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HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA EHISTORIOGRAFIA BRASILEIRA E GERALGERAL DIÁLOGOS DA HISTÓRIADIÁLOGOS DA HISTÓRIA Autor: Ma. Caroline Cristina Souza Silva Revisor : Lu iz Zaghi IN IC IAR 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6ELJ… 1/36 introdução Introdução Nesta unidade, denominada Diálogos da História, nos aprofundaremos um pouco nos assuntos referentes ao processo de profissionalização da área e das delimitações da função do historiador. Em completude a esse ponto, veremos também, em consonância com esse processo de profissionalização da área, a procura de historiadores por uma relação interdisciplinar da História com as outras Ciências Sociais. Diante disso, iniciamos os nossos estudos através do recorte voltado à criação de uma história da literatura nacional proposta por Antonio Candido. Depois, partiremos para os estudos das novas abordagens da historiografia que procuraram criticar alguns métodos desenvolvidos pela historiografia do século XIX. Por fim, estudaremos dois campos da historiografia, a saber, a História Cultura e a História das Mentalidades. 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6ELJ… 2/36 Antonio Candido foi um sociólogo e crítico literário considerado um dos grandes expoentes da crítica literária no Brasil, tendo traçado, através de seus trabalhos, a formação da literatura nacional. Portanto, Candido foi um dos primeiros intelectuais brasileiros a compreender a literatura como uma forma de expressão da cultura brasileira, utilizando da interdisciplinaridade com outras áreas das Ciências Humanas como, por exemplo, a sociologia, a antropologia e a perspectiva histórico-cultural. Desse modo, concentrou em seu trabalho Formação da literatura brasileira , publicado em 1959, a ambição de traçar um fio condutor que interligasse as expressões literárias no Brasil, traçando um elo do arcadismo até o Romantismo no século XIX. No entanto, faz-se necessário ressaltar que na visão de Antonio Candido (2009), a formação de uma literatura nacional ia de encontro às produções acadêmicas do período as quais procuravam traçar essa formação como sendo a soma de toda a produção literária de uma nação, sendo capaz de resumir, na sua completude até a contemporaneidade, toda a literatura nacional sem levar em consideração as singularidades de cada produção Antonio Candido eAntonio Candido e a Realidadea Realidade BrasileiraBrasileira 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6ELJ… 3/36 literária. Ao contrário, Candido procurou construir na sua narrativa sobre a formação da literatura nacional uma fusão que congregasse a imaginação de origem europeia e a sensibilidade nacional, destacando as particularidades existentes no Brasil, mas sempre mostrando que o todo apenas pode ser explicado se houver compatibilidade e ligação entre a produção artística e o contexto cultural no qual ele está inserido (GAIO, 2017, p. 163; NICODEMO, 2018). O fato de Antonio Candido ter traçado uma linha direta da formação da nossa literatura partindo do Arcadismo para o Romantismo , apesar de nos parecer, em um primeiro momento, um movimento de escolha estética ou de recorte/escolha de um objeto de estudo, dando preferência a uns que a outros, denota a consciência política do autor. Nesse sentido, no seu trabalho há a tentativa de captar os traços embrionários da nacionalidade brasileira, mas que seriam avessos a uma visão teleológica da nação, ou seja, uma visão que buscasse a completude da formação literária nacional. Em suma, para Antonio Candido (2009) a literatura brasileira não pode ser vista na sua completude pois, como o próprio nome de seu trabalho diz, ela ainda está em formação e permanecerá em formação, tendo em vista que as manifestações culturais sempre estão em mutação e levam em consideração essa interação entre presente/passado e presente/futuro. O devir, portanto, além do olhar para o passado, também torna-se responsável pelas criações literárias de uma sociedade. 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6ELJ… 4/36 Outro ponto importante de se ressaltar sobre a visão que Candido (2009) possuía sobre a realidade brasileira, é que as manifestações culturais dessa formação literária nacional mostraram o nascimento de uma sociedade que teve o legado ibérico e o pacto colonial como contrapelo, impedindo e/ou dificultando a constituição de manifestações puramente brasileiras. É por conta dessa questão que Candido exclui o barroco da sua análise da formação nacional da literatura, tendo em vista que as produções advindas dessa inspiração estética traziam consigo mais uma noção de permanência da cultura europeia em terras tropicais do que a fundação de uma cultura literária propriamente brasileira. Ou seja, não marcavam, segundo o autor, uma “continuidade ininterrupta de obras e autores, cientes, quase sempre, de integrarem um processo de formação literária” (CANDIDO, 1975 apud NICODEMO, 2018, p. 23). Diante dessas pontuações, o arcadismo teria, para o autor, significado a primeira expressão de uma literatura nacional na medida em que tentou conjugar a inspiração clássica grega com o cotidiano e as Figura 2.1 - Academia Brasileira de Letras. De pé: Rodolfo Amoedo, Artur Azevedo, Inglês de Sousa, Bilac, Veríssimo, Bandeira, Filinto de Almeida, Passos, Magalhães, Bernardelli, Rodrigo Octavio, Peixoto; sentados: João Ribeiro, Machado de Assis, Lúcio de Mendonça e Silva Ramos Fonte: Auréola / Wikimedia Commons. 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6ELJ… 5/36 especificidades locais. Desse modo, segundo o historiador Thiago Lima Nicodemo, formação [da literatura brasileira] propõe-se desde sua introdução ser uma ‘história dos brasileiros no desejo de ter uma literatura’, ou seja, trata de maneira substancialista da história e da pré-história da consciência nacional. Candido indica pouco a pouco em sua análise dos árcades como estilização literária da realidade local passa a exprimir um sentimento dual, problemas vivos de uma sociedade cheia de paradoxos; em suas próprias palavras, ‘esforço de exprimir, no plano da arte, e dentro dos moldes cultos, a realidade e os problemas de sua terra’ (CANDIDO, 1975 apud NICODEMO, 2018, p. 88). Também nas palavras de Antonio Candido, o Arcadismo é, pois, consciência de integração: de ajustamento a uma ordem natural, social e literária, decorrendo disso a estética da imitação, por meio da qual o espírito reproduz as formas naturais, não apenas como elas aparecem à razão, mas como as conceberam e recriaram os bons autores da Antiguidade e os que, modernamente, seguiram sua trilha (CANDIDO, 2009 apud GAIO, 2017, p. 170). Logo, o fato de a formação literária do Brasil ter sido singular e inacabada do ponto estético se deu pela dificuldade proveniente da dependência da produção cultural em relação aos modelos europeus. E, em vista disso, houve um prolongamento desse processo da formação literária, adaptando os moldes clássicos às peculiaridades e dificuldades do cotidiano brasileiro. Somente após esse primeiro momento, ainda no final do período colonial, que teria tido início uma produção cultural própria e distanciada dos moldes europeus. Machado de Assis teria sido, para Antonio Candido, o maior expoente dessa visão crítica da literatura no período do Romantismo (GAIO, 2017). 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6ELJ… 6/36 A Metodologia de Análise Para traçar a tese de que a completudede uma literatura nacional só seria possível através da análise dos fios condutores e de uma continuidade ininterrupta entre os autores, Antonio Candido partiu de concepções teórico- metodológicas advindas de ao menos três áreas das Ciências Humanas: a Sociologia (adicionando as concepções dialéticas da teoria marxista); a Antropologia (pois a ideia de cultura consegue conjugar as ideias de totalidade e a organicidade das experiências pessoais individualizadas presentes em uma sociedade); e a História (voltada para a área da História Cultural) (BECKER, 1995, p. XIII). O primeiro ponto a ser definido é a distinção entre literatura e manifestações literárias. Para Antonio Candido (2009), a definição da literatura apenas se torna possível quando conseguimos traçar um sistema simbólico o qual se estrutura a partir da tríade: autor, obra e leitor; e a formação de um jogo de trocas simbólicas regulares as quais dependem da relação entre o universal e o local, ou seja, do ponto de vista literário, da corrente acadêmica/escola e as singularidades nas quais o autor está incluído. Esse aspecto também pode ser lido do ponto de vista do contexto histórico de maior amplitude em diálogo ou contraponto com o contexto local ou cotidiano (GAIO, 2017, p. 163). 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6ELJ… 7/36 As obras que não se encaixassem nessa premissa teórico-metodológica utilizada pelo autor estariam avulsas e alheias a esse fio condutor capaz de ligar as temporalidades na literatura, fazendo uma ligação do presente com o passado e do presente com o futuro. Logo, esse tipo de obra seria colocada apenas como manifestações literárias avulsas, não contribuindo para a formação de um ethos da literatura nacional (Ibidem). Vejamos os trechos de Candido selecionados por Henrique Gaio e que resumem essa questão de forma clara e objetiva: O sistema almeja, através do jogo de influências que marcam a trajetória intelectual nacional, identificar sobretudo “uma continuidade ininterrupta de obras e autores, cientes quase sempre de integrarem um processo de formação literária”. A tradição, dessa maneira, revela-se como imperioso, e consciente ato de transmissão ou, como na imagem sugerida por Candido, uma “espécie de transmissão de tocha entre corredores”. Somente verificada tal continuidade ou permanências seria possível tecer o fio que permite historicizar a forma literária, pois “sem esta tradição não há literatura, como fenômeno de civilização”. Figura 2.2 - Sistema literário, segundo Antonio Candido Fonte: Elaborada pela autora. 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6ELJ… 8/36 Literatura, portanto, assenta-se não somente nas trocas simbólicas, mas sobretudo, na interferência que o passado exerce sobre o presente por meio da influência (CANDIDO, 2009, p. 26 apud GAIO, 2017, p. 163). Portanto, esse movimento de transmissão que ocorre entre pessoas e entre temporalidades possui, segundo Candido, a tendência de formar padrões os quais se impõem ao comportamento e ao pensamento, sendo da liberdade de ação dos indivíduos aceitar, criticar ou recusá-los (CANDIDO, 2009). Em suma, essa seria a definição da noção de “sistema literário” desenvolvido pelo autor, o qual provoca a leitura de uma espécie de sobreposição de temporalidades distintas, costurando-as. Essa relação de tensão seria responsável por indicar a permanência de elementos do passado nas obras literárias em conjugação com um ideal de modernização ou de realização de prognósticos de futuro (BAPTISTA, 2005, p. 64). Em um movimento dialético (já que uma das correntes teórico-metodológicas da sociologia utilizada por Candido foi a do marxismo, a qual tinha o movimento dialético como um dos pressupostos teóricos), Antonio Candido (2009) ressalta também a importância de se olhar para esse “sistema literário”, levando em consideração a relevância da individualidade e da singularidade próprias de cada obra literária como uma complementaridade desse sistema. Logo, há a necessidade de se olhar a obra literária sob dois aspectos: a) a obra literária vista no ângulo da sua integridade estética; b) a obra situada em um conjunto, envolvendo autores, leitores e a movimentação de símbolos de linguagem. Nesse sentido, deve-se olhar para a obra literária também a partir da sua autonomia e criação individual (BOSI, 2000, p. 37). Em suma, segundo Alfredo Bosi, ao longo do livro Formação da literatura brasileira , vai se firmando “a ideia de complexidade e unidade expressiva e construtiva de cada obra de arte, cujo nexo com os valores e os padrões de gosto não se subordina passivamente às convenções correntes, [...], podendo problematizá-las” (BOSI, 2000, p. 37). Logo, as estruturas não interferem totalmente nas produções literárias, sendo cada uma delas constituída da sua própria singularidade, as quais são formadas por vários fatores, dentre eles, por exemplo, a personalidade do autor. 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6ELJ… 9/36 praticar Vamos Praticar Para se pensar na formação de uma literatura nacional, faz-se necessário direcionar o olhar para uma forma específica de análise. Nesse sentido, Antonio Candido, buscando compreender a formação literária brasileira, utilizou de áreas das Ciências Sociais, como a Sociologia, a Antropologia e a História Cultural. Nesse sentido, assinale a alternativa que define as duas formas de análise da literatura elencadas pelo autor. a) A utilização da análise do contexto como sendo a única forma de abordagem. b) A personalização total da análise e da crítica literária. c) A conjugação das análises da totalidade em consonância com as particularidades locais e pessoais. d) A junção de um sistema literário com uma rede comercial envolvendo obras, autores e clientes. e) A simples identificação de influências de autores do passado nas obras analisadas. 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6EL… 10/36 Após as abordagens da historiografia do século XIX, a qual desenvolveu a ideia de “história científica” - abordagens de uma visão da história através das concepções da ideia de nação e a utilização das abordagens universalizantes do pensamento do filósofo Hegel -, a área da História passou por um processo de questionamentos e reformulações teórico-metodológicas, visando reformular o modo de escrevê-la. Veremos nos pontos a seguir como essas questões se desenvolveram. Influências Historiográficas do Séc. XIX Para compreendermos o que foi e como se constituiu esse novo modo de fazer a História, faz-se necessário adentrarmos inicialmente nas principais correntes historiográficas da Europa no século XIX, sob o pressuposto de que foram essas que embasaram os novos modos de se pensar e fazer História no século XX. Portanto, veremos as concepções metodológicas sobre a História elaboradas por historiadores das correntes alemã e francesa e como essas mudaram, de forma estrutural, as concepções historiográficas. Um Novo Fazer daUm Novo Fazer da HistóriaHistória 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6EL… 11/36 Uma das correntes historiográficas que mais influenciou o fazer da História do século XIX foi a corrente alemã da “História Científica”. Essa teve como principal embasamento as concepções iluministas advindas, construídas e formuladas no decorrer do século anterior, o século XVIII, também conhecido como o “Século das Luzes”. Assim, foi com o iluminismo que o valor à ciência e à metodologia científica ganhou cada vez mais importância; e esse movimentonão ocorreu de forma diferente com a História, que antes desse período era abordada e apresentada de uma forma mais filosófica, teológica, hagiográfica e/ou literária, afastando-se da veracidade factual e aproximando- se mais da retórica política. Com isso, a prática de se fazer História se aproximou da prática cientificista e metodológica das ciências naturais, sendo inserida no conjunto das ciências (SILVA, 2015, p. 228). Portanto, com o advento das ideias iluministas e com o despertar das reflexões em torno de qual seria o melhor modo de se fazer História, a metodologia pensada pelos alemães para a análise dos tempos e acontecimentos históricos esteve embasada no padrão epistemológico de se conhecer o passado em si mesmo. Com a “história científica”, a História passou por uma repaginação teórica e metodológica a qual culminou com a sua cientificização, cujos resultados foram expressos nas narrativas recheadas de argumentos demonstrativos, articulados à empiria da pesquisa científica e à interpretação do historiador. A concepção do método para a História foi de uma importância sem precedentes, pois com ela fez-se possível a delimitação dos limites de atuação do historiador, assim como da promoção dos historiadores à condição de cientistas (GRESPAN, 2011, p. 291). A partir desse método, o historiador deveria realizar suas análises dos documentos considerados autênticos do período estudado, dos quais conseguiria obter as informações verdadeira referentes a um determinado período histórico e acontecimento. Dessa forma, o que distinguia a História de outros textos teológicos e literários seria o apoio à concepção da verdade enquanto ponto basilar da ciência. A verdade se sustentaria a partir da utilização de métodos empíricos e científicos para o manuseio dos documentos históricos em conjunção com a utilização de documentos 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6EL… 12/36 considerados autênticos e verdadeiros. Em suma, segundo o historiador Jorge Grespan, o conceito de verdade “seria a correspondência, a adequação entre as proposições cientificamente formuladas e apresentadas pelo sujeito do conhecimento e o objetivo real descoberto pela pesquisa empírica” (GRESPAN, 2011, p. 292). Logo, o método historiográfico foi definido como “método- documental” pela historiografia oitocentista. A “história científica”, a qual somava todos os pontos referidos acima, ganhou fundamentação e apoio acadêmico a partir de um movimento cultivado pela Escola Alemã Histórica chamado de historicismo. Esse movimento cultural ganhou cada vez mais força no século XIX, sobretudo na Alemanha, e esteve embasado nas concepções de que existiam leis naturais gerais as quais geriam as sociedades em todos fenômenos que nela ocorriam. Sendo assim, os fenômenos naturais que fossem dotados de significados humanos só poderiam ser estudados a partir da sua historicidade, levando em consideração as ações dos sujeitos em sociedade (SILVA, 2015). Um dos historiadores mais representativos desse movimento e que teve bastante adesão nas academias brasileiras do século XIX foi Leopold von Ranke (1795-1886), sendo o livro O conceito de história universal (1831) o seu trabalho mais importante. Os trabalhos historiográficos de Ranke tiveram influência dos conceitos de “História Universal” e do “espírito do tempo”, esse último proveniente dos trabalhos do filósofo alemão Georg Hegel ( Fenomenologia do Espírito - 1807). Esses conceitos, segundo Sérgio da Mata (2010), eram baseados na ideia de que cada época histórica possuía um valor e uma característica própria. Contudo, ao formar a tríade filosofia, religião e política, de inspiração hegeliana, os trabalhos de Ranke objetivavam pensar a ideia da construção de um Estado Nação (lembremos que foi nesse século que ocorreu o processo de unificação da Alemanha enquanto Estado-nação) (SILVA, 2015). Ranke, no entanto, ao utilizar da ideia de história universal como pressuposto teórico para se compreender a formação do Estado-Nação inspirou, na França, principalmente após os acontecimentos da Revolução Francesa (1789), trabalhos historiográficos os quais eram embasados nas concepções da história universal para se compreender a formação da nação francesa. Um 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6EL… 13/36 dos maiores expoentes dessa produção intelectual foi o historiador Jules Michelet com o livro Introdução à História Universal (1831), os nove livros intitulados História da França (1833-1840) e História da Revolução Francesa (1846-1853) (SANTOS, 2001). Em conjunto com a ideia de universalidade da História, Ranke também desenvolveu a ideia de concretude e verdade da História (que vimos anteriormente) para fundamentar as exigências empíricas inerentes à pesquisa histórica. Logo, a investigação documental deveria acompanhar a pesquisa histórica em consonância com a visão universalizante e filosófica abordada anteriormente (SANTOS, 2001). As ideias do historicismo e da história científica também estiveram presentes nas produções intelectuais promovidas no Brasil do período monárquico, as quais utilizaram a empiria e o apoio à verdade do documento histórico como essenciais para as produções intelectuais sobre a História do Brasil. No Brasil: o IHGB O IHGB - Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro - foi fundado em 1838 a partir de um projeto proveniente da monarquia brasileira de investir em estudos referentes à nação brasileira. Lembremos, portanto, que, em um primeiro momento, essa fundação ocorreu 16 anos após a independência do Brasil e portanto possuía objetivos claros de investimento em trabalhos e pesquisas que contribuíssem para a construção da nação brasileira no que diz respeito aos símbolos nacionais. Logo, o movimento que se iniciou na primeira metade do século XIX no Brasil foi marcado por uma historicização das noções de nação aos moldes dos movimentos que ocorriam na Europa, como podemos ver acima. Ou seja, segundo os historiadores Istvan Jancsó e João Paulo Garrido Pimenta, a construção historiográfica do período pós independência do Brasil teve por objetivo “conferir ao Estado imperial que se consolidava em meio à resistência uma base de sustentação no constituído de tradições e de uma visão organizada do que seria o seu passado” (JANCSÓ; PIMENTA, 2000, p. 132-133). 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6EL… 14/36 O movimento impulsionado pela fundação do IHGB teve como objetivo normatizar a produção historiográfica no Brasil, partindo dos pressupostos cientificistas e empiristas que embasaram a escrita da história do século XIX na Europa. Dois dos maiores expoentes do IHGB foram os historiadores Francisco Adolfo Varnhagen e Capistrano de Abreu. O primeiro embasou seus estudos na chamada historiografia “tradicional” de influência hankeana e o segundo oscilou entre a herança de Varnhagen e as novas concepções historiográficas que inundaram o Brasil na década de 1930, com estudos que procuraram interpretar o Brasil a partir de parâmetros metodológicos provenientes da Sociologia, da Antropologia e da História Cultural (a chamada New History - das academias norte-americanas). Figura 2.3 - Capa da revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) Fonte: IHGB / Wikimedia Commons. A obra mais famosa de Varnhagen foi a História Geral do Brasil (1847) e nela encontram-se traços metodológicos da História científica à medida em que percebe-se que há uma preocupação com a catalogação das fontes e o uso da 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6EL… 15/36 críticaem torno da veracidade e autenticidade das fontes. Segundo o historiador Charles Monteiro, a forma de narrar a história por historiadores do IHGB e de Varnhagen caracteriza-se pela descrição do tipo factual, uma história tradicional no sentido de legitimar as raízes oligárquicas e elitistas da identidade do Estado brasileiro que estes historiadores se empenham em construir. Agem segundo uma “razão ornamental” que destituída de senso crítico não problematiza o processo conflituoso e os diferentes projetos para construir a nação brasileira (MONTEIRO, 1994, p. 168-169). Já Capistrano de Abreu, com o livro Capítulos de História Colonial (1907), continuou utilizando os métodos empiristas da História científica do século XIX, mas com a formulação de uma narrativa mais fluente e descritiva proveniente das inspirações da historiografia do início do século. Portanto, Capistrano foi antecessor da tríade dos historiadores que procuraram reinterpretar o Brasil através da estruturação de bases coloniais. Foram eles: Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Júnior. A Nova História A chamada Nova História surgiu de uma escola de historiadores franceses, em 1939, chamada Escola dos Annales, e o conceito de nova história na verdade é, segundo o historiador Peter Burke, proveniente de uma coleção de ensaios sobre a escrita da História de 1974. Nessa coletânea de ensaios, organizada pelo historiador medievalista Jacques Le Goff, procurou-se discutir acerca dos novos problemas, das novas abordagens e dos novos objetos que compunham os debates em torno de uma nova escrita da história (BURKE, 2011, p. 09). A começar pelos fundadores da Escola dos Annales, Marc Bloch e Lucien Febvre, o que procurou-se fazer, em um primeiro momento, foi a realização de uma rediscussão em torno das metodologias historiográficas provenientes dos historiadores do século XIX, como, por exemplo, Leopold Von Ranke. Procurou-se, portanto, trazer à tona questionamentos referentes à 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6EL… 16/36 problematização do documento, indo de encontro às concepções positivistas da historiografia as quais definiam que o documento fornecia a verdade absoluta sobre os fatos relatados (BURKE, 2011). Ao contrário dos historiadores do século XIX, que na sua maioria se interessavam pela escrita da história essencialmente política e relacionada ao Estado, os historiadores da Nova História passaram a se interessar por toda a atividade humana. É por conta desse novo olhar que a Nova História também pode ser definida como “história total”, na qual tudo tem uma história. Ou como definiu Marc Bloch, a história é a ciência dos homens no tempo e “o historiador não apenas pensa ‘humano’. A atmosfera em que seu pensamento respira naturalmente é a categoria da duração” (duração do tempo) (BLOCH, 2001, p. 55). Nesse sentido, Bloch, ao criticar a historiografia narrativa e factual do século XIX, inaugurou a “história como problema”, na qual elaborou a ideia de que a história não é a ciência do passado, mas sim desse jogo entre passado/presente, presente/passado. A partir dessa concepção, tem a ideia de que o presente é importante para a compreensão do passado, da mesma forma que a compreensão do passado nos permite compreender o nosso presente. Logo, a história estaria em constante construção e reconstrução (BLOCH, 2001). Para lançar as bases dessa concepção, a Escola dos Annales, apesar de ter iniciado os seus estudos mais voltados para as questões e estruturas econômicas de longa duração, teve como máxima combater a história narrativa e do acontecimento, dando abertura para a análise historiográfica de todas as atividades humanas no tempo, partindo, sobretudo, de uma abordagem interdisciplinar (BURKE, 2011). Em consonância com essa mudança de abordagem sobre a escrita da história, viu-se também a mudança na concepção e na percepção do tempo (enquanto construção humana para mensurar a natureza) na escrita da história. Se no século XIX via-se o tempo apenas como algo linear, visando o progresso no futuro, na escrita da história, embasada nas concepções teórico metodológicos da Nova História, o tempo seria mensurado através da longa 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6EL… 17/36 duração dos tempos históricos e das estruturas inerentes a ele, sendo essa passagem temporal bem lenta. Há, concomitantemente, o tempo curto, que é o tempo dos eventos e que passa de forma mais rápida que o anterior. Essas duas concepções de tempo são vistas pelo historiador em simultâneo, formando uma relação de sincronia (tempo longo) e diacronia (tempo curto) (BLOCH, 2001; BRAUDEL, 2011). Por fim, o historiador Marc Bloch aponta outros dois pontos considerados essenciais para o ofício do historiador. São eles: a observação histórica e a crítica ao documento. O primeiro ponto aborda o fato de que o conhecimento dos fatos humanos do passado só é possível através da análise dos seus vestígios. Logo, nunca será possível obter conhecimento do passado na sua totalidade, pois ele sempre surgirá aos olhos do historiador de forma fragmentada; cabe ao historiador juntar as peças e traçar a narrativa. O segundo ponto trata acerca da criticidade que o historiador deve ter sobre o documento e esse ponto faz a crítica mais contundente à historiografia do século XIX, a qual via o documento como mensageiro da verdade absoluta. Figura 2.4 - Divisão do tempo histórico Fonte: Elaborada pela autora. 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6EL… 18/36 Diante disso, para o autor, o historiador deve sempre fazer perguntas ao documento (BLOCH, 2001). A Interdisciplinaridade da Área das Ciências Humanas Há um esforço da História Nova em travar um diálogo com as outras áreas das Ciências Humanas. A sociologia de Émile Durkheim teve um importante papel nas construções historiográficas dos historiadores da Escola dos Annales, principalmente nas pesquisas de Fernand Braudel. Com relação às ciências econômicas, os trabalhos do economista Serge-Christophe Kolm tiveram grande influência nas análises da história econômica e social realizadas por outro historiador da Escola do Annales, Georges Duby (LE GOFF, 2011, p. 157-160). A geografia desenvolveu um papel essencial nos trabalhos dos historiadores Marc Bloch, Lucien Febvre e Fernand Braudel, os quais sempre levaram em consideração as influências dos espaços geográficos e dos fenômenos espaciais na integração das ações humanas no tempo. Já a Antropologia contribui teórica e metodologicamente para análises historiográficas que visam compreender processos históricos menos estruturais e mais próximos das ações do cotidiano (LE GOFF, 2011). 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6EL… 19/36 saibamais Saiba mais O artigo redigido pelo historiador Ricardo Mello procurou traçar algumas metodologias de ensino, nas aulas de História da Educação Básica, para explicar a teoria das três temporalidades desenvolvida por Fernand Braudel, historiador da Escola dos Annales. Para saber mais, acesse o link a seguir. Fonte: Mello (2017). ACESSAR A psicologia também exerce papel fundamental nas análises historiográficas no que tange as psicologias coletivas, mas sobretudo a psicologia individual (que vem sendo utilizada para as análises contemporâneas da historiografia). A psicologia, como veremos mais à frente, contribuiu para a fundamentação teórico-metodológica da História das Mentalidades ( Ibidem ). Como podemos notar, a abertura dos recortes documentais e na visão que a História Nova proporcionou à escrita da história fezcom que houvesse uma interdisciplinaridade com outras áreas das Ciências Humanas. Se a História é a ciência que estuda ações humanas no tempo, buscando uma compreensão total dessas ações (no sentido de abranger os campos de visão), as outras ciências são potenciais contribuidoras para essa empreitada. Contudo, não há limites para a escrita da história na medida em que as produções historiográficas já dialogam com as ciências exatas, como a matemática, a biologia e, recentemente, com a concepção da história do meio ambiente. 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6EL… 20/36 https://rhhj.anpuh.org/RHHJ/article/view/330/232 praticar Vamos Praticar A Escola dos Annales ficou conhecida por causar uma revolução na forma de o historiador compreender o seu ofício. Ao questionar as tendências historiográficas predominantes no século XIX, apontou uma nova forma de conceber e fazer História. Nesse sentido, assinale a alternativa que define a abordagem analítica da história elaborada pela Escola dos Annales. a) A História Universal. b) A História como descrição factual. c) A História como narrativa dos eventos políticos. d) A História como problema. e) A História como a ciência do passado. 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6EL… 21/36 A história cultural é uma área de estudo da historiografia que ganhou contornos mais precisos nas décadas finais do século XX, mais precisamente a partir dos anos de 1970. No entanto, essa área da pesquisa histórica também esteve presente nas produções historiográficas desde o início do século XX. Temos como os exemplos mais próximos, no caso do Brasil, os trabalhos de Gilberto Freyre, de Sérgio Buarque de Holanda e do próprio Antonio Candido, como vimos no primeiro tópico desta unidade, os quais dedicaram boa parte das suas análises historiográficas à compreensão das relações culturais, de costumes e das ideias. Como o próprio nome da área já esboça, na história da cultura propõe-se a realização de pesquisas que tenham como delimitação temática as manifestações culturais humanas no tempo, as quais também envolvem os processos comunicativos e de transmissão de linguagem. Portanto, parte-se do pressuposto que todo indivíduo, ao existir, já automaticamente produz cultura. Ou seja, segundo o historiador francês Georges Duby, esse campo historiográfico se detém a estudar os mecanismos de produção culturais provenientes de um determinado sistema social. Portanto, entende-se por História CulturalHistória Cultural 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6EL… 22/36 produção cultural toda e qualquer produção e não somente as que são classificadas como obras-primas da arte (BARROS, 2003). Na verdade, esse último recorte temático fica reservado aos historiadores da arte, os quais não compartilharam das teorias e metodologias provenientes da História, mas utilizam da historiografia para conceber as análises das obras de artes pesquisadas. Logo, é importante termos a noção de que a história da arte, a história social da arte e a história da cultura são áreas e campos de pesquisas diferentes uns dos outros, os quais possuem delimitações de objetos e de análise próprios, mas que podem dialogar entre si. Logo, segundo o historiador José D Assunção Barros, podemos definir e delimitar a história da cultura da seguinte forma: As noções que se acoplam mais habitualmente à de “cultura” para constituir um universo de abrangência da História Cultural são as de “linguagem” (ou comunicação), “representações”, e de “práticas” (práticas culturais, realizadas por seres humanos em relação uns com os outros e na sua relação com o mundo, o que em última instância inclui tanto as ‘práticas discursivas’ como as ‘práticas não-discursivas’). Para além disto, a tendência nas ciências humanas de hoje é muito mais a de falar em uma ‘pluralidade de culturas’ do que em uma única Cultura tomada de forma generalizada. Em nosso caso, como estamos empregando a História Cultural como um dos enfoques possíveis para o historiador que se depara com uma realidade social a ser decifrada, utilizaremos em algumas ocasiões a expressão empregada no singular como ordenadora desta dimensão complexa da vida humana. Trata-se no entanto de uma dimensão múltipla, plural, complexa, e que pode gerar diversas aproximações diferenciadas (BARROS, 2003, p. 03). Diante dessas pontuações, podemos definir os objetos de estudo que se encaixam no campo da História Cultural. A começar pelos objetos de estudo que já faziam parte da História Cultural do início do século XX como, por exemplo, a Literatura, as Artes e a Ciência, também podemos incluir no campo da História Cultural os estudos em torno da cultura material e imaterial que é produzida a partir da vida cotidiana das pessoas, levando em 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6EL… 23/36 consideração as especificidades locais de uma determinada região, comunidade ou grupo de pessoas, por exemplo. Logo, conclui-se que as manifestações culturais como um todo podem ser incluídas nesse campo de pesquisa historiográfica. Autores como Edward Thompson ( Costumes em Comum - 1980) e Eric Hobsbawm (A invenção das tradições - 1983) são alguns dos muitos exemplos de historiadores da cultura. Também podemos adicionar à lista os historiadores Peter Burke ( Cultura popular na Idade Moderna - 1978), Roger Chartier ( Origens culturais da Revolução Francesa - 1990), Robert Darnton ( O grande massacre de gatos - 1984), dentre outros. No entanto, a História Cultura ganhou abrangência relevante no final do século XX, o que proporcionou a formação de grupos de historiadores com delimitações próprias de abordagem da cultura, assim como a formulação de correntes teórico-metodológicas, as quais podem variar, por exemplo, da “História vista de baixo”, inicialmente elaborada por Edward Thompson, até as análises dos saibamais Saiba mais O artigo do historiador brasileiro Ronaldo Vainfa tem por objetivo traçar um panorama da produção historiográfica brasileira no campo da história Cultural. Para isso, ele analisou a produção realizada nos últimos anos e delineou os debates acadêmicos sobre essa área no Brasil. Para saber mais, acesse o link a seguir. Fonte: Vainfas (2009). ACESSAR 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6EL… 24/36 https://revistas.ufpr.br/historia/article/view/15676 símbolos, linguagens e representações culturais que são elaboradas por Roger Chartier. Enfim, o campo da História Cultural é bastante amplo tanto em temáticas quanto em concepções teóricas. praticar Vamos Praticar A História Cultural é uma área de estudo da historiografia que ganhou contornos mais precisos nas décadas finais do século XX, mais precisamente a partir dos anos de 1970. No entanto, essa área já havia dado sinais nas produções historiográficas do início do século XX. Nesse sentido, assinale a alternativa que define o que é História Cultural. a) A História Cultural é a história da cultura dos povos e civilizações, traçando uma visão totalizante da cultura desse povo. b) A História Cultural é a história que trata das artes e da literatura, ou seja, da cultura considerada erudita. c) A História Cultural é a história que se debruça sobre a produção cultura como resultado das ações humanas no tempo em consonância com as relações sociais. d) A História Cultural é o campo da historiografia que procura compreender as manifestações culturais advindas da cultura material. e) A História Cultural é a história das culturas populares emdetrimento de qualquer outra forma de representação cultural. 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6EL… 25/36 A história das mentalidades pode ser definida como a área de estudo da história que se propõe a estudar as atitudes e os comportamentos coletivos através da sua quantificação a partir da concepção de longa duração proveniente dos estudos e debates da Escola dos Annales. No entanto, o papel da história das mentalidades, se comparada às prioridades do olhar dos historiadores em outras áreas da História, tem o objetivo de focar as análises de temas que eram desprezados pela História Social. Diante disso, tende-se a focar a análise em ambos os âmbitos individual e coletivo, tanto para o tempo longo e estrutural quanto para o tempo curto referente ao cotidiano (como vimos no tópico referente à história nova), criando, assim, um estudo do inconsciente e do intencional, do que diz respeito à estrutura das sociedades e das conjunturas dos acontecimentos (NICOLAZZI, 2000). Desse modo, o inconsciente coletivo que fundamenta o estudo das mentalidades pode ser encontrado em inúmeras fontes. Para o historiador das mentalidades, tudo, literalmente, pode ser considerado fonte para pesquisas, tendo em vista que essa abordagem histórica possui como uma das suas bases teóricas os estudos da psicologia e da psicanálise (NICOLAZZI, História dasHistória das MentalidadesMentalidades 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6EL… 26/36 2000). Por exemplo, as hagiografias (biografias da vida dos santos católicos - literatura muito comum do período medieval) podem ser utilizadas como fonte histórica para o estudo da mentalidade religiosa. Poderíamos citar, também, a utilização da literatura e das artes como fonte de análise histórica para a compreensão da mentalidade cultural de um período histórico e de uma região, por exemplo. 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6EL… 27/36 reflita Reflita A História das Mentalidades é um campo da historiografia que teve o seu início na França, o qual, como podemos ver, se dedica ao estudo das mentalidades coletivas de uma sociedade, grupo social, dentre outros. Esse campo da história se aproxima em demasia da História das Ideias e da História da Cultura, sendo que o debate em torno dessa incapacidade de definição levou a História das Mentalidades a receber muitas críticas de metodologia pela produção historiográfica sobre o assunto. No entanto, também podemos notar que esse campo da história também trouxe uma contribuição muito importante à historiografia por procurar construir tipos de análise interdisciplinares, ligando História, Psicanálise, Psicologia e Sociologia. Diante disso, quais seriam as possibilidades desse campo de estudos para a produção historiográfica dos dias de hoje? Você acha que a aplicação ainda é possível? 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6EL… 28/36 Nesse sentido, o que a história das mentalidades trouxe de novo para a Nova História foi não só a ampliação interdisciplinar nas análises históricas, mas sobretudo a abertura do leque de fontes históricas passíveis de serem utilizadas. O historiador Philippe Ariès (2011) procurou definir a história das mentalidades como aquela que estimulou os dois tempos da história (passado e presente), na medida em que a relação dessas duas temporalidades (no que tange ao trabalho do historiador em relacionar o seu tempo presente com o passado a ser estudado) causa estranhamento e deixa transparecer as diferenças existentes entre as sociedades do presente e as do passado. É a constatação dessa diferença e do estranhamento entre os modos de pensar e de ver o mundo que se fez constituir a história das mentalidades enquanto área de pesquisa historiográfica (ARIÈS, 2011). Vejamos abaixo dois trechos do historiador Ariès sobre essa questão: A história das mentalidades é, portanto, a das mentalidades de outrora, das mentalidades não atuais. O fascínio que essa história parece exercer hoje, e não há muito tempo, talvez possa ser explicado por um grave acidente de nossa mentalidade atual. O homem das épocas clássicas, do Iluminismo, do progresso industrial [...] estava certo da permanência e da superioridade de sua cultura. Ele não aceitava a ideia de que esta não havia existido desde sempre, mesmo sendo verdade que alguns períodos de decadência pareciam ter interrompido a sua continuidade. Ela reemergia com as renascenças. A historiografia positivista do século XIX e início do XX admitia as desigualdades tecnológicas, econômicas, “atrasos” devido à falta de conhecimentos, decadências, enfim, mas não diferenças do nível da percepção e da sensibilidade (ARIÈS, 2011, p. 292). Assim, o passado, o tempo da diferença, torna-se próximo de nosso tempo, e fica cada vez mais difícil ignorá-lo, do mesmo modo que não é possível ignorarmos a arte negra, a arte indígena ou a arte pré-colombiana [...]. As diferenças de todas as eras nos tomam de assalto, e , no entanto, nossa percepção ingênua, imediata, permanece sendo a do nosso próprio presente, único ponto de ancoragem do tempo. Não seria a aproximação recente 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6EL… 29/36 do presente e do passado a verdadeira razão da história da mentalidade? (ARIÈS, 2011, p. 293). No entanto, nos debates acadêmicos entre historiadores, a história das mentalidades também recebeu críticas as quais diziam respeito à falta de delimitação teórico-metodológica para essa área da historiografia. Esse foi o argumento apresentado, por exemplo, pelo historiador Michel Vovelle, o qual também utilizou a história das mentalidades em suas pesquisas, mas que não conseguiu defini-la a partir de uma demarcação metodológica (ARIÈS, 2011). praticar Vamos Praticar “Na perspectiva de um historiador das mentalidades e ideologias, Mota indaga ‘que significados pode ter refletir sobre história hoje, nesta etapa do processo civilizatório que se assiste em nosso país, quando nos vemos (ainda que não cultivemos uma visão apocalíptica) diante senão do colapso ao menos da falência de um conjunto de valores científicos, sociais e políticos, valores que fundamentavam até há pouco tempo as produções culturais, as reflexões político- econômicas e os projetos sociais?’”. BELLESSA, M. A consolidação da história das mentalidades ao longo do século 20 . Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, 21 jun. 2017. Disponível em: http://www.iea.usp.br/noticias/historia-das-mentalidades . Acesso em: 18 abr. 2020. Diante do apresentado, assinale a alternativa que define o que é História das mentalidades. 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6EL… 30/36 http://www.iea.usp.br/noticias/historia-das-mentalidades a) Trata-se do uso das mentalidades para traçar a História das ideias políticas. b) Trata-se da análise cultural de uma sociedade, partindo de suas principais produções literárias. c) É a análise das mentalidades enquanto ideologias fabricadas para um determinado objetivo político. d) É o campo da historiografia que analisa o inconsciente coletivo de grupos sociais. e) É o campo da historiografia que estuda as estruturas sociais a partir da análise da História Universal. 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6EL… 31/36 indicações Material Complementar LIVRO A Escola dosAnnales 1929-1989 Editora : Unesp Peter Burke ISBN : 9788539300761 Comentário : O livro procurou traçar a história da Escola dos Annales, movimento intelectual e historiográfico francês que procurou reformular os modos de se escrever a história. 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6EL… 32/36 WEB Ocupação Antonio Candido Ano : 2018 Comentário relacionando com a unidade: Ocupação Antonio Candido é uma pequena série realizada pelo Itaú Cultural, a qual teve como objetivo apresentar quem foi Antonio Candido do ponto de vista das várias pessoas e dos âmbitos da sua vida. Diante disso, são retratadas a sua vida familiar, a vida como pesquisador e professor, a vida política, seu legado acadêmico, como ele planejava suas aulas, dentre outras coisas. A série é compostas por vinte e dois vídeos curtos. Para conhecer mais sobre o assunto, assista ao vídeo no link a seguir. ACESSAR 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6EL… 33/36 https://www.youtube.com/watch?v=3XDg_J3P5HE&list=PLaV4cVMp_odwFQ70dikrcWtzeJa9jvWr5&index=1 conclusão Conclusão A partir dos pontos que tivemos a oportunidade de estudar nesta unidade, podemos verificar que a História e as áreas das Ciências Humanas procuram trabalhar com leituras interdisciplinares. Vimos o caso, por exemplo, do crítico literário Antonio Candido, o qual não fazia parte da área dos estudos históricos, mas soube fazer uso do conhecimento da historiografia, principalmente da História da Cultura, para construir estruturalmente a análise da formação de uma literatura nacional. Além da interdisciplinaridade, que é inerente ao fazer da História, como podemos verificar nos tópicos abordados acima, também foi possível analisarmos a História enquanto campo científico, detentora de metodologias para a análise e para o trato da documentação histórica. referências Referências Bibliográficas ARIÈS, P. A história das mentalidades. In : NOVAIS, F. A.; DA SILVA, R. F. N. (org.). História em perspectiva . São Paulo: Cosac Naify, 2011. 25/03/25, 21:28 Ead.br https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=eJ59Qg9ALjtmCZbBjy19zg%3d%3d&l=mk8kBdvUMmx2Yiqx3McaaQ%3d%3d&cd=uS6EL… 34/36 BAPTISTA, A. B. O cânone como formação: a teoria da literatura brasileira de Antonio Candido. 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