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CADERNOS DO CÁRCERE Caderno 7 Antonio Gramsci Tradução IGS - Brasil 1ª Edição CADERNOS DO CÁRCERE Caderno 7 Antonio Gramsci Tradução IGS - Brasil 1ª Edição International Gramsci Society - Brasil (IGS-Brasil) Gestão 2022-2024 Coordenação Nacional Conselho Nacional Douglas Christian Ferrari de Melo (UFES), Kátia Augusta Curado Pinheiro Cordeiro da Silva (UNB); Marcos Aurélio da Silva (UFSC), Marcos Francisco Martins (UFSCar), Marina Maciel Abreu (UFMA), Matheus Daltoé Assis (UFMS). Conselho Fiscal Helton Messina da Costa (UFF), Rodrigo Duarte Fernandes dos Passos (Unesp/ Marília), Rodrigo Lima Ribeiro Gomes (UFF). Revisores Helton Messina da Costa, Marília Gabriella Machado e Rodrigo Lima Ribeiro Gomes Projeto e edição gráfica Caliel Machado Luna Diagramação Maria Margarida Machado Imagem de Capa Reprodução da capa do manuscrito original obtida através da biblioteca digital da Fondazione Gramsci — https://gramsci.digital-library.it/it/quaderni-dal-carcere Presidente Coordenação Científica Coordenação de Comunicação Secretária Tesouraria Anita Schlesener (UTP) Maria Margarida Machado (UFG) Marília Gabriella Machado (Unesp/Marília) Michelle Fernandes Lima (UEM) Percival Tavares da Silva (UFF) 24-204634 CDD-320.532 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Gramsci, Antonio, 1891-1937 Cadernos do cárcere [livro eletrônico] : caderno 7 (VII) : 1930-1932 : notas sobre filosofia II e miscelânea / Antonio Gramsci ; tradução Ana Maria Said, Marcos Aurélio da Silva. -- Rio de Janeiro : IGS-Brasil, 2024. PDF Título original: Quaderni del carcere ISBN 978-65-83079-04-6 1. Filosofia 2. Gramsci, Antonio, 1891-1937 3. Marxismo 4. Política I. Título. Índices para catálogo sistemático: 1. Antonio Gramsci : Marxista revolucionário : Vida e obra 320.532 Eliane de Freitas Leite - Bibliotecária - CRB 8/8415 ©1975, 2001 e 2007 Giulio Einaudi editore s.p.a., Torino Este material traduzido pela IGS–Brasil foi licenciado segundo a Creative Commons Atribuição-NãoComercial- SemDerivs 4.0 Internacional (Licença CC BY-NC-ND 4.0). Termos de uso completos disponíveis em: https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ Não é permitida a publicação desta tradução em formato impresso sob quaisquer circunstâncias. Sua distribuição em qualquer formato deve ser sempre gratuita, seguindo os termos de licença. I APRESENTAÇÃO A International Gramsci Society – Brasil tem a grata satisfação de apresentar aos leitores dos escritos de Antonio Gramsci a tradu- ção brasileira da edição crítica dos Cadernos do Cárcere, organiza- da por Valentino Gerratana e publicada pela Editora Einaudi, de Turim, em 1975 (Primeira Edição). A tradução aqui apresentada é resultado de um trabalho iniciado em 2019 por iniciativa da Ges- tão da IGS-Br (2019-2022) e que assumimos o compromisso de dar continuidade e finalização. Formou-se na ocasião um grupo de vinte pesquisadores e estudiosos do pensamento de Gramsci que, a partir de uma atividade coletiva e voluntária coordenada pelo Prof. Giovanni Semeraro, realizaram a árdua tarefa de traduzir os 29 Cadernos na ordenação disposta por Gerratana. Ficou para um se- gundo momento a tradução do instrumental crítico, que compõe, ao todo, mais de mil páginas, das quais 592 correspondem a notas ao texto, a parte mais significativa do aparato crítico, por oferecer indicações das fontes utilizadas por Gramsci, bem como esclareci- mentos sobre acontecimentos e personagens mencionados nos Ca- dernos. Esta tradução e disponibilização online dos 29 Cadernos, de forma gratuita na página da IGS/Brasil, contou com a autorização da Fundação Gramsci e da Editora Einaudi, agradecemos ao Dire- tor Francesco Giasi por esta intermediação. A importância e a relevância da tradução dos 29 Cadernos na or- dem estabelecida por Gerratana após pesquisa criteriosa se apresen- tam no fato de que, com a ampliação do interesse pelos escritos de Gramsci no Brasil, tornou-se indispensável transpor para o portu- guês a obra completa, tanto para o aprofundamento teórico quanto para a superação de algumas dificuldades interpretativas. A edição crítica organizada por Gerratana pressupôs uma pesquisa aprofun- dada para a periodização dos Cadernos, escritos entre 1929 e 1935, abrindo o caminho para novos debates e estimulando a compreen- são das ideias e o conhecimento da contribuição do pensamento de II Antonio Gramsci. E não é possível uma análise aprofundada desse autor e uma interpretação pertinente da sua obra, sem instrumen- tos de pesquisa adequados. A primeira edição publicada na página da IGS-BR apresenta os Cadernos em volumes separados para facilitar a consulta; cada vo- lume tem um ISBN1 para eventuais citações. A tarefa a seguir será constituída de Seminários voltados a analisar e retificar possíveis fragilidades da tradução, para a organização da segunda edição re- formulada. Reiteramos a nossa grata satisfação de publicar no site da IGS-BR, para acesso de modo gratuito, a versão brasileira com- pleta da edição crítica dos Cadernos do Cárcere. Anita Helena Schlesener Presidente da IGS/Brasil (Gestão 2022-2024) SOBRE A NOVA TRADUÇÃO DOS CADERNOS DO CÁRCERE NO BRASIL A nova tradução em português dos Cadernos do Cárcere é um evento de grande importância cultural e, em sentido amplo, polí- tico. Testemunhei, em parte, a idealização da primeira tradução par- cial de uma edição não antológica e temática dos Cadernos em lín- gua portuguesa no final de 1997, depois do primeiro colóquio da International Gramsci Society, que ocorreu naquele ano em Ná- poles. Realmente, poucos meses depois, Carlos Nelson Coutinho comunicou-me a ideia de uma ampla tradução (mas não completa) dos Cadernos no Brasil, enriquecida de um amplo aparato crítico, 1 O registro dos ISBNs desta primeira edição contou com a colaboração de Cleide Litiman, funcionária da Secretaria Geral da Anped, que intermediou o processo de cadastro junto à Câmara Brasileira de Livro. III adequado a explicar aos leitores brasileiros os muitos aspectos e referências a fatos e personagens presentes nos Cadernos. Um tra- balho desafiador e muito útil, por mérito – além de Coutinho – de Luiz Sérgio Henriques e Marco Aurélio Nogueira, três antigos amigos que, precisamente no colóquio de Nápoles, tinham nova- mente se encontrado renovando uma antiga paixão por Gramsci e o comunismo italiano. Aquela edição idealizada e conduzida por Coutinho, publica- da em seis volumes entre 1999 e 2002, junto à Editora Civiliza- ção Brasileira, porém, não era completa. Foi definida pelo próprio Carlos Nelson como uma edição crítico-temática, pois privilegia- va os “cadernos especiais”, temáticos, em detrimento dos textos de “primeira redação” (que, mais tarde, seriam retomados, reescritos e, algumas vezes, modificados por Gramsci). De qualquer modo, a edição publicada pela Civilização Brasileira teve uma importân- cia relevante para a difusão de Gramsci no Brasil. No entanto, o próprio Coutinho, alguns anos mais tarde, confidenciou-me que tinha se arrependido de não ter inserido nesta edição todas as notas gramscianas de “primeira redação”, isto é, de não haver traduzido integralmente as notas de reflexão crítica e de teoria dos Cadernos do Cárcere. Por que esta mudança de opinião? Esta era fruto de uma impor- tante transformação nos estudos sobre Gramsci que havia envolvi- do o próprio Coutinho. Na verdade, desde o final do século passado havia crescido, em nível internacional, a atenção dos estudiosos de Gramsci no sentido do aspecto “diacrônico” do seu pensamento, na direção do entrelaçamento entre as notas dos Cadernos e a história e a reflexão política de Gramsci, no cárcere ou na clínica de Formia. Em outras palavras, havia crescido notavelmente a atenção para o caráter de work in progress das notas carcerárias do grande mar- xista e comunista sardo. Tanto que, como se sabe, atualmente está em andamento uma nova edição críticaração milagrosa. A observação do general Krasnov (em seu romance),[3] que, durante a guerra da Entente (isto é, a Inglaterra que não queria a vitória da Rússia imperial, para que não | fosse definitivamente re- solvida a favor do czarismo a questão oriental), impôs ao Estado maior russo, a guerra de trincheira (absurda dado o enorme desen- volvimento da frente do Báltico ao Mar Negro, com grandes zonas pantanosas e florestais), enquanto a única possível era a guerra de manobra, há só uma aparência de verdade. Na realidade, o exérci- to russo tentou a guerra de manobra e de avanço, especialmente no setor austríaco (mas, também, na Prússia, nos lagos Masuri) e teve sucessos parciais brilhantíssimos, mas efêmeros. A guerra de posição não é, de fato, somente constituída por trincheiras verda- deiras e próprias, mas por todo o sistema organizativo e industrial do território que está por trás do exército posicionado, e é dado especialmente pelo tiro rápido dos canhões, das metralhadoras, dos fuzis e da sua concentração (além da sua abundância, que permite substituir rapidamente o material perdido depois de um avanço). Na frente oriental, vê-se de súbito a diferença que a tática russa de avanço obtinha nos seus resultados no setor alemão e naquele aus- tríaco: também no setor austríaco, depois da passagem de comando para os alemães, essa tática cai no desastre. O mesmo se vê na guerra polonesa de 1920, cuja invasão irresistível foi parada em Varsóvia por Weygand e pela linha realizada pelos oficiais franceses. |56a| 151930-1932: notas sobre filosofia ii Com isso, não se quer dizer que a tática de assalto e de avanço e a guerra manobrada devem ser consideradas como já desaparecidas do estudo da arte militar: seria um erro grosseiro. Mas ela, nas guer- ras entre os Estados mais avançados, industrial e civilmente, devem considerar-se reduzidas mais à função tática que à função estraté- gica, assim como era a guerra de assédio no período precedente da história militar. A mesma redução deve acontecer na arte e na ciência da políti- ca, pelo menos para aquilo que diz respeito aos Estados mais avan- çados, nos quais a “sociedade civil” tornou-se uma estrutura mui- to complexa e resistente às “irrupções” catastróficas do elemento econômico imediato (crises, depressões etc.): as superestruturas da sociedade civil são como o sistema de trincheiras na | guerra moderna. Tal como um ataque furioso de artilharia contra as trin- cheiras adversárias que parecia ter destruído tudo, na realidade, havia destruído somente a superfície da defesa, e, no momento de avanço, os assaltantes encontravam-se de frente à uma defesa ainda eficaz, assim acontece na política durante as grandes crises econô- micas: nem as tropas de assalto, pelo efeito da crise, organizam-se fulminantemente no tempo e no espaço, nem mais, nem menos, adquirem o espirito agressivo; como recíproca, os assaltados não se desmoralizam nem abandonam as defesas, mesmo entre os escom- bros, nem perdem a confiança na própria força e no próprio futu- ro. Não que as coisas continuem tais e quais; mas, as coisas não se desenrolam fulminantemente e com marcha progressiva definitiva como esperaria os estrategistas do cadornismo político. O último fato de tal gênero são os acontecimentos de 1917. Eles assinalaram uma reviravolta decisiva na história da arte e da ciência da política. Trata-se, portanto, de estudar, com profundidade, quais são os elementos da sociedade civil que correspondem ao sistema de de- fesa na guerra de posição. Digo “com profundidade” como esboço, porque foram estudados, mas de um ponto de vista superficial e ba- nal, como certos historiadores do costume estudam as estranhezas da moda feminina ou sei lá eu: de um ponto de vista “racional”, isto é, com a convicção de que certos fenômenos são destruídos apenas |57| 16 caderno 7 (vii) se lhes é dada uma justificação, ou com uma explicação “realista”, como superstição, enfim. CF. CADERNO 13 (XXX), PP. 18-18A. § 〈11〉. Um juízo sobre “idealismo atual” de Gentile. Da «Italia Letteraria», de 23 de novembro de 1930: artigo de Bruno Revel, Il VII Congresso di Filosofia: “... o idealismo atual nos representa ainda a história como a suprema instância de justificação. Atentan- do: esta história é prenha de todos os valores universais e positivos em si mesmos que outrora se isolavam em um reino transcendente de essências e de normas. Por isso, este idealismo imanente, valen- do-se de tais valores, no curso do tempo, sabiamente isolados e ab- solutizados – e válidos absolutamente somente porque afirmados como transcendentes, | puros – pode permitir-se de pregar e de ensinar moral, quase ignorando o próprio incurável relativismo e ceticismo. E, desde que a evolução social, marcada por uma cres- cente organização em torno à fábrica, tende a centralizações racio- nais férreas* e bem agencées, assim o idealismo atual não faz nada além de dar lustro* ao absoluto, dignidade metafisica a tal evolução, segundo a sua teoria do Estado. E, acredita conferir, assim, um cará- ter ético absoluto para eventuais necessidades industriais do Estado moderno”.[1] Contorcido e atabalhoado, mas se percebe a influên- cia do materialismo histórico. § 〈12〉. O homem-indivíduo e o homem-massa. O proverbio latino: Senatores boni viri, senatus mala bestia tornou-se um lugar comum. O que significa esse proverbio e qual significado assumiu? Que uma multidão de pessoas dominadas pelos interesses imediatos ou presa pela paixão suscitada pelas impressões do momento, transmitidas acriticamente de boca em boca, se unifica na pior decisão coletiva, que corresponde aos mais baixos instintos bestiais. A observação é justa e realista enquanto se refere às multidões casuais, tomadas como “uma multidão durante um aguaceiro sob uma marquise”, |57a| * NO MS: FALTA “FÉRREAS”. * NO MS: “FÉ”. 171930-1932: notas sobre filosofia ii compostas de homens que não são ligados por vínculos de respon- sabilidade frente a outros homens ou grupos de homens, ou diante de uma realidade econômica concreta, em que a decadência reper- cute no desastre dos indivíduos. Pode-se dizer, por isso, que, em tais multidões, o individualismo não somente não está superado, mas é exasperado pela certeza da impunidade e da irresponsabilidade. É, porém, também observação comum, que uma assembleia “bem ordenada” de elementos turbulentos e indisciplinados, uni- fica-se em decisões coletivas superiores à média individual: a quan- tidade torna-se qualidade. Se assim não fosse, não seria possível o exército, por exemplo, não seriam possíveis os sacrifícios inauditos que grupos humanos bem disciplinados sabem realizar em deter- minadas ocasiões, quando seu senso de responsabilidade social é despertado fortemente do sentido imediato do perigo comum e o futuro aparece mais importante do que o presente. Pode-se exem- plificar por um comício em praça, que | é diverso de um comício em sala fechada, e é diverso de um comício sindical de categoria profissional, e assim por diante. Uma sessão oficial de Estado Maior é bem diferente de uma assembleia de soldados de um pelotão etc. Tendência ao conformismo no mundo contemporâneo mais extensa e mais profunda do que no passado: 〈a〉 padronização do modo de pensar e de operar assume extensões nacionais ou até con- tinentais. A base econômica do homem-coletivo: grandes fábricas, taylorização, racionalização etc. Mas, no passado, existia ou não o homem-coletivo? Existia sob forma da direção carismática, para di- zer com Michels: obtinha-se uma vontade coletiva sob o impulso e a sugestão imediata de um “herói”, de um homem representativo; mas, esta vontade coletiva era devida a fatores extrínsecos e compu- nha-se e se decompunha continuamente. O homem coletivo atual forma-se, ao contrário, essencialmente de baixo para cima, na base da posição ocupada pela coletividade no mundo da produção: o homem representativo tem hoje, também, uma função na formaçãodo homem-coletivo, mas muito inferior àquela do passado, tanto que ele pode desaparecer sem que o cimento coletivo se desfaça e a construção desmorone. |58| 18 caderno 7 (vii) Afirma-se que “os cientistas ocidentais acreditam que a psique das massas não é outra coisa que o ressurgir dos antigos instintos da horda primordial e, portanto, um regresso aos estágios culturais há muito superados”;[1] isso é para referir-se à chamada “psicologia das multidões”, isto é, das multidões casuais e a afirmação é pseudocien- tífica, é ligada à sociologia positivista. Sobre o “conformismo” social ocorre apontar que a questão não é nova e que o alarme lançado por certos intelectuais é somente cômico. O conformismo sempre existiu: hoje, se trata de luta entre “dois conformismos”, isto é, de uma luta de hegemonia, de uma cri- se da sociedade civil. Os velhos dirigentes intelectuais e morais da sociedade sentem faltar o terreno sob os pés, eles percebem que os seus “sermões” tornaram-se exatamente “sermões”, isto é, coisas es- tranhas à realidade, pura forma sem conteúdo, larva sem espirito; daí, seu desespero e suas tendências reacionárias e conservadoras: | como a forma particular de civilização, de cultura, de morali- dade que eles representavam se decompõe, eles gritam pela morte de cada civilização, de cada cultura, de cada moralidade e pedem medidas repressivas ao Estado, ou se constituem em grupo de re- sistência aparado pelo processo histórico real, aumentando bas- tante a duração da crise, já que o eclipsar de um modo de viver e de pensar não pode verificar-se sem crise. Os representantes da nova ordem em gestação, por outro lado, por ódio “racional” ao velho, difundem utopias e planos cerebrais. Qual o ponto de referência para o novo mundo em gestação? O mundo da produção, o traba- lho. O máximo utilitarismo deve estar na base de cada análise dos institutos morais e intelectuais por serem criados e de princípios por difundir: a vida coletiva e individual deve ser organizada pelo máximo rendimento do aparato produtivo. O desenvolvimento das forças econômicas sobre novas bases e a instauração progressi- va da nova estrutura sanarão as contradições que não podem faltar e, tendo criado um novo “conformismo” de baixo, permitirão no- vas possibilidades de autodisciplina, ou seja, de liberdade também individual. |58a| 191930-1932: notas sobre filosofia ii § 〈13〉. Einaudi e o materialismo histórico. Não parece que Ei- naudi tenha estudado muito as teorias do materialismo históri- co; pode-se dizer, ao invés, que ele fala do materialismo histórico de orelha, por ouvir dizer, geralmente de terceira ou quarta mão. Tomou suas noções principais de Croce (Materialismo storico ed economia marxistica), mas, de modo superficial, e, também, de maneira desorganizada (em uma nota, coloquei em confronto um comentário de Croce sobre a originalidade da ciência e a repeti- ção grosseira que lhe faz Einaudi).[1] Aquilo que mais interessa é o fato de que, desde a «Riforma Sociale», sempre foi um escritor apreciado (e por um tempo, também membro da redação). Achille Loria, isto é, o divulgador, no pior sentido, do materialismo históri- co. Ao contrário, pode-se dizer que, na Itália, grande parte daquilo que se chama materialismo histórico, não foi nada além do que lo- rianismo: recentemente, exatamente na «Riforma Sociale», Loria publicou uma miscelânia de cartas suas, caoticamente organizadas, intitulando-a | Nuove conferme dell’economismo storico.[2] Na «Ri- forma Sociale» de novembro-dezembro de 1930, Einaudi publica uma nota, “Il mito dello strumento técnico, etc.”[3] a propósito da autobiografia de Rinaldo Rigola, que reforça a opinião preceden- temente acenada. Croce demonstrou precisamente, em seu volu- me sobre o materialismo histórico, que o mito do instrumento foi uma invenção de Loria,[4] aquilo que Einaudi não aponta. Einaudi também comete toda uma série de erros por “ignorantia elenchi”. 1º) confunde o instrumento técnico com o “desenvolvimento das forças econômicas” em geral; para ele, falar do desenvolvimento das forças econômicas significa falar do instrumento técnico; 2º) crê que, para o marxismo, “instrumento técnico” ou “forças eco- nômicas” significa falar das coisas materiais, cuja expressão jurídica é o princípio de propriedade; 3º) aparece também, neste escrito, o constante “cretinismo econômico”, que é próprio de Einaudi e de muitos dos seus seguidores, os quais, como propagandistas, são puros “iluministas”: seria interessante ver a coleção dos escritos de propaganda econômica de Einaudi;[5] aí apareceria que os capita- listas nunca entenderam os seus verdadeiros interesses e sempre se comportaram antieconomicamente, etc.. |59| 20 caderno 7 (vii) Dada a inegável influência de Einaudi sobre um grande extrato de intelectuais, valerá a pena fazer uma pesquisa sobre todas as no- tas em que ele acena ao materialismo histórico: recordar o artigo sobre Gobetti escrito no único número de “Baretti” e o comentário sobre Gobetti no Piemonte de Giuseppe Prato.[6] CF. CADERNO 10 (XXXIII), PP. 17 – 17ª. § 〈14〉. Depoimentos. De Luigi Volpicelli, “Per la nuova storio- grafia italiana” («La Fiera Letteraria», 29 de janeiro de 1928: “O primeiro quarto de século não foi infecundo de obras e de pes- quisas para os estudos históricos; no geral, pelo contrário, muitos passos adiante foram feitos em relação à historiografia do século passado. Renovada totalmente pelo materialismo histórico, a in- vestigação contemporânea conseguiu atingir novos caminhos, mais congruentes, tonando-se sempre mais exigente e complexa”. Mas Volpicelli não tem consciência exata | do que escreve; de fato, depois de ter falado desta função do materialismo histórico no primeiro quarto de século, critica a historiografia do século XIX (de modo muito vago e superficial), e continua: “Demorei- -me longamente sobre tal argumento (a historiografia dos 1800), para dar uma ideia precisa (!) ao leitor do passo gigantesco rea- lizado pela historiografia contemporânea. As consequências, de fato, foram enormes (– as consequências do quê?); a renovação foi, realmente, total. Foram destruídos os limites exteriores fi- xados pelas várias metodologias que exauriam as investigações históricas em uma formal pesquisa filológica ou diplomática; as tendências econômico-jurídicas foram superadas, há muito tem- po, pelo princípio de século, as lisonjas ao materialismo histórico, as abstrações e os apriorismos de certas ideologias, mais roman- cistas que históricas”.[1] Assim, o materialismo histórico, que ini- cialmente é o renovador da historiografia, torna-se de repente, de forma de “lisonja”, uma vítima da renovação, de agente funerário da historiografia de 1800, torna-se parte de 1800, sepultada com tudo dele. Volpicelli deveria estudar um pouco de lógica formal. |59a| 211930-1932: notas sobre filosofia ii § 〈15〉. A questão do capitalismo antigo e Barbagallo. A história de Barbagallo sobre o capitalismo antigo é hipotética, conjectural, possível, um esboço histórico, um esquema sociológico, não uma história certa e determinada. Os historiadores como Barbagallo caem, parece-me, em um erro filológico-crítico muito curioso: que a história antiga deva ser feita sobre documentos do tempo, sobre os quais se fazem hipóteses etc., sem ter em conta que todo o desenvolvimento histórico subsequente é um “documento” para a história precedente etc... Os imigrantes ingleses na América do Norte levaram com eles a experiencia técnico-econômica da Ingla- terra; como se perdeu a experiência do capitalismo antigo, se ele verdadeiramente existiu, como Barbagallo deixa supor ou quer que se suponha? § 〈16〉. Guerra de posição e guerra manobrada ou frontal. Deve-se ver se a famosa teoria de Bronstein sobre a permanência do movi- mento[1] não é o reflexo político da teoria da guerra manobrada (recordar | a observação do general dos cossacos, Krasnov),[2] em última análise, o reflexodas condições gerais-econômicas-culturais de um país em que os quadros da vida nacional são embrionários e soltos, e não podem tornar-se “trincheira ou fortaleza”. Neste caso, se poderia dizer que Bronstein, que aparece como um “ocidental”, era, ao contrário, um cosmopolita, isto é, superficialmente nacional e superficialmente ocidental ou europeu. Ao contrário, Ilitch era profundamente nacional e profundamente europeu. Bronstein, em suas memórias, recorda que lhe foi dito que sua teoria se demons- trou boa depois... de quinze anos, e responde ao epigrama com ou- tro epigrama.[3] Na realidade, a sua teoria como tal, não era boa nem quinze anos antes, nem quinze anos depois: como acontece com os obstinados, de que fala Guicciardini, ele adivinhou por ata- cado, isto é, ele estava certo na previsão prática mais geral; é como dizer que uma menina de quatro anos se tornará mãe e, quando se torna aos vinte anos, se diz que “eu havia adivinhado”, não recor- dando, porém, que quando tinha quatro anos, queriam estuprar a menina com certeza que ela seria mãe. A mim parece que Ilitch ti- nha compreendido que ocorria uma mudança da guerra manobra- |60| 22 caderno 7 (vii) da, aplicada vitoriosamente no Oriente em 1917, para a guerra de posição que era a única possível no Ocidente, onde, como observa Krasnov,[4] em breve espaço, os exércitos podiam acumular quanti- dades inumeráveis de munições, onde os quadros sociais, eles pró- prios, ainda eram capazes de tornar-se trincheiras munidíssimas. Isso me parece significar a fórmula da “frente única”,[5] que corres- ponde à concepção de uma única frente da Entente sob o comando único de Foch. Só que Ilitch não teve tempo para aprofundar sua fórmula, mesmo tendo em conta que ele poderia aprofundá-la ape- nas teoricamente, enquanto a tarefa fundamental era nacional, isto é, demandava um reconhecimento do terreno e uma fixação dos elementos de trincheira e de fortaleza representados pelos elemen- tos de sociedade civil etc. No Oriente, o Estado era tudo, a socie- dade civil era primordial e gelatinosa; no Ocidente, entre Estado e sociedade civil havia uma relação justa e, no abalo do Estado, po- der-se-ia ver, imediatamente, uma robusta | estrutura da sociedade civil. O Estado era somente uma trincheira avançada, atrás da qual estava uma robusta rede de fortalezas e casamatas; mais ou menos, de Estado a Estado, compreende-se, mas isso exigia, certamente, um reconhecimento acurado de caráter nacional. A teoria de Bronstein pode ser comparada àquela de certos sin- dicatos franceses sobre a greve geral e à teoria de Rosa no folheto traduzido por Alessandri,[6] o folheto de Rosa e a teoria de Rosa influenciaram, de resto, os sindicalistas franceses, como aparece em certos artigos de Rosmer sobre a Alemanha na «Vie Ouvrière» (primeira série em fascículos):[7] depende em parte, também, da teoria da espontaneidade. § 〈17〉. Croce. Pode-se dizer que Croce é o último homem do Renascimento, e que exprime relações internacionais ou cosmo- politas, mais do que relações puramente nacionais (isto não quer dizer que Croce não seja um elemento nacional, mesmo na acep- ção moderna do termo, quer dizer que, em Croce, verifica-se, mes- mo no tempo moderno e nas condições da vida moderna, aquelas funções de elemento intelectual cosmopolita, que se verificou nos intelectuais italianos da Idade medieval no final do século XVII). |60a| 231930-1932: notas sobre filosofia ii A função de Croce, resumindo, é símile àquela do papa, e é neces- sário dizer que Croce, no âmbito de sua influência, sabe melhor, ou pode melhor, se movimentar do que o próprio papa: a guerra é o exemplo típico. Não é necessário considerar tanto Croce como filosofo, quanto Croce como moralista e mestre de vida, cons- trutor de princípios de conduta. Os dois Croces são inseparáveis teoricamente, mas praticamente, a influência croceana se difunde mais através de sua atividade polêmica menor, do que através de suas obras teóricas. Coloca-se o problema de quem representa melhor e mais radi- calmente a sociedade contemporânea italiana do ponto de vista teórico e moral: o papa, Croce ou Gentile, ou seja, quem tem mais importância do ponto de vista hegemônico na estrutura da socie- dade civil, conteúdo da sociedade política. Segundo penso, a im- portância maior é do papa, depois, de Croce e, terceiro, de Gentile. Parece-me que a filosofia de Gentile, o atualismo, esteja estreita- mente ligada ao momento | econômico-corporativo, ainda à fase da expressão técnica direta deste momento. Por essa mesma razão, muitos podem crer o contrário, e com aparência de razão, assim como creem que seja mais representativo dos interesses industriais no Parlamento um industrial em vez de um advogado, um pro- fessor ou quem sabe um organizador de sindicatos operários, sem pensar que, se a inteira maioria do Parlamento fosse composta de industriais, o Parlamento perderia imediatamente a sua função po- lítica e o seu prestígio. (Recordar o discurso de Gentile em Roma, e publicado em «Cultura e fascismo»).[1] O papa e Croce estão sob o mesmo plano teórico (isto é, Croce é uma espécie de papa laico), mas, a maior importância do papa é a de ser ele o chefe de um aparato diretivo fortemente centralizado e disciplinado, o que não se pode dizer de Croce; além disso, o papa influi sobre massas determinadas do povo na fixação de normas de vida que se referem mesmo às coisas mais elementares, enquanto que a “moralidade” de Croce é do tipo Renascimento, não pode se tornar popular. CF. CADERNO 10 (XXXIII), PP. 21ª – 23. |61| 24 caderno 7 (vii) § 〈18〉. Unidade nos elementos constitutivos do marxismo. A uni- dade é dada pelo desenvolvimento dialético das contradições entre o homem e a matéria (natureza – forças materiais de produção). Na economia, o centro unitário é o valor, ou seja, a relação entre o tra- balhador e as forças industriais de produção (os negadores da teoria do valor caem no crasso materialismo vulgar colocando as máqui- nas em si – como capital constante ou técnico – como produtoras de valor fora do homem que a conduz). Na filosofia – a práxis – isto é, a relação entre a vontade humana (superestrutura) e a estrutura econômica. Na política – relação entre o Estado e a sociedade ci- vil – isto é, a intervenção do Estado (vontade centralizada) para educar o educador, o ambiente social em geral. (Para aprofundar e colocar em termos mais exatos). § 〈19〉. Ideologias. Um elemento de erro na consideração do valor das ideologias parece-me ser devido ao fato (fato que, no entanto, não é casual) de que se dá o nome de ideologia seja para a superes- trutura necessária de uma determinada estrutura, seja para as elo- cubrações arbitrárias de determinados indivíduos. O pior sentido |da palavra tornou-se extenso, e isso modificou e distorceu a análi- se teórica do conceito de ideologia. O processo desse erro pode ser facilmente reconstruído: 1º) identifica-se ideologia como distinta da estrutura e se afirma que não são as ideologias que mudam as estruturas, mas o contrário; 2º) afirma-se que uma certa solução política é “ideológica”, isto é, insuficiente para mudar a estrutura, enquanto se crê poder mudá-la, afirma-se que é inútil, estúpida etc.; 3º) passa-se a afirmar que toda ideologia é “pura” aparência, inútil, estúpida etc. É preciso, portanto, distinguir entre ideologias historicamente orgânicas, que são, pois, necessárias a uma certa estrutura, e ide- ologias arbitrárias, racionalistas, “desejadas”. Enquanto historica- mente necessárias, elas têm uma validade “psicológica”, organizam as massas humanas, formam o terreno em que os homens se mo- vem, adquirem consciência das suas posições, lutam etc. Enquanto as ideologias “arbitrárias” não criam nada além de “movimentos” individuais, polêmicos etc.; (não são completamente inúteis nem |61a| 251930-1932: notas sobre filosofia ii mesmo essas, porque são como o erro que se contrapõe à verdadee a afirma). § 〈20〉. O “Ensaio Popular”. Não foi tratado o ponto fundamen- tal: como, das estruturas, nasce o movimento histórico? E, no en- tanto, este é o ponto crucial de toda a questão do materialismo his- tórico, é o problema da unidade entre a sociedade e a “natureza”. As duas proposições – 1) a “sociedade” não se põe problemas para cuja solução já não tenham sido criadas as condições (bases) necessárias e suficientes; 2) nenhuma forma de sociedade desaparece antes de ter primeiro exaurido todas as suas possibilidades de desenvolvi- mento –[1] teriam de ter sido analisadas em toda sua consequência e alcance. Somente neste terreno pode ser eliminado qualquer me- canicismo e cada traço de “milagre” supersticioso. Também neste terreno deve ser posto o problema da formação de agrupamentos sociais e partidos políticos e, em última análise, aquele da função das grandes personalidades na história. CF. CADERNO 11 (XVIII), PP. 35 – 35BIS. | § 〈21〉. Validade das ideologias. Recordar a frequente afirmação de Marx acerca da “solidez das crenças populares” como elemento necessário de uma determinada situação: ele, aproximadamente, diz: “quando este modo de conceber tiver a força das crenças popu- lares” etc. (Pesquisar essas afirmações e analisar o contexto em que são expressas).[1] Outra afirmação de Marx é que uma persuasão popular tem, geralmete, a mesma energia de uma força material ou qualquer coisa de símile,[2] e que é muito significativa. A análise dessas afirmações, creio, leva a reforçar a concepção de “bloco his- tórico”, em que, precisamente, as forças materiais são o conteúdo, e as ideologias, a forma, distinção de forma e conteúdo meramente didática, porque as forças materiais não seriam concebidas histo- ricamente sem forma, e as ideologias seriam caprichos individuais sem as forças materiais. § 〈22〉. Teoria dos custos comparativos (e decrescentes). Seria de ver se esta teoria, que ocupa o mesmo posto na economia moderna ofi- cial que aquela do equilíbrio estático e dinâmico, não seria perfeita- |62| 26 caderno 7 (vii) mente aderente (ou correspondente em outra linguagem) à teoria marxista do valor (e da queda tendencial da taxa de lucro), isto é, não lhe seria o equivalente científico em linguagem oficial e “pura” (despojada de qualquer energia política para as classes produtoras subalternas). § 〈23〉. A cidade de Cuccagna de Graziadei. Em seu opúsculo Sin- dicati e salari*, Graziadei recorda-se de, finalmente, depois de 35 anos, referir-se à nota sobre a cidade de Cuccagna, a ele dedicada por Croce, no ensaio “Recenti interpretazioni della teoria marxisti- ca del valore” (p. 147 do volume Materialismo storico, etc. IVª Edi- ção), e chama de “um tanto grosseiro” o seu exemplo analisado por Croce.[1] Realmente, o caso de Graziadei, de “uma sociedade em que não com excesso de trabalho, mas com não trabalho, exista o lucro”, é típico, também, de toda a recente produção de Graziadei – e fez bem Rudas de reportá-lo no início de seu ensaio sobre Prezzo e sovrapezzo, publicado em «Unter dem Banner», de 1926,[2] (não recordo mais se Rudas lhe deu este valor essencial). Toda a con- cepção de Graziadei é baseada neste princípio desconexo de que as máquinas e organizações materiais (por si só) produzem lucro, isto é, valor: em 1894 (artigo da «Critica Sociale» analisado por Cro- ce) [3], | a sua hipótese era total (todo o lucro existe sem qualquer trabalho); agora, a sua hipótese é parcial (nem todo o lucro existe pelo trabalho) mas, “grosso modo” (gracioso eufemismo chamar de “grosso modo” a hipótese primitiva), permanece parcialmen- te. Todo modo de pensar é “grosseiro”, de advogado vulgar e não de economista. Com Graziadei, é necessário mesmo reinventar os princípios fundamentais da economia, voltar à logica desta ciência: Graziadei é mestre na pequena lógica, na arte do sofisma e da casu- ística sofistica, mas não da grande lógica, seja da economia, seja de qualquer outra ciência do pensamento. O mesmo princípio de Graziadei, da cidade de Cuccagna, apa- rece na introdução da proteção alfandegária como elemento “cria- dor” de margens de lucro e de margens de salário: foi demonstra- * NO MS: “CAPITAL E SALÁRIOS”. |62a| 271930-1932: notas sobre filosofia ii do, de fato (comparar com a literatura antiprotecionista), que, sem produzir nenhum “valor” e sem fazer trabalhar um operário (trabalham somente datilografas que escrevem os certificados de ações inexistentes), se pode ter grandes “lucros” e distribuir altos “dividendos” (cf. por exemplo, L. Einaudi e E. Giretti, “Le società anonime a catena”, na «Riforma Sociale» de janeiro-fevereiro de 1931):[4] deve-se ver se, desta atividade “econômica”, deva se ocupar a ciência econômica (se bem que essa seja “econômica” no sentido croceano, como a bandidagem, a Camorra, etc.) ou a magistratura penal. Recordar uma polêmica, na «Critica Sociale», entre Graziadei e Luigi Negro (antes de 1900, me parece), em que Negro observava que Graziadei tem a tendência de aceitar como “exatas”, e base de especulações científicas, as afirmações públicas dos industriais so- bre as suas atividades.[5] § 〈24〉. Estrutura e superestrutura. Economia e ideologia. A pre- tensão (apresentada como postulado essencial do materialismo his- tórico) de apresentar e expor cada flutuação da política e da ideolo- gia como uma expressão imediata da estrutura, deve ser combatida teoricamente como um infantilismo primitivo, ou, praticamente, deve ser combatida com o testemunho autêntico de Marx, escritor de obras políticas e históricas concretas. Para este aspecto, são im- portantes, especialmente, o 18 Brumário e os escritos sobre a Quis- tione Orientale, mas também outros (Rivoluzione e Controrivolu- zione in Germania, La guerra civile in Francia e menores).[1] Uma análise dessas obras | permite fixar melhor a metodologia histórica marxista, integrando, iluminando e interpretando as afirmações teóricas espalhadas por todas as obras. Poder-se-á ver quantas cau- telas reais Marx introduz nas suas pesquisas concretas, cautelas que não poderiam encontrar lugar nas obras gerais (elas poderiam en- contrar lugar somente em uma exposição metodológica sistemática tipo Bernheim, e o livro de Bernheim poderá estar presente como “tipo” de manual escolar ou “ensaio popular” do materialismo his- tórico, em que, para além do método filológico e erudito – em cujo programa se atém Bernheim, se bem que exista em seu tratado uma |63| 28 caderno 7 (vii) concepção de mundo –, deveria ser explicitamente tratada a con- cepção marxista da história).[2] Entre essas cautelas poderíamos elencar como exemplo essas: 1º) A dificuldade de identificar, de tempo em tempo, estati- camente (como imagem fotográfica espontânea), a estrutura; a política, de fato, é, por vezes, o reflexo das tendências de desen- volvimento da estrutura, tendências que não podemos dizer que, necessariamente, devem se realizar. Uma fase estrutural pode ser concretamente estudada e analisada somente depois que ela tenha superado todo o seu processo de desenvolvimento, não durante o processo mesmo, apenas se por hipótese, e explicitamente declaran- do que se trata de hipótese. 2º) Do 1º se deduz que um determinado ato político pode ter sido um erro de cálculo da parte dos dirigentes das classes domi- nantes, erro que o desenvolvimento histórico, através das “crises” parlamentares governantes das classes dirigentes, corrige e supera: o materialismo histórico mecânico não considera a possibilidade de erro, mas assume cada ato político como determinado pela estrutu- ra, imediatamente, isto é, como reflexo de uma real e permanente (no sentido de adquirida) modificação da estrutura. O princípio do “erro” é complexo: pode tratar-se de um impulso individual devido a erro de cálculo, ou de manifestação das tentativas de determina- dos grupos ou grupinhos de assumir a hegemonia no interior do reagrupamento dirigente, tentativas que podem falir. 3º)Não se considera muito que muitos atos políticos são devi- dos à necessidade interna de caráter organizativo, isto é, ligados à necessidade de dar uma coerência a um partido, a um grupo, à uma sociedade. Isto parece claro na | história, por exemplo, da Igreja ca- tólica. Se, de cada luta ideológica interna à Igreja, se quisesse encon- trar explicação imediata, primária, na estrutura, se estaria encrenca- do: muitos romances político-econômicos foram escritos por esta razão. Pelo contrário, é evidente que a maior parte destas discussões estão ligadas às necessidades sectárias, de organização. Na discussão entre Roma e Bizâncio sobre a procedência do Espírito Santo, seria ridículo procurar na estrutura do Oriente Europeu a afirmação que |63a| 291930-1932: notas sobre filosofia ii o Espírito Santo procede somente do Pai, e naquela do Ocidente a afirmação de que Ele procede do Pai e do Filho. As duas Igrejas, cuja existência (e cujo conflito) está em dependência da estrutura e de toda a história, colocaram questões que são princípio de distin- ção e de coesão interna para cada uma, mas poderia acontecer que cada uma das duas Igrejas tivesse afirmado aquilo que, ao contrá- rio, afirmou a outra: o princípio de distinção e de conflito teria se mantido o mesmo, e é este problema da distinção e do conflito que constitui o problema histórico, não a casual bandeira de cada uma das partes. A “estrelinha” que escreve romances de extensões ideológicas nos «Problemi del Lavoro» (que deve ser o famigerado Franz Weiss), na sua divertida canção de ninar, “Il dumping russo e il suo significato storico”,[3] falando exatamente desta controvérsia dos primeiros tempos cristãos, afirma que eles são ligados às condições materiais imediatas do tempo, e que se não conseguimos identificar essa ligação imediata é porque os fatos estão longe, ou por outra nossa debilidade intelectual.[4] A posição é cômoda, mas irrelevan- te cientificamente. De fato, cada fase histórica real deixa traços de si nas fases sucessivas que se lhe tornam, em certo sentido, o melhor documento. O processo de desenvolvimento histórico é uma uni- dade no tempo, pelo qual o presente contém todo o passado, e do passado se realiza no presente aquilo que é “essencial”, sem resíduo de um “incognoscível” que seria a verdadeira “essência”. Aquilo que é “perdido”, isto é, não é transmitido dialeticamente no processo histórico, era por si só irrelevante, era “escória” casual e contingen- te, crônica | e não história, episódio superficial, insignificante, em última análise. § 〈25〉. Objetividade do real. Para compreender os significa- dos que pode ter esse conceito, parece-me oportuno levar a cabo o exemplo dos conceitos “Oriente” e “Ocidente”, que não cessam de ser “objetivamente reais”, mesmo que as análises se demonstrem nada mais que uma “construção convencional”, ou seja, “histórica” (muitas das vezes, os termos “artificial” e “convencional” indicam fatos “históricos”, produzidos pelo desenvolvimento da civilização, |64| 30 caderno 7 (vii) e não construções racionalmente arbitrárias ou individualmente arbitrárias). Recordar o opúsculo de Bertrand Russell (ed. Sonzog- no, em uma nova coleção cientifica, número 5 ou 6) sobre a filosofia neorrealista, e o seu exemplo. Russell, aproximadamente, diz: “Nós não podemos pensar, sem a existência do homem sobre a terra, a existência de Londres e de Edimburgo, mas podemos pensar a exis- tência de dois lugares, onde estão hoje Londres e Edimburgo, um ao Norte e outro ao Sul”.[1] Poderia se objetar que, sem pensar na existência do homem, não se pode pensar de “pensar”, não se pode pensar, em geral, nenhum fato ou relação que exista somente en- quanto existe o homem. Mas, o fato mais típico, deste ponto de vista, é a relação Nor- te-Sul e, especialmente, Leste-Oeste. Essas são relações reais e, to- davia, não existiriam sem o homem e sem o desenvolvimento da civilização. É evidente que Leste e Oeste são construções* arbi- trárias, e convencionais (históricas), porque (fora da história real) cada ponto da terra é Leste e Oeste ao mesmo tempo: construções convencionais e históricas, não do homem em geral, mas das classes cultas europeias, que, através de sua hegemonia mundial, as fize- ram aceitas em todo o mundo. O Japão provavelmente é Extremo Oriente não somente para o Europeu, mas também, para o ameri- cano da Califórnia e pelo próprio Japonês, o qual, através da cultura inglesa, chamará Oriente próximo o Egito, que, de seu ponto de vista, deveria ser Ocidente longínquo etc. Por outro lado, o valor puramente histórico de tais referências aparece pelo fato de que, hoje, as palavras Oriente e Ocidente adquiriram um significado ex- tra cardeal e indicam também relações entre complexos de civiliza- ções. | Por isso, o Marrocos será indicado como país oriental pelas nações da Europa mediterrânea, que estão, ao contrário, a Leste do Marrocos e, neste caso, “oriental” significará “muçulmano”, “árabe”, ou mesmo “asiático” etc. Todavia, essas referências são reais, cor- respondem a fatos reais, permitem viajar por terra e mar e chegar exatamente onde foi estabelecido chegar, prever o futuro, “objeti- *NO MS, ORIGINALMENTE, “FIXAÇÃO”; “CONSTRUÇÕES” É ADJUNTO, COMO VARI- ANTE INTERLINEAR. |64a| 311930-1932: notas sobre filosofia ii var a realidade”, entender a “objetividade real do mundo externo”. Racional e real identificam-se. Penso que, sem ter compreendido essa relação, não se pode entender o materialismo histórico, a sua posição filosófica em confronto com o idealismo e com o materia- lismo tradicional e a importância e o significado das superestrutu- ras: Marx não substituiu a “ideia” hegeliana com o “conceito” de estrutura, como afirma Croce.[2] A ideia hegeliana está (resolvida) tanto na estrutura como nas superestruturas e toda a concepção filosófica [tradicional (e não apenas hegeliana)] é “historicizada”, tornada realidade, com uma outra expressão linguística e, portanto, uma outra filosofia, [se] entendida como [sistema de] “conceitos” acerca da realidade. CF. CADERNO 11 (XVIII), PP. 33BIS – 34. § 〈26〉. Sobre o “Ensaio Popular”. Registro de intelectuais cuja filosofia é combatida com alguma divulgação, e anotação de seu sig- nificado e importância científica. Menções a grandes intelectuais feita fugazmente. Coloca-se a questão: não seria melhor, ao contrá- rio, referir-se somente aos grandes intelectuais adversários e, talvez, a apenas um deles e esquecer os secundários? Deixa precisamente a impressão de que se procura combater os mais débeis e, talvez, as posições dos mais débeis (ou mais inadequadamente expressas pelos mais débeis) para obter uma vitória fácil (considerando que exista a vitória real). Ilusão de que exista semelhança (para além de formal) entre uma frente ideológica e uma frente político-militar. Na luta política e militar pode ser conveniente a tática de romper os pontos de menor resistência para estar em condições de se in- vestir contra o ponto mais importante, com o máximo de força disponibilizado justamente por ter eliminado os “auxiliares” mais fracos etc. A vitória política e militar, dentro de certos limites, é permanente, o fim estratégico pode | ser atingido de modo deci- sivo, dentro de certos limites. Na frente ideológica, ao contrário, a derrota dos auxiliares e dos seguidores menores, tem importância infinitamente menor: nisso, é necessário lutar contra os mais imi- nentes e não contra os menores. Entretanto, se confunde o jornal |65| 32 caderno 7 (vii) com o livro, a polêmica cotidiana com o trabalho científico. Os menores, justamente, devem ser abandonados para a controvérsia de tipo jornalístico. Mas, uma ciência nova alcança a prova de sua eficiência e vitalidade quando demonstra saber confrontar os gran- des campeões da tendência oposta, quando explica com os próprios meios as questões vitais que eles tenham colocado, ou demonstra peremptoriamente que esses problemassão falsos problemas. É verdade que uma determinada época e uma determinada ci- vilização são melhor representadas pela média dos intelectuais e, portanto, pelos intelectuais medíocres, mas a ideologia difundida, de massa, deve ser distinguida das obras cientificas, das grandes sínteses filosóficas, as quais são as verdadeiras pedras angulares, e estas devem ser claramente superadas, negativamente, demonstran- do-lhes a falta de fundamento e, positivamente, contrapondo-lhes sínteses filosóficas equivalentes por significado e importância. A parte negativa e a positiva não podem ser divididas a não ser por motivos didáticos. Lendo-se o Ensaio Popular, se tem a impressão de alguém que está enfadado por não conseguir dormir por conta da luz da lua, e se distrai matando vagalumes, convicto que a luz diminuirá ou desaparecerá. CF. CADERNO 11 (XVIII), PP. 35BIS-36. § 〈27〉. Graziadei e a cidade de Cuccagna. Ver, no Gog de Papini (entrevista com Ford, p. 24), as palavras atribuídas a Ford: “Fabri- car sem nenhum operário um número sempre maior de objetos que não custam quase nada”.[1] § 〈28〉. Sociedade civil e sociedade política. Separação entre socie- dade civil e sociedade política: colocou-se um novo problema de hegemonia, isto é, mudou-se a base histórica do Estado. Há uma forma extrema de sociedade política: ou para lutar contra o novo e conservar o vacilante reforçando-o, ou como expressão do novo para romper as resistências que encontra no desenvolver-se, etc. | § 〈29〉. Sobre o “Ensaio Popular”. É possível escrever um livro elementar, um manual, um ensaio popular, quando uma doutri- |65a| 331930-1932: notas sobre filosofia ii na está ainda no estado de discussão, de polêmica, de elaboração? O manual popular pode apenas ser concebido como a exposição formalmente dogmática, estilisticamente calma, cientificamente serena, de um determinado tema: ele é uma introdução ao estudo científico, não a exposição mesma da pesquisa científica original, dedicado ou à idade jovem, ou a um público que, do ponto de vista da disciplina científica, encontra-se ainda em condições prelimina- res da idade juvenil, e que, por isso, tem necessidade imediata de “certezas”, de opiniões que se apresentam como verídicas e fora de discussão, no momento. Se uma determinada doutrina não atin- giu ainda esta fase “clássica” do seu desenvolvimento, toda tenta- tiva de torná-la manual, falha, sua sistematização lógica é somente aparente: tratar-se-á, ao contrário, como ocorre no Ensaio, de uma mecânica justaposição de elementos díspares, ou que continuam inexoravelmente independentes e desconexos entre eles. Por que, então, não colocar a questão em seus justos termos históricos e teó- ricos e publicar um livro em que a série de problemas essenciais da doutrina seja exposta monograficamente? Seria mais sério e mais “científico”. Mas, se crê que ciência queira, “absolutamente”, dizer “sistema”, e, por isso, se constroem quaisquer sistemas, que de siste- ma tem somente a exterioridade mecânica. É notável que, no Ensaio, falte um tratado adequado à dialéti- ca: a dialética vem pressuposta, não exposta, coisa absurda em um manual que deve conter em si os elementos essenciais da doutrina tratada e em cujas referências bibliográficas deve ter o fim de incen- tivar a alargar e aprofundar a matéria, não de substituir o próprio manual. A questão de ausência de um tratamento da “dialética” pode ter duas origens: 1ª) A primeira é constituída pelo de fato que o materialismo his- tórico não é concebido como uma filosofia, do qual a dialética é a doutrina do conhecimento, mas como uma “sociologia”, | cuja filo- sofia é o materialismo filosófico ou metafisico, ou mecânico (vulgar, como dizia Marx). Colocada assim a questão, não se entende mais a importância e o significado da dialética que vem degradada a uma subespécie da lógica formal, a uma escolástica elementar. A função |66| 34 caderno 7 (vii) e o significado da dialética só podem ser concebidos em toda a sua fundamentalidade, quando o materialismo histórico é concebido como uma filosofia integral original, que inicia uma nova fase na história e no desenvolvimento mundial do pensamento, enquan- to supera (e superando, inclui em si próprio os elementos vitais) o idealismo e o materialismo tradicionais, expressões da velha so- ciedade ocorrida na história mundial. Se o materialismo histórico não pode ser pensado sem que esteja subordinado a uma (outra) filosofia, aquela do materialismo filosófico, não se pode conceber a dialética marxista, na qual exatamente aquela superação se efetua e se exprime. 2ª) A segunda origem me parece de ordem psicológica. Se sente que a dialética é coisa muito árdua e difícil, enquanto o pensar dia- leticamente vai contra o senso comum vulgar, que tem a lógica for- mal como expressão, é dogmático e ávido de certezas peremptórias. Para se ter um exemplo prático, se pense no que aconteceria se, nas escolas secundárias e primárias, as ciências naturais e cosmográficas fossem ensinadas com base do relativismo de Einstein, e, acompa- nhando a noção tradicional de “lei da natureza”, viesse aquela de “lei estatística ou dos grandes números”. Os jovens e adolescentes não entenderiam nada de nada e o choque entre o ensinamento escolar e a lógica das relações familiares e populares seria tal que a escola se tornaria objeto familiar de ludíbrio e de ceticismo caricatural. Este motivo me parece ser um freio psicológico para o autor de Ensaio Popular: ele realmente capitula diante do senso comum e do pensa- mento vulgar, porque não se colocou o problema em termos teóri- cos exatos, e, portanto, está praticamente desarmado e impotente. O ambiente sem educação e rude dominou o educador, o senso co- mum vulgar se impôs à ciência e não o contrário: se o ambiente é o educador, ele deve ser educado por sua vez, escreveu Marx,[1] mas o Ensaio Popular não entende esta dialética revolucionária. CF. CADERNO 11 (XVIII), PP. 36-37. | § 〈30〉. Sobre Graziadei. Para entender Graziadei, é preciso voltar aos conceitos fundamentais da ciência econômica. 1º) De- |66a| 351930-1932: notas sobre filosofia ii ve-se estabelecer que a ciência econômica parte da hipótese de um mercado determinado, ou de pura concorrência, ou de puro mo- nopólio, exceto para então estabelecer quais variações um e outro elemento da realidade pode fazer a esta constante, que nunca é “pura”. 2º) Que se estuda a produção de nova riqueza real e não as redistribuições de riqueza existente (a menos que não se queira mesmo estudar esta redistribuição), isto é, a produção do valor e não a redistribuição de valor já distribuído sob a base da produção determinada. Sobre Graziadei será necessário, pois, fazer uma acurada pesqui- sa na sua biografia política e científica. O seu livro sobre nitrato no Chile:[1] ele não podia pensar na possibilidade da produção sinté- tica de nitrogênio que venceu o monopólio chileno na quebra: será interessante rever as afirmações peremptórias que ele fez sobre este monopólio. Devido à sua posição política, a resposta de Graziadei à investigação “Viajante” em 1908-1909:[2] Graziadei foi um dos mais hábeis e oportunistas. Opúsculo sobre sindicalismo:[3] o mo- delo de Graziadei era o trabalhismo inglês, o liquidante do partido. A sua posição no pós-guerra, curioso fenômeno de psicologia de intelectual, que (é) persuadido “intelectualmente” da estupidez do reformismo político, e, portanto, dele se distancia e se opõe a ele. Mas, uma coisa é a esfera da inteligência abstrata e outra aquela da prática e da ação. No campo científico, encontra, depois de 1922, o terreno de retirada e o retorno à posição de guerra avançada. Co- loca-se o problema: é leal pesquisar no passado de um homem to- dos os erros que ele cometeu por negligência para os propósitos da atual polêmica? Não é humano que se erre? Não é, pelo contrário, através dos erros que se formam as atuais personalidades científi- cas? E abiografia de cada um não é, em grande parte, a luta contra o passado e a superação do passado? Se alguém não é religioso hoje, é lícito recordar-lhe que ele foi batizado e, até uma certa idade, ob- servou as regras do culto? Mas, o caso de Graziadei é bem diverso. Ele teve o cuidado de não criticar e superar seu próprio passado. No campo econômico, limitou-se, por certo tempo, a calar: ou mesmo argumentou, a propósito do ritmo de centralização do capital no 36 caderno 7 (vii) campo, que a “prática atual” dava razão às suas teorias (– sobre a superioridade da meação | sobre a empresa capitalista centralizada, que era o mesmo que afirmar a superioridade do artesanato sobre o sistema de fábrica – ele se baseava na Romagna e até mesmo em Imola para essa sua conclusão. Não se dava conta do compulsório no período de 1901-1910, como demonstra o censo de 1911[4] e, especialmente, não levava em consideração os fatores político-pro- tecionistas que determinavam a situação no vale do Pó: a Itália ti- nha tal escassez de capitais que seria, verdadeiramente milagroso, um uso extensivo na agricultura). Na política, ele se safou afirmando sofisticamente de ter sido “historicista” ou “temporal” [se o carrasco domina, você tem que agir como seu lacaio – eis o historicismo de Graziadei], isto é, de não ter tido nunca princípios: no período 1895-1914, “necessitava” ser trabalhista, no pós-guerra antitrabalhista etc. Recordar a insis- tência enfadonha de Graziadei a propósito da afirmação “as des- pesas militares improdutivas”, a que ele se gabava de sempre ter se oposto como tola e demagógica: veja-se como ele se opôs a ela en- tão, quando era a favor de ir para o governo. Assim, é de notar a sua concepção pessimista-fofoqueira sobre “Italianos” em bloco, todos sem caráter, velhacos, seres civilmente inferiores etc., etc., concep- ção insensata e banalmente derrotista, forma de antirretórica, que era, pois, uma verdadeira e própria retórica deprimente e de falso esperto, tipo Stenterello-Maquiavel. Que, na Itália, haja uma cama- da pequeno burguesa particularmente repugnante, é certamente verdadeiro, mas essa camada seria toda a Itália? Boba generalização. Por outro lado, também esse fenômeno tem origem histórica e não é, de fato, uma fatal qualidade do homem italiano: o materialismo histórico de Graziadei se assemelha àquele de Ferri, de Niceforo, de Lombroso, de Sergi, e se sabe qual função histórica essa concepção biológica da “barbárie” atribuída aos Meridionais (de fato, pelos Sujos)[5] teve na política da classe dirigente italiana. § 〈31〉. Sobre a crítica literária. O modelo de crítica de De Sanc- tis. Ao tratar desse tema, recordar o ensaio de De Sanctis, Scienza e |67| 371930-1932: notas sobre filosofia ii Vita[1] [que, depois, é um modo de colocar a questão da unidade de teoria e prática], e a discussão a que é dado lugar: p. ex. o artigo de L. Russo em «Leonardo», de 1928 (ou 1929).[2] De Russo, deve- -se ver o estudo sobre Francesco De Sanctis e l’Università di Napoli, Casa ed. La Nuova Italia.[3] § 〈32〉. Henri De Man. De um artigo de Artur Masoero, “Un americano non hedonista” (em «Economia», de fevereiro de 1931),[1] resulta que muitas opiniões expostas por H. De Man na Gioia del Lavoro[2] e, portanto, também em | outros de seus livros, são tiradas da teoria do economista americano Thorstein Veblen, que levou, para a ciência econômica, alguns princípios sociológicos do positivismo, especialmente de A. Comte e de Spencer: Veblen quer, sobretudo, introduzir o evolucionismo na ciência econômica. Assim, encontramos, em Veblen, o “instinct of workmanship”, que De Man chama “instinto criador”. W. James, em 1890, expos a no- ção de um instinto construtivo (“instinct of constructiveness”) e já Voltaire falava de um instinto mecânico. (Cf. esta grosseira con- cepção de “instinto” do De Man, com o que escreve Marx sobre o instinto das abelhas e o que distingue o homem desse instinto).[3] Mas, parece que De Man tenha pegado de Veblen também aque- la sua mirabolante e grosseira concepção de um “animismo” nos operários, sobre o que insiste na Gioia del Lavoro. Assim, Masoero expõe a concepção de Veblen: "Entre os primitivos, a interpretação mítica cessa de ser um obstáculo e, muitas vezes, torna-se uma ajuda para aquilo que diz respeito ao desenvolvimento da técnica agrícola e da pecuária. Na verdade, só pode beneficiar este desenvolvimento, o considerar como dotados de alma, ou mesmo como personagens divinos, as plantas e os animais, já que de uma símile consideração vêm aqueles cuidados, aquelas atenções que podem levar aos me- lhoramentos técnicos e às inovações. Uma mentalidade animista é, ao contrário, decididamente contrária ao progresso técnico da manufatura, o exercício do instinto operário sobre a matéria inerte. Assim, Veblen explica como, no início da era neolítica, na Dina- marca, a técnica agrícola já era tão desenvolvida enquanto conti- |67a| 38 caderno 7 (vii) nuou nula por longo tempo o desenvolvimento da técnica manufa- tureira. Atualmente, o instinto operário, não mais com o obstáculo da crença na intervenção dos elementos providenciais e misterio- sos, vem unido a um espírito positivo e consegue aqueles progressos nas artes industriais, que são próprios da época moderna”.[4] De Man pegou, assim, de Veblen a ideia de um “animismo ope- rário”, que Veblen acredita ter existido na idade neolítica, mas não mais hoje, e lhe redescobriu no operário moderno, |com muita ori- ginalidade. É digno de nota, dadas essas origens spencerianas de De Man, a consequencialidade de Croce, que viu, em De Man, um superador do marxismo etc. Entre Spencer e Freud, que retorna a uma forma de sensualismo ainda mais misterioso do que aquele de 1700, De Man mereceu mesmo de ser exaltado por Croce, e de ver-se propos- to ao estudo dos italianos inteligentes.[5] De Veblen, foi anunciada a tradução, em italiano, por iniciativa do Exmo. Bottai.[6] De todo modo, neste artigo de Masoero encontra-se, em nota, a bibliogra- fia essencial. Em Veblen, pode-se observar, como aparece no artigo, certa influência do marxismo. Veblen, parece-me, que teve inclusi- ve influência das teorizações de Ford. § 〈33〉. Posição do problema. Produção de [novas] Weltans- chauungen, que fecunda e alimenta a cultura de uma era histórica e produção dirigida, filosoficamente, segundo as Weltanschauungen originais. Marx é um criador de Weltanschauungen, mas qual é a posição de Ilitch? É puramente subordinada e subalterna? A expli- cação está no próprio marxismo – ciência e ação −. A passagem da utopia à ciência e da ciência à ação (recordar a respeito o opúsculo de Karl Radek).[1] A fundação de uma classe dirigente (isto é, de um Estado) equivale à criação de uma Weltanschauungen. A expres- são de que o proletariado alemão é o herdeiro da filosofia clássica alemã:[2] como deve ser entendida – não queria indicar Marx o tra- balho histórico da sua filosofia tornada teoria de uma classe que se tornaria Estado? Para Ilitch, isso realmente ocorreu em um territó- |68| 391930-1932: notas sobre filosofia ii rio determinado. Eu acenei alhures a importância filosófica do con- ceito e do fato da hegemonia, devido a Ilitch.[3] A hegemonia reali- zada significa a crítica real de uma filosofia, a sua real dialética. Ver o que escreve Graziadei*, na introdução a Prezzo e sovraprezzo: ele põe Marx como unidade de uma série de grandes cientistas.[5] Erro fundamental: nenhum dos outros produziu uma original e integral concepção de mundo. Marx inicia, intelectualmente, uma era his- tórica que durará provavelmente séculos, isto é, até a desaparição da Sociedade política e o advento da Sociedade regulada. Só então a sua concepção de mundo será superada (concepção da necessi- dade, (superada) pela concepção da liberdade). Fazer um paralelo entre Marx e Ilitch para estabelecer uma hierarquia é tolo e ocioso: exprimem duas fases: ciência-ação, que (são) homogênease hete- rogêneas | ao mesmo tempo. Assim, historicamente, seria absurdo um paralelo entre Cristo e S. Paulo: Cristo- Weltanschauung, S. Paulo organização, ação, expansão da Weltanschauung: são ambos necessários na mesma medida e são da mesma estatura histórica. O Cristianismo poderia se chamar, historicamente, cristianismo- -paulismo e seria a expressão mais exata (só a crença na divindade de Cristo impediu isto, mas esta crença é também ela apenas um elemento histórico, e não teórico). § 〈34〉. Queda tendencial da taxa de lucro. Poder-se-ia chamar (talvez) um teorema de primeira aproximação: mas (talvez), por isso, seria menos importante? Este teorema deveria ser estudado como base para o taylorismo e o fordismo. Não são essas duas ativi- dades a tentativa de superar essa primeira aproximação? Se aumenta o capital constante, mas, neste incremento, existe uma variável que remove imediatamente o efeito da lei: uma ou mais variáveis, como produção de máquinas mais perfeitas, de metais mais resistentes, de um tipo diverso de operário, diminuição do descarte, utilização dos |68a| * NO MS: É REFERIDA A ESTE PONTO A SEGUINTE NOTA DE PÉ DE PÁGINA: “GRA- ZIADEI EVITOU UM CONFRONTO COM MONS. OLGIATI, QUE, EM SEU PEQUENO VOL- UME SOBRE MARX, NÃO ENCONTRA NENHUM PARALELO POSSÍVEL ALÉM DAQUELE COM JESUS, PARALELO QUE, PARA UM PRELADO, É O CUME DA CONCESSÃO, PORQUE ELE ACREDITA NA NATUREZA DIVINA DE CRISTO”.[4] 40 caderno 7 (vii) subprodutos (em geral, economia dos descartes, [necessários], tor- nada possível pela sua grande quantidade). O industrial com cada uma destas inovações passa por um período de custos crescentes a um período de custos decrescentes, na medida em que goza de um monopólio de iniciativa que pode durar um longo prazo (relati- vamente): o monopólio dura longamente também por causa dos “altos salários” que tais indústrias progressivas podem e “devem” pagar, para ter a possibilidade de selecionar, na massa dos operários existentes, aqueles “psicofisicamente” mais adaptados aos novos métodos de trabalho e de produção. A extensão do novo tipo de produção leva a uma série de crises, que reiteram os mesmos proble- mas da “queda tendencial da taxa de lucro”, problemas que se pode imaginar recolocados ciclicamente desde que: 1º) não tenha sido alcançado o limite matemático da resistência de material; 2º) não tenha sido alcançado o limite no uso das máquinas automáticas; 3º) não se tenha alcançado o limite de saturação na indústria mundial, tendo em conta a taxa de aumento da população e da produção para renovar as mercadorias de uso e os bens instrumentais. As leis tendenciais descobertas por Marx estariam, assim, na base do americanismo, isto é, do ritmo acelerado no progresso dos métodos de trabalho e de produção e de modificação do tipo de operário. CF. CADERNO 10 (XXXIII), PP. 24A-25. | § 〈35〉. Materialismo e materialismo histórico. A afirmação de Feuerbach: “O homem é aquilo que come”, pode ser, tomada em si, interpretada de diversas maneiras. Interpretação estreita e tola: o homem é aquilo que come materialmente, isto é, os alimentos têm uma imediata influência determinadora sobre o modo de pen- sar. Recordar a afirmação de Amadeo, de que se se soubesse o que o homem come antes de um discurso, por exemplo, se estaria em condições de interpretar melhor o próprio discurso.[1] Afirmação infantil, e de fato, estranha também à ciência positiva, pois o cé- rebro não é nutrido de grãos e trufas, mas os alimentos chegam a reconstruir as moléculas do cérebro transformadas em substâncias |69| 411930-1932: notas sobre filosofia ii homogêneas e assimiláveis, que têm a “mesma natureza” poten- cial das moléculas cerebrais. Se esta afirmação fosse verdadeira, a história teria a sua matriz determinada na cozinha e as revoluções poderiam coincidir com as mudanças radicais na alimentação de massa. O contrário é historicamente verdadeiro: são as revoluções e o complexo desenvolvimento histórico que modificaram a alimen- tação e criaram os “gostos” na escolha dos alimentos. Não é a seme- adura regular do trigo que fez cessar o nomadismo, mas o contrário, as condições emergentes contra o nomadismo levaram à semeadura regular etc. (Cf. esta afirmação de Feuerbach com a campanha de S. E. Marinetti contra a massa e a defesa de S. E. Bontempelli, e isto em 1930, em pleno desenvolvimento da crise mundial).[2] Entretanto, é também verdade que “o homem é aquilo que come”, na medida em que a alimentação é uma das expressões das relações sociais no seu todo, e cada agrupamento social tem uma sua alimentação fundamental; mas, do mesmo modo, se pode dizer que o “homem é o seu apartamento”, o “homem é o seu particular modo de reproduzir-se, isto é, a sua família”, na medida em que a alimentação, a vestimenta, a casa, a reprodução são elementos da vida social em que, justamente, de modo mais evidente e mais di- fuso (isto é, com extensão de massa) se manifesta o conjunto das relações sociais. O problema acerca do que é o homem é, portanto, sempre o as- sim chamado problema da “natureza humana”,| ou também aquele do assim chamado “homem em geral”, isto é, a busca de criar uma ciência do homem (uma filosofia) que parta de um conceito inicial- mente “unitário”, de uma abstração na qual se possa conter todo o “humano”. Mas, o humano é um ponto de partida ou um ponto de chegada, como conceito e fato unitário? Ou não é, antes, esta busca, um resíduo “teológico” e “metafísico”, enquanto posto como ponto de partida? A filosofia não pode ser reduzida a uma naturalística “antropológica”, isto é, a unidade do gênero humano não é dada pela natureza “biológica” do homem; as diferenças do homem que contam na história não são aquelas biológicas (raças, conformação do crânio, cor da pele etc.; e a isto se reduz a afirmação “o homem |69a| 42 caderno 7 (vii) é o que come” – come trigo na Europa, arroz na Ásia etc. - que se reduziria então à outra afirmação: “o homem é o país onde vive”, já que grande parte dos alimentos, em geral, é ligada à terra habi- tada), e nem mesmo a “unidade biológica” jamais contou grande coisa na história (o homem é aquele animal que comeu a si próprio, precisamente quando era mais próximo ao “estado natural”, isto é, quando não podia multiplicar “artificialmente” a produção de bens naturais). Nem mesmo a faculdade de “raciocinar” ou o “espírito” criou unidade ou pode ser reconhecido como fato unitário, porque é um conceito apenas formal, categórico. Não o “pensamento”, mas o que realmente se pensa une ou diferencia os homens. Que a “natureza humana” seja o “conjunto das relações sociais” é a resposta mais satisfatória, porque inclui a ideia do devir: o ho- mem tornar-se, muda continuamente com a mudança das relações sociais, e porque nega o “homem em geral”: de fato, as relações sociais são expressas por diversos grupos de homens que se pres- supõem, cuja unidade é dialética, não formal. O homem é aristo- crático enquanto há o servo da gleba etc. (cf. Plekhanov, em um opúsculo acerca dos libertários,[3] estabelece este caráter dialético). Pode-se também dizer que a natureza do homem é a “história” (e, nesse sentido, posta história = espírito, que a natureza do homem é o espírito), se, precisamente, se dá à história o significado de “devir”, em uma “concordia discors” que não parte da unidade, mas tem, em si, a razão de uma unidade possível: por isso, a “natureza hu- mana” não pode ser encontrada em nenhum homem | particular, mas em toda a história do gênero humano (e o fato de que se utilize a palavra “gênero”, de caráter naturalístico, tem o seu significado), na medida em que, em cada indivíduo, se encontram característi- cas postas em relevo pela contradição com outros. As concepções de “espírito” das filosofias tradicionais, como aquela de “natureza humana” encontrada na biologia, deveriam ser explicadas como utopias científicas que substituíram a maior utopia da “natureza humana” buscada emDeus (e os homens – filhos de Deus), e ser- vem para indicar o trabalho contínuo da história, uma aspiração racional ou sentimental etc. É verdade que tanto as religiões que |69aa| 431930-1932: notas sobre filosofia ii afirmam a igualdade dos homens como filhos de Deus quanto as filosofias que afirmam a sua igualdade como participantes da fa- culdade de raciocinar, foram expressões de complexos movimentos revolucionários (a transformação do mundo clássico – a transfor- mação do mundo medieval), que colocaram os anéis mais potentes do desenvolvimento histórico. Que a dialética hegeliana tenha sido um* reflexo daqueles gran- des nós históricos e que a dialética, de expressão das contradições sociais, deva tornar-se, com a desaparição destas contradições, uma pura dialética conceitual, seria a base das últimas filosofias de fundo utópico, como aquela de Croce. Na história, a “igualdade real”, isto é, o grau de “espiritualidade” alcançado pelo processo histórico da “natureza humana”, se identifica no sistema de associações “privadas e públicas”, explícitas e implícitas, que se entrelaçam no “Estado” e no sistema político mundial: tratam-se de “igualdades” sentidas como tais entre os membros de uma associação, e de “desigualdades” sen- tidas entre as diversas associações, igualdades e desigualdades que valem enquanto se tenha delas consciência individualmente e como grupo. Se chega assim também à equalização ou equação entre “filo- sofia e política”, entre pensamento e ação, ou seja, a uma filosofia da práxis. Tudo é política, mesmo a filosofia ou as filosofias (ver notas sobre o caráter das ideologias)[4] e a única “filosofia” é a história em ato, isto é, é a vida mesmo. Nesse sentido, pode-se interpretar a tese do proletariado alemão herdeiro da filosofia clássica alemã[5] − e po- de-se afirmar que a teorização e a realização da hegemonia feita por Ilitch foi também um grande acontecimento “metafísico”. |§ 〈36〉. “Ensaio Popular”. A metáfora e a linguagem. (Cf. outra nota a propósito da afirmação nua e crua, feita no Ensaio Popular como explicação em si exaustiva, de que Marx adota os termos “imanência” e “imanente” só como metáfora).[1] Toda linguagem é metáfora, e é metáfora em dois sentidos: é metáfora da “coisa” ou “objeto material e sensível” indicado, e é metáfora dos significados ideológicos dados às palavras durante os precedentes períodos da |69aaa| * NO MS: UMA VARIANTE INTERLINEAR: “O ÚLTIMO”. 44 caderno 7 (vii) civilização. (Um tratado de semântica – por ex. aquele de Michel Bréal[2] − pode dar um catálogo das mudanças semânticas das pa- lavras individuais). De não levar em conta tal fato, derivam duas tendências errôneas principais (para não falar de outras de caráter mais restrito como aquelas de reter “belas”, em si, certas palavras em relação a outras, enquanto se lhes analisa historicamente e etimo- logicamente: se confunde o “prazer” livresco do filólogo que sofre por suas palavrinhas com o “prazer” dado pela arte: esse é o caso da renovada retórica no livreto Linguaggio e poesia, de Giulio Beto- ni):[3] 1º) aquela das linguagens fixas ou universais; 2º) as questões postas por Pareto e pelos pragmatistas sobre “linguagem como cau- sa de erros”. Pareto, como os pragmatistas e muitos outros de menor conta, na medida em que acreditam ter dado origem a uma nova concepção de mundo (de ter assim dado às palavras um significa- do, ou, ao menos, um matiz novo), se encontram diante do fato de que as palavras, no uso comum e mesmo no uso da classe culta, e, também, no uso daquelas seções de doutos que tratam das próprias ciências, continuam a manter o velho significado. Se reage: Pareto cria um “dicionário” próprio, que contém, em essência, a tendência de criar uma língua matemática, isto é, completamente abstrata; os pragmatistas põem uma questão filosófica e teorizam sobre a lin- guagem como causa do erro.[4] Mas, é possível retirar da linguagem esse significado metafórico? É impossível. A linguagem se transforma com o transformar-se de toda a civilização, e, por isso, assume, metaforicamente, as palavras das civilizações e culturas precedentes: ninguém hoje pensa que «des-astre» esteja ligado à astrologia, e se considera induzido ao erro as opiniões de quem o adota. Um novo significado metafóri- co se estende com o estender-se da nova | cultura, que, por outro lado, cria, também, palavras novas em folha ou as assume de outras línguas com um significado preciso. É provável que, para muitos homens, a palavra “imanência” seja conhecida e entendida (e usa- da) pela primeira vez apenas no novo significado a ela dado pelo materialismo histórico. CF. CADERNO 11 (XXIII), PP. 37BIS-38BIS. |70| 451930-1932: notas sobre filosofia ii § 〈37〉. Goethe. Procurar onde e em qual sentido Goethe afir- mou: “Como pode um homem alcançar a autoconsciência? Com a contemplação? Certamente não, mas com a ação”.[1] § 〈38〉. Exame do conceito de natureza humana. Origens do sen- timento de “igualdade”: a religião, com a sua ideia de deus-pai e ho- mem-filho, portanto iguais; a filosofia, segundo o aforismo: “Omi- nis enim filosofia, cum ad communem hominum cogitandi facultatem revocet, per se democratica est; ideoque ab optimatibus non iniuria sibi existimatur perniciosa”.[1] A ciência biológica, que afirma a igualdade “natural”, isto é, psicofísica de todos os elementos indi- viduais do “gênero” humano: todos nascem do mesmo modo etc. “O homem é mortal; Fulano é homem, Fulano é mortal”. Fulano= todos os homens. Assim, tem origem empírico-científica (empírico = ciência folclorizada)* a fórmula: “nascemos todos nus”. Recordar a novela de Chesterton, na Ingenuità di Padre Brown, sobre o homem-carteiro e o homem-pequeno construtor de má- quinas portentosas; há uma observação deste gênero: “Uma velha dama habita um castelo com vinte servos: é visitada por uma outra dama e diz a esta: ‘Estou sempre assim só etc.’; o médico comunica a ela que a peste está no ar, infecções etc., e, então, diz: ‘Somos tan- tos’” (Chesterton tira desta sugestão efeitos puramente novelísticos de intriga).[2] § 〈39〉. Croce. O elemento “passional” como origem do ato polí- tico, tal como é teorizado por Croce, não pode ser aceito tal qual. Diz Croce, a propósito de Sorel: “o ‘sentimento de cisão’ não ha- via garantido (o sindicalismo) o suficiente, talvez também porque uma cisão teorizada é uma cisão ultrapassada; nem o mito o aquecia o bastante, talvez porque Sorel, no ato mesmo de criá-lo, o havia dissipado, dando a ele uma | explicação doutrinal” (Cf. Cultura e Vita morale, 2ª ed., p. 158).[1] As observações a respeito de Sorel são justas também para Croce: a “paixão” teorizada não é também ela desatualizada? A “paixão” para a qual se dá uma explicação doutri- |70a| * NO MS: UM SINAL NÃO CLARO DE CORREÇÃO. PODE-SE LER TAMBÉM: “EMPÍRI- CO-FOLCLORISTA”). 46 caderno 7 (vii) nal, não é também ela “dissipada”? Nem se diga que a “paixão” de Croce seja uma coisa diferente do “mito” de Sorel, que a “paixão” signifique a “categoria ou o momento espiritual prático”, enquanto o “mito” seria uma “determinada” paixão, que, enquanto “determi- nada”, pode ser dissipada e desatualizada, sem que, por isso, a “ca- tegoria” seja dissipada e “desatualizada”; a objeção é verdadeira só em parte, ou seja, enquanto significa que Croce não é Sorel, coisa óbvia e banal. Sorel não teorizou um determinado mito, mas “o mito” como substância da ação prática, e fixou qual determinado mito era historicamente o mais aderente a uma certa realidade. O seu tratamento tem, assim, dois aspectos: um propriamente teóri- co, de ciência política, e um prático-político. É possível, embora seja discutível, que o aspecto prático-político tenha sido dissipado e desatualizado; hoje, se pode dizer que foi desatualizado apenas no sentido de que foi integrado, mas o mito determinado tinha uma base real. De qualquer modo, permanece a “teoria dos mitos”, que não é outra coisa senãoa “teoria das paixões”, com uma linguagem menos precisa e formalmente coerente. Se teorizar o mito significa dissolver todos os mitos, teorizar as paixões significa dissipar todas as paixões, construir uma nova medicina das paixões. Que Croce não tenha escapado desta contradição e que a sinta, se entende pelo seu comportamento em relação aos “partidos políticos”, como se pode ver pelo seu capítulo “O partido como juízo e como precon- ceito”, de Cultura e Vita morale,[2] e é isso que se diz dos partidos nos Elementi di Politica, mais significativo. Croce reduz os partidos aos chefes-partido “individuais” que, pela sua “paixão” constroem o instrumento adequado ao triunfo.[3] Mas, também isso não explica nada. Trata-se disto: os partidos sempre existiram, mesmo se com outras formas e outros nomes, e, ainda mais, sempre existiu uma organização permanente militar, que é o “ator político” por exce- lência. Como pôr juntas a “paixão” e a “permanência, a ordem, a disciplina etc.”? A vontade política deve ter também outro motor além da paixão. CF. CADERNO 10 (XXXIII), PP. 23-24. 471930-1932: notas sobre filosofia ii § 〈40〉. Nacionalização e estatização. Cf M. Saitzew, Die Öf- fentliche Unternehmung der | Gegenwart, Tübingen, Mohor, 1930, RM. 3,40.[1] Saitzew é professor da Universidade de Zu- rique. Segundo Saitzew, a área de ação das empresas públicas, especialmente em certos ramos, é muito maior do que se crê; na Alemanha, o capital das empresas públicas seria um quinto de toda riqueza nacional (durante a guerra e no imediato pós-guer- ra, a empresa pública se dilatou). Saitzew não crê que as empresas públicas sejam uma forma de socialismo, mas parte integrante do capitalismo. As objeções contra as empresas públicas poderiam ser feitas também às sociedades anônimas; repete-se argumentos que eram bons quando as empresas privadas eram individuais, e, no entanto, as anônimas são hoje prevalecentes etc. Será útil um pequeno volume para ver a extensão que teve a empresa pública em alguns países: o caráter de empresa pública não seria, segundo Saitzew, aquele de ter como escopo principal o rendimento fiscal, mas de impedir que, em certos ramos, onde a concorrência é tecnicamente impossível, se estabeleça um mo- nopólio privado perigoso para a coletividade. § 〈41〉. Economia. Deve ser muito interessante o volume de Henryk Grossmann, Das Akkumulations und Zusammenbru- chsgesetz des kapitalischen Systems (Zugleich eine Krisentheorie), em Schriften des Instituts für Sozialforschung na der Universi- tät Frankfurt a. M., Verlag C. L. Hirschfeld, Lipsia, 1929, pp. XVI-628, RM. 20, da qual foi publicada uma resenha por Stefa- no Samagyi, na «Economia» de março de 1931 (pp. 327-332). [1] A resenha não é muito brilhante e talvez não seja necessário confiar sempre nos seus resumos (Samogyi usa “tendencioso” e “tendencial” indiferentemente, troca “colapso” por “catástrofe” e introduz afirmações pseudoteóricas apreciadas só por Gino Arias etc.), mas, tirarei algumas indicações disso (com a cautela de revisões futuras a partir do texto de Grossmann). [Ver adian- te].[2] |71| 48 caderno 7 (vii) § 〈42〉. Comparação elíptica? Que a teoria do valor de Marx* não seja uma comparação elíptica, como gostaria de entendê-la | Cro- ce,[1] resulta do fato de que essa teoria é um desenvolvimento da teoria de Ricardo (observação feita por Graziadei,[2] em Sindicati e Salari, * o qual não fazia certamente uma “comparação elíptica”). Todavia, mesmo esta correção a Croce me parece não ser satisfa- tória em tudo e por tudo. É arbitrária a teoria de Marx? E em que consistiria então o arbítrio? No desenvolvimento dado por Croce à sua demonstração da comparação elíptica não poderia haver um grão de verdade inconsciente? Seria preciso estudar bem a teoria de Ricardo e, especialmente, a teoria de Ricardo sobre o Estado como elemento que assegura a propriedade, isto é, o monopólio dos meios de produção. Se se estuda, de fato, a hipótese da “eco- nomia” pura, como Ricardo provavelmente pensava fazer, não se deveria prescindir dos “Estados” (digo de propósito “Estados”) e do monopólio “legal” da propriedade? Não se trataria, assim, de maneira nenhuma de uma “comparação elíptica” feita por Marx como “proponente” de uma futura forma social diversa daquela es- tudada, mas de uma teoria resultante da redução à pura “economi- cidade” dos fatos econômicos, isto é, do máximo de determinação do “livre jogo das forças econômicas”. É certo que Ricardo, como os outros economistas clássicos, era extremamente sem preconcei- tos, e a teoria do valor-trabalho de Ricardo não suscitou nenhum escândalo no seu tempo (cf. a Storia de Gide e Rist;[3] não repre- sentava nenhum perigo, porque era e aparecia como uma constata- ção puramente objetiva; o valor polêmico, embora sem perder sua objetividade, aparece com Marx etc.). Este problema está ligado ao mesmo problema fundamental da ciência econômica “pura”, ou seja, a pesquisa e a identificação disto que é o conceito e o fato eco- nômico, independente dos outros conceitos e fatos de competência das outras ciências; e, por fato econômico deve-se ainda entender o fato “produção e distribuição dos bens econômicos materiais” e não todos os fatos que possam ser compreendidos no conceito de * NO MS: “M.”; ASSIM, IGUALMENTE NO RESTO DO PARÁGRAFO. * NO MS: “CAPITAL E SALÁRIO”. |71a| 491930-1932: notas sobre filosofia ii “economia” como aparece em Croce (para quem também o amor, por ex., é um fato econômico etc.). [4] A propósito das “comparações elípticas”, dever-se-ia ainda no- tar que toda a linguagem é uma série de “comparações elípticas”, e que a história é uma comparação implícita entre passado e pre- sente (a atualidade |histórica). E por que a elipse seria legítima se a comparação fosse feita com uma hipótese futura, e seria lícita se a comparação fosse feita com um fato passado? (o qual é tomado exatamente como “hipótese”, isto é, ponto de referência que ajuda a compreender o presente?) (Esta ideia deve ser aprofundada). CF. CADERNO 10 (XXXIII), PP. 16-16ª, 24-24A. § 〈43〉. Reforma e Renascimento. Esses modelos de desenvolvi- mento cultural fornecem um ponto de referência crítico que me parece sempre mais compreensivo e importante (pelo seu valor de sugestão pedagógica) quanto mais sobre eles reflito. É eviden- te que não se entende o processo molecular de afirmação de uma nova civilização que se desenvolve no mundo contemporâneo sem ter entendido o nexo histórico Reforma-Renascimento. Superficia- lidade de Liefscitz no artigo introdutório à publicação periódica da bibliografia de Riviere («La Critique Sociale»).[1] Liefscitz me parece não ter entendido muita coisa do marxismo, e sua concep- ção poderia ser verdadeiramente chamada de “burocrática”. Luga- res comuns, ditos com o descaramento de quem está bem satisfeito consigo mesmo, e acredita ser tão superior à crítica, que não imagi- na nem mesmo de não dizer nunca verdades surpreendentes e ori- ginais. Crítica (superficial) feita do ponto de vista do intelectual (do intelectual medíocre). Liefscitz vê no homem político mais o grande intelectual no sentido literário do que o grande políti- co. Mas, quem foi grande intelectual, Bismarck ou Barrès? Quem realizou maiores mudanças no mundo da cultura? Liefscitz não entende nada destas questões, mas não entende nada nem mesmo da questão que ele põe de modo muito mal: trata-se, é verdade, de trabalhar a elaboração de uma elite, mas este trabalho não pode ser separado do trabalho de educar as grandes massas, aliás, as duas ati- |72| 50 caderno 7 (vii) vidades são, na realidade, uma só atividade, e é precisamente isso que torna difícil o problema (recordar o artigo de Rosa sobre o de- senvolvimento científico do marxismo e as razões do seu atraso);[2] trata-se, em suma, de uma Reforma e um Renascimento contempo- raneamente. Para Liefscitz, o problema é simplesmente um motivo de derrotismo; e não é de fato puro | derrotismodos Cadernos organizada por Gianni Francioni, Giuseppe Cospito e Fabio Frosini, edição que procura aprofundar as referências cronológicas, a pesquisa das fontes, etc. Desta edição saíram em língua italiana os primeiros oito IV cadernos gramscianos e os Cadernos de Tradução, até agora inédi- tos, enquanto os cadernos seguintes ainda devem ser publicados. Por todos estes motivos mencionados acima, quando eu soube que a IGS-Brasil havia decidido iniciar um grande empreendi- mento coletivo para uma nova tradução integral dos Cadernos do Cárcere, manifestei meu interesse e apoio à iniciativa. O conheci- mento dos Cadernos na forma como foram escritos por Gramsci é, atualmente, o melhor ponto de partida para ler e estudar a maior obra deste autor. Esta obra já está integralmente disponível em es- panhol (onde recentemente foi lançada uma segunda tradução pela Editora Akal). Eu pessoalmente manifesto a esperança de que no- vas traduções completas das obras gramscianas (dos Cadernos, mas possivelmente também das Cartas do Cárcere, dos escritos pré-car- cerários e das cartas precedentes à prisão) estejam disponíveis ao menos em todas as principais línguas do mundo. Uma tradução tão abrangente quanto esta nova edição em lín- gua portuguesa, levada a termo em um período bastante limitado, graças ao empenho militante de muitos estudiosos e estudiosas da IGS-Brasil, apresenta inevitáveis problemas de amálgama da termi- nologia usada pelos vários tradutores, para exprimir temas e pro- blemas gramscianos. Certamente uma atenção especial a esta e a outras questões relacionadas será dada pelo grupo que levou adian- te este esforço coletivo tão relevante. O tempo, o debate público, o cotejo entre os estudiosos e os leitores nos dirá muito – nos próximos anos – sobre o resultado alcançado com esta edição e também, eventualmente, sobre o seu aperfeiçoamento. Contudo, permanecerá válida a direção que esta edição indica: traduzir e ler Gramsci inteiramente, em primeiro lu- gar aquele dos Cadernos, contextualizar sempre mais, no tempo e no espaço os seus escritos, as suas afirmações, as suas palavras, no contexto político e cultural nos quais nasceram, perquirindo tam- bém as variações e inclusive as contradições internas aos seus escri- tos – para melhor compreender o alcance atual do seu pensamento, a sua validade ou a sua tradutibilidade (conceito gramsciano de ex- traordinária relevância) no nosso mundo de hoje. V Desta perspectiva, o trabalho que a IGS-Brasil levou a termo é, sem dúvida, de grande importância e nos faz compreender como as obras de Gramsci devem ser seriamente lidas e estudadas. Por isso, saúdo a nova tradução dos Cadernos do Cárcere para o português e agradeço todas e todos aqueles que dela participaram e à IGS-Bra- sil no seu conjunto por ter dado vida a esta iniciativa. Sigamos em frente com Gramsci: Nino vive conosco se a sua lei- tura também nos ajudar a compreender a realidade da sociedade atual. Guido Liguori International Gramsci Society VI AGRADECIMENTOS A tradução dos Cadernos do Cárcere de Gramsci, realizada vo- luntária e gratuitamente por sócios da IGS-BR, foi submetida a re- visão e padronização de profissionais, aos quais se retribuiu finan- ceiramente. Realizamos uma campanha de arrecadação financeira entre os sócios da IGS-Brasil que ajudou a cobrir, parcialmente, essa despesa. Constam a seguir os doadores a quem se agradece pelo espírito coletivo: André Silva Martins (UFJF); Ascisio dos Reis Pe- reira (UFSCar); Danuta Estrufika C. Luiz (UEPG-PR); Dermeval Saviani (UNICAMP); Dilma Andrade de Paula (UFU); Douglas Christian F. de Melo (UFES); Emilie Faedo della Giustina (UFF); Erika Laurinda Amusquivar (UnB); Eurelino T.; Ivete Simionatto (UFSC); Leonardo Seabra Puglia (FCSMA-RJ); Lincoln Secco (USP); Luzinete de Souza Oliveira (ES); Márcia Aparecida Jaco- mini (UNIFESP); Marcos Aurélio da Silva (UFSC); Marcos Fran- cisco Martins (UFSCar); Marcos Del Roio (UNESP); Mª Del Carmen Cortizo (UFSC); Mª Margarida Machado (UFG); Mª Socorro R. Militão (UFU); Marilia Etienne Arreguy (UFF); Mari- na Maciel Abreu (UFMA); Pedro Cláudio C. B. Bocaiuva Cunha (UFRJ); Raúl Burgos (UFSC); Renê Trentin Silveira (UNI- CAMP); Rodolfo S. P. Darrieux (RJ); Victor Leandro C. Gomes (UFF); Zuleide Simas da Silveira (UFF); Núcleo de Estudos e Pes- quisas em Filosofia Política e Educação (NuFiPE/UFF); Núcleo de Estudos Trabalho, Políticas Públicas e Serviço Social (TRAPPUS/ PUC-Rio). Agradecemos também ao CNPq, pelo financiamento ao projeto: "Contribuições de Gramsci para pensar a educação de pessoas trabalhadoras" – coordenado pela Profª Mª Margarida Ma- chado (UFG), que viabilizou a diagramação desta 1ª Edição, e ao projeto: "Traduzir, atualizar, potencializar os desafios postos pelos Cadernos do Cárcere de A. Gramsci" – coordenado pela Profª Mª Socorro Ramos Militão (UFU), financiado por emenda da Depu- tada Federal por Minas Gerais, Dandara Tonantzin Silva Castro (PT), que viabilizou o lançamento desta 1ª Edição dos Cadernos do Cárcere pela IGS-Brasil. VII PREFÁCIO Etapas das traduções dos Cadernos do cárcere no Brasil Na segunda metade dos anos 1960, quando estava já instaurada a ditadura civil-militar no Brasil, a Editora Civilização Brasileira, além de uma seleção das Cartas do cárcere (1966)1, publicou uma parte substancial2 dos seis volumes dos Quaderni del carcere, de A. Gramsci, organizados por P. Togliatti e F. Platone e publicados pela Editora Einaudi de Turim3. Essa “Edição temática”, estrutura- da com base nos temas centrais tratados nos “cadernos especiais” de Gramsci, havia sido concebida pelos editores italianos para “agrupar as notas gramscianas por assuntos e temas homogêneos, e organizar tais agrupamentos em uma série de volumes indepen- 1 Com a seleção e tradução de Noênio Spínola, a Civilização Brasileira publica 233 Cartas do cárcere, de Gramsci, tendo como base a edição italiana organizada por S. Caprioglio e E. Fubini, Lettere dal carcere, publicada pela Einaudi de Turim, em 1965, que continha 428 cartas. 2 A Editora Civilização Brasileira publicou, em 1966: Concepção dialética da história (Título dado ao 1º volume italiano Il materialismo storico e la filosofia di Benedetto Croce); em 1967: Os intelectuais e a organização da cultura; Maquiavel, a política e o Estado moderno; em 1968: Literatura e vida nacional (contendo só uma seleção da edição original). Os volumes Il Risorgimento e também Passato e Presente não foram traduzidos. Para mais detalhes desse processo de publicação, cfr. C. Nelson Coutinho, “Introdução” a Antonio Gramsci, Cadernos do cárcere, vol. 1, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1999, pp. 32-38. 3 Togliatti, P., - Platone, F. (a cura di), Quaderni del carcere di Gramsci, 6 voll, Ei- naudi, Torino, 1948-1951. Os títulos dos seis volumes da “edição temática” italia- na são os seguintes: Il materialismo storico e la filosofia di Benedetto Croce (1948); Gli intellettuali e l’organizzazione della cultura (1949); Note sul Machiavelli, sulla politica e sullo Stato moderno (1949); Il Risorgimento (1950); Letteratura e vita nazionale (1950); Passato e Presente (1951). Em 1977, com base na “edição crítica” de V. Gerratana, L. Gruppi organiza uma nova edição “riveduta e integrata” da “edição temática”, publicada pela Editora Riuniti de Roma. VIII dentes”(Gerratana, 1975, p. XXXIII)4. Na prática, ao editar os ca- dernos manuscritos de Gramsci produzidos na prisão, a “Edição te- mática” excluía os textos “miscelâneos”, notas de primeira redação, e depurava algumas partes dos cadernos que podiam gerar atritos com a orientação oficial do partido e a ortodoxia soviética (Liguo- ri, 1996, pp. 56-57)5. Embora importante, por ter proporcionado uma aproximação fundamental à obra carcerária de Gramsci, com o tempo, a tradução incompleta da “edição temática” realizada no Brasil se mostrou problemática e insuficiente, não só pelas questões inerentes à edição de Togliatti-Platone,pensar que tudo vai mal e não indicar criticamente uma via de saída para este mal? Um “intelectual”, como acredita ser Liefscitz, tem um modo de impostar e resolver o problema: trabalhando concretamente para criar aquelas obras científicas das quais lamenta amargamente a au- sência, e não se limitar a exigir que outros (quem?) trabalhem. Nem Liefscitz pretende que a sua revista seja já este trabalho: ela poderia ser uma atividade útil se fosse escrita com modéstia e com melhor autocrítica e senso crítico em geral. Uma revista é “um terreno” para iniciar a trabalhar para a solução de um problema de cultura, não é ela mesma uma solução: e, ainda, deve ter uma direção precisa e, assim, oferecer meios de um trabalho coletivo de um grupo inte- lectual, coisas que não se vê na revista de Liefscitz. Resenhar livros é muito mais fácil do que escrever livros, todavia, é coisa útil: mas, um “resenhista”, por programa, pode, sem ser um puro derrotista, lamentar-se desconsoladamente sobre o fato de que os “outros” não escrevem livros? E, se também os outros preferissem escrever “re- senhas”? § 〈44〉. Reforma e Renascimento. Que o processo atual de forma- ção molecular de uma nova civilização pode ser comparado ao mo- vimento da Reforma pode ser demonstrado também com o estudo de aspectos parciais dos dois fenômenos. O nó histórico-cultural a ser resolvido no estudo da Reforma é aquele da transformação da concepção da graça, que “logicamente” deveria levar ao máximo de fatalismo e de passividade, em uma prática real de audácia e de iniciativa em escala mundial, que foi [ao contrário] a sua consequ- ência dialética e que formou a ideologia do capitalismo nascente. Mas, nós vemos hoje ocorrer o mesmo para a concepção do mate- rialismo histórico; enquanto dela, para muitos críticos, não se pode originar, “logicamente”, senão fatalismo e passividade, na realidade |72a| 511930-1932: notas sobre filosofia ii ela dá lugar a uma floração de iniciativas e desenvolturas que sur- preendem muitos observadores (cf. o excerto do «Economist», de Michele Farbman).[1] Se se devesse fazer um estudo sobre a União, o primeiro capítulo, ou até a primeira seção do livro, deveria preci- samente desenvolver o material recolhido sob a rubrica “Reforma e Renascimento”. | Recordar o livro de Masaryk sobre Dostoievski[2] e a sua tese de uma reforma protestante na Rússia, e as críticas de Leo Davidovich no «Kampf» de agosto de 1914;[3] é notável que Masaryk, no seu livro de memórias (La Résurrection d’un Etat. Sou- venirs et réflexions, 1914-1918, Parigi, Plon), exatamente no campo em que a Reforma deveria operar, isto é, como determinante de um novo comportamento diante da vida, comportamento ativo, de de- senvoltura e iniciativa, reconhece o aporte positivo do materialis- mo histórico através da obra do grupo que o encarna.[4] (A propó- sito do catolicismo e do protestantismo e do seu comportamento recíproco em relação à doutrina da graça e aquela das “obras”, recor- dar que as “obras”, na linguagem católica, têm bem pouco a ver com a atividade e a iniciativa operosa e laboriosa, tendo um significado restrito e “corporativo”). § 〈45〉. Quando se pode dizer que uma filosofia tem uma importân- cia histórica? Muitas pesquisas e estudos em torno do significado histórico das diversas filosofias são absolutamente estéreis e imagi- nosos, porque não se tem em conta o fato de que muitos sistemas fi- losóficos são expressões puramente (ou quase) individuais, e a parte deles que se pode chamar “histórica” é, frequentemente, mínima e afogada em um complexo de abstrações de origem puramente ra- cional e abstrato. Pode-se dizer que o valor histórico de uma filoso- fia pode ser “calculado” pela eficácia “prática” que ela conquistou (e “prática” deve ser entendida em sentido amplo). Se é verdade que toda filosofia é expressão de uma sociedade, ela deveria reagir sobre a sociedade, determinar certos efeitos, positivos e negativos: a me- dida em que reage, precisamente, é a medida de seu alcance histó- rico, do seu não ser “elocubração” individual, mas “fato histórico”. § 〈46〉. Sobre o “Ensaio Popular”. A teleologia. Na frase e na con- cepção de “missão histórica”,[1] não há uma raiz teleológica? De |73| 52 caderno 7 (vii) fato, em muitos casos, esta assume um valor equívoco e místico. Mas, em outros, há um significado que, depois das limitações de Kant,[2] pode ser defendido pelo materialismo histórico. CF. CADERNO 11 (XVIII), P. 37BIS. | § 〈47〉. Sobre o “Ensaio Popular”. O modo com o qual é posto o problema da “realidade objetiva do mundo exterior” é superficial e estranho ao materialismo histórico. O autor não conhece a tradi- ção católica e não sabe que a própria religião sustenta tenazmente esta tese contra o idealismo, ou seja, a religião católica seria, neste caso, “materialista”. O autor comete este erro também no relató- rio ao Congresso de história da ciência e da tecnologia ocorrido em Londres em 1931 (cf. a publicação dos Anais),[1] afirmando que a concepção subjetivista e idealista está ligada à concepção de um... Adão, que abre os olhos pela primeira vez no mundo e acre- dita tê-lo criado naquele momento (ou algo símile), esquecendo que Adão, segundo a Bíblia – e, portanto, a concepção religiosa –, foi criado depois do mundo, e aliás o mundo foi criado por Deus para ele. A religião, por isso, não pode distanciar-se do conceito de “realidade” independente do homem pensante. A Igreja (através dos jesuítas e, especialmente, dos neoescolásticos, – Universidade de Leuven e do Sagrado Coração, em Milão −) buscou absorver o positivismo, e, aliás, se serve deste raciocínio para ridicularizar os idealistas junto às massas: “Os idealistas são aqueles que pensam que um determinado campanário existe apenas porque tu o pensas; se tu não o pensasses, o campanário não existiria mais”. Cf. Mário Casotti, Maestro e scholar, p. 49: “as pesquisas dos naturalistas e dos biólogos pressupõem já existentes a vida e o organismo real”,[2] que soa como uma frase de Engels no Antidürng.[3] CF. CADERNO 11 (XVIII), PP. 30-30BIS, 33BIS. § 〈48〉. Giorgio Sorel. Ver o livro de Gaëtan Pirou sobre Sorel, a bibliografia completa dos escritos do próprio Sorel[1].* * SEGUEM NO MS CINCO LINHAS EM BRANCO. TERMINA AQUI A “SEGUNDA SÉRIE” DOS APONTAMENTOS DE FILOSOFIA. MATERIALISMO E IDEALISMO. |73a| 531930-1932: notas sobre filosofia ii |§ 〈49〉. Literatura Popular. Romances de apêndice. Nas «Nou- velles Littéraires» do mês de julho de 1931 e seguintes, cf. a re- senha dos hodiernos escritores franceses de romances de apêndi- ce, Les illustres ìnconnus, de G. Charensol. Até agora, apareceram breves esboços sobre M. Leblanc (autor de Arsenio Lupin), sobre Allain (autor de Fantomas) e de outros quatro ou cinco (autor de Zigomar etc.).[1] § 〈50〉. Literatura Popular. Do caráter não popular-nacional da literatura italiana. Comportamento em relação ao povo nos Pro- messi Sposi. 〈O〉 caráter “aristocrático” do catolicismo manzoniano aparece na “compaixão” desdenhosa em relação às figuras dos ho- mens do povo (o que não aparece em Tolstoi), como entre Galdino (em comparação ao frade Cristoforo), o alfaiate, Renzo, Agnese, Perpetua, a própria Lucia etc. (Sobre esse assunto, eu escrevi uma outra nota).[1] Ver as dicas interessantes no livro de A. A. Zottoli, Umili e potenti nella poetica di A. Manzoni, Ed. La Cultura, Roma- -Milão, 1931. Sobre o livro de Zottoli, cf. Filippo Crispolti, “Nuove indagini sul Manzoni”, no «Pègaso» de agosto de 1931.[2] Este artigo de Crispolti é interessante por si mesmo, para compreender o compor- tamento do cristianismo jesuítico em relação aos “humildes”. Mas, na realidade, me parece que Crispolti tenha razão contra Zottoli, embora Crispolti raciocine “jesuiticamente”. Diz Crispolti sobre Manzoni: “O povo tem por si todo o coração dele, mas ele nunca se dobra para bajulá-lo; o vê com o mesmo olho severo com que vê os mais daqueles que não são povo”.[3]Mas, não se trata de querer que Manzoni “bajule o povo”, trata-se do seu comportamento psicoló- gico em relação aos personagens individuais que são “populares”; este comportamento é claramente de casta, mesmo na sua forma religiosa católica; os populares, para Manzoni,| não têm “vida in- terior”, não têm personalidade moral profunda; eles são “animais”, e Manzoni é “benévolo” em relação a eles exatamente como a be- nevolência de uma sociedade católica de proteção dos animais. Em certo sentido, Mazoni recorda o epigrama sobre Paolo Bourget: para Bourget, uma mulher deve ter 100.000 francos de renda para |34a| |35| 54 caderno 7 (vii) ter uma psicologia. Deste ponto de vista, Manzoni (e Bourget) são francamente católicos; não há nada neles do espírito “popular” de Tolstoi, isto é, do espírito evangélico do cristianismo primitivo. O comportamento de Manzoni em relação aos seus plebeus é o com- portamento da Igreja Católica em relação ao povo: de condescen- dente benevolência, não de igualdade humana. O próprio Crispol- ti, na frase citada, inconscientemente confessa esta “parcialidade” (ou “partidarismo”) de Manzoni: Manzoni vê com “olho severo” todo o povo, enquanto vê com olho severo “os mais daqueles que não são povo”: ele encontra “magnanimidade”, “altos pensamentos”, “grandes sentimentos” só em alguns da classe alta, em ninguém do povo, que, na sua totalidade, é humildemente animalesco. Que não tenha um grande significado o fato de que os “humil- des” tenham um lugar de primeira ordem no romance manzoniano, é justo, como diz Crispolti. Manzoni põe o “povo” no seu romance como personagem principal (Renzo, Lucia, Perpetua, irmão Gal- dino etc.) e como massa (tumultos de Milão, os pobres do campo, o alfaiate etc.), mas o seu comportamento diante do povo não é “popular-nacional”, mas aristocrático. Estudando-se o livro de Zottoli, deve-se recordar este artigo de Crispolti. Pode-se mostrar que o “catolicismo”, mesmo em homens superiores e não “jesuíticos” como Manzoni (Manzoni tinha cer- tamente uma veia jansenista e antijesuítica), não contribuiu para criar na Itália o “povo-nação”, nem mesmo no Romantismo, aliás, foi um elemento antinacional-popular e apenas de Côrte. Crispolti acena[4] apenas ao fato de que Manzoni, por um certo tempo aco- lheu a concepção de Thierry (para a França), da luta de raça no sen- tido do povo (Lombardos| e Romanos, como na França, Francos e Gauleses) como luta entre humildes e potentes*. [Zottoli busca responder Crispolti no «Pègaso» de setembro de 1931].[6] * NO MS SEGUEM, ENTRE PARÊNTESIS, ALGUMAS LINHAS CANCELADAS, A LEVES TRAÇOS DE CANETA: “A ESTE PROPÓSITO, É AINDA MAIS ESTRANHA A AFIRMAÇÃO DE CROCE, NA STORIA DELLA STORIOGRAFIA IN ITALIA NEL SECOLO XIX, DE QUE APENAS NA ITÁLIA, E NÃO NA FRANÇA, HAVIA ESTA PESQUISA DA LUTA DE RAÇA NA IDADE MÉDIA, COMO ORIGEM DA DIVISÃO DA SOCIEDADE EM ORDEM PRIVILEGIA- DAS E TERCEIRO ESTADO, QUANDO É O EXATO OPOSTO ETC.”.[5] |35A| 551930-1932: notas sobre filosofia ii § 〈51〉. História das classes subalternas. O elemento de luta de raça enxertado na luta de classe na França, por Thierry, teve impor- tância e qual, na França, para determinar os matizes nacionalistas nos movimentos das classes subalternas? O “galicismo” operário de Proudhon deveria ser estudado, como expressão mais completa da tendência democrático-gaulista representada pelos romances po- pulares de Eugenio Sue.[1] § 〈52〉. Literatura popular. – Seção católica. O jesuíta Ugo Mioni. Eu li, nesse jornal (agosto de 1931), um romance de Ugo Mioni, La ridda dei milioni, impresso da Obra de S. Paulo de Alba.[1] A parte o caráter estritamente jesuítico (e antisemita) que é particu- laríssimo deste novelão, me surpreendeu a negligência estilística e gramatical da escrita de Mioni. A impressão é péssima, os erros, inclusive de digitação, pululam, e isto é, por si, grave em livros de- dicados aos jovens do povo, que frequentemente neles aprendem a língua literária; mas, se o estilo e a gramática de Mioni podem ter sofrido com a péssima impressão, é certo que o escritor é péssi- mo objetivamente, é agramatical e desproporcional objetivamente. Nisso, Mioni se aparta da tradição de compostura, falsa elegância e esmero dos escritores jesuítas, como o padre Bresciani. Parece que Ugo Mioni (atualmente Monsenhor U. M.) não é mais jesuíta da Companhia de Jesus. § 〈53〉. Passado e Presente. Débitos da Alemanha e pagamentos da América. Parece que quem fixou antes de qualquer outro que deve existir interferência entre os pagamentos à América e os débitos de guerra da Alemanha foi Lord Belfour, na sua famosa nota de 1922. O senador D’Amelio não teria aderido | à nota de Balfour até a conferência de Londres de 1923.[1] § 〈54〉. Passado e presente. A questão da terra. Aparente fraciona- mento da terra na Itália: mas, a terra não 〈é〉 dos camponeses culti- vadores, mas da burguesia rural que frequentemente 〈é〉 mais feroz e usurária que o grande proprietário. Ao lado deste fenômeno, tem o outro da pulverização da pouca terra possuída pelos camponeses trabalhadores (que, no entanto, estão no mais das vezes nas altas colinas e na montanha). Esta pulverização tem diversas causas: 1) |36| 56 caderno 7 (vii) a pobreza do camponês, que é obrigado a vender uma parte da sua pouca terra; 2) a tendência a ter muitas pequeníssimas parcelas nas diversas zonas agrícolas da comuna ou de uma série de comunas, como seguro contra a monocultura exposta à total destruição em caso de um ano ruim; 3) o princípio da hereditariedade da terra entre filhos, cada um dos quais querendo uma parcela de cada um dos campos herdados (este parcelamento não aparece no registro, porque as divisões não são feitas legalmente, mas de boa-fé). Parece que o novo Código Civil introduziu também, na Itália, o princípio do Homestead, ou bem de família, que tende a evitar, em muitas regiões, a fragmentação excessiva da terra, em razão da herança.[1] § 〈55〉. Passado e presente. Ver na coleção da «Gerarchia» as fa- ses proeminentes do período 1920 e seguintes, e, especialmente, a série de estudos sobre novas instituições criadas pelo regime fascis- ta. § 〈56〉. L’on. De Vecchi. Cf. na «Gerarchia» de outubro de 1928, o artigo de Zamboni, “La marcia su Roma. Appunti inediti. L’azio- ne della colonna Zamboni”,[1] onde se diz que De Vecchi, só entre os quadrúnviros, permaneceu em Roma “para tentar ainda a extre- ma tentativa de uma solução pacífica”.[2] Deve-se confrontar esta afirmação com o artigo de M. Bianchi, no número único de «Ge- rarchia» dedicado à marcha sobre Roma, e no qual se fala de De Vecchi de forma bastante estranha.[3] Zamboni foi a Perugia com Bianchi e teria ouvido esta versão dos contatos ocorridos entre De Vecchi e Bianchi em 27 de outubro. § 〈57〉. Passado e Presente. A alimentação do povo italiano. Na «Gerarchia» de fevereiro de 1929,| p. 158, o prof. Carlo Foà re- porta as cifras fundamentais da alimentação italiana em relação a outros países:[1] a Itália tem 909.750 calorias disponíveis por habitante, a França 1.358.300, a Inglaterra 1.380.000, a Bélgica 1.432.500, os Estados Unidos 1.866.250. A Comissão científica interaliada para os provisionamentos estabeleceu que o mínimo de consumo alimentar para o homem médio é de 1 milhão de calo- rias por ano.[2] A Itália, como média nacional de disponibilidade, está abaixo desta média. Mas, se se considera que a disponibilidade |36a| 571930-1932: notas sobre filosofia ii não se distribui entre os homens médios, mas, antes de tudo pelos grupos sociais, pode-se ver como certos grupos sociais, como os tra- balhadores rurais meridionais (camponeses sem terra) dificilmente devem alcançar 400 mil calorias anuais, ou seja, 2/5 da média esta- belecida pelos cientistas. § 〈58〉. Romance Popular. Difusão do Ebreo Errante na Itália, no período do Risorgimento. Ver o artigo de Baccio M. Bacci, “Diego Martelli, l’amico de ‘Machiaioli’”, no «Pègaso» de março de 1931. [1] Bacirelata integralmente, em parte, e, em parte, resume (pp. 298-99) algumas páginas inéditas dos Ricordi della mia prima età, em que Martelli conta que, frequentemente (entre os anos de 1849 e 1859), se reuniam, em sua casa, os amigos do pai, todos patriotas e homens de estudo como o próprio pai: Atto Vannucci, Giuseppe Arcangeli, professor de grego e de latim, Vicenzo Monteri, químico fundador da iluminação a gás em Florença, Pietro Thouar, Antonio Mordini, Giuseppe Mazzoni, triúnviro com Guerrazzi e Monta- nelli, Salvagnoli, Giusti etc.: discutiam arte e política, e, às vezes, liam os livros clandestinos que circulavam. Vieusseux havia intro- duzido o Ebreo Errante: foi feita a leitura na casa de Martelli, diante dos amigos oradores de Florença e de fora. Conta Diego Martelli: “Havia quem arrancava os cabelos, quem batia os pés, quem erguia os punhos ao céu...”.[2] § 〈59〉. O saint-simonismo na Itália. Estudar a difusão do Saint- -simonismo: existem algumas publicações na Itália. Pode-se pensar que as ideias do saint-simonismo tardio tiveram uma difusão atra- vés de Sue.[1] | § 〈60〉. História dos intelectuais italianos. Cf. a referência nos Ricordi di un vecchio normalista, de Girolamo Vitelli, na «Nuova Antologia» de 1º abril de 1930:[1] a filologia clássica, na Itália, por três séculos (até a segunda metade do século XIX), foi completa- mente esquecida: “Quando se conhece um pouco a história desses nossos estudos, se sabe também que, do Renascimento em diante, após os italianos do século XV (e mesmo até o fim do século XVI, com a última grande escola de Pier Vettori), neles tiveram suces- sivamente a hegemonia, com tendências mais ou menos diversas, |37| 58 caderno 7 (vii) os franceses, os holandeses, os ingleses, os alemães”.[2] Por que essa ausência dos italianos? Vitelli não a explica senão com o “mercan- tilismo”, mas quem mais mercantilista* do que os holandeses e os ingleses? É curioso que (são) exatamente as nações protestantes (e na França me parece que os Étiennes fossem huguenotes) que mantinham o estudo do mundo antigo como homenagem. Seria preciso ver a organização desses estudos nestas nações e comparar com os centros de estudos na Itália. A Contrarreforma teve uma influência? etc. § 〈61〉. Questões de cultura. As bibliotecas. Cf. o interessante artigo de Ettore* Fabietti, “Per la sistemazione delle Biblioteche pubbliche ‘nazionali’ e ‘popolari’”, na «Nuova Antologia» de 1° de abril de 1930.[1] § 〈62〉. A questão dos intelectuais. Quando começa a vida intelec- tual nos vários países do mundo e da Europa? O que nós dividimos em “História antiga”, “medieval”, “moderna”, como se pode aplicar aos diversos países? Também essas diversas fases da história mun- dial foram absorvidas pelos intelectuais modernos dos países que só recentemente entraram na vida cultural. Todavia, o fato dá lugar a atritos. As civilizações da Índia e da China resistem à introdução da civilização ocidental, que, de uma forma ou de outra, termina por vencer: podem elas de um golpe decair nas condições do folklo- re? da superstição? Esse fato, porém, não pode acelerar a ruptura entre povo e intelectuais e a expressão da parte do povo de novos intelectuais formados na esfera do materialismo histórico? | § 〈63〉. História dos intelectuais italianos. Cf. o artigo de Giu- seppe Tucci, “Del supposto architetto del Taj e di altri italiani alla corte del Mogul”, na «Nuova Antologia», 1º de maio de 1930.[1] O suposto arquiteto do Taj teria sido Jeronimo Veroneo, morto em 1640, ou seja, antes de que o Taj fosse terminado (1648), mas que se supõe tenha feito o plano, finalizado depois por um muçulmano (ver o artigo para os detalhes). |37a| * NO MS: “MERCANTILISTAS”. * NO MS: POR ERRO: “ALFREDO”. 591930-1932: notas sobre filosofia ii § 〈64〉. Roberto Michels. No artigo “Il pangermanismo coloniale tra le cause del conflitto mondiale”, de Alberto Giaccardi («Nuova Antologia», 16 de maio 1930),[1] na p. 238 está escrito: “o ‘lugar ao sol’ reclamado pela Alemanha começou muito cedo a se tornar de uma tal grandeza, que teria reduzido todos os outros à sombra ou quase: até ao povo italiano, cuja situação era análoga àquela do povo alemão*, um estudioso germânico, Roberto Michels, negava o direito de exigir colônias, porque ‘a Itália, embora sendo demo- graficamente forte, é pobre de capitais’”. Giaccardi não dá referên- cia bibliográfica da expressão de Michels. No fascículo de 1º de julho seguinte, Giaccardi publica uma “retificação” da sua afirmação, evidentemente por impulso de Mi- chels; recorda: L’Imperialismo italiano, de Michels (Milano, 1914, Società editrice libraria), e, de 1912, os “Elemente zur Entstehun- gsgeschichte des Imperialismus in Italien”, no «Archiv für So- zialwissenschaft», janeiro-fevereiro de 1912, pp. 91-92, e conclui: “O que corresponde perfeitamente aos sentimentos de italianidade constantemente (!) demonstrados pelo ilustre professor do Ateneu perugiano, que, embora renano de origem, escolheu a Itália como sua Pátria de adoção, desenvolvendo em toda ocasião uma intensa e eficaz atividade em nosso favor”.[2] § 〈65〉. Feminismo. Cf. o artigo de Vittorio Cian, “Femminis- mo patriottico del Risorgimento”, na «Nuova Antologia» de 1º de junho de 1930.[1] Tipo retórico, mas interessante pelas indicações objetivas sobre a participação das mulheres na política do Risorgi- mento*. Em uma nota, está citado este | trecho de Gioberti, [tomado] da Apologia del libro intitolato “Il Gesuita Moderno ecc.”, cap. III da parte I: “a participação da mulher na causa nacional é um fato qua- se novo na Itália e que, verificando-se em quase todas as suas pro- víncias, deseja ser especialmente advertido, porque ele é, no meu * NO MS: POR ERRO: “ITALIANO”. * NO MS: “SOBRE A PARTICIPAÇÃO DAS MULHERES NA VIDA POLÍTICA DAS MU LHERES NO RISORGIMENTO”. |38| 60 caderno 7 (vii) parecer, um dos sintomas mais claros a demonstrar que chegamos à maturidade civil e a pleno ser de consciência como nação”.[2] A observação de Gioberti não e válida só para a vida nacional: todo movimento histórico inovador está maduro apenas enquanto par- ticipam não só os velhos, mas os jovens e os maduros e as mulheres, de modo que ele tenha um reflexo até na infância. § 〈66〉. História dos intelectuais italianos. Gioacchino Volpe, no artigo (discurso) “Il primo anno dell’Accademia d’Italia” («Nuova Antologia», 16 de junho de 1930),[1] na p. 494, entre os livros [de história] que a Academia (Seção de ciências morais-históricas) de- sejaria que fossem escritos, menciona: “O dedicado àquela incrível irradiação da nossa cultura que ocorreu entre o século XV e XVII, da Itália em direção à Europa, mesmo enquanto da Europa se mo- vimentavam em direção à Itália as novas invasões e dominações”.[2] § 〈67〉. História dos intelectuais italianos. Cf. Renaud Przezdzie- cki, “Ambasciatori veneti in Polonia”, «Nuova Antologia», 1° de julho de 1930:[1] “A falta de uma unidade pátria, de uma dinastia única, criava en- tre os italianos um estado de espírito independente, pelo qual cada um que tivesse capacidades políticas e diplomáticas, as considerava como talento pessoal que poderia pôr, segundo o seu interesse, a ser- viço de qualquer causa, do mesmo modo que os capitães mercenários possuíam a sua espada. A diplomacia considerada como ofício livre, criava assim, nos séculos XVII e XVIII, o tipo de diplomata sem pátria, do qual o exemplo mais clássico é provavelmente o cardeal Mazzarino”.[2] A diplomacia, segundo Przezdziecki, teria encontrado, na Itália, um terreno natural para nascer e desenvolver-se: 1) velha cultura; 2) fracionamento “estatal” que dava lugar | a contrastes e lutas po- líticas e comerciais, e, assim, favorecia o desenvolvimento das capa- cidades diplomáticas. Na Polônia, se encontravam esses elementos diplomáticos italia- nos a serviço de outros Estados: um padre florentino, monsenhor Bonzi, foi embaixador da França em Varsóvia, de 1654 a 1669;um |38A| 611930-1932: notas sobre filosofia ii marquês de Monti, bolonhês, foi embaixador de Luís XV junto a Stanislao Lesczynski; um marquês Lucchesini, foi ministro pleni- potenciário do rei da Prússia em Varsóvia, no final do século XVIII. Os reis da Polônia se serviram frequentemente das habilidades di- plomáticas dos italianos, embora a nobreza polonesa tivesse fei- to aprovar leis que vetavam aos soberanos confiar aos forasteiros funções públicas. Ladislao Jagellone, no início do século XV, havia encarregado um tal Giacomo de Paravesino de missões diplomá- ticas, como seu embaixador em Veneza, em Milão, em Montova. O humanista florentino, Filippo Buonaccorsi da Fiesoli, chamado Callimaco, após ter sido pedagogo dos filhos de Casimiro III, foi embaixador desse rei junto a Sisto IV. Innocenzo VIII, a República de Veneza e o Sultão. No século XVI, foram embaixadores polacos em vários Estados Luigi del Monte, Pietro degli Angeli, os irmãos Magni di Como. No século XVI, Domenico Roncalli é ministro de Ladislao IV em Paris, e negocia o matrimônio daquele sobera- no com Luiza Maria Gonzaga; Francesco Bibboni é embaixador polonês em Madri, Andrea Bollo é ministro da Polônia junto a Re- pública de Gênova e um tal dall'Oglio encarregado de negócios em Veneza no fim do século XVIII. Entre os representantes poloneses junto à Santa Sé, encontramos também, na segunda metade do sé- culo XVIII, um cardeal Antici e um conde de Lagnasco. Os italianos criaram a diplomacia moderna. A Santa Sé, que du- rante longos séculos arbitra em boa parte da política mundial, foi a primeira a instituir Nunciaturas estáveis, e a República de Veneza foi o primeiro Estado que organizou um serviço diplomático regu- lar.[3] § 〈68〉. História dos intelectuais italianos. Humanismo e Renasci- mento. Cf. Luigi Arezio, “Rinascimento, Umanesimo e spirito mo- derno”, «Nuova Antologia», 1° luglio 1930.[1] Arezio se ocupa do livro | de G. Toffanin, Che cosa fu l’Umanesi- no (Firenze, Sansoni, 1929) que parece, pelas menções feitas, muito interessante para o meu assunto. Irei assinalar algumas referências, porque devo ler o volume.[2] (Voigt e Burckhartdt acreditaram que o Humanismo fosse dirigido contra a Igreja; o Pastor – deve-se ler |39| 62 caderno 7 (vii) o seu volume sobre a História dos Papas, que diz respeito ao Huma- nismo – não crê que o Humanismo fosse inicialmente dirigido con- tra a Igreja. Para Toffanin, o princípio da irreligiosidade ou da nova religião não é a via mestra para entrar no segredo dos humanistas; nem vale falar do seu individualismo, porque “os supostos efeitos da reavaliação da personalidade humana” como obra de uma cul- tura, seriam tanto mais surpreendentes em um tempo que ficou fa- moso por ter “alongado a distância entre o resto dos homens e aqueles de estudo”. O fato realmente característico do humanismo “perma- nece naquela paixão pelo mundo antigo segundo a qual, quase de improviso, com uma língua morta se tenta suplantar outra popular e consagrada pelo gênio, se inventa, podemos dizer, a ciência filoló- gica, se renova gosto e cultura. O mundo pagão renasce”. Toffanin sustenta que não é preciso confundir o humanismo com o progressivo despertar posterior ao ano mil; o humanismo é um fato essencial- mente italiano “independente desses falaciosos presságios”, e, a par- tir deles, para se fazer clássicos e cultos, atingirão a França e o mun- do inteiro. Em um certo sentido pode se chamar herética aquela civilização comunal do século XIII, que apareceu em uma irrupção de sentimentos e pensamentos refinadíssimos em forma plebeia, e “inicialmente herético foi aquele impulso ao individualismo, mes- mo se entre o povo ele tomou consciência da heresia menos do que a uma primeira vista se suspeite”. A literatura vulgar irrefreável no seio da civilização comunal e independente do classicismo é indi- cador de uma sociedade “em que a levedura herética fermentou”; levedura que, se enfraquecia nas massas a deferência à autoridade eclesiástica, tornava-se aos poucos abertamente apartada da “roma- nidade”, característica entre a Idade Média propriamente dita e o Humanismo. Alguns intelectuais parecem conscientes desta des- continuidade histórica: eles pretendem ser cultos sem ler Virgílio, | ou seja, sem os estudos liberais, cujo geral abandono justificaria, segundo Boccaccio, o uso do vulgar ao invés do latino, na Divina Commedia. O máximo entre esses intelectuais é Guido Cavalcanti. Em Dante, “o amor pela língua plebeia, germinado por um estado de ânimo comunal e virtualmente herético”, deveria contrastar com um conceito de sabedoria quase humanístico. “Caracteriza os hu- |39a| 631930-1932: notas sobre filosofia ii manistas a consciência de um distanciamento sem remédio entre homem de cultura e multidão: ideais abstratos são para eles aqueles do poder imperial e papal; real é a sua fé na universalidade cultural e nas razões dela”. A Igreja favoreceu o distanciamento da cultura do povo começando com o retorno ao latim, porque o considerou como sã reação contra toda mística indisciplina. O Humanismo, de Dante até Maquiavel, é uma era que está claramente em si, e, con- trariamente àquilo que pensam alguns, dado o comum impulso an- tidemocrático e anti-herético, tem uma não superficial afinidade com a Escolástica. Assim, Toffanin nega que o Humanismo tenha sido transmitido para a Reforma, porque esta, com seu distanciamento da romanidade, com a vingança rebelde dos vulgares, e com tantas outras coisas, renova o palpitar da cultura comunal, fremente here- sia, contra a qual o humanismo surgira. Com o final do humanismo nasce a heresia e estão fora do humanismo Maquiavel, Erasmo (?), Lutero, Giordano Bruno, Descartes, Jansênio.[3] Essas teses de Toffanin frequentemente coincidem com as notas já feitas por mim em outros cadernos.[4] Com a diferença que To- ffanin se mantém sempre no campo cultural-literário e não põe o humanismo em conexão com os fatos econômicos e políticos que se desenvolveram na Itália contemporaneamente: a passagem aos principados e às senhorias, perda da iniciativa burguesa e transfor- mação dos burgueses em proprietários de terras. O humanismo foi um fato reacionário na cultura porque toda a sociedade italiana es- tava se tornando reacionária. Arezio tenta fazer objeções a Toffanin, mas trata-se ninharias e de superficialidade. Que a era comunal seja um fermento de here- sias não parece aceitável à Arezio, | que, por heresia, entende ape- nas o averroísmo e o epicurismo. Mas a comuna era uma heresia ela mesma porque tendencialmente deveria entrar em luta com o papado e tornar-se independente. Por isso, não lhe agrada que Tof- fanin ponha o Humanismo como fiel ao cristianismo, embora reco- nheça que mesmo os céticos faziam ostentação de religiosidade. A verdade é que se tratou do primeiro fenômeno “clerical” no sentido moderno, uma Contrarreforma antecipada (uma Contrarreforma |40| 64 caderno 7 (vii) em relação à era comunal). Ela se opunha à ruptura do universa- lismo medieval e feudal que estava implícito na Comuna e que foi sufocada na origem etc. Arezio segue as velhas concepções sobre o Humanismo e repete as afirmações tornadas clássicas por Voigt, Burckhardt, del Rossi, De Nolhac, Symonds, Jebb etc. § 〈69〉. Ação Católica. Para o significado real e de política ime- diata, e mediada, da encíclica Quadragesimo anno, de Pio XI [para o 40º aniversário da encíclica Rerum Novarum], no que diz respei- to às relações entre catolicismo e socialdemocracia, deve-se ter em conta o comportamento do cardeal inglês Bourne e do seu discurso em Edimburgo (na primeira quinzena de junho de 1931) sobre o partido trabalhista. Cf. os jornais católicos ingleses da época .[1] § 〈70〉. História das classes subalternas. Intelectuais italianos. De um artigo de Alfredo Panzini (“Biancofiore”, no «Corriere della Sera» de 2 de dezembro de 1931), sobre Severino Ferrari e o seu poeminha Il Mago: “Como muitos filhos da pequenaburguesia, sobretudo aqueles que frequentavam a Universidade, se estava sen- timentalmente próximo à pia batismal de Bakunin talvez mais do que de Karl Marx. Os jovens, ao entrar na vida, queriam um batis- mo; e de Giuseppe Mazzini permanecia a tumba e o grande fulgor da tumba; mas a palavra do grande apóstolo não bastava mais às novas gerações”. De onde Panzini tira que os jovens etc., se aproxi- mavam mais de Bakunin etc.? Talvez, simplesmente pelas recorda- ções pessoais da Universidade (Severino Ferrari nasceu em 1856; Il Mago foi publicado em 1884),[1] embora Panzini tenha frequenta- do a Universidade de Bolonha muitos anos depois de Ferrari. § 〈71〉. Intelectuais. Sobre a cultura da Índia. Cf. a série de arti- gos publicados na «Civiltà | Cattolica» de julho de 1930 e meses seguintes: “Sistemi filosofici e sette dell’Induismo”.[1] Os jesuítas se põem esse problema: O catolicismo na Índia consegue fazer apenas proselitismo, e, mesmo assim, de maneira limitada, entre as castas inferiores. Os intelectuais indianos são refratários à propaganda, e o papa disse que se deve operar também entre eles, já que as massas populares se converteriam quanto mais se convertessem os núcle- os intelectuais mais importantes (o papa conhece o mecanismo de |40a| 651930-1932: notas sobre filosofia ii reforma cultural das massas populares-camponesas mais do que muitos elementos do laicismo de esquerda: ele sabe que uma gran- de massa não pode ser convertida molecularmente; deve-se, para acelerar o processo, conquistar os dirigentes naturais das grandes massas, ou seja, os intelectuais, ou formar grupos intelectuais de novo tipo, daí a criação de prelados indígenas); daí a necessidade de conhecer exatamente os modos de pensar e as ideologias des- tes intelectuais, para melhor entender a organização da hegemonia cultural e moral para poder destruí-la ou assimilá-la. Esses estudos da parte dos jesuítas têm, por isso, uma particular importância ob- jetiva, na medida em que não sejam “abstratos” e acadêmicos, mas voltados a objetivos práticos concretos. Eles são muito úteis para conhecer as organizações de hegemonia cultural e moral nos gran- des países asiáticos como a China e a índia. § 〈72〉. Passado e presente. A burguesia rural. Artigo de Alfredo Rocco, “La Francia risparmiatrice e banchiera”, na «Gerarchia» de outubro de 1931.[1] Artigo a ser retificado em muitos particulares; mas o ponto principal a ser notado é este: por que, na França, se acumula tanta poupança? Será apenas porque os franceses são sovi- nas e avarentos, como parece sustentar Rocco? Seria difícil demons- trar isso, ao menos em sentido absoluto. Os italianos são “sóbrios, trabalhadores, econômicos”: por que não se acumula poupança na Itália? O nível de vida médio francês é, notavelmente, superior ao italiano (cf. estudo de Camis | sobre a alimentação na Itália),[2] por isso, os italianos deveriam poupar mais do que os franceses. Na Itália, não ocorre o mesmo que na França, porque existem classes absolutamente parasitárias que não existem na França, e mais im- portantes de todas as burguesias rurais. (Cf. o livro de Serpieri so- bre as classes rurais na Itália durante a guerra,[3] e precisar quanto “custa” uma tal classe aos camponeses italianos). § 〈73〉. Ação Católica. Além do Annuario Pontificio que tem caráter oficial e das outras publicações do Almanacchi etc., ver a publicação Annali dell’Italia Cattolica, que, em 1930, foram pu- blicadas pelas edições Pro Famiglia, Milão (in 16º, pp. 416, L. 8).[1] |41| 66 caderno 7 (vii) § 〈74〉. Passado e Presente. Os industriais e a missões católicas. É fato conhecido que os industriais italianos formaram um organis- mo para ajudar diretamente e organicamente as missões católicas na sua obra de penetração cultural e econômica nos países atrasa- dos. Publicam um boletim especial para tal atividade: «Bollettino ufficiale del Comitato nazionale industriali e commercianti per le Missioni Cattoliche», Roma, em 8°.[1] Contribuíram também in- dustriais e comerciantes judeus e descrentes, naturalmente, e, tam- bém, a Fiat, que, nos anos do pós-guerra, ajudava a Y.M.C.A e os metodistas em Turim.[2] § 〈75〉. Literatura Popular. Em um artigo de Antonio Baldini («Corriere della Sera», 6 de dezembro de 1931) sobre Paolina Leopardi (Tutta-di-tutti) e as suas relações com Prospero Viani, se recorda, na esteira de um grupo de cartas publicadas por C. Anto- na-Traversi («Civiltà Moderna», ano III, n. 5, Firenze, Vallecchi), que Viani costumava enviar à Leopardi os romances de Eugenio Sue (I misteri di Parigi e L’ebreo errante) que Paolina considerava “deliciosos”. Lembrar o caráter de P. Viani, erudito, correspondente da Crusca, e o ambiente em que vivia Paolina, ao lado do utrare- acionário Monaldo, que escrevia a revista «Voce della Ragione» (da qual Paolina era a redatora chefe) e era avesso às ferrovias etc.[1] § 〈76〉. Noções enciclopédicas. Bibliografia. Recolher os dados bibliográficos das publicações enciclopédicas | especializadas em política, sociologia, filosofia, economia. Poder-se-ia começar pelo Dizionario Filosofico de Voltaire, onde “filosófico” significa precisa- mente “enciclopédico”, da ideologia do enciclopedismo ou ilumi- nismo. Recordar o Dizionario Politico, de Mauricio Block,[1] que é o “dicionário filosófico” do liberalismo francês. O Dictionaire poli- tique et critique, de Carlo Maurras (das «Nouvelles Littéraires» de 14 de novembro de 1931, parece que, deste trabalho de Maurras, saíram já 20 fascículos de 96 pp. cada um; cada fascículo custa 10 francos; junto às edições La Cité des Livres).[2] § 〈77〉. Os intelectuais. Os partidos políticos. Uma das questões mais importantes em relação aos partidos políticos é aquela da sua “tempestividade”, ou “tempismo”, isto é, do como eles reagem con- |41a| 671930-1932: notas sobre filosofia ii tra o espírito “consuetudinário” e as tendências a se tornar anacrô- nicos e mumificados. Na prática, os partidos nascem [como organi- zação] após acontecimentos históricos importantes para os grupos sociais representados: mas, eles nem sempre sabem adaptar-se às novas épocas ou fases históricas, não sabem se desenvolver confor- me se desdobram as relações globais de força [e, assim, as relações relativas] no país determinado ou no campo internacional. Nesta pesquisa, deve-se distinguir: o grupo social; a massa do partido; a burocracia ou o estado maior do partido. Esta última é a força consuetudinária mais perigosa: se ela se organiza como corpo em si, solidário e independente, o partido termina por anacronizar-se. Acontecem, assim, as crises dos partidos, que, às vezes de repen- te, perdem a sua base social histórica e ficam flutuando no ar; isso ocorreu na Alemanha, especialmente com a expansão do hitleris- mo. Os partidos franceses são os mais úteis para se estudar a ana- cronização das organizações políticas: nascidos em consequência da Revolução de 1789 e dos movimentos sucessivos, eles repetem uma terminologia velha, que permite aos dirigentes manter a velha base, embora fazendo compromissos com forças de fato diversas e frequentemente contrárias, e sujeitando-se à plutocracia. CF. CADERNO 13 (XXX), P.15. |§ 〈78〉. Ação Católica. A propósito das medidas tomadas em 1931 contra a Ação Católica italiana, é interessante o artigo “Una grave questione di educazione cristiana: A proposito del Primo Congresso Internazionale dell’Insegnamento medio libero di Bru- xelles (28-31 de julho de 1930)”, publicado na «Civiltà Cattolica» de 20 setembro 1930.[1] O Codice Sociale de Malines, como se sabe, não exclui a possibi- lidade da insurreição armada da parte dos católicos: naturalmente, restringe os casos desta possibilidade, mas deixa vaga e incerta as condições positivas para a possibilidade mesma, que, porém, se en- tende dizer respeito a certos casos extremos de supressão e limite dos privilégios eclesiásticos e vaticanos.[2] No artigo da «Civiltà Cattolica», exatamentena primeira página e sem outras observa- |42| 68 caderno 7 (vii) ções, se reproduz um trecho do livro: Ch. Terlinden, Guillaume I, roi des Pays bas, et l’Eglise Catholique en Belgique (1814-1830), Bruxelles, Dewit, 1906, Tom. 2, p. 545: “Se Guilherme I não tivesse violado as liberdades e os direitos dos católicos, estes, fiéis a uma religião que comanda o respeito à autoridade, não teriam nunca pensado em se levantar e nem se unir aos liberais, seus irreconciliá- veis inimigos. Nem os liberais, poucos então e com fraca influência sobre o povo, teriam podido sozinhos sacudir o jogo estrangeiro. Sem o concurso dos católicos, a revolução belga teria sido uma es- téril rebelião sem êxito”. Toda a citação é impressionante, em todos os seus três períodos, assim como todo o artigo em que a Bélgica representa uma referência polêmica da atualidade. § 〈79〉. Passado e presente. Sobre a questão da importância dada por Gentile a Gioberti para identificar um filão filosófico nacional permanente e consequente, deve-se ver dois estudos sobre Gioberti: aquele do escritor católico Palhoriès, Gioberti, Parigi, Alcan, 1929, in 8º, pp. 408, e aquele do idealista Ruggero Rinaldi, Gioberti e il Problema religioso del Risorgimento, prefácio de Balbino Giuliano, Vallecchi, Firenze, in 8°, pp. XXVIII-180. Os dois, embora partin- do de pontos de vista diversos, chegam a demonstrações símiles: que Gioberti, de modo algum é o Hegel italiano, mas se mantém no campo da ortodoxia | católica e do ontologismo. Deve-se ter em conta a importância que tem no “gentilismo” a interpretação idea- lista de Gioberti, que, no fundo, é um episódio de Kulturkampf, ou uma tentativa de reforma católica. Deve-se notar a introdução de Giuliano ao livro de Rinaldi, porque parece que Giuliano apresenta alguns problemas de cultura postos pela Concordata na Itália, ou seja, como, ocorrido o acordo político entre Estado e Igreja, possa haver um “acordo” entre transcendência e imanência no campo do pensamento filosófico e da cultura.[1] § 〈80〉. Passado e presente. A discussão sobre a força e o consen- so demonstrou* como progrediu, relativamente, na Itália, a ciência política, e como, no seu tratamento, mesmo da parte das estatísticas |42a| * NO MS: "DEMONSTRARAM". 691930-1932: notas sobre filosofia ii responsáveis, exista uma certa franqueza de expressão. Esta discus- são é a discussão da “filosofia da época”, do motivo central da vida dos Estados no período do pós-guerra. Como reconstruir o aparato hegemônico do grupo dominante, desagregado pelas consequên- cias da guerra em todos os Estados do mundo? No entanto, por que se desagregou? Talvez por que se desenvolveu uma forte vontade política coletiva antagonista? Se assim tivesse sido, a questão seria resolvida a favor de tal antagonista. Se desagregou, ao contrário, por causas puramente mecânicas, de diversos gêneros: 1) porque as grandes massas, precedentemente passivas, entraram em movimen- to, mas em um movimento caótico e desordenado, sem direção, ou seja, sem uma precisa vontade política coletiva; 2) porque as clas- ses médias, que, na guerra, haviam tido uma função de comando e de responsabilidade, foram delas privadas pela paz, terminando desocupadas, mesmo depois de ter passado por um aprendizado de comando etc.; 3) porque as forças antagonistas mostraram-se inca- pazes de organizar em seu proveito esta desordem de fato. O pro- blema era reconstruir o aparato hegemônico destes elementos antes passivos e apolíticos, e isto não podia ocorrer sem a força: mas esta força não podia ser aquela “legal” etc. Uma vez que, em cada Esta- do, o complexo das relações sociais era diverso, distintos deveriam ser os | métodos políticos de emprego da força e a combinação das forças legais e ilegais. Quanto maior é a massa dos apolíticos, tanto maior deve ser a contribuição das forças ilegais. Quanto maior são as forças politicamente organizadas e educadas, tanto mais deve “cobrir” o Estado legal etc. § 〈81〉. Revistas-tipo. Colaboração estrangeira. Não se pode pres- cindir de colaboradores estrangeiros, mas também a colaboração estrangeira deve ser orgânica e não antológica e esporádica ou casu- al. Para que seja orgânica, é necessário que os colaboradores estran- geiros, além de conhecer as correntes culturais do seu país, sejam capazes de “compará-las” com aquelas dos países onde a revista é publicada, isto é, conheçam também as correntes culturais deste e compreendam a sua “linguagem” nacional. A revista, portanto (ou seja, o diretor da revista), deve formar também os seus colaborado- res estrangeiros para alcançar organicidade. |43| 70 caderno 7 (vii) No Risorgimento, isso aconteceu muito raramente, e, por isso, a cultura italiana continuou a permanecer um pouco provincial. De resto, uma organicidade de colaboração internacional ocorreu apenas na França, porque a cultura francesa, já antes da época libe- ral, havia exercido uma hegemonia europeia; eram relativamente 〈numerosos〉 os intelectuais alemães, ingleses etc. que sabiam infor- mar sobre a cultura dos seus países empregando uma “linguagem” francesa. De fato, não bastava que a «Antologia» de Vieusseux[1] publicasse artigos “liberais” francesas ou alemães ou ingleses para que tais artigos pudessem informar utilmente os liberais italianos, ou seja, para que tais informações pudessem suscitar ou reforçar correntes ideológicas italianas: o pensamento permanecia genéri- co, abstrato, cosmopolita. Seria necessário suscitar colaboradores especializados no conhecimento da Itália, das suas correntes inte- lectuais, dos seus problemas, colaboradores capazes de informar, ao mesmo tempo, a França sobre a Itália. Tal tipo de colaborador não existe “espontaneamente”, deve ser suscitado e cultivado. A este modo racional de entender a colabora- ção, se opõe a superstição de ter entre os próprios colaboradores ex- ternos os líderes, os | grandes teóricos etc. Não se nega a utilidade (especialmente comercial) de se ter grandes nomes. Mas, do ponto de vista prático de promoção da cultura, é mais importante o tipo de colaborador unido a revista que saiba traduzir um mundo cultu- ral na linguagem de um outro, porque sabe encontrar as semelhan- ças mesmo onde parecem não existir, e sabe encontrar as diferenças mesmo onde parecem ser apenas semelhanças etc. § 〈82〉. Os filhotes do padre Bersciani. Enrico Corradini. Deve-se ver os jornais contendo o seu memorial (Corradini morreu em 10 de dezembro de 1931). De Corradini, deve-se ver a sua teoria da “nação proletária” em luta contra as nações plutocráticas e capitalis- tas, teoria que serviu de ponte aos sindicalistas para passar ao nacio- nalismo antes da guerra líbica e depois. A teoria conexa com o fato da emigração das grandes massas de camponeses para a América, e, assim, com a questão meridional.[1] Os romances e os dramas de Corradini, sob a rubrica do Brescianismo.[2] |43a| 711930-1932: notas sobre filosofia ii § 〈83〉. Noções enciclopédicas. A opinião pública. O que se chama “opinião pública” está estritamente conectado com a hegemonia política, é o ponto de contato entre a “sociedade civil” e a “socieda- de política”, entre consenso e força. O Estado, quando quer iniciar uma ação pouco popular, cria, preventivamente, a opinião pública adequada, organiza e centraliza certos elementos da sociedade ci- vil. História da “opinião pública”: naturalmente, elementos da opi- nião pública sempre existiram, mesmo nas satrapias asiáticas; mas, a opinião pública como hoje se entende, nasceu com a queda dos Estados absolutos, no período de luta da nova classe burguesa pela hegemonia política e pela conquista do poder. A opinião pública é o conteúdo político da vontade política pú- blica que poderia ser discordante: por isso, existe a luta pelo mono- pólio dos órgãos da opinião pública: jornais, partidos, parlamento, de modo que uma só força modele a opinião e, assim, a vontade | política nacional, colocando os discordesem uma poeira individual e desorgânica. § 〈84〉. Noções enciclopédicas. Mística. O termo italiano mistica não coincide com o francês mystique, embora também, em italiano, tenha começado a se difundir com o significado francês, mas de modo estranho, isto é, o significado francês que é evidentemente* crítico e pejorativo, está sendo aceito com o significado “positivo”, sem o sentido deteriorado. A “mística” não pode ser separa do fe- nômeno do êxtase, isto é, de um estado nervoso particular no qual o sujeito “sente” entrar diretamente em contato com o universal, sem necessidade de mediadores (por isso, os católicos são cautelo- sos em relação ao misticismo, que despreza a igreja-intermediária). Se compreende por que os franceses tenham introduzido o termo “mística” na linguagem política: querem, com isso, significar um estado de espírito de exaltação política não racional ou não funda- mentada, um fanatismo permanente irreprimível às demonstrações corrosivas, que não é outra coisa senão a “paixão” de que fala Croce ou o “mito” de Sorel julgado por cérebros cartesianamente logis- |44| * NO MS: UMA VARIANTE INTERLINEAR: “PREVALENTEMENTE”. 72 caderno 7 (vii) cistas: fala-se, portanto, de uma mística democrática, parlamentar, republicana etc. Positivamente, fala-se de mística (como na “Escola de mística fascista” de Milão) para não usar os termos religiosidade ou até “religião”. Na introdução de Arnaldo Mussolini para o ter- ceiro ano da Escola de mística fascista (“Coscienza e dovere”, publi- cada no semanário «Gente Nostra» de 13 de dezembro de 1931) se diz, entre outras coisas: “Foi dito que a vossa escola de mística fascista não tem o título apropriado. Mística é uma palavra que se adequa a algo de divino, e, quando é colocada fora do campo rigida- mente religioso, se adapta a muitas ideologias inquietas, vagas, in- determinadas. Ter cautela com as palavras e, sobretudo, com as pa- lavras que podem ter muitos significados. É certo que alguém pode me responder que, com a palavra ‘mística’, se quis pôr em evidência as relações necessárias entre o divino e o espírito humano que é a sua derivação. Aceito essa tese sem permanecer em uma questão de palavras. No fundo, não são elas que contam: é o espírito que vale. E o espírito que vos anima está em justa relação com o correr do tempo que não conhece barreiras, nem tem limites críticos; mística reclama a uma tradição ideal que revive transformada e recriada no vosso programa de jovens fascistas renovadores”.[1] [Ao significado francês de mística se aproxima aquele de “religião”, como é empre- gado por Croce no seu Storia d’Europa].[2] | § 〈85〉. Noções enciclopédicas. Doutrinarismo e doutrinário. Sig- nificaria “inimigo dos compromissos”, “fiel aos princípios”. Palavra tomada da linguagem política francesa. Partido dos doutrinários sob Carlos X e Luís Felipe: Royer-Collard, Guizot etc.[1] § 〈86〉. Noções enciclopédicas. Bibliografias. Na bibliografia de um crítico, deve-se ter em conta: 1) os dicionários e as enciclopédias gerais, na medida em que eles dão explicações mais comuns e vul- gares* da terminologia das ciências morais e políticas; 2) as enci- clopédias especiais, isto é, as enciclopédias publicadas pelas várias correntes intelectuais e política, como os católicos, etc.; 3) os di- cionários políticos, filosóficos, econômicos, etc., existentes nos di- |44a| * NO MS: UMA VARIANTE INTERLINEAR: “DIFUSAS”. 731930-1932: notas sobre filosofia ii versos países; 4) os dicionários etimológicos gerais e especiais, por exemplo aquele para os termos derivados do grego de Guanerio, publicado por Vallardi (me parece).[1] Uma vez que a terminologia alcança diversos conteúdos segundo os tempos e as diversas correntes culturais, intelectuais e políticas, a bibliografia geral, teoricamente, é indefinível, porque abraça toda a literatura geral. Trata-se de pôr limites: um dicionário político e crítico limitado por um certo nível cultural e de caráter elementar, que deveria se apresentar como um ensaio parcial. Entre os livros gerais, recordar o de Mario Govi, Fondazione della Metodologia. Logica ed epistemologia, Bocca, Torino, 1929, pp. 579, para as noções [históricas] sobre a classificação das ciên- cias e outros problemas de método etc.[2] § 〈87〉. Noções enciclopédicas. Agnosticismo. Este termo é frequen- temente usado na linguagem política com significados muitas vezes curiosos e surpreendentes: isso ocorre especialmente nas polêmicas “provincianas” em que o escritor se exibe com palavras difíceis. Se diz, por exemplo, que Fulano é agnóstico, quando Fulano não quer dis- cutir, porque não quer levar a sério um determinado argumento etc. O termo é de origem religiosa e se refere ao θεοσ αγνοστοσ (deus ignotus; ignoramus, ignorabimus, sobre deus). Seita dos agnósticos etc. Agnosticismo igual, portanto, a empirismo e materialismo (no- minalismo etc.) etc.; impossibilidade de conhecer o absoluto,| os universais etc., enquanto ligado à metafísica religiosa, etc. § 〈88〉. Católicos integralistas, jesuítas, modernistas. Roberto Bellarmino. Pio XI, em 13 de maio de 1923, deu a Bellarmino o tí- tulo de beato, mais tarde (no 50º aniversário do seu sacerdócio, ou seja, em uma data especial) o inscreveu no álbum dos Santos, junto com os jesuítas missionários mortos na América setentrional; em setembro de 1931, enfim, o declarou Doutor da Igreja Universal. [1] Estas atenções particulares à máxima autoridade jesuítica após Ignácio de Loyola, permitem* dizer que Pio XI, que foi chamado * NO MS: “PERMITE”. |45| 74 caderno 7 (vii) o papa das Missões e o papa da Ação Católica, deve especialmente ser chamado de papa dos jesuítas (as Missões e a Ação Católica, de resto, são as duas pupilas dos olhos da Companhia de Jesus). Deve-se observar que, na carta apostólica [traduzida] com a qual Bellarmino é declarado Doutor (ver «Civiltà Cattólica» de 7 de novembro de 1931), falando-se da Companhia em geral, Bellar- mino é chamado “verdadeiro companheiro de Jesus”:[2] porque “companheiro” e não soldado, como se deveria exatamente dizer? O nome “Companhia” é só a tradução de “Societas” ou não há um significado militar? A palavra latina “Societas” não pode ter signifi- cado militar (ao menos me parece), mas qual foi a intenção de Igná- cio de Loyola? (Recordar a conexão de Bellarmino com o processo de Galileo). No comentário da «Civiltà Cattólica» à Lettera apos- tolica,[3] se acena com o fato de que a “causa” (de beatificação e de santificação) de Bellarmino fora atrasada pelas “manobras e (pelas) ameaças (!) daqueles políticos levianos e adversários do Pontifica- do, alguns amigos do absolutismo régio (“os integrais”), outros do subversivismo demagógico (“os modernistas”)”; a «Civiltà Católi- ca» menciona os fatos do século XVIII, mas depois fala dos “seus infelizes sucessores e imitadores hodiernos”.[4] (Parece que a beatifi- cação de Bellarmino no século XVIII foi um dos elementos da luta que levou à supressão da Companhia por imposição dos Bourbon). Os jesuítas hoje veem na santificação e no “doutorado” uma vin- gança (embora o último ato papal coincida com a supressão dos Jesuítas na Espanha), mas são cautelosos: “Ninguém quer exage- rar além da medida este acontecimento, ou alargar em demasia a sua importância, o significado, a oportunidade ou ‘atualidade’ em relação ao presente, e tanto mais em relação à insólita tempestade que deve ter sido não só inesperada, mas imprevisível, quando foi deliberado e depois discutido, etc. o decreto para a declaração de Doutor”.[5] |§ 〈89〉. Passado e presente. A religião na escola. “Eis porque, nos novos programas para a escola, segundo a reforma gentiliana, a arte e a religião são atribuídas à escola elementar, e a filosofia 〈é〉 larga- mente atribuída à escola secundária. Nas intenções filosóficas dos |45a| 751930-1932: notas sobre filosofia ii programas elementares, as palavras, ‘o ensinamento da religião é considerado como fundamentoe coroamento de toda a instrução primária’, significam, precisamente, que a religião é uma categoria necessária, mas inferior, através da qual deve passar a educação, já que, segundo a concepção de Hegel, a religião é uma filosofia mi- tológica e inferior, correspondendo à mentalidade infantil ainda incapaz de elevar-se a filosofia pura, na qual a religião deve ser resol- vida e absorvida. Vale notar, rapidamente, que esta teoria idealista não conseguiu poluir o ensinamento religioso na escola elementar, tratando-o como mitológico, seja porque os professores não se enten- dem ou não se ocupam de tais teorias, seja porque o ensino religioso católico é intrinsecamente histórico e dogmático, e é externamente vigiado e dirigido pela Igreja nos programas, teses, ensinamentos. Por outro lado, as palavras ‘fundamento e coroamento’ foram aceitas pela Igreja no seu significado óbvio e repetidas na Concordata en- tre a Santa Sé e a Itália, segundo a qual (art. 36) o ensinamento religioso se estende às escolas médias. Este entendimento veio con- trariar os objetivos do idealismo, o qual pretendia excluir a religião das escolas médias e permitir apenas o domínio da filosofia, des- tinada a superar e absorver em si a religião aprendida nas escolas elementares”. «Civiltà Cattolica», 7 novembro de 1931 (“Il buono ed il cativo nella pedagogia nuova”, anônimo, mas do padre Mario Barbera).[1] § 〈90〉. Passado e presente. Estado e partidos. A função hegemô- nica ou de direção política dos partidos pode ser avaliada pelo desenvolver-se da vida interna dos próprios partidos. Se o Estado representa a força coercitiva e punitiva de regulamentação jurídica de um país, os partidos, representando o espontâneo aderir de uma elite a tal regulamentação, considerada como tipo de convivência coletiva a qual toda a massa deve | ser educada, devem mostrar, na sua vida particular interna, ter assimilado como princípios de conduta moral aquelas regras que, no Estado, são obrigações legais. Nos partidos, a necessidade tornou-se já liberdade, e disso nasce o grandíssimo valor político (isto é, de direção política) da disciplina interna de um partido, e, assim, o valor de critério de tal disciplina |46| 76 caderno 7 (vii) para avaliar a força expansiva dos diversos partidos. Deste ponto de vista, os partidos podem ser considerados como escolas da vida estatal. Elementos de vida dos partidos: caráter (resistência aos im- pulsos das culturas ultrapassadas), honra (vontade intrépida ao sus- tentar o novo tipo de cultura e de vida), dignidade (consciência de operar por um fim superior), etc. § 〈91〉. Passado e presente. Tendências na organização externa dos fatores humanos produtivos no pós-guerra. Me parece que todo o conjunto destas tendências deva fazer pensar no movimento cató- lico econômico da Contrarreforma, que teve a sua expressão práti- ca no Estado jesuítico do Paraguai. Todas as tendências orgânicas do moderno capitalismo de Estado deveriam ser reportadas a esta experiência jesuítica. No pós-guerra, ocorreu um movimento inte- lectual e racionalista que corresponde ao florescimento das utopias da Contrarreforma: aquele movimento é ligado ao velho protecio- nismo, mas dele se diferencia e o supera, desembocando em tantas tentativas de economias “orgânicas” e de Estados orgânicos. Poder- -se-ia aplicar a eles o juízo de Croce sobre o Estado do Paraguai:[1] a saber, que se trate de um modo sábio de exploração capitalista nas novas condições, que tornam impossível (ao menos em toda a sua aplicação e extensão) a política econômica liberal. § 〈92〉. Risorgimento. A Itália meridional. Estudar as origens e as causas da convicção que existe, em Mazzini, de que a insurreição nacional devesse começar - ou de que seria mais fácil de fazer come- çar - na Itália meridional (irmãos Bandiera, Pisacane). Parece que tal convicção era também de Pisacane que, como escreve Mazzini (Opere, vol. LVIII, Epist., XXXIV, 1931), tinha um “conceito es- tratégico da Guerra de Insurreição”.[1] Tratou-se de um desejo (con- trapor a iniciativa popular meridional àquela monárquica piemon- tesa?) tornado convicção ou tinha origens racionais e positivas? E quais poderiam ser? Reaproximar esta convicção àquela de Bakunin e dos primeiros internacionalistas, já antes da década de 1870: mas Bakunin res- pondia a uma concepção política da eficiência subversiva de certas classes sociais. Este | conceito estratégico da guerra de insurrei-|46a| 771930-1932: notas sobre filosofia ii ção nacional de Pisacane onde se deve buscá-lo? Nos seus ensaios político-militares, em todos os escritos que permanecem dele e em outros: nos escritos de Mazzini (em todos os escritos, mas es- pecialmente no Epistolário; poder-se-ia escrever um ensaio sobre Pisacane e Mazzini), e nos vários comportamentos práticos de Pi- sacane. Um dos momentos mais importantes me parece deva ser a aversão de Pisacane a Garibaldi durante a República Romana. Por que tal aversão? Era Pisacane adversário, por princípio, da ditadu- ra militar? Ou a aversão era de caráter político-ideológico, isto é, era contra o fato de que tal ditadura teria sido meramente militar, com um vago conteúdo nacional, enquanto Pisacane queria dar à guerra de insurreição outro conteúdo nacional, e, especialmente, um conteúdo social? De todo modo, a oposição de Pisacane foi um erro no caso específico, porque não se tratava de uma ditadura vaga e indeterminada, mas de uma ditadura em um regime Republicano já instaurado, com um governo mazziniano em função (teria sido um governo de salvação pública, de caráter mais estritamente mili- tar, mas talvez precisamente os preconceitos ideológicos de aversão às experiências da Revolução francesa contaram grandemente para determinar tal aversão). § 〈93〉. Nomenclatura política. Privilégios e prerrogativas. Fixar os significados históricos dos dois termos. Me parece que se, em um Estado moderno, seria absurdo falar de privilégios a determina- dos grupos sociais, não é tão absurdo falar de prerrogativas. Porém, de prerrogativas não se pode falar senão com referência aos corpos constituídos e com referência às funções políticas, não como be- nefícios na vida econômica: a prerrogativa não pode não ser “es- tritamente” ligada à função social e ao exercício de determinados deveres. Por isso, deve-se ver se os “privilégios” não são senão “prer- rogativas” degeneradas, invólucros sem conteúdo social e funcio- nal, benefícios mantidos parasitariamente mesmo quando a função da qual foram justificados estava morta ou havia sido deslocada a um novo grupo social, que, assim, tinha o fardo funcional sem ter todos os meios jurídicos-políticos para a exercer regularmente. De- ve-se destacar que os conceitos de privilégio e de prerrogativa eram 78 caderno 7 (vii) conceitos jurídicos originariamente, aliás, foram o conteúdo de uma época da história dos Estados: eles se tornaram conceitos mo- rais reprobatórios apenas quando | não mais correspondentes aos serviços sociais e estatais necessários. “Prerrogativas da Coroa” é a frase mais comum com que se repete hoje o termo “prerrogativa”. Se a teoria constitucional de que a função da Coroa de personificar a soberania, seja no sentido estatal seja na direção político-cultu- ral (isto é, de arbitrar as lutas internas dos estratos dominantes, as classes hegemônicas e os seus aliados), está passando aos grandes partidos de tipo “totalitário” é exata, é evidente que a tais partidos passam as prerrogativas correspondentes. Por isso, deve-se estudar a função do Grande Conselho, que tende a se tornar um “Conselho de Estado” no velho sentido (com as velhas atribuições), mas com funções bem mais radicais e decisivas. § 〈94〉. Trabalhismo inglês. O Arcebispo de Canterbury, Primaz da Igreja anglicana e o trabalhismo. Durante as eleições inglesas de 1931, o candidato trabalhista W. T. Collyer afirmou, em uma reu- nião, que o arcebispo de Cantebury era um dos subscritores parao fundo do Partido Trabalhista. Foi perguntado ao arcebispo se a afirmação era exata e o seu secretário responde: “O Arcebispo me encarrega de dizer que ele foi membro filiado do Partido Traba- lhista de 1919 a 1925 ou 1926, quando ele encontrou um cres- cente desconforto com o movimento e com o espírito, e o humor do partido tornava impossível a continuação de uma tal afiliação (membership)”. (Cf. o «Manchester Guardian Weekly» de 30 de outubro de 1931, p. 357).[1] § 〈95〉. Nomenclatura política. Reich etc. Buscar a origem históri- ca e ideológica exata deste termo que é muito mal traduzido como “império”. Assim, o “Commonwealth” das nações britânicas não pode ser traduzido como “república”, embora signifique também “república”.[1] § 〈96〉. Nomenclatura política. Artesanato, pequena, média, gran- de indústria. Conceitos quantitativos e conceitos qualitativos. Do ponto de vista quantitativo, parte-se do número dos trabalhadores |47| 791930-1932: notas sobre filosofia ii empregados nas empresas individuais, estabelecendo as cifras mé- dias para cada tipo: de 1 a 5 artesanato, de 5 a 50 pequena indústria, de 50 a 100 média indústria, de 100 para cima grande indústria; trata-se de tipos ou generalizações muito relativas e que podem mudar de país a país. O conceito qualitativo seria mais científico e exato, mas é muito mais complexo e apresenta muitas dificuldades. Qualitativamente, os tipos deveriam ser fixados pela combinação de elementos variados: além do número dos operários, do tipo das máquinas e da engrenagem | entre máquina e máquina, do grau de divisão do trabalho, da relação entre diversos tipos de trabalhado- res (manuais, manuais especializados ou de manutenção, operários qualificados, especializados) e do grau de racionalização (além da industrialização) do conjunto do aparato produtivo e administra- tivo. Uma empresa racionalizada tem menos trabalhadores do que uma empresa não racionalizada, e, assim, com 50 trabalhadores pode ser mais “grande indústria” do que uma com 200 trabalhado- res (isto ocorre quando certas empresas, para certas partes da sua produção, se servem de uma empresa externa que funciona como uma parte especializada de todo um grupo de empresas não ligadas organicamente etc.). Esses elementos particulares têm diversos pe- sos relativos segundo o ramo industrial: na indústria da construção, o maquinismo não irá se desenvolver nunca como na indústria me- cânica etc. O tipo de máquina têxtil se desenvolve de modo diverso daquele da indústria mecânica etc. A este conceito de grandeza da indústria está ligado o conceito de “máquina”. Está também ligada a noção de “fábrica dissemina- da”, que é um aspecto do artesanato, do trabalho em domicílio e da pequena indústria. Mas, também, uma [grande] empresa de cons- trução não pode, em um certo sentido, ser considerada como uma fábrica disseminada? E as empresas de bonde e ferroviária? (Do ponto de vista da organização territorial, ou seja, da organização técnica, essas empresas são disseminadas e isso tem uma importân- cia para a psicologia dos trabalhadores. Um guarda-linha ferroviá- rio não terá nunca a mesma psicologia de um trabalhador manual de uma grande fábrica etc.). |47a| 80 caderno 7 (vii) Outro elemento importante é a força motriz adotada: um ar- tesão que se serve da energia elétrica é mais um artesão no sentido tradicional? O fato moderno da facilidade de distribuição da força motriz elétrica também para as pequenas unidades transforma e re- nova todos os tipos de indústria e de empresa.[1] § 〈97〉. Nomenclatura política. Hierocracia-teocracia. “Um gover- no no qual tem participação e ingerência o clero, o papa ou outras autoridades eclesiásticas” seria mais propriamente hierocrático; mas, pode também existir um governo “que opera por impulsos re- ligiosos e subordina leis, relações de vida civil, costumes e ditames religiosos” sem ser composto de eclesiásticos, e é teocrático.[1] Na realidade, elementos de teocracia subsistem em todos os estados onde não exista | clara e radical separação entre igreja e Estado, mas o clero exerça funções públicas de qualquer gênero e o ensinamento da religião seja obrigatório ou existam concordatas. (Inversão da máxima de Maquiavel: “regnum instrumentum religionis”). § 〈98〉. Ação católica. Cf. em outro caderno[1] a anotação de dois estudos publicados na «Civiltà Cattolica» de agosto de 1930, so- bre “Cesare D’Azeglio e gli albori della stampa cattolica in Italia” e “La fortuna del La Mennais e le prime manifestazioni di Azione Cattolica in Italia”.[2] Estes estudos se referem, especialmente, ao florescimento de periódicos católicos em várias cidades italianas durante a Restauração, que tendiam a combater as ideias da Enci- clopédia e da Revolução Francesa que perduravam etc. Neste mo- vimento intelectual-político, se resume o início do neoguelfismo italiano, que não pode, assim, destacar-se da Sociedade dos Sanfe- distas (uma grande parte destas revistas foi do príncipe de Canosa, que habitava em Modena, onde era publicada uma das mais im- portantes revistas do grupo).[3] No catolicismo italiano, eram duas as tendências principais: 1) aquele claramente austríaca, que via a salvação do Papado e da religião no gendarme imperial em defesa do status quo político italiano; 2) aquela Sanfedista em sentido es- trito, que sustentava a supremacia político-religiosa do Papa, antes de tudo, na Itália, e, assim, era adversária sorrateira da hegemonia austríaca na Itália e favorável a um certo movimento de indepen- |48| 811930-1932: notas sobre filosofia ii dência nacional (se, neste caso, se pode falar de nacional). É a este movimento que se refere a «Civiltà Cattolica» quando polemiza com os liberais do Risorgimento e sustenta o “patriotismo [e unita- rismo]” dos católicos de então: mas, qual foi o comportamento dos jesuítas? Parece que eles foram mais inclinados aos austríacos do que aos sanfedistas “independentistas”. Pode-se, assim, dizer que esse período preparatório da Ação Católica tenha sido a máxima expressão no neoguelfismo, ou seja, em um movimento de total retorno à posição política da Igreja na Idade Média, à supremacia papal etc. A catástrofe do neoguelfismo em 1848 reduz a Ação Católica àquela que será já a sua função no mundo moderno: função defensiva, essencialmente, não obstante as profecias apocalípticas dos católicos sobre a catástrofe do libera- lismo e sobre o retorno triunfal do domínio da Igreja sobre os des- troços do Estado liberal e do seu antagonista histórico, o socialismo (consequentemente, abstencionismo clerical e criação do exército de reserva católico). Nesse período da | restauração, o catolicismo militante se com- porta diversamente segundo os Estados: a posição mais interessan- te é aquela dos sanfedistas piemonteses (De Maistre etc.), que sus- tentam a hegemonia piemontesa e a função italiana da monarquia e da dinastia dos Savoia. § 〈99〉. Nomenclatura política. Facção. O termo serve hoje para indicar geralmente uma certa degeneração do espírito de partido, uma certa unilateralidade extremista fanática, exclusiva, estranha a compromissos também - aliás, especialmente - sobre questões se- cundárias e subordinadas; o ponto de vista de tal juízo é o espírito nacional, isto é, um certo modo de conceber a direção política de um país. “Facção” e “faccioso” foram adotados pelos partidos de di- reita contra os seus adversários, os quais responderam com o termo de “camarilha”, de “espírito de camarilha”, etc., para indicar a ten- dência de certos agrupamentos políticos de governo de identificar os seus interesses particulares com aqueles do Estado e da Nação, e a defender-lhes com igual fanatismo e exclusivismo. |48a| 82 caderno 7 (vii) A palavra “facção” que é de origem militar (provavelmente) tor- nou-se comum, na Itália, para indicar os partidos que combatiam entre si nas Comunas medievais, etc., e está implícito no uso do conceito que tais lutas impedirama unificação nacional antes do Risorgimento, ou seja, toda uma concepção anti-histórica do de- senvolvimento nacional italiano. “Facção” indica o caráter das lutas políticas medievais, exclusivistas, tendentes a destruir fisicamente o adversário, não a criar um equilíbrio de partidos em um todo orgânico com a hegemonia do partido mais forte etc. “Partido” é parte de um todo; “facção”, força armada que segue as leis militares exclusivistas etc. § 〈100〉. Passado e presente. Recordar a publicação de B. Cro- ce sobre as relações entre Maria Sofia e Malatesta (e a precedente publicação, na «Unità» de Florença de 1914 ou 1915).[1] Em um artigo de Alberto Consiglio: “Giro per l’Aspromonte”, no «Cor- riere della Sera» de 24 de dezembro de 1931, é dito: “A empresa de Fabrizio Ruffo, que tinha recolhido esses montanheses e lhes havia levado a ‘comer o coração’ dos jacobinos napolitanos, criara no Reino uma fama de lealismo bourbônico que os calabreses divi- diam equanimemente com os pescadores de Santa Luzia e com os lazzaroni dos burgos napolitanos. Este mito (!) produziu e alimen- tou muito do banditismo político do primeiro decênio unitário, e era ainda vivo, no princípio do século,| entre os últimos e esparsos bourbônicos. De fato, dizem que, de Paris, onde estava em exílio, a Rainha Maria Sofia enviou a Musolino um pouco de dinheiro para que o bandido mantivesse viva a rebelião na Calábria”. (Um jornal- zinho bourbonizante saiu, em Nápoles, até 1907 ou 1908: Eugenio Guarino publicou, no «Viandante» de Monicelli, um artigo pela sua morte).[2] § 〈101〉. Jornalismo. Correspondentes do exterior. Cf. outra nota a propósito na rubrica Revistas-tipo. Nela se mencionavam os cola- boradores estrangeiros das revistas italianas.[1] O tipo do “corres- pondente externo” de um jornal é algo diverso, todavia, algumas observações da outra nota são válidas também para esta atividade. Entretanto, não é necessário conceber o correspondente externo |49| 831930-1932: notas sobre filosofia ii como um puro repórter ou transmissor de notícias do dia por tele- grama ou por telefone, uma complementação das agências telegráfi- cas. O tipo moderno mais completo de correspondente do exterior é o publicista de partido, o crítico político que observa e comenta as correntes políticas mais vitais de um país estrangeiro e tende a se tornar um “especialista” sobre as questões daquele dado país (os grandes jornais, por isso, têm “escritórios de correspondência” nos diversos países, e o redator-chefe é o “escritor político”, o diretor do escritório). O correspondente deveria pôr-se em condições de escrever, em um tempo determinado, um livro sobre o país para onde é enviado para residir permanentemente, uma obra completa sobre todos os aspectos vitais da sua vida nacional e internacional. (Outra coisa é o correspondente viajante, que vai a um país para informar sobre os grandes acontecimentos que se desenvolvem imediatamente). Critérios para a preparação e a formação de um correspondente: 1) Julgar os acontecimentos no quadro histórico do próprio país e não só com referência ao seu país de origem. Isso significa que a posição de um país deve ser medida pelos progressos ou regressões verificadas naquele país e não pode ser mecanicamente compara- da à posição de outros países no mesmo momento. A comparação entre Estados tem importância, porque mede a posição relativa de cada um deles: de fato, um país pode progredir, mas se, em ou- tros, o progresso for maior ou menor, a posição relativa muda, e muda a influência internacional do país dado. Se julgamos a In- glaterra pelo que ela era antes da guerra, e não pelo que ela é hoje em comparação com a Alemanha, o juízo muda, embora também o juízo de comparação tenha grande importância. 2) Os partidos em cada país têm um caráter nacional, mais que internacional: o liberalismo | inglês não é igual ao francês ou ao alemão, embora exista muito em comum etc. 3) As jovens gerações estão em luta com as velhas na medida em que os jovens estão em luta com os velhos ou os velhos têm um monopólio cultural tornado artificial ou danoso? Os partidos respondem aos problemas novos ou estão superados e há crises? etc. |49a| 84 caderno 7 (vii) Mas, o erro maior e mais comum é aquele de não saber sair da própria carcaça cultural e avaliar o exterior com um parâmetro que não lhe é próprio: [não] ver a diferença sob [as] aparências iguais e não ver a identidade sob as diversas aparências. § 〈102〉. Passado e presente. Clareza do mandato e mandato imperativo. Nas eleições italianas, nenhuma clareza no mandato, porque não existiam partidos definidos em torno de programas definidos. O governo (era) sempre de coalizão, e de coalizão no terreno estritamente parlamentar, portanto, frequentemente, en- tre partidos longínquos uns dos outros: conservadores com radi- cais, enquanto os liberais democráticos (estavam) fora do governo etc. As eleições eram feitas em torno de questões muito genéricas, porque os deputados representavam posições pessoais e locais, não posições dos partidos nacionais. Toda eleição parecia ser para uma constituinte, [e, ao mesmo tempo,] parecia ser para um clube de caçadores. O estranho é que tudo isso parecia ser o máximo da democracia. § 〈103〉. Noções enciclopédicas. Opinião pública. Entre os elemen- tos que, recentemente, perturbaram o normal governo da opinião pública da parte dos partidos organizados e definidos em torno a programas claros, deve-se pôr, em primeiro lugar, a imprensa ama- rela e o rádio (onde é muito difundido). Eles fornecem a possibi- lidade de suscitar extemporaneamente o pânico ou o entusiasmo fictício que permitem alcançar objetivos determinados nas eleições, por exemplo. Tudo isso está ligado ao caráter da soberania popular, que é exercida a cada 3-4-5 anos: basta ter o predomínio ideológico (ou melhor, emotivo) naquele dia determinado para ter uma maio- ria que irá dominar por 3-4-5 anos, mesmo se, passada a emoção, a massa eleitoral se separa da sua expressão legal (o país legal não é igual ao país real). Os organismos que [podem] impedir ou limitar este boom da opinião pública mais que os partidos são os sindicatos profissionais | livres, e disso nasce a luta contra os sindicatos livres e a tendência a submetê-los ao controle estatal: todavia, a parte não organizável da opinião pública (especialmente as mulheres, onde existe o voto das mulheres) é de tal modo grande a ponto de tor- |50| 851930-1932: notas sobre filosofia ii nar sempre possível os booms e os golpes eleitorais onde a imprensa amarela é muito difundida e muito difundido é o rádio (em mo- nopólio controlado pelo governo). Um dos problemas da técnica política que se apresentam hoje, mas que as democracias não con- seguem encontrar um modo de resolver, é precisamente este: criar organismos intermediários entre as grandes massas, inorganizáveis profissionalmente (ou dificilmente organizáveis), os sindicatos profissionais, os partidos e as assembleias legislativas. Os conselhos comunais e provinciais tiveram, no passado, uma função mais ou menos próxima a essa, mas atualmente eles perderam importância. Os Estados modernos tendem para o máximo de centralização, ao passo que se desenvolvem, por reação, as tendências federativas e localistas, de modo que o Estado oscila entre o despotismo central e a completa desagregação (até a Confederação dos três oprimidos). [1] § 〈104〉. História dos intelectuais. Luta entre Estado e Igreja. Ca- ráter diverso que teve esta luta nos diversos períodos históricos. Na fase moderna, essa é uma luta pela hegemonia na educação popu- lar; ao menos, este é o traço mais característico, ao qual todos os outros são subordinados. Portanto, é luta entre duas categorias de intelectuais, luta para subordinar o clero, como típica categoria de intelectuais, às diretivas do Estado, isto é, da classe dominante (li- berdade de ensino – organizações juvenis – organizações femininas – organizaçõesmas, principalmente, ante a “Edição crítica do Instituto Gramsci”, realizada sob os cuidados de Valentino Gerratana e publicada pela Editora Einaudi, em 19756. Essa “Edição crítica” reproduz integralmente as anotações conti- das nos Cadernos do cárcere “tal como foram escritas por Gramsci”, dispondo-as conforme uma “ordem cronológica da redação recons- truída na base de dados objetivos [...] e conservando entre parên- tese as velhas numerações postas por Tânia” (Gerratana, Ibid., p. XXXV). Além disso, enumera todas as notas e as organiza de modo a colocar em evidência as de primeira redação (Textos A), sinalizadas com fonte menor, as de redação única (Textos B) e as de segunda redação (Textos C). Com os três volumes que reproduzem as anotações de Gramsci contidas nos 29 cadernos manuscritos e um “Apêndice” de oito páginas, posto no final do último caderno, contendo alguns “Extratos dos Cadernos de tradução”7 , a “Edição crítica” publicou no quarto volume um precioso “Apparato critico” com os seguintes conteúdos: Descrição dos Cadernos; Notas ao 4 Gerratana, V., “Prefazione” in: Id (org.), Antonio Gramsci. Quaderni del carcere, Edizione critica dell’Istituto Gramsci, 4 voll, Einaudi, Torino, 1975. 5 Liguori, G., Gramsci conteso. Storia di um dibattito 1922-1996, Riuniti, Roma, 1996. 6 Gerratana, V. (a cura di), Antonio Gramsci. Quaderni del carcere, Edizione critica dell’Istituto Gramsci, 4 voll, Einaudi, Torino, 1975. 7 Além dos 29 cadernos, há quatro cadernos (A, B, C, D) contendo só traduções feitas por Gramsci entre 1929 e 1932. Na “Descrição dos Cadernos” que consta no “Apparato critico”, encontra-se uma documentação analítica desses exercícios de tradução. IX texto; Índice das obras citadas nos Cadernos; Livros e opúsculos do Fundo Gramsci não citados nos Cadernos; Índice dos periódicos citados nos Cadernos; Índice por assuntos; Tábua das concordân- cias; Índice dos nomes. Assim, para suprir os diversos problemas que apresentava a tradu- ção parcial da “Edição temática” realizada no Brasil nos anos 1960, entre os anos de 1999 e 2002, foram publicados, sempre pela Edito- ra Civilização Brasileira, seis volumes contendo uma nova tradução dos Cadernos do cárcere, de Antonio Gramsci8. Responsáveis pelo desenho da edição e pela tradução, C. Nelson Coutinho (editor), M. Aurélio Nogueira e L. Sérgio Henriques (coeditores) optaram por uma solução em que, “embora tome certamente como base a edição Gerratana, a presente edição brasileira incorpora não só os critérios adotados na velha ‘edição temática’, mas também algumas das sugestões propostas por Gianni Francioni” (Coutinho, 1999, p. 32)9. Dessa forma, tendo “como eixos articuladores os ‘cadernos especiais’”, os seis volumes da nova edição brasileira traduzem todos os “cadernos especiais” como se encontram na edição Gerratana e, no final de cada um, acrescenta-se uma seção intitulada “Dos ca- dernos miscelâneos”, na qual são alocadas as notas de redação úni- ca (Textos B) relacionadas com o tema do “caderno especial” em questão (Ibid., p. 40), e “Notas ao texto”, em sua maioria, extraídas das notas explicativas do “Apparato critico” de V. Gerratana e da edição norte-americana de J.A. Buttigieg (2007)10. Nos apêndices do último volume (6º), estão situados: “Uma antologia de textos A” (pequena amostra dos Textos A, de primeira redação); um “Índice geral dos Cadernos” (inclusive dos Textos A, indicando os parágra- fos dos Textos C, nos quais foram reelaborados); uma “Datação dos 8 Coutinho, C. Nelson (editor) - Nogueira, M. Aurélio e Henriques, L. Sérgio (coeditores): Antonio Gramsci: Cadernos do cárcere, 6 vols., Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1999-2002. 9 Coutinho, C. N., “Introdução” a Antonio Gramsci: Cadernos do cárcere, vol. 1, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1999. 10 Buttigieg, J. A., Prison Notebooks (vols. 1-3) por Antonio Gramsci, Columbia University Press, New York, 1992-2007. X parágrafos segundo a proposta de G. Francioni”11; um “Índice dos principais conceitos” e o “Índice onomástico”. Não há dúvida de que, levando também em conta a tradução em dois volumes das Cartas do cárcere12, baseados na edição italiana organizada por A. A. Santucci (1996)13, e uma seleção de textos pré-carcerários reunidos nos dois volumes de Escritos Políticos14, o admirável empreendimento de C. Nelson Coutinho, M. Aurélio Nogueira e L. Sérgio Henriques representa um enorme avanço em relação aos textos de Gramsci postos à disposição dos leitores bra- sileiros até então. No entanto, sem diminuir o valor dessa tradução, nem o reconhecimento e a nossa gratidão aos autores desse traba- lho, suscita perplexidade o critério que levou essa nova edição a su- primir - por “não ter maiores méritos científicos” (Coutinho, 1999, p. 41) - as notas de primeira redação (Textos A) aproveitadas e ree- laboradas por Gramsci nos textos de segunda redação (Textos C) e a seleção feita pelos editores das notas de redação única (Textos B) que teriam alguma relação com o tema do caderno em questão. Pas- sadas mais de duas décadas, a estruturação dessa edição, motivada essencialmente para “não ampliar quantitativamente nossa edição, tornando-a assim menos acessível a um público que pretendemos o mais amplo possível” (Ibid., p. 41) e intencionada a evitar que “o leitor iniciante” se perca “no labirinto das anotações carcerárias” (Ibid., p. 44), vem apresentando alguns limites e não atende plena- mente às novas demandas de estudos e às exigências das pesquisas que foram evoluindo. De fato, inclusive graças à publicação dessa nova edição, na medida em que a difusão da obra e do pensamento de Gramsci foi se ampliando no Brasil e os estudos e pesquisas fo- ram se tornando mais abrangentes e minuciosos, sentiu-se a neces- 11 Francioni, G., L’officina gramsciana. Ipotesi sulla struttura dei “Quaderni del carcere”, Bibliopolis, Napoli, 1984. 12 Henriques L. Sérgio (org.), Antonio Gramsci: Cartas do cárcere, 2 vols., Civili- zação Brasileira, Rio de Janeiro, 2005. 13 Santucci, A. A., Antonio Gramsci: Lettere dal carcere, 2 voll, Ed. Sellerio, Pa- lermo, 1996. 14 Coutinho C. Nelson (org.), Antonio Gramsci: Escritos Políticos, 2 vols., Civili- zação Brasileira, Rio de Janeiro, 2004. XI sidade crescente de traduzir integralmente a “Edição crítica do Ins- tituto Gramsci” (aos cuidados de V. Gerratana), padrão mundial de referência e base para traduções em diferentes línguas, enquanto se espera que a ciclópica Edizione Nazionale delle opere di Antonio Gramsci venha a ser finalizada15. Quando, portanto, a equipe eleita na Assembleia de Marília/SP para a Direção da IGS-Brasil (2019-2022) apresentou a proposta de realizar a tradução integral da “Edição crítica” dos Quaderni del carcere de A. Gramsci organizada por V. Gerratana, houve imedia- to e amplo consenso. De fato, mesmo com algumas imperfeições e diante das questões levantadas, principalmente, pelos estudos filológicos de G. Francioni (1984, pp. 15-46) em relação ao mé- todo genético-diacrônico e às novas propostas de cronologia dos Cadernos do cárcere, a “Edição crítica” oferece o material completo das anotações que Gramsci registrou progressivamente tanto nos cadernos “especiais” como nos cadernos “miscelâneos” e nos de re- dação única. Ao apresentar integralmente os textos que Gramsci es- creveu nos 29 cadernos16 e distinguir as notas de primeira redação (Textos A), de redação única (Textos B) e as de segunda redação (Textos C), a “Edição crítica” revela melhor o modo de trabalhar de Gramsci, possibilita perceber as modificações nos seus planos de estudos e a evolução do seu pensamento, além de proporcionar 15 Edizione Nazionale delle opere di Antonio Gramsci, planejada para publicar o corpus inteiro da obra gramsciana, com a colaboração de vários grupos de trabalho coordenados por G. Francioni e sua equipe (G. Cospito e F. Frosini). O projeto, em andamento, promovido pelo Istituto della Enciclopedia Italiana e o Istitutoprofissionais). § 〈105〉. Os filhotes do padre Bresciani. Ardengo Soffici. Proximi- dade de Lemmonio Boreo a Jean-Christophe, de Romain Rolland. Por que Lemmonio Boreo foi interrompido? A atitude quixotesca de Lemmonio Boreo é exterior e artificial: na realidade, ela carece de substância épico-lírica: é um pequeno ornamento de fatos, não um organismo. Poderia ser encontrado, na Itália, um livro como Jean-Chris- tophe? Jean-Christophe, se se pensa bem, conclui todo um período da literatura popular francesa (dos Miseráveis a Jean-Christophe); o seu conteúdo supera aquele do período precedente: da democracia ao sindicalismo. Jean-Christophe é a tentativa de um romance “sin- 86 caderno 7 (vii) dicalista”, mas falido: Rolland era | tudo menos antidemocrático, embora sentisse fortemente os influxos morais e intelectuais do cli- ma sindicalista. Do ponto de vista nacional-popular qual era o comportamento de Soffici? Uma exterioridade quixotesca sem elementos reconstru- tivos, uma crítica superficial e estetizante.[1] § 〈106〉. Noções enciclopédicas. Bibliografia. A London Bibliogra- phy of the Social Science. Comp. under the direction of B. M. Hea- dicar and C. Fuller, with an introd. by S. Webb. Saiu o volume III, de P à Z, em 8º grosso, pp. XI-1232. Será em 4 volumes, Londres, School of Economics and Political Science.[1] § 〈107〉. Católicos integralistas, jesuítas, modernistas. Em outra nota, é citado o periódico «Fede e ragione», como de caráter “integralista” (a «Civiltà Cattolica» o cita precisamente em uma polêmica com os integralistas).[1] «Fede e ragione» é um sema- nário católico que sai em Fiscole há cerca de 14 anos. É dirigi- do pelo sacerdote Paolo De Toth (ao menos era dirigido por De Toth em 1925) e a assinatura custava, em 1925, 15 liras, o que significa que deve se tratar de uma semi-revista. § 〈108〉. Risorgimento. Iniciativas populares. Cf. na revista «Ir- pina» (de Avellino) de julho de 1931 (resumida no «Mazorc- co» de 26 de julho de 1931), a leitura de Nicola Valdimiro Testa sobre os acontecimentos desenvolvidos na província de Avellino nos anos 1848-1849.[1] A narrativa parece muito interessante para entender quais eram os sentimentos populares e quais cor- rentes de paixões atravessavam as grandes massas, que, porém, não tinham uma direção e um programa e se exauriam em tumul- tos e atos brutais de violência desordenada. Participação de al- guns elementos do clero nessas paixões de massa,[2] que explicam o comportamento de alguns padres em relação às assim chamadas “bandos de Benevento”. Vê-se a habitual confusão entre “comu- nismo” e “reforma agrária” que Testa (pelo que aparece no resu- mo do «Mazorcco») não sabe apresentar criticamente (como de |50a| 871930-1932: notas sobre filosofia ii resto não sabem fazer a maior parte dos pesquisadores de arquivo e dos historiadores). Seria interessante recolher a bibliografia de todas as publicações como aquela para os anos do Risorgimento.Fondazione Gramsci di Roma, tem a previsão de numerosos volumes divididos nas três seções: escritos antes do cárcere, obras do cárcere e epistolário. Até hoje, vieram a público os quatro Quaderni di traduzione que não constam da edição crítica de Gerratana; dois vols. do epistolário: as cartas escritas entre 1906 e 1922 (vol. I) e os escritos do ano de 1917 (vol. II); os primeiros quatro cadernos de no- tas teóricas na nova edição crítica de G. Francioni, todos publicados pelo Istituto della Enciclopedia Italiana. 16 Gramsci escreveu 33 cadernos, sendo quatro dedicados a exercícios de tradu- ção, excluídos da “Edição crítica” de Gerratana. Só no final do caderno 29, como Apêndice, Gerratana coloca poucas páginas de alguns “Extratos dos Cadernos de tradução”. XII uma visão geral dos assuntos que desenvolveu mais amplamente, dos que abordou parcial e sucintamente e dos numerosos pró-me- mórias deixados para ulteriores pesquisas. Acima de tudo, o acesso à leitura integral das notas carcerárias permite verificar que o traba- lho de coleta do material de primeira redação registrado nos “cader- nos miscelâneos”, como o próprio Gramsci os denomina, não é um depósito aleatório de notas, um amontoado caótico e amorfo de reflexões reunidas a esmo, mas um extenso campo de pesquisa que já revela uma orientação básica de objetivos e uma metodologia de trabalho, reúne um conteúdo significativo de investigações interco- nectadas, mostra o amplo laboratório das suas ideias e as linhas de fundo que irão confluir na articulação dos temas aglutinadores sis- tematizados nos “cadernos especiais”, assim chamados por Gramsci. Motivada pela importância significativa desses aspectos, a pro- posta de traduzir integralmente a “Edição crítica” dos Cadernos do cárcere, mesmo sem nenhum suporte financeiro, recebeu a adesão generosa de 22 professores estudiosos da obra de Gramsci, todos sócios da IGS-Brasil, que se dispuseram voluntariamente a fazer parte da equipe de tradutores17. Nesse trabalho coletivo, além da “Edição temática”, da “Edição Crítica” (inclusive eletrônica) e da “Edizione anastatica dei ma- 17 Tradutores dos Cadernos “especiais”: 10 (Ana Maria Said/Gianni Fresu) – 11 (Giovanni Semeraro/Rodrigo Lima) – 12-20-21 (Maria Margarida Machado) – 13 e 18 (Anita Schlesener/Maria Socorro Militão) – 16 (Ivete Simionatto/Maria del Carmen Cortizo) – 19 (Marcos Del Roio/Leandro Galastri/Tatiana Oliveira) – 22 (Lincoln Secco/Silvia de Bernardinis) – 23 (Rocco Lacorte/Alex Calheiros/ Lucas Moura Vieira) – 24 e 25 (Massimo Sciarretta/Ricardo Salles) – 26-27-28- 29 (Luciana Aliaga/Deise Rosálio). Tradutores dos Cadernos “miscelâneos”: 1 (Rocco Lacorte/Alex Calheiros/Lucas Moura Vieira) – 2 (Massimo Sciarretta/ Giovanni Semeraro) – 3 (Ivete Simionatto/Maria del Carmen Cortizo/Giovanni Semeraro) – 4 (Rita Coitinho/Marcos Aurélio da Silva) – 5 (Ana Maria Said/ Marcos Aurélio da Silva/Giovanni Semeraro) – 6 (Luciana Aliaga/Deise Rosálio/ Maria Margarida Machado/Giovanni Semeraro/Helton Messini) – 7 (Ana Ma- ria Said/Marcos Aurélio da Silva) – 8 (Giovanni Semeraro/Rodrigo Lima) – 9 (Leandro Galastri/Tatiana Oliveira/Giovanni Semeraro) – 14 (Anita Schlesener/ Maria Socorro Militão) – 15 (Ivete Simionatto/Maria del Carmen Cortizo) – 17 (Maria Margarida Machado). XIII noscritti” (Francioni, 2009)18, tivemos a vantagem de consultar traduções anteriores, empreendimentos editorais realizados em outros idiomas, especialmente, nas línguas espanhola e inglesa, e a possibilidade de levar em conta numerosos estudos filológicos que nesses últimos anos se multiplicaram e lançaram muita luz sobre a complexidade do pensamento de Gramsci e a intensa trama con- ceitual que permeia a sua obra. Como se sabe, nas notas dos Ca- dernos, além do trânsito nas mais diversas áreas do conhecimento e da ampla visão que Gramsci tem da política, da filosofia, da histó- ria, da cultura, da educação, da literatura, do universo popular etc., Gramsci é protagonista de primeira linha em um período crucial da história contemporânea: as duas grandes guerras, a Revolução de 1917, a fundação do Partido Comunista da Itália (PCd’I), a ex- pansão e a crise do movimento operário na Itália e na Europa, o surgimento e a dominação do fascismo e do nazismo. Traduzir, portanto, uma obra extensa e complexa como os Ca- dernos do cárcere com uma equipe numerosa de tradutores não deixa de ser um exercício fecundo e promissor, mas a tarefa não está isenta de problemas. Por um lado, de fato, oferece a vantagem de tornar o trabalho menos oneroso, promove uma interlocução enri- quecedora entre seus integrantes e proporciona uma diversidade de pontos de vista. Mas, por outro lado, exige um ritmo que respeite as condições de trabalho de cada um e um delicado acordo para estabelecer convergências básicas em relação à organização formal do texto, à interpretação de questões complexas e controvertidas, à heterogeneidade de estilos, ao uso de linguagem, à pontuação e mo- delagem da escrita, ainda mais pelo fato de que a maioria das notas carcerárias foram escritas “ao correr da pena” (Q 11, p. 1365) e nas condições precárias da vida carcerária. Com o passar do tempo e a maior habilidade adquirida no trabalho de tradução, as dúvidas e incertezas que cercavam o início do novo empreendimento foram se desfazendo e deram lugar a sentimentos de entusiasmo e gratifi- 18 Francioni, G.(org.), Antonio Gramsci: Quaderni del carcere. Edizione anastatica dei manoscritti, 18 voll, Istituto della Enciclopedia Italiana - L’Unione Sarda, Ro- ma-Cagliari, 2009. XIV cação. De certa forma, traduzir os Cadernos do cárcere nos fez sen- tir parte de uma experiência singular e de uma viagem incomum, áspera, desafiadora e fascinante: partilhar com o autor o tormento da elaboração dos conceitos, a responsabilidade na busca de expres- sões mais adequadas, o labor e a alegria ao vislumbrar novos hori- zontes de conhecimento e revolucionárias propostas sociopolíticas. Avanços e desafios da tradução dos Cadernos do cárcere Para entrar no emaranhado de questões que surgem para traduzir a extensa obra derivada das anotações carcerárias que Gramsci dei- xou com suas peculiares características, entre outros cuidados, le- vamos em conta os critérios metodológicos e as cautelas filológicas que o próprio autor apontou em diversas ocasiões, principalmente, no Caderno 16. No §2 desse caderno, de fato, apresenta-se um con- junto de recomendações quando “se quer estudar o surgimento de uma concepção de mundo que nunca foi exposta sistematicamente pelo seu fundador”, alertando para que se busque o seu autêntico sentido “em todo o desenvolvimento do trabalho intelectual” e que se possa “fazer preliminarmente um trabalho filológico minucioso e conduzido com o máximo escrúpulo de exatidão” (p. 1840). E tais cuidados adquirem ainda mais importância “quando se trata de uma personalidade na qual a atividade teórica e a prática estão indissoluvelmente entrelaçadas, de um pensamento em contínua criação e perpétuo movimento, que sente vigorosamente a autocrí- tica” (p. 1841). Embora Gramsci esteja se referindo essencialmente aos escritos de Marx, essas indicações se tornam demasiadamente oportunas quando se analisa a sua própria obra, uma vez que, na prática, Gramsci não deixou nenhum livro definitivo e impresso da sua imensa produção. Trata-se, portanto, de um autor póstumo, cuja obra foi progressivamente editada pelas mãos de diversos es- tudiosos e continua sendo organizada e editada integralmente até hoje. Juntamente com os avanços da hermenêutica, da moderna crí- tica literária e dos estudos filológicos, essas considerações são fun- damentais para reconstruir a trama complexa e dinâmica que cons- titui o projeto de estudos e o modo de escrever de Gramsci, para XV percorrer as etapas da evolução do seu pensamento e se adentrar no contexto histórico, político e cultural no qual se situam seus escri- tos e a sua atuação de intelectual e militantepolítico. Por isso, além da bagagem técnica e filológica, do domínio das línguas e de uma boa dose de conhecimentos sobre a obra do autor, a tradução exige também decifrar a linguagem típica da sua época e visitar os basti- dores do intenso trabalho de outros tradutores e os problemas en- frentados pelos editores. Nesse sentido, o nosso trabalho não tem a pretensão de invalidar as traduções anteriores, mas de oferecer mais um instrumento de leitura e pesquisas para um público que vem se ampliando e aprimorando no Brasil. Pois, com a tradução integral da edição Gerratana, será possível ler os cadernos de Gramsci como foram escritos, não como foram selecionados e organizados. Ter em mãos e poder percorrer todas as notas e apontamentos de primeira (Textos A) e segunda redação (Textos C) e os de reda- ção única (Textos B) oferece a possibilidade de observar não só a forma peculiar e admirável de “Como trabalhava Gramsci” (Fran- cioni, 2009)19, mas de captar melhor a interligação inseparável en- tre os cadernos “miscelâneos”, os “especiais” e de redação única, de descobrir as recorrências e as sucessivas abordagens de assuntos, a incansável reelaboração de ideias, a “estrutura reticular” das notas e a “escritura em espiral” (Francioni, 1984, p. 22) do autor, o refina- mento da sua argumentação, a ampliação de conceitos, as comple- xas articulações das partes em torno de temas aglutinadores, a linha unitária que perpassa os seus planos de estudos, as artérias centrais da reflexão carcerária, as questões inacabadas, as que ficaram apenas mencionadas e deixadas em aberto. Tendo a visão da arquitetura geral, ainda que incompleta e truncada em algumas partes, apare- cem mais claramente não só a conexão e o desenvolvimento das vér- tebras principais da obra de Gramsci, mas emergem também a visão poliédrica e a sua personalidade permanentemente crítica e aberta que se adentra com perspicácia nas mais diversas esferas da polí- tica e do conhecimento, evidenciando, assim, também, o valor de 19 Francioni, G., “Come lavorava Gramsci”, in: “Introduzione” ao vol. 1 de Gramsci, A., Quaderni del carcere. Edizione anastatica dei manoscritti, cit., 2009. XVI muitas notas, assuntos, questões e páginas consideradas de pouca importância e secundárias, inclusive as tiradas divertidas e bem-hu- moradas. Nesse sentido, adquirem também valor, por exemplo, a extensa coleta de bibliografias, o amplo repertório de revistas, pe- riódicos, jornais e artigos consultados, a visão geral da história e o interesse por questões de caráter nacional e internacional, a interlo- cução com os mais diversos autores, o elenco dos livros escolhidos e encomendados por ele, minutas de cartas20, inclusive, as pequenas observações registradas telegraficamente, os breves apontamentos de pró-memória, as referências a assuntos aparentemente banais. Até as páginas interrompidas e não preenchidas dos cadernos aca- bam revelando intenções e limites do autor. Dessa forma, todo o conjunto do material levantado nas investigações de Gramsci, in- clusive o meramente sinalizado e incompleto, assume grande signi- ficação para entender melhor o intenso retículo de temas tratados, a trama complexa das notas e o amplo leque de esferas exploradas pelo pensador encarcerado, tornando, assim, essa obra gigantesca não só uma fonte de inspiração, mas também a base fundamental da elaboração de uma nova concepção de mundo, herança a ser completada, aprofundada e levada coletivamente mais adiante. Na verdade, tanto o conteúdo como o método utilizado e o projeto desenvolvido por Gramsci nos Cadernos, longe de serem um produto improvisado e circunstancial, apresentam todos os conotados de uma cuidadosa investigação científica, de ampla do- cumentação, de refinada fundamentação teórica e de pesquisa de longo respiro que “demanda grandes bibliotecas” (Santucci, 1996, p. 441, carta de 03/08/1931), um incalculável legado que exige o envolvimento e a parceria dos leitores na mesma tarefa. As repeti- das recomendações sinalizadas por Gramsci de que suas notas são “primeiras aproximações” e as inúmeras insistências para “verificar”, “pesquisar”, “consultar”, “aprofundar”, “levar em conta”, além da fre- quente recorrência de “aspas”, de “parece-me”, de “etc.” e das inúme- 20 Minutas de cartas, elencos de livros, contas, cálculos etc., anotados por Gramsci em diversas páginas dos Cadernos, são transferidos por Gerratana na “Descrição dos Cadernos” do “Apparato critico”. XVII ras referências bibliográficas, não representam apenas indicações de pistas abertas a serem retomadas quando ele tivesse melhores condições de tempo e de trabalho, mas revelam também a consci- ência de que, mais do que deixar o legado de um conteúdo acabado e solidificado, Gramsci está apontando para um imenso território a ser explorado e aprofundado não só por um indivíduo isolado no cárcere, mas por um trabalho “coletivo” e de longo prazo. Nes- se sentido, os Cadernos do cárcere podem ser considerados como um mapa precioso que aponta caminhos imprescindíveis para as “classes subalternas” e os povos subjugados se organizarem politi- camente para reivindicar seus direitos fundamentais, conquistar a hegemonia e construir uma nova civilização. Por isso, embora Gramsci tenha reelaborado e agrupado muitas das suas anotações preliminares em torno de temas aglutinadores nos “cadernos especiais”, ao estudar todo o conjunto das notas, fica evidente que o processo permanente de investigação e de aprendi- zagem adotado por Gramsci não permite estabelecer uma divisão rigorosa entre o “método de pesquisa” e o “método de exposição”. Entre os cadernos “miscelâneos”, “especiais” e de redação única, a distinção é só metodológica, não orgânica e substancial. Mesmo se concentrando e confluindo na redação dos cadernos “especiais”, por questão de tempo e pressionado pela saúde que vinha se debi- litando rapidamente, Gramsci nunca deixou de continuar a inves- tigar e explorar novas fronteiras de conhecimento e reelaborar as suas reflexões. Adotando, portanto, o critério de separação entre os “miscelâneos” e os “especiais” na edição da obra de Gramsci, corre- -se o risco de desconsiderar a extensão dos seus horizontes e reduzir o significado da multiplicidade dos assuntos abordados, mesmo os rascunhados, menos elaborados e aprofundados. Além disso, ao descartar a parte dos seus escritos considerada preliminar, acabam sendo obscurecidos aspectos fundamentais do seu pensamento: a visão histórica, dialética e orgânica da realidade sempre em mo- vimento, imbricada com a “complexidade molecular da vida real” (Santucci, 1996, p. 222, carta de 19/11/1928) e o árduo labor para o seu entendimento e a sua transformação. Como se sabe, de fato, XVIII um dos principais objetivos da vida política e da obra carcerária de Gramsci foi aprofundar e levar adiante a concepção de mundo inaugurada por Marx. Quando, portanto, Gramsci resolve se dedicar a um traba- lho “desinteressado” e “für ewig” (Santucci, 1996, p. 55, carta de 19/03/1927), de longo respiro e alcance duradouro, não está sendo tomado por um surto de titanismo e delírio de grandeza, males dos quais nunca padeceu, mas da clara consciência de que, como ele co- menta muitas vezes, a partir de Marx, se desencadeia na história um movimento que “renova de cima a baixo” (Q 11, §27, p. 1436) toda a concepção de mundo existente até então e inicia-se um período revolucionário “que provavelmente durará séculos” (Q 6, §33, p. 882). Ou seja, deu-se início a uma enorme e desafiadora tarefa que investe todos os aspectos da vida humana e que demanda todas as energias das classes subjugadas com seus intelectuais para elaborar também as armas teóricas mais avançadas e refinadas. Ter, portanto, acesso aos escritos integrais e à obra completa de Gramsci, que inclui os escritos pré-carcerários e o epistolário, leva a não se limitar a leituras parciais, a pesquisas centradas em assun- tos segmentados e análisesapressadas, a estudos de conceitos e de temas isolados, ao atalho dos verbetes e a frases fora de contexto. Contrariamente a quem pratica uma anatomia de partes separadas do corpo inteiro, o método de Gramsci ensina a se dedicar incan- savelmente a estudar e pesquisar, com visão histórica, abrangente e progressiva, a natureza processual e dialética da realidade, conec- tando a multiplicidade das suas expressões na totalidade do contex- to no qual estamos inevitavelmente inseridos. Portanto, poder entrar na mina escavada por Gramsci, propicia- da pela “Edição crítica” de Gerratana, além de uma visão de conjun- to, oferece aos estudiosos de Gramsci no Brasil “um instrumento de leitura que permita seguir o ritmo de desenvolvimento com o qual a pesquisa gramsciana se desdobra nas páginas dos Cadernos” (Ger- ratana, 1975, p. xxv). Ou seja, como o próprio Gramsci sinaliza, XIX cria as condições para sintonizar-se com o seu “ritmo do pensamen- to em movimento” (Q 16, §2, p.1841) e para “reviver seu fluxo e seu continuum” (Baratta, 2004, p. 101)21. Abraçamos, de fato, a complexa e delicada tarefa de traduzir a obra carcerária de Gramsci conscientes de que o trabalho não se reduz a uma transposição técnica e mecânica do texto, a resgatar o sentido mais exato das suas ideias no seu contexto, mas implica realizar um transplante de matéria viva de um campo teórico, polí- tico, histórico e linguístico para um outro corpo vivo e palpitante, ou seja, operar a passagem para um diferente universo cultural que comporta inevitavelmente não só a mediação de uma interpreta- ção cuidadosa, propriedade conceitual e atualização terminológica, mas, também, a empatia com o projeto de sociedade que emana dos escritos de Gramsci, hoje, como nunca, de grande atualidade e urgência. Assim, além das “cautelas filológicas” (Q 16, §2, pp. 1840-44) e da contextualização no ambiente no qual Gramsci ope- rou, para sermos fiéis ao pensamento e ao seu método, precisamos também praticar o que ele chamava de “filologia vivente”, ou seja, traduzir concretamente o seu legado, levando em conta as interpe- lações provenientes do nosso contexto histórico e da atuação teóri- ca e política realizadas pelo “organismo coletivo através da ‘coparti- cipação ativa e consciente’, da ‘copassionalidade’, da experiência dos particulares imediatos, por um sistema que se poderia chamar de ‘filologia vivente’” (Q 11, § 25, p. 1430). Esperamos, portanto, que a tradução integral dos textos de Gramsci contidos na “Edição crítica do Instituto Gramsci” (aos cuidados de V. Gerratana) não leve os leitores e estudiosos a se enclausurar no seu laboratório, mas, sem dissociar as “cautelas fi- lológicas” da “filologia vivente”, possam desenvolver a capacida- de de interagir, atualizar, desdobrar, potencializar e recriar o seu pensamento na teoria e na prática do próprio contexto histórico. Como já observei, “não podemos cair na contradição de encarcerar Gramsci nas grades de um texto canônico e definitivo, até porque 21 Baratta, G., As rosas e os Cadernos – o pensamento dialógico de Antonio Gramsci, Editora DP&A, Rio de Janeiro, 2004. XX toda a atividade filológica, por mais rigorosa e exitosa que seja, é sempre histórica, datada e sujeita a ser questionada e reconstruída. Sendo inseparavelmente intelectual e político militante, Gramsci solicita não só um trato cuidadoso com seus textos, mas nos de- safia a ‘ler e continuar a escrever’ uma obra deixada incompleta, a ser atualizada com o nosso labor teórico e a nossa atuação política” (Semeraro, 2019, p. 56)22. Giovanni Semeraro Coordenador do GT de Tradução IGS - Brasil 22 Semeraro, G., “A ‘tradução’ de Gramsci no mundo”, in Bianchi, A.- Mussi, D.- Areco, S., Antonio Gramsci: filologia e política, Zouk, Porto Alegre, 2019. XXI NOTA A ESTA EDIÇÃO Esclarecimentos sobre a padronização utilizada Como já destacado na Apresentação e no Prefácio, a tradução em língua portuguesa e a disponibilização online dos Cadernos do Cárcere de Antonio Gramsci, têm por finalidade contribuir para que leitores, pesquisadores e militantes possam acessar esses escri- tos na íntegra. O trabalho de padronização dos textos está, essencialmente, baseado no ordenamento das notas realizado pela Edição Crítica do Instituto Gramsci, a cura de Valentino Gerratana. Assim, com algumas adaptações, a nossa edição utilizou os seguintes critérios: ▶ A indicação das páginas de seu início e término de cada caderno, conforme a Edição Gerratana, na folha de rosto. ▶ Manutenção de parêntese angulado no número do parágrafo de cada nota, como consta na edição Gerratana. Ex.: §〈1〉. ▶ Sinalização do número de página correspondente ao texto manuscrito de Gramsci que está posto na margem da página pela edição Gerratana. Ex.: |1|, |1A| (“A” no lugar de “bis”) etc. ▶ Manutenção das referências bibliográficas nas línguas utilizadas por Gramsci. ▶ Manutenção das palavras em itálico que constam no corpo das notas. ▶ Para poder diferenciar os títulos de livros, deixados em itálico, foram colocados os títulos de artigos em letra de fonte regular e entre parênteses curvas “ ”. ▶ Manutenção dos parênteses angulados « » que Gramsci usa quando cita as revistas e jornais. XXII ▶ Inclusão em rodapé da tradução das citações mais extensas feitas por Gramsci em outras línguas, para deixar fluir a leitura do texto. ▶ Posicionamento entre colchetes [ ] de alguma palavra ou expressão do italiano sem correspondência na língua portuguesa, antes de operar a conversão na expressão consoante no português. ▶ Quando estritamente necessário, para tornar uma frase mais clara, recorreu-se à possibilidade de colocar entre colchetes [ ] algum termo de acréscimo sinalizado como N.T. ▶ Manutenção das referências postas por Gerratana a (os) outro (s) caderno (s) no fim das notas, mas, com fonte em caixa alta na cor roxa. ▶ Vertidos para o português os nomes dos autores mencionados por Gramsci (salvo nomes já usados no original, como por exemplo, K. Marx, F. Engels, V. Lenin). ▶ Enumeração em cor roxa e entre colchetes [ ] para indicar as “Note al Testo” que constam no “Apparato Critico” do volume IV da edição de Gerratana. Assim que nos for possível, pretendemos traduzir também estas “Note al Testo”. ▶ Sinalização a partir de asterisco verde no corpo das notas para indicação dos comentários/observações do editor em rodapé, expressos como: “No ms” (Nel manoscritto). Resolvemos não traduzir a “Cronologia della vita de Antonio Gramsci” que consta no Iº volume da Edição Crítica de Gerratana, considerando que os leitores podem encontrar esses dados na bi- bliografia a respeito disponível no Brasil. Além da Edição Crítica de Gerratana e de outras traduções, os leitores podem consultar os Cadernos do Cárcere na versão anas- tática dos manuscritos, disponibilizados pela Fundação Gramsci/ Itália, no endereço: https://gramsci.digital-library.it/en/quaderni- -dal-carcere. XXIII No processo de tradução e revisão podem ter ocorrido even- tuais falhas e erros. Receberemos, portanto, com gratidão as si- nalizações que nos forem enviadas ao E-mail da IGS/Brasil: igs.brasil1@gmail.com para corrigir e melhorar os textos em pró- ximas edições. Maria Margarida Machado Coordenação Científica da IGS/Brasil (Gestão 2022-2024) CADERNO 7 (VII) 〈Notas sobre filosofia II e Miscelânea〉 Corresponde à Edição Gerratana: pp. 849-932 31930-1932: notas sobre filosofia ii | APONTAMENTOS DE FILOSOFIA. MATERI- ALISMO E IDEALISMO Segunda série § 〈1〉. Benedetto Croce e o materialismo histórico (Cf. a p. 55bis). [1] A propósito do discurso de Croce na sessão de Estética do Congres- so filosófico de Oxford (cf. «La Nuova Italia» de 20 de outubro de 1930).[2] A tradução dos termos de um sistema filosófico nos termos de um outro, assim como da linguagem de um economista para a linguagem de outro economista, tem limites, e esses limites são dados pela natureza fundamental dos sistemasfilosóficos ou dos sistemas econômicos; isto é, na filosofia tradicional isso é possível, enquanto não é possível entre a filosofia tradicional e o materialis- mo histórico. O mesmo princípio da tradutibilidade recíproca é um elemento “crítico” inerente ao materialismo histórico, enquanto se pressupõe e se postula que uma dada fase da civilização tem uma “fundamentalmente idêntica” expressão cultural e filosófica, mes- mo se a expressão possui uma linguagem diversa, dada pela tradição particular de qualquer “nação” ou de cada sistema filosófico. Cro- ce, portanto, cometeu um arbítrio curioso: recorreu a um “ardil” polêmico, serviu-se de um elemento crítico do materialismo his- tórico para assaltar em bloco todo o materialismo histórico, apre- sentando-o como uma concepção de mundo em retrocesso mesmo a Kant. (Nisso, Croce inova “integralmente” toda a sua crítica ao materialismo histórico: esse seu ponto de vista pode ser aproxima- do aos elogios que ele fez ao livro de De Man).[3] Mas, Croce errou |51| 4 caderno 7 (vii) |51a| completamente? Eu disse que ele recorreu a um “ardil” polêmico, isto é, ele não realizou um ato de filosofo, de historiador, mas uma “ação política”, “prática”. É certo que, no materialismo histórico, se formou uma corrente ruim, que pode ser indicada como correspon- dente ao catolicismo popular em confronto àquele teológico ou dos intelectuais; assim como o catolicismo popular pode ser traduzido em termos do “paganismo” ou de outras religiões correspondentes, o pior materialismo histórico pode ser traduzido em termos “teoló- gicos”, isto é, | pela filosofia pré-kantiana e pré-cartesiana. O ardil de Croce corresponde àquela dos anticlericais maçônicos e racio- nalistas vulgares que precisamente combatiam o catolicismo com esses confrontos e com essas “traduções” na linguagem “fetischista”. (Croce teria caído na mesma posição que Sorel reprovava em Cle- menceau, de julgar uma filosofia pela sua literatura de vulgarização intelectual.[4] É a posição do homem do Renascimento versus o ho- mem da Reforma Protestante: não entender que a grosseria intelec- tual do homem da Reforma, todavia, prenuncia a filosofia clássica alemã e o vasto movimento cultural alemão moderno). Erasmo e Lutero: “onde entra Lutero, cessa a cultura”, disse Erasmo (ou qual- quer coisa parecida).[5] Croce reprovava no materialismo histórico o seu “cientificismo”, a sua “superstição” materialista, o seu retorno ao período medieval intelectual. São as reprovações que Erasmo, na linguagem do tempo, direcionava a Lutero. O homem do Re- nascimento e o homem da Reforma fundem-se no intelectual mo- derno do tipo de Croce, mas se este tipo contém em si o homem da Reforma, já não compreende o processo histórico pelo qual do “medieval” Lutero se pode chegar a Hegel, e, por isso, frente à nova Reforma intelectual e moral representada pelo materialismo histó- rico, encontra-se na mesma posição de Erasmo frente a Lutero. Essa posição de Croce se pode estudar na sua atitude prática diante da religião. Croce é antirreligioso, e, para os intelectuais italianos, a sua filosofia, especialmente nas suas manifestações menos sistemáticas (como os comentários, as anotações etc., recolhidos em volumes como Cultura e vita morale, Conversazioni critiche, Frammenti di etica, etc.), foi uma verdadeira reforma intelectual e moral, do tipo “Renascimento”; mas Croce não se voltou “ao povo”, não se tor- 51930-1932: notas sobre filosofia ii nou um elemento “nacional” (assim como não foram os homens do Renascimento, à diferença de Luteranos e Calvinistas), porque não conseguiu criar uma hoste de discípulos que poderiam fazer essa filosofia “popular” capaz de se tornar um elemento educativo desde as escolas elementares (e, portanto, educativo para o simples operário e |para o simples camponês, isto é, para o simples homem do povo): isto era impossível, como demonstraram os aconteci- mentos. Croce, em algum ponto, escreveu alguma coisa desse gê- nero: “Não se pode tolher a religião do homem do povo, sem subs- titui-la imediatamente com qualquer coisa que satisfaça as mesmas exigências para a qual a religião é formada e ainda permanece”.[6] Tem alguma coisa de verdadeira nessa afirmação,[7] mas, essa tam- bém não é uma confissão da impotência da filosofia idealista de se tornar uma concepção de mundo integral? Assim aconteceu com Gentile, na prática, mais consequente do que Croce, que colocou a religião nas escolas e justificou esse ato com a concepção hegelia- na da religião como fase primitiva da filosofia (Croce, de resto, o teria feito, se seu projeto escolar tivesse superado os obstáculos da política parlamentar): mas, não é isto um puro ardil? Por que se deveria dar ao povo um alimento diverso daquele dos intelectuais? Recordemos o “fragmento” de Ética de Croce sobre a religião:[8] ele é belíssimo; por que não foi feito? Na realidade, era impossível. A concepção de “objetividade do real”, tal como se enraizou no povo pela religião, só pode ser desenraizada por um princípio que se apresente como “dogmático”, mas que tenha, em si, a possibili- dade de se historicizar: esse princípio não pode ser dado a não ser pela ciência. Essa, esperamos, se tornará uma superstição símile ou também pior do que superstição religiosa, mas pode encontrar em si mesma os elementos para superar essa primeira fase primitiva. Ela coloca o homem em contato com a natureza, mantendo a su- perioridade do homem, portanto, da história ou do espírito, como diz Croce. (Ver o capítulo de Missiroli sobre “ciência” publicado no «Ordine Nuovo»*, com anotações de P.T.).[9] |52| * NO MS: “O. N.”. 6 caderno 7 (vii) A esse propósito, é interessante essa passagem de M. Missiroli («L’Italia letteraria», 23 de março de 1930, “Calendario: Religio- ne e filosofia”): “É provável que, dessa vez, frente à lógica do profes- sor de filosofia, especialmente se esse for um seguidor do idealismo absoluto, o senso comum dos estudantes e o bom senso dos docentes das outras matérias sejam levados a dar razão | ao teólogo, em vez do filósofo. Não gostaria, em um eventual contraditório, de frente a um público não iniciado, encontrar-me devendo defender as razões da filosofia moderna. A humanidade é ainda quase toda aristotélica e a opinião comum segue ainda aquele dualismo, que é próprio do realismo greco-cristão. Que o saber seja um 'ver' ao invés de um 'fazer', que a verdade esteja fora de nós, existente em si e por si, e não uma nossa criação; que a 'natureza' e o 'mundo' sejam intangíveis realidades, ninguém duvida, e se arrisca de passar por louco quando se afirma o contrário. Os defensores da objetividade do saber, os de- fensores mais rígidos da ciência positiva, da ciência e do método de Galileu contra a gnosiologia do idealismo absoluto, encontram-se hoje entre os católicos. Aqueles a que Croce chama de 'pseudocon- ceitos' e aqueles que Gentile define como pensamento abstrato, são as últimas rochas do objetivismo. Donde a tendência, sempre mais visível, da cultura católica de valorizar a ciência positiva e a expe- riencia contra a nova metafisica do absoluto. Não se deve excluir que o pensamento católico possa renovar-se refugiando-se na forta- leza da ciência experimental. Há trinta anos, os Jesuítas trabalham para eliminar os contrastes – na realidade, baseados em equívocos – entre a religião e a ciência e, não por acaso, Giorgio Sorel, em um escrito hoje raríssimo, observava que, entre todos os cientistas, os matemáticos são os únicos para os quais o milagre não tem nada de milagroso”.[10] Esses pontos de vista foram mais difusamente expostos por Mis- siroli e apresentados, em parte, diversamente, no volume Date a ce- sare.[11] Os católicos fazem grandes esforços para não perder conta- to com a ciência moderna, isto é, com a alta cultura: com a difusão da instrução pública, que modifica incessantemente a composição e o nível cultural das massas populares, a influência da religiãoan- |52a| 71930-1932: notas sobre filosofia ii dava exaurindo-se, por se confinar nas gerações mais anciãs e nas mulheres. A religião se transforma molecularmente. Os católicos tentaram absorver o positivismo, mas, também, flertaram com o idealismo atual e, especialmente, com o crocismo. Por outro lado, Croce flerta continuamente com o “senso comum” e com o “bom senso” popular (é necessário recolher todas as passagens de Croce sobre relações |entre filosofia e “senso comum”). O ataque de Croce ao materialismo deve ser estudado sob di- versos aspectos: 1) Atitude de Croce frente ao materialismo histó- rico, organicamente expresso no volume especial[12] e em artigos espalhados ligados ao volume. 2) Quanto do materialismo históri- co penetrou na própria filosofia croceana, ou seja, qual função teve o materialismo histórico no desenvolvimento filosófico de Croce: em que medida Croce é um materialista histórico “inconsciente” ou consciente naquilo que ele chama de “superação”? 3) Recente atitude de Croce, no segundo pós-guerra (o primeiro indício dessa última posição, a meu ver, está no opúsculo sobre política[13] [ante- riormente, em Storia dela storiografia italiana nel sec. XIX]),[14] que representa uma negação não só da primeira crítica de Croce, mas também, de uma parte conspícua de sua própria filosofia: isto é, essa nova posição de Croce não é apenas um novo posicionamento de Croce frente ao materialismo histórico, mas, também, frente a si mesmo e a toda a sua filosofia precedente. Croce questiona palavras: quando diz que, para o materialismo histórico, as superestruturas são aparências[15] (o que é verdade na polêmica política, mas não é verdade “gnosiologicamente” ), não pensa que isso possa significar qualquer coisa de símile à sua afirma- ção da não “definitividade” de cada filosofia? Quando afirma que o materialismo histórico separa a estrutura da superestrutura, reme- tendo assim ao dualismo teológico em vigor,[16] não pensa que esse destacar é colocado em sentido dialético, como entre tese e antíte- se e que, portanto, cada acusação de dualismo teológico é vazia e superficial? Talvez, que a estrutura seja concebida como qualquer coisa de imóvel, ou não é essa mesma a realidade em movimento: o que quer dizer M., nas Tesi su Fuerbach, quando fala de “educação |53| 8 caderno 7 (vii) do educador”,[17] se não que a superestrutura reage dialeticamente sobre a estrutura e a modifica, isto é, não afirma em termos “realis- tas” uma negação da negação? Não afirma a unidade do processo do real? Croce volta contra o materialismo histórico a acusação de de- sintegração do processo do real que os Gentilianos voltaram ao mesmo Croce, enquanto põe uma “distinção” entre a atividade do espírito e introduz uma “dialética dos distintos” (expressão infeliz e incongruente, se também é a exata | proposição de Croce); eis por- que se pode dizer que Croce, com esse posicionamento frente ao materialismo histórico, na realidade revela um processo de revisão dos pilares da sua própria filosofia. (Conceito de bloco histórico; no materialismo histórico, é o equivalente filosófico do “espírito” na filosofia croceana: introduzir no “bloco histórico” uma ativida- de dialética e um processo de distinção não significa negar-lhe a unidade real). CF. CADERNO 10 (XXXIII), PP. 17A – 21. § 〈2〉. Tradutibilidade das linguagens cientificas e filosóficas. Em 1921: questões de organização. Vilici disse e escreveu: “não soube- mos ‘traduzir’ nas línguas ‘europeias’ a nossa língua”.[1] CF. CADERNO 11 (XVIII), P. 58. § 〈3〉. “Esperanto” filosófico e científico. De não compreender a historicidade das linguagens e, assim, das ideologias e das opiniões científicas, se segue a tendência de construir um esperanto ou um volapük da filosofia e da ciência. É estranho e curioso como, nos re- presentantes desta tendência, exista o mesmo estado de ânimo dos povos primitivos diante de todos os outros povos por eles conhe- cidos: cada povo primitivo chamava a si próprio de “homem” ou “homens”, ou seja, a palavra para indicar a si mesmo é a mesma que serve para indicar o “homem”, e os outros povos são chamados de “mudos” ou “gagos” (bárbaros), enquanto não conhecem a “língua dos homens”. Com isso, para os inventores da volapük da filosofia |53a| 91930-1932: notas sobre filosofia ii e da ciência, tudo que não é expresso neste volapük é delírio, é pre- conceito, é superstição etc.: esses (com processo análogo àquele que se verifica na mentalidade sectária) transformam em juízo moral ou em diagnóstico de ordem psiquiátrica o que deveria ser um juízo histórico. Parece que, na Itália, o representante mais completo desta ten- dência seja hoje o senhor Mario Govi, com seu volume Fondazione della Metodologia – Logica ed Epistemologia, Turim, Bocca, 1929, p. 579,[1] mas muitos traços desta tendência encontram-se no En- saio Popular. Para Govi, parece que a lógica e a epistemologia (ou seja, metodologia especial, enquanto a lógica seria a metodologia geral) existem em si e por si, abstraídas do pensamento concreto e das concretas ciências particulares (assim como a língua existe no | vocabulário e nas gramáticas, a técnica existe fora do trabalho etc., etc.): com esta concepção, é natural que se acredite legítimo um “volapük” da filosofia. CF. CADERNO 11 (XVIII), PP. 57-57BIS. § 〈4〉. Ciência moral e materialismo histórico. A base científica de uma moral do materialismo histórico deve ser procurada, pa- rece-me, na afirmação de que “a sociedade não se coloca tarefas para cuja solução não existam já as condições para a sua resolução”. [1] Existindo as condições, a solução das tarefas torna-se “dever”, a “vontade” livre. A moral se tornaria uma pesquisa das condições necessárias para a liberdade do querer em um certo sentido, para um certo fim e a demonstração de que essas condições existem. De- veria se tratar também não de uma hierarquia dos fins, mas de uma graduação dos fins a serem alcançados, dado que quer “moralizar” não apenas cada indivíduo tomado singularmente, mas também toda uma sociedade de indivíduos. § 〈5〉. O “Ensaio Popular”, a ciência e os instrumentos da ciência. A Geologia não possui instrumentos, além do martelo. O seu progres- so e a sua história não podem, pois, ser indicados pelo progresso e pela história dos seus instrumentos. Em geral, o progresso das ciên- cias não pode ser documentado materialmente; pode ser-lhe apenas |54| 10 caderno 7 (vii) reavivada a recordação, e não para todos, com o sucessivo progres- so dos instrumentos que foram os seus meios e das máquinas que foram suas aplicações. Os principais “instrumentos” do progresso das ciências são de ordem intelectual, metodológico, e, justamente, Engels afirmou que os “instrumentos intelectuais” não nasceram do nada, não são inatos, mas são adquiridos, se desenvolveram e se desenvolvem historicamente.[1] De resto, com os instrumentos “materiais” da ciência, se desenvolveu uma “ciência dos instrumen- tos”, estreitamente ligada ao desenvolvimento geral da produção. (Sobre este argumento, deve-se ver: G. Boffito, Gli istrumenti dela scienza e la scienza degli istrumenti, Libreria Internazionale, Sceber, 1929).[2] CF. CADERNO 11 (XVIII), PP. 34-35. § 〈6〉. O “Ensaio Popular” e a sociologia. A redução do materia- lismo histórico a uma “sociologia” marxista é um incentivo às fá- ceis improvisações jornalísticas dos “genialóides”. A “experiência” do materialismo histórico é a própria história, o estudo dos | fatos particulares, a “filologia”. Isto, talvez, deveriam querer dizer aqueles escritores que, como acena muito precipitadamente o Ensaio Popu- lar, negam que se possa fazer uma sociologia marxista, e afirmam que o materialismo histórico vive nos ensaios históricos particu- lares.[1] A “filologia” é a expressão metodológica da importância dos fatos particulares entendidos como “individualidade” definidos e especificados. A esse método contrapõe-se aqueles dos“grandes números” ou da “estatística”, tomado de empréstimo das ciências naturais ou ao menos de algumas delas. Mas, não se observou o su- ficiente que a lei dos “grandes números” pode ser aplicada à história e à política somente até quando as grandes massas da população continuem passivas – com relação às questões que interessam ao histórico e ao político – ou se supõe que continuem passivas. Essa extensão da lei dos grandes números das ciências naturais às ciên- cias históricas e políticas tem diversas consequências para a histó- ria e para a política: na ciência histórica pode resultar em falhas |54a| 111930-1932: notas sobre filosofia ii |55| científicas, que poderão ser corrigidas facilmente pela descoberta de novos documentos que precisem melhor o que antes era apenas “hipótese”; mas, na ciência e na arte política pode ter por resultados catástrofes, cujos danos “secos” não poderão nunca serem compen- sados. Na ciência e na arte política, a elevação da lei dos grandes números à lei essencial não é apenas erro científico, mas erro po- lítico em ato: é incitamento à preguiça mental e à superficialidade programática, é afirmação apriorística de “incognoscibilidade” do real, muito mais grave que não seja nas ciências naturais, em que a afirmação de “não conhecer” é um critério de prudência metódica e não afirmação de caráter filosófico. A ação política tende, portanto, a conseguir fazer as grandes multidões saírem da passividade, isto é, a destruir a “lei” dos grandes números; como, então, esta pode ser considerada uma “lei”? Também, nesse campo, pode-se ver a devastação que, na arte política, leva à substituição, na função dire- tiva, do organismo coletivo para o indivíduo singular, para o líder individual: os sentimentos padronizados das grandes massas, que o “singular” conhece como expressão das | leis dos grandes números, isto é, racionalmente, intelectualmente, e que ele – se é um grande líder – traduz em ideia-força, em palavra-força, do organismo cole- tivo, são conhecidos por “compartilhamento”, por “compassionali- dade”, e, se o organismo coletivo é enxertado vitalmente nas massas, conhece pela experiência dos particulares imediatos, com um siste- ma de “filologia” vivente, por assim dizer. Parece-me que o livro de De Man,[2] se tem algum valor, tem-no precisamente nesse sentido: que incita a “informar-se” particular- mente de “sentimentos” dos grupos e dos indivíduos e não se con- tentar com as leis dos grandes números. De Man não fez nenhuma descoberta nova, nem encontrou um princípio original que possa superar o materialismo histórico ou demonstrá-lo cientificamen- te errado ou infértil: elevou a “princípio” científico aquilo que é apenas um critério já notado, mas insuficientemente definido e de- senvolvido, ou, ao menos, não ainda sistematicamente definido e desenvolvido na sua teoria e na sua capacidade científica. De Man nem mesmo entendeu a importância de seu critério, pois criou uma 12 caderno 7 (vii) nova lei dos “grandes números” inconscientemente, um novo mé- todo estatístico e classificatório, uma nova sociologia abstrata. CF. CADERNO 11 (XVIII), PP. 38BIS – 39BIS. § 〈7〉. A metáfora da parteira e a de Michelangelo. A metáfora da parteira que ajuda, com os ferros, o recém-nascido a nascer do ventre da mãe e o princípio expresso por Michelangelo nos versos: “O ótimo artista não tem outro conceito senão – que um mármore sozinho não circunscreve – com seu excesso e somente até onde ela alcança– a mão que obedece ao intelecto”.[1] Remova o excesso de mármore que esconde a figura concebida pelo artista com grandes golpes de martelo sobre o bloco, corresponde à operação da partei- ra que traz à luz o recém-nascido rasgando o ventre da mãe. |§ 〈8〉. Benedetto Croce e o materialismo histórico. Cf. o juízo de Croce sobre Giovanni Botero, no volume Storia dell’età barroca in Italia. Croce reconhece que os moralistas dos seiscentos, por quan- to pequenos de estatura comparados a Maquiavel, “representavam, na filosofia política, uma fase ulterior e superior”.[1] Esse juízo deve ser colocado junto àquele de Sorel a propósito de Clémenceau que não conseguia ver, mesmo através da “literatura” medíocre, as exi- gências que tal literatura representava e que não eram, elas, “me- díocres”.[2] Um preconceito de “intelectuais” é aquele de medir os movimentos históricos e políticos com o metro do “intelectualis- mo”, isto é, da completa expressão literária e não com o metro da “ciência política”, ou seja, da capacidade concreta e atual de ajustar os meios ao fim: esse preconceito é também “popular” em certos estágios da organização política, e se confunde, muitas vezes, com o preconceito do “orador”: o homem político deve ser grande orador ou grande intelectual, deve ter o crisma do “gênio”, etc., etc. CF. CADERNO 10 (XXXIII), P. 21. § 〈9〉. B. Croce e a história ético-política. A aproximação das duas expressões ética e política é exatamente a expressão das exigências em que se move a historiografia de Croce: história ética é o aspec- |55a| 131930-1932: notas sobre filosofia ii to da história correlativo à “sociedade civil” , à hegemonia; história política é o aspecto da história correspondente à iniciativa estatal- -governativa. Quando há contraste entre hegemonia e governo-es- tatal, há crise da sociedade e Croce chega a afirmar que o verda- deiro “Estado”, isto é, a força diretiva do impulso histórico, deve ser procurado, algumas vezes, não lá onde se acreditaria, no Estado juridicamente compreendido, mas nas forças “privadas” e, às vezes, nos assim chamados “revolucionários”[1] (essa proposição de Croce é muito importante teoricamente para significar plenamente a sua concepção da política e da historiografia). Seria útil analisar concre- tamente a teoria corceana, tomando | como modelo especialmente La storia del regno* di Napoli e La storia d’Italia da 1870 al 1915. CF. CADERNO 10 (XXXIII), P. 21. § 〈10〉. Estrutura e superestrutura (ver notas escritas na “Primeira série”).[1] Parece-me que se pode aproximar, a esse propósito, o con- fronto com a técnica da guerra, assim como se transformou na últi- ma guerra, com a passagem da guerra manobrada para a guerra de posição. Recordar o opúsculo de Rosa traduzido por Alessandri em 1919-1920,[2] cuja teoria era baseada em experiencias históricas de 1905 (por outro lado, ao que parece, não estudado com precisão, porque se ignorou os elementos voluntários e organizativos, muitos mais difundidos do que Rosa queria acreditar que, por preconceito “economicista”, o ignorava inconscientemente); esse opúsculo me parece o mais significativo da teoria da guerra manobrada aplicada à ciência histórica e à arte política. O elemento econômico ime- diato (crise etc.) é considerado como a artilharia campal na guerra, cujo objetivo era aquele de abrir um vão na defesa inimiga, suficien- te para as próprias tropas invadirem e obterem sucesso estratégico definitivo, ou, ao menos, na direção necessária para o sucesso defi- nitivo. Naturalmente, na ciência histórica, a eficácia do elemento econômico imediato era muito mais complexa do que aquele da artilharia campal na guerra manobrada, já que ela era concebida |56| * NO MS: “REAME”. 14 caderno 7 (vii) como tendo um duplo efeito: 1°) de abrir um vão na defesa inimiga depois de ter destruído e feito o inimigo perder a confiança em si, nas suas forças e em seu futuro; 2°) de organizar rapidamente as próprias tropas, de criar os quadros, ou, pelo menos, pôr os qua- dros existentes (elaborados até agora pelo processo histórico geral) rapidamente em seus postos de enquadramento das tropas disse- minadas; de criar rapidamente a concentração da ideologia e dos fins a serem atingidos. Era uma forma de férreo determinismo eco- nômico, com o agravante de que os efeitos eram concebidos como rapidíssimos no tempo e no espaço: por isso, era um verdadeiro e próprio misticismo histórico, a expectativa de algum tipo de fulgu-