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EVANGELHOS E ATOS DOS 
APÓSTOLOS 
AULA 6 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Marlon Ronald Fluck 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
1.1 O Evangelho de João 
Olá, aluno, bem-vindo! Hoje você vai conhecer como se desenvolveu a 
mensagem do Evangelho de João. Veremos o contexto teológico do surgimento 
do Evangelho, sua cristologia, as formas de Jesus apresentar sua identidade, a 
promessa de envio do Consolador e as ênfases em permanecer no amor, na 
vida eterna e na escatologia desenvolvida nesse Evangelho. 
João certamente teve conhecimento do conteúdo dos outros evangelhos, 
sendo seletivo na apresentação do conteúdo. Seu Evangelho não conta com 
relatos introdutórios como em Mateus e Lucas, nem oferece muitos detalhes 
sobre os primeiros momentos do ministério de Jesus, e sim apresenta Deus em 
ação. Não há um interesse primordial na cronologia da vida de Cristo, nem na 
topografia da Palestina. A ênfase está na ação interativa de Deus com seu povo. 
O Evangelho de João assume a tarefa de interpretar a fé em categorias não 
judaicas para os de fora (Boring, 2016, p. 1121), e ele certamente é judeu, 
mesmo que se distancie dessa crença (Bruce, 1987, p. 11-12). Há afinidades do 
seu pensamento e linguagem com as cartas de Inácio de Antioquia, por volta de 
110 d.C. (Bruce, 1987, p. 17). 
Irineu de Lião, por volta de 180 d.C., defendeu que João, discípulo de 
Jesus, havia publicado o Evangelho quando morava em Éfeso, na Ásia. Ele não 
apresenta relatos do nascimento de Jesus, nem do seu batismo, tentações no 
deserto, instituição da ceia (Eucaristia) Getsêmani ou Ascensão, tampouco dos 
endemoniados libertos por ele. Ele quer alcançar seu objetivo, descrito em João 
20.30-31: criar a fé de que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e ter vida em seu 
nome. Portanto, esse Evangelho é diferente dos demais. João somente narra 
sete milagres de Jesus e não menciona nenhuma de suas parábolas. Ou seja, 
escreveu para criar fé. 
João optou por narrar o primeiro ano do ministério de Jesus amplamente 
e suas três visitas a Jerusalém (João 2.23; 6.4; 13.1), enquanto os sinóticos se 
ocupavam somente com sua última visita (Arana, 2015, p. 233-234). 
A Missão em Samaria é apresentada como modelo. João 4 mostra o 
enfrentamento secular entre judeus e samaritanos, com várias agressões 
 
 
3 
mútuas. Samaria era mestiça tanto em etnia quanto em religião, e os judeus os 
consideravam impuros em ambos os quesitos (Bruce, 1987, p. 97). 
João destaca que o Evangelho reconcilia e que a missão de Jesus 
começa pelo mais difícil: quem os judeus menos apreciavam. Ele queria que a 
inimizade com os samaritanos fosse superada pela apresentação das boas 
novas, e Jesus demonstrou sua boa vontade, indo buscar a samaritana 
prostituída. Ele pediu água a ela, eliminando todo vestígio de superioridade, 
dignificando a mulher e procurando superar a inimizade. 
Para Jesus, o que importa é a adoração correta. Ele não reconheceu a 
inimizade entre os dois povos. Segundo ele, nem samaritanos nem judeus estão 
adorando de acordo com a vontade de Deus, visto que Seu amor se dirige à 
humanidade toda (João 3.16). 
O Evangelho é restaurador, e o diálogo dramático com a samaritana 
conectou os leitores com Jesus missionário. Ela, de moral duvidosa, permitia 
perceber o alcance da missão de Jesus, que rompia com o tradicional, 
mostrando o evangelho na restauração de todas as coisas. No poço de Jacó, 
Jesus falou da água viva, advinda do dom do Espírito. “A água corrente ilustra 
de modo adequado o suprimento fresco e perene da graça de Deus” (Bruce, 
1987, p. 99). 
Jesus apontou para o alimento verdadeiro e falou da comida oferecida por 
seu Pai, dizendo: “Trabalhem não pela comida que perece, senão pela que 
persiste para a vida eterna” (João 6.27). Necessitamos do que procede de Deus 
Pai. E a ação de Jesus foi ampla. Ele foi aonde nenhum rabino havia ido: 
conversar com uma mulher sem lhe importar sua condição, nem com aqueles 
que se aproveitavam dela. Na conversa com ela, Jesus falou que Deus busca 
“verdadeiros adoradores”. Uma adoração sem privilégios. Jesus vinculou a 
adoração não a um lugar, mas a um interesse genuíno de se reunir em Seu 
nome. Deus não estava preso a um lugar, pois não havia mais locais 
privilegiados. Jerusalém também havia se prostituído e se afastado da vontade 
de Deus. 
Jesus teve muitos diálogos existenciais, e a samaritana fala aos outros o 
que Jesus disse. Ele pôs em evidência suas necessidades, mas isso não a fez 
se considerar desqualificada. Ela buscava respostas existenciais, e Deus entrou 
em diálogo por meio de Jesus. “Ela se esqueceu da água do poço de Jacó, por 
 
 
4 
causa do seu entusiasmo em receber a água viva de que Jesus falara (Bruce, 
1987, p. 106). 
Jesus salientou que a missão é de todos, e se apresentou como doador 
da água viva, como Profeta e como Messias. Ele se revelou como presença de 
Deus com seu povo fiel, destacou a dinâmica da missão e como esta é de todos, 
e não de apenas um, atraindo as pessoas para si. Sua imagem tem em João 
diferenças com relação aos outros três evangelhos. Jesus não chama os 
discípulos, mas os atrai (João 1.35ss.). O Cristo das bodas de Caná (João 2.1-
12) contrasta com o que purifica o templo (João 2.13-22). 
TEMA 1 – CONTEXTO TEOLÓGICO 
A mensagem de João também é diferenciada: ele não apresenta o 
chamado ao arrependimento, mas sim a afirmação de que a fé verdadeira, 
acompanhada por obediência, significa transformação na vida (João 5.14; 8.1-
11). João trabalhou “em larga medida, independentemente dos outros 
evangelhos escritos” (Dodd, 2003, p. 578), e escreveu provavelmente de Éfeso. 
Em grande parte, o Evangelho de João contém material ausente dos 
sinóticos e, assim, serve-lhes de complemento, com destaque especial 
para o ministério de Jesus na Judeia e seu profundo significado 
teológico. Digno de nota entre os temas que constituem esse 
significado está Jesus como Verbo divino preexistente, o qual se tornou 
ser humano para proferir as palavras de Deus, revelar a glória da graça 
e da verdade de Deus, separar os filhos da luz dos filhos das trevas, 
condenar o mundo dos incrédulos por meio de seu juízo e conceder 
vida eterna por meio do dom do Espírito Santo a todos os que creem e 
permanecem em Jesus. (Gundry, 2008, p. 366) 
Captamos no evangelista João “o processo de construção da teologia 
como uma formação criativa de sentido por meio da narração” (Schnelle, 2010, 
p. 861), por volta do ano 100 d.C., na Ásia Menor. João reflete “com mais firmeza 
do que qualquer outro autor neotestamentário sobre a atuação e o significado de 
Jesus Cristo como uma unidade indivisível e transforma intelecções teológicas 
fundamentais em uma narrativa” (Schnelle, 2010, p. 862). 
O conceito teológico central do Evangelho de João é a atuação do Pai 
no Filho. Não é uma atuação do Pai por meio do Filho, porque o Filho 
é muito mais do que um mero instrumento, mensageiro ou agente do 
Pai: ele participa da natureza do Pai. A unidade do Pai e do Filho é a 
base da teologia e da cristologia joaninas (Jo 10.30). O Pai revela-se 
abrangentemente no Filho que reivindica estar em unidade e trabalhar 
com o Pai/Deus. (Schnelle, 2010, p. 866-867) 
 
 
5 
A experiência em Samaria deixou claro que a samaritana levou a notícia 
para sua cidade, e eles foram pessoalmente conhecer Jesus, mostrando que “o 
conhecimento de Cristo através de terceiros não pode substituir o conhecimento 
pessoal e a fé salvadora. Agora eles podiam provar pessoalmente que tudo o 
que ela dissera era verdade” (Bruce, 1987, p. 109). 
TEMA 2 – CRISTOLOGIA EM JOÃO 
Em João, Theós (Deus) ocorre 82 vezes relacionado à cristologia, o que 
mostra sua relação com a teologia. Isso indica que João não anuncia um novo 
Deus, mas sim o “Deus de um mundo novo”. Deus é “Pai na relação com seu 
Filho”. “Pai” (patér) aparece 121 vezes em João (Schnelle, 2010, p. 862-863). 
No centrodo Evangelho de João está a manifestação de Jesus: “Eu e o 
Pai somos um” (João 10.30), o que indica também o centro da teologia joanina, 
baseada na encarnação de Jesus Cristo, o Filho preexistente de Deus. Para 
João, Deus e Jesus estão empenhados em proteger os crentes. “O Filho é tão 
suscetível ao Pai que tem os mesmos objetivos, propósitos e ações que este” 
(Bruce, 1987, p. 202). 
O Evangelho de João afirma a preexistência de Jesus (como sua pré-
história celestial) e sua participação na eternidade do Pai. Isso é expresso 
sinteticamente em João 16.28: “Saí do Pai e vim ao mundo. Deixo o mundo e 
vou para o Pai”. Jesus é testemunhado como “o Filho de Deus preexistente, [e] 
pertence desde sempre a Deus. Sua existência não está submetida a nenhum 
limite temporal ou material”. A isso se agrega “a pós-existência, na qual Jesus 
entra para junto ao Pai (cf. Jo 17.5)” (Schnelle, 2010, p. 876). 
Os adversários é que negavam a encarnação do Cristo preexistente, 
negando o caráter salvífico da vida e da morte de Jesus (Schnelle, 2010, p. 888) 
e da corporeidade do Filho de Deus, dizendo que ele era só aparentemente 
humano, enquanto o Evangelho ressaltava a unidade contínua do Jesus terreno 
com o Cristo celestial (João 1.14; 6.51-58; 19.34-35) (Schnelle, 2010, p. 889). 
Encarnação não significa abandono da divindade de Jesus. Pelo 
contrário: “a verdade da encarnação de Deus protege as doutrinas cristãs de 
Deus Pai, do homem e da pessoa de Cristo” (Bruce, 1987, p. 45). 
 
 
 
6 
TEMA 3 – “EU SOU” – IDENTIDADE DE JESUS 
As dimensões divinas são apresentadas em João, que parte das coisas 
deste mundo para comunicar as dimensões divinas. A água oferecida à 
samaritana serve para comunicar-lhe sobre a água da vida eterna (João 4). O 
pão distribuído por Jesus é o pão que dá vida ao mundo (João 6). Em Jesus 
temos o alimento da vida eterna. Ele nasceu em “Belém”, nome que significa 
“casa do pão”, que “contém o nome do nosso Salvador, que partiu dessa cidade, 
posto que o Logos divino é alimento das almas racionais” (Eusébio de Cesareia 
citado por Elowsky, 2012, p. 317). 
A luz é concedida ao cego e, quando Jesus ensinou que era a luz do 
mundo (João 8.12), ele o ilustrou curando o cego de nascença (João 9.1-41). 
Além disso, Jesus se apresenta como porta e bom pastor. Ao verem um rebanho 
de ovelhas, Jesus se apresentou como a porta pela qual elas devem passar para 
serem protegidas dos ladrões, e também como o bom pastor que, para protegê-
las, dá a vida por elas (João 10.1-15). Ao dar a vida pelas ovelhas, “desta 
maneira busca sua amizade” (Basílio de Selêucia citado por Elowsky, 2012, 
p. 460). 
Ele também se apresenta como ressurreição e caminho. Ao ressuscitar 
seu amigo Lázaro, mostrou que era a ressurreição e a vida (João 11.25). Ele não 
é Deus de mortos, mas sim de vivos. Ao ser perguntado sobre o caminho, Jesus 
falou que ele é o caminho, a verdade e a vida, e que ninguém vai ao Pai a não 
ser por ele (João 14. 4-6). 
Símbolos da comunhão são apresentados. Ao verem os cachos de uva, 
Jesus se apresentou como a videira verdadeira, e seu Pai como o agricultor 
(João 15.1-5). Vê-se que o caráter simbólico penetra nos relatos e palavras de 
Jesus. Nas sete vezes em que se apresenta, começando sempre pela expressão 
“Eu sou”, vemos sua identidade descortinada por essas expressões simbólicas. 
Aqui, Cristo revela de novo a perfeita semelhança de sua natureza, 
ideias, virtude e até de suas próprias palavras com as do Pai (Teodoro). 
As ações de Cristo também mostram que há uma unidade de natureza 
(HILÁRIO), já que nunca haveria podido realizar os milagres exclusivos 
da natureza divina que Ele fez se não era essencialmente da mesma 
natureza divina (CIRILO). (Elowsky, 2013, p. 179) 
As “palavras de Eu Sou” são o centro do autoanúncio de Jesus e 
palavras-chaves da teologia revelatória e da hermenêutica joaninas. 
Nelas, Jesus afirma que ele é, quem ele quer ser para os seres 
humanos e como eles devem entendê-lo. Nas palavras de “Eu Sou” 
 
 
7 
condensam-se de forma singular a cristologia e a soteriologia. […]. Sob 
a adoção deliberada do discurso da fala revelatória do Pai […], o Filho 
torna-se o portador da revelação. Trata-se da vida aparecida em Cristo; 
as “palavras de Eu Sou” são palavras de vida, porque em cinco das 
sete “palavras de Eu Sou” clássicas encontra-se a palavra-chave “vida” 
(dzoé, psiché). (Schnelle, 2010, p. 896-897) 
As declarações de Jesus sobre quem ele é são sumários da teologia da 
revelação em João; são o Evangelho em miniatura, imagens cristológicas. 
Nessas declarações fica claro que Deus nos faz melhores. Sua Palavra retira a 
má semente de nossos corações e os abre para produzir bons frutos pela 
mensagem de Cristo. 
TEMA 4 – PARÁCLITO (CONSOLADOR) 
A compreensão joanina sobre o Espírito Santo manifesta-se em vários 
momentos, como no batismo de Jesus, pois “ninguém exceto Deus pode ‘batizar’ 
o Logos preexistente e encarnado”. O batismo de espírito é “qualitativamente 
superior ao batismo de água de João Batista” (Schnelle, 2010, p. 922). 
Jesus estende essa presença do Espírito na vida dos cristãos. Os crentes 
são descritos como nascidos da água e do Espírito (João 3.3-5); as palavras de 
Jesus são Espírito e vida (João 6.63); e quem adora a Deus o faz em Espírito e 
verdade (João 4.24). 
O Espírito como paráclito (consolador) habita e atua na comunidade dos 
crentes por toda a eternidade (João 14.16-17), dando testemunho de Jesus 
(João 16.13-14): 
O paráclito é, portanto, o fundamento possibilitador da interpretação do 
evento Cristo, operado pelo espírito, assim como sua interpretação é 
desenvolvida no Evangelho de João como a atualização completa 
desse evento salvífico. Em última análise, o paráclito impossibilita uma 
separação entre o Jesus anunciador e o Cristo anunciado. Através do 
paráclito fala o próprio Cristo glorificado, de modo que a distância entre 
passado e presente é abolida no paráclito. Há uma fusão de horizontes, 
possibilitada pela ênfase na unidade do Cristo preexistente, presente, 
glorificado e que volta. Todo o Evangelho de João nada mais é que 
uma interpretação do evento Cristo pelo paráclito, no qual o Cristo 
glorificado fala e legitima a tradição joanina. É impossível pensar a 
presença do espírito na comunidade cristã de uma maneira mais 
abrangente do que em João. O espírito opera a passagem para o 
espaço de Deus; no espírito, Jesus está presente entre os seus, 
ensina-os, recorda-os daquilo que disse, revela-lhes aquilo que vem e 
os protege do ódio do mundo. (Schnelle, 2010, p. 926) 
Espírito Santo como paráclito estabelece a continuidade da obra de Deus, 
apesar da ausência corporal de Cristo, advogando pelos cristãos em meio à sua 
 
 
8 
tribulação, consolando-os e manifestando a permanência do amor de Deus em 
nós (João 13.34-35; 14.1, 27; 15.9-17). 
As falas sobre o paráclito fazem parte dos discursos de despedida de 
Jesus: 
o herói determina seu sucessor e o investe com o carisma necessário. 
Com os discursos de despedida, o evangelista enraíza por meio do 
paráclito a presença explicitamente no passado, para salvaguardar a 
identidade ameaçada de sua comunidade por meio de uma perspectiva 
do futuro que oferece confiança e coragem: a comunhão dos crentes 
com Deus e Jesus de Nazaré não se desfará. Os discursos de 
despedida são, tanto em termos literários como em termos teológico-
hermenêuticos, uma parte constitutiva da forma joanina do Evangelho. 
(Schnelle, 2010, p. 928) 
A relação entre Pai e Filho, enfatizada em João, manifesta que ambos 
enviam o espírito da verdade e o credenciam. O paráclito tem a tarefa de levar a 
comunidade a uma compreensão mais profunda da pessoa de Jesus. O Espírito 
confere à “palavra sua atualidade e autoridade pós-pascal”. E percebemos que 
“a comunidade joanina sabe que o envio do paráklito a integrou na continuidade 
da atuação pneumática do Pai no Filho” (Schnelle, 2010, p. 932).O paráclito não somente recorda o ensino de Jesus, mas ao mesmo 
tempo “ensina a comunidade de modo abrangente” (João 14.26), mostrando que 
a escola joanina “anuncia sua pretensão de estar, também no período entre a 
Páscoa e a parusia, vinculada de alguma forma particular com o Pai e o Filho” 
(Schnelle, 2010, p. 964). 
O Espírito Santo manifesta a verdade da divindade. Nele a Trindade é 
perfeita. Percebe-se que “o caminho do conhecimento de Deus vai do único 
Espírito, porém por meio do único Filho até o único Pai” (Basílio de Cesareia 
citado por Elowsky, 2013, p. 194). 
Os cristãos não conseguem amar nem seguir a vontade de Deus sem a 
ação do Espírito Santo em suas vidas. Cristo disse que não deixaria os discípulos 
órfãos, enviando o Espírito Santo para consolá-los. 
TEMA 5 – PERMANECER NO AMOR, NA VIDA ETERNA E NA ESCATOLOGIA 
Pela fé em Cristo passamos a participar de uma comunidade pessoal de 
vida com o Deus vivo, cujo caráter é amor (agape), “essencialmente sobrenatural 
e não deste mundo, e todavia fixa seus pés firmemente neste mundo”, pois o 
 
 
9 
agape é conduta prática, e seu ato supremo foi “de fato realizado na história”, 
numa cruz romana no Gólgota (Dodd, 2003, p. 267). 
O cristianismo joanino […] é uma religião do amor; para João não são 
verdade e violência, mas verdade e amor que caminham juntos. A 
exclusividade da manifestação da realidade divina em Jesus Cristo 
volta-se criticamente contra todas as reinvindicações concorrentes. A 
verdade e a vida no sentido pleno não estão à disposição dos seres 
humanos, elas existem somente em Jesus Cristo. […]. Segundo a 
visão joanina, a obra salvífica divina em Jesus Cristo pode ser 
compreendida unicamente como um ato de amor de Deus em relação 
aos seres humanos (cf. Jo 3.16; 1 Jo 4.8, 16), de modo que a verdade 
e o amor se interpretam mutuamente. O conceito joanino do absoluto 
nada mais é do que uma variação do caráter absoluto do amor divino 
pelos seres humanos em Jesus Cristo. No Filho, Deus volta-se para os 
seres humanos em amor absoluto. (Schnelle, 2010, p. 884) 
Para João, Jesus é a fonte da vida eterna, e seu Evangelho desenvolve 
essa doutrina “com referência à ideia judaica da vida da Era vindoura, 
qualitativamente bem como quantitativamente diferentemente desta vida” (Dodd, 
2003, p. 198). Ele mantém o paradoxo entre a escolha divina e a resposta 
humana. 
Jesus convida, mas nem todos aceitam o convite a receber a vida eterna 
(João 3). Ela é “quantitativamente permanente, mas também qualitativamente 
divina” (Gundry, 2008, p. 327). “Crer nele é a obra que Deus requer, no sentido 
de que a fé salvadora é ativa e perseverante. Contudo, há o destaque 
equivalente à necessidade de Deus atrair as pessoas para Jesus” (Gundry, 2008, 
p. 343). 
Há elementos de escatologia presente e futura nos escritos joaninos, a 
começar pelo Evangelho. Schnelle (2010, p. 974) o resume: 
A anamnese pós-pascal realiza-se já numa distância temporal; vistos 
no nível textual interno do evangelho, os cristãos joaninos já se 
encontram no futuro, de modo que podem relacionar consigo 
justamente as afirmações futúrico-escatológicas. A fé não abole o 
tempo, mas lhe confere uma nova qualidade e orientação. 
O crente experimenta uma nova orientação em sua vida. Quem crê em 
Jesus passou da morte para a vida (João 5.24), o que é descrito como 
experiência do passado. A vida eterna tornou-se algo já existente (João 3.36), e 
a fé proporciona participação plena na vida oferecida pelo Filho de Deus. A 
escatologia presente já ocorre, e os crentes sabem-se retirados do âmbito da 
morte. 
 
 
10 
No entanto, as afirmações sobre o presente “não cobrem todo o leque da 
escatologia joanina”, pois o “futuro não é eclipsado”, como se vê em João 5.25. 
O evangelista tem um “pensamento bitemporal”, e a salvação tem dimensões 
presentes e futuras. A escatologia presente “não é uma resposta suficiente às 
aflições do presente e ao medo do futuro” (Schnelle, 2010, p. 975-977). 
A volta futura de Cristo (parúsia) ocupa um lugar relevante na escatologia 
joanina, visto que 
Somente a volta do Filho possibilita aos crentes uma existência junto 
ao Pai, liberta das aflições do presente e do futuro. Isto não relativiza 
as afirmações presénticas sobre a salvação, mas as precisa sob a 
perspectiva da realidade da comunidade: a vida do crente no presente 
e no futuro está abraçada pela vontade e atuação salvíficas do Pai. 
Sob essa perspectiva devemos entender também as previsões a 
respeito da parúsia de Cristo em Jo 14.18-21, 28; 16.13 e 16, porque a 
promessa de rever o Filho visa transformar a tristeza que reprime a 
comunidade em uma alegria escatológica (cf. Jo 16.20-22). (Schnelle, 
2010, p. 977) 
Em João, a decisão sobre o futuro já foi tomada no presente. No entanto, 
a ressurreição somente ocorrerá no reencontro com Cristo. Jesus já é o Senhor 
sobre a vida e a morte (Jo 11.25), mas a ressurreição do corpo é evento futuro. 
Os crentes reencontrarão Cristo somente no retorno dele (parúsia), e então a 
promessa se concretizará em todas as suas dimensões. Não há contradição 
entre a escatologia presente e a futura. No futuro “se revelará pela ressurreição 
dos mortos o que foi decidido no presente”. “Da atuação constante do paráclito 
segue que também o futuro da comunidade está abraçado pela atuação do Pai 
e do Filho” (Schnelle, 2010, p. 979). 
A ênfase escatológica em João transparece no uso feito da “hora” ou do 
“tempo”. Ele fala da glória manifesta de Jesus e, por isso, “não fala da revelação 
oculta, mas desde o início Jesus aparece perante o mundo como o enviado de 
Deus, como o Filho do Pai diante dos seus” (Lohse, 1972, p. 180-181). 
Jesus é descrito como aquele que se encontrava desde a eternidade com 
o Pai (João 1.1; 17.5), que o envia ao mundo (João 17.21), e o posicionamento 
diante de Jesus determina o juízo final (João 3.17, 21; 12.47s). 
A expressão “filho do homem” aparece doze vezes no Evangelho de João 
(Goppelt, 1976, p. 194). É uma afirmação da origem humana de Jesus. Ele é o 
filho do homem apocalíptico, baseado em Daniel 7.13, e a ele é dado o domínio 
 
 
11 
sobre o mundo (Goppelt, 1976, p. 199). João substitui a expressão “filho do 
homem” por “filho unigênito” em João 1.14, 18; 3.16, 18 (Goppelt, 1976, p. 214). 
A visão joanina enfatiza que podemos receber a vida eterna agora 
mesmo. Como isso é característico de João, transparece a “ênfase para o 
desfrutar das bênçãos escatológicas no tempo presente” (Carson; Moo; Morris, 
1997, p. 200). Quando a regeneração espiritual nos conduz a Cristo, passamos 
a experimentar a nova vida vinculada à ressurreição – descrita como nascer da 
água e do Espírito (João 3.5-8). “De infiel que eu era, passei a ser fiel; conforme 
Ele me disse, passei da morte para a vida, já não vou a juízo. Não é presunção 
minha, é promessa sua” (Agostinho citado por Elowsky, 2012, p. 282). 
A escatologia futura aponta para os que estão nos túmulos, de onde 
ouvirão a voz do Filho de Deus e sairão para o julgamento daquele a quem tudo 
foi confiado pelo Pai (João 5.28-30). O mesmo que “como Filho do homem tem 
poder divino para ressuscitar aos mortos, tem o poder de julgar” (Crisóstomo 
citado por Elowsky, 2012, p. 283). 
Haverá dois destinos opostos: alguns para a ressurreição da vida, e outros 
para a ressurreição do juízo (João 5.29). Para os humanos receberem a vida, 
Jesus, como bom pastor, entregou a vida pelas suas ovelhas (João 10.11). Por 
causa disso, homens e mulheres que creram em Jesus foram libertados da morte 
espiritual e eterna. Ao falar sobre o bom pastor, cabe esclarecer: “‘Que se pregue 
em seu nome a conversão para perdão dos pecados a todos os povos, 
começando por Jerusalém’. Esta é a voz do pastor. Deves reconhecê-la tu 
mesmo e segui-lo se queres ser uma de suas ovelhas” (Agostinho citado por 
Elowsky, 2012, p. 473). 
João 14.7-14 compartilha como Jesus sempre atuou de comum acordocom Deus Pai, pois são da mesma substância. 
O Filho, como imagem do Pai, compartilha seus atributos (ATANÁSIO). 
Aqui, Cristo revela de novo a perfeita semelhança de sua natureza, 
ideias, virtude e até de suas mesmas palavras com as do Pai 
(TEODORO). As ações de Cristo também mostram que há uma 
unidade de natureza (HILÁRIO), e que nunca haveria podido realizar 
os milagres exclusivos da natureza divina que Ele realizou se não era 
essencialmente da mesma natureza divina (CIRILO). (Elowsky, 2013, 
p. 179). 
O Espírito Santo lhes revelaria tudo que é necessário para superarem a 
aflição que lhes sobreviria. Eles não estariam sós depois da ida de Cristo para 
 
 
12 
junto de Deus Pai. O Espírito confortador estará com eles, de forma que sua 
tristeza se converterá em alegria (João 16.17-20). 
A divindade do Espírito Santo é testemunhada no Evangelho de João. 
Quem recebe o Espírito Santo tem “uma perspectiva única de suas ações no 
mundo, que vai além das coisas deste mundo” (Apolinar citado por Elowsky, 
2013, p. 190). E a concessão do Espírito Santo completa a Trindade. Nele “a 
Trindade é perfeita. Nele o verbo glorifica a criação, a diviniza, lhe dá a filiação 
adotiva e a leva ao Pai” (Atanásio citado por Elowsky, 2013, p. 193). 
O Espírito Consolador é o Espírito escatológico que “se desincumbe da 
tarefa de trazer aquilo que é característico segundo a nova aliança (3.5; 7.37-
39)”. Os elementos do que viria a ser chamado de doutrina da Trindade são 
“expressos mais claramente no Evangelho de João” (Carson; Moo; Morris, 1997, 
p. 200). O Espírito Santo não falaria por si mesmo, mas sempre de acordo com 
o Pai e o Filho. No entanto, nenhum deles é inferior, e João é contrário aos 
movimentos heréticos que defendiam uma diferença de graduação entre o Pai, 
o Filho e o Espírito Santo (Elowsky, 2013, p. 276-277). 
Conhecer a Deus é descrito em João como a vida eterna, o que conduz a 
uma vida que O glorifique de forma plena (João 17.1-5). Jesus fala de “haver 
concluído já a obra no sentido que já fez sua parte e agora olha para o futuro, 
quando se haja cumprido; o afirma que ao menos as raízes foram plantadas para 
obter frutos no futuro” (Crisóstomo citado por Elowsky, 2013, p. 297). 
É a ação do Pai, do Filho e do Espírito Santo que difunde o amor em 
nossos corações: “Esse amor filial nosso com que honramos a Deus, o criou 
Deus, e viu que era bom; por isso, Ele amou o que Ele fez. Porém, não haveria 
criado em nós o que Ele pudesse amar se, antes de criá-lo, Ele não nos 
houvesse amado” (Agostinho citado por Elowsky, 2013, p. 288). 
A eficácia do Espírito Santo haverá de, no momento oportuno, conceder 
aos seguidores de Cristo a ressurreição. Quem crê em Jesus como Filho de 
Deus terá vida eterna em seu nome (João 20.30-31). 
NA PRÁTICA 
O Evangelho de João enfatiza a ação interativa de Deus com seu povo. 
Ele quer criar fé em Cristo como Filho de Deus e que as pessoas vivam de acordo 
com ele. O Evangelho mostra como se dá a restauração de todas as coisas a 
 
 
13 
partir de Cristo, e a adoração a Deus não se vincula a locais, mas ao interesse 
genuíno pelo que procede de Deus. 
Na abordagem teológica, João mostra a relação entre a teologia e a 
cristologia, sublinhando que Jesus foi completamente humano e divino, 
apresentando sua identidade por símbolos da comunhão. 
A ênfase no envio do Espírito Santo como o outro consolador mostra que 
Cristo continuaria presente na vida dos discípulos mesmo depois de ir para junto 
de Deus Pai. Pelo Espírito Santo, os cristãos permanecem no amor e têm em 
Jesus a fonte da vida eterna, que já é existente na vida de quem crê, mas tem 
também uma dimensão futura. As raízes para obter esses frutos já foram 
plantadas no que crê em Jesus. 
FINALIZANDO 
Nesta aula abordamos o Evangelho de João, que nos convida a uma ação 
interativa com Jesus. Ele quer restaurar nossas vidas, conduzindo-nos a uma 
viva adoração ao Deus vivo. Jesus quer ser nosso amigo em meio a todas as 
circunstâncias. A identidade dele quer ser cada vez mais conhecida e percebida 
por nós, e ele nos deu o Espírito Santo para nos consolar e fortalecer em meio 
às tribulações da vida. É sua atuação em nós que nos leva a permanecer no 
amor e esperar a concretização das promessas de Deus. 
 
 
 
14 
REFERÊNCIAS 
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bíblicas de la misión: Perspectivas latino-americanas. Florida: Kairós, 2015. 
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SCHNELLE, U. Teologia do Novo Testamento. Santo André; São Paulo: 
Academia Cristã; Paulus, 2010.

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