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POLÍTICAS PÚBLICAS E TERRITÓRIOS INDÍGENAS 
 
Elizabeth Maria Beserra Coelho
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Resumo: Analise da forma como o estado Brasileiro constrói as 
políticas de demarcação das denominadas terras indígenas, e do 
processo de efetivação dessas políticas, tomando como referência 
duas terras situadas no Maranhão-Brasil. Aponta a luta pela definição 
de limites, que se dá em uma correlação de forças desigual, em 
detrimento dos interesses dos povos indígenas, que são 
subalternizados nesse processo. 
Palavras-chave: Políticas públicas, índios, território. 
 
Abstract: This paper analyses how the brazilian State does runs 
indigenous lands policies, based on two situations in Maranhão, 
Brasil. It focuses the fight for frontiers and the indigenous condition of 
being subaltern. 
Key words: Publics politics, indigenous peoples, land. 
 
1
 Doutora. Universidade Federal do Maranhão. E-mail: betac@elo.com.br 
 
 
 
1. INTRODUÇÃO 
 
A construção do território de um povo é um processo que envolve a luta pelo poder 
de definir seus limites. No caso dos povos indígenas no Brasil, essa luta tem como atores 
fundamentais o estado brasileiro, através de diferentes segmentos, e o povo indígena ou 
povos indígenas, no caso de território compartilhado. 
Diferentes configurações são construídas e entram em disputa, num processo que, 
em princípio é administrativo e, em geral, assume desdobramentos que se dão no âmbito 
judicial. 
Há no Brasil o dispositivo constitucional de demarcação de terras indígenas. Isso 
significa a eleição e posterior demarcação de áreas para usufruto exclusivo de um ou mais 
povos indígenas. O termo usufruto indica que a propriedade da terra é do Estado brasileiro, 
cabendo aos índios unicamente a posse. 
A construção da relação entre índios e não índios no Brasil foi se dando ao mesmo 
tempo em que este país estabelecia sua política de terras. A terra, um bem inicialmente 
disponível em abundância, recortado em capitanias hereditárias e sesmarias, foi tendo seu 
acesso regulamentado. Os índios que viviam soberanamente no espaço que foi definido 
como Brasil, nos anos de mil e quinhentos, passaram a disputar com os colonizadores o 
controle sobre a terra. 
No Brasil Colônia, a terra era percebida como um bem livre, mas de posse do rei. 
Ao se definir como nação independente de Portugal, o Brasil promulgou sua lei de terras, 
em 1850, redefinindo o acesso a terra, que ficou restrito àqueles com poder aquisitivo para 
comprá-la. No processo de regularização das terras pós 1850, os povos indígenas, em sua 
absoluta maioria, foram desconhecidos como senhores de suas terras. 
A legislação colonial portuguesa reconhecia o direito originário dos índios à terra e 
a soberania desses povos. Esse reconhecimento, no entanto, referia-se as terras que já 
haviam sido alocadas para os índios e não ao seu habitat original. No Brasil República 
manteve-se o reconhecimento do direito dos índios à terra, sendo definida como terra 
indígena aquela de ocupação tradicional. No mesmo Estatuto é assegurada à 
inalienabilidade e exclusividade das terras indígenas. 
Mas para que uma terra seja demarcada como indígena faz-se necessário um 
processo administrativo que em uma de suas etapas delimitará as fronteiras dessa terra, 
que não será reconhecida como território de um povo indígena, mas como terra da União. A 
decisão final sobre seus limites cabe ao Estado brasileiro, através do Ministério da Justiça. 
 
 
 
Neste artigo analiso a construção do território de dois povos indígenas. Os Tentehar, 
cuja autodenominação significa o “ser verdadeiro” e que são conhecidos como Guajajaras. 
Os Awá, cuja autodenominação significa homem, são regionalmente conhecidos como 
Guajá. Os dois povos são falantes de línguas classificadas no tronco tupi (RODRIGUES, 
1986). 
 
2. OS AWÀ OS NOVOS HARAKWA 
 
 Até meados dos anos setenta do século XX, os Awá mantiveram um estilo de vida 
nômade, perambulando por regiões de floresta, nos estados do Pará e Maranhão, na pré-
Amazônia brasileira. Provavelmente por volta de 1950 todos já haviam migrado do estado 
do Pará para o estado do Maranhão. Constituem um dos últimos povos caçadores e 
coletores no Brasil. 
 A forma como vem se constituindo o que hoje constitui o território Awá é produto do 
jogo de poder no qual os Awá são subalternizados por grupos econômicos da sociedade 
brasileira. De acordo com O’Dwyer (2005), o movimento dos grupos Awá no uso de rotas e 
áreas de caça-coleta resultava na formação de uma rede pela qual circulavam as 
informações e as trocas. Cada grupo Awá reconhece como própria uma parte do território 
que compartilha, ao que chama harakwa (“meu território”) e hakwa “o território do outro”. 
Costumam referir-se aos nomes das famílias pelos territórios de caça-coleta por eles 
utilizados – os harakwas. Além disso, O’Dwyer (2005) observou que através dos topônimos 
que utilizam seria possível decifrar a combinação que fazem entre as localidades atuais e o 
habitat que deixaram para trás. Esta estrutura territorial se reproduz nas novas condições de 
redução da mobilidade. 
As tensões decorrentes do avanço de frentes de expansão2 da sociedade brasileira, 
especialmente aquelas de caráter extrativista, provocaram o início da ação de atração dos 
Awá, realizada pela Fundação Nacional do Índio-FUNAI3, em 1973. Essa foi uma das 
primeiras ações oficiais no sentido de impor limites aos deslocamentos dos Awá. O contato 
entre Awá e brasileiros4 vem se dando em diferentes momentos para os vários grupos, que 
 
2
 A categoria Frentes de expansão é utilizada no sentido de Cardoso de Oliveira, 1972, para expressar a 
concepção de ocupação do espaço tomando como referência as populações indígenas ou mestiças. 
3
 Órgão indigenista oficial, criado em 1967, sucedendo o extinto Serviço de Proteção ao Índio-SPI. 
4
 Considero que os povos indígenas constituem nações diferenciadas da nação brasileira. 
 
 
 
vão sendo “aldeados”5, de forma aleatória, em três Terras Indígenas: Alto Turiaçu, Caru e 
Awá. 
 Os Awá podem ser encontrados numa vasta extensão territorial, que vai desde a 
região onde está demarcada a terra indígena Araribóia, até onde se localiza a terra indígena 
Alto Turiaçu. Esse espaço não coincide com o que foi definido oficialmente como território 
Awá. A Terra Indígena Alto Turiaçu com 530.525 hectares, demarcados desde 1978, é a 
maior Terra indígena do Maranhão. Até 1976, essa terra formava juntamente com a Terra 
Indígena Caru, uma única reserva com aproximadamente 845.000 hectares, até que a 
FUNAI permitiu sua divisão em duas áreas, deixando fora cerca de 160.000 hectares que 
passaram a ser ocupados por vários povoados e fazendas. A terra indígena Caru foi 
demarcada para a posse permanente dos povos indígenas Tentehar e Awá. A presença dos 
dois povos em um mesmo território tem sido motivo de tensões e de tentativa de domínio 
dos Tentehar sobre os Awá. A Terra Awá foi definida em 118.000 ha. e demarcada em 
2005. Há notícias sobre a existência grupos que viviam autonomamente, alguns localizados 
em terras não demarcadas para índios. (GOMES e MEIRELES, 2002). 
As três terras onde vivem os Awá são palco de diferentes tipos de invasões por parte 
de não- índios, praticadas por moradores do entorno, que visam caçar ou pescar na terra 
indígena e as invasões de caráter permanente, como povoados e as fazendas, com 
razoável infra-estrutura, e as empresas de extração de madeira. 
Atualmente, os Awá em contato somam cerca de 300 e encontram-se ilhados em 
diferentes terras. A impossibilidade de percorrer as rotas tradicionais de nomadismo, devido 
às invasões, dificulta os intercâmbios para inter-casamentos. As distâncias entre as aldeias 
poderiam ser facilmente percorridas pelos Awá, masseu raio de mobilidade, com um 
mínimo de segurança, oscila entre 05 a, no máximo, 15 kms. 
A estratégia escolhida pelo órgão de proteção oficial, de manter os Awá fixos em um 
lugar tem implicado na necessidade da agricultura como forma de complementar as suas 
necessidades dietéticas. Esse novo contexto tem alterado bastante o modus vivendi Awá. A 
natureza, antes mantenedora de suas necessidades sem que fosse necessária a utilização 
de recursos tecnológicos fabricados por outros, agora é palco de ações de cultivo com 
instrumentos agrícolas. Por outro lado, a caça, antes realizada exclusivamente com 
instrumentos de fabricação Awá, agora é praticada, também, com a utilização de armas de 
fogo. 
 
5
 O termo aldeamento é oriundo dos descimentos realizados pelos missionários católicos no Brasil Colônia. Os 
índios eram trazidos de seus habitat tradicionais e reunidos numa aldeia para ser catequizados. 
 
 
 
 
3. ZANEYWY VERSUS TERRA INDÍGENA 
 
A construção do que atualmente é definido como a territorialidade Tentehar deu-se 
no confronto com a colonização do Brasil e, posteriormente, no confronto com a construção 
da territorialidade brasileira 
As aldeias jesuíticas foram a primeira forma significativa de alteração na 
configuração da territorialidade Tentehar. Essa alteração não ocorreu de forma pacífica, pois 
muitos Tentehar fugiram das missões, enquanto outros conseguiram se manter à margem. 
Após a independência do Brasil outras interferências ocorreram na forma de 
ocupação dos Tentehar: a implantação das colônias indígenas e das diretorias parciais de 
índios. Da mesma forma que ocorria no Brasil Colônia, a preocupação do Estado era 
“domesticar” os índios de modo a permitir o avanço da “civilização” do país. Mais uma vez 
foram submetidos a religiosos, ou mesmo a diretores leigos, nas colônias e diretorias 
parciais. Nesse período, muitos já haviam migrado para a região dos rios Mearim, Corda e 
Grajaú. Na conquista dos novos espaços territoriais enfrentaram os povos timbira, 
tradicionais habitantes daquela região. 
Segundo Wagley e Galvão (1955), a concepção tradicional de território dos Tentehar 
está circunscrita ao terreno da aldeia. Para esse povo, o território que circunda a aldeia é 
propriedade desta. Nesse sentido, cada aldeia tem sua terra ou terreno: Ze hewu rae ihe, 
que significa “aqui é terra de minha aldeia”. Esta idéia de espaço está associada ao tipo de 
organização social Tentehar, segundo a qual cada aldeia forma uma unidade independente6. 
Da mesma forma, não possuíam a noção de domínio sobre um espaço contínuo e 
homogêneo. O contato com os brasileiros gerou novas formas de concepção da 
territorialidade, marcadas pela noção jurídico-política, que envolve a interferência do Estado 
Nacional. 
A forma mais recente pela qual se dá essa interferência é a política de demarcação 
de terras indígenas. Os critérios de demarcação desenharam um novo espaço para os 
Tentehar, que foram sendo alocados em diferentes áreas, que hoje somam onze. Todas 
essas áreas estão demarcadas e homologadas, mas várias enfrentam problemas de 
invasões. 
 
6
 Um Tentehar, ao definir o território de sua aldeia, afirmou que se estendia desde um afluente do rio Pindaré até 
onde o sol se põe. Wagley e Galvão (1955, p..60). 
 
 
 
 Ao longo do processo de disputa pela terra emergiram várias representações sobre 
terra, cidadania, nacionalidade. A situação de disputa reforçou o contraste entre Tentehar e 
brasileiro. As fronteiras étnicas/nacionais surgiram como bem demarcadas. 
 A relação com os brasileiros introduziu novos elementos na identificação do povo 
Tentehar, já que estes foram “incorporados” ao Estado Nacional brasileiro. No entanto, os 
vários séculos de contato não destruíram o “discurso” que representa a cultura nacional 
Tentehar. Sua narrativa se constrói, também, a partir de um espaço, definido em disputas 
conflituosas, mas que representa suas fronteiras étnicas. 
A noção de terra assumiu significados diferentes para os diferentes atores, ao longo 
do processo de disputa. Os Tentehar concebiam a terra como o elemento fundamental para 
a reprodução de sua sociedade. É a idéia do espaço como uma dimensão da sociedade, 
que está configurada na terra explorada como fator de produção e como lugar de moradia. 
O uso da terra é ordenado segundo os princípios do parentesco. É o zaneywy (nossa terra) 
associado ao zanerekohaw (nossa vivência), que vai se construindo junto à “terra que foi 
tirada prá nois” (a terra demarcada pelo Estado). 
Muito embora vivenciem uma situação peculiar, imposta pelo Estado brasileiro, 
configurada no usufruto da terra, os Tentehar possuem o sentimento de propriedade da 
terra. É uma idéia de propriedade que mistura princípios jurídicos, que estão postos na 
Constituição Brasileira, com princípios de imemorial idade. O que hoje constitui o território 
Tentehar é um conjunto de “ilhas” que se configuraram no confronto entre os interesses da 
sociedade brasileira e as reivindicações dos Tentehar. É o zaneywy moldado pela “terra 
que foi tirada prá nois”. Terreno, nossa terra, nosso lugar, território são as expressões 
que os Tentehar utilizam, em português, para expressar o espaço por eles ocupado. 
 . Indica a pretensão dos Tentehar de exercer o controle sobre o espaço, que já não A 
noção de território expressa uma representação coletiva, uma ordenação do espaço, 
formada através do dado imediato da materialidade é mais o espaço circunscrito ao terreno 
da aldeia, mas o terreno de várias aldeias, não permitindo a fixação de estrangeiros, 
denominados invasores. 
 Os Tentehar foram modificando sua concepção de território em função da relação 
com os colonizadores. Aquela visão do território como um espaço cujas fronteiras não 
ultrapassavam os limites das aldeias, com áreas de caça muito bem delimitadas por cada 
grupo, foi redimensionada. Diante da força econômica e militar do Estado brasileiro os 
Tentehar acataram a concepção jurídica da terra, difundida por este Estado, centrada no 
 
 
 
direito, na idéia de uso, posse, ocupação, etc. Trata-se de uma definição de território que se 
baseia num ato de autoridade, que privilegia a necessidade de expansão do Estado 
Nacional. O território indígena passou a ser definido por este Estado. 
Essa é a concepção que já incorpora a idéia da “terra que foi tirada prá nois”, que 
expressa a consciência de que a definição das fronteiras territoriais passa por uma 
negociação com o Estado brasileiro. Isso não implica, entretanto, que os Tentehar tenham 
aberto mão da definição de suas fronteiras territoriais. Apenas revela uma mudança nas 
regras do jogo, no qual o Estado entra como um participante direto, com o qual é preciso 
negociar. 
 
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS 
 
 Os povos indígenas vivenciam um processo de redefinição da relação com o meio 
ambiente e o território no qual constroem suas estratégias de sobrevivência. O que vai se 
definindo como território de um povo indígena é o resultado de uma disputa de poder que 
envolve de um lado o povo indígena e, do outro, segmentos da sociedade brasileira, 
representados por fazendeiros, madeireiros, extratores intermediados ou não por órgãos 
oficiais. No caso específico dos Awá e dos Tentehar esse confronto tem alterado de forma 
profunda e radical a representação que esses povos possuíam sobre seus territórios. São 
várias lógicas espaciais e concepções sobre a terra que entram em disputa, revelando os 
conflitos de reconhecimento e de alteridade. 
A concepção de território dos povos indígenas remete, sem dúvida, para uma noção 
geométrica, mas uma geometria que não está subordinada às formas jurídico-políticas. A 
definição de um território é resultado de uma construção simbólica e implica no 
estabelecimento de fronteiras que expressam a concepçãoque a sociedade faz da 
alteridade. Muito embora o resguardo e proteção das terras indígenas seja um dever do 
estado brasileiro, definido em sua constituição, a FUNAI, órgão que deveria cumprir essa 
função, não o tem feito como deveria. 
Alguns brasileiros questionam a demarcação das terras indígenas alegando ser 
muita terra para pouco índio. A lógica de ocupação da terra, presente no discurso dos vários 
funcionários públicos envolvidos com a questão costuma ser inspirada em uma geometria 
de lotes familiares, voltados para o sustento de cada uma delas. A idéia de um espaço 
coletivo escapa a essa lógica, que não vê a necessidade de abrir mão de tanta terra para os 
 
 
 
índios Essa é a lógica da negação da alteridade. Esse é um argumento comum aos 
cidadãos de um Estado que se mantém à revelia da discussão sobre a sua 
plurinacionalidade. Os povos indígenas são concebidos da mesma forma que os 
trabalhadores rurais, não os admitindo como nações em defesa de um território específico. 
 
 
REFERÊNCIAS 
GOMES, M.P. e Meirelles, J.C. Relatório Awá-Guajá-2002. Para a constituição de um novo 
Programa de Proteção, Assistência e Consolidação Étnica do Povo Awá. Apresentado a 
FUNAI, Companhia Vale do Rio Doce e Secretaria da Amazônia do Ministério de Meio 
Ambiente. 2002: Inédito. 
RODRIGUES, A. D. Língua brasileira para o conhecimento das línguas indígenas. São 
Paulo: Edições Loyola, 1986. 
O’DWYER, E. C. Relatório Preliminar – Pesquisa Awá. Rio de Janeiro: UFF, 2005. 
VELHO, O. Frentes de expansão e estrutura agrária. Rio de Janeiro: Zahar, 1972. 
WAGLEY, C. e GALVÃO E. Os Índios Tenetehara - Uma cultura em transição. Rio de 
Janeiro, Ministério da Educação e Cultura. 1955.

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