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HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA EHISTORIOGRAFIA BRASILEIRA E
GERALGERAL
DIÁLOGOS DA HISTÓRIADIÁLOGOS DA HISTÓRIA
Autor: Ma. Caroline Cristina Souza Silva
Revisor : Lu iz Zaghi
IN IC IAR
25/03/25, 21:28 Ead.br
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introdução
Introdução
Nesta unidade, denominada Diálogos da História, nos aprofundaremos um
pouco nos assuntos referentes ao processo de profissionalização da área e
das delimitações da função do historiador. Em completude a esse ponto,
veremos também, em consonância com esse processo de profissionalização
da área, a procura de historiadores por uma relação interdisciplinar da
História com as outras Ciências Sociais. Diante disso, iniciamos os nossos
estudos através do recorte voltado à criação de uma história da literatura
nacional proposta por Antonio Candido. Depois, partiremos para os estudos
das novas abordagens da historiografia que procuraram criticar alguns
métodos desenvolvidos pela historiografia do século XIX. Por fim,
estudaremos dois campos da historiografia, a saber, a História Cultura e a
História das Mentalidades.
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Antonio Candido foi um sociólogo e crítico literário considerado um dos
grandes expoentes da crítica literária no Brasil, tendo traçado, através de
seus trabalhos, a formação da literatura nacional. Portanto, Candido foi um
dos primeiros intelectuais brasileiros a compreender a literatura como uma
forma de expressão da cultura brasileira, utilizando da interdisciplinaridade
com outras áreas das Ciências Humanas como, por exemplo, a sociologia, a
antropologia e a perspectiva histórico-cultural. Desse modo, concentrou em
seu trabalho Formação da literatura brasileira , publicado em 1959, a ambição
de traçar um fio condutor que interligasse as expressões literárias no Brasil,
traçando um elo do arcadismo até o Romantismo no século XIX.
No entanto, faz-se necessário ressaltar que na visão de Antonio Candido
(2009), a formação de uma literatura nacional ia de encontro às produções
acadêmicas do período as quais procuravam traçar essa formação como
sendo a soma de toda a produção literária de uma nação, sendo capaz de
resumir, na sua completude até a contemporaneidade, toda a literatura
nacional sem levar em consideração as singularidades de cada produção
Antonio Candido eAntonio Candido e
a Realidadea Realidade
BrasileiraBrasileira
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literária. Ao contrário, Candido procurou construir na sua narrativa sobre a
formação da literatura nacional uma fusão que congregasse a imaginação de
origem europeia e a sensibilidade nacional, destacando as particularidades
existentes no Brasil, mas sempre mostrando que o todo apenas pode ser
explicado se houver compatibilidade e ligação entre a produção artística e o
contexto cultural no qual ele está inserido (GAIO, 2017, p. 163; NICODEMO,
2018).
O fato de Antonio Candido ter traçado uma linha direta da formação da nossa
literatura partindo do Arcadismo para o Romantismo , apesar de nos parecer,
em um primeiro momento, um movimento de escolha estética ou de
recorte/escolha de um objeto de estudo, dando preferência a uns que a
outros, denota a consciência política do autor. Nesse sentido, no seu trabalho
há a tentativa de captar os traços embrionários da nacionalidade brasileira,
mas que seriam avessos a uma visão teleológica da nação, ou seja, uma visão
que buscasse a completude da formação literária nacional. Em suma, para
Antonio Candido (2009) a literatura brasileira não pode ser vista na sua
completude pois, como o próprio nome de seu trabalho diz, ela ainda está em
formação e permanecerá em formação, tendo em vista que as manifestações
culturais sempre estão em mutação e levam em consideração essa interação
entre presente/passado e presente/futuro. O devir, portanto, além do olhar
para o passado, também torna-se responsável pelas criações literárias de
uma sociedade.
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Outro ponto importante de se ressaltar sobre a visão que Candido (2009)
possuía sobre a realidade brasileira, é que as manifestações culturais dessa
formação literária nacional mostraram o nascimento de uma sociedade que
teve o legado ibérico e o pacto colonial como contrapelo, impedindo e/ou
dificultando a constituição de manifestações puramente brasileiras. É por
conta dessa questão que Candido exclui o barroco da sua análise da
formação nacional da literatura, tendo em vista que as produções advindas
dessa inspiração estética traziam consigo mais uma noção de permanência
da cultura europeia em terras tropicais do que a fundação de uma cultura
literária propriamente brasileira. Ou seja, não marcavam, segundo o autor,
uma “continuidade ininterrupta de obras e autores, cientes, quase sempre, de
integrarem um processo de formação literária” (CANDIDO, 1975 apud
NICODEMO, 2018, p. 23). Diante dessas pontuações, o arcadismo teria, para o
autor, significado a primeira expressão de uma literatura nacional na medida
em que tentou conjugar a inspiração clássica grega com o cotidiano e as
Figura 2.1 - Academia Brasileira de Letras. De pé: Rodolfo Amoedo, Artur
Azevedo, Inglês de Sousa, Bilac, Veríssimo, Bandeira, Filinto de Almeida,
Passos, Magalhães, Bernardelli, Rodrigo Octavio, Peixoto; sentados: João
Ribeiro, Machado de Assis, Lúcio de Mendonça e Silva Ramos
Fonte: Auréola / Wikimedia Commons.
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especificidades locais. Desse modo, segundo o historiador Thiago Lima
Nicodemo,
formação [da literatura brasileira] propõe-se desde sua introdução
ser uma ‘história dos brasileiros no desejo de ter uma literatura’, ou
seja, trata de maneira substancialista da história e da pré-história
da consciência nacional. Candido indica pouco a pouco em sua
análise dos árcades como estilização literária da realidade local
passa a exprimir um sentimento dual, problemas vivos de uma
sociedade cheia de paradoxos; em suas próprias palavras, ‘esforço
de exprimir, no plano da arte, e dentro dos moldes cultos, a
realidade e os problemas de sua terra’ (CANDIDO, 1975 apud
NICODEMO, 2018, p. 88).
Também nas palavras de Antonio Candido,
o Arcadismo é, pois, consciência de integração: de ajustamento a
uma ordem natural, social e literária, decorrendo disso a estética
da imitação, por meio da qual o espírito reproduz as formas
naturais, não apenas como elas aparecem à razão, mas como as
conceberam e recriaram os bons autores da Antiguidade e os que,
modernamente, seguiram sua trilha (CANDIDO, 2009 apud GAIO,
2017, p. 170).
Logo, o fato de a formação literária do Brasil ter sido singular e inacabada do
ponto estético se deu pela dificuldade proveniente da dependência da
produção cultural em relação aos modelos europeus. E, em vista disso, houve
um prolongamento desse processo da formação literária, adaptando os
moldes clássicos às peculiaridades e dificuldades do cotidiano brasileiro.
Somente após esse primeiro momento, ainda no final do período colonial,
que teria tido início uma produção cultural própria e distanciada dos moldes
europeus. Machado de Assis teria sido, para Antonio Candido, o maior
expoente dessa visão crítica da literatura no período do Romantismo (GAIO,
2017).
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A Metodologia de Análise
Para traçar a tese de que a completudede uma literatura nacional só seria
possível através da análise dos fios condutores e de uma continuidade
ininterrupta entre os autores, Antonio Candido partiu de concepções teórico-
metodológicas advindas de ao menos três áreas das Ciências Humanas: a
Sociologia (adicionando as concepções dialéticas da teoria marxista); a
Antropologia (pois a ideia de cultura consegue conjugar as ideias de
totalidade e a organicidade das experiências pessoais individualizadas
presentes em uma sociedade); e a História (voltada para a área da História
Cultural) (BECKER, 1995, p. XIII).
O primeiro ponto a ser definido é a distinção entre literatura e manifestações
literárias. Para Antonio Candido (2009), a definição da literatura apenas se
torna possível quando conseguimos traçar um sistema simbólico o qual se
estrutura a partir da tríade: autor, obra e leitor; e a formação de um jogo de
trocas simbólicas regulares as quais dependem da relação entre o universal e
o local, ou seja, do ponto de vista literário, da corrente acadêmica/escola e as
singularidades nas quais o autor está incluído. Esse aspecto também pode ser
lido do ponto de vista do contexto histórico de maior amplitude em diálogo
ou contraponto com o contexto local ou cotidiano (GAIO, 2017, p. 163).
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As obras que não se encaixassem nessa premissa teórico-metodológica
utilizada pelo autor estariam avulsas e alheias a esse fio condutor capaz de
ligar as temporalidades na literatura, fazendo uma ligação do presente com o
passado e do presente com o futuro. Logo, esse tipo de obra seria colocada
apenas como manifestações literárias avulsas, não contribuindo para a
formação de um ethos da literatura nacional (Ibidem). Vejamos os trechos de
Candido selecionados por Henrique Gaio e que resumem essa questão de
forma clara e objetiva:
O sistema almeja, através do jogo de influências que marcam a
trajetória intelectual nacional, identificar sobretudo “uma
continuidade   ininterrupta de obras e autores, cientes quase
sempre de integrarem um processo de formação literária”. A
tradição, dessa maneira, revela-se como imperioso, e consciente
ato de transmissão ou, como na imagem sugerida por Candido,
uma “espécie de transmissão de tocha entre corredores”. Somente
verificada tal continuidade ou permanências seria possível tecer o
fio que permite historicizar a forma literária, pois “sem esta
tradição não há literatura, como fenômeno de civilização”.
Figura 2.2 - Sistema literário, segundo Antonio Candido
Fonte: Elaborada pela autora.
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Literatura, portanto, assenta-se não somente nas trocas
simbólicas, mas sobretudo, na interferência que o passado exerce
sobre o presente por meio da influência (CANDIDO, 2009, p. 26
apud GAIO, 2017, p. 163).
Portanto, esse movimento de transmissão que ocorre entre pessoas e entre
temporalidades possui, segundo Candido, a tendência de formar padrões os
quais se impõem ao comportamento e ao pensamento, sendo da liberdade
de ação dos indivíduos aceitar, criticar ou recusá-los (CANDIDO, 2009). Em
suma, essa seria a definição da noção de “sistema literário” desenvolvido pelo
autor, o qual provoca a leitura de uma espécie de sobreposição de
temporalidades distintas, costurando-as. Essa relação de tensão seria
responsável por indicar a permanência de elementos do passado nas obras
literárias em conjugação com um ideal de modernização ou de realização de
prognósticos de futuro (BAPTISTA, 2005, p. 64).
Em um movimento dialético (já que uma das correntes teórico-metodológicas
da sociologia utilizada por Candido foi a do marxismo, a qual tinha o
movimento dialético como um dos pressupostos teóricos), Antonio Candido
(2009) ressalta também a importância de se olhar para esse “sistema
literário”, levando em consideração a relevância da individualidade e da
singularidade próprias de cada obra literária como uma complementaridade
desse sistema. Logo, há a necessidade de se olhar a obra literária sob dois
aspectos: a) a obra literária vista no ângulo da sua integridade estética; b) a
obra situada em um conjunto, envolvendo autores, leitores e a movimentação
de símbolos de linguagem. Nesse sentido, deve-se olhar para a obra literária
também a partir da sua autonomia e criação individual (BOSI, 2000, p. 37). Em
suma, segundo Alfredo Bosi, ao longo do livro Formação da literatura brasileira
, vai se firmando “a ideia de complexidade e unidade expressiva e construtiva
de cada obra de arte, cujo nexo com os valores e os padrões de gosto não se
subordina passivamente às convenções correntes, [...], podendo
problematizá-las” (BOSI, 2000, p. 37). Logo, as estruturas não interferem
totalmente nas produções literárias, sendo cada uma delas constituída da sua
própria singularidade, as quais são formadas por vários fatores, dentre eles,
por exemplo, a personalidade do autor.
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praticar
Vamos Praticar
Para se pensar na formação de uma literatura nacional, faz-se necessário direcionar
o olhar para uma forma específica de análise. Nesse sentido, Antonio Candido,
buscando compreender a formação literária brasileira, utilizou de áreas das
Ciências Sociais, como a Sociologia, a Antropologia e a História Cultural. Nesse
sentido, assinale a alternativa que define as duas formas de análise da literatura
elencadas pelo autor.
a) A utilização da análise do contexto como sendo a única forma de
abordagem.
b) A personalização total da análise e da crítica literária.
c) A conjugação das análises da totalidade em consonância com as
particularidades locais e pessoais.
d) A junção de um sistema literário com uma rede comercial envolvendo
obras, autores e clientes.
e) A simples identificação de influências de autores do passado nas obras
analisadas.
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Após as abordagens da historiografia do século XIX, a qual desenvolveu a
ideia de “história científica” - abordagens de uma visão da história através das
concepções da ideia de nação e a utilização das abordagens universalizantes
do pensamento do filósofo Hegel -, a área da História passou por um
processo de questionamentos e reformulações teórico-metodológicas,
visando reformular o modo de escrevê-la. Veremos nos pontos a seguir como
essas questões se desenvolveram.
Influências Historiográficas do Séc. XIX
Para compreendermos o que foi e como se constituiu esse novo modo de
fazer a História, faz-se necessário adentrarmos inicialmente nas principais
correntes historiográficas da Europa no século XIX, sob o pressuposto de que
foram essas que embasaram os novos modos de se pensar e fazer História no
século XX. Portanto, veremos as concepções metodológicas sobre a História
elaboradas por historiadores das correntes alemã e francesa e como essas
mudaram, de forma estrutural, as concepções historiográficas.
Um Novo Fazer daUm Novo Fazer da
HistóriaHistória
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Uma das correntes historiográficas que mais influenciou o fazer da História
do século XIX foi a corrente alemã da “História Científica”. Essa teve como
principal embasamento as concepções iluministas advindas, construídas e
formuladas no decorrer do século anterior, o século XVIII, também conhecido
como o “Século das Luzes”. Assim, foi com o iluminismo que o valor à ciência
e à metodologia científica ganhou cada vez mais importância; e esse
movimentonão ocorreu de forma diferente com a História, que antes desse
período era abordada e apresentada de uma forma mais filosófica, teológica,
hagiográfica e/ou literária, afastando-se da veracidade factual e aproximando-
se mais da retórica política. Com isso, a prática de se fazer História se
aproximou da prática cientificista e metodológica das ciências naturais, sendo
inserida no conjunto das ciências (SILVA, 2015, p. 228).
Portanto, com o advento das ideias iluministas e com o despertar das
reflexões em torno de qual seria o melhor modo de se fazer História, a
metodologia pensada pelos alemães para a análise dos tempos e
acontecimentos históricos esteve embasada no padrão epistemológico de se
conhecer o passado em si mesmo.
Com a “história científica”, a História passou por uma repaginação teórica e
metodológica a qual culminou com a sua cientificização, cujos resultados
foram expressos nas narrativas recheadas de argumentos demonstrativos,
articulados à empiria da pesquisa científica e à interpretação do historiador. A
concepção do método para a História foi de uma importância sem
precedentes, pois com ela fez-se possível a delimitação dos limites de atuação
do historiador, assim como da promoção dos historiadores à condição de
cientistas (GRESPAN, 2011, p. 291).
A partir desse método, o historiador deveria realizar suas análises dos
documentos considerados autênticos do período estudado, dos quais
conseguiria obter as informações verdadeira referentes a um determinado
período histórico e acontecimento. Dessa forma, o que distinguia a História
de outros textos teológicos e literários seria o apoio à concepção da verdade
enquanto ponto basilar da ciência. A verdade se sustentaria a partir da
utilização de métodos empíricos e científicos para o manuseio dos
documentos históricos em conjunção com a utilização de documentos
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considerados autênticos e verdadeiros. Em suma, segundo o historiador Jorge
Grespan, o conceito de verdade “seria a correspondência, a adequação entre
as proposições cientificamente formuladas e apresentadas pelo sujeito do
conhecimento e o objetivo real descoberto pela pesquisa empírica”
(GRESPAN, 2011, p. 292). Logo, o método historiográfico foi definido como
“método- documental” pela historiografia oitocentista.
A “história científica”, a qual somava todos os pontos referidos acima, ganhou
fundamentação e apoio acadêmico a partir de um movimento cultivado pela
Escola Alemã Histórica chamado de historicismo. Esse movimento cultural
ganhou cada vez mais força no século XIX, sobretudo na Alemanha, e esteve
embasado nas concepções de que existiam leis naturais gerais as quais
geriam as sociedades em todos fenômenos que nela ocorriam. Sendo assim,
os fenômenos naturais que fossem dotados de significados humanos só
poderiam ser estudados a partir da sua historicidade, levando em
consideração as ações dos sujeitos em sociedade (SILVA, 2015).
Um dos historiadores mais representativos desse movimento e que teve
bastante adesão nas academias brasileiras do século XIX foi Leopold von
Ranke (1795-1886), sendo o livro O conceito de história universal (1831) o seu
trabalho mais importante. Os trabalhos historiográficos de Ranke tiveram
influência dos conceitos de “História Universal” e do “espírito do tempo”, esse
último proveniente dos trabalhos do filósofo alemão Georg Hegel (
Fenomenologia do Espírito - 1807). Esses conceitos, segundo Sérgio da Mata
(2010), eram baseados na ideia de que cada época histórica possuía um valor
e uma característica própria. Contudo, ao formar a tríade filosofia, religião e
política, de inspiração hegeliana, os trabalhos de Ranke objetivavam pensar a
ideia da construção de um Estado Nação (lembremos que foi nesse século
que ocorreu o processo de unificação da Alemanha enquanto Estado-nação)
(SILVA, 2015).
Ranke, no entanto, ao utilizar da ideia de história universal como pressuposto
teórico para se compreender a formação do Estado-Nação inspirou, na
França, principalmente após os acontecimentos da Revolução Francesa
(1789), trabalhos historiográficos os quais eram embasados nas concepções
da história universal para se compreender a formação da nação francesa. Um
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dos maiores expoentes dessa produção intelectual foi o historiador Jules
Michelet com o livro Introdução à História Universal (1831), os nove livros
intitulados História da França (1833-1840) e História da Revolução Francesa
 (1846-1853) (SANTOS, 2001).
Em conjunto com a ideia de universalidade da História, Ranke também
desenvolveu a ideia de concretude e verdade da História (que vimos
anteriormente) para fundamentar as exigências empíricas inerentes à
pesquisa histórica. Logo, a investigação documental deveria acompanhar a
pesquisa histórica em consonância com a visão universalizante e filosófica
abordada anteriormente  (SANTOS, 2001).
As ideias do historicismo e da história científica também estiveram presentes
nas produções intelectuais promovidas no Brasil do período monárquico, as
quais utilizaram a empiria e o apoio à verdade do documento histórico como
essenciais para as produções intelectuais sobre a História do Brasil.
No Brasil: o IHGB
O IHGB - Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro - foi fundado em 1838 a
partir de um projeto proveniente da monarquia brasileira de investir em
estudos referentes à nação brasileira. Lembremos, portanto, que, em um
primeiro momento, essa fundação ocorreu 16 anos após a independência do
Brasil e portanto possuía objetivos claros de investimento em trabalhos e
pesquisas que contribuíssem para a construção da nação brasileira no que
diz respeito aos símbolos nacionais.
Logo, o movimento que se iniciou na primeira metade do século XIX no Brasil
foi marcado por uma historicização das noções de nação aos moldes dos
movimentos que ocorriam na Europa, como podemos ver acima. Ou seja,
segundo os historiadores Istvan Jancsó e João Paulo Garrido Pimenta, a
construção historiográfica do período pós independência do Brasil teve por
objetivo “conferir ao Estado imperial que se consolidava   em meio à
resistência uma base de sustentação no constituído de tradições e de uma
visão organizada do que seria o seu passado” (JANCSÓ; PIMENTA, 2000, p.
132-133).
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O movimento impulsionado pela fundação do IHGB teve como objetivo
normatizar a produção historiográfica no Brasil, partindo dos pressupostos
cientificistas e empiristas que embasaram a escrita da história do século XIX
na Europa.
Dois dos maiores expoentes do IHGB foram os historiadores Francisco Adolfo
Varnhagen e Capistrano de Abreu. O primeiro embasou seus estudos na
chamada historiografia “tradicional” de influência hankeana e o segundo
oscilou entre a herança de Varnhagen e as novas concepções historiográficas
que inundaram o Brasil na década de 1930, com estudos que procuraram
interpretar o Brasil a partir de parâmetros metodológicos provenientes da
Sociologia, da Antropologia e da História Cultural (a chamada New History -
das academias norte-americanas).
Figura 2.3 - Capa da revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro
(IHGB)
Fonte: IHGB / Wikimedia Commons.
A obra mais famosa de Varnhagen foi a História Geral do Brasil (1847) e nela
encontram-se traços metodológicos da História científica à medida em que
percebe-se que há uma preocupação com a catalogação das fontes e o uso da
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críticaem torno da veracidade e autenticidade das fontes. Segundo o
historiador Charles Monteiro,
a forma de narrar a história por historiadores do IHGB e de
Varnhagen caracteriza-se pela descrição do tipo factual, uma
história tradicional  no sentido de legitimar as raízes oligárquicas e
elitistas da identidade do Estado brasileiro  que estes historiadores
se empenham em construir. Agem segundo uma “razão
ornamental” que destituída de senso crítico não problematiza o
processo conflituoso e os diferentes projetos para construir a
nação brasileira (MONTEIRO, 1994, p. 168-169).
Já Capistrano de Abreu, com o livro Capítulos de História Colonial (1907),
continuou utilizando os métodos empiristas da História científica do século
XIX, mas com a formulação de uma narrativa mais fluente e descritiva
proveniente das inspirações da historiografia do início do século. Portanto,
Capistrano foi antecessor da tríade dos historiadores que procuraram
reinterpretar o Brasil através da estruturação de bases coloniais. Foram eles:
Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Júnior.
A Nova História
A chamada Nova História surgiu de uma escola de historiadores franceses,
em 1939, chamada Escola dos Annales, e o conceito de nova história na
verdade é, segundo o historiador Peter Burke, proveniente de uma coleção de
ensaios sobre a escrita da História de 1974. Nessa coletânea de ensaios,
organizada pelo historiador medievalista Jacques Le Goff, procurou-se discutir
acerca dos novos problemas, das novas abordagens e dos novos objetos que
compunham os debates em torno de uma nova escrita da história (BURKE,
2011, p. 09).
A começar pelos fundadores da Escola dos Annales, Marc Bloch e Lucien
Febvre, o que procurou-se fazer, em um primeiro momento, foi a realização
de uma rediscussão em torno das metodologias historiográficas provenientes
dos historiadores do século XIX, como, por exemplo, Leopold Von Ranke.
Procurou-se, portanto, trazer à tona questionamentos referentes à
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problematização do documento, indo de encontro às concepções positivistas
da historiografia as quais definiam que o documento fornecia a verdade
absoluta sobre os fatos relatados (BURKE, 2011).
Ao contrário dos historiadores do século XIX, que na sua maioria se
interessavam pela escrita da história essencialmente política e relacionada ao
Estado, os historiadores da Nova História passaram a se interessar por toda a
atividade humana. É por conta desse novo olhar que a Nova História também
pode ser definida como “história total”, na qual tudo tem uma história. Ou
como definiu Marc Bloch, a história é a ciência dos homens no tempo e “o
historiador não apenas pensa ‘humano’. A atmosfera em que seu
pensamento respira naturalmente é a categoria da duração” (duração do
tempo) (BLOCH, 2001, p. 55).
Nesse sentido, Bloch, ao criticar a historiografia narrativa e factual do século
XIX, inaugurou a “história como problema”, na qual elaborou a ideia de que a
história não é a ciência do passado, mas sim desse jogo entre
passado/presente, presente/passado. A partir dessa concepção, tem a ideia
de que o presente é importante para a compreensão do passado, da mesma
forma que a compreensão do passado nos permite compreender o nosso
presente. Logo, a história estaria em constante construção e reconstrução
(BLOCH, 2001).
Para lançar as bases dessa concepção, a Escola dos Annales, apesar de ter
iniciado os seus estudos mais voltados para as questões e estruturas
econômicas de longa duração, teve como máxima combater a história
narrativa e do acontecimento, dando abertura para a análise historiográfica
de todas as atividades humanas no tempo, partindo, sobretudo, de uma
abordagem interdisciplinar (BURKE, 2011).
Em consonância com essa mudança de abordagem sobre a escrita da
história, viu-se também a mudança na concepção e na percepção do tempo
(enquanto construção humana para mensurar a natureza) na escrita da
história. Se no século XIX via-se o tempo apenas como algo linear, visando o
progresso no futuro, na escrita da história, embasada nas concepções teórico
metodológicos da Nova História, o tempo seria mensurado através da longa
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duração dos tempos históricos e das estruturas inerentes a ele, sendo essa
passagem temporal bem lenta. Há, concomitantemente, o tempo curto, que é
o tempo dos eventos e que passa de forma mais rápida que o anterior. Essas
duas concepções de tempo são vistas pelo historiador em simultâneo,
formando uma relação de sincronia (tempo longo) e diacronia (tempo curto)
(BLOCH, 2001; BRAUDEL, 2011).
Por fim, o historiador Marc Bloch aponta outros dois pontos considerados
essenciais para o ofício do historiador. São eles: a observação histórica e a
crítica ao documento. O primeiro ponto aborda o fato de que o conhecimento
dos fatos humanos do passado só é possível através da análise dos seus
vestígios. Logo, nunca será possível obter conhecimento do passado na sua
totalidade, pois ele sempre surgirá aos olhos do historiador de forma
fragmentada; cabe ao historiador juntar as peças e traçar a narrativa. O
segundo ponto trata acerca da criticidade que o historiador deve ter sobre o
documento e esse ponto faz a crítica mais contundente à historiografia do
século XIX, a qual via o documento como mensageiro da verdade absoluta.
Figura 2.4 - Divisão do tempo histórico
Fonte: Elaborada pela autora.
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Diante disso, para o autor, o historiador deve sempre fazer perguntas ao
documento (BLOCH, 2001).
A Interdisciplinaridade da Área das Ciências Humanas
Há um esforço da História Nova em travar um diálogo com as outras áreas
das Ciências Humanas. A sociologia de Émile Durkheim teve um importante
papel nas construções historiográficas dos historiadores da Escola dos
Annales, principalmente nas pesquisas de Fernand Braudel. Com relação às
ciências econômicas, os trabalhos do economista Serge-Christophe Kolm
tiveram grande influência nas análises da história econômica e social
realizadas por outro historiador da Escola do Annales, Georges Duby (LE
GOFF, 2011, p. 157-160).
A geografia desenvolveu um papel essencial nos trabalhos dos historiadores
Marc Bloch, Lucien Febvre e Fernand Braudel, os quais sempre levaram em
consideração as influências dos espaços geográficos e dos fenômenos
espaciais na integração das ações humanas no tempo. Já a Antropologia
contribui teórica e metodologicamente para análises historiográficas que
visam compreender processos históricos menos estruturais e mais próximos
das ações do cotidiano (LE GOFF, 2011).
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saibamais
Saiba mais
O artigo redigido pelo historiador Ricardo
Mello procurou traçar algumas metodologias
de ensino, nas aulas de História da Educação
Básica, para explicar a teoria das três
temporalidades desenvolvida por Fernand
Braudel, historiador da Escola dos Annales.
Para saber mais, acesse o link a seguir.
Fonte: Mello (2017).
ACESSAR
A psicologia também exerce papel fundamental nas análises historiográficas
no que tange as psicologias coletivas, mas sobretudo a psicologia individual
(que vem sendo utilizada para as análises contemporâneas da historiografia).
A psicologia, como veremos mais à frente, contribuiu para a fundamentação
teórico-metodológica da História das Mentalidades ( Ibidem ).
Como podemos notar, a abertura dos recortes documentais e na visão que a
História Nova proporcionou à escrita da história fezcom que houvesse uma
interdisciplinaridade com outras áreas das Ciências Humanas. Se a História é
a ciência que estuda ações humanas no tempo, buscando uma compreensão
total dessas ações (no sentido de abranger os campos de visão), as outras
ciências são potenciais contribuidoras para essa empreitada. Contudo, não há
limites para a escrita da história na medida em que as produções
historiográficas já dialogam com as ciências exatas, como a matemática, a
biologia e, recentemente, com a concepção da história do meio ambiente.
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https://rhhj.anpuh.org/RHHJ/article/view/330/232
praticar
Vamos Praticar
A Escola dos Annales ficou conhecida por causar uma revolução na forma de o
historiador compreender o seu ofício. Ao questionar as tendências historiográficas
predominantes no século XIX, apontou uma nova forma de conceber e fazer
História. Nesse sentido, assinale a alternativa que define a abordagem analítica da
história elaborada pela Escola dos Annales.
a) A História Universal.
b) A História como descrição factual.
c) A História como narrativa dos eventos políticos.
d) A História como problema.
e) A História como a ciência do passado.
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A história cultural é uma área de estudo da historiografia que ganhou
contornos mais precisos nas décadas finais do século XX, mais precisamente
a partir dos anos de 1970. No entanto, essa área da pesquisa histórica
também esteve presente nas produções historiográficas desde o início do
século XX. Temos como os exemplos mais próximos, no caso do Brasil, os
trabalhos de Gilberto Freyre, de Sérgio Buarque de Holanda e do próprio
Antonio Candido, como vimos no primeiro tópico desta unidade, os quais
dedicaram boa parte das suas análises historiográficas à compreensão das
relações culturais, de costumes e das ideias.
Como o próprio nome da área já esboça, na história da cultura propõe-se a
realização de pesquisas que tenham como delimitação temática as
manifestações culturais humanas no tempo, as quais também envolvem os
processos comunicativos e de transmissão de linguagem. Portanto, parte-se
do pressuposto que todo indivíduo, ao existir, já automaticamente produz
cultura. Ou seja, segundo o historiador francês Georges Duby, esse campo
historiográfico se detém a estudar os mecanismos de produção culturais
provenientes de um determinado sistema social. Portanto, entende-se por
História CulturalHistória Cultural
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produção cultural toda e qualquer produção e não somente as que são
classificadas como obras-primas da arte (BARROS, 2003).
Na verdade, esse último recorte temático fica reservado aos historiadores da
arte, os quais não compartilharam das teorias e metodologias provenientes
da História, mas utilizam da historiografia para conceber as análises das
obras de artes pesquisadas. Logo, é importante termos a noção de que a
história da arte, a história social da arte e a história da cultura são áreas e
campos de pesquisas diferentes uns dos outros, os quais possuem
delimitações de objetos e de análise próprios, mas que podem dialogar entre
si. Logo, segundo o historiador José D Assunção Barros, podemos definir e
delimitar a história da cultura da seguinte forma:
As noções que se acoplam mais habitualmente à de “cultura” para
constituir um universo de abrangência da História Cultural são as
de “linguagem” (ou comunicação), “representações”, e de “práticas”
(práticas culturais, realizadas por seres humanos em relação uns
com os outros e na sua relação com o mundo, o que em última
instância inclui tanto as ‘práticas discursivas’ como as ‘práticas
não-discursivas’). Para além disto, a tendência nas ciências
humanas de hoje é muito mais a de falar em uma ‘pluralidade de
culturas’ do que em uma única Cultura tomada de forma
generalizada. Em nosso caso, como estamos empregando a
História Cultural como um dos enfoques possíveis para o
historiador que se depara com uma realidade social a ser
decifrada, utilizaremos em algumas ocasiões a expressão
empregada no singular como ordenadora desta dimensão
complexa da vida humana. Trata-se no entanto de uma dimensão
múltipla, plural, complexa, e que pode gerar diversas
aproximações diferenciadas (BARROS, 2003, p. 03).
Diante dessas pontuações, podemos definir os objetos de estudo que se
encaixam no campo da História Cultural. A começar pelos objetos de estudo
que já faziam parte da História Cultural do início do século XX como, por
exemplo, a Literatura, as Artes e a Ciência, também podemos incluir no
campo da História Cultural os estudos em torno da cultura material e
imaterial que é produzida a partir da vida cotidiana das pessoas, levando em
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consideração as especificidades locais de uma determinada região,
comunidade ou grupo de pessoas, por exemplo. Logo, conclui-se que as
manifestações culturais como um todo podem ser incluídas nesse campo de
pesquisa historiográfica.
Autores como Edward Thompson ( Costumes em Comum - 1980) e Eric
Hobsbawm (A invenção das tradições - 1983) são alguns dos muitos exemplos
de historiadores da cultura. Também podemos adicionar à lista os
historiadores Peter Burke ( Cultura popular na Idade Moderna - 1978), Roger
Chartier ( Origens culturais da Revolução Francesa - 1990), Robert Darnton ( O
grande massacre de gatos - 1984), dentre outros. No entanto, a História
Cultura ganhou abrangência relevante no final do século XX, o que
proporcionou a formação de grupos de historiadores com delimitações
próprias de abordagem da cultura, assim como a formulação de correntes
teórico-metodológicas, as quais podem variar, por exemplo, da “História vista
de baixo”, inicialmente elaborada por Edward Thompson, até as análises dos
saibamais
Saiba mais
O artigo do historiador brasileiro Ronaldo
Vainfa tem por objetivo traçar um panorama
da produção historiográfica brasileira no
campo da história Cultural. Para isso, ele
analisou a produção realizada nos últimos
anos e delineou os debates acadêmicos
sobre essa área no Brasil. Para saber mais,
acesse o link a seguir.
Fonte: Vainfas (2009).
ACESSAR
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https://revistas.ufpr.br/historia/article/view/15676
símbolos, linguagens e representações culturais que são elaboradas por
Roger Chartier. Enfim, o campo da História Cultural é bastante amplo tanto
em temáticas quanto em concepções teóricas.
praticar
Vamos Praticar
A História Cultural é uma área de estudo da historiografia que ganhou contornos
mais precisos nas décadas finais do século XX, mais precisamente a partir dos anos
de 1970. No entanto, essa área já havia dado sinais nas produções historiográficas
do início do século XX. Nesse sentido, assinale a alternativa que define o que é
História Cultural.
a) A História Cultural é a história da cultura dos povos e civilizações, traçando
uma visão totalizante da cultura desse povo.
b) A História Cultural é a história que trata das artes e da literatura, ou seja,
da cultura considerada erudita.
c) A História Cultural é a história que se debruça sobre a produção cultura
como resultado das ações humanas no tempo em consonância com as
relações sociais.
d) A História Cultural é o campo da historiografia que procura compreender
as manifestações culturais advindas da cultura material.
e) A História Cultural é a história das culturas populares emdetrimento de
qualquer outra forma de representação cultural.
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A história das mentalidades pode ser definida como a área de estudo da
história que se propõe a estudar as atitudes e os comportamentos coletivos
através da sua quantificação a partir da concepção de longa duração
proveniente dos estudos e debates da Escola dos Annales. No entanto, o
papel da história das mentalidades, se comparada às prioridades do olhar
dos historiadores em outras áreas da História, tem o objetivo de focar as
análises de temas que eram desprezados pela História Social. Diante disso,
tende-se a focar a análise em ambos os âmbitos individual e coletivo, tanto
para o tempo longo e estrutural quanto para o tempo curto referente ao
cotidiano (como vimos no tópico referente à história nova), criando, assim,
um estudo do inconsciente e do intencional, do que diz respeito à estrutura
das sociedades e das conjunturas dos acontecimentos (NICOLAZZI, 2000).
Desse modo, o inconsciente coletivo que fundamenta o estudo das
mentalidades pode ser encontrado em inúmeras fontes. Para o historiador
das mentalidades, tudo, literalmente, pode ser considerado fonte para
pesquisas, tendo em vista que essa abordagem histórica possui como uma
das suas bases teóricas os estudos da psicologia e da psicanálise (NICOLAZZI,
História dasHistória das
MentalidadesMentalidades
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2000). Por exemplo, as hagiografias (biografias da vida dos santos católicos -
literatura muito comum do período medieval) podem ser utilizadas como
fonte histórica para o estudo da mentalidade religiosa. Poderíamos citar,
também, a utilização da literatura e das artes como fonte de análise histórica
para a compreensão da mentalidade cultural de um período histórico e de
uma região, por exemplo.
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reflita
Reflita
A História das Mentalidades é um
campo da historiografia que teve o
seu início na França, o qual, como
podemos ver, se dedica ao estudo das
mentalidades coletivas de uma
sociedade, grupo social, dentre outros.
Esse campo da história se aproxima
em demasia da História das Ideias e
da História da Cultura, sendo que o
debate em torno dessa incapacidade
de definição levou a História das
Mentalidades a receber muitas críticas
de metodologia pela produção
historiográfica sobre o assunto. No
entanto, também podemos notar que
esse campo da história também
trouxe uma contribuição muito
importante à historiografia por
procurar construir tipos de análise
interdisciplinares, ligando História,
Psicanálise, Psicologia e Sociologia.
Diante disso, quais seriam as
possibilidades desse campo de
estudos para a produção
historiográfica dos dias de hoje? Você
acha que a aplicação ainda é possível?
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Nesse sentido, o que a história das mentalidades trouxe de novo para a Nova
História foi não só a ampliação interdisciplinar nas análises históricas, mas
sobretudo a abertura do leque de fontes históricas passíveis de serem
utilizadas.
O historiador Philippe Ariès (2011) procurou definir a história das
mentalidades como aquela que estimulou os dois tempos da história
(passado e presente), na medida em que a relação dessas duas
temporalidades (no que tange ao trabalho do historiador em relacionar o seu
tempo presente com o passado a ser estudado) causa estranhamento e deixa
transparecer as diferenças existentes entre as sociedades do presente e as do
passado. É a constatação dessa diferença e do estranhamento entre os
modos de pensar e de ver o mundo que se fez constituir a história das
mentalidades enquanto área de pesquisa historiográfica (ARIÈS, 2011).
Vejamos abaixo dois trechos do historiador Ariès sobre essa questão:
A história das mentalidades é, portanto, a das mentalidades de
outrora, das mentalidades não atuais. O fascínio que essa história
parece exercer hoje, e não há muito tempo, talvez possa ser
explicado por um grave acidente de nossa mentalidade atual. O
homem das épocas clássicas, do Iluminismo, do progresso
industrial [...] estava certo da permanência e da superioridade de
sua cultura. Ele não aceitava a ideia de que esta não havia existido
desde sempre, mesmo sendo verdade que alguns períodos de
decadência pareciam ter interrompido a sua continuidade. Ela
reemergia com as renascenças. A historiografia positivista do
século XIX e início do XX admitia as desigualdades tecnológicas,
econômicas, “atrasos” devido à falta de conhecimentos,
decadências, enfim, mas não diferenças do nível da percepção e da
sensibilidade (ARIÈS, 2011, p. 292).
Assim, o passado, o tempo da diferença, torna-se próximo de
nosso tempo, e fica cada vez mais difícil ignorá-lo, do mesmo modo
que não é possível ignorarmos a arte negra, a arte indígena ou a
arte pré-colombiana [...]. As diferenças de todas as eras nos
tomam de assalto, e , no entanto, nossa percepção ingênua,
imediata, permanece sendo a do nosso próprio presente, único
ponto de ancoragem do tempo. Não seria a aproximação recente
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do presente e do passado a verdadeira razão da história da
mentalidade? (ARIÈS, 2011, p. 293).
No entanto, nos debates acadêmicos entre historiadores, a história das
mentalidades também recebeu críticas as quais diziam respeito à falta de
delimitação teórico-metodológica para essa área da historiografia. Esse foi o
argumento apresentado, por exemplo, pelo historiador Michel Vovelle, o qual
também utilizou a história das mentalidades em suas pesquisas, mas que não
conseguiu defini-la a partir de uma demarcação metodológica (ARIÈS, 2011).
praticar
Vamos Praticar
“Na perspectiva de um historiador das mentalidades e ideologias, Mota indaga ‘que
significados pode ter refletir sobre história hoje, nesta etapa do processo
civilizatório que se assiste em nosso país, quando  nos vemos (ainda que não
cultivemos uma visão apocalíptica) diante senão do colapso ao menos da falência
de um conjunto de valores científicos, sociais e políticos, valores que
fundamentavam até há pouco tempo as produções culturais, as reflexões político-
econômicas e os projetos sociais?’”.
BELLESSA, M. A consolidação da história das mentalidades ao longo do século
20 . Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, 21 jun. 2017.
Disponível em: http://www.iea.usp.br/noticias/historia-das-mentalidades . Acesso
em: 18 abr. 2020.
Diante do apresentado, assinale a alternativa que define o que é História das
mentalidades.
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http://www.iea.usp.br/noticias/historia-das-mentalidades
a) Trata-se do uso das mentalidades para traçar a História das ideias
políticas.
b) Trata-se da análise cultural de uma sociedade, partindo de suas principais
produções literárias.
c) É a análise das mentalidades enquanto ideologias fabricadas para um
determinado objetivo político.
d) É o campo da historiografia que analisa o inconsciente coletivo de grupos
sociais.
e) É o campo da historiografia que estuda as estruturas sociais a partir da
análise da História Universal.
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indicações
Material
Complementar
LIVRO
A Escola dosAnnales 1929-1989
Editora : Unesp
Peter Burke
ISBN : 9788539300761
Comentário : O livro procurou traçar a história da
Escola dos Annales, movimento intelectual e
historiográfico francês que procurou reformular os
modos de se escrever a história.
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WEB
Ocupação Antonio Candido
Ano : 2018
Comentário relacionando com a unidade: Ocupação
Antonio Candido é uma pequena série realizada pelo
Itaú Cultural, a qual teve como objetivo apresentar
quem foi Antonio Candido do ponto de vista das várias
pessoas e dos âmbitos da sua vida. Diante disso, são
retratadas a sua vida familiar, a vida como pesquisador
e professor, a vida política, seu legado acadêmico,
como ele planejava suas aulas, dentre outras coisas. A
série é compostas por vinte e dois vídeos curtos. Para
conhecer mais sobre o assunto, assista ao vídeo no link
a seguir.
ACESSAR
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https://www.youtube.com/watch?v=3XDg_J3P5HE&list=PLaV4cVMp_odwFQ70dikrcWtzeJa9jvWr5&index=1
conclusão
Conclusão
A partir dos pontos que tivemos a oportunidade de estudar nesta unidade,
podemos verificar que a História e as áreas das Ciências Humanas procuram
trabalhar com leituras interdisciplinares. Vimos o caso, por exemplo, do
crítico literário Antonio Candido, o qual não fazia parte da área dos estudos
históricos, mas soube fazer uso do conhecimento da historiografia,
principalmente da História da Cultura, para construir estruturalmente a
análise da formação de uma literatura nacional. Além da interdisciplinaridade,
que é inerente ao fazer da História, como podemos verificar nos tópicos
abordados acima, também foi possível analisarmos a História enquanto
campo científico, detentora de metodologias para a análise e para o trato da
documentação histórica.
referências
Referências
Bibliográficas
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(org.). História em perspectiva . São Paulo: Cosac Naify, 2011.
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25/03/25, 21:28 Ead.br
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