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Brasília-DF. Fisiopatologia e ClíniCa das alterações tireoidianas Elaboração Iracema Gomes de Araujo Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração Sumário APRESENTAÇÃO ................................................................................................................................. 4 ORGANIZAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA .................................................................... 5 INTRODUÇÃO.................................................................................................................................... 7 UNIDADE I FISIOLOGIA TIREÓIDEA ........................................................................................................................... 9 CAPÍTULO 1 FISIOLOGIA TIREOIDIANA .......................................................................................................... 9 CAPÍTULO 2 EFEITOS FISIOLÓGICOS E FARMACOLÓGICOS DO HORMÔNIO DA TIREOIDE .......................... 21 CAPÍTULO 3 PREPARAÇÕES E DROGAS ANTITIREOIDIANAS ......................................................................... 25 UNIDADE II DISFUNÇÃO TIREÓIDEA I ...................................................................................................................... 32 CAPÍTULO 1 HIPOTIREOIDISMO EM ANIMAIS JOVENS .................................................................................. 32 CAPÍTULO 2 HIPOTIREOIDISMO EM ANIMAIS ADULTOS ................................................................................. 37 UNIDADE III DISFUNÇÃO TIREÓIDEA II ..................................................................................................................... 46 CAPÍTULO 1 HIPERTIREOIDISMO EM GATOS ................................................................................................ 46 CAPÍTULO 3 TUMORES TIREOIDIANOS E HIPERTIREOIDISMO EM CÃES .......................................................... 56 REFERÊNCIAS .................................................................................................................................. 62 4 Apresentação Caro aluno A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade. Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da Educação a Distância – EaD. Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade dos conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos específicos da área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém ao profissional que busca a formação continuada para vencer os desafios que a evolução científico-tecnológica impõe ao mundo contemporâneo. Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira. Conselho Editorial 5 Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam a tornar sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta, para aprofundar os estudos com leituras e pesquisas complementares. A seguir, uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de Estudos e Pesquisa. Provocação Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor conteudista. Para refletir Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões. Sugestão de estudo complementar Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo, discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso. Praticando Sugestão de atividades, no decorrer das leituras, com o objetivo didático de fortalecer o processo de aprendizagem do aluno. 6 Atenção Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a síntese/conclusão do assunto abordado. Saiba mais Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões sobre o assunto abordado. Sintetizando Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos. Exercício de fixação Atividades que buscam reforçar a assimilação e fixação dos períodos que o autor/ conteudista achar mais relevante em relação a aprendizagem de seu módulo (não há registro de menção). Avaliação Final Questionário com 10 questões objetivas, baseadas nos objetivos do curso, que visam verificar a aprendizagem do curso (há registro de menção). É a única atividade do curso que vale nota, ou seja, é a atividade que o aluno fará para saber se pode ou não receber a certificação. Para (não) finalizar Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado. 7 Introdução O hipotireoidismo é a endocrinopatia mais comum em cães e é diagnosticada com alguma frequência em cavalos, mas o hipotireoidismo espontâneo é raro em gatos e outras espécies domésticas. O hipotireoidismo pode ser causado por deficiência de iodo e ingestão de substâncias goitrogênicas no ambiente ou na comida. Substâncias goitrogênicas são compostos que interferem na síntese dos hormônios da tireoide. Sintomas clínicos de hipotireoidismo comuns às espécies, geralmente refletem a redução da taxa de metabolismo basal no corpo e incluem letargia, depressão mental, fraqueza, dificuldade de treinar e/ou perda de cabelo não prurítica. O hipertireoidismo é atualmente a doença endócrina mais comum e é vista ocasionalmente em outras espécies domésticas. O hipertireoidismo ou tirotoxicidade é causado pela circulação excessiva dos hormônios da tireoide, tiroxina e triiodotironina, normalmente o resultado de um adenoma benigno hiperplástico da tireoide em gatos e adenocarcinoma em cães. O hipertireoidismo ocorre mais frequentemente em animais de meia idade a animais geriátricos, e a discussão dos agentes terapêuticos irá concentrar-se naqueles usados nessas espécies. Os sintomas mais comuns associados ao hipertireoidismo são perda de peso apesar de apetite intenso, hiperatividade, poliúria, diarreia, polidipsia, febre intermitente, vômito e sintomas de doenças cardiovasculares como taquicardia e dispneia. Frequentemente, gatos perdem grande quantidade de pelo e o couro pode ficar opaco. Raramente, o hipertireoidismo em gatos apresenta-se de maneira similar ao que se chama “hipertireoidismo apatético”; os gatos ficam letárgicos e muitas vezes anoréxicos, talvez representando o estágio final da doença. Objetivos » Fornecer aos alunos uma sucinta e profunda revisão sobre o eixo hipotálamo-hipófise-tireoide e o metabolismo dos hormônios tireoidianos. » Estabelecer subsídios teóricos para um bom diagnóstico e manejo clínico de indivíduos com disfunções nos hormônios tireoidianos em medicina veterinária. » Analisar novas condutas terapêuticas para pacientes portadores dos mais diversos tipos de hipo e hipertireoidismo. 8 9 UNIDADE IFISIOLOGIA TIREÓIDEA CAPÍTULO 1 Fisiologia tireoidiana Nos cães e gatos as glândulas tireoides são lobos separados localizados lateralmente à traqueia, a partirque a destruição autoimune progride, os folículos tireoidianos são substituídos por tecido fibroso e adiposo, e as células inflamatórias desaparecem, resultando em uma aparência histológica de atrofia não inflamatória. A ausência de inflamação parece ser resultado do desaparecimento de anticorpos a partir da circulação ao longo do tempo (GRAHAN et al., 2007). 38 UNIDADE II │ DISFUNÇÃO TIREÓIDEA I Os anticorpos contra a tireoglobulina formam um grupo heterogêneo direcionado a vários epítopos. Quando o epítopo inclui um sítio hormogênico, um anticorpo pode ser direcionado contra um fragmento que contenha T3 ou T4. Tais anticorpos contra a tireoglobulina interferem ocasionalmente com os imunoensaios utilizados para mensurar as concentrações plasmáticas dos hormônios tireoidianos, especialmente o T3. Dependendo do tipo de ensaio, o reconhecimento dos epítopos do hormônio tireoidiano pelos anticorpos pode causar resultados falso negativos ou positivos. Apesar de os anticorpos para hormônios tireoidianos não serem incomuns, deve-se levar em consideração que eles raramente afetam os resultados dos imunoensaios à medida que os limites de referência são excedidos, especialmente para o T4. (GRAHAN et al., 2007) O prejuízo imunológico pode também envolver uma ou mais outras glândulas, o que leva a múltiplas deficiências endócrinas, conhecida como síndrome da falência poliglandular. A combinação de hipotireoidismo e hipoadrenocorticismo é conhecida como a síndrome de Schmidt (KOOISTRA et al., 1995; PIKULA et al., 2007). Em um grande estudo retrospectivo realizado com cães com hipoadrenocorticismo primário, cerca de 5% apresentavam falência endócrina concorrente, sendo o hipotireoidismo de elevada ocorrência, seguido pelo hipoparatireoidismo e diabetes mellitus (PETTERSON et al., 1996). O hipotireoidismo também pode ser iatrogênico, especialmente em gatos tratados para o hipertireoidismo, que ocorre frequentemente nesses animais. O hipotireoidismo pode ser um efeito colateral da terapia com iodo radioativo ou da tireoidectomia bilateral. O hipotireoidismo também foi reportado em cães após a radioterapia externa contra um carcinoma tireoidiano funcional (KRAMER et al., 1994). Manifestações clínicas A tireoidite geralmente não é notada, apesar dos raros sinais transientes de hipertireoidismo (principalmente caracterizado por poliúria) terem sido observados. Provavelmente, tal fato está relacionado com os elevados níveis de hormônio tireoidiano na circulação durante a fase aguda da tireoidite destrutiva. Eventualmente, a maioria dos cães com tireoidite provavelmente desenvolve sinais de deficiência de hormônios tireoidianos. O hipotireoidismo adquirido primário é a principal condição encontrada nos cães jovens adultos e nos cães de meia idade. Apesar de cães de raças grandes poderem ser afetados mais frequentemente do que os de raça pequena, não há predisposição de raças pronunciada. A incidência é igualmente distribuída entre machos e fêmeas (DIXON et al., 1999). 39 DISFUNÇÃO TIREÓIDEA I │ UNIDADE II Os hormônios tireoidianos influenciam quase todos os tecidos do organismo e, dessa forma, o quadro clínico clássico de hipotireoidismo envolve manifestações de quase todos os sistemas. Pode haver efeitos concorrentes do excesso de hormônio do crescimento. Adicionalmente, o tempo necessário para distinguir os sinais clínicos difere consideravelmente: a letargia pode ser noticiada dentro de poucos meses, mas as alterações na pele podem demorar cerca de 1 ano. (CREDILLE et al., 2001) A manifestação clínica central geralmente é um histórico de desaceleração das atividades físicas e mentais. A maioria dos cães hipotireóideos apresentam algum grau de embotamento mental, letargia, e resistência a exercícios. Tais sintomas são graduais no início, apesar de súbitos, e às vezes não reconhecidos pelo proprietário até que o tratamento seja iniciado. Dentre as alterações observadas na pelagem e na pele, encontram-se a alopecia (frequentemente com pigmentação), aumento (cerca de 2X) na espessura da pele, e uma aparência facial inchada. O espessamento e o inchaço são evidências de mucinose ou mixedema cutâneo, que consiste no acúmulo de glicosaminoglicanos e ácido hialurônico na derme, com um edema associado (DOLLIGER et al., 1995), podendo estar relacionado tanto com o hipotireoidismo quanto com o excesso de hormônio do crescimento (LEE et al., 2001). Ocasionalmente, o hipotireoidismo é associado com infecções secundárias na pele, incluindo infecções por malassézia. Dentre as manifestações clínicas do hipotireoidismo primário em cães adultos temos: » Metabolismo: ganho de peso, apetite inalterado ou reduzido, intolerância ao frio; menos frequentemente ocorre a redução da temperatura corpórea. » Pele e pelagem: pelagem grossa e escassa, alopecia no tronco sem prurido, mixedema; raramente observamos hiperpigmentação, pioderma secundário e seborreia. » Sistema cardiovascular: bradicardia, pulso periférico fraco; raramente ocorre uma redução na circulação periférica e resfriamento da pele. » Sistema reprodutivo e endócrino: anestro persistente, perda de libido e atrofia testicular; raramente observamos ginecomastia, galactorreia, e deficiência poliglandular (síndrome de Schmidit). » Sistema neuromuscular: letargia e sonolência, andar rígido; raramente podemos observar ataxia vestibular, inclinação da cabeça, paralisia do nervo facial e laminite. » Sistema gastrointestinal: diarreia. 40 UNIDADE II │ DISFUNÇÃO TIREÓIDEA I » Sistema hematológico: anemia não regenerativa. » Parâmetros bioquímicos: hipercolesterolemia, hipertrigliceridemia, hiperglicemia mediana; raramente observamos aumento da creatinina quinase, hiponatremia e hipercalemia. As alterações em um único sistema às vezes dominam de forma a obscurecer a doença causadora, podendo ocorrer com galactorreia persistente, doença vestibular, e distúrbios locomotores (CHASTAIN, 1992; JAGGY et al.; 1994; CORTESE et al., 1997; HIGGINS et al., 2006). Com relação aos distúrbios locomotores, problemas locomotores generalizados podem ser explicados pela redução severa da capacidade da Na+/K+- ATPase dos músculos esqueléticos, enquanto que o hipotireoidismo também parece estar associado com a miopatia generalizada (BUDSBERG et al., 1993; DELAUCHE et al., 1998; SCHAASFMA et al., 2002). Raramente, o cão hipotireóideo chega a um estado de coma; adicionalmente, ambientes com baixas temperaturas podem causar decomposição do hipotireoidismo em coma mixedematoso com hipotermia severa (HENIK; DIXON, 2000; ATKINSON; ALBERT, 2004). Os exames de rotina laboratoriais podem revelar anormalidades hematológicas e bioquímicas severas; possíveis consequências da hiperlipidemia severa incluem sinais neurológicos relacionados à arteriosclerose e eventos tromboembólicos (HESS et al., 2003; VITALY; OLBI, 2007). Diagnóstico diferencial Devido à grande variação dos sintomas apresentados pelo hipotireoidismo, uma armadilha comum ao diagnóstico é simplesmente negligenciar a possibilidade de os problemas apresentados estarem relacionados ao hipotireoidismo. Por exemplo, não é incomum cães com hipotireoidismo serem levados à atenção de especialistas cardiopulmonares (a letargia pode ser interpretada como intolerância ao exercício) ou a especialistas ortopédicos (distúrbios locomotores). A letargia, o sinal clínico mais comum do hipotireoidismo, pode ser confundido com doenças metabólicas (hepatoencefalopatia) ou cérebro-corticais (encefalites, hidrocefalia). A atrofia da pele e anexos deve ser levada em consideração para condições tais como excesso de estrógeno e hipercortisolismo. Diagnóstico Como mensuração da função tireoidiana, o T4 tem sido preferido em relação ao T3 já que o primeiro é produzido exclusivamente pela glândula tireoide enquanto que, grande parte do T3, é sintetizado a partir da conversão periférica. Na maioria dos cães com hipotireoidismo primário, as concentraçõesplasmáticas de T4 (total e livre) 41 DISFUNÇÃO TIREÓIDEA I │ UNIDADE II estão abaixo do limite de referência. Entretanto, eles também podem ser reduzidos em cães sem distúrbios tireoidianos, devido a drogas ou outras doenças. O termo doença não tireoidiana ou síndrome da doença eutireoidiana tem sido empregado para tais perturbações da homeostase tireoidiana. A doença, nesse contexto, compreende virtualmente todas as doenças não tireoidianas, traumas cirúrgicos ou não cirúrgicos, e ingestão calórica inadequada. Consequentemente, o achado de uma baixa concentração basal de hormônios tireoidianos é de pequeno valor diagnóstico (DIXON; MOONEY, 1999; KANTROWITZ et al., 2001). Por essa razão, os testes de estimulação utilizando TSH ou TRH têm sido defendidos. O teste de estimulação com TRH com a utilização das concentrações plasmáticas de T4 total não distingue com acurácia suficiente o hipotireoidismo das doenças não tireoidianas, em cães. (KANTROWITZ et al., 2001) Esperava-se que a introdução de um imunoensaio para mensurar as concentrações plasmáticas de TSH em cães simplificaria a investigação do eixo hipófise-tireoide por meio da mensuração pareada de T4 e TSH; uma única amostra de sangue seria suficiente para confirmar o diagnóstico do hipotireoidismo primário ao revelar baixas concentrações de T4 na presença de elevadas concentrações de TSH. Entretanto, utilizando o teste de estimulação com TSH como padrão, outro foi observado que em pelo menos um terço dos cães com hipotireoidismo primário não tinham as concentrações de TSH aumentadas (DIXON; MOONEY, 1999; KANTROWITZ et al., 2001; BORETTI; REUSCH, 2001). A frustração com as limitações do ensaio para TSH canino endógeno disponível levou boa parte dos clínicos a optarem pelo teste com estimulação do TSH (FERGUSON, 2007), embora agora sendo geralmente utilizado o TSH humano recombinante (TSHhr) ao invés do TSH bovino, apesar de ainda assim, tal teste ser questionado (ESPIÑERA et al., 2007). Estratégias para a modificação do ensaio de TSH têm sido sugeridas para melhorar o valor diagnóstico das mensurações de TSH (FERGUSON, 2007). Entretanto, atualmente, há evidências experimentais de que podem não ser tanto o ensaio, mas sim, alterações na função hipofisária em função do tempo que poderia explicar os baixos valores de TSH encontrados em alguns cães com hipotireoidismo primário. A indução do hipotireoidismo primário causa um aumento inicial nas concentrações plasmáticas de TSH, mas isso é seguido por uma perda gradual da resposta de retroalimentação às baixas concentrações de T4. Tal fato é acompanhado pela hipersecreção de GH e hipossecreção de prolactina. O aumento associado da hipófise é caracterizado pela hiperplasia dos tireotrofos, células deficientes tireoidianas com grandes vacúolos, e células com dupla coloração, indicando uma transdiferenciação, que está associado com o desenvolvimento de células tireossomatotrópicas e uma responsividade paradoxal do GH à estimulação com TRH. O aumento da hipófise e 42 UNIDADE II │ DISFUNÇÃO TIREÓIDEA I as alterações funcionais parecem ser reversíveis com a substituição com l-tiroxina (ESPIÑEIRA et al., 2007). Alterações similares são observadas em cães com hipotireoidismo espontâneo, com a omissão de hipoprolactinemia em machos e fêmeas intactas. Por outro lado, a concentração plasmática de prolactina pode estar elevada em fêmeas intactas que tenham entrado recentemente no ciclo estral e, o hipotireoidismo pode estar até associado com a galactorreia. (ENPIÑEIRA et al., 2009) Os resultados de tais estudos sobre as alterações adenohipofisárias no hipotireoidismo primário fornece uma explicação para as baixas concentrações de TSH que foram observadas, porém, não resolvem o dilema do diagnóstico. Em cães com sinais clínicos de hipotireoidismo, a combinação entre os níveis baixos de T4 plasmático livre e uma elevada concentração de TSH plasmático fecharia o diagnóstico de hipotireoidismo primário. Quando os níveis de T4 total são baixos, enquanto que as concentrações de TSH estão dentro dos limites de referência, o teste de estimulação com TSH pode ser realizado, apesar de o resultado poder não ser conclusivo (ENPIÑEIRA et al., 2007). Caso não seja, outros métodos que não envolvam o acesso bioquímico ao eixo hipotálamo- hipófise-tireoide (como a varredura com radionuclídeos ou mensuração da captação tireóidea com 99mTcO4 -, ultrassonografia de alta resolução ou mesmo uma biópsia da tireoide) parecem ser métodos mais confiáveis para o diagnóstico de hipotireoidismo primário em cães (ENPIÑEIRA et al., 2007; REESE et al., 2005). Em um estudo de captação com 99mTcO4 - em cães com hipotireoidismo primário e doença não tireoidiana, não houve sobreposição na captação tireoidiana entre 45 a 120 minutos após a injeção (ENPIÑEIRA et al., 2007). Na ultrassonografia de alta resolução das glândulas tireóideas, a perda da ecogenicidade, homogeneidade e formato fusiforme são características particulares do hipotireoidismo primário (BROMEL et al., 2005; 2006). A demonstração de anticorpos circulantes contra a tireoglobulina indica a presença de tireoidite, porém não fornece informações sobre a função tireóidea. Como indicado na seção de patogênese, a ausência de anticorpos contra a tireoglobulina não exclui o hipotireoidismo. Adicionalmente, cães com anticorpos contra tireoglobulina podem ter tireoidite que ainda não tenha resultado em hipotireoidismo. Tratamento Apesar de o T3 ser o hormônio tireoidiano metabolicamente ativo, ele não é o suplemento de escolha. Uma vantagem primária de fornecer o pró-hormônio T4 é que é dada a oportunidade ao corpo de regular a quantidade de T3 gerado pelos mecanismos fisiológicos normais. A terapia apropriada com T4 resulta em níveis plasmáticos normais tanto de T4 quanto de T3. 43 DISFUNÇÃO TIREÓIDEA I │ UNIDADE II Tanto a taxa de produção de T4 quanto as doses de reposição parenteral com l-tiroxina requerida para manter o eutireoidismo giram em torno de 5 µg por kg de peso corporal por dia (KAPTEIN et al., 1993). Entretanto, quando o T4 é administrado oralmente a sua biodisponibilidade é baixa e variável, devido a incompleta e variável absorção intestinal. A suplementação oral mais comum com tabletes de l-tiroxina sintética é iniciada na dose de 10 µg/kg, duas vezes ao dia. As concentrações plasmáticas de T4 aumentam após a administração oral, sendo que os picos acontecem cerca de 4 a 6 horas depois e, logo em seguida, declina até a próxima dose ser administrada (NACHREINER et al., 1993). Um exame de acompanhamento é realizado após 2 meses. Quando o sangue é coletado entre 10 a 12 horas após a última dose, as concentrações plasmáticas de T4 devem estar acima do limite mínimo da faixa de referência para o tipo de cão, caso não esteja, a dose deverá ser ajustada. Devido à variação individual da absorção intestinal de T4, mais exames de acompanhamento e possíveis ajustes devem ser necessários. Uma solução de l-tiroxima para administração oral possui uma elevada biodisponibilidade em comparação com as formulações em tabletes, especialmente quando tal formulação é administrada sem alimentos (LE TRAON et al., 2008). De acordo com os autores, as propriedades farmacocinéticas da solução de l-tiroxina líquida sustentam o uso da dose de 20 µg/kg, uma vez ao dia. Prognóstico O hipotireoidismo é uma das doenças mais gratificantes em relação ao seu tratamento, devido à facilidade e plenitude com que responde à terapia. Com o tratamento apropriado e exames de acompanhamento a cada 6 meses, todas as alterações associadas com o hipotireoidismo são frequentemente revertidas. Assim, o prognóstico a longo prazo é excelente. Hipotireoidismo central No hipotireoidismo central as glândulas tireoidianas não são afetadas primariamente, mas são privadas da estimulação pelo TSH. Investigações histológicas não revelam a perda de folículos, mas características de inatividade. A condição é rara quandocomparada com a falência tireoidiana primária. As causas espontâneas incluem tumor da hipófise ou regiões adjacentes e trauma craniano (MELLAMBY et al., 2005). O hipotireoidismo terciário foi documentado em um cão com um grande tumor hipofisário e obliteração do hipotálamo sobrejacente (SH et al.IEL, 2007). O hipotireoidismo central também pode ser resultado de remoção cirúrgica de tumor hipofisário. (MEIJ et al., 1997) 44 UNIDADE II │ DISFUNÇÃO TIREÓIDEA I Manifestações clínicas O quadro clínico é similar ao do hipotireoidismo primário, apesar de geralmente menos pronunciado. Podem ocorrer sinais de letargia e alopecia, porém o espessamento da pele é menos pronunciado. Como descrito na seção anterior, o espessamento da pele que ocorre no hipotireoidismo primário é parcialmente uma consequência do excesso de hormônio do crescimento associado. No hipotireoidismo central a persistente retroalimentação negativa responsável pela secreção de TSH está ausente. Por outro lado, frequentemente há o prejuízo na secreção de outros hormônios hipofisários tais como o hormônio do crescimento e gonadotrofinas. Comumente, a lesão que reduz a secreção TSH é um tumor hormônio-secretante, como o adenoma corticotrófico, que é hipersecretor de ACTH. Os sinais e sintomas decorrentes de tal tumor hipofisário pode anteceder, acompanhar e até obscurecer as manifestações da falência hipofisária. Na presença do tumor secretor de ACTH, o hipotireoidismo central pode manifestar-se apenas após a reversão do hipercortisolismo associado. Diagnóstico O diagnóstico do hipotireoidismo central deve ser baseado na demonstração de baixas concentrações de T4 e TSH plasmático. No hipotireoidismo secundário, as concentrações plasmáticas de T4 aumentam com o teste de estimulação por TSH, apesar de serem necessárias repetidas estimulações. O teste com estimulação por TRH pode ser utilizado caso haja alguma razão para a suspeita de hipotireoidismo terciário. Um pré-requisito para a interpretação correta desses testes é a certeza de que as baixas concentrações de T4 (e TSH) não são consequência de doença ou drogas. Adicionalmente, o acesso ao diagnóstico deve incluir: » a investigação de secreção de outros hormônios hipofisário, e » a morfologia da hipófise e das áreas adjacentes observadas por meio de diagnóstico por imagem. Tratamento O tratamento com l-tiroxina é o mesmo que no hipotireoidismo primário. A hipofunção de qualquer glândula endócrina resultante de uma deficiência dos hormônios hipofisários também deve ser corrigida. Na prática, tal fato é geralmente confinado ao tratamento contra uma coexistente deficiência de ACTH. Também é aconselhável investigar a função hipófise-adrenocortical e tratar uma eventual deficiência através de 45 DISFUNÇÃO TIREÓIDEA I │ UNIDADE II suplementação com cortisol antes do início da terapia com T4. Isso irá evitar o risco de acelerar uma crise relacionada à deficiência de glicocorticoide. Prognóstico Nas formas espontâneas o prognóstico é completamente dependente do curso da lesão causadora na área hipotálamo-hipofisária. Na forma iatrogênica seguida de hipofisectomia, a suplementação com l-tiroxina (e glicocorticoides) permite ao animal viver de forma saudável por muitos anos. 46 UNIDADE IIIDISFUNÇÃO TIREÓIDEA II CAPÍTULO 1 Hipertireoidismo em gatos O hipertireoidismo felino é uma doença relativamente comum em gatos de meia-idade e idosos, com média de idade entre 12 a 13 anos, não havendo prevalência por raça ou gênero. O excesso de hormônio tireóideo é produzido por uma hiperplasia adenomatosa ou adenoma tireoidiano, envolvendo um ou, mais frequentemente, ambos os lobos tireóideos. O carcinoma tireóideo, que é a causa principal do hipertireoidismo em cães, resume-se a apenas 3% dos casos de hipertireoidismo em gatos. (NAAN et al., 2006) A patogênese da hiperplasia tireóidea adenomatosa em gatos ainda não está clara. Tal condição assemelha-se ao bócio tóxico nuclear em humanos. As glândulas tireoides dos gatos hipertireóideos contêm múltiplos nódulos hiperplásicos envolvidos por tecido folicular inativo. O transplante experimental de tecidos adenomatosos em camundongos demonstrou que tal crescimento não depende de estimulação humoral extratireoidiana (PETER et al., 1987). Em vez disso, anormalidades celulares intrínsecas devem ser responsáveis por essa função e crescimento não regulado (WARD et al., 2005). Os candidatos mais prováveis parecem ser a mutação do receptor para TSH ou mutação em suas proteínas G acopladas. (PEETERS et al., 2002) Manifestações clínicas As glândulas adenomatosas não tendem a ser muito grandes, de forma que raramente os médicos veterinários são ajudados devido a uma massa detectada pelo proprietário. Assim, são os sinais e sintomas relacionados aos efeitos do excesso de hormônio tireoidiano nos sistemas orgânicos que levam ao exame pelo médico veterinário. A apresentação clássica do gato hipertireóideo é a de um gato magro, agitado e idoso com muito apetite e poliúria; o animal aparenta ser tenso ou ansioso, com pouca tolerância para qualquer tipo de estresse, como de restrição (THODAY; MOONEY, 47 DISFUNÇÃO TIREÓIDEA II │ UNIDADE III 1992). Muitos órgãos sistêmicos podem ser afetados. Em um gato idoso, a perda de peso, frequentemente associada ao aumento no apetite, pode ser razão suficiente para a suspeita de hipertireoidismo. Em cerca de 10% dos casos, o quadro clínico pode ser um pouco diferente: nesses casos a perda de peso permanece como uma importante característica, porém há letargia e anorexia, ao invés de hiperatividade e aumento no apetite. Tal forma, chamada de hipertireoidismo apático, pode representar um estágio final da doença e também deve ser associado às desordens cardíacas. Essa forma severa do hipertireoidismo felino também é conhecida como a “tempestade tireóidea”, termo utilizado para uma entidade clínica rara em humanos. A terapia com iodo radioativo, a cirurgia tireóidea, a palpação tireóidea vigorosa e o estresse podem causar um aumento agudo nas concentrações plasmáticas de hormônios tireóideos e têm sido implicados como possível fator desencadeante da “tempestade tireóidea” (WARD, 2007). Uma grande gama de características clínicas é associada com essa forma da doença, incluindo hipertensão arterial e miopatia hipocalêmica. Não está claro se possíveis condições coexistentes, como hiperaldosteronismo, podem ter algum papel. Os efeitos multissistêmicos do excesso de hormônios tireóideos não levam apenas a uma variedade de alterações físicas, mas, também, podem gerar várias anormalidades bioquímicas. Grande parte de tais alterações bioquímicas são revertidas com o tratamento, incluindo o aumento nas concentrações plasmáticas das enzimas hepáticas e aumento na razão entre corticoides e creatinina urinária (MOONEY et al., 1992; DE LANDE et al., 2004). As alterações hemodinâmicas do hipertireoidismo são responsáveis pelo aumento marcado na taxa de filtração glomerular. A proteinúria moderada, frequentemente observada, é considerada um reflexo da hipertensão glomerular e hiperfiltração, e também é resolvida com o tratamento (SYME; ELLIOT, 2001). O mais preocupante é o aumento nas concentrações plasmáticas de creatinina após o tratamento contra o hipertireoidismo, apesar de ainda permanecer dentro do limite de referência. Apesar de ser considerada como uma doença renal crônica desmascarada, tal fato parece ter pouca significância clínica. A sobrevivência dos gatos hipertireóideos não parece ser afetada pela azotemia pós-tratamento (SYME, 2007). Estudos sobre a homeostase do cálcio no hipertireoidismo felino revelaram várias alterações (SCHENCK, 2007). Apesar de tais alterações não terem sido associadas com quaisquer sintomas ou sinais, há um relato de um gato hipertireóideos com hiperfosfatemia e calcificação de suas patas, que foi resolvido com o retorno ao seu estado eutireóideo (DECCLER; BATTY, 2005). Adicionalmente, consistentecom os efeitos dos hormônios tireoidianos sobre a Na+/K+-ATPase, a hipocalemia pode ser encontrada, por meio da possibilidade de um hiperaldosteronismo pré-existente. 48 UNIDADE III │ DISFUNÇÃO TIREÓIDEA II Diagnóstico diferencial Há pelo menos duas desordens não tireoidianas que podem simular certos aspectos da síndrome. Primeiramente, a perda de peso em combinação com o aumento do apetite e grande volume de fezes gordurosas pode ser confundida com insuficiência pancreática e, menos provavelmente, com linfoma gastrointestinal, já que no último caso haverá inapetência. A perda de peso, apesar do elevado apetite, juntamente com a poliúria também levanta a possibilidade de diabetes mellitus, mas a urinálise de rotina poderá resolver esta dúvida imediatamente. Diagnóstico Quando há suspeita de hipertireoidismo, o primeiro passo deve ser uma palpação cuidadosa do pescoço, deslizando suavemente o polegar e o indicador ao longo dos lados da traqueia. As glândulas tireoidianas estão frouxamente ligadas aos tecidos circundantes e, portanto, o seu aumento causa a descida ao longo da traqueia, às vezes até a entrada torácica. As glândulas tireoidianas são facilmente movidas ao longo da traqueia. O aumento de um ou ambos os lobos pode ser encontrado, por um examinador experiente, em cerca de 90% dos cães hipertireóideos. Entretanto, deve-se levar em consideração que ocasionalmente o aumento da tireoide é encontrado em casos que não sejam de hipertireoidismo. Em tais casos, a doença pode se desenvolver ao longo do tempo. Raramente o aumento da tireoide surge a partir de tecidos tireoidianos ectópicos (às vezes intratorácicos). O diagnóstico final deve assentar na mensuração direta da função tireoidiana. Pelas razões descritas anteriormente, a mensuração das concentrações plasmáticas de T4 é de maior valor diagnóstico em relação ao T3. Em cerca de 90% dos gatos apresentados com síndrome de hipertireoidismo, a concentração plasmática de T4 excede o limite máximo de referência. As concentrações plasmáticas de T4 flutuam ao longo do tempo e, em gatos com hipertireoidismo moderado, os valores de T4 devem estar entre a faixa normal e alta dos limites de referência. Adicionalmente, a doença não tireoidiana concomitante pode reduzir os valores para abaixo dos níveis mínimos de referência (PETERSON et al., 2001). Quando as concentrações plasmáticas de T4 reduzem dentro do limite de referência e o animal ainda apresenta suspeita de hipertireoidismo, a mensuração de T4 pode ser repetida dentro de duas a quatro semanas. Na maioria dos casos, a mensuração das concentrações de T4 livre por meio de diálise de equilíbrio adiciona pouca ou nenhuma informação ao diagnóstico. Doenças não tireoidianas podem ser associadas com resultados falso-positivos e, portanto, o 49 DISFUNÇÃO TIREÓIDEA II │ UNIDADE III hipertireoidismo felino não deve ser diagnosticado apenas com base nos achados de elevada concentração plasmática de T4 livre (PETERSON et al., 2001). Recentemente, foi descrito que gatos com hipertireoidismo apresentam concentrações plasmáticas de TSH abaixo do limite de quantificação, o que fornece ferramentas adicionais na abordagem diagnóstica para o hipertireoidismo felino. Concentrações não detectáveis ou baixas de TSH também foram descritas em gatos com evidência histológica de doença tireóidea nodular, isto é, hipertireoidismo moderado ou subclínico (WAKELING et al., 2007). Também se pode considerar testar a supressibilidade das concentrações plasmáticas de T4 em um teste de supressão com T3. Após sete ou oito horas de administração de doses de T3 (15 a 25 µg, via oral), as concentrações de T4 em gatos saudáveis é suprimida a baixos valores. Devido ao caráter autônomo (TSH-independente) da hipersecreção de T4 em gatos hipertireóideos, as concentrações de T4 permanecem praticamente inalteradas cerca de 2 a 4 horas após a última administração de T3 (WAKELING et al., 2007). Apesar de não disponível em todas as clínicas, os estudos de captação com iodo radioativo (131I ou 125I) pode contribuir para o diagnóstico. Em gatos hipertireóideos existe uma rápida captação do traçador, com valores maiores do que em relação aos gatos normais (SJOLLEMA et al., 1989). Adicionalmente, o 99mTcO4 - também é captado pela glândula tireoide mas não é organificado. Apesar disso, a mensuração pode ser valiosa por ser usualmente maior em cães saudáveis (NAP et al., 1994). A melhor correlação da captação do 99mTcO4 - com as concentrações plasmáticas de T4 foi encontrada pela razão glândula tireoide/salivar ao longo de 20 minutos, utilizando uma imagem mais intensa de ambos os lobos tireóideos. (DANIEL et al., 2002) A captação visualizada na cabeça do gato pela cintilografia tireóidea de rotina é em grande parte devido ao acúmulo de pertecnetato na glândula salivar molar e zigomática. A captação nas glândulas molares menores pode ser sobreposta pela captação do zigomático nas imagens planas ventrais de rotina (BARTHEZ et al., 2006). Diferentes protocolos anestésicos sedativos influenciam a captação de 99mTcO4 - pelas glândulas tireoide e salivar, de diferentes formas (SCHAAFSMA et al., 2006). Outro fator complicador da interpretação da razão glândula tireoide/salivar pode ser a recente medicação antitireóidiana. O aumento na captação tireoidiana de 99mTcO4 - foi encontrada após a retirada, apesar de a razão glândula tireoide/salivar ter sido significativamente elevada apenas 4 horas após a injeção do traçador. (NIECKARZ; DANIEL, 2001) Em gatos hipertireóideos, a cintilografia com 99mTcO4 - revela o aumento na captação em tecidos tireóideos hiperplásicos e nenhuma captação em tecidos não afetados, devido a secreção de TSH ser suprimida pelo excesso de T4. A cintilografia tireóidea é 50 UNIDADE III │ DISFUNÇÃO TIREÓIDEA II especialmente útil em gatos hipertireóideos onde não há aumento de tireoide detectado pela palpação, a fim de detectar se um ou mais lóbulos são afetados e se a hiperfunção funcional ectópica do tecido tireóideo está presente. A técnica também é muito útil em casos de recorrência da doença após cirurgia, e quando há suspeita de metástases distantes, apesar de esta ser extremamente rara. A hiperfunção funcional ectópica do tecido tireóideo ocorre em 9% dos casos e apresenta um efeito significante na taxa de recorrência após a cirurgia. A cintilografia tireóidea deve ser realizada antes da cirurgia em todos os casos (NAAN et al., 2996). Apesar de o 99mTcO4 - ser geralmente administrado por via intravenosa, a administração subcutânea é segura e fornece imagens de diagnóstico equivalentes. (PAGE et al., 2006) Cintilografia com pertecnetato possui vantagens sobre mensurações quantitativas de captação. Além do seu valor na localização das lesões tireoidianas, a inspeção visual de uma varredura apresenta sensibilidade igual ou superior para o diagnóstico do hipertireoidismo quando comparado com o cálculo da razão entre as glândulas tireoide e salivar (DANIEL et al., 2002). A inspeção visual pode ter baixa especificidade em relação à razão entre as glândulas tireoide e salivar, já que o observador pode ser enganado pela assimetria das glândulas tireoidianas que ocorrem em alguns gatos eutireóideos (SCRIVANI et al., 2007). Em casos de dúvidas, a mensuração da captação quantitativa pode ser útil caso os valores possam ser comparados com valores de referência apropriadamente obtidos. Tratamento Há três opções para eliminar o excesso de produção de T4: 1. ablação da tireoide por meio de radioisótopo; 2. tireoidectomia cirúrgica, e 3. inibição da secreção com drogas antitireoidianas. Quando a facilidade não é um fator limitante, a primeira opção é a preferida. A tireoidectomia é realizada por meio da técnica modificada de dissecção intracapsular. Após a incisão na porção ventral da glândula, o tecido tireóideo é gentilmente removida da cápsula através de uma dissecção romba com tesouras e cotonete umedecido. Apósa remoção da glândula tireoide a cápsula é extirpada, preservando apenas um pequeno pedaço da cápsula e a irrigação sanguínea para a glândula paratireoide. Pode ser difícil localizar a glândula paratireoide devido às alterações anatômicas causadas pelo nódulo tireóideo, de forma que lupas devem ser utilizadas. Com essa abordagem, tanto a tireoidectomia unilateral quanto a bilateral pode ser realizada sem uma elevada incidência de hipoparatireoidismo, dependendo da habilidade e experiência 51 DISFUNÇÃO TIREÓIDEA II │ UNIDADE III do cirurgião. A hiperfunção de tecido tireoidiano ectópico na região cervical ventral ou mediastinal anterior são abordadas por meio de uma incisão cervical caudal. Por meio de exploração cuidadosa ao longo da entrada torácica, o mediastino anterior pode ser alcançado suficientemente para encontrar e remover a lesão. (NAAN et al., 2006) O aumento no débito cardíaco ocorrido no hipertireoidismo pode descompensar uma doença cardíaca subclínica, apesar da prevalência da falência cardíaca congestiva ser baixa. Considerações no tratamento pré-operatório são centradas primariamente no controle do hipertireoidismo em relação às suas consequências cardiovasculares (WARD, 2007). Drogas antitireoidianas podem ser utilizadas para controlar os efeitos cardíacos do hipertireoidismo antes da anestesia geral e cirurgia, porém, caso tais drogas causem sérios efeitos colaterais, os beta-bloqueadores tornam-se uma alternativa a curto prazo (WARD, 2007). A ecocardiografia sistemática revelou anormalidades clinicamente relevantes no pré-tratamento em menos de 10% dos gatos hipertireóideos, e a taquicardia (>220 bpm em um cenário clínico) foi citada como o critério principal para o tratamento com drogas cardíacas (WEICHSELBAUM et al., 2005). A hipocalemia pode ser corrigida no pré-operatório por meio da administração de potássio por via oral (2 mmol de KCl, duas vezes ao dia) ou por meio de injeções intravenosas ou subcutâneas. A complicação pós-operatória mais séria é a hipocalcemia, que aparece entre 24 a 72 horas após a tireoidectomia bilateral. Seus sinais variam entre letargia, anorexia, relutância ao movimento, e tremores musculares (face e olhos) até tetania (que pode ser causada pelo manuseio do animal) e convulsões. O tratamento deve ser iniciado prontamente por administrações intravenosas de íon cálcio (0,5 mmol/Kg) sob a forma de gluconato de cálcio. Seria interessante evitar esse evento dramático por meio de mensuração rotineira das concentrações plasmáticas de cálcio a partir de 20 horas após a cirurgia. Caso as concentrações plasmáticas de cálcio estejamtal fato pode estar associado às manifestações clínicas de hipotireoidismo (NYKAMP et al., 2005). A recidiva como resultado de um novo desenvolvimento de hiperplasia nodular no tecido tireoidiano remanescente ocorre pouco frequentemente. O tempo entre o tratamento com o iodo radioativo e a recidiva é de, geralmente, três anos ou mais. Já que tanto o hipotireoidismo quanto a recidiva podem ocorrer após o tratamento com o iodo radioativo, recomenda-se testar a função tireoidiana pelo menos uma vez ao ano. (PETERSON, 2006) Uma das drogas antitireoidianas disponíveis e mais utilizadas é o metimazol, que exerce o seu efeito pela inibição da atividade da enzima TPO. O componente derivado do carbimazol é convertido em metimazol, mas fornece apenas metade da concentração de metimazol quando comparado a mesma concentração de metimazol. As doses necessárias para controlar o hipertireoidismo em gatos diferem de acordo. (PETERSON; AUCOIN, 1993) A dose inicial de metimazol é de 1,25 a 2,5 mg por gato, duas vezes ao dia; tal dose pode ser aumentada caso a resposta, após duas ou quatro semanas, seja inadequada. Para o carbimazol a dose inicial é de 2,5 a 5 mg por animal, duas vezes ao dia (TREPANIER, 54 UNIDADE III │ DISFUNÇÃO TIREÓIDEA II 2006). Nos gatos que toleram o metimazol sem efeitos colaterais, a eficiência do tratamento é superior a 90% (PETERSON; AUCOIN, 1993). Efeitos colaterais foram descritos em 18% dos animais tratados com metimazol, incluindo discrasias sanguíneas (neutropenia e/ou trombocitopenia), escoriação facial, hepatotoxicidade e distúrbios gastrointestinais (anorexia e vômitos). Gatos com discrasias sanguíneas induzidas pelo metimazol geralmente recuperam-se dentro de uma semana após a descontinuação do tratamento. A administração continuada do metimazol na presença de trombocitopenia pode levar a hemorragias, incluindo epistaxes e sangramento oral (PETERSON; KINTZER, 1988). Há relatos de que os efeitos colaterais são menos comuns no tratamento com carbimazol em relação ao metimazol, porém tal fato não foi substanciado até o momento. Condizente com a possibilidade de tais efeitos colaterais no tratamento com metimazol, o protocolo de tratamento deve incluir exames de controle 2, 4 e 6 semanas após o início do tratamento, com mensurações de hematócrito, contagem de leucócitos e trombócitos, e concentração plasmática de enzimas hepáticas, creatinina e T4. Tal acompanhamento também deve ser realizado caso o animal fique doente ao longo do tratamento com metimazol, para diferenciar entre um simples distúrbio gastrointestinal daquele onde a redução da dose seria adequada, e onde ocorra discrasias sanguíneas e hepatopatias onde o tratamento com metimazol deva ser descontinuado. (TREPANIER, 2006) Quando a administração oral é problemática, o metimazol pode ser administrado por formulações transdermais onde o organogel de lecitina age aumentando a permeabilidade, facilitando a absorção da droga através da epiderme. A dosagem transdermal crônica de metimazol (2,5 mg, duas vezes ao dia) é eficaz na redução das concentrações plasmáticas de T4 em gatos hipertireóideos (HOFFMMAN et al., 2003; SARTOR et al., 2004). A administração de carbimazol sob a forma de pomada é igualmente eficiente (5 mg, uma vez ao dia durante uma semana e, depois, duas vezes ao dia). A pomada é aplicada na superfície interna do pavilhão auricular, devendo alternar a orelha em cada dose. O proprietário deve ser instruído a usar luvas para o procedimento e remover possíveis materiais em crosta com cotonete antes da aplicação da pomada. Apesar de poucos efeitos colaterais terem sido descritos com o tratamento transdermal, não é convincente que ele produza menos efeitos colaterais que o tratamento por via oral. Utilizando a mesma dose, o tratamento transdérmico apresenta menor eficácia em relação à administração oral de metimazol, provavelmente devido a menor biodisponibilidade. 55 DISFUNÇÃO TIREÓIDEA II │ UNIDADE III A injeção percutânea de etanol, por meio de orientação ultrassonográfica, é um tratamento alternativo para pacientes humanos (CORVILAIN et al., 2001). A injeção de etanol 90% na lesão tireoidiana causa necrose hemorrágica e fibrose (POMORSKI; BARTOS, 2002). Tal injeção é considerada a primeira linha de tratamento para cistos tireoidianos recorrentes e, uma alternativa contra pequenos nódulos que funcionam de forma autônoma em pacientes humanos que rejeitam o tratamento com iodo radioativo (GUGLIELMI et al., 2004). Há apenas um estudo sobre o uso da injeção percutânea de etanol contra nódulos solitários em quatro gatos hipertireoideos, as concentrações plasmáticas de T4 reduziram e os sinais clínicos de hipertireoidismo foram resolvidos. Adicionalmente, a doença não recidivou nos 12 meses seguintes de acompanhamento; não foram relatados efeitos colaterais além de disfonia moderada (GOLDSTEIN et al., 2001). Por outro lado, os resultados encontrados em sete gatos com lesões tireoidianas bilaterais foram menos satisfatórios, o eutireoidismo durou menos de 6 meses e houve uma elevada incidência de paralisia faríngea. (WELLS et al., 2001) Prognóstico Em gatos sem complicações cardíacas ou renais severas, o prognóstico para a restauração da saúde é excelente após uma cirurgia bem-sucedida. Pode haver recidiva meses ou anos após a tireoidectomia, geralmente associada com hiperplasia adenomatosa no lobo contralateral ou em um tecido ectópico. Após o tratamento com radioiodo, o prognóstico é bom ou excelente, mesmo naqueles com envolvimento bilateral ou com presença de foco ectópico de tecido tireoidiano, não havendo risco de hipoparatireoidismo e raramente necessitam de suplementação com hormônios tireoidianos. Na grande maioria dos gatos hipertireoideos o tratamento com metimazol ou carbimazol é eficiente, mas o prognóstico depende em parte da possível presença de efeitos colaterais da droga. 56 CAPÍTULO 3 Tumores tireoidianos e hipertireoidismo em cães A neoplasia tireoidiana corresponde a cerca de 2% de todos os tumores caninos. A maioria dos tumores benignos (adenomas) são pequenos e comumente não detectados durante a vida do animal; muito ocasionalmente eles tornam-se císticos e por isso, aumentam de tamanho de forma suficiente para serem detectados pelo proprietário (LEAV et al., 1976). Um tumor tireóideo benigno também pode ser detectado devido seus sintomas sugerirem um hipertireoidismo. A palpação cuidadosa do pescoço pode revelar um discreto aumento nas glândulas tireoidianas. Cerca de 85% dos tumores tireoidianos caninos descobertos clinicamente são bastante grandes (> 3 cm), sólidos, e malignos. A sua natureza maligna pode ser evidenciada já durante o exame físico, devido às alterações como aderência às estruturas adjacentes e metástases para linfonodos regionais. Exames microscópicos revelam que a maioria dos tumores consiste de tecido sólido e/ou folicular. Dentre os tumores tireoidianos que acometem os animais domésticos, o do cão, particularmente o tipo folicular, assemelha-se muito ao carcinoma folicular humano. As similaridades incluem não apenas o comportamento clínico do tumor, mas também o padrão dos níveis de tireoglobulina circulante e a conservação dos receptores para TSH os tumores primários (muito menos em metástases) (VERSCHUEREN et al., 1991a; 1992). Uma diferença intrigante é observada na ploidia do DNA, havendo uma maior incidência de hipodiploidia em tumores caninos (VERSCHUEREN et al., 1991b). Mutações em genes supressores de tumores do tipo p53 parecem ocorrer pouco frequentemente em cães com carcinoma tireoidiano. (DEVILEE et al., 1994) Dentre os possíveis fatores de risco que contribuem para o desenvolvimento do câncer tireoidiano, a influência do iodo na dieta canina não está clara (BARBER, 2007) apesar de em um estudo, a elevada prevalência de tumores tireóideos no material de necropsia foi atribuída como ingestão de iodo insuficiente (AUPPERLE et al., 2003). O hipotireoidismorelacionado com a tireoidite linfocítica foi associado com uma elevada incidência de tumores tireoidianos em uma colônia de beagles. Tal fato também aponta para um possível papel da exposição crônica ao TSH na promoção do crescimento neoplásico do epitélio folicular residual. (BENJAMIN et al., 1996). Os tumores tireoidianos surgem não somente a partir do epitélio folicular, mas também a partir das células C parafoliculares. Esses tumores chamados de tumores 57 DISFUNÇÃO TIREÓIDEA II │ UNIDADE III tireoidianos medulares são relativamente raros em cães (LEAV et al., 1976). Sugere-se que tais tumores sejam mais prevalentes do que previamente pensando, e são de menor malignidade em relação aos carcinomas originados das células foliculares (CARVER et al., 1995). Recentemente foi descrita a ocorrência familiar do carcinoma medular tireoidiano em cães malamute do Alaska, mas um defeito gênico predisponente ainda não foi identificado nesta raça (LEE et al., 2006). O carcinoma medular tireoidiano em cães não parece estar associado com a ativação de mutações nos proto-oncogenes RET, assim como ocorre em humanos (LEE et al., 2006; VAN VEELEN et al., 2008). Os carcinossarcomas tireoidianos, que consistem tanto de elementos do epitélio maligno (folicular) quando mesenquimal (geralmente de origem osteogênica e/ou cartilaginosa) são extremamente raros (GRUBOR; HAYNES, 2005). Metástases do carcinoma epitelial tireoidiano canino é relativamente comum, mais frequentemente nos pulmões e regiões com nodos linfáticos (LEAV et al., 1976; AUPPERLE et al., 2003). A linfa drena a partir da tireoide canina, primariamente via polo superior linfático na direção cranial, em direção aos linfonodos cervicais profundos (STERNS; DORIS, 1968). As metástases ocorrem em muitos órgãos, incluindo a hipófise (TAMURA et al., 2007). Enquanto a metástase do carcinoma tireóideo para os ossos ocorrem frequentemente em humanos, tal condição é rara em cães. Quadro clínico A idade média dos cães que apresentam tumores tireoidianos é de nove anos de idade (numa faixa que varia entre 5 a 15 anos), e os boxers são os maiores representantes, não havendo predileção por sexo (LEAV et al., 1976). Os sintomas estão relacionados com o aumento da tireoide, e hipersecreção de hormônios tireoidianos. A maioria dos tumores tireoidianos é descoberta pelos próprios proprietários, como uma massa na região médio-cervical ou ventro-cervical, que não causa desconfortou ou dor ao animal. Entretanto, à medida que o tumor aumenta de tamanho, eles podem causar sintomas tais como disfagia, rouquidão e obstrução traqueal, relacionados à pressão exercida pelo tumor sobre as estruturas adjacentes. Um tumor grande e invasivo pode ainda causar prejuízos ao tronco simpático cervical (MELIÁN et al., 1996). A invasão arterial pode causar uma situação de emergência com um aumento rápido na sudorese na região cervical ventral relacionado com a hemorragia (SLENSKY et al., 2003). Os tumores que surgem a partir dos ductos tireoglosso remanescentes desenvolvem-se na região ventro-medial cranialmente à laringe e podem envolver a base da língua e os ossos hióideos. Já os tumores que se originam a partir do tecido ectópico tireóideo na base do coração podem causar arritmias, efusão pericárdica e edema anterior cervical. (WARE et al., 1994) 58 UNIDADE III │ DISFUNÇÃO TIREÓIDEA II A hipersecreção de hormônio tireóideo ocorre em cerca de 10% dos casos de tumor tireoidiano em cães (LEAV et al., 1976; TURREL et al., 2006), podendo resultar na síndrome do hipertireoidismo, muito similar a que ocorre em gatos porém menos severa. Ocasionalmente, há sintomas de hipertireoidismo sem o aumento da tireoide observado pela palpação; nesse caso, um tumor hiperfuncionante intratorácico originário a partir de um tecido tireóideo ectópico deve ser considerado. (TURREL et al., 2006; STASSEN et al., 2007). Os carcinomas medulares tireoidianos em humanos podem expressar genes nas células C que, ou estão pouco expressos ou simplesmente não expressos. Os produtos proteicos desses genes incluem a somatostatina, a proopiomelanocortina, o peptídeo vasoativo intestinal e o peptídeo liberador de gastrina, o que causa em alguns pacientes uma diarreia profusa e líquida (KEBEBEW et al., 2000; LEBOULLEUX, 2004). Tais efeitos sistêmicos também ocorrem em cães: uma diarreia ininterrupta em um cão da raça collie de 7 anos de idade cessou imediatamente após a remoção de um carcinoma tireoidiano medular. (LEAV et al., 1976) Diagnóstico diferencial O diagnóstico diferencial para uma massa cervical grande inclui inflamação (penetração faríngea por um corpo estranho), hematoma, linfoma, lipoma e outros tumores. Os tumores tireoidianos também infiltram muito raramente na pele, mimetizando a inflamação com abundante tecido de granulação. Diagnóstico e estadiamento A localização e extensão da massa são determinadas pela palpação cuidadosa da porção inferior do pescoço enquanto o animal está sentado em uma posição confortável com a sua cabeça levantada e levemente inclinada para trás. Tumores de tamanho pequeno a médio são geralmente fáceis de mover ao longo da traqueia, mas a palpação pode também revelar a aderência do tumor a estruturas adjacentes e o aumento dos linfonodos cervicais profundos localizados crânio-cervicalmente. O estado funcional pode ser testado pela mensuração das concentrações plasmáticas de T4 e TSH. Uma baixa concentração plasmática de T4 e elevada concentração plasmática de TSH (o que indica hipofunção) pode ser encontrada em cães onde o tecido tireoidiano normal é substituído por carcinoma tireoidiano bilateral ou tireoidite pré-existente. A hiperfunção 59 DISFUNÇÃO TIREÓIDEA II │ UNIDADE III dos tumores tireoidianos resulta em elevadas concentrações plasmáticas de T4 e baixas concentrações plasmáticas de TSH. As técnicas de diagnóstico por imagem tais como ultrassonografia, tomografia computadorizada e ressonância magnética podem ser de grande valia para a detecção de cistos, linfonodos regionais metastáticos, hemorragia, necrose, calcificação, deslocamento vascular, e invasão (TAEYMANS et al., 2007). Dúvidas como, se a massa é de origem tireoidiana podem ser ocasionalmente resolvidas com a cintilografia com iodo radioativo ou pertecnato. As metástases pulmonares podem ser detectadas por radiografia e, caso seja necessário, pela tomografia computadorizada. Tais técnicas são mais sensíveis para essas propostas do que a cintilografia já que as metástases, particularmente quando sólidas ou anaplásicas, podem não capturar o pertecnato. (TAEYMANS et al., 2007) Os exames citológicos com biópsias por agulha fina podem revelar a identidade da massa, apesar de poder ser difícil obter aspirados sem excesso de sangue e tumores císticos frequentemente contêm uma mistura de fluido sanguíneo e células tumorais degeneradas (THOMPSON et al., 1980). A contaminação sanguínea pode ser evitada por meio da utilização de agulhas pequenas ( 5 cm de diâmetro), subdividido em “a” (para tumores móveis) e “b” (para tumores fixos à estruturas adjacentes). N0 a N2 representa a faixa de envolvimento dos linfonodos, desde nenhum até bilateralmente, com os subestágios “a” (para linfonodos móveis) e “b” (linfonodos fixos). Por fim, M0 a M1 indica se foram detectadas ou não metástases distantes. Tratamento Como a maioria dos tumores clinicamente detectados é maligna, a massa deve ser cirurgicamente removida sem atrasos, desde que seja ressecável. A excisão cirúrgica de um carcinoma tireoidiano móvel ou encapsulado é frequentementecurativa. Os sinais e sintomas do hipertireoidismo desaparecem (ITHO et al., 2007). A excisão de um carcinoma tireoidiano móvel nos grupos II (T2a, N0, M0) e III (T3a, N0 e M0) resultam em uma elevada sobrevida para a maioria dos cães (KLEIN et al., 1995). Os carcinomas medulares tireoidianos tendem a ser bem circunscritos e ressecáveis (CARVER et al., 1995). Quando há tumores bilaterais, deve ser feito um esforço para 60 UNIDADE III │ DISFUNÇÃO TIREÓIDEA II poupar uma das glândulas paratireoidianas, apesar disso ser apenas possível caso o tumor esteja bem circunscrito e uma glândula paratireoide externa possa ainda ser identificada. Caso nenhum tecido paratireoidiano possa ser preservado, o tratamento contra o hipoparatireoidismo será necessário em adição à reposição com tiroxina. A excisão cirúrgica dos carcinomas ectópicos na base da língua representa um desafio devido à sua grande proximidade entre o aparato hioideo e a língua, e devido à abundante revascularização (LANTZ; SALISBURY, 1989). Os tumores ectópicos que se desenvolvem a partir do tecido tireoidiano intratorácico podem ser ressecáveis. Os cães com tumores grandes e invasivos são frequentemente pobres candidatos a cirurgias ou outras condições a serem consideradas, principalmente caso eles sejam bilaterais ou ectópicos. Em princípio, a administração de iodo radioativo é uma alternativa atraente, particularmente em cães com tumores hipersecretores a elevada captação e completa organificação de 131I deve resultar em uma elevada concentração de iodo radioativo dentro do tumor, produzindo uma elevada dose efetiva de radiação. Existem estudos onde a terapia com 131I, independente das concentrações de hormônios tireoidianos, aumentam o tempo de sobrevida, mesmo naqueles casos onde houve pequena ou nenhuma redução do tamanho do tumor (WORTH et al., 2005; TURREL et al., 2006). Um tempo de sobrevida médio foi significativamente maior em cães com tumores locais ou regionais (estágios II e III) em relação àqueles com tumores em estágio IV (TURRELL et al., 2006). A mielossupressão tem sido descrita como uma complicação do tratamento com elevadas doses de 131I (ADAMS et al., 1995; TURREL et al., 2006). As rigorosas exigências regulamentares para o uso de radionuclídeos, a necessidade de doses elevadas e repetidas, e a hospitalização prolongada são fatores que limitam a disponibilidade desse tratamento como opção. A quimioterapia com doxorrubicina ou cisplatina pode ser considerada em cães com elevado risco de desenvolver metástases, ou seja, aqueles com carcinomas tireoidianos grandes e bilaterais. Prognóstico O grau histológico de malignidade, levando em consideração o polimorfismo celular e nuclear, invasão capsular e vascular, e a frequência de mitoses parecem ser os fatores prognósticos mais importantes para os tumores tireoidianos tratados com tireoidectomia. Adicionalmente, o tamanho do tumor e a ocorrência bilateral são fatores críticos (THÉON et al., 2000). Em outras palavras, em cães com carcinomas de tamanho médio e encapsulados, a ressecção cirúrgica carrega um bom prognóstico. 61 DISFUNÇÃO TIREÓIDEA II │ UNIDADE III A proliferação celular tireoidiana é TSH-dependente e desde que os tireócitos carcinomatosos possuem receptores para TSH (VERSCHUEREN et al., 1992), podemos sugerir que o prognóstico possa ser influenciado favoravelmente pelo tratamento supressivo de TSH com l-tiroxina. De fato, foi descrito em humanos as taxas de recorrência de tumores podem ser reduzidas caso a l-tiroxina seja administrada logo após a cirurgia, para pacientes com carcinoma tireóideo não metastático diferenciado (MAZZAFERRI, 2000). Tal tratamento apresenta dois objetivos: 1. a reposição hormonal (correção do hipotireoidismo induzido) e 2. supressão hormonal (redução das concentrações plasmáticas de TSH que pode estimular o crescimento persistente ou a recorrência do tecido neoplásico). Em pacientes de baixo risco, a l-tiroxina é administrada para que as concentrações de TSH retornem aos valores de referência. Pacientes com elevado risco de câncer tireóideo recebem elevadas doses a fim de alcançarem a completa supressão de TSH, o que implica em um estado de hipertireoidismo subclínico que necessitará de monitoramento cuidadoso para doenças cardiovasculares (BIONDI et al., 2005; HEEMSTRA et al., 2006). 62 Referências ABRAMS, J. Vasodilator therapy for chronic congestive heart failure. 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Os lobos são ventralmente cobertos pelos músculos esterno-hioideo e esternotireóideo; o principal aporte sanguíneo se dá através da artéria tireóidea cranial, um ramo da artéria carótida comum e, a principal via de drenagem venosa é por meio da veia tireóidea caudal, que desemboca na veia jugular interna. A glândula tireoide normal não é palpável. As glândulas tireoides são originadas a partir de duas estruturas embrionárias distintas, o que reflete a função endócrina dual destas glândulas. As células foliculares produtoras de tireoglobulina originam-se a partir da evaginação mediana do epitélio faríngeo. As células produtoras de calcitonina – parafoliculares ou células C – são derivadas da crista neural, originárias a partir da quarta bolsa faríngea. O primórdio tireoidiano inicia-se de forma descendente em direção à sua posição final enquanto ainda permanece conectado à parede da faringe por meio de um estreito canal, o ducto tireoglosso e, durante a descida, tecidos remanescentes podem ser deixados ao longo do trato. Adicionalmente, durante o desenvolvimento das tireoides, elas permanecem intimamente ligadas ao saco aórtico, que leva à ocorrência frequente de tecido acessório tireoidiano no mediastino de animais adultos. Raramente, tal tecido acessório é o único tecido tireoidiano funcional e a sua secreção pode ser insuficiente para manter o estado metabólico normal (eutireoidismo). A unidade básica funcional da tireoide é o folículo, uma esfera côncava de 30 a 300 µm de diâmetro; sua parede formada por uma camada simples de células epiteliais de formato cuboide ou achatado quando quiescentes, ou colunar quando ativas. O lúmen dos folículos tireóideos é preenchido com um coloide contendo uma glicoproteína de elevado peso molecular chamada tireoglobulina, que é única à glândula tireóidea e em cuja sequência se dá a síntese e estocagem dos hormônios tireóideos. Já as células C são largamente distribuídas pelo espaço interfolicular. 10 UNIDADE I │ FISIOLOGIA TIREÓIDEA Os hormônios da tiroide são os únicos compostos orgânicos iodados no corpo sendo os dois principais produtos da glândula tiroide a tiroxina (L-T4) e a 3,5,3’-triiodotironina (L-T3) contendo 65% e 59% de iodo respectivamente. A quantidade mínima de iodo para a maior parte dos animais é desconhecida, mas a quantidade diária necessária na ração para prevenir o bócio em todos os animas é normalmente de 1µg/kg do peso corporal. A quantidade diária recomendada em cães é de 15µg/kg enquanto em gatos ainda não foi cuidadosamente estudado, acredita-se que seja de 100µg/gato/dia. Rações comerciais pra gato tem se mostrado bastante variáveis com relação à quantidade iodo, provavelmente um resultado da quantidade variável de frutos do mar usados para criar a ração. De fato, o iodo da dieta tem se mostrado inversamente proporcional às concentrações de T4 livre. Embora os requisitos nutricionais para esse micronutriente não sejam conhecidos, a maior parte das rações pra gato e cães incluem pelo menos 3 a 5 partes dessa quantidade mínima de iodo necessária, se os animais são alimentados com as quantidades recomendadas. Como resultada a deficiência de iodo tem se tornado uma condição rara em animais domésticos. Durante a gravidez, a quantidade mínima diária de iodo recomendada aumenta 4 vezes. O iodo ingerido é convertido a iodeto no trato gastrointestinal e absorvido na circulação. Os cães têm concentrações plasmáticas de iodo de 5µg/dl a 10µg/dl, o que é 10 a 20 vezes mais que no plasma humano. Na tireoide o iodeto é concentrado ou preso pela cotransportador sódio-iodeto (NIS) que utiliza o gradiente de sódio proporcionado pela Na+/K+ ATPase para mover o iodo pela membrana plasmática basolateral da célula folicular da tireoide. Esses resultados nas concentrações intracelulares de iodo, que são de 10 a 200 vezes maiores que no soro. Esse processo é estimulado pela interações da tirotropina (TSH) com a proteína G acoplada aos receptores de TSH na superfície da célula folicular levando a estimulação de cAMP. A transcrição de NIS é estimulada pelo TSH do AMP cíclico o NIS é também regulado diretamente pelos mecanismos da tireoide respondendo a deficiência de iodo ou bloqueio do transporte de iodeto por compostos como o perclorato. Outros tecidos incluindo glândulas salivares, células da mucosa gástrica, células tubulares do ducto proximal renal, placenta, corpos ciliares e glândulas mamárias podem absorver quantidades consideráveis de radioiodeto de maneira TSH independente. Em diagnósticos, o iodeto radioativo ou pertequinitato (TcO4-) que ao contrário do iodeto não pode ser organificado, podem ser usados para avaliar a função de transporte de ânion pela glândula tireoide. O aprisionamento de iodo pode ser inibido por outros ânions. O tiocianato é um composto metabólico de algumas plantas e é um indicador de plantas com atividade goitrogênica. O tiocianato pode ser produzido em animais domésticos como produto da fumaça de cigarro no ambiente doméstico. A administração oral de perclorato seguindo a administração de uma dose traço de radioiodeto pode ser usada para diagnosticar deficiências congênitas na organificação do iodeto na tireoide. 11 FISIOLOGIA TIREÓIDEA │ UNIDADE I A síntese dos hormônios da tireoide A tiroglobulina (Tg) uma glicoproteína iodada com peso molecular de 660,000 Dalton, serve como suporte de síntese e armazenamento dos hormônios da tireoide e seus percussores nas células foliculares da tireoide. Após a síntese no retículo endoplasmático das células foliculares da tireoide as vesículas plasmáticas contendo o Tg monoiodado se fundem com a membrana apical e os liberam (por exocitose) dentro do lúmen das células foliculares. A tiroglobulina é armazenada como um coloide. Uma vez, dentro da célula da tiroide o iodeto é transportado para o lúmen folicular pela proteína pendrina e depois oxidado pela enzima tireoide peroxidase (TPO) a iodeto. A pendrina é uma proteína transmembrana apical que transporta sulfeto, cloreto, iodeto e bicarbonato. O iodeto é então incorporado pela porção heme da TPO, que na presença de peróxido de hidrogênio adiciona iodo nos resíduos de tirosina do Tg num processo chamado organificação (MIT) e a diiodotirosina (TIT). O TPO também forma a tiroxina (T4) agrupando duas moléculas de DIT e a 3,5,3’-triiodotirodina (T3) acoplando uma molécula MIT com uma molécula DIT. A reação catalisada pela TPO é inibida pelas drogas tionamídicas propiltiouracil (PTU) e metanizola (MMI) e pelas altas contrações de iodo (o efeito Wolff-Chaikoff). O produto intermediário da peroxidação do iodo pode ser o ácido hipoiódico (HIO2-) ou a iodina (I+). O peróxido de hidrogênio necessário é produzido pela NADPH oxidase. Em humanos normais e em ratos, mais de 90% radioiodina tridoidal é organifcada a iodotirosinas e iodotirodinas em minutos depois da entrada na tireoide. Com o consumo adequado de iodo a produção de T4 é favorecida. Entretanto, em estados de deficiência de iodo que levam a falência da tireoide, a síntese tireóidica de T3 é preferida com relação à síntese de T4. Por meio dessa autorregulação a tireoide produz a maior parte de seus hormônios ativos usando menos iodo. Por outro lado, o excesso crônico de iodo pode levar ao armazenamento excessivo do hormônio da tireoide. O efeito Wolff-Chaikoff, outro mecanismo regulatório intratireóidico é a chave para entender o potencial efeito agudo antitireoide de grandes quantidades de iodo ingerido. Mediado pela inibição da TPO o iodo diminui a taxa de sua própria organificação relativa ou absoluta. Esse efeito imunitário pode ser um mecanismo pelo qual o organismo é protegido de quantidades muito grandes de hormônio da tireoide seguido por um alto aporte de iodo na dieta. O iodo se mostrou capaz de inibir a atividade geradora de peróxido de hidrogênio dependente de cálcio e NADPH associado com a NADPH oxidase, um mecanismo encontradoem cães, porcos e humanos. A NADPH oxidase parece ser inibida por compostos iodados in vivo e provavelmente é uma enzima envolvida no mecanismo Wolff-Chaikoff. 12 UNIDADE I │ FISIOLOGIA TIREÓIDEA Secreção dos hormônios da tireoide A secreção dos hormônios da tireoide é iniciada assim que as células foliculares epiteliais absorvem as gotículas de coloide de tiroglobulina por um processo chamado pinocitose. Simultaneamente, lisossomos (contendo proteases e enzimas hidrolíticas) migram da região basal da célula e se fundem com gotículas de coloide. A degradação da tiroglobulina pelas enzimas proteolíticas lisossomais produz tanto as iodotirosina (MIT e DIT) quanto as iodotironinas (T4 e T3). Pouco do MIT e DIT liberados entram na circulação, porque o iodo é removido desses compostos por uma desiodase. Uma porção desse iodo é reciclada internamente para a iodinização de novos resíduos de tirosina em tiroglobulinas, mas em carnívoros, a maior parte da iodina é liberada na circulação. A reutilização tireóidica ineficiente do iodo pode ajudar a explicar as altas doses diárias necessárias em cães e gatos quando comparados a humanos. A proteólise de Tg libera grandes quantidades de T4, mas somente pequenas quantidades de T3, no citosol. As enzimas presentes dentro da tireoide, entretanto, podem deiodinizar T4 tanto para a forma T3 quanto para forma 3’,5’,3-T3 (T3 reversa), como resultado, embora a taxa T4:T3 armazenada na glândula seja de 12:1 na tireoide canina, a taxa de produto secretado é 4:1. As taxas de produção de hormônios da tireoide em cães são estimadas em 8µg/kg/dia para T4 e 0,8 a 1 µg/kg/dia para T3. Em gatos as taxas de produção de T4 são estimadas em 5,6µg/kg/dia para T4 e 0,4µg/kg/dia para T3. Essas taxas de produção são mais do que o dobro para T4 e do que o triplo para T3 em humanos. Eixo hipotálamo-hipófise-tireoide A tirotrofina (hormônio estimulador da tireoide, TSH), é uma glicoproteína produzida nos tireotrofos da pituitária anterior, tem efeito estimulatório, na síntese dos hormônios da tireoide em sua secreção. Além disso, o TSH estimula o crescimento da tireoide, provavelmente em conjunto com a ação “insulina-like” dos fatores de crescimento (IFG I e II). A tirotrofina tem um peso molecular de aproximadamente 30,00 Dalton consistindo em uma subunidade α idêntica, a subunidade de outros hormônios da pituitária como LH e FSH e uma subunidade β, que é específica da molécula de TSH. O TSH se liga a um receptor específico na membrana das células foliculares da tireoide e estimula a adenilato ciclase a produzir o AMP cíclico e a absorção ativa do iodo inorgânico. Os receptores de TSH em cães, gatos e humanos foram clonados e expressos em estudos recentes. O TSH também estimula a síntese de tiroglobulina e a sua liberação no coloide e a iodinização por meio da TPO. Como um passo final da liberação do hormônio no plasma, o TSH estimula a reabsorção de tiroglobulina e 13 FISIOLOGIA TIREÓIDEA │ UNIDADE I proteólise para liberação de T3 e T4. As enzimas deiodinizantes tireóidicas de T3 e T4 e de T3 reverso também são estimuladas pelo TSH. Figura 1. Representação de um tireócito e de toda a cascata de sinalização e reações enzimáticas necessárias para a síntese dos hormônios tireóideos. Fonte: Modificado de Williams Textbook of Endocrinology, 12a edição, 2011. Um estudo detalhado do eixo pituitária-hipotálamo-tireoide só é possível com um radioimunoensaio válido de TSH para cada espécie. A possibilidade do radioimunoensaio tem demonstrado que a maior parte das doses de reposição de L-tiroxina recomendada para cães são bem maiores do que aquelas necessárias para a supressão do TSH endógeno em um espectro normal. A disponibilidade atual desse tipo de ensaio, entretanto, não diferencia confiavelmente as concentrações normais das baixas para TSH, fazendo mais difícil confirmar uma superdose. O tripeptídeo TRH é produzido no núcleo paraventricular do hipotálamo e transportado para a pituitária anterior pelo sistema porta-hipofisário na haste da pituitária anterior. Na glândula pituitária, o TRH se liga a receptores específicos nas células tireotróficas e estimula a secreção de TSH. Em cães assim como em outras espécies o TRH também estimula a secreção de prolactina. O hormônio hipotalâmico somatostatina age inibindo a secreção de TRH e pode funcionar como um fator inibidor de tirotrofina Regulação por retroalimentação (feedback) negativo O efeito de feedback negativo dos hormônios da tireoide (nas formas livres) é o principal mecanismo de regulação de secreção de TSH. A estimulação crônica pelo 14 UNIDADE I │ FISIOLOGIA TIREÓIDEA TRH tem um papel permissivo na secreção de TSH. A célula tireotrófica da pituitária desioda completamente o T4 (derivado do plasma) a T3 que subsequentemente inibe a síntese de TSH e a secreção por meio da alteração da ligação no receptor nuclear, transcrição de mRNA e síntese da proteína. A D2 5’-deiodinase tipo 2 medeia a conversão intrapituitaria de T3 e T4, mas ao mesmo tempo o T4 inibe a atividade da D2 no nível pós-traducional reduzindo a meia vida da enzima através da ubiquitinação e degradação proteassomal subsequente. O D2 e o TSH são coexpressos nos tireotrofos, e o hipotireoidismo aumenta a expressão de D2 no tireotrofo. Por meio desses mecanismos, as concentrações intrapituitarias de T3 são mantidas estáveis quando a concentrações de T4 são muito maiores que o nível fisiológico. Como resultado, as concentrações de T4 e D2 mediadas pela produção de T3 correlacionam-se negativamente com a expressão de mRNA para TSH. O T4 circulante, absorvido pela pituitária é a fonte preferencial de T3 na pituitária, pelo menos em ratos. Em pacientes humanos com hipotireoidismo, a terapia de reposição hormonal com L- T4 normaliza as concentrações séricas de TSH somente quando os valores séricos de T4 são normais ou levemente altos; as concentrações séricas de T4 normalmente permanecem dentro de um espectro normal nesses pacientes. Também há evidências de que os hormônios da tireoide podem ter um efeito de feedback negativo direto no hipotálamo, inibindo a liberação de TRH. Além disso, o TSH e TRH podem ter um short-loop e um ultrashort-loop de efeito de feedback negativo respectivamente sobre o hipotálamo para inibir a liberação de TRH. Embora pulsos de secreção de TSH e um aumento no TSH sérico noturno tenha sido descrito em humanos (possivelmente resultando de uma queda das concentrações circulantes do hormônio circadiano cortisol), estudos falharam em demonstrar que há ritmo circadiano nas concentrações de hormônios da tireoide. A liberação pulsátil de TSH foi confirmada em cães com hipotireóidicos, mas não em cães eutireóideos. Figura 2. Representação esquemática do eixo hipotálamo-hipófise-tireoide. 15 FISIOLOGIA TIREÓIDEA │ UNIDADE I Metabolismo dos hormônios da tireoide Os hormônios da tireoide metabolicamente ativos são as iodotironinas L-tiroxina (L -T4) e 3,3,5’-L-triodotironina (L-T3). A tiroxina é o produto secretório principal de uma glândula tireoide normal. Entretanto o T3 que é de 3 a 10 vezes mais potente que o T4, assim como quantidades menores de 3,3’,5’-L-triiodotirodina (T3 reverso), um produto tiromimeticamente inativo, e outro metabolitos deiodinizados, também são secretados pela glândula tireoide da maior parte dos mamíferos. Embora todo o T4 seja secretado pela tireoide, uma quantidade considerável (de 40% a 50% em cães) de T3 é derivado da 5’-deionização enzimática extratireóidica de T4. Portanto, embora ele também tenha uma atividade metabólica intrínseca, o T4 tem sido chamado de pró-hormônio e sua ativação à forma mais potente T3 é um passo regulado individualmente pelos tecidos periféricos. A vasta maioria, aproximadamente 90% do T3 reverso (rT3) é derivado de fontes extratireódicas em cães. Tipos e Regulação de Enzimas Deiodinases A identificação de três tipos específicos de deiodinases sublinhou a importância da produçãode T3 em tecidos individuais a partir do T4. O tipo 1 5’-D (D1) é encontrado na maior parte dos tecidos, mas ele tem maior atividade no fígado, rins, músculos e glândula tireoide. Essa enzima é atualmente conhecida por ser uma selenoenzima, requerendo quantidades pequenas de selênio para sua atividade ótima. O músculo, embora tenha baixa atividade enzimática, pode produzir uma quantidade significativa (aproximadamente 60% em ratos) de T3 corporal por causa de sua massa. O papel fisiológico de D1 é a provisão do T3 circulante durante condições de hipotireoidismo. Essa enzima é capaz de deiodinizar fora e dentro do anel e pode deiodinizar T4 com alta capacidade, sendo sensível ao agente antitireóidico tionamida, propiltiouracil (PTU). O tipo 2 5’-D (D2) é encontrado no SNC, pituitária, gordura marrom e placenta e o seu papel fisiológico é a provisão intracelular de T3. O seu papel na contribuição de T3 pode aumentar com o hipotireoidismo primário. A enzima age sobre o T4 e outros compostos com iodo na porção de fora do anel orgânico em concentrações dentro do espectro fisiológico e é resistente ao PTU. A deiodinase tipo 3 (D3), que é uma 5-deiodinase, remove somente iodo da porção interna do anel. A D3 está presente na placenta, pele, cérebro e fígado fetais. Seu papel fisiológico é a inativação do T4 e T3 por meio da deiodinização intra-anel, com preferência pelo T3 como substrato (Figura 3). É importante para entender a relação da terapia de L-tiroxina no hipotireoidismo, o hipotireoidismo reduz drasticamente a atividade de D1 e D3 enquanto aumenta a atividade de D2. Por meio desse tipo de regulação, o cérebro pode continuar a obter 16 UNIDADE I │ FISIOLOGIA TIREÓIDEA níveis adequados de T3 celular necessários para prevenir o delay neurológico resultado da deficiência de T4, enquanto o fígado reduz a produção de T3, dessa forma elevando a diminuição sistêmica do metabolismo. É interessante notar que, em roedores, D1 e D3 aumentam no hipotireoidismo, resultando em taxas de reprodução e degradação aumentada pra T3. Figura 3. Representação esquemática do metabolismo dos hormônios tireóideos via desiodases. Fonte: Bianco et al., 2002. As características de D1 e D2 foram analisadas em cães, gatos e gado. Em gatos, D1 renal e hepática mostrou-se importante para metabolizar T4 com Vmax e Km similar ao da enzima em ratos, mas a habilidade da enzima de degradar rT3 foi de somente 0,2% da taxa em ratos. A enzima D1 não foi identificada na tireoide de gatos, diferentemente de ratos, cães e humanos. Essas diferenças implicariam que a D1 não metaboliza rT3 em condições fisiológicas. Entretanto o mRNA da D1 muscular é estimulado pelo tratamento com T3 em gatos magros, como visto na maior parte das espécies. A D2 foi identificada em queratinócitos de humanos e também na pele de cães. Estudos anteriores indicaram diferenças importantes na especificidade catalítica de D1 entre cães e humanos, em particular com respeito a 5’-deiodinização de rT3. Enquanto D1 e D2 são encontrados na fração microssomal da célula, D3 parece ser uma proteína de membrana plasmática, posicionando-se bem para inativar tanto o excesso de T4 e T3 17 FISIOLOGIA TIREÓIDEA │ UNIDADE I no tecido. O processo de deiodinização continua até que os íons de iodo remanescentes tenham sido completamente retirados do núcleo do hormônio, dessa forma permitindo a reciclagem de iodo para a ressintese do hormônio. Esses produtos metabólicos posteriores não tem atividade tiromimética. Está se acumulando evidências de que o rT3 pode ter um papel importante na regulação da atividade tireóidica do T4 e T3 no sistema nervoso central. Uma parte das doenças não tireóidicas e de drogas que podem afetar a regulação tecidual da deiodinização do hormônio da tireoide. Outras vias de metabolismo dos hormônios da tireoide incluem, conjugação com a forma solúvel de glicoronidas e sulfatos para a excreção biliar e urinária assim como a clivagem do éter de ligação da molécula de iodotironina. Com a administração oral de preparações de hormônios da tireoide, o efeito de first-pass deve ser considerado, uma vez que uma grande quantidade do hormônio pode ser conjugado e secretado com a bile, podendo então ser desconjugado e absorvido por bactérias no intestino grosso, ou eliminado nas fezes. O pool intestinal dos hormônios da tireoide normalmente é muito grande. Em cães, aproximadamente 50% do T4 e 30% do T3 produzido todos os dias são perdidos nas fezes. Tanto em cães quanto em gatos, os estoques extratireóidicos de T4 são eliminados e substituídos em 1 dia, e duas vezes por dia para T3. Esse desperdício fecal é responsável, em parte, pelas doses de reposição mais altas (diariamente) de hormônio da tireoide, necessárias em cães e gatos. Com a administração das doses recomendadas de L- T4 o TSH sérico parece ser suprimido por pelo menos 24h. Entretanto, é a impressão clínica de alguns especialistas que a divisão das doses de T4 diárias pode ser um mecanismo de reduzir a perda pelo efeito de primeira passagem hepática resultando numa resposta clínica mais consistente. Ligação plasmática ao hormônio da tireoide Os hormônios da tireoide são hidrossolúveis e lipofílicos. A solubilidade no plasma depende da ligação a proteínas de ligação específicas, proteínas de ligação a tiroxina (TBG) e a transtiretina (TTR) ou a pré-albumina de ligação a tiroxina (TBPA) assim como a albumina por si só. As proteínas de ligação aos hormônios da tireoide propiciam um reservatório hormonal no plasma e a aceleração na entrega do hormônio ao tecido. A TTR e, possivelmente, a albumina também podem servir como carreadores intermediários para a absorção em tecidos específicos. Os cães têm proteínas de ligação a hormônios da tireoide de alta afinidade comparados a TBG em humanos, mas as concentrações plasmáticas de TBG em cães são 25% o valor das concentrações em 18 UNIDADE I │ FISIOLOGIA TIREÓIDEA humanos. Além do TBG, o TBPA e a albumina, o T4 circulante canino parece se ligar a certas proteínas lipoproteicas, essas incluem HDL e LDL. Em concentrações normais de T4 sérico em cães, aproximadamente 60% do T4 se liga ao TBG, 17% se liga TDPA, 12% a albumina e 11% ao HDL. A globulina de ligação a tiroxina em cães não se satura até que a concentração total de T4 seja 6 vezes maior que a concentração normal, enquanto outras proteínas séricas são virtualmente insaturáveis. Gatos parecem não ter proteínas de ligação a hormônios da tireoide de grande afinidade (como TBG), mas tem somente TTR e albumina sérica para se ligar a hormônios da tireoide. Parcialmente como resultado de proteínas de ligação de menos afinidade, as concentrações totais de T4 são menores, a fração circulante de T4 é maior e o metabolismo é mais rápido. Absorção do hormônio da tireoide pelos tecidos: a hipótese free hormone A hipótese free hormone proposta por Robbins e Roll há cinco décadas (1960) e confirmada por Mendel (1982) afirma que é a fração livre do hormônio que está disponível aos tecidos e, portanto, proporcional a ação, metabolismo e eliminação desse hormônio. Essa hipótese permaneceu sendo testada em clínicas durante muito tempo, medidas diretas e indiretas de concentração de T4 livre tem sido a base de diagnósticos de doenças na tireoide na Medicina Humana. Também há forte evidência de que certos tipos celulares transportam ou permutam ativamente o hormônio do plasma para o citosol. A presença de uma proteína de membrana específica para o hormônio da tireoide certamente reflete o preço que a célula está disposta a pagar para facilitar a entrada e, possivelmente, a concentração do hormônio da tireoide. Entretanto, alguns pesquisadores argumentam que proteínas de ligação sérica, particularmente a albumina e TTR podem servir para distribuir o hormônio para tecidos específicos. A TTR serve para se ligar tanto aos hormônios da tireoide quanto aos ácidos retinoicos na circulação. Amaior parte das teorias de permuta do hormônio da tireoide tem apontado que o papel desempenhado por um reservatório passivo com proteínas de ligação de hormônios da tireoide no citoplasma (CTPB); as proteínas que retém os hormônios da tireoide num estado permanentemente ligado dentro da célula. Pouco se sabe sobre a regulação dessas proteínas, que são muitas vezes chamadas de albuminas intracelulares por causa de sua pequena especificidade, pequena afinidade e alta capacidade. Entretanto, no citosol renal, a finidade da CTBP pode ser agudamente regulada pelo potencial redox celular, aumentando quando os níveis de NADPH estão altos. 19 FISIOLOGIA TIREÓIDEA │ UNIDADE I Independente dos mecanismos, as seguintes observações clínicas devem ser reconhecidas: » A correlação linear entre as concentrações séricas de T4 livre, a taxa de degradação hormonal e a taxa de metabolismo basal em humanos. » A correlação inversa entre concentrações séricas de T4 livre e a distribuição do volume corporal de T4, que existe em todos os pacientes independente do estado da tireoide. » A correlação positiva entre concentrações de T4 livre profundidas in vitro no órgão e a absorção tecidual de T4 e produção T3 in vivo e in vitro. A maior parte dos pesquisadores concorda que o status quo das concentrações do hormônio é o que move o metabolismo e a ação dos hormônios da tireoide. No cão ou gato eutireóideo saudável, aproximadamente 0,1% das concentrações séricas correspondem ao T4 livre, ao passo que 1% do T3 circulante está livre. A proporção de hormônios pode mudar em resposta a administração de drogas ou doenças. Por exemplo, em gatos obesos, ácidos graxos livres competem pela ligação com os hormônios, resultando num aumento das concentrações séricas de T4 e podem ter efeitos similares à competição de ligação celular, levando a uma forma de resistência a hormônios da tireoide por feedback negativo, manifestado pelo aumento no T4 total. Entretanto, tudo indica que o estado da tireoide desses animais não muda, uma vez que os níveis absolutos das concentrações séricas de T4 livre tendem a retornar rapidamente ao espectro normal ou permanecer relativamente constante. A maior parte das evidências sugere que a absorção de hormônios pela tireoide é proporcional à fração livre do hormônio circulante, mas não limitada por ela. Aproximadamente 50 a 60% do T4 corporal e 90 a 95% do T3 corporal estão localizados em compartimentos intracelulares. Alguns órgãos, particularmente o fígado e os rins, podem estocar hormônios da tireoide e permutá-los com o plasma. Em humanos, aproximadamente 50% do T4 intracelular está nesses tecidos de equilíbrio rápido (fígado e rins), ao passo que somente 3% do T3 intracelular está nesses tecidos. Aproximadamente 80% de todo T3 extratireóidico está localizado nos tecidos de equilíbrio lento (músculos, pele) enquanto somente 20% do T4 intracelular está nesses compartimentos. Como resultado, a maior parte do T4 está localizada no plasma, fluído intersticial, fígado e rins. A maior parte do T3 extratireóidico está nos músculos e na pele, e em uma forma conjugada no trato intestinal. Para o diagnóstico e tratamento de doenças da tireoide, a relação entre o tecido específico das deiodinases e subtipos de receptores TR sugerem que a determinação do estado da tireoide deve ser estabelecida com a avaliação separada de cada tecido. 20 UNIDADE I │ FISIOLOGIA TIREÓIDEA Taxas de clearance metabólico A meia-vida do T4 em cães foi estimada em 8 horas, 11 horas em gato e 7 dias em humanos. Similarmente a meia vida do T3 plasmático em cães foi estimada em 5-6 horas, e 24-36 horas em humanos. Estudos em gatos normais indicam que a meia vida plasmática de T3 e T4 são similares a dos cães. Apesar dessas taxas de clearance plasmático, o efeito supressivo da secreção de TSH da pituitária. 21 CAPÍTULO 2 Efeitos fisiológicos e farmacológicos do hormônio da tireoide Os hormônios da tireoide em quantidades fisiológicas são anabólicos. Trabalhando em conjunto com o hormônio do crescimento e insulina, estimulam a síntese de proteínas e redução da excreção de nitrogênio. Entretanto, em excesso (hipertireoidismo), podem ser catabióticos, aumentando a gliconeogênese, o metabolismo de proteínas e a excreção de nitrogênio. Termogênese e termorregulação Os hormônios da tireoide aumentam muito a quantidade de calor produzido, estimulando a atividade da Na+/K+-ATPase em todos os tecidos, exceto no cérebro, baço e testículos. Por isso, admite-se que esses hormônios determinam a taxa metabólica basal no animal. Os resultados no desenvolvimento de retardo mental, letargia e indisposição ao exercício, estão associados com hipotermia e tendência a procurar calor. A administração diária de 0,022mg/kg é suficiente para normalizar o estado metabólico em cães com calorimetria indireta, com melhora ou desaparecimento total dos sintomas clínicos em 93% dos cães. Essa dose também se mostrou suficiente para suprimir os valores de TSH a níveis indetectáveis na maior parte dos cães cuja tiroide foi removida. Efeitos de maturação e crescimento O feto obtém o hormônio da tireoide de fontes maternas durante a primeira metade da gestação em mamíferos. Depois disso, a tireoide fetal amadurece e secreta hormônios cruciais para o crescimento e amadurecimento do esqueleto e do sistema nervoso central. Portanto, além de sinais bem claros de hipotireoidismo no começo da vida adulta, o nanismo desproporcional e doença mental são sinais proeminentes de hipotireoidismo congênito ou de começo precoce. O aumento da glândula tireoide (bócio) também é muito observado. Filhotes de cães, gatos e potros com essa condição são menos ativos e podem ter pouco apetite. Em exames neurológicos, esses animais são fracos, hiporreflexivos ou hiperreflexivos (se há tremor muscular ou espasmos), e podem não ter propriopercepção. Também há sinais radiográficos de epífise diminuída, corpos vertebrais diminuídos e fechamento epifisário atrasado. 22 UNIDADE I │ FISIOLOGIA TIREÓIDEA Efeitos no metabolismo de carboidratos e lipídeos Os hormônios da tireoide aumentam a gliconeogênese e a glicogenólise, contribuindo para as propriedades do seu antagonista, a insulina. A síntese e degradação de colesterol aumentam sobre a ação dos hormônios da tireoide e também pelo aumento nos receptores de LDL. Portanto, a hipercolesterolemia é um achado comum em hipotireoidismo. Os hormônios da tireoide estimulam a lipólise liberando ácidos graxos não esterificados e glicerol. A obesidade pode se desenvolver em alguns animais hipotireóidicos mesmo em caso de apetite e consumo calórico normais. Num estudo com gatos magros e obesos, a administração de T3 aumentou a produção de calor e as concentrações de ácidos graxos não esterificados. Efeitos dermatológicos Os hormônios da tireoide em quantidades fisiológicas são necessários para a troca de pelo e pele. A insuficiência da tireoide resulta no aumento da porcentagem de folículos capilares inativos, produção de sebo e queratina. A secura do pelo, a queda excessiva e recrescimento retardado são sinais precoces de hipotireoidismo em cães. A alopecia, presente em dois terços dos cães afetados, é normalmente bilateral e simétrica em sua distribuição, e é mais óbvia em pontos de fricção (pescoço, axilas, etc.), mas também é comum na área perianal e no dorso do focinho. O espessamento da pele e o desenvolvimento de mixedema relacionados podem acontecer. O mixedema é mais proeminente nas feições faciais, e podem tomar uma aparência trágica. Efeitos cardiovasculares Os principais efeitos cardiovasculares dos hormônios da tireoide são: » efeito inotrópico positivo direto, » a estimulação da hipertrofia miocárdica e » aumento na responsividade a estimulação adrenérgica. Os hormônios da tireoide aumentam a atividade sarcolemal da Na+/K+-ATPase e favorecem a transcrição de uma ATPase de miosina cardíaca aumentando a contractilidadecardíaca. Além disso, a contractilidade cardíaca é aumentada pelo aumento da quantidade de canais de cálcio e aumento do aporte e liberação de cálcio no retículo sarcoplasmático. Os hormônios da tireoide aumentam a quantidade de 23 FISIOLOGIA TIREÓIDEA │ UNIDADE I receptores β adrenérgicos no coração, músculos esqueléticos, tecido adiposo e linfócitos. No hipertireoidismo, a taquicardia geralmente resulta desse mecanismo. Os hormônios da tireoide também diminuem a quantidade de receptores α adrenérgicos nos tecidos vasculares, no hipotireoidismo a sensibilidade a catecolaminas nos vasos periféricos é aumentada e pode levar a hipotermia periférica. Em cães, o hipotireoidismo é diagnosticado com um ECG, pois evidencia a disfunção ventricular esquerda baseada em ecografia cardíaca e ecocardiograma. O tratamento deve ser feito com uma dose de reposição de T4 (0,5mg/m2 q 12h) por dois meses. Efeitos neuromusculares Os hormônios da tireoide estimulam a síntese de muitas proteínas associadas com a atividade músculo/nervo normal. Por exemplo, a Na+/K+-ATPase do nervo e algumas formas da ATPase de miosina no músculo são estimuladas pelo hormônio da tireoide. Miopatias têm sido associadas com a tireoide em animais domésticos. A fraqueza muscular severa e reflexos lentos podem ser sintomas clínicos de hipotireoidismo. Fraqueza dos músculos faciais atribuídas à paralisia do nervo craniano VII também podem ser observadas em cães. Efeitos gastrointestinais Estudos com cães hipotireóidicos demonstrou diminuição da atividade motora e elétrica do trato gastrointestinal. Embora cães com hipotireoide, normalmente, tenham movimentos intestinais normais, constipação e diarreia também foram observados. Efeitos reprodutivos As concentrações de hormônios da tireoide parecem ser importantes para o ciclo reprodutivo normal de mamíferos. O hipotireoidismo tem sido associado com várias doenças reprodutivas em cães e cavalos. A galactorreia é um sinal raro de hipotireoidismo em algumas cadelas virgens cujas mamas foram estimuladas para a lactação. A hiperprolactinemia, talvez resultando da estimulação excessiva das células produtoras de prolactina pelo TRH, parece ser a causa de galactorreia associada ao hipotireoidismo em fêmeas. A falta de libido, atrofia testicular, hipoespermia e infertilidade aparecem em cães machos com hipotireoidismo. 24 UNIDADE I │ FISIOLOGIA TIREÓIDEA Efeitos imunológicos Qualquer cão com infecções recorrentes, particularmente de pele, deve ser examinado para hipotireoidismo. Pioderma que é irresponsiva ou temporariamente responsiva a agentes antibacterianos apropriados, pode ser exacerbada pela redução da função fagocítica das células brancas em hipotireoidismo. Efeitos hematológicos A demanda celular de oxigênio aumentada pelo hormônio da tireoide leva a produção aumentada de eritropoietina e células vermelhas pela medula óssea. Os hormônios da tireoide também aumentam o conteúdo de eritrócitos permitindo a dissociação aumentada da hemoglobina e aumento da disponibilidade para os tecidos. Efeitos endócrinos Os hormônios da tiroide influenciam a secreção normal e o metabolismo de vários hormônios e xenobióticos. A secreção de hormônio do crescimento, gonadotrofinas e cortisol são estimulados pelos hormônios da tireoide, e a secreção de prolactina é inibida. 25 CAPÍTULO 3 Preparações e drogas antitireoidianas As preparações de hormônio da tireoide podem ser classificadas em distintos grupos: hormônios orgânicos preparados de uma glândula tireoide normal; L-tiroxina sintética; L-triiodotironina sintética e combinações de T4 e T3. As preparações disponíveis e espectro de doses estão disponíveis na tabela dessa seção. Produtos tireóidicos orgânicos Os hormônios da tireoide derivados do tecido glandular tireóidico de ovelhas e vacas estão disponíveis na forma de tiroglobulina. Há boas razões para usar esse produto para terapia de reposição hormonal em animais de pequeno porte; devido ao seu custo pequeno, contudo, o seu uso também é indicado para animais de grande porte. Os problemas com os produtos da tireoide dissecada são uma quantidade altamente variável de T4 e T3, baixas taxas T4 e T3 e validade curta; essas contraindicações fazem o produto ficar mais barato. L-tiroxina sintética A tiroxina (L- T4) é o hormônio de reposição de tiroide mais escolhido para todas as espécies. Geralmente, é preparado usando uma solução de levotiroxina de sódio para administração oral. Formas injetáveis também estão disponíveis. Controle de qualidade de produtos de hormônios da tireoide Em 1982, a U.S Pharmacoeia (USP) adotou um novo método para ensaio de conteúdo hormonal em preparações de hormônio da tireoide. As determinações antigas, menos precisas, baseadas no conteúdo de iodo foram substituídas por cromatografia líquida de alta pressão (HPLC). Inicialmente, estudos de preparações de L-tiroxina genérica mostraram que o conteúdo hormonal de algumas pílulas genéricas podem ser de 30% da quantidade anunciada na embalagem. Os problemas com o conteúdo hormonal variável têm sido extensamente tratados por novos estudos. Entretanto, não é seguro assumir que a biodisponibilidade relativa de preparações de hormônios da tireoide é equivalente a outra. Portanto, quando começando uma terapia de reposição de hormônio da tireoide, é recomendado começar com um produto genérico com o qual 26 UNIDADE I │ FISIOLOGIA TIREÓIDEA uma experiência positiva já tenha sido obtida, com observação de resposta clínica evidente. Se não houver resposta depois de uma dose razoável em um período de 4-6 semanas, e as concentrações séricas de T4 forem restabelecidas depois da administração, o diagnóstico deve ser reavaliado. Exceto no caso de razões financeiras, não há muita preocupação com superdosagem na reposição, uma vez que cães (assim como gatos) são muito resistente ao desenvolvimento de sinais de tirotoxicidade, requerendo de 10 a 20 vezes a dose de reposição cronicamente para demonstrar esses sinais. Esse é possivelmente o resultando da capacidade de cães e gatos de excretar o hormônio da tireoide na bile e nas fezes. Considerações de dose para L-tiroxina A terapia de reposição do hormônio da tireoide é quase sempre indicada para postergar a vida de cães. Entretanto, um diagnóstico inicial cuidadoso e tratamentos de preparação são essenciais. Uma variedade de regimes de dose para terapia de T4 é recomendada. Isso provavelmente reflete a variedade entre animais com relação à absorção e metabolismo hormonal; o grau de variação da secreção endógena remanescente pela tireoide caduca os efeitos possíveis dos anticorpos anti-T4 circulantes em alguns animais, a resistência ao desenvolvimento de tirotoxicidade em cães e o critério vago ou variável pelo qual a melhora do animal é avaliada. Com o advento do ensaio de TSH canino, análises objetivas da resposta corporal (pelo menos da pituitária) à reposição hormonal exógena estão agora disponíveis e são rotineiramente usadas para monitorar pacientes humanos com hipotireoidismo. Em um estudo recente, as concentrações séricas de TSH foram suprimidas a níveis indetectáveis por 0,02mg/kg ou menos de L-T4 uma vez por dia. Além dos efeitos já mencionados da terapia de reposição sobre o metabolismo do hormônio, altas doses de T4 parecem ser necessárias em humanos hipotireóidicos durante os meses mais frios do inferno. Embora estudos similares não tenham sido realizados com animais, variações sazonais significantes têm sido vistas em cães no Alasca. É possível que uma animal criado fora de casa possa precisar de doses maiores que um animal caseiro, particularmente durante os meses mais frios. Em cães e em humanos as concentrações séricas basais de T4 diminuem com a díade. Foi observado em humanos, que pacientes hipotireóidicos mais velhos precisam de doses menores e são mais aptos a efeitos colaterais de tirotoxicidade. Dosagens de levotiroxina para cães Baseado em um estudo dosisotrópicos cinéticos, a L-tiroxina é degrada a uma taxa de 7µg/kg/dia em cães. Em geral, as doses recomendadas para a reposição de T4 variam de uma dose total de 0,02 -0,04 mg/kg diário. Baseado nessa evidência indireta de estudos 27 FISIOLOGIA TIREÓIDEA │ UNIDADE I ainda não publicados pelo autor de “biodisponibilidade de levotiroxina comercial” a fração de absorção oral dos produtos de L-T4 pode variar de 10 a 50% com média de 35% (FERGUSON; ROENIG, 1997) em parte explicando a variação da dose oral necessária para conseguir um eutireoidismo clínico. Portanto, se a taxa de produção de T4 é de 7 µg/kg/dia e a média de disponibilidade de 35%, uma dose total de 20µg/kg ou 0,02mg/ kg é recomendada. Com o começo da terapia de reposição de hormônios da tireoide, uma prática comum é dividir a dose diária em duas doses separadas, dadas em intervalos de 12 horas. Por causa da capacidade intracelular significativa para armazenamento de T4, particularmente em pool de troca rápida como fígado e rins, as doses orais de T4 podem ser substancialmente distribuídas e armazenadas em compartimentos corporais. Como visto anteriormente, o hipotireoidismo reduz a taxa de conjugação e deiodização do metabolismo do hormônio da tireoide, a divisão da dose diária reduz os efeitos metabólicos em tecidos hipotireóidicos e diminui o efeito “one-pass”. Em ratos, o compartimento mais amplo para o hormônio da tireoide é o trato gastrointestinal. Durante os primeiros dias ou semanas da terapia em um animal hipotireóidico, os depósitos hormonais do fígado e rins são restabelecidos a níveis eutireóidicos. E podem servir como tampões para as concentrações séricas quando as proteínas de ligação ao hormônio circulante começam a diminuir. O resultado clínico é que muitos animais hipotireóidicos podem ser mantidos a uma terapia de doses de uma vez por dia de T4. Embora as concentrações de T4 possam ser altas durante um momento do dia e baixas em outro, a resposta tecidual integra as concentrações séricas ao longo do dia, portanto, refletindo a concentração média. Em um animal que já respondeu a terapia de duas vezes por dia, o reaparecimento de sinais clínicos pode ser o sinal de que se deve retornar ao regime de duas doses por dia. Uma vez que o metabolismo dos hormônios da tireoide muda com a correção do hipotireoidismo, os regimes de doses devem ser reavaliados por critérios clínicos e laboratoriais depois de 4 semanas de terapia. Dosagens de levotiroxina para gatos Assim como em cães, o tratamento para o hipotireoidismo felino é a administração diária de l-tiroxina, usando uma dose inicial de 0,1-0,2mg/dia. Essa dose deve ser ajustada a todo tempo com base na resposta ao tratamento e avaliações séricas de T4. É esperado que os sintomas despareçam completamente em gatos com hipotireoidismo de começo tardio. Entretanto, a debilidade mental e nanismo que se desenvolvem em filhotes de gato com hipotireoidismo perduram devido à demora no diagnóstico. 28 UNIDADE I │ FISIOLOGIA TIREÓIDEA Dosagens de levotiroxina para cavalos Há pouca informação publicada estabelecendo critérios terapêuticos para doses de levotiroxina para cavalos. A dose oral recomendada clinicamente parece depender muito da forma do hormônio (orgânico versus sintético) usado para terapia de reposição. L-triiodotironina sintética Embora o T3 seja um hormônio celular ativo, há algumas razões válidas para usar esse produto na terapia de reposição e algumas boas razões para não usá-lo. A terapia de T3 não é fisiológica, já que ele pula o passo regulatório celular final da 5’-deiodinização de T4. A tiroxina tem alguma atividade tiromimética intrínseca. Seu papel é particularmente importante no SNC e na glândula pituitária, tecidos nos quais a normalização intracelular de T3 depende da normalização dos níveis séricos de T3 e T4. O tratamento com T3 pode prover quantidades suficientes para órgãos como fígado, rins e coração que derivam uma alta proporção de T3 do plasma. Entretanto o cérebro e a pituitária que derivam a maior parte do seu T3 do T4 intracelular podem ficar deficientes de hormônios da tireoide. Por outro lado, a terapia de T3 adequada para o cérebro e pituitária pode ser excessiva para o fígado, rins e coração. A terapia de T3 pode ser indicada quando a reposição de tireoide é necessária, com a administração concomitante de drogas como glicocorticoides que inibem a conversão de T4 a T3. Drogas antitireóidicas Goitrogenos Com o isolamento e purificação da enzima TPO da tireoide, se tornou claro que a maior parte dos compostos com atividades antitireóidica são inibidores da ação da TPO. Plantas do gênero brassica contêm um composto chamado goitrina, que tem atividade antitireóidica. Além disso, plantas como brócolis têm produtos que são metabolizados a tiocianato, um inibidor do aporte e organificação do iodo inorgânico na glândula. Estudos levantaram questões sobre o potencial goitrogênico de substâncias ambientais como hidrocarbonetos poli halogênicos (PHAHs). Os PHAHs tem um potencial particular para serem retidos em gatos com atividade pequena da glucoronil transferase. 29 FISIOLOGIA TIREÓIDEA │ UNIDADE I Tiorelenenos e tionamidas Drogas antitireóidicas tiorelenicas e tionamidicas agem como inibidores diretos da TPO levando a redução da organificação e passos de acoplamento da síntese do hormônio da tireoide, por meio de dois mecanismos: 1. bloqueando a incorporação de iodo nos grupos triosil da tireoglobulina e 2. prevenindo o acoplamento de grupos iodotirosil. Os processos 1 e 2 são mediados pela inibição da TPO. As drogas tiaminicas antitireóidicas não interferem com a habilidade da glândula de concentrar ou aprisionar o iodo inorgânico; não interferem com a habilidade de secretar o hormônio da tireoide e não danificam o tecido glandular. Propiltioracil O propiltiouracil PTU é um inibidor da D1 e da TPO. Apesar de seus efeitos terapêuticos adicionais aparentes, o uso do PTU não é mais recomendado por causa do seu grande potencial para efeitos colaterais. Pode causar anorexia, vômito e letargia. Também tem sido associado ao desenvolvimento de doenças autoimunes como anemia hemolítica e trombocitopenia imuno-dependente. Devido às duas últimas complicações que são um problema particular em animais que estão sendo preparados para cirurgia, o uso rotineiro do PTU não pode ser mais recomendado em gatos hipertireódicos. Metimazol O metimazol é o antitireóidico de escolha para gatos. O uso dessa droga em gatos foi bem documentado em um estudo de 20 anos, nesse estudo, doses de 5mg foram aplicadas, reduzindo as concentrações de T4 em duas a três semanas. As doses mais comuns começam com 2,5mg uma ou duas vezes por dia. Como mencionado, mesmo gatos com baixos níveis de T4 podem não se tornar hipotireóidicos porque as concentrações de T3 permanecem normais. A escolha do regime de dosagem uma vez por dia tem mostrado maior vantagem de evolução de tratamento. Farmacocinética e Farmacodinâmica do metimazol Em gatos eutireóidicos, a meia vida sérica do metimazol varia de 4-6 horas seguindo a injeção IV. Vários estudos em gatos eutireóidicos e gatos normais mostram a biodisponibilidade variando em trono de 80% com grande variedade na biodisponibilidade entre os animais. Estudos em humanos hipertireóidicos mostraram 30 UNIDADE I │ FISIOLOGIA TIREÓIDEA que a droga tem um tempo de resistência intratireoidal de aproximadamente 20 horas, que é quase quatro vezes maior que a meia vida sérica. Uma vez que as drogas antitireoide agem para inibir a síntese dos hormônios somente depois que estão localizadas no interior da tireoide, a meia vida sérica dessas drogas pode ser menos importante do que as concentrações intratireoidais para o controle do estado hipertireóidico. Efeitos colaterais do metimazol O metimazol tem sido associado com os seguintes efeitos colaterais: anorexia, vômito, letargia, escarificações, sangramento, hepatopatia, trombocitopenia,granulocitose, leucopenia, eosinofilia e linfocitose. Opções médicas às drogas tionamídicas Quando gatos têm reações colaterais às drogas tionamídicas, se a reação for gastrointestinal, a redução da dose ou a conversão para carbimazol ou terapia transdermal reduzem os efeitos. Entretanto, se a reação for alérgica, a classe de drogas antitireóidicas deve ser mudada. O PTU, assim como drogas de estrutura similar, não deve ser considerado como opção, a terapia com metamizol também não deve ser considerada. Contraste de Iodo Na Medicina Humana, um agente de radiocontraste de iodo tem sido usado como drogas antitireóidicas. Esses agentes têm vários mecanismos de ação: » Liberação do iodo que pode temporariamente suprimir a secreção da tireoide por meio do efeito de Wolff-Chaikof. » Inibição direta das enzimas D1 e D2 reduzindo a produção de mais T3 bioativo. » Inibição do aporte e/ou ligação ao receptor nuclear de T3. Terapia com iodo radioativo Embora somente disponível em centros de referência, a terapia com iodo radioativo é o mais efetivo e seletivo para curar o bócio em gatos, porque seletivamente destrói o tecido funcional da tireoide depois de ser absorvido e incorporado em percussores dos hormônios da tireoide na glândula. Raramente, se é que acontece, ocorrem danos 31 FISIOLOGIA TIREÓIDEA │ UNIDADE I ao tecido circundante, responsável por regular o cálcio sérico por meio da secreção do hormônio da paratireoide e calcitonina. O I-131 tem meia vida de 8 dias e produz radiação beta e gama. As partículas beta têm comprimento de onda curto e servem para destruir o tecido local. O raioiodo também é usado em doses maiores para destruir adenocarcinomas na tireoide de gatos e cães. Seguindo a dose terapêutica de iodo radioativo (geralmente de 1,5 mCi), as concentrações séricas de T3 e T4 normalizam dentro de uma semana. A maior desvantagem da terapia com iodo radioativo é que certas precauções de segurança devem ser adotadas. A radioiodina é secretada na saliva, e excretada na urina e fezes. Portanto, a manipulação dos pelos ou dos dejetos de gatos pode resultar em contaminação. Apesar dessas desvantagens, a terapia com iodoradioativo é o método de cura menos invasiva para bócio bilateral. 32 UNIDADE IIDISFUNÇÃO TIREÓIDEA I CAPÍTULO 1 Hipotireoidismo em animais jovens A presença de hormônios tireoideos nas primeiras fases da vida é crucial para o crescimento e desenvolvimento de todos os tecidos corpóreos e, particularmente, do esqueleto (SAUNDERS; JEZYK, 1991). Por isso, o nanismo desproporcional pode ser um sinal proeminente de início de hipotireoidismo congênito ou juvenil, em adição aos sinais também vistos no início do hipotireoidismo adulto. Para aprofundamento das discussões, leia o artigo “Endocrine mechanisms of intrauterine programming”, disponível em: . (FOWDEN; FORHEAD, 2004) Hipotireoidismo juvenil adquirido A deficiência de iodo é uma causa clássica de hipotireoidismo juvenil adquirido, que ocorre quando os proprietários obtêm uma noção errada sobre o carnivorismo de cães e gatos, uma dieta apenas contendo carne é deficiente em vários aspectos e, certamente, em iodo. A ausência desse ingrediente essencial para a síntese dos hormônios tireóideos resulta em uma hiperplasia tireoidiana induzida por TSH. Em deficiências moderadas o aumento na capacidade da produção do hormônio compensa suficientemente e o eutireoidismo é mantido. Entretanto, em deficiências severas de iodo existe uma produção insuficiente de hormônio tireoidiano apesar da hiperplasia tireóidea compensatória. Animais com deficiência de iodo severa apresentam uma combinação de um grande bócio e sinais de hipotireoidismo tais como lentidão e retardo no crescimento (NUTTAL, 1986; RIJNBERK, 1996). Entretanto, tal afecção não é mais largamente vista em países onde é usual a alimentação com dietas manufaturadas, que são ricas em iodo. 33 DISFUNÇÃO TIREÓIDEA I │ UNIDADE II Antibióticos de sulfonamidas são conhecidos por inibir a enzima tireoperoxidase de forma reversível, dose e tempo-dependente (DOERGE; DECKER, 1994; ALTHOLTZ et al., 2006). Há relatos de cães onde o tratamento com sulfonamidas por várias semanas levou não apenas à redução das concentrações plasmáticas de T4, mas também à manifestações clínicas de hipotireoidismo. Particularmente em cães jovens, o aumento na secreção de TSH (via retroalimentação negativa) pode resultar em lobos tireóideos palpáveis (GOOKIN et al., 1999; SEELIG et al., 2008). Além disso, a tireoidite linfocítica é uma outra causa de hipotireoidismo juvenil adquirido, porém mais rara, que foi observada em uma linhagem de uma colônia de gatos fechada, com sintomas como letargia e uma pelagem dupla aparente nos indivíduos com 7 semanas de idade (SCHUMM-DRAEGER et al., 1996). A tireoidite linfocítica é a causa mais comum para o hipotireoidismo primário em cães adultos. O processo de destruição autoimune das glândulas tireoideanas raramente ocorrem durante a adolescência e, como consequência, o crescimento do cão pode ser retardado além do desenvolvimento dos sinais de hipotireoidismo do adulto. Disgenesia tireoidiana A ectopia da glândula tireoide é comum em cães e com ocorrência conhecida também em gatos (PATNAIK et al., 2000). Na grande maioria dos casos, é o resultado da descida primitiva da glândula tireoide juntamente com o saco aórtico durante a vida embrionária. O tecido tireoidiano pode ser encontrado imerso no tecido adiposo da aorta intrapericárdica em cerca de 50% dos cães adultos. O tecido acessório tireoidiano também pode repousar cranialmente às glândulas tireoidianas como um remanescente do ducto tireoglosso. A disgenesia tireoidiana pode ser detectada por poder dar origem a um neoplasma ou, pode ser um achado incidental durante a investigação por outras razões. Tal afecção também pode ser associada com a ausência de glândulas tireoide normais e a sua função pode ser insuficiente para prevenir o hipotireoidismo. A investigação da etiologia da disgenesia tireoidiana requer estudos moleculares dos genes envolvidos na diferenciação, migração e crescimento da glândula tireoide. Em humanos, as mutações são encontradas nos genes que codificam os fatores de transcrição e o receptor para o TSH, apesar de o envolvimento de tais genes na disgenesia tireoidiana na maioria da população de pacientes ainda ser questionada (DIJEMLI et al., 2006; CASTANET et al., 2007). 34 UNIDADE II │ DISFUNÇÃO TIREÓIDEA I Manifestações clínicas As manifestações do hipotireoidismo relacionado com a disgenesia tireoidiana variam de acordo com a duração e severidade da doença antes da instituição da terapia. Na ausência completa da glândula, os sintomas são percebidos durante o segundo ou terceiro mês de vida, apesar de alguns animais não conseguirem sobreviver até tal idade. As anormalidades nos neonatos que podem sugerir hipotireoidismo incluem uma grande fontanela (que deve estar fechada nos cães ao nascimento, mas não nos gatos), hipotermia, hipoatividade, dificuldades de sucção e distensão abdominal. À medida que o filhote de cão ou gato ganha idade, a sua cabeça torna-se relativamente maior e mais larga, a fisionomia torna-se inchada, e a língua torna-se larga e espessa. O crescimento em peso é lento e o animal doente submete-se a poucas atividades físicas em comparação com outros animais da mesma ninhada. O desenvolvimento mental parece lento; a pelagem pode ser rala e com ausência de pelos; além disso, os dentes deciduos persistem até a idade adulta, mas são trocados após o início do tratamento com hormônios tireoidianos (CROWE, 2004). A radiografia da coluna vertebral e dos ossos longos revelam uma maturação esquelética atrasada e corpos vertebrais anormalmente pequenos podem até originar compressão da medula espinhal. Nos ossos longos, o aparecimento dos centros de ossificação é atrasadoe o crescimento fisário é retardado. A disgenesia epifiseal pode também estar associada com o foco difuso de ossificação, dando uma aparência granular à epífise (SAUNDERS; JEZIK, 1991). Quando a doença permanece não reconhecida, as fises dos corpos vertebrais e os ossos longos ainda permanecem abertas nos animais de 3 a 4 anos de idade (SZABO; WELLS, 2007). Diagnóstico Mensurações das concentrações plasmáticas de T4 antes e após a estimulação com TSH confirmarão o diagnóstico de hipotireoidismo primário. A cintilografia tireoidiana pode revelar a causa, como sendo uma ectopia ventromedial ou agenesia completa. Tratamento Assim que a condição for diagnosticada, o tratamento deve ser iniciado com l-tiroxina (10 µg/kg de peso corporal, duas vezes ao dia). O animal assumirá uma situação muito mais ativa e irá desenvolver uma pelagem normal. Quando o hipotireoidismo não é detectado cedo o suficiente, durante a maturação esquelética, o crescimento adicional pode ser marginal devido à administração de tiroxina e também levar ao fechamento 35 DISFUNÇÃO TIREÓIDEA I │ UNIDADE II das placas de crescimento. A lentidão mental desaparece, entretanto, ainda há uma pequena evidência de persistência do retardo mental, uma temida complicação da detecção tardia do hipotireoidismo congênito em crianças. Síntese deficiente de hormônio tireoidiano O hipotireoidismo congênito também pode ocorrer em consequência de uma deficiência enzimática que previne a síntese de hormônios tireoidianos. Tais defeitos congênitos são raros e apesar de, em princípio, qualquer passo da síntese de hormônios tireoidianos poder ser afetada, os casos reportados foram apenas os não responsivos ao TSH e o defeito na atividade da enzima tireoperoxidase, em cães e gatos (CHASTAIN et al., 1983; et al., 1990; JONES et al., 1992). Entretanto, o defeito na atividade da enzima tireoperoxidase parece ser a forma menos rara, animais com defeito na organificação concentram iodo na tireoide, mas apresentam habilidade limitada para utilizar tal iodo na síntese de hormônio tireoidiano. A desordem parece ser heterogênea já que, enquanto em uns animais o defeito é completo e a atividade da tireoperoxidase não pode ser demonstrada, em outros ela é parcial. No último caso, o defeito pode estar relacionado com a localização anormal da enzima dentro dos tireócitos, isto é, migração insuficiente para a membrana plasmática (SJOLLEMA et al., 1991; UMEKI et al., 2002). Recentemente, a ocorrência familiar do hipotireoidismo congênito com bócio relacionado ao defeito na organificação já foi demonstrado em raças como Toy Fox Terrier e Rat Terrier. Nos cães doentes de ambas as raças, a mesma mutação foi encontrada no gene que codifica a TPO; sugere-se que essa mutação foi passada para o Toy Fox Terrier a partir do Rat Terrier (FYFE et al., 2003; PETTIGREW et al., 2007). Um teste baseado no DNA tem sido desenvolvido para a detecção dos portadores do defeito autossômico recessivo hereditário. Manifestações clínicas A marca clínica de tais defeitos é a combinação do bócio com o hipotireoidismo. A severidade de ambos pode variar consideravelmente, além de poder ser difícil palpar o bócio tireoidiano em animais muito jovens. Os aspectos clínicos do hipotireoidismo não diferem daqueles encontrados na disgenesia tireoidiana. Diagnóstico O diagnóstico de hipotireoidismo pode ser confirmado a partir das mensurações das concentrações plasmáticas de T4. Quando o bócio é detectado, a estimulação com TSH é redundante, já que o bócio por si só já evidencia o aumento na secreção endógena de TSH. 36 UNIDADE II │ DISFUNÇÃO TIREÓIDEA I O desafio do diagnóstico é a elucidação do defeito na síntese do hormônio tireoidiano como sendo a causadora do aumento na secreção de TSH; tal investigação requer estudos in vivo com iodo radioativo. Caso haja um defeito no processo de organificação, a captação de iodo radioativo pela tireoide será elevada, porém não será organicamente ligado, como já demonstrado por meio da descarga precipitada da radioatividade acumulada a partir das glândulas tireoides, quando um íon que compete pela capitação – como o perclorato – é administrado. Tratamento Como em todas as formas de hipotireoidismo, exceto aquele causado pela deficiência de iodo, o tratamento consiste de administração oral de l-tiroxina, o que irá reduzir a secreção de TSH e, como resultado, o bócio irá diminuir. Hipotireoidismo central O hipotireoidismo central é relacionado com a deficiência de TSH, podendo ser classificado como hipofisário (hipotireoidismo secundário) ou hipotalâmico (hipotireoidismo terciário); porém a distinção entre tais formas não é inicialmente necessária. A hipossecreção de TSH é geralmente acompanhada pela redução na secreção de outros hormônios hipofisários. O melhor exemplo de hipotireoidismo secundário precoce é em filhotes anões de pastor alemão, que é caracterizado por uma combinação de deficiência de hormônios adeno-hipofisários. Nesses animais, a deficiência de TSH é associada com a absoluta deficiência de hormônio do crescimento e prolactina, enquanto que a secreção de hormônio luteinizante e folículo-estimulante é influenciada menos severamente (HAMANN et al., 1999; KOOISTRA et al., 2000). Nesses cães, a manifestação de hipotireoidismo é ofuscada pela deficiência do hormônio do crescimento, em parte devido a uma pequena, mas significante fração de funcionamento da glândula tireoide (~10-15%) ser independente do TSH; dessa forma, o hipotireoidismo por razões centrais tende a ser menos severo em relação aos casos de hipotireoidismo primário (BRENT et al., 2008). A deficiência isolada de TSH foi sugerida como a anormalidade mais comum em schnauzers gigantes com nanismo (GRECO et al., 1991). Foi questionado se a suposta deficiência de TSH foi secundária ou terciária. Em um boxer jovem com hipotireoidismo congênito de origem supostamente central, as concentrações plasmáticas de hormônio do crescimento estavam elevadas (MOONEY et al., 1993), o que atualmente é sabido por ser associado com o hipotireoidismo primário. 37 CAPÍTULO 2 Hipotireoidismo em animais adultos O hipotireoidismo é uma síndrome resultante da deficiência na produção de hormônio tireoidiano. Cerca de 95% dos casos que se originam na idade adulta, o hipotireoidismo é primário, enquanto nos 5% restantes, é relacionado com a deficiência de TSH (hipofisário ou hipotalâmico). Hipotireoidismo primário Patogênese Na forma espontânea, um progressivo processo autoimune leva à infiltração linfocítica e ao desaparecimento dos folículos tireoidianos. As formas chamadas de idiopáticas, onde ocorre atrofia tireoidiana sem o infiltrado inflamatório, também parecem ser o resultado final de um distúrbio autoimune (GRAHAN et al., 2007). A patogênese imunológica e molecular da tireoidite autoimune ainda não foi elucidada. Foi proposto que o desenvolvimento do hipotireoidismo canino esteja associado com a perda da autotolerância dos linfócitos à tireoglobulina (TANI et al., 2005), mas não está claro se essa é a causa ou o efeito. Em estudos sobre os possíveis envolvimentos do antígeno leucocítico canino, foi encontrada uma associação em várias raças entre o hipotireoidismo canino e um alelo do antígeno leucocítico canino (KENNEDY et al., 2006a; b). Anticorpos contra a TPO parecem ter um pequeno ou nenhum papel na tireoidite em cães, em contraste com a tireoidite em humanos (SKOPEK et al., 2006; GRAHAN, et al., 2007). A destruição imunomediada é um processo lento e as manifestações clínicas da deficiência dos hormônios tireoidianos tornam-se evidentes apenas após a destruição de mais de 75% dos folículos tireóideos. Apesar de os autoanticorpos contra a tireoglobulina não ser de relevante importância patogênica, eles podem servir como marcadores da tireoidite autoimune (IVERSEN et al., 1998). Os anticorpos circulantes contra a tireoglobulina são detectados em mais de 50% dos cães hipotireóideos. Á medida