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ORGANIZAÇÃO DE EVENTOS ESPORTIVOS E RECREATIVOS AULA 8 ABERTURA Olá! Esporte e lazer são considerados dois grandes fenômenos dentro do espectro social e, nesse sentido, posicionam-se como direitos da sociedade. Uma das etapas mais importantes no Brasil foi a garantia, de forma legal, que eles fossem incorporados à agenda pública do País. A Constituição Federal de 1988 permitiu que esses temas ganhassem o status de direito social como fator de desenvolvimento humano, além de estarem relacionados ao bem-estar físico e mental das pessoas. A partir da Carta Magna, promulgada em 05 de outubro de 1988, surgiram novas leis que tiveram a preocupação de normatizar e detalhar as conquistas obtidas. Como resultado de todos esses documentos, programas sociais com esporte e lazer foram ofertados aos brasileiros, recursos públicos destinaram-se prioritariamente ao esporte e à educação e a relação clube-atleta no alto rendimento passou por forte regulação. Ainda assim, a situação da gestão do esporte e do lazer no Brasil tem se mostrado instável, sem uma definição do Sistema Nacional de Esportes, sem a consistência de uma política de financiamento para a área, sem um espaço claramente definido. Nesta aula, você entenderá como a Constituição Federal de 1988 permitiu que o esporte e o lazer ganhassem espaço na sociedade brasileira. Compreenderá, ainda, o papel da Federação, dos Estados e municípios nesse contexto, traduzidos em seus principais programas, que proporcionam mudanças significativas em todo o País. Além disso, saberá como a iniciativa privada pode fazer parte desse processo de transformação social. Bons estudos. Direito e Legislação Esportiva REFERENCIAL TEÓRICO O Brasil, até há pouco mais de 30 anos, não tinha nenhuma regulamentação para o esporte e lazer. A partir da promulgação da Constituição de 1988, o cenário mudou e, pouco tempo depois, novas leis, mais específicas, surgiram para melhor regulamentação. Tudo contribuiu para a consolidação da pasta do Esporte, que, por 16 anos, teve o status de Ministério, desenvolvendo programas para o esporte educacional, esporte participação e esporte rendimento. O conjunto dessas ações contribuiu para o desenvolvimento do País, principalmente no que diz respeito à redução das desigualdades sociais. No capítulo "Direito e legislação desportiva", da obra Gestão do Esporte e Lazer, base teórica desta aula, você descobrirá as transformações que ocorreram no esporte e como ele assumiu um papel importante para a criação de uma sociedade mais justa. Ao final, você será capaz de: • Especificar os preceitos da Constituição Brasileira quanto ao direito desportivo. • Reconhecer a intervenção do Estado no contexto do desporto e do lazer. • Identificar os direitos humanos no desporto e no lazer como fator de mudanças sociais. Boa leitura. OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Especificar os preceitos da Constituição Brasileira quanto ao direito des- portivo. > Reconhecer a intervenção do Estado no contexto do desporto e do lazer. > Identificar os direitos humanos no desporto e no lazer como fator de mu- danças sociais. Introdução Ao longo da história brasileira, o esporte e o lazer, costumeiramente, tiveram um papel secundário. Algumas manifestações vieram em função da redução do tempo de trabalho, enquanto o esporte tinha uma característica mais militarista, centrada em competições e resultados. Com a promulgação de Constituição Federal de 1988, porém, ambos passaram a ser tratados de forma diferenciada, já que se determinava um encaminhamento mais social à sua prática. Por consequência, o Brasil criou dispositivos constitucionais pertinentes e investiu em programas sociais voltados ao incentivo do esporte e do lazer. Neste capítulo, você vai entender melhor como se deu essa trajetória. Para isso, vamos analisar as previsões constitucionais a respeito do assunto e quais são as ações do governo em prol da prática de esporte e do acesso o lazer. Ainda, veremos por que o incentivo à prática esportiva é tão importante para o desen- volvimento humano e social. Direito e legislação desportiva Deborah Duarte Palma A vitória do esporte e lazer no Brasil Volta e meia nos referimos ao lazer e falamos, cada vez mais, sobre sua relevância para uma melhor qualidade de vida, de forma que parece óbvio e intrínseco à convivência em sociedade. Mas você sabe no que consiste, de fato, o lazer e qual foi sua trajetória em nosso país? O lazer, como muitos já sabe, tem relação com as escolhas pessoais para o aproveitamento do tempo livre. Sua origem traz marcas históricas em duras, mas vitoriosas, batalhas, oriundas das disputas entre capital e trabalho. Em outras palavras, era o trabalhador lutando por mais direitos, mais qualidade de vida, contra uma economia focada em produção e lucratividade. No Brasil, apenas nas décadas de 1930 e 1940 surgiram, verdadeiramente, as manifestações que conectavam o poder público e a sociedade. Os primei- ros sinais nasceram com a Constituição Federal de 1934 (BRASIL, 1934), que estabelecia as relações trabalhistas, incluindo, nessa discussão, o tempo de trabalho diário, o descanso semanal e as férias. Com o aumento do tempo livre da classe trabalhadora, surgiu a necessidade e a vontade de dedicar algum tempo a atividades esportivas e de lazer. Assim, nos anos que se seguiram, programas de recreação passaram a ser ofertados pelo poder público e por associações como o Serviço Social do Comércio (SESC) e Serviço Social da Indústria (SESI). Tanto o SESC quanto o SESI, até hoje, mantêm vários programas para o desenvolvimento do esporte e do lazer. Quanto ao esporte, o viés militar e o foco no alto rendimento dominaram por décadas, coordenando as ações esportivas. Somente na década de 1970 apareceram manifestações para que o Estado o reconhecesse como direito social. Nessa época, as primeiras praças esportivas e o Programa Esporte para Todos eram tentativas de mobilizar os poderes público e privado e a população nas ações de esporte e lazer (GRASSO, 2015). No entanto, somente com a promulgação da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 o esporte e o lazer ganharam o merecido espaço legal e o reconhecimento como direitos do cidadão. A Constituição é o documento mais importante de uma nação. Ela é soberana na organização de um país, definindo sua estrutura e suas normas tanto no aspecto jurídico quanto nos aspectos legislativo e ad- ministrativo. Sua abrangência é ainda maior, pois envolve os aspectos sociais. Nesse viés, Giacomelli et al. (2018) afirmam que a Constituição é um fato social que só tem legitimidade se representar a voz da sociedade. Direito e legislação desportiva2 Como não poderia deixar de ser, o esporte e o lazer foram contemplados e fazem parte do documento mais importante do Brasil. Logo o art. 6º da Carta Magna define quais são os direitos sociais do cidadão brasileiro “São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição” (BRASIL, 1988, documento on-line, grifo nosso). Assim, o poder público reconhece e assume o compromisso que tem em relação ao lazer como um dos direitos sociais do povo brasileiro. Por consequên- cia, exige a criação de políticas públicas que estejam contempladas na agenda do governo. De acordo com Pintos et al. (2016), a partir do momento que o poder público assumiu sua responsabilidade sobre o lazer, permitiu-se uma dupla interpretação: o lazer estava no mesmo patamar da saúde, da educação e do trabalho, e, também, haveria a garantia da existência de mecanismos para seu acesso. Porém, esporte e lazer são fenômenos distintos e com significados, muitas vezes, diferentes, que se convergem em outras áreas. Essa ambiguidade se verifica ao longo de sua construção histórico-social. Contudo, também são identificadas imprecisõesquanto a seu sentido (CA- NAN; STAREPRAVO,2019). Esporte, na verdade, é um produto de consumo e de desenvolvimento humano. Para muitos, ele está inserido dentro do próprio lazer. Isso, por exemplo, é colocado por Gonçalves e et al. (2017a), quando explicam que o lazer também é compensatório, podendo buscar, nas práticas esportivas, o caminho para a liberação das tensões do dia a dia. Muitas vezes, porém, o esporte é uma opção de lazer, manifestado em diferentes ambientes, como na escola, na comunidade ou em outros espaços sociais, criando especi- ficidades, com características culturais que não têm relação de questões socioeconômicas (GRASSO, 2015). Independentemente do dualismo, a Constituição Brasileira dedicou, ao esporte, o art. 217: É dever do Estado fomentar práticas desportivas formais e não formais, como direito de cada um, observados: I — a autonomia das entidades desportivas dirigentes e associações, quanto a sua organização e funcionamento; II — a destinação de recursos públicos para a promoção prioritária do desporto educacional e, em casos específicos, para a do desporto de alto rendimento; Direito e legislação desportiva 3 III — o tratamento diferenciado para o desporto profissional e o não profissional; IV — a proteção e o incentivo às manifestações desportivas de criação nacional. § 1º O Poder Judiciário só admitirá ações relativas à disciplina e às competições desportivas após esgotarem-se as instâncias da justiça desportiva, regulada em lei. § 2º A justiça desportiva terá o prazo máximo de sessenta dias, contados da ins- tauração do processo, para proferir decisão final. § 3º O poder público incentivará o lazer, como forma de promoção social (BRASIL, 1988, documento on-line). Embora restasse determinada a garantia desse direito, o artigo gerou dúvidas que, até hoje, promovem diferentes interpretações e críticas entre especialistas. Ainda assim, serviu como importante instrumento jurídico, dando especial tratamento e conquistas ao esporte, como as elencadas abaixo. � A obrigação do Estado quanto ao fomento do esporte, entendendo que o governo passa a dar garantias a seu acesso, não eximindo, aqui, também seu financiamento. � A prática formal e a prática não formal com atenção igualitária. � A concessão do direito de autonomia das entidades esportivas, asso- ciações e dirigentes. Ainda que caiba ao Estado determinar os limites desse exercício, facultou-se às entidades a liberdade de organização e de gestão do esporte, atendendo a uma das principais reivindicações (MATTAR; MATTAR, 2013). � A prioridade da destinação de recursos ao esporte educacional e, em situações específicas, ao alto rendimento. A lei não esclareceu quais seriam as especificidades que permitiriam a destinação de recursos ao alto rendimento, sem lhe dar o protagonismo. � O tratamento distinto entre esporte profissional e não profissional. Se, por um lado, o esporte profissional permite geração de renda e alavancagem da indústria do entretenimento, o esporte não profissional é padrão nacional, de forma mais abrangente, amador, desenvolvido em clubes, sem grandes relações empresariais (CANAN; STAREPRAVO, 2019). � O reconhecimento e o estímulo às criações esportivas nacionais, salvaguardando-as, bem como promovendo-as. � A consideração sobre a prevalência das decisões determinadas pela Justiça Esportiva. � A determinação de que o lazer é uma manifestação esportiva e que caberá ao Estado prover formas para sua promoção. Direito e legislação desportiva4 O item sobre a prática formal e não formal do esporte foi objeto de muita discussão dentro da Assembleia Nacional Constituinte, pela falta de clareza. Na época, o relator, Arthur de Távola, explicou essa distinção: o esporte formal se relacionava ao esporte de rendimento e a suas regulações, enquanto as atividades não sustentadas por uma Federação, clube ou organiza- ção seriam as práticas não formais (ASSEMBLEIA NACIONAL CONSTITUINTE, 1987). O art. 217 gerou, ainda, muita discussão sobre o diferente tratamento dado ao esporte e ao lazer. Essa controvérsia se sustenta até hoje, pois, enquanto o esporte é considerado direito de cada um, o lazer é apontado como direito social, ou seja, da coletividade. Conforme citado por diversos autores (GRASSO, 2015; PINTOS et al., 2016; CANAN; STAREPRAVO, 2019), o artigo em questão mostrou-se frágil, dúbio, muitas vezes inconsistente, mas é necessário reconhecer que sua inserção foi um grande avanço, proporcionando ações de governantes, a criação de novas leis e a inclusão de programas na sociedade. Outra alteração profunda ocorrida com a promulgação da Constituição Federal foi a inclusão formal dos municípios na Federação, garantindo-lhes autonomia política, administrativa e financeira. Os arts. 1º e 18 estabelecem a indissociabilidade entre Federação, estados e municípios, assegurando- -lhes a autonomia. Por outro lado, no art. 29, determina que o município “[...] reger-se-á por lei orgânica, votada em dois turnos, com o interstício mínimo de dez dias, e aprovada por dois terços dos membros da Câmara Municipal, que a promulgará, atendidos os princípios estabelecidos nesta Constituição, na Constituição do respectivo Estado [...]” (BRASIL, 1988, documento on-line). Concedida a autonomia e a prerrogativa de elaboração da Lei Orgânica, cada município passa a tratar de suas especificidades, de acordo com as conveniências locais, respeitando suas tradições histórico-culturais e a re- alidade municipal. Atrelados à Constituição, como os estados, passam a ter obrigações políticas, administrativas, financeiras, relacionados aos direitos sociais (DE RESENDE, 2019). De competência dos estados, conforme o disposto no art. 24, bem como da União e do Distrito Federal, será legislar sobre: “[...] IX — Educação, cultura, ensino e desporto; XII – Previdência social, proteção e defesa da saúde; XV — Proteção à infância e à juventude [...] (BRASIL, 1988, documento on-line). Direito e legislação desportiva 5 De fato, essa descentralização favoreceu o esporte e o lazer, dado o novo status social, permitindo que os estados e os municípios promulgassem leis e desenvolvessem programas específicos, que beneficiassem sua população. De qualquer forma, como estabelecido constitucionalmente, poderiam, ainda, contar com o apoio do governo por meio das ações por ele desenvolvidas. Porém, talvez uma das maiores contribuições da nova Constituição tenha sido o fato de fazer o Estado mudar sua postura: antes, este focava no esporte de alto rendimento; depois da Carta Magna de 1988, passou a se dedicar ao esporte como direito social. Além disso, a partir da promulgação da Constituição Federal de 1988, novas leis não específicas ao esporte surgiram, contemplando, em seu teor, o esporte e o lazer. É o exemplo do Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990, que dedica o capítulo IV ao direito à educação, à cultura, ao esporte e ao lazer: Art. 4º. É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária (BRASIL, 1990, documento on-line). Também é o exemplo do Estatuto da Juventude, Lei nº 12.852, de 5 de agosto de 2013, que dedicou a seção VIII ao direito dos jovens ao esporte e ao lazer: Do Direito ao Desporto e ao Lazer Art. 28. O jovem tem direito à prática desportiva destinada a seu pleno desenvol- vimento, com prioridade para o desporto de participação. Parágrafo único. O direito à prática desportiva dos adolescentes deverá considerar sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento. Art. 29. A política pública de desporto e lazer destinada ao jovem deverá considerar: I — a realização de diagnóstico e estudos estatísticos oficiais acerca da educaçãofísica e dos desportos e dos equipamentos de lazer no Brasil; II — a adoção de lei de incentivo fiscal para o esporte, com critérios que priorizem a juventude e promovam a equidade; III — a valorização do desporto e do paradesporto educacional; IV — a oferta de equipamentos comunitários que permitam a prática desportiva, cultural e de lazer. Art. 30. Todas as escolas deverão buscar pelo menos um local apropriado para a prática de atividades poliesportivas (BRASIL, 2013, documento on-line). Lembre-se de que a lei não é estanque. Ela dá sustentação à sociedade, em constante mutação, permitindo que o cidadão compreenda seus direitos e seus deveres. É a partir dela que a interlocução entre governo e sociedade se materializa, dando origem a e atualizando políticas públicas, projetos e o desenvolvimento social. A seguir, falaremos mais sobre esse assunto. Direito e legislação desportiva6 Conquistas e responsabilidades Na administração pública, o gestor sempre se submete à legislação, devendo executar exclusivamente o que a lei permite. Essa competência ocorre por meio da implementação de políticas públicas, previamente criadas e aprovadas (GONÇALVES et al., 2017b). A política pública é um campo dinâmico e, muitas vezes, de difícil compre- ensão, sobretudo em relação às decisões governamentais. Habitualmente, é traduzida como colocar o governo em ação. A partir de análises sobre a sociedade, da seleção de objetivos e da criação de programas para diferentes esferas da população, o Estado busca o equilíbrio social, como, por exemplo, a redução de pobreza e a promoção da cidadania (GRASSO, 2015). Para o efetivo sucesso de uma política pública, porém, sabemos que é necessária a alocação de valores e de recursos, além de muita discussão política, às vezes conflituosas, para aprovação. Um ponto inicial, mas fundamental, é fazer as ações previstas serem con- templadas na agenda do governo, visando a sua implementação. Gonçalves et al. (2017b, p. 109) definem agenda como um “[...] conjunto de problemas públicos relevantes que podem se tornar um programa específico de governo”. O caminho para fazer parte dessa agenda é muito competitivo e sistemati- zado, exigindo a participação dos setores público e acadêmico, bem como da sociedade civil (GONÇALVES et al., 2017b; GRASSO, 2015). Conforme já foi visto, a inserção do esporte e do lazer, como direito, na Constituição Brasileira de 1988 abriu espaço para a discussão e a execução de propostas que atendessem à sociedade. Além disso, houve grande avanço quando da promulgação da Lei nº 8.672, de 6 de julho de 1993, a Lei Zico, cujos propósitos incluíam a regulação da legislação esportiva e a normatização do esporte (BRASIL, 1993). Ela acabou se tornando referência para a criação da importante Lei nº 9.615, de 24 de março de 1998, conhecida como Lei Pelé ou Lei Geral do Desporto (TUBINO, 2010). A Lei Pelé revogou a Lei nº 8.672/1993 e passou a normatizar a prática do esporte no Brasil, estabelecendo as práticas esportivas e as regras gerais do desporto, regulando, também, questões relacionadas a atletas profissionais, clubes e dirigentes (BRASIL, 1998). Esse dispositivo definiu o Sistema Nacional do Esporte (SNE) e o repasse de recursos das loterias federais para o Comitê Olímpico do Brasil (COB), o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), o Ministério do Esporte e a Confederação Brasileira de Clubes (CBC). Para muitos, porém, a Lei Pelé se destacou por abordar questões voltadas ao futebol e extinguir o “passe”, deixando livre a negociação do atleta com o clube em que quisesse jogar a partir do fim da vigência de seu contrato de trabalho. Direito e legislação desportiva 7 Outro ponto polêmico foi a necessidade de transformação do clube em empresa, mas que acabou mudando posteriormente, deixando a entidade juridicamente livre para escolher e exercer atividade esportiva profissional (BRASIL, 1993). De fato, a ampliação da legislação dedicada ao esporte demonstrava sua importância e a necessidade de receber uma atenção mais especial. Historicamente, antes de 1988, as políticas do esporte e do lazer estiveram sob responsabilidade de diferentes órgãos federais. Após a Constituição de 1988, estavam sob responsabilidade da Secretaria de Educação Física e Desporto, junto ao Ministério da Educação, mudando posteriormente. Em 1995, passaram a ser de responsabilidade do Ministério Extraordinário do Esporte; em 2000, do Ministério do Esporte e Turismo; em 2003, do Ministério do Esporte; e, finalmente, em 2019, da Secretaria Especial do Esporte, vinculada ao Ministério da Cidadania. A criação do Ministério do Esporte foi fundamental por permitir que os brasileiros tivessem direito de acesso ao esporte (PINTOS et al., 2016). Quando de sua criação, foi estruturado em quatro pastas: Secretaria Executiva, Se- cretaria Nacional de Esporte Educacional, Secretaria Nacional de Esporte de Alto Rendimento e Secretaria Nacional de Desenvolvimento do Esporte Recreativo e do Lazer. Em 2011, com a mudança de governo, passou a outra configuração, realizando fusões e inserindo novas secretarias: Secretaria Nacional de Esporte, Educação, Lazer e Inclusão Social, Secretaria Nacional de Futebol e Defesa dos Direitos do Torcedor (CARNEIRO et al., 2019). Apesar da reorganização do Ministério do Esporte, as ações da Política Nacional do Esporte sempre estiveram alinhadas às manifestações esportivas, descritas abaixo. � Esporte-educação, ou esporte educacional, oferecido por meio dos sistemas de ensino, mas também ofertado fora da escola. O principal objetivo é o desenvolvimento integral, para a cidadania e o lazer, pri- vilegiando os princípios da inclusão, da cooperação e da participação. É o caso de escolas de esportes e aprendizado na escola. � Esporte-lazer, ou esporte de participação, que é espontâneo, envol- vendo modalidades desportivas que podem ser praticadas com regras oficiais, adaptadas ou criadas. Seus princípios incluem a promoção da saúde, a inclusão e integração. Está muito associado ao tempo livre de cada um. Pode ser uma caminhada no parque ou uma competição de truco para praticantes no município e sem vínculo de classificação e resultados junto à Federação. Direito e legislação desportiva8 � Esporte de rendimento, que obedece a normas e regras nacionais e internacionais. Ele pode ser de rendimento e de alto rendimento. Utiliza os conceitos de vitórias, recordes e títulos. Todos os atores envolvidos fazem parte dessa manifestação. Os princípios envolvidos são a superação e o desenvolvimento esportivo. Há vários exemplos, já que envolvem qualquer modalidade esportiva coletiva e individual nesse enquadramento, como atletismo, natação, tênis, basquetebol, handebol ou rúgbi. Contudo, você precisa saber que há uma limitação da atuação do Es- tado em relação ao esporte-educação, porque, como foi dito anteriormente, delegou-se maior autonomia aos municípios. Assim, não é incomum encontrar secretarias de educação com departamentos de esporte, já que a educação ficou sob sua responsabilidade. Ainda, analisando a autonomia dos municípios quanto às questões sociais, foram criadas secretarias, algumas delas voltadas ao esporte e ao lazer ou, então, mantendo vínculos com a cultura, o turismo e a juventude, por exemplo. Considerando-se todas as esferas federal, estadual e municipal, Grasso (2015) reforça que mudanças governamentais muitas vezes interferem na continuidade de programas, com base nas prioridades ou percepções. Propostas relacionadas à democratização do acesso à prática esportiva, permeadas todas suas manifestações, ocorreram nos 16 anos de existência do Ministério. Nesse sentido, Carneiro et al. (2019) apresentaram um estudo mostrando onde foi aplicado o dinheiro do Ministério do Esporte ao longo dos anos (Quadro 1). Foram apurados os gastos com o alto rendimento (EAR) em todas as etapas e com as ações para o esporte e lazer (EELIS), compreendendo, também, a educação, comgestão, infraestrutura e realização de megaeventos. Quadro 1. Aplicação do dinheiro público em esportes Ano EAR EELIS Gestão Infraestrutura Megaeventos 2003 12,54 51,81 2,97 182,71 — 2004 11,64 122,28 57,45 299,13 91,76 2005 57,88 247,03 65,10 510,41 12,11 2006 38,09 268,73 106,35 581,85 507,29 2007 110,20 313,05 137,46 740,30 1.401,25 (Continua) Direito e legislação desportiva 9 Ano EAR EELIS Gestão Infraestrutura Megaeventos 2008 57,90 280,11 133,49 1.077,50 106,50 2009 81,88 304,64 146,24 1.184,63 — 2010 65,83 336,31 155,63 805,93 272,16 2011 100,19 318,98 183,99 805,64 314,81 2012 119,12 38,41 146,55 4,18 217,72 2013 173,89 59,97 129,90 19,04 145,95 2014 175,70 112,45 154,45 0,51 646,71 2015 120,27 106,73 146,39 9,82 384,69 2016 58,04 43,60 128,43 40,44 249,35 2017 53,57 35,75 131,96 119,51 — 2018 33,50 47,51 126,09 86,17 — Total 1.270,22 2.687,36 1.952,46 6.467,78 4.349,3 Fonte: Adaptado de Carneiro et al. (2019). Pela análise do Quadro 1, você perceberá que, nos primeiros anos, fo- ram respeitados os preceitos constitucionais; ou seja, os investimentos em esporte-educação e em esporte de participação eram maiores que o inves- timento em esporte de alto rendimento. Todavia, a partir de 2012, houve uma inversão dos gastos, destinando maior orçamento para o alto rendimento. A justificativa se sustentaria nos interesses do governo na obtenção de uma melhor classificação nos Jogos Olímpicos de 2016. Essa decisão estratégica afetou diretamente parte dos programas que vinham ocorrendo. Outro ponto a considerar é achar que esporte e lazer ficam garantidos caso haja a construção de praças esportivas. Muito embora importante, ressaltam os autores, a construção desses espaços perderá seu sentido se não houver, ao mesmo tempo, um alinhamento com as políticas de animação sociocultural (CARNEIRO et al., 2019). Provavelmente, você deve estar se perguntando de onde vem o dinheiro ou como o esporte é fomentado. O financiamento do esporte tem, como origem, as fontes orçamentárias, que são os recursos contemplados no orçamento (Continuação) Direito e legislação desportiva10 do governo, e extraorçamentárias, que não transitam no governo, mas são transferidos diretamente às entidades. Há, ainda, as fontes indiretas, cujos recursos são provenientes de desoneração tributária e isenção fiscal, quando há doações e patrocínios de pessoas físicas e jurídicas (PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO, 2017). Uma das dessas fontes vem da legislação, como no caso da Lei nº 10.264, ou Lei Agnelo/Piva, de 16 de julho de 2001, que foi uma das alternativas para o esporte brasileiro no que diz respeito à captação de recursos para sua sustentabilidade. Inicialmente, a Lei previa que 2% da arrecadação bruta de todas as loterias federais seriam destinados ao esporte, cabendo 85% do valor ao COB e 15% ao CPB. Da destinação total a eles, 10% deveriam ser investidos no esporte escolar e 5% no esporte universitário. De lá para cá, houve alterações; desde 6 de julho de 2015, foi sancionada a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência. Com isso, a destinação ao COB ficou em 2,7% e, para o CPB, a fatia aumentou em 37,04% (BRASIL, 2001; REDE NACIONAL DO ESPORTE, 2020). Outra ajuda às entidades do futebol profissional veio por meio da Lei nº 11.345, de 14 de setembro de 2006, alterada em 2007, que instituiu concurso de prognóstico destinado ao desenvolvimento da prática desportiva e a participação de entidades desportivas da modalidade futebol nesse concurso, que é o Timemania. Além disso, o art. 4º prevê o parcelamento de “[...] débitos vencidos até a data de publicação do decreto que regulamenta esta Lei, com a Secretaria da Receita Federal do Brasil, com o Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional e com o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) [...] (BRASIL, 2006a). A Lei nº 11.438, de 29 de dezembro de 2006 (BRASIL, 2006b), ou Lei de Incentivo ao Esporte, tem papel fundamental na implementação das ações, favorecendo o estímulo e o engajamento da iniciativa privada. A Lei permite que empresas, por intermédio da renúncia fiscal, destinem até 1% e que pessoas físicas destinem até 6% de seu imposto de renda para financiar projetos esportivos. Pode ser feito por patrocínio ou doação, desde que os projetos contemplem uma das três manifestações esportivas (MINISTÉRIO DA CIDADANIA, 2020). O proponente deve ser pessoa jurídica, sem fins lucrativos, e ter objetivo claro com o esporte. Além disso, deve atuar há, pelo menos, um ano com a organização. Como o Governo Federal não dá, diretamente, o dinheiro, caberá ao proponente, após a aprovação do projeto junto à Secre- taria Especial, a captação do recurso. Apenas empresas enquadradas como Lucro Real podem participar, ficando de fora aquelas empresas do Simples e do Lucro Presumido (BRASIL, 2006b). Direito e legislação desportiva 11 Outro importante fato a considerar é a existência de uma nova ordem de relação entre Estado e sociedade, dado o número crescente da participação de Organizações não Governamentais (ONGs). A atuação do Terceiro Setor tem, de fato, desenvolvido ações voltadas a políticas sociais que promovam o enfrentamento da questão social e se fundamentem nos valores da solida- riedade local, da cooperação, do voluntariado e da responsabilidade. Se, por um lado, essa autonomia gera agilidade, por outro, estimula a transferência da responsabilidade do Estado como provedor do bem-estar social. Como as entidades públicas e privadas utilizam o esporte como ferramenta de inclu- são social, há milhares de projetos por todo o Brasil; porém, não é incomum que neles se encontrem problemas de gestão de recursos (PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO, 2017). Para a gerir financeiramente os programas, uma alternativa foi a criação de parcerias público-privadas. Buscou-se o envolvimento das empresas, para uma relação duradoura, a fim de que atendesse aos interesses relacionados a bens e serviços públicos. Com disposições comuns, esse arranjo organi- zacional híbrido partilha responsabilidades, recursos, benefícios e riscos, também (REIS; CABRAL, 2014). Como existe a autonomia de estados e municípios, esses também buscam fontes de financiamento para suas ações em esporte e lazer, como parcerias público-privadas e com o Terceiro Setor, além do suporte da legislação, so- bretudo daquelas voltadas ao incentivo do esporte. Há, de fato, diversas leis que tratam do esporte e do lazer, mas é importante observar a normatização de cada local, já que as regras são diferentes. Por exemplo, no estado de São Paulo há o Decreto nº 55.636, de 26 de março de 2010, que concede parte do crédito sobre o Imposto Circulação de Mercadorias e Prestações de Serviços (ICMS) “[...] destinado pelos respectivos contribuintes a projetos desportivos credenciados pela Secretaria Estadual de Esporte, Lazer e Juventude de São Paulo (SELJ)”, bem como a Lei nº 14.949, de 6 de fevereiro de 2013, que estabelece o Programa Bolsa Talento Esportivo para atletas do esporte educacional e de rendimento (GORLA; CALEGARI, 2017, p. 267). Outro exemplo é o município de Muriaé, em Minas Gerais, que sancionou a Lei nº 5.766, de 5 de dezembro de 2018, por meio da qual o município determina um programa de incentivo ao esporte que recebe e financia projetos para o desenvolvimento do esporte amador e comunitário na cidade. Esses projetos envolvem a criação de centros de treinamentos e de escolinhas de esportes, o fornecimento de material esportivo e o apoio a eventos que promovam atividades a crianças e adolescentes em situação de risco, a pessoas com deficiência, etc. (MURIAÉ, 2018). Direito e legislação desportiva12 Trata-se apenas de alguns exemplos de um universo hoje bastante representa- tivo no Brasil. Assim, convidamos o leitor a descobrir quais são as leis específicas em seu estado, em seu município ou na cidadevizinha voltadas para o esporte e o lazer. Dessa forma, o profissional estará munido de importante conhecimento para apoiar a implementação ou o bom andamento de projetos na área. Meu direito, seu dever Em 1948, o mundo celebrou a proclamação da Declaração Universal dos Direi- tos Humanos (DUDH). Esse documento, estruturado em 30 artigos, destaca os direitos de toda pessoa, em abrangência internacional. Ou seja, assumiu-se, globalmente, o compromisso de que todas as nações passariam a adotá-los, reconhecendo os direitos fundamentais e a uma vida digna (DORETO et al., 2018), preceitos sintetizados já no art. 1º do documento: “Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e cons- ciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade” (NAÇÕES UNIDAS, 2020, documento on-line). É importante destacar que a DUDH abarca todos os direitos, compreen- dendo os civis, políticos, econômicos, sociais e culturais, inclusive aqueles relacionados à solidariedade. Isso significa que todas as pessoas são iguais e têm o direito ao trabalho, à saúde, à segurança, à educação e ao lazer. São, ainda, livres para caminhar por onde desejarem, para ter suas próprias crenças e desejos, sem julgamentos com base em etnia, orientação sexual, deficiência, nacionalidade, etc. (BRASIL, 2018). Como tudo que é relacionado à conquista de direitos, a DUDH é a materialização de um processo gradual, que levou muito tempo, às custas de muito esforço da sociedade (FRANKLIN; MELLO, 2018). De fato, sua criação foi motivada pelo final da Segunda Guerra Mundial (1939–1945), cujos conflitos causaram a morte de milhões de pessoas e o empobrecimento de várias outras. Contemplado no art. 24 da Declaração, que prevê todos têm direito ao repouso e aos lazeres, especialmente a uma limitação razoável da duração do trabalho e a férias periódicas pagas, o lazer também é assegurado a todo indivíduo. Ainda, o art. 23 artigo afiança o direito ao trabalho, a sua livre esco- lha, com salário justo para dar condições dignas no seio familiar (DUDH, 1948). Direito e legislação desportiva 13 Temas constantes como acesso, igualdade, liberdade, proteção relacionam- -se ao propósito de desenvolvimento humano. Mas o que seria o desen- volvimento humano? De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO, 2017), é a tentativa de melhorar o bem-estar das pessoas, com alicerce na “[...] justiça social, na sustentabilidade, no empoderamento das pessoas e na sua participação em busca de maiores oportunidades” (PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO, 2017, p. 44). Esporte e lazer, assim, constituem-se como um direito. O lazer como conteúdo vai além do propósito do divertimento, do momento de descanso: ele é um momento de escolhas e da superação de barreiras sociais. O lazer envolve uma variedade de temas que podem ser ocupados no tempo livre, fortalecendo a tríade lazer-cultura-educação. A partir de cada vivência, per- cepções são colhidas, significados são transformados, dotando o indivíduo com novos valores, saberes e motivações que auxiliam a construção de uma nova ordem social (MARCELLINO, 1987). Da mesma forma, o esporte é uma importante ferramenta para lidar com questões de desenvolvimento. A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) teve papel fundamental na elaboração da Carta Internacional da Educação Física e do Esporte, em 1978. Ela passou por uma revisão em 2015; porém, desde sua criação, criou-se a consciência de que o esporte seria o caminho para a educação permanente (TUBINO, 2010). A UNESCO coordena e monitora uma série de ações relacionadas a temas como igualdade de gênero, respeito à diversidade cultural e étnico-racial e dos direitos das pessoas com deficiência. De acordo com a Organização, o esporte, por meio de seus valores, tem o poder de transcender, de fazer o indivíduo superar barreiras, levando-o ao desenvolvimento de com- petências e a ter sentimento de pertencimento. Organiza, também, o trabalho em equipe, empodera, inclui socialmente, transforma estereótipos e promove a transformação social (UNESCO, 2016). A consolidação dos direitos humanos no Brasil materializa-se no Título II da Constituição de 1988, dividido em cinco capítulos. O primeiro trata dos direitos e dos deveres individuais e coletivos, representado pelo extenso art. 5º, com 78 incisos, que ratifica os direitos fundamentais. O segundo diz respeito aos direitos sociais que afiançam a redução da desigualdade às pessoas que estão em estado de pobreza. Por fim, os outros três capítulos se referem à nacionalidade, aos direitos políticos e aos direitos dos partidos políticos (SENADO FEDERAL, 2013; FRANKLIN; MELLO,2018). Direito e legislação desportiva14 O que é necessário entender é que qualquer direito só será garantido se a chance de acesso for igual para todos, com possibilidade de escolha e participação efetiva. No Brasil, a desigualdade é histórica, e a demanda por serviços sociais expressam as diferenças existentes. Nesse sentido, a Constituição Federal de 1988 definiu o princípio da democracia participativa. Assim, foram criados mecanismos para que a sociedade pudesse participar das decisões políticas e controlar o que era feito. No caso do esporte, há de se ressaltar a realização de três Conferências Nacionais de Esportes: em 2004, em 2006 e em 2010. As duas primeiras Con- ferências (Esporte, Lazer e Desenvolvimento Humano, em 2004, e A criação do Sistema Nacional de Esporte e Lazer, em 2006) discutiram o esporte e o lazer como direitos sociais fundamentados nos princípios de democratização e da inclusão social. Contudo, a III Conferência Nacional do Esporte, cujo tema era Por um time chamado Brasil: Plano Decenal do Esporte e Lazer —10 pontos em 10 anos para projetar o Brasil entre os 10 mais, mostrava novo direcionamento, justificados nos dois megaeventos que o País estava por sediar (PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO, 2017; PINTOS et al., 2016). O PNUD, no Brasil, em parceria e articulação com o poder público, o setor privado e a sociedade civil, realizou uma série de ações utili- zando o esporte como ferramenta de desenvolvimento humano. Isso garantiu a inserção na agenda do governo federal. Entre os projetos, destacaram-se: Rede Esporte Pela Mudança Social (REMS), Esporte nas Escolas Brasileiras e Jogo contra a Pobreza (PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO, 2015). Programas como Segundo Tempo, Programa Esporte e Lazer da Cidade, Brincando com a Cidadania, etc., não só planejados pelo governo federal, mas também pelas secretarias estaduais e municipais, têm se mostrado importantes, facilitando a democratização e o acesso à cultura e à prática do esporte nos contextos formal e informal (GRANDO; OLIVEIRA MADRID, 2017). Mais do que isso, eles têm contribuído para garantir direitos inafiançáveis e reduzir a distância entre cidadãos de todos os cantos do Brasil. Ainda assim, é fundamental que a estrutura do esporte e do lazer, no Brasil, seja aberta e decentralizada, garantindo a participação da sociedade. O PNUD, quando da divulgação de seu relatório em 2017, reconhecia a necessidade da organização de um novo sistema nacional de esportes, que efetivamente nunca se consolidou. Afirmava que era preciso: Direito e legislação desportiva 15 [...] um novo Sistema Nacional de Esporte, composto por uma estrutura aberta e descentralizada, que permita a elaboração de políticas intersetoriais para ga- rantir o direito ao acesso às AFEs e o fomento das mesmas. Esse sistema deverá ainda garantir a existência de mecanismos democráticos de participação, com práticas robustas de monitoramento, avaliação, transparência e controle social. O fortalecimento do Sistema Nacional do Esporte é entendido como elemento necessário para a garantia do direito ao esporte, conforme exposto na Constitui-ção Federal, cuja determinação é de que o fomento público deve ser direcionado principalmente ao esporte educacional (PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO, 2017, p. 342). Ainda há muito que se caminhar no Brasil, mas o diálogo entre poder público, Terceiro Setor, empresas e sociedade já se estabeleceu. O aprendizado das últimas décadas pode servir para a conquista de objetivos ainda maiores por intermédio do esporte e do lazer: uma sociedade menos desigual, mais justa. Referências ARAKAKI, F. F. S.; VIEIRO, G. M. Direitos humanos, Porto Alegre: Sagah, 2018. ASSEMBLEIA NACIONAL CONSTITUINTE. Atas das Comissões. Diário da Assembleia Na- cional Constituinte, Brasília, ano 1, supl. 100, p. 207, 1987. Disponível em: http://imagem. camara.gov.br/Imagem/d/pdf/sup100anc21jul1987.pdf#page=207. Acesso em: 2 dez. 2020. BRASIL. 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Direito e legislação desportiva 19 PORTFÓLIO O Ministério de Esportes existiu por 16 anos. Agora, passou ao status de Secretaria Especial de Esportes, absorvendo uma parte das Secretarias Nacionais e dos programas direcionados às manifestações esportivas. De acordo com o artigo 217 da Constituição Brasileira, promulgada em 05 de outubro de 1988, cabe ao Governo priorizar recursos para o Esporte Educacional. Responda: Quais as funções das Secretarias Nacional de Esporte, Educação, Lazer e Inclusão Social? PESQUISA Diagnóstico Nacional do Esporte O Diagnóstico Nacional do Esporte (Diesporte) é um dos documentos mais importantes para traçar o perfil dos praticantes de atividades físicas e esportivas, bem como dos sedentários. Além disso, apresenta outros resultados como a infraestrutura existente, a legislação, dentre outros. Este documento foi elaborado pelo extinto Ministério do Esporte, mas ainda é reconhecido como um dos mais importantes. http://arquivo.esporte.gov.br/diesporte/ N