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APOSTILA AFECÇÕES CIRÚRGICAS DA CAVIDADE ABDOMINAL EM CÃES E GATOS 1. CAVIDADE ABDOMINAL A cavidade abdominal pode ser dividida em três regiões virtuais: epigástrica, mesogástrica e hipogástrica. A epigástrica é limitada cranialmente pelo diafragma e caudalmente pela face caudal da décima terceira costela. A mesogástrica é limitada cranialmente pela face caudal da décima terceira costela e caudalmente pela crista ilíaca. Por fim, a região hipogástrica é limitada cranialmente pela crista ilíaca e caudalmente pelo limite caudal do abdômen. A maioria dos procedimentos cirúrgicos em cães e gatos ocorre na cavidade abdominal, sendo o acesso mais comum obtido através da linha média ventral. Os procedimentos podem possuir finalidades diagnósticas, terapêuticas ou prognósticas. 1.1 DEFINIÇÕES A celiotomia é uma incisão na cavidade abdominal. A laparotomia, tecnicamente, é um termo que se refere somente às incisões no flanco, porém é amplamente utilizado como um sinônimo à celiotomia. A celiotomia pode ser classificada em ventral mediana (pela linha média ventral) e paracostal (pelo flanco). 1.2 ANATOMIA Na linha média ventral encontra-se a linha alba, uma zona fibrosa, espessa e branca. Ela é formada pela convergência das fibras das aponeuroses dos músculos oblíquos abdominal externo e interno, e abdominal transverso. Em seguida, essas fibras passam externamente ou internamente nos músculos reto do abdômen, estendendo-se cranial e caudalmente ao longo da parede abdominal ventral. Nos cães, a linha alba tem cerca de 2 a 3 mm de largura, e é observada como uma depressão entre os músculos abdominais retos. Nos gatos, a linha alba pode ter 4 mm de largura, sendo visualizada como uma faixa branca horizontal bem definida (FIGURA 1). Figura 1 - Anatomia da bainha do músculo reto do abdômen. Fonte: FOSSUM, 2008. Na parede abdominal lateral encontram-se os músculos oblíquos abdominais externo e interno, em suas porções mais espessas. As fibras destes músculos se cruzam de maneira à formarem ângulos retos. O músculo abdominal transverso surge em duas partes (lombar e costal), e suas fibras estendem-se em direção dorsoventral. A superfície interna é recoberta pelas fáscia transversa e peritônio. Após uma incisão completa da cavidade abdominal, a primeira estrutura encontrada é o peritônio. Este é uma delicada camada serosa que contêm uma pequena quantidade de líquido seroso que é constantemente renovada, e facilita o deslizamento das diferentes vísceras que reveste. Os omentos são largas lâminas de peritônio que mantêm e envolvem os órgãos e vísceras abdominais, e podem ser divididos em omento maior e menor. O tamanho do omento maior, que se origina da curvatura maior do estômago, varia. O omento possui várias funções, mas nenhuma delas é vital; ele aumenta a área de superfície serosa para produção e absorção de fluídos; também previne que os intestinos se insinuem entre o estômago e o fígado, onde eles poderiam ficar presos. Os órgãos contidos nesta cavidade estão distribuídos nas três regiões que a subdividem, sendo elas a epigástrica, mesogástrica e hipogástrica. A região epigástrica é limitada cranialmente pelo diafragma e caudalmente pela face caudal da décima terceira costela, contendo o fígado, estômago, pâncreas, rins e baço. A região mesogástrica é limitada cranialmente pela face caudal da décima terceira costela e caudalmente pela crista ilíaca, sendo composta por intestinos, ovários e ureteres. Por fim, a região hipogástrica é limitada cranialmente pela crista ilíaca e caudalmente pelo limite caudal do abdome (intrapélvico), e os órgãos são bexiga, próstata, uretra e reto (FIGURA 2). Figura 2 - Limites das regiões do abdômen ventral. A – cartilagem xifoide; B – cicatriz umbilical; C – asa do íleo; D – diafragma; E – última costela. Fonte: GOMEZ, 1993. 1.3 TÉCNICAS CIRÚRGICAS O local cirúrgico deve ser preparado de forma que a incisão possa ser realizada em toda sua extensão. Para uma visualização adequada de todas as estruturas da cavidade abdominal, a incisão deve se estender do processo xifoide ao púbis. Caso seja necessária a visualização de uma estrutura específica, uma incisão menor é mais indicada, podendo ser na região abdominal cranial (processo xifoide ao umbigo) ou caudal (umbigo ao púbis). Por vezes, pode ser necessária a ampliação lateral da incisão mediana ao nível do processo xifoide, para facilitar a exposição do diafragma, fígado e sistema biliar. O acesso paracostal (paralombar) pode ser indicado para um melhor acesso aos rins e glândulas adrenais. 1.3.1 Celiotomia ventral mediana O paciente deve ser posicionado em decúbito dorsal. Iniciar a incisão cutânea na linha média ventral, tendo a extensão e localização conforme o procedimento desejado. Realizar a incisão no tecido subcutâneo com bisturi até que a fáscia externa do músculo reto do abdômen esteja exposta. Ligar ou cauterizar os pequenos sangramentos subcutâneos para que a linha alba seja identificada. Elevar a parede abdominal para fazer a incisão na linha alba com uma lâmina de bisturi, e palpar a superfície interna, através do defeito, em busca de aderências. Utilizando uma tesoura, estender a incisão cranialmente ou caudalmente (ou ambos) até próximo da incisão de pele. Romper ou retirar o ligamento falciforme, realizando hemostasia. Para as incisões caudais em cães machos, deve-se pinçar e prender o prepúcio lateralmente, podendo utilizar uma toalha ou compressa. A incisão de pele torna-se paramediana (paralela à linha média) na região do prepúcio (lado oposto às estruturas presas). Após a pele incisada, os músculos prepuciais e vasos sanguíneos ficam divididos para que o pênis e prepúcio possam ser refletidos lateralmente e a linha alba acessada ao longo da linha média. As grandes ramificações dos vasos que fornecem o suprimento sanguíneo do prepúcio devem ser ligados (FIGURA 3). Figura 3 - Celiotomia ventral mediana. A – em gatos e cadelas; B – em cães machos. Fonte: FOSSUM, 2008. 1.3.2 Celiotomia paracostal O paciente deve ser posicionado em decúbito lateral, com uma toalha enrolada ou outro tipo de apoio abaixo da região lombar, entre o animal e a mesa. Fazer uma incisão na pele, estendendo-se da coluna vertebral ventral até próximo à linha média ventral, centralizando entre a asa do íleo e a última costela. Estender a incisão através do músculo oblíquo externo com tesoura. Separar as fibras dos músculos obliquo interno e transverso, expondo a fáscia peritoneal e transversa, que deve ser elevada e seccionada com tesoura (FIGURA 4). Figura 4 - Celiotomia paracostal. A – incisão feita caudal à última costela; B – retração e separação do músculo oblíquo abdominal externo; C – divisão dos músculos abdominais oblíquo interno e transverso, e incisão do peritônio; D-1 e D-2 – fechamento por justaposição das camadas musculares. Fonte: BELLENGER, 2007. 1.3.3 Fechamento De uma maneira geral, a incisão da linha média é fechada em três camadas: reto do abdômen e suas bainhas, tecido subcutâneo e pele. Em cada lado da incisão, as fáscias devem ser incorporadas em cada sutura, incorporando perfurações da espessura total da parede abdominal, sem englobar o ligamento falciforme. Deve-se ter cuidado ao apertar as suturas, fazendo-as na intensidade suficiente para unir as bordas, mas não o bastante para estrangular o tecido, comprometendo uma boa cicatrização da ferida. Em uma incisão paramediana, fechar a bainha externa do músculo reto do abdômen sem incluir o músculo e o peritônio nas suturas. Para a celiotomia paracostal, fechar individualmente as camadas de músculos, tentando eliminar os espaços mortos entre as camadas musculares. Fechar o tecido subcutâneo com um padrão contínuo simples, reunindo as fibras musculares. As suturas de pele devem serO ureter, artéria e veia renais penetram na borda medial do rim através do hilo, que leva a um recesso central, o seio renal, que está revestido por uma continuação da cápsula renal, contendo muita gordura. Vasos linfáticos e nervos renais estão intimamente relacionados à veia e artéria renais. Considerando que a aorta e a veia cava se situam paralelamente, estando a aorta localizada à esquerda da cava, o rim esquerdo tem uma veia renal relativamente longa, e o rim direito tem uma artéria renal relativamente longa. A artéria renal normalmente se bifurca em ramos dorsal e ventral, porém é comum que haja variações. Os ureteres, de modo análogo aos rins, são estruturas retroperitoneais. Eles se estendem na direção caudo-medial ao longo dos músculos sublombares, começando na pelve renal. Ao se aproximarem do estreito pélvico, os ureteres deixam a posição sublombar e ganham acesso à superfície dorsal da bexiga, obliquamente, por meio de dois orifícios semelhantes à fendas, entre as duas camadas de peritônio que formam os ligamentos laterais da bexiga. O suprimento sanguíneo para o ureter provém da artéria ureteral cranial (vinda da artéria renal) e da artéria ureteral caudal (vinda da artéria prostática ou vaginal). 3.1.3 Princípios gerais As enfermidades renais, ureterais ou uretrais podem causar insuficiência renal aguda ou crônica, ou podem estar associadas com essas insuficiências de outras causas. Os pacientes renais podem ter alterações metabólicas significativas além da azotemia, que consiste no aumento das concentrações de compostos nitrogenados no plasma, sendo identificado clinicamente como o aumento na concentração plasmática de creatinina e/ou ureia. Para a cirurgia renal, é realizada uma incisão na linha média abdominal a partir do apêndice xifoide em direção caudal até a cicatriz umbilical. Caso haja necessidade de incisão no ureter distal ou na bexiga, a incisão deverá ser estendida até o púbis. O rim direito é exposto por elevação do duodeno e deslocamento de outras alças intestinais no sentido lateral esquerdo do animal. De modo semelhante, o rim esquerdo é exposto pela elevação do mesocólon para que o intestino delgado seja retraído para o lado direito do animal. Os rins podem ser isolados do restante do conteúdo abdominal através da utilização de esponjas de laparotomia ou compressas estéreis umedecidas. Todo o conteúdo abdominal deve ser inspecionado antes da exploração do trato urinário. Contusões moderadas ou fraturas do parênquima renal cicatrizam primariamente pela síntese de tecido conjuntivo fibroso, mas a contração cicatricial desses ferimentos é mínima. Entretanto, a pelve renal e os ductos coletores sofrem certo grau de atrofia e formação de tecido cicatricial, resultando em estenoses. O uroepitélio possui enorme potencial proliferativo e pode fechar uma área lesada em até 48h, mas técnicas não- apropriadas podem resultar em estenoses. As principais complicações da cirurgia renal são insuficiência renal, hemorragia e extravasamento de urina. Nas cirurgias ureterais, as principais complicações podem ser o extravasamento urinário e as obstruções devido à estenose ou ao estreitamento do lúmen. 3.1.4 Afecções cirúrgicas 3.1.4.1 Ureter ectópico O ureter, normalmente, penetra na superfície dorsolateral caudal da bexiga e se esvazia dentro do trígono após um curso intramural (FIGURA 17). Ureter ectópico é uma anomalia congênita na qual um ou ambos os ureteres se abrem externamente à bexiga, em pontos distais ao trígono. Os ureteres ectópicos extramurais (extraluminais) contornam a bexiga sem fazer conexão anatômica, abrindo-se diretamente no colo da bexiga, na uretra, na vagina ou no útero; ocorrem com pouca frequência em animais de pequeno porte. Os intramurais (intraluminais) cursam por via submucosa pela bexiga para se abrirem no colo da bexiga, na uretra ou vagina (FIGURA 18). Estas ectopias podem estar comumente associadas com outras anomalias do sistema urinário, como ausência de rins, rins pequenos ou de forma irregular, displasia renal, hidronefrose, dilatação uretral, bexiga pélvica, restos uracais e forma anormal da junção cistoureteral. Figura 17 - Ureteres normais. Fonte: FOSSUM, 2008. Figura 18 - Diferentes tipos de ectopia ureteral. A – intramural; B – extramural; C – abertura ureteral dupla; D – canal ureteral longo estreito e superficial. Fonte: FOSSUM, 2008. Ureteres ectópicos são a causa congênita mais comum de incontinência urinária nos cães. Eles resultam de desenvolvimento anormal dos ductos metanéfricos no útero. Aproximadamente 70 a 80% dos cães acometidos apresentam ectopia unilateral intramural ou extramural, sendo a lesão intramural mais comum. Embora a ectopia ureteral seja menos comum em gatos, a lesão bilateral pode ocorrer mais frequentemente em gatos do que em cães. A correção cirúrgica de ectopia ureteral é recomendada, mas a presença de outras anormalidades já citadas aumenta a probabilidade de incontinência pós-operatória. Incontinência urinária intermitente ou contínua desde o nascimento ou desmame é o sinal clínico mais frequente. No entanto, também podem ser observados padrões de eliminação urinária normais, em particular se a condição for unilateral, se a abertura dos ureteres for próxima ao trígono e ocorrer o preenchimento retrógrado da bexiga, ou a bexiga ser de tamanho suficiente para atuar como um reservatório. Nestes casos, o diagnóstico pode ocorrer em animais mais velhos que não apresentam evidência de incontinência urinária. O grau de incontinência é variável e não pode ser utilizado para determinar a localização dos orifícios ureterais. Ao exame físico, podem ser observados presença de pelos molhados ou manchados pela urina na região perivulvar ou periprepucial, odor e irritação ou assadura urinária da pele ao redor da vulva. O tamanho e a forma dos rins, bexiga e próstata devem ser avaliados com inspeção abdominal radiográfica. A urografia excretora é o método mais comumente utilizado para a confirmação de ureteres ectópicos e definição de anormalidades urogenitais associadas, porém não é tão sensível quanto a cistoscopia e não diferencia perfeitamente todas as lesões intra e extramurais. A ultrassonografia também é um método diagnóstico bastante útil, podendo permitir uma determinação mais precisa da anatomia ureteral normal do que a urografia excretora. A correção cirúrgica é o tratamento de escolha, mesmo que ocorra melhora marginal com o tratamento clínico. A cirurgia deve ser realizada o quanto antes para evitar anormalidades secundárias causadas por infecções ascendentes do trato urinário ou obstruções do fluxo. A neoureterostomia é realizada no caso de ureteres ectópicos intramurais. Se for uma anomalia extramural, o ureter deve ser ressecado e reimplantado dentro do lúmen da bexiga, realizando uma ureteroneocistotomia. Neste caso, em felinos, as técnicas de ureteroneocistotomia padrão frequentemente causam obstrução ureteral, sendo indicada a realização de uma técnica extravesical com um padrão de sutura interrompido simples. Rins não-funcionais e seus ureteres devem ser removidos, sendo que a porção terminal do ureter deve ser ligada o mais próximo possível de sua terminação. No pós-operatório, devem ser observados sinais de obstrução urinária ou vazamento. A tumefação do estoma ureteral é provavelmente comum após a cirurgia e pode causar alguma obstrução do fluxo ureteral, mas normalmente permanece não detectada e desaparece sem tratamento. Cerca de 30 a 35% dos pacientes continuam a apresentar algum grau de incontinência pós-operatória, devido à associação de anormalidades funcionais da bexiga ou uretra. Técnica cirúrgica Neoureterostomia – Manusear o tecido vesical com bastante cuidado e usar suturas de apoio sempre que possível. Fazer uma incisão ventral dentro da bexigapróximo da uretra. Colocar suturas estabilizadoras para facilitar a retração da borda da parede da bexiga. Inspecionar o trígono para aberturas ureterais. Identificar inchaço da submucosa ou aresta dentro da parede da bexiga, sendo que este procedimento pode ser facilitado ocluindo-se digitalmente a uretra para causar sua dilatação. Fazer uma incisão longitudinal de 3 a 5 mm através da mucosa da bexiga para dentro do lúmen ureteral. Usando um material de sutura absorvível 5-0 a 7-0, suturar a mucosa ureteral à bexiga com um padrão interrompido simples. Colocar um cateter dentro do ureter distal. Imediatamente distal ao novo estoma, passar uma ou duas suturas não-absorvíveis a partir da superfície serosa, circularmente ao redor do tubo, fixando-as abaixo da mucosa. Certificar-se de que a sutura não tenha penetrado no lúmen da bexiga. Usar esta sutura para ligar o ureter distal após remover o cateter (FIGURA 19). Fechar a uretra proximal com sutura simples interrompida ou simples contínua, mas certificar-se de que o diâmetro uretral não esteja comprometido. Fechar a bexiga de tal maneira que garanta um fechamento impermeável. Figura 19 – Neoureterostomia: indicada para ureteres ectópicos intramurais. Fonte: FOSSUM, 2008. Ureteroneocistotomia – Realizar uma cistotomia ventral como foi descrito previamente para neoureterostomia. Ligar o ureter e seccioná-lo, preservando a maior parte possível. Colocar uma sutura de sustentação na extremidade proximal do ureter seccionado. Fazer uma incisão na mucosa da bexiga e criar um túnel oblíquo e curto submucoso na parede da bexiga. Usar a sutura de sustentação para puxar o ureter para dentro do lúmen da bexiga para evitar lesão do mesmo. Fazer uma incisão longitudinal de 1 a 2 mm no final do ureter, espatulando-o, e suturá-lo na mucosa da bexiga com sutura absorvível (FIGURA 20). Figura 20 – Ureteroneocistostomia: indicada para ureteres ectópicos extraluminais. Fonte: FOSSUM, 2008. Para realizar uma técnica padrão de sutura interrompida simples extravesical, fazer uma incisão parcial espessa através da camada muscular e submucosa da face ventral do ápice da bexiga para expor a mucosa. Fazer a incisão espatulada na extremidade distal do ureter e uma incisão igual à espatulação em comprimento através da mucosa da bexiga na face caudal da incisão muscular. Colocar uma sutura interrompida simples (náilon 7-0 ou 8-0) entre o ureter proximal no final da espatulação e a face cranial da incisão da mucosa da bexiga, e uma segunda sutura interrompida entre o final distal do ureter e a face caudal da incisão da mucosa da bexiga. Colocar um cateter após as duas primeiras suturas serem laçadas, e removê-lo antes do enlaçamento das suturas finais da camada mucosa. Colocar duas suturas interrompidas adicionais entre a mucosa ureteral e a mucosa da bexiga sobre um lado da incisão. 3.1.4.2 Cálculos renais e ureterais Em cães e gatos, os urólitos em rins e ureteres ocorrem com menos frequência que cálculos císticos, correspondendo a apenas 5 a 10%, e podem ser uni ou bilaterais. Os urólitos são denominados de acordo com seu conteúdo mineral e sua localização. Os nefrólitos constituem um desafio diagnóstico e terapêutico único, pois podem ser clinicamente silenciosos ou os animais podem apresentar dor, febre e/ou insuficiência renal atribuída à obstrução da eliminação urinária, fibrose ou infecção. Os ureterólitos podem não apresentar sinais clínicos específicos. Existe uma controvérsia quanto à remoção cirúrgica desses cálculos. Se houver infecção associada, os cálculos devem ser removidos, mas se forem contaminados e estiverem localizados na pelve renal, a remoção cirúrgica pode causar mais danos do que o próprio cálculo. Os ureterólitos comumente causam obstrução e requerem remoção cirúrgica imediata. O tratamento não-cirúrgico através da litotripsia pode não ser efetiva em determinados cálculos, como os de oxalato de cálcio, que não são sensíveis à dissolução. Além disso, é uma técnica menos disponível na medicina veterinária e menos eficaz, quando comparada a sua aplicação na medicina humana. Todo cálculo removido cirurgicamente deve ser submetido à análise, pois o conhecimento de sua composição mineral direciona o tratamento apropriado para evitar recidiva. Existe uma correlação entre a presença do urólito e de infecção, de maneira que, é difícil ou impossível eliminar as infecções do trato urinário se houver a presença do cálculo. Diante disso, é imprescindível a realização de cultura bacteriana da urina. Outros fatores devem ser considerados na tomada de decisão do tratamento cirúrgico, como a eficácia do tratamento conservador na dissolução dos cálculos, a função renal no rim acometido e no contralateral, a saúde geral do paciente e a presença de uropatia obstrutiva (hidronefrose, hidroureter ou insuficiência renal). Alguns fatores predispõem à formação dos cálculos, dentre eles destacam-se o pH urinário favorável, presença de infecção, alta concentração de cristaloides na urina e diminuição da concentração de inibidores de cristalização. Há predisposição racial devido a anormalidades metabólicas ou processos patológicos subjacentes, além de apresentar maior taxa de acometimento em animais e meia-idade e mais velhos. Os sinais clínicos variam, podendo estar associados à presença de obstrução ou se há infecção concomitante, e podem ser contínuos ou intermitentes, ou os pacientes serem assintomáticos. Comumente se observa a ocorrência de estrangúria, hematúria e/ou polaciúria. Em gatos, os sinais são mais inespecíficos, como anorexia ou inapetência, vômito, perda de peso, poliúria e polidipsia. O diagnóstico deve ser realizado preferencialmente através de radiografias, pois a maioria dos cálculos é radiopaco e aparece como opacidade aumentada na pelve renal ou ureteral. A ultrassonografia é o exame de eleição para avaliação das anormalidades associadas (hidronefrose ou hidroureter), obtendo melhores resultados do que a urografia excretora. No entanto, a presença dos cálculos renais e ureterais pode ser um achado incidental destes exames de imagem. Os cálculos renais podem ser removidos através de uma nefrotomia ou de uma pielolitotomia. Se a pelve renal e o ureter proximal estiverem suficientemente dilatados, é preferível uma pielolitotomia, pois isso evita uma incisão do parênquima renal e lesão subsequente. Entretanto, se o cálculo for grande e envolver o divertículo e a pelve, a nefrotomia é a melhor opção. É de extrema importância a avaliação da função renal de cada rim, pois o que parece estar macroscopicamente em estágio final, pode ser o rim com a maior parte da função remanescente. A ureterotomia deve ser realizada através de uma combinação de técnicas microcirúrgicas e cuidados pós-operatórios intensivos para minimizar a morbidade. É preferível, caso seja possível, tentar uma irrigação retrógrada dos cálculos ureterais para a pelve renal, com o intuito de removê-lo através de pielolitotomia ou nefrotomia, pois esse procedimento evita complicações associadas com a cirurgia ureteral primária, como extravasamento urinário ou obstrução causada por estenose ou estreitamento. Técnica cirúrgica Nefrotomia – Deve-se localizar os vasos renais e ocluí-los temporariamente com pinça vascular, um torniquete ou com um dedo do assistente. Mover o rim para expor a superfície lateral convexa. Fazer uma incisão em cunha ao longo da linha média da borda convexa da cápsula do rim e então dissecar claramente através do parênquima renal, ligando os vasos quando necessário. Examinar a pelve renal, removendo os cálculos e lavar o rim com solução salina morna. Avaliar o ureter para desobstruí-lo por meio da colocação de sonda uretral flexível pela extremidade do ureter e também lavá-lo com líquidos mornos. Fechar a nefrotomia por aproximação dos tecidosincisados e aplicando pressão digital por aproximadamente 5 minutos, enquanto se restabelece o fluxo sanguíneo através dos vasos renais. Como uma alternativa, fechar a cápsula com um padrão contínuo de material de sutura absorvível. Se a hemostasia adequada não for conseguida ou se o vazamento da urina se constituir em motivo de preocupação, colocar suturas absorvíveis através do córtex em padrão de colchoeiro horizontal. Então suturar a cápsula em padrão contínuo com material absorvível (FIGURA 21). Recolocar o rim em seu local de origem, podendo ser feitas suturas no peritônio para auxiliar na sua estabilização. Figura 21 - Nefrotomia para remoção de cálculos localizados na pelve renal. Fonte: FOSSUM, 2008. Pielolitotomia – Dissecar o rim para separá-lo de suas ligações sublombares e expor a superfície dorsal. Identificar o ureter e os vasos renais. Fazer uma incisão sobre a pelve dilatada e ureter proximal, e remover o cálculo. Lavar a pelve renal e o divertículo com solução salina morna para remover pequenos fragmentos. Em seguida, lavar o ureter para garantir sua desobstrução. Fechar a incisão em um padrão contínuo com sutura absorvível 5-0 ou 6-0 (FIGURA 22). Figura 22 - Pielolitotomia para remoção de cálculo quando o ureter proximal está dilatado. Fonte: FOSSUM, 2008. Ureterotomia – Fazer uma incisão transversa ou longitudinal no ureter dilatado próximo ao cálculo e removê-lo. Colocar um cateter pequeno, de borracha macia, dentro do ureter proximal e distal à incisão e lavar o ureter com jato de líquido morno. Assegurar- se de que o cálculo tenha sido removido e que o ureter tenha sido desobstruído. Fechar a incisão com sutura absorvível 5-0 a 7-0, com pontos interrompidos simples. Como uma alternativa, se o ureter não estiver dilatado e se for provável a formação de constrição, fazer uma incisão longitudinal sobre o cálculo e fechar a incisão de modo transverso (FIGURA 23). Se o ureter for lesado, fazer ressecção e anastomose ou desvio urinário proximal com um tubo de nefropielostomia. Figura 23 - Ureterotomia, realizada ocasionalmente para remoção de cálculos obstrutivos. Fonte: FOSSUM, 2008. 3.1.4.3 Neoplasia renal e ureteral Os tumores renais em cães e gatos são incomuns, sendo que cerca de 85% dessas neoplasias são malignas e comumente há metástase torácica. Em cães, os carcinomas são os tumores mais comuns, também conhecidos como carcinoma tubular renal e adenocarcinoma tubular renal; já em gatos, o linfoma primário ou metastático a neoplasia mais frequentemente encontrada. As neoplasias renais têm quatro origens distintas (tipos), sendo elas tubular renal, células de transição, nefroblásticos e não-epiteliais. As metástases podem acontecer em fígado, glândulas supra-renais, pulmões, linfonodos, ossos e cérebro. A metástase pulmonar é detectada radiograficamente em metade dos cães com neoplasias renais; e as metástases renais de outros tumores abdominais primários são comuns. Os sinais clínicos podem ser locais ou sistêmicos de insuficiência renal, e são por vezes inespecíficos, podendo incluir perda de peso, anorexia depressão, anemia, dispneia e febre. Ao exame físico, uma massa abdominal pode ser palpável, e os rins podem estar aumentados, duros ou nodulados. A radiografia abdominal pode identificar o aumento renal, mas a ultrassonografia é mais sensível e específica. A urografia excretora pode auxiliar na localização da neoplasia e definir se há envolvimento do parênquima. A nefrectomia está indicada para os tumores renais malignos, caso eles sejam unilaterais e sem evidências de metástase. No entanto, as metástases frequentemente estão presentes no momento do diagnóstico. Todo o abdômen deve ser explorado antes no início da remoção do rim, e o ureter adjacente deve ser identificado para que não seja ligado inadvertidamente. O ureter inteiro deve ser removido com o rim acometido correspondente. As principais complicações incluem hemorragia e extravasamento de urina. Quanto ao prognóstico, por se tratarem de neoplasias malignas altamente metastáticas, o mesmo é reservado. Se a nefrectomia for realizada antes da formação de metástase ou se for uma neoplasia benigna, o prognóstico é bom, podendo a cirurgia ter caráter curativo. A quimioterapia adjuvante pode prolongar a sobrevida do paciente. Técnica cirúrgica Nefrectomia – Deve-se envolver o peritônio sobre o rim e incisioná-lo. Usando uma combinação de dissecção romba e constante, liberar o rim de suas fixações sublombares. Elevar o rim e retraí-lo medialmente para colocar a artéria e veia renais na superfície dorsal do hilo renal. Identificar todos os ramos da artéria renal e fazer uma dupla ligadura com sutura absorvível ou não-absorvível próximo à aorta abdominal para se certificar de que todos os ramos tenham sido ligados. Identificar a veia renal e realizar sua ligadura de modo semelhante. Ligar o ureter próximo à bexiga (FIGURA 24). Remover o rim e o ureter, e após obtenção de amostras apropriadas para cultura, submetê- las ao exame histopatológico. Figura 24 - Nefrectomia, com a localização da artéria e veia renais e ureter na superfície dorsal do hilo renal. Fonte: FOSSUM, 2008. 3.2 BEXIGA A bexiga é um órgão muscular oco que recebe urina dos rins e funciona como reservatório até a expulsão da urina através da uretra. As anormalidades mais comuns em pequenos animais são a cistolitíase, neoplasia e ruptura. A obstrução urinária pode ser decorrente do alojamento de cálculo na uretra ou se um tumor obstruir a uretra proximal ou o trígono. 3.2.1 Definições A urolitíase é um termo que se refere ao fato de haver cálculos urinários ou urólitos, seja em rins, ureter, bexiga ou uretra. Cistolitíase é o desenvolvimento de cálculo na bexiga. Cistotomia é a incisão cirúrgica na vesícula urinária com seu posterior fechamento. Cistectomia é a remoção de uma porção da bexiga. O trígono da bexiga é uma porção triangular lisa da membrana mucosa na base da bexiga, localizada próximo à uretra, onde os ureteres se esvaziam. Uroabdômen é a presença de urina na cavidade abdominal, podendo ter vazado dos rins, ureteres, bexiga ou uretra. 3.2.2 Anatomia A localização e as dimensões da bexiga variam de acordo com a quantidade de urina presente. Em cães, ela se localiza parcialmente no interior do canal pélvico quando vazia, mas se movimenta cranialmente e ventralmente para o abdômen caudal quando se distende; em gatos, ela habitualmente se localiza no interior do abdômen caudal, entre o umbigo e o púbis. Em um cão de 12 kg, a bexiga pode conter até 120 ml de urina, sem se tornar amplamente distendida. A bexiga fica frouxamente apoiada por reflexões peritoneais que formam ligamentos laterais bilaterais e um ligamento ventral médio solitário. Sua função de armazenamento e como força por trás da expulsão da urina fica facilitada pelo grande número de fibras musculares lisas interdigitantes da parede vesical, conhecidas coletivamente como músculo detrusor. A bexiga se divide em três regiões, sendo eles o ápice (parte cranial), o corpo (parte média) e o colo (parte caudal), que a conecta à uretra. Internamente, o trígono se localiza sobre a superfície dorsal do colo da bexiga, sendo a base dessa área formada pelos dois orifícios ureterais. A mucosa da bexiga se compõe de epitélio de transição que, normalmente, se esfolia para a urina. Em casos de inflamação crônica ou infecção do trato urinário, ocorre uma hiperplasia e hipertrofia da mucosa, resultando em espessamento da parede da bexiga. A irrigação sanguínea se dá através das artérias vesicais cranial e caudal, que são ramos das artérias umbilical e urogenital, respectivamente. O sangue venoso drena para as veias pudendas internas, e os linfáticos drenampara os linfonodos hipogástricos, sublombares e ilíacos mediais. A inervação da bexiga é complexa, possuindo aferência autônoma e somática, de modo que a inervação simpática provém dos nervos hipogástricos, enquanto a parassimpática se dá via nervo pélvico. A inervação somática origina-se em fibras da medula espinhal sacral que formam o nervo pudendo, o qual atua no esfíncter externo da bexiga e a musculatura estriada da uretra. 3.2.3 Princípios gerais A vesícula urinária é um órgão que se recupera rapidamente, readquirindo 100% do vigor tecidual normal em cerca de 14 a 21 dias após o procedimento cirúrgico, e a completa reepitelização ocorre em 30 dias. A bexiga possui capacidade de aumento após cistectomia parcial, de maneira que, mesmo que 75% de seu tecido seja removido, a recuperação do seu tamanho original e os volumes normais de eliminação de urina ocorrem dentro de poucos meses. Desde que o trígono e a uretra proximal estejam preservados, a expansão da bexiga se dá como resultado da combinação de regeneração epitelial, síntese e remodelagem do tecido cicatricial, hipertrofia e proliferação da musculatura lisa e alongamento do remanescente vesical. A oclusão de incisões ou lacerações vesicais pode ser realizada com padrões invertidos em dupla ou única camada, sendo indicado em casos onde a parede vesical é fina; ou padrões aposicionais, sendo preferíveis quando a bexiga é pequena ou há espessamento da parede vesical. Contudo, independente do padrão a ser realizado, a mucosa não deve ser penetrada, pois o contato da urina com o material de sutura pode provocar enfraquecimento prematuro, e também pode funcionar como um ninho para a formação de cálculos; complicação esta que também pode ser evitada com a utilização de suturas absorvíveis. A omentalização é indicada quando a integridade da parede vesical e a vascularização são questionáveis, e para prevenir a formação de aderências. 3.2.4 Afecções cirúrgicas 3.2.4.1 Cálculos vesicais A urolitíase é comum em cães e gatos, sendo que muitas vezes envolve um ou mais locais no trato urinário, mas a bexiga é o local mais comum para a ocorrência e remoção de cálculos. Estes se formam mais comumente em animais de meia idade a idosos, mas também podem ser encontrados em cães com menos de um ano de idade, onde geralmente são cálculos de estruvita decorrente de infecções do trato urinário. Em gatos, cerca de 21% dos casos de urolitíase havia presença de sinais clínicos de doença do trato urinário inferior. Os cálculos de estruvita (fosfato de amônio e magnésio) e de oxalato de cálcio são os mais comuns em cães, seguidos pelos de urato, silicato, cistina e tipos mistos. Os cálculos de estruvita frequentemente estão associados à presença concomitante de infecção do trato urinário, então faz-se necessário a realização de cultura da urina, da parede vesical e dos cálculos. Parece ter havido uma diminuição gradativa da incidência dos cálculos de estruvita, enquanto que os que contêm oxalato de cálcio tem aumentado, tanto em cães como em gatos. A dissolução de alguns tipos de cálculos pode ser realizada, no entanto, a remoção cirúrgica inicialmente é indicada, com o intuito de realizar o diagnóstico do tipo de cálculo, ou em casos onde a concreção esteja causando ou possa vir a causar obstrução urinária. Após a análise do urólito e determinação do seu tipo, uma conduta clínica adequada, envolvendo antibioticoterapia e terapia nutricional, são medidas críticas para minimizar a possibilidade de recidivas. Os sinais clínicos presentes podem estar associados às infecções do trato urinário, como hematúria, polaciúria e estrangúria; além de distensão vesical, dor abdominal, incontinência urinária e sinais de azotemia. Alguns cálculos podem se alojar na uretra e causar obstrução parcial ou completa, podendo levar ao aparecimento de vômitos, anorexia e depressão. Ao exame físico, pode-se notar espessamento da parede da bexiga e os cálculos podem ser palpáveis. O diagnóstico pode ser realizado através de radiografia e ultrassonografia abdominal, onde pode-se avaliar e definir o número e a localização dos cálculos, sejam vesicais, uretrais, renais e/ou ureterais, como também avaliar as anormalidades simultâneas. A cistografia de duplo contraste e/ou uretrografia retrógrada podem ser o método mais sensível para o diagnóstico dos cálculos. Em casos de obstrução uretral, a descompressão da bexiga deve ser realizada ou atenuada, através da realização de urohidropropulsão. Essa técnica permite que os cálculos uretrais sejam propelidos de volta à bexiga ou que os pequenos cistólitos sejam removidos, tanto em machos como em fêmeas, evitando também a realização de uretrostomia associada à cistotomia. A técnica consiste na colocação de um cateter na uretra, distalmente ao cálculo, com uma injeção de solução salina estéril enquanto a uretra é ocluída entre o cálculo e a bexiga por um dedo no reto (ou vagina, nas fêmeas). Uma vez estando a uretra dilatada, o dedo deve ser removido, permitindo que o cálculo seja deslocado para a bexiga (FIGURA 25). Caso a obstrução não possa ser desfeita, a uretrostomia é indicada. Figura 25 - Urohidropropulsão, utilizada para propelir cálculos uretrais de volta para a bexiga. Fonte: FOSSUM, 2008. As complicações associadas à cistotomia não são comuns, mas consistem principalmente no extravasamento de urina. Diante disso, no pós-operatório, a emissão de urina deve ser monitorada, avaliando-se também a ocorrência de obstruções. A taxa de recidiva pode variar entre 12 a 25% e está diretamente relacionada ao tipo do cálculo e falha do tratamento clínico associado. Técnica cirúrgica Cistotomia – Deve-se isolar a bexiga do restante da cavidade abdominal pela colocação de tampões umedecidos por baixo dela. Colocar suturas de sustentação no ápice da bexiga para facilitar a manipulação, e fazer a incisão na face dorsal ou ventral, ao longo dos ureteres e entre os maiores vasos sanguíneos. Caso haja presença de divertículo no ápice da bexiga, removê-lo, se necessário. O ideal é a remoção de uma pequena secção da parede da bexiga, adjacente à incisão, para realização de cultura. Remover os cálculos e examinar cuidadosamente a uretra em busca de cálculos adicionais. Em cães machos, colocar um cateter a partir do orifício uretral peniano e ocluir a abertura vesico-uretral com um dedo por dentro do lúmen vesical. Com uma oclusão digital da uretra peniana, injetar solução salina estéril em jato para dilatar a uretra, e em seguida, remover o dedo da abertura vesico-uretral. Este procedimento deve ser repetido até a constatação de que não haja mais cálculos no lúmen uretral. A síntese da bexiga deve ser feita com um padrão contínuo com material absorvível. Para fechamento em camada dupla, suturar as camadas seromusculares com duas linhas de sutura contínuas invertidas, podendo ser Cushing seguido de Lembert. Se o animal apresentar tendência à hemorragia grave, pode-se, opcionalmente, suturar a mucosa com uma camada separada com padrão de sutura contínua simples (FIGURA 26). Figura 26 - Cistotomia. Fonte: FOSSUM, 2008. 3.2.4.2 Neoplasias O câncer de bexiga é o tipo mais comum de neoplasia que acomete o trato urinário em cães, mas representa menos de 1% de todas as neoplasias caninas. Em gatos, o linfossarcoma renal é mais comum que a neoplasia vesical. O carcinoma de células transicionais é um tumor maligno surgido de um tipo de célula transicional do epitélio estratificado, e é o tumor mais comumente diagnosticado em cães e gatos. Outros tumores malignos incluem carcinomas de células escamosas, adenocarcinoma, fibrossarcoma, leiomiossarcoma, neurofibrossarcoma, rabdomiossarcoma e hemangiossarcoma. Os tumores vesicais benignos são menos comuns, e destacam-se os fibromas, leiomioma, hemangiomas, rabdomiomas,mixomas e neurofibromas. Os pólipos císticos inflamatórios são encontrados ocasionalmente. As metástases de outras neoplasias para a bexiga são incomuns, porém os cães com tumores vesicais frequentemente apresentam tumores concomitantes em outro local. Os sinais clínicos geralmente envolvem hematúria, polaciúria, estrangúria, disúria, incontinência, poliúria e polidipsia. Ao exame físico, pode-se observar presença de massa abdominal caudal, prostatomegalia, distensão vesical, dor abdominal, fraqueza, linfoadenopatia, tosse ou dispneia, e claudicação. Essas alterações ao exame físico são normais em cerca de um terço dos animais com neoplasias vesicais. Os exames radiográficos, tanto torácicos como abdominais, podem avaliar quanto à presença de metástases, avaliando linfonodos, pulmões e vértebras. A cistografia de contraste duplo ou uretrografia de contraste positivo e ultrassonografia abdominal são as ferramentas mais comumente usadas para diagnóstico de neoplasia vesical, além de permitir o estadiamento da doença. Na maioria dos casos, a confirmação do diagnóstico de tumor da bexiga comumente depende do exame histopatológico. No entanto, até 30% dos cães podem ter a presença de células neoplásicas identificadas no sedimento urinário. O tratamento cirúrgico para neoplasia de bexiga é problemático. Em cães, o local mais comum para ocorrência de neoplasia de bexiga é o trígono; e em gatos, esse tumor pode ocorrer mais comumente no ápice da bexiga ou difusamente pelo órgão. Embora os ureteres possam ser seccionados e implantados em outro local, se for no ápice da bexiga após cistectomia parcial, pode ocorrer incontinência urinária; e caso seja em um local distante, como o cólon, após cistectomia completa, pode causar pielonefrite e/ou incontinência. Em casos de tumores benignos, a excisão cirúrgica pode ser curativa. Por causa da natureza maligna de muitos tumores do trato urinário inferior, o prognóstico é reservado. A quimioterapia utilizada como tratamento primário em animais com carcinoma de células transicionais que não são passíveis de ressecção, ou como terapia adjuvante após a excisão cirúrgica, pode promover maior sobrevida aos pacientes. Técnica cirúrgica Examinar os linfonodos sublombares, ureteres e outros órgãos abdominais para evidenciar extensões tumorais ou metástases. Para neoplasia vesical, localizar a entrada dos ureteres no trígono e retirar o tumor, com uma margem cirúrgica de pelo menos 1 cm, inclusive removendo tecido normal. Evitar lesão em ureteres. Se uma grande porção da bexiga for removida, colocar um cateter urinário e suturar a bexiga com padrão de sutura contínua de aposição, mas também pode ser usada uma sutura de camada dupla de padrão invertido. Se o trígono estiver envolvido, considerar o desvio urinário ureterocolônico, a quimioterapia ou a eutanásia. 4. FÍGADO O fígado é a maior glândula do corpo, podendo representar cerca de 3,5% do peso corporal em cães. É o sítio primário do metabolismo (detoxicação) de muitas substâncias, como proteínas, carboidratos e gorduras, e produz a maioria das proteínas plasmáticas do organismo. As coagulopatias podem estar associadas à alterações hepáticas, pois podem ocorrer devido à diminuição da síntese de fatores de coagulação ou ao consumo dos mesmos. Os sinais clínicos de doença hepática podem não estar aparentes até que a doença esteja avançada e a disfunção seja irreversível. A insuficiência hepática pode se refletir em muitos outros sistemas do organismo, incluindo o sistema nervoso central (SNC), rins, intestinos e coração. 4.1 DEFINIÇÕES A hepatectomia se refere tanto à remoção de todo o fígado (hepatectomia total), como a remoção de uma porção (hepatectomia parcial). 4.2 ANATOMIA A superfície diafragmática (superfície parietal) do fígado é convexa e se localiza em contato com o diafragma. A superfície visceral volta-se caudoventralmente e à esquerda, e fica em contato com o estômago, duodeno, pâncreas e rim direito. O fígado de cães e gatos é dividido em cinco lobos, quatro sublobos, e dois processos. O lobo esquerdo é o maior e é subdividido em lobos lateral e medial esquerdo. Uma fenda substancial separa as duas porções do lobo esquerdo, fazendo com que o acesso cirúrgico para as bases dos lobos lateral esquerdo e medial esquerdo seja menos exigente, tecnicamente, em comparação com as abordagens do lado direito. A fissura profunda também separa o lobo medial esquerdo do lobo quadrado, e se estende até próximo ao esôfago. O lobo quadrado encontra-se quase na linha média, onde sua face lateral forma um lado da fossa da vesícula biliar, e está diretamente ligado ao lobo medial direito, tendo apenas uma pequena fissura separando estes dois lobos, o que torna a separação cirúrgica mais difícil. O lobo lateral direito é geralmente fundido em sua base com o lobo caudado, que é subdividida em processos caudado e papilar. O processo caudado é a parte mais caudal do fígado, que se estende geralmente ao nível do 12º espaço intercostal. O processo papilar se estende para o lado esquerdo, cruzando a linha média, e é vagamente coberto pelo omento menor. As bordas do fígado são normalmente afiladas, mas parecem mais arredondadas em animais jovens ou naqueles que com fígado infiltrado, congesto ou com cicatrizes (FIGURA 27). Figura 27 - Anatomia do fígado. Fonte: FOSSUM, 2008. O fígado possui dois suprimentos sanguíneos aferentes, um sistema porta de baixa pressão e um sistema arterial de alta pressão. A veia porta drena o estômago, intestinos, pâncreas e baço, e supre quatro quintos do sangue que entra no fígado. O restante do suprimento sanguíneo aferente provém das artérias hepáticas próprias. Essas artérias são ramos da artéria hepática comum, podendo ser de dois a cinco ramos. A drenagem eferente é feita através das veias hepáticas. A bile, formada no fígado, é descarregada nos canalículos biliares que se localizam entre os hepatócitos. Estes canalículos se unem para formar os ductos interlobulares que, finalmente, se unem para formar os ductos lobares ou biliares. O ligamento hepatoduodenal é formado pela veia porta, ductos biliares, artéria hepática, vasos linfáticos e nervos, que estão contidos na porção do omento menor em forma de laço. 4.3 PRINCÍPIOS GERAIS As cirurgias do fígado são consideradas como tecnicamente desafiadora na cirurgia de pequenos animais, pois os pacientes muitas vezes são fisiologicamente comprometidos, é um órgão altamente vascularizado, o acesso cirúrgico é dificultado devido à baixa mobilidade do órgão, e parênquima hepático é frequentemente friável, gerando dificuldades no momento das suturas. No entanto, alguns cuidados podem reduzir os riscos associados, como uma avaliação cuidadosa do paciente, o manejo pré- operatório, o conhecimento da complexa anatomia e fisiologia, e a flexibilidade para mudar os planos no intra-operatório. Um grande volume de sangue passa em baixa pressão pelo fígado, de maneira que, para resistir ao colapso sobre os vasos que percorrem o interior do órgão, ele possui uma consistência mais firme, o que, por sua vez, o torna friável. A presença das fissuras permite que o fígado se adapte à forma mutável do diafragma ou ao arqueamento costal, evitando que sofra uma fratura caso se encurve demasiadamente. O fígado está envolvido em muitos processos metabólicos, como metabolismo de proteínas, lipídeos e carboidratos; síntese e secreção dos sais biliares; armazenamento de vitaminas e minerais; metabolismo da bilirrubina; síntese dos fatores de coagulação; metabolismo de hormônios e da água; biotransformação de agentes xenobióticos; e vigilância imune. Anormalidades em uma ou mais dessas funções dão origem aos muitos sinais clínicos da doença hepática, como anorexia, letargia, vômito, diarreia, perda de peso, poliúria, polidipsia,ascite, hemorragia gastrointestinal, icterícia e encefalopatia. O fígado tem a capacidade singular de regular seu crescimento e sua massa, sendo único entre os órgãos viscerais em suas propriedades cicatriciais. A destruição de hepatócitos causada por lesão viral, bacteriana ou química, ou por hepatectomia parcial, dispara mecanismos de replicação dos hepatócitos, enquanto o aumento da massa do fígado é corrigido por apoptose. Ele possui relativamente pouco estroma de tecido conectivo, é altamente suscetível a pequenas mudanças no fluxo sanguíneo e tem uma enorme capacidade regenerativa. A capacidade funcional é um parâmetro relativo, mais do que absoluto. O ponto-limite para regulação do crescimento é a relação entre massa do fígado e massa corporal. A otimização dessa relação indica que o fígado atinge um estado em que esse órgão realiza o grau de trabalho metabólico necessário para atender às necessidades do corpo. Acredita-se que uma adequada função é possível em pacientes mesmo após a remoção ou destruição de 80% do órgão. Lacerações hepáticas devem ser fechadas apenas quando o sangramento é profuso. Se as lacerações forem suturadas, isso deve ser realizado de uma forma que não criem um bolso interno de bile ou sangue, ou causem isquemia nas células adjacentes. A artéria hepática própria pode ser ligada como uma medida de emergência para controlar a hemorragia nas lacerações hepáticas extensas. Caso essa ligadura não resulte em hemostasia, as fraturas complexas ou contusões graves devem ser tratadas por lobectomia hepática. A complicação mais comum e séria da cirurgia hepática é a hemorragia, que pode ser decorrente de ligaduras que deslizam do tecido hepático friável. É preciso ter certeza de que um coto de tecido permanece distal á ligadura quando suturas circundantes são utilizadas para biópsia ou hepatectomia parcial. A peritonite biliar pode ocorrer se a vesícula biliar ou os ductos biliares forem lesionados inadvertidamente. Uma ressecção hepática grande pode ter como complicações hipertensão portal, ascite, febre, hemorragia ou drenagem biliar persistente. 4.4 AFECÇÕES CIRÚRGICAS 4.4.1 Torção de lobo hepático A torção do lobo hepático ocorre quando um lobo hepático se torce em relação ao seu próprio eixo, ocorrendo estrangulamento vascular, causando aumento da pressão hidrostática, ascite e trombose, além de uma subsequente necrose hepática. É uma alteração rara em cães e gatos. A etiologia ainda não foi esclarecida, mas foram propostas que doenças abdominais podem causar afrouxamento dos ligamentos de sustentação de um lobo, ou uma ausência congênita ou ruptura traumática dos ligamentos hepáticos. A torção do lobo lateral esquerdo é mais comum, presumivelmente por possuir maior mobilidade, ser maior e relativamente mais separado dos lobos adjacentes. Os sinais clínicos não são específicos, podendo ocorrer o surgimento agudo de debilidade, letargia, anorexia, dor e aumento abdominal, colapso e choque, além da possibilidade de uma morte aguda. Nos exames diagnósticos, é possível observar uma massa abdominal cranial e presença de ascite na avaliação radiográfica e ultrassonográfica. O animal deve ser examinado cuidadosamente em busca de sinais de trauma. Durante o procedimento cirúrgico, há necessidade de exploração abdominal para confirmar o diagnóstico e remover o lobo hepático acometido pela técnica de lobectomia, sem uma desrotação do lobo torcido, para impedir a liberação de toxinas bacterianas. Estabilização hemodinâmica apropriada, pronta intervenção cirúrgica e antibioticoterapia são importantes para obter resultados positivos. Técnica cirúrgica – Lobectomia completa Após preparação cirúrgica se estendendo do meio do tórax ao púbis, com uma incisão abdominal cranial ventral na linha média, a exploração do fígado deve ser realizada. Para os lobos esquerdos em cães e gatos pequenos, esmagar o parênquima próximo ao hilo com os dedos ou um fórceps. Colocar uma ligadura ao redor da área esmagada e amarrar. Para os lobos esquerdos em cães maiores e para os lobos caudado e direito, dissecar cuidadosamente, se necessário, o lobo da veia cava caudal. Isolar os vasos sanguíneos e ductos biliares próximos ao hilo e fazer uma ligadura dos mesmos. Fazer uma ligadura dupla ou costurar sobre as terminações dos grandes vasos. Retirar o tecido do parênquima, deixando um coto de tecido distal às ligaduras para prevenir a retração do tecido hepático das ligaduras e a hemorragia subsequente. 5. BAÇO As doenças esplênicas que necessitam de tratamento cirúrgico geralmente apresentam esplenomegalia difusa ou focal. As alterações difusas podem ser atribuídas à congestão, infiltração por infecção, imunomediada ou neoplasias; já as focais podem ser causadas por processos benignos ou neoplásicos. O baço não é um órgão essencial para a vida, mas tem sua importância, de forma que a conservação da função esplênica deve ser preservada sempre que possível. As funções incluem condicionamento e manutenção dos eritrócitos, armazenamento dos eritrócitos e das plaquetas, hematopoiese extramedular, e filtração do plasma quanto à presença de antígenos. 5.1 DEFINIÇÕES Esplenomegalia é o aumento de volume esplênico difuso ou generalizado. Esplenectomia é a remoção cirúrgica do baço. 5.2 ANATOMIA O baço de cães e gatos está localizado no quadrante abdominal cranial esquerdo. O baço sadio apresenta formato de língua, exibindo maior comprimento que largura, e está dividido em duas porções, uma extremidade dorsal (cabeça) e uma ventral (cauda). Geralmente se localiza paralelamente à curvatura maior do estômago, porém a localização exata depende do tamanho e posição dos demais órgãos abdominais. Quando o estômago está contraído (vazio), todo o baço repousa sob o gradil costal. Entretanto, com o aumento gástrico massivo, ele pode situar-se no abdômen caudal. A cápsula esplênica é composta por fibras elásticas e musculares lisas. O parênquima consiste em uma polpa branca (tecido linfoide) e vermelha (seios venosos e tecido celular preenchendo os espaços intravasculares). Um grande número de receptores alfa-adrenérgicos é o responsável pela contração esplênica, momento em que apresenta consistência firme. A coloração normalmente é vermelha, mas a presença de placas sideróticas (depósitos de ferro e cálcio, marrons ou cor de ferrugem) ou fibrina podem mudar sua aparência. O suprimento arterial normalmente se dá através da artéria esplênica, um ramo da artéria celíaca, que geralmente tem mais de 2 mm de diâmetro e dá origem a 3 a 5 ramos primários longos, conforme se desloca no omento maior em direção ao terço ventral do baço. O primeiro ramo geralmente segue para o pâncreas e é o suprimento principal do segmento esquerdo pancreático. Os dois ramos remanescentes se deslocam em direção à metade proximal do baço, de onde partem 20 a 30 ramos esplênicos, penetrando no parênquima. Os ramos continuam então no ligamento gastroesplênico em direção à curvatura maior do estômago, onde formam as artérias gástricas curtas e a artéria gastroepiplóica esquerda. Outros ramos suprem o ligamento esplenocólico e o omento maior. A drenagem venosa se dá através da veia esplênica para o interior da veia gastroesplênica, que se esvazia na veia porta (FIGURA 28). Figura 28 - Vascularização esplênica em cães e gatos. Fonte: FOSSUM, 2008. 5.3 PRINCÍPIOS GERAIS O baço deve ser abordado através de uma ampla incisão na linha média abdominal, que se estende do xifoide até um ponto caudal ao umbigo. A exploração abdominal completa deve ser realizada sempre que houver suspeita de neoplasia. A principal complicação da cirurgia esplênica é a hemorragia, estando mais associada com a biópsia ou esplenectomia parcial, considerando-se que tenha sido utilizada técnica apropriada para ligadura dos vasos.5.4 AFECÇÕES CIRÚRGICAS 5.4.1 Torção esplênica Torção do baço é a rotação em torno do seu pedículo vascular, resultando em obstrução venosa com subsequente esplenomegalia. Tipicamente, a veia esplênica de parede delgada está ocluída, apesar de a artéria esplênica permanecer parcialmente patente. É uma condição cirúrgica relatada mais comumente em cães de raças grandes e gigantes, que possuem conformação torácica profunda. Muitas vezes, está associada à síndrome de dilatação vólvulo-gástrica, mas também ocorre como condição isolada, com causas ainda não esclarecidas. A torção pode estar relacionada a anormalidades congênitas ou rupturas traumáticas dos ligamentos gastroesplênicos ou esplenocólicos. Pode ser uma condição aguda, com os cães exibindo sinais de dor abdominal significativa e colapso, ou crônica, com sinais inespecíficos de dor abdominal intermitente, vômito, anorexia, distensão abdominal, perda de peso, poliúria, polidipsia, e as mucosas mostram-se pálidas ou ictéricas, sendo este último sinal presente tanto na aguda como na crônica. A alteração mais proeminente pode ser o aumento de volume do baço ou uma massa no abdômen médio, embora o baço pode não ser facilmente palpável em alguns casos. Em cães com colapso cardiovascular e choque, observa-se também taquicardia, tempo de preenchimento capilar prolongado e/ou pulsação periférica fraca. As modalidades de diagnóstico utilizadas nestes casos são a radiografia e a ultrassonografia. Os achados radiográficos podem confundir com neoplasias e rupturas esplênicas, podendo ser difícil de discernir o contorno esplênico. A ultrassonografia abdominal é uma excelente ferramenta diante da suspeita de torção esplênica, onde pode revelar um baço aumentado de volume, difusamente hipoecóico, com ecos lineares separando grandes áreas anecóicas; o que forma um padrão característico de torção. O tratamento de eleição é cirúrgico e emergencial, sendo a esplenectomia total a melhor indicação, para que não ocorra recidiva e nem complicações do quadro. Técnica cirúrgica Após explorar o abdômen, exteriorizar o baço e colocar esponjas abdominais úmidas ou almofadas de laparotomia ao redor da incisão sob o baço. Ligar duplamente e transseccionar todos os vasos do hilo esplênico com material de sutura absorvível (preferível) ou não-absorvível. Se possível, preservar os ramos gástricos curtos que suprem o fundo do estômago. Como uma alternativa, abrir a bursa omental e isolar a artéria esplênica. Identificar o ramo ou ramos que suprem a porção esquerda do pâncreas. Ligar duplamente e transseccionar a artéria esplênica distalmente a esse vaso (ou esses vasos) (FIGURA 29). Figura 29 - Esplenectomia total. Fonte: FOSSUM, 2008. 5.4.2 Neoplasia esplênica As neoplasias esplênicas em cães representam um distúrbio comum, embora sejam consideradas raras em seres humanos e em outras espécies domésticas. Em gatos, cerca de 37% das lesões esplênicas são neoplásicas, demonstrando uma menor probabilidade quando comparadas aos cães, que representam cerca de 50% das lesões. Por ser composto por uma variedade de tecidos, as neoplasias esplênicas podem se originar de vasos sanguíneos, tecido linfoide, músculo liso ou tecido conjuntivo que forma o estroma fibroso. A neoplasia em baço mais comum em cães é o hemangiossarcoma. No entanto, uma diversidade de outros tipos histológicos pode constituir essas neoplasias, como fibrossarcoma, hemangioma, linfossarcoma, mastocitoma, condrossarcoma, histiocitoma e outros. As lesões não-neoplásicas mais comumente relatadas são hiperplasia nodular, doença hemolítica imunomediada e hematoma. Os gatos desenvolvem tipos distintos de tumores esplênicos, como o linfossarcoma, o mastocitoma, as doenças mieloproliferativas e o hemangiossarcoma. Por se originar de vasos sanguíneos, o hemangiossarcoma também pode se formar em diversos locais diferentes do organismo, além do baço, como átrio direito, tecido subcutâneo e fígado. É um tumor agressivo, que frequentemente forma metástases em fígado, omento, mesentério e cérebro, de forma que já pode-se observar a doença metastática na apresentação inicial. Os sinais clínicos podem ser variados, de acordo com a evolução, tipo de neoplasia e presença ou não de metástase. Podem incluir aumento de volume abdominal, anorexia, letargia, depressão, vômito, fraqueza, polidipsia e arritmias cardíacas. Se ocorrer ruptura, o animal pode apresentar sinais de choque hipovolêmico, como taquicardia, mucosas pálidas e pulso periférico fraco. As metástases cutâneas se apresentam através de lesões/massas escuras roxo-avermelhadas. As radiografias abdominais podem evidenciar a presença de massas abdominais definidas. No entanto, as radiografias torácicas são imprescindíveis para a detecção de opacidade pulmonar e outras alterações; a presença de efusão pleural ou infarto de linfonodos são compatíveis com presença de doença metastática. A ultrassonografia é mais indicada e precisa na identificação de lesões em baço e na detecção de metástases abdominais, mas a diferenciação entre lesões neoplásicas e hematomas não é confiável. Um ecocardiograma do paciente pode ser um exame imprescindível para a cirurgia e prognóstico do paciente, diante da possibilidade de tumores de átrio direito concomitantes. O diagnóstico definitivo é realizado através do exame histopatológico, devendo-se submeter diversas amostras (cortes) da massa. O tratamento cirúrgico indicado é a esplenectomia total, além da estabilização do estado clínico do paciente. O prognóstico para cães com tumores esplênicos é ruim, mesmo sendo submetidos à esplenectomia total. O tempo de sobrevida médio de cães com hemangiossarcoma esplênico tratados somente com cirurgia variou de 19 a 86 dias. A quimioterapia adjuvante pode prolongar a sobrevida de alguns animais. REFERÊNCIAS BANDINELLI, M. B.; PAVARINI, S. P.; OLIVEIRA, E. C. et al. Estudo retrospectivo de lesões em baços de cães esplenectomizados: 179 casos. Pesq Vet Bras, v. 31, n. 8, p. 697-701, 2011. BELLENGER, C. R. Parede abdominal. In.: SLATTER, D. Manual de Cirurgia de Pequenos Animais. 3 ed. 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SISTEMA DIGESTÓRIO 2.1 ESTÔMAGO As cirurgias gástricas são mais comuns em determinados casos, como a presença de corpos estranhos e correção da dilatação vólvulo-gástrica, e menos comuns em casos de neoplasias, ulcerações ou erosões, e obstruções benignas da saída gástrica. Em alguns casos, uma gastrotomia pode ser convertida em uma gastrectomia parcial para biópsia ou de espessura total para remover tumores ou outras lesões focais. A capacidade média de um estômago de animais de pequeno porte é bastante variável, principalmente por se tratar de um órgão muito distensível. O estômago de um cão da raça Beagle suporta cerca de 400 a 500 ml, enquanto que o de um cão de médio porte suporta cerca de 700 ml. Os cães de grande porte têm uma capacidade estimada de 3 litros, mas podem alcançar 7 a 8 litros, em condições não fisiológicas. Já o estômago dos gatos é menos variável em suas dimensões e capacidade, podendo aceitar de 300 a 350 ml de líquido, uma capacidade 2 a 3 vezes maior à do restante do trato gastrointestinal. Sempre que há exposição do lúmen durante as cirurgias do estômago, existe o risco de contaminação da cavidade abdominal, seja por substâncias químicas, partículas ou bactérias. Diante disso, sempre devem ser tomadas medidas preventivas com o intuito de evitar essa contaminação e uma posterior complicação, como a peritonite. Dentre essas medidas, têm-se a aplicação de pontos de reparo, uso de esponjas de laparotomia, irrigação intraperitoneal pós-procedimento e a designação de instrumentais cirúrgicos “limpos” e “sujos”. 2.1.1 Definições A gastrotomia é uma incisão através da parede do estômago para ter acesso ao seu lúmen. A gastrostomia é a criação de uma abertura artificial para o lúmen do estômago, podendo ser permanente ou temporária. A gastrectomia parcial é a ressecção de uma porção do estômago, podendo ter finalidade diagnóstica ou terapêutica. Gastropexia consiste na fixação permanente do estômago à parede abdominal. 2.1.2 Anatomia O estômago pode ser dividido em regiões: cárdia, fundo, corpo, antro pilórico, canal pilórico e óstio pilórico. O esôfago penetra o estômago no óstio cardíaco (cárdia). O fundo está dorsal ao óstio cardíaco, e costuma ser preenchido por gás. O corpo (terço médio) encontra-se contra os lobos esquerdos do fígado, e é sucedido pela parte pilórica, que consiste em pouco menos que um terço do estômago. O antro pilórico possui formato de funil e se abre no canal pilórico. O óstio pilórico é o final do canal pilórico e se esvazia no duodeno. No entanto, uma série de termos pode ser utilizada para descrever o estômago, sejam baseados nas características luminais, já descritas acima, sejam pela forma macroscópica ou baseadas na distribuição glandular (FIGURA 5). Figura 5 - As principais regiões e subdivisões do estômago: lúmen (acima); parede (à esquerda); mucosa (à direita). Fonte: BELLENGER, 2007. Um estômago cheio e outro vazio diferem quanto à forma. Quando vazio, adota várias formas de “J”, enquanto cheio, apresenta-se em forma de “C”. À medida que vai enchendo, a curvatura maior torna-se de 2,5 a 4 vezes maior em comprimento que a curvatura menor e se move caudoventralmente; a curvatura menor permanece relativamente fixa. Formas são adicionalmente modificadas por várias atividades musculares, como contrações sistólicas do canal pilórico, contrações gerais do corpo todo e peristalse, ondas que criam constrições anulares, particularmente sobre a metade distal. Um ciclo típico de motilidade gástrica dura 10-12 segundos. O óstio pilórico está aberto, exceto no quinto final do ciclo. Fluidos passam rapidamente, enquanto que alimentos sólidos ou pastosos são retidos por mais tempo. A parede do estômago consiste de 4 camadas, sendo elas mucosa, submucosa, muscular e serosa. A camada mucosa é totalmente glandular e a natureza dessas glândulas varia de uma região à outra; ela corresponde à aproximadamente metade do peso do estômago. A camada submucosa é bem desenvolvida e bastante vascularizada. A camada muscular compõe um terço do peso do estômago, é composta de três camadas, se diferindo da maioria das outras partes do trato gastrointestinal, e sua espessura varia nas diferentes regiões do órgão. Por fim, têm-se a camada serosa, que é recoberta de peritônio visceral. É possível separar facilmente a camada mucosa das camadas submucosa e serosa, quando for necessária a realização de retalhos ou de incisões de espessura parcial durante a gastropexia. O suprimento de sangue arterial do estômago se origina das artérias gástrica (curvatura maior) e epiplóica (curvatura menor), que são derivadas das artérias esplênica e celíaca, sendo está última um ramo direto da aorta. A drenagem venosa para a veia porta é através da veia gastroesplênica, à esquerda, e pela veia gastroduodenal, à direita. O ligamento hepatogástrico é a porção do omento menor que passa do estômago ao fígado. Determinadas características do estômago permitem uma boa e rápida cicatrização das incisões gástricas, como uma extraordinária irrigação sanguínea, um pequeno número de bactérias (resultado da acidez gástrica), a rápida regeneração epitelial e os mecanismos de defesa promovidos pelo omento. 2.1.3 Afecções cirúrgicas 2.1.3.1 Corpo estranho gástrico Um corpo estranho gástrico é qualquer coisa ingerida pelo animal e que não pode ser digerida ou que são digeridas muito lentamente (ossos). Esses corpos estranhos também podem ser lineares, como barbantes, fios, linhas e roupas. São corpos estranhos comuns em gatos os tricobezoares e corpos estranhos filiformes ou agulhas. Em cães, uma diversidade maior de corpos estranhos podem ser observadas, devidos aos seus hábitos alimentares mais indiscriminados. A incidência destes corpos estranhos gastroduodenais pode corresponder a 30 % em cães e até 48% em gatos. A ausência de histórico não deve descartar a inclusão dos corpos estranhos gástricos quando há a presença de sinais clínicos, pois nem sempre há a visualização do momento da ingestão. O vômito é o sinal mais frequentemente observado, que pode variar quanto à intensidade e frequência, mas também pode estar ausente, quando o corpo estranho se localiza no fundo gástrico. Os sinais clínicos podem estar presentes em graus variáveis, dependendo do corpo estranho e do tempo transcorrido desde a ingestão, sendo eles letargia, anorexia, dor abdominal, distensão gástrica, desidratação, melena ou hematêmese e disfunção respiratória. Em alguns casos, é possível que esse diagnóstico seja um achado acidental. O diagnóstico pode ser realizado através de exames de imagem, como radiografia simples e/ou contrastada, e ultrassonografia abdominal. Os corpos estranhos mais radiopacos podem ser visualizados através de estudos radiográficos, mas muitos costumam ser mais radiolucentes. Estudos demonstram que a ultrassonografia abdominal tende a ser mais eficaz na determinação da causa e da severidade do processo, sendo assim mais sensível na detecção de corpos estranhos. Atualmente, as radiografias contrastadas estão sendo substituídas pela gastroduodenoscopia, pois além de ser mais sensível que as radiografias na pesquisa por corpos estranhos, ainda oferece a chance de remoção durante a execução do exame. O tratamento clínico inclui a correção das alterações metabólicas e do equilíbrio ácido-básico, além da estabilização cardiovascular. As radiografias devem ser realizadas imediatamente antes da cirurgia ou endoscopia, com o intuito de identificar com mais precisão a posição do objeto no trato gastrointestinal. A remoção do corpo estranho ocorre através da realização de uma gastrotomia. Técnica cirúrgica - Gastrotomia O animal deve ser colocado em decúbito dorsal, e o abdômen preparado para uma incisão na linha média ventral. Essa área deve ser desdeo tórax médio até o púbis, para permitir que todo o sistema digestório seja avaliado. Deve-se inspecionar todo o sistema em busca de alterações, como obstrução ou perfuração. Se for encontrado um corpo estranho linear no piloro que se estende ao trato intestinal, não tentar tracioná-lo para o estômago, a menos que se mova com facilidade. Caso contrário, deve-se fazer diversas incisões no estômago e intestino para evitar maiores danos. Inspecionar todo estômago em busca de perfurações ou necrose, e dependendo da localização, remover o tecido lesado ou suturar o tecido normal. Para a gastrotomia, colocar suturas de ancoragem no estômago, passando a agulha na submucosa. É importante isolar o estômago com almofadas de laparotomia ou compressas estéreis umedecidas para reduzir contaminação. Com uma lâmina de bisturi, fazer uma incisão no corpo gástrico paralelo ao eixo longo e entre as curvaturas maior e menor do estômago (FIGURA 6). Estender a incisão, conforme necessário, com tesouras, e continuar com a remoção do corpo estranho. Para fechar a incisão, utilizar material de sutura absorvível 2-0 ou 3-0 em padrão de sutura invaginante em duas camadas. Incluir a serosa, a muscular e a submucosa na primeira camada utilizando a sutura de Cushing ou um padrão simples contínuo, e em seguida, uma sutura de Lembert ou Cushing para incorporar as camadas serosa e muscular (FIGURA 7). Antes da síntese da cavidade abdominal, substituir os instrumentos e luvas contaminados por outros estéreis. Figura 6 - Local indicado para realização da gastrotomia. Fonte: FOSSUM, 2008. Figura 7 - Gastrotomia. A – incisão em estocada com acesso ao lúmen gástrico; B – ampliação da incisão; C e D – fechamento com um padrão de sutura seromuscular em dupla camada. Fonte: FOSSUM, 2008. Os cuidados pós-operatórios consistem na monitorização e correção das anormalidades preexistente de líquidos e eletrólitos, bem como para a promoção da motilidade gastrointestinal e apetite normais. Deiscência das incisões da gastrotomia são raras, devido à abundante irrigação sanguínea e rápida cicatrização do estômago. Os animais que persistem com sinais clínicos devem ser reavaliados através de exames de imagem por conta de potenciais obstruções. O prognóstico é bom quando o corpo estranho é removido e na ausência de perfurações, mas caso tenha ocorrido, o prognóstico é reservado, devido à peritonite. 2.1.3.2 Dilatação vólvulo-gástrica A dilatação aguda do estômago associada à sua torção, é um evento potencialmente complexo e maléfico que requer tratamento médico emergencial. Este tratamento, pode ser cirúrgico ou não, na tentativa de otimizar as chances de sucesso e consequente manutenção da vida do paciente. A rápida identificação, escolha da terapia adequada e estabilização precoce do paciente são os principais componentes de sucesso no tratamento. A taxa de mortalidade nos casos de dilatação vólvulo-gástrica (DVG) é alta, girando em torno de 20 a 68% dos animais tratados, e está intimamente relacionada à identificação precoce das alterações sistêmicas e início correto da terapia médica. Há uma maior predisposição por cães de raças grandes e de tórax profundo, mas já foi relatada em gatos e cães de raças pequenas. Pode ocorrer em cães de qualquer idade, mas é mais comum em animais de meia-idade e idosos. Acredita-se que alguns fatores sejam alguns elementos de risco para o desencadeamento dessa síndrome, como a idade, conformação corporal, ingestão rápida de grandes volumes de comida e água, fornecimento de uma única refeição diária, composição alimentar e exercício e estresse pós-prandial. A DVG é diferente do ingurgitamento alimentar (“timpanismo alimentar”), que se caracteriza por um consumo conhecido ou presumido de grandes quantidades de volume, resultando em estômago excessivamente distendido e cheio de alimento em posição normal. Acredita-se que o aumento de volume está associado à obstrução funcional ou mecânica da saída gástrica. A causa inicial dessa obstrução é desconhecida, mas acredita- se que a DVG não ocorra em decorrência de um único fator. Contudo, uma vez que o estômago se dilata, os meios fisiológicos normais de remoção de ar são inibidos, pois os portais esofágicos e pilóricos estão obstruídos. Quando ocorre a DVG, geralmente o estômago sofre rotação em sentido horário, quando visto da perspectiva do cirurgião (FIGURA 8). A rotação pode ser em 90 a 360 graus, mas geralmente é de 220 a 270 graus. Se a rotação for inferior à 180 graus, ela é denominada “torção” e, se for superior, será referida como vólvulo. O duodeno e o piloro movem-se ventralmente e para a esquerda da linha média e deslocam-se para ficar entre o esôfago e o estomago. Figura 8 - Direção da rotação gástrica. Fonte: FOSSUM, 2008. O estômago está ligado ao baço pelo ligamento gastroesplênico, sendo assim, a posição do baço pode variar e frequentemente depende do grau da dilatação gástrica. Assim como o estômago, o baço também está sujeito à torção no sentido horário e anti- horário, em torno de seu próprio pedículo vascular, o que contribui ainda mais para a congestão venosa, devido ao deslocamento e oclusão dos seus vasos, levando à sensível esplenomegalia e comprometimento arterial. Na maioria dos cães, o baço congesto e aumentado de volume acaba retornando às dimensões e coloração normais minutos após o reposicionamento. A esplenectomia antes do reposicionamento é indicada em casos de trombose venosa ou necrose esplênica. O reposicionamento em casos de necrose é contraindicado, pois pode liberar diversos fatores ou mediadores vasoativos, que comprometem a circulação sistêmica. O histórico pode incluir distensão progressiva do abdômen levando ao abdômen timpânico, ou somente letargia e abdômen distendido. O animal pode demonstrar dor e arqueamento costal, sialorréia, inquietação e mímica de vômito não produtivo. À palpação abdominal, podem ser encontrados vários graus de timpanismo ou aumento abdominal. Ocasionalmente, se palpa a esplenomegalia. Sinais clínicos associados ao choque podem estar presentes, incluindo pulso fraco, taquicardia, tempo de preenchimento capilar aumentado, mucosas pálidas e/ou dispneia. O diagnóstico pode ser realizado por radiografias, de preferência nas projeções lateral direita e dorsoventral, para facilitar o preenchimento com ar do piloro anormalmente deslocado, e para que este seja facilmente identificado. A radiografia diferencia a dilatação simples da dilatação com vólvulo, e os animais devem ser descomprimidos antes do exame. O ar livre no abdômen sugere a ruptura gástrica, e ar dentro da parede do estômago indica necrose. No entanto, deve-se tomar cuidado ao posicionar o animal para o exame, pois pode levar à aspiração do conteúdo. Deve-se saber que, o diagnóstico da dilatação gástrica aguda é estabelecido no exame físico, e que as radiografias são para identificar a posição do estômago e determinar a urgência da exploração abdominal. Existem duas possibilidades de tratamento para a DVG, o conservador (clínico) e o definitivo (cirúrgico). Independente de qual deles seja instituído, deve-se descomprimir o quanto antes o estômago, pois, além de melhorar o padrão respiratório, aumentará a pré- carga e, consequentemente, o débito cardíaco. Recomenda-se que, antes de ser realizada a descompressão gástrica, seja primeiramente assegurado um acesso venoso, devido à grande liberação de endotoxinas que se acumulam secundariamente à estase vascular e à isquemia tecidual. Entretanto, salienta-se que a descompressão deve ser o primeiro passo a ser realizado em frente a um quadro de DVG, antes mesmo do acesso venoso para reposição de fluidos. Essa descompressão ajuda na eliminação do gás, de forma gradativa, enquanto outros procedimentos vão sendo realizados simultaneamente, como,por exemplo, o acesso venoso. A descompressão pode ser realizada percutaneamente com cateteres intravenosos de grande calibre com um pequeno trocarte, ou, preferencialmente, através da passagem de um tubo estomacal. É recomendado que sejam feitas sucessivas lavagens com litros de água morna. Essa água é removida por meio de uma bomba de sucção ou por gravidade, posicionando a cabeça do animal em um plano inferior ao corpo. Devido ao alto risco de pneumonia aspirativa, é aconselhado que o paciente esteja entubado durante o procedimento. O objetivo do tratamento inicial é a estabilização do paciente, com a administração de fluidoterapia, descompressão gástrica, realização de exames diagnósticos, administração de antibióticos, e, caso o animal esteja dispneico, a oxigenioterapia se faz necessária. Os distúrbios eletrolíticos e ácido-básicos significativos devem ser corrigidos, e a monitoração do eletrocardiograma é imprescindível, para a detecção de arritmias cardíacas. O tratamento cirúrgico deve ser instituído assim que a condição do animal estiver estabilizada, e possui três objetivos: inspecionar o estômago e o baço para identificar e remover o tecido lesado ou necrótico, descomprimir o estômago e corrigir qualquer mal posicionamento, e aderir o estômago à parede abdominal para evitar o subsequente mal posicionamento. Técnica cirúrgica Para uma rotação em sentido horário, uma vez que o estômago tenha sido descomprimido, rotacioná-lo no sentido anti-horário segurando o piloro com a mão direita, e a curvatura maior com a mão esquerda. Empurrar a curvatura maior, ou fundo do estômago, em direção à mesa cirúrgica, enquanto eleva simultaneamente o piloro em direção à incisão. Certificar-se de que o baço está normalmente posicionado no quadrante abdominal esquerdo. Se houver necrose esplênica ou infarto significativo, fazer uma esplenectomia parcial ou total. Remover ou invaginar os tecidos gástricos necrosados. Se não houver certeza de que o tecido gástrico permanecerá viável, invaginar o tecido alterado. Verificar se o ligamento gástrico não está torcido, e antes de fechar, palpar o esôfago intra-abdominal para assegurar-se que o estômago está desrotacionado. Em seguida, fazer uma gastropexia permanente. A gastropexia deve ser realizada em todos os casos de DVG para evitar recidivas. Ela pode ser realizada pelas técnicas incisional (com retalho de músculo), em alça de cinto, a circuncostal (por trás da costela) e a gastropexia com tubo. Embora numerosas técnicas tenham sido descritas, e a força e extensão da aderência criada por elas difiram entre cada técnica, todas elas, quando realizadas de maneira apropriada, evitam a movimentação do estômago. É necessário que o músculo gástrico esteja em contato com a parede abdominal para a criação de uma aderência permanente, pois a serosa gástrica intacta não forma uma aderência permanente em uma superfície peritoneal intacta. A gastropexia incisional é mais fácil de realizar quando comparada à circuncostal, e minimiza as chances de complicações da gastropexia com tubo. Deve-se fazer uma incisão na camada seromuscular do antro gástrico, seguida de outra incisão na parede abdominal ventrolateral direita, incisando o peritônio e a fáscia interna dos músculos reto abdominal ou transverso abdominal. Em seguida, suturar as margens dessas incisões com um padrão simples contínuo usando fio absorvível ou não absorvível 2-0, iniciando pela margem cranial até a margem caudal. Certificar-se de que a camada muscular do estômago esteja em contato com o músculo da parede abdominal (FIGURA 9). Como alternativa, pode-se levantar retalhos no estômago e na parede do abdômen com o intuito de aumentar a superfície de contato desses tecidos. Figura 9 - Gastropexia incisional (com retalho muscular). A – incisão da camada seromuscular do antro e na parede abdominal direita ventrolateral; B – sutura das margens com padrão simples contínuo; C – certificação do contato entre a camada seromuscular e a musculatura. Fonte: FOSSUM, 2008. Como principais complicações pós-operatórias, encontram-se a sepse e a peritonite, causadas por perfuração ou necrose gástrica, caso o tecido desvitalizado não tenha sido adequadamente removido. O prognóstico é reservado com a realização da cirurgia, com uma taxa de mortalidade de 45% ou mais, considerado ruim, se ocorrer necrose ou perfuração gástrica ou se a cirurgia for protelada. As taxas de recidiva diferem, dependendo da técnica utilizada, mas na maioria foram relatadas taxas menores que 10%. 2.1.3.3 Neoplasias gástricas Neoplasias gástricas em cães e gatos são relativamente incomuns. Os tipos tumorais mais encontrados são adenocarcinoma (neoplasia gástrica canina mais comum), linfoma (neoplasia gástrica felina mais comum), tumor de mastócitos, carcinoma, leiomioma, leiomiossarcoma e fibrossarcoma. Com exceção do linfoma, a cirurgia é o único tratamento potencialmente curativo para neoplasias gástricas. Os locais mais frequentes para ocorrência das neoplasias gástricas são a região de antro pilórico e piloro. Geralmente, a curvatura maior do estômago não é afetada por processos neoplásicos. Os adenocarcinomas gástricos são neoplasias que frequentemente invadem a camada mucosa e se estendem para camada serosa. Geralmente envolve uma grande área da parede do estômago, o que impossibilita sua remoção cirúrgica. É comum a presença de úlceras como consequência deste tipo de tumor, podendo, dessa forma, ocasionar hematêmese ou melena. Os linfomas são os tumores gástricos mais comuns em gatos, sendo que a maioria destes animais tem teste negativo para o vírus da leucemia felina (FeLV). O linfoma pode ser solitário ou difuso no estômago e pode ou não afetar simultaneamente o intestino. Os animais com neoplasia gástrica geralmente têm histórico de anorexia. Podem ocorrer também vômitos, hematêmese, melena, letargia, perda de peso e/ou edema. Os achados do exame físico variam conforme o curso e a gravidade da doença, e são frequentemente inespecíficos. Ocasionalmente, o aumento de volume pode ser observado na palpação abdominal, e também pode haver dor abdominal, presente em casos de ulceração e pancreatite. O diagnóstico por imagem pode ser realizado através de radiografias, ultrassonografia abdominal e endoscopia. As radiografias contrastadas podem evidenciar o tumor gástrico, mas são pouco utilizadas devido as vantagens dos outros exames; e o estudo radiográfico simples do tórax é feito para avaliar as metástases pulmonares (raras). A ultrassonografia é um método sensível para a detecção de tumores gástricos, analisando espessamento mural em diferentes graus e motilidade local. A endoscopia é o método de escolha, pois pode encontrar os tumores gástricos e outras doenças da mucosa, e ainda permite a realização de biópsia da lesão. Técnica cirúrgica A cirurgia pode ser paliativa ou curativa, dependendo do tipo e da localização do tumor. Se o tumor se localizar no corpo, fundo ou antro e invadir a parede gástrica, mas não envolver inteiramente a circunferência do estômago, será possível fazer uma gastrectomia parcial. O animal deve ser colocado em decúbito dorsal e o abdômen preparado para incisão na linha média ventral. Deve-se palpar os linfonodos regionais em busca de metástase. Inspecionar o fígado e as outras estruturas abdominais em busca de metástase ou espessamento e fazer uma biópsia das lesões suspeitas. Se a lesão aparecer localizada no estômago, considerar a ressecção gástrica, pois pode ser curativa. Quando o tecido alterado envolve as porções ventral ou dorsal do estômago, usa-se uma incisão elíptica contornando a lesão e um pouco do tecido normal adjacente, sendo o fechamento o mesmo que para uma gastrotomia simples. Gastrectomia parcial – Para remover a curvatura maior do estômago, ligar os ramos dos vasos gastroepiplóicosesquerdos ou vasos gástricos curtos (ou ambos) ao longo da secção do estômago a ser removida. Cortar o tecido necrótico, deixando uma margem de tecido normal com sangramento para a sutura. Fechar o estômago em um padrão de sutura invaginante em duas camadas usando fio de sutura absorvível 2-0 ou 3- 0. Incorporar as camadas submucosa, muscular e serosa com uma sutura de Cushing ou de padrão simples contínuo na primeira camada. Usar então um padrão de sutura de Cushing ou de Lembert para inverter a serosa e a muscular sobre a primeira camada (FIGURA 10). Figura 10 - Gastrectomia parcial, para remover a curvatura maior do estômago, ligar os vasos e excisar o tecido necrótico. Fechar o estômago com padrão de sutura invaginante em duas camadas. Fonte: FOSSUM, 2008. O prognóstico é reservado para a maioria das neoplasias gástricas, devido às suas características malignas e ao fato de que a maioria não é diagnosticada até estar em estágio avançado e já apresentar metástases. Para os animais com lesões benignas, a cirurgia pode ser curativa. 2.2 INTESTINO DELGADO As cirurgias do intestino delgado são indicadas, na maioria das vezes, para obstrução gastrointestinal, ocasionadas por corpos estranhos e massas, mas outras indicações incluem trauma, mal posicionamento, infecção e procedimentos diagnósticos e de suporte, como biópsia, cultura, citologia e tubos de alimentação. Os intestinos são as vísceras mais móveis da cavidade abdominal. Essa mobilidade é necessária não só para os seus movimentos digestivos, mas também para permitir que o abdômen mude de forma e capacidade, que as vísceras adjacentes se encham e esvaziem, e que a coluna vertebral possa se flexionar. 2.2.1 Definições A enterotomia é uma incisão no intestino para sua exploração, e a enterectomia é a remoção de um segmento do intestino delgado. A ressecção intestinal e a anastomose são uma enterectomia com o restabelecimento da continuidade entre as duas extremidades. Enteropexia é a fixação se um segmento intestinal à parede abdominal ou a outra alça intestinal. 2.2.2 Anatomia Em cães e gatos, os intestinos têm aproximadamente cinco vezes o comprimento do tronco, sendo 80% o intestino delgado. Em gatos, ele tem entre 1 e 1,5 metros, e entre 2 e 5 metros em cães. O intestino delgado é formado pelo duodeno, jejuno e íleo. A parede intestinal muda as características de suas secreções em diferentes locais, às vezes de forma gradual, sendo importante a diferenciação de um segmento intestinal para outro. O duodeno é a porção mais fixa, iniciando no piloro à direita da linha média e estendendo-se aproximadamente por 25 cm. Ele cursa dorsocranialmente por uma curta distância, voltando-se caudalmente na flexura duodenal cranial e continua a direita como duodeno descendente. Em seguida, ele se volta cranialmente à flexura duodenal caudal onde o ligamento duodenocólico se liga. O duodeno ascendente se encontra à esquerda da raiz mesentérica. O ducto biliar comum e o ducto pancreático se abrem nos primeiros poucos centímetros do duodeno na papila duodenal maior em cães. O ducto pancreático acessório se insere caudalmente, na papila duodenal menor. O jejuno forma a maioria das espirais intestinais, encontrando-se no abdômen ventrocaudal. Este é o segmento mais longo e móvel do intestino delgado, e inicia-se à esquerda da raiz mesentérica, onde o duodeno ascendente se volta para a direita na flexura duodenojejunal. O íleo tem um vaso antimesentérico e tem aproximadamente 15 cm de comprimento, passando do lado esquerdo para o direito em um plano transverso através da região médio-lombar, caudal à raiz do mesentério e se junta ao cólon ascendente à direita da linha média no orifício ileocólico. A raiz do mesentério liga o jejuno e o íleo à parede abdominal dorsal. Os ramos das artérias celíaca e mesentérica cranial irrigam o intestino delgado. Os linfonodos mesentéricos encontram-se ao longo dos vasos no mesentério. As camadas da parede intestinal são mucosa, submucosa, muscular e serosa. A mucosa é uma barreira importante para separar o ambiente luminal daquele da cavidade abdominal. A mucosa saudável e a irrigação sanguínea intestinal são importantes para a secreção e absorção intestinais normais. Por ser a camada intestinal que fornece a força mecânica, a mucosa deve estar incluída quando se faz a sutura intestinal para promover um fechamento seguro. A camada submucosa fornece os vasos sanguíneos, vasos linfáticos e nervos, sendo a camada de maior força tênsil. A muscular é necessária para a motilidade normal. A serosa é importante para a formação de um fechamento rápido no local da injúria ou incisão cirúrgica. 2.2.3 Princípios gerais As cirurgias no intestino delgado são classificadas como limpa contaminada ou contaminada. Assim, preconiza-se a realização de antibioticoterapia profilática. A flora bacteriana é menor no duodeno e no jejuno que íleo, cólon e reto. O maior número de bactérias (aeróbias e anaeróbias) se encontra no cólon. Proliferação anormal de bactérias residentes ocorre no intestino envolvido devido ao conteúdo luminal estagnado, e à desvitalização da parede, que se constituem em excelentes meios de crescimento. Os critérios clínicos e de rotina para avaliação da viabilidade de determinada porção do intestino incluem a observação da coloração intestinal, sendo o normal de rósea à vermelha e não azul ou enegrecida, textura da parede, peristaltismo, pulsação das artérias e sangramento quando da incisão. No entanto, por se tratar de fatores subjetivos, a avaliação da viabilidade é muitas vezes dificultada, e não se correlacionam necessariamente com a gravidade histológica da lesão intestinal e sobrevida do animal. Diante disso, um erro comum é a preservação de áreas cuja viabilidade é questionável, sendo que, nesses casos, o seguimento intestinal cuja viabilidade for questionável deve ser retirado. A superestimativa de uma área de ressecção com base na avaliação clínica não é comumente prejudicial. Uma cicatrização ideal da parede intestinal depende de boa irrigação sanguínea, aposição precisa da mucosa e trauma cirúrgico mínimo. Os padrões de sutura mais indicados são os de aproximação, pois os padrões de sutura invaginantes ou evaginantes retardam a cicatrização e podem ocasionar na formação de estenose. As superfícies serosas adjacentes e o omento facilitam o processo cicatricial, pois selam as feridas e contribuem para a irrigação sanguínea. A tensão sobre o reparo causada pelo acúmulo de ingesta, fluido ou gás, ou a movimentação insuficiente do intestino, aumentam o risco de ruptura da incisão. 2.2.4 Afecções cirúrgicas 2.2.4.1 Corpos estranhos intestinais A obstrução intestinal intraluminal é uma das indicações mais comuns para laparotomia em cães e gatos, e é resultante, na grande maioria dos casos, de ingestão de corpos estranhos, que atravessam o esôfago e o estômago podem se alojar no intestino de menor diâmetro, geralmente o jejuno. Alguns corpos estranhos continuam a se mover lentamente através do intestino, enquanto outros se alojam em um segmento intestinal, onde causam obstrução completa ou parcial. A obstrução parcial ou incompleta permite a passagem limitada de gás, enquanto a obstrução completa não permite que líquido ou gás avancem pela obstrução, sendo considerada mais grave quanto ao curso da doença e presença dos sinais clínicos. Quando ocorre a obstrução intraluminal completa, o intestino proximal à lesão se distende com gás e líquido. O gás é resultante da combinação do ar deglutido e da produção de gases orgânicos oriundos da fermentação bacteriana. O acúmulo de líquido é causado pela retenção de líquidos ingeridos e secreções. Durante o processo obstrutivo, as secreções aumentam e a absorção diminui, sendo que, em situação normal, as secreções sãoreabsorvidas no jejuno distal e íleo. A diminuição da absorção é resultante da congestão venosa e linfática, osmolalidade intraluminal aumentada e diminuição da taxa de renovação de enterócitos. Após 24h de obstrução completa, o intestino distendido pode perder sua capacidade de absorver líquidos e ocorre hipersecreção local, promovendo um agravamento do quadro clínico (FIGURA 11). O aumento da pressão sobre a parede intestinal provocado pelo corpo estranho pode causar estase venosa e edema, seguidos de comprometimento do fluxo arterial, ulceração, necrose e perfuração. Corpos estranhos lineares podem causar plicatura do intestino delgado e pode levar à necrose extensa devido à isquemia ou pelos danos mecânicos do próprio corpo estranho, e causam tipicamente perfuração da borda mesentérica do intestino delgado. Figura 11 - Eventos da fisiopatologia associados à obstrução mecânica do lúmen intestinal. Fonte: FOSSUM, 2008. A gravidade dos sinais clínicos e alterações metabólicas em animais afetados dependem do grau, duração, localização e integridade vascular do segmento envolvido. Os sinais comuns são vômito, anorexia, depressão e dor abdominal. O vômito pode ser frequente e em jato em casos de obstrução completa proximal, ou mais esporádico e menos copioso em casos de obstrução distal ou parcial. A defecação pode estar ausente ou com frequência diminuída e as fezes ocasionalmente estão sanguinolentas. A diarreia é mais comum em animais com obstrução parcial. Corpos estranhos crônicos, lineares ou afiados podem predispor os animais à peritonite e sepse. A massa ou corpo estranho podem ser palpáveis, com pressão suave e gradual. O diagnóstico é baseado na detecção do corpo estranho ou no padrão obstrutivo persistente, além dos exames de imagem, como estudos radiográficos contrastados e ultrassonografia abdominal. O sinal radiográfico clássico de obstrução mecânica é a presença de várias alças de intestino delgado dilatadas por gases, com diâmetros variáveis. Em animais com obstrução completa, a distensão abdominal pode ser grave, e o intestino pode ter aspecto túrgido com algumas alças aguçadas ou empilhadas. Nos casos de obstrução parcial, as alterações radiográficas são menos graves, e podem não diferenciar das alterações decorrentes de gastroenterite, íleo paralítico ou pseudo- obstrução. As radiografias contrastadas são frequentemente utilizadas para proporcionar o diagnóstico definitivo de obstrução. Os achados radiológicos associados com corpos estranhos lineares podem visualizar o intestino delgado agregado ou pregueado, e presença de múltiplas e pequenas bolhas de gás intraluminais excentricamente localizadas. A presença de ar livre evidenciada nas radiografias abdominais é indicativa de peritonite, que requer intervenção cirúrgica imediata após a estabilização do paciente. A ultrassonografia é mais precisa na detecção de corpos estranhos do que as radiografias simples. Em geral, a cirurgia precoce reduz as taxas de mortalidade em animais com corpos estranhos intestinais. Assim que a obstrução for diagnosticada e o animal estiver estabilizado, será efetuada uma laparotomia exploratória e o trato gastrointestinal todo será examinado minuciosamente. Se o intestino estiver relativamente sadio, o objeto será removido por meio de uma enterotomia. Se a parede estiver necrótica, a área acometida deverá ser ressecada e feita uma anastomose término-terminal. Em cães, corpos estranhos intestinais lineares normalmente ancoram no piloro. Em gatos, corpos estranhos lineares são mais comumente fixados em torno da língua, devendo a região sublingual ser cuidadosamente examinada sob anestesia e, se localizado, o corpo estranho deve ser seccionado. Ocasionalmente, o fio ou a linha poderá ser incorporado na língua e recoberto por tecidos. O tratamento dos corpos estranhos lineares em gatos pode ser gerido de forma conservadora com a transecção, caso esteja preso à base da língua, e cuidados de suporte, caso os gatos sejam apresentados logo após a ingestão e os sinais clínicos leves ou ausentes. Se o corpo estranho não for eliminado dentro de 3 dias ou o animal apresente sinais clínicos, a cirurgia deve ser realizada. Em cães, não há relatos do tratamento conservador para corpos estranhos lineares. O prognóstico é bom depois da remoção cirúrgica de um corpo estranho focal ou linear em cães e gatos. Caso haja peritonite ou perfurações, o prognóstico é reservado, e tende estar associado à morte após a cirurgia. Sem cirurgia, os animais podem morrer por choque hipovolêmico ou endotóxico, septicemia, peritonite ou inanição. Técnicas cirúrgicas Fazer uma incisão através da linha alba que seja suficiente para permitir a exploração completa do abdômen. Uma vez localizado o corpo estranho, isolar esta alça intestinal do restante da cavidade com compressas cirúrgicas e toalhas estéreis. Retirar delicadamente o quimo (conteúdo intestinal) do lúmen do segmento intestinal identificado, ocluindo o lúmen em ambas as extremidades com os dedos ou uma pinça intestinal atraumática. As obstruções completas podem levar o intestino a uma grave distensão e a parecer cianótico. De qualquer modo, postergar a determinação da viabilidade intestinal até a descompressão e remoção do corpo estranho por enterotomia. Banhar o intestino com solução salina morna por alguns minutos para ajudar a melhorar a cor e o peristaltismo. Se o segmento for determinado como viável, continuar a enterotomia. Para a enterotomia, deve-se fazer uma incisão no tecido de aparência saudável, distal ao corpo estranho. Estender a incisão ao longo do eixo longo do intestino com uma tesoura Metzenbaum ou com um bisturi, para permitir a remoção do corpo estranho sem romper o intestino. Para o fechamento, recortar a mucosa evertida para que sua margem se alinhe com a margem serosa, se necessário. Seccionar o lúmen isolado. Fechar a incisão com uma força aposicional suave na direção longitudinal ou transversa usando pontos simples interrompidos. Colocar suturas através de todas as camadas da parede intestinal a 2 mm da margem e 2 a 3 mm entre si, com nós extraluminais. Angular a agulha para incluir mais serosa à margem que mucosa, para ajudar a reposicionar a mucosa evertida para dentro do lúmen. Amarrar cada nó cuidadosamente sem cortar as camadas da parede intestinal para fechar delicadamente todas as camadas intestinais sem traumatizar o tecido, usando um material de sutura monofilamentar e absorvível (FIGURA 12). Enquanto for mantida a oclusão luminal próximo ao local da enterotomia, distender moderadamente o lúmen com solução salina estéril, aplicando uma leve pressão digital e observando a ocorrência de extravasamento. Fazer mais pontos se ocorrer extravasamento entre as suturas iniciais. Lavar o intestino e o abdômen, caso tenha ocorrido contaminação. Colocar o omento sobre a linha de sutura antes de fechar a cavidade. Substituir os instrumentos e luvas antes da síntese do abdômen. Figura 12 - Enterotomia e realização de biópsia. A – ocluir o lúmen e realizar contra- incisão; B e C – caso necessário, remover tecido adjacente com tesoura de Metzenbaum ou bisturi; D – fechar a incisão com pontos simples separados. Fonte: Adaptado de FOSSUM, 2008. Se o intestino não estiver viável ou questionável, realizar o ressecamento da porção afetada, restabelecendo a continuidade por anastomose término-terminal. Deve-se ocluir, através de ligaduras, e transeccionar a arcada de vasos da artéria mesentérica cranial que irriga o segmento intestinal. Em seguida, ocluir e transeccionar os vasos da arcada terminal e os vasos da vasa reta dentro da gordura mesentérica nos pontos de transecção intestinal proposta. Retirar delicadamente o quimo do lúmen, como descrito anteriormente, e isolar o segmento intestinal doente. Transeccionar o intestino com uma tesourade Metzenbaum ou com um bisturi ao longo do lado de fora da pinça. Quando os tamanhos das extremidades intestinais não forem iguais, algumas técnicas ao incisar os intestinos podem ser utilizadas. Seccionar as extremidades intestinais e remover os debris grudados nas margens do corte com uma esponja de gaze umedecida. Recortar a mucosa evertida com uma tesoura de Metzenbaum antes de iniciar a anastomose. Usar um fio monofilamentar absorvível, ou monofilamentar absorvível, em caso de peritonite. Fazer pontos simples descontínuos através de todas as camadas da parede intestinal. Amarrar cada ponto cuidadosamente para fazer a aposição delicadamente das margens do intestino com os nós extraluminalmente (FIGURA 13). Figura 13 - Ressecção e anastomose do intestino delgado. A – ligar os vasos, e após oclusão do lúmen transeccionar intestino e mesentério; B – Fazer um ponto em cada borda (mesentérica e antimesentérica); C – completar a anastomose com pontos simples descontínuos em intestino, e pontos simples contínuos no mesentério. Fonte: Adaptado de FOSSUM, 2008. A remoção de corpos estranhos lineares pode requerer gastrotomias e múltiplas enterotomias. Deve-se liberar o corpo estranho de onde ele está alojado. Cortar a linha que está presa na língua ou fazer uma gastrotomia. Colocar uma pinça hemostática na extremidade distal do objeto quando a massa for removida pelo piloro. Puxar delicadamente a pinça e identificar o próximo ponto mais distal de colocação da pinça. Realizar a enterotomia e remover o corpo estranho mais proximal. Novamente colocar a pinça hemostática distalmente, transeccionar o corpo estranho e identificar o próximo ponto de colocação da pinça. Repetir até todo o corpo estranho linear ser removido. Evitar excesso de tração sobre o corpo que possa levar à laceração em espessura total da borda mesentérica. Fechar as enterotomias e inspecionar a borda mesentérica em busca de evidências de perfuração. 2.2.4.2 Neoplasia intestinal A neoplasia intestinal é uma condição na qual o tumor se origina de uma ou duas camadas da parede intestinal, suas glândulas ou células associadas, ou vasos linfáticos. Os tumores intestinais ocorrem, na maioria das vezes, no reto ou cólon dos caninos, e no intestino delgado dos felinos. A maioria dos tumores intestinais são malignos. Geralmente, invadem a camada muscular comprometendo o diâmetro luminal e reduzindo a distensibilidade. Eles podem causar obstrução mecânica intramural ou intraluminal. A doença geralmente está em estágio avançado no momento do diagnóstico, e a presença de metástase pode ocorrer no caso de tumores malignos. Nesses casos, a disseminação pode ser tanto por invasão local para serosa, mesentério, omento e linfonodos regionais, como por metástase a distância, para fígado, pulmões e baço. As neoplasias malignas mais comuns do intestino delgado são os adenocarcinomas e linfossarcomas. Outros tipos menos comuns são os leiomiomas, leiomiossarcomas, fibrossarcomas, mastocitomas, hemangiossarcomas, sarcomas anaplásicos, carcinoides, plasmocitomas, neurilemonas, adenomas e pólipos anedomatosos. Os sinais clínicos podem ser inespecíficos inicialmente, como depressão, letargia, perda de peso, mas podem progredir para diarreia, vômitos e quadro de obstrução intestinal. Os sinais referentes à presença de metástases podem aparecer mais tardiamente, e variam de acordo com a evolução e os órgãos acometidos. O diagnóstico é semelhante ao descrito para os corpos estranhos intestinais focais, através de radiografias e ultrassonografia abdominal. A endoscopia é um exame de grande relevância, pois pode detectar irregularidades de mucosa, inflamação, ulceração e estenoses luminais, além de permitir a realização de biópsia nos casos de tumores que envolvem a mucosa. A ressecção cirúrgica é o tratamento de escolha para os tumores intestinais. Quando há presença de metástases, a ressecção pode ser paliativa, mas sempre prezando a importância da sutura de tecido saudável a tecido saudável. Quanto à quimioterapia, o linfossarcoma pode apresentar boa resposta, mas a resposta dos outros tipos de tumores é desconhecida ou ruim. O prognóstico para a ressecção de massas não neoplásicas ou neoplasias benignas é excelente, e considerado melhor quando comparado às ressecções completas de neoplasias malignas. Comumente, o prognóstico é ruim quando há a presença de metástases. Técnica cirúrgica Fazer uma incisão através da linha alba de maneira que se possa explorar todo o abdômen e o trato gastrointestinal para evitar que outras alterações passem despercebidas. Fazer uma biópsia dos linfonodos mesentéricos e outros órgãos, se necessário, antes de incisar o intestino. Ressecar a massa com margens de 4 a 8 cm de tecido macroscopicamente normal e realizar uma anastomose término-terminal. Dispensar atenção especial à técnica cirúrgica, pois esses animais muitas vezes estão debilitados. Submeter o tecido a uma avaliação histopatológica e estadiamento do tumor. Trocar as luvas, os instrumentos e fios por outros não contaminados para o fechamento abdominal. 2.2.4.3 Intussuscepção A intussuscepção é o encurtamento ou invaginação de um segmento intestinal (intussuscepto) para dentro do lúmen de um segmento adjacente (intussuscipiente) (FIGURA 14). Podem ocorrer em qualquer local, mas as intussuscepções ileocólicas e jejunojejunais são as mais comuns. A direção pode ser de proximal a distal, e vice-versa, sendo mais comum ocorrer na direção do peristaltismo normal, a intussuscepção direta ou normógrada. Pode ocorrer em mais de um local, e algumas vezes, pode ser dupla (duas invaginações no mesmo local). Além disso, o peristaltismo reverso pode aumentar o comprimento do intestino envolvido, mas que pode ser limitado pela quantidade de mesentério envolvido. Figura 14 - Configuração de uma intussuscepção. Fonte: Adaptado de FOSSUM, 2008. As causas podem estar associadas à enterites, corpos estranhos lineares, massas intestinais ou cirurgia abdominal prévia; entretanto, a causa da maioria das enterites é desconhecida. Acredita-se que a formação da intussuscepção seja resultado de uma não- homogeneidade da parede causada por qualquer alteração dentro da parede que altere a motilidade ou a pliabilidade local. Os sinais clínicos são os mesmos da obstrução intestinal, como vômito, diarreia, depressão e anorexia, e podem variar com o nível da obstrução, se parcial ou completa. Ocorrem mais comumente em cães jovens, com menos de 1 ano de idade. O diagnóstico presuntivo pode ser feito através da palpação de uma alça intestinal espessada e alongada. O diagnóstico por imagem envolve radiografias, ultrassonografia abdominal e colonoscopia. As radiografias podem revelar obstrução através de um efeito de massa ou acúmulo de gás proximal à intussuscepção. A ultrassonografia é considerada o método mais útil para o diagnóstico, além de também identificar alterações abdominais concomitantes, como linfadenopatia ou lesões intestinais infiltrativa. Na intussuscepção, pode-se evidenciar uma série de anéis concêntricos na imagem transversal, ou como linhas paralelas na imagem longitudinal, refletindo as camadas pregueadas da parede intestinal. A colonoscopia também pode identificar o intestino invaginado protruindo para dentro do cólon em animais com intussuscepção ileocólica ou cecocólica. Por ser comum a ocorrência de recidivas, as intussuscepções devem ser tratadas cirurgicamente, mesmo se a redução manual for possível. Fazer a biópsia do intestino no momento da correção cirúrgica pode auxiliar na identificação da causa. O prognóstico depende da causa, localização, grau de preenchimento e duração da intussuscepção, mas piora com perfuração do intestino e peritonite. O prognóstico é bom para animais que receberam tratamento auxiliar apropriado eque foram submetidos à redução ou ressecção da intussuscepção sem maiores complicações. Técnica cirúrgica Explorar o abdômen, coletar amostras e isolar o intestino envolvido com compressas cirúrgicas. Reduzir as intussuscepções manualmente, se possível, aplicando uma suave tração sobre a base do intussuscepto enquanto retira o ápice (borda anterior) para fora do intussuscipiente (FIGURA 15). Evitar a tração excessiva, pois esta pode romper o intestino comprometido. A redução manual só é bem-sucedida se não tiver formado aderências. Avaliar o intestino reduzido em relação à viabilidade e perfuração. Palpar cuidadosamente a borda anterior do intussuscepto para detectar lesões tumorais. Fazer a ressecção e anastomose se for detectada uma massa, se a redução manual for impossível, se o tecido estiver desvitalizado ou se os vasos mesentéricos forem avulsionados da porção do intestino envolvido. Submeter as amostras do intestino envolvido à histopatologia para auxiliar na identificação da causa da intussuscepção. Deve-se considerar a realização de uma enteroenteropexia nesses animais para evitar a recidiva. Figura 15 - Redução manual de intussuscepção. Fonte: Adaptado de FOSSUM, 2008. 2.3 INTESTINO GROSSO As cirurgias do intestino grosso são indicadas para as lesões que causam obstrução, perfuração, inércia colônica ou inflamação crônica. As principais causas de obstrução são os tumores, intussuscepções e massas granulomatosas. Os corpos estranhos que chegam ao cólon geralmente são expelidos com as fezes, a não ser que o cólon distal ou o reto estejam obstruídos ou o objeto tenham pontas afiladas. 2.3.1 Definições A colopexia é a fixação cirúrgica do cólon. A colectomia é a ressecção parcial ou completa do cólon e a tiflectomia é a ressecção do ceco. A colostomia é a criação cirúrgica de uma abertura entre o cólon e a superfície corporal. 2.3.2 Anatomia O ceco e cólon de cães e gatos são claramente reconhecíveis dentro do abdômen. Embora frequentemente descrito como a primeira parte do intestino grosso, o ceco em cães e gatos é um verdadeiro divertículo que liga ao cólon proximal. O ceco, cólon ascendente, cólon transverso, cólon descendente e reto são os segmentos do intestino grosso. O cólon ascendente e o ceco estão localizados na terminação do íleo. Em cães, o ceco é um saco cego em forma de “S”, localizado à direita da raiz mesentérica, e em gatos, o ceco é um saco cego curto e reto. Ele está localizado ventral ao rim direito, dorsal ao intestino delgado e medial ao duodeno descendente. O cólon ascendente comunica-se com o íleo pelo orifício ileocólico e com o ceco pelo orifício cecocólico, que se encontra aproximadamente 1 cm caudal ao orifício ileocólico. Um vaso antimesentérico curto ajuda a identificar o cólon ascendente localizado à direita da raiz mesentérica. Esta porção ascendente curta dobra da direita para a esquerda na flexura cólica direita (flexura hepática), transformando-se no cólon transverso, cursando cranial a raiz mesentérica. O cólon se volta caudalmente à flexura cólica esquerda (flexura esplênica) e transforma-se no cólon descendente, que é o segmento mais longo do intestino grosso. Este começa à esquerda, onde localiza-se dorsal ao intestino delgado, e continua caudalmente para o trecho pélvico. O intestino grosso continua através do canal pélvico para o ânus como o reto, sendo a junção colorretal de difícil identificação. O mesocólon é um curto ligamento mesentérico do cólon à parede abdominal. As camadas da parede do intestino grosso são as mesmas do intestino delgado, ou seja, mucosa, submucosa, muscular e serosa. A irrigação sanguínea do intestino grosso deriva da artéria ileocólica, um ramo das artérias mesentéricas cranial e caudal. Os ramos maiores cursam paralelos ao intestino, soltando os vasos cursos da vasa reta, os quais penetram na parede intestinal. A drenagem venosa é essencialmente o espelho da irrigação sanguínea. A veia mesentérica caudal é curta e entra na veia porta. Os nervos vago e pélvico suprem o cólon com inervação parassimpática, sendo a inervação simpática fornecida pelo tronco parassimpático paravertebral via gânglio parassimpático. As principais funções do cólon são secreção de muco, absorção de líquidos e eletrólitos, vigilância imune e motilidade. A motilidade facilita o armazenamento (cólon proximal) ou defecação (cólon distal) das fezes. As contrações no cólon ascendente e transverso facilitam a extração da água e eletrólitos do líquido do lúmen, enquanto contrações no cólon descendente facilitam a propulsão aboral e defecação. 2.3.3 Princípios gerais A diferenciação das doenças do intestino grosso para as do intestino delgado se faz com base no histórico e exame físico, sendo os exames de imagem necessários e de grande valia. O cólon contém mais bactérias que o restante do trato gastrointestinal. Os princípios cirúrgicos são semelhantes àqueles adotados para cirurgias do intestino delgado, mas as deiscências das incisões do intestino grosso são mais prováveis de acontecer. Pode ser difícil avaliar a viabilidade do intestino, mas é importante que as áreas necróticas ou avasculares do cólon sejam removidas e que a ressecção desnecessária seja evitada. Devido ao mesocólon curto, a avulsão da irrigação sanguínea colônica é menos comum que a mesentérica. A cicatrização do cólon é semelhante à do intestino delgado, porém mais lenta. A força tênsil na ferida também fica abaixo da força tênsil do intestino delgado, sendo mais provável ocorrer deiscência. Um grande número de fatores pode retardar a cicatrização, como uma má circulação colateral do intestino grosso e o grande número de bactérias intraluminais anaeróbicas e aeróbicas, que compõe até 10% do peso seco fecal. O risco de deiscência é alto nos primeiros 3 a 4 dias de pós-operatório, pois a lise de colágeno excede a síntese. O uso de antibióticos e a colocação de suturas que não estrangulam podem melhorar a cicatrização. 2.3.4 Afecções cirúrgicas 2.3.4.1 Megacólon O megacólon é um termo descritivo para o aumento persistente do diâmetro do intestino grosso e hipomotilidade associada à constipação grave. Um diagnóstico de megacólon idiopático se dá quando uma causa mecânica, neurológica ou endócrina não puder ser identificada, sendo mais frequentemente diagnosticado em gatos. Não é uma doença específica, e sim um sinal clínico associado à falha em evacuar as fezes normalmente, e pode ser congênito ou adquirido. Existem dois mecanismos patológicos que desencadeiam essa alteração: dilatação e hipertrofia. O megacólon dilatado é o estágio final da disfunção colônica em casos idiopáticos, e os gatos acometidos exibem perda permanente da estrutura e função do cólon. Pode-se tentar o tratamento clínico, mas na maioria dos casos os gatos terminam precisando de colectomia. O megacólon hipertrófico ocorre em consequência de lesões obstrutivas, podendo ser reversível se for realizada com rapidez uma osteotomia pélvica, ou poderá evoluir para megacólon dilatado irreversível, se não for instituído o tratamento apropriado. A patogênese e a fisiopatologia do megacólon idiopático ainda não foram completamente esclarecidas. Alguns casos estão associados a lesões da medula espinhal, do nervo autônomo ou do sistema nervoso entérico. As lesões da medula espinhal ou do nervo pélvico são as causas mais importantes de megacólon neurogênico. Habitualmente os animais acometidos manifestam outros sinais clínicos, sugerindo lesão nervosa, como redução do tônus anal e sensibilidade da cauda, atonia da bexiga e paraparesia. As causas da inércia colônica podem ser distensão prolongada, trauma neurológico, doença metabólica ou alteração de comportamento, ou ser idiopática. As causas de obstrução da saída colônica podem ser má união de fratura pélvica, estenose ou neoplasia dointestino grosso, atresia ou estenose anal, massas extraluminais compressivas, corpos estranhos ou dieta inadequada. As fezes retidas no cólon por períodos prolongados desidratam e solidificam devido à continuada absorção de água. As concreções fecais são produzidas de modo a dificultar e tornar dolorida sua eliminação. A massa fecal pode se tornar tão grande e endurecida que fica impossível passar através do canal anal. A absorção de toxinas bacterianas das fezes retidas pode causar depressão, anorexia e fraqueza. O vômito ocorre secundariamente à obstrução prolongada, toxinas absorvidas e/ou estimulação vagal. O líquido pode passar ao redor das concreções fecais e causar diarreia, podendo ser visto sangue e muco nas fezes, provenientes da irritação da mucosa. Os animais acometidos são trazidos por conta de um histórico de constipação ou obstipação. Os sinais clínicos presentes podem ser depressão, anorexia, tenesmo, fraqueza, letargia, rarefação pilosa, vômito, perda de peso e, ocasionalmente, diarreia aquosa, mucoide ou sanguinolenta. Os sinais clínicos geralmente são graves e crônicos. A palpação abdominal revela um cólon distendido, e à palpação retal, há a presença de fezes duras no trecho pélvico. O diagnóstico é confirmado através de radiografias abdominais, que evidenciam um cólon impactado distendido com material fecal. O aumento de diâmetro do cólon além de 1,5 vez a largura do corpo da sétima vértebra lombar é considerado um megacólon. Também podem proporcionar informações sobre massas extraluminais ou fraturas pélvicas com mau alinhamento comprimindo o cólon ou reto. As radiografias de contraste positivo ou duplo contraste têm utilidade no delineamento de lesões cecais e colônicas luminais ou intramurais, além de lesões compressivas extramurais. A ultrassonografia pode ser mais útil para avaliação de massas suspeitas e intussuscepções no intestino grosso, pois a presença de gases no trato intestinal pode limitar a utilidade diagnóstica. A endoscopia/colonoscopia pode avaliar muitos problemas do intestino grosso, proporcionando mais informações quando comparada às radiografias; porém, essa técnica tem suas limitações por depender de anestesia geral e de uma preparação do cólon apropriada, em média de 1 a 3 dias. O tratamento clínico deve ser sempre instituído antes da indicação do tratamento cirúrgico. A constipação é difícil de tratar quando o megacólon já está desenvolvido, mas a evacuação deve ser realizada, através do uso de emolientes fecais, enemas e/ou evacuação digital, além da mudança de dieta (rica em fibras). Em gatos cronicamente constipados, a resposta ao tratamento com laxantes e enema é ineficiente, pois a apresentação para a cirurgia ocorre após meses ou anos de evolução. Quando o quadro não é controlado através do tratamento clínico, a cirurgia de colectomia é indicada, tendo a associação com a antibioticoterapia profilática uma conduta indispensável. As complicações pós-operatórias incluem extravasamento, deiscência, peritonite, necrose isquêmica, estenose e formação de abscessos. No entanto, a diarreia persistente e a constipação recidivante são quadros mais comuns. A constipação, na maioria dos casos, pode ser tratada com sucesso através de procedimentos clínicos, mas quando se torna resistente, uma nova colectomia pode ser necessária. Em alguns casos, os animais são submetidos à eutanásia, devido ao insucesso do tratamento. O prognóstico para os gatos submetidos a uma colectomia subtotal é favorável a longo prazo, e mal a reservado sem a cirurgia. No entanto, os cães não costumam se adaptar tão bem à colectomia quanto os gatos. Técnica cirúrgica – Colectomia Existem controvérsias sobre a preservação ou remoção da junção ileocólica, pois a remoção pode permitir fácil acesso dos microrganismos colônicos ao intestino delgado com consequente má absorção associada a uma diarreia mais grave; enquanto que a preservação minimiza a diarreia pós-operatória, mas potencialmente permite a recidiva da constipação. O abdômen deve ser totalmente explorado, e caso necessário, realizar biópsia de qualquer tecido alterado. Para a ressecção do cólon distal, é preferível realizar a ligadura dos vasos retos das artérias cólica esquerda e mesentérica caudal, ao invés de ligar os próprios vasos principais, na tentativa de preservar ao máximo possível a irrigação sanguínea deste segmento. Deve-se isolar o intestino delgado distal, ceco e cólon do restante do abdômen com diversas compressas cirúrgicas umedecidas. O conteúdo do cólon é “ordenhado” até o segmento colônico que será ressecado, e são aplicadas pinças intestinais atraumáticas em uma posição 3 cm proximal e distal aos locais de ressecção. A escolha desses locais deve permitir uma aposição sem tensão. Como alternativa, o esfíncter ileocólico pode ser preservado, mas fica mais difícil fazer uma aposição livre de tensão. A anastomose ileocólica é tecnicamente mais fácil e permite a remoção de uma porção maior do cólon. Após a colocação das pinças, e remoção das fezes do cólon dilatado, iniciar a ressecção em sua junção com o intestino delgado ou logo distal ao ceco. Realizar uma anastomose término-terminal corrigindo a disparidade de tamanho luminal, alterando o ângulo de transecção (ângulos oblíquos no lúmen menor e ângulos perpendiculares no lúmen maior), usando espaçamentos desiguais entre os pontos (mais afastados no lúmen maior) e/ou ressecando a borda antimesentérica do intestino. O espécime ressecado deve ser encaminhado para análise histopatológica. As suturas aposicionais com pontos simples interrompidos iniciam-se no lado mesentérico e progridem até a borda antimesentérica. Os pontos devem atravessar a submucosa e serem ligados para aposição das bordas, em vez de promover esmagamento, maximizando a irrigação sanguínea (FIGURA 16). Figura 16 - Anastomose do cólon após colectomia. Fonte: Adaptado de HOLT & BROCKMAN, 2007. 3. SISTEMA URINÁRIO 3.1 RIM E URETER A doença renal é uma das principais causas de morbidade e mortalidade em pacientes veterinários, com uma prevalência estimada de 0,5% a 7% em cães, e 1,6% a 20% em gatos. As alterações renais e ureterais que podem ser tratadas cirurgicamente são menos comuns, e tendem a se concentrar na obtenção de amostras de tecido (biópsia), extração de cálculos, e fornecer tratamento para lesões traumáticas ou neoplasias. A importância dos rins na remoção de resíduos metabólicos, na manutenção do equilíbrio de fluidos e na regulação da pressão arterial pode complicar a intervenção cirúrgica, pois os pacientes com doença renal primária ou secundária tendem a ser suscetíveis à complicações anestésicas e cirúrgicas. Uma boa compreensão da anatomia, fisiologia e função renal e ureteral é tão importante quanto à compreensão de procedimentos diagnósticos e cirúrgicos envolvendo esses órgãos. 3.1.1 Definições A nefrectomia é a excisão completa do rim, enquanto a nefrotomia é uma incisão cirúrgica feita no rim. A ureterotomia é uma incisão do ureter, sendo indicada geralmente para remoção de cálculos. Para a correção de ureter ectópico, têm-se a neoureterostomia, que é um procedimento indicado nos casos de ureteres ectópicos intramurais, e a ureteroneocistotomia, que envolve a implantação de um ureter na bexiga. 3.1.2 Anatomia Os rins se localizam no espaço retroperitoneal lateral à aorta e à veia cava caudal. Eles têm uma cápsula fibrosa e são mantidos em sua posição pelo tecido conjuntivo subperitoneal. O polo cranial do rim direito se encontra na altura da 13ª costela, enquanto o polo cranial do rim esquerdo localiza-se a cerca de 5 cm caudais ao terço superior da última costela. A pelve renal é uma estrutura em forma de funil que recebe a urina e a direciona para o ureter. Geralmente, cinco ou seis divertículos curvam-se para fora da pelve renal.