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1 METODOLOGIA CIENTÍFICA AULA 1 Prof. Cristiano Caveião 2 CONVERSA INICIAL Você pode estar se perguntando: por que preciso saber o que é metodologia da pesquisa e como utilizá-la se não pretendo trabalhar como professor nem mesmo como pesquisador? Nesta aula, vamos lhe mostrar que não apenas aqueles que dedicam sua vida à pesquisa, como professores e cientistas, fazem uso dos estudos. Além disso, você conseguirá perceber a importância da pesquisa em saúde no seu cotidiano. Conhecer as normas para elaboração de um texto não significa que só as utilizará para escrever artigos e monografias, mas sim em diversas situações. Imagine que você está em busca de um emprego na sua área e uma das etapas do processo classificatório é enviar um texto para o recrutador. Ok, você começa a buscar ideias na internet para escrever seu texto e encontra um com as palavras exatas que gostaria de dizer. Você pensa: “que maravilha! Nem preciso escrever, pois alguém já fez por mim. Basta copiar e enviar”. Eis que o responsável pelo processo de seleção observa que o texto que você enviou foi escrito por ele mesmo há alguns anos e reprova sua inserção na empresa, pois observa que você não está preparado para tal e não dispõe de conhecimento, ou mesmo de ética em pesquisa. O exemplo citado é bastante simplório e não demonstra todas as situações em que a pesquisa se faz presente em seu cotidiano. Contudo, ao longo das aulas, com conhecimentos adquiridos, temos certeza de que conseguirá perceber o quão importante é a pesquisa em saúde. Nesta aula, vamos estudar os seguintes temas: • Aspectos históricos e a importância da pesquisa na saúde; • Ciência e conhecimento científico: conceitos e classificação da ciência, o conhecimento científico e outros tipos de conhecimento; • Método científico: desenvolvimento, histórico, método indutivo, método dedutivo, método hipotético-dedutivo, método dialético; • Classificação dos tipos de pesquisa; • Busca em bases de dados e descritores. 3 TEMA 1 – ASPECTOS HISTÓRICOS E A IMPORTÂNCIA DA PESQUISA NA SAÚDE As doenças acometem os homens há centenas de anos, contudo a assistência e o cuidado se diferem da forma como realizamos hoje. Antigamente, a “doença era tratada empiricamente, sendo desenvolvidas várias teorias para explicar sua origem” (Reis, 2005, p. 112) e as formas mais abordadas eram relacionadas aos aspectos espirituais (a doença era um castigo das divindades) ou mesmo humoral, ou seja, algum problema desenvolvido pelo próprio indivíduo. Com isso, percebe-se que o tratamento fundamentado em conhecimento científico não era utilizado, por isso os profissionais que atuavam nesse período (barbeiros-cirurgiões) utilizavam-se de técnicas antiquadas sem se preocupar com a ética ou moralidade das suas ações (Reis, 2005). Durante o período supracitado, as doenças não tinham um tratamento específico e os locais que aceitavam receber enfermos o faziam apenas com o intuito de que estes indivíduos pudessem ter um local para morrer em paz, vistos como depositários de indigentes. Somente após o início das pesquisas em saúde e da evolução nos tratamentos é que os hospices passaram a atuar como escolas médicas, nas quais o conhecimento e a prática foram interligados. Saiba mais É importante frisar que no período medieval existiram os hospices, que tinham apenas o intuito de depositários de indigentes, ou seja, locais que não atuavam com o cuidado e atendimento de doentes. Recentemente, mais especificamente na década de 1960, foram abertas novas instituições, também denominadas hospices, porém, se diferem daquelas, pois oferecem cuidado paliativo às pessoas que estão próximas da morte. Há que se destacar que os novos hospices proporcionam todos os cuidados necessários para aliviar o sofrimento e as dores dos pacientes (Florianni; Schramm, 2010). Em razão dos resultados positivos obtidos com a interrelação da prática com o conhecimento científico, a pesquisa em saúde consolida-se, inicialmente apenas com o intuito curativo e, posteriormente, estendendo-se a pesquisas sobre formas de prevenção de doenças e promoção da saúde. 4 O debate sobre a pesquisa em saúde, no Brasil, ganhou espaço a partir de 1990, quando o país passou a compor estudos promovidos por duas organizações: a Council on Health Research for Development (Cohred) e o Global Forum for Health Research. Essas organizações buscam promover e fortalecer pesquisas em saúde em países em desenvolvimento “nas agendas nacionais, regionais e global, na perspectiva de promover o desenvolvimento e reduzir as iniquidades em saúde” (Brasil, 2007, p. 6). O principal intuito do país na parceria com tais organizações era que novos estudos trouxessem soluções para os problemas apresentados no Sistema Único de Saúde (SUS), mas o principal desafio está em conseguir atrelar os resultados às ações práticas nos sistemas e serviços de saúde. Acredita-se que a melhor forma de realizar tal vínculo é por meio da “disseminação de informações que possibilitem abreviar o hiato existente entre o novo conhecimento e a sua utilização em benefício da população” (Brasil, 2007, p. 6). Com os avanços nas pesquisas em saúde, várias doenças que dizimavam populações foram contidas, além de benefícios com tratamentos mais humanizados, como mostra a figura a seguir. Figura 1 – Exemplos de importantes inovações na medicina ao longo dos anos ANO INOVAÇÃO 1796 Desenvolvimento da vacina contra vaíola, efetivamente erradicando uma doença que dizimou populações 1842 Éter começa a ser utilizado como anestésico em cirurgias, permitindo que pacientes sejam operados sem sentir dor 1899 Descoberta da aspirina (ácido acetilsalicílico) 1921 Descobrimento da insulina, fundamental no tratamento do diabetes 1928 Penicilina é descoberta como o primeiro antibiótico, salvando milhões de vidas 1951 Descoberta a clorpromazina, primeiro antipsicótico, revolucionando o trabamento psiquiátrico 1954 É patenteado o primeiro medicamento para leucemia 1955 Introdução da vacina contra Pólio, uma das principais causas de debilitação à época 1983 Identificação do vírus do HIV, causador da epidemia da AIDS Fonte: Pires, 2008. Obviamente, esses são apenas alguns exemplos, mas posteriormente novos estudos foram e vêm sendo realizados e novos benefícios foram e serão gerados, tais como: medicamentos para tratamento da AIDS, vacina para zika, 5 dengue, chikungunya e até a vacina para o COVID-19. A valorização e expansão da pesquisa em saúde impacta a vida das pessoas, conforme expõe Reis: O incentivo à pesquisa em saúde e a promoção de condições favoráveis à realização de estudos científicos geram uma prática profissional ampla, eficiente e especializada, pautada em um conhecimento seguro, flexível e sedimentado que enobrece o profissional e propicia uma assistência plena e garantida à população. (Reis, 2005, p. 112) Diante do exposto, podemos ressaltar a importância da pesquisa em saúde em sua busca por melhores condições de vida para as pessoas, para encontrar tratamentos para reabilitação dos enfermos e em formas de prevenir doenças. Portanto, seu objetivo está em produzir qualidade de vida às pessoas. (Interfarma, 2019) Além das ações diretas da pesquisa em saúde, como quando são voltadas para a produção de medicamentos e vacinas, temos também a ação indireta, que corresponde à influência que a pesquisa em saúde causa nas políticas públicas. Não entendeu a relação entre os dois temas? Vamos explicar! A questão posta em nossa Constituição Federal sobre a equidade em saúde já é um reflexo da interferência da pesquisa em saúde na política pública, tendo em vista que estudos apontam que “uma saúde melhor é um elemento necessário ao desenvolvimento e que os investimentos na saúde tornaram-seessenciais para as políticas de crescimento econômico que buscam melhorar as condições de vida das pessoas mais pobres” (Brasil, 2007), ou seja, um povo com saúde irá ajudar seu país a se desenvolver e a crescer. Vamos apresentar outra forma de influência da pesquisa nas políticas públicas a seguir. Pense nas campanhas publicitárias de saúde, como a de antitabagismo. O cigarro, em 1881, estava em plena expansão e várias indústrias faturavam alto com a venda de seus produtos. Paralelamente ao movimento em prol dos cigarros, havia grupos que alertavam sobre os riscos desse vício, embora a indústria tabagista crescesse exponencialmente. Entretanto, uma pesquisa realizada no ano de 1972 deu o start para os riscos ao uso do tabaco e, então, novas pesquisas foram realizadas para estabelecer a relação entre uso do tabaco e doenças graves (destarte que apenas a publicação sobre a possível relação entre doenças e o tabaco já seria o suficiente para retroceder as vendas de cigarro) (Boeira, 2006). A confirmação aconteceu e, assim, políticas públicas foram criadas para incentivar as pessoas a deixarem de fumar, tais como a Lei http://legislacao.planalto.gov.br/legisla/legislacao.nsf/Viw_Identificacao/lei%209.294-1996?OpenDocument 6 n. 9.294, de 15 de julho de 19961, que dispõe sobre as “restrições ao uso e à propaganda de produtos fumígeros” (Brasil, 1996). A referida ação teve pleno êxito no ano de 2014 com a regulamentação da Lei antifumo/ambientes 100% livres do tabaco. Pouco mais de um ano após promulgada a lei antifumo, percebeu-se uma redução de 11% entre os tabagistas passivos (aqueles que não fumam, mas convivem com fumantes) (Brasil, 2014; Abe; Issa; Kallil Filho, 2018). Com esses exemplos, conseguimos encontrar a primeira resposta para os primeiros objetivos de nossa aula: saber o início da pesquisa em saúde e esclarecer a importância dela para sociedade. Agora vamos conversar sobre o que é ciência e o que é conhecimento científico. TEMA 2 – CIÊNCIA E CONHECIMENTO CIENTÍFICO: CONCEITOS E CLASSIFICAÇÃO DA CIÊNCIA, O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E OUTROS TIPOS DE CONHECIMENTO Ciência é sinônimo de conhecimento científico? E aquilo que sabemos porque todo mundo sabe, será que é conhecimento científico? São esses tópicos que iremos abordar neste tema, com o intuito de descobrir o que é a ciência e a diferença dela para conhecimento científico; o que é conhecimento científico e o que é conhecimento popular, além de conhecer as classificações da ciência. Então, para iniciar nossa conversa, vamos entender o que é conhecer: Conhecer é atividade especificamente humana. Ultrapassa o mero “dar-se conta de”, e significa a apreensão, a interpretação. Conhecer supõe a presença de sujeitos; um objeto que suscita sua atenção compreensiva; o uso de instrumentos de apreensão; um trabalho de debruçar-se sobre. Como fruto desse trabalho, ao conhecer, cria-se uma representação do conhecido - que já não é mais o objeto, mas uma construção do sujeito. O conhecimento produz, assim, modelos de apreensão - que por sua vez vão instruir conhecimentos futuros. (Araújo, 2004 apud França, 1994, p. 140) Diante do exposto, tem-se que o conhecimento é ter consciência das necessidades que o permeiam e ir em busca de respostas. Como esse conhecimento pode ser construído de várias maneiras, com ele nascem os tipos de conhecimento: empírico ou popular, científico, religioso ou filosófico, apresentados na figura a seguir: 1 Novas atualizações (leis) foram criadas após a promulgação dessa lei. Citamos apenas a primeira como forma de exemplificar os fatos relacionados à pesquisa. http://legislacao.planalto.gov.br/legisla/legislacao.nsf/Viw_Identificacao/lei%209.294-1996?OpenDocument 7 Figura 2 – Tipos de conhecimento Fonte: Caveião, 2020. Os conhecimentos não podem ser menosprezados pela forma como foram construídos. Por isso, mesmo classificado como um conhecimento empírico (senso comum), ainda é um tipo de conhecimento, elaborado por meio de metodologia diferenciada, a qual não apresenta profundidade e é subjetiva. Contudo, “não se distingue do conhecimento científico nem pela veracidade nem pela natureza do objeto conhecido: o que os diferencia é a forma, o modo ou o método e os instrumentos do 'conhecer'" (Araujo, 2006). Com relação ao conhecimento teológico, podemos destacar que também não pode ser constatado, já que seus acontecimentos transcendem gerações. Contudo, é importante ressaltar que nesse tipo de conhecimento a evolução é lenta e passível de estagnação. Há que se destacar que os tipos de conhecimento fazem a ciência evoluir, uma vez que as problemáticas do cotidiano necessitam de respostas. Assim, logo vêm o conhecimento empírico ou religioso ou filosófico e, em seguida, o estudo científico para certificá-lo (ou não). Agora que já sabemos o que é conhecimento, conhecimento científico e conhecimento popular, vamos descobrir o que é a ciência: Ciência é a junção organizada de vários conhecimentos científicos. Conforme aponta Cartoni (2009, p. 17), “é o processo de produção de conhecimento. Pode ser entendida, nesse Empírico •É o conhecimento advindo da rotina, do cotidiano, por isso é conhecido como conhecimento popular. Ele surge por meio das experiencias adquiridas ao longo da vida (erros e acertos) e é transmitido de pais para filhos, passando de geração em geração. Científico •Esse conhecimento é adquirido por meio da busca do saber com base em métodos fundamentados, em que haja prova do resultado obtido. Trata-se de lidar com fatos e situações reais que podem ser comprovadas. Filosófico •Advém do esforço humano em tentar conhecer e compreender as intercorrências humanas. Sendo filosófica, dispensa a necessidade de comprovação ou de provas lógicas. É a busca pelo sentido da vida. Religioso •Esse tipo de conhecimento está baseado naquilo que o individuo crê, o qual não precisa de provas lógicas ou de bases filosóficas para se fazer conhecedor. 8 sentido, como um conjunto de métodos lógicos e empíricos que permitem a observação sistemática de fenômenos, a fim de compreendê-los e estabelecer padrões regulares que seguem”. Para Araujo (2005), ciência é concebida como: A ciência, pois, é uma forma de conhecimento que, compreendida num sentido mais específico, [...] "O discurso científico tem a intenção confessada de produzir conhecimento, numa busca sem fim da verdade" (Alves, 1987: 170). Para conseguir alcançar esse conhecimento mais adequado, mais fiel à realidade, a ciência busca o desejado equilíbrio entre as duas dinâmicas do conhecimento, isto é, a constante renovação e a consolidação dos conhecimentos já construídos. Sendo um conjunto de conhecimento, seu objetivo é responder a questionamentos, solucionar problemáticas e desenvolver formas de simplificar situações difíceis da vida. Em outras palavras, a ciência pode ser vista como uma forma de buscar o bem-estar das pessoas. Por ser organizada, a ciência tem classificações conforme aponta a imagem a seguir: Figura 3 – Classificação das ciências Fonte: Elaborado com base em: Wazlawick, 2010, p. 5. As ciências formais são assim classificadas por tratarem de elementos abstratos, diferentemente das ciências factuais, que atuam baseadas em fatos concretos, adquiridos por meio de dados empíricos, os quais, por sua vez, encontram-se atrelados a teorias. Por isso, como representante das ciências Formal ou empírica • A ciência formal é aquela em que são estudadas ideias, idependentemen te de sua aplicabilidade na natureza ou ao ser humano. Um exemplo de ciência formal é a matemática. Pura ou aplicada • Estuda o conceito básico sem preocupação com o período de aplicabilidade. Um exemplo desse tipo de ciência é a cosmologia. Exatas e inexatas • As ciências exatas são aquelas que têm resultados precisos (ciência da computação),já entre as inexatas encontram-se as ciências sociais, pois são aquelas que podem prever comportamento s gerais de seus fenômenos, mas cujos resultados nem sempre são esperados. Duras e Moles • As ciênias duras são aquelas que utilizam rigor científico em sua metodologia. São exemplificadas pelas pesquisas médicas e em saúde. Já a ciência mole é baseada em estudos de caso, ou seja, quando se trabalha na impossibilidade de obter resultados controlados. Nomotéticas e idiográficas • Nomotéticas são ciências que estudam fenômenos repetitivos, passíveis de previsões e idiográficas, são fenomenos únicos. 9 formais, apontamos a matemática, já do segundo grupo (factual), temos geologia, biologia e a química. Compreenda que a ciência não é indiscutível e sempre existe espaço para questioná-la. Imagine se ninguém tivesse questionado a ciência após ter sido constatado como verdade que a Terra era o centro do universo? Até hoje essa seria a verdade única, mas após novos estudos e pesquisas, hoje sabemos que não é assim. Não que a ciência aceite mentiras, mas ela aceita a verdade até o ponto em que se comprove o contrário, por isso sempre abre espaço para novos conhecimentos e novos estudos. Dessa forma, ela pode se reinventar e se renovar, ou seja, as verdades na ciência são transitórias (Cartoni, 2009). Diante disso, pode-se afirmar que o conhecimento científico deve se abrir a novas pesquisas para que esteja em constante progresso e atualização. Assim, é necessário que, ao iniciar um processo de investigação científica, esta seja pautada pelo critério da falseabilidade, que “exclui aqueles modos de evadir a falsificação logicamente admissíveis”, de maneira a minimizar os riscos de interferência do pesquisador nos resultados (Cartoni, 2009, p. 18). Compreenda que não é por falta de ética que o pesquisador pode realizar tal interferência, mas sim por ter como verdade e não conseguir perceber suas ações involuntárias em busca da sua verdade. Por isso, a metodologia deve ser muito bem fundamentada, para que lacunas como essas deixem de existir. Um bom pesquisador sempre terá uma postura crítica, ética e racional no desenvolvimento de seu estudo. Agora que já sabemos o que é conhecimento e ciência, seus tipos e classificações, abordaremos outra temática: método científico. Para isso, vamos analisar o que são método, metodologia científica e método científico. TEMA 3 – MÉTODO CIENTÍFICO: DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO, MÉTODO INDUTIVO, MÉTODO DEDUTIVO, MÉTODO HIPOTÉTICO- DEDUTIVO, MÉTODO DIALÉTICO Método científico é essencial para formular uma pesquisa, pois é por meio dele que você definirá os passos a seguir. Vamos utilizar um exemplo simples para mostrar que o método científico está em nosso cotidiano sem nos darmos conta disso. 10 Você vai pegar o transporte público para ir à faculdade e, para isso, antes de sair de casa, certifica-se de que seu cartão transporte está em sua carteira. Sai de casa, entra no ônibus e, ao passar o cartão transporte na máquina de cobrança, nada acontece. Diante disso, você começa a se questionar: “será que tenho créditos? Será que a máquina está quebrada?”. Esses questionamentos são hipóteses que você está formulando. Em seguida, inicia sua busca pelas respostas (verificar se há crédito, verificar se tem dinheiro para pagar etc.). O motivo de o seu cartão não ser aceito você pode nunca descobrir (nem todo estudo tem resultado positivo, mas isso é assunto para outra hora), mas o fato de você ter uma problemática e formular hipóteses já configura a utilização de um método científico. Afinal, o método científico é definido como regras utilizadas para realização de uma experiência que tenha o intuito de produzir/corrigir/integrar ciência (conhecimento), e pode ser conceituado como: etapas para elaboração de trabalhos científicos (Jacobsen, 2016; Borges, 2014). Dessa forma, determina-se que para ser um método científico é preciso existir um problema (questionamento), a formulação de hipóteses, testes das hipóteses e obtenção de um resultado, conforme demonstra a figura a seguir. Figura 4 – Resumo de método científico Fonte: Jacobsen, 2016. 11 Para ilustrar ainda mais o que é o método científico, temos a seguir a sugestão de um trecho do programa Mundo de Beakman, em que o apresentador explica o que é método científico. Acesse para saber mais: . Sabendo o que é um método científico e as etapas necessárias que o compõem, podemos passar a desvendar outros assuntos vinculados ao método científico, tais como: método indutivo, método dedutivo, método hipotético- dedutivo e o método dialético. O método indutivo refere-se à análise de uma situação concreta por parte do pesquisador, o qual “realizará um processo de indução até chegar a uma premissa maior” (Borges, 2014, p. 86), ou seja, os resultados são obtidos por meio da observação sistemática do pesquisador, conforme afirmou Francis Bacon, pai do método indutivo. Para que o pesquisador faça uso desse método científico, é preciso que realize alguns procedimentos (Diniz; Silva, 2008, p. 4): • observação sistemática dos fenômenos; • elaboração de classificações a partir da descoberta de relação entre os fenômenos observados; • construção de hipóteses (verdades provisórias) a partir das relações observadas; • verificação das hipóteses por meios de experimentações e testes; • construção de generalizações, a partir dos resultados experimentados e testados, servindo como explicação para outros estudos que apresentem casos similares; • confirmação das hipóteses para se estabelecer as leis gerais sobre os fenômenos investigados. Esse método dificilmente abrange pesquisas no âmbito das ciências sociais, tendo em vista que se trata da repetição de fenômenos, o que é muito difícil de ocorrer em fenômenos sociais. O método dedutivo é o oposto da prerrogativa do método indutivo, configura-se em “pegar uma hipótese genérica e, por intermédio da dedução, chegar a uma conclusão, a uma solução ao problema” (Borges, 2014, p. 86). Diniz e Silva (2008, p. 6) expõem que o método dedutivo “parte das teorias e leis consideradas gerais e universais buscando explicar a ocorrência de fenômenos particulares”. As autoras continuam, ainda, afirmando que o método dedutivo surge das leis universais (pensamentos racionais) que chegam a determinada conclusão, assim, o “exercício do pensamento pela razão cria uma operação na qual são formuladas premissas e as regras de conclusão que se denominam demonstração”. 12 Entre os dois métodos, existem pontos de convergência, tal como a busca pela verdade, e pontos de divergência (figura 5): Figura 5 – Diferenças entre os métodos de indução e de dedução Fonte: Metodologia científica, [S.d.]. Conhecendo esses dois métodos, passaremos a discutir sobre o método hipotético-dedutivo e o método dialético. Vamos iniciar pelo hipotético- dedutivo, que pode ser considerado a junção dos métodos dedutivo e indutivo, acrescido de racionalização e experimentação. Trata-se de um método que versa na apresentação de hipóteses prováveis (com tendência de viabilidade) para a resolução de um problema, após o levantamento de possíveis resoluções, realiza-se uma limpeza de hipóteses falsas e encerra-se com a comprovação (ou não) das hipóteses que restaram. Assim, nesse método, trabalhamos com a problemática, as hipóteses, a exclusão de falsas hipóteses e, então, a comprovação (ou não) das hipóteses (Fumec, 2013). Almeida [S.d.]) coloca o método hipotético da seguinte forma: [...] se o conhecimento é insuficiente para explicar um fenômeno, surge o problema; para expressar as dificuldades do problema são formuladas hipóteses; das hipóteses deduzem‐se consequências a serem testadas ou falseadas (tornar falsas as consequênciasdeduzidas das hipóteses); enquanto o método dedutivo procura confirmar a hipótese, o hipotético‐dedutivo procura evidências empíricas para derrubá‐las. Em relação ao método dialético, o autor o define como “empregado em pesquisa qualitativa, considera que os fatos não podem ser considerados fora de um contexto social; as contradições se transcendem dando origem a novas contradições que requerem soluções”. Compreenda que dialético vem de diálogo, ou seja, da argumentação e contra-argumentação, um debate de ideias que não permite comprovações, as 13 quais não tratam de objetos fixos e interligados a outras questões que estão ao seu redor. O método dialético encontra-se no campo qualitativo, visto que não há como mensurar os dados, pois estão em constante alteração. Diante disso, o método dialético configura-se nos seguintes passos: Tese, antítese e a síntese (que pode gerar uma nova tese). Sendo a tese uma pretensão de verdade, a antítese, elementos que desmontam a tese, a síntese é o que sobrou deste embate entre a tese e a antítese. Tudo o que vimos até agora são métodos, mas, afinal, o que é a metodologia? É a ciência em que se estuda o método científico. Em outras palavras, a metodologia refere-se aos métodos utilizados na pesquisa. Por fim, qual é a diferença entre método científico e metodologia? A metodologia se refere aos procedimentos e ao conjunto de técnicas que serão utilizados na pesquisa. Passamos a falar, então, em métodos como sendo “métodos de abordagem” e em metodologias como os “métodos de procedimento”, que podem ser chamados de técnicas de pesquisa (Fumec, 2013, p. 93). TEMA 4 – CLASSIFICAÇÃO DOS TIPOS DE PESQUISA Ao falar em classificação por tipo de pesquisa, temos muitas análises a serem realizadas. A pesquisa pode ser classificada de acordo com a abordagem (quantitativa ou qualitativa), ou conforme sua natureza (básica ou aplicada). Temos, ainda, a pesquisa quanto ao seu objetivo (exploratória, descritiva ou explicativa) e quanto aos procedimentos (experimental, bibliográfica, documental, de campo, estudo de caso, de levantamento, e outras). Por enquanto, vamos nos ater apenas à sua natureza e ao objetivo, pois as demais classificações veremos nas próximas aulas. O tipo de pesquisa, considerando sua natureza, pode ser classificado em básica, que consiste em “gerar conhecimentos novos, úteis para o avanço da ciência, sem aplicação prática prevista. Envolve verdades e interesses universais” (Silveira;Gerhardt, 2009, p. 34), enquanto a pesquisa de natureza aplicada remete ao inverso da primeira, pois tem como objetivo gerar conhecimento para aplicação prática, ou seja, visa à resolução de problemas específicos, por isso está mais relacionada a interesses locais. 14 Passamos agora a discutir o tipo de pesquisa considerando seu objetivo. Para isso, utilizaremos a definição de Gil (2002, p. 41) para a pesquisa exploratória, que a esclarece muito bem: Pode-se dizer que estas pesquisas têm como objetivo principal o aprimoramento de ideias ou a descoberta de intuições. Seu planejamento é, portanto, bastante flexível, de modo que possibilite a consideração dos mais variados aspectos relativos ao fato estudado. Na maioria dos casos, essas pesquisas envolvem: (a) levantamento bibliográfico; (b) entrevistas com pessoas que tiveram experiências práticas com o problema pesquisado; e (c) análise de exemplos que "estimulem a compreensão”. As pesquisas exploratórias são comumente utilizadas em pesquisas bibliográficas ou estudos de caso. As pesquisas classificadas como descritivas visam descrever (como seu nome bem a denomina) as características de determinada população, grupo, enfim, objeto de estudo. Para esse tipo de objetivo, comumente utiliza-se a aplicação de questionários e realiza-se a observação sistemática, já que seu objetivo está em avaliar opiniões, crenças ou até mesmo dados demográficos, tais como idade, altura e estado de saúde. Para concluir a abordagem sobre o tipo de pesquisa descritiva, apontamos que essa, juntamente da exploratória, é uma das mais utilizadas por pesquisadores sociais. Por fim, a pesquisa explicativa comumente avalia “os fatores que determinam ou contribuem para ocorrência de fenômenos” (Gil, 2002, p.42). Ela tem o intuito de explicar o motivo dos fatos por meio do aprofundamento da realidade. Isso faz com que esse tipo de pesquisa seja muito delicado, uma vez que o risco de erros pode ser considerável. A utilização desse tipo de objetivo está relacionada a pesquisas do tipo experimentais ou ex-post facto (que estudaremos mais adiante). TEMA 5 – BUSCA EM BASES DE DADOS E DESCRITORES Você pode estar se perguntando sobre a necessidade deste tópico. Podemos fazer nossa pesquisa utilizando a base de sites de busca (como Google), porém, vale destacar que a busca pelo endereço ou a indicação de um local qualquer se difere da busca por informações científicas que podem dar a base para seu estudo. Sabemos que muitas informações inseridas na internet são falsas e sem comprovações, por isso é preciso saber onde e como buscar 15 essas informações, com fundamentação e evidência científica. Para nos auxiliar nessa busca, utilizamos as bases de dados eletrônicas, que são como imensas revistas científicas, prontas para serem acessadas a qualquer momento. Latorraca et al. (2019) expõem de forma brilhante a diferença entre realizar uma busca no google e em uma base de dados científica: “aproximadamente 413.000 resultados no Google Acadêmico com o termo ‘myocardial revascularization’ tornam-se 99.540 no Medline (via PubMed) para uma busca simples usando o mesmo termo”. Segundo os autores, isso acontece porque a Pubmed tem uma base mais bem estruturada, que irá em busca apenas dos artigos científicos com embasamento no assunto, e não pela simples citação da palavra em seu texto. Agora que já citamos uma das bases da saúde (Pubmed), vamos apresentar as demais: Bireme, LILACS, IBECS, MEDLINE, Biblioteca Cochrane e SciELO (Quadro 1): Quadro 1 – Principais bases de dados da saúde BASE DE DADOS DESCRIÇÃO BIREME Biblioteca atrelada ao Sistema Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde. Visa disseminar o conhecimento para fins acadêmicos e de pesquisa. LILACS Base que integra o Sistema Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde. IBECS Utiliza a metodologia LILACS, desenvolvida pela BIREME, com a finalidade de posteriormente se poderem integrar as bases de dados IBECS y LILACS (Bases de dados de Literatura Latino-americana de Ciências da saúde), o que permitirá recompilar esta seleção de literatura científica latino-americana e espanhola numa única Base de Dados Bibliográfica LILACS-IBECS, como referência internacional PUBMED É uma base de dados desenvolvida pelo National Center for Biotechonology Information (NCBI) na Library of Medicine (NLM) disponível na web. É uma das diversas bases de dados que fazem parte do sistema de recuperação Entrez do NCBI, que é um sistema da busca e de recuperação que integra as informações das bases de dados da NCBI com o PubMed e inclui: MEDLINE, Nucleotide Sequences, Protein Sequences, Macromolecular Structures e Whole Genomes. MEDLINE É o maior componente do PubMed. Cobre mais de 4.800 revistas publicadas nos Estados Unidos e em mais de 70 outros países desde 1966. Produzida pela National Library of Medicine (NLM), é uma base de dados de literatura internacional que reúne referências bibliográficas e resumos de revistas biomédicas, cobrindo as áreas de medicina, enfermagem, odontologia, medicina veterinária e ciência pré-clínicas. A atualização da base de dados é mensal. BIBLIOTECA COCHRANE É uma Biblioteca Virtual de Saúde (BVS) que tem acesso diferenciado à melhor coleção de fontes de informação de evidência sobre os efeitos das intervenções em saúde oferecidasaos profissionais de saúde dos países da América Latina e Caribe. SCIELO É uma biblioteca virtual piloto que abrange uma coleção selecionada de periódicos científicos brasileiros com base hospedada na FAPESP. Fonte: Latorraca et al., 2019. 16 Agora que já sabemos o que são e quais são as mais importantes bases de dados para saúde, vamos passar a discutir sobre os descritores. Estes são palavras/termos que podemos utilizar para definir a busca, ou seja, são definidores de assuntos. Entre os descritores mais conhecidos, encontram-se os DeCS, que significam descritores da saúde, e os MeSH, que correspondem a Medical Subheadings. A utilização do descritor dependerá da base de dados utilizada (Latorraca et al., 2019). Os descritores se aproximam das palavras-chave, porém se diferem por serem interligados., ou seja, por meio do termo utilizado, torna-se possível fazer a busca em qualquer banco de dados. Ao realizar uma busca, é preciso saber como utilizar o descritor, pois você pode fazer a junção de dois termos e não obter o resultado esperado, por isso utilizamos os operadores booleanos, que são conectores de termos. Funciona da seguinte forma: você indicará para abase de dados se você quer uma busca de publicações que tenham pelo menos um dos termos (or), se quer que ela busque publicações que tenham os dois termos utilizados (and), ou se você quer apenas um termo específico (not/and not), conforme aponta imagem a seguir (Latorraca, 2019, p. 62): Figura 6 – Descritores Fonte: Latorraca, 2019. A utilização desses operadores faz com que sua busca seja mais direcionada ao que se espera, assim, ela poderá ser mais abrangente quando utilizado termo or ou and, e mais específica no caso de not/and not. NA PRÁTICA Escolha um tema para a realização de uma pesquisa científica que seja relevante para a área da saúde. Identifique um problema (questionamento), formule hipóteses e organize as informações para essa pesquisa. 17 FINALIZANDO Em nossa aula, apresentamos o início da ciência, como surgiu e a importância dela para a sociedade atual. Depois, passamos a conversar sobre os tipos de métodos utilizados, e descobrimos que existem os hipotéticos, os indutivos, os dedutivos e o dialético. Em seguida, descobrimos o que é a metodologia (ciência em que se estuda o conjunto dos métodos) e a diferença entre ela e o método propriamente dito (que é a técnica utilizada). Para finalizar, apontamos as principais bases de dados da saúde e sua importância para a pesquisa científica, bem como o que são os descritores e como realizar uma busca utilizando os operadores booleanos. Em nossos próximos encontros, você vai conhecer os elementos de um trabalho científico e perceberá a importância dos temas tratados nesta aula para a realização de um artigo científico. 18 REFERÊNCIAS ABE, T. O; ISSA, J.; KALIL FILHO, R. O impacto da lei antifumo sobre a morbimortalidade por infarto em São Paulo. Referência Incor. 20 fev. 2018. Disponível em: . Acesso em: 25 dez. 2020. ARAUJO, C. A. A. A ciência como forma de conhecimento. 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