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APOSTILA AFECÇÕES CIRÚRGICAS DA CAVIDADE ABDOMINAL LAILA (1)

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APOSTILA 
AFECÇÕES CIRÚRGICAS DA CAVIDADE ABDOMINAL EM CÃES E 
GATOS 
 
1. CAVIDADE ABDOMINAL 
 A cavidade abdominal pode ser dividida em três regiões virtuais: epigástrica, 
mesogástrica e hipogástrica. A epigástrica é limitada cranialmente pelo diafragma e 
caudalmente pela face caudal da décima terceira costela. A mesogástrica é limitada 
cranialmente pela face caudal da décima terceira costela e caudalmente pela crista ilíaca. 
Por fim, a região hipogástrica é limitada cranialmente pela crista ilíaca e caudalmente 
pelo limite caudal do abdômen. 
 A maioria dos procedimentos cirúrgicos em cães e gatos ocorre na cavidade 
abdominal, sendo o acesso mais comum obtido através da linha média ventral. Os 
procedimentos podem possuir finalidades diagnósticas, terapêuticas ou prognósticas. 
 
1.1 DEFINIÇÕES 
A celiotomia é uma incisão na cavidade abdominal. A laparotomia, tecnicamente, 
é um termo que se refere somente às incisões no flanco, porém é amplamente utilizado 
como um sinônimo à celiotomia. A celiotomia pode ser classificada em ventral mediana 
(pela linha média ventral) e paracostal (pelo flanco). 
 
1.2 ANATOMIA 
 Na linha média ventral encontra-se a linha alba, uma zona fibrosa, espessa e 
branca. Ela é formada pela convergência das fibras das aponeuroses dos músculos 
oblíquos abdominal externo e interno, e abdominal transverso. Em seguida, essas fibras 
passam externamente ou internamente nos músculos reto do abdômen, estendendo-se 
cranial e caudalmente ao longo da parede abdominal ventral. Nos cães, a linha alba tem 
cerca de 2 a 3 mm de largura, e é observada como uma depressão entre os músculos 
abdominais retos. Nos gatos, a linha alba pode ter 4 mm de largura, sendo visualizada 
como uma faixa branca horizontal bem definida (FIGURA 1). 
 
 
 
 
 
 
Figura 1 - Anatomia da bainha do músculo reto do abdômen. 
 
Fonte: FOSSUM, 2008. 
 
 Na parede abdominal lateral encontram-se os músculos oblíquos abdominais 
externo e interno, em suas porções mais espessas. As fibras destes músculos se cruzam 
de maneira à formarem ângulos retos. O músculo abdominal transverso surge em duas 
partes (lombar e costal), e suas fibras estendem-se em direção dorsoventral. A superfície 
interna é recoberta pelas fáscia transversa e peritônio. 
 Após uma incisão completa da cavidade abdominal, a primeira estrutura 
encontrada é o peritônio. Este é uma delicada camada serosa que contêm uma pequena 
quantidade de líquido seroso que é constantemente renovada, e facilita o deslizamento 
das diferentes vísceras que reveste. Os omentos são largas lâminas de peritônio que 
mantêm e envolvem os órgãos e vísceras abdominais, e podem ser divididos em omento 
maior e menor. O tamanho do omento maior, que se origina da curvatura maior do 
estômago, varia. O omento possui várias funções, mas nenhuma delas é vital; ele aumenta 
a área de superfície serosa para produção e absorção de fluídos; também previne que os 
intestinos se insinuem entre o estômago e o fígado, onde eles poderiam ficar presos. 
Os órgãos contidos nesta cavidade estão distribuídos nas três regiões que a 
subdividem, sendo elas a epigástrica, mesogástrica e hipogástrica. A região epigástrica é 
limitada cranialmente pelo diafragma e caudalmente pela face caudal da décima terceira 
costela, contendo o fígado, estômago, pâncreas, rins e baço. A região mesogástrica é 
limitada cranialmente pela face caudal da décima terceira costela e caudalmente pela 
crista ilíaca, sendo composta por intestinos, ovários e ureteres. Por fim, a região 
hipogástrica é limitada cranialmente pela crista ilíaca e caudalmente pelo limite caudal 
do abdome (intrapélvico), e os órgãos são bexiga, próstata, uretra e reto (FIGURA 2). 
 
Figura 2 - Limites das regiões do abdômen ventral. A – cartilagem xifoide; B – cicatriz 
umbilical; C – asa do íleo; D – diafragma; E – última costela. 
 
Fonte: GOMEZ, 1993. 
 
1.3 TÉCNICAS CIRÚRGICAS 
 O local cirúrgico deve ser preparado de forma que a incisão possa ser realizada 
em toda sua extensão. Para uma visualização adequada de todas as estruturas da cavidade 
abdominal, a incisão deve se estender do processo xifoide ao púbis. Caso seja necessária 
a visualização de uma estrutura específica, uma incisão menor é mais indicada, podendo 
ser na região abdominal cranial (processo xifoide ao umbigo) ou caudal (umbigo ao 
púbis). Por vezes, pode ser necessária a ampliação lateral da incisão mediana ao nível do 
processo xifoide, para facilitar a exposição do diafragma, fígado e sistema biliar. O acesso 
paracostal (paralombar) pode ser indicado para um melhor acesso aos rins e glândulas 
adrenais. 
 
1.3.1 Celiotomia ventral mediana 
O paciente deve ser posicionado em decúbito dorsal. Iniciar a incisão cutânea na 
linha média ventral, tendo a extensão e localização conforme o procedimento desejado. 
Realizar a incisão no tecido subcutâneo com bisturi até que a fáscia externa do músculo 
reto do abdômen esteja exposta. Ligar ou cauterizar os pequenos sangramentos 
subcutâneos para que a linha alba seja identificada. Elevar a parede abdominal para fazer 
a incisão na linha alba com uma lâmina de bisturi, e palpar a superfície interna, através 
do defeito, em busca de aderências. Utilizando uma tesoura, estender a incisão 
cranialmente ou caudalmente (ou ambos) até próximo da incisão de pele. Romper ou 
retirar o ligamento falciforme, realizando hemostasia. 
Para as incisões caudais em cães machos, deve-se pinçar e prender o prepúcio 
lateralmente, podendo utilizar uma toalha ou compressa. A incisão de pele torna-se 
paramediana (paralela à linha média) na região do prepúcio (lado oposto às estruturas 
presas). Após a pele incisada, os músculos prepuciais e vasos sanguíneos ficam divididos 
para que o pênis e prepúcio possam ser refletidos lateralmente e a linha alba acessada ao 
longo da linha média. As grandes ramificações dos vasos que fornecem o suprimento 
sanguíneo do prepúcio devem ser ligados (FIGURA 3). 
Figura 3 - Celiotomia ventral mediana. A – em gatos e cadelas; B – em cães machos. 
 
Fonte: FOSSUM, 2008. 
 
1.3.2 Celiotomia paracostal 
 O paciente deve ser posicionado em decúbito lateral, com uma toalha enrolada ou 
outro tipo de apoio abaixo da região lombar, entre o animal e a mesa. Fazer uma incisão 
na pele, estendendo-se da coluna vertebral ventral até próximo à linha média ventral, 
centralizando entre a asa do íleo e a última costela. Estender a incisão através do músculo 
oblíquo externo com tesoura. Separar as fibras dos músculos obliquo interno e transverso, 
expondo a fáscia peritoneal e transversa, que deve ser elevada e seccionada com tesoura 
(FIGURA 4). 
 
Figura 4 - Celiotomia paracostal. A – incisão feita caudal à última costela; B – retração 
e separação do músculo oblíquo abdominal externo; C – divisão dos músculos abdominais 
oblíquo interno e transverso, e incisão do peritônio; D-1 e D-2 – fechamento por 
justaposição das camadas musculares. 
 
Fonte: BELLENGER, 2007. 
 
1.3.3 Fechamento 
 De uma maneira geral, a incisão da linha média é fechada em três camadas: reto 
do abdômen e suas bainhas, tecido subcutâneo e pele. Em cada lado da incisão, as fáscias 
devem ser incorporadas em cada sutura, incorporando perfurações da espessura total da 
parede abdominal, sem englobar o ligamento falciforme. Deve-se ter cuidado ao apertar 
as suturas, fazendo-as na intensidade suficiente para unir as bordas, mas não o bastante 
para estrangular o tecido, comprometendo uma boa cicatrização da ferida. Em uma 
incisão paramediana, fechar a bainha externa do músculo reto do abdômen sem incluir o 
músculo e o peritônio nas suturas. Para a celiotomia paracostal, fechar individualmente 
as camadas de músculos, tentando eliminar os espaços mortos entre as camadas 
musculares. Fechar o tecido subcutâneo com um padrão contínuo simples, reunindo as 
fibras musculares. As suturas de pele devem serO ureter, artéria e veia renais penetram na borda medial do rim através do 
hilo, que leva a um recesso central, o seio renal, que está revestido por uma continuação 
da cápsula renal, contendo muita gordura. Vasos linfáticos e nervos renais estão 
intimamente relacionados à veia e artéria renais. Considerando que a aorta e a veia cava 
se situam paralelamente, estando a aorta localizada à esquerda da cava, o rim esquerdo 
tem uma veia renal relativamente longa, e o rim direito tem uma artéria renal 
relativamente longa. A artéria renal normalmente se bifurca em ramos dorsal e ventral, 
porém é comum que haja variações. 
 Os ureteres, de modo análogo aos rins, são estruturas retroperitoneais. Eles se 
estendem na direção caudo-medial ao longo dos músculos sublombares, começando na 
pelve renal. Ao se aproximarem do estreito pélvico, os ureteres deixam a posição 
sublombar e ganham acesso à superfície dorsal da bexiga, obliquamente, por meio de dois 
orifícios semelhantes à fendas, entre as duas camadas de peritônio que formam os 
ligamentos laterais da bexiga. O suprimento sanguíneo para o ureter provém da artéria 
ureteral cranial (vinda da artéria renal) e da artéria ureteral caudal (vinda da artéria 
prostática ou vaginal). 
 
3.1.3 Princípios gerais 
 As enfermidades renais, ureterais ou uretrais podem causar insuficiência renal 
aguda ou crônica, ou podem estar associadas com essas insuficiências de outras causas. 
Os pacientes renais podem ter alterações metabólicas significativas além da azotemia, 
que consiste no aumento das concentrações de compostos nitrogenados no plasma, sendo 
identificado clinicamente como o aumento na concentração plasmática de creatinina e/ou 
ureia. 
 Para a cirurgia renal, é realizada uma incisão na linha média abdominal a partir do 
apêndice xifoide em direção caudal até a cicatriz umbilical. Caso haja necessidade de 
incisão no ureter distal ou na bexiga, a incisão deverá ser estendida até o púbis. O rim 
direito é exposto por elevação do duodeno e deslocamento de outras alças intestinais no 
sentido lateral esquerdo do animal. De modo semelhante, o rim esquerdo é exposto pela 
elevação do mesocólon para que o intestino delgado seja retraído para o lado direito do 
animal. Os rins podem ser isolados do restante do conteúdo abdominal através da 
utilização de esponjas de laparotomia ou compressas estéreis umedecidas. Todo o 
conteúdo abdominal deve ser inspecionado antes da exploração do trato urinário. 
 Contusões moderadas ou fraturas do parênquima renal cicatrizam primariamente 
pela síntese de tecido conjuntivo fibroso, mas a contração cicatricial desses ferimentos é 
mínima. Entretanto, a pelve renal e os ductos coletores sofrem certo grau de atrofia e 
formação de tecido cicatricial, resultando em estenoses. O uroepitélio possui enorme 
potencial proliferativo e pode fechar uma área lesada em até 48h, mas técnicas não-
apropriadas podem resultar em estenoses. 
 As principais complicações da cirurgia renal são insuficiência renal, hemorragia 
e extravasamento de urina. Nas cirurgias ureterais, as principais complicações podem ser 
o extravasamento urinário e as obstruções devido à estenose ou ao estreitamento do 
lúmen. 
 
3.1.4 Afecções cirúrgicas 
 
3.1.4.1 Ureter ectópico 
 O ureter, normalmente, penetra na superfície dorsolateral caudal da bexiga e se 
esvazia dentro do trígono após um curso intramural (FIGURA 17). Ureter ectópico é uma 
anomalia congênita na qual um ou ambos os ureteres se abrem externamente à bexiga, 
em pontos distais ao trígono. Os ureteres ectópicos extramurais (extraluminais) 
contornam a bexiga sem fazer conexão anatômica, abrindo-se diretamente no colo da 
bexiga, na uretra, na vagina ou no útero; ocorrem com pouca frequência em animais de 
pequeno porte. Os intramurais (intraluminais) cursam por via submucosa pela bexiga para 
se abrirem no colo da bexiga, na uretra ou vagina (FIGURA 18). Estas ectopias podem 
estar comumente associadas com outras anomalias do sistema urinário, como ausência de 
rins, rins pequenos ou de forma irregular, displasia renal, hidronefrose, dilatação uretral, 
bexiga pélvica, restos uracais e forma anormal da junção cistoureteral. 
 
Figura 17 - Ureteres normais. 
 
Fonte: FOSSUM, 2008. 
 
Figura 18 - Diferentes tipos de ectopia ureteral. A – intramural; B – extramural; C – 
abertura ureteral dupla; D – canal ureteral longo estreito e superficial. 
 
Fonte: FOSSUM, 2008. 
 
 Ureteres ectópicos são a causa congênita mais comum de incontinência urinária 
nos cães. Eles resultam de desenvolvimento anormal dos ductos metanéfricos no útero. 
Aproximadamente 70 a 80% dos cães acometidos apresentam ectopia unilateral 
intramural ou extramural, sendo a lesão intramural mais comum. Embora a ectopia 
ureteral seja menos comum em gatos, a lesão bilateral pode ocorrer mais frequentemente 
em gatos do que em cães. A correção cirúrgica de ectopia ureteral é recomendada, mas a 
presença de outras anormalidades já citadas aumenta a probabilidade de incontinência 
pós-operatória. 
 Incontinência urinária intermitente ou contínua desde o nascimento ou desmame 
é o sinal clínico mais frequente. No entanto, também podem ser observados padrões de 
eliminação urinária normais, em particular se a condição for unilateral, se a abertura dos 
ureteres for próxima ao trígono e ocorrer o preenchimento retrógrado da bexiga, ou a 
bexiga ser de tamanho suficiente para atuar como um reservatório. Nestes casos, o 
diagnóstico pode ocorrer em animais mais velhos que não apresentam evidência de 
incontinência urinária. O grau de incontinência é variável e não pode ser utilizado para 
determinar a localização dos orifícios ureterais. Ao exame físico, podem ser observados 
presença de pelos molhados ou manchados pela urina na região perivulvar ou 
periprepucial, odor e irritação ou assadura urinária da pele ao redor da vulva. 
 O tamanho e a forma dos rins, bexiga e próstata devem ser avaliados com inspeção 
abdominal radiográfica. A urografia excretora é o método mais comumente utilizado para 
a confirmação de ureteres ectópicos e definição de anormalidades urogenitais associadas, 
porém não é tão sensível quanto a cistoscopia e não diferencia perfeitamente todas as 
lesões intra e extramurais. A ultrassonografia também é um método diagnóstico bastante 
útil, podendo permitir uma determinação mais precisa da anatomia ureteral normal do que 
a urografia excretora. 
 A correção cirúrgica é o tratamento de escolha, mesmo que ocorra melhora 
marginal com o tratamento clínico. A cirurgia deve ser realizada o quanto antes para evitar 
anormalidades secundárias causadas por infecções ascendentes do trato urinário ou 
obstruções do fluxo. A neoureterostomia é realizada no caso de ureteres ectópicos 
intramurais. Se for uma anomalia extramural, o ureter deve ser ressecado e reimplantado 
dentro do lúmen da bexiga, realizando uma ureteroneocistotomia. Neste caso, em felinos, 
as técnicas de ureteroneocistotomia padrão frequentemente causam obstrução ureteral, 
sendo indicada a realização de uma técnica extravesical com um padrão de sutura 
interrompido simples. Rins não-funcionais e seus ureteres devem ser removidos, sendo 
que a porção terminal do ureter deve ser ligada o mais próximo possível de sua 
terminação. 
 No pós-operatório, devem ser observados sinais de obstrução urinária ou 
vazamento. A tumefação do estoma ureteral é provavelmente comum após a cirurgia e 
pode causar alguma obstrução do fluxo ureteral, mas normalmente permanece não 
detectada e desaparece sem tratamento. Cerca de 30 a 35% dos pacientes continuam a 
apresentar algum grau de incontinência pós-operatória, devido à associação de 
anormalidades funcionais da bexiga ou uretra. 
Técnica cirúrgica 
Neoureterostomia – Manusear o tecido vesical com bastante cuidado e usar 
suturas de apoio sempre que possível. Fazer uma incisão ventral dentro da bexigapróximo 
da uretra. Colocar suturas estabilizadoras para facilitar a retração da borda da parede da 
bexiga. Inspecionar o trígono para aberturas ureterais. Identificar inchaço da submucosa 
ou aresta dentro da parede da bexiga, sendo que este procedimento pode ser facilitado 
ocluindo-se digitalmente a uretra para causar sua dilatação. Fazer uma incisão 
longitudinal de 3 a 5 mm através da mucosa da bexiga para dentro do lúmen ureteral. 
Usando um material de sutura absorvível 5-0 a 7-0, suturar a mucosa ureteral à bexiga 
com um padrão interrompido simples. Colocar um cateter dentro do ureter distal. 
Imediatamente distal ao novo estoma, passar uma ou duas suturas não-absorvíveis a partir 
da superfície serosa, circularmente ao redor do tubo, fixando-as abaixo da mucosa. 
Certificar-se de que a sutura não tenha penetrado no lúmen da bexiga. Usar esta sutura 
para ligar o ureter distal após remover o cateter (FIGURA 19). Fechar a uretra proximal 
com sutura simples interrompida ou simples contínua, mas certificar-se de que o diâmetro 
uretral não esteja comprometido. Fechar a bexiga de tal maneira que garanta um 
fechamento impermeável. 
 
Figura 19 – Neoureterostomia: indicada para ureteres ectópicos intramurais. 
 
 
Fonte: FOSSUM, 2008. 
 
Ureteroneocistotomia – Realizar uma cistotomia ventral como foi descrito 
previamente para neoureterostomia. Ligar o ureter e seccioná-lo, preservando a maior 
parte possível. Colocar uma sutura de sustentação na extremidade proximal do ureter 
seccionado. Fazer uma incisão na mucosa da bexiga e criar um túnel oblíquo e curto 
submucoso na parede da bexiga. Usar a sutura de sustentação para puxar o ureter para 
dentro do lúmen da bexiga para evitar lesão do mesmo. Fazer uma incisão longitudinal 
de 1 a 2 mm no final do ureter, espatulando-o, e suturá-lo na mucosa da bexiga com sutura 
absorvível (FIGURA 20). 
 
Figura 20 – Ureteroneocistostomia: indicada para ureteres ectópicos extraluminais. 
 
Fonte: FOSSUM, 2008. 
 
Para realizar uma técnica padrão de sutura interrompida simples extravesical, 
fazer uma incisão parcial espessa através da camada muscular e submucosa da face 
ventral do ápice da bexiga para expor a mucosa. Fazer a incisão espatulada na 
extremidade distal do ureter e uma incisão igual à espatulação em comprimento através 
da mucosa da bexiga na face caudal da incisão muscular. Colocar uma sutura 
interrompida simples (náilon 7-0 ou 8-0) entre o ureter proximal no final da espatulação 
e a face cranial da incisão da mucosa da bexiga, e uma segunda sutura interrompida entre 
o final distal do ureter e a face caudal da incisão da mucosa da bexiga. Colocar um cateter 
após as duas primeiras suturas serem laçadas, e removê-lo antes do enlaçamento das 
suturas finais da camada mucosa. Colocar duas suturas interrompidas adicionais entre a 
mucosa ureteral e a mucosa da bexiga sobre um lado da incisão. 
 
3.1.4.2 Cálculos renais e ureterais 
 Em cães e gatos, os urólitos em rins e ureteres ocorrem com menos frequência que 
cálculos císticos, correspondendo a apenas 5 a 10%, e podem ser uni ou bilaterais. Os 
urólitos são denominados de acordo com seu conteúdo mineral e sua localização. Os 
nefrólitos constituem um desafio diagnóstico e terapêutico único, pois podem ser 
clinicamente silenciosos ou os animais podem apresentar dor, febre e/ou insuficiência 
renal atribuída à obstrução da eliminação urinária, fibrose ou infecção. Os ureterólitos 
podem não apresentar sinais clínicos específicos. 
 Existe uma controvérsia quanto à remoção cirúrgica desses cálculos. Se houver 
infecção associada, os cálculos devem ser removidos, mas se forem contaminados e 
estiverem localizados na pelve renal, a remoção cirúrgica pode causar mais danos do que 
o próprio cálculo. Os ureterólitos comumente causam obstrução e requerem remoção 
cirúrgica imediata. O tratamento não-cirúrgico através da litotripsia pode não ser efetiva 
em determinados cálculos, como os de oxalato de cálcio, que não são sensíveis à 
dissolução. Além disso, é uma técnica menos disponível na medicina veterinária e menos 
eficaz, quando comparada a sua aplicação na medicina humana. 
 Todo cálculo removido cirurgicamente deve ser submetido à análise, pois o 
conhecimento de sua composição mineral direciona o tratamento apropriado para evitar 
recidiva. Existe uma correlação entre a presença do urólito e de infecção, de maneira que, 
é difícil ou impossível eliminar as infecções do trato urinário se houver a presença do 
cálculo. Diante disso, é imprescindível a realização de cultura bacteriana da urina. Outros 
fatores devem ser considerados na tomada de decisão do tratamento cirúrgico, como a 
eficácia do tratamento conservador na dissolução dos cálculos, a função renal no rim 
acometido e no contralateral, a saúde geral do paciente e a presença de uropatia obstrutiva 
(hidronefrose, hidroureter ou insuficiência renal). 
 Alguns fatores predispõem à formação dos cálculos, dentre eles destacam-se o pH 
urinário favorável, presença de infecção, alta concentração de cristaloides na urina e 
diminuição da concentração de inibidores de cristalização. Há predisposição racial devido 
a anormalidades metabólicas ou processos patológicos subjacentes, além de apresentar 
maior taxa de acometimento em animais e meia-idade e mais velhos. 
 Os sinais clínicos variam, podendo estar associados à presença de obstrução ou se 
há infecção concomitante, e podem ser contínuos ou intermitentes, ou os pacientes serem 
assintomáticos. Comumente se observa a ocorrência de estrangúria, hematúria e/ou 
polaciúria. Em gatos, os sinais são mais inespecíficos, como anorexia ou inapetência, 
vômito, perda de peso, poliúria e polidipsia. 
 O diagnóstico deve ser realizado preferencialmente através de radiografias, pois a 
maioria dos cálculos é radiopaco e aparece como opacidade aumentada na pelve renal ou 
ureteral. A ultrassonografia é o exame de eleição para avaliação das anormalidades 
associadas (hidronefrose ou hidroureter), obtendo melhores resultados do que a urografia 
excretora. No entanto, a presença dos cálculos renais e ureterais pode ser um achado 
incidental destes exames de imagem. 
 Os cálculos renais podem ser removidos através de uma nefrotomia ou de uma 
pielolitotomia. Se a pelve renal e o ureter proximal estiverem suficientemente dilatados, 
é preferível uma pielolitotomia, pois isso evita uma incisão do parênquima renal e lesão 
subsequente. Entretanto, se o cálculo for grande e envolver o divertículo e a pelve, a 
nefrotomia é a melhor opção. É de extrema importância a avaliação da função renal de 
cada rim, pois o que parece estar macroscopicamente em estágio final, pode ser o rim 
com a maior parte da função remanescente. A ureterotomia deve ser realizada através de 
uma combinação de técnicas microcirúrgicas e cuidados pós-operatórios intensivos para 
minimizar a morbidade. É preferível, caso seja possível, tentar uma irrigação retrógrada 
dos cálculos ureterais para a pelve renal, com o intuito de removê-lo através de 
pielolitotomia ou nefrotomia, pois esse procedimento evita complicações associadas com 
a cirurgia ureteral primária, como extravasamento urinário ou obstrução causada por 
estenose ou estreitamento. 
Técnica cirúrgica 
Nefrotomia – Deve-se localizar os vasos renais e ocluí-los temporariamente com 
pinça vascular, um torniquete ou com um dedo do assistente. Mover o rim para expor a 
superfície lateral convexa. Fazer uma incisão em cunha ao longo da linha média da borda 
convexa da cápsula do rim e então dissecar claramente através do parênquima renal, 
ligando os vasos quando necessário. Examinar a pelve renal, removendo os cálculos e 
lavar o rim com solução salina morna. Avaliar o ureter para desobstruí-lo por meio da 
colocação de sonda uretral flexível pela extremidade do ureter e também lavá-lo com 
líquidos mornos. Fechar a nefrotomia por aproximação dos tecidosincisados e aplicando 
pressão digital por aproximadamente 5 minutos, enquanto se restabelece o fluxo 
sanguíneo através dos vasos renais. Como uma alternativa, fechar a cápsula com um 
padrão contínuo de material de sutura absorvível. Se a hemostasia adequada não for 
conseguida ou se o vazamento da urina se constituir em motivo de preocupação, colocar 
suturas absorvíveis através do córtex em padrão de colchoeiro horizontal. Então suturar 
a cápsula em padrão contínuo com material absorvível (FIGURA 21). Recolocar o rim 
em seu local de origem, podendo ser feitas suturas no peritônio para auxiliar na sua 
estabilização. 
 
Figura 21 - Nefrotomia para remoção de cálculos localizados na pelve renal. 
 
Fonte: FOSSUM, 2008. 
 
Pielolitotomia – Dissecar o rim para separá-lo de suas ligações sublombares e 
expor a superfície dorsal. Identificar o ureter e os vasos renais. Fazer uma incisão sobre 
a pelve dilatada e ureter proximal, e remover o cálculo. Lavar a pelve renal e o divertículo 
com solução salina morna para remover pequenos fragmentos. Em seguida, lavar o ureter 
para garantir sua desobstrução. Fechar a incisão em um padrão contínuo com sutura 
absorvível 5-0 ou 6-0 (FIGURA 22). 
 
 
Figura 22 - Pielolitotomia para remoção de cálculo quando o ureter proximal está 
dilatado. 
 
Fonte: FOSSUM, 2008. 
 
Ureterotomia – Fazer uma incisão transversa ou longitudinal no ureter dilatado 
próximo ao cálculo e removê-lo. Colocar um cateter pequeno, de borracha macia, dentro 
do ureter proximal e distal à incisão e lavar o ureter com jato de líquido morno. Assegurar-
se de que o cálculo tenha sido removido e que o ureter tenha sido desobstruído. Fechar a 
incisão com sutura absorvível 5-0 a 7-0, com pontos interrompidos simples. Como uma 
alternativa, se o ureter não estiver dilatado e se for provável a formação de constrição, 
fazer uma incisão longitudinal sobre o cálculo e fechar a incisão de modo transverso 
(FIGURA 23). Se o ureter for lesado, fazer ressecção e anastomose ou desvio urinário 
proximal com um tubo de nefropielostomia. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 23 - Ureterotomia, realizada ocasionalmente para remoção de cálculos 
obstrutivos. 
 
Fonte: FOSSUM, 2008. 
 
3.1.4.3 Neoplasia renal e ureteral 
 Os tumores renais em cães e gatos são incomuns, sendo que cerca de 85% dessas 
neoplasias são malignas e comumente há metástase torácica. Em cães, os carcinomas são 
os tumores mais comuns, também conhecidos como carcinoma tubular renal e 
adenocarcinoma tubular renal; já em gatos, o linfoma primário ou metastático a neoplasia 
mais frequentemente encontrada. 
 As neoplasias renais têm quatro origens distintas (tipos), sendo elas tubular renal, 
células de transição, nefroblásticos e não-epiteliais. As metástases podem acontecer em 
fígado, glândulas supra-renais, pulmões, linfonodos, ossos e cérebro. A metástase 
pulmonar é detectada radiograficamente em metade dos cães com neoplasias renais; e as 
metástases renais de outros tumores abdominais primários são comuns. 
 Os sinais clínicos podem ser locais ou sistêmicos de insuficiência renal, e são por 
vezes inespecíficos, podendo incluir perda de peso, anorexia depressão, anemia, dispneia 
e febre. Ao exame físico, uma massa abdominal pode ser palpável, e os rins podem estar 
aumentados, duros ou nodulados. A radiografia abdominal pode identificar o aumento 
renal, mas a ultrassonografia é mais sensível e específica. A urografia excretora pode 
auxiliar na localização da neoplasia e definir se há envolvimento do parênquima. 
 A nefrectomia está indicada para os tumores renais malignos, caso eles sejam 
unilaterais e sem evidências de metástase. No entanto, as metástases frequentemente estão 
presentes no momento do diagnóstico. Todo o abdômen deve ser explorado antes no 
início da remoção do rim, e o ureter adjacente deve ser identificado para que não seja 
ligado inadvertidamente. O ureter inteiro deve ser removido com o rim acometido 
correspondente. As principais complicações incluem hemorragia e extravasamento de 
urina. Quanto ao prognóstico, por se tratarem de neoplasias malignas altamente 
metastáticas, o mesmo é reservado. Se a nefrectomia for realizada antes da formação de 
metástase ou se for uma neoplasia benigna, o prognóstico é bom, podendo a cirurgia ter 
caráter curativo. A quimioterapia adjuvante pode prolongar a sobrevida do paciente. 
Técnica cirúrgica 
Nefrectomia – Deve-se envolver o peritônio sobre o rim e incisioná-lo. Usando 
uma combinação de dissecção romba e constante, liberar o rim de suas fixações 
sublombares. Elevar o rim e retraí-lo medialmente para colocar a artéria e veia renais na 
superfície dorsal do hilo renal. Identificar todos os ramos da artéria renal e fazer uma 
dupla ligadura com sutura absorvível ou não-absorvível próximo à aorta abdominal para 
se certificar de que todos os ramos tenham sido ligados. Identificar a veia renal e realizar 
sua ligadura de modo semelhante. Ligar o ureter próximo à bexiga (FIGURA 24). 
Remover o rim e o ureter, e após obtenção de amostras apropriadas para cultura, submetê-
las ao exame histopatológico. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 24 - Nefrectomia, com a localização da artéria e veia renais e ureter na superfície 
dorsal do hilo renal. 
 
Fonte: FOSSUM, 2008. 
 
 
3.2 BEXIGA 
 A bexiga é um órgão muscular oco que recebe urina dos rins e funciona como 
reservatório até a expulsão da urina através da uretra. As anormalidades mais comuns em 
pequenos animais são a cistolitíase, neoplasia e ruptura. A obstrução urinária pode ser 
decorrente do alojamento de cálculo na uretra ou se um tumor obstruir a uretra proximal 
ou o trígono. 
 
3.2.1 Definições 
 A urolitíase é um termo que se refere ao fato de haver cálculos urinários ou 
urólitos, seja em rins, ureter, bexiga ou uretra. Cistolitíase é o desenvolvimento de cálculo 
na bexiga. Cistotomia é a incisão cirúrgica na vesícula urinária com seu posterior 
fechamento. Cistectomia é a remoção de uma porção da bexiga. O trígono da bexiga é 
uma porção triangular lisa da membrana mucosa na base da bexiga, localizada próximo à 
uretra, onde os ureteres se esvaziam. Uroabdômen é a presença de urina na cavidade 
abdominal, podendo ter vazado dos rins, ureteres, bexiga ou uretra. 
 
3.2.2 Anatomia 
 A localização e as dimensões da bexiga variam de acordo com a quantidade de 
urina presente. Em cães, ela se localiza parcialmente no interior do canal pélvico quando 
vazia, mas se movimenta cranialmente e ventralmente para o abdômen caudal quando se 
distende; em gatos, ela habitualmente se localiza no interior do abdômen caudal, entre o 
umbigo e o púbis. Em um cão de 12 kg, a bexiga pode conter até 120 ml de urina, sem se 
tornar amplamente distendida. A bexiga fica frouxamente apoiada por reflexões 
peritoneais que formam ligamentos laterais bilaterais e um ligamento ventral médio 
solitário. Sua função de armazenamento e como força por trás da expulsão da urina fica 
facilitada pelo grande número de fibras musculares lisas interdigitantes da parede vesical, 
conhecidas coletivamente como músculo detrusor. 
 A bexiga se divide em três regiões, sendo eles o ápice (parte cranial), o corpo 
(parte média) e o colo (parte caudal), que a conecta à uretra. Internamente, o trígono se 
localiza sobre a superfície dorsal do colo da bexiga, sendo a base dessa área formada 
pelos dois orifícios ureterais. A mucosa da bexiga se compõe de epitélio de transição que, 
normalmente, se esfolia para a urina. Em casos de inflamação crônica ou infecção do trato 
urinário, ocorre uma hiperplasia e hipertrofia da mucosa, resultando em espessamento da 
parede da bexiga. 
 A irrigação sanguínea se dá através das artérias vesicais cranial e caudal, que são 
ramos das artérias umbilical e urogenital, respectivamente. O sangue venoso drena para 
as veias pudendas internas, e os linfáticos drenampara os linfonodos hipogástricos, 
sublombares e ilíacos mediais. A inervação da bexiga é complexa, possuindo aferência 
autônoma e somática, de modo que a inervação simpática provém dos nervos 
hipogástricos, enquanto a parassimpática se dá via nervo pélvico. A inervação somática 
origina-se em fibras da medula espinhal sacral que formam o nervo pudendo, o qual atua 
no esfíncter externo da bexiga e a musculatura estriada da uretra. 
 
3.2.3 Princípios gerais 
 A vesícula urinária é um órgão que se recupera rapidamente, readquirindo 100% 
do vigor tecidual normal em cerca de 14 a 21 dias após o procedimento cirúrgico, e a 
completa reepitelização ocorre em 30 dias. A bexiga possui capacidade de aumento após 
cistectomia parcial, de maneira que, mesmo que 75% de seu tecido seja removido, a 
recuperação do seu tamanho original e os volumes normais de eliminação de urina 
ocorrem dentro de poucos meses. Desde que o trígono e a uretra proximal estejam 
preservados, a expansão da bexiga se dá como resultado da combinação de regeneração 
epitelial, síntese e remodelagem do tecido cicatricial, hipertrofia e proliferação da 
musculatura lisa e alongamento do remanescente vesical. 
 A oclusão de incisões ou lacerações vesicais pode ser realizada com padrões 
invertidos em dupla ou única camada, sendo indicado em casos onde a parede vesical é 
fina; ou padrões aposicionais, sendo preferíveis quando a bexiga é pequena ou há 
espessamento da parede vesical. Contudo, independente do padrão a ser realizado, a 
mucosa não deve ser penetrada, pois o contato da urina com o material de sutura pode 
provocar enfraquecimento prematuro, e também pode funcionar como um ninho para a 
formação de cálculos; complicação esta que também pode ser evitada com a utilização de 
suturas absorvíveis. A omentalização é indicada quando a integridade da parede vesical 
e a vascularização são questionáveis, e para prevenir a formação de aderências. 
 
3.2.4 Afecções cirúrgicas 
 
3.2.4.1 Cálculos vesicais 
 A urolitíase é comum em cães e gatos, sendo que muitas vezes envolve um ou 
mais locais no trato urinário, mas a bexiga é o local mais comum para a ocorrência e 
remoção de cálculos. Estes se formam mais comumente em animais de meia idade a 
idosos, mas também podem ser encontrados em cães com menos de um ano de idade, 
onde geralmente são cálculos de estruvita decorrente de infecções do trato urinário. Em 
gatos, cerca de 21% dos casos de urolitíase havia presença de sinais clínicos de doença 
do trato urinário inferior. 
 Os cálculos de estruvita (fosfato de amônio e magnésio) e de oxalato de cálcio são 
os mais comuns em cães, seguidos pelos de urato, silicato, cistina e tipos mistos. Os 
cálculos de estruvita frequentemente estão associados à presença concomitante de 
infecção do trato urinário, então faz-se necessário a realização de cultura da urina, da 
parede vesical e dos cálculos. Parece ter havido uma diminuição gradativa da incidência 
dos cálculos de estruvita, enquanto que os que contêm oxalato de cálcio tem aumentado, 
tanto em cães como em gatos. 
 A dissolução de alguns tipos de cálculos pode ser realizada, no entanto, a remoção 
cirúrgica inicialmente é indicada, com o intuito de realizar o diagnóstico do tipo de 
cálculo, ou em casos onde a concreção esteja causando ou possa vir a causar obstrução 
urinária. Após a análise do urólito e determinação do seu tipo, uma conduta clínica 
adequada, envolvendo antibioticoterapia e terapia nutricional, são medidas críticas para 
minimizar a possibilidade de recidivas. 
 Os sinais clínicos presentes podem estar associados às infecções do trato urinário, 
como hematúria, polaciúria e estrangúria; além de distensão vesical, dor abdominal, 
incontinência urinária e sinais de azotemia. Alguns cálculos podem se alojar na uretra e 
causar obstrução parcial ou completa, podendo levar ao aparecimento de vômitos, 
anorexia e depressão. Ao exame físico, pode-se notar espessamento da parede da bexiga 
e os cálculos podem ser palpáveis. O diagnóstico pode ser realizado através de radiografia 
e ultrassonografia abdominal, onde pode-se avaliar e definir o número e a localização dos 
cálculos, sejam vesicais, uretrais, renais e/ou ureterais, como também avaliar as 
anormalidades simultâneas. A cistografia de duplo contraste e/ou uretrografia retrógrada 
podem ser o método mais sensível para o diagnóstico dos cálculos. 
 Em casos de obstrução uretral, a descompressão da bexiga deve ser realizada ou 
atenuada, através da realização de urohidropropulsão. Essa técnica permite que os 
cálculos uretrais sejam propelidos de volta à bexiga ou que os pequenos cistólitos sejam 
removidos, tanto em machos como em fêmeas, evitando também a realização de 
uretrostomia associada à cistotomia. A técnica consiste na colocação de um cateter na 
uretra, distalmente ao cálculo, com uma injeção de solução salina estéril enquanto a uretra 
é ocluída entre o cálculo e a bexiga por um dedo no reto (ou vagina, nas fêmeas). Uma 
vez estando a uretra dilatada, o dedo deve ser removido, permitindo que o cálculo seja 
deslocado para a bexiga (FIGURA 25). Caso a obstrução não possa ser desfeita, a 
uretrostomia é indicada. 
 
 
 
 
 
 
Figura 25 - Urohidropropulsão, utilizada para propelir cálculos uretrais de volta para a 
bexiga. 
 
Fonte: FOSSUM, 2008. 
 
 As complicações associadas à cistotomia não são comuns, mas consistem 
principalmente no extravasamento de urina. Diante disso, no pós-operatório, a emissão 
de urina deve ser monitorada, avaliando-se também a ocorrência de obstruções. A taxa de 
recidiva pode variar entre 12 a 25% e está diretamente relacionada ao tipo do cálculo e 
falha do tratamento clínico associado. 
Técnica cirúrgica 
Cistotomia – Deve-se isolar a bexiga do restante da cavidade abdominal pela 
colocação de tampões umedecidos por baixo dela. Colocar suturas de sustentação no ápice 
da bexiga para facilitar a manipulação, e fazer a incisão na face dorsal ou ventral, ao longo 
dos ureteres e entre os maiores vasos sanguíneos. Caso haja presença de divertículo no 
ápice da bexiga, removê-lo, se necessário. O ideal é a remoção de uma pequena secção 
da parede da bexiga, adjacente à incisão, para realização de cultura. Remover os cálculos 
e examinar cuidadosamente a uretra em busca de cálculos adicionais. Em cães machos, 
colocar um cateter a partir do orifício uretral peniano e ocluir a abertura vesico-uretral 
com um dedo por dentro do lúmen vesical. Com uma oclusão digital da uretra peniana, 
injetar solução salina estéril em jato para dilatar a uretra, e em seguida, remover o dedo 
da abertura vesico-uretral. Este procedimento deve ser repetido até a constatação de que 
não haja mais cálculos no lúmen uretral. A síntese da bexiga deve ser feita com um padrão 
contínuo com material absorvível. Para fechamento em camada dupla, suturar as camadas 
seromusculares com duas linhas de sutura contínuas invertidas, podendo ser Cushing 
seguido de Lembert. Se o animal apresentar tendência à hemorragia grave, pode-se, 
opcionalmente, suturar a mucosa com uma camada separada com padrão de sutura 
contínua simples (FIGURA 26). 
 
Figura 26 - Cistotomia. 
 
Fonte: FOSSUM, 2008. 
 
3.2.4.2 Neoplasias 
 O câncer de bexiga é o tipo mais comum de neoplasia que acomete o trato urinário 
em cães, mas representa menos de 1% de todas as neoplasias caninas. Em gatos, o 
linfossarcoma renal é mais comum que a neoplasia vesical. O carcinoma de células 
transicionais é um tumor maligno surgido de um tipo de célula transicional do epitélio 
estratificado, e é o tumor mais comumente diagnosticado em cães e gatos. Outros tumores 
malignos incluem carcinomas de células escamosas, adenocarcinoma, fibrossarcoma, 
leiomiossarcoma, neurofibrossarcoma, rabdomiossarcoma e hemangiossarcoma. Os 
tumores vesicais benignos são menos comuns, e destacam-se os fibromas, leiomioma, 
hemangiomas, rabdomiomas,mixomas e neurofibromas. Os pólipos císticos 
inflamatórios são encontrados ocasionalmente. As metástases de outras neoplasias para a 
bexiga são incomuns, porém os cães com tumores vesicais frequentemente apresentam 
tumores concomitantes em outro local. 
 Os sinais clínicos geralmente envolvem hematúria, polaciúria, estrangúria, 
disúria, incontinência, poliúria e polidipsia. Ao exame físico, pode-se observar presença 
de massa abdominal caudal, prostatomegalia, distensão vesical, dor abdominal, fraqueza, 
linfoadenopatia, tosse ou dispneia, e claudicação. Essas alterações ao exame físico são 
normais em cerca de um terço dos animais com neoplasias vesicais. 
 Os exames radiográficos, tanto torácicos como abdominais, podem avaliar quanto 
à presença de metástases, avaliando linfonodos, pulmões e vértebras. A cistografia de 
contraste duplo ou uretrografia de contraste positivo e ultrassonografia abdominal são as 
ferramentas mais comumente usadas para diagnóstico de neoplasia vesical, além de 
permitir o estadiamento da doença. Na maioria dos casos, a confirmação do diagnóstico 
de tumor da bexiga comumente depende do exame histopatológico. No entanto, até 30% 
dos cães podem ter a presença de células neoplásicas identificadas no sedimento urinário. 
 O tratamento cirúrgico para neoplasia de bexiga é problemático. Em cães, o local 
mais comum para ocorrência de neoplasia de bexiga é o trígono; e em gatos, esse tumor 
pode ocorrer mais comumente no ápice da bexiga ou difusamente pelo órgão. Embora os 
ureteres possam ser seccionados e implantados em outro local, se for no ápice da bexiga 
após cistectomia parcial, pode ocorrer incontinência urinária; e caso seja em um local 
distante, como o cólon, após cistectomia completa, pode causar pielonefrite e/ou 
incontinência. Em casos de tumores benignos, a excisão cirúrgica pode ser curativa. 
 Por causa da natureza maligna de muitos tumores do trato urinário inferior, o 
prognóstico é reservado. A quimioterapia utilizada como tratamento primário em animais 
com carcinoma de células transicionais que não são passíveis de ressecção, ou como 
terapia adjuvante após a excisão cirúrgica, pode promover maior sobrevida aos pacientes. 
Técnica cirúrgica 
Examinar os linfonodos sublombares, ureteres e outros órgãos abdominais para 
evidenciar extensões tumorais ou metástases. Para neoplasia vesical, localizar a entrada 
dos ureteres no trígono e retirar o tumor, com uma margem cirúrgica de pelo menos 1 cm, 
inclusive removendo tecido normal. Evitar lesão em ureteres. Se uma grande porção da 
bexiga for removida, colocar um cateter urinário e suturar a bexiga com padrão de sutura 
contínua de aposição, mas também pode ser usada uma sutura de camada dupla de padrão 
invertido. Se o trígono estiver envolvido, considerar o desvio urinário ureterocolônico, a 
quimioterapia ou a eutanásia. 
 
 
4. FÍGADO 
 O fígado é a maior glândula do corpo, podendo representar cerca de 3,5% do peso 
corporal em cães. É o sítio primário do metabolismo (detoxicação) de muitas substâncias, 
como proteínas, carboidratos e gorduras, e produz a maioria das proteínas plasmáticas do 
organismo. As coagulopatias podem estar associadas à alterações hepáticas, pois podem 
ocorrer devido à diminuição da síntese de fatores de coagulação ou ao consumo dos 
mesmos. 
 Os sinais clínicos de doença hepática podem não estar aparentes até que a doença 
esteja avançada e a disfunção seja irreversível. A insuficiência hepática pode se refletir 
em muitos outros sistemas do organismo, incluindo o sistema nervoso central (SNC), rins, 
intestinos e coração. 
 
4.1 DEFINIÇÕES 
 A hepatectomia se refere tanto à remoção de todo o fígado (hepatectomia total), 
como a remoção de uma porção (hepatectomia parcial). 
 
4.2 ANATOMIA 
 A superfície diafragmática (superfície parietal) do fígado é convexa e se localiza 
em contato com o diafragma. A superfície visceral volta-se caudoventralmente e à 
esquerda, e fica em contato com o estômago, duodeno, pâncreas e rim direito. O fígado 
de cães e gatos é dividido em cinco lobos, quatro sublobos, e dois processos. O lobo 
esquerdo é o maior e é subdividido em lobos lateral e medial esquerdo. Uma fenda 
substancial separa as duas porções do lobo esquerdo, fazendo com que o acesso cirúrgico 
para as bases dos lobos lateral esquerdo e medial esquerdo seja menos exigente, 
tecnicamente, em comparação com as abordagens do lado direito. A fissura profunda 
também separa o lobo medial esquerdo do lobo quadrado, e se estende até próximo ao 
esôfago. O lobo quadrado encontra-se quase na linha média, onde sua face lateral forma 
um lado da fossa da vesícula biliar, e está diretamente ligado ao lobo medial direito, tendo 
apenas uma pequena fissura separando estes dois lobos, o que torna a separação cirúrgica 
mais difícil. O lobo lateral direito é geralmente fundido em sua base com o lobo caudado, 
que é subdividida em processos caudado e papilar. O processo caudado é a parte mais 
caudal do fígado, que se estende geralmente ao nível do 12º espaço intercostal. O processo 
papilar se estende para o lado esquerdo, cruzando a linha média, e é vagamente coberto 
pelo omento menor. As bordas do fígado são normalmente afiladas, mas parecem mais 
arredondadas em animais jovens ou naqueles que com fígado infiltrado, congesto ou com 
cicatrizes (FIGURA 27). 
 
Figura 27 - Anatomia do fígado. 
 
 
Fonte: FOSSUM, 2008. 
 
 O fígado possui dois suprimentos sanguíneos aferentes, um sistema porta de baixa 
pressão e um sistema arterial de alta pressão. A veia porta drena o estômago, intestinos, 
pâncreas e baço, e supre quatro quintos do sangue que entra no fígado. O restante do 
suprimento sanguíneo aferente provém das artérias hepáticas próprias. Essas artérias são 
ramos da artéria hepática comum, podendo ser de dois a cinco ramos. A drenagem 
eferente é feita através das veias hepáticas. 
 A bile, formada no fígado, é descarregada nos canalículos biliares que se 
localizam entre os hepatócitos. Estes canalículos se unem para formar os ductos 
interlobulares que, finalmente, se unem para formar os ductos lobares ou biliares. O 
ligamento hepatoduodenal é formado pela veia porta, ductos biliares, artéria hepática, 
vasos linfáticos e nervos, que estão contidos na porção do omento menor em forma de 
laço. 
 
4.3 PRINCÍPIOS GERAIS 
 As cirurgias do fígado são consideradas como tecnicamente desafiadora na 
cirurgia de pequenos animais, pois os pacientes muitas vezes são fisiologicamente 
comprometidos, é um órgão altamente vascularizado, o acesso cirúrgico é dificultado 
devido à baixa mobilidade do órgão, e parênquima hepático é frequentemente friável, 
gerando dificuldades no momento das suturas. No entanto, alguns cuidados podem 
reduzir os riscos associados, como uma avaliação cuidadosa do paciente, o manejo pré-
operatório, o conhecimento da complexa anatomia e fisiologia, e a flexibilidade para 
mudar os planos no intra-operatório. 
 Um grande volume de sangue passa em baixa pressão pelo fígado, de maneira que, 
para resistir ao colapso sobre os vasos que percorrem o interior do órgão, ele possui uma 
consistência mais firme, o que, por sua vez, o torna friável. A presença das fissuras 
permite que o fígado se adapte à forma mutável do diafragma ou ao arqueamento costal, 
evitando que sofra uma fratura caso se encurve demasiadamente. 
 O fígado está envolvido em muitos processos metabólicos, como metabolismo de 
proteínas, lipídeos e carboidratos; síntese e secreção dos sais biliares; armazenamento de 
vitaminas e minerais; metabolismo da bilirrubina; síntese dos fatores de coagulação; 
metabolismo de hormônios e da água; biotransformação de agentes xenobióticos; e 
vigilância imune. Anormalidades em uma ou mais dessas funções dão origem aos muitos 
sinais clínicos da doença hepática, como anorexia, letargia, vômito, diarreia, perda de 
peso, poliúria, polidipsia,ascite, hemorragia gastrointestinal, icterícia e encefalopatia. 
 O fígado tem a capacidade singular de regular seu crescimento e sua massa, sendo 
único entre os órgãos viscerais em suas propriedades cicatriciais. A destruição de 
hepatócitos causada por lesão viral, bacteriana ou química, ou por hepatectomia parcial, 
dispara mecanismos de replicação dos hepatócitos, enquanto o aumento da massa do 
fígado é corrigido por apoptose. Ele possui relativamente pouco estroma de tecido 
conectivo, é altamente suscetível a pequenas mudanças no fluxo sanguíneo e tem uma 
enorme capacidade regenerativa. A capacidade funcional é um parâmetro relativo, mais 
do que absoluto. O ponto-limite para regulação do crescimento é a relação entre massa 
do fígado e massa corporal. A otimização dessa relação indica que o fígado atinge um 
estado em que esse órgão realiza o grau de trabalho metabólico necessário para atender 
às necessidades do corpo. Acredita-se que uma adequada função é possível em pacientes 
mesmo após a remoção ou destruição de 80% do órgão. 
 Lacerações hepáticas devem ser fechadas apenas quando o sangramento é profuso. 
Se as lacerações forem suturadas, isso deve ser realizado de uma forma que não criem um 
bolso interno de bile ou sangue, ou causem isquemia nas células adjacentes. A artéria 
hepática própria pode ser ligada como uma medida de emergência para controlar a 
hemorragia nas lacerações hepáticas extensas. Caso essa ligadura não resulte em 
hemostasia, as fraturas complexas ou contusões graves devem ser tratadas por lobectomia 
hepática. 
 A complicação mais comum e séria da cirurgia hepática é a hemorragia, que pode 
ser decorrente de ligaduras que deslizam do tecido hepático friável. É preciso ter certeza 
de que um coto de tecido permanece distal á ligadura quando suturas circundantes são 
utilizadas para biópsia ou hepatectomia parcial. A peritonite biliar pode ocorrer se a 
vesícula biliar ou os ductos biliares forem lesionados inadvertidamente. Uma ressecção 
hepática grande pode ter como complicações hipertensão portal, ascite, febre, hemorragia 
ou drenagem biliar persistente. 
 
4.4 AFECÇÕES CIRÚRGICAS 
 
4.4.1 Torção de lobo hepático 
 A torção do lobo hepático ocorre quando um lobo hepático se torce em relação ao 
seu próprio eixo, ocorrendo estrangulamento vascular, causando aumento da pressão 
hidrostática, ascite e trombose, além de uma subsequente necrose hepática. É uma 
alteração rara em cães e gatos. 
 A etiologia ainda não foi esclarecida, mas foram propostas que doenças 
abdominais podem causar afrouxamento dos ligamentos de sustentação de um lobo, ou 
uma ausência congênita ou ruptura traumática dos ligamentos hepáticos. A torção do lobo 
lateral esquerdo é mais comum, presumivelmente por possuir maior mobilidade, ser 
maior e relativamente mais separado dos lobos adjacentes. 
 Os sinais clínicos não são específicos, podendo ocorrer o surgimento agudo de 
debilidade, letargia, anorexia, dor e aumento abdominal, colapso e choque, além da 
possibilidade de uma morte aguda. Nos exames diagnósticos, é possível observar uma 
massa abdominal cranial e presença de ascite na avaliação radiográfica e 
ultrassonográfica. O animal deve ser examinado cuidadosamente em busca de sinais de 
trauma. 
 Durante o procedimento cirúrgico, há necessidade de exploração abdominal para 
confirmar o diagnóstico e remover o lobo hepático acometido pela técnica de lobectomia, 
sem uma desrotação do lobo torcido, para impedir a liberação de toxinas bacterianas. 
Estabilização hemodinâmica apropriada, pronta intervenção cirúrgica e antibioticoterapia 
são importantes para obter resultados positivos. 
Técnica cirúrgica – Lobectomia completa 
Após preparação cirúrgica se estendendo do meio do tórax ao púbis, com uma 
incisão abdominal cranial ventral na linha média, a exploração do fígado deve ser 
realizada. Para os lobos esquerdos em cães e gatos pequenos, esmagar o parênquima 
próximo ao hilo com os dedos ou um fórceps. Colocar uma ligadura ao redor da área 
esmagada e amarrar. Para os lobos esquerdos em cães maiores e para os lobos caudado e 
direito, dissecar cuidadosamente, se necessário, o lobo da veia cava caudal. Isolar os vasos 
sanguíneos e ductos biliares próximos ao hilo e fazer uma ligadura dos mesmos. Fazer 
uma ligadura dupla ou costurar sobre as terminações dos grandes vasos. Retirar o tecido 
do parênquima, deixando um coto de tecido distal às ligaduras para prevenir a retração 
do tecido hepático das ligaduras e a hemorragia subsequente. 
 
 
5. BAÇO 
 As doenças esplênicas que necessitam de tratamento cirúrgico geralmente 
apresentam esplenomegalia difusa ou focal. As alterações difusas podem ser atribuídas à 
congestão, infiltração por infecção, imunomediada ou neoplasias; já as focais podem ser 
causadas por processos benignos ou neoplásicos. 
 O baço não é um órgão essencial para a vida, mas tem sua importância, de forma 
que a conservação da função esplênica deve ser preservada sempre que possível. As 
funções incluem condicionamento e manutenção dos eritrócitos, armazenamento dos 
eritrócitos e das plaquetas, hematopoiese extramedular, e filtração do plasma quanto à 
presença de antígenos. 
 
5.1 DEFINIÇÕES 
 Esplenomegalia é o aumento de volume esplênico difuso ou generalizado. 
Esplenectomia é a remoção cirúrgica do baço. 
 
5.2 ANATOMIA 
 O baço de cães e gatos está localizado no quadrante abdominal cranial esquerdo. 
O baço sadio apresenta formato de língua, exibindo maior comprimento que largura, e 
está dividido em duas porções, uma extremidade dorsal (cabeça) e uma ventral (cauda). 
Geralmente se localiza paralelamente à curvatura maior do estômago, porém a localização 
exata depende do tamanho e posição dos demais órgãos abdominais. Quando o estômago 
está contraído (vazio), todo o baço repousa sob o gradil costal. Entretanto, com o aumento 
gástrico massivo, ele pode situar-se no abdômen caudal. A cápsula esplênica é composta 
por fibras elásticas e musculares lisas. O parênquima consiste em uma polpa branca 
(tecido linfoide) e vermelha (seios venosos e tecido celular preenchendo os espaços 
intravasculares). Um grande número de receptores alfa-adrenérgicos é o responsável pela 
contração esplênica, momento em que apresenta consistência firme. A coloração 
normalmente é vermelha, mas a presença de placas sideróticas (depósitos de ferro e 
cálcio, marrons ou cor de ferrugem) ou fibrina podem mudar sua aparência. 
 O suprimento arterial normalmente se dá através da artéria esplênica, um ramo da 
artéria celíaca, que geralmente tem mais de 2 mm de diâmetro e dá origem a 3 a 5 ramos 
primários longos, conforme se desloca no omento maior em direção ao terço ventral do 
baço. O primeiro ramo geralmente segue para o pâncreas e é o suprimento principal do 
segmento esquerdo pancreático. Os dois ramos remanescentes se deslocam em direção à 
metade proximal do baço, de onde partem 20 a 30 ramos esplênicos, penetrando no 
parênquima. Os ramos continuam então no ligamento gastroesplênico em direção à 
curvatura maior do estômago, onde formam as artérias gástricas curtas e a artéria 
gastroepiplóica esquerda. Outros ramos suprem o ligamento esplenocólico e o omento 
maior. A drenagem venosa se dá através da veia esplênica para o interior da veia 
gastroesplênica, que se esvazia na veia porta (FIGURA 28). 
 
Figura 28 - Vascularização esplênica em cães e gatos. 
 
 
Fonte: FOSSUM, 2008. 
 
5.3 PRINCÍPIOS GERAIS 
 O baço deve ser abordado através de uma ampla incisão na linha média abdominal, 
que se estende do xifoide até um ponto caudal ao umbigo. A exploração abdominal 
completa deve ser realizada sempre que houver suspeita de neoplasia. A principal 
complicação da cirurgia esplênica é a hemorragia, estando mais associada com a biópsia 
ou esplenectomia parcial, considerando-se que tenha sido utilizada técnica apropriada 
para ligadura dos vasos.5.4 AFECÇÕES CIRÚRGICAS 
 
5.4.1 Torção esplênica 
 Torção do baço é a rotação em torno do seu pedículo vascular, resultando em 
obstrução venosa com subsequente esplenomegalia. Tipicamente, a veia esplênica de 
parede delgada está ocluída, apesar de a artéria esplênica permanecer parcialmente 
patente. É uma condição cirúrgica relatada mais comumente em cães de raças grandes e 
gigantes, que possuem conformação torácica profunda. Muitas vezes, está associada à 
síndrome de dilatação vólvulo-gástrica, mas também ocorre como condição isolada, com 
causas ainda não esclarecidas. A torção pode estar relacionada a anormalidades 
congênitas ou rupturas traumáticas dos ligamentos gastroesplênicos ou esplenocólicos. 
 Pode ser uma condição aguda, com os cães exibindo sinais de dor abdominal 
significativa e colapso, ou crônica, com sinais inespecíficos de dor abdominal 
intermitente, vômito, anorexia, distensão abdominal, perda de peso, poliúria, polidipsia, 
e as mucosas mostram-se pálidas ou ictéricas, sendo este último sinal presente tanto na 
aguda como na crônica. A alteração mais proeminente pode ser o aumento de volume do 
baço ou uma massa no abdômen médio, embora o baço pode não ser facilmente palpável 
em alguns casos. Em cães com colapso cardiovascular e choque, observa-se também 
taquicardia, tempo de preenchimento capilar prolongado e/ou pulsação periférica fraca. 
 As modalidades de diagnóstico utilizadas nestes casos são a radiografia e a 
ultrassonografia. Os achados radiográficos podem confundir com neoplasias e rupturas 
esplênicas, podendo ser difícil de discernir o contorno esplênico. A ultrassonografia 
abdominal é uma excelente ferramenta diante da suspeita de torção esplênica, onde pode 
revelar um baço aumentado de volume, difusamente hipoecóico, com ecos lineares 
separando grandes áreas anecóicas; o que forma um padrão característico de torção. O 
tratamento de eleição é cirúrgico e emergencial, sendo a esplenectomia total a melhor 
indicação, para que não ocorra recidiva e nem complicações do quadro. 
Técnica cirúrgica 
Após explorar o abdômen, exteriorizar o baço e colocar esponjas abdominais 
úmidas ou almofadas de laparotomia ao redor da incisão sob o baço. Ligar duplamente e 
transseccionar todos os vasos do hilo esplênico com material de sutura absorvível 
(preferível) ou não-absorvível. Se possível, preservar os ramos gástricos curtos que 
suprem o fundo do estômago. Como uma alternativa, abrir a bursa omental e isolar a 
artéria esplênica. Identificar o ramo ou ramos que suprem a porção esquerda do pâncreas. 
Ligar duplamente e transseccionar a artéria esplênica distalmente a esse vaso (ou esses 
vasos) (FIGURA 29). 
 
Figura 29 - Esplenectomia total. 
 
Fonte: FOSSUM, 2008. 
 
5.4.2 Neoplasia esplênica 
 As neoplasias esplênicas em cães representam um distúrbio comum, embora 
sejam consideradas raras em seres humanos e em outras espécies domésticas. Em gatos, 
cerca de 37% das lesões esplênicas são neoplásicas, demonstrando uma menor 
probabilidade quando comparadas aos cães, que representam cerca de 50% das lesões. 
Por ser composto por uma variedade de tecidos, as neoplasias esplênicas podem se 
originar de vasos sanguíneos, tecido linfoide, músculo liso ou tecido conjuntivo que 
forma o estroma fibroso. 
 A neoplasia em baço mais comum em cães é o hemangiossarcoma. No entanto, 
uma diversidade de outros tipos histológicos pode constituir essas neoplasias, como 
fibrossarcoma, hemangioma, linfossarcoma, mastocitoma, condrossarcoma, histiocitoma 
e outros. As lesões não-neoplásicas mais comumente relatadas são hiperplasia nodular, 
doença hemolítica imunomediada e hematoma. Os gatos desenvolvem tipos distintos de 
tumores esplênicos, como o linfossarcoma, o mastocitoma, as doenças mieloproliferativas 
e o hemangiossarcoma. 
 Por se originar de vasos sanguíneos, o hemangiossarcoma também pode se formar 
em diversos locais diferentes do organismo, além do baço, como átrio direito, tecido 
subcutâneo e fígado. É um tumor agressivo, que frequentemente forma metástases em 
fígado, omento, mesentério e cérebro, de forma que já pode-se observar a doença 
metastática na apresentação inicial. 
 Os sinais clínicos podem ser variados, de acordo com a evolução, tipo de neoplasia 
e presença ou não de metástase. Podem incluir aumento de volume abdominal, anorexia, 
letargia, depressão, vômito, fraqueza, polidipsia e arritmias cardíacas. Se ocorrer ruptura, 
o animal pode apresentar sinais de choque hipovolêmico, como taquicardia, mucosas 
pálidas e pulso periférico fraco. As metástases cutâneas se apresentam através de 
lesões/massas escuras roxo-avermelhadas. 
 As radiografias abdominais podem evidenciar a presença de massas abdominais 
definidas. No entanto, as radiografias torácicas são imprescindíveis para a detecção de 
opacidade pulmonar e outras alterações; a presença de efusão pleural ou infarto de 
linfonodos são compatíveis com presença de doença metastática. A ultrassonografia é 
mais indicada e precisa na identificação de lesões em baço e na detecção de metástases 
abdominais, mas a diferenciação entre lesões neoplásicas e hematomas não é confiável. 
Um ecocardiograma do paciente pode ser um exame imprescindível para a cirurgia e 
prognóstico do paciente, diante da possibilidade de tumores de átrio direito 
concomitantes. O diagnóstico definitivo é realizado através do exame histopatológico, 
devendo-se submeter diversas amostras (cortes) da massa. O tratamento cirúrgico 
indicado é a esplenectomia total, além da estabilização do estado clínico do paciente. 
 O prognóstico para cães com tumores esplênicos é ruim, mesmo sendo submetidos 
à esplenectomia total. O tempo de sobrevida médio de cães com hemangiossarcoma 
esplênico tratados somente com cirurgia variou de 19 a 86 dias. A quimioterapia 
adjuvante pode prolongar a sobrevida de alguns animais. 
 
 
 
 
 
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3 ed. São Paulo: Manole, 2007.aplicadas sem tensão. 
 
 
2. SISTEMA DIGESTÓRIO 
 
2.1 ESTÔMAGO 
As cirurgias gástricas são mais comuns em determinados casos, como a presença 
de corpos estranhos e correção da dilatação vólvulo-gástrica, e menos comuns em casos 
de neoplasias, ulcerações ou erosões, e obstruções benignas da saída gástrica. Em alguns 
casos, uma gastrotomia pode ser convertida em uma gastrectomia parcial para biópsia ou 
de espessura total para remover tumores ou outras lesões focais. 
A capacidade média de um estômago de animais de pequeno porte é bastante 
variável, principalmente por se tratar de um órgão muito distensível. O estômago de um 
cão da raça Beagle suporta cerca de 400 a 500 ml, enquanto que o de um cão de médio 
porte suporta cerca de 700 ml. Os cães de grande porte têm uma capacidade estimada de 
3 litros, mas podem alcançar 7 a 8 litros, em condições não fisiológicas. Já o estômago 
dos gatos é menos variável em suas dimensões e capacidade, podendo aceitar de 300 a 
350 ml de líquido, uma capacidade 2 a 3 vezes maior à do restante do trato 
gastrointestinal. 
Sempre que há exposição do lúmen durante as cirurgias do estômago, existe o 
risco de contaminação da cavidade abdominal, seja por substâncias químicas, partículas 
ou bactérias. Diante disso, sempre devem ser tomadas medidas preventivas com o intuito 
de evitar essa contaminação e uma posterior complicação, como a peritonite. Dentre essas 
medidas, têm-se a aplicação de pontos de reparo, uso de esponjas de laparotomia, 
irrigação intraperitoneal pós-procedimento e a designação de instrumentais cirúrgicos 
“limpos” e “sujos”. 
 
2.1.1 Definições 
A gastrotomia é uma incisão através da parede do estômago para ter acesso ao seu 
lúmen. A gastrostomia é a criação de uma abertura artificial para o lúmen do estômago, 
podendo ser permanente ou temporária. A gastrectomia parcial é a ressecção de uma 
porção do estômago, podendo ter finalidade diagnóstica ou terapêutica. Gastropexia 
consiste na fixação permanente do estômago à parede abdominal. 
 
2.1.2 Anatomia 
O estômago pode ser dividido em regiões: cárdia, fundo, corpo, antro pilórico, 
canal pilórico e óstio pilórico. O esôfago penetra o estômago no óstio cardíaco (cárdia). 
O fundo está dorsal ao óstio cardíaco, e costuma ser preenchido por gás. O corpo (terço 
médio) encontra-se contra os lobos esquerdos do fígado, e é sucedido pela parte pilórica, 
que consiste em pouco menos que um terço do estômago. O antro pilórico possui formato 
de funil e se abre no canal pilórico. O óstio pilórico é o final do canal pilórico e se esvazia 
no duodeno. No entanto, uma série de termos pode ser utilizada para descrever o 
estômago, sejam baseados nas características luminais, já descritas acima, sejam pela 
forma macroscópica ou baseadas na distribuição glandular (FIGURA 5). 
 
Figura 5 - As principais regiões e subdivisões do estômago: lúmen (acima); parede (à 
esquerda); mucosa (à direita). 
 
Fonte: BELLENGER, 2007. 
 
Um estômago cheio e outro vazio diferem quanto à forma. Quando vazio, adota 
várias formas de “J”, enquanto cheio, apresenta-se em forma de “C”. À medida que vai 
enchendo, a curvatura maior torna-se de 2,5 a 4 vezes maior em comprimento que a 
curvatura menor e se move caudoventralmente; a curvatura menor permanece 
relativamente fixa. Formas são adicionalmente modificadas por várias atividades 
musculares, como contrações sistólicas do canal pilórico, contrações gerais do corpo todo 
e peristalse, ondas que criam constrições anulares, particularmente sobre a metade distal. 
Um ciclo típico de motilidade gástrica dura 10-12 segundos. O óstio pilórico está aberto, 
exceto no quinto final do ciclo. Fluidos passam rapidamente, enquanto que alimentos 
sólidos ou pastosos são retidos por mais tempo. 
A parede do estômago consiste de 4 camadas, sendo elas mucosa, submucosa, 
muscular e serosa. A camada mucosa é totalmente glandular e a natureza dessas glândulas 
varia de uma região à outra; ela corresponde à aproximadamente metade do peso do 
estômago. A camada submucosa é bem desenvolvida e bastante vascularizada. A camada 
muscular compõe um terço do peso do estômago, é composta de três camadas, se 
diferindo da maioria das outras partes do trato gastrointestinal, e sua espessura varia nas 
diferentes regiões do órgão. Por fim, têm-se a camada serosa, que é recoberta de peritônio 
visceral. É possível separar facilmente a camada mucosa das camadas submucosa e 
serosa, quando for necessária a realização de retalhos ou de incisões de espessura parcial 
durante a gastropexia. 
O suprimento de sangue arterial do estômago se origina das artérias gástrica 
(curvatura maior) e epiplóica (curvatura menor), que são derivadas das artérias esplênica 
e celíaca, sendo está última um ramo direto da aorta. A drenagem venosa para a veia porta 
é através da veia gastroesplênica, à esquerda, e pela veia gastroduodenal, à direita. O 
ligamento hepatogástrico é a porção do omento menor que passa do estômago ao fígado. 
Determinadas características do estômago permitem uma boa e rápida cicatrização 
das incisões gástricas, como uma extraordinária irrigação sanguínea, um pequeno número 
de bactérias (resultado da acidez gástrica), a rápida regeneração epitelial e os mecanismos 
de defesa promovidos pelo omento. 
 
2.1.3 Afecções cirúrgicas 
 
2.1.3.1 Corpo estranho gástrico 
 Um corpo estranho gástrico é qualquer coisa ingerida pelo animal e que não pode 
ser digerida ou que são digeridas muito lentamente (ossos). Esses corpos estranhos 
também podem ser lineares, como barbantes, fios, linhas e roupas. São corpos estranhos 
comuns em gatos os tricobezoares e corpos estranhos filiformes ou agulhas. Em cães, 
uma diversidade maior de corpos estranhos podem ser observadas, devidos aos seus 
hábitos alimentares mais indiscriminados. A incidência destes corpos estranhos 
gastroduodenais pode corresponder a 30 % em cães e até 48% em gatos. 
 A ausência de histórico não deve descartar a inclusão dos corpos estranhos 
gástricos quando há a presença de sinais clínicos, pois nem sempre há a visualização do 
momento da ingestão. O vômito é o sinal mais frequentemente observado, que pode variar 
quanto à intensidade e frequência, mas também pode estar ausente, quando o corpo 
estranho se localiza no fundo gástrico. Os sinais clínicos podem estar presentes em graus 
variáveis, dependendo do corpo estranho e do tempo transcorrido desde a ingestão, sendo 
eles letargia, anorexia, dor abdominal, distensão gástrica, desidratação, melena ou 
hematêmese e disfunção respiratória. Em alguns casos, é possível que esse diagnóstico 
seja um achado acidental. 
 O diagnóstico pode ser realizado através de exames de imagem, como radiografia 
simples e/ou contrastada, e ultrassonografia abdominal. Os corpos estranhos mais 
radiopacos podem ser visualizados através de estudos radiográficos, mas muitos 
costumam ser mais radiolucentes. Estudos demonstram que a ultrassonografia abdominal 
tende a ser mais eficaz na determinação da causa e da severidade do processo, sendo 
assim mais sensível na detecção de corpos estranhos. Atualmente, as radiografias 
contrastadas estão sendo substituídas pela gastroduodenoscopia, pois além de ser mais 
sensível que as radiografias na pesquisa por corpos estranhos, ainda oferece a chance de 
remoção durante a execução do exame. 
 O tratamento clínico inclui a correção das alterações metabólicas e do equilíbrio 
ácido-básico, além da estabilização cardiovascular. As radiografias devem ser realizadas 
imediatamente antes da cirurgia ou endoscopia, com o intuito de identificar com mais 
precisão a posição do objeto no trato gastrointestinal. A remoção do corpo estranho ocorre 
através da realização de uma gastrotomia. 
Técnica cirúrgica - Gastrotomia 
O animal deve ser colocado em decúbito dorsal, e o abdômen preparado para uma 
incisão na linha média ventral. Essa área deve ser desdeo tórax médio até o púbis, para 
permitir que todo o sistema digestório seja avaliado. Deve-se inspecionar todo o sistema 
em busca de alterações, como obstrução ou perfuração. Se for encontrado um corpo 
estranho linear no piloro que se estende ao trato intestinal, não tentar tracioná-lo para o 
estômago, a menos que se mova com facilidade. Caso contrário, deve-se fazer diversas 
incisões no estômago e intestino para evitar maiores danos. Inspecionar todo estômago 
em busca de perfurações ou necrose, e dependendo da localização, remover o tecido 
lesado ou suturar o tecido normal. 
Para a gastrotomia, colocar suturas de ancoragem no estômago, passando a agulha 
na submucosa. É importante isolar o estômago com almofadas de laparotomia ou 
compressas estéreis umedecidas para reduzir contaminação. Com uma lâmina de bisturi, 
fazer uma incisão no corpo gástrico paralelo ao eixo longo e entre as curvaturas maior e 
menor do estômago (FIGURA 6). Estender a incisão, conforme necessário, com tesouras, 
e continuar com a remoção do corpo estranho. Para fechar a incisão, utilizar material de 
sutura absorvível 2-0 ou 3-0 em padrão de sutura invaginante em duas camadas. Incluir a 
serosa, a muscular e a submucosa na primeira camada utilizando a sutura de Cushing ou 
um padrão simples contínuo, e em seguida, uma sutura de Lembert ou Cushing para 
incorporar as camadas serosa e muscular (FIGURA 7). Antes da síntese da cavidade 
abdominal, substituir os instrumentos e luvas contaminados por outros estéreis. 
 
Figura 6 - Local indicado para realização da gastrotomia. 
 
Fonte: FOSSUM, 2008. 
Figura 7 - Gastrotomia. A – incisão em estocada com acesso ao lúmen gástrico; B – 
ampliação da incisão; C e D – fechamento com um padrão de sutura seromuscular em 
dupla camada. 
 
Fonte: FOSSUM, 2008. 
 
 Os cuidados pós-operatórios consistem na monitorização e correção das 
anormalidades preexistente de líquidos e eletrólitos, bem como para a promoção da 
motilidade gastrointestinal e apetite normais. Deiscência das incisões da gastrotomia são 
raras, devido à abundante irrigação sanguínea e rápida cicatrização do estômago. Os 
animais que persistem com sinais clínicos devem ser reavaliados através de exames de 
imagem por conta de potenciais obstruções. O prognóstico é bom quando o corpo 
estranho é removido e na ausência de perfurações, mas caso tenha ocorrido, o prognóstico 
é reservado, devido à peritonite. 
 
2.1.3.2 Dilatação vólvulo-gástrica 
A dilatação aguda do estômago associada à sua torção, é um evento 
potencialmente complexo e maléfico que requer tratamento médico emergencial. Este 
tratamento, pode ser cirúrgico ou não, na tentativa de otimizar as chances de sucesso e 
consequente manutenção da vida do paciente. A rápida identificação, escolha da terapia 
adequada e estabilização precoce do paciente são os principais componentes de sucesso 
no tratamento. A taxa de mortalidade nos casos de dilatação vólvulo-gástrica (DVG) é 
alta, girando em torno de 20 a 68% dos animais tratados, e está intimamente relacionada 
à identificação precoce das alterações sistêmicas e início correto da terapia médica. 
 Há uma maior predisposição por cães de raças grandes e de tórax profundo, mas 
já foi relatada em gatos e cães de raças pequenas. Pode ocorrer em cães de qualquer idade, 
mas é mais comum em animais de meia-idade e idosos. Acredita-se que alguns fatores 
sejam alguns elementos de risco para o desencadeamento dessa síndrome, como a idade, 
conformação corporal, ingestão rápida de grandes volumes de comida e água, 
fornecimento de uma única refeição diária, composição alimentar e exercício e estresse 
pós-prandial. 
A DVG é diferente do ingurgitamento alimentar (“timpanismo alimentar”), que se 
caracteriza por um consumo conhecido ou presumido de grandes quantidades de volume, 
resultando em estômago excessivamente distendido e cheio de alimento em posição 
normal. Acredita-se que o aumento de volume está associado à obstrução funcional ou 
mecânica da saída gástrica. A causa inicial dessa obstrução é desconhecida, mas acredita-
se que a DVG não ocorra em decorrência de um único fator. Contudo, uma vez que o 
estômago se dilata, os meios fisiológicos normais de remoção de ar são inibidos, pois os 
portais esofágicos e pilóricos estão obstruídos. 
 
 Quando ocorre a DVG, geralmente o estômago sofre rotação em sentido horário, 
quando visto da perspectiva do cirurgião (FIGURA 8). A rotação pode ser em 90 a 360 
graus, mas geralmente é de 220 a 270 graus. Se a rotação for inferior à 180 graus, ela é 
denominada “torção” e, se for superior, será referida como vólvulo. O duodeno e o piloro 
movem-se ventralmente e para a esquerda da linha média e deslocam-se para ficar entre 
o esôfago e o estomago. 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 8 - Direção da rotação gástrica. 
 
Fonte: FOSSUM, 2008. 
 
O estômago está ligado ao baço pelo ligamento gastroesplênico, sendo assim, a 
posição do baço pode variar e frequentemente depende do grau da dilatação gástrica. 
Assim como o estômago, o baço também está sujeito à torção no sentido horário e anti-
horário, em torno de seu próprio pedículo vascular, o que contribui ainda mais para a 
congestão venosa, devido ao deslocamento e oclusão dos seus vasos, levando à sensível 
esplenomegalia e comprometimento arterial. Na maioria dos cães, o baço congesto e 
aumentado de volume acaba retornando às dimensões e coloração normais minutos após 
o reposicionamento. A esplenectomia antes do reposicionamento é indicada em casos de 
trombose venosa ou necrose esplênica. O reposicionamento em casos de necrose é 
contraindicado, pois pode liberar diversos fatores ou mediadores vasoativos, que 
comprometem a circulação sistêmica. 
 O histórico pode incluir distensão progressiva do abdômen levando ao abdômen 
timpânico, ou somente letargia e abdômen distendido. O animal pode demonstrar dor e 
arqueamento costal, sialorréia, inquietação e mímica de vômito não produtivo. À 
palpação abdominal, podem ser encontrados vários graus de timpanismo ou aumento 
abdominal. Ocasionalmente, se palpa a esplenomegalia. Sinais clínicos associados ao 
choque podem estar presentes, incluindo pulso fraco, taquicardia, tempo de 
preenchimento capilar aumentado, mucosas pálidas e/ou dispneia. 
 O diagnóstico pode ser realizado por radiografias, de preferência nas projeções 
lateral direita e dorsoventral, para facilitar o preenchimento com ar do piloro 
anormalmente deslocado, e para que este seja facilmente identificado. A radiografia 
diferencia a dilatação simples da dilatação com vólvulo, e os animais devem ser 
descomprimidos antes do exame. O ar livre no abdômen sugere a ruptura gástrica, e ar 
dentro da parede do estômago indica necrose. No entanto, deve-se tomar cuidado ao 
posicionar o animal para o exame, pois pode levar à aspiração do conteúdo. Deve-se saber 
que, o diagnóstico da dilatação gástrica aguda é estabelecido no exame físico, e que as 
radiografias são para identificar a posição do estômago e determinar a urgência da 
exploração abdominal. 
 Existem duas possibilidades de tratamento para a DVG, o conservador (clínico) e 
o definitivo (cirúrgico). Independente de qual deles seja instituído, deve-se descomprimir 
o quanto antes o estômago, pois, além de melhorar o padrão respiratório, aumentará a pré-
carga e, consequentemente, o débito cardíaco. Recomenda-se que, antes de ser realizada 
a descompressão gástrica, seja primeiramente assegurado um acesso venoso, devido à 
grande liberação de endotoxinas que se acumulam secundariamente à estase vascular e à 
isquemia tecidual. Entretanto, salienta-se que a descompressão deve ser o primeiro passo 
a ser realizado em frente a um quadro de DVG, antes mesmo do acesso venoso para 
reposição de fluidos. Essa descompressão ajuda na eliminação do gás, de forma gradativa, 
enquanto outros procedimentos vão sendo realizados simultaneamente, como,por 
exemplo, o acesso venoso. A descompressão pode ser realizada percutaneamente com 
cateteres intravenosos de grande calibre com um pequeno trocarte, ou, preferencialmente, 
através da passagem de um tubo estomacal. É recomendado que sejam feitas sucessivas 
lavagens com litros de água morna. Essa água é removida por meio de uma bomba de 
sucção ou por gravidade, posicionando a cabeça do animal em um plano inferior ao corpo. 
Devido ao alto risco de pneumonia aspirativa, é aconselhado que o paciente esteja 
entubado durante o procedimento. 
O objetivo do tratamento inicial é a estabilização do paciente, com a administração 
de fluidoterapia, descompressão gástrica, realização de exames diagnósticos, 
administração de antibióticos, e, caso o animal esteja dispneico, a oxigenioterapia se faz 
necessária. Os distúrbios eletrolíticos e ácido-básicos significativos devem ser corrigidos, 
e a monitoração do eletrocardiograma é imprescindível, para a detecção de arritmias 
cardíacas. 
O tratamento cirúrgico deve ser instituído assim que a condição do animal estiver 
estabilizada, e possui três objetivos: inspecionar o estômago e o baço para identificar e 
remover o tecido lesado ou necrótico, descomprimir o estômago e corrigir qualquer mal 
posicionamento, e aderir o estômago à parede abdominal para evitar o subsequente mal 
posicionamento. 
Técnica cirúrgica 
Para uma rotação em sentido horário, uma vez que o estômago tenha sido 
descomprimido, rotacioná-lo no sentido anti-horário segurando o piloro com a mão 
direita, e a curvatura maior com a mão esquerda. Empurrar a curvatura maior, ou fundo 
do estômago, em direção à mesa cirúrgica, enquanto eleva simultaneamente o piloro em 
direção à incisão. Certificar-se de que o baço está normalmente posicionado no quadrante 
abdominal esquerdo. Se houver necrose esplênica ou infarto significativo, fazer uma 
esplenectomia parcial ou total. Remover ou invaginar os tecidos gástricos necrosados. Se 
não houver certeza de que o tecido gástrico permanecerá viável, invaginar o tecido 
alterado. Verificar se o ligamento gástrico não está torcido, e antes de fechar, palpar o 
esôfago intra-abdominal para assegurar-se que o estômago está desrotacionado. Em 
seguida, fazer uma gastropexia permanente. 
A gastropexia deve ser realizada em todos os casos de DVG para evitar recidivas. 
Ela pode ser realizada pelas técnicas incisional (com retalho de músculo), em alça de 
cinto, a circuncostal (por trás da costela) e a gastropexia com tubo. Embora numerosas 
técnicas tenham sido descritas, e a força e extensão da aderência criada por elas difiram 
entre cada técnica, todas elas, quando realizadas de maneira apropriada, evitam a 
movimentação do estômago. É necessário que o músculo gástrico esteja em contato com 
a parede abdominal para a criação de uma aderência permanente, pois a serosa gástrica 
intacta não forma uma aderência permanente em uma superfície peritoneal intacta. 
A gastropexia incisional é mais fácil de realizar quando comparada à circuncostal, 
e minimiza as chances de complicações da gastropexia com tubo. Deve-se fazer uma 
incisão na camada seromuscular do antro gástrico, seguida de outra incisão na parede 
abdominal ventrolateral direita, incisando o peritônio e a fáscia interna dos músculos reto 
abdominal ou transverso abdominal. Em seguida, suturar as margens dessas incisões com 
um padrão simples contínuo usando fio absorvível ou não absorvível 2-0, iniciando pela 
margem cranial até a margem caudal. Certificar-se de que a camada muscular do 
estômago esteja em contato com o músculo da parede abdominal (FIGURA 9). Como 
alternativa, pode-se levantar retalhos no estômago e na parede do abdômen com o intuito 
de aumentar a superfície de contato desses tecidos. 
 
Figura 9 - Gastropexia incisional (com retalho muscular). A – incisão da camada 
seromuscular do antro e na parede abdominal direita ventrolateral; B – sutura das margens 
com padrão simples contínuo; C – certificação do contato entre a camada seromuscular e 
a musculatura. 
 
Fonte: FOSSUM, 2008. 
 
Como principais complicações pós-operatórias, encontram-se a sepse e a 
peritonite, causadas por perfuração ou necrose gástrica, caso o tecido desvitalizado não 
tenha sido adequadamente removido. O prognóstico é reservado com a realização da 
cirurgia, com uma taxa de mortalidade de 45% ou mais, considerado ruim, se ocorrer 
necrose ou perfuração gástrica ou se a cirurgia for protelada. As taxas de recidiva diferem, 
dependendo da técnica utilizada, mas na maioria foram relatadas taxas menores que 10%. 
 
2.1.3.3 Neoplasias gástricas 
 Neoplasias gástricas em cães e gatos são relativamente incomuns. Os tipos 
tumorais mais encontrados são adenocarcinoma (neoplasia gástrica canina mais comum), 
linfoma (neoplasia gástrica felina mais comum), tumor de mastócitos, carcinoma, 
leiomioma, leiomiossarcoma e fibrossarcoma. Com exceção do linfoma, a cirurgia é o 
único tratamento potencialmente curativo para neoplasias gástricas. Os locais mais 
frequentes para ocorrência das neoplasias gástricas são a região de antro pilórico e piloro. 
Geralmente, a curvatura maior do estômago não é afetada por processos neoplásicos. 
Os adenocarcinomas gástricos são neoplasias que frequentemente invadem a 
camada mucosa e se estendem para camada serosa. Geralmente envolve uma grande área 
da parede do estômago, o que impossibilita sua remoção cirúrgica. É comum a presença 
de úlceras como consequência deste tipo de tumor, podendo, dessa forma, ocasionar 
hematêmese ou melena. 
Os linfomas são os tumores gástricos mais comuns em gatos, sendo que a maioria 
destes animais tem teste negativo para o vírus da leucemia felina (FeLV). O linfoma pode 
ser solitário ou difuso no estômago e pode ou não afetar simultaneamente o intestino. 
 Os animais com neoplasia gástrica geralmente têm histórico de anorexia. Podem 
ocorrer também vômitos, hematêmese, melena, letargia, perda de peso e/ou edema. Os 
achados do exame físico variam conforme o curso e a gravidade da doença, e são 
frequentemente inespecíficos. Ocasionalmente, o aumento de volume pode ser observado 
na palpação abdominal, e também pode haver dor abdominal, presente em casos de 
ulceração e pancreatite. 
 O diagnóstico por imagem pode ser realizado através de radiografias, 
ultrassonografia abdominal e endoscopia. As radiografias contrastadas podem evidenciar 
o tumor gástrico, mas são pouco utilizadas devido as vantagens dos outros exames; e o 
estudo radiográfico simples do tórax é feito para avaliar as metástases pulmonares (raras). 
A ultrassonografia é um método sensível para a detecção de tumores gástricos, analisando 
espessamento mural em diferentes graus e motilidade local. A endoscopia é o método de 
escolha, pois pode encontrar os tumores gástricos e outras doenças da mucosa, e ainda 
permite a realização de biópsia da lesão. 
Técnica cirúrgica 
A cirurgia pode ser paliativa ou curativa, dependendo do tipo e da localização do 
tumor. Se o tumor se localizar no corpo, fundo ou antro e invadir a parede gástrica, mas 
não envolver inteiramente a circunferência do estômago, será possível fazer uma 
gastrectomia parcial. O animal deve ser colocado em decúbito dorsal e o abdômen 
preparado para incisão na linha média ventral. Deve-se palpar os linfonodos regionais em 
busca de metástase. Inspecionar o fígado e as outras estruturas abdominais em busca de 
metástase ou espessamento e fazer uma biópsia das lesões suspeitas. Se a lesão aparecer 
localizada no estômago, considerar a ressecção gástrica, pois pode ser curativa. Quando 
o tecido alterado envolve as porções ventral ou dorsal do estômago, usa-se uma incisão 
elíptica contornando a lesão e um pouco do tecido normal adjacente, sendo o fechamento 
o mesmo que para uma gastrotomia simples. 
Gastrectomia parcial – Para remover a curvatura maior do estômago, ligar os 
ramos dos vasos gastroepiplóicosesquerdos ou vasos gástricos curtos (ou ambos) ao 
longo da secção do estômago a ser removida. Cortar o tecido necrótico, deixando uma 
margem de tecido normal com sangramento para a sutura. Fechar o estômago em um 
padrão de sutura invaginante em duas camadas usando fio de sutura absorvível 2-0 ou 3-
0. Incorporar as camadas submucosa, muscular e serosa com uma sutura de Cushing ou 
de padrão simples contínuo na primeira camada. Usar então um padrão de sutura de 
Cushing ou de Lembert para inverter a serosa e a muscular sobre a primeira camada 
(FIGURA 10). 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 10 - Gastrectomia parcial, para remover a curvatura maior do estômago, ligar os 
vasos e excisar o tecido necrótico. Fechar o estômago com padrão de sutura invaginante 
em duas camadas. 
 
Fonte: FOSSUM, 2008. 
 
 O prognóstico é reservado para a maioria das neoplasias gástricas, devido às suas 
características malignas e ao fato de que a maioria não é diagnosticada até estar em estágio 
avançado e já apresentar metástases. Para os animais com lesões benignas, a cirurgia pode 
ser curativa. 
 
 
2.2 INTESTINO DELGADO 
As cirurgias do intestino delgado são indicadas, na maioria das vezes, para 
obstrução gastrointestinal, ocasionadas por corpos estranhos e massas, mas outras 
indicações incluem trauma, mal posicionamento, infecção e procedimentos diagnósticos 
e de suporte, como biópsia, cultura, citologia e tubos de alimentação. 
Os intestinos são as vísceras mais móveis da cavidade abdominal. Essa mobilidade 
é necessária não só para os seus movimentos digestivos, mas também para permitir que o 
abdômen mude de forma e capacidade, que as vísceras adjacentes se encham e esvaziem, 
e que a coluna vertebral possa se flexionar. 
 
2.2.1 Definições 
 A enterotomia é uma incisão no intestino para sua exploração, e a enterectomia é 
a remoção de um segmento do intestino delgado. A ressecção intestinal e a anastomose 
são uma enterectomia com o restabelecimento da continuidade entre as duas 
extremidades. Enteropexia é a fixação se um segmento intestinal à parede abdominal ou 
a outra alça intestinal. 
 
2.2.2 Anatomia 
 Em cães e gatos, os intestinos têm aproximadamente cinco vezes o comprimento 
do tronco, sendo 80% o intestino delgado. Em gatos, ele tem entre 1 e 1,5 metros, e entre 
2 e 5 metros em cães. O intestino delgado é formado pelo duodeno, jejuno e íleo. A parede 
intestinal muda as características de suas secreções em diferentes locais, às vezes de 
forma gradual, sendo importante a diferenciação de um segmento intestinal para outro. 
 O duodeno é a porção mais fixa, iniciando no piloro à direita da linha média e 
estendendo-se aproximadamente por 25 cm. Ele cursa dorsocranialmente por uma curta 
distância, voltando-se caudalmente na flexura duodenal cranial e continua a direita como 
duodeno descendente. Em seguida, ele se volta cranialmente à flexura duodenal caudal 
onde o ligamento duodenocólico se liga. O duodeno ascendente se encontra à esquerda 
da raiz mesentérica. O ducto biliar comum e o ducto pancreático se abrem nos primeiros 
poucos centímetros do duodeno na papila duodenal maior em cães. O ducto pancreático 
acessório se insere caudalmente, na papila duodenal menor. 
 O jejuno forma a maioria das espirais intestinais, encontrando-se no abdômen 
ventrocaudal. Este é o segmento mais longo e móvel do intestino delgado, e inicia-se à 
esquerda da raiz mesentérica, onde o duodeno ascendente se volta para a direita na flexura 
duodenojejunal. O íleo tem um vaso antimesentérico e tem aproximadamente 15 cm de 
comprimento, passando do lado esquerdo para o direito em um plano transverso através 
da região médio-lombar, caudal à raiz do mesentério e se junta ao cólon ascendente à 
direita da linha média no orifício ileocólico. A raiz do mesentério liga o jejuno e o íleo à 
parede abdominal dorsal. Os ramos das artérias celíaca e mesentérica cranial irrigam o 
intestino delgado. Os linfonodos mesentéricos encontram-se ao longo dos vasos no 
mesentério. 
 As camadas da parede intestinal são mucosa, submucosa, muscular e serosa. A 
mucosa é uma barreira importante para separar o ambiente luminal daquele da cavidade 
abdominal. A mucosa saudável e a irrigação sanguínea intestinal são importantes para a 
secreção e absorção intestinais normais. Por ser a camada intestinal que fornece a força 
mecânica, a mucosa deve estar incluída quando se faz a sutura intestinal para promover 
um fechamento seguro. A camada submucosa fornece os vasos sanguíneos, vasos 
linfáticos e nervos, sendo a camada de maior força tênsil. A muscular é necessária para a 
motilidade normal. A serosa é importante para a formação de um fechamento rápido no 
local da injúria ou incisão cirúrgica. 
 
2.2.3 Princípios gerais 
 As cirurgias no intestino delgado são classificadas como limpa contaminada ou 
contaminada. Assim, preconiza-se a realização de antibioticoterapia profilática. A flora 
bacteriana é menor no duodeno e no jejuno que íleo, cólon e reto. O maior número de 
bactérias (aeróbias e anaeróbias) se encontra no cólon. Proliferação anormal de bactérias 
residentes ocorre no intestino envolvido devido ao conteúdo luminal estagnado, e à 
desvitalização da parede, que se constituem em excelentes meios de crescimento. 
Os critérios clínicos e de rotina para avaliação da viabilidade de determinada 
porção do intestino incluem a observação da coloração intestinal, sendo o normal de rósea 
à vermelha e não azul ou enegrecida, textura da parede, peristaltismo, pulsação das 
artérias e sangramento quando da incisão. No entanto, por se tratar de fatores subjetivos, 
a avaliação da viabilidade é muitas vezes dificultada, e não se correlacionam 
necessariamente com a gravidade histológica da lesão intestinal e sobrevida do animal. 
Diante disso, um erro comum é a preservação de áreas cuja viabilidade é questionável, 
sendo que, nesses casos, o seguimento intestinal cuja viabilidade for questionável deve 
ser retirado. A superestimativa de uma área de ressecção com base na avaliação clínica 
não é comumente prejudicial. 
 Uma cicatrização ideal da parede intestinal depende de boa irrigação sanguínea, 
aposição precisa da mucosa e trauma cirúrgico mínimo. Os padrões de sutura mais 
indicados são os de aproximação, pois os padrões de sutura invaginantes ou evaginantes 
retardam a cicatrização e podem ocasionar na formação de estenose. As superfícies 
serosas adjacentes e o omento facilitam o processo cicatricial, pois selam as feridas e 
contribuem para a irrigação sanguínea. A tensão sobre o reparo causada pelo acúmulo de 
ingesta, fluido ou gás, ou a movimentação insuficiente do intestino, aumentam o risco de 
ruptura da incisão. 
 
2.2.4 Afecções cirúrgicas 
 
2.2.4.1 Corpos estranhos intestinais 
A obstrução intestinal intraluminal é uma das indicações mais comuns para 
laparotomia em cães e gatos, e é resultante, na grande maioria dos casos, de ingestão de 
corpos estranhos, que atravessam o esôfago e o estômago podem se alojar no intestino de 
menor diâmetro, geralmente o jejuno. Alguns corpos estranhos continuam a se mover 
lentamente através do intestino, enquanto outros se alojam em um segmento intestinal, 
onde causam obstrução completa ou parcial. 
A obstrução parcial ou incompleta permite a passagem limitada de gás, enquanto 
a obstrução completa não permite que líquido ou gás avancem pela obstrução, sendo 
considerada mais grave quanto ao curso da doença e presença dos sinais clínicos. Quando 
ocorre a obstrução intraluminal completa, o intestino proximal à lesão se distende com 
gás e líquido. O gás é resultante da combinação do ar deglutido e da produção de gases 
orgânicos oriundos da fermentação bacteriana. O acúmulo de líquido é causado pela 
retenção de líquidos ingeridos e secreções. Durante o processo obstrutivo, as secreções 
aumentam e a absorção diminui, sendo que, em situação normal, as secreções sãoreabsorvidas no jejuno distal e íleo. A diminuição da absorção é resultante da congestão 
venosa e linfática, osmolalidade intraluminal aumentada e diminuição da taxa de 
renovação de enterócitos. Após 24h de obstrução completa, o intestino distendido pode 
perder sua capacidade de absorver líquidos e ocorre hipersecreção local, promovendo um 
agravamento do quadro clínico (FIGURA 11). 
O aumento da pressão sobre a parede intestinal provocado pelo corpo estranho 
pode causar estase venosa e edema, seguidos de comprometimento do fluxo arterial, 
ulceração, necrose e perfuração. Corpos estranhos lineares podem causar plicatura do 
intestino delgado e pode levar à necrose extensa devido à isquemia ou pelos danos 
mecânicos do próprio corpo estranho, e causam tipicamente perfuração da borda 
mesentérica do intestino delgado. 
 
Figura 11 - Eventos da fisiopatologia associados à obstrução mecânica do lúmen 
intestinal. 
 
Fonte: FOSSUM, 2008. 
 
A gravidade dos sinais clínicos e alterações metabólicas em animais afetados 
dependem do grau, duração, localização e integridade vascular do segmento envolvido. 
Os sinais comuns são vômito, anorexia, depressão e dor abdominal. O vômito pode ser 
frequente e em jato em casos de obstrução completa proximal, ou mais esporádico e 
menos copioso em casos de obstrução distal ou parcial. A defecação pode estar ausente 
ou com frequência diminuída e as fezes ocasionalmente estão sanguinolentas. A diarreia 
é mais comum em animais com obstrução parcial. Corpos estranhos crônicos, lineares ou 
afiados podem predispor os animais à peritonite e sepse. A massa ou corpo estranho 
podem ser palpáveis, com pressão suave e gradual. 
O diagnóstico é baseado na detecção do corpo estranho ou no padrão obstrutivo 
persistente, além dos exames de imagem, como estudos radiográficos contrastados e 
ultrassonografia abdominal. O sinal radiográfico clássico de obstrução mecânica é a 
presença de várias alças de intestino delgado dilatadas por gases, com diâmetros 
variáveis. Em animais com obstrução completa, a distensão abdominal pode ser grave, e 
o intestino pode ter aspecto túrgido com algumas alças aguçadas ou empilhadas. Nos 
casos de obstrução parcial, as alterações radiográficas são menos graves, e podem não 
diferenciar das alterações decorrentes de gastroenterite, íleo paralítico ou pseudo-
obstrução. As radiografias contrastadas são frequentemente utilizadas para proporcionar 
o diagnóstico definitivo de obstrução. Os achados radiológicos associados com corpos 
estranhos lineares podem visualizar o intestino delgado agregado ou pregueado, e 
presença de múltiplas e pequenas bolhas de gás intraluminais excentricamente 
localizadas. A presença de ar livre evidenciada nas radiografias abdominais é indicativa 
de peritonite, que requer intervenção cirúrgica imediata após a estabilização do paciente. 
A ultrassonografia é mais precisa na detecção de corpos estranhos do que as radiografias 
simples. Em geral, a cirurgia precoce reduz as taxas de mortalidade em animais com 
corpos estranhos intestinais. 
 Assim que a obstrução for diagnosticada e o animal estiver estabilizado, será 
efetuada uma laparotomia exploratória e o trato gastrointestinal todo será examinado 
minuciosamente. Se o intestino estiver relativamente sadio, o objeto será removido por 
meio de uma enterotomia. Se a parede estiver necrótica, a área acometida deverá ser 
ressecada e feita uma anastomose término-terminal. Em cães, corpos estranhos intestinais 
lineares normalmente ancoram no piloro. Em gatos, corpos estranhos lineares são mais 
comumente fixados em torno da língua, devendo a região sublingual ser cuidadosamente 
examinada sob anestesia e, se localizado, o corpo estranho deve ser seccionado. 
Ocasionalmente, o fio ou a linha poderá ser incorporado na língua e recoberto por tecidos. 
O tratamento dos corpos estranhos lineares em gatos pode ser gerido de forma 
conservadora com a transecção, caso esteja preso à base da língua, e cuidados de suporte, 
caso os gatos sejam apresentados logo após a ingestão e os sinais clínicos leves ou 
ausentes. Se o corpo estranho não for eliminado dentro de 3 dias ou o animal apresente 
sinais clínicos, a cirurgia deve ser realizada. Em cães, não há relatos do tratamento 
conservador para corpos estranhos lineares. 
 O prognóstico é bom depois da remoção cirúrgica de um corpo estranho focal ou 
linear em cães e gatos. Caso haja peritonite ou perfurações, o prognóstico é reservado, e 
tende estar associado à morte após a cirurgia. Sem cirurgia, os animais podem morrer por 
choque hipovolêmico ou endotóxico, septicemia, peritonite ou inanição. 
Técnicas cirúrgicas 
Fazer uma incisão através da linha alba que seja suficiente para permitir a 
exploração completa do abdômen. Uma vez localizado o corpo estranho, isolar esta alça 
intestinal do restante da cavidade com compressas cirúrgicas e toalhas estéreis. Retirar 
delicadamente o quimo (conteúdo intestinal) do lúmen do segmento intestinal 
identificado, ocluindo o lúmen em ambas as extremidades com os dedos ou uma pinça 
intestinal atraumática. As obstruções completas podem levar o intestino a uma grave 
distensão e a parecer cianótico. De qualquer modo, postergar a determinação da 
viabilidade intestinal até a descompressão e remoção do corpo estranho por enterotomia. 
Banhar o intestino com solução salina morna por alguns minutos para ajudar a melhorar 
a cor e o peristaltismo. Se o segmento for determinado como viável, continuar a 
enterotomia. 
Para a enterotomia, deve-se fazer uma incisão no tecido de aparência saudável, 
distal ao corpo estranho. Estender a incisão ao longo do eixo longo do intestino com uma 
tesoura Metzenbaum ou com um bisturi, para permitir a remoção do corpo estranho sem 
romper o intestino. Para o fechamento, recortar a mucosa evertida para que sua margem 
se alinhe com a margem serosa, se necessário. Seccionar o lúmen isolado. Fechar a incisão 
com uma força aposicional suave na direção longitudinal ou transversa usando pontos 
simples interrompidos. Colocar suturas através de todas as camadas da parede intestinal 
a 2 mm da margem e 2 a 3 mm entre si, com nós extraluminais. Angular a agulha para 
incluir mais serosa à margem que mucosa, para ajudar a reposicionar a mucosa evertida 
para dentro do lúmen. Amarrar cada nó cuidadosamente sem cortar as camadas da parede 
intestinal para fechar delicadamente todas as camadas intestinais sem traumatizar o 
tecido, usando um material de sutura monofilamentar e absorvível (FIGURA 12). 
Enquanto for mantida a oclusão luminal próximo ao local da enterotomia, distender 
moderadamente o lúmen com solução salina estéril, aplicando uma leve pressão digital e 
observando a ocorrência de extravasamento. Fazer mais pontos se ocorrer extravasamento 
entre as suturas iniciais. Lavar o intestino e o abdômen, caso tenha ocorrido 
contaminação. Colocar o omento sobre a linha de sutura antes de fechar a cavidade. 
Substituir os instrumentos e luvas antes da síntese do abdômen. 
 
Figura 12 - Enterotomia e realização de biópsia. A – ocluir o lúmen e realizar contra-
incisão; B e C – caso necessário, remover tecido adjacente com tesoura de Metzenbaum 
ou bisturi; D – fechar a incisão com pontos simples separados. 
 
Fonte: Adaptado de FOSSUM, 2008. 
 
Se o intestino não estiver viável ou questionável, realizar o ressecamento da 
porção afetada, restabelecendo a continuidade por anastomose término-terminal. Deve-se 
ocluir, através de ligaduras, e transeccionar a arcada de vasos da artéria mesentérica 
cranial que irriga o segmento intestinal. Em seguida, ocluir e transeccionar os vasos da 
arcada terminal e os vasos da vasa reta dentro da gordura mesentérica nos pontos de 
transecção intestinal proposta. Retirar delicadamente o quimo do lúmen, como descrito 
anteriormente, e isolar o segmento intestinal doente. Transeccionar o intestino com uma 
tesourade Metzenbaum ou com um bisturi ao longo do lado de fora da pinça. Quando os 
tamanhos das extremidades intestinais não forem iguais, algumas técnicas ao incisar os 
intestinos podem ser utilizadas. Seccionar as extremidades intestinais e remover os debris 
grudados nas margens do corte com uma esponja de gaze umedecida. Recortar a mucosa 
evertida com uma tesoura de Metzenbaum antes de iniciar a anastomose. Usar um fio 
monofilamentar absorvível, ou monofilamentar absorvível, em caso de peritonite. Fazer 
pontos simples descontínuos através de todas as camadas da parede intestinal. Amarrar 
cada ponto cuidadosamente para fazer a aposição delicadamente das margens do intestino 
com os nós extraluminalmente (FIGURA 13). 
 
Figura 13 - Ressecção e anastomose do intestino delgado. A – ligar os vasos, e após 
oclusão do lúmen transeccionar intestino e mesentério; B – Fazer um ponto em cada borda 
(mesentérica e antimesentérica); C – completar a anastomose com pontos simples 
descontínuos em intestino, e pontos simples contínuos no mesentério. 
 
Fonte: Adaptado de FOSSUM, 2008. 
 
A remoção de corpos estranhos lineares pode requerer gastrotomias e múltiplas 
enterotomias. Deve-se liberar o corpo estranho de onde ele está alojado. Cortar a linha 
que está presa na língua ou fazer uma gastrotomia. Colocar uma pinça hemostática na 
extremidade distal do objeto quando a massa for removida pelo piloro. Puxar 
delicadamente a pinça e identificar o próximo ponto mais distal de colocação da pinça. 
Realizar a enterotomia e remover o corpo estranho mais proximal. Novamente colocar a 
pinça hemostática distalmente, transeccionar o corpo estranho e identificar o próximo 
ponto de colocação da pinça. Repetir até todo o corpo estranho linear ser removido. Evitar 
excesso de tração sobre o corpo que possa levar à laceração em espessura total da borda 
mesentérica. Fechar as enterotomias e inspecionar a borda mesentérica em busca de 
evidências de perfuração. 
 
2.2.4.2 Neoplasia intestinal 
 A neoplasia intestinal é uma condição na qual o tumor se origina de uma ou duas 
camadas da parede intestinal, suas glândulas ou células associadas, ou vasos linfáticos. 
Os tumores intestinais ocorrem, na maioria das vezes, no reto ou cólon dos caninos, e no 
intestino delgado dos felinos. A maioria dos tumores intestinais são malignos. 
Geralmente, invadem a camada muscular comprometendo o diâmetro luminal e 
reduzindo a distensibilidade. Eles podem causar obstrução mecânica intramural ou 
intraluminal. A doença geralmente está em estágio avançado no momento do diagnóstico, 
e a presença de metástase pode ocorrer no caso de tumores malignos. Nesses casos, a 
disseminação pode ser tanto por invasão local para serosa, mesentério, omento e 
linfonodos regionais, como por metástase a distância, para fígado, pulmões e baço. 
 As neoplasias malignas mais comuns do intestino delgado são os 
adenocarcinomas e linfossarcomas. Outros tipos menos comuns são os leiomiomas, 
leiomiossarcomas, fibrossarcomas, mastocitomas, hemangiossarcomas, sarcomas 
anaplásicos, carcinoides, plasmocitomas, neurilemonas, adenomas e pólipos 
anedomatosos. 
 Os sinais clínicos podem ser inespecíficos inicialmente, como depressão, letargia, 
perda de peso, mas podem progredir para diarreia, vômitos e quadro de obstrução 
intestinal. Os sinais referentes à presença de metástases podem aparecer mais 
tardiamente, e variam de acordo com a evolução e os órgãos acometidos. 
 O diagnóstico é semelhante ao descrito para os corpos estranhos intestinais focais, 
através de radiografias e ultrassonografia abdominal. A endoscopia é um exame de grande 
relevância, pois pode detectar irregularidades de mucosa, inflamação, ulceração e 
estenoses luminais, além de permitir a realização de biópsia nos casos de tumores que 
envolvem a mucosa. 
 A ressecção cirúrgica é o tratamento de escolha para os tumores intestinais. 
Quando há presença de metástases, a ressecção pode ser paliativa, mas sempre prezando 
a importância da sutura de tecido saudável a tecido saudável. Quanto à quimioterapia, o 
linfossarcoma pode apresentar boa resposta, mas a resposta dos outros tipos de tumores é 
desconhecida ou ruim. 
 O prognóstico para a ressecção de massas não neoplásicas ou neoplasias benignas 
é excelente, e considerado melhor quando comparado às ressecções completas de 
neoplasias malignas. Comumente, o prognóstico é ruim quando há a presença de 
metástases. 
 
Técnica cirúrgica 
Fazer uma incisão através da linha alba de maneira que se possa explorar todo o 
abdômen e o trato gastrointestinal para evitar que outras alterações passem despercebidas. 
Fazer uma biópsia dos linfonodos mesentéricos e outros órgãos, se necessário, antes de 
incisar o intestino. Ressecar a massa com margens de 4 a 8 cm de tecido 
macroscopicamente normal e realizar uma anastomose término-terminal. Dispensar 
atenção especial à técnica cirúrgica, pois esses animais muitas vezes estão debilitados. 
Submeter o tecido a uma avaliação histopatológica e estadiamento do tumor. Trocar as 
luvas, os instrumentos e fios por outros não contaminados para o fechamento abdominal. 
 
2.2.4.3 Intussuscepção 
 A intussuscepção é o encurtamento ou invaginação de um segmento intestinal 
(intussuscepto) para dentro do lúmen de um segmento adjacente (intussuscipiente) 
(FIGURA 14). Podem ocorrer em qualquer local, mas as intussuscepções ileocólicas e 
jejunojejunais são as mais comuns. A direção pode ser de proximal a distal, e vice-versa, 
sendo mais comum ocorrer na direção do peristaltismo normal, a intussuscepção direta 
ou normógrada. Pode ocorrer em mais de um local, e algumas vezes, pode ser dupla (duas 
invaginações no mesmo local). Além disso, o peristaltismo reverso pode aumentar o 
comprimento do intestino envolvido, mas que pode ser limitado pela quantidade de 
mesentério envolvido. 
 
 
 
Figura 14 - Configuração de uma intussuscepção. 
 
Fonte: Adaptado de FOSSUM, 2008. 
 
 As causas podem estar associadas à enterites, corpos estranhos lineares, massas 
intestinais ou cirurgia abdominal prévia; entretanto, a causa da maioria das enterites é 
desconhecida. Acredita-se que a formação da intussuscepção seja resultado de uma não-
homogeneidade da parede causada por qualquer alteração dentro da parede que altere a 
motilidade ou a pliabilidade local. 
 Os sinais clínicos são os mesmos da obstrução intestinal, como vômito, diarreia, 
depressão e anorexia, e podem variar com o nível da obstrução, se parcial ou completa. 
Ocorrem mais comumente em cães jovens, com menos de 1 ano de idade. 
O diagnóstico presuntivo pode ser feito através da palpação de uma alça intestinal 
espessada e alongada. O diagnóstico por imagem envolve radiografias, ultrassonografia 
abdominal e colonoscopia. As radiografias podem revelar obstrução através de um efeito 
de massa ou acúmulo de gás proximal à intussuscepção. A ultrassonografia é considerada 
o método mais útil para o diagnóstico, além de também identificar alterações abdominais 
concomitantes, como linfadenopatia ou lesões intestinais infiltrativa. Na intussuscepção, 
pode-se evidenciar uma série de anéis concêntricos na imagem transversal, ou como 
linhas paralelas na imagem longitudinal, refletindo as camadas pregueadas da parede 
intestinal. A colonoscopia também pode identificar o intestino invaginado protruindo para 
dentro do cólon em animais com intussuscepção ileocólica ou cecocólica. 
Por ser comum a ocorrência de recidivas, as intussuscepções devem ser tratadas 
cirurgicamente, mesmo se a redução manual for possível. Fazer a biópsia do intestino no 
momento da correção cirúrgica pode auxiliar na identificação da causa. 
O prognóstico depende da causa, localização, grau de preenchimento e duração da 
intussuscepção, mas piora com perfuração do intestino e peritonite. O prognóstico é bom 
para animais que receberam tratamento auxiliar apropriado eque foram submetidos à 
redução ou ressecção da intussuscepção sem maiores complicações. 
Técnica cirúrgica 
Explorar o abdômen, coletar amostras e isolar o intestino envolvido com 
compressas cirúrgicas. Reduzir as intussuscepções manualmente, se possível, aplicando 
uma suave tração sobre a base do intussuscepto enquanto retira o ápice (borda anterior) 
para fora do intussuscipiente (FIGURA 15). Evitar a tração excessiva, pois esta pode 
romper o intestino comprometido. A redução manual só é bem-sucedida se não tiver 
formado aderências. Avaliar o intestino reduzido em relação à viabilidade e perfuração. 
Palpar cuidadosamente a borda anterior do intussuscepto para detectar lesões tumorais. 
Fazer a ressecção e anastomose se for detectada uma massa, se a redução manual for 
impossível, se o tecido estiver desvitalizado ou se os vasos mesentéricos forem 
avulsionados da porção do intestino envolvido. Submeter as amostras do intestino 
envolvido à histopatologia para auxiliar na identificação da causa da intussuscepção. 
Deve-se considerar a realização de uma enteroenteropexia nesses animais para evitar a 
recidiva. 
 
Figura 15 - Redução manual de intussuscepção. 
 
Fonte: Adaptado de FOSSUM, 2008. 
 
 
2.3 INTESTINO GROSSO 
 As cirurgias do intestino grosso são indicadas para as lesões que causam 
obstrução, perfuração, inércia colônica ou inflamação crônica. As principais causas de 
obstrução são os tumores, intussuscepções e massas granulomatosas. Os corpos estranhos 
que chegam ao cólon geralmente são expelidos com as fezes, a não ser que o cólon distal 
ou o reto estejam obstruídos ou o objeto tenham pontas afiladas. 
 
2.3.1 Definições 
 A colopexia é a fixação cirúrgica do cólon. A colectomia é a ressecção parcial ou 
completa do cólon e a tiflectomia é a ressecção do ceco. A colostomia é a criação cirúrgica 
de uma abertura entre o cólon e a superfície corporal. 
 
2.3.2 Anatomia 
O ceco e cólon de cães e gatos são claramente reconhecíveis dentro do abdômen. 
Embora frequentemente descrito como a primeira parte do intestino grosso, o ceco em 
cães e gatos é um verdadeiro divertículo que liga ao cólon proximal. O ceco, cólon 
ascendente, cólon transverso, cólon descendente e reto são os segmentos do intestino 
grosso. O cólon ascendente e o ceco estão localizados na terminação do íleo. Em cães, o 
ceco é um saco cego em forma de “S”, localizado à direita da raiz mesentérica, e em gatos, 
o ceco é um saco cego curto e reto. Ele está localizado ventral ao rim direito, dorsal ao 
intestino delgado e medial ao duodeno descendente. 
O cólon ascendente comunica-se com o íleo pelo orifício ileocólico e com o ceco 
pelo orifício cecocólico, que se encontra aproximadamente 1 cm caudal ao orifício 
ileocólico. Um vaso antimesentérico curto ajuda a identificar o cólon ascendente 
localizado à direita da raiz mesentérica. Esta porção ascendente curta dobra da direita 
para a esquerda na flexura cólica direita (flexura hepática), transformando-se no cólon 
transverso, cursando cranial a raiz mesentérica. O cólon se volta caudalmente à flexura 
cólica esquerda (flexura esplênica) e transforma-se no cólon descendente, que é o 
segmento mais longo do intestino grosso. Este começa à esquerda, onde localiza-se dorsal 
ao intestino delgado, e continua caudalmente para o trecho pélvico. O intestino grosso 
continua através do canal pélvico para o ânus como o reto, sendo a junção colorretal de 
difícil identificação. O mesocólon é um curto ligamento mesentérico do cólon à parede 
abdominal. As camadas da parede do intestino grosso são as mesmas do intestino delgado, 
ou seja, mucosa, submucosa, muscular e serosa. 
 A irrigação sanguínea do intestino grosso deriva da artéria ileocólica, um ramo 
das artérias mesentéricas cranial e caudal. Os ramos maiores cursam paralelos ao 
intestino, soltando os vasos cursos da vasa reta, os quais penetram na parede intestinal. A 
drenagem venosa é essencialmente o espelho da irrigação sanguínea. A veia mesentérica 
caudal é curta e entra na veia porta. Os nervos vago e pélvico suprem o cólon com 
inervação parassimpática, sendo a inervação simpática fornecida pelo tronco 
parassimpático paravertebral via gânglio parassimpático. 
 As principais funções do cólon são secreção de muco, absorção de líquidos e 
eletrólitos, vigilância imune e motilidade. A motilidade facilita o armazenamento (cólon 
proximal) ou defecação (cólon distal) das fezes. As contrações no cólon ascendente e 
transverso facilitam a extração da água e eletrólitos do líquido do lúmen, enquanto 
contrações no cólon descendente facilitam a propulsão aboral e defecação. 
 
2.3.3 Princípios gerais 
 A diferenciação das doenças do intestino grosso para as do intestino delgado se 
faz com base no histórico e exame físico, sendo os exames de imagem necessários e de 
grande valia. O cólon contém mais bactérias que o restante do trato gastrointestinal. 
 Os princípios cirúrgicos são semelhantes àqueles adotados para cirurgias do 
intestino delgado, mas as deiscências das incisões do intestino grosso são mais prováveis 
de acontecer. Pode ser difícil avaliar a viabilidade do intestino, mas é importante que as 
áreas necróticas ou avasculares do cólon sejam removidas e que a ressecção desnecessária 
seja evitada. Devido ao mesocólon curto, a avulsão da irrigação sanguínea colônica é 
menos comum que a mesentérica. 
 A cicatrização do cólon é semelhante à do intestino delgado, porém mais lenta. A 
força tênsil na ferida também fica abaixo da força tênsil do intestino delgado, sendo mais 
provável ocorrer deiscência. Um grande número de fatores pode retardar a cicatrização, 
como uma má circulação colateral do intestino grosso e o grande número de bactérias 
intraluminais anaeróbicas e aeróbicas, que compõe até 10% do peso seco fecal. O risco 
de deiscência é alto nos primeiros 3 a 4 dias de pós-operatório, pois a lise de colágeno 
excede a síntese. O uso de antibióticos e a colocação de suturas que não estrangulam 
podem melhorar a cicatrização. 
 
2.3.4 Afecções cirúrgicas 
 
2.3.4.1 Megacólon 
 O megacólon é um termo descritivo para o aumento persistente do diâmetro do 
intestino grosso e hipomotilidade associada à constipação grave. Um diagnóstico de 
megacólon idiopático se dá quando uma causa mecânica, neurológica ou endócrina não 
puder ser identificada, sendo mais frequentemente diagnosticado em gatos. Não é uma 
doença específica, e sim um sinal clínico associado à falha em evacuar as fezes 
normalmente, e pode ser congênito ou adquirido. 
 Existem dois mecanismos patológicos que desencadeiam essa alteração: dilatação 
e hipertrofia. O megacólon dilatado é o estágio final da disfunção colônica em casos 
idiopáticos, e os gatos acometidos exibem perda permanente da estrutura e função do 
cólon. Pode-se tentar o tratamento clínico, mas na maioria dos casos os gatos terminam 
precisando de colectomia. O megacólon hipertrófico ocorre em consequência de lesões 
obstrutivas, podendo ser reversível se for realizada com rapidez uma osteotomia pélvica, 
ou poderá evoluir para megacólon dilatado irreversível, se não for instituído o tratamento 
apropriado. 
 A patogênese e a fisiopatologia do megacólon idiopático ainda não foram 
completamente esclarecidas. Alguns casos estão associados a lesões da medula espinhal, 
do nervo autônomo ou do sistema nervoso entérico. As lesões da medula espinhal ou do 
nervo pélvico são as causas mais importantes de megacólon neurogênico. Habitualmente 
os animais acometidos manifestam outros sinais clínicos, sugerindo lesão nervosa, como 
redução do tônus anal e sensibilidade da cauda, atonia da bexiga e paraparesia. As causas 
da inércia colônica podem ser distensão prolongada, trauma neurológico, doença 
metabólica ou alteração de comportamento, ou ser idiopática. As causas de obstrução da 
saída colônica podem ser má união de fratura pélvica, estenose ou neoplasia dointestino 
grosso, atresia ou estenose anal, massas extraluminais compressivas, corpos estranhos ou 
dieta inadequada. 
 As fezes retidas no cólon por períodos prolongados desidratam e solidificam 
devido à continuada absorção de água. As concreções fecais são produzidas de modo a 
dificultar e tornar dolorida sua eliminação. A massa fecal pode se tornar tão grande e 
endurecida que fica impossível passar através do canal anal. A absorção de toxinas 
bacterianas das fezes retidas pode causar depressão, anorexia e fraqueza. O vômito ocorre 
secundariamente à obstrução prolongada, toxinas absorvidas e/ou estimulação vagal. O 
líquido pode passar ao redor das concreções fecais e causar diarreia, podendo ser visto 
sangue e muco nas fezes, provenientes da irritação da mucosa. 
 Os animais acometidos são trazidos por conta de um histórico de constipação ou 
obstipação. Os sinais clínicos presentes podem ser depressão, anorexia, tenesmo, 
fraqueza, letargia, rarefação pilosa, vômito, perda de peso e, ocasionalmente, diarreia 
aquosa, mucoide ou sanguinolenta. Os sinais clínicos geralmente são graves e crônicos. 
A palpação abdominal revela um cólon distendido, e à palpação retal, há a presença de 
fezes duras no trecho pélvico. 
 O diagnóstico é confirmado através de radiografias abdominais, que evidenciam 
um cólon impactado distendido com material fecal. O aumento de diâmetro do cólon além 
de 1,5 vez a largura do corpo da sétima vértebra lombar é considerado um megacólon. 
Também podem proporcionar informações sobre massas extraluminais ou fraturas 
pélvicas com mau alinhamento comprimindo o cólon ou reto. As radiografias de contraste 
positivo ou duplo contraste têm utilidade no delineamento de lesões cecais e colônicas 
luminais ou intramurais, além de lesões compressivas extramurais. A ultrassonografia 
pode ser mais útil para avaliação de massas suspeitas e intussuscepções no intestino 
grosso, pois a presença de gases no trato intestinal pode limitar a utilidade diagnóstica. A 
endoscopia/colonoscopia pode avaliar muitos problemas do intestino grosso, 
proporcionando mais informações quando comparada às radiografias; porém, essa técnica 
tem suas limitações por depender de anestesia geral e de uma preparação do cólon 
apropriada, em média de 1 a 3 dias. 
 O tratamento clínico deve ser sempre instituído antes da indicação do tratamento 
cirúrgico. A constipação é difícil de tratar quando o megacólon já está desenvolvido, mas 
a evacuação deve ser realizada, através do uso de emolientes fecais, enemas e/ou 
evacuação digital, além da mudança de dieta (rica em fibras). Em gatos cronicamente 
constipados, a resposta ao tratamento com laxantes e enema é ineficiente, pois a 
apresentação para a cirurgia ocorre após meses ou anos de evolução. Quando o quadro 
não é controlado através do tratamento clínico, a cirurgia de colectomia é indicada, tendo 
a associação com a antibioticoterapia profilática uma conduta indispensável. 
 As complicações pós-operatórias incluem extravasamento, deiscência, peritonite, 
necrose isquêmica, estenose e formação de abscessos. No entanto, a diarreia persistente 
e a constipação recidivante são quadros mais comuns. A constipação, na maioria dos 
casos, pode ser tratada com sucesso através de procedimentos clínicos, mas quando se 
torna resistente, uma nova colectomia pode ser necessária. Em alguns casos, os animais 
são submetidos à eutanásia, devido ao insucesso do tratamento. 
 O prognóstico para os gatos submetidos a uma colectomia subtotal é favorável a 
longo prazo, e mal a reservado sem a cirurgia. No entanto, os cães não costumam se 
adaptar tão bem à colectomia quanto os gatos. 
Técnica cirúrgica – Colectomia 
Existem controvérsias sobre a preservação ou remoção da junção ileocólica, pois 
a remoção pode permitir fácil acesso dos microrganismos colônicos ao intestino delgado 
com consequente má absorção associada a uma diarreia mais grave; enquanto que a 
preservação minimiza a diarreia pós-operatória, mas potencialmente permite a recidiva 
da constipação. 
O abdômen deve ser totalmente explorado, e caso necessário, realizar biópsia de 
qualquer tecido alterado. Para a ressecção do cólon distal, é preferível realizar a ligadura 
dos vasos retos das artérias cólica esquerda e mesentérica caudal, ao invés de ligar os 
próprios vasos principais, na tentativa de preservar ao máximo possível a irrigação 
sanguínea deste segmento. Deve-se isolar o intestino delgado distal, ceco e cólon do 
restante do abdômen com diversas compressas cirúrgicas umedecidas. O conteúdo do 
cólon é “ordenhado” até o segmento colônico que será ressecado, e são aplicadas pinças 
intestinais atraumáticas em uma posição 3 cm proximal e distal aos locais de ressecção. 
A escolha desses locais deve permitir uma aposição sem tensão. Como alternativa, o 
esfíncter ileocólico pode ser preservado, mas fica mais difícil fazer uma aposição livre de 
tensão. A anastomose ileocólica é tecnicamente mais fácil e permite a remoção de uma 
porção maior do cólon. 
Após a colocação das pinças, e remoção das fezes do cólon dilatado, iniciar a 
ressecção em sua junção com o intestino delgado ou logo distal ao ceco. Realizar uma 
anastomose término-terminal corrigindo a disparidade de tamanho luminal, alterando o 
ângulo de transecção (ângulos oblíquos no lúmen menor e ângulos perpendiculares no 
lúmen maior), usando espaçamentos desiguais entre os pontos (mais afastados no lúmen 
maior) e/ou ressecando a borda antimesentérica do intestino. O espécime ressecado deve 
ser encaminhado para análise histopatológica. As suturas aposicionais com pontos 
simples interrompidos iniciam-se no lado mesentérico e progridem até a borda 
antimesentérica. Os pontos devem atravessar a submucosa e serem ligados para aposição 
das bordas, em vez de promover esmagamento, maximizando a irrigação sanguínea 
(FIGURA 16). 
 
Figura 16 - Anastomose do cólon após colectomia. 
 
Fonte: Adaptado de HOLT & BROCKMAN, 2007. 
 
 
3. SISTEMA URINÁRIO 
 
3.1 RIM E URETER 
A doença renal é uma das principais causas de morbidade e mortalidade em 
pacientes veterinários, com uma prevalência estimada de 0,5% a 7% em cães, e 1,6% a 
20% em gatos. As alterações renais e ureterais que podem ser tratadas cirurgicamente são 
menos comuns, e tendem a se concentrar na obtenção de amostras de tecido (biópsia), 
extração de cálculos, e fornecer tratamento para lesões traumáticas ou neoplasias. A 
importância dos rins na remoção de resíduos metabólicos, na manutenção do equilíbrio 
de fluidos e na regulação da pressão arterial pode complicar a intervenção cirúrgica, pois 
os pacientes com doença renal primária ou secundária tendem a ser suscetíveis à 
complicações anestésicas e cirúrgicas. Uma boa compreensão da anatomia, fisiologia e 
função renal e ureteral é tão importante quanto à compreensão de procedimentos 
diagnósticos e cirúrgicos envolvendo esses órgãos. 
 
3.1.1 Definições 
 A nefrectomia é a excisão completa do rim, enquanto a nefrotomia é uma incisão 
cirúrgica feita no rim. A ureterotomia é uma incisão do ureter, sendo indicada geralmente 
para remoção de cálculos. Para a correção de ureter ectópico, têm-se a neoureterostomia, 
que é um procedimento indicado nos casos de ureteres ectópicos intramurais, e a 
ureteroneocistotomia, que envolve a implantação de um ureter na bexiga. 
 
3.1.2 Anatomia 
 Os rins se localizam no espaço retroperitoneal lateral à aorta e à veia cava caudal. 
Eles têm uma cápsula fibrosa e são mantidos em sua posição pelo tecido conjuntivo 
subperitoneal. O polo cranial do rim direito se encontra na altura da 13ª costela, enquanto 
o polo cranial do rim esquerdo localiza-se a cerca de 5 cm caudais ao terço superior da 
última costela. A pelve renal é uma estrutura em forma de funil que recebe a urina e a 
direciona para o ureter. Geralmente, cinco ou seis divertículos curvam-se para fora da 
pelve renal.