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DEPARTAMENTO DE QUÍMICA ANALÍTICA GRADUAÇÃO EM QUÍMICA INDUSTRIAL - BACHARELADO PROFESSOR FÁBIO GRANDIS LEPRI REBECCA BAPTISTA ALVES DE OLIVEIRA TITULAÇÃO POTENCIOMÉTRICA DA MISTURA DE IODETO E CLORETO POR NITRATO DE PRATA. Niterói - RJ Dezembro de 2024 1. Introdução A constante do produto de solubilidade (Kps) indica o quanto uma espécie química sólida se dissocia em água, representando o equilíbrio entre um sólido iônico e sua solução saturada. Quando um eletrólito é adicionado à água, independentemente se a solubilidade é alta ou baixa, ocorre a sua dissociação, liberando íons na solução. Simultaneamente, esses íons voltam a formar o eletrólito, estabelecendo um equilíbrio químico de dissolução. O Kps de uma espécie pode ser obtido através do produto da concentração dos íons envolvidos no equilíbrio, cada um elevado à potência de seu coeficiente na equação de equilíbrio. XₐY (s) ⇌ aX⁺ (aq) + nY⁻ (aq) Kps = [X⁺]ª.[Y⁻]ⁿ Em titulações potenciométricas simultâneas de misturas, um dos métodos utilizados é o método de Precipitação Fracionada ou Precipitação Controlada. O processo consiste na separação de íons adicionando à solução um agente precipitante a fim de formar um composto pouco solúvel com apenas um dos cátions presentes. Caso o agente precipitante seja capaz de formar compostos pouco solúveis com mais de um íon, a separação ainda se torna possível, desde que as solubilidades dos sólidos sejam significativamente diferentes, mesmo em pequenos valores. Através do controle da concentração do agente precipitante, consegue-se precipitar um cátion por vez. Nesse processo, a concentração deve ser ajustada de forma que o produto iônico seja maior que o produto de solubilidade (Kps) apenas para um dos íons. Como exemplo temos a titulação potenciométrica de cloreto e iodeto, que se dá pela grande diferença de solubilidade entre os sais de cloro e iodo, que apresentam o produto de solubilidade com respectivos valores de 1,80.10⁻¹º e 8,30.10⁻¹⁷. Essa diferença de valores de Kps é essencial para o distanciamento dos pontos finais da titulação. Os eletrodos combinados de prata são amplamente utilizados em titulações potenciométricas devido à sua praticidade e precisão. Eles consistem em um eletrodo indicador de prata e um eletrodo de referência integrados em uma única unidade. Durante a titulação, o eletrodo de prata responde às mudanças na concentração de íons prata na solução, permitindo monitorar o potencial eletroquímico. Esse tipo de eletrodo é particularmente útil em titulações de precipitação, como na determinação de halogenetos, onde a formação de compostos insolúveis, como AgCl eAgI, provoca variações no potencial que podem ser relacionadas aos pontos de equivalência. Por ser compacto e de fácil manuseio, o eletrodo combinado simplifica o processo e melhora a precisão das medições. 2. Objetivos A prática realizada tem por objetivo realizar a titulação potenciométrica de uma mistura de iodeto e cloreto com AgNO₃, a fim de de determinar os volumes nos pontos finais da titulação e calcular os produtos de solubilidade do AgCl e AgI e as concentrações de halogenetos da amostra. 3. Materiais e reagentes Reagentes ● Solução amostra de halogenetos ● Solução padronizada de AgNO₃ 0,1 M ● Solução de HNO₃ 0,1 M Materiais ● Proveta de 100 ml ● Pipeta volumétrica ● Becker de 250 ml ● Placa de agitação ● Agitador magnético ● Bureta ● Potenciômetro ● Eletrodo combinado de prata 4. Procedimento Experimental Adicionou-se 10 ml de amostra de halogenetos junto a 1 ml de ácido nítrico em um becker e completou-se para 100 ml. Colocou-se o becker sobre uma placa de agitação e posicionou-se o eletrodo dentro da solução de forma que não encontrasse na parede do recipiente. Feito isso, realizou-se a titulação da solução com auxílio de uma bureta previamente preenchida com AgNO₃, adicionando incrementos de 1 ml por vez, anotando os valores de potenciais mensurados até atingir o volume de 15,00 ml. 5. Resultados e discussão A partir dos valores de AgNO₃ adicionados e potenciais obtidos na titulação, foi possível calcular a 1ª e 2ª derivada utilizando as equações 1, 2, 3 e 4. Com os valores calculados foi elaborada a tabela 1 e plotou-se os gráficos 1, 2 e 3. Eq. 1: ∆pH/∆V = (pH2 - pH1) / (V2 - V1) Eq. 2: ∆²pH/∆V² = (∆pH2 - ∆pH1) / (Vmed2 - Vmed1) Eq. 3: Vmed = (V1 +V2) / 2 Eq. 4: V’med = (Vmed1 + Vmed2) / 2 Tabela 1. Valores de volume de AgNO3, pH, 1ª e 2ª derivada. Gráfico 1. Curva de titulação para valores de potenciais em função do volume de AgNO₃ (ml) Gráfico 2. Curva para valores de 1ª derivada em função do volume médio de AgNO₃ (ml) Gráfico 3. Curva para valores de 2ª derivada em função do volume médio’ de AgNO₃ (ml). I⁻ (aq)+ Ag⁺ (aq) ⇌ AgI (s) Kps = 8,30.10⁻¹⁷ Cl⁻ (aq) + Ag⁺ (aq) ⇌ AgCl (s) Kps = 1,80.10⁻¹º Para fins de cálculos de concentração dos halogenetos, serão considerados dados do gráfico 3 devido a uma melhor definição de seus pontos. Analisando os gráficos 3, pode-se identificar o 1º e 2º ponto de equivalência da titulação, apresentados nos volumes de 4,70 ml e 9,80 ml de AgNO3 respectivamente. O primeiro ponto final é referente ao iodeto e o segundo é referente a o cloreto. A partir disto foi possível calcular as respectivas concentrações dos sais na amostra. (MM: Na = 22,98 g/mol; I = 126,90 g/mol; Cl = 35,45 g/mol, f.c AgNO3 = 1,012, V amostra = 10,00 ml) [I⁻] = (V Ag⁺ . C Ag⁺ . fc) / V amostra [I⁻] = (4,70 . 0,1. 1,012) / 10 [I⁻] = 0,04756 mol/L % NaI = [0,04756 . (22,98 + 126,90)] / 10 = 0,71 % (m/v) [Cl⁻] = [(V p.f 2 - V p.f 1) . C Ag⁺ . f.c] / V amostra [Cl⁻] = [(9,80 - 4,70) . 0,1 . 1,012] / 10 [Cl⁻] = 0,05161 mol/L % NaCl = [0,05161. (22,98 + 35,45)] / 10 = 0,30 % (m/v) Calculadas as concentrações, pode-se calcular o Kps do AgCl e do AgI. Os valores utilizados se referem ao momento após o segundo ponto de equivalência ( V = 10,00 ml). [Ag⁺] total = [Ag⁺] excesso = [Ag⁺] solução [Ag⁺]total ≃ [Ag⁺]excesso [Ag⁺]excesso = [Ag⁺]total - [Ag⁺]AgI - [Ag⁺]AgCl [Ag⁺]excesso = [[Ag⁺]total - (V AgNO3 - V AgI - V AgCl)] / (Vt + V AgNO3) [Ag⁺]excesso = [(0,1 . 1,012) . (10,00 - 4,70 - 5,10)] / (100,00 + 10,00) [Ag⁺]excesso = 1,84 .10⁻⁴ mol/L Eº = E* + (0,0592/n) . log[Ag⁺]excesso 0,3886 = E* + (0,0592/1) . log[1,84 .10⁻⁴] E* = 0,610 V Podemos calcular o produto de solubilidade (Kps) utilizando a concentração de halogeneto antes do ponto final, multiplicada pela concentração de íons prata nesse ponto. Para isso, fez-se o cálculo da concentração de Ag⁺, com o valor da constante E* calculada no volume antes do primeiro ponto de equivalência e no volume antes do segundo ponto de equivalência. Considerou-se os volumes de 3,00 ml e 8,00 ml para os pontos antes do 1º e 2º P.E, respectivamente. Concentração de [Ag⁺] em 3,00 mL, imediatamente antes do 1º P.E: -0,1164 = 0,610 + (0,0592/1) . log[Ag⁺] [Ag⁺] = 5,37 .10⁻¹³ mol/L Concentração de [I⁻] em 3,00 ml, imediatamente antes do 1º P.E: [I⁻] sobra = [(V I⁻ . C I⁻/f.d) - (V Ag⁺ . C Ag⁺ . fc)] / (V total + V Ag⁺) [I⁻] sobra = [( 0,1 . 0,04756/10) - (0,003 . 0,1. 1,012)] / ( 0,1 + 0,003) [I⁻] sobra = 1,670 .10⁻³ mol/L Kps = [Ag⁺] [I⁻] Kps = 5,37 .10⁻¹³ . 1,670 .10⁻³ Kps = 8,97 . 10⁻¹⁶ O pKps é utilizado para comparar a solubilidade de diferentes sais porque ele expressa a solubilidade de um sal de forma logarítmica, tornando mais fácil a comparação . Então para o cálculo do erro relativo, utiliza-se o Kps e m uma escala logarítmica , para simplificar a análise e permitir a avaliação relativa das solubilidades teóricas e experimentais. pKps = -log Kps pKps = -log 8,97 . 10⁻¹⁶ pKps = 15,05 Erro% = [(16,08- 15,05) / 16,08] . 100 = 6,41% Concentração de [Ag⁺] em 8,00 mL, imediatamente antes do 2 º P.E: 0,2142 = 0,610 + (0,0592/1) . log[Ag⁺] [Ag⁺] = 2.06 .10⁻⁷ mol/L Concentração de [Cl⁻] em 8,00 ml, imediatamente antes do 2º P.E: [Cl⁻] sobra = [(V Cl⁻ . C Cl⁻/f.d) - (V Ag⁺ . C Ag⁺ . fc)] / (V total + V Ag⁺) [Cl⁻] sobra = [( 0,1. 0,05161/10) - ((0,008-0.0098) . 0,1. 1,012)] / ( 0,1 + 0,008) [Cl⁻] sobra = 6,47 .10⁻³ mol/L Kps = 2.06 .10⁻⁷ . 6,47 .10⁻³ Kps = 1,33 . 10⁻⁹ pKps = -log 1,33 . 10⁻⁹ = 8,88 Erro% = [(9,74 - 8,88) / 9,74]. 100 = 8,83% Os valores teóricos de os pKps para AgI e AgCl apresentados na literatura são de 16,08 e 9,74⁽³⁾, respectivamente. Os valores experimentais de pKps obtidos foram de 15,05 para o iodeto de prata e 8,88 para o cloreto de prata, resultando em um erro de 6,41 % e 8,83 % respectivamente. O desvio observado apresentou valores consideravelmente distantes do esperado dado o uso de uma escala logarítmica. A calibração e a precisão do equipamento de medição afeta diretamente os valores de Kps calculados, uma vez que há uma dependência direta da concentração de Ag⁺ com o potencial medido. Tomando a calibração como causa dos erros apresentados, é fundamental o uso de equipamentos regulados para resultados fidedignos na técnica. 6. Conclusão. A técnica de titulação potenciométrica se mostrou eficiente para a determinação simultânea das concentrações dos halogenetos e na estimativa dos produtos de solubilidade do iodeto e cloreto de prata. Apesar dos valores experimentais de pKps obtidos apresentarem desvios consideráveis em relação aos valores teóricos, obteve-se concentrações com valores aceitáveis. Esses desvios reforçam a importância de um rigoroso controle na calibração e precisão dos equipamentos, visto que o valor de pKps calculado depende diretamente do potencial medido. Assim, para obter resultados mais precisos e próximos dos valores teóricos, recomenda-se o uso de instrumentos devidamente regulados e calibrados. 7. Referências 1. IONE MARIA F DE OLIVEIRA, MARIA JOSÉ DE S F DA SILVA, SIMONE DE F B TÓFANI, Precipitação Fracionada e Transformações Metatéticas, Universidade Federal de Minas Gerais – ICEx - Departamento de Química, Fundamentos de Química Analítica, 2009.Disponível em: 2. KUCHLER, I., RODRIGUES, S., MOREIRA, S., Apostila de química instrumental experimental, Departamento de química analítica da Universidade Federal Fluminense, 2º Ed., Niterói, 2023. 3. SKOOG, HOLLER, NIEMAN, Princípios de Análise Instrumental, 6ª Edição, Editora Bookman, São Paulo-SP, 2009. 4. TICIANELLI, E., Produto de Solubilidade, Universidade de São Paulo - Instituto de Química de São Carlos, Departamento de Físico-Química, São Carlos, 2018. Disponivel em: https://www2.ufjf.br/quimicaead/wp-content/uploads/sites/224/2013/05/FQAnalitica_Aula12.pdf https://www2.ufjf.br/quimicaead/wp-content/uploads/sites/224/2013/05/FQAnalitica_Aula12.pdf https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4296918/mod_resource/content/1/Slides%20-%20Pr%C3%A1tica%207.pdf https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4296918/mod_resource/content/1/Slides%20-%20Pr%C3%A1tica%207.pdf