OAB PROCESSO PENAL 1ª FASE
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PROCESSO PENAL \u2013 1ª FASE 
PROFESSOR \u2013 ANDRE QUEIROZ 
 
 
PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS PROCESSUAIS PENAIS 
 
A Constituição Federal de 1988 se caracteriza como um sistema normativo 
aberto de regras, princípios e valores. 
Para se entender o que esta afirmação realmente significa, mister a 
conceituação de princípio. 
Segundo o Aurélio, princípio tem o significado de causa originária. A noção 
de princípio, ainda que fora do âmbito jurídico, sempre se relaciona a causas, alicerces, 
orientações de caráter geral. Trata-se, indubitavelmente, do começo ou origem de qualquer 
coisa. 
Consoante a definição de De Plácido e Silva (1993, p. 447): 
No sentido jurídico, notadamente no plural, quer significar as normas 
elementares ou os requisitos primordiais instituídos como base, como 
alicerce de alguma coisa. E, assim, princípios revelam o conjunto de regras 
ou preceitos, que se fixaram para servir de norma a toda espécie de ação 
jurídica, traçando, assim, a conduta a ser tida em qualquer operação jurídica. 
(...) Princípios jurídicos, sem dúvida, significam os pontos básicos, que 
servem de ponto de partida ou de elementos vitais do próprio direito. 
Assim, podemos dizer que os Princípios irão servir como postulados básicos para nortear a 
solução dos conflitos entre o ius puniendi estatal e o ius libertatis do particular. São 
mandamentos de otimização, dando plasticidade à Constituição, que nasceu para ter 
validade eterna. 
Já as regra, servem para dar segurança jurídica aos mandamentos constitucionais, e aplica-
se o sistema da subsunção, isto é, o tudo ou nada ao caso concreto. Já aquele, o sistema 
deve ser o da ponderação. 
Devemos observer que o importante é sabermos que a principal função da Constituição se 
resume em conformar a sociedade, limitando a intervenção estatal em face das liberdades 
públicas, traçando com precisão as hipóteses em que sera legítimo ao Estado interferer na 
esfera particular do cidadão. 
Com isso, passamos a analisar os princípios constitucionais que tem decorrência no campo 
do Processo Penal. 
1. Princípio da Dignidade 
Como decorrência processual deste princípio, temos o sistema acusatório, que tem como 
características a maior publicidade dos atos processuais, a tripartição de funções (acusar, 
defender e julgar), presence do contraditório e maior isenção do magistrado ao conduzir o 
processo. 
Além disso, o princípio da dignidade também determina a exigência de uma outra 
condição (leia-se requisito para o provimento final válido), que é a justa causa para a ação 
penal. No Processo Civil basta a possibilidade juridica do pedido, interesse de agir e a 
legitimidade de partes. Já no Processo Penal, além deste, temos a justa causa, que nada 
mais é do que o lastro probatório mínimo para o oferecimento da denúncia. São os 
indícios de autoria e da materialidade do fato. 
Para outros, como o professor Afrânio Silva Jardim, ainda existe uma quinta condição da 
ação, que seria a originariedade, isto é, uma demanda só deve ser proposta se não houver 
litispendência ou coisa julgada. Assim, para o autor, a ausência de demandas em 
duplicidade seria uma quinta condição da ação. 
Observe o que preceitua a Súmula Vinculante 11 do STF: 
Só é lícito o uso de algemas em casos de resistência e de fundado receio de fuga ou de 
perigo à integridade física própria ou alheia, por parte do preso ou de terceiros, justificada 
a excepcionalidade por escrito, sob pena de responsabilidade disciplinar, civil e penal do 
agente ou da autoridade e de nulidade da prisão ou do ato processual a que se refere, sem 
prejuízo da responsabilidade civil do Estado. 
A todo evidente, podemos perceber que nossa Corte consolidou entendimento sobre o 
cumprimento de legislação que já trata do assunto. É o caso, entre outros, do inciso III do 
artigo 1º da Constituição Federal (CF); de vários incisos do artigo 5º da (CF), que dispõem 
sobre o respeito à dignidade da pessoa humana e os seus direitos fundamentais, bem como 
dos artigos 284 e 292 do Código de Processo Penal (CPP) que tratam do uso restrito da 
força quando da realização da prisão de uma pessoa. 
Além disso, o artigo 474 do Código de Processo Penal, alterado pela Lei 11.689/08, 
dispõe, em seu parágrafo 3º: \u201cNão se permitirá o uso de algemas no acusado durante o 
período em que permanecer no plenário do Júri, salvo se absolutamente necessário à 
ordem dos trabalhos, à segurança das testemunhas ou à garantia da integridade física dos 
presentes\u201d. 
2. Princípio da igualdade (art. 5o, caput). Trata-se da isonomia processual. Em juízo, as 
partes devem ter as mesmas oportunidades processuais, isto é, de fazer valer suas razões, e de 
serem tratadas igualitariamente na medida de suas igualdades, e desigualmente na medida de 
suas desigualdades, para diminuir estas desigualdades. 
Como decorrência deste princípio, temos a paridade de armas, onde os personagens 
processuais devem ter instrumentos equivalentes para a busca da verdade dos fatos. Este, 
inclusive é o ponto chave que diferencia o processo civil do penal. Naquele, entende-se como 
verdade formal. Já neste, a busca é da verdade real ou substancial, isto é, não importa 
somente aquilo que foi produzido no processo, mas sim aquilo que é a verdade dos fatos. 
Assim, o juiz deve perquirir com os meios inerentes ao processo a elucidação daquilo que 
ocorreu no momento do crime, mesmo que para isso haja uma relativização da imparcialidade 
do juízo. 
 
3. Princípio da legalidade (art. 5o, inc. II). No processo penal, a legalidade não é tão rígida 
quanto no direito penal material. Afinal, o próprio CPP dispõe que a lei processual penal admitirá 
interpretação extensiva e aplicação analógica, bem como o suplemento dos princípios gerais do direito. Já a 
reserva legal significa que determinadas matérias apenas podem ser regulamentadas por lei em 
sentido estrito, sendo vedado o uso de qualquer outra espécie normativa, inclusive a medida 
provisória, que tem força de lei, de acordo com o artigo 62 da CR. 
Podemos estabelecer, de forma simplificada, 4 tipos de legalidades: 
1. Legalidade genérica ou ampla \u2013 art. II - ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer 
alguma coisa senão em virtude de lei. Assim, entende-se que o particular pode fazer TUDO, 
exceto aquilo que a lei proíbe. 
2. Legalidade penal \u2013 art. 5o XXXIX - não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem 
prévia cominação legal. Aqui podemos extrair o princípio da anterioridade. Note que sua divisão 
se relaciona com o preceito primário da norma penal (criação de crimes) e preceito secundário 
(imposição de sanção). 
3. Legalidade administrativa \u2013 art. 37, caput da CR - A administração pública direta e indireta de 
qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos 
princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Isso quer dizer que 
o administrador não pode fazer NADA, exceto aquilo que a lei determina ou permite que ele faça. 
4. Legalidade tributária \u2013 art. 150, I - Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao 
contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios exigir ou 
aumentar tributo sem lei que o estabeleça. 
 
4. Princípio da inafastabilidade da apreciação judicial (art. 5o, inc. XXXV). \u201ca lei não 
excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito\u201d. Está, portanto, de 
braços dados com princípio do amplo acesso ao Judiciário e do direito fundamental de ação. 
O termo lei (\u201ca lei não excluirá\u201d) deve ser interpretado extensivamente, para que sejam 
incluídos, obviamente, os decretos, as portarias, as medidas provisórias, as leis 
complementares e até emendas constitucionais que tenham como finalidade excluir da 
apreciação do Poder Judiciário certas