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AULA 1 AVALIAÇÃO COGNITIVA NO TEA Profª Grazielle Tavares A luno: A N T O N IO JO S E D O S S A N T O S IN Á C IO E m ail: antoniojosesantosinacio@ gm ail.com 2 TEMA 1 – AVALIAÇÃO DAS CRIANÇAS DE 0 A 2 ANOS O processo de avaliação inicial busca identificar as habilidades e as potencialidades que são próprias do sujeito. Nesse caso, será específica para a pessoa diagnosticada com transtorno do espectro do autismo (TEA). Observar em qual etapa essa pessoa se encontra é essencial para dar subsídios para que ela avance em seu processo de aprendizagem. O autismo é percebido como um desafio para a família, a escola e a sociedade. Apesar de se mostrarem dispostos a colaborar com o avanço dessas pessoas, muitos não se sentem preparados para lidar com as situações que se apresentam ao longo do caminho. Há ainda aqueles que não percebem as potencialidades que esses sujeitos possuem, pois acreditam que, com essa especificidade, não é possível obter diferentes tipos de aprendizagens, sendo incapazes de obter avanços significativos em sua vida. Para tanto, é preciso olhar com cuidado para os indivíduos que apresentam o TEA e ver além do diagnóstico. Dessa forma, é possível observar e indicar o caminho que pode levar ao processo de ensino e aprendizagem. Para identificar essas potencialidades é necessário observar as atitudes comportamentais desse sujeito. Somente por meio da avaliação dessas ações pode-se estabelecer o melhor caminho a ser seguido nesse processo que leva ao seu desenvolvimento. Para avaliar se o sujeito está avançando como esperado, é imprescindível conhecer as fases de desenvolvimento humano. A partir do momento em que se avalia a etapa em que se encontra, é possível indicar métodos, buscar recursos e promover ações que podem contribuir para o seu processo de aprendizagem. Por isso, durante essa aula, serão apresentadas as fases de desenvolvimento correspondente ao nascimento até os dois anos de idade de uma criança típica, e o que é necessário perceber nos casos em que o bebê não alcança o que se espera para o seu desenvolvimento físicos, emocionais, social e cognitivo. 1.1 Desenvolvimento da criança típica Desde o nascimento do bebê, os pais e profissionais precisam estar atentos ao modo como o bebê enriquece seus recursos de aprendizagem. Todas as ações cotidianas são essenciais para o processo de desenvolvimento do ser humano. Para tanto, é preciso conhecer as especificidades correspondentes a cada etapa, para verificar se o desenvolvimento da criança corresponde ao que se espera. A luno: A N T O N IO JO S E D O S S A N T O S IN Á C IO E m ail: antoniojosesantosinacio@ gm ail.com 3 A primeira etapa é um período em que os reflexos do bebê são organizados de modo que contribua para o seu desenvolvimento nos aspectos social, afetivo, motor e perceptivo. Nessa fase, pode-se observar que a criança reúne recursos para compreender o mundo por meio de suas experiências sensoriais e motoras, e essas ações aperfeiçoam seus reflexos inatos. “A observação do desenvolvimento neuropsicomotor de uma criança é fundamental nos primeiros cinco anos de vida e extremamente importante até os três anos. O primeiro passo para isso é conhecer quais são as etapas normais desse processo” (Brites; Brites, 2019, p. 66). Essas informações podem ser adquiridas inclusive na carteirinha de vacinação que o bebê recebe logo após o nascimento. Nela estão especificadas as etapas de desenvolvimento humano. Cabe às pessoas que convivem com as crianças observar se elas estão dentro da normalidade ou se há atraso. Caso haja alguma dúvida, o ideal é buscar um pediatra para fazer a avaliação necessária. De modo geral, observa-se que, do nascimento a seis semanas, o bebê apresenta três reflexos primários que ao longo do tempo tornam-se voluntários. São eles: Suga objetos colocados na boca. Com os olhos, segue materiais que se movem ou são interessantes para ele. Fecha a mão em contato com diferentes itens. Após esse período, observa-se que as reações da criança passam a ser mais consciente. Observe o quadro 1. Quadro 1 – Etapas de desenvolvimento normal Etapa Desenvolvimento 6 semanas a 4 meses Inicia a imitação ou reprodução espontânea de ações. 4 a 8 meses O bebê passa a desenvolver ações com objetos com o intuito de proporcionar resultados agradáveis. 8 a 12 meses A criança com intencionalidade aprende a coordenar a mão com o olhar. A luno: A N T O N IO JO S E D O S S A N T O S IN Á C IO E m ail: antoniojosesantosinacio@ gm ail.com 4 12 a 18 meses Começa a explorar objetos de seu interesse. 18 a 24 meses A criança emprega simbologia primitiva para formar representações. 1.2 Ambiente social Para entender as etapas do desenvolvimento humano é necessário observar as influências sociais que permeiam essas relações. Como ser social, é imprescindível que a criança interaja com o meio que ela vive para obter aprendizagem. O âmbito social propicia o aprendizado por meio da interação vinculada ao biológico, provocada por estímulo para propiciar o desenvolvimento do sujeito. A interação com o meio ocorre desde a gestação, momento em que o feto, ainda no útero, começa a desenvolver os sentidos de audição, paladar, visão e tato, por meio das substâncias produzidas pelo corpo da mãe e pelos estímulos externos. Após o nascimento, o recém-nascido possui comportamentos que favorece as relações sociais por meio de sinais que possibilitam a comunicação para regular o próprio comportamento conforme as necessidades apresentadas pelo outro. Dessa forma, o bebê busca o próximo por meio de interações, com o intuito de garantir a sobrevivência e a satisfação de suas necessidades básicas. Para que essas trocas sejam recíprocas, é necessário que o bebê demonstre responsividade, ou seja, responda aos estímulos provocados pela mãe. Dessa forma, o sujeito consegue estabelecer relação social com o próximo. Por meio da demonstração de sentimentos, do afeto e das intenções, ele consegue interagir com o próximo, engajando na relação social. A responsividade emocional é uma ação mais básica que o pensamento. Somente com o vínculo emocional é possível diferenciar a pessoa que interage dos objetos. Isso possibilita compartilhar as atitudes, os sentimentos e a comunicação. A partir do momento que o bebê consegue interagir com a mãe, ele amplia o seu repertório para se relacionar com o meio. Com o aumento de comunicação, aperfeiçoa suas competências de desenvolvimento. As interações podem ser consolidadas em diferentes situações que ocorrem no cotidiano. No momento de troca da fralda, da mamadeira e do brincar, é possível observar se o sujeito partilha sua emoção e interage por meio do olhar. A luno: A N T O N IO JO S E D O S S A N T O S IN Á C IO E m ail: antoniojosesantosinacio@ gm ail.com 5 Esses momentos são essenciais na promoção do aprendizado, e podem ser utilizados para observar se o comportamento do bebê está dentro do que se espera para o desenvolvimento infantil. As vivências do cotidiano possibilitam que o bebê construa repertório ao utilizar o próprio corpo para aprender e posteriormente repetir ações conhecidas. Ao experimentar as possibilidades que o corpo apresenta, a princípio por meio de atitudes aleatórias, o infante aprende a fazer barulho, jogar algo, bater o brinquedo, mover o cobertor. Nessa etapa, o sujeito interage com o outro e conhece o próprio corpo. TEMA 2 – DESENVOLVIMENTO DA COMUNICAÇÃO INICIAL E DA ATENÇÃO COMPARTILHADA O contato inicial da fala acontece quando o bebê ainda está no útero da mãe, momento em que conhece as vozes das pessoas que estão próximas em seu cotidiano. Nos primeiros meses de vida é imprescindívelo contato com as vozes dos sujeitos que estão próximo, principalmente da mãe, que reconhece muito bem. Essa relação que se estabelece através do olhar, do sorriso, da vocalização e do choro estreita os laços afetivos, afetando as vivências da mãe e do filho. 2.1 Comunicação social do bebê A principal forma de comunicação do recém-nascido é por meio do choro, pois ainda não possui condições de produzir outros tipos de som. Durante os primeiros meses, a sua comunicação com o meio ocorre por meio de sorrisos e choros que não podem ser identificados como voluntários. Contudo, os pais conseguem identificar as diferentes formas de comunicação, seja ela intencional ou não, como o choro, o grito ou o sorriso. Por volta dos seis meses a criança começa a balbuciar e a utilizar som consonantal. “As intenções comunicativas ocorrem por volta dos nove meses, quando as crianças começam a mostrar a consciência de que os seus comportamentos/sinais têm um efeito sobre outros” (Whitman, 2015, p. 92). Essa interação será caracterizada realmente como troca social a partir do momento que ela se torna recíproca e que há comunicação. Essa situação pode ser percebida no momento do amamentar, em que o bebê troca olhares com a A luno: A N T O N IO JO S E D O S S A N T O S IN Á C IO E m ail: antoniojosesantosinacio@ gm ail.com 6 mãe, demonstrando seu contentamento com a situação que está sendo vivenciada. Durante esse processo é de grande importância que a mãe olhe para seu filho, pois é o momento em que a comunicação entre eles se faz presente. Nos primeiros anos, a criança foca seu interesse nas questões relacionadas ao social. Pode-se dizer que: Os bebês veem bastante bem pouco tempo depois do nascimento, e aprendem muito sobre o mundo, as pessoas e os objetos que os rodeiam observando-os em ação. São também extremamente bons em ver padrões que os rodeiam. Aprendam a esperar que as pessoas se movam e ajam de determinada maneira e ficam intrigados e surpreendidos e intrigados com eventos inesperados. Na verdade, prestam mais atenção ao inesperado do que à rotina e ao que é previsível, para que possam compreender novas coisas. (Roger; Dawson; Laurie, 2007, p. 57) Observa-se que o desenvolvimento do bebê acontece quando ele percebe que suas ações causam impacto no ambiente em que está inserido. Ao tomar essa consciência, o infante provoca o próximo e aguarda a sua reação. Com essa reciprocidade a criança aprende a antecipar seu comportamento, pois já sabe a atitude que acontecerá a seguir. Nessa fase também acontecem os jogos relacionados ao processo imitativo, ou seja, o bebê começa a participar desses jogos. Por meio dessa troca social, a criança amplia seu repertório de aprendizagem e passa a se comunicar com o próximo. “Quando as crianças (e adultos) observam as expressões e emoções das outras pessoas, os seus neurónios espelhos disparam, permitindo sentir à emoção das outras pessoas” (Roger; Dawson; Laurie, 2007, p. 57). A imitação contribui com o desenvolvimento da empatia, auxilia com a capacidade de aprender com o outro, ajuda no aprendizado na comunicação não verbal, ensina o funcionamento social e facilita o aprendizado do bebê sobre as regras sociais de conversação e da linguagem. Logo, esse é o princípio da comunicação denominada não verbal, ou seja, são os precursores socioemocionais da linguagem, que contribuirá para o desenvolvimento da fala. Withman (2015, p. 90) corrobora ao apontar que Durante o desenvolvimento típico, gestos pré-verbais e atos de atenção conjunta ajudam a pavimentar o caminho da linguagem. A comunicação intencional desenvolve-se cedo (entre nove e 13 meses), seguidas pelas primeiras palavras (entre 13 e 18 meses) combinação de palavras (entre 13 e 30 meses), frases (30 meses e cinco anos) e gramática do discurso (entre cinco e oito anos). A luno: A N T O N IO JO S E D O S S A N T O S IN Á C IO E m ail: antoniojosesantosinacio@ gm ail.com 7 Esses precursores são essenciais para o desenvolvimento da fala da criança. Todo o desenvolvimento da criança relaciona-se ao aprendizado da linguagem. Com a interação, o infante aprende a interagir, direcionar suas ações e a ensinar as normas sociais em que está inserido. Por meio do processo denominado mediação, ocorre as trocas interpessoal, intrapessoal e com o meio. Para ele, o homem só é considerado um ser social, histórico e cultural por meio da linguagem. 2.2 Atenção compartilhada O desenvolvimento humano ocorre quando o homem adquire a capacidade de perceber o outro com um ser que possui expressões mentais e intencionais, e que esse sujeito se assemelha si mesmo. Após esse período, por volta dos nove meses, a criança passa a dividir atenção de um objeto com um adulto, ou dividem o interesse de um adulto por um objeto. Essa ação é denominada como atenção compartilhada, que nada mais é que uma comunicação não verbal que antecede a fala, ou seja, é um dos precursores responsável pelo desenvolvimento da linguagem. Nesse mesmo período, o bebê inicia a sua relação com a mãe sem perceber as suas intenções. Contudo, tais habilidades são aperfeiçoadas quando um terceiro elemento entra nessa relação. Com a atenção compartilhada entre uma pessoa e um objeto, o infante consegue desenvolver a forma mais precoce de aprendizagem cultural humana. Ele consegue utilizar intencionalmente a comunicação para conseguir a atenção do adulto para estímulos externos. Logo “A comunicação social ocorre especialmente através dos olhos, rostos e corpos” (Roger; Dawson; Laurie, 2007, p. 57). Dessa forma, aprende a imitar, ou seja, relaciona com o objeto da mesma pessoa que observou seus pais interagindo. Esse processo auxilia na internalização das convenções sociais de sua cultura. A atenção compartilhada é proveniente de diferentes habilidades sociais e de interação que desenvolvem instrumentos para a criança seguir, compartilhar e dirigir a atenção de uma pessoa para um objeto ou situação. Por meio dessa aprendizagem, a comunicação infantil torna-se intencional. A criança percebe que ao empregar um som específico, pode alterar o comportamento de uma outra pessoa. Com a linguagem, “elas expressam suas necessidades, pedem aquilo que precisam, regulam o comportamento próprio e dos outros, comunicam seus sentimentos, exploram e respondem ao seu ambiente social, entendem melhor a A luno: A N T O N IO JO S E D O S S A N T O S IN Á C IO E m ail: antoniojosesantosinacio@ gm ail.com 8 si mesmas e imaginam mundos diferentes daqueles em que vivem” (Withman, 2015, p. 90). O aprendizado do bebê é construído quando ele observa a intencionalidade do adulto em seu comportamento. Isso possibilita a internalização da situação que poderá ser empregada posteriormente em outra circunstância pela criança. A comunicação intencional só é possível quando a atenção passa a ser compartilhada. Para tanto, é necessário o desenvolvimento do contato ocular, por meio do qual o sujeito direciona sua atenção para o outro, visto como um parceiro comunicativo que pode responder aos seus sinais. A intencionalidade só pode ser compreendida quando a comunicação ocorre com outra pessoa e não com um objeto. TEMA 3 – DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA AUTISTA Até agora, foram explicadas as particularidades do desenvolvimento da criança típica que contribuem para seu aprendizado e sua interação. É importante conhecer tais etapas, uma vez que contribuirá para avaliar se o desenvolvimento do bebê encontra-se dentro do esperado. É importante salientar que por meio do olhar atento, a família e a escola poderá ajudar com informações importantes que serão fornecidas para o pediatra. Tal observação auxilia o diagnóstico clínico precoce e na intervenção terapêutica. 3.1 Avaliação inicial De modo geral, as crianças que se encontram dentrodo Transtorno do Espectro do Autismo apresentam dificuldades em ficar atentas às atitudes de pessoas à sua volta, bem como compartilhar sentimentos por meio de suas expressões faciais, gestuais, sonoras ou pela fala. Podem parecer que não sentem as emoções; contudo é complexo para elas demonstrar o que sentem. A imitação, a atenção compartilhada, a fala e a brincadeiras são atitudes desafiadoras. A primeira avaliação que deve ser observada é como a criança interage socialmente com as pessoas que estão à sua volta. Brites e Brites (2019, p. 66) apontam a importância de se fazer essa avaliação, e comentam: “O como é mais amplo, completo, e exige de nós a observação de todo o processo, do começo até o fim, e o que nos chama atenção a cada instante”. A luno: A N T O N IO JO S E D O S S A N T O S IN Á C IO E m ail: antoniojosesantosinacio@ gm ail.com 9 As crianças pequenas que se encontram dentro do espectro apresentam dificuldades em observar e interagir com as pessoas ao seu redor. Por meio dessa atitude, muitas perdem a oportunidade de aprender com as situações que se apresentam ao seu redor. A aprendizagem dos jogos sociais acontece quando o bebê foca nas expressões faciais, na modulação e entonação da voz e nas ações realizadas pelos adultos. Logo, é de extrema importância prestar atenção no outro para compreender o mundo à sua volta. Para averiguar se há sinais que podem ser identificados com autismo, é importante fazer a observação apontada por Brites; Brites (2019, p. 67) Se, ao chegar a um lugar, essa criança: não olha para o interlocutor, não se importa com as pessoas do local e somente prioriza os objetos, se ao ser chamada pelo nome não responde, se evita olhar nos olhos mesmo forçada ou induzida, se não cumprimenta, nem estranha, nem usa gestos, nem se contém no caso de uma intervenção de algum adulto, deve-se suspeitar de autismo É importante salientar que o prejuízo causado pela falta de engajamento nas ações sociais refere-se ao fato de a criança não conseguir conectar-se emocionalmente com o próximo. Isso prejudica posteriormente o seu desenvolvimento, principalmente a comunicação, por não perceber funcionalidade em querer falar com o próximo nem compartilhar com o outro suas emoções. Ademais, dificulta o uso de jogos simbólicos, que por sua vez podem impedir a interpretação de situações do cotidiano. Dessa forma, não são desenvolvidas habilidades pré-linguísticas necessárias para as relações humanas. TEMA 4 – DESENVOLVIMENTO DA COMUNICAÇÃO INICIAL E DA ATENÇÃO COMPARTILHADA EM CRIANÇAS AUTISTAS A comunicação das crianças com autismo normalmente é empregada como meio de satisfazer suas necessidades: raramente é utilizada como forma de compartilhar a atenção ou entender o outro. Normalmente, é possível observar que há um tema específico esmiuçado pelo sujeito, que oferta detalhes irrelevantes e pode alternar para tópicos imprecisos. A linguagem da criança autista pode se apresentar de forma inadequada, por não saberem interpretar os enunciados, e apresentar dificuldade em modular o tom da voz. Muitos têm dificuldades em iniciar uma conversa e manter um diálogo lógico. A luno: A N T O N IO JO S E D O S S A N T O S IN Á C IO E m ail: antoniojosesantosinacio@ gm ail.com 10 Nos próximos tópicos abordarão o desenvolvimento inicial da linguagem das crianças com TEA. Pontos que precisam ser observados para propiciar avaliação mais precoce e que podem ajudar no diagnóstico dessas crianças. 4.1 Comunicação inicial do TEA Alguns autistas apresentam dificuldades iniciais desde a tenra idade, principalmente aquelas relacionadas a comunicação. Pode-se apontar características muito presentes entre essas crianças até um ano de idade: não olham na face do outro; quando é chamada pelo nome, não atende, não vocaliza ou demonstra interesse; não mostram objetos para o próximo; não apontam para objetos que desejam; falta de sorriso responsivo; pouco contato social. “Muitas crianças pequenas com autismo parecem desconhecer que a comunicação ocorre entre duas pessoas; não reconhecem a importância do olhar, dos gestos, dos sons da fala e das expressões faciais” (Roger; Dawson; Laurie, 2007, p. 132). Após 1 ano de idade além dessas características, é interessante ficar atento aos seguintes sinais: o infante ignora o próximo; prefere o isolamento; não faz contato visual; apresenta gestos limitados e poucos expressivos; utiliza posturas diferenciadas; não expressa emoções; apresenta falta de interesse por algo, o que é chamado de hipoativo. Apesar de normalmente o diagnóstico ocorrer após os dois anos, é imprescindível que, desde o nascimento, esteja-se atento aos sinais – que nos casos dos autistas não desaparecem ao longo do tempo; pelo contrário, acentuam-se. Esses comportamentos são avisos de que algo não está correto. “Estas barreiras causadas pelo autismo à comunicação não verbal podem atrasar gravemente o desenvolvimento de qualquer tipo de comunicação, e estas barreiras à comunicação podem permanecer durante muitos anos” (Roger; Dawson; Laurie, 2007, p. 132). A dificuldade da comunicação nos primeiros anos de vida interfere diretamente no modo como a pessoa amplia as demais áreas, ou seja, ficará uma lacuna em seu desenvolvimento na medida em que o bebê não interage, não aprende com o outro, não desenvolve relações afetivas e sociais. Essas dificuldades interferem nas interações familiares, consequentemente os adultos podem se sentir menos motivados a relacionarem-se com essas crianças, o que desencadeia maior isolamento social. A luno: A N T O N IO JO S E D O S S A N T O S IN Á C IO E m ail: antoniojosesantosinacio@ gm ail.com 11 4.2 Atenção compartilhada As crianças com autismo apresentam dificuldade de perceber a intencionalidade do outro; por esse motivo, apresentam dificuldade em desenvolver a atenção compartilhada. É importante salientar que esses empecilhos ocorrem por razões biológicas, que interferem nas habilidades sociais e cognitivas. A dificuldade de interação no ambiente dificulta o processo de aprendizagem, principalmente das ações que precisam do outro para conhecer os meandros culturais. O fato de não compreenderem as regras do grupo social que está inserido prejudica o processo comunicativo. O fato de não interagirem e não se identificarem com as pessoas à sua volta afeta a compreensão das intenções comunicativas, ou seja, não aprendem a ler os sinais daquele espaço. Roger, Dawson e Laurie (2007, p. 132) complementam que “muitas crianças pequenas com autismo parecem desconhecer que a comunicação ocorre entre duas pessoas, não reconhecem a importância do olhar, dos gestos, dos sons da fala e das expressões faciais”. Por não perceberem o outro como um ser intencional, não conseguem observar as atitudes empregadas em seu cotidiano; logo, os objetos utilizados pelos adultos, que poderiam ser úteis para a criança fazer o jogo simbólico durante uma brincadeira, não apresentam sentido para fazer essa representação. Assim, o infante não consegue colocar no brincar a intencionalidade em suas ações, ou seja, não apresenta sentido para esse ato. O jogo simbólico se encontra prejudicado nos autistas, pois não conseguem abstrair que um objeto pode assumir a mesma função de um objeto de verdade. É imprescindível salientar que o ato de aprender decorre do processo de imitação, pois pelas “células cerebrais denominas neurônios-espelho, [ligam-se] as ações que vemos os outros fazerem aos nossos padrões de ações. [...] isto significa que, pelo menos até certo ponto, uma nova ação torna-se parte da competência de um observador antes de o observador chegar mesmo a imitá-la”. O gesto de apontar demonstra que a criança compreendeu que o outro é um ser intencional, pois espera-se compartilhar seu desejo com ooutro. Como não percebe que o próximo é um ser psicológico, pode ocorrer que o infante aponte para um objeto que deseja, mas o interesse é no objeto, sem perceber a intenção nem compreender o papel do outro. Essa dificuldade pode levar o autista A luno: A N T O N IO JO S E D O S S A N T O S IN Á C IO E m ail: antoniojosesantosinacio@ gm ail.com 12 a não desenvolver a comunicação intencional, o que afeta suas relações sociais e pode culminar na dificuldade de entendimento do mundo em que vive. TEMA 5 – AVALIAÇÃO QUE NECESSITA ATENÇÃO Diante dos temas abordados anteriormente, pode-se observar o processo de desenvolvimento humano de uma criança típica e comparar com as peculiaridades apresentadas pelas infantes com TEA. Vale ressaltar que normalmente o diagnóstico do autismo acontece depois dos dois anos de idade. Nessa época, ocorre a primeira poda neuronal, que altera alguns circuitos cerebrais. Suspeita-se que essa limpeza dos neurônios mortos ocorra de forma diferente entre os autistas. Abaixo serão apontados sinais de alertas. 5.1 Crianças do 0 aos 6 meses Apesar de o diagnóstico acontecer posteriormente aos dois anos, é imprescindível observar o desenvolvimento do sujeito desde o nascimento. Os sinais de alerta que devem ser verificados d o nascimento até os três meses de idade são: Apresenta dificuldade em seguir o objeto com o olhar; Assusta-se na presença de ruído ou não reage com o som; Não demonstra interesse em ser pego no colo; Choro persistente ou ausência de choro; Não olha e nem segura objetos; Demonstra desinteresse pelo ambiente; Apatia; Evita fixar o olhar; Não responde o outro com um sorriso; Não expressa medo do próximo. 5.2 Crianças dos 6 aos 12 meses Nessa faixa etária é importante observar os seguintes aspectos: Mantém-se imóvel e não demonstra interesse em mudar de lugar; Não leva objetos à boca; Não demonstra reação em contato com som; A luno: A N T O N IO JO S E D O S S A N T O S IN Á C IO E m ail: antoniojosesantosinacio@ gm ail.com 13 Não vocaliza, e quando o faz é de forma monótona; Não produz imitação; Apatia; Satisfaz-se quando está sozinho ou quando fica no mesmo ambiente; Não fica de pé, e quando colocado na posição não consegue se manter sozinho; Não se desloca pelo ambiente; Dificilmente se interessa por brinquedos, e quando o faz utiliza só uma mão; Não vocaliza, e quando faz é muito pobre; Movimentos estereotipados (balança o corpo, movimenta as mãos); Não responde ao sorriso do outro. 5.3 Crianças dos 12 meses aos 2 anos Nesse período é imprescindível o olhar atento para todos os detalhes: Mantém-se imóvel e não demonstra interesse em mudar de lugar; Leva tudo à boca; Não se interessa pelo ambiente; Prefere o isolamento; Não imita; Não participa de jogos de faz de conta; Ausência de atenção partilhada; Não aponta o dedo para demonstrar interesse, mostrar alguma coisa ou pedir algo; Parece não compreender o que é dito. A luno: A N T O N IO JO S E D O S S A N T O S IN Á C IO E m ail: antoniojosesantosinacio@ gm ail.com 14 REFERÊNCIAS BALESTRA, M.M.M. A psicopedagogia em Piaget: uma ponte para a liberdade. Curitiba: Intersaberes, 2012. BAPTISTA, C. R. et al. Autismo e educação: reflexões e propostas de intervenção. Porto Alegre: Artmed, 2002. BRITES, L; BRITES, C. Mentes únicas. São Paulo: Gente, 2019. CORREIA, O. F; LAPREIA, C. A conexão afetiva nas intervenções desenvolvimentistas para crianças autistas. Psicol. cienc. prof., vol. 32, n. 4, p. 926-941, 2012. CUNHA, E. Autismo na escola. Um jeito diferente de aprender, um jeito diferente de ensinar. Rio de janeiro: Wak, 2016. _____. Práticas pedagógicas para inclusão e diversidade. Rio de janeiro: Wak, 2018. DONVAN, J.; ZUCKER, C. Outra sintonia: a história do autismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. FARREL, M. Dificuldades de pensamento pessoal, social e emocional: guia do professor. Porto Alegre: Artmed, 2008. GRANDIN, T.; PANEK, R. 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