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Universidade Federal de Lavras (UFLA) Departamento de Matemática e Matemática Aplicada Seminário - Explicações EJA RESUMO A configuração social das escolas brasileiras mudou significativamente. An- tes, as turmas eram homogêneas, compostas por estudantes brancos e de alto nível socioeconômico. Hoje, as salas de aula são marcadas pela di- versidade social, política, econômica, étnica e religiosa. A diversidade é entendida como a multiplicidade e reconhecimento das diferenças em vários aspectos, como sentimentos, cultura e religião. No contexto contemporâneo, a diversidade está presente em todas as esferas da sociedade, especialmente na escola, e o respeito a ela é essencial para uma convivência harmoniosa. Anteriormente, a homogeneidade das turmas era justificada por razões pe- dagógicas e econômicas, facilitando a criação de atividades adequadas para todos os estudantes e permitindo um ritmo de ensino uniforme. Anteriormente, a ideia de misturar alunos com diferentes níveis de conhecimento em uma mesma turma era considerada inviável, pois poderia comprometer o processo de aprendizagem. Economicamente, era mais eficiente agrupar alunos em pequenas classes homogêneas, promovendo-os apenas após aprovação em exames específicos. No entanto, mesmo com essa abordagem, era impossível formar grupos totalmente homogêneos, já que cada aluno desenvolve seu próprio ritmo de aprendizagem. As estratégias docentes não conseguem promover o desenvolvimento de todos de maneira uniforme. Portanto, a escola deve abandonar o tratamento igualitário e se adaptar às necessidades individuais dos alunos. Atualmente, a heterogeneidade nas escolas é destacada por diversos aspec- tos, incluindo diferenças sociais, étnicas, visões de mundo, comportamentos e experiências extraescolares dos alunos. No entanto, a comunidade escolar ainda enfrenta desafios para lidar com essas diferenças. É necessário não apenas tolerar e respeitar a diversidade humana, mas também valorizar a 1 heterogeneidade de saberes para ampliar os repertórios de ensino e diversifi- car a prática docente, atendendo às especificidades de todos os alunos. O processo educacional envolve a interação de pessoas com diferentes conheci- mentos, incluindo professores e alunos, que compartilham suas experiências. Professores também têm suas particularidades, pois estão inseridos em um contexto social. A escola, como instituição social, promove o encontro de diferentes personalidades e valores, influenciados pela globalização. Alguns autores destacam que a escola contemporânea precisa firmar par- cerias com a comunidade para promover uma sociedade que saiba conviver e respeitar as diferenças. Os docentes devem compreender e identificar as especificidades de cada aluno, atendendo às diferentes demandas de aprendizagem. Embora a escola sozinha não possa mudar a sociedade, ela pode, através de projetos pedagógicos, fazer com que a diversidade seja vista e tratada como natural, respeitando princípios democráticos e rompendo com mitos e estereótipos que sustentam a discriminação. Trabalhar com a heterogeneidade dos estudantes remete à ideia de inclusão, mas é neces- sário ir além de incluir minorias ou pessoas com necessidades especiais, reconhecendo que todos somos diferentes. André (2006) destaca as contribuições de Philippe Perrenoud, que focou em entender como as desigualdades sociais se transformam em desigualda- des escolares. Perrenoud defende que é necessário superar a tendência de tratar todos os estudantes como iguais e buscar uma educação que considere as diferenças, favorecendo cada aluno. Ele enfatiza que a diferenciação não significa individualização do ensino, mas sim o acompanhamento individua- lizado dos progressos de cada estudante. A diversidade na educação é apoiada pela Constituição Brasileira de 1988 e pela Lei 12.796 de 2013, que garantem acesso e permanência no ambiente educacional para todos os estudantes, combatendo ideias discriminatórias. No entanto, Vieira e Zaidan (2016) apontam que, apesar da legalização do direito à educação, o sistema de ensino ainda não atinge níveis satisfatórios de aprendizagem, indicando que a preocupação numérica do poder público 2 não é suficiente para garantir uma educação democrática. Para enfrentar a problemática da diversidade e respeito ao diferente no currículo escolar, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) de 1998 propõem a discussão de ‘temas transversais’ para formar cidadãos capazes de lidar com os desafios da sociedade. Os PCN de 1997 introduzem a ‘pluralidade cultural’, permitindo aos alunos conhecer e valorizar diferentes manifestações culturais. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) re- força essas ideias, destacando o compromisso do Estado com uma educação integral que acolha e desenvolva todos os estudantes, respeitando as diferen- ças e combatendo a discriminação. A valorização da diversidade de saberes e vivências culturais é uma das competências gerais da BNCC, promovendo escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao projeto de vida dos alunos, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade. Para ajustar o ensino às necessidades de aprendizagem dos alunos, é importante criar situações que permitam a interação entre estudantes com diferentes conhecimentos, promovendo a ajuda mútua. As tarefas não precisam ser padronizadas, mas podem ser diferenciadas para atender alunos com diferentes níveis de conhecimento. O desafio dos professores é propor atividades que valorizem a pluralidade de saberes da turma. Ao estar atento à diversidade de saberes, os professores aumentam as chances de desenvolvimento intelectual dos alunos. Isso requer uma análise contínua da prática docente, considerando as necessidades, comportamentos, dificuldades e interesses dos alunos. Lidar com as especificidades dos estudantes e atender toda a turma não é simples, exigindo reflexão crítica e coletiva, além de uma formação inicial e continuada bem estruturada. A prática docente é vista como a reelaboração e ressignificação de ações reflexivas realizadas pelos professores dentro e fora da sala de aula (Dourado, 2017). Já as estratégias docentes são definidas como um conjunto de ações planejadas para resolver situações específicas de aprendizagem (Vieira; Zaidan, 2016). Torre e Barrios (2002) complementam essa definição ao descrever a estratégia como um procedimento socioafetivo que relaciona 3 meios e fins, sendo um processo mental adaptativo que se ajusta conforme as variáveis contextuais mudam. Essas estratégias não são apenas princípios ou atuações, mas processos mentais projetados para resolver problemas práticos, exigindo uma visão ampla e a capacidade de tomar decisões adaptadas ao contexto real. Sá e Pessoa (2015) identificam três estratégias para lidar com a hetero- geneidade de aprendizagem dos alunos: atividades diferenciadas realizadas coletivamente, em grupo ou duplas, e individualmente. Essas atividades devem ser imperceptíveis aos alunos para evitar rotulações e ressentimen- tos, conforme recomendado por Couto (2008). No entanto, diversificar estratégias não é suficiente se a mediação ainda estiver centrada na coer- ção, memorização e controle da progressão de aprendizagem, o que pode contradizer a perspectiva didática adotada (Sá; Pessoa, 2015). Vieira e Zaidan (2016) destacam que, independentemente das estratégias utilizadas, todas apresentam elementos comuns: tarefas adequadas ao grupo de alunos, preocupação com a formação geral dos estudantes, confiança no potencial de cada aluno, valorização do contexto social, flexibilidade no projeto curricular, interações dialogadas e afetivas, e infraestrutura adequada na escola para apoiar as ações dos professores. Os saberes docentes experienciais, que incluem preconcepções sobre o ensino adquiridas durante a experiência como estudante e no processo de formação, bem como os saberes provenientes da prática, são altamente valorizados pelos professores. Esses saberes são fundamentais para desenvol- ver estratégias que atendamàs singularidades de aprendizagem dos alunos, servindo como guia para a ação pedagógica e fornecendo certezas vinculadas ao contexto de trabalho (Camargo, 2015). Além disso, o saber experiencial é coletivo, permitindo que os docentes compartilhem materiais e informações entre si, discutindo maneiras de associá-los a outros saberes, como teorias acadêmicas e prescrições legais, e validá-los em sua prática profissional (Nóvoa, 2017b; Tardif, 2010). Cada professor é, portanto, aprendiz de sua própria prática (Vieira; Zaidan, 4 2016). É importante destacar que priorizar certos saberes-fazeres não implica hierarquizar os diferentes tipos de saberes, pois a associação de todos eles é essencial para o bom desempenho da prática docente (Silva, 2014). Os docentes compreendem algumas sutilezas do ato de lecionar apenas quando começam a desempenhar sua função, com a identidade profissional sendo construída progressivamente (Tardif, 2010). Silva (2014) destaca que as inovações pedagógicas surgem da coragem dos professores em buscar novas práticas de ensino, saindo de sua zona de conforto e estando dispostos a errar e acertar. Apesar da consciência das diferenças, muitos profissionais da educação ainda utilizam métodos homogêneos e padronizados de ensino (Barreto; Barreto, 2011; Costa; Perrude, 2015). As dificuldades dos alunos são frequentemente atribuídas ao seu desempenho escolar, mas é importante entender que o processo de aprendizagem é influenciado por uma rede de relações que envolve alunos, colegas, familiares, e a relação professor-aluno (Rezende; Lourenço, 2013). A responsabilidade pelo fracasso escolar não deve recair apenas sobre os professores ou alunos, pois ambos não agem sozinhos nesse processo. É dever de toda a sociedade civil auxiliar na efetivação das aprendizagens (Couto, 2008; Felix; Silva, 2016). Os pais e responsáveis precisam estar cientes das mudanças na estrutura da sala de aula e compreender que a estrutura oferecida pela instituição de ensino deve acompanhar as transformações da sociedade moderna (Couto, 2008). Couto (2008) afirma que, mesmo com a preocupação dos professores com a heterogeneidade da sala de aula, poucos resultados serão alcançados se essa questão não for contemplada na grade curricular. Embora haja uma reflexão sobre as singularidades dos estudantes, a avaliação e o currículo escolar ainda seguem um modelo homogêneo e excludente. A autora defende a necessidade de um modelo curricular heterogêneo, que resgate valores e tenha um compromisso com os marginalizados. 5 Além disso, ao considerar a heterogeneidade, é necessária uma avaliação criteriosa, centrada nos objetivos a serem alcançados. A perspectiva curri- cular deve abordar as peculiaridades dos alunos como um fator de extrema importância, e não como algo irrelevante (Couto, 2008). A disposição dos alunos em sala de aula pode dificultar a interação e o compartilhamento de experiências. A organização enfileirada das carteiras reforça a discriminação, inviabilizando o contato entre os envolvidos. Ao for- mar grupos de trabalho, é essencial promover uma interação saudável tanto dentro das equipes quanto entre diferentes grupos, variando a composição para evitar polarizações (Couto, 2008). Embora se discuta muito sobre a heterogeneidade na sala de aula, há pouca bibliografia que aborde e defina o tema (Morais; Franco, 2011). O Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (PNAIC) considera a heterogeneidade um fenômeno natural, refletindo os interesses e oportunida- des ao longo da vida (Brasil, 2012). Hess (2001) define salas heterogêneas como aquelas que abrigam pessoas com diferenças multiculturais, de idade, características familiares, aquisição de conhecimentos e habilidades. Portanto, o trabalho dos professores deve respeitar e reconhecer a diver- sidade de saberes e experiências dos alunos. É necessário conhecer mais sobre a formação desses professores para melhor atender essa diversidade. 6