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1 Júlia Morbeck – @med.morbeck Objetivos 1- Discutir o diagnóstico clínico e laboratorial da Síndrome Metabólica; 2- Conhecer a estratificação do risco cardiovascular; 3- Aprender a abordar a terapêutica farmacológica e não farmacológica da Síndrome Metabólica; 4- Debater a atenção a saúde do trabalhador. Síndrome Metabólica ↠ A Síndrome Metabólica (SM) é um transtorno complexo representado por um conjunto de fatores de risco cardiovascular usualmente relacionados à deposição central de gordura e à resistência à insulina. É importante destacar a associação da SM com a doença cardiovascular, aumentando a mortalidade geral em cerca de 1,5 vezes e a cardiovascular em cerca de 2,5 vezes (I DIRETRIZ, 2005). A SM caracteriza-se por uma associação de fatores de risco CV, incluindo obesidade central, elevação de glicemia e dislipidemia típica (elevação de triglicerídeos e níveis reduzidos de HDL colesterol) associada a elevação da PA (BARROSO et al., 2020). ↠ A Síndrome Metabólica tem como base a resistência à ação da insulina (hormônio responsável pelo metabolismo da glicose), por isso, também é conhecida como síndrome de resistência à insulina. Isto é: a insulina age menos nos tecidos, obrigando o pâncreas a produzir mais insulina, aumentando seu nível no sangue. Alguns fatores que podem contribuir para o seu aparecimento são: os genéticos, excesso de peso e a ausência de atividade física (ARANTES et al., 2023). EPIDEMIOLOGIA: A prevalência mundial da síndrome metabólica é de 25%, sendo responsável por 7% da mortalidade e por 17% dos óbitos relacionados às doenças cardiovasculares. Além disso, a SM já é considerada um dos maiores problemas de saúde pública mundial e, provavelmente, cerca de 20 a 25% da população mundial ainda poderão desenvolver essa síndrome. Segundo dados está registrada, no Brasil, uma prevalência de SM na população adulta de 29,6% e há relatos que mais de 40% da população acima de 60 anos são acometidas pela doença. (ARANTES et al., 2023). Tais alterações metabólicas são encontradas em 30 a 40% dos portadores de HA, e a presença da elevação da pressão arterial (PA) na SM eleva o risco CV global por ativar mecanismos que se associam a estados pro-trombótico e pro-inflamatório. Assim, a investigação da presença das alterações metabólicas da SM e da obesidade central é imprescindível no paciente com HA (BARROSO et al., 2020). FISIOPATOLOGIA: A obesidade visceral ou central (abdominal) é caracterizada por uma distribuição da gordura corporal do tipo andróide, ou seja, conhecida como corpo em formato de “maçã”, representando o aspecto principal da SM (ESTRATÉGIAMED). Ao contrário da gordura subcutânea, o acúmulo de gordura visceral, que pode ser facilmente estimado pela medida da circunferência da cintura está relacionado a diversos problemas metabólicos plasmáticos, característicos da SM: (FERRARI, 2007). • Hipersensibilidade aos glicocorticóides; • Elevados níveis plasmáticos de glicose que induzem o pâncreas a liberar excesso de insulina (hiperinsulinemia) que, a longo prazo, culmina com resistência à insulina e diabetes mellitus tipo II; • Aumento da secreção de angiotensina que pode aumentar o risco de hipertensão; • Aumento da secreção de interleucina-6 (IL-6), citocina inflamatória; • Aumento de triglicerídeos (TG) que pode comprometer a viscosidade sanguínea, aumentando o risco cardiovascular; • Redução do colesterol HDL, fundamental para realizar o transporte reverso do colesterol e que apresenta também efeitos anti-inflamatórios, antioxidantes e vasodilatadores (aumenta a síntese de óxido nítrico pelo estímulo da isoforma endotelial da enzima sintase do óxido nítrico – eNOS). OBS.: O excesso de glicocorticóides estimula a glicose-6-fosfatase, promovendo maior liberação de glicose das células pancreáticas (e outros tecidos como fígado e músculos) para o sangue, promovendo estados de hiperglicemia e de resistência dos tecidos à ação da insulina, outro componente da SM (FERRARI, 2007). OBS.: Quando há acúmulo de gordura visceral aumenta o risco de degeneração gordurosa não-alcoólica do fígado uma vez que há aumento da lipólise e da síntese de TG a partir da glicose. Neste caso, também há aumento da secreção hepática de TG para o sangue, aumentando seus níveis séricos. O excesso de TG no sangue, outro componente da síndrome metabólica, diminui a secreção hepática de HDL e promove alteração da viscosidade sanguínea, favorecendo o processo de agregação de plaquetas e o risco de trombose. Além disso, o excesso de TG estimula a secreção do colesterol VLDL e de partículas de LDL pequenas e densas que são prontamente oxidadas e fagocitadas pelos macrófagos da parede arterial, formando depósitos citoplasmáticos de gordura, transformando-os em células espumosas, que vão progressivamente dando origem às lesões ou estrias gordurosas até a formação de placas de gordura no processo de aterogênese (FERRARI, 2007). OBS.: O excesso de gordura visceral induz os leucócitos mononucleares (linfócitos e monócitos) a secretarem diversas citocinas inflamatórias, como a IL-1, IL-6, IL-8, o fator de necrose tumoral alfa (TNF-á) e o fator de crescimento transformado beta (TGF-â). Ademais, o excesso de adiposidade visceral induz o fígado a secretar fibrinogênio, proteína Síndrome Metabólica – 2 Júlia Morbeck – @med.morbeck amilóide sérica A e proteína C-reativa (PCR), esta última um indicador inflamatório de risco cardiovascular na SM (FERRARI, 2007). CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS DE SÍNDROME METABÓLICA ATENÇÃO: O estudo da SM tem sido dificultado pela ausência de consenso na sua definição e nos pontos de corte dos seus componentes, com repercussões na prática clínica e nas políticas de saúde. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o National Cholesterol Education Program’s Adult Treatment Panel III (NCEP-ATP III) formularam definições para a SM (I DIRETRIZ, 2005). ↠ A definição da OMS preconiza como ponto de partida a avaliação da resistência à insulina ou do distúrbio do metabolismo da glicose, o que dificulta a sua utilização. A definição do NCEP-ATP III foi desenvolvida para uso clínico e não exige a comprovação de resistência à insulina, facilitando a sua utilização (I DIRETRIZ, 2005). ↠ Segundo o NCEP-ATP III, a SM representa a combinação de pelo menos três componentes. Pela sua simplicidade e praticidade é a definição recomendada pela I Diretriz Brasileira de Diagnóstico e Tratamento da Síndrome Metabólica (I-DBSM) (I DIRETRIZ, 2005). A circunferência abdominal, medida no meio da distância entre a crista ilíaca e o rebordo costal inferior, por ser o índice antropométrico mais representativo da gordura intra-abdominal e de aferição mais simples e reprodutível, é a medida recomendada O ponto de corte estabelecido para a circunferência abdominal, 102 cm para homens e 88 cm para mulheres, tem sido questionado por não se adequar a populações de diferentes etnias. Em alguns estudos, níveis mais baixos – 94 cm para homens e 80 cm para mulheres–, têm sido considerados mais apropriados (I DIRETRIZ, 2005). Recomenda-se para mulheres com circunferência de cintura abdominal entre 80–88 cm e homens entre 94–102 cm uma monitorização mais frequente dos fatores de risco para doenças coronarianas (I DIRETRIZ, 2005). ATENÇÃO: Pode-se perceber que esses fatores estão todos relacionados com maus hábitos alimentares e sedentarismo adquiridos por transformações culturais e sociais em decorrência do desenvolvimento econômico e da urbanização (ARANTES et al., 2023). IMPORTANTE: Apesar de não fazerem parte dos critérios diagnósticos da síndrome metabólica, várias condições clínicas e fisiopatológicas estão frequentemente a ela associadas, tais como: síndrome de ovários policísticos, acanthosis nigricans, doença hepática gordurosa não-alcoólica, microalbuminúria,estados pró-trombóticos, estados pró- inflamatórios e de disfunção endotelial e hiperuricemia (I DIRETRIZ, 2005). DIAGNÓSTICO CLÍNICO E AVALIAÇÃO LABORATORIAL ↠ São objetivos da investigação clínica e laboratorial: confirmar o diagnóstico da síndrome metabólica (SM) de acordo com os critérios do NCEP-ATP III e identificar fatores de risco cardiovascular associados. Para tanto, realiza-se: (I DIRETRIZ, 2005). HISTÓRIA CLÍNICA ❖ Idade, tabagismo, prática de atividade física; ❖ História pregressa de hipertensão, diabetes, diabetes gestacional, doença arterial coronariana, acidente vascular encefálico, síndrome de ovários policísticos (SOP), doença hepática gordurosa não-alcoólica, hiperuricemia; ❖ História familiar de hipertensão, diabetes e doença cardiovascular; ❖ Uso de medicamentos hiperglicemiantes (corticosteróides, betabloqueadores, diuréticos). EXAME FÍSICO ❖ Medida da circunferência abdominal: é tomada na metade da distância entre a crista ilíaca e o rebordo costal inferior; 3 Júlia Morbeck – @med.morbeck ❖ Níveis de pressão arterial: Deve-se aferir no mínimo duas medidas da pressão por consulta, na posição sentada, após cinco minutos de repouso. ↠ Além destes dois dados obrigatórios deverá estar descrito no exame físico destes pacientes: (I DIRETRIZ, 2005). ❖ Peso e estatura: Devem ser utilizados para o cálculo do índice de massa corporal através da fórmula: IMC = Peso/Altura2. ❖ Exame da pele para pesquisa de acantose nigricans. Examinar pescoço e dobras cutâneas. ❖ Exame cardiovascular. Exames laboratoriais ❖ Glicemia de jejum: A SM, definida pelos critérios do NECP-ATP III, recomenda para o diagnóstico das alterações da tolerância à glicose apenas a avaliação laboratorial de jejum, não exigindo teste de tolerância oral à glicose (TOTG) nem métodos acurados de avaliação da insulino- resistência (clamp euglicêmico, HOMA–IR). ❖ Dosagem do HDL-colesterol e dos triglicerídeos. ↠ Outros exames laboratoriais adicionais poderão ser realizados para melhor avaliação do risco cardiovascular global, tais como: (I DIRETRIZ, 2005). ❖ colesterol total; ❖ LDL-colesterol; ❖ Creatinina; ❖ ácido úrico; ❖ microalbuminúria; ❖ proteína C reativa; ❖ TOTG (glicemia de jejum e após duas horas da ingestão de 75g de dextrosol); ❖ eletrocardiograma. ATENÇÃO: A presença de LDL aumentado não faz parte dos critérios diagnósticos da síndrome metabólica, porém, frequentemente, os pacientes portadores de resistência à insulina e síndrome metabólica apresentam aumento da fração pequena e densa do LDL colesterol que tem um potencial aterosclerótico maior (I DIRETRIZ, 2005). ESTRATIFICAÇÃO DO RISCO CARDIOVASCULAR ↠ A estratificação de risco CV global não é específica para o paciente hipertenso e tem como objetivo determinar o risco global de um indivíduo entre 30 e 74 anos de desenvolver DCV em geral nos próximos 10 anos. Vale ressaltar que a HA é um dos FRCV com maior impacto relativo – portanto, presente em todas as equações de estimativa de risco global (BARROSO et al., 2021). ↠ A estimativa de risco CV não deve ser obtida de modo intuitivo ou pela mera soma dos FR presentes, mas por métodos que considerem sua natureza complexa e multifatorial. Mesmo médicos experientes erram em mais de 50% dos casos quando estimam o risco sem a utilização de uma equação ou um algoritmo (BARROSO et al., 2021). ↠ A classificação do risco CV depende dos níveis da PA, dos FRCV associados, da presença de lesões em órgãos- alvo (LOA), que são lesões estruturais e/ou funcionais decorrentes da HA em vasos, coração, cérebro, rins e retina, e/ou da existência de DCV ou doença renal estabelecidas. Diferentes escores foram desenvolvidos e vêm sendo aplicados para classificar os pacientes hipertensos em categorias de baixo, moderado e alto riscos CV (BARROSO et al., 2021). OBS.: A hipertensão arterial sistêmica (HAS) é uma condição clínica multifatorial caracterizada por elevação sustentada dos níveis pressóricos = 140 e/ou 90 mmHg (COSTA et al., 2021). ↠ O envelhecimento é considerado um fator de risco para a maioria das doenças cardiovasculares, assim como de inúmeras comorbidades, tornando os idosos o grupo etário de maior heterogeneidade e complexidade. Por isso, a SM tem sido relacionada aos eventos cardiovasculares em idosos (COSTA et al., 2021). ↠ Neste sentido, alguns instrumentos estão disponíveis para a avaliação do risco cardiovascular (RCV). Cabe ressaltar o escore de risco de Framingham (ERF) que é uma ferramenta útil e de fácil aplicação no cotidiano. Classifica os indivíduos em baixo, moderado e elevado risco de desenvolver uma doença cardiovascular nos próximos dez anos, por meio de uma pontuação que 4 Júlia Morbeck – @med.morbeck auxilia na definição de condutas terapêuticas (COSTA et al., 2021). OBS.: O Framingham Heart Study foi iniciado em 1948 com menos de seis mil participantes e, durante mais de meia década, conseguiu estabelecer relações de causalidade que nenhum outro estudo ainda teve possibilidade, apesar da sua amostra, hoje, ser considerada muito pequena. Para tanto se torna necessário conhecer as forças e fraquezas do Framingham Heart Study (LOTUFO et al., 2008). OBS.: A possibilidade de se estimar o risco absoluto em dez anos permite ações preventivas, principalmente dirigir a estratégia populacional e a busca de alto risco. De acordo, com vários autores existem problemas básicos, sumarizados a seguir. Primeiro, o escore de Framingham foi realizado com medidas de quase meio século, assim há a possibilidade real que o risco tenha se alterado durante o tempo. Segundo, o risco absoluto nos participantes de Framingham não é necessariamente a mesma em outras populações. Terceiro, fatores de risco primordiais como dieta, peso corpóreo e atividade física não são considerados no escore. Quarto, o risco apresentado é unidirecional como em todo e qualquer estudo observacional. Isto é, não se pode garantir que a redução de um fator de risco reduza de fato o risco, afirmação que somente poderia ser confirmada em ensaio clínico, evidentemente inviável pelo tamanho de amostra e tempo de duração necessário para conclusões como as apresentadas. Quinto, o escore categorizou as variáveis contínuas como pressão arterial sistólica, colesterol total e fração HDL do colesterol. No entanto, o risco dessas variáveis é contínuo. Assim, pode haver algum grau de confusão nos valores limítrofes. Sexto, não houve correção para “regression dilution bias”, isto é, não se corrigiu os valores com variação alta para o ajuste da regressão à média, permitindo que o risco possa estar subestimado, como ficou comprovado em estudos observacionais e ensaios clínicos. Sétimo, o problema da interpretação do resultado de acordo a idade e expectativa de vida do observador. Admite-se que o risco em vinte anos seja o dobro do risco em dez anos se houver uma relação temporal linear com risco, algo improvável (LOTUFO et al., 2008). Estratificação de risco do paciente hipertenso ↠ Vale lembrar que os FR mencionados se referem àqueles com valor epidemiológico estabelecido, facilidade de obtenção na maioria das situações clínicas e comprovado valor prognóstico. Auxilia na compreensão do impacto da progressão de risco associado aos diferentes graus de PA, presença de FR, LOA ou doença cardiovascular e/ou renal, em indivíduos de meia-idade (BARROSO et al., 2021). 5 Júlia Morbeck – @med.morbeck Tratamento Prevenção primária De acordo com a Organização Mundial de Saúde, os fatores de risco mais importantes para a morbimortalidade relacionada às doenças crônicas não-transmissíveis (DCNT) são: hipertensão arterial sistêmica, hipercolesterolemia, ingestão insuficientede frutas, hortaliças e leguminosas, sobrepeso ou obesidade, inatividade física e tabagismo. Cinco desses fatores de risco estão relacionados à alimentação e à atividade física e três deles têm grande impacto no aparecimento da Síndrome Metabólica (SM) (I DIRETRIZ, 2005). ↠ A predisposição genética, a alimentação inadequada e a inatividade física estão entre os principais fatores que contribuem para o surgimento da SM, cuja prevenção primária é um desafio mundial contemporâneo, com importante repercussão para a saúde (I DIRETRIZ, 2005). ↠ Destaca-se o aumento da prevalência da obesidade em todo o Brasil e uma tendência especialmente preocupante do problema em crianças em idade escolar, em adolescentes e nos estratos de mais baixa renda. A adoção precoce por toda a população de estilos de vida relacionados à manutenção da saúde, como dieta adequada e prática regular de atividade física, preferencialmente desde a infância, é componente básico da prevenção da SM (I DIRETRIZ, 2005). A alimentação adequada deve: (I DIRETRIZ, 2005). • permitir a manutenção do balanço energético e do peso saudável; • reduzir a ingestão de calorias sob a forma de gorduras, mudar o consumo de gorduras saturadas para gorduras insaturadas, reduzir o consumo de gorduras trans (hidrogenada); • aumentar a ingestão de frutas, hortaliças, leguminosas e cereais integrais; • reduzir a ingestão de açúcar livre; • reduzir a ingestão de sal (sódio) sob todas as formas. A atividade física é determinante do gasto de calorias e fundamental para o balanço energético e controle do peso. A atividade física regular ou o exercício físico diminuem o risco relacionado a cada componente da SM e trazem benefícios substanciais também para outras doenças (câncer de cólon e câncer de mama) (I DIRETRIZ, 2005). O tabagismo deve ser agressivamente combatido e eliminado, pois eleva o risco cardiovascular (I DIRETRIZ, 2005). Tratamento não medicamentoso da SM ↠ A realização de um plano alimentar para a redução de peso, associado a exercício físico são considerados terapias de primeira escolha para o tratamento de pacientes com síndrome metabólica. Está comprovado que esta associação provoca a redução expressiva da circunferência abdominal e a gordura visceral, melhora significativamente a sensibilidade à insulina, diminui os níveis plasmáticos de glicose, podendo prevenir e retardar o aparecimento de diabetes tipo 2 (I DIRETRIZ, 2005). Dieta ↠ A adoção de um plano alimentar saudável é fundamental no tratamento da síndrome metabólica. Ele deve ser individualizado e prever uma redução de peso sustentável de 5% a 10% de peso corporal inicial. O primeiro passo é estabelecer as necessidades do indivíduo a partir da avaliação nutricional, incluindo a determinação do índice de massa corporal, circunferência abdominal e, quando possível, a composição corporal. Além disso, a determinação do perfil metabólico é muito importante na terapia nutricional da síndrome metabólica (I DIRETRIZ, 2005). ↠ Várias abordagens dietéticas têm sido preconizadas para o tratamento da síndrome metabólica: (BANDEIRA et al., 2015). • Dieta do Mediterrâneo pode ser benéfica: Em um estudo comparando a dieta do Mediterrâneo (rica em frutas, legumes, nozes, grãos integrais e azeite de oliva) com uma dieta puramente pobre em gordura, indivíduos no grupo da dieta do Mediterrâneo apresentaram maior perda de peso, menor pressão arterial, melhora do perfil lipídico e da RI, e menores níveis de marcadores de inflamação e função endotelial. • A dieta DASH, ingesta de sódio limitada a 2.400mg/ dia, comparada com a dieta de redução de peso que enfatiza a escolha de comidas saudáveis, resultou em melhora mais significativa nos triglicerídeos, na pressão arterial diastólica e na glicemia de jejum, mesmo após controle de perda de peso. • Dieta de baixo índice glicêmico pode melhorar a glicemia e a dislipidemia. É feita uma troca de açúcar refinado por grãos, frutas e verduras e é eliminado o consumo de bebidas calóricas, o que pode ser particularmente benéfico para pacientes com SM. O impacto do índice glicêmico isoladamente versus o aumento de comidas com alto teor de fibras que contêm baixo índice glicêmico é incerto. 6 Júlia Morbeck – @med.morbeck Exercício OBS.: A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda de 150 a 300 minutos de atividade física de moderada intensidade por semana para todos os adultos e uma média de 60 minutos de atividade aeróbica moderada por dia para crianças e adolescentes. Recomendações adicionais ↠ Controle das situações estressantes, cessação do fumo e controle na ingestão de bebida alcoólica (I DIRETRIZ, 2005). ↠ Para o consumo de bebidas alcoólicas, o limite máximo recomendado é de 30 g de etanol ao dia para o sexo masculino e metade para as mulheres (I DIRETRIZ, 2005). Tratamento medicamentoso da SM Hipertensão arterial sistêmica (HAS) ↠ O tratamento medicamentoso da hipertensão arterial na síndrome metabólica tem como objetivo reduzir a morbidade e a mortalidade cardiovascular e renal, além de prevenir o agravamento metabólico. Esses benefícios podem ser alcançados em pacientes tratados com diuréticos, inibidores adrenérgicos, inibidores da enzima conversora da angiotensina (IECA), antagonistas do receptor AT1 da angiotensina II (BRA), antagonistas de canais de cálcio e vasodilatadores diretos (I DIRETRIZ, 2005). Meta de redução da pressão arterial Redução da pressão arterial para cifras inferiores a 130mmHg/85mmHg pode ser útil em pacientes com elevado risco cardiovascular. Nos pacientes diabéticos, recomenda-se reduções da pressão arterial para níveis inferiores a 130/80mmHg e para os pacientes com proteinúria maior que 1g/24h, cifras inferiores a 120/75mmHg deverão ser a meta (I DIRETRIZ, 2005). Para os pacientes portadores de doença cardiovascular estabelecida e com idade superior a 50 anos, recomenda-se atingir essa meta em menos de seis meses. Para isso, pode ser utilizada a maioria dos hipotensores, não havendo diferenças entre eles em relação aos benefícios cardiovasculares (I DIRETRIZ, 2005). São características desejáveis do fármaco anti-hipertensivo: (BARROSO et al., 2021). • Ter demonstrado a capacidade de reduzir a morbidade e a mortalidade CV; • Ser eficaz por via oral; • Ser bem tolerado; • Ser administrado preferencialmente em dose única diária; • Poder ser usado em associação; • Ter controle de qualidade em sua produção. Além disso, recomenda-se: (BARROSO et al., 2021). • Utilizar por um período mínimo de quatro semanas, antes de modificações, salvo em situações especiais; • Não utilizar medicamentos manipulados, pois não são submetidos a controle da farmacocinética e farmacovigilância; • O paciente deverá ser orientado sobre a importância do uso contínuo da medicação anti-hipertensiva, da eventual necessidade de ajuste de doses, da troca ou da associação de medicamentos e ainda do eventual aparecimento de efeitos adversos; • Não há evidências suficientes para a recomendação rotineira da administração noturna de fármacos antihipertensivos, exceto em condições especiais. ATENÇÃO: O tratamento com medicamentos pode ser iniciado com monoterapia ou com combinação de fármacos. Ênfase deve ser dada ao uso de combinação de fármacos como estratégia preferencial para a maioria dos pacientes hipertensos (BARROSO et al., 2021). DIURÉTICOS ↠ São eficazes no tratamento da hipertensão arterial, tendo sido comprovada a sua eficácia na redução da morbidade e da mortalidade cardiovascular, inclusive em pacientes com diabetes (I DIRETRIZ, 2005). MECANISMO DE AÇÃO: relaciona-se inicialmente a seus efeitos natriuréticos, com a diminuição do volume circulante e do volume extracelular. Após quatro a seis semanas, o volume circulantepraticamente normaliza-se, e ocorre redução da resistência vascular periférica (RVP) (BARROSO et al., 2021). • Diuréticos de alça inibem a reabsorção de sódio e de cloreto nos túbulos distais e proximais do rim, bem como na alça de Henle. A ação nesses três locais aumenta sua efetividade como diuréticos (FORD, 11ª ed.). • Diuréticos tiazídicos e diuréticos relacionados inibem a reabsorção de íons sódio e cloreto no ramo ascendente da alça de Henle e na parte inicial do túbulo distal do néfron. Essa ação resulta na excreção de sódio, cloreto e água (FORD, 11ª ed.). • Diuréticos poupadores de potássio reduzem a excreção de potássio pelo rim. Eles bloqueiam a reabsorção de sódio nos túbulos renais, com consequente aumento da eliminação de sódio e água na urina; isso reduz a excreção de potássio. A espironolactona antagoniza a ação da aldosterona. A aldosterona, um hormônio produzido pelo córtex das glândulas suprarrenais, aumenta a reabsorção 7 Júlia Morbeck – @med.morbeck de sódio nos túbulos contorcidos distais do rim. Quando essa reabsorção é bloqueada pelo fármaco, o sódio (mas não o potássio) e a água são excretados (FORD, 11ª ed.). ↠ Deve-se dar preferência aos DIU tiazídicos (hidroclorotiazida) ou similares (clortalidona e indapamida) em doses baixas, pois são mais suaves e com maior tempo de ação, reservando-se os DIU de alça (furosemida e bumetanida) às condições clínicas com retenção de sódio e água, como a insuficiência renal (creatinina > 2,0 mg/dL ou o ritmo de filtração glomerular estimado ≤ 30 mL/min/1,73m2) e situações de edema (IC, síndrome nefrítica). Os DIU poupadores de potássio (espironolactona e amilorida) costumam ser utilizados em associação aos tiazídicos ou DIU de alça. A espironolactona tem sido habitualmente utilizada como o quarto medicamento a ser associado aos pacientes com HA resistente e refratária (BARROSO et al., 2021). Há maior potência diurética da clortalidona com relação à hidroclorotiazida, quando comparadas dose a dose, e sua meia-vida mais prolongada credenciou-a a ser indicada como DIU preferencial em pacientes com HA resistente ou refratária. Isso porque a retenção de sódio e volume é um mecanismo importante na resistência ao tratamento. Já a indicação da clortalidona como DIU preferencial em função de promover maior redução de eventos CV é controversa, pois a metanálise e os estudos observacionais incluindo grande número de usuários são discordantes. Por outro lado, como seria esperado pelo efeito diurético mais intenso, tais estudos registraram maior frequência de efeitos adversos da clortalidona, particularmente os distúrbios hidreletrolíticos e metabólicos (BARROSO et al., 2021). ATENÇÃO: As doses altas de diuréticos não implicam necessariamente em benefício hipotensor adicional, mas certamente potencializam efeitos colaterais tais como a hipocalemia e desajustes metabólicos glicídicos e lipídicos (I DIRETRIZ, 2005). EFEITOS ADVERSOS: Os principais efeitos adversos dos DIU são fraqueza, cãibras, hipovolemia e disfunção erétil. A hipopotassemia é o efeito metabólico mais comum e, frequentemente acompanhada de hipomagnesemia, que podem provocar arritmias ventriculares, sobretudo a extrassistolia. A hipopotassemia também reduz a liberação de insulina, aumentando a intolerância à glicose e o risco de desenvolver diabetes melito tipo 2. O aumento do ácido úrico é um efeito quase universal dos DIU, podendo precipitar crises de gota nos indivíduos com predisposição (BARROSO et al., 2021). OBS.: Considerando-se que a monoterapia anti-hipertensiva dificilmente promoverá o controle da pressão arterial dos pacientes com síndrome metabólica e que a maioria dos hipertensos necessitará de associações medicamentosas, sugere-se que esse hipotensor seja associado a drogas que bloqueiam o sistema renina-angiotensina e minimizam a hipocalemia (I DIRETRIZ, 2005). Inibidores da enzima conversora da angiotensina (IECA) MECANISMO DE AÇÃO: inibição da enzima conversora de angiotensina I, responsável a um só tempo pela transformação de angiotensina I em angiotensina II (vasoconstritora) e pela redução da degradação da bradicinina (vasodilatadora) (BARROSO et al., 2021). ↠ São eficazes no tratamento da HA, reduzindo a morbidade e mortalidade CV. Mostram-se medicações comprovadamente úteis em muitas outras afecções CV, como em ICFEr e antirremodelamento cardíaco pós-IAM, além de possíveis propriedades antiateroscleróticas. Também retardam o declínio da função renal em pacientes com doença renal do diabetes ou de outras etiologias, especialmente na presença de albuminúria (BARROSO et al., 2021). EFEITOS ADVERSOS: Habitualmente, são bem tolerados pela maioria dos pacientes hipertensos, sendo a tosse seca seu principal efeito colateral, acometendo 5 a 20% dos usuários. O edema angioneurótico e a erupção cutânea ocorrem mais raramente. Um fenômeno observado quando se administra a pacientes com insuficiência renal é a piora inicial da função renal, habitualmente discreta, provocada pela adaptação da hemodinâmica intraglomerular (vasodilatação da arteríola eferente e redução da pressão de filtração glomerular) que resulta em elevação da ureia e da creatinina séricas. Entretanto, essa piora inicial da função renal é um mecanismo protetor, pois evita a hiperfiltração glomerular e reduz a progressão da doença renal crônica. Se a perda da função renal for importante (> 30%), deve-se retirar o medicamento e investigar a possibilidade de estenose bilateral das artérias renais ou estenose de artéria renal em rim único funcionante (BARROSO et al., 2021). OBS.: O uso é contraindicado na gravidez, pelo risco de complicações fetais (BARROSO et al., 2021). 8 Júlia Morbeck – @med.morbeck Antagonistas do receptor AT1 da angiotensina II (BRA) MECANISMO DE AÇÃO: Antagonizam a ação da angiotensina II pelo bloqueio específico dos receptores AT1, responsáveis pelas ações próprias da angiotensina II (vasoconstrição, estímulo da proliferação celular e da liberação de aldosterona) (BARROSO et al., 2021). ↠ No tratamento da HA, especialmente em populações de alto risco CV ou com comorbidades, proporcionam a redução da morbidade e da mortalidade CV e renal (doença renal do diabetes) (BARROSO et al., 2021). EFEITOS ADVERSOS: São incomuns os efeitos adversos relacionados com os BRA, sendo o exantema raramente observado. De forma semelhante aos IECA, os BRA podem promover a redução inicial da filtração glomerular por vasodilatação das arteríolas eferentes, diminuindo a pressão de filtração glomerular, mas esse efeito é nefroprotetor a longo prazo. Pelas mesmas razões dos IECA, podem causar hipercalemia, especialmente na presença de insuficiência renal, e são contraindicados na gravidez, devendo os mesmos cuidados ser tomados em mulheres em idade fértil (BARROSO et al., 2021). Antagonistas Dos canais de CÁLCIO MECANISMO DE AÇÃO: Bloqueia os canais de cálcio na membrana das células musculares lisas das arteríolas, reduz a disponibilidade de cálcio no interior das células dificultando a contração muscular e, consequentemente, diminui a RVP por vasodilatação (BARROSO et al., 2021). ↠ Esses hipotensores são bastante eficazes em reduzir a pressão arterial e não provocam alterações no metabolismo lipídico e no de carboidratos (I DIRETRIZ, 2005). • Os BCC são classificados em dois tipos básicos: os di- hidropiridínicos e os não di-hidropiridínicos. Os dihidropiridínicos (anlodipino, nifedipino, felodipino, manidipino, levanlodipino, lercanidipino, lacidipino) exercem efeito vasodilatador predominante, com mínima interferência na FC e na função sistólica, sendo, por isso, mais frequentemente usados como medicamentos anti- hipertensivos (BARROSO et al., 2021). • Os BCC não di-hidropiridínicos, como as difenilalquilaminas(verapamila) e as benzotiazepinas (diltiazem), têm menor efeito vasodilatador e agem na musculatura e no sistema de condução cardíacos. Por isso, reduzem a FC, exercem efeitos antiarrítmicos e podem deprimir a função sistólica, principalmente nos pacientes que já tenham disfunção miocárdica, devendo ser evitados nessa condição (BARROSO et al., 2021). ↠ Convém dar preferência aos BCC de ação prolongada para evitar oscilações indesejáveis na FC e na PA. São antihipertensivos eficazes e reduzem a morbidade e mortalidade CV (BARROSO et al., 2021). BETABLOQUEADORES MECANISMO DE AÇÃO: Os BB têm ações farmacológicas complexas. Promovem a diminuição inicial do débito cardíaco e da secreção de renina, com a readaptação dos barorreceptores e diminuição das catecolaminas nas sinapses nervosas (BARROSO et al., 2021). ↠ Eles podem ser diferenciados em três categorias, de acordo com a seletividade para ligação aos receptores adrenérgicos: (BARROSO et al., 2021). • não seletivos: bloqueiam tanto os receptores adrenérgicos beta-1, encontrados principalmente no miocárdio, quanto os beta-2, encontrados no músculo liso, nos pulmões, nos vasos sanguíneos e em outros órgãos (propranolol, nadolol e pindolol, este último apresentando atividade simpatomimética intrínseca, agindo como um agonista adrenérgico parcial e produzindo menos bradicardia); • cardiosseletivos: bloqueiam preferencialmente os receptores beta-1 adrenérgicos (atenolol, metoprolol, bisoprolol e nebivolol, que é o mais cardiosseletivo); • com ação vasodilatadora: manifesta-se por antagonismo ao receptor alfa-1 periférico (carvedilol) e por produção de óxido nítrico (nebivolol). ↠ São eficazes no tratamento da hipertensão arterial tendo também sido comprovada a sua eficácia na redução da morbidade e da mortalidade cardiovascular. Estão especialmente indicados como a primeira opção para o tratamento da hipertensão arterial associada à doença coronariana (I DIRETRIZ, 2005). ↠ Do ponto de vista metabólico, podem induzir ao aumento de peso, à intolerância à glicose e aumentar o risco para o desenvolvimento de diabetes mellitus tipo 2, hipertrigliceridemia e redução do HDL-colesterol e ainda menor capacidade para a realização de exercícios físicos (I DIRETRIZ, 2005). 9 Júlia Morbeck – @med.morbeck EFEITOS ADVERSOS: Broncoespasmo, bradicardia, distúrbios da condução atrioventricular, vasoconstrição periférica, insônia, pesadelos, depressão, astenia e disfunção sexual. Os BB são contraindicados em pacientes com asma, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e bloqueio atrioventricular de segundo e terceiro graus. Podem acarretar intolerância à glicose, induzir ao aparecimento de novos casos de diabetes melito, hipertrigliceridemia, elevação do colesterol-LDL e redução do colesterol-HDL. O impacto sobre o metabolismo da glicose é potencializado quando são utilizados em combinação com DIU. Os BB de terceira geração (carvedilol e nebivolol) têm impacto neutro ou até podem melhorar o metabolismo da glicose e lipídico, possivelmente pelo efeito vasodilatador, com diminuição da resistência à insulina e melhora da captação de glicose pelos tecidos periféricos (BARROSO et al., 2021). SIMPATOLÍTICOS DE AÇÃO CENTRAL MECANISMO DE AÇÃO: Agem por meio do estímulo dos receptores alfa- 2 que estão envolvidos nos mecanismos simpatoinibitórios. Os efeitos bem definidos dessa classe são: diminuição da atividade simpática e do reflexo dos barorreceptores, o que contribui para a bradicardia relativa e a hipotensão notada na posição ortostática; discreta diminuição na RVP e no débito cardíaco; redução nos níveis plasmáticos de renina; e retenção de fluidos (BARROSO et al., 2021). ↠ São representantes desse grupo: metildopa, clonidina e o inibidor dos receptores imidazolínicos rilmenidina (BARROSO et al., 2021). OBS.: Os simpaticolíticos de ação central (alfametildopa, clonidina, moxonidina, rilmenidina) têm efeitos metabólicos neutros, porém seus efeitos colaterais limitam seu uso clínico, ficando reservados como auxiliares para os pacientes que não respondem adequadamente aos demais hipotensores (BARROSO et al., 2021). ↠ Os medicamentos dessa classe não apresentam efeitos metabólicos e não interferem na resistência periférica à insulina nem no perfil lipídico. A metildopa encontra sua principal indicação na HA durante a gestação, pois é usada por um curto período da vida, com grande experiência clínica em sua utilização nesse tempo, e apresenta o melhor perfil de segurança para a gestante e para o feto (BARROSO et al., 2021). IMPORTANTE: A terapia farmacológica também pode ser apropriada para reduzir RCV em portadores de SM. Comumente utilizados para o controle pressórico, os diuréticos e os betabloqueadores podem agravar a SM ou aumentar o risco de DM2. Por conta disso, os inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA) e os bloqueadores do receptor de angiotensina (BRA) com efeitos de proteção renal e vascular atraíram interesse no manejo da SM (JATENE et al., 2022). ASSOCIAÇÕES DE FÁRMACOS ANTI-HIPERTENSIVOS ↠ A terapia anti-hipertensiva inicial com combinação de fármacos parece estar associada à redução do risco de desfechos CV quando comparada com o tradicional início do tratamento com monoterapia (BARROSO et al., 2021). ↠ A associação de anti-hipertensivos deve obedecer à premissa de não se associar fármacos com mecanismos similares de ação (I DIRETRIZ, 2005). As seguintes associações de classes distintas de anti-hipertensivos são atualmente reconhecidas como eficazes: betabloqueadores e diuréticos; IECA e diuréticos; BRA e diuréticos; antagonistas dos canais de cálcio e betabloqueadores; antagonistas dos canais de cálcio e IECA. Para os casos de hipertensão resistente à dupla terapia, podem-se associar três ou mais medicamentos. Nessa situação, o uso de diuréticos é fundamental (I DIRETRIZ, 2005). Diabetes Mellitus (DM) ↠ Quando os pacientes com hiperglicemia não respondem ou deixam de responder adequadamente às medidas não-medicamentosas, devem ser inseridos um 10 Júlia Morbeck – @med.morbeck ou mais agentes antidiabéticos, com a finalidade de controlar a glicemia e promover a queda da hemoglobina glicada (I DIRETRIZ, 2005). IMPORTANTE: No indivíduo assintomático, É RECOMENDADO utilizar como critério de diagnóstico de DM a glicemia plasmática de jejum maior ou igual a 126 mg/dl, a glicemia duas horas após uma sobrecarga de 75 g de glicose igual ou superior a 200 mg/dl ou a HbA1c maior ou igual a 6,5%. É necessário que dois exames estejam alterados. Se somente um exame estiver alterado, este deverá ser repetido para confirmação (COBAS et al., 2023). PRÉ-DIABETES (GIACAGLIA et al., 2022) • A modificação do estilo de vida, incluindo redução do peso com dieta saudável e aumento da atividade física, é RECOMENDADA para a prevenção do diabetes tipo 2 para todas as pessoas com pré- diabetes. • O uso da metformina, associado a medidas de estilo de vida, DEVE SER CONSIDERADO na prevenção do DM2 em adultos com pré-DM nas seguintes situações: idade menor que 60 anos, obesos com IMC acima de 35 kg/m2, mulheres com história de diabetes gestacional, na presença de síndrome metabólica, com hipertensão ou quando a glicemia de jejum for maior que 110 mg/dL. OBS.: Os inibidores do cotransportador sódio-glicose tipo 2 (iSGLT2) e os inibidores da DPP-IV não são considerados na prevenção do DM2, por falta de evidências. ANTIDIABÉTICOS ORAIS ↠ Com finalidade prática, os antidiabéticos orais podem ser classificados em duas categorias: os que não aumentam a secreção de insulina – anti-hiperglicemiantes e os que aumentam a secreção de insulina – hipoglicemiantes (I DIRETRIZ, 2005). • Medicamentos que não aumentam a secreção de insulina: Estes medicamentos,quando usados em monoterapia, em geral não estão relacionados com o aparecimento de hipoglicemia e, portanto, podem ser utilizados com segurança desde o início da enfermidade (I DIRETRIZ, 2005). • Medicamentos que aumentam a oferta de insulina: São os secretagogos de insulina (I DIRETRIZ, 2005). Metformina ↠ Desde a década de 1950, a metformina tornou-se medicação de primeira linha no tratamento do DM2. Apesar de não ter a segurança cardiovascular testada em ensaios clínicos randomizados, existe grande experiência clínica e de farmacovigilância com esta droga, o que sugere seu benefício protetor quando usada em longo prazo (JANETE et al., 2022). MECANISMO DE AÇÃO: redução da gliconeogênese hepática. (Nota: o excesso de glicose produzido pelo fígado é uma das principais fontes da hiperglicemia no DM2, responsável pela elevada glicemia de jejum.) A metformina também retarda a absorção intestinal de açúcar e melhora a sua captação e uso periférico. Pode ocorrer redução de massa corporal, pois a metformina diminui o apetite(WHALEN et al., 2016). Efeitos adversos: O efeito adverso mais comum consiste em intolerância gastrintestinal (dispepsia, diarreia), que pode ser minimizada pela titulação lenta da dose. Foi também relatada a ocorrência de má absorção de vitamina B12, levando à deficiência clínica dessa vitamina (GOLDMN; SCHAFER, 2022). Agonistas do receptor do GLP-1 MECANISMO DE AÇÃO: Estimulam o receptor AgR GLP-1 (ESTRATÉGIAMED). • Liraglutida, dulaglutida, semaglutida injetável (Ozempic). 11 Júlia Morbeck – @med.morbeck OBS.: Como um dos efeitos patológicos do diabetes mellitus tipo 2 é a diminuição da secreção de GLP-1, essa classe medicamentosa atua na melhora da secreção de insulina (ESTRATÉGIAMED). Efeitos adversos: relacionados com o trato gastrointestinal: náuseas, vômitos, diarreia/constipação. Inibidores do SGLT2 ↠ Canagliflozina e dapagliflozina são fármacos desta categoria utilizados no tratamento do DM2 (WHALEN et al., 2016). MECANISMO DE AÇÃO: O cotransportador 2 sódio-glicose (SGLT2) é responsável por reabsorver a glicose filtrada no lúmen tubular dos rins. Ao inibir o SGLT2, estes fármacos diminuem a reabsorção de glicose, aumentam a sua excreção urinária e diminuem a glicemia. A inibição do SGLT2 também diminui a reabsorção do sódio e causa diurese osmótica. Por isso, os inibidores do SGLT2 podem reduzir a pressão arterial. Contudo, não são indicados no tratamento da hipertensão (WHALEN et al., 2016). Efeitos adversos: Os efeitos adversos mais comuns dos inibidores do SGLT2 são infecções genitais de mulheres por fungos (p. ex., candidíase vulvovaginal), infecções do trato urinário e frequência urinária. Também ocorreu hipotensão, particularmente em pacientes idosos ou sob tratamento com diuréticos. Assim, o estado hídrico deve ser avaliado antes de iniciar estes fármacos (WHALEN et al., 2016). Inibidores da dipeptidil peptidase-4 (iDPP-4) ↠ Alogliptina, linagliptina, saxagliptina e sitagliptina são inibidores da dipeptidilpeptidase-4 (DPP-4) ativos por via oral usados para o tratamento do DM2 (WHALEN et al., 2016). MECANISMO DE AÇÃO: Estes fármacos inibem a enzima DPP-4, que é responsável pela inativação dos hormônios incretina, como o GLP-1. O prolongamento da atividade dos hormônios incretina aumenta a liberação de insulina em resposta às refeições e a redução na secreção imprópria de glucagon. Os inibidores da DPP-4 podem ser usados como monoterapia ou em associação com sulfonilureias, metformina, TZDs ou insulina. Diferentemente dos incretinomiméticos, estes fármacos não causam saciedade ou plenitude e são neutros em relação à massa corporal (WHALEN et al., 2016). Tiazolidinedionas ↠ As tiazolidinedionas, que incluem a rosiglitazona e a pioglitazona (única droga disponível no Brasil), melhoram a captação de glicose mediada pela insulina e reduzem a produção hepática de glicose (GOLDMN; SCHAFER, 2022). MECANISMO DE AÇÃO: As TZDs diminuem a resistência à insulina, atuando como agonistas para o receptor γ ativado por proliferador peroxissoma (PPARγ), um receptor hormonal nuclear. A ativação do PPARγ regula a transcrição de vários genes responsivos à insulina, resultando em aumento da sensibilidade à insulina no tecido adiposo, no fígado e no músculo esquelético (WHALEN et al., 2016). Efeitos adversos: em ganho de peso e retenção hídrica, incluindo precipitação ou agravamento da insuficiência cardíaca congestiva. Foi também relatado aumento de fraturas após a menopausa e aumento do risco de câncer de bexiga. A toxicidade cardiovascular potencial da rosiglitazona permanece controversa, e o seu uso foi restrito em muitos países; esses efeitos não foram observados com a pioglitazona (WHALEN et al., 2016). Sulfonilureias ↠ A classe de secretagogos da insulina das sulfonilureias está entre os mais antigos fármacos antidiabéticos orais disponíveis (GOLDMN; SCHAFER, 2022). MECANISMO DE AÇÃO: O principal mecanismo de ação inclui a estimulação da liberação de insulina das células β do pâncreas. As sulfonilureias bloqueiam canais de K+ sensíveis ao ATP, resultando em despolarização, influxo de Ca2+ e exocitose de insulina. Além disso, as sulfonilureias podem diminuir a produção de glicose pelo fígado e aumentar a sensibilidade periférica à insulina (WHALEN et al., 2016). Efeitos adversos: O principal efeito adverso das sulfonilureias reside no seu potencial de causar hipoglicemia, visto que a secreção de insulina ocorre independentemente dos níveis plasmáticos de glicose. É também comum haver ganho de peso modesto (WHALEN et al., 2016). ESCOLHA DO MEDICAMENTO ↠ A melhor terapia vai depender muito da capacidade secretória do seu pâncreas (I DIRETRIZ, 2005). • Na fase 1, período inicial do DM tipo 2 caracterizado por obesidade com insulino-resistência, a melhor indicação são os medicamentos que não aumentam a secreção de insulina. • Na fase 2, com diminuição de secreção de insulina, é correta a indicação de um secretagogo, que pode entrar ou em combinação ou em monoterapia. 12 Júlia Morbeck – @med.morbeck • Na fase 3, com a progressão da perda de secreção da insulina, é necessário associar aos agentes orais, uma injeção de insulina de depósito, antes de o paciente dormir. • Na fase 4, quando predomina a insulinopenia, o paciente deve receber pelo menos duas aplicações de insulina de depósito, NPH ou lenta: uma antes do desjejum e a outra antes do jantar ou ao dormir, isoladas ou combinadas com uma insulina rápida ou ultra-rápida. Nesta fase 4, um agente oral sensibilizador combinadono tratamento pode reduzir as doses de insulina e auxiliar na melhora do controle metabólico. PRÉ-DIABETES A modificação do estilo de vida, incluindo redução do peso com dieta saudável e aumento da atividade física, é RECOMENDADA para a prevenção do diabetes tipo 2 para todas as pessoas com pré- diabetes. O uso da metformina, associado a medidas de estilo de vida, DEVE SER CONSIDERADO na prevenção do DM2 em adultos com pré-DM nas seguintes situações: idade menor que 60 anos, obesos com IMC acima de 35 kg/m2, mulheres com história de diabetes gestacional, na presença de síndrome metabólica, com hipertensão ou quando a glicemia de jejum for maior que 110 mg/dL. OBS.: Os inibidores do cotransportador sódio-glicose tipo 2 (iSGLT2) e os inibidores da DPP-IV não são considerados na prevenção do DM2, por falta de evidências. Diabetes Mellitus tipo 2 Em adultos não gestantes com diagnóstico recente de DM2, sem doença cardiovascular ou renal, e sem tratamento prévio, nos quais a HbA1c esteja abaixo de 7,5%, a monoterapia com metformina está RECOMENDADA como terapia inicial para melhorar o controle da glicemia e prevenir desfechos relacionados ao diabetes. IMPORTANTE: A dose da metformina deverá ser reduzida em 50%quando a taxa de filtração glomerular estimada (TFGe) estiver entre 30-45 mL/min/1,73 m2 e o tratamento deverá ser interrompido se a TFGe estiver abaixo de 30 mL/min/1,73 m2, devido ao risco de acidose lática. OBS.: Os níveis de vitamina B12 deverão ser avaliados anualmente após 4 anos de início da metformina em função do risco de deficiência. Em pacientes DM2 sem tratamento, e com HbA1c entre 6,5% e 7,5%, a terapia inicial poderá ser opcionalmente dupla, incluindo metformina e um inibidor de DPP-4 para atrasar a progressão do diabetes tipo 2. OBS.: É RECOMENDADO que a decisão do uso do segundo agente antidiabético seja individualizada, considerando eficácia, risco de hipoglicemia, proteção cardiovascular, proteção renal, efeito sobre o peso, tolerabilidade, custo, potenciais efeitos adversos e preferência do paciente. • Os IDPP4 provaram segurança cardiovascular nos ensaios de não inferioridade: TECOS (sitagliptina), EXAMINE (alogliptina) e CARMELINA (linagliptina). ASSOCIAÇÃO ENTRE METFORMINA E SULFONILUREIAS: No caso de opção pelo uso de uma sulfonilureia, as de segunda geração, como a Gliclazida MR e a Glimepirida, têm preferência pelo seu menor potencial para causar hipoglicemia. o Em adultos com DM2 sintomáticos (poliúria, polidipsia, perda de peso) e que apresentam HbA1c > 9% ou glicemia de jejum = 250 mg/dl, a terapia à base de insulina é RECOMENDADA para melhorar o controle glicêmico, mesmo que de forma transitória. o Em adultos com DM2 sem sintomas (poliúria, polidipsia, perda de peso) ou com doença cardiovascular ou renal, cuja HbA1c permanece acima da meta apesar da terapia dupla, a TRIPLA TERAPIA É RECOMENDADA para melhorar o controle glicêmico. o Em adultos não gestantes com DM2, sem doença renal crônica, o uso de GLP-1 RA com benefício renal comprovado PODE SER CONSIDERADO para redução do surgimento de albuminúria. o Em adultos não gestantes com DM2 sem doença cardiovascular clinicamente estabelecida, mas com doença aterosclerótica subclínica detectada por método de imagem, DEVEM SER CONSIDERADOS os agonistas do receptor GLP-1 (GLP-1 RA) com benefíciocardiovascular comprovado (Liraglutida, Semaglutida e Dulaglutida) para redução de eventos cardiovasculares. 13 Júlia Morbeck – @med.morbeck Dislipidemia ↠ Na síndrome metabólica (SM), a dislipidemia caracteriza-se pela presença de níveis baixos de HDL- colesterol e níveis elevados de triglicérides. Embora a elevação do LDL-colesterol não seja considerada como um dos critérios diagnósticos da SM, os portadores desta síndrome apresentam alteração da densidade e do tamanho das partículas dessa lipoproteína, predominando o padrão tipo B (LDL pequena e densa). Esta associação é denominada de dislipidemia aterogênica (I DIRETRIZ, 2005). O diagnóstico de dislipidemia baseia-se na dosagem dos lipídios séricos: colesterol total, HDL-C e triglicerídeos. A dosagem direta do LDL-C não é necessária, podendo o cálculo ser feito por meio da fórmula de Friedewald [LDL-C = (colesterol total [CT] – HDL-C) – (triglicerídios [TG]/5)], quando o valor dos triglicerídeos for inferior a 400 mg/dL (BRASIL, 2020). ↠ A decisão para o início da terapia medicamentosa das dislipidemias depende do: (FALUDI et al., 2017). • Risco cardiovascular do paciente: em pacientes de muito alto ou alto risco cardiovascular, o tratamento da dislipidemia deve incluir medicamentos já em associação com as modificações do estilo de vida a serem propostas. Para os pacientes de risco moderado ou baixo, o tratamento será iniciado apenas com as medidas do estilo de vida, com a associação, em uma segunda etapa, de medicamentos, se necessário, para obtenção das metas definidas do LDL-c. O tempo de reavaliação após a implantação das medidas de modificações do estilo de vida pode ser de 3 a 6 meses. • Tipo de dislipidemia presente: define a escolha da classe terapêutica. ATENÇÃO: Os medicamentos hipolipemiantes costumam ser divididos nos que agem predominantemente nas taxas séricas de colesterol e naqueles que agem predominantemente nas taxas de TG (FALUDI et al., 2017). ↠ Na hipercolesterolemia isolada, os medicamentos recomendados são as estatinas, que podem ser administradas em associação à ezetimiba, à colestiramina e, eventualmente, aos fibratos ou ao ácido nicotínico (FALUDI et al., 2017). ESTATINAS ↠ As estatinas devem ser consideradas como medicamentos de primeira escolha no tratamento da dislipidemia da síndrome metabólica devido à existência de maiores evidências relacionando-as à redução da morbimortalidade cardiovascular (I DIRETRIZ, 2005). MECANISMO DE AÇÃO: Agem inibindo a HMG-CoA redutase, reduzindo a síntese de colesterol e aumentando a expressão hepática dos receptores da LDL e, consequentemente, a captação dessa lipoproteína e das VLDL pelo hepatócito. Além disso, bloqueiam a síntese hepática de triglicérides. Essa ação resulta em diminuição do colesterol total, do LDL colesterol (18% – 55%) e dos triglicérides (7% – 30%) e aumento no HDL-colesterol (5% – 10%) (I DIRETRIZ, 2005). OBS.: A maioria das estatinas é metabolizada no fígado, devendo-se evitar a sua associação com drogas que atuem no citocromo P450, como ciclosporinas, antibióticos macrolídeos, antifúngicos imidazólicos inibidores de proteases, fluoxetina, paroxetina, etc. A presença de doença hepática aguda ou crônica é uma contra-indicação absoluta ao uso dessas drogas (I DIRETRIZ, 2005). ↠ Nas dislipidemias mistas, com triglicérides abaixo de 500mg/dL, as estatinas devem ser utilizadas em doses acima de 20mg, uma vez que a sua potência em reduzir a trigliceridemia não é tão expressiva. Assim, havendo hipertrigliceridemia importante (acima de 500mg/dL), os fibratos ou a niacina (ácido nicotínico) deverão ser preferidos (I DIRETRIZ, 2005). ↠ As estatinas – medicamentos de primeira linha para controle do LDL-colesterol – reduzem eventos cardiovasculares em portadores de SM. Elas podem variar em eficácia na redução de LDL-C. Alguns ensaios demonstraram que a rosuvastatina é mais efetiva na 14 Júlia Morbeck – @med.morbeck redução de LDL-C, triglicerídios e não HDL-C; na relação colesterol total/HDL-C; na apolipoproteína B; e no aumento do HDL-C em portadores de SM, quando comparada a outras estatinas (JATENE et al., 2022). FIBRATOS ↠ O fenofibrato e a genfibrozila são derivados do ácido fíbrico que reduzem os triglicerídeos séricos e aumentam os níveis de HDL-C (WHALEN, 2016). MECANISMO DE AÇÃO: atuam principalmente como ligantes do receptor de transcrição nuclear, o PPAR-α. Esses fármacos regulam para cima a LPL, a apo A-I e a apo A-II em nível de transcrição, ao mesmo tempo que regulam para baixo a apo C-III, um inibidor da lipólise. Um efeito importante consiste no aumento da oxidação dos ácidos graxos no fígado e nos músculos estriados. Os fibratos aumentam a lipólise dos triglicerídeos das lipoproteínas pela LPL. A lipólise intracelular no tecido adiposo encontra-se diminuída. As concentrações de VLDL diminuem, devido, em parte, à secreção diminuída pelo fígado (KATZUNG; VANDERAH, 2023). ↠ Os fibratos exercem efeitos benéficos no perfil lipídico na SM, especialmente na redução dos triglicerídios e no aumento do HDL-C. Dados sugerem que pacientes com SM ou DM2 teriam maior benefício com o uso de fibratos. O bezafibrato demonstrou atenuar a progressão da RI em portadores de doença arterial coronariana (DAC) e reduziu a incidência de infarto agudo do miocárdio (IAM) em 29% em portadores de SM (JATENE et al., 2022). ÁCIDO NICOTÍNICO (NIACINA) ↠ É uma vitamina solúvel com ação não totalmente conhecida. Reduz os níveis de triglicérides (20% – 50%) e de LDL-colesterol (5% – 25%). É uma das drogas hipolipemiantes que mais aumenta o HDL-colesterol (15% – 35%). Atualmente encontram-se três formulações do ácido nicotínico:liberação imediata, intermediária ou prolongada e lenta. Calor e rubor facial são os efeitos colaterais mais frequentes das formas de liberação rápida, podendo ser reduzidos com o uso de aspirina uma hora antes da ingestão, ou pelo uso da forma de liberação intermediária (I DIRETRIZ, 2005). ↠ A administração noturna do medicamento também melhora a tolerabilidade. Hiperglicemia, hiperuricemia/gota e hepatotoxicidade são menos frequentes com a apresentação de liberação intermediária e na dosagem de até 2g/dia. A presença de doença hepática crônica e gota grave são contra-indicações absolutas (I DIRETRIZ, 2005). Ezetimiba ↠ É um inibidor seletivo da absorção de colesterol que age na borda em escova do intestino delgado. Reduz o LDL-colesterol em cerca de 18%, os triglicérides em 5% e causa aumento discreto no HDL-colesterol (1%). Sua principal indicação é para pacientes intolerantes ao uso de estatinas, ou em associação a estas (I DIRETRIZ, 2005). ↠ O uso da ezetimiba potencializa de forma importante o efeito das estatinas em reduzir o LDL- colesterol, contudo ainda não há estudos de desfechos clínicos com esse medicamento. A posologia sugerida é de 10mg/dia (I DIRETRIZ, 2005). ASSOCIAÇÕES ↠ A utilização da associação de fármacos hipolipemiantes deve ser reservada para os casos de resposta inadequada tanto com o uso isolado de fibratos como das estatinas. No caso das hipertrigliceridemias com triglicérides >500mg/dL, deve-se iniciar com as doses usuais do fibrato, e avaliar os valores de LDL-colesterol após 30 – 40 dias de tratamento; se as metas não forem atingidas, podem ser associadas às estatinas nas doses iniciais (geralmente 10mg) e titular a dose desse medicamento, quando necessário para se atingir a meta de LDL- colesterol (I DIRETRIZ, 2005). ↠ Caso não se atinja a meta após 30 dias da associação, deve-se aumentar a dose da estatina para 20mg e aguardar mais 30 dias e assim por diante (I DIRETRIZ, 2005). ↠ Em casos de hipertrigliceridemia de difícil controle, podem ser associados os ácidos graxos ômega-3, em dose maior ou igual a 4g/dia aos fibratos. Nos casos de hipertrigliceridemias graves refratárias, uma terceira droga pode ser associada, no caso a niacina (I DIRETRIZ, 2005). RECOMENDAÇÕES • Dosagens de CK devem ser realizadas antes da utilização da associação das estatinas com os fibratos e em um e três meses após; • Dosagens de CK devem ser realizadas em um, três e seis meses após o uso das estatinas e fibratos. Caso os pacientes estejam estáveis, podem ser repetidas a cada seis meses; • Se houver elevação acima de dez vezes o limite superior da normalidade ou em presença de mialgia, mesmo com 15 Júlia Morbeck – @med.morbeck CK normal, deve-se suspender a medicação ou a associação. Tratamento medicamentoso e cirúrgico da obesidade Tratamento farmacológico ↠ Recomenda-se o uso de medicamentos nos indivíduos portadores de síndrome metabólica com obesidade (IMC=30kg/m2) ou com excesso de peso (IMC entre 25kg/m2 e 30kg/m2) desde que acompanhado de comorbidades e que não tenham perdido 1% do peso inicial por mês, após um a três meses de tratamento não medicamentoso (I DIRETRIZ, 2005). ↠ Existem, atualmente, três medicamentos aprovados para tratamento da obesidade no Brasil: sibutramina, orlistate e liraglutida 3,0 mg (BRASIL, 2016). Sibutramina ↠ A sibutramina foi testada em vários estudos. Um estudo bem controlado, com duração de dois anos, demonstrou que este medicamento é eficaz na perda de peso com melhora dos parâmetros metabólicos, boa tolerabilidade e segurança. A dose preconizada varia de 10mg a 20mg por dia. Efeitos colaterais: boca seca, constipação intestinal, insônia, irritabilidade e cefaleia. Aumentos médios de pressão arterial sistólica e diastólica e de frequência cardíaca também têm sido relatados. Recomenda-se controle rigoroso da pressão arterial e da frequência cardíaca e ajuste da medicação anti- hipertensiva, quando necessário (I DIRETRIZ, 2005). OBS.: Os inibidores seletivos de recaptação de serotonina (fluoxetina, sertralina), usados para o tratamento de depressão, podem proporcionar efeito de perda de peso, embora não estejam aprovados para o tratamento da obesidade. A fluoxetina demonstrou um efeito transitório de perda de peso, presente principalmente nos seis primeiros meses de uso, após o qual pode ocorrer recuperação do peso perdido (I DIRETRIZ, 2005). ↠ As duas medicações de primeira escolha no tratamento da obesidade associada à síndrome metabólica são a sibutramina e o orlistat (I DIRETRIZ, 2005). Orlistate Liraglutida ↠ A liraglutida é um agonista do peptídeo semelhante ao glucagon-1 (GLP-1). A liraglutida estimula diretamente os neurônios que sintetizam pró-opiomelanocortina e transcrito regulado por cocaína e anfetamina (POMC/CART) e indiretamente inibe a neurotransmissão nos neurônios que expressam neuropeptídeo Y (NPY) e peptídeo relacionado ao agouti (AgRP), vias de sinalização dependentes de GABA. Estes resultados indicam que o GLP-1R está expresso em neurônios do núcleo arqueado (ARC) do hipotálamo envolvidos na perda de peso e de que a liraglutida marcada com fluoresceína se liga em áreas chaves ligadas ao controle do balanço energético, nos circuitos ligados a recompensa e prazer, sendo sua ação independente do nervo vago (BRASIL, 2016). ↠ A dose de 3,0 mg de liraglutida foi aprovada para o tratamento da obesidade por ser uma dose mais elevada do mesmo medicamento já aprovado para o tratamento do diabetes tipo 2 em dose de até 1,8 mg (BRASIL, 2016). Uso off-label de medicamentos ↠ A razão mais comum de prescrição off-label é a ausência de opção de tratamento para a doença ou para a faixa etária. Frequentemente o que é off-label em um país pode ter indicação em bula em outro. O seu uso tem seu lugar na prática médica e é largamente aceito e praticado pela comunidade médica, não sendo uma violação das boas práticas da Medicina (BRASIL, 2016). ↠ Os medicamentos usados que apresentam evidências científicas de potencial benefício são: topiramato, associação de bupropiona e naltrexona e dimesilato de lisdexanfetamina (BRASIL, 2016). 16 Júlia Morbeck – @med.morbeck Tratamento cirúrgico ↠ O tratamento cirúrgico da obesidade tem como objetivo diminuir a entrada de alimentos no tubo digestivo (cirurgia restritiva), diminuir a sua absorção (cirurgia disabsortiva) ou ambos (cirurgia mista) (I DIRETRIZ, 2005). ↠ A cirurgia bariátrica pode ser uma opção terapêutica para pacientes que não obtiveram sucesso com medidas conservadoras, como mudanças dietéticas e uso de medicamentos para perda de peso. Entretanto, devido a resultados de estudos, nem todos os indivíduos obesos se beneficiam do procedimento cirúrgico, uma vez que há riscos inerentes a curto e em longo prazo como, por exemplo, aumento de mortalidade perioperatória e complicações pós-cirúrgicas, dentre as quais podemos citar a trombose venosa profunda, as fístulas, as deiscências e as deficiências nutricionais (ESTRATÉGIAMED). ↠ Os critérios para a realização das cirurgias bariátricas foram definidos em março de 1991, pelo US National Institute of Health Consensus Development Conference Panel (I DIRETRIZ, 2005). • A cirurgia deve ser considerada para o paciente obeso mórbido (IMC >40kg/m2), ou obeso com IMC >35 kg/m² desde que apresente comorbidades clínicas importantes, e somente após ter sido submetido a tratamento clínico adequado, mas sem resultados. • O paciente só deverá ser operado se estiver bem informado sobre o tratamento, motivado e se apresentar risco operatório aceitável. • O paciente deve ser selecionado para a cirurgia, após cuidadosa avaliação por equipe multidisciplinar especializada e composta por endocrinologistas ou clínicos, intensivistas,cirurgiões, psiquiatras ou psicólogos e nutricionistas. • A operação deve ser feita por um cirurgião experiente no procedimento e que trabalhe com equipe e em local com suporte adequado para todos os tipos de problemas e necessidades que possam ocorrer. • Após a operação, deve haver acompanhamento médico de longo prazo. • As mulheres férteis devem ser alertadas de que só poderão engravidar depois da cirurgia quando estiverem com o peso estabilizado e com o seu estado metabólico e nutricional normalizado. OBS.: Nos pacientes com mais de 65 anos, por apresentarem maior risco cirúrgico e anestésico, a indicação de cirurgia bariátrica deve ser feita de maneira individualizada (ESTRATÉGIAMED). OBS.: Nos pacientes com DM tipo 2 e IMC 30-34,9 kg/m2, a cirurgia bariátrica também é denominada cirurgia metabólica, uma vez que o objetivo principal do procedimento é aumentar os hormônios incretínicos. Assim, há duas condições que precisam ser preenchidas, que são o tempo de doença e a idade (ESTRATÉGIAMED). Resumo do tratamento da SM Atenção à Saúde do Trabalhador ↠ A Saúde do Trabalhador é o campo da Saúde Pública que tem como objeto de estudo e intervenção as relações produção-consumo e o processo saúde-doença 17 Júlia Morbeck – @med.morbeck das pessoas e, em particular, dos(as) trabalhadores(as) (BRASIL, 2019). ↠ De forma a fortalecer a ST no SUS, foi publicada em 2012, a Portaria 1.823, consolidada posteriormente no Anexo XV da Portaria de Consolidação nº 2/2017, do Ministério da Saúde, a qual definiu a Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora (PNSTT) de acordo com princípios, diretrizes e estratégias a serem observadas pelas esferas municipais, estaduais, distrital e federal da gestão do SUS, com o objetivo de desenvolver a atenção integral à saúde do trabalhador, com ênfase na vigilância, visando a promoção e a proteção da saúde dos trabalhadores e a redução da morbimortalidade decorrente dos modelos de desenvolvimento e dos processos produtivos (BRASIL, 2019). ↠ A anamnese ou história ocupacional é o instrumento mais importante para o estabelecimento da relação entre o trabalho e a queixa ou doença apresentada pelo(a) trabalhador(a) (BRASIL, 2019). A história ocupacional é essencial para: (BRASIL, 2019). • Identificar possíveis riscos e perigos envolvidos no trabalho. • Fazer o diagnóstico correto e definir o plano terapêutico, estabelecendo a relação entre o agravo ou a doença e o trabalho. • Informar o(a) trabalhador(a) sobre as causas e evolução de seu adoecimento e orientá-lo (a) quanto à prevenção. • Orientar o(a) trabalhador(a) sobre seus direitos trabalhistas, previdenciários e à saúde. • Desencadear ações de vigilância epidemiológica e nos ambientes e processos de trabalho, a partir da notificação dos casos nos Sistemas de Informação em Saúde (SIS), de modo articulado com a Vigilância em Saúde. 18 Júlia Morbeck – @med.morbeck Referências BANDEIRA, Francisco; MANCINI, Marcio; GRAF, Hans. Endocrinologia e Diabetes. MedBook Editora, 2015. FORD, S. M. Farmacologia Clínica, 11ª edição – Rio de Janeiro: Gunabara Koogan, 2019. JATENE, Ieda B.; FERREIRA, João Fernando M.; DRAGER, Luciano F.; et al. Tratado de cardiologia SOCESP. 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