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EVANGELHOS E ATOS DOS APÓSTOLOS AULA 6 Prof. Marlon Ronald Fluck 2 CONVERSA INICIAL 1.1 O Evangelho de João Olá, aluno, bem-vindo! Hoje você vai conhecer como se desenvolveu a mensagem do Evangelho de João. Veremos o contexto teológico do surgimento do Evangelho, sua cristologia, as formas de Jesus apresentar sua identidade, a promessa de envio do Consolador e as ênfases em permanecer no amor, na vida eterna e na escatologia desenvolvida nesse Evangelho. João certamente teve conhecimento do conteúdo dos outros evangelhos, sendo seletivo na apresentação do conteúdo. Seu Evangelho não conta com relatos introdutórios como em Mateus e Lucas, nem oferece muitos detalhes sobre os primeiros momentos do ministério de Jesus, e sim apresenta Deus em ação. Não há um interesse primordial na cronologia da vida de Cristo, nem na topografia da Palestina. A ênfase está na ação interativa de Deus com seu povo. O Evangelho de João assume a tarefa de interpretar a fé em categorias não judaicas para os de fora (Boring, 2016, p. 1121), e ele certamente é judeu, mesmo que se distancie dessa crença (Bruce, 1987, p. 11-12). Há afinidades do seu pensamento e linguagem com as cartas de Inácio de Antioquia, por volta de 110 d.C. (Bruce, 1987, p. 17). Irineu de Lião, por volta de 180 d.C., defendeu que João, discípulo de Jesus, havia publicado o Evangelho quando morava em Éfeso, na Ásia. Ele não apresenta relatos do nascimento de Jesus, nem do seu batismo, tentações no deserto, instituição da ceia (Eucaristia) Getsêmani ou Ascensão, tampouco dos endemoniados libertos por ele. Ele quer alcançar seu objetivo, descrito em João 20.30-31: criar a fé de que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e ter vida em seu nome. Portanto, esse Evangelho é diferente dos demais. João somente narra sete milagres de Jesus e não menciona nenhuma de suas parábolas. Ou seja, escreveu para criar fé. João optou por narrar o primeiro ano do ministério de Jesus amplamente e suas três visitas a Jerusalém (João 2.23; 6.4; 13.1), enquanto os sinóticos se ocupavam somente com sua última visita (Arana, 2015, p. 233-234). A Missão em Samaria é apresentada como modelo. João 4 mostra o enfrentamento secular entre judeus e samaritanos, com várias agressões 3 mútuas. Samaria era mestiça tanto em etnia quanto em religião, e os judeus os consideravam impuros em ambos os quesitos (Bruce, 1987, p. 97). João destaca que o Evangelho reconcilia e que a missão de Jesus começa pelo mais difícil: quem os judeus menos apreciavam. Ele queria que a inimizade com os samaritanos fosse superada pela apresentação das boas novas, e Jesus demonstrou sua boa vontade, indo buscar a samaritana prostituída. Ele pediu água a ela, eliminando todo vestígio de superioridade, dignificando a mulher e procurando superar a inimizade. Para Jesus, o que importa é a adoração correta. Ele não reconheceu a inimizade entre os dois povos. Segundo ele, nem samaritanos nem judeus estão adorando de acordo com a vontade de Deus, visto que Seu amor se dirige à humanidade toda (João 3.16). O Evangelho é restaurador, e o diálogo dramático com a samaritana conectou os leitores com Jesus missionário. Ela, de moral duvidosa, permitia perceber o alcance da missão de Jesus, que rompia com o tradicional, mostrando o evangelho na restauração de todas as coisas. No poço de Jacó, Jesus falou da água viva, advinda do dom do Espírito. “A água corrente ilustra de modo adequado o suprimento fresco e perene da graça de Deus” (Bruce, 1987, p. 99). Jesus apontou para o alimento verdadeiro e falou da comida oferecida por seu Pai, dizendo: “Trabalhem não pela comida que perece, senão pela que persiste para a vida eterna” (João 6.27). Necessitamos do que procede de Deus Pai. E a ação de Jesus foi ampla. Ele foi aonde nenhum rabino havia ido: conversar com uma mulher sem lhe importar sua condição, nem com aqueles que se aproveitavam dela. Na conversa com ela, Jesus falou que Deus busca “verdadeiros adoradores”. Uma adoração sem privilégios. Jesus vinculou a adoração não a um lugar, mas a um interesse genuíno de se reunir em Seu nome. Deus não estava preso a um lugar, pois não havia mais locais privilegiados. Jerusalém também havia se prostituído e se afastado da vontade de Deus. Jesus teve muitos diálogos existenciais, e a samaritana fala aos outros o que Jesus disse. Ele pôs em evidência suas necessidades, mas isso não a fez se considerar desqualificada. Ela buscava respostas existenciais, e Deus entrou em diálogo por meio de Jesus. “Ela se esqueceu da água do poço de Jacó, por 4 causa do seu entusiasmo em receber a água viva de que Jesus falara (Bruce, 1987, p. 106). Jesus salientou que a missão é de todos, e se apresentou como doador da água viva, como Profeta e como Messias. Ele se revelou como presença de Deus com seu povo fiel, destacou a dinâmica da missão e como esta é de todos, e não de apenas um, atraindo as pessoas para si. Sua imagem tem em João diferenças com relação aos outros três evangelhos. Jesus não chama os discípulos, mas os atrai (João 1.35ss.). O Cristo das bodas de Caná (João 2.1- 12) contrasta com o que purifica o templo (João 2.13-22). TEMA 1 – CONTEXTO TEOLÓGICO A mensagem de João também é diferenciada: ele não apresenta o chamado ao arrependimento, mas sim a afirmação de que a fé verdadeira, acompanhada por obediência, significa transformação na vida (João 5.14; 8.1- 11). João trabalhou “em larga medida, independentemente dos outros evangelhos escritos” (Dodd, 2003, p. 578), e escreveu provavelmente de Éfeso. Em grande parte, o Evangelho de João contém material ausente dos sinóticos e, assim, serve-lhes de complemento, com destaque especial para o ministério de Jesus na Judeia e seu profundo significado teológico. Digno de nota entre os temas que constituem esse significado está Jesus como Verbo divino preexistente, o qual se tornou ser humano para proferir as palavras de Deus, revelar a glória da graça e da verdade de Deus, separar os filhos da luz dos filhos das trevas, condenar o mundo dos incrédulos por meio de seu juízo e conceder vida eterna por meio do dom do Espírito Santo a todos os que creem e permanecem em Jesus. (Gundry, 2008, p. 366) Captamos no evangelista João “o processo de construção da teologia como uma formação criativa de sentido por meio da narração” (Schnelle, 2010, p. 861), por volta do ano 100 d.C., na Ásia Menor. João reflete “com mais firmeza do que qualquer outro autor neotestamentário sobre a atuação e o significado de Jesus Cristo como uma unidade indivisível e transforma intelecções teológicas fundamentais em uma narrativa” (Schnelle, 2010, p. 862). O conceito teológico central do Evangelho de João é a atuação do Pai no Filho. Não é uma atuação do Pai por meio do Filho, porque o Filho é muito mais do que um mero instrumento, mensageiro ou agente do Pai: ele participa da natureza do Pai. A unidade do Pai e do Filho é a base da teologia e da cristologia joaninas (Jo 10.30). O Pai revela-se abrangentemente no Filho que reivindica estar em unidade e trabalhar com o Pai/Deus. (Schnelle, 2010, p. 866-867) 5 A experiência em Samaria deixou claro que a samaritana levou a notícia para sua cidade, e eles foram pessoalmente conhecer Jesus, mostrando que “o conhecimento de Cristo através de terceiros não pode substituir o conhecimento pessoal e a fé salvadora. Agora eles podiam provar pessoalmente que tudo o que ela dissera era verdade” (Bruce, 1987, p. 109). TEMA 2 – CRISTOLOGIA EM JOÃO Em João, Theós (Deus) ocorre 82 vezes relacionado à cristologia, o que mostra sua relação com a teologia. Isso indica que João não anuncia um novo Deus, mas sim o “Deus de um mundo novo”. Deus é “Pai na relação com seu Filho”. “Pai” (patér) aparece 121 vezes em João (Schnelle, 2010, p. 862-863). No centrodo Evangelho de João está a manifestação de Jesus: “Eu e o Pai somos um” (João 10.30), o que indica também o centro da teologia joanina, baseada na encarnação de Jesus Cristo, o Filho preexistente de Deus. Para João, Deus e Jesus estão empenhados em proteger os crentes. “O Filho é tão suscetível ao Pai que tem os mesmos objetivos, propósitos e ações que este” (Bruce, 1987, p. 202). O Evangelho de João afirma a preexistência de Jesus (como sua pré- história celestial) e sua participação na eternidade do Pai. Isso é expresso sinteticamente em João 16.28: “Saí do Pai e vim ao mundo. Deixo o mundo e vou para o Pai”. Jesus é testemunhado como “o Filho de Deus preexistente, [e] pertence desde sempre a Deus. Sua existência não está submetida a nenhum limite temporal ou material”. A isso se agrega “a pós-existência, na qual Jesus entra para junto ao Pai (cf. Jo 17.5)” (Schnelle, 2010, p. 876). Os adversários é que negavam a encarnação do Cristo preexistente, negando o caráter salvífico da vida e da morte de Jesus (Schnelle, 2010, p. 888) e da corporeidade do Filho de Deus, dizendo que ele era só aparentemente humano, enquanto o Evangelho ressaltava a unidade contínua do Jesus terreno com o Cristo celestial (João 1.14; 6.51-58; 19.34-35) (Schnelle, 2010, p. 889). Encarnação não significa abandono da divindade de Jesus. Pelo contrário: “a verdade da encarnação de Deus protege as doutrinas cristãs de Deus Pai, do homem e da pessoa de Cristo” (Bruce, 1987, p. 45). 6 TEMA 3 – “EU SOU” – IDENTIDADE DE JESUS As dimensões divinas são apresentadas em João, que parte das coisas deste mundo para comunicar as dimensões divinas. A água oferecida à samaritana serve para comunicar-lhe sobre a água da vida eterna (João 4). O pão distribuído por Jesus é o pão que dá vida ao mundo (João 6). Em Jesus temos o alimento da vida eterna. Ele nasceu em “Belém”, nome que significa “casa do pão”, que “contém o nome do nosso Salvador, que partiu dessa cidade, posto que o Logos divino é alimento das almas racionais” (Eusébio de Cesareia citado por Elowsky, 2012, p. 317). A luz é concedida ao cego e, quando Jesus ensinou que era a luz do mundo (João 8.12), ele o ilustrou curando o cego de nascença (João 9.1-41). Além disso, Jesus se apresenta como porta e bom pastor. Ao verem um rebanho de ovelhas, Jesus se apresentou como a porta pela qual elas devem passar para serem protegidas dos ladrões, e também como o bom pastor que, para protegê- las, dá a vida por elas (João 10.1-15). Ao dar a vida pelas ovelhas, “desta maneira busca sua amizade” (Basílio de Selêucia citado por Elowsky, 2012, p. 460). Ele também se apresenta como ressurreição e caminho. Ao ressuscitar seu amigo Lázaro, mostrou que era a ressurreição e a vida (João 11.25). Ele não é Deus de mortos, mas sim de vivos. Ao ser perguntado sobre o caminho, Jesus falou que ele é o caminho, a verdade e a vida, e que ninguém vai ao Pai a não ser por ele (João 14. 4-6). Símbolos da comunhão são apresentados. Ao verem os cachos de uva, Jesus se apresentou como a videira verdadeira, e seu Pai como o agricultor (João 15.1-5). Vê-se que o caráter simbólico penetra nos relatos e palavras de Jesus. Nas sete vezes em que se apresenta, começando sempre pela expressão “Eu sou”, vemos sua identidade descortinada por essas expressões simbólicas. Aqui, Cristo revela de novo a perfeita semelhança de sua natureza, ideias, virtude e até de suas próprias palavras com as do Pai (Teodoro). As ações de Cristo também mostram que há uma unidade de natureza (HILÁRIO), já que nunca haveria podido realizar os milagres exclusivos da natureza divina que Ele fez se não era essencialmente da mesma natureza divina (CIRILO). (Elowsky, 2013, p. 179) As “palavras de Eu Sou” são o centro do autoanúncio de Jesus e palavras-chaves da teologia revelatória e da hermenêutica joaninas. Nelas, Jesus afirma que ele é, quem ele quer ser para os seres humanos e como eles devem entendê-lo. Nas palavras de “Eu Sou” 7 condensam-se de forma singular a cristologia e a soteriologia. […]. Sob a adoção deliberada do discurso da fala revelatória do Pai […], o Filho torna-se o portador da revelação. Trata-se da vida aparecida em Cristo; as “palavras de Eu Sou” são palavras de vida, porque em cinco das sete “palavras de Eu Sou” clássicas encontra-se a palavra-chave “vida” (dzoé, psiché). (Schnelle, 2010, p. 896-897) As declarações de Jesus sobre quem ele é são sumários da teologia da revelação em João; são o Evangelho em miniatura, imagens cristológicas. Nessas declarações fica claro que Deus nos faz melhores. Sua Palavra retira a má semente de nossos corações e os abre para produzir bons frutos pela mensagem de Cristo. TEMA 4 – PARÁCLITO (CONSOLADOR) A compreensão joanina sobre o Espírito Santo manifesta-se em vários momentos, como no batismo de Jesus, pois “ninguém exceto Deus pode ‘batizar’ o Logos preexistente e encarnado”. O batismo de espírito é “qualitativamente superior ao batismo de água de João Batista” (Schnelle, 2010, p. 922). Jesus estende essa presença do Espírito na vida dos cristãos. Os crentes são descritos como nascidos da água e do Espírito (João 3.3-5); as palavras de Jesus são Espírito e vida (João 6.63); e quem adora a Deus o faz em Espírito e verdade (João 4.24). O Espírito como paráclito (consolador) habita e atua na comunidade dos crentes por toda a eternidade (João 14.16-17), dando testemunho de Jesus (João 16.13-14): O paráclito é, portanto, o fundamento possibilitador da interpretação do evento Cristo, operado pelo espírito, assim como sua interpretação é desenvolvida no Evangelho de João como a atualização completa desse evento salvífico. Em última análise, o paráclito impossibilita uma separação entre o Jesus anunciador e o Cristo anunciado. Através do paráclito fala o próprio Cristo glorificado, de modo que a distância entre passado e presente é abolida no paráclito. Há uma fusão de horizontes, possibilitada pela ênfase na unidade do Cristo preexistente, presente, glorificado e que volta. Todo o Evangelho de João nada mais é que uma interpretação do evento Cristo pelo paráclito, no qual o Cristo glorificado fala e legitima a tradição joanina. É impossível pensar a presença do espírito na comunidade cristã de uma maneira mais abrangente do que em João. O espírito opera a passagem para o espaço de Deus; no espírito, Jesus está presente entre os seus, ensina-os, recorda-os daquilo que disse, revela-lhes aquilo que vem e os protege do ódio do mundo. (Schnelle, 2010, p. 926) Espírito Santo como paráclito estabelece a continuidade da obra de Deus, apesar da ausência corporal de Cristo, advogando pelos cristãos em meio à sua 8 tribulação, consolando-os e manifestando a permanência do amor de Deus em nós (João 13.34-35; 14.1, 27; 15.9-17). As falas sobre o paráclito fazem parte dos discursos de despedida de Jesus: o herói determina seu sucessor e o investe com o carisma necessário. Com os discursos de despedida, o evangelista enraíza por meio do paráclito a presença explicitamente no passado, para salvaguardar a identidade ameaçada de sua comunidade por meio de uma perspectiva do futuro que oferece confiança e coragem: a comunhão dos crentes com Deus e Jesus de Nazaré não se desfará. Os discursos de despedida são, tanto em termos literários como em termos teológico- hermenêuticos, uma parte constitutiva da forma joanina do Evangelho. (Schnelle, 2010, p. 928) A relação entre Pai e Filho, enfatizada em João, manifesta que ambos enviam o espírito da verdade e o credenciam. O paráclito tem a tarefa de levar a comunidade a uma compreensão mais profunda da pessoa de Jesus. O Espírito confere à “palavra sua atualidade e autoridade pós-pascal”. E percebemos que “a comunidade joanina sabe que o envio do paráklito a integrou na continuidade da atuação pneumática do Pai no Filho” (Schnelle, 2010, p. 932).O paráclito não somente recorda o ensino de Jesus, mas ao mesmo tempo “ensina a comunidade de modo abrangente” (João 14.26), mostrando que a escola joanina “anuncia sua pretensão de estar, também no período entre a Páscoa e a parusia, vinculada de alguma forma particular com o Pai e o Filho” (Schnelle, 2010, p. 964). O Espírito Santo manifesta a verdade da divindade. Nele a Trindade é perfeita. Percebe-se que “o caminho do conhecimento de Deus vai do único Espírito, porém por meio do único Filho até o único Pai” (Basílio de Cesareia citado por Elowsky, 2013, p. 194). Os cristãos não conseguem amar nem seguir a vontade de Deus sem a ação do Espírito Santo em suas vidas. Cristo disse que não deixaria os discípulos órfãos, enviando o Espírito Santo para consolá-los. TEMA 5 – PERMANECER NO AMOR, NA VIDA ETERNA E NA ESCATOLOGIA Pela fé em Cristo passamos a participar de uma comunidade pessoal de vida com o Deus vivo, cujo caráter é amor (agape), “essencialmente sobrenatural e não deste mundo, e todavia fixa seus pés firmemente neste mundo”, pois o 9 agape é conduta prática, e seu ato supremo foi “de fato realizado na história”, numa cruz romana no Gólgota (Dodd, 2003, p. 267). O cristianismo joanino […] é uma religião do amor; para João não são verdade e violência, mas verdade e amor que caminham juntos. A exclusividade da manifestação da realidade divina em Jesus Cristo volta-se criticamente contra todas as reinvindicações concorrentes. A verdade e a vida no sentido pleno não estão à disposição dos seres humanos, elas existem somente em Jesus Cristo. […]. Segundo a visão joanina, a obra salvífica divina em Jesus Cristo pode ser compreendida unicamente como um ato de amor de Deus em relação aos seres humanos (cf. Jo 3.16; 1 Jo 4.8, 16), de modo que a verdade e o amor se interpretam mutuamente. O conceito joanino do absoluto nada mais é do que uma variação do caráter absoluto do amor divino pelos seres humanos em Jesus Cristo. No Filho, Deus volta-se para os seres humanos em amor absoluto. (Schnelle, 2010, p. 884) Para João, Jesus é a fonte da vida eterna, e seu Evangelho desenvolve essa doutrina “com referência à ideia judaica da vida da Era vindoura, qualitativamente bem como quantitativamente diferentemente desta vida” (Dodd, 2003, p. 198). Ele mantém o paradoxo entre a escolha divina e a resposta humana. Jesus convida, mas nem todos aceitam o convite a receber a vida eterna (João 3). Ela é “quantitativamente permanente, mas também qualitativamente divina” (Gundry, 2008, p. 327). “Crer nele é a obra que Deus requer, no sentido de que a fé salvadora é ativa e perseverante. Contudo, há o destaque equivalente à necessidade de Deus atrair as pessoas para Jesus” (Gundry, 2008, p. 343). Há elementos de escatologia presente e futura nos escritos joaninos, a começar pelo Evangelho. Schnelle (2010, p. 974) o resume: A anamnese pós-pascal realiza-se já numa distância temporal; vistos no nível textual interno do evangelho, os cristãos joaninos já se encontram no futuro, de modo que podem relacionar consigo justamente as afirmações futúrico-escatológicas. A fé não abole o tempo, mas lhe confere uma nova qualidade e orientação. O crente experimenta uma nova orientação em sua vida. Quem crê em Jesus passou da morte para a vida (João 5.24), o que é descrito como experiência do passado. A vida eterna tornou-se algo já existente (João 3.36), e a fé proporciona participação plena na vida oferecida pelo Filho de Deus. A escatologia presente já ocorre, e os crentes sabem-se retirados do âmbito da morte. 10 No entanto, as afirmações sobre o presente “não cobrem todo o leque da escatologia joanina”, pois o “futuro não é eclipsado”, como se vê em João 5.25. O evangelista tem um “pensamento bitemporal”, e a salvação tem dimensões presentes e futuras. A escatologia presente “não é uma resposta suficiente às aflições do presente e ao medo do futuro” (Schnelle, 2010, p. 975-977). A volta futura de Cristo (parúsia) ocupa um lugar relevante na escatologia joanina, visto que Somente a volta do Filho possibilita aos crentes uma existência junto ao Pai, liberta das aflições do presente e do futuro. Isto não relativiza as afirmações presénticas sobre a salvação, mas as precisa sob a perspectiva da realidade da comunidade: a vida do crente no presente e no futuro está abraçada pela vontade e atuação salvíficas do Pai. Sob essa perspectiva devemos entender também as previsões a respeito da parúsia de Cristo em Jo 14.18-21, 28; 16.13 e 16, porque a promessa de rever o Filho visa transformar a tristeza que reprime a comunidade em uma alegria escatológica (cf. Jo 16.20-22). (Schnelle, 2010, p. 977) Em João, a decisão sobre o futuro já foi tomada no presente. No entanto, a ressurreição somente ocorrerá no reencontro com Cristo. Jesus já é o Senhor sobre a vida e a morte (Jo 11.25), mas a ressurreição do corpo é evento futuro. Os crentes reencontrarão Cristo somente no retorno dele (parúsia), e então a promessa se concretizará em todas as suas dimensões. Não há contradição entre a escatologia presente e a futura. No futuro “se revelará pela ressurreição dos mortos o que foi decidido no presente”. “Da atuação constante do paráclito segue que também o futuro da comunidade está abraçado pela atuação do Pai e do Filho” (Schnelle, 2010, p. 979). A ênfase escatológica em João transparece no uso feito da “hora” ou do “tempo”. Ele fala da glória manifesta de Jesus e, por isso, “não fala da revelação oculta, mas desde o início Jesus aparece perante o mundo como o enviado de Deus, como o Filho do Pai diante dos seus” (Lohse, 1972, p. 180-181). Jesus é descrito como aquele que se encontrava desde a eternidade com o Pai (João 1.1; 17.5), que o envia ao mundo (João 17.21), e o posicionamento diante de Jesus determina o juízo final (João 3.17, 21; 12.47s). A expressão “filho do homem” aparece doze vezes no Evangelho de João (Goppelt, 1976, p. 194). É uma afirmação da origem humana de Jesus. Ele é o filho do homem apocalíptico, baseado em Daniel 7.13, e a ele é dado o domínio 11 sobre o mundo (Goppelt, 1976, p. 199). João substitui a expressão “filho do homem” por “filho unigênito” em João 1.14, 18; 3.16, 18 (Goppelt, 1976, p. 214). A visão joanina enfatiza que podemos receber a vida eterna agora mesmo. Como isso é característico de João, transparece a “ênfase para o desfrutar das bênçãos escatológicas no tempo presente” (Carson; Moo; Morris, 1997, p. 200). Quando a regeneração espiritual nos conduz a Cristo, passamos a experimentar a nova vida vinculada à ressurreição – descrita como nascer da água e do Espírito (João 3.5-8). “De infiel que eu era, passei a ser fiel; conforme Ele me disse, passei da morte para a vida, já não vou a juízo. Não é presunção minha, é promessa sua” (Agostinho citado por Elowsky, 2012, p. 282). A escatologia futura aponta para os que estão nos túmulos, de onde ouvirão a voz do Filho de Deus e sairão para o julgamento daquele a quem tudo foi confiado pelo Pai (João 5.28-30). O mesmo que “como Filho do homem tem poder divino para ressuscitar aos mortos, tem o poder de julgar” (Crisóstomo citado por Elowsky, 2012, p. 283). Haverá dois destinos opostos: alguns para a ressurreição da vida, e outros para a ressurreição do juízo (João 5.29). Para os humanos receberem a vida, Jesus, como bom pastor, entregou a vida pelas suas ovelhas (João 10.11). Por causa disso, homens e mulheres que creram em Jesus foram libertados da morte espiritual e eterna. Ao falar sobre o bom pastor, cabe esclarecer: “‘Que se pregue em seu nome a conversão para perdão dos pecados a todos os povos, começando por Jerusalém’. Esta é a voz do pastor. Deves reconhecê-la tu mesmo e segui-lo se queres ser uma de suas ovelhas” (Agostinho citado por Elowsky, 2012, p. 473). João 14.7-14 compartilha como Jesus sempre atuou de comum acordocom Deus Pai, pois são da mesma substância. O Filho, como imagem do Pai, compartilha seus atributos (ATANÁSIO). Aqui, Cristo revela de novo a perfeita semelhança de sua natureza, ideias, virtude e até de suas mesmas palavras com as do Pai (TEODORO). As ações de Cristo também mostram que há uma unidade de natureza (HILÁRIO), e que nunca haveria podido realizar os milagres exclusivos da natureza divina que Ele realizou se não era essencialmente da mesma natureza divina (CIRILO). (Elowsky, 2013, p. 179). O Espírito Santo lhes revelaria tudo que é necessário para superarem a aflição que lhes sobreviria. Eles não estariam sós depois da ida de Cristo para 12 junto de Deus Pai. O Espírito confortador estará com eles, de forma que sua tristeza se converterá em alegria (João 16.17-20). A divindade do Espírito Santo é testemunhada no Evangelho de João. Quem recebe o Espírito Santo tem “uma perspectiva única de suas ações no mundo, que vai além das coisas deste mundo” (Apolinar citado por Elowsky, 2013, p. 190). E a concessão do Espírito Santo completa a Trindade. Nele “a Trindade é perfeita. Nele o verbo glorifica a criação, a diviniza, lhe dá a filiação adotiva e a leva ao Pai” (Atanásio citado por Elowsky, 2013, p. 193). O Espírito Consolador é o Espírito escatológico que “se desincumbe da tarefa de trazer aquilo que é característico segundo a nova aliança (3.5; 7.37- 39)”. Os elementos do que viria a ser chamado de doutrina da Trindade são “expressos mais claramente no Evangelho de João” (Carson; Moo; Morris, 1997, p. 200). O Espírito Santo não falaria por si mesmo, mas sempre de acordo com o Pai e o Filho. No entanto, nenhum deles é inferior, e João é contrário aos movimentos heréticos que defendiam uma diferença de graduação entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo (Elowsky, 2013, p. 276-277). Conhecer a Deus é descrito em João como a vida eterna, o que conduz a uma vida que O glorifique de forma plena (João 17.1-5). Jesus fala de “haver concluído já a obra no sentido que já fez sua parte e agora olha para o futuro, quando se haja cumprido; o afirma que ao menos as raízes foram plantadas para obter frutos no futuro” (Crisóstomo citado por Elowsky, 2013, p. 297). É a ação do Pai, do Filho e do Espírito Santo que difunde o amor em nossos corações: “Esse amor filial nosso com que honramos a Deus, o criou Deus, e viu que era bom; por isso, Ele amou o que Ele fez. Porém, não haveria criado em nós o que Ele pudesse amar se, antes de criá-lo, Ele não nos houvesse amado” (Agostinho citado por Elowsky, 2013, p. 288). A eficácia do Espírito Santo haverá de, no momento oportuno, conceder aos seguidores de Cristo a ressurreição. Quem crê em Jesus como Filho de Deus terá vida eterna em seu nome (João 20.30-31). NA PRÁTICA O Evangelho de João enfatiza a ação interativa de Deus com seu povo. Ele quer criar fé em Cristo como Filho de Deus e que as pessoas vivam de acordo com ele. O Evangelho mostra como se dá a restauração de todas as coisas a 13 partir de Cristo, e a adoração a Deus não se vincula a locais, mas ao interesse genuíno pelo que procede de Deus. Na abordagem teológica, João mostra a relação entre a teologia e a cristologia, sublinhando que Jesus foi completamente humano e divino, apresentando sua identidade por símbolos da comunhão. A ênfase no envio do Espírito Santo como o outro consolador mostra que Cristo continuaria presente na vida dos discípulos mesmo depois de ir para junto de Deus Pai. Pelo Espírito Santo, os cristãos permanecem no amor e têm em Jesus a fonte da vida eterna, que já é existente na vida de quem crê, mas tem também uma dimensão futura. As raízes para obter esses frutos já foram plantadas no que crê em Jesus. FINALIZANDO Nesta aula abordamos o Evangelho de João, que nos convida a uma ação interativa com Jesus. Ele quer restaurar nossas vidas, conduzindo-nos a uma viva adoração ao Deus vivo. Jesus quer ser nosso amigo em meio a todas as circunstâncias. A identidade dele quer ser cada vez mais conhecida e percebida por nós, e ele nos deu o Espírito Santo para nos consolar e fortalecer em meio às tribulações da vida. É sua atuação em nós que nos leva a permanecer no amor e esperar a concretização das promessas de Deus. 14 REFERÊNCIAS ARANA, P. La misión em el evangelio de Juan. In: PADILLA, C. R. (Ed.). Bases bíblicas de la misión: Perspectivas latino-americanas. Florida: Kairós, 2015. p. 233-260. BORING, M. E. Introdução ao Novo Testamento: História, Literatura e Teologia. Santo André; São Paulo: Academia Evangélica; Paulus, 2016. v. 2. BRUCE, F. F. João: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova; Mundo cristão, 1987. CARSON, D. A.; MOO, D.; MORRIS, L. Introdução ao Novo Testamento. 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