez, até, seus antigos escritórios, caso fosse possível. Faça visitas ocasionais aos lugares de trabalho de seus amigos, conhecidos ou ex-colegas, e, discretamente, compare-os com o seu. Tais observações causarão uma impressão mais duradoura e o ajudarão a sentir-se privilegiado com sua vida pro�ssional. SEJA GENUINAMENTE GRATO Mantenha um diário de gratidão – uma lista em sua mente, no papel ou no seu smartphone232– que o ajude a contemplar, regularmente, os aspectos positivos do seu emprego. Nada abate mais a gratidão do que as expectativas extremamente altas, e quanto maiores as suas expectativas, menos gratidão você sentirá. Se sua expectativa para amanhã for sair do trabalho às cinco da tarde, e você conseguir, é altamente improvável que se sinta grato por isso. O problema com a prática da gratidão, porém, é que é extremamente difícil mantê-la e levá- la a cabo de uma maneira sincera e genuína. O mesmo acontece com a manutenção de um programa de condicionamento físico rigoroso, uma dieta saudável ou uma prática diária autoimposta de algum instrumento musical. O segredo é reunir esforços e empenho – dois atributos que estão ao alcance de todos nós.233 MUDE O SEU PONTO DE REFERÊNCIA Quando você pensa em seu emprego dos sonhos, qual é o seu ponto de referência? Para muitos de nós, é um emprego mais bem remunerado, menos estressante, mais envolvente, mais confortável e mais grati�cante. Talvez seja o emprego que nosso amigo de escola tenha agora, ou o emprego descrito no artigo que lemos ou no �lme que vimos. Entretanto, há grandes chances de que o nosso ponto de referência seja um emprego de fantasia, que talvez não exista no mundo real. Você sonha em ser um jogador de futebol pro�ssional, um diretor de cinema, um senador, um detetive de homicídios, um jornalista investigativo, um neurocirurgião, um autor de sucesso ou um biólogo marinho? Se assim for, é bem provável que esteja perdendo de vista o fato de que mesmo essas atividades aparentemente fabulosas apresentam períodos de alto estresse, monotonia, colegas possivelmente desagradáveis, tarefas ingratas, resultados exasperantes e longas jornadas de trabalho. Por exemplo, o trabalho de piloto de testes de videogame, classi�cado na lista dos vinte “incríveis empregos dos sonhos”,234 requer longos períodos de concentração, que podem ser estressantes e desgastantes. Um destes pilotos descreveu o seu primeiro dia de trabalho integral realizando testes de videogames desta forma: “Nas últimas duas horas, senti náuseas. Intensas”.235 Ex-espiões internacionais contam histórias semelhantes. De acordo com Lindsay Moran, autora de Blowing My Cover [Arrancando o meu disfarce]: “Bem, certamente eu não esperava que ela fosse tão perfeita quanto em um �lme de James Bond, mas, no �m das contas, a CIA é um monte de gente sentada em cubículos com seus pares de sapatos tradicionais, e este é um tipo de realidade provavelmente chocante para muitaspessoas como eu, que chegam à agência esperando algo mais glamouroso”.236 O meu argumento é que o emprego dos sonhos é um ponto de referência frágil. Mude-o para algo mais apropriado ou que induza à gratidão – como o cargo similar, mas um pouco menos grati�cante, ao qual você se candidatou anteriormente, ou o emprego que você tinha antes de sua promoção, ou o emprego completamente diferente na escola, hospital, shopping, granja, fábrica ou escritório mais próximos. Também é importante mudar o seu ponto de referência de tempos em tempos, a �m de exercer sua capacidade de visualizar tipos alternativos de emprego e de situações. TORNE ESTE DIA NO EMPREGO O SEU “ÚLTIMO” No momento, estou conduzindo uma “intervenção de felicidade” de um mês de duração, em que os participantes estão sendo instruídos a viver o presente mês como se fosse o seu último. As instruções não dizem respeito a imaginar que eles estão com uma doença terminal, mas, ao contrário, imaginar, tão integral e �elmente quanto possível, que estão prestes a passar muito tempo longe de seus empregos, escolas, amigos e famílias, por um período inde�nido. Pesquisas anteriores sugerem que este exercício nos estimularia a apreciar profundamente o que estamos nos preparando para abandonar. Quando acreditamos que estamos vendo (ou ouvindo, fazendo ou experimentando) as coisas pela última vez, iremos vê-las (ou ouvi-las, fazê-las ou experimentá-las) como se fosse a primeira vez.237 Assim, os funcionários do Google poderiam apreciar novamente suas tortas de caranguejo, a estimulação intelectual e os animais de estimação sob suas mesas; e poderíamos apreciar nosso gerente escrupuloso, nosso horário �exível e nossas oportunidades de viajar. REFLEXÕES FINAIS Talvez você tenha notado que muitas das técnicas anteriores trazem, como consequência, o aumento do apreço por nossos empregos atuais. Isso não é coincidência, já que a apreciação pode ser uma das formas mais efetivas de controlar as expectativas. Um autêntico sentido de gratidão com a nossa carreira é, simplesmente, incompatível com o apego a níveis crescentes de satisfação. Certa vez, uma estudante indiana se aproximou de mim em uma conferência para me contar que o casamento de seus pais fora arranjado, e que ela sempre quis saber como eles conseguiam fazê-lo funcionar. Quando ela lhes perguntou, eles confessaram que o seu segredo – pelo menos, em seus primeiros anos juntos – era não ter, absolutamente, nenhuma expectativa! “Dessa forma”, disse o pai, “quando minha esposa fazia qualquer coisa maravilhosa – ou agradável, ou, até mesmo, normal – eu �cava feliz”. Em minha opinião, é verdadeiramente notável como este casal conseguiu refrear suas expectativas. Isso deve exigir talento, ou, pelo menos, um trabalho muito árduo. A lição que �ca para o resto de nós, no entanto, é que se esse casal conseguiu manter um nível zero de expectativas, então podemos, pelo menos, ser bem-sucedidos ao restringir as nossas. Contudo, um pequeno obstáculo ainda persiste. Um grande número de pesquisas tem demonstrado que objetivos elevados e expectativas elevadas são fundamentais no domínio do comportamento humano.238 Se desejamos e esperamos nos sair bem em uma entrevista de emprego, em juntas médicas ou em um primeiro encontro, temos mais chances de ser bem-sucedidos. Objetivos ambiciosos podem promover a autocon�ança, fazer com que nos esforcemos mais, combater a ansiedade e engendrar profecias autorrealizáveis. Então, como poderemos conciliar estas descobertas com a recomendação de reduzir nossas ambições? A resposta está em considerar, em primeiro lugar, o nosso histórico, e, em seguida, o domínio em questão. Primeiro, faz parte de nosso histórico pular de emprego em emprego (ou de relacionamento em relacionamento e de casa em casa)? Se nossa posição se mostra realmente insatisfatória ou se encontra estagnada, então nossos esforços para almejar uma direção diferente ou uma �nalidade maior serão válidos. Mas, se para os padrões da maioria das pessoas temos um emprego perfeitamente adequado, nossas expectativas estão desequilibrando nossa realidade e nos roubando de todos os prazeres, exceto os mais fugazes. Segundo, quando recomendo que nossas ambições sobre nossos empregos sejam progressivamente reduzidas, estou me referindo às ambições em relação à nossa carreira, posição e vida pro�ssional em geral (“Este emprego é su�cientemente bom para mim, ou mereço algo melhor?”), e não ao nosso desempenho especí�co no trabalho (“Estou con�ante com a minha apresentação com PowerPoint amanhã?”). Quando se trata de nosso desempenho e das realizações especí�cas no trabalho, sempre devemos sonhar alto. VENCENDO O RITMO ULTRADIANO Em 9 de agosto de 2010, um jato da JetBlue Airways chegou ao Aeroporto Internacional John F. Kennedy, em Nova York, proveniente de Pittsburgh, Pensilvânia. Enquanto a aeronave taxiava na pista, houve uma briga entre um passageiro e um comissário de bordo. O comissário de bordo, Steven Slater, aparentemente chegando à conclusão de que não aguentava mais, dirigiu vários impropérios aos passageiros através do intercomunicador (“Vão se f ***!”), pegou duas cervejas Blue Moon do carrinho de bebidas (“Vou dar o fora daqui!”) e acionou a rampa de evacuação de emergência, deslizando e desaparecendo nos anais da história popular. Embora o acionamento imprudente do escorregador tenha colocado em risco a vida de indivíduos que estavam na pista e custado US$ 10 mil à companhia aérea, Slater se tornou um herói instantâneo da classe trabalhadora, produzindo efeitos em funcionários descontentes em todos os lugares, desejosos, eles também, de poder dizer aos seus patrões que pegassem o seu emprego e en�assem onde bem entendessem. Ainda assim, não nos sentimos insatisfeitos com nossos empregos o tempo todo. Mais provavelmente, experimentamos o mal-estar ou a exasperação de tempos em tempos. Você �caria surpreso ao descobrir que esses pontos baixos – os momentos em que você anseia ir embora ou deslizar pela rampa de emergência de modo genial – ocorrem a cada noventa minutos? Se compreendêssemos este fato, poderíamos antecipar tais momentos e evitá-los. Os comissários de bordo e os assalariados estressados deste mundo pensariam duas vezes. A maioria de nós já ouviu falar dos ritmos circadianos – ciclos diários que regulam nosso sono (perto da hora de dormir e ao longo da noite) e nossos estados de alerta e de vigília (ao acordar e ao longo do dia). A palavra circadiano signi�ca “cerca de um dia”, e, portanto, um ritmo circadiano ocorre uma vez a cada período de 24 horas. Essencialmente, o ritmo circadiano é o nosso relógio biológico interno, sensível à luz e ao escuro. Poucos de nós, no entanto, já ouviram falar de um outro tipo de ciclo corporal, chamado ritmo ultradiano. O ciclo de estágios ultradianos se completa, mais ou menos, a cada noventa minutos, durante o sono (mas não mais do que 120 minutos). Além disso, também continuamos a experimentar estes ciclos de noventa a 120 minutos enquanto estamos acordados. Na prática, isso signi�ca que, entre uma hora e meia a duas horas depois de levantar a cada manhã, nos sentimos particularmente vigorosos e focados – capazes de sustentar a concentração e a energia ao longo de nossas atividades. Ao �m deste intervalo, no entanto, experimentamos um período de vinte minutos de fadiga, letargia e di�culdade de concentração. Este é o “ritmo ultradiano”. Os gurus de negócios têm se apropriado astuciosamente dessas ideias para usá-las como conselhos práticos em treinamentos de executivos e líderes empresariais. Sua mensagem é que todos os funcionários devem estar cientes de seus ritmos ultradianos, e que, quando sentirem a aproximação do período de vinte minutos de perda de foco, em vez de confrontá-lo (arriscando cair em ine�ciência e erros), comam uma barra de chocolate ou fumem um cigarro. Eles devem fazer uma pequena pausa, o que lhes trará revitalização e renovação. Nessas horas, é preciso relaxar ou mudar a atividade para algo completamente diferente– por exemplo, tirar um cochilo revigorante de vinte minutos (a duração comprovada para nos dar mais “retorno sobre o investimento”,)239 dar uma caminhada ao ar livre, meditar, ouvir música, ler um capítulo de um romance ou fofocar com colegas (mas não sobre trabalho).240 Em um estudo realizado com funcionários de doze agências do banco Wachovia, em Nova Jersey, aqueles solicitados a renovar suas energias com alguma das maneiras descritas relataram estar mais engajados e satisfeitos com seu trabalho, mostraram melhoria das relações com os clientes e produziram 13% a mais de receitas em operações de crédito e 20% a mais de receitas em depósitos do que o grupo de controle.241 Pense na última vez em que se sentiu particularmente insatisfeito ou estressado no trabalho. É altamente provável que você estivesse atravessando um desses vinte minutos de ritmo ultradiano. Isso não signi�ca, é claro, que aqueles sentimentos de descontentamento ou de aborrecimento não sejam sintomas de um problema real, mas signi�ca, sim, que devemos ser cautelosos sobre interpretá-los de forma mais grave do que de fato são. Muitos de nós passamos por momentos em que nos sentimos inteiramente “fartos” – com nossas carreiras, cônjuges, �lhos, e, até mesmo, com nossas vidas. Olhando em retrospectiva, reconhecemos que tais pensamentos são tipicamente irre�etidos e de curta duração. Uma boa dica é estar consciente de que o ritmo ultradiano é recorrente ao longo do dia, e que os momentos em que nossos corpos passam de um alto pico de energia para um nível mínimo e letárgico são oportunidades de a�oramento dos pensamentos mais pessimistas. Antes de tomar quaisquer decisões precipitadas, neutralize seus ritmos ultradianos fazendo pausas relaxantes e alternando os canais. Se os pensamentos persistirem inde�nidamente, então estará hora de levá-los a sério. EDITANDO O FILME DA SUA VIDA E VISLUMBRANDO UM FUTURO MELHOR A sensação de que nosso trabalho simplesmente não está mais nos satisfazendo pode desabar sobre nós algum dia, e quando isso acontecer, ela pode ser tão poderosa que não conseguiremos abstraí-la. Qualquer uma das vantagens do emprego no passado ou das possibilidades de crescimento no futuro não serão nada perto da força e da intensidade das emoções daquele dia. Antes de permitir que esse sentimento dite nossas ações e decisões, temos de recuar e reavaliar imparcialmente nossas experiências passadas e nossas possibilidades futuras. O SEU PASSADO Em seu livro de memórias, publicado cinco anos antes de sua morte, Christopher Reeve – o ator, que, para muitas pessoas, era o Super-Homem antes que um acidente de cavalo o deixasse tetraplégico – escreveu o seguinte: “Levei um bom tempo para aprender que o cinema e a vida real eram duas coisas diferentes. Isso continua a ser útil para mim até hoje, quando lembro que as histórias da minha vida, minhas interpretações dos acontecimentos, são como os rolos de um �lme, e que posso trocar esses rolos.”242 Este é um discernimento signi�cativo, sugerindo que o nosso passado não é nem uma folha completamente em branco, nem um conjunto �xo de circunstâncias, experiências e acontecimentos. Mais do que isso, temos um grau de controle sobre a nossa história, porque determinamos quais experiências enfatizamos e quais minimizamos, de quais acontecimentos nos lembramos seletivamente e de quais esquecemos, quais circunstâncias estão vívidas em nossas mentes e quais estão fracas ou distorcidas. Nós realmente acreditamos que os últimos oito anos de nossas carreiras foram um fardo mal vivido, improdutivo e pouco recompensador? Em caso a�rmativo, qual o nosso grau de parcialidade e o quanto estamos nos empenhando para evitar que nossa história pro�ssional corrobore este ponto de vista? Um observador objetivo não chegaria a uma conclusão totalmente diferente? Para escolher o melhor curso de ação para si mesmo, estas questões – e suas implicações – devem ser consideradas com toda a honestidade. Registrar por escrito as evidências das visões pessimista e otimista de nossas experiências pro�ssionais pode ajudar a iluminar os fatos e a esclarecer nossa perspectiva. O SEU FUTURO Embora tenhamos um grande controle sobre a forma como observamos e experimentamos nosso passado, temos muito mais controle sobre a forma como encaramos o nosso futuro. A razão é óbvia: o futuro ainda não chegou e, assim, está repleto de possibilidades, oportunidades e paisagens inexploradas. Infelizmente, em vez de visualizar um panorama futuro atraente para nossa atual vida pro�ssional, muitos de nós nos �xamos nas montanhas de obstáculos ao longo do caminho. Porém, é muito mais fácil (e mais agradável) adotarmos “fantasias de fuga”, o que nos permite imaginar um emprego dos sonhos alternativo, com todos os aspectos positivos de que atualmente carecemos e, logicamente, nenhum aspecto negativo. Antes de nos obrigar a procurar aquele emprego dos sonhos, considero fundamental reexaminar nossos prognósticos sobre o que pode acontecer com nosso emprego atual. Por exemplo, da mesma forma que os terapeutas cognitivos ensinam seus pacientes deprimidos a combater seus pensamentos negativos (“Minha chefe quer se vingar de mim”), encontrando evidências que os invalidem (“Na semana passada, ela elogiou meu trabalho diante de todo o departamento”), podemos aprender a repensar e a contestar nossos prognósticos pessimistas. Como mencionei anteriormente, não proponho que devamos nos persuadir a acreditar que tudo será, para sempre, cor-de-rosa. Pensar positivamente sobre o futuro pode signi�car, simplesmente, dizer para nós mesmos: “Esse projeto vai ser difícil, mas vou encará-lo” ou “Minhas últimas tarefas têm sido fastidiosas, mas se a história servir como exemplo, um grande desa�o surgirá em breve”. O resultado é que nós nos treinamos para interpretar os períodos de estresse ou monotonia em nosso trabalho como efêmeros e restritos, e não como intermináveis e com implicações de longo alcance. Essa nova perspectiva esclarecerá o quanto nosso emprego atual é verdadeiramente desprezível – ou razoável. NÃO ESTOU FICANDO PODEROSO, NEM FAMOSO, NEM GANHANDO UM PRÊMIO NOBEL Tivemos grandes ambições. Trabalhamos duro. Fizemos muitas coisas certas. No entanto, apesar dos nossos esforços e conquistas e de alguns golpes de sorte, somos surpreendidos, algum dia, com a ideia de que nosso sucesso estagnou e desapareceu. Vemos amigos, amigos de amigos e ex-colegas nos deixando para trás. Enquanto nossa carreira estacionou, eles estão comemorando a prosperidade de seus negócios, a compra de sua segunda (e terceira) casa, aparecendo na televisão como lideranças e sendo tratados como celebridades em cerimônias de premiação. O que deu errado? Por que não estamos entre os 2,1 milhões de norte-americanos considerados altos executivos?243 Por que nossos talentos não foram reconhecidos? Quando percebemos que estamos insistindo em tais questões, é hora de recuar e reavaliar nossas prioridades, nossos objetivos e nossos pontos de referência. Assim como o sentimento de que nosso trabalho não é mais satisfatório, este dilema é alimentado pelo mito da felicidade de que “Eu só serei feliz quando... for bem-sucedido” e, portanto, tem o potencial de criar falsos sentimentos de insatisfação. No entanto, a sensação de que não conseguimos realizar nossos sonhos pro�ssionais exige novas recomendações. Seguir as sugestões que descrevo a seguir ajudará a avaliar nossas conquistas de forma mais realista e mais complacente, e, antes de mais nada, prevenir o surgimento daquelas incômodas perguntas. LIVRANDO-SE DE COMPARAÇÕES PERNICIOSAS COM OS OUTROS Em grande parte do tempo, é impossível não nos compararmos com os outros. Sempre que vamos jantar na casa de um amigo, ou perguntar aos nossos vizinhos ou cônjuges como estão passando o dia, ou ligar o aparelho de televisão, somos inundados com informações sobre as vitórias e as tragédias de outras pessoas, suas opiniões, seu estilo de vida, sua personalidade e seu casamento. Somos bombardeados por imagens de mansõesde Hollywood versus apartamentos com jardim, rostos bonitos versus corpos rechonchudos, virtuoses no violino versus ineptos que caíram no ostracismo. Somos confrontados com indivíduos cujos sucessos parecem ampliar o grau de desperdício de nossos próprios potenciais – pessoas cujas carreiras parecem existir apenas como uma censura à nossa. As comparações sociais surgem naturalmente, automaticamente e sem qualquer esforço. Não por acaso, os estudos comprovaram que nos comparar com os outros – seja uma criança que percebe que seu colega tem uma mochila mais legal, ou uma executiva que descobre que seu salário é maior do que o de sua colega – tem um profundo efeito não apenas em nossas autoavaliações, como, também, em nosso humor e em nosso bem-estar emocional.244 Na verdade, deve-se atribuir às comparações com as outras pessoas a principal responsabilidade por nossas sensações de inadequação e descontentamento. Para a maioria de nós, as sensações de de�ciência ou de não estar à altura de algum padrão elevado são fruto da observação do sucesso dos outros, seja um sucesso real ou imaginário. Em vez de nos perguntarmos “Será que minha carreira (ou produtividade, ou nível de renda) satisfaz minhas necessidades?”, perguntamos: “Quão bons são minha carreira, minha produtividade e meu nível de renda, em comparação com os do meu vizinho?”. Em vez de, individualmente, nos sentirmos cada vez mais ricos, sentimos, ao contrário, que estamos alcançando novos níveis de pobreza relativa.245 Contudo, não podemos, simplesmente, ignorar todas as comparações ou não prestar atenção alguma às outras pessoas. Ciente deste fato, comecei a investigar, no terceiro ano do curso de pós-graduação, a questão das comparações que costumamos fazer. Esta linha de pesquisa, como veremos em breve, revelou que o segredo para �carmos satisfeitos com as nossas conquistas não reside em ignorar os pontos fortes e as realizações das outras pessoas, mas em não sofrer as consequências negativas de tais observações. Em outras palavras, não se deixe afetar pelas comparações sociais. Realizei uma série de estudos para veri�car se aqueles que têm a capacidade de desconsiderar o impacto de comparações desfavoráveis com seus pares são realmente mais felizes em relação a si mesmos e às suas vidas, de modo geral, do que aqueles que não a têm.246 Em um experimento, por exemplo, convoquei dois voluntários ao mesmo tempo e pedi a cada um deles para usar dois fantoches de mão – Chipmunk e Otter –, com o objetivo de ensinar uma lição sobre amizade a um público imaginário de alunos da primeira série.247 Os dois voluntários se revezaram nesta ação diante de um espelho falso, enquanto eram ostensivamente avaliados e �lmados. Ao término do experimento, criamos um pequeno artifício, levando cada voluntário a acreditar que havia executado muito mal a tarefa (ou seja, que a nota média atribuída pelos juízes havia sido 2, em um máximo de 7 pontos), mas também a acreditar que o segundo voluntário havia se saído ainda pior (recebendo uma decepcionante nota 1). Por outro lado, um segundo grupo de voluntários foi levado a acreditar que havia se saído muito bem (tendo recebido dos juízes uma pontuação média de 6, em um máximo de 7 pontos), mas que seus pares haviam sido ainda mais bem-sucedidos (obtendo uma excelente pontuação 7). Também pedi a alguns participantes que realizassem sozinhos a tarefa – sem um parceiro –, e eles receberam avaliações “excelente” ou “insu�ciente”, sem nada saber a respeito do desempenho de outros eventuais participantes. Anos mais tarde, eu, de alguma forma, ainda �co surpresa com os resultados. Para analisar os dados, dividi os participantes entre aqueles que, antes de executar a tarefa, relataram estar muito felizes e os que relataram estar relativamente infelizes. Quando examinei o “antes” e o “depois” dos dados dos participantes muito felizes, descobri que aqueles que �caram sabendo que haviam tido um desempenho muito ruim relataram se sentir menos positivos, menos con�antes e mais tristes depois de concluído o estudo. Sua reação ao aparente fracasso era perfeitamente natural e não de todo surpreendente. Por outro lado, ao tomarem conhecimento de que haviam se saído extremamente bem (nota 6, em um máximo de 7), os participantes muito felizes se sentiram, na sequência, melhores em todos os aspectos, e, notadamente, o prazer por seu aparente sucesso não se deixou abater quando eles foram informados de que alguém havia apresentado um desempenho ainda melhor. Os resultados dos participantes infelizes, no entanto, foram impressionantes. Suas reações, ao que parece, se deixavam governar mais pelos comentários oferecidos aos seus pares do que pelas avaliações relativas ao seu próprio desempenho. De fato, o estudo descreve um quadro cruel e bastante desagradável de uma pessoa infeliz. Os voluntários mais infelizes do meu estudo relataram se sentir mais felizes e mais seguros quando recebiam uma avaliação ruim (mas quando ouviam dizer que seus pares haviam se saído ainda pior) do que quando recebiam uma avaliação excelente (mas ouviam dizer que seus pares haviam se saído ainda melhor). Parece que as pessoas infelizes aderiram à máxima sarcástica, atribuída a Gore Vidal: “Para a verdadeira felicidade, não basta ser bem-sucedido... É preciso que os amigos fracassem”. Minha conclusão a respeito deste estudo, assim como de meia dúzia de outros estudos que já conduzi sobre este tema, é que, quando se faz a pergunta “Eu sou bom (bem-sucedido, inteligente, afável, próspero, ético)?”, aqueles que normalmente con�am em seus próprios padrões internos e objetivos são mais felizes. Esses hábitos nos tornam menos suscetíveis ao impacto de julgamentos externos e de realidades exteriores (por exemplo, descobrir que nosso vizinho está dirigindo um programa-piloto de televisão ou que nosso ex-colega está na capa da California Lawyer). Em contraste, aqueles que baseiam suas autoavaliações em comparações com as outras pessoas são os mais infelizes, e tal prática acaba por se revelar bastante imprudente. Pense nisso: sentir-se triste ou pessoalmente esvaziado como resultado do sucesso, das realizações e vitórias de outras pessoas, e sentir-se aliviado em vez de desapontado ou solidário diante dos fracassos e derrotas de outras pessoas é uma péssima receita para a felicidade. O hábito de comparação social começa cedo na vida. Na infância, aprendemos que o bom desempenho é medido, frequentemente, em termos relativos. Muitas vezes, somos comparados com as boas maneiras dos nossos irmãos, com os talentos de nossos colegas e, até mesmo, com as notas excelentes e com os troféus que nossos pais ganharam quando crianças. Consequentemente, fomos condicionados a querer saber como estamos indo em relação aos outros e, de preferência, saber que estamos em uma situação melhor. Como resultado desse condicionamento precoce, fazer comparações sociais é forçoso e inevitável. O hábito é tão arraigado que se descobriu que, assim como os seres humanos, até os macacos-prego são sensíveis às comparações com seus pares símios.248 No entanto, pelo fato de sempre existir alguém em melhor situação – mais rico, mais talentoso, mais popular ou mais magro –, tais comparações fazem com que nos sintamos mal com mais frequência do que nos sentimos bem.249 O objetivo, como demonstram meus estudos, é depender um pouco menos dos outros para determinar a nossa autoestima e con�ar um pouco mais em nossos padrões pessoais. Se, algum dia, você chegar à conclusão de que “não conseguiu”, essa conclusão estará baseada em seus objetivos pessoais ou em alguma norma ou padrão estabelecido pelos demais? Os seus sentimentos sobre as vitórias (ou a falta de vitórias) que obteve no passado são ditados pelo que os outros pensam? Se a sua resposta for sim, a minha pesquisa sugere que, sempre que possível, você deve se esforçar para ignorar tais comparações sociais injustas – por exemplo, gritando “pare” ou desviando imediatamente a atenção para uma tarefa agradável quando for supreendido fazendoisso. E, quando não for possível ignorar, você deve se esforçar para sentir schlep naches (termo em iídiche para “prazer decorrente da realização dos outros”), em vez de schadenfreude (termo em alemão para “prazer decorrente da desgraça dos outros”). Quando “não houver qualquer cobrança, sentimento de empobrecimento, indício de ansiedade relacionados à descoberta de que alguém é muito mais bem-sucedido do que você em um determinado campo”,250 você terá alcançado mais maturidade – e, portanto, felicidade – do que a média das pessoas. Em vez de lamentar sua falta de realizações, você reconhecerá os esforços que empreendeu até agora e tomará as medidas necessárias para chegar à próxima etapa. A BUSCA DA FELICIDADE E A FELICIDADE DA BUSCA Talvez as suas apreensões por não ter alcançado o que gostaria a esta altura da vida não sejam totalmente infundadas. Se for este o caso, sua prioridade deve ser corrigir a situação – identi�car aquilo que você quer e agir para consegui-lo. Um grande número de pesquisas – algumas antigas e clássicas, algumas novas e de ponta – sugere as formas ideais para nos inspirar, de�nir objetivos signi�cativos e batalhar para alcançá-los. Aplicar estes resultados em nossas próprias vidas aumentará a probabilidade de que sejamos mais felizes e mais bem-sucedidos. No entanto, devemos sempre ter em mente que a realização de nosso sonho não é a fórmula mágica para a felicidade; como explico adiante, a coisa mais importante é o esforço que empenhamos. Quando os cientistas estudam a “perseguição de objetivos”, eles estão estudando, essencialmente, a in�nita variedade de projetos, esquemas, planos, tarefas, esforços, empreendimentos, missões e ambições (grandes e pequenos) que realizamos em nossas vidas cotidianas. Quando se trata de nossas vocações pro�ssionais ou atividades de lazer, inúmeras pesquisas têm demonstrado que aqueles que estão apenas se empenhando (e não necessariamente conquistando algo) são mais felizes, especialmente quando seus objetivos com relação ao trabalho e às atividades de lazer são realistas, �exíveis, valorizados por nossas culturas, autênticos, imateriais e não interferem negativamente em outros aspectos de suas vidas.251 No entanto, a pesquisa explicita uma ironia. O momento crítico que está no cerne desta seção diz respeito à nossa ansiedade por ainda não termos realizado nossos sonhos, embora as evidências empíricas revelem que o fator crítico para determinar se a busca dos objetivos nos deixa felizes reside na apreciação do próprio percurso, e não na consecução do objetivo �nal (o sonho). Esta descoberta, é claro, contradiz as fortes crenças e intuições de muitas pessoas de que a realização do objetivo é o padrão de excelência. Na verdade, ela contradiz um dos principais mitos da felicidade, que nos recomenda esperar por ela para que possamos realizar nossos sonhos. No entanto, quando �nalmente conquistamos aquele papel em uma peça da Broadway, ou aquela promoção ou aquele prêmio, sentimos uma emoção imediata, mas tal emoção é, muitas vezes, seguida de saciedade, aumento de expectativas e, inclusive, desapontamento.252 Quando Paul Krugman, economista e colunista do New York Times, soube que tinha ganho o há muito cobiçado Prêmio Nobel, “a reação de sua esposa, Robin, assim que a emoção inicial passou, foi: ‘Paul, você não tem tempo para isso’”.253 De forma similar, um de meus colegas ganhou a maior honraria de sua área, o prêmio de cientista eminente, concedido pela American Psychological Association. Quando lhe perguntaram quanto tempo durou o impulso de felicidade, ele respondeu: “Um dia”. Por outro lado, se apreciarmos as lutas que empreendermos ao longo do caminho, obteremos prazer e satisfação simplesmente por perseguir ou trabalhar em prol de nosso objetivo. Idealmente, aprimoraremos nossas habilidades, descobriremos novas oportunidades, cresceremos, nos esforçaremos, aprenderemos e nos tornaremos mais capazes e experientes. Seja em nossas áreas de atuação ou em nossas atividades de lazer, a acumulação gradual de conhecimento e experiência possibilitará cada vez mais oportunidades de apreciação e deleite, assim como (de acordo com alguns cientistas) a satisfação de nossa necessidade inata de sermos desa�ados e utilizarmos ao máximo nossos potenciais. Não importa se o objetivo que valorizamos for inventar algo especial ou terminar a escola; ele nos dará algo por que batalhar e desejar. Além disso, a busca do objetivo, em si mesma, dá estrutura e signi�cado à nossa vida cotidiana, criando obrigações, prazos e horários, bem como oportunidades de dominar novas habilidades e interagir com os outros. Assim, no decorrer de nossas buscas, podemos atingir um senso de propósito em nossas vidas, uma sensação de e�cácia diante de nosso progresso e de domínio sobre o nosso tempo. Todas essas coisas deixam as pessoas felizes. E uma vez que consigamos dar um passo importante nessa direção (por exemplo, ao completar um estágio ou um artigo), deveríamos saborear esta etapa ou subobjetivo cumprido (que deveria, merecidamente, nos propiciar um pequeno afago emocional e no ego) antes de passarmos para um novo objetivo.254 Em suma, em vez de nos concentrarmos demais em sermos os primeiros na linha de chegada, devemos nos concentrar – e desfrutar disso tanto ou quanto possível – em cumprir as várias etapas necessárias para progredir. A PERGUNTA DE 1BILHÃO DE DÓLARES Muitos escritores e pesquisadores, de Malcolm Gladwell (autor de O ponto da virada — �e Tipping Point e Fora de série — Outliers) a Dean Simonton (estudioso da criatividade na Universidade da Califórnia, em Davis), têm explorado a questão do que faz as pessoas serem bem-sucedidas.255 É a inteligência inata ou o trabalho árduo? É a conscientização ou o talento? Muitos já concluíram que a resposta é a simples diligência – ou seja, é preciso investir aproximadamente dez mil horas de determinado tipo de esforço ou prática deliberada em algo, antes que possamos nos tornar verdadeiros especialistas ou ser bem-sucedidos em qualquer campo, seja tocando violino, escrevendo romances, lançando bolas de beisebol ou realizando cirurgias no cérebro. Considero tais descobertas muito interessantes e contundentes,256 mas sempre acreditei que um elemento fundamental permanecia ausente desse debate. Esse elemento é, verdadeiramente, a pergunta de US$ 1 bilhão: como podemos nos obrigar a perfazer aquelas dez mil horas?257 Onde se obtém a centelha ou a motivação para autodeterminar-se a praticar cinco horas de violino por dia ou, como fez Benjamin Franklin, passar a limpo e reescrever laboriosamente ensaios já publicados (da prosa ao verso, e vice-versa)? Onde alguém encontra a motivação para acordar às cinco horas da manhã a �m de realizar tais coisas? Se a resposta for um temperamento inato (que alguns são naturalmente mais motivados e conscienciosos do que outros) ou a presença de um pai, cônjuge ou treinador draconianos,258 então as esperanças de muitas pessoas de chegar a alguma forma semelhante de excelência provavelmente resultarão infrutíferas. As pesquisas, porém, não con�rmam esta conclusão pessimista. Hoje, já conhecemos muito a respeito dessa centelha ou motivação da qual precisamos para nos dedicarmos integralmente; sabemos o que a debilita e temos algumas boas ideias sobre o que é capaz de estimulá-la. Essencialmente, se queremos ser um pequeno empresário, um cineasta, um analista político, um corretor de seguros ou ter um blog sobre gastronomia, teremos muito mais chances de ser bem-sucedidos e felizes em nossa tentativa se estivermos batalhando para alcançar esses objetivos, porque eles nos parecem inerentemente interessantes e agradáveis, ou se batalhar por eles expressar nossos valores mais importantes – em outras palavras, se a nossa motivação for intrínseca.259 Embora qualquer objetivo – mesmo um objetivo mal-orientado ou mal- intencionado – possa, potencialmente, ser intrínseco, os objetivos ideais são aqueles que, em termos gerais, alimentam nossos impulsos básicos de crescer, defazer com que nos sintamos competentes e autossu�cientes, de nos conectar com os outros e de contribuir para nossas comunidades. Ficamos infelizes – e menos propensos a sermos bem-sucedidos – quando estamos perseguindo objetivos que não são verdadeiramente os nossos, e quando fazemos isso simplesmente para obter aprovação (por exemplo, de nossos pais ou colegas) ou para evitar a culpa. Tais objetivos “extrínsecos” incluem esforçar-se para �car rico, bonito, popular, poderoso ou famoso.260 Quando buscamos uma carreira ou uma tarefa como um �m em si mesmas, estamos mais propensos a experimentar intensamente a concentração, o engajamento, o �uxo, a curiosidade e a persistência. Mas como se adquire esse tipo de espírito e motivação? Deve-se começar do início. Isto é, o eixo mais importante é aquele a partir do qual você escolhe o que realmente quer. Faça a si mesmo as seguintes perguntas sobre a sua ambição ou o seu sonho que não foram realizados até agora. • O seu objetivo – digamos, iniciar o seu próprio negócio – é exequível? • A quem pertence o objetivo – a você ou a outra pessoa? • Ele está em con�ito com um plano de longa data (por exemplo, passar bastante tempo com a família ou viajar ao redor do mundo)? • Você realmente se sente “você mesmo” quando está batalhando por sua ambição ou fantasiando sobre isso? • Você espera crescer ao longo do processo ou desenvolver relacionamentos duradouros? • Você ainda continuaria tentando, caso as recompensas fossem muito mais modestas? Você não é obrigado a concordar com estes sentimentos o tempo todo. Sou apaixonada pelo meu trabalho, mas, ainda assim, �co irritada quando ele invade demais o tempo da minha família e do meu lazer, ou quando é monótono. Mas se a sua resposta for um redondo “não” a pelo menos duas dessas perguntas, será extremamente difícil, se não impossível, desejar ter uma motivação intrínseca que não existe. Nesse caso, talvez você pre�ra mudar suas prioridades e objetivos – por exemplo, da administração de um banco para a administração de uma organização sem �ns lucrativos, da riqueza para a �lantropia, do ensino para a escrita ou da escrita para o ensino. Alternativamente, às vezes é possível reformular o seu trabalho. Talvez haja um propósito nobre por trás disso que você não tenha considerado. Talvez você possua algum talento – escrever, falar em público, trabalhar em rede, organizar – que tenha passado despercebido, e que você possa exercer em sua posição atual. Finalmente, se houver períodos repetitivos ou inoperantes em seu trabalho, talvez você consiga tirar algum partido deles, crescendo de alguma maneira. Muitos empregos envolvem períodos de tempo em que você �ca esperando algo acontecer. Um representante de vendas pode �car ocioso, esperando pela próxima venda, e um taxista pode �car esperando pela próxima corrida. Outras ocupações envolvem tarefas manuais – digitação de cartas, clicar em anúncios on-line, operação de máquinas, pintar casas –, nas quais a mente não está impedida de vagar. Por que não usar esse tempo para se instruir ou crescer? Caminhoneiros de longa distância, processadores de dados e pescadores de linguado, por exemplo, relataram descobrir novas ideias e desfrutar mais de seus dias quando usavam o seu tempo de trabalho ouvindo podcasts de cursos de universidades de todas as partes do mundo sobre diversos temas, como �loso�a existencial, clássicos mundiais e física teórica.261 Uma vez que tenhamos escolhido ou reformulado nossos objetivos até eles se tornarem pessoalmente signi�cativos, satisfatórios e envolventes, podemos recorrer a várias outras linhas de pesquisa para dar sustentação ao nosso comprometimento e à nossa motivação. Primeiro, os estudos mostram que temos muito mais chances de sermos bem-sucedidos quando tomamos uma resolução pública de realizar algo, seja para solicitar aquele tão postergado certi�cado ou para começar a procurar um emprego em tempo integral.262 Em segundo lugar, devemos empreender grandes esforços para convencer aqueles que nos são mais próximos do valor de nossas buscas, e, depois, atrair e cultivar a sua ajuda e o seu amparo. Conseguiremos manter nossa motivação em níveis elevados se nossos parceiros ou melhores amigos não apenas apoiarem os nossos sonhos, mas nos inspirarem, tratando-nos como se já possuíssemos a experiência, a autoridade, a realização ou o título que buscamos.263 Finalmente, seria bom seguir a recomendação do psicólogo Abraham Maslow, de escolher o crescimento em detrimento da segurança – em outras palavras, assumir riscos potencialmente válidos, em vez de escolher fazer o que é conhecido, confortável e familiar. Pense na busca daquele sonho impossível – aquele que o angustia por ainda não ter realizado –, e pergunte-se se correr algum risco não poderia trazer um retorno potencialmente maior. Fazer duas colunas – uma para a lista dos benefícios esperados e uma para a dos prováveis custos – o ajudará a encontrar a resposta. Não tenho predileção alguma pela expressão “sair da nossa zona de conforto”, mas é basicamente isso que estou sugerindo que tentemos – ou seja, fazer algo para favorecer a realização dos sonhos que queríamos ter alcançado, mas que vimos relutando em perseguir. As pessoas que tentaram este exercício o consideraram extremamente desa�ador, mas também expansivo, capacitador e inspirador.264 A MENTE PREPARADA Se tivermos vivido a nossa vida acreditando que conseguir o emprego perfeito nos trará a felicidade vitalícia, talvez �quemos profundamente transtornados ao constatar que, assim que aquele emprego for nosso, a felicidade resultante não será tão grande, ou tão permanente, como imaginávamos que seria. Em outras palavras, na raiz desse mito da felicidade está o equívoco de que, embora não estejamos felizes hoje, certamente seremos felizes quando nos tornarmos sócios da empresa na qual trabalhamos, quando estivermos tocando nossos próprios projetos, quando inaugurarmos nossa primeira exposição em uma galeria, quando vendermos nosso roteiro para o cinema, quando estivermos administrando nossa própria loja ou quando ganharmos o Prêmio Nobel. Deparamos-nos, porém com um problema quando a conquista daquele emprego aparentemente perfeito não nos deixa tão felizes quanto esperávamos e quando aquela felicidade é tão breve. O que explica essa experiência desagradável é o inexorável processo de adaptação hedonista. Assim, um primeiro passo fundamental é compreender que todos se habituam à novidade, à empolgação e aos desa�os de um novo emprego ou empreendimento. Esta nova percepção pode sugerir uma explicação alternativa para o nosso mal-estar pro�ssional. Isto é, pode não haver nada de errado com o emprego, nossa motivação ou nossa ética pro�ssional. Talvez estejamos apenas vivenciando um processo que ocorre naturalmente, e que é demasiadamente humano. O segundo passo é entender o que podemos fazer, de forma proativa, para retardar ou, até mesmo, reverter o processo de nos entediarmos progressivamente com os nossos empregos, e começar a colocar em prática, o mais cedo possível, as estratégias relevantes. Se, no �m, tais esforços se mostrarem inúteis, se o emprego estiver realmente abaixo do padrão ou se o trabalho não corresponder adequadamente às nossas preferências e habilidades, �caremos mais con�antes de que seguir em frente é uma decisão a que chegaremos com uma mente preparada – ou seja, com base em uma análise e um esforço fundamentados, e não nos instintos amparados pela emoção. Alternativamente, talvez estejamos profundamente descontentes por não estar, hoje, no estágio que pensávamos que estaríamos em nossas pro�ssões. No entanto, a mensagem deste capítulo é que, se almejamos o sucesso – reconhecimento, autoridade, prêmios – por acreditar que a nossa felicidade depende disso, estaremos limitando nossa felicidade hoje e comprometendo-a no futuro. A conclusão provém de inúmeras pesquisas, que felizmente (ou infelizmente) podem ser resumidas em um lugar comum: “A felicidade não está fora de nós, mas dentro de nós”. Pormais prosaica que essa a�rmação possa parecer, a verdade, algumas vezes, pode estar disfarçada sob uma banalidade. Podemos lamentar genuinamente o fato de ainda não termos conquistado isso ou aquilo (enquanto nossos amigos já conquistaram), e esta lamentação pode, realmente, nos deixar infelizes, mas conquistar isso ou aquilo não colocará um �m à nossa infelicidade. Evitar as comparações nocivas, concentrarmo-nos em nossos próprios padrões internos e focalizar o percurso da busca de nossos sonhos, e não o resultado �nal, redirecionará nossa atenção e nossas energias da mentalidade do “Eu serei feliz quando...” para horizontes mais frutíferos. CAPÍTULO 6 Não poderei ser feliz se... estiver falido Um dos momentos decisivos mais traumáticos na vida é constatar que perdemos nossa casa, nosso trabalho ou a poupança que estava sendo reservada para a nossa aposentadoria. Embargo, falência, desemprego, despejo – estas são palavras que acionam os botões de emergência, causam noites de insônia e precipitam a desesperança e o pânico. No início, talvez sejamos bombardeados por um �uxo de sentimentos devastadores – perdemos tudo, estamos derrotados e não temos mais perspectivas. Não conseguimos nem imaginar que seremos felizes novamente. Talvez, alguns consigam sair do buraco �nanceiro e sobreviver a ponto de prosperar novamente, mas muitos passarão pela experiência de viver de contracheque em contracheque, sem condições de adquirir nada além das necessidades básicas, mal conseguindo se manter, com medo da próxima crise ou desditosos por serem pobres. Nos últimos anos até mesmo aqueles com uma situação relativamente confortável têm sentido insegurança �nanceira. Há trinta anos, a chance de que um de nós sofresse uma queda nos rendimentos era de 17%, e aproximadamente o mesmo número se preocupava com uma possível demissão; hoje essa chance é de uma em cada quatro, e a maioria está preocupada.265 Se e quando a economia mundial melhorar, é bem provável que a ansiedade diante da falência ainda seja prevalente. À luz de nossas crises �nanceiras pessoais – e, em grande parte, incontroláveis –, como administraremos tal ansiedade? É possível viver uma vida carente de recursos e considerá-la boa? O DINHEIRO COMPRA A FELICIDADE? FINALMENTE, UMA RESPOSTA REAL E IMEDIATA É raro encontrar um indivíduo que acredite que conseguiria ser feliz sem dinheiro. Meu primeiro objetivo neste capítulo é examinar este mito da felicidade e desa�ar a crença, profundamente arraigada, de que precisamos de dinheiro para nos sentirmos confortáveis, seguros e satisfeitos. Meu segundo objetivo é oferecer recomendações, baseadas em pesquisas, de como poderemos manter uma boa qualidade de vida com uma renda reduzida ou instável – como poderemos transformar limões em limonada, fazer o melhor com menos e gastar o pouco que temos de maneira sábia e parcimoniosa. Muito tem sido dito e escrito sobre a questão de o dinheiro trazer ou não trazer a felicidade, e as conclusões oferecidas podem diferir radicalmente, dependendo de quais psicólogos, economistas ou analistas consultamos. Já li muito a respeito da ligação entre o bem-estar e o triunvirato formado por riqueza, nível de renda e bens materiais. Também já conversei sobre o tema com diversos especialistas (e ouvi suas opiniões). As informações são confusas e contraditórias, mas acredito que posso apresentar algumas conclusões fundamentadas e baseadas em dados. PRIMEIRO, O NÍVEL DE RENDA E A FELICIDADE ESTÃO, DE FATO, SIGNIFICATIVAMENTE CORRELACIONADOS, EMBORA A RELAÇÃO NÃO SEJA TÃO FORTE266 Em outras palavras, é verdade que, quanto mais alto estivermos na escala econômica, mais felizes nos consideraremos. Sob muitos aspectos, este resultado não é de todo surpreendente, considerando-se que ter dinheiro não apenas nos dá oportunidade de aquirir facilidades e luxos, mas nos propicia mais status e respeito, mais tempo de lazer e de trabalho grati�cante, acesso a cuidados de saúde e a nutrição superiores, e mais segurança, autonomia e controle. Pessoas mais ricas levam vidas mais saudáveis, têm os meios necessários para �car o tempo que quiserem com as pessoas das quais gostam, vivem em bairros mais seguros e em condições menos congestionadas, e desfrutam de proteções fundamentais quando confrontadas com adversidades como doenças, de�ciência ou divórcio. Na verdade, é espantoso que a correlação entre dinheiro e felicidade individual não seja mais forte do que é. No entanto, caberiam duas ressalvas importantes. Em primeiro lugar, a correlação entre felicidade e dinheiro só vale para um certo tipo de felicidade. Quando se pede às pessoas que avaliem seu nível de felicidade ou de satisfação geral, aquelas que têm mais dinheiro informam estar mais felizes e mais satisfeitas. Mas, quando se pergunta o seu nível de felicidade espontânea na vida cotidiana – por exemplo, “O quão alegre, estressado, irritado, afetuoso e triste você estava ontem?” –, as pessoas com mais dinheiro raramente terão experimentado sentimentos de felicidade.267 Este padrão de resultados sugere que a riqueza nos deixa felizes quando pensamos em nossas vidas (“No geral, eu sou feliz? Bem, estou levando uma vida boa”), embora o dinheiro tenha um impacto muito menor sobre nossos sentimentos quando, de fato, vivemos as nossas vidas (“Eu estou feliz hoje?”).268 A segunda ressalva, que pode ser ainda mais importante do que a primeira, é que quando psicólogos, sociólogos e economistas discutem a correlação entre dinheiro e felicidade, eles assumem, invariavelmente, que o dinheiro é o fator causal. Mas, evidentemente, a relação causal poderia ser (e, sem dúvida, é) uma via de mão dupla. Isto é, dinheiro compra felicidade, mas felicidade também compra dinheiro. Na verdade, vários estudos têm sugerido que as pessoas mais felizes são relativamente mais competentes ou mais talentosas quando se trata de ganhar mais dinheiro.269 SEGUNDO, A CORRELAÇÃO ENTRE DINHEIRO E FELICIDADE É MUITO MAIS FORTE PARA AS PESSOAS MAIS POBRES DO QUE PARA AS MAIS RICAS270 Isto é, quando nossas necessidades básicas de alimentação, segurança, saúde e moradia adequadas não tiverem sido atendidas, um aumento no nível de renda fará uma diferença muito maior para nós do que se estivéssemos em uma situação relativamente confortável. Outra maneira de formular a questão é: o dinheiro nos deixa mais felizes se ele nos impedir de �carmos pobres. A�nal, aqueles que têm muito pouco dinheiro estão mais propensos a serem despejados de suas casas, a passarem fome, a viverem em uma comunidade perigosa, a terem um �lho que abandonará a escola, a não disporem de recursos para obter atendimento médico ou a não conseguirem administrar o sofrimento, o estresse e as exigências práticas de uma doença ou de�ciência.271 Até mesmo um aumento modesto no nível de renda pode aliviar ou prevenir algumas dessas situações adversas. Essas ideias ajudam a explicar a razão pela qual o dinheiro deixa as pessoas mais pobres mais felizes. Mas por que o dinheiro teria um efeito relativamente fraco sobre a felicidade das pessoas mais ricas? Uma resposta é que, conforme o nível de renda ultrapassa um determinado patamar, seus efeitos positivos (por exemplo, a capacidade de voar na primeira classe ou de contratar médicos especialistas de alto nível) podem ser neutralizados por alguns efeitos negativos, como restrições maiores de tempo (mais horas de trabalho e mais locomoções) e mais estresse (pelo fato de ocupar cargos de poder, �car angustiado em relação aos investimentos e problemas com �lhos que abusam dos limites).272 Considerando-se que a riqueza permite que as pessoas experimentem o melhor que a vida tem a oferecer, talvez ela até reduza a capacidade de saborear os pequenos prazeres da vida.273 TERCEIRO, A CORRELAÇÃO ENTRE DINHEIRO E FELICIDADE É AINDA MAIS FORTE QUANDO SE COMPARAM AS NAÇÕES (E NÃO OS INDIVÍDUOS) Em outras palavras, aqueles que vivem em nações mais ricas são muito mais felizes do que aqueles que vivem em nações mais pobres.274 Uma enorme ressalva,no entanto, é que as nações mais ricas não têm apenas PIBs maiores do que as mais pobres; elas também estão mais propensas a se caracterizar pela democracia, liberdade e direitos iguais, e estão menos propensas a experimentar instabilidade política ou corrupção e suborno desenfreados. Consequentemente, não está su�cientemente claro o que realmente estabelece a correlação entre riqueza e felicidade no nível das nações. QUARTO, EM MUITOS PAÍSES, APESAR DO AUMENTO DAS PERSPECTIVAS ECONÔMICAS DA POPULAÇÃO, A MÉDIA RELATA QUE OS NÍVEIS DE FELICIDADE NÃO MUDARAM275 Esta última conclusão parece intrigante, à luz do fato de que as pessoas que têm mais dinheiro são mais felizes. Por isso, é esta descoberta especí�ca que, de modo geral, serve de sustentação para quaisquer declarações na mídia ou em outros lugares, de que o dinheiro não compra felicidade. Com base no que descrevi sobre as pesquisas anteriores, você, provavelmente, já pode especular sobre a razão, por exemplo, de os norte-americanos não terem �cado mais felizes quando os seus rendimentos triplicaram.276 Primeiro, rendimentos mais elevados suscitam ambições mais elevadas, de tal forma que, agora, consideraríamos necessário aquilo que, certa vez, já consideramos exorbitante ou opcional – um período de férias, um carro ou saneamento básico. E, em segundo lugar, rendimentos mais elevados forçam uma mudança em nossas comparações sociais, de tal forma que, agora, nos sentiríamos mais pobres em relação às pessoas de nossas vizinhanças e de nossos escritórios que tenham um pouco mais do que nós.277 COMO SER FELIZ COM MENOS APLICANDO A ANTIGA VIRTUDE DA PARCIMÔNIA O resultado �nal das centenas de estudos sobre o assunto é que ter dinheiro pode nos fazer felizes, e não ter dinheiro pode, de�nitivamente, nos deixar infelizes, mas o poder do dinheiro é muito menor do que o esperado. Para exempli�car, embora as di�culdades �nanceiras possam exercer muitos efeitos prejudiciais sobre nossas vidas, sua in�uência sobre nossa felicidade é comparativamente pequena, porque, como vimos neste livro, muitos outros fatores in�uenciam a nossa felicidade, de forma ainda mais potentes. Sabendo disso, se tivermos pouco dinheiro, quer pelas circunstâncias ou por escolha, seria possível viver a nossa vida de tal forma que nossa carência ou insegurança �nanceira não nos impedisse de �orescer e prosperar? Ou ser feliz com menos é apenas uma falácia piegas, propagada pelos ricos? As evidências empíricas sugerem que ser feliz com menos não é uma falácia. Já faz algum tempo que meu aluno de pós-graduação, Joe Chancellor, e eu temos re�etido sobre esta questão – uma questão que se tornou ainda mais urgente à luz dos problemas econômicos mundiais, traduzidos em desemprego recorde, endividamento e falências que se abateram sobre incontáveis famílias norte-americanas. O resultado do nosso trabalho conjunto é a proposta seguinte, que pode ser resumida nestes termos: se as pessoas com orçamentos apertados desejam extrair o máximo de felicidade gastando menos, devem colocar em prática os ensinamentos da antiga virtude da parcimônia. Embora alguns de nós associemos parcimônia com agir de forma inferior, mesquinha ou avarenta, o termo, no fundo, tem origem na palavra prosperar. Em sua essência, a parcimônia está relacionada ao uso ideal e mais e�caz de recursos limitados. Historicamente, a parcimônia tem sido equiparada com a diligência (isto é, quanto mais duramente batalhamos pelas recompensas, menos provável é que as desperdicemos), a temperança (isto é, refreamos o excesso praticando moderação e autocontenção) e a busca por atividades satisfatórias e produtivas (isto é, evitamos o desperdício de nossos recursos em atividades frívolas). A parcimônia tem uma história antiga e consagrada, tendo sido promovida e festejada por escritores, �lósofos, empresários e pensadores tão diversos quanto Sócrates, Rei Salomão, Confúcio, Benjamin Franklin, Alexis de Tocqueville, Max Weber, e, mais recentemente, Warren Bu�ett. Todos nós podemos aplicar os princípios da parcimônia, com o objetivo de gastar menos enquanto desfrutamos mais, assim como de asssegurar que os salários reduzidos não abalem completamente nossa felicidade. Além disso, o comportamento parcimonioso, em si mesmo, pode fazer com que nos sintamos bem (realçando nossa melhor natureza), transmitir uma sensação de controle (realçando nossa capacidade de administrar nossas �nanças) e, até mesmo, promover o sucesso. Estudos demonstram, por exemplo, que crianças com capacidade de adiar a grati�cação (uma característica fundamental da parcimônia) acabam recebendo melhores avaliações dos professores, maior pontuação no vestibular, são admitidas nas melhores faculdades, têm menos chances de se tornarem agressivas quando adolescentes e estão menos propensas a ter problemas com drogas na vida adulta.278 Pesquisas realizadas no meu laboratório e em outros laboratórios revelam uma série de estratégias e práticas para viabilizar o comportamento parcimonioso. NÃO SEJA O DEVEDOR QUE SE TORNA ESCRAVO DO CREDOR Certa vez, Albert Einstein de�niu maliciosamente a relatividade com o seguinte aforisma: “Coloque sua mão sobre um fogão quente por um minuto, e parecerá uma hora. Sente-se ao lado de uma garota bonita por uma hora, e parecerá um minuto”. Os psicólogos se referem a esta constatação como “o mal é mais forte do que o bem”279 ou “a dor é mais intensa do que o prazer”. Como mencionei no capítulo 2, duas décadas de pesquisas demonstraram que sofremos um “impacto” emocional muito maior com as experiências negativas (do qual, às vezes, nunca nos recuperamos) do que com as positivas (às quais rapidamente nos acostumamos).280 Em termos práticos, esses resultados sugerem que, se uma aquisição importante nos deixa ainda mais endividados, a emoção da compra será fortemente superada pelo fardo do endividamento. Este exemplo não é meramente hipotético, considerando-se que a dívida do consumidor não segurado nos Estados Unidos atinge a média de quase US$ 8 mil para cada homem, mulher e criança; e um em cada dois norte-americanos admite estar preocupado com suas dívidas.281 Embora possa parecer óbvio para os parcimoniosos, os devedores que têm pouca ou nenhuma reserva e que continuam dependendo de crédito para gastar e consumir sofrerão continuamente de ansiedade diante da efetivação dos pagamentos, da diminuição dos rendimentos e da inadimplência nos empréstimos. A menos que estejamos fazendo os empréstimos para pagar a conta de luz ou salvar a vida de nosso �lho, os custos dos gastos excessivos e do endividamento superam enormemente os benefícios obtidos até mesmo com a mais sedutora das aquisições. Outro exemplo envolve os enormes custos psíquicos daqueles cuja única riqueza é a própria casa em que vivem. Morar em uma casa maior com um quintal maior nos dá prazer, mas este prazer diminui com o passar do tempo, até que mal notemos todos os metros quadrados ou os banheiros reformados. E o mais importante é o fato de que nosso prazer com a casa é incapaz de se igualar ao sofrimento e à preocupação de conseguir honrar as prestações hipotecárias mensais. Sair de uma situação em que toda a riqueza está depositada em sua casa para outra, em que a casa é mais uma de suas riquezas, signi�ca menos estresse diário e mais felicidade espontânea. O que isso tudo tem a ver com o modo pelo qual poderemos ser felizes com menos? A felicidade não é, apenas, se sentir bem – é, também, não se sentir mal. Considerando-se que reduzir as experiências negativas (como as preocupações associadas a dívidas) traz um retorno de três a cinco vezes maior sobre a felicidade do que criar experiências positivas (como a compra de uma televisão nova),282 a medida mais sensata a ser tomada – e o primeiro passo para adotar qualquer estratégia para apreciar a vida com menos – é diminuir ou eliminar a dívida antes de comprometer o dinheiro com quaisquer serviços ou mercadorias supér�uos. GASTE SEU DINHEIRO EM EXPERIÊNCIAS, E NÃO EM BENS Há cada vez mais evidências comprovandoque são as experiências – e não as coisas – que nos fazem felizes.283 Muitas experiências, como caminhar com amigos ou promover uma noite de jogos com a família, são praticamente gratuitas. E muitas outras – viagens rodoviárias, jantares regados a álcool, torneios esportivos, aulas de culinária, shows de rock – custam dinheiro. É claro que, às vezes, uma tênue linha separa as experiências e as coisas. O console de jogos Wii é tanto um objeto material quanto um canal de experiências, aprendizado e aventura. Assim, parece que as pessoas mais felizes são aquelas mais hábeis em extrair experiências de todas as coisas nas quais investem seu dinheiro, seja uma guitarra, um bilhete de avião, um livro de fotos, um vestido, uma câmera, aulas de decoração de bolos ou um tênis de corrida. Antes de mudar nossos hábitos de despesas e de consumo em uma direção completamente nova, é importante considerar as razões e o conhecimento cientí�co que sustentam esta noção. Por que as experiências são superiores às coisas? Primeiro, pelo fato de quase todos os bens permanecerem praticamente estáveis depois de sua aquisição, nos adaptamos a eles muito mais rapidamente. Após abrir a caixa e colocar o nosso novo item na prateleira ou no armário, não levará muito tempo até que tenhamos a sensação de que ele sempre esteve lá, e nem sequer o notaremos mais. Segundo, as experiências são intrinsecamente mais sociais – mais propensas a serem compartilhadas, antecipadas e relembradas com outras pessoas – do que as coisas. Tirar férias ou jogar boliche com um amigo tem muito mais chances de sedimentar nossa amizade do que falar ou mostrar nosso novo relógio de pulso ou nosso novo dormitório. Terceiro, à luz das pesquisas que ressaltam o risco das comparações sociais, não é de surpreender que uma razão pela qual as experiências nos fazem mais felizes do que os bens materiais é que �camos menos propensos a compará-las com as experiências alheias. O motivo principal é que, simplesmente, são necessários um esforço e uma imaginação muito maiores para equiparar a lua de mel que passamos na praia com a lua de mel de nosso amigo que optou por um roteiro turístico. Mesmo que conseguíssemos fazer esta comparação, seria improvável que nosso prazer diminuísse ao tomarmos conhecimento de que nosso vizinho está desfrutando de uma experiência formidável. Meu marido e eu amamos o show de Paul McCartney, e não nos importamos nem um pouco se as pessoas da oitava �la gostaram ainda mais do que nós. Mas poderemos nos deleitar um pouquinho menos com nosso novo automóvel com porta traseira todas as vezes que nosso vizinho passar por nós a bordo de seu conversível. Quarto, em relação às coisas, as experiências também estão menos inclinadas a sofrer outro tipo de comparação – a comparação com o que poderiam ter sido.284 Pelo fato de utensílios e bolsas comprados em lojas (o que não acontece com aulas de balé ou excursões) serem tão fáceis de organizar lado a lado, estamos muito mais propensos a nos arrependermos de ter comprado os itens anteriores, mesmo que sejam totalmente satisfatórios, se encontrarmos um preço ainda melhor. Por razões semelhantes, é mais difícil escolher coisas materiais do que experiências, e uma escolha não tão perfeita de um item que se pode segurar ou tocar tem mais chances de nos atormentar, muito tempo depois de sua aquisição. Quinto, enquanto os objetos materiais normalmente se desgastam e perdem o interesse ao longo do tempo, até que �quemos ansiosos para substituí-los, as experiências podem, de fato, tornarem-se ainda mais positivas e mais agradáveis com o passar do tempo. Um �m de semana, um jantar ou uma conversa maravilhosos podem tornar-se mais atraentes e mais belos em nossas memórias, a ponto de nos esquecermos ou negligenciarmos quaisquer tensões (por exemplo, se nos perdemos no caminho, se nos aborrecemos com o trânsito) ou transtornos (derramar café quente na roupa, mau tempo) e só nos lembrarmos dos aspectos positivos.285 Estamos mais propensos a revisitar mentalmente nossas experiências passadas do que nossas compras,286 e, quanto mais nós as revisitamos e as reproduzimos, mais elas �orescem, e mais ricas são as histórias que nos propiciam. Sexto, as experiências nos fazem mais felizes do que as coisas porque estamos mais propensos a nos identi�carmos com elas e menos propensos a querer negociá-las.287 A�nal, somos a soma de nossas experiências, e não a soma de nossas posses. Quando possuímos algo, isso está fora de nós – na nossa prateleira, em nossos ombros ou na sala de estar. Quando experimentamos algo, isso está dentro de nós – dentro de nossas mentes e de nossas memórias. Sétimo, as experiências – como escalar uma montanha, visitar um local remoto ou aprender a mergulhar – podem envolver desa�os e aventuras, e exercer um esforço para enfrentar um aprendizado ou uma viagem difíceis, saboreando a sensação de uma conquista arduamente alcançada, nos deixa felizes. A menos que nossa nova aquisição seja uma prancha de snowboard ou uma asa delta, é improvável que ela nos traga o mesmo nível de estímulo e de desa�o. Finalmente, as coisas não nos fazem tão felizes quanto as experiências porque um foco inadequado na aquisição de bens materiais implica muitos custos. Conforme descreverei com mais detalhes no próximo capítulo, os materialistas relatam menos satisfação e signi�cado em suas vidas, têm relações sociais mais fúteis, são mais inseguros e menos queridos pelos outros do que as pessoas que não são materialistas.288 Em resumo, as pesquisas a respeito da superioridade das experiências sobre os bens materiais são extremamente persuasivas, e todos nós – mas especialmente aqueles com orçamentos apertados – deveríamos colocar em prática as suas recomendações. No entanto, é importante lembrar que as coisas materiais também podem nos fazer felizes – desde que as transformemos em experiências. Poderíamos convidar nossa família e nossos amigos a se aventurarem em nosso novo carro; poderíamos dar uma festa em nosso novo terraço; e poderíamos executar um programa de autoaperfeiçoamento em nosso novo smartphone. GASTE SEU DINHEIRO EM VÁRIOS PEQUENOS PRAZERES, E NÃO EM ALGUNS MAIORES Uma estratégia de parcimônia de simples execução é sugerida pelas pesquisas sobre os benefícios emocionais de forjar experiências positivas que sejam frequentes, mais do que intensas (por exemplo, vários jantares modestos em restaurantes, em vez de um único banquete),289 e isoladas, mais do que combinadas (racionar nossos episódios favoritos de Sopranos a cada semana, em vez de estourar o orçamento comprando vários de uma vez).290 Assim, embora os publicitários possam nos dizer o contrário, devemos procurar gastar nosso dinheiro em uma série de pequenos prazeres intermitentes (por exemplo, buquês de �ores frescas ou telefonemas de longa distância para amigos íntimos), em vez de uma grande e onerosa facilidade (digamos, um extravagante sistema de som). Esta prática acaba sendo não apenas grati�cante como relativamente barata. A razão é que, quando desfrutamos de uma experiência positiva – seja um �lme emocionante, meia hora em uma cadeira de massagem ou uma deliciosa fatia de bolo de limão –, “o banquete está na primeira garfada”.291 Em outras palavras, a cada minuto, hora ou semana que passa, nossa capacidade de desfrutar a mesma experiência diminui. No entanto, nossa capacidade de desfrutar e apreciar pode ser reabastecida após uma pequena pausa.292 Assim, desmembrar o consumo em doses menores e distribuí-lo ao longo do tempo pode multiplicar estas “primeiras garfadas” e aumentar nosso prazer. Usufruiremos mais de uma barra de chocolate amargo se a cortarmos em quadrados e comermos um pedaço por dia do que se a devorarmos de uma única vez. Obteremos mais prazer se dividirmos nosso dinheiro para despesas pessoais, ainda que escasso, em diversas porções, e as utilizarmos uma ou duas vezes por semana. A título de exemplo, um pesquisador entrevistou pessoas de todos os níveis de renda no Reino Unido e descobriu que aquelasa felicidade. Meu objetivo é evidenciar e desconstruir tais parcialidades e falácias. O desa�o, evidentemente, é como fazer isso – como mudar nossas reações habituais às grandes mudanças ou revelações da vida, passando de uma abordagem puramente intuitiva, enraizada na desinformação sobre a felicidade, para uma reação mais racional. Depois de compreender os pressupostos que regem as suas reações, você deverá decidir como agir, ou se deverá mudar a sua perspectiva (e em que grau). Desta forma, substituirá a dependência dos mitos da felicidade por uma mente preparada – uma mente pronta a tomar uma decisão melhor, baseada na razão, e a pensar, em vez de piscar. Considere a situação abordada no capítulo 1 – o seu casamento �cou entediante. Seu primeiro pensamento pode ser: “Não desejo mais o meu marido como costumava desejar, por isso o nosso casamento não deve estar funcionando, ou, talvez, ele não seja mais a pessoa certa para mim”. Com base em evidências teóricas e empíricas, desmascararei a falácia que sustenta o seu pensamento – a noção de que o casamento é permanentemente satisfatório – e oferecerei recomendações sobre a forma de abordar, remediar ou lidar com a sua situação. Como, portanto, tomar uma decisão sobre os próximos passos a seguir em circunstâncias como essas? Os psicólogos oferecem inúmeras sugestões práticas, amparadas em evidências.12 Primeiro, faça um registro mental de suas intuições iniciais ou de suas reações instintivas sobre o caminho a ser seguido – talvez você possa, até mesmo, registrá-las por escrito – e, em seguida, arquive-as. Depois de passar algum tempo pensando sistematicamente sobre a situação, você pode reconsiderar a reação instintiva inicial à luz de novas informações ou ideias. Em segundo lugar, busque a opinião de alguém que não esteja envolvido na situação (um amigo imparcial ou um terapeuta), ou, simplesmente, faça um esforço para adotar a perspectiva de um observador objetivo. O segredo é libertar-se dos pequenos detalhes do seu problema particular (digamos, que você tem constatado atualmente uma diminuição da paixão) e tentar considerar a classe mais ampla de problemas à qual o seu problema pertence (digamos, a escala da atração física em um relacionamento de longo prazo). Terceiro, considere o oposto do que os seus instintos lhe dizem para fazer, e, sistematicamente, repasse as consequências em sua mente. E, �nalmente, quando o seu dilema envolver múltiplas decisões (em vez de apenas uma), pese todas as suas opções simultaneamente, e não em separado. As pesquisas revelam que tal decisão “conjunta” é mais bem-sucedida e menos propensa à parcialidade do que a tomada de decisão “em separado”. Embora estas quatro recomendações não sejam panaceias, elas têm o potencial de nos orientar e nos ajudar a tomar a decisão quanto ao caminho a seguir ante os desa�os e os momentos decisivos da vida. No entanto, devemos estar vigilantes para que nossa análise cuidadosa e sistemática não se transforme em ruminação ou em uma ideia �xa sobre as escolhas de nossas vidas; a ruminação é um hábito perigoso, suscetível de desencadear um círculo vicioso de grandes preocupações, tristezas, desesperanças e “paralisias da análise”. Se o segundo e o terceiro pensamentos estiverem se mostrando recorrentes ou andando em círculos, isso signi�ca que estamos ruminando, e não analisando. Em suma, quando estamos diante de uma epifania ou de uma grande mudança de vida, é natural querer agir rápida e instintivamente. Mas há grande valor em esperar e pensar, sem apressar-se para chegar às conclusões. Nosso primeiro pensamento não resolverá a questão. Embora não seja fácil identi�car um curso ideal de ação, podemos começar por rejeitar nossos primeiros pensamentos e permanecer atentos às várias respostas potenciais para os momentos críticos da vida. Eu não poderia aconselhar ninguém a seguir uma trajetória especí�ca. Cada um deve escolher e modelar o seu próprio caminho. Dependendo de nossas histórias pessoais, nossas redes de apoio social, nossas personalidades, objetivos e recursos, alguns caminhos ou desvios podem ser mais ou menos adequados, bené�cos e grati�cantes. Os pesquisadores demonstraram que, quando as pessoas se comportam de formas que se encaixam às suas personalidades, interesses e valores, elas se tornam mais satisfeitas, mais con�antes, mais bem- sucedidas, mais engajadas no que estão fazendo e se sentem “bem” em relação a isso.13 O objetivo de Os mitos da felicidade é, ao contrário, tomar por base as mais recentes pesquisas cientí�cas para ampliar as perspectivas dos leitores sobre os momentos críticos que estão enfrentando, desmantelar as falsas crenças sobre a felicidade que regem as suas reações iniciais e apresentar as ferramentas das quais eles podem se valer para dar os seus próprios veredictos e desenvolver novas habilidades e hábitos mentais. Enriquecidos com a sabedoria contraintuitiva e a distância edi�cante dos seus problemas, seus próximos momentos críticos serão acolhidos por uma mente preparada. Embora nossos momentos críticos possam, inicialmente, parecer decepcionantes, confusos ou, até mesmo, trágicos, são oportunidades para mudar nossas vidas ou, no mínimo, para ter uma visão mais clara da situação. Com um novo entendimento, seremos mais capazes de usar os grandes desa�os para fazer grandes progressos. A mensagem de Os mitos da felicidade é que, em última análise, todos nós podemos identi�car os passos a adotar para seguir em direção a uma vida plena e nos ajudarmos a atingir e a superar os potenciais de nossa felicidade. PARTE I CONEXÕES Os desa�os centrais nesta seção do livro – o sofrimento de ter ou não ter um relacionamento íntimo – são particularmente angustiantes para muitos de nós. Apenas a título de exemplo, uma descrição especialmente sugestiva que ouvi a respeito do estresse provocado pelo divórcio é que ele se equivale ao estresse de sofrer um acidente de carro todos os dias, durante seis meses seguidos. Talvez chegue o momento em que nos perguntemos: “Devo continuar com o meu parceiro, ou devo abandoná-lo?”, ou “Devo ser otimista em relação ao casamento, ou perder as esperanças de encontrar uma alma gêmea?”. As respostas a estas questões são complexas, mas, felizmente, uma grande quantidade de estudos psicológicos esclarece, em primeiro lugar, por que chegamos a tais momentos críticos, e, ainda, a natureza dos caminhos nos quais esses momentos podem desembocar. Quando �camos profundamente perturbados com nossa vida amorosa ou familiar, é fundamental que, antes de agir, examinemos nossas expectativas de encontrar um parceiro vitalício e ter �lhos, ambas culturalmente determinadas. Como a maioria de nós compartilha e alimenta profundamente tais expectativas, acreditamos piamente que o cumprimento das etapas relevantes para um relacionamento (encontrar a pessoa certa ou ter �lhos) nos fará felizes para sempre, e de que o não cumprimento de tais etapas (não encontrar um parceiro, ou descobrir que a pessoa certa se transformou na pessoa errada) nos deixará para sempre infelizes. Nesta seção, espero que sejamos levados a nos confrontar com essas expectativas e suposições, e a levar em consideração as convincentes pesquisas que mostram o quanto podemos estar errados. Estudos mostram, por exemplo, que as pessoas se adaptam muito bem aos desa�os, como estar ou �car solteiro, ou suportar as provações e tribulações de ser pai ou mãe. Por outro lado, também somos muito rápidos em nos habituarmos a mudanças positivas circunstanciais, como novos casamentos e novos empregos. Tanto o meu laboratório quanto os laboratórios de outros psicólogos sociais e economistas comportamentais têm investigado sistematicamente o fenômeno de como consideramos nossas próprias vidas algo corriqueiro e, mais importante ainda, como podemos evitar ou retardar tal acomodação quando nos descobrimos entediados, por exemplo, com nossos casamentos e nossas vidas sexuais. Os ensinamentos deste conjunto de trabalhos podem nos conduzir aque se permitiam fazer despesas de baixo custo com frequência – piqueniques, generosos copos de café e dvds prediletos – estavam mais satisfeitas com suas vidas.293 Outros cientistas descobriram que atividades gratuitas ou de baixo custo podem render pequenos impulsos cumulativos de felicidade a curto prazo, que, gradativamente, produzirão um grande impacto sobre a felicidade a longo prazo.294 RECICLE A FELICIDADE E ALUGUE-A Outra série de estratégias que nos ajudará a extrair a maior satisfação possível do menor dos salários envolve as práticas parcimoniosas de alugar em vez de comprar, e de tirar o melhor proveito daquilo que já possuímos. Os seres humanos procuram, instintivamente, variedade e novidade em seus ambientes,295 e este impulso inato é, sem dúvida, uma das razões pelas quais muitos de nós sentimos a necessidade de comprar algo novo a cada semana. No entanto, a busca por variedade não precisa resultar em comportamento perdulário e ambientalmente oneroso. Ao contrário, podemos reciclar a felicidade sendo mais conscienciosos e apreciando as coisas materiais que já possuímos. Como observou o poeta Allen Ginsberg: “Você terá dois tapetes se estiver duas vezes mais consciente do tapete”.296 Também podemos reciclar a felicidade usando nossos bens materiais e aquisições de novas maneiras, o que pode nos propiciar um �uxo de experiências e emoções positivas, sem custo algum. Podemos, por exemplo, transformar nossos bens em atividades, compartilhando nosso apartamento e nosso carro com amigos ou usando nosso iPod para aprender a língua de sinais. Podemos planejar a utilização de nosso jardim de forma deliberadamente diferenciada, ou buscar novas oportunidades e amizades levando nossa bicicleta ergométrica ou nosso computador para o lado de fora. Podemos tirar nosso tapete de ioga do armário e iniciar um novo programa de exercícios físicos, ou reler todos os clássicos em nossas prateleiras. Podemos emprestar nossa lavadora e secadora a um amigo que esteja precisando. Mesmo que a compra de uma experiência (por exemplo, uma viagem familiar) ou de um bem (por exemplo, uma casa ou um carro) esteja perdida no passado, ainda podemos extrair prazer ao apreciá-la e rememorá-la. Folhear um álbum de fotos ou assistir a vídeos antigos (nós no Grand Canyon, eu dirigindo minha moto) nos ajuda a reviver a experiência e os sentimentos positivos que tivemos naquele momento.297 Conforme vamos trazendo os fatos à memória, uma foto pode nos lembrar de um detalhe agradável ou engraçado do qual havíamos esquecido, como o garçom bonito que �ertou conosco ou a tempestade que nos encharcou. Ao prestar atenção redobrada a nosso prazer momentâneo – digamos, falar sobre as férias de vários anos atrás ou vestir a jaqueta jeans velha que adorávamos usar –, aumentamos ainda mais nosso prazer. Podemos saboreá-lo ao fechar os olhos e deleitar-nos com uma memória, perfume ou som; ao compartilhar a experiência com os outros; e ao vibrar com o prazer, em vez de nos deixar obcecar por ele. Dessa forma, revisitar mentalmente e desfrutar de experiências e coisas memoráveis que adquirimos há muito tempo pode continuar a nos propiciar, até hoje, impulsos de felicidade. Em vez de deixar que nossos bens e experiências pelos quais já pagamos �quem se acumulando nas prateleiras, nos armários e na memória, podemos revivê-los literalmente (por exemplo, retirando do armário nosso desbotado jogo de conhecimentos gerais) ou metaforicamente (por exemplo, rememorando as férias da primavera) no presente, e, com isso, estaremos, ao mesmo tempo, poupando nosso dinheiro, reduzindo nossa pegada ecológica e nos sentindo felizes. Outra estratégia parcimoniosa de aumento da felicidade tem, infelizmente, uma péssima reputação – o aluguel. Muitos de nós acreditamos que podemos extrair signi�cativamente mais felicidade de um objeto que possuímos do que de um objeto alugado, mas nossa experiência re�ete apenas um viés cognitivo bem conhecido, que nos leva a gostar mais de alguma coisa (de qualquer coisa) depois que a adquirimos.298 Entretanto, como na maioria dos casos de raciocínio tendencioso, podemos superar esse viés com um pouco de esforço e de informação. A diferença de custo entre comprar um livro e pegá-lo emprestado em uma biblioteca, entre comprar um DVD e alugá-lo, ou entre comprar uma cabana na montanha e alugá-la é, muitas vezes, imensa. No entanto, não desfrutaremos necessariamente menos de um �lme, de um livro ou de uma cabana alugados pelo fato de não possuírmos seus respectivos títulos de propriedade. A bem da verdade, os itens alugados não são afetados pela utilidade marginal decrescente que caracteriza os bens próprios, considerando- se que obtemos um prazer cada vez menor destes últimos ao longo do tempo. Além disso, as coisas alugadas nos permitem desfrutar de uma maior variedade e, portanto, de maior prazer, porque podemos alugar algo diferente a cada vez, ou viajar para cabanas na montanha em várias localidades, em vez de apenas uma. Finalmente, os itens alugados não trazem consigo os custos, os aborrecimentos e o estresse geralmente característicos dos bens adquiridos, tais como avarias, perdas e reparos. Considere, por exemplo, dois grupos de indivíduos bastante similares quanto a seus rendimentos, sua saúde e seus tipos de moradia. A única diferença entre eles é que um grupo é formado por proprietários de seus imóveis e o outro, por locatários. Os pesquisadores descobriram – ao contrário das crenças populares sobre o “sonho americano” – que os proprietários são menos felizes do que os inquilinos, sofrem mais por possuir seus imóveis e passam mais tempo dedicando-se a tarefas domésticas e menos tempo interagindo com seus amigos e vizinhos.299 Se você não consegue comprar muitas das coisas que considera grati�cantes, divertidas, ou que tornam a vida cotidiana mais fácil, alugue-as. OS BENEFÍCIOS DE VIVER COM MENOS: COMO MENOS PODERIA SER MAIS A nova e assustadora era econômica que assolou o mundo em 2008 gerou muita inquietação pública quanto ao declínio de nosso estilo de vida atual, em meio a um punhado de tons de esperança. Os pessimistas opinaram sobre o desaparecimento da vida tal como a conhecemos. Por outro lado, os otimistas previram que o impacto e o custo do iminente desastre �nanceiro e da insegurança generalizada mudariam nossas atitudes e melhoriam nosso comportamento como consumidores, trazendo, por �m, um maior signi�cado às nossas vidas e uma maior valorização daquilo que já possuímos, além de fomentar o tão necessário desprezo pela cultura materialista que permeia nossa vida e prejudica o planeta. Em apoio a esta perspectiva, os cientistas demonstraram que, para administrar os impactos das adversidades da vida, precisamos expressar gratidão por nossa relativa sorte (em vez de desejar mais sorte), cultivar um sentido de conexão com a família e os amigos, aprimorar competências e conhecimentos e sair de nós mesmos, a �m de contribuir com os outros.300 Trata-se, simplesmente, de um clichê infeliz, ou menos pode ser, realmente, mais? Muitas pessoas sentem que não ganham o su�ciente para realmente aproveitar a vida, e quando alguém lhes diz que suas di�culdades têm um lado bom, elas se sentem ofendidas. Tenho a intenção de convencê-las do contrário, embora meus argumentos se apliquem apenas àquelas pessoas cujas circunstâncias ou contratempos �nanceiros não lhes deixaram tão empobrecidas a ponto de não poderem mais atender às suas necessidades básicas. As pesquisas sugerem que uma nova atitude em relação ao dinheiro, ao tempo, às despesas e aos bens materiais pode estimular as pessoas a enfrentarem a situação de uma maneira ainda não imaginada anteriormente, a contribuir de forma mais positiva para a sociedade, a prosperar através da cooperação e da interdependência e a viver de maneira mais autêntica e tranquila. Eis aqui algumas maneiras especí�cas nas quais ter menos pode, realmente, melhorar nossas vidas e desa�ar a veracidade do mito de que ninguém pode ser feliz sem dinheiro. REUNINDO-SE COMOS OUTROS Ter menos signi�ca que estamos mais propensos a unir esforços, a mostrar preocupação com os outros e a nos ajudar mutuamente. Todos nós já ouvimos histórias sobre a Grande Depressão da década de 1930, quando as famílias se reuniam ao redor da lareira, do rádio, dos jogos de tabuleiro, em caminhadas e visitas a museus, e outras atividades de lazer gratuitas ou de baixo custo. Evidentemente, trata-se de uma visão higienizada e idealizada das di�culdades (como exercício hipotético, basta imaginar as “maravilhosas” experiências que você terá se relacionando com seus pais quando voltar a morar com eles, como alguns de nossos amigos foram obrigados a fazer no ano passado), mas o quadro tem um fundo de verdade. Além disso, se o seu cargo tiver sido extinto ou limitado, você pode optar por gastar mais tempo realizando serviços à comunidade, e, se você for espiritualista ou religioso, poderá procurar sua comunidade de fé. Todas essas consequências são positivas. MUDANDO AS PERSPECTIVAS E AS PRIORIDADES Perder nosso emprego pode ser a oportunidade ideal para encontrarmos algo de que gostamos. A sensação de que perdemos tudo pode alimentar uma ambição e uma motivação imensas, até porque não teremos outra escolha. Não perder o emprego enquanto aqueles que nos rodeiam foram demitidos, pode fomentar um sentimento de gratidão por ainda estarmos empregados (mesmo que costumássemos reclamar incessantemente do emprego), bem como uma motivação redobrada para mostrar o melhor que pudermos. Reconhecer que o dinheiro não é o Santo Graal nos ajuda a mudar nossas prioridades para focalizar no que realmente importa, em nossas famílias, nossa saúde, a paz mundial ou a beleza da natureza. Quando a vida é dura, torna-se ainda mais importante enumerar nossas dádivas e saborear as pequenas coisas da vida. Quando a vida é dura, reconhecemos que somos mais fortes e mais capazes de cuidar de nós mesmos e de nossos entes queridos, muito mais do que poderíamos ter imaginado. SENDO CRIATIVO Quando temos muito dinheiro, podemos entrar em uma loja e comprar o primeiro objeto que cobiçamos. Quando temos pouco dinheiro, somos forçados a aprender a fazer escolhas difíceis – a reconsiderar o que realmente vale a pena comprar e o que não vale. Também somos obrigados a ser criativos em relação a como obter o que precisamos. Durante o auge da recessão nos Estados Unidos, em 2008, as vendas de garagem dispararam; as pessoas livravam-se de “coisas de que não precisavam” e vendiam-nas para quem precisava. Outros deram início a inovadores sistemas de troca, a �m de atingir o mesmo objetivo. Não é de admirar que as inovações e os empreendimentos prosperem durante as crises econômicas.301 Começar com poucas coisas ou com nada nos dá a liberdade de arriscar e reconstruir tudo de novo. PRESERVANDO Finalmente, quanto menos dinheiro e menos bens tivermos, menos probabilidade haverá de que dani�quemos o ambiente. Compramos menos, consumimos menos e dirigimos menos. Diminuímos nosso ritmo e gastamos nosso tempo de forma a fazer uma utilização menos intensiva de recursos. Para economizar, �camos mais inclinados a colocar um suéter do que a ligar o aquecedor, ou a ir a pé em vez de dirigir. Também produzimos menos resíduos. Estamos mais propensos a reutilizar coisas antigas – roupa de cama, brinquedos, frascos –, em vez de jogá-las fora, e estamos mais propensos a não desperdiçar os alimentos. UMA RESSALVA Em suma, as evidências empíricas e teóricas sugerem que viver com menos tem alguns benefícios claros. No entanto, não pretendo subestimar ou menosprezar as di�culdades e privações enfrentadas por pessoas que se veem desprovidas não só de luxos, mas de garantias básicas. Quando minha família imigrou para os Estados Unidos, eu era jovem, mas tenho lembranças indeléveis da angústia e da impotência de viver de contracheque em contracheque, do medo do próximo imprevisto (avaria do carro, doença) que alteraria por completo toda a nossa vida, e do sofrimento de não poder ter as roupas ou os brinquedos que meus colegas tinham. Um pouco como as pessoas que atingiram a maioridade na década de 1930 e nunca perderam seus hábitos frugais, nunca esqueci o que signi�ca ser pobre. A maioria das minhas outras lembranças indeléveis, no entanto, envolve toda a minha família sentada ao redor da mesa de jantar, todas as noites, comendo costeletas de peru e batatas fritas, falando por horas sobre política, literatura e �lmes, e fantasiando sobre nosso futuro. Nem tudo era sombrio, mas se eu soubesse o que sei hoje, minha família teria �cado mais bem preparada para tirar o melhor proveito daquela situação. A MENTE PREPARADA Alguns chegam ao ponto em que será preciso admitir para si mesmos que, por causa de um grande infortúnio, ou de uma sequência de pequenos contratempos, ou da má sorte, poderão permanecer falidos por um longuíssimo período. Outros têm apenas a si mesmos para culpar, talvez por terem feito más escolhas sobre como gastar, consumir e esbanjar o dinheiro, ou por não terem tido força de vontade, empenho ou motivação su�cientes. Para a maioria das pessoas, a solução é, provavelmente, muito mais complicada do que isso. Mas, independente da causa, se nossa intuição nos disser que só poderemos ser felizes com muito mais dinheiro, é fundamental analisar os dados que apresento neste capítulo e que sugerem o contrário. Colocar em prática um ou mais dos quatro princípios parcimoniosos que descrevi – e fazê- lo imediatamente, em vez de deixar para mais tarde – pode tanto evitar um desastre econômico quanto ajudar a extrair a maior quantidade de felicidade das pequenas coisas. Em vez de �car remoendo nossa infelicidade, podemos nos concentrar nos meios pelos quais poderemos ser felizes com menos e em gastar nosso dinheiro de modo correto. CAPÍTULO 7 Eu serei feliz quando... for rico No dia de nossa entrevista, Jack Barnes usava uma chamativa camisa xadrez abóbora, uma gravata listrada de seda azul-marinho, um relógio Cartier e muito produto de cabelo para um homem de cinquenta anos de idade. Sua pele é escura e de textura grossa – fato que compreendi melhor assim que ele me descreveu o condomínio em que vive no Havaí, de US$ 2,5 milhões. Jack se expressa em um tom con�ante, e, até mesmo, arrogante, mas é um homem simpático e inteligente. Estamos em um restaurante chique, e ele me diz que posso pedir qualquer coisa que não esteja no menu. Peço batata frita e ele franze a testa. “Mas isso está cheio de más calorias.” Jack sonhava em ser médico desde os quatro anos de idade, �ngindo-se de doutor com um jaleco médico que ganhara no Halloween. “Quando somos crianças, geralmente queremos ser uma centena de coisas diferentes. Um espião, um vaqueiro, um palhaço. Eu sempre quis ser médico.” Jack cursou a Brown University e se formou com uma série de honras acadêmicas, vários troféus de atletismo e um exame admissional de conhecimentos gerais quase perfeito. Ele dá um sorriso pretensioso e confessa que só se candidatou às três melhores escolas de medicina, e que passou em todas as três. “Eu tinha tudo organizado. Eu, simplesmente, já sabia que era aquilo o que eu pretendia fazer. Aos quinze anos, sabia que a minha especialidade seria cirurgia plástica. Sabia que queria fazer com que as pessoas se sentissem bonitas. Há algo de muito poderoso nesta sensação de poder dizer: ‘Olhe, esta é a sua posição atual, e num instante, posso levá-la até aqui’. É como brincar de ser Deus – ter o potencial para, literalmente, recriar a vida humana. Sou eu que decido a aparência das pessoas e como elas se sentem.” Quando Jack estava com trinta anos, seu consultório particular já era bastante próspero. Ele foi apresentado à sua futura esposa por um amigo, mas ela não se mostrou interessada. “Eu disse que ela era bonita, e a convidei para sair comigo. Fui bastante inoportuno. Depois desse nosso primeiro encontro, deixei mensagens para ela todas as noites. Finalmente, ela ligou de volta, recusando os meus apelos. Eu disse que ela era boba, porque nós iríamosnos casar, e, dois meses depois, pedi a sua mão. Nós nos apaixonamos perdidamente.” Jack e sua esposa apreciavam a vida de casados, passavam períodos viajando juntos e comemoravam os sucessos pro�ssionais de Jack. Conforme seu consultório se ampliava, Jack expandiu sua especialidade, com a implantação de atendimento para um público selecionado, que incluía, especi�camente, as socialites de alto poder aquisitivo de Nova York, Connecticut e Massachusetts. O dinheiro entrou, o dinheiro saiu, e, no intervalo de quatro anos, Jack havia comprado duas casas de férias, dois carros desportivos e um iate de cruzeiro. “Eu tinha tanto dinheiro que nem sabia o que fazer com ele. Quero dizer, literalmente, minha esposa e eu tínhamos tudo o que queríamos. Primeira classe em todos os lugares, vinho de safras raras, anéis de diamante, clube de campo. Eu estava fazendo rios de dinheiro.” Por um tempo, Jack apreciou o sucesso e a prosperidade pro�ssionais. Ele amava o poder que o dinheiro lhe trazia. Mas logo percebeu que o signi�cado de seu trabalho e de seu estilo de vida começava a esmorecer. “Eu tinha di�culdade em me sentir motivado, e tinha di�culdade de sair da cama pelas manhãs. É disso que eu mais me lembro. Lembro-me, literalmente, de sentir como se fosse um fardo. Eu costumava ter muita vitalidade. Eu me levantava às cinco e meia da manhã, ia para a academia e atendia meu primeiro paciente às oito horas. Eu operava até o meio-dia, almoçava na minha mesa e, em seguida, voltava e trabalhava até as oito da noite. Uma das características deste meu público seleto era que eu atendia pacientes 24 horas por dia, sete dias por semana.” Jack decidiu, realmente, lutar contra isso – parou de aceitar novos clientes e começou a mentir para sua esposa sobre o número de pacientes que estava atendendo. Neste ponto, percebendo que tinha tudo o que queria, mas era completamente infeliz, ele começou a se consultar com um ilustre psiquiatra, três vezes por semana. “Um dia, eu estava deitado lá, falando novamente sobre o sentimento de vazio, e o Dr. G. disse: ‘Por que você não vai fazer outra coisa? Obviamente, o que você faz não está lhe trazendo mais felicidade como costumava trazer. Você quer morrer infeliz?’. Aquilo teve o efeito de uma pancada na minha cabeça. Eu não queria morrer infeliz, mas, simplesmente, não estava no meu dicionário mudar meu foco, mudar minha vida. Acho que me senti obrigado a �car onde estava, e apenas fazer o melhor que eu podia”. Quando perguntei a Jack sobre o momento especí�co em que ele percebeu que seu dinheiro e seu sucesso não o faziam mais feliz, ele respondeu que foi aos poucos, mas o momento decisivo foi um dia em que uma nova paciente, após várias consultas, perguntou se poderia operar os seios no dia de Natal, pois era o único dia em que ela estaria disponível. Ela assinou um cheque nominal a Jack como forma de adiantamento, no valor de US$ 75 mil. “Lembro-me de ver o cheque e, depois, de �car olhando �xamente para ele. Simplesmente, não era mais ali que eu queria estar.”302 Em vez de perceber que perdemos tudo, e se percebêssemos, assim como Jack, que, aparentemente, temos tudo – pelo menos, no papel – e, mesmo assim, ainda não estamos felizes? De certa forma, o momento crítico que abordo aqui é exatamente o contrário do anterior. Isto é, descrevo aqueles momentos em que �nalmente atingimos nossos objetivos – especialmente no que diz respeito a ganhar dinheiro – e a subsequente e, de modo geral, inesperada desordem. Por quê? Porque nos agarramos à crença de que, assim que alcançarmos a riqueza, o sucesso ou seja lá o que tivermos sonhado alcançar, seremos �nalmente felizes, e quando essa felicidade se mostra fugaz ou de curta duração, nos deparamos com emoções heterogêneas, decepção e, até mesmo, depressão. Tais experiências são lastimáveis, porque são evitáveis. Neste capítulo, desmisti�co esse processo, explicando que o �o condutor de experiências como fazer sucesso e �car rico é a adaptação hedonista aos acontecimentos muito positivos (e não às mudanças de vida mais típicas, discutidas anteriormente). Compreender o papel que a adaptação desempenha em nossas reações a esse momento crítico – até o estágio em que �nalmente conseguimos o que queremos – não apenas pode ajudar a nos preparar para esse momento, mas aumentar nossas chances de prosperar e avançar rumo a uma direção positiva, em vez de fraquejar e se deixar abater pelo descontentamento. O DINHEIRO NÃO É TUDO AQUILO QUE SE SUPUNHA Meu orientador de doutorado gostava de dizer que há muito poucas coisas na vida que são tudo aquilo que se supunha. Essa dose de sabedoria é particularmente aplicável à riqueza. Nossas fantasias sobre nosso primeiro milhão ou a casa de praia dos sonhos quase nunca são tão emocionantes na vida real quanto o são em nossa imaginação, e, mesmo quando o são, a sensação de prazer não consegue ser mantida por muito tempo.303 Pior ainda, nossa tendência a �carmos satisfeitos apenas por breves instantes – de obter apenas “uma espuma de alegria fugidia”, nas palavras de Shakespeare,304 e nada mais – tem a consequência perniciosa de abalar a felicidade decorrente de, �nalmente, termos alcançado um parâmetro de prosperidade. Por que isso acontece? A primeira parte da resposta é que nunca poderemos experimentar algo pela primeira vez duas vezes. Esta é a verdade essencial sobre chegar ao alto da montanha ou ao auge da carreira. Os momentos, semanas ou anos de caminhada até o topo podem ser estressantes, mas são entusiasmantes. Há um arrebatamento, um autocontrole, e, inclusive, uma ousadia quando nos aproximamos da realização de um sonho. Diz-se que, quando um furacão está prestes a eclodir, as pessoas experimentam um nível elevado de foco, conectividade e envolvimento.305 É a mesma sensação de quando obtemos sucesso ou estamos prestes a obtê-lo, e é uma sensação maravilhosa – por algum tempo. Em seu livro Em busca da perfeição, Tal Ben-Shahar descreve o sentimento de realização e de felicidade verdadeira que sentiu depois de se tornar o mais jovem campeão de seu país no torneio nacional de squash. Esse sentimento durou três horas.306 Muitos de nós já tivemos experiências semelhantes – quando a satisfação por termos, en�m, �cado famosos ou ricos parece decrescer em proporção direta à distância do ponto de partida de nossa trajetória até o sucesso. A parte interessante são as variações que acontecem a seguir. Para Ben-Shahar, o momento de triunfo foi quase imediatamente acompanhado da constatação de que a sua vitória não era tão signi�cativa, e que o que ele realmente desejava alcançar era o status de campeão mundial. Ele começou a treinar imediatamente. Jack Barnes, o cirurgião plástico, seguiu o conselho de seu psiquiatra e não tomou quaisquer decisões precipitadas. Ao contrário, partiu para um retiro de meditação silenciosa por três semanas e passou seus dias re�etindo, sem se comunicar com ninguém. Ele retornou com uma percepção renovada de si mesmo e com a �rme decisão de dedicar parte de seus horários no consultório a um trabalho gratuito e voluntário com famílias sem seguro de saúde, a �m de reparar deformações congênitas e acidentais em crianças e adultos. Hoje, na casa dos cinquenta anos, Jack já fundou quatro clínicas móveis de cirurgia craniofacial na América do Sul e frequentemente viaja até lá como médico voluntário, para realizar cirurgias de reparação de lábio leporino e fenda de palato. Ele nunca mais parou. Em contraste, um próspero e poderoso empreendedor que, certa vez, à saída do aeroporto, me ofereceu uma carona de uma hora de duração em sua limusine, relatou sua experiência de “se tornar um multimilionário com 29 anos de idade” e acabar envolvido em graves problemas com drogas e álcool, “devido ao vazio que veio depois“. Ele �cou anos mergulhado em uma espiral descendente, até que um empurrão de seus pais ajudou-o a voltar à vida. E Anthony, um gestor de fundos de cobertura que entrevistei, me contou como, na década seguinte à faculdade, sua capacidade de ganhar dinheiroultrapassou em muito a de todos os seus familiares, amigos e ex-colegas. Em vez de sentir êxtase, ele se viu consumido pela culpa com o próprio sucesso, alimentando uma sensação inequívoca de que os outros invejavam ou menosprezavam o que ele acreditava merecer. Finalmente, conheço uma atriz que atingiu o ápice de sua carreira aos quarenta e poucos anos de idade, quando suas atuações lhe rendiam salários que humilhavam muitos dos salários de seus pares. Mais uma vez, em vez de �car feliz, ela reagiu com uma insegurança impressionante. Se a magia e a “excepcionalidade” não perdurassem, a�rmou, ela preferiria se matar. Alguns desses exemplos podem parecer extremos, mas re�etem o sentido de ser “deteriorado por” ou “dependente de” dinheiro e sucesso, e, então, tomar alguma medida – ou não – a esse respeito. Quando, �nalmente, nos tornamos o chefe de nosso chefe, nos sentimos empolgados, e quando essa empolgação não perdura, como geralmente acontece, podemos experimentar um vazio, uma frustração de expectativas e uma decepção. A�nal, os seres humanos são programados para o desejo e não para apreciar; para lutar por mais e não para se contentar com o que têm.307 As pesquisas sugerem que após os acontecimentos extremamente positivos, as experiências medianamente positivas (como almoçar com um amigo) tornam-se neutras ou maçantes, e as experiências medianamente negativas (como �car preso no trânsito) tornam-se intensamente negativas.308 Outra razão pela qual as pessoas podem reagir negativamente ao sucesso é que até mesmo as realizações e a prosperidade tão desejadas podem desestabilizar e perturbar nossa vida (por exemplo, talvez seja preciso nos transferirmos ou assumirmos responsabilidades novas e desconhecidas), nossos papéis (por exemplo, mudar do setor criativo para o administrativo) e nossa visão de nós mesmos. Por mais positivas que sejam, tais mudanças são estressantes, e, consequentemente, estão associadas ao aumento da incidência de transtornos de humor, doenças e, até mesmo, de hospitalização.309 ACOSTUMANDO-SE COM DINHEIRO Para muitos de nós, dinheiro e sucesso são uma coisa só. Na última pesquisa com calouros universitários dos Estados Unidos, em que mais de 200 mil estudantes de 279 faculdades e universidades foram questionados sobre seus objetivos mais importantes na vida, 77% escolheram “ser muito bem-sucedido �nanceiramente”.310 Estar em boa situação �nanceira pode trazer inúmeras facilidades e vantagens – além de nos capacitar a comprar mais coisas, nos ajudar a conhecer parceiros potenciais e proporcionar segurança e estabilidade –, mas um fato inevitável é que nós nos acostumaremos com isso. Os economistas descobriram, por exemplo, que dois terços dos benefícios de um aumento de renda desaparecem depois de apenas um ano, em parte porque nossas despesas e novas “necessidades” aumentam concomitantemente, e também porque começamos a conviver com pessoas com poder aquisitivo mais elevado.311 Além disso, conforme descrevi no capítulo anterior, embora ter mais dinheiro aumente nossa satisfação com a vida, isso tem pouco ou nenhum impacto sobre as emoções positivas e negativas cotidianas, e sobre as estimulações e os aborrecimentos que vivenciamos.312 No começo, mais riqueza nos proporciona um padrão de vida melhor, e os confortos e as extravagâncias extras propiciam prazer adicional. Então, nós nos acostumamos – e talvez, até, nos “viciemos” – com o padrão mais elevado de vida, até o ponto de não �carmos satisfeitos, a menos que aumentemos a dosagem, adquirindo ainda mais coisas. No entanto, aqueles que não estão atualizados sobre as últimas descobertas da psicologia e da economia não conseguem antever este desfecho, e acabam assumindo que o aumento da riqueza deveria trazer mais felicidade do que realmente traz.313 Além disso, quando não obtemos o prazer esperado, presumimos que a culpa não está na natureza humana, mas em nossa incapacidade de adquirir o objeto certo, o que nos faz voltar ao shopping, ao corretor de imóveis ou à agência de automóveis. Mais de dois séculos atrás, antecipando as pesquisas que comprovariam que as pessoas se acostumam com o dinheiro e com as coisas materiais que ele traz consigo, Adam Smith escreveu sobre como as normas da sociedade podem criar novas “necessidades”, de tal forma que se torna uma vergonha renegá-las.314 Para usar um exemplo ainda não disponível na época de Smith, quando viajamos pela primeira vez na classe executiva, e percebemos que nossos pares com o mesmo nível de renda sempre fazem o mesmo, é impossível voltar a andar de econômica. Por falar em pessoas com o mesmo nível de renda, parece que o que nossos pares estão ganhando determina nossa felicidade ainda mais do que o que nós estamos ganhando, não importa o quão generosa seja nossa renda. Em outras palavras, a pessoa média (embora, como vimos anteriormente, não a mais feliz) se preocupa mais com a comparação social, com o status, com as listas de classi�cações e com os chamados bens posicionais do que com o valor absoluto de sua conta bancária ou reputação. Um famoso estudo de 1998 mostrou que as pessoas prefeririam viver em um mundo no qual recebessem um salário anual de US$ 50 mil (quando as outras estariam recebendo US$ 25 mil) do que um salário anual de US$ 100 mil (quando as outras estariam recebendo US$ 200 mil). Da mesma forma, pesquisadores do Reino Unido demonstraram que as pessoas prefeririam doar parte de seu próprio dinheiro, se isso signi�casse que as outras pessoas teriam menos.315 Em suma, são muitas as razões pelas quais nos acostumamos a ter dinheiro, e as consequências de tal panorama são inoportunas. OS CUSTOS DO CONSUMO E DO MATERIALISMO Quanto mais dinheiro temos, mais nos acostumamos com isso, e mais queremos. Esta realidade tem duas consequências potencialmente prejudiciais, uma menos favorável do que a outra. Primeiro, deixamos de desfrutar de nossa riqueza da forma que deveríamos desfrutar. Segundo, nosso desejo de comprar e de possuir em quantidades ainda maiores, a �m de atingir o mesmo nível de prazer, pode nos colocar no caminho do materialismo e do consumismo descontrolados, de tal forma que passemos a gastar cada vez mais dinheiro, mas a felicidade daí decorrente será cada vez menor. Será que todos nós reconheceríamos as tendências materialistas em nós mesmos quando nos deparássemos com elas? Se você não tiver certeza, avalie até que ponto concorda com cada uma das seguintes a�rmações (1 = discordo totalmente, 2 = discordo, 3 = neutro, 4 = concordo, 5 = concordo totalmente):316 _____ 1. Admiro as pessoas que possuem casas, carros e roupas caras. _____ 2. Meus bens revelam muito sobre o quanto progredi na vida. _____ 3. Gosto de ter coisas que impressionem as pessoas. _____ 4. Tento levar uma vida simples, no que diz respeito aos bens materiais. _____ 5. Comprar coisas me dá muito prazer. _____ 6. Gosto de ter muito luxo na minha vida. _____ 7. Minha vida seria melhor se eu tivesse algumas coisas que não tenho. _____ 8. Eu �caria mais feliz se pudesse comprar mais coisas. _____ 9. Às vezes, me incomoda bastante não poder comprar todas as coisas que eu gostaria de comprar. Para determinar a sua pontuação de materialismo, primeiro “inverta a pontuação” da sua avaliação do quarto item (“levar uma vida simples”) – isto é, se você se atribuiu uma nota 1, risque-a e mude-a para 5; se você se atribuiu uma nota 2, mude para 4; altere a nota 4 para 2, e altere a nota 5 para 1. Agora, some seus nove votos para chegar ao resultado. Os pesquisadores descobriram que, em média, as pessoas marcam 26,2 pontos nesta escala. Isto signi�ca que, se a maior parte de suas respostas tendeu para “neutro” e uma ou duas foram “discordo”, suas tendências materialistas são de nível médio. Se a sua soma chegou mais perto de 36 (ou seja, se você concordou com a maioria dos itens), sua pontuação de materialismo encontra-se nos 20% superiores em relação aos seus pares.317 Por que é importante identi�car as tendências materialistas? Inúmeras pesquisas comprovaramque o materialismo exaure a felicidade, ameaça a satisfação com nossos relacionamentos, prejudica o meio ambiente, nos deixa menos amistosos, simpáticos e compreensivos, e nos torna menos suscetíveis a ajudar os outros e a contribuir para nossas comunidades.318 Uma das primeiras considerações é o dano em nível global in�igido pelo materialismo desenfreado, que inclui a criação de bolhas, surtos e falências econômicas e a devastação do planeta, uma vez que os materialistas tendem a usar mais os recursos mundiais e a se envolver em menos comportamentos ambientalmente amigáveis.319 Segundo, em nível individual, as pessoas materialistas são menos satisfeitas e agradecidas por suas vidas, têm menos propósitos, se sentem menos competentes de modo geral, são mais antissociais e estabelecem vínculos mais fracos com os outros. Na verdade, quando se trata de relacionamentos, aqueles que têm objetivos materialistas não apenas classi�cam suas interações sociais de forma mais negativa, como as pessoas em geral também classi�cam suas relações com os materialistas como menos satisfatórias.320 Nem todos os que são prósperos estão obcecados por fama, poder e riquezas; nem todos estão infectados pelo chamado vírus a�uenza.321 Mas é um risco estarmos cercados por facilidades e luxos, pois isso ameaça nossa felicidade. Como sustentam há muito tempo os �lósofos, as personalidades religiosas e os psicólogos humanistas, a busca por dinheiro e reputação afasta radicalmente nossas energias e nosso entusiasmo dos vínculos sociais e das experiências de crescimento mais profundas e signi�cativas, nos impedindo de atingir integralmente nossos potenciais. Como gastamos mais tempo ganhando dinheiro, os “custos” das oportunidades de ler poesia, brincar com nosso �lho ou dar um passeio com um amigo tornam-se tão elevados que passamos a achar “irracional” fazer tais coisas.322 Mais uma razão para se inteirar do que as pesquisas têm a dizer sobre a forma de evitar os excessos do consumo e do materialismo e de gastar dinheiro de uma maneira que nos traga felicidade. COMO O DINHEIRO PODE TRAZER FELICIDADE O sonho americano, enraizado na Declaração da Independência dos Estados Unidos, mas expresso pela primeira vez em 1931, sempre incluiu o desejo de prosperidade e abundância material.323 Com o tempo, no entanto, acredito que o sonho mudou de formato, deixando de almejar simplesmente a riqueza – e apenas isso –, para apreciar riqueza e felicidade. Como dizia um famoso anúncio da Lexus, “Quem disse que o dinheiro não pode comprar a felicidade não está gastando onde deve”.324 A ciência psicológica sugere seis princípios sob os quais viver, caso queiramos desfrutar ao máximo de nosso dinheiro. Quatro são descritos a seguir e outros dois (referentes a gastar dinheiro em experiências e a resguardar tais experiências) no capítulo anterior.325 GASTE DINHEIRO EM ATIVIDADES QUE SATISFAÇAM SUAS NECESSIDADES Se o dinheiro não estiver nos fazendo felizes, talvez o estejamos gastando para nos equiparar aos vizinhos, con�rmar nossa riqueza ou demonstrar aparência, poder e status. O problema, então, não está no dinheiro, mas na forma como o usamos. Talvez a forma mais direta e mais con�ável de maximizar a felicidade e a satisfação que podemos extrair do dinheiro é através da busca por atividades que satisfaçam nossas necessidades – por exemplo, aplicando nosso capital em nosso próprio aprimoramento como pessoas, no amadurecimento, e no fortalecimento dos vínculos interpessoais. Em outras palavras, as compras ou despesas que produzem o maior benefício emocional são as que envolvem objetivos que satisfaçam pelo menos uma das três necessidades humanas básicas – (1) competência (ou seja, sentir-se capaz ou hábil), (2) conectividade (ou seja, pertencer e se sentir conectado aos outros) e (3) autonomia (ou seja, ter a sensação de domínio e de controle sobre a própria vida).326 Os pesquisadores têm demonstrado que tais atividades trazem a felicidade e, igualmente importante, não estimulam o desejo cada vez maior por mais e mais coisas, à semelhança de um vício.327 Finalmente, gastar dinheiro em objetivos que satisfaçam as necessidades, como dominar um esporte novo, festejar a conquista de um amigo ou levar o sobrinho para fazer um safári, pode desencadear “espirais ascendentes” – isto é, �uxos de bom humor, pensamentos otimistas e gestos amáveis que ganham impulso, se propagam, se espalham e se reforçam mutuamente, conforme vão surgindo.328 Eu compro cordas de bela sonoridade para o meu violino, o que me deleita, faz minha �lha sorrir e me dar um abraço, o que, por sua vez, me provoca um sentimento de competência e gratidão, o que me estimula a preparar a bebida de café favorita do meu marido, reforçando o nosso casamento. Às vezes, é incrível como gastar dinheiro em um único item – neste caso, um que sustenta uma grati�cante atividade de lazer – pode precipitar tantas repercussões felizes. Quais seriam os tipos de atividades pelos quais deveríamos pagar para satisfazer nossas necessidades de competência, conectividade e autonomia? Isso depende de cada pessoa. Para algumas, talvez seja a aquisição do software que melhorará o seu francês, de uma passagem aérea para visitar um velho amigo ou de um presente surpresa para um professor. Para outras, talvez seja algo completamente diferente, dependendo de suas circunstâncias, preferências e habilidades. Além disso, muitos tipos de atividades não apenas trazem prazer naquele momento especí�co, como também satisfazem várias necessidades simultaneamente. Viajar para um lugar distante a �m de ajudar as vítimas de um desastre natural (ou para reparar fendas de palato), por exemplo, é uma contribuição para uma comunidade, uma oportunidade de aprender princípios básicos de enfermagem ou técnicas de engenharia e uma chance de forjar novos vínculos permanentes. Na verdade, gastar dinheiro em atividades que satisfaçam as necessidades pode trazer mais “retorno sobre o investimento” do que qualquer outra estratégia. GASTE DINHEIRO COM OS OUTROS, E NÃO CONSIGO MESMO Ter dinheiro signi�ca ser capaz de contribuir substancialmente para nossas comunidades e, até mesmo, de mudar o mundo. Seja através da �lantropia (por exemplo, fazendo doações para o distrito escolar local ou ajudando a imunizar nações inteiras) ou do compartilhamento de nossa riqueza com a família e os amigos, nosso dinheiro pode in�uenciar profundamente nossa felicidade e a dos outros. Talvez isso possa surpreender algumas pessoas, mas quanto mais rico o indivíduo, menor é a porcentagem de sua renda que se destina a ações bene�centes, sendo que famílias norte-americanas com renda superior a US$ 300 mil por ano doam meros 4% dos seus rendimentos, e os bilionários doam ainda menos.329 Em uma série de estudos inovadores, a professora Elizabeth Dunn e seus colaboradores da Universidade de British Columbia se determinaram a veri�car a noção de que o dinheiro pode comprar a felicidade, mas apenas se for gasto pró-socialmente – ou seja, quando investimos nos outros, e não em nós mesmos.330 Primeiro, eles pesquisaram uma amostra nacionalmente representativa de mais de seiscentos residentes nos Estados Unidos, a respeito de seus hábitos de consumo, e descobriram que quanto mais eles gastavam seu dinheiro em presentes para os outros e em doações bene�centes, mais felizes �cavam. Claramente, o montante gasto com presentes para si mesmos, contas e despesas não se relacionava com a sua própria felicidade. Em seguida, os pesquisadores �zeram perguntas idênticas a funcionários, antes e depois de terem recebido, inesperadamente, uma considerável quantia – especi�camente, um bônus empresarial, com valor médio de US$ 5 mil. Surpreendentemente, o grau com que o bônus impulsionou a felicidade dos funcionários não dependeu nem de seu tamanho, nem se ele foi gasto na compra de algo para si mesmos, em suas contas ou despesas, ou em pagamentos de hipoteca ou aluguel. O que realmente importou para a felicidade foi o percentual do bônus aplicado em instituiçõesbene�centes ou em compras para os outros. Ambos os estudos são correlacionais, o que signi�ca que não se pode concluir peremptoriamente que foram os gastos pró-sociais que propiciaram maior felicidade do que o inverso. Para con�rmar a orientação do nexo causal, os mesmos pesquisadores �zeram um experimento em que abordaram aleatoriamente pessoas que estavam andando no campus da Universidade de British Columbia, entregaram um envelope contendo US$ 5,00 ou US$ 20,00 e pediram à metade dos participantes para gastar o dinheiro em uma despesa, uma conta ou um presente para si mesmos, solicitando à outra metade, porém, que investisse o dinheiro em uma doação ou em um presente para alguém. As instruções e os envelopes foram entregues pela manhã, e as despesas tinham de ser executadas até as cinco horas da tarde. Quando os participantes foram contatados à noite, aqueles que haviam gasto o dinheiro com outras pessoas (fosse US$ 5,00 ou US$ 20,00) estavam signi�cativamente mais felizes do que aqueles que haviam usado o dinheiro consigo mesmos. Na verdade, o simples fato de pensar em gastar dinheiro com os outros já deixa as pessoas mais felizes do que pensar em gastá-lo consigo mesmas, e este efeito tem sido comprovado não apenas entre os norte-americanos, mas também entre os africanos da costa oriental.331 A descoberta de que investir nossa riqueza em outras pessoas nos deixa felizes parece su�cientemente óbvia, prescindindo de explicações.332 Quando oferecemos algo aos outros, nos sentimos não apenas mais positivos sobre nós mesmos (isto é, somos pessoas altruístas e compassivas), mas também sobre os destinatários (eles são merecedores de nossa bondade e respeito). Nós nos sentimos menos angustiados com a pobreza e o sofrimento no mundo e em nossas vizinhanças, e passamos a apreciar mais nossa própria sorte. Conseguimos nos desconectar de nossos pequenos problemas e ruminações. Compartilhar com os outros – naturalmente, quando isso não é feito de forma anônima – também estimula interações sociais positivas, gera novas amizades e relacionamentos, e fortalece os antigos. Devido a todas estas razões, como os experimentos de meu próprio laboratório demonstraram, promover a generosidade e a bondade é um dos mais poderosos meios para reforçar e sustentar o bem-estar.333 Até mesmo aqueles com poucos recursos são capazes de contribuir com uma pequena parcela de seus rendimentos e oferecê-la aos outros, mas aqueles que têm recursos em abundância, como Jack Barnes, são verdadeiramente abençoados por poderem usar o seu dinheiro para mudar vidas. Nosso dinheiro pode �nanciar hospitais ou escolas, prover alimentos para aqueles que passam fome, oferecer cuidados de saúde para os enfermos e ensinar os analfabetos. Em menor escala, levar um colega para almoçar, uma criança ao circo ou um namorado ao jogo do Lakers pode trazer ainda mais alegria para quem presenteia do que para o receptor. GASTE DINHEIRO PARA SE DEDICAR A VOCÊ Vivemos uma época em que se costuma dizer que o tempo é um recurso mais importante do que o dinheiro. Isto não foi sempre assim, é claro, e ainda não é uma realidade para muitas pessoas e culturas. Mas, se você tiver sorte, terá dinheiro su�ciente para proporcionar a si mesmo bastante tempo de lazer. A ironia é que, nos Estados Unidos, quanto mais ricas as pessoas, maior o número de horas que dedicam ao trabalho (este padrão parece ser invertido na Europa).334 Se gastarmos nosso dinheiro para ter mais horas “livres” por dia – reduzindo, por exemplo, nossa jornada de trabalho (porque já produzimos o su�ciente) ou pagando outras pessoas para executar tarefas que demandam tempo (por exemplo, consertar o encanamento, �car na �la da agência de correios, preencher documentos maçantes, ligar para companhias aéreas) –, podemos passar nosso tempo desfrutando daquelas coisas da vida que, segundo sugerem as evidências empíricas e teóricas, nos fazem felizes. Essencialmente, essas atividades incluem os tipos de buscas que satisfazem as necessidades, mencionados anteriormente – por exemplo, se conectar com amigos; cultivar relacionamentos íntimos; socializar-se em festas; consumir arte, música e literatura; aprender novos idiomas e habilidades; aprimorar talentos e apresentar-se como voluntário no hospital, igreja ou abrigo de animais de nosso bairro. Signi�cativamente, estas são precisamente as atividades que pessoas em risco de morte, como alpinistas apanhados por uma nevasca no monte Everest,335 gostariam de ter praticado por mais tempo em suas vidas cotidianas. É aí que está o problema. A principal questão é a forma como utilizamos o tempo extra que adquirimos. Se, em vez de fazer algo signi�cativo, interessante, frutífero ou que promova o crescimento, desperdiçamos nossas horas assistindo despreocupadamente a programas de televisão, �cando obcecados com nossa aparência ou nossas facilidades, ou nos mantendo à deriva, pulando a esmo de um empreendimento para outro, então, certamente, nossas riquezas não nos trarão a felicidade. GASTE DINHEIRO AGORA, MAS ESPERE PARA DESFRUTAR Uma fonte de prazer frequentemente ignorada quando se compra algo novo – seja um pacote de férias ou um telescópio – é a expectativa da espera. Infelizmente, muitos de nós equiparamos a expectativa com apreensão e a espera com tédio ou impaciência. Gostaria de tentar convencê-los do contrário. Considere o seguinte exercício hipotético, que tomei emprestado de um de meus estudos favoritos. Você acabou de descobrir que terá a oportunidade de beijar sua estrela de cinema favorita – digamos, um ator atraente e genial, ou a atriz por quem você tem uma enorme queda (isso é hipotético, portanto assuma que você está solteiro e disponível). Criteriosamente, o beijo será realizado dentro de três horas ou de três dias. O que você prefere? Se você for como a maioria das pessoas, optará por esperar três dias.336 Aparentemente, o prazer da expectativa é quase tão valorizado quanto a experiência que está sendo aguardada. Embora os pesquisadores ainda tenham de realizar este estudo, no qual os índices de felicidade das pessoas sejam mensurados antes, durante e depois de beijar a sua celebridade favorita, eles conseguiram empreender investigações similares com outros tipos de experiências positivas. Um mês antes de embarcar em uma turnê guiada de doze dias para várias cidades europeias, por exemplo, os ansiosos viajantes a�rmavam esperar desfrutar muito mais de sua viagem do que efetivamente desfrutaram naqueles doze dias. Resultados idênticos foram encontrados quando se investigaram as expectativas de estudantes três dias antes do feriado de Ação de Graças, e de habitantes do meio-oeste três semanas antes de uma viagem de bicicleta por toda a Califórnia.337 De fato, pesquisadores que conduziram um estudo com mil turistas holandeses concluíram que a maior parcela de felicidade extraída das férias é, de longe, decorrente do período de expectativa, sugerindo que não apenas devemos prolongar esse período, como procurar tirar várias férias de curta duração, em vez de férias extensas.338 O período de tempo entre o dia em que compramos algo (uma futura viagem, um extravagante jantar italiano ou um champanhe caro) e o dia em que, de fato, o desfrutamos parece ter qualidades especiais, dando-nos a oportunidade de compartilhar nossas expectativas e planos com os amigos, saborear o objeto ou experiência futuros (por exemplo, fantasiar sobre pedalar nos campos da Toscana), nos programar e nos preparar para isso (por exemplo, um dia de jejum antes de uma refeição cinco estrelas). No meu quadragésimo aniversário, ganhei uma viagem surpresa do meu marido. Ele me disse vagamente o que colocar na bagagem, dirigiu até o aeroporto e reteve o meu cartão de embarque, para que eu não conseguisse adivinhar o destino. Mesmo dentro do avião, onde �nalmente �quei sabendo que estávamos indo para a área da Baía de São Francisco, eu não poderia imaginar todas as surpresas que a viagem prometia (e que, admiravelmente, cumpriria). Meus quarenta anos terminaramsendo, de longe, o melhor aniversário que já tive, e �zemos uma refeição tão impressionante que nos comprometemos a batizar o nosso (improvável) futuro �lho com o nome do chef.339 Mas a viagem surpresa sofreu com uma inesperada limitação – eu não consegui antecipá-la e saboreá- la com antecedência. A recomendação óbvia de todas estas pesquisas é que devemos pagar por nosso objeto desejado dias ou semanas antes de tê-lo em mãos ou de experienciá-lo. Segundo esta lógica, sempre teremos algo maravilhoso a nos esperar no futuro. É claro que, desde o advento do crédito rápido e fácil, muitos indivíduos fazem exatamente o inverso, seguindo respeitosamente os princípios da economia – em vez de pagar agora e desfrutar mais tarde, desfruta-se a compra agora e paga-se depois. Esta abordagem oposta favorece as compras por impulso e, pelas minhas contas, estimula pelo menos quatro dos sete pecados capitais (gula, avareza, preguiça e luxúria).340 Mesmo que possamos nos dar ao luxo de fazer compras por impulso tanto quanto desejarmos, tais compras com “grati�cação instantânea” não são as que nos deixam satisfeitos de forma duradoura.341 Em vez de fazer isso, adie as férias, armazene o Borgonha e agende a entrega de seu utensílio para o próximo mês. Você será mais feliz assim. NÃO DEIXE QUE O SUCESSO AMPLIFIQUE OS SEUS FRACASSSOS Em seu livro de memórias, Goldie Hawn, atriz vencedora do Oscar, relata que, no início, acreditava que fazer sucesso em Hollywood a faria feliz – mas isso não aconteceu, não em um primeiro momento. Acho que foi necessário me tornar bem-sucedida para entender (...) que o sucesso só ressalta quem você é. (...) As pessoas que são desagradáveis tornam-se mais desagradáveis. As pessoas que são felizes tornam-se mais felizes. As pessoas que são mesquinhas acumulam dinheiro e vivem o resto de suas vidas com medo de perdê-lo. As pessoas que são generosas usam seus dons para ajudar as pessoas e tentam fazer do mundo um lugar melhor.342 Todos nós temos amigos ou parceiros que realçam ou ampli�cam nossas personalidades, preferências e hábitos. Ficamos mais liberais quando estamos com eles, ou nos tornamos mais machistas, mais intelectuais ou mais extrovertidos, mais maliciosos ou mais rudes. Se chegar ao auge do sucesso ajuda a ressaltar nossas maiores qualidades e nossos piores defeitos, então a hora de se preparar para esse momento é agora. Identi�que a fraqueza que você tema ser enfatizada e desenvolva um programa de autoaperfeiçoamento (com base nos conselhos de sua avó, em um vídeo de autoajuda ou, simplesmente, no bom senso), com o intuito de dominá-la. Eis aqui alguns exemplos. Você tem a tendência de ser ríspido com as pessoas que emprega ou supervisiona – com seu auxiliar de escritório, talvez, ou com seu jardineiro ou sua babá? Em caso a�rmativo, alcançar o sucesso poderá levá-lo a agredir aqueles que ocupam posições hierárquicas inferiores. Ao longo das próximas quatro semanas, quando estiver insatisfeito com o trabalho de alguém e lhe vier a vontade de ser brusco ou inclemente, determine-se a imaginar que aquela pessoa é o seu terapeuta, um clérigo ou um chefe, e trate-a adequadamente. Outro exemplo desse fenômeno é que, talvez, você tenha uma fraqueza por compras por impulso na Internet – pela aquisição de utensílios, brinquedos para seus �lhos e outras coisas das quais você, em verdade, não precisa. Se for o caso, é provável que esta característica seja exacerbada com o aumento da riqueza. A partir de agora, determine-se a esperar 48 horas sempre que estiver ávido por fazer compras, e reavalie esse desejo mais tarde. Ou melhor, no início de cada mês, faça uma lista dos itens de que (1) você realmente precisa e que (2) você realmente deseja, e imponha-se um determinado limite de gastos, estipulando que a segunda lista não poderá ser tocada até que a primeira se esgote. Por outro lado, você costuma se esquecer de se mostrar agradecido, e teme que o sucesso possa tornar ainda mais difícil a demonstração de gratidão? Felizmente, existem vários exercícios para estimular a prática da gratidão, empiricamente testados. Determine-se a escrever uma carta para si mesmo a cada semana, contemplando um aspecto diferente de sua sorte. A MENTE PREPARADA Quando conquistamos – pelo menos, no papel – grande parte daquilo que sempre quisemos conquistar, a vida pode se tornar maçante e, até mesmo, vazia. Resta muito pouco a desejar. Muitos indivíduos prósperos não entendem por que não são verdadeiramente felizes e, assim, podem ser tentados a concluir que não é possível adquirir a felicidade duradoura com sucesso, dinheiro ou bens materiais. Como deve ter �cado óbvio a partir da mensagem principal deste capítulo, acredito que este mito da felicidade está equivocado. Não seja um escravo dos exercícios hedonistas. As práticas que descrevo aqui ajudarão a evitar seu sofrimento diante do eventual declínio da sorte. E, se você for particularmente tenaz ou particularmente sortudo, seus esforços renderão consideráveis recompensas hedonistas. O segredo para adquirir a felicidade não está em nosso grau de sucesso, mas no que fazemos com ele; não está no elevado nível de renda que possuímos, mas em como alocamos estes recursos. Parte III OLHANDO PARA TRÁS Chegar ao auge da idade adulta, da meia-idade e da velhice signi�ca passar por uma série de momentos críticos decisivos, que envolvem evocar nosso passado, atravessar o presente e administrar adversidades das quais nenhuma pessoa estará livre, por mais bem-aventurada que seja. Este é um momento da vida em que nosso potencial não realizado pode �car ainda mais evidente; em que podemos nos perguntar se, simplesmente, desperdiçamos alguns de nossos anos; em que ansiamos ser jovens de novo; em que colocamos na balança nossos arrependimentos; e em que nos confrontamos com tudo aquilo que poderíamos ter feito. Além disso, estas passagens signi�cativas da vida, ainda que esperadas, provavelmente instigarão novos momentos críticos, caso acreditemos que não conseguiremos mais ser felizes depois de receber um diagnóstico desfavorável, depois de perceber que o tempo para realizar muitos dos nossos sonhos se esgotou, ou quando �carmos “velhos e cinzas”. Este é o momento de reconsiderar estas crenças alicerçadas pelo medo e descobrir estratégias mais saudáveis para responder às passagens da vida e suas revelações. A CAPÍTULO 8 Não poderei ser feliz se... o resultado do exame for positivo lgumas re�exões signi�cam uma súbita percepção ou uma epifania. Outras envolvem acontecimentos que fogem ao nosso controle, e que nos derrubam em vez de nos estimular. Receber um terrível diagnóstico ou notícias ruins sobre um problema de saúde representa um acontecimento desse tipo. Em seu livro de memórias Resilience [Resiliência], a falecida Elizabeth Edwards descreve o momento em que descobriu que seu câncer de mama havia reincidido – quando já não podia continuar acreditando que morreria de alguma outra causa. Ela lembrava... (...) o que eu estava vestindo, o clima, as palavras que o médico usou, onde John e Cate [o marido e a �lha] estavam sentados. Desde aquele primeiro e pequenino quarto de hospital, (...) onde ouvimos pela primeira vez a palavra “câncer”, dita em voz alta, até aquele quarto no subsolo, com uma cama e uma pia, onde John e eu �camos horas esperando os resultados da cintilogra�a óssea e da tomogra�a computadorizada, até o último quarto, (...) onde �camos sabendo que o câncer não estava mais controlado e que havia se espalhado para novos lugares, os silenciosos momentos de mudança de vida vão adquirindo uma dimensão impressionante. (...) O câncer estava de volta. Bem, suponho que os médicos prefeririam dizer que ele nunca havia desparecido de fato. Naquele momento, quando tive a certeza de que conviveria com aquele câncer todos os dias, até o dia em que ele �nalmente levasse embora a minha vida, todas as razões para viver e todas as razões para morrer, a maneira como eu gostaria de viver, tudo isso passou em minha mente, (...)até eu escolher um parceiro dentre tantos. Viver. Morrer. Lutar. Me aconchegar. Procurar um abraço. Dar um abraço. Chorar. Chorar. Chorar.343 Quando, relutantemente, levamos em consideração essas mudanças de circunstâncias que se abatem sobre nós – ou quando nossos piores temores se concretizam –, não conseguimos nos imaginar superando o estágio do choro e do desespero. Não conseguimos nos imaginar sentindo a felicidade novamente. Neste capítulo, espero convencê-lo de que suas reações e preocupações a respeito desse cenário mais pessimista são determinadas por um dos mitos da felicidade. Diante de exames com resultados positivos, há muito o que fazer para aumentar as chances de que o período de convivência com a doença não seja todo ele sofrido e despropositado – na verdade, este pode ser um momento de crescimento e de apreensão de signi�cado –, e há centenas de estudos que fundamentam essa possibilidade. VOCÊ VÊ AQUILO QUE CONCORDA EM VER Quando recebemos um diagnóstico fatídico, somos compelidos a nos concentrar em uma determinada informação ou problema e a relembrar detalhes ou sintomas especí�cos, inclusive quando não queremos fazê-lo. No entanto, mesmo nesta situação, quando as coisas ruins desabam sobre nós, veri�ca-se que temos muito mais domínio sobre nossas realidades do que acreditamos. Edwards entendeu que a sua doença acabaria por tirar-lhe a vida. A hora em que isso aconteceria não estava sob seu controle, mas o que estava sob seu controle era o que a doença a privava de fazer, aqui e agora. Ela escreveu: Parte da resistência à doença diz respeito, simplesmente, a não deixar que o medo do amanhã controle a qualidade do dia de hoje. (...) Preservar a energia diante do medo pode parecer uma incapacidade de aceitação, mas o medo não muda o prognóstico. Ele só muda a forma como eu me sentiria entre hoje e o momento em que o inevitável acontecer.344 A apreciação desta ideia – de que temos o poder de decidir o que a nossa experiência é e o que não é, de que temos o poder de resolver o que a nossa vida foi no passado e como será no futuro – tem o potencial para transformar nossas vidas.345 Tenha em mente que, em todos os minutos do seu dia, você está escolhendo prestar atenção em algumas coisas e optando por ignorar, negligenciar, reprimir ou abandonar a maioria das outras. Aquilo que você escolhe focalizar torna-se parte de sua vida e o resto é desprezado. Você pode ter uma doença crônica, por exemplo, e passar a maior parte dos seus dias ruminando sobre como ela arruinou a sua vida, ou pode passar os seus dias se concentrando em sua rotina de exercícios, ou conhecendo melhor suas sobrinhas, ou se conectando com seu lado espiritual. Podemos mudar nossas vidas alterando, simplesmente, nossas atitudes mentais.346 Esta forma de abordar a doença está traduzida em uma das minhas frases prediletas, retirada do livro Principles of Psychology [Princípios de psicologia], publicado em 1890. “A minha experiência é aquilo em que eu decido prestar atenção”, escreveu o �lósofo William James. “Apenas aqueles itens que eu noto formam minha mente”.347 Esta ideia – que é realmente extraordinária quando re�etimos sobre ela – sugere que a nossa experiência de vida é aquela que escolhemos focalizar. Se não estamos vendo, ouvindo ou sentindo algo, é como se isso sequer existisse – pelo menos, não para nós. Por que será que, algumas vezes, nossas perspectivas de saúde parecem sombrias e, em outros momentos, repletas de esperança? Por que, às vezes, o tempo voa e, em outras, �ca parado? Porque grande parte da forma como experimentamos o mundo é determinada por aquilo em que nos concentramos. Dentre a in�nidade de estímulos existentes em nossos ambientes – nossos pensamentos, memórias e expectativas atuais; rostos, necessidades e conversas de pessoas que fazem parte de nossas vidas; todas as paisagens e sons que nos rodeiam, e todos os objetos que estão ao nosso alcance, naturais e criados pelo homem –, nós, �nalmente, escolhemos (ou nos sentimos compelidos a escolher) alguns, ignorando todos os outros. Na realidade, este processo de ajuste de foco é adaptativo, sendo responsável por nossa sobrevivência. Os seres humanos não conseguiriam prestar atenção a tudo que está disponível aos seus sentidos; se o �zessem, �cariam sobrecarregados, saturados, e se tornariam totalmente disfuncionais (por exemplo, a esquizofrenia, que leva à completa debilitação quando não tratada, caracteriza- se, em parte, pela incapacidade do cérebro de �ltrar as informações irrelevantes; os esquizofrênicos são bombardeados por estímulos demais, dos quais têm muita di�culdade em extrair um sentido).348 Na verdade, o próprio termo “prestar atenção” implica um custo – um interesse hedonista, talvez –, o de que devemos nos privar de algo. Quando prestamos atenção a uma coisa, necessariamente não podemos prestar atenção a outras. O custo reside tanto na energia dispendida quanto nos objetos que mereceriam a nossa atenção, mas aos quais temos, necessariamente, de renunciar. A maioria de nós conhece pelo menos uma pessoa que tende a sair do ar de vez em quando, e quando isso acontece, temos a nítida impressão de que ela está se refugiando em seu pequeno mundo particular. A metáfora “pequeno mundo particular” é, de fato, mais precisa do que imaginamos. Tente se lembrar da última vez que interagiu com um grupo de pessoas – digamos, no almoço com seus colegas ou conversando com outros pais, enquanto esperava para pegar seus �lhos. Você se surpreenderia ao descobrir que os vários integrantes do seu grupo estavam concentrados em coisas completamente diferentes? Um deles talvez estivesse tão consternado diante de notícias recentes e desoladoras que só conseguia pensar nisso. Outro talvez tenha �cado desconcertado, porque a pessoa em quem estava interessado acabara de entrar no recinto. Um terceiro pode ter tido di�culdade em focalizar qualquer outra coisa, a não ser a dor lancinante em seu ombro. E outra pessoa talvez tenha sido assaltada por pensamentos intrusivos sobre a reunião que teria no dia seguinte. Em suma, não seria errado dizer que, embora os vários indivíduos do grupo estivessem, basicamente, na mesma situação, naquele momento cada um deles estava vivendo em um mundo social subjetivo, isolado dos demais. Isso torna bastante espinhosa a questão do que é “a realidade”. A sua realidade é diferente da minha, e a diferença provém daquilo que cada um de nós escolhe focalizar no tempo do qual dispomos. As memórias que moldam a história da sua vida – e da minha – estão sujeitas às mesmas limitações; eu posso escolher (talvez, inconscientemente) me lembrar de determinados fatos de muitos anos atrás (ou, até mesmo, de ontem), e você pode escolher se lembrar de algo muito diferente. Como resultado, algumas vezes dois indivíduos compartilham um conjunto de experiências (por exemplo, terem crescido juntos, ou tomado conta de uma criança doente juntos), e, mesmo assim, ao olhar para trás e para este passado comum, terem lembranças e percepções muito divergentes, como se nunca houvessem compartilhado o mesmo conjunto de experiências. Um dos meus estudos favoritos fornece suporte empírico para essa ideia de “realidades diferentes”.349 Ambos os membros de um casal foram convidados a enumerar as atividades e acontecimentos de suas vidas em determinada semana. Por exemplo, na semana passada, você e o seu cônjuge brigaram? Viram televisão juntos? Tiveram relações sexuais? Participaram de algum evento esportivo? Enfrentaram algum problema com os �lhos? A descoberta surpreendente do estudo foi que maridos e esposas não conseguiram chegar a nenhum acordo entre si. De fato, se um estranho, em vez de seu marido, tivesse preenchido o questionário e, simplesmente, adivinhado os acontecimentos que ocorreram em sua vida familiar na semana passada, as respostas dele teriam combinado com as suas na mesma proporção que as de seu marido. Em suma, estes resultados sugerem que o seu cônjuge está vivenciando um mundo totalmente diferente do seu. As razõesque explicam parte desses nossos “mundos” únicos estão relacionadas com os impactos provocados pelos desígnios do destino; os pesquisadores, porém, �zeram várias descobertas sobre como podemos seguir ajustando, consciente e deliberadamente, tais mundos. Talvez não haja nenhuma outra situação em que esses ensinamentos sejam tão importantes quanto diante de uma crise de saúde. Neste capítulo, apresento algumas maneiras saudáveis de reagir quando os resultados dos exames forem positivos, ou melhor, hábitos que podem ser desenvolvidos muito tempo antes de tais resultados surgirem. FOCO É IMPORTANTE Em uma palavra, a ciência psicológica é bastante persuasiva quanto à noção de que controlamos aquilo que vemos, focalizamos ou ignoramos. Mas como teremos sucesso na tarefa quase sempre assustadora de decidir perceber o mundo de determinada maneira, especialmente quando, muitas vezes, os acontecimentos daquele mundo – más notícias, diagnósticos angustiantes, transtornos e agressões diárias – interferem em nossa atenção de modo tão incisivo?350 Responderei começando com um exemplo reconhecidamente extremo, que tomei emprestado do eminente economista e escritor Robert Frank: Um sobrevivente do Holocausto me disse, certa vez, que sua passagem pelos campos ocorreu em dois espaços psicológicos distintos. Em um deles, ele estava absolutamente consciente do indizível horror de sua situação. Mas, no outro, a vida parecia estranhamente normal. Neste segundo espaço, todos os dias estavam repletos de desa�os, e os dias em que ele lidava relativamente bem com esses desa�os se pareciam muito com os dias felizes do passado. Para sobreviver, explicou ele, foi fundamental passar o maior tempo possível no segundo espaço, e o menor tempo possível no primeiro.351 O modo como este indivíduo conseguiu fazer o que fez envolveu, nas palavras de William James, “tomar posse pela mente” – ou atenção focada. Todos nós somos capazes de tal proeza, embora muito esforço e comprometimento se revelem necessários. Um motivo pelo qual pode ser desgastante resistir às deprimentes ruminações pessimistas em torno de nossa doença (ou focalizar os pontos positivos) é que tal esforço pode esgotar nossa energia vital e nossos recursos mentais. Assim, alguns pesquisadores argumentam que devemos dar, regularmente, um descanso à nossa atenção.352 Podemos fazer isso dormindo (embora só possamos dormir umas tantas horas e nem tanto quanto gostaríamos) ou con�ando mais em nossos comportamentos e pensamentos automáticos ou habituais, ainda que isso também possa ser arriscado, caso tenhamos muitos hábitos ruins. A paz da natureza. Uma sugestão interessante sobre como podemos “descansar” nossa atenção quando nos sentirmos mentalmente sobrecarregados – e reforçar, assim, nossa capacidade de manter o foco em coisas que nos fazem felizes (ou pelo menos, menos infelizes) – é passar mais tempo em contato com a natureza ou próximo a ela. Os pesquisadores descobriram que, quando experimentamos ambientes naturais – sentados sob uma árvore de carvalho, observando um pôr do sol ou, até mesmo, folheando fotos da natureza –, nossa atenção se rende aos nossos sentidos (sentir o cheiro do oceano, identi�car as cores de um arco-íris), o que exige pouco ou nenhum esforço mental e propicia a re�exão.353 Por outro lado, quando experimentamos ambientes antinaturais – sentados em um banco de metal, observando um avião ou mandando mensagens de texto em nossos telefones –, nossa atenção é arrebatada de forma dramática pela força (uma sirene de polícia, um outdoor da Toyota), obrigando-nos a reunir esforços mentais para direcionar nossa atenção para outro lugar – por exemplo, tentar ler, apesar das buzinas dos carros, ou ignorar as imagens nos anúncios. Não é surpreendente, então, que ambientes antinaturais (tipicamente urbanos), com todas as suas poderosas e onipresentes distrações, não sejam muito calmos ou relaxantes. Assim, enquanto os ambientes urbanos ou arti�ciais implicam o esgotamento das mentes, a maioria das pessoas considera os ambientes naturais restauradores; a natureza aumenta a felicidade e alivia o estresse.354 Mas a natureza também é restauradora no que diz respeito ao nosso poder de atenção.355 Passar algum tempo remando em um lago, fazer um piquenique sob a copa de árvores de bétula, capinar um jardim ou deitar-se para observar as nuvens reconstituirá nossos recursos mentais para enfrentar os problemas de nossas vidas. Uma série de estudos demonstrou, por exemplo, que as pessoas que passaram quinze minutos passeando em um ambiente natural não apenas sentiram mais prazer, mas também foram capazes de resolver mais facilmente um problema menor – ou uma “ponta solta” – em suas vidas, em comparação com pessoas que passearam em um ambiente urbano ou que assistiram a vídeos de paisagens da natureza.356 A paz da meditação. Outra maneira de desenvolver a capacidade de redirecionar nossa atenção – digamos, dos pensamentos negativos intrusivos sobre nossa saúde para pensamentos agradáveis sobre uma iminente viagem – é treinando nossas mentes na prática das estratégias de meditação. Há muitos estilos diferentes de meditação. Eles podem estar enraizados em diversas tradições culturais e se apoiarem em técnicas diferentes, mas, em sua essência, a maioria das técnicas tem muito em comum. A meditação envolve relaxar nossos corpos, exercitar nossa respiração e ter consciência do aqui e agora. De modo geral, é praticada em um lugar especial, reservado para tal propósito, e longe das preocupações cotidianas. Um de seus objetivos centrais é conseguir uma tranquilidade ou silêncio interiores, livres dos pensamentos aparentemente automáticos que se insinuam constantemente em nossas mentes. Apesar da diversidade de técnicas de meditação praticadas em todo o mundo e ao longo da história, três métodos sobressaem. O primeiro, usado na meditação hindu, envolve a repetição de uma palavra ou frase (mantra aka ou incantação). A segunda técnica (na meditação budista) envolve focalizar nossa respiração, que, não por acaso, está sempre conosco, ou atividades repetitivas, como varrer o chão ou dobrar tecidos (na meditação Zen). Finalmente, uma técnica de meditação bastante usada, e um tanto difícil de descrever, requer que deixemos nossos pensamentos transcorrerem livremente em nossas mentes, sem fazer qualquer interferência. Isto é, nós simplesmente observamos nossos pensamentos de forma passiva e os deixamos �uir, sem criticá-los nem tentar entendê-los ou afastá-los. Em cada uma destas técnicas, quando fraquejamos (por exemplo, quando deixamos que um pensamento intrusivo nos incomode, ou permitimos que nossa atenção se desvie de nossa respiração), somos ensinados a monitorar e a reconhecer a falha, e a recuperar o foco. Assim, quanto mais praticarmos a meditação, mais conseguiremos perceber quando nossa mente estiver divagando, mais conseguiremos nos livrar de um objeto indesejado (por exemplo, o pensamento “Eu não consigo dar conta disso”) e mais conseguiremos redirecionar nossa atenção para um objeto desejado (o pensamento “Eu tenho forças”). Por que as pessoas meditam? Muitas fazem isso pelo desejo de encontrar um refúgio dos aborrecimentos, tensões e perturbações da vida cotidiana, de alcançar uma sensação de paz e tranquilidade, e de recuperar a energia e a concentração. Chegar a esse estágio é muito difícil, exigindo grandes esforços, prática, disciplina, foco, destreza e, até mesmo, luta interior. No entanto, os benefícios são enormes. Em experimentos nos quais as pessoas foram incentivadas a praticar a meditação (versus uma atividade neutra), descobriu-se que a meditação intensi�cava a empatia (conforme demonstrado pelo “despertar” dos circuitos cerebrais ligados à empatia, em exames de ressonância magnética do cérebro durante estados meditativos), promovia a emergência de emoções positivas, aliviava o estresse e os sintomas de saúde, fortalecia a função imunológica e aumentava, até mesmo, a pontuação nos testes de inteligência.357 Mais interessantes ainda foramos resultados do efeito salutar da meditação sobre a atenção.358 Como seria de se esperar, quando dedicamos tempo, esforço e persistência à prática da meditação, nossa capacidade de nos concentrar, direcionar e redirecionar a atenção melhora signi�cativamente. Em suma, o poder da atenção. Aquilo que focamos, aquilo em que prestamos atenção, aquilo que vemos seletivamente em nossos mundos é decisivo. Se optarmos por prestar atenção no fato de que ainda somos capazes de subir escadas, e se decidirmos ignorar o familiar que sempre faz com que nos sintamos culpados, estaremos, na verdade, diminuindo, solitária e poderosamente, a in�uência do ambiente – dos impactos do mundo – em nosso bem-estar. Quando estivermos enfrentando uma doença ou qualquer perspectiva sombria, aquilo em que escolhermos prestar atenção governará, em grande parte, a qualidade de nossa vida. O EFEITO MATEUS • A enorme descarga de glicose ao comer um denso chocolate amargo • Uma gargalhada gutural • Um gole de um ótimo vinho seco • Um dia de descanso mais do que merecido • A sensação de júbilo com o elogio de um supervisor • Um momento de interação com uma criança • Um choro de desabafo • Um sentimento de singularidade • Um instante de admiração em um museu Estes são os grandes e pequenos momentos, prazeres e realizações e grati�cações conquistadas a muito custo, que iluminam a sua vida. São temas que nem parecem caber em um capítulo sobre os resultados positivos de exames, mas você verá que cabem. Conforme descrevi anteriormente, um número cada vez maior de pesquisas, realizadas por Barbara Fredrickson e outros cientistas, vêm demonstrando que a emergência de emoções positivas e de prazer não apenas parece boa, ela é boa – boa para você, seus amigos, suas famílias, comunidades e, até mesmo, para a sociedade em geral.359 Em outras palavras, as emoções positivas têm consequências reais e duradouras para suas faculdades intelectuais, sua competência social, seus recursos psicológicos e, inclusive, suas habilidades físicas. Além disso, as experiências emocionais positivas geram as chamadas espirais ascendentes. O prazer gera prazer, o que melhora o seu sistema imunológico; torna você mais amigável e mais acessível; faz com que você seja mais produtivo, mais criativo e mais persistente na consecução de seus objetivos; obriga-o a atribuir mais signi�cado à sua vida e reforça sua capacidade de lidar com con�itos, tensões e contratempos.360 Portanto, as emoções positivas engendram o sucesso, e o sucesso traz ainda mais sucesso. Os sociólogos batizaram esse fenômeno de efeito Mateus,361 com base na parábola encontrada no Evangelho de Mateus: “Pois, a quem tem será dado ainda mais, será dado em abundância”.362 Felizmente, quanto mais rico você for em emoções positivas, mais rico se tornará em todos os domínios da vida – em seu trabalho, em seus relacionamentos, em seu lazer e em sua saúde. Nas minhas aulas, pesquisas e entrevistas com cidadãos comuns, �quei impressionada ao saber que quase todos eles, surpreendentemente, não têm a menor consciência de quais experiências os deixam felizes (ou curiosos, entusiastas, serenos, carinhosos, absortos ou orgulhosos) e quais não os deixam. Por esta razão, comecei a ensinar as pessoas a manter um diário de “experiências do cotidiano”, a �m de registrar suas emoções em determinados momentos ao longo do dia (digamos, às 9 horas, às 14 horas e às 19 horas, todos os dias, durante uma semana) e informar a que acontecimentos, situações, pessoas ou atividades aquelas emoções correspondiam. Assim, por exemplo, às 9 horas de terça-feira, até que ponto você estava se sentindo con�ante, feliz, tenso, calmo ou comprometido? Onde você estava? Em casa, em seu carro, em um café? Você estava sozinho ou interagindo com alguém (e, em caso a�rmativo, com quem)? O que você estava fazendo exatamente? Esta é uma maneira simples e e�caz de determinar quais são as experiências diárias que provocam emoções positivas. Já que você sabe que sempre se divertirá com Gary, �cará envolvido e focado ao ouvir o noticiário internacional, será afetuoso com o seu gato, e se sentirá radiante comendo sushi no parque, você deveria tentar se bene�ciar destas coisas com mais frequência e apreciá-las mais ao executá-las. Seriam tais experiências positivas muito insigni�cantes para realmente impactar nossa felicidade e nos ajudar a lidar com as di�culdades reais? Considerando-se o que sabemos sobre os benefícios das emoções positivas, deveríamos nos esforçar para experimentar surtos elevados e intensos de emoção, em vez de buscar os impulsos frequentes e usuais de prazer? No capítulo 6, recomendei que investíssemos nosso dinheiro em vários pequenos prazeres, em vez de apenas alguns prazeres maiores. Isto porque os resultados das pesquisas privilegiam o que é usual e não o que é intenso. A conclusão a que se chega é de que o segredo para a felicidade e a saúde (e para todos seus auspiciosos subprodutos) não é a intensidade da felicidade que sentimos, mas a frequência com que nos sentimos positivos ou felizes.363 Por exemplo, em um estudo que acompanhou pessoas com idades entre dezoito e 94 anos ao longo de treze anos, aquelas com momentos positivos mais frequentes (e não mais intensos) viveram por mais tempo.364 De fato, comportamentos aparentemente triviais podem oferecer estímulos regulares ao humor, cumulativos ao longo do tempo. Conforme escreveram os pesquisadores do MIT, de Harvard e da Duke: “Não se pode ganhar na loteria todos os dias, mas é possível fazer exercícios ou participar de cerimônias religiosas regularmente, e esses comportamentos repetidos podem ser su�cientes para aumentar o bem-estar ao longo do tempo”.365 Os cientistas testaram a hipótese pesquisando em uma academia de ginástica, em duas turmas de ioga e em 37 locais de culto de doze religiões diferentes. Conforme se esperava, eles descobriram que praticar exercícios vários dias por semana e frequentar cerimônias religiosas semanalmente proporcionava um �uxo garantido (ainda que pequeno) de estímulos à felicidade das pessoas. Além disso, quanto maior a frequência com que as pessoas participavam destas atividades, mais felizes elas se sentiam. As evidências cientí�cas oferecem três lições de sabedoria – primeiro, os pequenos surtos de alegria, tranquilidade ou prazer não são nem um pouco triviais; segundo, é a frequência, e não a intensidade, o que importa; e, terceiro, a maioria das pessoas parece não saber disso. Se você vier a compreender quais indivíduos, situações, lugares, coisas ou, até mesmo, horas do dia fazem você se sentir feliz, e passar, então, a se esforçar para aumentar a regularidade desses momentos, você obterá uma ferramenta hedonista que lhe será bastante útil em tempos de crise, quando o médico trouxer más notícias ou em outras situações semelhantes. HÁ ALGUM PROBLEMA EM SER FELIZ EM MEIO AO SOFRIMENTO? Tenho plena consciência de que falar em buscar prazer diante de uma crise de saúde faz com que algumas pessoas estremeçam. De fato, a ideia de que é admissível e até desejável ser feliz em meio ao sofrimento – seja o seu próprio ou o de outros – parece de mau gosto. Você não pode – e não deveria – se sentir verdadeiramente feliz quando um amigo íntimo está morrendo de câncer ou quando você sabe que, em breve, perderá sua capacidade de ouvir, enxergar ou dirigir, ou quando reconhece, com muita clareza, que o mundo está repleto de pobreza, guerra, opressão e maldade. Você não pode ser feliz quando crianças estão sofrendo, quando as vidas de muitas pessoas se desfraldam em silencioso desespero, quando sonhos são desfeitos e problemas sociais são onipresentes. Minha resposta a esta questão um tanto egoísta se divide em três partes. Primeiro, reconheça o nível de injustiça do sofrimento que existe no mundo e reaja sendo grato por sua própria sorte. Em segundo lugar, saiba que adiar a própria felicidade até que todos os problemas dos amigos e do mundo sejam resolvidos não será proveitoso para ninguém. Evidentemente, precisamosalgumas percepções e decisões inesperadas. Oferecerei uma série de ideias de como você pode se tornar mais feliz e realizado combatendo esta acomodação insidiosa e, em última instância, determinando até que ponto deve persistir na reivindicação de sua antiga felicidade, na melhoria do status quo ou, ao contrário, dar um passo em direção a uma mudança radical. Embora eu não possa lhe dizer o que fazer, posso instrumentalizá-lo com as mais recentes descobertas, lançando luz sobre os prováveis caminhos que você encontrará, ao mesmo tempo em que apresento as ferramentas que podem ser usadas para desenvolver uma resposta apropriada – ou, em vez disso, uma resposta que seja melhor para você. Felizmente, a abundância de novas pesquisas sobre os relacionamentos íntimos pode expor as falácias que sustentam suas reações a um casamento infeliz, ao divórcio, a ter �lhos ou à vida de solteiro, e a sua nova compreensão abrirá um leque de trajetórias possíveis e disponíveis. Todo mundo vai-se reconhecer, em algum momento, nas conclusões e nos impactos desta nova ciência. Quando você parar de avaliar a sua situação em termos simplistas (“Eu preciso manter a relação” ou “Eu preciso romper”), as suas opções sobre quais medidas tomar aumentarão consideravelmente. CAPÍTULO 1 Eu serei feliz quando... me casar com a pessoa certa Se você estiver casado ou envolvido em um relacionamento sério há algum tempo, pode estar vivenciando algo que esteja relutante em compartilhar até mesmo com os seus familiares e amigos mais próximos – o tédio. Embora isso possa parecer um problema insigni�cante ou autocomplacente, esta situação pode ser de�agrada com pequenas dúvidas e queixas e, �nalmente, se transformar em uma bola de neve de insatisfações e devaneios desagregadores, que não apenas o a�igem como envenenam o seu relacionamento. Seu primeiro instinto pode ser colocar um �m ao casamento, mas você não tem certeza se deve fazer isso, nem o modo de proceder. Por outro lado, você pode estar sofrendo, consumido pela culpa, ruminando seus sentimentos, dando desculpas e oscilando entre a paralisia e o pânico. Antes de dar qualquer passo, é fundamental levar em consideração o mito da felicidade que, provavelmente, está orquestrando estes primeiros instintos. Trata-se do pressuposto de que “Eu serei feliz quando... me casar com a pessoa certa”.14 Talvez você tenha dedicado grande quantidade de tempo, energia e re�exão para encontrar um parceiro adequado ou ideal, e tenha se empenhado em cultivar o seu casamento. No entanto, apesar dos seus esforços e da sorte favorável, você está começando a perceber que seu casamento não está lhe proporcionando a satisfação que pensou que teria, ou que já teve. Este é um momento determinante, já que ele o convida a entender se as suas expectativas são realistas e se você está exigindo demais de seu casamento. Como descrevo a seguir, até mesmo os casamentos mais felizes não conseguem manter o nível de satisfação inicial, e só será possível se reaproximar daquele nível inicial com uma grande quantidade de energia e comprometimento. Este capítulo trata das escolhas e dos discernimentos possíveis para os que estão casados ou envolvidos em um relacionamento de longo prazo que deixou de satisfazê-los. Você pode continuar a se sentir atormentado por seus pensamentos e esperar que eles desapareçam com o tempo, ou pode se esforçar para entender a sua causa e agir para resolvê-los ou atenuá-los. As abordagens que descrevo ensinam você e seu parceiro a reinvestir em seu relacionamento. A�nal, o que está em jogo é a promessa de caminhos novos, satisfatórios e positivos. ESTOU ENTEDIADO COM O MEU CASAMENTO, OU ACOSTUMANDO-SE COM O SEU CÔNJUGE Como mencionei anteriormente, um dos meus principais interesses cientí�cos é a área de adaptação hedonista – ou seja, o fato de que os seres humanos têm a capacidade extraordinária de se habituar ou se acostumar com a maioria das mudanças de vida.15 Tema em destaque hoje em dia nos campos da psicologia e da economia, a adaptação hedonista explica por que tanto a emoção da vitória quanto a agonia da derrota diminuem com tempo.16 O que é particularmente fascinante neste fenômeno, no entanto, é que ele é mais pronunciado quando se trata de experiências positivas. Com efeito, veri�ca-se que estamos propensos a considerar como rotineiras quase todas as coisas positivas que nos acontecem. Quando nos mudamos para um apartamento lindo com uma vista incrível, quando nos submetemos a uma cirurgia plástica, quando compramos um novo e extravagante automóvel ou um smartphone de enésima geração, quando conquistamos a diretoria executiva e um aumento salarial, quando nos deixamos absorver por uma nova atividade de lazer e, até mesmo, quando nos casamos, obtemos um estímulo imediato de felicidade com a melhoria de nossa situação; a emoção, no entanto, dura apenas um curto período de tempo. Ao longo dos dias, semanas e meses seguintes, percebemos que nossas expectativas aumentam vertiginosamente, e começamos a considerar nossas novas e aprimoradas circunstâncias como algo corriqueiro. Nos encontramos em uma “estagnação da felicidade”.17 Discutirei as implicações da adaptação hedonista a nosso emprego e nível de renda nos capítulos 5 e 7; aqui, porém, o foco é a adaptação ao casamento. Em minha opinião, casar-me com o meu marido foi a melhor coisa que já me ocorreu – um acontecimento que me trouxe imensa alegria, que ecoa até hoje, e que tem dado origem a inúmeras e maravilhosas repercussões em minha vida. Entretanto, o mais famoso estudo a abordar este tema descobriu que, embora o indivíduo experimente, em média, um estímulo considerável de felicidade quando se casa, esse estímulo só dura cerca de dois anos, após o qual os então recém-casados retornam ao nível de felicidade anterior à união.18 Quando você se apaixona, provavelmente consegue �car feliz mesmo estando preso no trânsito ou escovando os dentes. Mas essa fase não dura muito tempo. Então, se algum dia você constatar que está menos eufórico e menos enamorado do que no início de seu relacionamento, estará vivenciando o que a maioria dos outros seres humanos já vivenciou antes,19 e todos os amigos que a�rmarem o contrário (com raras exceções) estarão, provavelmente, mentindo para você ou para si próprios. A felicidade conjugal, como a felicidade por um novo emprego ou por um carro novo, é altamente propensa à adaptação hedonista, mas a paixão, o arrebatamento e a atração eletrizante trazem consigo a responsabilidade adicional de terem uma vida útil ainda mais curta. Quando nos apaixonamos pela primeira vez, se tivermos sorte, experimentaremos o que os pesquisadores chamam de amor apaixonado; ao longo dos anos, porém, este tipo de amor geralmente se transforma em amor sociável.20 O amor apaixonado é um estado de desejo, saudade e atração intensos, enquanto o amor sociável é composto mais de afeição, conexão e admiração profundas. Se você estiver se perguntando que tipo de amor está vivenciando agora – ou teve no passado –, considere até que ponto você concorda com as declarações seguintes.21 Quanto ao amor apaixonado: • É difícil trabalhar, porque estou sempre pensando no meu parceiro. • Estou tão envolvida com meu parceiro que não conseguiria estar nem um pouco interessada em outra pessoa. • Estou com muito medo de que meu parceiro possa me rejeitar. Quanto ao amor sociável: • Meu parceiro é uma das pessoas mais amáveis que conheço. • Meu parceiro é o tipo de pessoa que eu gostaria de ser. • Tenho grande con�ança no bom senso do meu parceiro. Há razões evolutivas, �siológicas e práticas que explicam por que o amor apaixonado não pode perdurar por muito tempo. Eu arriscaria dizer que, se continuássemos obcecados por nossos parceiros e praticássemos sexo várias vezes ao dia – todos os dias –, não seríamos muito produtivos no trabalho ou atenciosos com nossos �lhos, nossos amigos ou nossa saúde. Para citar uma frase do �lme Antes do pôr do sol, de 2004, sobre dois ex-amantes que, por acaso,observar e nos esforçar para corrigir a infelicidade e o sofrimento. No entanto, como já �cou comprovado por uma in�nidade de pesquisas, quanto mais felizes formos, mais bem posicionados estaremos para realizar exatamente isso. Quanto mais felizes formos, mais energia, con�ança e motivação teremos. Quanto mais felizes formos, mais saudáveis �caremos, e, portanto, mais produtivos e criativos, mais orientados para a ação e mais inclinados a contribuir com os outros. Portanto, meu argumento �nal é que, se nos esforçarmos e obtivermos sucesso na consecução da nossa própria felicidade, também estaremos relativamente mais propensos a ajudar os outros – e a nós mesmos. E QUANTO ÀS EMOÇÕES NEGATIVAS? Sabemos, agora, que as emoções positivas trazem numerosas recompensas, mas as emoções negativas podem ser uma coisa boa? Inegavelmente, elas são. Há momentos e situações em que precisamos sentir a raiva que nos motiva a combater a exploração ou a injustiça, a ansiedade que nos ajuda a nos preparar para uma ameaça ou desa�o, ou a tristeza que nos leva a re�etir sobre o que está acontecendo de errado e tomar medidas para corrigir ou aceitar a situação. De fato, na próxima seção, apresento uma teoria que sugere que precisamos experimentar a imediata repercussão emocional negativa de uma comoção antes de dar início aos ajustes positivos e restauradores. Além disso, alguns estudos mostram que, em determinadas situações, emoções negativas moderadas (como um estado de ânimo triste) podem facilitar melhores julgamentos e menos estereotipia. Finalmente, as experiências negativas podem servir como um contraponto aos aspectos positivos de nossas vidas, e nos ajudar a apreciá-los. Um amigo querido chegou muito próximo da morte após ter uma infecção que o deixou paralisado e incapaz de comer ou respirar por conta própria durante semanas. Ele se recuperou, mas, depois da doença, a�rmou que as coisas que costumavam ser apenas levemente positivas – como um dia de sol, beber uma Coca-Cola Diet ou falar ao telefone com um de seus �lhos já adultos – se tornaram intensamente positivas. Algumas culturas ainda consideram o sofrimento um meio para se alcançar determinado �m – desenvolver a personalidade ou obter a salvação espiritual –, ou, inclusive, um �m em si mesmo. “Você não pode morrer – ainda não sofreu o bastante!” é um comentário tradicional na Grécia para alguém que reclama da fragilidade de seu estado de saúde. Há um valor na tristeza. Há um valor em reconhecer seus próprios problemas e males (e os do mundo). Há um valor em aprender a lição de que a vida nem sempre é boa ou razoável. O sofrimento, no entanto, nunca é algo bom. Grande parte do sofrimento que as pessoas sentem é angustiante, imerecido e não conduz a nada de bom. ESTRATÉGIAS BASEADAS EM EVIDÊNCIAS PARA ENFRENTAR AS MÁS NOTÍCIAS Uma doença grave pode destruir ou estilhaçar muitas coisas – nossa autoestima, nossos relacionamentos, nosso corpo físico, nossa fé religiosa, nossa esperança e otimismo, nossa energia, nossa evolução. Como reuniremos as peças depois de seu dilaceramento? Às vezes, essa tarefa pode parecer incrivelmente difícil. Quando um ente querido se vai ou quando nos vemos privados da função de algo realmente fundamental (um braço, um rim, o nosso olfato), não conseguimos, realmente, reconstituir as coisas como elas eram antes. A única coisa que podemos esperar é criar uma estrutura completamente nova a partir do que restou. Sei que tudo isso soa muito abstrato, mas há uma história instrutiva que esclarece esta noção.366 Era uma vez um pintor. Ele era muito competente no que fazia, mas seu verdadeiro sonho era ser bem-sucedido como marceneiro. Um dia, a esposa do pintor comentou que a família precisava de uma mesa nova, e perguntou se ele poderia ajudar. Ele �cou muito contente, pois amava sua esposa e queria fazê-la feliz, e realmente queria se dedicar à marcenaria. O pintor trabalhou por dias e noites a �o, e acabou construindo uma mesa simples, mas muito sólida e resistente. A mesa se tornou o centro do seu lar. Era onde a família se reunia para contar histórias, fazer refeições, tomar chá e se divertir com jogos de tabuleiro. Sobre a mesa, o pintor e sua esposa sovavam massas de pizza, escreviam cartas a seus entes queridos e ajudavam os �lhos nos exercícios de caligra�a. A mesa era sólida e resistente, assim como sua família. Um dia, quando eles estavam fora, um ladrão invadiu a casa e, por razões nunca plenamente esclarecidas, roubou uma das pernas da mesa. O artista e sua esposa �caram desolados, mas amavam tanto aquela mesa que decidiram fazer o melhor uso possível dela, mesmo que agora ela só tivesse três pernas. No entanto, a superfície da mesa �cara desnivelada, e, portanto, sempre que eles colocavam alguma coisa na extremidade com a perna faltante, o objeto escorregava imediatamente. Então, com o intuito de equilibrar a mesa, eles tentaram colocar um enorme e pesado livro do lado oposto, mas isso também não funcionou. O livro ocupava muito espaço e a perna oposta começou a ceder sob o seu peso. A mesa estava a ponto de desabar. O artista �cou muito triste. Levou a mesa de volta para a o�cina e trabalhou nela por longas noites. Ele cinzelou, entalhou, moldou e esculpiu. Por �m, saiu da o�cina com uma nova mesa. Era um pouco menor, mas linda, e tão sólida e funcional quanto a antiga. Esta nova mesa tinha apenas três pernas. Após uma crise de saúde, o seu novo “eu” é como esta mesa nova de três pernas. Talvez você tenha sido sólido e resistente antes de sua vida mudar, mas agora, independentemente de seu diagnóstico ser câncer ou diabetes, doença pulmonar ou infertilidade, e por razões que você nunca conseguirá desvendar, uma parte de você foi roubada. De início, você pode tentar manter, inutilmente, um senso de equilíbrio interior – esforçando-se para contrapesar seu trabalho, sua família e sua saúde mental –, mas a oscilação permanecerá. Você empreenderá esforços hercúleos para compensar o que perdeu, a �m de evitar que tudo desabe. No entanto, não conseguirá recompor realmente a si mesmo e a sua vida. Você precisará criar um novo “eu”, que, espera-se, seja tão sólido e tão saudável quanto seu antigo “eu”, mas que, sem dúvida, será diferente. Aparentemente, o triângulo é uma �gura geométrica mais forte do que o quadrado, e é por este motivo que os triângulos são tão frequentes na natureza (para formar moléculas superfortes – como as proteínas e o DNA), além de serem utilizados em construções.367 Duas teorias baseadas em evidências, descritas a seguir, o instrumentalizarão com algumas estratégias necessárias para enfrentar as más notícias, de modo que o seu novo “eu”, assim como a mesa de três pernas, também possa tornar-se mais sólido. MOBILIZE-E-MINIMIZE Enfrentar é o que todos nós fazemos quando tentamos reagir, administrar ou lidar com as coisas ruins que nos acontecem. Os pesquisadores vêm estudando o enfrentamento por muitas décadas, e, hoje, já acumulam conhecimento su�ciente sobre que tipos de estratégias de enfrentamento funcionam e quais não funcionam, para quais pessoas e em que situações. Uma das abordagens mais poderosas foi proposta por Shelley Taylor, professora da UCLA, que argumenta que acontecimentos que colocam a vida em risco, como uma doença grave, normalmente provocam duas reações consecutivas – uma de curto prazo e outra subsequente, de longo prazo.368 Mobilização. Nossa primeira reação – imediata e de curtíssima duração – é mobilizar recursos para lidar com o acontecimento negativo (por exemplo, o diagnóstico inicial, o surgimento de novos e angustiantes sintomas ou a constatação de uma piora). No consultório médico, por exemplo, podemos �car instantaneamente despertos do ponto de vista �siológico (isto é, demonstrando aumento de frequência cardíaca e respiração acelerada – uma reação física), começar a conjecturar sobre como poderíamos ter evitado isso (reação cognitiva ou relacionada ao pensamento), �car deprimidos (reação emocional) ou procurar um ombro para chorar (reação social).se encontram novamente depois de uma década, se a paixão não tivesse arrefecido, “acabaríamos não fazendo nada com as nossas vidas”.22 De fato, o amor apaixonado compartilha algumas características centrais com o vício e o narcisismo, e, se ele se mantivesse inalterável, acabaria por cobrar seu preço. Em todo caso, constatou-se que a paixão e a atração química intensas, evidentes no início de um caso de amor, se reduzem a um nível neutro dentro de alguns anos,23 quando o caso de amor se transforma em um compromisso sério, seja em nível de relacionamento ou de casamento.24 Além disso, esta mudança de sentimentos é, muitas vezes, acompanhada por um declínio na satisfação global, à medida que a diversão e o lazer típicos da fase de lua de mel se transformam na dura rotina diária e os parceiros deixam de empregar seu melhor comportamento e de se esforçar para serem constantemente sensíveis e atenciosos um para com o outro.25 Felizmente, como os psicólogos evolucionistas podem a�rmar, tanto o amor apaixonado quanto o amor sociável são essenciais para que os seres humanos possam sobreviver e se reproduzir. Enquanto o amor apaixonado é necessário para nos estimular a formar parcerias e a direcionar todas as nossas energias para a construção de um novo relacionamento, o amor sociável parece ser decisivo para alimentar uma parceria comprometida e estável pelo tempo su�ciente para reproduzir nossos genes (ou seja, ter �lhos) e garantir que eles sobrevivam e prosperem. Deve-se dizer que ambos os tipos de amor trazem a sua marca própria de felicidade – talvez um deles seja mais empolgante e o outro, mais signi�cativo. À luz da deterioração natural da paixão e da alegria vivenciadas no início do casamento, parece que estamos alimentando expectativas vãs de que os relacionamentos de longo prazo continuarão a servir como veículos para nossos desejos e para nossa satisfação. Na verdade, eu diria, com mais veemência ainda, que romanceamos a ideia de romance, e isso nos leva a interpretar equivocadamente a função, a complexidade e o ciclo de vida típicos do casamento, deixando-nos desapontados quando nossos casamentos não satisfazem permanentemente nossos anseios de satisfação, de paixão, de intimidade e de permanência. Conforme re�etirmos sobre nossas experiências de tédio, de paixão anêmica ou de pequenos descontentamentos em nossas parcerias atuais, deveríamos reexaminar essas premissas e estabelecer até que ponto nossas experiências podem ser, simplesmente, manifestações de um processo extraordinariamente comum. As pesquisas do meu laboratório e dos laboratórios de vários colegas sugerem inúmeros segredos para superar, prevenir ou, pelo menos, abrandar a adaptação hedonista nos relacionamentos sérios. A primeira recomendação você já começou a seguir simplesmente lendo este livro, qual seja, dar-se conta do quanto este fenômeno é comum e reconhecer que seus próprios relacionamentos se encaminham, cada vez mais, para a normalidade. Ao reconhecer o mito da felicidade que está por trás da sua consternação e do seu descontentamento, você pode começar a compreender e a eximir suas experiências de culpa, tomando medidas para aprimorá-las. Em seguida, vem a parte difícil, já que retardar o processo pelo qual você passa a considerar o seu parceiro (e outras coisas em sua vida) algo cada vez mais rotineiro requer um esforço redobrado – um esforço que pode ser necessário em todas as semanas de sua vida de casado. Na verdade, se quisermos encontrar uma boa solução para o momento crítico que está no cerne deste capítulo, o processo de resistência à adaptação deve começar, idealmente, muito antes de aquele momento crítico surgir. POR QUE VOCÊ SE ADAPTA ÀS COISAS BOAS Conheci Keith no dia 4 de julho, há oito anos, em um churrasco. Eu não tinha outros planos e, como estava quente demais para �car em casa, resolvi fazer companhia à amiga que mora comigo. Todas as pessoas que estavam lá eram bastante agradáveis, mas eu não as conhecia, e �quei perambulando pelo interior da casa refrigerada, folheando os livros nas prateleiras. Foi aí que Keith entrou, usando seus óculos de Harry Potter. Ele era magro e muito alto, com um cabelo castanho desgrenhado, precisando urgentemente de um corte, e um rosto franco. Ele sorriu para mim e tive a sensação de que o mundo inteiro me sorria. Assim começou o período mais emocionante e vibrante da minha vida. Keith estava determinado a �car comigo e eu estava me apaixonando. A cada dia, a cada semana, havia uma expectativa – algo divertido, interessante ou surpreendente. O tempo passava com incrível rapidez. Eu tinha di�culdade para me concentrar no trabalho. Nós éramos iguaizinhos um ao outro. Fazíamos jantares à luz de velas e Keith preparava um molho curry caseiro. De vez em quando, escapávamos do trabalho à tarde e nos encontrávamos para fazer amor na minha casa ou na dele – e, uma vez, fomos até um hotel de luxo. Nós compartilhávamos os pensamentos mais íntimos, discutíamos nossos traumas de adolescência, e, com o tempo, fantasiávamos em voz alta sobre como iríamos batizar nossos �lhos e em quais das nossas casas favoritas (que costumávamos ver em nossos passeios de carro) viveríamos. Ah, e nós dançávamos. Adorávamos dançar. Eu me sentia mais forte, mais feliz, mais bonita, mais autocon�ante, em todos os sentidos. Keith não é uma pessoa extrovertida, mas tem inúmeros amigos �éis, e, portanto, conheci muitas pessoas. Minha melhor amiga hoje em dia é alguém que conheci naquele tempo. É claro, houve muitos momentos marcantes. Nosso primeiro beijo, a primeira vez que Keith disse “eu te amo”, a nossa primeira viagem juntos (para Vegas). O problema com os momentos marcantes, evidentemente, é que eles só podem acontecer uma vez. O segundo beijo, a sétima vez que ele disse “eu te amo” e todas as férias subsequentes juntos não foram tão especiais e não geraram tanta alegria quanto a primeira vez. Com o tempo, e conforme o nosso relacionamento progredia, as coisas maravilhosas não aconteciam mais com tanta frequência ou intensidade. Ele parou de dizer “eu te amo” várias vezes por dia; tínhamos menos conversas empolgantes sobre a nossa vida futura em conjunto e a frequência com que eu espontaneamente sorria ao pensar em beijá-lo ou com que me considerava incrivelmente bem-aventurada diminuiu, inevitavelmente. Não demorou muito para que eu me acostumasse com a ideia de estar namorando, com o tempo que passávamos juntos à noite e nos �ns de semana, e com o orgulho que sentia quando contava à minha família e aos meus amigos tudo sobre Keith. Não importava que Keith me amasse e fosse �el a mim; agora, eu começava a desejar que ele propusesse que morássemos juntos. E depois que ele realmente me propôs isso e que nós decoramos nossa casa alugada, comecei a querer ainda mais – casamento, �lhos. Hoje, não há nada de errado na minha vida com Keith e nossos �lhos. Nada, exceto a dolorosa constatação de que nunca poderemos trazer de volta os primeiros dias. Naquela época, tínhamos muito tempo livre, tempo que passávamos tomando café, assistindo a �lmes e viajando; hoje, temos uma série de responsabilidades e tarefas. Às vezes, uma semana inteira passa sem que nós realmente conversemos, e acabamos nos esbarrando na cozinha. Agora, desapontamos um ao outro algumas vezes, e não somos mais tão atentos ou generosos como costumávamos ser. Perdemos o vigor. Uma vez, Keith me disse que havia estado em uma convenção noturna de quadrinhos, e eu percebi que não me lembrava de alguma vez na vida em que ele houvesse comparecido a alguma convenção daquele tipo, e que não nem tinha ideia de que ele gostava de quadrinhos. É como se tivéssmos nos transformado em pessoas diferentes, mesmo sem perceber, e isso me tortura. Observo seus olhos admirando uma mulher atraente e nem sinto ciúmes, porque eu também olho e porque estou certa de que ele nunca abandonará a nossa família. Então, como poderemos nos mostrar atraentes um para o outro? Que expectativas poderemos ter? Jennifer, 35 anos, fotógrafa freelance decrianças26 A experiência de Jennifer é diabolicamente comum. No �m, quase todos nós nos acostumamos com nossos casamentos e nossos parceiros, e a ciência da adaptação explica por quê. Embora essa situação traga algumas consequências desagradáveis, elas também revelam as formas pelas quais podemos lidar com esse problema quase universal. Da mesma forma que entender uma doença induz à percepção de como tratá-la, um dos benefícios envolvidos na compreensão de um fenômeno psicológico é perceber como poderemos controlá-lo. Para este �m, meu colaborador Ken Sheldon e eu desenvolvemos uma teoria de como impedir, enfrentar e retardar a adaptação.27 Descrevo, a seguir, uma série de estratégias práticas sugeridas por nossa teoria, que serão valiosas quando estivermos dizendo a nós mesmos: “Depois de encontrar a pessoa certa, pensei que seria feliz por algum tempo, mas agora estou insatisfeito e entediado”. A IMPORTÂNCIA DE APRECIAR Um dos indícios que permite saber se você está adaptado ao seu parceiro é deixar de apreciá-lo. Apreciar verdadeiramente alguém signi�ca valorizá-lo, ser- lhe grato, desfrutar o tempo em sua companhia e permanecer bastante consciente do bem que ele proporcionou à sua vida. Quando você se casou, por exemplo, a mudança de circunstâncias foi emocionante e original. Você gostava de usar as palavras marido e mulher, e estava plenamente consciente e grato por todas as vantagens trazidas pelo casamento. Você apreciava o seu cônjuge e pensava nele com frequência, talvez constantemente. Chegou o momento, no entanto, que ser casado – ser chamado de marido ou esposa, sentar-se na mesa da cozinha com o seu cônjuge, cumprimentá-lo apaixonadamente no �m do dia – deixou de ser uma novidade ou de surpreendê-lo. A�nal, sua vida diária é, sem dúvida, cheia de altos e baixos, completamente alheios ao fato de você ser casado – frustração no trabalho, problemas com o carro, um programa de exercícios bem-sucedido, uma visita surpresa de um amigo do colégio. Todos esses acontecimentos cotidianos suscitam as suas próprias reações emocionais, fazendo você se sentir estressado, bem-humorado, alegre ou aliviado, e podem, eventualmente, ofuscar a condição de seu novo estado civil, fazendo com que ele perca importância no panorama geral da sua vida.28 No entanto, o ensinamento é que, se continuarmos a nos mostrar gratos, a apreciar e a estar atentos ao nosso novo cônjuge – se ele aparecer frequentemente em nossas mentes e nos inspirar fortes reações emocionais –, conseguiremos evitar considerá-lo algo corriqueiro. Vários estudos corroboram esta noção, incluindo um de nosso próprio laboratório, que revelou que as pessoas que se esforçam em continuar apreciando os bons momentos de suas vidas são menos propensas a se adaptar a eles.29 A apreciação tem uma importância vital, por várias razões. Primeiro, apreciar nosso relacionamento nos obriga a extrair o máximo de satisfação possível dele e nos ajuda a nos mostrarmos gratos por isso, a saboreá-lo, a desfrutá-lo, sem considerá-lo algo rotineiro. Em segundo lugar, nos sentimos mais positivos a nosso respeito e mais conectados com os outros.30 Em terceiro lugar, nossa expressão de apreço motiva a nós e aos nossos parceiros a redobrar os esforços para cuidar do relacionamento.31 E, �nalmente, a apreciação ajuda a evitar que �quemos muito “mimados”, que prestemos muita atenção às comparações sociais (“O marido da minha amiga Kelly, ao contrário do meu, prepara toda a comida!”) e que sintamos inveja. Em outras palavras, apreciar os pontos positivos de nossos relacionamentos e reavaliá-los como presentes ou “dádivas” nos leva a nos concentrar no que temos hoje, em vez de prestarmos atenção ao que nossos amigos e vizinhos têm ou naquilo que nós gostaríamos de ter. Vários experimentos de meu próprio laboratório e dos laboratórios dos meus colegas demonstraram que pessoas que praticam regularmente o apreço ou a gratidão – que, por exemplo, “enumeram suas dádivas” uma vez por semana ao longo de uma a doze semanas consecutivas, ou trocam elogios com as pessoas que lhes foram amáveis e signi�cativas – se tornam, seguramente, mais felizes e mais saudáveis, e continuam mais felizes até seis meses após o término daquele evento.32 Esta é uma prova conclusiva de que apreciar uma circunstância positiva (como o casamento) pode nos ajudar a desa�ar a adaptação à situação. Exercícios simples, como anotar o que você gosta em seu parceiro ou no seu casamento, ou redigir uma carta de agradecimento ao seu companheiro (sem, necessariamente, compartilhá-la), têm se mostrado altamente e�cazes. Outra maneira de realmente apreciar e desfrutar de nosso relacionamento é imaginar subtraí-lo de nossas vidas.33 E se nós nunca tivéssemos sido apresentadas ao nosso marido? Nesse caso, uma in�nidade de coisas boas que está acontecendo hoje em nossas vidas poderia não ter acontecido. Se não for levada ao extremo (o que poderia fazer com que não nos sentíssemos merecedores do que temos, ou �cássemos ansiosos com a ideia de perder tudo), essa estratégia de “subtração” pode ser ainda mais e�caz do que as tentativas explícitas de demonstrar gratidão.34 Em suma, os exercícios de apreciação trarão alegria ao lembrar os pontos positivos que �caram esquecidos dentro de nosso relacionamento, vivendo o aqui e agora e mantendo uma perspectiva positiva e otimista. Quando valorizamos os pontos fortes de nosso parceiro, quando nos transportamos mentalmente para os dias em que estivemos mais próximos ou quando realmente apreciamos o momento presente, deixamos de considerar o nosso relacionamento como algo corriqueiro. A IMPORTÂNCIA DA VARIEDADE Nem todas as mudanças de vida estão igualmente sujeitas à adaptação hedonista. No meu trabalho com Ken Sheldon, descobrimos que nossos participantes mostravam-se muito menos propensos a se acostumarem com as mudanças que envolviam um engajamento diferenciado, dinâmico e empenhado (por exemplo, aprender uma nova língua ou fazer um novo amigo) do que como aquelas que eram relativamente estáticas e imutáveis (mudar-se para um apartamento melhor ou conseguir um empréstimo de que se precisa muito).35 Além disso, as mudanças dinâmicas parecem exercer um impacto duradouro na felicidade das pessoas. Depois de passar por uma mudança dinâmica, os participantes de nossos estudos ainda permaneciam mais felizes por seis a doze semanas, ou mais. Depois de passar por uma mudança estática, nossos participantes pareciam já estar emocionalmente acostumados com isso entre seis e doze semanas depois.36 Também despertou interesse o fato de que, para os participantes que a�rmaram que uma mudança particular acrescentou alguma variedade em suas vidas (por exemplo, os levou regularmente a conhecer novas pessoas) e que relataram continuar apreciando tal mudança de vida, as chances de usufruir mais felicidade depois daquela mudança eram ainda maiores. O ensinamento é que, para evitar a adaptação, é fundamental nos assegurarmos de que nossos casamentos sejam temperados com uma abundante variedade. Na verdade, por de�nição, a adaptação acontece quando nos deparamos com algo constante ou repetido37 – quando todas as saídas à noite nos �ns de semana signi�cam um jantar e um �lme, ou quando a intimidade ou o compromisso que sentimos com nosso parceiro tiverem atingido um equilíbrio estável. Há um componente na variedade – a variedade em nossos pensamentos, sentimentos e comportamentos – que é, por essência, estimulante e recompensador.38 De fato, ser exposto à variedade e à novidade parece ter efeitos semelhantes em nosso cérebro – especi�camente sobre a atividade que envolve o neurotransmissor dopamina39 – aos dos “estimulantes” farmacológicos, às emoções positivas e aos comportamentos de busca de recompensa.40 Assim, podemos maximizar e ajudar a sustentar (pelo menos, em parte) a felicidade de nossos casamentos e o entusiasmo com o tempo que passamos juntos misturando as coisas – variando o que fazemos com nossos parceiros, mudando nossas mentes e sendo espontâneos. Talvez pareçaum conselho banal, mas a variedade pode, de fato, permitir que nossos relacionamentos e nosso amor permaneçam vivos, signi�cativos e positivos. Como uma analogia muito simples, considere um experimento que meus alunos e eu �zemos. Instruímos nossos participantes a praticar boas ações a cada semana, por um período de dez semanas.41 Alguns foram instruídos a variar suas boas ações (por exemplo, dar ao seu animal de estimação um tratamento especial um dia e preparar o café da manhã para o seu parceiro no dia seguinte), enquanto outros foram instruídos a fazer coisas semelhantes todas as vezes (por exemplo, preparar o café da manhã para o seu parceiro continuamente). Não é de surpreender que os únicos que �caram mais felizes foram aqueles que variaram seus atos de generosidade. A IMPORTÂNCIA DA SURPRESA Outro fator fundamental na busca da felicidade conjugal duradoura (e na prevenção da adaptação hedonista) é o elemento surpresa. Apesar de variedade e surpresa parecerem conceitos muito semelhantes – e que, com certeza, muitas vezes andam juntos –, eles, na verdade, são distintos. Por exemplo, uma série de acontecimentos (como os �lmes que você consegue assistir em um único verão) pode ser variada, mas não surpreendente, e, embora um único acontecimento (como uma con�ssão inesperada) possa ser surpreendente, um único acontecimento, por de�nição, não pode ser variável. O início dos relacionamentos guarda um milhão de surpresas para nós: como ela vai reagir quando eu lhe contar sobre o meu interesse em mágica? Será que ela gosta de ser tocada desta ou daquela forma? Será que ela deseja ter �lhos com tanta vontade quanto eu? Ele é engraçado quando sai para jantar? Como realmente são os seus amigos e familiares? Em resumo, novos relacionamentos, como novos empregos, atividades de lazer e viagens, têm o potencial de gerar muitas experiências, desa�os e encantamentos surpreendentes, além de novas oportunidades. Ademais, os novos relacionamentos têm o que os pesquisadores chamam de “o fascínio da ambiguidade”: quando não conhecemos muito bem nossos parceiros, podemos ver neles aquilo que queremos.42 No entanto, com o tempo, nossos parceiros se tornam totalmente conhecidos, caímos em uma rotina e o número de surpresas diminui, chegando, até mesmo, a se esgotar. Durante o primeiro ano juntos, nossos parceiros podem revelar um lado de si mesmos que nunca soubemos. Durante o décimo ano, tal experiência é muito menos provável. Em algum momento, podemos sentir que já conhecemos tudo o que há para conhecer em nosso cônjuge, e que não existe mais surpresa alguma. O que há de tão especial na surpresa? Quando constatamos uma novidade em nossos ambientes (“Nunca reparei no quanto ele é cuidadoso com estranhos”), �camos atentos e, portanto, somos mais suscetíveis de apreciá-la, contemplá-la e recordá-la.43 Estaremos menos propensos a considerar nosso casamento como algo corriqueiro quando ele continuar a nos proporcionar fortes reações emocionais (é importante notar que este argumento também se aplica a reações negativas, mas aqui, evidentemente, estou falando de emoções positivas). Além disso, a incerteza, em si mesma, pode aumentar o prazer dos acontecimentos positivos. Uma série de estudos demonstrou, por exemplo, que as pessoas experimentam episódios mais duradouros de felicidade quando são alvo de um ato inesperado de gentileza e permanecem em dúvida sobre quem fez isso e por quê.44 Tais reações podem ser, inclusive, mapeadas em nossos cérebros. Em um experimento, quando participantes sedentos foram informados de que iriam, �nalmente, beber algo, aqueles que não sabiam o que lhes seria oferecido (ou seja, água ou uma bebida mais interessante) mostraram mais atividade nas partes do cérebro ligadas às emoções positivas.45 Nosso objetivo, então, deve ser o de criar mais momentos inesperados e prazeres imprevisíveis em nosso relacionamento – surpresas que nos inspirem e nos deleitem. Talvez isso não seja tão fácil quanto parece, mas várias estratégias se mostraram bem-sucedidas. UMA PITADA DE NOVIDADE E UM GOSTINHO DE SURPRESA Para muitos, a recomendação de que devemos ser mais espontâneos soa um tanto perversa. O mesmo pode ser dito em relação às recomendações para provocar, deliberadamente, surpresa e variedade em nossas vidas. Em princípio, estou de acordo, mas seguir estas recomendações é mais viável do que parece. É claro que �car sentado, esperando que surpresa, mistério e aleatoriedade surjam em nossas vidas não vai funcionar. É muito mais e�caz participar de atividades já conhecidas para produzir experiências variadas e surpreendentes. É muito simples viajar para lugares novos com nossos parceiros – por de�nição, uma atividade em que não somos mais escravos das rotinas diárias, temos mais tempo para relaxar e re�etir, e estamos mais propensos às experiências do acaso. Ou, então, mostrar mais disponibilidade para nos socializarmos com um conjunto mais vasto de conhecidos e amigos, ou sermos receptivos a novas oportunidades e aventuras. Quando você e seu namorado forem convidados para uma intrigante campanha de arrecadação de fundos por alguém que conheceram na academia, aceitem. Quando �carem sabendo de um badalado restaurante em uma parte suspeita da cidade, experimentem. Quando seu cônjuge desenvolver um novo interesse por arte, pela Espanha, por bicicleta ou por jogos on-line de múltiplos jogadores, junte-se a ele nesta odisseia para se informar mais. Alguns pesquisadores propõem que as novidades exigem uma abordagem direta – ou seja, reunir esforços para, literalmente, perceber coisas novas acerca do seu parceiro. Por exemplo, todos os dias da próxima semana, determine-se a detectar de que modo o seu parceiro está diferente naquele dia. Este exercício extremamente simples pode tornar o parceiro mais atraente e sedutor. Embora todas as vezes que vocês leem o jornal de domingo juntos, todas as vezes que se beijam e todas as vezes que fazem pasta e fagioli pareçam exatamente iguais às anteriores, tente observar as formas em que cada ocasião é realmente diferente uma da outra. Corroborando esta ideia, um estudo pediu que as pessoas escolhessem uma atividade da qual não gostavam (como passar o aspirador de pó, usar o transporte público para ir ao trabalho ou assistir a American Idol) e, em seguida, as instruiu a prestar atenção a três novidades ou qualidades desconhecidas naquela atividade, enquanto estavam envolvidas nela (“O zumbido do aspirador me leva de volta à segunda série”, ou “Eu nunca me dei conta de como o Ryan Seacrest é baixinho”). Aqueles a quem se pediu que procurassem por novidades acabaram gostando mais da atividade e se mostram mais propensos a repeti-la por conta própria.46 Outra técnica para impedir que nos acostumemos com algo ou com alguém implica arejar as nossas rotinas. Uma interessante linha de pesquisa descobriu que interromper experiências positivas as torna mais agradáveis. A princípio, o argumento parece contraditório. Quando seu cônjuge está lhe aplicando uma excelente massagem, ou quando vocês estão ouvindo juntos o seu álbum favorito, ou assistindo a um �lme hilariante, ou apreciando uma caminhada nas montanhas sob ótimas condições climáticas, a última coisa que você quer é interromper o que está fazendo. No entanto, veri�ca-se que as pessoas desfrutam mais das massagens quando são interrompidas em intervalos de vinte minutos, desfrutam mais dos programas de televisão quando são interrompidos pelos comerciais e desfrutam mais das músicas das quais gostam quando são interrompidas em intervalos de vinte segundos.47 O segredo para entender tais resultados é reconhecer que podemos nos adaptar a uma experiência positiva de curto prazo, como assistir a um �lme ou receber uma massagem, exatamente da mesma maneira que nos adaptamos a uma grande mudança de vida, como nos casar ou nos mudar para a Flórida. A experiência moderadamente agradável de assistir a uma comédia nos oferece um pouco menos de prazer e de satisfação conforme ela é executada –não porque a desfrutemosmenos, mas porque, gradualmente, nos acostumamos com a sensação agradável (ou com a diversão, ou com a inteligência, ou com o suspense), a ponto de ela se tornar a nossa nova norma ou padrão. Nesse ponto, seria necessário um abalo ainda mais agradável para evocar uma resposta emocional mais forte em nós. Essencialmente, as interrupções conseguem deter este processo de relaxamento com a experiência em questão e “reprogramá-la” para uma maior intensidade de satisfação.48 Uma pausa durante uma massagem ou uma conversa emocionante, por exemplo, pode ampliar a nossa expectativa para a sua retomada e nos fornecer a oportunidade de desfrutar o que virá a seguir. William James, que aconselhou as pessoas a reavivar as atividades maçantes com “rupturas de rotina”, teria concordado entusiasticamente.49 Art Aron, professor da universidade SUNY-Stony Brook e importante autoridade em assuntos relacionados ao amor, argumenta que, para afastar o tédio no casamento, os casais devem mutuamente se engajar no que ele chama de atividades “expansivas” – isto é, atividades novas que sejam estimulantes, produzam novas experiências e ensinem novas habilidades – e desa�ar um ao outro a crescer. Em um experimento clássico, casais de meia-idade de classe média alta foram apresentados a uma lista de atividades que ambos haviam relatado fazer raramente e que lhes pareciam “agradáveis” (como cozinha criativa, visitar amigos ou ver um �lme) ou “empolgantes” (dançar, esquiar ou assistir a concertos).50 Então, ao longo das dez semanas seguintes, eles foram instruídos a escolher uma dessas atividades a cada semana e passar noventa minutos praticando-a juntos. Ao �m das dez semanas, aqueles casais que se envolveram com as atividades “empolgantes” relataram estar mais satisfeitos com seus casamentos do que aqueles que simplesmente �zeram coisas “agradáveis” ou divertidas juntos. Aron obteve resultados semelhantes quando instruiu os casais a visitar seu laboratório e a executar uma tarefa muito breve (sete minutos), que podia ser neutra ou nova e �siologicamente estimulante.51 É difícil, em sete minutos e em uma sala estranha, que um casal consiga chegar a um acordo sobre uma atividade empolgante para ambos, mas esses pesquisadores desenvolveram um tipo de exercício excêntrico, que pode soar familiar para quem já participou de retiros empresariais para fortalecer a equipe de trabalho. A atividade consistia em ultrapassar obstáculos sobre um colchonete de nove metros de extensão, conectado ao seu parceiro com tiras de velcro em um pulso e em um tornozelo, rastejando sobre as mãos e os joelhos o tempo todo, e carregando uma almofada redonda, que tinha de ser sustentada por ambos os corpos ou cabeças. A atividade neutra também exigia que se rastejasse sobre um colchonete, mas o objetivo principal era rolar uma bola de um para o outro. Independentemente de serem casais de namorados ou casados há muito tempo, aqueles que executaram a atividade nova em conjunto mostraram-se mais propensos, após a atividade, a concordar com a�rmações do tipo “Eu me sinto feliz quando estou fazendo algo para deixar o meu parceiro feliz” e “Eu sinto ‘formigamento’ e ‘batimento cardíaco aumentado’ quando penso no meu parceiro” do que os que executaram a atividade neutra. Ainda mais impressionante foi o fato de que, no tocante aos planos futuros, os casais que haviam participado da atividade empolgante demonstraram mais comportamentos positivos um para com o outro (mais aceitação, por exemplo, e menos hostilidade), após a atividade, do que aqueles que haviam participado da tarefa neutra. Não é difícil imaginar que, para muitos casais, completar a excêntrica tarefa de rastejar pode ensejar o riso histérico. Ainda que, às vezes, eu considere tais exercícios de mau gosto, não posso ignorar o fato de que eles levam as pessoas a se sentirem mais próximas, mais calorosas e, inclusive, mais atraídas uma pela outra. Surpreendentemente, os efeitos de atividades tão curtas como essa podem durar até sete horas.52 No entanto, não há necessidade de sair por aí comprando tiras de velcro e almofadas redondas; os efeitos sobre a qualidade da relação são semelhantes quando, simplesmente, nos sentamos com nossos cônjuges para criar uma lista de coisas que ambos gostaríamos de fazer e que consideramos empolgantes. Os pesquisadores suspeitam que a participação conjunta em atividades empolgantes e novas desencadeia sentimentos positivos (nesse sentido, a apreensão que sentimos quando praticamos escalada pode ser interpretada como um reforço à atração),53 estimula a interdependência e a proximidade dos casais (devido ao aspecto colaborativo de muitas dessas atividades, como rastejar sobre o colchonete), nos leva a aprender coisas novas sobre o outro (como em um estudo que instruía os casais a escolherem cartões com perguntas íntimas e a se revezarem para respondê-las)54 e gera emoções positivas em geral (como orgulho, divertimento, curiosidade, alegria), o que tende a colorir todos os aspectos de nossas vidas com pinceladas mais positivas e mais otimistas, incluindo nossos casamentos. NÃO ESTOU MAIS APAIXONADO, OU ACOSTUMANDO-SE COM O SEXO COM SEU CÔNJUGE Mesmo no mais feliz dos casamentos, chegará um momento em que já não obteremos o mesmo estímulo de felicidade ao passar algum tempo com nosso cônjuge – ou com qualquer uma das formas complementares de matrimônio –, como já obtivemos um dia. Um dos infelizes corolários deste processo natural de desdobramento é que, no �m, também obteremos menos prazer no sexo conjugal.55 Nenhum de nós deveria �car surpreendido ou atormentado com isso, mas muitos, claramente, �cam. Quando acabamos de descobrir a paixão, quando ela ainda está no auge e ainda nos tira o fôlego, �camos tão intensamente governados por emoções, pensamentos e fantasias pontuais que não conseguimos imaginar o dia em que a intensidade destas sensações arrefecerá. O fato desagradável é que a paixão e, especi�camente, a excitação sexual são particularmente propensas à acomodação. Experimentos de laboratório, que acompanharam as alterações na excitação sexual em resposta à apresentação repetida de fotos eróticas ou instruções para se entregar a fantasias sexuais, revelaram que homens e mulheres mostraram excitação reduzida (avaliada tanto pela simples solicitação quanto pela mensuração do ingurgitamento genital real) ao longo do tempo.56 Em última análise, a familiaridade nem sempre levará ao desprezo, mas ela, certamente, gera indiferença. Nas palavras de Raymond Chandler, “O primeiro beijo é mágico. O segundo é íntimo. O terceiro é rotina”.57 Por outro lado, a novidade pode servir como um poderoso afrodisíaco, conforme ilustrado pelo “efeito Coolidge”. Segundo a lenda, certa manhã, o ex-presidente americano Calvin Coolidge e a primeira-dama Grace Anna Goodhue foram visitar um aviário em Kentucky. Durante o passeio, a senhora Coolidge quis saber do agricultor por que tão poucos galos rendiam um número tão grande de ovos. O agricultor explicou, orgulhosamente, que seus galos cumpriam seus deveres dezenas de vezes por dia. A Sra. Coolidge �cou muito impressionada com isso e respondeu, incisivamente: “Diga isso ao presidente”. O Sr. Coolidge, tendo ouvido o comentário sobre o desempenho dos galos, perguntou ao fazendeiro: “E é sempre com a mesma galinha todas as vezes?”. “Ah, não, senhor presidente”, respondeu o fazendeiro, “cada vez com uma galinha diferente”. O presidente balançou a cabeça lentamente, sorriu e disse: “Diga isso à Sra. Coolidge!”.58 Seja ou não uma história apócrifa, ela batizou o fenômeno segundo o qual quase todos os membros das espécies de mamíferos sociais demonstrarão um desejo e um desempenho sexual renovados quando novos parceiros receptivos lhes forem apresentados. Os seres humanos parecem ser tão suscetíveis ao efeito Coolidge quanto os galos e as galinhas. De fato, biólogos evolucionistas postulam que a variedade sexual é evolutivamente adaptável; ela evoluiu para evitar o incesto e a endogamia em ambientes ancestrais. A ideia é que,