Prévia do material em texto
372 FI LO SO FI A Contrato social: convenção imaginada por cer- tos filósofos e que constitui, segundo eles, o fun- damento ideal da organização para a vida social ou uma sociedade política. HUSS, J. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Scipione, 1994. p. 52. Em Hobbes, a questão do Estado como fator de coesão social, usando como instrumento a política, passa pela dis- cussão do conceito de estado de natureza do ser humano, ou seja, qual a relação que existe entre os seres humanos sem a interferência do Estado. Para Hobbes, ela não é nada ani- madora, pois, nela, os serem humanos tendem para a guerra permanente e o que era autoconservação converte-se em destruição, medo e insegurança. Em seu livro Sobre o cidadão, Hobbes usa duas importan- tes expressões que retratam bem a sua concepção sobre a condição humana no estado de natureza: “o homem é o lobo do homem” e “guerra de todos contra todos” É com base na interpretação hobbesiana sobre o estado de natureza que entendemos a necessidade proposta por ele de um contrato social, por meio do qual se chega ao estado civil, uma vez que os seres humanos só entram na vida em sociedade quando sentem que suas vidas estão ameaçadas. Em nome da segurança e da preservação, os seres hu- manos devem abrir mão de suas liberdades individuais em favor de um governo que seja capaz de manter a paz e a vida de todos. Isso resulta na criação do Estado, legitimado pelo contrato social. Esse contrato consiste no pacto de todos os homens de um só país que, abrindo mão de seu estado de natureza, en- tregam-se em obediência total a um soberano. Este sobera- no jamais pode ser questionado ou ter o seu poder dividido (ideia de soberania indivisível), pois representa a vontade de todos aqueles que abdicaram de seus direitos individuais em nome da paz social. Esse é o modelo possível de sociedade civil para Hobbes. Quanto ao soberano, Hobbes entende que este possa ser uma única pessoa (rei) ou um pequeno grupo de pessoas, ain- da que sua preferência seja pela figura do monarca. Hobbes também separa a política da religião: sua teoria sobre o go- verno centra-se na análise racional e concreta sobre as ações humanas, distanciando-se, assim, daqueles que defendiam o direito divino dos reis governarem. G. John Locke Locke (1632-1704) também é um contratualista, mas, para ele, no estado de natureza os seres humanos expres- sam tudo aquilo que de mais positivo possuem, uma vez que a liberdade é da natureza humana. É sob o estado de natureza que o ser humano, por meio do trabalho, agrega valor a tudo, inclusive à terra, gerando com isso a proprie- dade privada. Para Locke, no estado natural “nascemos livres na mesma medida em que nascemos racionais”. Os homens, por conseguinte, seriam iguais, independentes e governa- dos pela razão. O estado natural seria a condição na qual o poder executivo da lei da natureza permanece exclusiva- mente nas mãos dos indivíduos, sem se tornar comunal. Todos os homens participariam dessa sociedade singular que é a humanidade, ligando-se pelo liame comum da ra- zão. No estado natural, todos os homens teriam o destino de preservar a paz e a humanidade e evitar ferir os direitos dos outros. Entre os direitos que Locke considera naturais, está o de propriedade. O direito à propriedade seria natural e anterior à sociedade civil, mas não inato. Sua origem residiria na re- lação concreta entre o ser humano e as coisas, através do processo de trabalho. Se, graças a este, o ser humano trans- forma as coisas – pensa Locke –, o ser humano adquire o direito de propriedade. A lei maior da natureza humana é exatamente a razão. Todos os homens estão submetidos a ela e, por causa dela, cada ser humano deve saber o limite de sua liberdade para que não haja prejuízo para outros homens. Mas, quan- do um indivíduo comete uma agressão contra outro, por exemplo, a usurpação da propriedade privada, ele abando- na o estado de natureza, ou seja, ele abandona a razão e torna-se irracional. Para Locke, o estado de guerra não coincide com o estado de natureza, como defendia Hobbes: coincide, sim, com aqueles indivíduos irracionais que merecem receber a pu- nição estabelecida pelos indivíduos racionais. Dessa forma, o contrato social consiste em que todos os homens estejam em acordo com a razão, que é algo natural, para que possam punir os irracionais. Mas, se o governo civil tem a função de garantir a liberdade natural dos homens, como o direito à propriedade privada, esse go- verno não pode ser outra coisa senão a expressão da von- tade de homens igualmente livres. Locke defende um tipo de governo civil no qual o poder de fazer as leis é o mais importante, pois são as leis que garantem a liberdade dos indivíduos. Esse poder deverá estar nas mãos do povo, que deve ser representado por um grupo de indivíduos ligado diretamente a ele. Dessa forma, a filosofia política de Locke inaugura a defe- sa da liberdade política (liberalismo político). O governo civil de Locke é uma instituição que pode e deve ser questionada, sempre que ferir os interesses dos governados. O rei pode ser deposto e o Parlamento (encarregado de fazer as leis) pode ser modificado, sempre que um ou outro, ou os dois, não cum- pram com suas funções vitais. H. Jean-Jacques Rousseau O iluminista Rousseau (1712-1778) também é um contratualista. Contudo, sua visão sobre estado de nature- za, contrato social e estado civil se difere da de Hobbes e Locke. De acordo com Rousseau, o ser humano vivia livre e feliz no estado de natureza, daí a sua concepção do “bom selvagem”. Para ele, o ser humano nasce bom, ou seja, a bondade é da natureza humana. Porém, a vida em socie- dade, marcada pelo surgimento da propriedade privada, corrompe o ser humano. 701360214 DB EM PV ENEM 91 AN LV 01 TE TEOR UN_MIOLO.indb 372 24/01/2019 09:09 MATERIA L D E U SO E XCLU SIV O SIS TEMA D E E NSIN O D OM B OSCO 373 FI LO SO FI A Em síntese, a civilização é vista por Rousseau como responsável pela degeneração das exigências morais profundas da natureza humana e sua subs- tituição pela cultura intelectual. A uniformidade ar- tificial de comportamento, imposta pela sociedade às pessoas, leva-as a ignorar os deveres humanos e as necessidades naturais. Assim como a polidez e as demais regras de etiqueta podem esconder o mais vil e impiedoso egoísmo, as ciências e as ar- tes, com todo seu brilho exterior, frequentemente seriam somente máscaras da vaidade e do orgulho. Os pensadores. Rousseau, v. 1. São Paulo: Nova Cultural, 1999. p. 12. Em O contrato social, Rousseau busca compreender a ma- neira pela qual os homens, nos mais diversos países, haviam legitimado também os mais variados tipos de poderes políticos em nome do contrato: “o ser humano nasce livre e por toda a parte encontra-se a ferros. O que se crê senhor dos demais não deixa de ser mais escravo do que eles”. Ao analisar a passagem do estado de natureza para o estado civil, Rousseau cria uma grande polêmica: “os pobres, só tendo a perder a liberdade, co- meteram uma grande loucura ao conceber, voluntariamente, o único bem que lhes restava, para nada ganhar em troca”. Rousseau era contra a democracia representativa, que aparece em Locke. Partindo da premissa de que todos os ho- mens são iguais e livres em estado de natureza, a liberdade e a igualdade não podem, sob hipótese alguma, serem per- didas pelo ser humano. Mas, para ele, o contrato social deve consistir numa associação entre todos os homens de uma comunidade, formando um corpo moral e coletivo (um corpo político), constituído por todos os membros de sua assem- bleia fundadora. Logo, o Estado é o próprio povo. O soberano do Estado é o povo e o governo, portanto, deve satisfação à soberania popular. Para que haja uma soberania plena, é fun- damental ocorrer a vontade geral, que não se confunde com a vontade de todos, pois a primeira é a manifestação do interes- se comum ou do bem público, que, para Rousseau,é a única forma de amenizar a perda da liberdade que existia no estado de natureza, enquanto a vontade de todos seria o somatório das vontades particulares. Assim, cada indivíduo abre mão de sua individualidade em favor do grupo social, sem que para isso tenha que abrir mão de sua liberdade e igualdade, pois cada indivíduo é, ao mesmo tempo, o Estado e o cidadão. 4. Filosofia Contemporânea A. Hegel Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) afirma a im- portância da História para o conhecimento humano, pois as ideias são construídas ao longo do tempo sempre em um mo- vimento de afirmação-negação, ou seja, um movimento dialé- tico. Por exemplo: em oposição ao racionalismo, surgiu o em- pirismo, e a contradição dos dois foi superada pelo criticismo de Kant. Portanto, toda tese (afirmação) contém uma antítese (negação), que é superada por uma síntese (uma nova afir- mação). Em seguida, a síntese se converte em tese e o movi- mento não para. Para Hegel, essa era a maneira de apreender o conhecimento humano, pois as ideias podem ser abarcadas em sua totalidade, o que ele chama de Espírito Absoluto. B. Karl Marx Marx (1818-1883) é o criador do materialismo histórico dialético, que se fundamenta no princípio de que a realida- de não é algo imutável, mas sim um processo histórico per- manente, que obedece a uma lei baseada no fato de que o processo histórico está acima da vontade dos indivíduos e é determinado pelas condições materiais de existência. Para compreender o ser humano em suas relações com outros seres humanos e com o mundo é preciso partir da aná- lise do concreto, ou seja, das ações humanas concretas e não das ideias que os homens fazem a respeito de si. No prefácio da obra Contribuição para a crítica da economia política, Marx escreveu: “não é a consciência dos homens que determina o seu ser; é o seu ser social que, inversa- mente, determina a sua consciência”. Com Marx, a questão da ideologia tomou ares críticos. Contrariando a filosofia existente até então, inclusive a de Hegel, Marx afirma que a ideologia é um reflexo das relações materiais que os homens estabelecem para sobreviver e que, portanto, ela não está acima da humanidade. A ideologia não pode ser tomada como algo metafísico, ao contrário, ela deve ser tomada como resultado dos esforços concretos, mate- riais, que a humanidade realiza para a sua reprodução. A ideia não antecede o ser humano, mas é sua criação. As ideologias servem como orientação para os mais va- riados modos de se viver e quando são apropriadas indevi- damente por alguns grupos específicos acabam se tornando modos de dominação. Segundo Marx, esse é o maior proble- ma das ideologias generalizantes. Marx tem uma outra concepção de filosofia, qual seja, a de que ela deve possuir o caráter da transformação, da prática; trata-se da filosofia da práxis, isto é, a filosofia como ação transformadora. Partindo da preocupação com as bases materiais de pro- dução por meio das quais os seres humanos se relacionam e constroem-se, Marx enxerga o processo histórico como uma luta de classes sociais entre a classe dominante, que detém os meios de produção, e a classe dominada, que possui apenas a sua força de trabalho. Essa luta de classes se configura em mo- dos de produção situados historicamente (primitivo, asiático, escravista, feudal, capitalista e socialista). Todos possuem for- ças produtivas que se refletem nas relações sociais de produ- ção, em que a exploração da força de trabalho é uma constante. C. Friedrich Nietzsche Nietzsche (1844-1900) questiona a moral e a razão de- senvolvidas no Ocidente, estabelecendo uma relação entre civilização e cultura: a primeira corresponde aos progressos materiais verificados nas sociedades humanas e a segunda diz respeito a uma espécie de formação espiritual. Ao considerar os valores ocidentais, o pensador constata que a metafísica, a religião e a própria ciência produzidas eram a ex- pressão de valores decadentes, de uma cultura degenerada, pois: • a metafísica, por colocar o mundo inteligível em oposi- ção ao mundo sensível e por estabelecer a transcen- dência como algo melhor do que aquilo que é o mun- do, colocou no além algo que deve ser encontrado na própria realização da vida. Assim, a metafísica é a negação da vida e expressa uma cultura decadente; 701360214 DB EM PV ENEM 91 AN LV 01 TE TEOR UN_MIOLO.indb 373 24/01/2019 09:09 MATERIA L D E U SO E XCLU SIV O SIS TEMA D E E NSIN O D OM B OSCO 374 FI LO SO FI A • a religião, por querer instaurar um campo em que bem e mal se opõem, por afirmar um bem no além e por desvalorizar a expressão material sensível da vida, é a marca da cultura decadente; • a ciência, por tentar oferecer explicações fundadas na ideia de causa e efeito, por querer estabelecer a partir disso os sentidos das coisas dentro de uma lógica, en- gana o homem com certezas de início e fim, quando o mundo é variedade, diversidade de forças que se comunicam, se relacionam e se constituem apenas como uma vontade de potência sem um princípio de- terminado (causa) e um fim definido (efeito). Ao negar a moral dos fracos, como ele chama a moral oci- dental, busca a afirmação de um novo homem que irrompe dessa cultura e civilização decadentes. Esse novo homem tem outra postura em relação à razão e à linguagem. Ele sabe evitar suas armadilhas e afirma a vida sem reservas, na pró- pria realização da vontade de potência no mundo, momento em que encontramos a ideia de super-homem (Übermensch). O super-homem nietzschiano se encontra muito além do bem e do mal, pois se desprende de todos os produtos civi- lizacionais de uma cultura decadente que oculta a vida em nome de certos princípios. Estes não passam de consolo para os fracos, para os escravos que visam pacificar a exis- tência, que é tensão, conflito, criação e aniquilamento. D. Século XX D.1. Fenomenologia Pensada no âmbito da teoria do conhecimento, a fenome- nologia caracteriza-se pela recusa tanto do empirismo quanto do racionalismo tradicionais: • a postura filosófica empirista é inadequada por conce- ber que os dados da experiência sejam passivamente recebidos pelos seres humanos; • as teorias racionalistas equivocam-se ao não considerar de maneira pertinente o valor das experiências, com seu apriorismo que estabelece sistemas explicativos disso- ciados dos dados oferecidos pela realidade objetiva. A fenomenologia propõe a investigação sobre a experiência humana, sobre o modo como os objetos do mundo – o próprio mundo em sua totalidade – revelam-se para a humanidade. Dito em outros termos, delineia-se pelo estudo sobre o funda- mento do conhecimento humano e sobre como nos relaciona- mos com o mundo em que vivemos. De acordo com as palavras de seu fundador, o filósofo Edmund Husserl (1859-1938), fe- nomenologia é o projeto de retorno às coisas mesmas. D.2. Jean-Paul Sartre O ponto de partida da filosofia de Sartre (1905-1980) é o básico do existencialismo: a existência precede a essência, de forma que o ser humano só pode “ser” existindo, ou seja, vivendo. Isso esgota qualquer predefinição do ser humano. O existencialismo tem como fundamento o reconhecimento da existência frente a essência, ou seja, antes de sermos qualquer coisa – humana ou não humana – o que faz ser- mos algo é nossa existência durante o nosso tempo de vida. Dessa forma, Sartre nega qualquer espécie de teoria so- bre a natureza humana e até mesmo a crença em Deus, pois, para este pensador francês, o ser humano existe para si, isto é, ele não foi criado por nenhuma essência preexistente. Daí o seu existencialismo ser também um humanismo. Nesta concepção ontológica (o “vir a ser”, ou o “devir”) de que a existência precede a essência, podemos constatar que o ser humano parte do nada, daí a liberdade ser uma condição permanente da espécie humana. Como afirma Sartre, “esta- mos condenados à liberdade”. A existência em si é definida em princípio pelo nada, ou seja, pelo não-ser; tudoestá por ser feito e o ser humano será o futuro que puder construir. Só que a obrigação de ser livre gera uma angústia no ser humano, pois escolher uma atitude ou ter uma decisão sig- nifica eliminar outras. E mesmo que o indivíduo tenha má-fé, ou seja, mesmo que ele tente voluntariamente negar para si as suas escolhas, não há como escapar de sua liberdade de decisão quanto ao seu rumo. A responsabilidade também faz parte do pensamento sar- treano, pois ela é decorrência da liberdade do ser humano e sig- nifica que toda atitude tem consequência para com tudo que o cerca; daí a necessidade de o ser humano agir corretamente. D.3. Filosofia da ciência: Popper e Kuhn Karl Popper (1902-1994) criou o princípio da falseabilida- de (refutabilidade) para distinguir as teorias científicas das não científicas, substituindo o princípio positivista por considerá-lo absoluto, dogmático. Para ele, uma teoria deve ser verificável empiricamente, a partir de elementos novos que possam colo- cá-la em xeque. Nesse processo, a razão vigilante atuaria sobre um conhecimento já consolidado, meio pelo qual se poderia encontrar um caminho para ampliar o conhecimento sobre o mundo, entretanto sem nunca chegar a uma totalidade. Assim, nenhuma teoria está livre do risco de aparecerem problemas que ela não seja capaz de resolver, sendo ne- cessário descartá-la e revisitá-la para que sejam propostos novos apontamentos ou conceitos. Dessa forma, uma teoria científica deve ser considerada até o momento em que for contestada por algum experimento novo. Haveria, desse modo, uma sucessão incessante de desenvolvimentos teó- ricos nunca definitivos. Para Popper, toda teoria é passível de substituição, pois ela é a soma do observável e do pensável, sendo a demonstra- ção e a argumentação as fases mais importantes. Se pu- dermos ampliar o observável e o pensável, teremos outras teorias, como nos exemplifica a teoria da relatividade em relação à física newtoniana. Este é, então, o critério de de- marcação da ciência. Thomas Kuhn (1922-1996) critica as explicações tradi- cionais – o indutivismo, o falsificacionismo –, pois elas não tinham condições de resistir à evidência histórica. Por causa disso, ele dá um caráter revolucionário à ciência. A fase que precede a instauração de uma teoria (pré-ciência) é confusa e somente com a adoção de um paradigma é que ela começa a se estruturar, antes de uma investigação mais profunda co- meçar. O momento em que os cientistas se debruçam ao es- tudo e à investigação de uma teoria, dentro de um paradigma, é caracterizada pela fase da ciência normal. 701360214 DB EM PV ENEM 91 AN LV 01 TE TEOR UN_MIOLO.indb 374 24/01/2019 09:09 MATERIA L D E U SO E XCLU SIV O SIS TEMA D E E NSIN O D OM B OSCO