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03/10/17 Marco Antonio Moreira 169502 Neusa Teresinha Massoni 71223 Epistemologias do Século XX Popper, Kuhn, Lakatos, Laudan, Bachelard, Toulmin, Feyerabend, Maturana, Bohm, Bunge, Prigogine, Mayr Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Moreira, Marco Antônio Epistemologias do século XX : Popper, Kuhn, Lakatos, Laudan, Bachelard, Toulmin, Feyerabend, Maturana, Bohm, Bunge, Prigogine, Mayr / Marco Antônio Moreira, Neusa Teresinha Massoni. - São Paulo : E.P.U, 2011. ISBN 978-85-12-79150-0 1. Ciência-Filosofia - 2. Ciência-História - 3. Teoria do conhecimento I. Massoni, Neusa Teresinha. II. Título. E.P. U. EDITORA 10-13513 CDD-501 E UNIVERSITARIA LTDA. Índices para catálogo sistemático: 1. Ciência: Fundamentos 501Mario Bunge Este texto pretende ser uma breve introdução às ideias de Mario Bunge sobre a Filosofia da Ciência. Devido à superficialidade desta dis- cussão torna-se indispensável, para maior aprofundamento, consulta a suas obras originais, aliás muito interessantes e de agradável leitura. Argentino, Mario Bunge nasceu em Buenos Aires, em 1919. Obteve seu PhD em Ciências Físico-Matemáticas na Universidade Nacional de La Plata, em 1952. Foi professor de Física Teórica na Universidade de Buenos Aires (1956-1966) e na Universidade Nacional de La Plata (1956-1959), de Filosofia na Universidade de Buenos Aires (1957- 1963). Atualmente, é professor de Filosofia da Ciência na Universidade de Mc'Gill, em Montreal, no Canadá. É autor de uma vasta obra (mais de 50 livros e 500 artigos sobre: Física Teórica, Matemática Aplicada, Teoria de Sistemas, Fundamentos da Física, Fundamentos da Sociolo- gia, Filosofia da Ciência, Ética etc.). Neste trabalho, nos deteremos na sua epistemologia, cuja obra La ciencia, su método e su filosofia (1960) tornou-se um clássico. Racionalismo Crítico ferrenho da anticiência e da pseudociência, considera-as uma fuga à razão por meio do cultivo do irracionalismo e do subjetivismo. Trata-se de um movimento pós-moderno que levou alguns filósofos como Adorno, Habermas, Horkheimer a supervalorizar algumas cren- ças empiristas-indutivistas sobre o conhecimento científico, cultivando 147um ódio inconfundível à Ciência ("os físicos matematizam" e "perdem Ciência Formal: incluem-se nesta categoria a Lógica e a Matemáti- o senso da realidade", "vivem em um universo fictício", "negam o senso ca, pois embora produtoras de conhecimento racional, sistêmico e veri- comum" etc.). Nos países latino-americanos, essas correntes irraciona- ficável, os seus objetos de estudo não fornecem informações sobre a listas foram importadas da Europa e tornaram-se, segundo Bunge, o realidade. Tratam de entes abstratos, que só existem na mente humana. complemento intelectual do analfabetismo científico e do atraso técnico Por exemplo, o conceito de número pode ter nascido de uma correspon- e científico. Ao negar-se a razão e exaltar-se em seu lugar a intuição, ao dência biunívoca entre objetos materiais descontínuos, como dedos ou rechaçar-se dado fundado e abraçar-se ao mito, se nega a ciência, que pedras, mas o conceito de número em si não está nas operações manuais é um enfoque racional do mundo; e por conseguinte se nega a epistemo- de contagem, nem nos signos que os representam, mas sim no nosso logia que é a teoria desse enfoque racional dos fatos materiais e espiri- cérebro. tuais (Bunge, 1960, p. 91). Diferentemente dos animais inferiores, que segundo Bunge simples- No mundo real encontramos 3 livros, no mundo daficção construímos 3 discos mente estão no mundo, o homem tenta entendê-lo através da sua inteli- voadores. Porém, quem já viu um 3, um simples 3? (Bunge, 1960, p. 10) gência imperfeita, mas aperfeiçoável, e procura dominá-lo com o obje- tivo de torná-lo mais confortável. Nesse processo, constrói a Ciência um Ciência Fática: baseia-se na formulação de hipóteses a respeito de crescente corpo de ideias que se estruturam em um conhecimento racio- fatos e/ou objetos materiais. Nesta categoria, empregam-se símbolos nal, exato, verificável e consequentemente falível. Através do conheci- interpretados que apresentam certa racionalidade e coerência lógico- mento, o homem reconstrói conceitualmente o mundo e a sociedade -matemática. Esta condição, embora necessária, não é suficiente, pois os onde vive. enunciados fáticos devem ser verificáveis direta ou indiretamente. Para apreender a realidade, o homem começa com idealizações e A experiência, entretanto, não garante que uma dada hipótese seja simplificações que permitem construir o que Bunge define como objeto- verdadeira ou única. Apenas nos dirá se é provavelmente adequada sem -modelo ou modelo conceitual da coisa, fato ou fenômeno. O modelo excluir a possibilidade de que uma nova hipótese possa vir a fazer me- conceitual pode nos dar uma imagem simbólica do real. Depois se atri- lhores aproximações da realidade em estudo. bui a ele certas propriedades, em geral não sensíveis, buscando inseri-lo A ciência formal demonstra ou prova, enquanto a ciência fática ve- em uma teoria capaz de descrevê-lo teórica e matematicamente. Esta é rifica hipóteses geralmente provisórias. Ao afirmar que a demonstração a etapa do modelo teórico, ou seja, a complexidade vai aumentando. é completa e final, a verificação é incompleta e por isso temporária (op. Somente a prova da experiência pode dizer se o modelo é verdadeiro ou cit., p. 14), Bunge nos ensina que a natureza em si do "método científico" falso, ou sugerir novas ideias das modificações que devem ser introdu- impede que haja confirmação definitiva das hipóteses fáticas. zidas para tornar o modelo mais realista. Voltaremos a estas questões. Em sintonia com vários outros epistemólogos do século XX, Bunge entende que o cientista preocupa-se em aumentar o número de casos em Ciência formal e ciência fática (factual) que sua hipótese se cumpre, mas leva em conta o princípio de que uma única conclusão desfavorável tem peso maior do que mil confirmações. A primeira grande distinção que Bunge faz diz respeito à objetivida- Os traços principais da ciência da natureza e da sociedade são a ra- de. Entende ele que nem toda a investigação científica está em busca de cionalidade e a objetividade. conhecimento objetivo e nesse sentido divide a ciência em formal (ide- Por racionalidade entende-se tudo o que é constituído por conceitos, al) e fática (material). juízos, raciocínios, imagens, modelos etc. Então, o ponto de partida são 148 149as ideias, tal que elas possam se combinar de acordo com um conjunto (biofísica, bioquímica, psicofisiologia e psicologia social). Segundo de regras lógicas para produzir novas ideias, ou seja, inferência deduti- Bunge, o único remédio que tem se mostrado eficaz contra a unilatera- va. Essas ideias não são um "amontoado mas se organizam em lidade profissional é uma dose de filosofia; sistemas de ideias a ciência é, portanto, sistêmica. 5 o conhecimento científico é claro e preciso: a ciência torna preci- Por objetividade entende-se que o conhecimento científico concorda SO o que o senso comum conhece de maneira nebulosa. Os problemas aproximadamente com o objeto de estudo; que as ideias se adaptam em são formulados claramente; os conceitos, embora não definitivos, são alguma medida aos fatos (observação e experimentação). definidos de forma conveniente e fértil. A ciência cria linguagens e sím- Esses traços das ciências e objetividade es- bolos atribuindo-lhes significados determinados. Embora a formulação tão intimamente relacionados, e nos remetem a um conjunto de caracte- matemática seja desejável não é condição para que o conhecimento seja rísticas que Bunge (1960, pp. 16-36) assim enumera: científico; o conhecimento científico é comunicável: não é privado, mas sim 1 o conhecimento científico é fático: parte dos fatos por meio da público. A comunicabilidade é possível graças a sua precisão e é, ao curiosidade, respeita-os até certo ponto e sempre volta a eles. Os "dados mesmo tempo, condição necessária para a verificação dos dados empí- empíricos" são enunciados confirmados obtidos com ajuda de teorias e, ricos e das hipóteses; ao mesmo tempo, servem de matéria-prima para a elaboração teórica; 7 o conhecimento científico é verificável: para explicar um fenôme- 2 conhecimento transcende os fatos: o cientista expe- no, o cientista inventa conjeturas de alguma forma fundamentadas no rimenta a realidade com o objetivo de ir além das aparências; selecio- saber já adquirido. teste destas hipóteses fáticas é empírico, isto é, na, controla, reproduz fatos, produz novos objetos (desde instrumentos ocorre pela observação ou experimentação, ainda que nem todas as teo- até partículas elementares), conjetura o que há por trás dos fatos, in- rias possam ser comprovadas diretamente. A questão da verificabilidade venta conceitos (átomos, campo, massa, classe social etc.) que muitas é fundamental para Bunge e voltaremos a ela oportunamente; vezes carecem de correlatos empíricos. Não percebemos os campos 8 a pesquisa científica é metódica: toda a pesquisa é planejada no elétricos nem as classes sociais, mas inferimos sua existência a partir sentido de que o cientista sabe o que busca e como encontrá-lo. Uma de fatos experimentais. Este salto do nível observacional ao teórico regra de procedimento bastante comum é que as variáveis relevantes permite à ciência predizer a existência de coisas e processos ocultos à devem variar uma de cada vez. Isso exige manipulação, observação, primeira vista; registro e controle de variáveis e fatores relevantes. Não existem, no 3 a ciência é analítica: a análise na investigação científica não é um entanto, receitas infalíveis para encontrar a verdade; objetivo, mas sim uma ferramenta, não se restringe a identificar a natu- 9 - o conhecimento é sistêmico: as teorias formam siste- reza das partes que compõem o "mecanismo", mas busca a compreensão mas de ideias conectadas logicamente entre si, caracterizados por hi- da interdependência das partes com o objetivo de descobrir como emer- póteses básicas, porém, refutáveis. Tanto o conjunto de conhecimentos ge, subsiste e se desintegra o todo; científicos como as comunidades científicas são sistemas. Sistema é 4 a investigação científica é especializada: a especialização é uma um objeto complexo cujos componentes estão ligados entre si, de ma- consequência da analiticidade. método depende, em grande parte, do neira que a) qualquer mudança em um dos componentes afeta os ou- assunto. Isso explica a multiplicidade de técnicas e os distintos setores tros e, com isso, todo o sistema; e b) o sistema possui propriedades que da ciência sem, contudo, comprometer sua unidade metodológica. A seus componentes não possuem... (Bunge, 1980, p. 41). A ciência é um especialização não impede a formação de campos interdisciplinares sistema conceitual (compartilha suposições filosóficas, metodologias, 150 151ferramentas matemáticas etc.) mas, também, é um sistema social (en- Requisitos para o conhecimento científico volve cientistas, técnicos, professores, bibliotecários etc.). Nos países desenvolvidos, os sistemas científicos são coesos, fomentados por so- Verificabilidade, no sentido de Bunge, tem a ver com o modo, meio ciedades e publicações profissionais, reuniões e pelo fluxo de pesqui- ou método por meio do qual se apresentam problemas científicos e se sadores. Nos países os cientistas têm consciência colocam à prova as soluções propostas. Não se trata de obter a verdade. da dependência e integração aos centros mais avançados para aumen- A verdade é aceita sempre provisoriamente porque os dados empíricos tar a eficácia do seu trabalho; não são infalíveis. 10 o conhecimento científico é geral: o cientista ocupa-se de fatos singulares na medida em que estes são membros de uma classe geral ou que se aceita só por gosto, ou por autoridade, ou por parecer evidente casos de uma lei. Os dados empíricos que sempre são singulares são (habitual), ou por conveniência, não é senão crença ou opinião, mas não manipulados e convertidos em peças de estruturas teóricas; conhecimento científico. (...). Ao contrário, o que caracteriza conheci- 11 o conhecimento científico é legal: busca leis (da natureza e da mento científico é sua verificabilidade... (Bunge, 1960, p. 41) cultura) e as aplica. Na medida em que a ciência é legal, é também es- sencialista (tenta chegar à raiz das coisas). Busca pautas regulares das Para que algo mereça ser chamado de "científico", não basta nem estruturas e dos processos; sequer é necessário ser verdadeiro. Deve-se poder descrever objetiva- 12 a ciência é explicativa: tenta explicar os fatos em termos de leis e mente os procedimentos utilizados que levaram a um enunciado, de forma as leis em termos de princípios. A História da Ciência nos ensina que as a permitir sua reprodução por quem quer que se disponha a aplicá-los. explicações científicas são corrigidas e/ou descartadas incessantemente. Isso não significa que elas sejam falsas, mas apenas que verdade e erro não devemos saber, ao contrário, como chegamos àquele saber, ou a presu- estão alheios entre si. As explicações científicas são transitórias. mir que o enunciado em questão é verdadeiro; devemos ser capazes de 13 o conhecimento científico é preditivo: transcende os fatos da enumerar as operações (empíricas ou racionais) pelas quais é verificável experiência imaginando como foi o passado e como poderá ser o futuro. (confirmável ou desconfirmável). (op. cit., p. 42) A predição funda-se em leis e informações específicas fidedignas, rela- tivas ao estado de coisas atual e passado; Se de um lado a verificação de enunciados formais só inclui opera- 14 a ciência é aberta: as noções a respeito dos meios naturais ou ções racionais, de outro, as proposições fáticas, que informam algo a sociais não são finais, estão em permanente movimento, são falíveis. O respeito da realidade, devem ser colocadas à prova por certos procedi- cientista não é um acumulador de conhecimento, mas sim um gerador de mentos empíricos. Não há outra maneira de verificar nossas hipóteses problemas. Os modernos sistemas de conhecimento são como organis- que não seja a de recorrer à experiência. Afirmações sobrenaturais, por mos em crescimento, estão sempre mudando; exemplo, não são verificáveis, não porque não se referem a fatos, pois às 15 a ciência é útil: sua utilidade é uma consequência da objetivida- vezes pretendem fazê-lo, mas porque não se dispõe de método algum de; a ciência básica não se propõe a obter resultados aplicáveis, mas os para decidir qual seu valor de verdade. técnicos empregam o conhecimento científico para fins práticos, e os Existem enunciados singulares ("tal objeto de ferro está quente") e políticos são responsáveis para que a ciência seja usada em benefício da universais ("todos os objetos de ferro são quentes" que é obviamen- humanidade. te falso). Enunciados singulares podem ser verificados de maneira imediata através dos sentidos ou através de operações mais complexas 152 153que implicam enunciados de leis e cálculos matemáticos. Quando um pontual e extenso). Com relação às exigências filosóficas, a teoria tem enunciado verificável possui um grau de generalidade suficiente é cha- de ser parcimoniosa, isto é, não deve recorrer a níveis mais altos (redu- mado de hipótese científica ("metais dilatam-se com o calor"). Pode- cionismo ou idealismo) se os níveis intermediários forem suficientes. se dizer que o núcleo de toda a teoria é um conjunto de hipó- Deve ser compatível com a concepção de mundo predominante nos teses verificáveis: culos científicos. As hipóteses científicas são, por um lado, ensaios referenciais não demons- "Método Científico" trativos (analógicos ou indutivos) mais ou menos obscuros; por outro lado, são pontos de partida de cadeias dedutivas cujas últimas instâncias as Um aspecto muito discutido por Bunge diz respeito à existência, ou mais próximas dos sentidos, no caso da ciência devem passar pela não, de uma técnica infalível para inventar hipóteses científicas, ou seja, prova da experiência. existe um método científico (método é um procedimento regular, Mais ainda: habitualmente concorda-se que deveriam chamar-se "hipó- cito e repetível para obter algo, seja material, seja conceitual; Bunge, teses" não somente as conjeturas de ensaio, senão também as suposições 1985, p. 28) que conduza ao enunciado de verdades fáticas? razoavelmente confirmadas ou estabelecidas, pois provavelmente não A resposta é que semelhante arte jamais foi inventada e poder-se-ia existem enunciados fáticos gerais perfeitos. (op. cit., p. 46) dizer que jamais o será, a menos que se modifique radicalmente a defi- nição de ciência. Não há regras infalíveis que garantam o descobrimen- Essa assunção vai além da verificabilidade assumida pelo empiris- to de novos fatos e a invenção de novas teorias. mo-indutivismo, cujo discurso científico não incluía hipóteses, mas ape- nas fatos (conhecimento oriundo da observação e experimentação). Se- o que hoje se chama "método científico é uma lista de receitas para gundo Bunge, o núcleo da cientificidade está na verificabilidade, ou seja, chegar a respostas corretas a perguntas mas sim um conjunto uma ideia é considerada científica apenas se for contrastável. Será con- de procedimentos pelos quais a) se propõem os problemas científicos e b) trastável empiricamente quando puder ser comparada com proposições se colocam em prova as hipóteses (Bunge, 1960, p. 50) sugeridas por experiências controladas (direta ou indiretamente); será teoricamente contrastável quando puder ser comparada com hipóteses método científico não produz diretamente o saber, mas é uma pe- ou teorias empiricamente contrastáveis. quena luz que indica se trilhamos um caminho promissor, evita que nos A verificabilidade das teorias científicas, na visão de Bunge, não se percamos no caos aparente dos fatos, indica como propor problemas reduz aos testes empíricos, como comumente se aceita. Uma teoria de sem nos emaranharmos em nossos próprios pré-juízos. Possui algumas alto nível deve passar por testes empíricos, interteóricos, metateóricos e regras, que não são de ouro, mas sim plásticas, segundo Bunge. A indu- filosóficos. Testes empíricos lidam com as questões da comprobabilida- ção, a analogia, a dedução de suposições extracientíficas são exemplos de da teoria por meio de operações empíricas. Testes interteóricos têm a das múltiplas maneiras de se inventar hipóteses, sendo que o único inva- ver com a compatibilidade da teoria, com o resto do saber científico riante é o requisito da verificabilidade. aceito em dado momento (uma teoria deve acrescentar algo ao conheci- A invenção segue algumas pautas que são psicológicas antes de mento e não ser um corpo estranho a ele). teste metateórico tem a ver gicas, como: o sistemático reordenamento dos dados; a supressão ima- com o caráter formal, ausência de contradição interna (não é possível ginária de fatores para descobrir as variáveis relevantes, a mudança re- propor um modelo de supondo que ele seja ao mesmo tempo presentacional em busca de analogias frutíferas etc. De maneira geral, 154 155algumas máximas do método científico podem ser resumidas como se- suportes empíricos e racionais são interdependentes. Como referido, gue (Bunge, 1960, pp. 52-55): além da confirmação empírica (de um certo número de casos), as hipó- teses científicas estão incorporadas a sistemas teóricos que se relacio- a análise lógica é a primeira operação que deveria ser empreen- nam entre si e constituem a totalidade da cultura intelectual. As hipóte- dida ao comprovar hipóteses científicas, sejam fáticas ou não; ses científicas possuem também suportes extracientíficos (psicológicos o método aplicado à comprovação de afirmações infor- e culturais). Suporte cultural, para Bunge, consiste em que as hipóteses mativas reduz-se ao método experimental: sujeição do objeto de experi- fáticas sejam compatíveis com alguma concepção de mundo. Na verda- mentação a estímulos controlados, em alguns casos, dedução de conse- de, o suporte cultural é dual: de um lado nos impulsiona a dar maior quências observáveis com ajuda da lógica e da matemática unidas a atenção às hipóteses que combinam com nossa visão particular de mun- princípios já conhecidos, em outros (predição do lugar, dia e hora em que do, e de outro lado, pode nos ofuscar novas possibilidades. se encontraria o planeta Netuno por Adams e Le Verrier); A única maneira de minimizar este perigo é termos consciência de observam-se casos singulares em busca de elementos de prova de que as hipóteses científicas não crescem em um vazio cultural, mas ao enunciados universais; contrário, os suportes culturais são em grande medida objeto de prefe- deve-se saber formular perguntas precisas; rência individual, de grupo, de época e exercem pressão real no sentido a coleta e a análise dos dados devem ser feitas conforme as regras de tomarmos partido por uma ou outra concepção de mundo. E é melhor da estatística (tamanho da amostra, técnica de escolha da amostra etc.); fazê-lo conscientemente do que inadvertidamente, segundo Bunge. deve-se saber que não existem respostas definitivas, simplesmen- Em resumo, a arte de formular perguntas e comprovar respostas o te porque não existem perguntas finais. "método científico", cujas regras não são poucas, nem simples, nem infalíveis e nem bem conhecidas é qualquer coisa menos um conjunto A maior parte da ciência moderna consiste em teorias explicativas, de receitas. ou seja, sistemas de proposições que podem ser classificadas como prin- cípios, leis, definições: Um panorama da ciência nos países em desenvolvimento As teorias dão conta dos fatos não apenas descrevendo-os de forma mais Para Bunge, desenvolvimento é um conceito complexo que envolve ou menos exata, mas sim também provendo modelos conceituais dos fatos, enfoques multidimensionais: biológico, político, econômico e cultural. em cujos termos pode-se explicar e predizer, ao menos em princípio, cada A concepção biológica entende o desenvolvimento como um aumento um dos fatos de uma classe. (op. cit., p. 57) do bem-estar (moradia, vestuário, hábitos, convivência etc.) e uma me- lhora da saúde da população. Na concepção econômica, o desenvolvi- É preciso transcender os fatos e a linguagem observacional para con- mento é identificado com crescimento econômico ou industrialização. verter generalizações empíricas em leis teóricas; modelos científicos em A concepção política vê o desenvolvimento como aumento da liberdade teorias específicas. Os físicos atômicos, por exemplo, imaginam diver- e garantia dos direitos humanos e políticos; na concepção cultural, de- SOS mecanismos ocultos para conectar fenômenos macroscópicos com senvolvimento é considerado um enriquecimento da cultura e da difusão o mundo microscópico. da educação. Essas quatro concepções de desenvolvimento têm uma A experiência não é o único ou último juiz das teorias fáticas. Estas ponta de verdade (Bunge, 1980, p. 21), mas o autêntico desenvolvimen- devem ser contrastadas com fatos e com outras teorias de forma que os to deve ser integral. Deve levar em conta o progresso simultâneo dos 156 157quatro subsistemas que compõem as sociedades humanas. Se um deles em beneficio do desenvolvimento: produzir conhecimento e ensiná-lo ade- é desprezado ou ignorado leva à formação de sociedades desequilibra- quadamente... (op. cit., p. 69) das. Afirma que o distanciamento dos países do Terceiro Mundo em re- lação aos países desenvolvidos deve-se a nossa inferioridade financeira Afirma que é possível fazer pesquisa básica mesmo nos países em e técnica, mas não apenas a isso. desenvolvimento, e de fato, isso vem ocorrendo a despeito das muitas Entende que a ciência (básica e aplicada) e a tecnologia são setores dificuldades. As condições mínimas não são muitas: possuir talento dinâmicos do desenvolvimento, e que a ciência deve ocupar um papel científico, estar livre de preocupações financeiras angustiantes, ter aces- central, pois ela é parte da cultura de um país, é um componente da so- a publicações e gozar de liberdade acadêmica. ciedade tal que seu avanço contribui para a resolução de um problema Modelos científicos de primeira ordem nos países em desenvolvimento: seu atraso cultural. Nesse sentido, faz uma clara distinção entre ciência básica, ciência apli- O objetivo da ciência não é a acumulação de fatos, mas sim sua com- cada e tecnologia. preensão e esta só é possível aventurando e construindo hipóteses. Toda Ciência básica, seja ela teórica ou experimental, propõe-se unica- teoria física encerra um aspecto idealizado de um pedaço da realidade e mente a enriquecer o conhecimento humano. Ciência aplicada (teórica esta idealização é chamada de modelo. ou experimental) utiliza os conhecimentos obtidos pela ciência básica e A construção de um modelo começa com a esquematização e simpli- busca novos conhecimentos com vistas a possíveis aplicações práticas. ficação da realidade. O objetivo é representar os principais traços do A diferença é que a pesquisa aplicada pode ser planejada a longo prazo, objeto ou fato etapa que resulta nos modelos conceituais ou objetos- enquanto a ciência básica não. O pesquisador de ciência básica deve -modelo. Estes têm a função de buscar soluções exatas, que são mais propor ele mesmo seus planos de estudo e deve ter liberdade para mudá- fáceis de tratar, porém, com a vantagem de abrir caminho para a aborda- -los quando achar necessário. Técnicanão produz conhecimento, mas sim gem de problemas mais complexos. passo seguinte é construir o mo- artefatos úteis baseados nos resultados obtidos pela ciência aplicada. delo teórico que tenta especificar o comportamento ou os mecanismos Assim, existe uma forte interação entre ciência básica, ciência apli- internos do objeto-modelo. cada e técnica, pois a indústria fornece, tanto à técnica quanto à ciência, meios indispensáveis para seu crescimento tais como aparelhos, instru- um 'modelo teórico'é um sistema hipotético-dedutivo que concerne a mentos de medição, drogas e, inclusive, animais para experiências de um 'objeto-modelo que é, por sua vez, uma representação conceitual laboratório. (op. cit., p. 28). esquemática de uma coisa ou de uma situação real ou suposta como tal. A importância dessa discussão é que quando o "desenvolvimento" é (Bunge, 1974, p. 16) entendido como crescimento econômico puro (ou industrialização) ele não gera desenvolvimento social, mas, ao contrário, pode conduzir a A obtenção do modelo teórico segue alguns critérios: 1. invenção de sociedade ao desastre: aumento da desigualdade social, opressão políti- suposições plausíveis relativas às variáveis que provavelmente são per- ca e aumento da pobreza cultural. tinentes; 2. formulação de enunciados de leis que se espera possam mol- dar-se aos fatos observados; 3. tradução, sempre que possível, das hipó- Em resumo, o practicismo não é prático, já que ao restringir a liberdade teses em alguma das linguagens matemáticas. De qualquer forma, alerta de pesquisa impede que os cientistas façam a única coisa que sabem fazer Bunge, a construção de objetos-modelo e de modelos teóricos é uma 158 159atividade que em jogo os conhecimentos, as preferências e até a Entende ele que a Escola de Copenhague está carregada de dualis- paixão intelectual do construtor (op. cit., p. 22). É por este motivo que mo e subjetivismo e de uma forma analógica de pensar. As metáforas dois investigadores poderão construir modelos diferentes do mesmo sis- e analogias devem ser quando muito acessórios didáticos (uma ponte tema, ainda que tenham acesso às mesmas informações. para transpor o abismo entre o desconhecido e o familiar) e na pior das É preciso inserir o modelo teórico em um arcabouço teórico existen- hipóteses, armadilhas didáticas, pois queremos que a ciência diga res- te ou inventar uma nova base teórica para que o modelo possa ser con- peito ao que as coisas são e não ao que as coisas parecem ser... (Bun- frontado com os fatos. Se o modelo pode explicar as propriedades ma- ge, 2000, p. 287). crofísicas então ele guarda fidelidade com o real. Assim se procede na Acredita Bunge que tudo quanto é objeto do pensamento científico Física e em outras ciências também. está destinado a cair no método axiomático. Axiomatizar um campo de De maneira geral, começa-se construindo o objeto-modelo despro- conhecimentos é apenas exibir suas ideias principais de uma maneira vido de estrutura (caixa-preta), depois se acrescenta uma estrutura sim- ordenada. Para assentar os fundamentos axiomáticos, começa-se por ples e se prossegue nesse processo complicando o modelo, introduzindo apanhar os conceitos básicos ou indefinidos de uma teoria e prossegue- novos elementos, fazendo uso de conceitos matemáticos até explicar o -se colando uns aos outros com a ajuda de conceitos lógicos e matemá- que se quer. Ter-se-á, de um lado, o objeto-modelo "m" que representa ticos. Essa técnica tem a vantagem de facilitar a coerência, reconhecer e toda uma classe de objetos, ou o conjunto de referentes "R", encarados reexaminar as facilitar o exame crítico das teorias por- como equivalentes. Porém, diferentes entre si. De outro lado, um objeto que focaliza os conceitos primitivos. real pode ser representado de muitas maneiras, ou seja, é possível dar um Faz-se ciência, segundo Bunge, ,formulando questões claras, imagi- conjunto de modelos (M) a partir de um objeto concreto. Esses dois nando modelos conceituais das coisas, às vezes teorias gerais, e tentan- conjuntos são mediados por uma relação não biunívoca do tipo MAR, a do justificar o que se pensa e que se faz, seja através da lógica, seja uma relação de representação. Ela relaciona um conjunto de através de outras teorias, seja através de experiências, aclaradas por objetos-modelo (M) e o conjunto de seus referentes (R). Um objeto- teorias (Bunge, 1974, p. 13). -modelo (m) que modela um objeto concreto é um conceito que ganha utilidade quando encaixado em um corpo de ideias. Se este corpo de Filosofia da Ciência (ou Epistemologia) ideias for coerente então constituirá um modelo teórico do objeto con- creto do tipo R. Assim, o modelo teórico é uma teoria específica (Ts) de Na sua obra Epistemología (1985), Bunge faz um histórico da ori- um objeto suposto real, e esta teoria é, por sua vez, acolhida por uma gem e desenvolvimento da epistemologia desde Platão até nossos dias e teoria geral (Tg) que deriva seu valor de verdade. Sempre é necessário, conclui afirmando que uma filosofia da ciência não merece apoio da alerta Bunge, imaginar experiências que possam pôr em evidência a sociedade se não constitui um enriquecimento da filosofia e nem é útil à validade dos modelos para não cair na literatura fantástica. ciência (op. cit., p. 21). Físico teórico, Bunge discute com profundidade os princípios da Alerta que fazer e ensinar Física são tarefas que não podem negligen- Mecânica Quântica (MQ) e critica a Interpretação de Copenhague por considerá-la inconsistente: ela supõe a dualidade onda-partícula. É uma ciar o significado físico e que a familiarização com a epistemologia con- heurística que tem a tendência de encarar os objetos quânticos como temporânea da ciência pode ajudar a eliminar alguns obstáculos levan- análogos clássicos ao invés de considerá-los entidades singulares dota- tados por uma filosofia ultrapassada, que não se ajusta às práticas da das tanto de propriedades ondulatórias quanto corpusculares. pesquisa científica. 161 160Afirma que os processos mais importantes da epistemologia contem- o uso cuidadoso dos modelos instrumentaliza o aluno a representar a porânea (cita Popper, Kuhn, Feyerabend e outros) ainda não atingiram a realidade, favorece a compreensão do mundo e exercita sua capacidade Física de fato e que a maioria das análises filosóficas da Física são in- criativa e reflexiva. satisfatórias seja devido às carências em matéria de Física (de parte dos Para concluir, apresentamos na Figura 12 um diagrama V para a filósofos) seja devido à pobreza no terreno da lógica ou epistemologia epistemologia de Bunge. (de parte dos filósofos da natureza) (op. cit., pp. 35/36). Matthews (2003) afirma que Bunge tem desenvolvido um sistema Referências filosófico que pode ser caracterizado por (...) ciência-orientada e exata, isto é, uma construção com a ajuda de ferramentas lógico-matemáticas Bunge, M. (1960). La ciencia su método y su filosofia. Buenos Aires: em vez de depender puramente da articulação verbal. E que, do ponto Ediciones Siglo Veinte. de vista de Bunge, sem filosofia, a ciência perde sentido; e sem ciência Bunge, M. (1974). Teoria e São Paulo: Editora Perspectiva. a filosofia estagna (op. cit., 2003, p. 440). Bunge, M. (1980). Ciência e desenvolvimento. Obra coeditada pela Edi- tora Itatiaia (Belo Horizonte) e a EDUSP, São Paulo. Conclusão Bunge, M. (2000). Física e filosofia. São Paulo: Editora Perspectiva. Bunge, M. (1985). Epistemología. Barcelona: Editorial Ariel. Em resumo, a obra de Bunge é muito abrangente: transita pela Física Matthews, M. R. (2003). Mario Bunge: Physicist and philosopher. Teórica, Filosofia da Ciência, Psicologia, Sociologia, Ética etc., com Science & Education, vol. 12, n. 5-6, pp. 431-444. obras publicadas em vários idiomas. Sua visão epistemológica é profun- Pietrocola, M. (1999). Construção e realidade: realismo científico de damente racionalista. Ele acredita ser possível axiomatizar qualquer Mário Bunge e o ensino de ciências através de modelos. Investiga- campo do conhecimento, mas um novo tipo de axiomatização em que, ções em Ensino de Ciências, vol. 4, n° 3. particularmente na Física, toda fórmula é acompanhada de uma assun- ção semântica capaz de esclarecer o significado físico dos conceitos Bibliografia adicional fundamentais envolvidos. Todavia, considera que a característica fun- damental das ciências fáticas é a verificabilidade e nesse sentido assume Cupani, A. e Pietrocola, M. (2002). A relevância da epistemologia.de uma postura realista. Porém, a verificabilidade das hipóteses científicas Mario Bunge para o ensino de ciências. Caderno Brasileiro de Ensi- não garante que elas sejam definitivas. Bunge é claro com relação à no de Física, vol. 19 (número especial): 100-125. xistência do "método científico" como um conjunto de receitas veis que conduzem ao conhecimento científico. Vislumbra a modeliza- ção, um processo criativo do homem, como forma de apreender a realidade. Pietrocola (1999), em um artigo sobre a epistemologia de Bunge, destaca que a atividade de modelização seria verdadeiro motor da atividade científica, por canalizar as duas instâncias do humano, ou seja, a teorização generalizante dos domínios abstratos e o empírico específico e concreto da experiência sensitiva. Relativamente às impli- cações para o ensino de Física, e de ciências em geral, Bunge sugere que 162 163Domínio conceitual Domínio metodológico Questões básicas Filosofia: Racionalismo; a Asserções de valor: natureza pode ser apreendida Bunge atribui à epistemologia Como se constrói através da construção de um importante papel como teoria o conhecimento do enfoque racional dos fatos simplificações e idealizações. científico? e como construtora de novas Realismo; as ideias, visões, reflexões e interpretações auxiliadas por ferramentas do conhecimento científico Existe método lógico-matemáticas, devem se atual. Valoriza a modelização, a científico? indução, e dedução como formas adaptar em alguma medida à válidas de inventar hipóteses realidade. científicas. Sugere que a introdução da modelização no ensino de Física, e de Ciências, instrumentaliza o aluno a representar a realidade a Teorias: são conjuntos de interação partir das teorias gerais e com isso hipóteses verificáveis logicamente sua compreensão do mundo. relacionadas; são reconstruções conceituais provisórias dos fatos Asserções de conhecimento: conhecimento começa com a e dos objetos que devem ser construção de modelos confrontadas com a realidade, Modelo é uma representação idealizada através da experiência. da realidade que desempenha um papel de mediação entre teórico e empírico. Princípios: A ciência formal Não há regras infalíveis que garantam o descobrimentos de novos fatos e a (trata de objetos abstratos) pode invenção de novas teorias. "Método demonstrar ou provar. científico" é a arte de: a) propor A ciência fática (trata de objetos problemas cintíficos e b) colocar em materiais) apenas verifica hipóteses prova as hipóteses científicas. A natureza em si do "método científico" impede geralmente provisórias. que haja confirmação definitiva de A formulação matemática é hipóteses fáticas. As hipóteses científicas importante mas não é condição apresentam suportes empíricos e racionais; suficiente para que o conhecimento (enunciados formais operações racionais; seja científico. enunciados fáticos operações empíricas). que caracteriza o conhecimento científico é a verificabilidade. Algo é científico se somos capazes de enumerar objetivanente as operações (empíricas ou racionais) que Conceitos-chave: ciência formal, levaram a um enunciado tal que se possa avaliar seu valor de verdade. ciência fática, objeto-modelo, Metodologia: Classifica a ciência modelo teórico, modelo científico, em formal (ideal) e fática (material); objetividade, racionalidade, Caracteriza a ciência fática (descreve 15 verificabilidade. características) Distingue os diferentes tipos de "modelo". Analise criticamente conhecimentos e epistemologias já existentes. Registros: Conhecimentos produzidos, em particular na Física, mas também na Sociologia, Psicologia, Ética etc. e seu avanço histórico. Epistemologias de outros filósofos da ciência contemporâneos. Evento: evolução das ciências da natureza e da sociedade. Figura 12. Um diagrama V para a epistemologia de Mario Bunge.

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