Prévia do material em texto
Gestão na Sala de Aula Juliana Branco Gestão na Sala de Aula 2 Introdução Olá! Você já pode discutir sobre o tema didática e argumentar sobre o assunto, certo? Já conhece as tendências pedagógicas, os objetivos educacionais, o processo de ensino e aprendizagem e algumas competências que o docente precisa dominar. Abordamos temas muito importantes para sua formação e agora vamos enriquecer a discussão sobre a gestão na sala de aula como conjunto de medidas que visem a uma aprendizagem significativa, além de entender questões sobre a gestão da aprendizagem e compreender a importância da interação no processo educativo. Fique atento aos prazos, faça as atividades e continue se preparando para a docência. Bons estudos! Objetivos da Aprendizagem Ao final do conteúdo, esperamos que você seja capaz de: • Discutir a gestão na sala de aula como conjunto de medidas que visem a uma aprendizagem significativa; • Entender questões sobre gestão da aprendizagem, gestão da conduta e gestão da interação cultural; • Compreender a importância da interação no processo educativo. 3 Gestão da Sala de Aula Para este conteúdo, iremos utilizar como referência autores como Weinstein e Novodvorsky e Libâneo. Para Libâneo (2008), podemos utilizar os termos “administração escolar” e “gestão escolar” também quando discutimos educação. Para isso, o autor define os termos conforme a seguir: Organizar: significa dispor de forma ordenada, articular as partes de um todo, prover as condições necessárias para realizar uma ação; Administrar: é o ato de governar, de pôr em prática um conjunto de normas e funções; Gerir: é administrar, gerenciar, dirigir. (LIBÂNEO, 2008, p. 97) Quando falamos em gestão e aqui, especificamente, gestão escolar, temos que pensar em todos os envolvidos e que cada um tem um papel a desempenhar. E para que os objetivos sejam alcançados, é preciso que cada um realize seu papel de maneira eficiente. Libâneo (2001) nos lembra que o modo de pensar e agir de cada um fará diferença no processo de gestão. Assim, o autor afirma: [...] a escola não é uma estrutura totalmente objetiva, mensurável, independente das pessoas, ao contrário, ela depende muito das experiências subjetivas das pessoas e de suas interações sociais, ou seja, dos significados que as pessoas dão às coisas enquanto significados socialmente produzidos e mantidos. (LIBÂNEO, 2001, p. 3). No ambiente escolar, há uma cultura já estabelecida, há interesses individuais e mútuos, e isso precisa ser considerado. O autor nos mostra que a gestão é humana, não mecânica, e envolve fatores distintos de acordo com a cultura em que a escola está inserida, do governo vigente e até mesmo dos sujeitos envolvidos. Nesse contexto, Padro (2017) define que “a gestão da sala de aula é um conjunto de ações interligadas, que envolvem todos os sujeitos, da escola e sociais, com o uso de métodos práticos próprios e sugeríveis, a fim de possibilitar o ensino e aprendizagem” (PRADO, 2017, p. 28). Weinstein e Novodvorsky (2015) afirmam que, quando adentramos a sala de aula como docentes, estamos retornando a um local familiar, é como “[…] voltar para casa após uma breve ausência” (WEINSTEIN; NOVODVORSKY, 2015, p. 2). Mesmo sendo um local familiar, gerir uma sala de aula não é tarefa simples, pois há muitos envolvidos. Então, é preciso tempo e espaço adequado, além de alunos e professores motivados e interessados em seus afazeres. 4 Leia mais sobre o assunto acessando a reportagem “Gestão da sala de aula: você seguro em classe”. O conteúdo está disponível no link. Saiba mais Podemos classificar a gestão da sala de aula em três processos: gestão administrativa, gestão pedagógica e gestão da sala de aula. A gestão administrativa é responsável pela organização dos recursos materiais e financeiros de forma eficiente, pois toda a escola depende disso para funcionar. É preciso planejamento e previsão das necessidades para que nada saia errado; a gestão pedagógica é responsável pela organização eficiente do processo de ensino e aprendizagem. Essa gestão precisa ficar atenta ao Projeto Político Pedagógico da escola e seguir o que foi prescrito. Assim, precisa envolver todo o corpo docente e o discente nas atividades e conscientizar todos sobre as ações necessárias. A gestão da sala de aula é fundamental no processo educativo, pois é ela que irá garantir a aprendizagem significativa. Essa gestão é composta por pelo menos três ações inter-relacionadas: a gestão da aprendizagem, a gestão da conduta e a gestão da interação cultural. Para acompanhar todo esse processo de forma responsável, o professor precisa estar em constante formação. A gestão da aprendizagem envolve mediação, interação com os alunos e conhecimento, e o professor será o elo entre o conhecimento e o aluno. Veja como é importante e complexa a atividade docente: é preciso refletir como fazer com que o aluno aprenda e quais as ações a serem praticadas para alcançar esse objetivo. Para início da ação, o primeiro passo é conhecer bem o conteúdo, sua estrutura, pesquisar a melhor forma de trabalhá-lo. Isso exige planejamento e avaliação de cada processo. Entender o que é aprendizagem significativa é essencial, pois isso fará diferença em cada ação planejada. O conteúdo precisa fazer sentido para o aluno, assim, o aprendizado acontecerá de forma mais tranquila, pois, nesse ponto, a interação tem grande destaque e é preciso ser pensada e repensada. Estamos falando de pessoas, de comunicação, de relações, por isso, lembre-se sempre disso. Relativo à gestão da conduta, podemos afirmar que a disciplina positiva na sala de aula é fundamental para que o planejamento didático se materialize e a aprendizagem ocorra de maneira satisfatória. https://goo.gl/E5jHUZ 5 Precisamos entender que a questão da disciplina não é unilateral e, por isso, não basta estabelecer regras e tudo estará resolvido. E, caso não sejam cumpridas as regras, não basta ter a punição, certo? O que você acha disso? Como pretende agir diante de alunos indisciplinados? Lembra que discutimos isso ? Volte lá e repense sobre o assunto. Punir a indisciplina não é suficiente e não garante que isso não ocorra novamente, é preciso pensar em uma gestão da conduta participativa em uma tomada de consciência por todos de forma autônoma. Relativo à gestão da interação cultural, como já estudamos, é preciso entendimento das diferenças e do respeito. Somos um povo mestiço, originário de diversas culturas, então, fica fácil entender o que é interação cultural; o professor é uma pessoa que carrega uma carga cultural e o aluno precisa entender isso. Logo, é preciso diálogo, despertar do interesse pelo outro e pelos seus conhecimentos, e isso fará grande diferença na gestão da sala de aula. Para que o outro compreenda o seu papel, primeiramente, você precisa entender o que é ser professor, se você compreende seu ofício e seu espaço laboral, ficará mais tranquilo o trabalho. Assim, entenderá melhor os saberes necessários, o que deve ser aprimorado, quais são suas possibilidades. “A organização efetiva e a gestão requerem uma compreensão das características únicas da sala de aula” (WEINSTEIN; NOVODVORSKY, 2015, p. 4). As características devem seguir os objetivos gerais da escola e quem orienta isso é o Projeto Político Pedagógico. Ao discutir a gestão da sala de aula, Balzan (2014) alerta para a identificação do surgimento dos problemas na sala de aula, se estes tiveram origem nesse espaço ou não. Se sim, é fundamental que as discussões ocorridas fiquem dentro da sala e não sejam externadas para toda a comunidade. Se não, são problemas originados na sala de aula e é necessário ampliar o debate, pois a escola faz parte do contexto social. Nesse viés, será importante discutir a quem recorrer e como recorrer. Ele ainda ressalta que o estudo da Didática trabalha com vários aspectos da educação, mas não é a salvadora de todos os problemas que surgem no espaço escolar.É preciso entender que não há receita para resolver os conflitos e gerir uma sala de aula de forma exemplar. Muitos problemas são inerentes à sala de aula e a escola não é a salvadora ou a mola-mestra para salvar a sociedade (BALZAN, 2014). Claro que pode contribuir muito, mas para isso é preciso investimento em infraestrutura e valorização do magistério. Balzan (2014) indica a necessidade de maior vinculação entre a teoria e a prática e, dessa forma, o maior comprometimento com a realidade social. Esse movimento 6 pode sim partir da didática e pode traçar caminhos de mudança para a educação brasileira, e é evidente que isso influenciará a gestão da sala de aula. Figura 1 – Gestão da sala de aula Fonte: Plataforma Deduca (2023). Weinstein e Novodvorsky (2015) afirmam que a gestão da sala de aula é possível de ser compreendida e aplicada, visto que, para isso, é necessário estudar, estar em constante formação; e por isso a importância da formação continuada. O que é essencial é a vontade aprender, de conquistar novos saberes. Para essas autoras, é fundamental que o docente esteja pronto e disposto a antecipar problemas, analisar situações, gerar soluções, tomar decisões bem planejadas e aprender a partir de seus erros. Isso é gestão eficiente da sala de aula. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (BRASIL, 1996) atual orienta para uma gestão democrática. O artigo 3º dessa lei expõe que o ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: I – igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; II – liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber; III - pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas; IV – respeito à liberdade e apreço à tolerância; V – coexistência de instituições públicas e privadas de ensino; VI gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais; VII – valorização do profissional da educação escolar; VIII – gestão democrática do ensino público, na forma desta Lei e da legislação dos sistemas de ensino; IX – garantia de padrão de qualidade; X - valorização da experiência extraescolar; XI – 7 vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as práticas sociais; e XII – consideração com a diversidade étnico-racial. (BRASIL, 1996, grifo do autor). Segundo o artigo 14: Os sistemas de ensino definirão as normas da gestão democrática do ensino público na educação básica, de acordo com as suas peculiaridades e conforme os seguintes princípios: I – participação dos profissionais da educação na elaboração do projeto pedagógico da escola; e II – participação das comunidades escolar e local em conselhos escolares ou equivalentes. (BRASIL, 1996). Veja que a lei enfatiza o que discutimos até aqui: é necessária uma participação democrática, participativa. Quando todos estão envolvidos com o processo, o alcance dos objetivos será mais tranquilo, pois todos estarão trabalhando juntos. Todos se referem a gestores escolares, docentes, discentes, pais, comunidade, entre outros atores. A gestão da sala de aula envolve ações para que o professor consiga a atenção dos seus alunos, a construção de rotinas para organizar o tempo, o espaço físico da sala e provoque os alunos para a participação e o alcance da aprendizagem significativa. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) atual, em seu artigo 34, diz que “a jornada escolar no ensino fundamental incluirá pelo menos quatro horas de trabalho efetivo em sala de aula, sendo progressivamente ampliado o período de permanência na escola” (BRASIL, 1996). Está aí a obrigatoriedade do trabalho em sala 8 de aula que precisa ser bem conduzido, com objetivos bem definidos para o alcance da aprendizagem significativa. Rotinas Principais atividades Para o funcionamento da turma: permite que a sala funcione tranquilamente. Está dividida em três partes: rotinas administrativas, rotinas para circulação de alunos e manutenção. Rotinas administrativas: • Fazer chamada, registrar atrasos e distribuir avisos escolares. Para a circulação dos alunos: • Entrar e sair da sala no início e no fim do tempo da aula, ir ao banheiro, à enfermaria, à biblioteca, participar de treinamento de incêndio, apontar lápis, usar computadores e outros equipamentos e pegar materiais. Manutenção: • Limpar o quadro, molhar as plantas, guardar itens pessoais e manter área de armazenamento comum. Para o funcionamento da aula: apoiam diretamente o ensino, especificando os comportamentos necessários para que o ensino e o aprendizado ocorram. • O que trazer para a aula, recolher o dever de casa, registrar quem fez o dever de casa, devolver o dever de casa, distribuir materiais, preparar o papel para uma tarefa (cabeçalho, margens, tipo de instrumento de escrita), recolher os deveres feitos na sala e especificar o que fazer quando as tarefas forem cumpridas. Para interação: especificam quando a conversa é permitida e como ela pode ocorrer. Conversa entre professor e alunos: • Durante as aulas para toda turma, quando o professor está trabalhando com um grupo pequeno, quando o professor precisa da atenção da turma e quando os estudantes precisam da atenção do professor. Conversa entre alunos: • Durante as tarefas independentes, antes de o sinal tocar, durante as transições e os anúncios no alto-falante, durante atividades de aprendizado cooperativo e conferência entre os pares e quando um visitante vem falar com o professor. Quadro 1 - Resumo das rotinas de sala de aula Fonte: Baseado em Weinstein e Novodvorsky (2015, p. 93, apud PRADO, 2017, p. 36). Quando dialogamos acerca da interação em sala de aula, devemos também pensar em construir uma maneira de repensar a didática em nossas salas. Para Balzan (2014), devemos nos afastar de: (...) modismos e jargões de toda sorte, visão ingênua sobre os problemas educacionais – desvinculados de problemática político-pedagógica- econômico-social – e, acima de tudo, descompromisso para com a própria educação. (BALZAN, 2014, p. 95). Para o autor, trabalhamos em sala e fazemos a sua gestão de forma fragmentada, conteudista, preocupados mais com a quantidade do que com a qualidade de nossas aulas. Temos que pensar que a ação docente é uma ação política e, dessa forma, nos envolver com os problemas educacionais também em seus aspectos políticos, 9 econômicos e sociais, uma vez que eles “permeiam e ao mesmo tempo refletem o aspecto educacional.” (BALZAN, 2014, p. 103). Podemos afirmar que essa é uma questão sempre presente quando o assunto é a gestão da sala de aula. O professor precisa ter em mente a necessidade de agir com ponderação, de forma a respeitar os limites da gestão democrática e deixando claro que, para que os objetivos educacionais sejam alcançados, é preciso seguir regras. Nesse ponto, é fundamental enfatizar que as regras precisam ser conhecidas por todos e, sempre que possível, serem formuladas com a participação de vários atores. As regras envolvem comportamentos, deveres e direitos, e devem ser compartilhadas e definidas no primeiro dia de aula. Assim, o papel do professor não será o de punir de acordo com o modo pessoal, mas sim de fazer valer o que está estabelecido. Discussão sobre Autoridade e Autoritarismo Para Weinstein e Novodvorsky (2015), a gestão da sala de aula compreende um conjunto de rotinas e normas de comportamento que devem ser cumpridas pelo docente e pelo discente para que o ensino aconteça e os objetivos educacionais sejam alcançados sem intervenções desnecessárias. Quando você ouve as palavras autoridade e autoritarismo, o que você imagina? Em suas práticas educativas, o professor deve exercer a sua autoridade, no sentido de fomentar o desenvolvimento autônomo dos alunos. Essa autoridade ocorre à medida que o professor traça objetivos, planeja, seleciona os conteúdos e encaminha o processo de ensino e aprendizagem. Tais ações favorecem para que os alunos prossigam mais independentes e autônomos.Desse modo, a autoridade não deprecia a relação educativa, mas a impulsiona. Podemos afirmar que a autoridade do professor e a autonomia do aluno fazem parte do processo pedagógico e se complementam. Ao professor, cabe o papel de mediar a relação entre o aluno e a sociedade. O aluno, nesse contexto, tem sua liberdade e sua individualidade. Tal liberdade (de cada um) está diretamente relacionada às questões grupais e à situação pedagógica, o que implica responsabilidade. Como afirma Libâneo (1994), “[...] a liberdade é o fundamento da autoridade e a responsabilidade é a síntese da autoridade e da liberdade.” (LIBÂNEO, 1994, p. 276). No que diz respeito à autoridade e à autonomia, a interação professor-aluno também pode ter conflitos. Infelizmente, de posse de uma suposta autoridade, há professores que acreditam ser superiores aos alunos, humilhando-os ou fazendo imposições descontextualizadas. Tais situações revelam o abuso de autoridade: o autoritarismo, 10 que, nitidamente, não contribui para o processo evolutivo dos alunos. Isso porque o professor autoritário não usa sua autoridade para desenvolver a autonomia e a independência do sujeito, o que acaba sendo prejudicial à interação professor-aluno. É comum que crianças, jovens ou adultos, quando estão em grupo, gostem de interagir, falar alto, dar risadas e fazer piadas, porém, tais comportamentos na sala de aula podem dificultar que o professor mantenha a disciplina da turma. É importante ressaltar que a disciplina de uma sala tem relação direta com o estilo da prática docente. E o que isso significa? Refere-se à autoridade profissional, moral e técnica do professor, ou seja, quanto mais autoridade o professor exerce, mais os alunos valorizarão a prática educacional e sua atuação em sala de aula. Pense em um professor que fez parte de sua trajetória escolar, que tenha demonstrado atenção e respeito por você e seus colegas. Reflita sobre as ações do professor, como ele tratava você e seus colegas em sala de aula, se a aula era somente para transmitir conteúdos ou se havia outras conversas, pesquisas ou temas de interesses a serem discutidos. Você consegue lembrar se algum professor seu desenvolveu ações que visavam ao bem-estar da turma? Se sim, reflita sobre isso e sobre como agregar essa prática em sua atividade como futuro docente. Se não, pense em como agir para não reproduzir o que vivenciou e, desse modo, ser um profissional que se preocupa com o bem-estar dos alunos. Reflita Para demonstrar autoridade profissional, o professor precisa dominar tanto os métodos, os procedimentos e o conteúdo que ministra, quanto ter uma boa percepção para mediar as relações com a turma, verificando o trabalho realizado pelos alunos e o seu próprio trabalho. A autoridade moral diz respeito às qualidades de personalidade do professor, como a sua dedicação ao trabalho docente, sensibilidade, senso de justiça e marcas próprias de caráter. Já a autoridade técnica representa o conjunto de habilidades, capacidades e hábitos imprescindíveis para ensinar os alunos de forma eficaz. Libâneo (1994) exemplifica essa autoridade, afirmando que ela: [...] se manifesta na capacidade de empregar com segurança os princípios didáticos e o método didático da matéria, de modo que os alunos compreendam e assimilem os conteúdos das matérias e sua relação 11 com a atividade humana e social, apliquem os conhecimentos na prática e desenvolvam capacidades e habilidades de pensarem por si próprios. (LIBÂNEO, 1994, p. 252). No contexto desse conteúdo, entendemos que a disciplina dos alunos no ambiente escolar envolve o engajamento em propostas atrativas e diversificadas, em que o professor exerce um papel muito importante junto da coletividade escolar na mediação de confrontos e diálogos. Alguns comportamentos – como ficar em pé na cadeira da sala de aula – podem ser considerados atos de indisciplina. Mas e se aparecer uma barata na sala de aula e um aluno, com pavor do inseto, sobe na cadeira para se proteger? É um ato de indisciplina? De acordo com Candau (2010), a questão de disciplina e indisciplina na escola pode ser entendida com base nos pressupostos da literatura clássica e da literatura alternativa. A chamada literatura clássica entende que há atitudes e meios para que os professores consigam manter a “ordem” para ensinar. Assim, cabe ao aluno se adaptar às regras e às normas impostas para construir um convívio adequado na escola, sendo considerado disciplinado. Nessa visão, o professor é o único responsável por manter a disciplina em sala de aula, sendo que os alunos provenientes de famílias com baixa renda são vistos como os que menos conseguem respeitar as regras. Na literatura alternativa, entende-se que a disciplina do aluno depende da organização das atividades propostas, ou seja, se os alunos e os professores estão envolvidos no que estão fazendo, as evidências de indisciplina desaparecem. Desse modo, é possível identificar conflitos na escola envolvendo alunos de diferentes classes sociais, não somente os de classes mais baixas, desmistificando o pensamento de que esses estudantes frequentemente apresentam dificuldades para respeitar limites, regras e normas. Assim, a participação coletiva promove o diálogo, o respeito e o entendimento das situações. Você, futuro educador, precisa refletir que a disciplina, atualmente, não pode ser vista como uma situação para manter a “ordem” a partir da obediência às regras impostas verticalmente pela escola, pelos gestores e pelos professores. É fundamental que a visão da literatura clássica sobre disciplina seja superada: não é significativo moldar comportamentos dos alunos de modo autoritário, mas buscar entender os comportamentos com diálogo é fundamental. Um professor que atua com autoridade, ao se relacionar com as pessoas, trata-as com respeito, com senso de justiça, paciência; domina os conteúdos e se preocupa com o desenvolvimento de todos os alunos com igual valor. Por outro lado, há professores 12 que não conseguem exercer a sua autoridade. Assim, buscam controlar as situações da sala com atitudes autoritárias, impondo o poder (por se considerar adulto, hierarquicamente superior aos alunos etc.) nas decisões cotidianas na sala de aula. A Interação Professor-Aluno No livro “Didática em Questão”, organizado por Candau (2014), são apontadas questões que nos conduzem à reflexão acerca da importância de a didática caminhar junto de outras áreas, como a Psicologia e a Sociologia. Nessa visão de interação multidisciplinar, também podemos discutir a interação dos principais sujeitos do processo educativo: o professor e o aluno. Dessa forma, a didática não será, de forma alguma, entendida como teoria ou técnica a ser estudada de forma isolada. Já entendemos que a prática educativa não se limita à transmissão e à recepção de mensagem ou conhecimentos. Ela exige uma interação que torna os saberes mais ricos. A autora indica que, nessa interação, devem ser respeitadas a ordem, a ética e os valores de cada área e de cada sujeito envolvido. Nesse aspecto, cabe também citar uma parte do livro de Arroyo, “Currículo, território em disputa”, em que o autor discute questões relacionadas ao currículo e ao papel do professor. Segundo o autor, os saberes da prática docente disputam espaço com um currículo engessado que precisa ser cumprido. Para ele, há uma grande preocupação em cumprir determinadas tarefas que levam o professor a ser um aulista e não um sujeito que pensa e repensa sua prática, ou seja, há metas a cumprir, conteúdos a serem trabalhados obrigatoriamente, notas a serem alcançadas, há uma pressão sobre a docência que, infelizmente, acaba deixando de lado questões relacionadas a vivências humanas tão importantes na sociedade atual. A escola, muitas vezes preocupada com a questão da empregabilidade, esquece que precisa primar pela transformação do homem, pelo convívio em sociedade, pelo respeito ao próximo e pelavalorização das diferenças. Para o autor temos que pensar no trabalho como princípio educativo e não em uma educação cujo fim é o trabalho. Isso tudo faz parte de um saber e de um fazer pedagógico. Nessa perspectiva, a relação professor-aluno é essencial para o sucesso do processo de ensino e aprendizagem e para o cumprimento da ação social da escola. Essa relação não está ligada unicamente ao professor e aos alunos, mas à organização da escola e da sociedade, marcada pelas diferentes teorias que você já conheceu, tais como a teoria da escola tradicional, da escola nova, da escola tecnológica etc. Vale exemplificar que existe nas escolas certa influência da proposta pedagógica apoiada por Paulo Freire, em que o vínculo 13 da relação professor-aluno é libertador, baseado no diálogo, em que tanto professor quanto aluno são sujeitos do ato de conhecimento. Figura 2 – Relação professor-aluno Fonte: Plataforma Deduca (2022). Em sua formação, com o apoio da didática e de outras disciplinas, pressupõe-se que o professor possa compreender a totalidade social da prática educativa que possibilite refletir sobre a realidade, em que o conhecimento seja condição para a emancipação humana, e também para o domínio dos processos pedagógicos do cotidiano docente, tais como selecionar os conteúdos e as formas didáticas, saber manejar a classe, conhecer as disposições do aluno, entre outros. Segundo Candau (2014), é importante salientar que a formação docente precisa ter como premissa o desenvolvimento da capacidade crítica dos futuros professores, pois só assim eles poderão analisar de forma clara a realidade da educação brasileira e mundial. A autora entende que os professores são os protagonistas do processo histórico-educacional, sendo influenciados e influenciadores do sistema educacional. Nesse aspecto, a formação docente também deve abordar a história da educação, as influências de cada época, pois há uma história a ser estudada e ampliada no presente. Isso envolve pesquisa e estudo, por isso a autora defende a importância do trabalho de pesquisa na formação docente. A pesquisa envolve relação entre o passado, o presente e o futuro e é uma forma de propor novas práticas de forma fundamentada. Aqui também cabe citar Luckesi (2014), que nos convida a pensar em uma formação docente que coloque o educador como sujeito e não como objeto, uma vez que “a 14 Didática, ao exercer o seu papel especifico, deverá apresentar-se como elo tradutor de posicionamento teórico em práticas educacionais.” (LUCKESI, 2014, p. 34). Ao abordar o tema formação docente, Martins (1991) afirma que, na formação do futuro educador, deve-se considerar que o aluno tende a reproduzir (mesmo que inconscientemente) a forma com que seus professores se relacionaram e contribuíram para sua formação. Tal situação costuma afastar a teoria de como deve ser a relação professor-aluno da prática. Isso porque a relação professor-aluno é composta do que se vivencia. É um conteúdo oculto no qual se aprende, muitas vezes, a submissão, o respeito às normas e a obediência, mesmo que de forma não intencional. Embora o professor tenha aprendido durante a sua formação que deve ter uma relação afetuosa e de diálogo com os alunos, infelizmente o “conteúdo oculto” que vivenciou na sua formação é mais forte e presente. Por nossa própria experiência, sabemos que não é incomum a existência de uma relação autoritária do professor com os alunos. Entretanto, essa relação, muitas vezes, não é vista dessa forma pelo professor, logo, não é assumida por ele. O professor, embora saiba como a relação professor-aluno deve ser desenvolvida, na prática, não consegue efetivá-la, deixando que o conteúdo oculto das suas experiências prevaleça. Em suas pesquisas, Martins (1991) destaca que os professores, quando questionados sobre essa relação autoritária, tentam justificá-la com elementos externos e que não dependem deles, mas que interferem negativamente na relação professor-aluno. Podemos listar alguns motivos dados pelos professores para justificar a relação autoritária em sala de aula: classes numerosas e desinteresse do aluno, o que gera indisciplina e dificulta uma relação cordial; programação de conteúdos extensos, que obriga o professor a dar aulas expositivas sem espaço para diálogo com os alunos; se o professor atende um aluno individualmente, os demais ficam sem atendimento pela falta de tempo para isso; a partir do Ensino Fundamental II, os alunos têm muitos professores; e os professores, muitas turmas, o que dificulta a aproximação entre professor e alunos. Mesmo com todos os obstáculos citados pelos professores, muitos percebem que a relação professor-aluno precisa ser harmoniosa. Tal necessidade favorece que consigam desenvolver um trabalho pedagógico mais adequado, influenciando positivamente o processo de ensino e aprendizagem. Para isso, buscam criar alternativas para melhorar a relação professor-aluno: estimulam o diálogo sem discriminações, tentam colaborar para que os alunos consigam solucionar seus problemas; dão abertura para que os alunos exponham suas experiências; realizam atividades em grupo e tentam se colocar no lugar do aluno, sendo mais próximos dele. 15 Entre as qualidades dos melhores professores, destacam-se: • Domínio do conteúdo; • Apresentação da matéria adequadamente; • Bom relacionamento com o grupo; • Clima positivo na sala; • Senso de humor; • Prazer de ensinar; • Capacidade de tornar a aula interessante. Atenção Vimos, então, que o professor deve apresentar os objetivos, os temas que serão estudados, as tarefas, os questionamentos e as instruções de forma clara para que todos compreendam os conteúdos de ensino. Sabemos que não é possível um entendimento pleno entre professor e alunos, mas a comunicação é parte muito importante para que essa interação aconteça da melhor forma possível. A interação entre alunos e professor não se limita à apresentação das tarefas ou às orientações por parte do professor, mas envolve ouvir os alunos com atenção, estimulando-os para que consigam se expressar, opinar e dar respostas aos questionamentos. 16 Conclusão Aprofundando nossos conhecimentos, discutimos a essência da Didática e suas interações cruciais com as tendências pedagógicas, os objetivos educacionais e o processo de ensino e aprendizagem. Essa base de conhecimento sólida nos capacitou para avançar rumo a uma compreensão abrangente da gestão na sala de aula e suas ramificações educacionais. À medida que encerramos este conteúdo, somos lembrados de que a gestão em sala de aula é um conjunto estratégico de medidas que visa propiciar uma aprendizagem significativa. Com um olhar atento para a dinâmica do ambiente de aprendizado, aprendemos como a gestão da aprendizagem é fundamental para maximizar o potencial dos estudantes. A interação, tanto entre educador e educandos quanto entre os próprios alunos, emerge como um fator central nesse processo. Os temas abordados, desde as tendências pedagógicas até a gestão da sala de aula, são peças vitais no quebra-cabeça da formação docente. Aprofundando nossa compreensão sobre a didática, construímos a base para uma abordagem educativa que almeja a transformação e o crescimento dos alunos. Referências ARROYO, M. G. Currículo, território em disputa. Petrópolis: Vozes, 2011. BALZAN, N. C. A pesquisa em didática: realidade e propostas. In: CANDAU, V. M. (Org.). A didática em questão. 36. ed. Petrópolis: Vozes, 2014. BRASIL. Ministério da Educação. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional n.9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 20 dez. 1996. Disponível em: http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9394.htm. Acesso em: 17 ago. 2017. CANDAU, V. M. Rumo a uma nova didática. 20. ed. Petrópolis: Vozes, 2010. ______. Papel da didática na formação de educadores.In: CANDAU, V. M (Org.). A didática em questão. 36. ed. Petrópolis: Vozes, 2014. LIBÂNEO, J. C. Didática. São Paulo: Cortez, 1994. ______. Organização e gestão da escola: teoria e prática. Goiânia: MF livros, 2008. ______. O sistema de organização e gestão da escola. 2001. Disponível em: https:// acervodigital.unesp.br/bitstream/123456789/32/3/LDB_Gest%C3%A3o.pdf. Acesso em: 1 ago. 2017. LIBÂNEO, José Carlos. Organização e gestão da escola: teoria e prática. 5. ed. Goiânia: MF Livros, 2008. LUCKESI, C. C. O papel da didática na formação do educador. In: CANDAU, V. M. (Org.). A didática em questão. 36. ed. Petrópolis: Vozes, 2014. MARTINS, P. L. O. Didática teórica/didática prática: para além do confronto. 2. ed. São Paulo: Loyola, 1991. 18 PRADO, T. S. Gestão da sala de aula em turmas do 6º ano do Ensino Fundamental em uma escola pública. Londrina, 2017. 100 f. Dissertação (Programa de Pós-Graduação em Metodologias para o Ensino de Linguagens e suas Tecnologias) – Universidade Norte do Paraná – (UNOPAR), Belo Horizonte, 2017. SANTOS, C. A. G. dos. Pressupostos teóricos da didática. In: CANDAU, V. M. (Org.). A didática em questão. 36. ed. Petrópolis: Vozes, 2014. WEINSTEIN, C. S.; NOVODVORSKY, I. Gestão da sala de aula: lições da pesquisa e da prática para trabalhar com adolescentes. Porto Alegre: AMGH, 2015.