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2 INTERAÇÕES MEDICAMENTOSAS E INTERVENÇÃO FARMACÊUTICA A administração de dois ou mais fármacos simultaneamente com alteração do efeito em comparação ao uso isolado do fármaco, é definida como interação medicamentosa. Esta associação de medicamentos frequentemente ocorre com o objetivo de melhorar determinado efeito farmacológico, contudo, muitas inte- rações não são previstas e podem diminuir o efeito de um dos medicamentos ou provocar efeitos danosos. Nos dias atuais, existem inúmeros programas computadorizados que conse- guem verificar as interações medicamentosas, porém é necessário a intervenção farmacêutica para realizar a identificação das interações de maior importância clínica para o paciente. As principais interações medicamentosas de importân- cia clínica estão apresentadas na Tabela abaixo. FÁRMACOS MECANISMOS EFEITOS DA INTERAÇÃO Linezolida + fluoxetina O metabolismo da sertoto- nina é inibido pela monoa- minoxidade. Risco aumentado de síndrome serotonérgica (confusão men- tal, hipertermia, hipertensão, entre outros). Digoxina + amiodarona A amiodarona pode reduzir a excreção da digoxina, pro- longando seu efeito. Os efeitos da digoxina são au- mentados. Varfarina + antibióticos macrolídeos O efeito da varfarina é pro- longado, pois os macrolídeos reduzem a flora intestinal e inibem seu metabolismo. Maior risco de sangramento. Teofilina + ciprofloxacino Inibem o metabolismo hepá- tico feito pelas quinolonas. Pode provocar toxicidade da teofilina 3 | Interações medicamentosas e intervenção farmacêutica CLASSIFICAÇÃO Pode-se classificar as interações medicamentosas de acordo com o início de efeito, gravidade, documentação na literatura e mecanismo de ação. Quanto ao início de efeito, são divididas em rápidas ou tardias: Em relação à gravidade do efeito, as interações podem ser classificadas em gra- ves, moderadas ou leves: Efeito rápido • Início da ação deve ocorrer em até 24 horas após a utilização dos fármacos • Necessário que ocorra monitoramen- to ou intervenção para reduzir ou não os efeitos da interação. Efeito tardio Início da ação pode ocorrer após dias ou semanas GRAVIDADE GRAVES a interação pode afe- tar a evolução clínica ou causar danos per- manentes no paciente, caso não seja corre- tamente monitorada. Devido a isso, requer intervenção para pre- venir ou reduzir os danos. MODERADAS a interação pode inter- ferir na condição clíni- ca do paciente, poden- do exigir modificações na terapia LEVES o efeito da interação não necessariamente afetará o paciente, provocando apenas efeitos clínicos incon- venientes, de modo que não é necessário alterar a terapia ou realizar intervenções mais complexas 4 | Interações medicamentosas e intervenção farmacêutica No que se refere à documentação na literatura, as interações medicamentosas estão classificadas segundo o grau de evidência descrita: Em relação ao mecanismo de ação, as interações podem ser divididas em far- macodinâmicas ou farmacocinéticas. FARMACODINÂMICAS • Acontecem entre dois ou mais fármacos, mediante seus próprios mecanis- mos de ação ou competindo com receptores específicos. • Podem produzir ações de antagonismo (quando um fármaco anula a ação do outro) - são de fácil detecção e são usadas para impedir o efeito adverso de algum fármaco, porém podem ocorrer efeitos desagradáveis quando as dro- gas apresentam o mesmo perfil toxicológico, como a associação de vancomi- cina e gentamicina, pois os dois antibióticos possuem potencial nefrotóxico. • Podem produzir ações de sinergismo (quando um fármaco potencializa a ação de outro) - podem ocorrer adição ou potencialização dos efeitos, além de possíveis efeitos tóxicos. GRAU DE EVIDÊNCIA EXCELENTE muito bem do- cumentadas e estabelecidas por estudos con- trolados SUSPEITO OU RAZOÁVEL pouco documen- tada, ocorrendo apenas a sus- peita de intera- ção medicamen- tosa. BOM bem documen- tadas e a litera- tura indica que existe a intera- ção, porém ainda são necessários estudos para estabelecer a evidência. POBRE muito pouco documentada, os estudos são relacionados a relatos de caso IMPROVÁVEL requer uma maior base far- macológica para estabelecer a existência de in- teração. 5 | Interações medicamentosas e intervenção farmacêutica • A associação de medicamentos para potencializar a eficácia é muito co- mum, alguns exemplos são: sulfametoxazol + trimetroprima: melhora na eficácia terapêutica devido a interferência em diferentes rotas metabólicas da bactéria; penicilina G cristalina + procaína: aumento da duração de ação da penicilina. Já em casos de antagonismo, as FARMACOCINÉTICAS • De acordo com o sítio de ação, podem estar relacionadas com os proces- sos de absorção, distribuição, metabolismo e eliminação. • Podem reduzir o gradiente de concentração dos fármacos, afetando a bio- disponibilidade e a eficácia terapêutica. ABSORÇÃO • a absorção dos fármacos ocorre principalmente no intestino delgado, este processo pode sofrer alterações se for administrado em associação com antiácidos, resinas, alimentos ou substâncias adsorventes, pois a altera- ção do pH gástrico ou intestinal pode alterar as velocidades de desintegra- ção, dissolução ou absorção. Além disso, a diminuição da acidez gástrica causada por tratamento com inibidores da bomba de prótons pode preju- dicar a absorção de determinados fármacos, devido a diminuição da sua lipossolubilidade, o que dificulta o processo de atravessar a membrana gástrica. Tratamento com antiácidos: • Pode interferir na motilidade gastrintestinal; • Pode alterar a solubilidade de alguns fármacos, formando compostos com baixa solubilidade. • Exemplo: administração de medicamentos com cálcio, magnésio ou alumí- nio juntamente com tetraciclina ou rifampicina • Recomendação: utilizar os fármacos que contém estes cátions no mínimo 6 | Interações medicamentosas e intervenção farmacêutica duas horas após a ingestão de outro medicamento, para evitar a diminui- ção da absorção e da eficácia terapêutica, que pode ocorrer pois o alu- mínio reduz o esvaziamento gástrico e o magnésio aumenta a motilidade gastrintestinal. Substâncias adsorventes (ex: Carvão ativado) • Ocorre diminuição da absorção de digitálicos e de certos antimicrobia- nos, devido a isso, podem ser utilizadas em casos de intoxicação. Interações relacionadas a absorção • Podem afetar a flora intestinal e alterar o efeito de alguns fármacos, um exemplo é o uso de antibióticos orais em conjunto com contraceptivos, isso ocorre pois alguns antibióticos diminuem a flora bacteriana no in- testino grosso, estas bactérias tem a função de metabolizar ou realizar a desconjugação de alguns medicamentos que são absorvidos no intes- tino durante o ciclo êntero-hepático, no exemplo citado acima, a falha de desconjugação reduz a reabsorção do contraceptivo para a circulação, de modo que seus níveis plasmáticos ficam abaixo do limite terapêutico. DISTRIBUIÇÃO • Após o fármaco atingir a circulação sanguínea, sua chegada aos tecidos de- pende de vários fatores, tais como características físico-químicas (tamanho molecular, polaridade, solubilidade aquosa e lipídica) de seu princípio ativo e condições fisiológicas do paciente. A ligação a proteínas plasmáticas e tissulares é o meio pelo qual a maioria das interações relacionadas a dis- tribuição ocorrem, o processo se caracteriza por rápido aumento do efeito farmacológico, seguido de redução após alguns dias de tratamento, devido ao aumento da quantidade de fármaco livre, disponível para ser excretado. • Estas interações tem importância clínica principalmente em fármacos com baixo índice terapêutico (fármacos que apresentam o valor da dose tóxica bastante próximo do valor da dose eficaz) 7 | Interações medicamentosas e intervenção farmacêutica METABOLISMO • Apresentam elevada importância clínica e podem ocorrer através de dois mecanismos:inibição ou indução enzimática. É comum que muitos fár- macos sejam indutores do metabolismo hepático por meio do citocromo P450, este aumento do metabolismo faz com que consequentemente as concentrações plasmáticas e os efeitos farmacológicos diminuam se os metabólitos forem inativos e se forem ativos, podem ocorrer efeitos tóxi- cos. O processo de indução enzimática é dose-dependente, e o retorno aos níveis normais pode levar vários dias. Alguns exemplos de indutores enzimáticos do cito- cromo P450 são a rifampicina, a carbamazepina, a fenitoína, o fenobarbital, a progesterona e a testosterona. Resumindo, tanto na indução quanto na inibição, os principais efeitos resultantes de interações entre os fármacos são: ELIMINAÇÃO • substâncias que acidificam o pH urinário podem aumentar a velocidade de excreção de fármacos básicos e reduzir a velocidade de excreção de fár- macos ácidos. Como exemplo, pode-se citar o bicarbonato de sódio, que é maiores concentrações do fármaco (efeito terapêutico ou tóxico) redução de efeito (concentração plasmática menor do que a mínima efetiva) menor duração de ação (devido ao aumento na velocidade de biotransformação) 8 | Interações medicamentosas e intervenção farmacêutica usado para aumentar o pH urinário, aumentando a excreção de fármacos ácidos.Estas alterações no pH podem prejudicar os processos de reabsor- ção. • A secreção tubular do plasma para urina é um processo ativo envolvendo transportadores específicos para ácidos e bases fracos, que podem com- petir com outro por esse transporte, diminuindo a velocidade de secreção tubular e a depuração renal ao mesmo tempo que as concentrações plas- máticas do fármaco são aumentadas. A interação da penicilina com a probenicida, é um exemplo de interação muito eficaz e se caracteriza por redução da excreção de penicilina e aumento da meia-vida do antibiótico. INTERAÇÕES ENTRE FÁRMACOS E ALIMENTOS Nos hospitais, as interações fármaco-alimento podem prejudicar a eficácia da terapia medicamentosa, pois geralmente muitos pacientes internados são ido- sos que fazem uso de diversos medicamentos e/ou apresentam distúrbios me- tabólicos. Geralmente, as interações fármaco-alimento são relacionadas aos processos de absorção, mais especificamente pela redução da solubilidade do princípio ativo causada pelo surgimento de complexos, diminuição do contato do fármaco com as superfícies de absorção devido a formação de barreiras físicas, alterações do fluxo sanguíneo e da motilidade gastrintestinal. A administração de fármacos junto ou logo após as refeições normalmente pre- judica a sua absorção, contudo existem algumas exceções em que a presença de carboidratos e gorduras melhora a absorção, é o caso da hidroclorotiazida, teofilina, metoprolol e diazepam. A ingestão de fármacos junto com alimentos também pode reduzir os efeitos colaterais de determinados fármacos como al- guns anti-inflamatórios e antimicrobianos. Além disso, é importante lembrar que deve-se evitar a ingestão de sucos de frutas cítricas junto com medicamen- tos, devido a possível alteração do pH gástrico que prejudicaria a absorção. A interação entre as tetraciclinas e alimentos como o leite (ricos em cálcio) é uma das interações clássicas de fármaco-alimento, ela provoca a formação de 9 | Interações medicamentosas e intervenção farmacêutica quelatos insolúveis que são excretados pelas fezes. Outros exemplos de intera- ções entre fármacos e alimentos estão descritos na Tabela abaixo. Medicamento Efeito Recomendação Ciprofloxacino Pode ocorrer quelação do an- tibiótico se for administrado junto com bebidas fortifica- das com cálcio ou derivados lácteos. Administrar o medicamento duas horas após as refeições. Levotiroxina A absorção do medicamen- to pode ser prejudicada pela presença de alimentos. Administrar o medicamento de estômago vazio, 30 a 60 minutos antes do café da ma- nhã Didanosina A biodisponibilidade das cáp- sulas de liberação lenta é diminuída cerca de 19% na presença de alimentos e a da suspensão oral aproximada- mente 50% Utilizar o medicamento no mí- nimo 30 minutos antes ou 2 horas após as refeições Captopril A ingestão de alimentos, prin- cipalmente os ricos em potás- sio, reduz a absorção em 10 a 50%. Deve-se utilizar o fármaco 1 hora antes ou 2 horas após as refeições.