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Capítulo 23 Transtornos Diagnosticados no Período de Lactação, Infância ou Adolescência Conceitos fundamentais Transtorno do espectro autístico Distúrbios de comportamento disruptivo Hiperatividade Impulsividade Temperamento ■ Tópicos do capítulo Objetivos Exercícios Retardo mental Transtorno autista Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade Transtorno de conduta Transtorno desafiador de oposição Síndrome de Tourette Transtorno de ansiedade de separação Abordagens terapêuticas gerais Resumo e pontos fundamentais Questões de revisão ■ Termos-chave Agressão Transtorno autístico Apego obsessivo (clinging) Ecolalia Impulsividade Negativismo Palilalia ■ Objetivos Ao término da leitura deste capítulo, o leitor será capaz de: 1. Identificar as desordens psiquiátricas que, em geral, são diagnosticadas pela primeira vez durante o período de lactação, infância ou adolescência. 2. Discutir os fatores predisponentes que estão implicados na etiologia do retardo mental, transtorno autístico, transtorno do déficit de atenção/hiperatividade, transtorno de conduta, transtorno desafiador de oposição, síndrome de Tourette, transtorno de ansiedade de separação. 3. Identificar a sintomatologia e empregar a informação na avaliação ou histórico de enfermagem de clientes com os transtornos anteriormente mencionados. 4. Identificar os diagnósticos de enfermagem comuns a clientes com esse tipo de transtorno e selecionar as intervenções de enfermagem apropriadas para cada um. 5. Discutir critérios relevantes para avaliação final ou evolução dos cuidados de enfermagem de clientes com transtornos específicos do período de lactação, infância e adolescência. 6. Descrever modalidades de tratamento relevantes para os transtornos específicos do período de lactação, infância e adolescência. ■ Exercícios Leia o capítulo e responda às seguintes perguntas: 1. Que atividade materna pré-natal tem sido associada ao transtorno do déficit de atenção/ hiperatividade (TDAH) em crianças? 2. Que tipo de medicação antidepressiva tem sido empregado com algum sucesso no tratamento de TDAH? 3. Estudos de imagem do cérebro em crianças com síndrome de Tourette têm sido consistentes com disfunção em que área cerebral? 4. Que tipo de comportamento familiar tem sido implicado como influência para o desenvolvimento do transtorno de ansiedade de separação? Este capítulo examina diversos transtornos nos quais os sintomas, em geral, surgem pela primeira vez durante o período de lactação, infância e adolescência. Isso não significa que alguns distúrbios discutidos neste capítulo não possam aparecer mais tarde na vida ou que sintomas associados a outras desordens, como depressão maior ou distúrbio bipolar, não possam também surgir na infância e adolescência. Esses distúrbios, considerando as variantes relacionadas com a idade e o nível de desenvolvimento, são discutidos nos Capítulos 27 e 28. As teorias do desenvolvimento foram discutidas no Capítulo 3. Toda enfermeira que trabalha com crianças e adolescentes deve ter conhecimento sobre os estágios “normais” de crescimento e desenvolvimento. Para dizer o mínimo, o processo de desenvolvimento é repleto de frustração e dificuldades. As respostas comportamentais são individuais e idiossincráticas. Elas são, na verdade, respostas de um ser humano. É difícil determinar se o comportamento de uma criança indica ou não problemas emocionais. O texto revisado da quarta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV-TR) da American Psychiatric Association (APA), de 2000, inclui os critérios a seguir entre as diversas categorias de diagnóstico. Existe um problema emocional se as manifestações comportamentais: ■ não condizem com a idade; ■ desviam das normas culturais; ■ criam déficits ou comprometem o funcionamento adaptativo. Este capítulo discute o processo de enfermagem no cuidado de clientes com retardo mental, transtorno do espectro autístico, transtorno do déficit de atenção/ hiperatividade (TDAH), transtorno de conduta, transtorno desafiador de oposição, síndrome de Tourette, transtorno de ansiedade de separação. Estão incluídas também as modalidades de tratamento. Retardo mental Retardo mental é definido por déficits gerais no funcionamento intelectual e adaptativo (APA, 2000). O funcionamento intelectual geral é medido pela pontuação de cada indivíduo nos testes de quociente de inteligência (QI). O funcionamento adaptativo tem referência com a capacidade individual de se adaptar aos requerimentos da vida diária e às expectativas de seu grupo em relação a sua idade. Os critérios para diagnóstico DSM-IV-TR para retardo mental são apresentados no Boxe 23.1. Fatores predisponentes Os critérios do DSM-IV-TR (APA, 2000) dispõem que a etiologia do retardo mental deve ser primariamente biológica ou psicossocial, ou uma combinação das duas. Em aproximadamente 30% a 40% dos indivíduos atendidos em unidades médicas, a etiologia não pode ser determinada. Boxe 23.1 Critérios para diagnóstico de retardo mental A. Funcionamento intelectual geral significativamente abaixo da média: um QI de 70 ou menos em um teste administrado individualmente (para crianças deve ser feita uma avaliação clínica de um funcionamento intelectual significativamente abaixo da média) B. Déficits ou comprometimentos concomitantes no funcionamento adaptativo (i. e., a eficácia com que a pessoa preenche os padrões esperados para sua idade pelo grupo social no qual está inserida) em no mínimo duas das seguintes áreas: comunicação, autocuidado, vida doméstica, habilidades sociais/ interpessoais, utilização de recursos comunitários, autodireção, habilidades académicas funcionais, trabalho, lazer, saúde e segurança C. Manifestação anterior aos 18 anos de idade Com permissão da American Psychiatric Association. (2000). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (4th ed.) Text revision. Washington, DC: American Psychiatric Publishing. ■ Fatores hereditários Ocorre implicação de fatores hereditários em aproximadamente 5% dos casos. Esses fatores incluem problemas metabólicos inatos, como doença de Tay-Sachs, fenilcetonúria e hiperglicemia. Também são incluídas desordens cromossômicas, como síndromes de Down e de Klinefelter, e anormalidades em um único gene, como esclerose tuberosa e neurofibromatose. ■ Alterações no desenvolvimento embrionário Fatores pré-natais que resultam em alterações do desenvolvimento embrionário respondem por aproximadamente 30% dos casos de retardo mental. Podem ocorrer danos em resposta à toxicidade associada à ingestão materna de álcool ou outras substâncias. Também pode resultar em retardo mental congênito na presença de enfermidade e infecção materna durante o desenvolvimento embrionário (p. ex., rubéola, citomegalovírus) e complicações da gravidez (p. ex., toxemia, diabetes sem controle) (Sadock e Sadock, 2007). ■ Fatores associados à gravidez e ao período perinatal Aproximadamente 10% dos casos de retardo mental resultam de fatores que ocorrem durante a gravidez (p. ex., desnutrição fetal, infecções virais e outras infecções e prematuridade) ou durante o processo de nascimento da criança. São exemplos de problemas tardios o traumatismo craniano durante o parto, a placenta prévia ou o deslocamento prematuro da placenta e o prolapso do cordão umbilical. ■ Condição clínica adquirida durante o período de lactação ou infância Condições clínicas adquiridas durante o período de lactação ou infância respondem por aproximadamente 5% dos casos de retardo mental. Incluem infecções, como encefalite ou meningite; envenenamento, como, por exemplo, por inseticidas, medicamentos e chumbo; e traumatismo físico, como lesões cranianas, asfixia e hiperpirexia (Sadock e Sadock, 2007). ■ Influências ambientais e outros distúrbios mentais Entre 15% e 20% dos casos de retardo mental são atribuídos à privação de cuidados e de estimulação social, linguística, entre outros, e às desordens mentais graves, como as do espectro autístico (APA, 2000). O reconhecimento da causahipertireoidismo, glaucoma ou estados de agitação e hiperexcitabilidade; em clientes com histórico de uso abusivo de substâncias; durante ou dentro de um período de 14 dias de administração de terapia com inibidores de monoamina oxidase (IMAO); em crianças com menos de 3 anos de idade e durante a gravidez e lactação. Atomoxatina e bupropiona são contraindicadas para clientes com hipersensibilidade às substâncias ou a outros componentes da fórmula, durante a lactação e com uso concomitante ou durante um período de 2 semanas de administração de terapia com IMAO. Atomoxatina é contraindicada para clientes com glaucoma de ângulo estreito. Bupropiona é contraindicada para clientes com suspeita ou histórico de distúrbios convulsivos, durante a fase aguda de infarto do miocárdio e àqueles com bulimia ou anorexia nervosa. Os alfa-agonistas são contraindicados para clientes com hipersensibilidade conhecida à substância. O uso de estimuladores do SNC deve ser feito com cautela em crianças com psicose, síndrome de Tourette, anorexia ou insônia; idosos ou clientes debilitados ou com astenia; e naqueles com histórico de tentativas de suicídio ou homicídio. O uso prolongado pode desenvolver tolerância à substância e dependência física ou psicológica. Atomoxatina e bupropiona devem ser administradas com cautela a clientes com retenção urinária, hipertensão, doença renal, hepática ou cardiovascular, tendências suicidas, gravidez e idosos e debilitados. Os alfa-agonistas devem ser empregados com cautela em clientes com insuficiência coronariana, infarto recente do miocárdio ou doença cerebrovascular, insuficiência renal ou hepática crônica; em idosos; durante a gravidez e a lactação. ■ Interações medicamentosas Estimulantes do SNC (anfetaminas) O efeito das anfetaminas é aumentado com o uso de furazolidona ou alcalinizantes urinários. Podem ocorrer crises hipertensivas com o uso concomitante (e até várias semanas após a descontinuação) de IMAO. A administração concomitante de inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) aumenta o risco de síndrome de serotonina. Ocorre diminuição dos efeitos das anfetaminas com a administração de acidificantes urinários e diminui o efeito hipotensivo da guanetidina com o uso de anfetaminas. Dexmetilfenidato e metilfenidato Os efeitos de agentes anti-hipertensivos e agentes vasopressores (p. ex., dopamina, epinefrina, fenilefrina) são reduzidos com o uso concomitante de metilfenidatos. Os efeitos anticoagulantes da cumarina, de anticonvulsivantes (p. ex., fenobarbital, fenitoína, primidona), de antidepressivos tricíclicos e de ISRS são aumentados com o uso de metilfenidatos. Podem ocorrer crises hipertensivas com a administração concomitante de IMAO. Atomoxatina Os efeitos da atomoxatina são aumentados com o uso concomitante de inibidores do citocromo P450 e da isoenzima 2D6 (CYP2D6) (p. ex., paroxetina, fluoxetina, quinidina). Podem ocorrer reações potencialmente fatais com o uso simultâneo (e até 2 semanas após a descontinuação) de IMAO. O risco cardiovascular é aumentado com o uso concomitante de albuterol ou vasopressores. Bupropiona Os efeitos da bupropiona são aumentados com o uso paralelo de amantadina, levodopa ou ritonavir. Os efeitos são reduzidos com a carbamazepina. Existe risco maior de toxicidade aguda com os IMAO. Pode ocorrer aumento no risco de hipertensão com o uso de agentes que substituem a nicotina e eventos adversos neuropsiquiátricos com o uso de álcool. A utilização concomitante aumenta o efeito anticoagulante da varfarina e também o efeito de substâncias metabolizadas pela CYP2D6 (p. ex., nortriptilina, imipramina, desipramina, paroxetina, fluoxetina, sertralina, haloperidol, risperidona, tioridazina, metoprolol, propafenona e flecainida). Alfa-agonistas Podem ocorrer efeitos farmacológicos sinergísticos e tóxicos, causando possivelmente bloqueio atrioventricular, bradicardia e hipotensão grave com o uso concomitante de bloqueadores dos canais de cálcio ou betabloqueadores. Ocorre sedação aditiva com agentes depressores do SNC, incluindo álcool, anti-histamínicos, analgésicos opioides e sedativos hipnóticos. Os efeitos da clonidina podem ser reduzidos com o uso concomitante de antidepressivos tricíclicos e prozosina. Pode ocorrer diminuição dos efeitos da levodopa com o uso da clonidina, e os efeitos da guanfancina são reduzidos com barbitúricos e fenitoína. ■ Efeitos colaterais O plano de cuidados deve incluir o monitoramento dos possíveis efeitos colaterais resultantes da administração de agentes de tratamento de TDAH. As implicações relacionadas com a enfermagem e associadas a cada um dos efeitos colaterais estão marcadas com asterisco. ■ Excesso de estimulação, inquietação, insônia (com uso de estimulantes do SNC). *Verifique o estado mental do cliente para presença de alterações de humor, nível de atividade, grau de estimulação e agressividade. *Certifique-se de que o cliente esteja protegido de lesões acidentais. *Mantenha os estímulos em nível baixo e o ambiente o mais calmo possível para desencorajar a superestimulação. *Para prevenir insônia, administre a última dose do medicamento pelo menos 6 h antes do horário de dormir. Administre fórmulas de liberação prolongada pela manhã. ■ Palpitações, taquicardia (com uso de estimulantes do SNC, atomoxatina, bupropiona, clonidina) ou bradicardia (com uso de clonidina, guanfacina). *Monitore e registre os sinais vitais a intervalos regulares (2 a 3 vezes/dia) durante o tempo de duração da terapia. Reporte imediatamente ao médico qualquer alteração significativa. ■ Observação: A FDA divulgou alertas associando o uso concomitante de estimulantes do SNC e atomoxatina ao risco de morte súbita em pacientes com doença cardiovascular. Deve ser obtido um cuidadoso histórico familiar e pessoal de doença cardíaca, defeito cardíaco ou hipertensão antes que esses medicamentos sejam prescritos. O monitoramento cuidadoso da função cardiovascular durante a administração deve ser permanente. ■ Anorexia, perda de peso (com uso de estimulantes do SNC, atomoxatina, bupropiona). *Para reduzir a anorexia, a medicação deve ser administrada imediatamente após as refeições. O cliente deve ser pesado regularmente (pelo menos uma vez/semana) quando estiver sob terapia com estimulantes do SNC, atomoxatina ou bupropiona devido ao potencial para desenvolvimento de anorexia e perda de peso e da interrupção temporária do crescimento e desenvolvimento. ■ Desenvolvimento de tolerância e dependência física e psicológica (com estimulantes do SNC). *A tolerância se desenvolve rapidamente. *Em crianças com TDAH devem ser feitos “feriados” periódicos na administração da substância, sob supervisão médica, para determinar a eficácia da medicação e a necessidade de manutenção. *A retirada da substância não deve ser abrupta, posto que pode desencadear uma síndrome de sintomas: náuseas, vômitos, cólicas abdominais, dor de cabeça, fadiga, fraqueza, depressão mental, ideação suicida, aumento de fantasias e comportamento psicótico. ■ Náuseas e vômitos (com atomoxatina e bupropiona). *Devem ser administradas com alimentos para minimizar o desconforto gastrointestinal (GI). ■ Constipação intestinal (com atomoxatina, bupropiona, clonidina e guanfacina). *Se não houver contraindicação, deve ser aumentado o consumo de fibras e fluidos na alimentação. ■ Boca seca (com clonidina e guanfacina). *Ofereça ao cliente bala sem açúcar, gelo e goles frequentes de água. *A higiene da cavidade oral é fundamental. ■ Sedação (com clonidina e guanfacina). *Alerte o cliente de que os efeitos aumentam com o consumo de álcool e de outras drogas que afetam o SNC. *Alerte o cliente para que evite dirigir ou realizar tarefas perigosas até que a resposta do organismo esteja estabilizada. ■ Potencial para crises convulsivas (com bupropiona). *O cliente deve ser protegido na eventualidade da ocorrência de uma crise. Oriente a família e pessoas significativas sobre como protegê-lo em terapia com bupropiona caso ocorra um episódio convulsivo.Certifique-se de que formulações de liberação imediata sejam administradas no mínimo em intervalos de 4 a 6 h e as de liberação prolongada, com intervalo mínimo de 8 h entre as doses. ■ Dano hepático grave (com atomoxatina). *Monitore o surgimento dos seguintes efeitos colaterais e reporte a ocorrência ao médico imediatamente: prurido, urina escura, dor no quadrante superior direito, pele ou olhos amarelados, dor de garganta, febre, mal-estar. ■ Piora ou surgimento de novos sintomas psiquiátricos (com estimulantes do SNC e atomoxatina). *Monitore para sintomas psicóticos (p. ex., ouvir vozes, comportamento paranoico, delírios). *Monitore para sintomas maníacos, incluindo comportamento agressivo e hostil. ■ Síndrome de rebote (com clonidina e guanfacina). *O cliente deve ser orientado a não interromper abruptamente a terapia. O resultado pode ser sintomas de nervosismo, agitação, dor de cabeça e tremores, além de uma rápida elevação na pressão arterial. A dosagem deve ser titulada gradualmente sob supervisão médica. Conceito fundamental Distúrbios de comportamento disruptivo É um distúrbio de conduta grave o suficiente para produzir comprometimento significativo no funcionamento social, ocupacional ou acadêmico devido a sintomas que variam de transtorno desafiador de oposição até transtornos de conduta moderados e graves (Shahrokh e Hales, 2003). Transtorno de conduta No transtorno de conduta existe um padrão repetitivo e persistente de comportamento no qual os direitos básicos das outras pessoas ou as principais normas sociais condizentes com a faixa etária do indivíduo são violados (APA, 2000). É comum a ocorrência de agressões físicas. O DSM-IV-TR divide este distúrbio em dois subtipos, com base na idade da primeira manifestação. 1. Manifestação na infância. Esse subtipo é definido pela manifestação de pelo menos um critério característico de transtorno de conduta surgida antes dos 10 anos de idade. Os indivíduos portadores desse subtipo em geral são meninos, frequentemente demonstram agressão física e têm relacionamentos conturbados com os colegas. Podem ter apresentado transtorno desafiador de oposição durante a primeira infância, em geral preenchem todos os critérios para desordem de conduta durante a puberdade e, como adultos, provavelmente desenvolverão um distúrbio de personalidade antissocial. 2. Manifestação na adolescência. Esse subtipo é definido pela ausência de manifestação de qualquer critério característico de desordem de conduta antes dos 10 anos de idade. Os indivíduos portadores desse subtipo em geral são menos propensos a demonstrar um comportamento agressivo e tendem a desenvolver relacionamentos mais normais com seus pares do que os portadores de desordem de manifestação na infância. Apresentam também menor probabilidade de ter um distúrbio de conduta persistente ou de desenvolver uma desordem de personalidade antissocial. A taxa de incidência entre meninos e meninas é mais baixa no transtorno de manifestação na adolescência do que no de manifestação na infância. Conceito fundamental Temperamento São as características de personalidade que definem o humor do indivíduo e suas tendências de comportamento. É a somatória dos componentes físicos, emocionais e intelectuais que afeta ou determina as ações e reações da pessoa. Fatores predisponentes ■ Influências biológicas Fatores genéticos Pesquisas com gêmeos monozigóticos e dizigóticos e também com irmãos não gêmeos revelaram uma quantidade significativamente maior de casos de transtorno de conduta entre aqueles cujos familiares também são portadores do distúrbio (APA, 2000). Embora os fatores genéticos pareçam estar envolvidos na etiologia do transtorno de conduta, pouco se sabe sobre o verdadeiro mecanismo associado à transmissão genética. Uma das pesquisas descobriu que regiões nos cromossomos 19 e 2 podem conter genes que conferem risco para o desenvolvimento do transtorno de conduta (Dick et al., 2004). Nesse estudo, a mesma região no cromossomo 2 também estava vinculada à dependência de álcool. Esses pesquisadores relatam que o transtorno de conduta com manifestação na infância é conhecido por estar associado a uma suscetibilidade para futuros problemas com consumo abusivo de álcool. Os autores concluíram que esses achados sugerem que alguns dos genes que contribuem para dependência de álcool na vida adulta também colaboram para o transtorno de conduta na infância. Temperamento O termo temperamento se refere a traços de personalidade que se tornam evidentes desde muito cedo e que podem já estar presentes no nascimento. As evidências sugerem um componente genético para o temperamento e uma associação entre temperamento e problemas de comportamento que se revelam mais tarde na vida. Estudos mostram que, sem intervenções apropriadas, um temperamento difícil manifestado aos 3 anos de idade tem ligação significativa com a desordem de conduta e internações institucionais aos 17 anos (Bagley e Mallick, 2000). Fatores bioquímicos Os pesquisadores têm investigado diversas substâncias químicas como marcadores biológicos. Em alguns estudos (Comings et al., 2000; Searight, Rottnek e Abby, 2001) têm sido sugeridas alterações nos neurotransmissores norepinefrina e serotonina. Alguns investigadores examinaram a possível associação entre a testosterona e o comportamento violento. Um dos estudos relaciona altos níveis de testosterona em meninos na puberdade com dominância social e associação com pares com desvios de conduta (Rowe, Maughan, Worthman, Costello e Angold, 2004). ■ Influência psicossocial Relacionamento com os pares Os grupos sociais têm um impacto significativo no desenvolvimento de uma criança. Os colegas desempenham um papel fundamental na socialização de competência interpessoal, e as habilidades adquiridas desta maneira afetam o ajustamento social da criança a longo prazo. Pesquisas demonstram que relacionamentos ruins com os pares durante a infância estavam implicados de modo consistente na etiologia de desvios de comportamento futuros (Ladd, 1999). Agressividade foi determinada como sendo a causa principal de rejeição pelos colegas, contribuindo, portanto, para um ciclo de comportamento mal-adaptado. Implicações de pesquisa para a prática com base em evidência Hall, L. A., Rayens, M. K., & Peden, A. R. (2008). Maternal factors associated with child behavior. Journal of Nursing Scholarship, 40(2), 124-130. Descrição da pesquisa: o propósito deste estudo era identificar fatores maternos predisponentes para a internalização (p. ex., ansiedade, depressão, retraimento e somatizações) e a externalização (p. ex., impulsividade, contestação e agressividade) de comportamentos por seus filhos. A amostra era constituída por 205 mães solteiras de baixa renda, com dois filhos com idades entre 2 e 6 anos. Outro critério de inclusão na pesquisa era não participar de sessões de cuidados psiquiátricos ou aconselhamento, não tomar antidepressivos, não apresentar tendências suicidas, não estar grávida e não possuir filhos com menos de 1 ano de idade. As variáveis maternas foram medidas da seguinte maneira: a Escala de Depressão de Beck foi empregada para medir sintomas de depressão; pensamentos negativos foram medidos por meio do questionário Crandell Cognitions Inventory; os sentimentos de autoestima e autoaceitação foram mensurados por meio da Escala de Autoestima de Rosemberg; e o estresse crônico foi medido com base no Everyday Stressors Index, que verifica os problemas mais comuns encarados diariamente pelas mães com filhos pequenos. A pesquisa foi conduzida mediante entrevistas na casa de cada uma das mães participantes. Resultados da pesquisa: o estresse materno é o fator que exerce maior efeito total sobre a internalização e a externalização de comportamentos pelas crianças. Sintomas de depressão são o segundo fator de efeito total, seguidos por pensamentos negativos. O sentimento de autoestima das mães apresentou o efeito total mais fraco nos dois resultados. Outros estudos demonstram que a depressão maternaestá associada ao baixo rendimento escolar de seus filhos, à lentidão no desenvolvimento cognitivo e motor e a níveis elevados de cortisol. Crianças muito novas com problemas de comportamento correm o risco de manter esses distúrbios durante a idade escolar e a adolescência. Implicações para a prática da enfermagem: os autores sugerem que precisam ser identificados os tipos de agentes estressores com os quais mulheres de baixa renda têm que lidar, e que devem ser feitas tentativas que produzam alívio, seja por meio de intervenções ou de encaminhamento a serviços sociais de apoio. O tratamento da depressão materna com antidepressivos e estratégias cognitivo-comportamentais para reduzir a quantidade de pensamentos negativos também podem trazer benefícios para os filhos. Os autores declaram: Os achados desta pesquisa indicam que a ênfase na redução do pensamento negativo das mães pode oferecer um modo de reduzir seus sintomas de depressão e resultar em menor quantidade de problemas de comportamento entre seus filhos pequenos. Enfermeiras que trabalham com cuidados primários e em instituições públicas estão em posição privilegiada para lidar com esse problema e melhorar a saúde mental de mães de baixa renda e, ao mesmo tempo, ter um impacto positivo sobre o comportamento de seus filhos. ■ Influências familiares Os fatores a seguir, relacionados com a dinâmica familiar, têm sido implicados como contribuintes para a predisposição a esse transtorno (Foley et al., 2004; Sadock e Sadock, 2007; Ursano et al., 2008): ■ rejeição pelos pais; ■ controle inconsistente com disciplina implacável; ■ institucionalização precoce; ■ mudança frequente das figuras paternas; ■ família numerosa; ■ pai ausente; ■ pais com distúrbio de personalidade antissocial e/ou dependência de álcool; ■ conflito conjugal e divórcio; ■ padrões inadequados de comunicação; ■ permissividade paterna. Aplicação do processo de enfermagem no transtorno de conduta ■ Avaliação de dados de background (sintomatologia) A característica clássica do transtorno de conduta é o emprego de agressões físicas na violação dos direitos de outras pessoas. O padrão de comportamento se manifesta em virtualmente todas as áreas da vida da criança (casa, escola, com os colegas e na comunidade). Roubo, mentira e vadiagem são problemas comuns. Faltam à criança os sentimentos de culpa e remorso. O uso de tabaco, bebidas alcoólicas ou de substâncias ilícitas, bem como a participação em atividades sexuais, ocorre mais cedo do que o esperado para a faixa etária de seu grupo. Projeção é um mecanismo de defesa comum. A baixa autoestima se manifesta pela imagem de um “cara durão”. As características incluem baixa aceitação de frustrações, irritabilidade e frequentes explosões de temperamento. Não é incomum a presença de sintomas de ansiedade e depressão. Boxe 23.4 Critérios diagnósticos para transtorno de conduta A. Padrão repetitivo e persistente de comportamento, no qual os direitos básicos dos outros ou as principais normas sociais apropriadas daquela faixa etária são violadas, como manifestado pela presença de três (ou mais) dos critérios a seguir nos últimos 12 meses, com pelo menos um dos critérios presente nos últimos 6 meses: 1. Agressão contra pessoas e animais a. Frequentemente amedronta, ameaça ou intimida os outros b. Frequentemente inicia embates físicos c. Já usou uma arma que pode causar sérios danos físicos aos outros (p. ex., bastão, tijolo, garrafa quebrada, faca, revólver) d. Demonstra crueldade física contra as pessoas e. Demonstra crueldade física contra animais f. Cometeu um roubo confrontando a vítima (p. ex., assalto, roubo de bolsa, extorsão, assalto a mão armada) g. Forçou alguém a realizar atividade sexual 2. Destruição de patrimônio a. Deliberadamente iniciou um incêndio com a intenção de causar danos graves b. Deliberadamente destruiu propriedade de outros (que não por incêndio) 3. Falsidade ou roubo a. Arrombou a casa, o escritório ou o carro de alguém b. Mente com frequência para obter bens e favores ou para evitar o cumprimento de suas obrigações (i. e., trapaceia) c. Roubou itens de valor sem confrontar a vítima (p. ex., roubo a lojas sem arrombamento; falsificação) 4. Graves violações a regras a. Frequentemente passa a noite fora, independentemente da proibição dos pais, começando antes do 13 anos de idade b. Fugiu de casa durante a noite pelo menos duas vezes enquanto vivia com os pais ou em um lar adotivo (ou apenas uma vez sem retornar por um longo período) c. Cabula aulas com frequência, começando antes dos 13 anos de idade B. Os problemas de comportamento causam comprometimento clinicamente significativo no funcionamento social, escolar ou ocupacional C. Se o indivíduo tem 18 anos ou mais, esses critérios não caracterizam distúrbio de personalidade antissocial Subtipos: 1. Manifestação na infância: manifestação de pelo menos um dos critérios de desordem de conduta anterior aos 10 anos de idade 2. Manifestação na adolescência: ausência de qualquer critério de desordem de conduta anterior aos 10 anos de idade 3. Manifestação inespecífica: não é conhecida a idade da manifestação Com permissão da American Psychiatric Association. (2000). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (4th ed.) Text revision. Washington, DC: American Psychiatric Publishing. O grau de escolaridade pode ser baixo em relação à idade e ao quociente de inteligência (QI). São comuns as manifestações associadas ao TDAH (p. ex., dificuldade de concentração, impulsividade e hiperatividade) em crianças com transtorno de conduta. O critério diagnóstico DSM-IV-TR para transtorno de conduta está apresentado no Boxe 23.4. ■ Diagnóstico/identificação dos objetivos Com base nos dados coletados durante o histórico de enfermagem, os possíveis diagnósticos de enfermagem para uma criança com transtorno de conduta incluem: ■ risco de violência direcionado ao outro, relacionado com as características de temperamento, rejeição dos pares, modelos parentais negativos, dinâmica familiar disfuncional; ■ interação social prejudicada relacionada com modelo parental negativo e comprometimento das relações com seus pares, resultando em comportamento social inadequado; ■ enfrentamento defensivo relacionado com baixa autoestima e sistema familiar disfuncional; ■ baixa autoestima relacionada com a falta de feedback positivo e relação insatisfatória entre os pais e a criança. Critérios de resultados Os resultados esperados incluem metas de curto e longo prazos. O tempo para o alcance das metas deve ser determinado individualmente. Os critérios a seguir podem ser utilizados para avaliar os resultados dos cuidados de enfermagem a um cliente com transtorno de conduta. O cliente ■ Não causou lesões a si mesmo e aos outros. ■ Interage com os outros de maneira socialmente apropriada. ■ Aceita orientações sem ficar na defensiva. ■ Demonstra evidência de elevação em sua autoestima pela interrupção de comportamentos de exploração e exigência em relação aos outros. ■ Planejamento/Implementação A Tabela 23.7 fornece um plano de cuidados para crianças com transtorno de conduta, incluindo diagnósticos de enfermagem mais comuns ao transtorno, critério de resultados e intervenções de enfermagem adequadas, juntamente com suas justificativas. ■ Avaliação final Após o planejamento e a execução, a avaliação da eficácia dos cuidados com um cliente envolve examinar mudanças no comportamento do cliente com transtorno de conduta. Isso é conseguido determinando-se se as metas terapêuticas foram alcançadas. A evolução ou avaliação final, que é a próxima etapa do processo de enfermagem, pode ser iniciada pela coleta de dados utilizando as questões a seguir: Tabela 23.7 Plano de cuidado para crianças e adolescentes com transtorno de conduta Diagnóstico de enfermagem: Risco de violência direcionada ao outro Relacionado com: características de temperamento, rejeição dos pares, modelos parentais negativos, dinâmica familiar disfuncional Critérios de resultados Intervençõesde enfermagem Justificativa Meta a curto prazo 1. Observe o comportamento do cliente 1. O reconhecimento de comportamentos • O cliente conversará sobre sua sensação de raiva com a enfermeira ou terapeuta frequentemente por meio de atividades de rotina e interações. Fique alerta para o aparecimento de comportamentos que indicam aumento de agitação que precedem uma manifestação de agressividade pode proporcionar a oportunidade de intervenção antes que ocorra o ato de violência Meta a longo prazo • O cliente não causará danos aos outros e suas propriedades 2. Redirecione o comportamento violento para atividades físicas para suprimir a raiva e a frustração 2. O excesso de energia é liberado mediante atividades físicas, induzindo uma sensação de relaxamento 3. Incentive o cliente a expressar sua raiva e aja como um modelo de expressão adequada desse sentimento 3. A discussão de situações que levam à raiva pode resultar em maneiras mais eficientes de lidar com ela 4. Certifique-se de que a equipe é composta por um número suficiente de pessoas capazes de demonstrar força, se necessário 4. Isso evidencia o controle da situação e oferece segurança à equipe 5. Se houver prescrição, devem ser administrados tranquilizantes; o uso de restrições mecânicas ou de quartos de isolamento deve ocorrer apenas se a situação ficar fora de controle, e empregando-se os meios menos restritivos 5. É um direito do cliente que sejam aplicadas técnicas as menos restritivas possíveis para garantir sua segurança e a dos outros Diagnóstico de enfermagem: Interação social prejudicada Relacionado com: modelo parental negativo, comprometimento das relações com seus pares resultando em comportamento social inadequado Critérios de resultados Intervenções de enfermagem Justificativa Meta a curto prazo • O cliente será capaz de interagir individualmente com a enfermeira de modo apropriado a sua idade dentro de 1 semana 1. Estabeleça uma relação de confiança com a criança. Demonstre sua aceitação à parte do comportamento inaceitável 1. Aceitação incondicional aumenta a sensação de autoestima 2. Converse com o cliente sobre que tipo de comportamento é inaceitável. Descreva de maneira realística as consequências desse tipo de comportamento. Mantenha acompanhamento 2. Reforço aversivo pode alterar ou extinguir comportamentos indesejados Meta a curto prazo • O cliente será capaz de interagir apropriadamente com a equipe e seus colegas por meio de comportamentos aceitáveis e adequados para sua idade 3. Promova situações de grupo para o cliente 3. Um comportamento socialmente aceito muitas vezes é aprendido a partir do feedback positivo ou negativo de seus colegas Diagnóstico de enfermagem: Enfrentamento defensivo Relacionado com: baixa autoestima e sistema familiar disfuncional Critério de resultados Intervenções de enfermagem Justificativa Meta a curto prazo • O cliente será capaz de verbalizar 1. Explique ao cliente a correlação entre seus sentimentos de inadequação e a necessidade de aceitação pelos outros e 1. Reconhecer o problema é a primeira etapa no processo de mudança em direção à solução sua responsabilidade pessoal pelas dificuldades encontradas nas relações interpessoais (dentro de um intervalo de tempo adequado ao cliente) de que maneira esses sentimentos provocam o comportamento defensivo, como o de culpar os outros pelo seu comportamento 2. Forneça feedback imediato, direto e não ameaçador para comportamentos inaceitáveis 2. O cliente pode não entender como esse tipo de comportamento é percebido pelos outros 3. Ajude a identificar situações que provocam a defensiva e pratique as respostas apropriadas por meio de dramatizações em dinâmicas de grupo 3. As dramatizações como dinâmicas de grupo promovem confiança para lidar com situações difíceis no momento em que realmente ocorrem Meta a longo prazo • O cliente aceitará responsabilidade pelos próprios comportamentos e irá interagir com os outros sem ficar na defensiva 4. Forneça feedback positivo imediato para comportamentos aceitáveis 4. O feedback positivo incentiva a repetição e fornecer o reforço na mesma hora é muito importante para crianças que respondem à gratificação imediata Diagnóstico de enfermagem: Baixa autoestima Relacionado com: falta de feedback positivo e relação insatisfatória entre os pais e a criança Critério de resultados Intervenções de enfermagem Justificativa Metas a curto prazo • O cliente participará das atividades de autocuidado e conversará com a enfermeira sobre aspectos relacionados consigo mesmo que considera bons 1. Garanta metas realistas 1. Metas pouco realistas levam o cliente a falhar, o que diminui sua autoestima 2. Planeje atividades que ofereçam oportunidade de sucesso 2. O sucesso aumenta a autoestima 3. Demonstre aceitação incondicional e respeito 3. Afirmar que o cliente é um ser humano que tem valor eleva sua autoestima Meta a longo prazo • O cliente demonstrará elevação nos sentimentos de autovalorização por meio de verbalizações positivas a respeito de si mesmo e exibindo menos comportamentos manipulativos 4. Estabeleça limites para o comportamento manipulativo. Tome o cuidado de não oferecer reforço positivo para comportamento manipulativo, demonstrando a atenção que o cliente deseja. Identifique as consequências da manipulação. Imponha consequências sempre que ocorrer esse tipo de comportamento 4. Consequências aversivas podem ajudar a reduzir comportamentos inaceitáveis 5. Ajude o cliente a entender que usa esse tipo de comportamento para tentar elevar sua autoestima As intervenções devem refletir outro tipo de atitude para conquista dessa meta 5. Quando o cliente se sente bem a respeito de si mesmo, a necessidade de manipular outras pessoas diminuirá ■ As ações de enfermagem direcionadas ao controle do comportamento agressivo do cliente foram eficazes? ■ As intervenções conseguiram prevenir lesão aos outros e ao patrimônio? ■ O cliente é capaz de demonstrar raiva de maneira apropriada? ■ O cliente desenvolveu estratégias de enfrentamento mais bem adaptadas para lidar com sentimentos de raiva e agressividade? ■ O cliente demonstra capacidade de confiar nos outros? Ele é capaz de interagir com a equipe e com seus colegas de maneira adequada? ■ O cliente é capaz de aceitar responsabilidades pelo seu próprio comportamento? Manifesta menos disposição de colocar a culpa nos outros? ■ O cliente aceita feedback de outras pessoas sem se mostrar na defensiva? ■ O cliente verbaliza aspectos positivos sobr si mesmo? ■ O cliente é capaz de interagir com os outros sem manipulação? Transtorno desafiador de oposição Achados clínicos, epidemiologia e curso do transtorno O transtorno desafiador de oposição (TDO) é caracterizado por um padrão de comportamento negativista, desafiador, desobediente e hostil direcionado contra figuras de autoridade, ocorre com mais frequência do que geralmente se observa em indivíduos da mesma faixa etária e estágio de desenvolvimento e interfere no funcionamento social, escolar ou ocupacional (APA, 2000). Tipicamente, a desordem se inicia em torno dos 8 anos de idade e, geralmente, nunca após o princípio da adolescência. A prevalência estimada varia entre 2% e 12%, e as comorbidades mais comumente encontradas incluem TDAH e transtornos de ansiedade e humor (Ursano et al., 2008). Antes da puberdade a incidência é maior em meninos que em meninas, porém, após a puberdade, as taxas de incidência se aproximam. Em grande quantidade dos casos, TDO é um antecedente para o desenvolvimento de transtorno de conduta (Tynan, 2008). Fatores predisponentes ■ Influências biológicas Como o comportamento associado ao TDO é muito similar ao de transtorno de conduta, com exceção da violação dos direitos de outras pessoas, é razoável imaginar que compartilhem pelo menos alguma influência biológica. A importância, se houver, dos fatores genéticos, temperamento ou alterações bioquímicas na etiologia de TDO ainda está sendo investigada. A pesquisa realizada porComings et al. (2000) sugere que os genes para o metabolismo da dopamina, serotonina e norepinefrina podem contribuir para o desenvolvimento de TDO. ■ Influência da família Comportamentos de oposição são normais e saudáveis durante diversos estágios de desenvolvimento. As crianças apresentam comportamentos de oposição pela primeira vez por volta dos 10 ou 11 meses de idade, novamente em idade pré-escolar, entre os 18 e 36 meses e, finalmente, durante a adolescência. Considera-se uma patologia apenas quando o estágio de desenvolvimento se prolonga, ou quando ocorre uma reação excessiva no ambiente da criança em reposta ao seu comportamento. Algumas crianças exibem o comportamento de maneira mais intensa do que outras. Sadock e Sadock (2007) declaram: “Estudos epidemiológicos sobre traços negativistas em populações não clínicas encontraram esse tipo de comportamento em 16% a 22% das crianças em idade escolar” (p. 1.218). Alguns pais interpretam o grau médio ou elevado de desenvolvimento do comportamento oposicional como hostilidade e tentativa deliberada por parte da criança para assumir o controle. Se poder e controle são questões importantes para os pais, ou se eles exercem sua autoridade para preencher as próprias necessidades, pode se estabelecer uma luta pelo poder entre os pais e a criança, criando as condições para o desenvolvimento de TDO. Popper et al. (2003) sugerem que as influências listadas a seguir podem participar da etiologia de TDO: ■ pais com problemas para disciplinar, estruturar ou estabelecer limites; ■ a criança se identifica com um dos pais com desordem impulsiva que estabelece o modelo de comportamento para interações oposicionais e desafiadoras com as outras pessoas; ■ indisponibilidade dos pais (p. ex., separação, pais que trabalham até tarde). Aplicação do processo de enfermagem no transtorno desafiador de oposição ■ Avaliação de dados de background (sintomatologia) TDO se caracteriza por um comportamento passivo-agressivo, como teimosia, procrastinação, desobediência, descuido, negativismo, testagem de limites, resistência a instruções, ignorar deliberadamente o que os outros falam e falta de vontade de se comprometer. Outros sintomas que podem ficar evidentes é correr de uma situação, evitar a escola, tirar notas baixas, explosões de raiva, brigas e excesso de argumentação. A atitude de oposição é dirigida aos adultos e, principalmente, aos pais. Os sintomas do transtorno podem ou não se manifestar na escola ou em outros ambientes (APA, 2000). Boxe 23.5 Critérios diagnósticos para transtorno desafiador de oposição A. Padrão de comportamento pessimista, hostil e desafiador que dura pelo menos 6 meses durante os quais quatro (ou mais) das características a seguir estão presentes. 1. Frequentemente perde a cabeça. 2. Frequentemente discute com adultos. 3. Frequentemente desafia ativamente ou se recusa a cumprir as ordens ou regras impostas por adultos. 4. Frequentemente implica de modo deliberado com as pessoas. 5. Frequentemente culpa os outros por seus erros ou mau comportamento. 6. Frequentemente se mostra magoado ou facilmente incomodado pelos outros. 7. Frequentemente sente raiva e ressentimento. 8. Frequentemente se mostra rancoroso ou vingativo. B. O distúrbio de comportamento causa comprometimento clinicamente significativo no funcionamento social, escolar ou ocupacional. C. O comportamento não ocorre exclusivamente durante uma crise psicótica ou distúrbio de humor. D. Os critérios não são atendidos para o transtorno de conduta, e se o indivíduo tem 18 anos ou mais os critérios não são atendidos para o distúrbio de personalidade antissocial. Com permissão da American Pshychiatric Association. (2000). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (4th ed.) Text revision. Washington, DC: American Pshychiatric Publishing. Em geral essas crianças não se veem como oposicionistas, mas acham que o problema é criado pelos outros, que elas acreditam estarem fazendo exigências demais. As relações interpessoais são repletas de dificuldades, inclusive com os colegas. Frequentemente essas crianças não têm amigos e percebem as relações humanas como negativas e insatisfatórias. O desempenho escolar em geral é ruim devido a sua recusa em participar e sua resistência a demandas externas. Os critérios diagnósticos DSM-IV-TR para TDO são apresentados no Boxe 23.5. ■ Diagnóstico/identificação dos objetivos Com base nos dados coletados durante o histórico de enfermagem, os possíveis diagnósticos de enfermagem para uma criança com TDO incluem: ■ recusa em seguir o tratamento relacionada com temperamento negativo, negação dos problemas e hostilidade subjacente; ■ enfrentamento defensivo relacionado com o atraso no desenvolvimento do ego; autoestima baixa; relação insatisfatória entre os pais e a criança; ■ baixa autoestima relacionada com a falta de feedback positivo; atraso no desenvolvimento do ego; ■ interação social prejudicada relacionada com o temperamento pessimista; hostilidade subjacente; manipulação dos outros. Critério de resultado Os resultados esperados incluem metas de curto e longo prazos. O tempo para o alcance das metas deve ser determinado individualmente. Os critérios a seguir podem ser utilizados para avaliar os resultados dos cuidados de enfermagem a um cliente com TDO. O cliente ■ Adere ao tratamento participando das terapias sem demonstrar negativismo. ■ Aceita sua parcela de responsabilidade no problema. ■ Aceita as orientações da equipe sem se mostrar na defensiva. ■ Não tenta manipular as pessoas. ■ Verbaliza aspectos positivos sobre a sua pessoa. ■ Interage com os outros de maneira apropriada. ■ Planejamento/implementação Tabela 23.8 fornece um plano de cuidados para crianças com TDO, incluindo diagnósticos de enfermagem mais comuns ao transtorno, critério de resultados e intervenções de enfermagem adequadas, juntamente com suas justificativas. Tabela 23.8 Plano de cuidado para crianças e adolescentes com transtorno desafiador de oposição Diagnóstico de enfermagem: Recusa em seguir o tratamento Relacionada com: temperamento negativo, negação dos problemas e hostilidade subjacente Critério de resultados Intervenções de enfermagem Justificativa Meta a curto prazo • O cliente irá participar e cooperar durante as atividades terapêuticas 1. Estabeleça um plano estruturado de atividades terapêuticas. Comece com expectativas mínimas e aumente a dificuldade à medida que o cliente manifesta evidência de cumprimento da 1. A estrutura fornece segurança, e uma ou duas atividades não serão vistas como demasiadas, uma vez que a agenda completa é apresentada de uma só vez tarefa Meta a longo prazo • O cliente completará as tarefas designadas voluntária e independentemente ou com um mínimo de assistência 2. Estabeleça um sistema de recompensa para adesão à terapia e de consequências para à não adesão. Certifique-se de que as recompensas e as consequências tenham valor para o cliente 2. Reforços positivo, negativo e aversivo podem contribuir para as alterações desejadas no comportamento 3. Demonstre aceitação ao cliente, à parte da demonstração de comportamentos indesejáveis. (“Não é você, mas o seu comportamento que é inaceitável”) 3. Aceitação incondicional eleva a autoestima e pode contribuir para uma redução na necessidade de comportamento passivoagressivo dirigido a outras pessoas Diagnóstico de enfermagem: Enfrentamento defensivo Relacionado com: atraso no desenvolvimento do ego; autoestima baixa; relação insatisfatória entre os pais e a criança Critério de resultados Intervenções de enfermagem Justificativa Metas a curto prazo • O cliente será capaz de verbalizar sua responsabilidade pessoal pelas dificuldades encontradas nas relações interpessoais (dentro de um intervalo de tempo adequado ao cliente) 1. Ajude o cliente a reconhecer que seus sentimentos de inadequação provocam o comportamento defensivo, como o de culpar os outros pelos seus problemas e a necessidade de “empatar” 1. Reconhecer o problema é a primeiraetapa no processo de mudança 2. Forneça feedback imediato, direto e não ameaçador para comportamento passivo- agressivo 2. Como o cliente nega a responsabilidade por seus problemas, ele está negando que seu comportamento é inaceitável Meta a longo prazo • O cliente aceitará responsabilidade pelo próprio comportamento e irá interagir com os outros sem ficar na defensiva 3. Ajude a identificar situações que provocam a defensiva e dramatize as respostas apropriadas por meio de dinâmicas de grupo 3. As dinâmicas de grupo promovem confiança para lidar com situações difíceis no momento em que realmente ocorrem 4. Forneça feedback positivo imediato para comportamentos aceitáveis 4. O feedback positivo incentiva a repetição e fornece o reforço na mesma hora, sendo muito importante para crianças que respondem à gratificação imediata Diagnóstico de enfermagem: Baixa autoestima Relacionado com: falta de feedback positivo; atraso no desenvolvimento do ego Critério de resultados Intervenções de enfermagem Justificativa Metas a curto prazo • O cliente participará das atividades de autocuidado e conversará com a enfermeira sobre aspectos relacionados consigo mesmo que considera bons 1. Garanta metas realísticas 1. Metas pouco realistas levam o cliente a falhar, o que diminui sua autoestima 2. Planeje atividades que ofereçam oportunidade de sucesso 2. O sucesso aumenta a autoestima 3. Demonstre aceitação incondicional e respeito 3. Afirmar que o cliente é um ser humano que tem valor eleva sua autoestima Meta a longo prazo • O cliente demonstrará elevação nos sentimentos de autovalorização por meio de verbalizações positivas a respeito de si mesmo e exibindo 4. Estabeleça limites para o comportamento manipulativo. Tome o cuidado de não oferecer reforço positivo para comportamento manipulativo, demonstrando a atenção que o cliente deseja. Identifique as consequências da 4. Reforço aversivo pode ajudar a reduzir comportamentos inaceitáveis menos comportamento manipulativo manipulação. Imponha consequências sempre que ocorrer esse tipo de comportamento 5. Ajude o cliente a entender que usa esse tipo de comportamento para tentar elevar sua autoestima As intervenções devem refletir outro tipo de atitude para a conquista dessa meta 5. Quando o cliente se sentir bem a respeito de si mesmo, a necessidade de manipular outras pessoas diminuirá Diagnóstico de enfermagem: Interação social prejudicada Relacionado com: temperamento pessimista; hostilidade subjacente; manipulação dos outros Critério de resultados Intervenções de enfermagem Justificativa Metas a curto prazo • O cliente será capaz de interagir com a enfermeira de modo apropriado a sua idade dentro do período de 1 semana 1. Estabeleça uma relação de confiança com a criança. Demonstre sua aceitação à parte do comportamento inaceitável 1. Aceitação incondicional aumenta a sensação de autoestima e pode servir para diminuir os sentimentos de rejeição acumulados ao longo do tempo Meta a longo prazo • O cliente será capaz de interagir apropriadamente com a equipe e seus colegas por meio de comportamentos aceitáveis e adequados para sua idade 2. Converse com o cliente sobre o comportamento passivo-agressivo. Explique como esse tipo de comportamento é percebido pelos outros. Descreva comportamentos inaceitáveis e, por meio de dinâmicas de grupo, dramatize respostas mais bem adaptadas. Forneça feedback positivo para comportamentos aceitáveis 2. A dinâmica de grupo é um meio de praticar comportamentos que não são automáticos para o cliente, facilitando o desempenho em uma situação real. Feedback positivo aumenta a repetição de comportamentos desejáveis 3. Promova situações de grupo para o cliente 3. Um comportamento socialmente aceito muitas vezes é aprendido a partir do feedback positivo ou negativo de seus colegas. O grupo também fornece uma atmosfera para empregar comportamentos ensaiados nas dinâmicas ■ Avaliação final A etapa de avaliação do processo de enfermagem pede uma reavaliação do plano de cuidados para determinar se as ações de enfermagem foram eficazes para alcançar as metas da terapia. As questões a seguir podem ser usadas com crianças ou adolescentes portadores de TDO para reunir informações para a avaliação: ■ O cliente coopera com a agenda de atividades terapêuticas? O nível de participação é adequado? ■ A atitude do cliente em relação à terapia está menos negativa? ■ O cliente está aceitando a responsabilidade por seus problemas de comportamento? ■ O cliente verbaliza o fato de seu comportamento passivo-agressivo não ser aceitável? ■ Ele é capaz de identificar que tipo de comportamento é inaceitável e substituir por outro mais bem adaptado? ■ O cliente é capaz de interagir com a equipe e com seus pares sem apresentar comportamento defensivo e raivoso? ■ O cliente é capaz de verbalizar aspectos positivos de si mesmo? ■ Estão evidentes o aumento na autoestima e a menor manifestação de manipulação? ■ O cliente é capaz de se comprometer com os outros quando surgem questões relacionadas com controle? ■ Os sentimentos de raiva e hostilidade são expressos de maneira apropriada? O cliente consegue verbalizar meios de liberar a raiva de modo mais adaptativo? ■ Ele é capaz de verbalizar sentimentos verdadeiros em vez de permitir que aflorem por intermédio de um comportamento passivo-agressivo? Síndrome de Tourette Achados clínicos, epidemiologia e curso da síndrome A característica essencial da síndrome de Tourette é a presença de diversos tiques motores e um ou mais tiques vocais (APA, 2000). Eles podem surgir simultaneamente ou em períodos diferentes durante o curso da síndrome. Essa doença causa grande desconforto e interfere no funcionamento social, ocupacional ou em outras áreas importantes na vida da pessoa. A síndrome de Tourette pode se manifestar precocemente, como aos 2 anos de idade, porém é mais comum durante a infância (entre 6 e 7 anos de idade). A prevalência da desordem está associada à idade, afetando muito mais as crianças (entre 5 e 30 por 10.000) do que os adultos (entre 1 e 2 casos por 10.000) (APA, 2000). É mais comum em meninos do que em meninas. Embora a síndrome possa durar por toda a vida, os sintomas tendem a diminuir durante a adolescência e a vida adulta e, em alguns casos, desaparecer totalmente no começo da vida adulta (Leckman, Bloch, Scahill e King, 2006). Fatores predisponentes ■ Influências biológicas Fatores genéticos Os tiques são observados em dois terços dos familiares de clientes com a síndrome de Tourette (Popper et al., 2003). Estudos com gêmeos monozigóticos e dizigóticos sugerem a presença de um componente hereditário. As evidências sugerem que a síndrome de Tourette deve ser transmitida em um padrão autossômico intermediário, entre dominante e recessivo (Sadock e Sadock, 2007). Singer, Leffler e Murray (2008) declaram: O gene exato e o mecanismo hereditário permanecem indeterminados. Provavelmente, é um mecanismo genético complexo, talvez associado a diversos genes ou a um efeito epigênico, quer dizer, uma exposição ambiental influenciando a expressão do gene. Fatores bioquímicos Anormalidades nos níveis de dopamina, serotonina, dinorfina, ácido gama-aminobutírico (GABA), acetilcolina e norepinefrina têm sido associadas à síndrome de Tourette (Popper et al., 2003). Parece haver envolvimento das vias neurotransmissoras do gânglio basal, do globo pálido e das regiões subtalâmicas. Fatores estruturais Estudos por imagem do cérebro têm se mostrado consistentes em encontrar disfunção na região do gânglio basal. Uma pesquisa recente encontrou relação entre um corpo caloso de tamanho menor e a síndrome de Tourette em crianças (Plessen et al., 2007). Peterson et al. (2007) encontraram um volume maior em sub-regiões do hipocampo e da amígdala em crianças com síndrome de Tourette. ■ Fatores ambientais Achados retrospectivos adicionais podem estar implicados na etiologia da síndrome de Tourette. Acredita-se que complicações na gravidez (p. ex., náuseas e vômitos graves ouestresse excessivo), peso baixo ao nascer, traumatismo craniano, envenenamento por monóxido de carbono e encefalite estejam associados à manifestação não genética da síndrome de Tourette. Especula-se que esses fatores ambientais também podem influenciar a predisposição genética à síndrome. Uma pesquisa sugere que a síndrome de Tourette pode surgir como resultado de um fenômeno autoimune pós-infecção induzido por infecção por estafilococos na criança (Mell, Davis e Owens, 2005). Aplicação do processo de enfermagem na síndrome de Tourette ■ Avaliação de dados de background (sintomatologia) Os tiques motores da síndrome de Tourette podem envolver cabeça, pescoço, torso e membros superiores e inferiores. Os primeiros sintomas se iniciam com um único tique motor, mais frequentemente um piscar de olhos, ou com sintomas múltiplos. Os critérios diagnósticos DSM-IV-TR identificam tiques motores simples como piscar dos olhos, virar o pescoço, erguer os ombros, fazer caretas e tossir. Tiques motores complexos incluem apalpar, agachar, pular, saltitar, dobrar profundamente os joelhos, refazer os próprios passos e girar enquanto caminha. Os tiques vocais incluem diversas palavras e sons, como cliques, grunhidos, uivos, latidos, fungadas, pigarros, tosse e, em aproximadamente 10% dos casos, um tique vocal complexo envolvendo a fala de obscenidades (APA, 2000). Os tiques vocais podem incluir a repetição de certas palavras ou frases fora de contexto, repetição do som das próprias palavras (palilalia) ou repetição do que os outros dizem (ecolalia). Os movimentos e vocalizações são percebidos como compulsivos e irresistíveis, mas podem ser suprimidos por intervalos variáveis. São exacerbados pelo estresse e atenuados durante períodos nos quais o indivíduo está totalmente envolvido em determinada atividade. Na maioria dos casos, os tiques diminuem durante o sono (Singer et al., 2008). As comorbidades mais comumente associadas à síndrome de Tourette incluem TDAH, transtorno obsessivo-compulsivo, depressão e ansiedade. Acessos episódicos e dificuldades na escola também são frequentemente observados. Em casos graves, os clientes podem exibir um comportamento de automutilação (Singer et al., 2008). Os critérios diagnósticos DSM-IV-TR para a síndrome de Tourette são apresentados no Boxe 23.6. ■ Diagnóstico/identificação de resultados Com base nos dados coletados durante o histórico de enfermagem, os possíveis diagnósticos de enfermagem para uma criança com síndrome de Tourette incluem: ■ risco de violência dirigida contra si mesmo ou contra outros, relacionado com baixa tolerância à frustração; ■ interação social prejudicada relacionada com impulsividade e comportamento oposicional e agressivo; ■ baixa autoestima relacionada com a vergonha associada aos tiques. Critérios de resultados Os resultados esperados incluem metas a curto e longo prazos. O tempo para o alcance das metas deve ser determinado individualmente. Os critérios a seguir podem ser utilizados para avaliar os resultados dos cuidados de enfermagem em um cliente com síndrome de Tourette. Boxe 23.6 Critérios de diagnóstico para síndrome de Tourette A. Tiques motores múltiplos e um ou mais tiques vocais se apresentam durante a doença, embora não necessariamente ao mesmo tempo. (Um tique é um movimento motor ou vocalização súbita, rápida, recorrente, não ritmada e estereotipada.) B. Os tiques ocorrem muitas vezes/dia (geralmente em acessos), praticamente todos os dias ou de modo intermitente por um período de mais de 1 ano, e durante esse tempo a pessoa nunca esteve livre dos tiques por mais de 3 meses consecutivos. C. O distúrbio causa profundo desconforto ou comprometimento significativo do funcionamento social, ocupacional ou em outras áreas de importância. D. A manifestação ocorre antes dos 18 anos de idade. E. O distúrbio não é resultado direto de efeitos fisiológicos de uma substância (p. ex., estimulantes) nem uma condição clínica genérica (p. ex., doença de Huntington ou encefalite pós-viral). Com permissão da American Psychiatric Association. (2000). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (4th ed.) Text revision. Washington, DC: American Psychiatric Publishing. O cliente ■ Não causou lesões a si mesmo e aos outros. ■ Interage com a equipe e os colegas de maneira apropriada. ■ Demonstra autocontrole gerenciando os tiques. ■ Segue as regras da unidade sem se mostrar na defensiva. ■ Verbaliza aspectos positivos sobre a sua pessoa. ■ Planejamento/implementação A Tabela 23.9 fornece um plano de cuidados para crianças ou adolescentes com síndrome de Tourette, incluindo diagnósticos de enfermagem mais comuns à síndrome, critério de resultados e intervenções de enfermagem adequadas, juntamente com suas justificativas. ■ Avaliação final A avaliação final da eficácia dos cuidados com uma criança ou adolescente com síndrome de Tourette é refletida determinando-se se as metas terapêuticas foram alcançadas. A evolução, que é a próxima etapa do processo de enfermagem, pode ser iniciada mediante a coleta de dados utilizando as questões a seguir: ■ O cliente conseguiu se conter e não causar lesão a si mesmo e aos outros durante os momentos de grande tensão? ■ O cliente desenvolveu estratégias de enfrentamento bem adaptadas para lidar com a frustração e evitar lançar mão de recursos de autodestruição ou agressividade contra os outros? ■ O cliente é capaz de interagir de maneira apropriada com a equipe e seus colegas? Tabela 23.9 Plano de cuidado para crianças com síndrome de Tourette Diagnóstico de enfermagem: Risco de violência contra si mesmo Relacionado com: baixa tolerância à frustração Critério de resultado Intervenções de enfermagem Justificativa Metas a curto prazo: 1. Observe o comportamento do cliente frequentemente durante as atividades de 1. O estresse em geral aumenta os tiques. Reconhecer o comportamento que • O cliente irá procurar a ajuda da equipe a qualquer momento se lhe ocorrerem pensamentos de machucar a si mesmo ou aos outros rotina e interações. Fique alerta para comportamentos que indicam elevação no nível de agitação precede a manifestação de agressão pode fornecer a oportunidade de intervenção antes que ocorra violência Meta a longo prazo: • O cliente não machucará a si mesmo ou aos outros 2. Monitore o comportamento autodestrutivo e impulsivo. Pode ser necessária a presença de um membro da equipe junto ao cliente para prevenir automutilação 2. A segurança do cliente deve ser prioridade de enfermagem 3. Providencie equipamentos restritivos para impedir o comportamento de automutilação do cliente 3. Para a proteção do cliente, providencie imediato controle externo contra comportamentos de autoagressão 4. Redirecione o comportamento violento com atividades físicas para reduzir a frustração 4. O excesso de energia é liberado por atividades físicas, induzindo uma sensação de relaxamento Diagnóstico de enfermagem: Interação social prejudicada Relacionado com: impulsividade, comportamento oposicional e agressivo Critério de resultados Intervenções de enfermagem Justificativa Metas a curto prazo • O cliente desenvolverá uma relação individual com a enfermeira ou terapeuta no período de 1 semana 1. Estabeleça uma relação de confiança com a criança. Demonstre sua aceitação à parte do comportamento inaceitável 1. Aceitação incondicional aumenta a sensação de autoestima 2. Converse com o cliente sobre que tipo de comportamento é inaceitável. Descreva de maneira realística as consequências desse tipo de comportamento. Mantenha acompanhamento 2. Reforço aversivo pode contribuir para alterar comportamentos indesejados Meta a longo prazo • O cliente será capaz de interagir com a equipe e seus colegas empregando comportamentos aceitáveis e apropriados para sua idade. 3. Promova situações de grupo para o cliente 3. Comportamentos socialmente apropriados são muitas vezes aprendidos por meio de feedback positivo ou negativo de seus colegas Diagnóstico de enfermagem: Baixa autoestima Relacionadocom: vergonha associada aos tiques Critério de resultados Intervenções de enfermagem Justificativa Metas a curto prazo • O cliente conversará com a enfermeira sobre aspectos positivos relacionados com si mesmo e não associados aos tiques 1. Demonstre aceitação incondicional e respeito 1. Afirmar que o cliente é um ser humano que tem valor eleva sua autoestima 2. Estabeleça limites para o comportamento manipulativo. Tome o cuidado de não oferecer reforço positivo para comportamento manipulativo, demonstrando a atenção que o cliente deseja. Identifique as consequências da manipulação. Imponha consequências sempre que ocorrer esse tipo de comportamento 2. Consequências aversivas podem ajudar a reduzir comportamentos inaceitáveis Meta a longo prazo • O cliente demonstrará elevação nos sentimentos de autovalorização por meio de verbalizações positivas a respeito de si mesmo, conquistas anteriores e perspectivas para o futuro 3. Ajude o cliente a entender que usa esse tipo de comportamento para tentar elevar sua autoestima. As intervenções devem refletir outro tipo de atitude para a conquista dessa meta 3. Quando o cliente se sentir bem a respeito de si mesmo, a necessidade de manipular outras pessoas diminuirá 4. Se o cliente escolhe suprimir seus tiques na presença de outros, forneça um tempo específico durante o qual ele ou ela possa “descarregar” tiques, sentimentos e comportamentos (sozinho ou com alguém da equipe) 4. Permite a liberação dos tiques e ajuda no controle e gerenciamento dos sintomas. 5. Certifique-se de que sejam oferecidos ao cliente encontros privativos regulares com a equipe de enfermagem. 5. Encontros privativos dá à enfermeira a oportunidade de fornecer ao cliente informação sobre a doença e maneiras saudáveis de controles. Explorar os sentimentos sobre a doença ajuda o cliente a incorporar seu problema ao self de maneira saudável. ■ O cliente é capaz de suprimir os tiques quando decide fazer isso? ■ O cliente estabelece um tempo para “liberar” os tiques suprimidos? ■ O cliente verbaliza aspectos positivos sobre sua pessoa, principalmente no que se refere à capacidade de controlar a síndrome? ■ O cliente segue o tratamento sem se mostrar na defensiva? Intervenções psicofarmacológicas na síndrome de Tourette Em geral não é recomendada farmacoterapia para o tratamento da síndrome de Tourette, a não ser quando a síndrome causa comprometimento funcional significativo ou desconforto físico, ou está interferindo na qualidade global de vida do indivíduo ou em seu equilíbrio psicológico (Singer et al., 2008; Ursano et al., 2008). A terapia farmacológica é mais eficiente quando combinada com terapia psicossocial, como terapia comportamental, aconselhamento individual ou psicoterapia e/ou terapia familiar. Os medicamentos utilizados no tratamento da síndrome de Tourette incluem antipsicóticos e alfa-agonistas. ■ Antipsicóticos Os antipsicóticos de uso convencional, haloperidol e pimozida, foram aprovados pela FDA para o controle dos tiques e vocalizações associados à síndrome de Tourette. Essas substâncias têm sido largamente pesquisadas e têm demonstrado grande eficiência no alívio dos sintomas. Entretanto, muitas vezes não são medicamentos de primeira linha de escolha para a terapia devido à propensão para efeitos colaterais graves, como sintomas extrapiramidais, síndrome neuroléptica maligna, discinesia tardia e alterações eletrocardiográficas. O haloperidol não é recomendado para crianças com menos de 3 anos de idade e a pimozida não deve ser administrada a crianças com menos de 12 anos. Embora atualmente ainda não sejam aprovados pela FDA para o tratamento da síndrome de Tourette, alguns médicos têm preferido a prescrição de antipsicóticos atípicos, como risperidona, olanzapina ou ziprasidona, devido a efeitos colaterais com perfil mais favorável. Em pesquisas clínicas, essas substâncias têm se mostrado eficazes no tratamento dos sintomas da síndrome de Tourette. Esses medicamentos apresentam menor incidência de efeitos colaterais neurológicos do que os antipsicóticos tradicionais, embora tenham sido observados sintomas extrapiramidais com o uso de risperidona. Os efeitos colaterais mais comuns incluem ganho de peso e sedação. A ziprasidona tem sido associada a um aumento no risco de prolongamento do intervalo QTc. Também houve relatos de hiperglicemia em alguns clientes fazendo uso de antipsicóticos atípicos. ■ Alfa-agonistas A clonidina e a guanfacina são agonistas alfa-adrenérgicos aprovados para o uso como agentes anti-hipertensivos. As fórmulas de liberação prolongada foram aprovadas pela FDA para o tratamento de TDAH. Esses medicamentos muitas vezes são a primeira linha de escolha para o tratamento da síndrome de Tourette devido ao perfil favorável dos efeitos colaterais e por serem eficazes contra sintomas de comorbidade de TDAH, ansiedade e insônia (Zinner, 2004). Os efeitos colaterais mais comuns incluem boca seca, sedação, dor de cabeça, fadiga, tontura e hipotensão postural. O efeito da guanfacina é mais duradouro e menos sedativo do que a clonidina. Alfa-agonistas não devem ser prescritos para crianças ou adolescentes com doença vascular ou cardíaca preexistentes. A descontinuação da medicação não deve ser abrupta; essa atitude pode resultar em sintomas de nervosismo, agitação, tremores e rápido aumento da pressão arterial. Transtorno de ansiedade da separação Achados clínicos, epidemiologia e curso do transtorno A característica essencial do transtorno de ansiedade da separação é uma ansiedade excessiva em relação à separação de casa ou daqueles com os quais a pessoa possui forte vínculo afetivo (APA, 2000). O nível de ansiedade supera o esperado para o estágio de desenvolvimento do indivíduo e interfere no funcionamento social, escolar, ocupacional e de outras áreas importantes da vida. A manifestação pode ocorrer a qualquer momento antes dos 18 anos de idade, porém o diagnóstico é mais comum entre os 5 e 6 anos, quando a criança começa a frequentar a escola. A prevalência é estimada em cerca de 4% em crianças e jovens adultos, sendo mais comum em meninas do que em meninos. Na maioria das crianças o transtorno desaparece espontaneamente com o crescimento, mas algumas vezes os sintomas permanecem até a vida adulta (Harvard Medical School, 2007). Fatores predisponentes ■ Influências biológicas Fatores genéticos Algumas pesquisas vêm sendo conduzidas, nas quais são estudados os filhos de clientes adultos diagnosticados com transtorno de ansiedade da separação. Também tem sido utilizado um segundo método, no qual são estudados os pais e outros parentes de crianças diagnosticadas como portadoras do transtorno de ansiedade da separação. Os resultados têm demonstrado que um número maior de crianças com parentes que manifestam problemas de ansiedade também desenvolve o transtorno, quando consideradas em relação a crianças com famílias que não apresentam esse padrão de comportamento. A diferença entre os resultados é grande o suficiente para que se especule sobre a influência de um fator hereditário no desenvolvimento do transtorno de ansiedade da separação, porém o modo como ocorre a transmissão genética ainda não foi determinado. Sadock e Sadock (2007) declaram: O consenso atual sobre a influência dos fatores genéticos nas desordens de ansiedade sugere que o que é herdado é uma predisposição para a ansiedade, resultando em um aumento nos níveis de excitação, reação emocional e afeto negativo, com tudo isso elevando o risco de desenvolvimento do transtorno de ansiedade da separação (e outros distúrbios de ansiedade). (p. 1.278) Temperamento Está bem estabelecido que as crianças diferem ao nascimento ou pouco tempo depois em numerosas características de temperamento. Shamir-Essakow, Ungerer e Rapee (2005) declaram: O tipo de temperamento designado como “inibição comportamental ao desconhecido” é caracterizado pela predisposição a se mostrar irritado como um lactente, extremamente tímido e temeroso como uma criança em seus primeiros passos equieto, cauteloso e introvertido no período pré-escolar e nos primeiros anos na escola, com um comportamento bastante contido e excitação fisiológica em situações pouco familiares. Modelos integrados propõem que fatores ambientais, como o vínculo entre os pais e a criança, podem se justapor ao temperamento para elevar o risco de desenvolvimento de ansiedade na infância. (p. 131) As diferenças individuais de comportamento podem estar relacionadas com a aquisição de temores e distúrbios de ansiedade na infância. Isso pode ser chamado de propensão à ansiedade ou vulnerabilidade e denotar uma “disposição” herdada para o desenvolvimento de distúrbios de ansiedade. ■ Fatores ambientais Eventos estressantes da vida As pesquisas demonstram uma relação entre eventos estressantes da vida e o desenvolvimento de distúrbios de ansiedade (Sadock e Sadock, 2007). Acredita-se que crianças que já são vulneráveis ou predispostas ao desenvolvimento de distúrbios de ansiedade podem ser afetadas de maneira significativa por eventos estressantes que acontecem em suas vidas. Ainda são necessários mais estudos antes que possam ser estabelecidas conclusões. ■ Influência da família Diversas teorias expõem a ideia de que os distúrbios de ansiedade em crianças estão relacionados com um vínculo muito forte com a mãe. Os que teorizam sobre os vínculos atribuem os principais fatores determinantes dos distúrbios de ansiedade a transações que relacionam questões de separação entre a mãe (ou a figura materna) e a criança (Shamir-Essakow et al., 2005). O DSM-IV-TR (APA, 2000) sugere que crianças com transtorno de ansiedade da separação vêm de famílias muito ligadas. Alguns pais podem instilar ansiedade em seus filhos por superprotegê-los de perigos que são previsíveis ou por exagerar os perigos do presente e do futuro (Sadock e Sadock, 2007); outros podem também transferir seus medos e ansiedades para os filhos por meio de seu modelo de comportamento. Por exemplo, um pai/mãe que se mostra atemorizado na presença de um cachorrinho inofensivo e se retrai com medo e apreensão ensina ao seu filho pequeno que esta é uma resposta apropriada à situação. Aplicação do processo de enfermagem no transtorno de ansiedade de separação ■ Avaliação de dados de background (sintomatologia) A manifestação desse distúrbio pode ser muito precoce e surgir antes da idade escolar; muito raramente se manifesta durante a adolescência. Na maioria dos casos a criança tem dificuldade de se separar da mãe. Ocasionalmente a relutância da separação é direcionada ao pai, irmãos ou pessoa significativa com quem a criança demonstra vínculos. A antecipação da separação pode resultar em acessos de raiva, choro, gritos, queixas de dores físicas e comportamento de apego obsessivo (clinging). A relutância ou recusa em ir para a escola é especialmente comum na adolescência. Crianças mais novas podem agir como “sombras” ou andar atrás da pessoa da qual tem medo de se separar. Durante a meia infância ou a adolescência podem se recusar a dormir fora de casa (p. ex., na casa de um amigo ou em um acampamento). As relações interpessoais com os colegas em geral não são um problema para essas crianças. Elas são queridas por seus colegas e possuem habilidades sociais razoáveis. É comum a demonstração de preocupação relacionada com a possibilidade de exposição a perigos contra si mesmo ou a pessoa com quem apresentam fortes vínculos. Crianças mais novas podem até mesmo ter pesadelos sobre esse tipo de situação. Não é incomum o surgimento de fobias específicas (p. ex., medo de escuro, fantasmas, animais). Frequentemente apresentam depressão de humor, que precede a manifestação de sintomas de ansiedade, que normalmente ocorrem na sequência de um fator estressor importante. Os critérios diagnósticos DSM-IV-TR para o transtorno de ansiedade da separação são apresentados no Boxe 23.7. Boxe 23.7 Critérios de diagnóstico para transtorno de ansiedade de separação A. Ansiedade excessiva e inadequada ao estágio de desenvolvimento relacionada com separação de casa ou daqueles com os quais o indivíduo possui vínculo afetivo, como evidenciado por três (ou mais) das características a seguir: 1. Desconforto excessivo e recorrente quando ocorre ou se antecipa a separação da casa ou das principais figuras com vínculo afetivo. 2. Preocupação excessiva e persistente sobre a perda ou a possibilidade de um acidente afetando a principal figura com vínculo afetivo. 3. Preocupação excessiva e persistente de que um evento imprevisto resultará na separação da principal figura com vínculo afetivo (p. ex., perder-se na rua ou ser sequestrado). 4. Relutância persistente ou recusa para ir à escola ou a qualquer outro lugar por medo da separação. 5. Medo ou relutância persistente e excessiva de ficar sozinho ou sem a principal figura com vínculo afetivo em casa, ou de ficar sem a presença de adultos significativos em qualquer outro lugar. 6. Relutância ou recusa persistente de ir para a cama sem estar próximo de uma figura com vínculo afetivo, ou de dormir fora de casa. 7. Pesadelos recorrentes envolvendo o tema da separação. 8. Queixas recorrentes de sintomas físicos (como dor de cabeça, dor de estômago, náuseas ou vômitos) quando ocorre ou é antecipada a separação de uma pessoa com vínculo afetivo. B. O distúrbio dura pelo menos 4 semanas. C. A manifestação acontece antes dos 18 anos de idade. D. O distúrbio causa desconforto ou comprometimento clinicamente significativo no funcionamento social, escolar, ocupacional ou em outras áreas de importância. E. O distúrbio não ocorre exclusivamente durante o curso de um transtorno invasivo de desenvolvimento, esquizofrenia ou outro distúrbio psicótico e, em adolescentes e adultos, não é o principal responsável por síndrome do pânico com agorafobia. Com permissão da American Psychiatric Association. (2000). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (4th ed.) Text revision. Washington, DC: American Psychiatric Publishing. ■ Diagnóstico/identificação dos objetivos Com base nos dados coletados durante o histórico de enfermagem, os possíveis diagnósticos de enfermagem para uma criança com transtorno de ansiedade da separação incluem: ■ ansiedade (grave) relacionada com o histórico familiar, temperamento, apego obsessivo aos pais, modelo parental negativo; ■ enfrentamento ineficaz relacionado com conflitos de separação não resolvidos e capacidade de resolução do estresse inadequada, evidenciada por inúmeras somatizações; ■ interação social prejudicada relacionada com a relutância em se distanciar da figura com vínculo afetivo. Critérios de resultado Os resultados esperados incluem metas a curto e longo prazos. O tempo para o alcance das metas deve ser determinado individualmente. Os critérios a seguir podem ser utilizados para avaliar os resultados dos cuidados de enfermagem a um cliente com transtorno de ansiedade da separação O cliente ■ É capaz de manter a ansiedade em níveis controláveis. ■ Demonstra estratégias de enfrentamento bem adaptadas para lidar com a ansiedade quando a separação da figura com vínculo afetivo é antecipada. ■ Interage de maneira apropriada com os outros e para isso passa um tempo distante da pessoa com vínculo afetivo. ■ Planejamento/implementação A Tabela 23.10 fornece um plano de cuidados para crianças ou adolescentes com transtorno de ansiedade da separação, incluindo diagnósticos de enfermagem mais comuns ao transtorno, critério de resultados e intervenções de enfermagem adequadas, juntamente com suas justificativas. Tabela 23.10 Plano de cuidado para cliente com transtorno de ansiedade de separação Diagnóstico de enfermagem: Ansiedade (grave) Relacionado com: histórico familiar, temperamento, vínculo excessivo com pais, modelo parental negativo Critério de resultados Intervenções de enfermagem Justificativa Metas a curto prazo • O cliente será capaz de discutir seu medo de separação com uma pessoa em quem confia 1. Estabeleça uma atmosfera de tranquilidade, confiança e respeito genuíno 1.Confiança e aceitação incondicional são necessárias para estabelecer uma relação satisfatória entre a enfermeira e o cliente. A tranquilidade do ambiente é importante porque a ansiedade pode ser facilmente transmitida de uma pessoa para outra Meta a longo prazo • O cliente manterá a ansiedade em um nível não mais do que moderado em face de eventos que anteriormente precipitavam o pânico 2. Garanta ao cliente que ele está protegido e seguro 2. Os sintomas de ansiedade e pânico são muito assustadores 3. Explore as questões relacionadas com o medo da criança ou adolescente de se separar de seus pais. Explore com os pais o possível medo que eles têm de se separar da criança 3. Alguns pais podem ter um medo inconsciente de se separar da criança e inadvertidamente transferem esse medo 4. Ajude os pais e a criança a estabelecer metas realísticas (p. ex., que a criança fique com uma babá por duas horas em um nível mínimo de ansiedade; ou que a criança permaneça na casa de um amigo sem os pais até as 21 h sem sentir ansiedade no nível do pânico) 4. Os pais podem ficar tão frustrados com os comportamentos de apego e exigência da criança que pode ser necessária assistência para resolver o problema 5. Ofereça e incentive os pais a oferecer reforço positivo para comportamentos desejados 5. O reforço positivo incentiva a repetição de comportamentos desejáveis Diagnóstico de enfermagem: Enfrentamento ineficaz Relacionado com: conflitos de separação não resolvidos e capacidade de resolução do estresse inadequada Evidenciado por: inúmeras somatizações Critério de resultados Intervenções de enfermagem Justificativa Metas a curto prazo 1. Incentive a criança ou o adolescente a conversar sobre situações específicas de 1. O cliente e a família podem não conhecer a relação entre situações • O cliente verbalizará a relação existente entre os sintomas somáticos e o medo da separação sua vida que produzem a maior quantidade de estresse e que descreva sua resposta a essa situação. Inclua os pais na discussão estressantes e a exacerbação dos sintomas físicos Meta a longo prazo • O cliente demonstrará o uso de estratégias de enfrentamento mais bem adaptadas (do que sintomas físicos) em resposta a situações de estresse 2. Ajude a criança ou o adolescente perfeccionista a reconhecer que as expectativas sobre si mesmo podem não ser realistas. Faça a conexão entre momentos em que as expectativas não foram alcançadas e a exacerbação dos sintomas físicos 2. O reconhecimento de padrões mal adaptados é a primeira etapa do processo de mudança 3. Incentive os pais e a criança a identificar estratégias de enfrentamento mais bem adaptadas que a criança possa utilizar diante de uma ansiedade que lhe parece impossível de suportar. Pratique por meio de dramatização nas dinâmicas de grupo 3. A prática facilita o emprego do comportamento desejado quando o indivíduo se vê realmente diante de uma situação estressante Diagnóstico de enfermagem: Interação social prejudicada Relacionado com: relutância em se separar da figura com vínculo afetivo Critério de resultados Intervenções de enfermagem Justificativa Metas a curto prazo • O cliente passará algum tempo com membros da equipeou outros terapeutas sem a presença da figura com vínculo afetivo e sem demonstrar ansiedade excessiva 1. Desenvolva uma relação de confiança com o cliente 1. Esta é a primeira etapa para ajudar o cliente a aprender como interagir com os outros 2. Frequente os grupos com a criança e dê apoio às tentativas de interação com os outros. Forneça feedback positivo 2. A presença de pessoas confiáveis fornece segurança e períodos de desconforto. O feedback positivo incentiva a repetição 3. Demonstre à criança sua aceitação do fato de que ela não tenha participado do grupo no início. Gradualmente, incentive pequenas contribuições até que o cliente seja capaz de ter uma maior participação 3. Pequenos sucessos irão gradualmente aumentar a autoconfiança e diminuir a timidez de modo que o cliente sentirá menos ansiedade em situações de grupo Meta a longo prazo • O cliente será capaz de passar algum tempo com outras pessoas (sem a presença da figura com vínculo afetivo) e sem demonstrar ansiedade excessiva 4. Ajude o cliente a estabelecer pequenas metas individuais (p. ex., “hoje vou conversar com alguém que não conheço”) 4. Metas simples e realísticas fornecem oportunidades de sucesso que aumentam a autoconfiança e incentivam o cliente a tentar objetivos mais difíceis no futuro ■ Avaliação final A avaliação final ou evolução de uma criança ou adolescente com transtorno de ansiedade da separação requer a reavaliação dos comportamentos para os quais a família procurou o tratamento. Tanto o cliente como seus familiares terão que mudar de comportamento. As perguntas a seguir podem ajudar a reunir os dados necessários para verificar se as intervenções de enfermagem foram bem-sucedidas para alcançar as metas da terapia: ■ O cliente é capaz de manter a ansiedade em um nível controlável (i. e., sem explosões de temperamento, gritos ou apego obsessivo? ■ As queixas sobre problemas físicos diminuíram? ■ O cliente demonstrou capacidade de lidar de maneira mais bem adaptada diante da escalada da ansiedade? ■ Os pais conseguiram identificar seu papel no conflito de separação? São capazes de discutir estratégias de enfrentamento mais bem adaptadas? ■ O cliente verbaliza a intenção de retornar à escola? ■ Os pesadelos e o medo do escuro desapareceram? ■ O cliente é capaz de interagir com outras pessoas distante da figura com a qual tem fortes vínculos? ■ O fator estressor precipitante foi identificado? Foram estabelecidas estratégias de enfrentamento mais bem adaptadas para lidar com estressores similares no futuro? Educação de qualidade e segurança para enfermeiras (EQSE) O Institute of Medicine (IOM), em seu relatório do ano de 2003 denominado Health Professions Education: A Bridge to Quality, propôs um desafio para que as faculdades de medicina, enfermagem e outras profissões na área a saúde garantissem que seus formandos alcançassem um conjunto de competências principais para preencher as necessidades do sistema de cuidados de saúde do século XXI. Entre as competências estão incluídos a promoção de cuidados centrados no paciente, o trabalho em equipes multiprofissionais, o emprego de uma prática baseada em evidências, a aplicação de melhoria da qualidade e a utilização dos recursos de informática. Uma estratégia de ensino EQSE é apresentada no Boxe 23.8. O emprego desse tipo de atividade tem a intenção de municiar o professor e o estudante com as diretrizes para alcançar o conhecimento, as habilidades e atitudes necessárias para a conquista de competências de qualidade e segurança em enfermagem. Abordagens terapêuticas genéricas Terapia comportamental A terapia comportamental se baseia nos conceitos clássicos de condicionamento e condicionamento operante (Capítulo 19). A terapia comportamental é um tratamento comum e eficiente para transtornos de comportamento disruptivo. Nesse tipo de abordagem, são dadas recompensas para comportamentos apropriados e negadas quando o comportamento apresentado é disruptivo ou inadequado por qualquer motivo. O princípio por trás da terapia comportamental é de que o reforço positivo incentiva a repetição de comportamentos desejáveis e que reforço aversivo (punições) desencoraja a repetição de comportamentos indesejáveis. As técnicas de modificação de comportamento – o sistema de recompensas e consequências – podem ser ensinadas aos pais para que sejam empregadas no ambiente doméstico. A consistência é um componente essencial. Boxe 23.8 Estratégia de ensino EQSE Missão: cuidado centrado no paciente: minietnografia de Kleinman Entrevistando famílias com filhos portadores de distúrbios psiquiátricos Área de competência: cuidado centrado no paciente Objetivos do aprendizado: o estudante irá: • demonstrar habilidades para ouvir os relatos do cliente e seus familiares que convivem com o distúrbio • identificare do período inicial de manifestação fornece informações em relação ao que se pode esperar em termos de comportamento e potencial. Entretanto cada criança é única e devem ser consideradas suas características individuais caso a caso. Aplicação do processo de enfermagem para o cliente com retardo mental ■ Avaliação de dados de background (sintomatologia) O grau de gravidade do retardo mental é identificado por intermédio da pontuação do cliente no teste de QI. Foram descritos quatro níveis: leve, moderado, grave e profundo. As diversas manifestações comportamentais e capacidades associadas a cada um dos níveis de retardamento são apresentadas na Tabela 23.1. Tabela 23.1 Características de desenvolvimento do retardo mental de acordo com o grau de gravidade Nível (QI) Capacidade de realização de atividades de autocuidado Capacidade cognitiva/intelectual Capacidade social/de comunicação Capacidade psicomotora Leve (50 a 70) Capaz de ter vida independente, com assistência durante períodos de estresse Capaz de se desenvolver academicamente até o nível do ensino fundamental. Como adulto pode desenvolver capacidades vocacionais para autossustento mínimo Capaz de desenvolver habilidades sociais. Bom funcionamento em ambiente bem estruturado e protegido Em geral, as capacidades psicomotoras não são afetadas, embora possam existir pequenos problemas de coordenação Moderado (35 a 49) Capaz de realizar algumas atividades de maneira independente. Requer supervisão Capaz de se desenvolver academicamente até o nível do segundo ano do ensino Pode apresentar alguma limitação na comunicação verbal. A dificuldade de adesão às Desenvolvimento motor moderado. As capacidades vocacionais podem ficar limitadas a fundamental. Como adulto pode ser capaz de contribuir para o próprio sustento em atividades adaptadas para deficientes convenções sociais pode interferir na relação com seus colegas atividades não qualificadas que exijam habilidades motoras grossas Grave (20 a 34) Precisa de treinamento nas habilidades elementares de cuidados de higiene. Requer supervisão total Incapaz de usufruir de treinamento acadêmico ou vocacional. Consegue ser beneficiado por hábitos de treinamento sistemático Capacidade mínima de comunicação verbal. Desejos e necessidades frequentemente comunicados por meio de comportamento gestual Baixo desenvolvimento psicomotor. Só é capaz de realizar tarefas simples sob supervisão constante Profundo (abaixo de 20) Incapaz de funcionamento independente. Requer ajuda e supervisão constantes Incapaz de usufruir de treinamento acadêmico ou vocacional. Pode responder minimamente a um treinamento de autoajuda se apresentado em um contexto de proximidade em uma relação pessoa a pessoa Se houver, pouco desenvolvimento da fala. Incapaz de desenvolver capacidades de socialização Falta de capacidade tanto para atividades motoras finas quanto grossas. Requer supervisão e cuidados constantes. Pode estar associado a outras desordens físicas Adaptado da American Psychiatric Association (2000); Black e Andreasen (2011); Sadock e Sadock (2007). As enfermeiras devem verificar e focalizar os pontos fortes e capacidades individuais de cada cliente. O conhecimento em relação ao nível de independência na realização de atividades de autocuidado é essencial para o desenvolvimento de um plano adequado de fornecimento dos cuidados de enfermagem. ■ Diagnóstico/identificação dos objetivos A seleção de um diagnóstico de enfermagem apropriado para o cliente com retardo mental depende em grande parte do grau de gravidade da condição e das capacidades do cliente. Os diagnósticos de enfermagem incluem: ■ risco de lesão relacionado com a mobilidade física alterada ou comportamento agressivo; ■ déficit de autocuidado relacionado com a mobilidade física alterada ou falta de maturidade; ■ comunicação verbal prejudicada relacionada com as alterações de desenvolvimento; ■ interação social prejudicada relacionada com a deficiência na fala ou dificuldade de adesão aos comportamentos sociais convencionais; ■ crescimento e desenvolvimentoalterados relacionados com o isolamento de pessoas significativas; estimulação ambiental inadequada; fatores hereditários; ■ ansiedade (moderada a grave) relacionada com a hospitalização e ausência de um ambiente familiar; ■ enfrentamento defensivo relacionado com a sensação de importência e de ameaça à autoestima; ■ enfrentamento ineficaz relacionado com a maneira inadequada de lidar com situações, secundária ao atraso no desenvolvimento. Critério de resultados O resultado esperado inclui metas de curto e longo prazos. O período para o alcance das metas deve ser determinado individualmente. Os critérios a seguir podem ser utilizados para avaliar os resultados dos cuidados de enfermagem a um cliente com retardo mental. O cliente ■ Não sofreu dano físico. ■ Teve suas necessidades de autocuidado preenchidas. ■ Interage com os outros de maneira socialmente apropriada. ■ Tem mantido sua ansiedade em níveis controláveis. ■ É capaz de aceitar orientação sem se mostrar na defensiva. ■ Demonstra capacidade de enfrentamento adaptativo em resposta a situações estressantes. ■ Planejamento/implementação A Tabela 23.2 fornece um plano de cuidados para crianças com retardo mental utilizando diagnósticos selecionados de enfermagem, critérios de resultados, intervenções de enfermagem adequadas e suas justificativas. Embora este plano de cuidado seja direcionado ao cliente, é essencial que os familiares ou principais cuidadores participem dos cuidados progressivos de um cliente com retardo mental. Eles devem receber informação relacionada com a abrangência da condição, expectativas realísticas em relação ao potencial do cliente, métodos para modificação de um comportamento e recursos comunitários onde possam buscar assistência e suporte. Tabela 23.2 Plano de cuidados para crianças com retardo mental Diagnóstico de enfermagem: Risco de lesão Relacionado com: mobilidade física alterada ou comportamento agressivo Critérios de resultados Intervenções de enfermagem Justificativa Meta a curto e longo prazos • O cliente não sofrerá lesões 1. Crie um ambiente seguro para o cliente 2. Certifique-se de que sejam removidos todos os objetos pequenos da área de deambulação do cliente e de que objetos cortantes sejam mantidos fora de seu alcance 3. Mantenha os itens que o cliente utiliza com frequência, armazenados em local de fácil acesso 4. Mantenha acolchoada a cabeceira da cama e as grades laterais em caso de cliente com histórico de convulsões 5. Previna agressão física e comportamentos inadequados aprendendo a reconhecer os sinais de que o cliente começa a se mostrar agitado 1 a 5. A segurança do cliente deve ser uma prioridade de enfermagem Diagnóstico de enfermagem: Déficit de autocuidado Relacionado com: mobilidade física alterada ou falta de maturidade motora Critérios de resultados Intervenções de enfermagem Justificativa Meta a curto prazo • O cliente será capaz de participar em etapas relacionadas com atividades de autocuidado Meta a longo prazo • O cliente preencherá todas as necessidades relacionadas com o autocuidado 1. Identifique etapas relacionadas com o autocuidado que possam fazer parte das capacidades do cliente. Trabalhe uma etapa de cada vez. Forneça explicações simples e concretas. Ofereça feedback positivo em cada tentativa 2. Quando uma etapa relacionada com o autocuidado foi dominada da melhor forma, dentro das capacidades do cliente, passe para outra. Encoraje a independência, mas intervenha quando o cliente não for capaz de realizar uma tarefa 1. Reforço positivo eleva a autoestima e incentiva a repetição de comportamentos desejáveis 2. O conforto e a segurança do cliente devem ser prioridade de enfermagem Diagnóstico de enfermagem: Comunicação verbal prejudicada Relacionado com: alterações de desenvolvimento Critérios de resultados Intervenções de enfermagem Justificativa Meta a curto prazo • O cliente será capaz de estabelecer uma relaçãosuas próprias maneiras de explicar o distúrbio • demonstrar atitudes que refletem o desejo de cultivar humildade e competência cultural na prática da enfermagem Estratégia geral 1. Ler o artigo “Anthropology in the Clinic: The Problem of Cultural Competency and How to Fix it”, de A. Kleinman and P. Benson. O artigo está disponível no endereço de internet: http://www.plosmedicine.org/article/info:doi/10.1371/journal.pmed.0030294 2. Com base na “minietnografia” descrita por Kleinman e Benson, entrevistar um familiar ou a criança com o transtorno psiquiátrico e obter uma narrativa sobre a experiência de conviver com o distúrbio. 3. Fazer anotações sobre a entrevista e produzir um documento que represente a narrativa do ponto de vista do entrevistado e outro documento que descreva o modelo de explanação do próprio estudante. Adaptado de teaching strategy submitted by Lisa Day, Assistant Professor, Duke University School of Nursing. © 2009. No cenário terapêutico, os programas para modificação de comportamento são projetados individualmente para cada cliente. Um exemplo de estudo de caso, com base em uma economia de fichas, é apresentado no Capítulo 19. Terapia familiar As crianças não podem ser tratadas separadas de suas famílias. A terapia para crianças e adolescentes deve envolver a família como um todo para que os problemas possam ser resolvidos. Os pais devem ser envolvidos no projeto e na execução do plano de tratamento para a criança em todos os aspectos relacionados com o processo terapêutico. O genograma pode ser utilizado para identificar áreas problemáticas entre os membros de uma família (Capítulo 11). Ele fornece uma visão geral da vida familiar por várias gerações, incluindo os papéis desempenhados pelos diferentes membros da família e a distância emocional entre indivíduos específicos. As áreas que precisam ser alteradas são facilmente identificadas. O impacto das dinâmicas familiares sobre transtornos de comportamento disruptivo já foi determinado. O impacto do comportamento disruptivo sobre as dinâmicas familiares não pode ser ignorado. A maneira com que a família lida com os problemas pode ser profundamente comprometida pelo estresse crônico de ter que enfrentar uma criança com distúrbio de comportamento. Portanto é fundamental que o plano de tratamento para o cliente identificado seja instituído dentro de um contexto de cuidados centrados na família. Terapia de grupo A terapia de grupo oferece à criança e ao adolescente a oportunidade de interagir em associação com os seus pares. Isso pode tanto ser gratificante quanto avassalador, dependendo da criança. A terapia de grupo oferece uma série de benefícios. O comportamento social adequado é frequentemente aprendido mediante feedback positivo ou negativo dos colegas. É oferecida a oportunidade de aprender a tolerar e aceitar as diferenças entre as pessoas, aprender que é aceitável discordar, aprender a dar e receber apoio e a praticar essas novas habilidades em um ambiente protegido. É uma maneira de aprender com a experiência dos outros. A terapia de grupo com crianças e adolescentes pode ser desenvolvida de várias formas. Grupos de terapia musical permitem que o cliente expresse seus sentimentos por meio da música, quando muitas vezes eles não são capazes de expressá- los de outra maneira. Grupos de terapia que trabalham com arte ou artesanato permitem a expressão individual por intermédio de meios artísticos. A terapia lúdica em grupo é o tratamento de escolha para muitas crianças com idade entre 3 e 9 anos. Landreth e Bratton (2007) declaram: A terapia lúdica para crianças funciona como a psicoterapia para os adultos. As brincadeiras oferecem à criança os meios para que possa expressar seu mundo interno. O uso de brinquedos permite que as crianças façam a transferência de suas ansiedades, temores, fantasias e culpa a objetos e não a pessoas. Nesse processo, as crianças ficam protegidas de seus próprios sentimentos e reações porque a brincadeira permite que elas se distanciem de eventos e experiências traumáticas. Para a criança, a terapia lúdica altera o que é impossível de ser controlado no mundo real em situações controláveis por intermédio da representação simbólica. Isso lhe oferece oportunidades de aprender a lidar com as situações. Grupos psicoeducacionais oferecem muitos benefícios aos adolescentes. A única desvantagem nesse tipo de abordagem é que funciona melhor quando se trabalha com um grupo fechado, ou seja, depois que o grupo é formado não é permitido o ingresso de mais ninguém até que o grupo tenha alcançado o desfecho preestabelecido. É permitido aos membros propor tópicos de discussão. O líder funciona com um professor na maior parte do tempo e como facilitador na discussão dos temas propostos. Eventualmente os membros tornam-se apresentadores e funcionam como líderes nas discussões. Algumas vezes, grupos psicoeducacionais evoluem para grupos de discussão terapêutica tradicional. Psicofarmacologia Muitos dos transtornos apresentados neste capítulo são tratados com medicamentos. A farmacologia apropriada foi apresentada na sequência da seção na qual o distúrbio foi discutido. A medicação nunca deve ser o único método de tratamento. É inegável que os medicamentos podem e melhoram de fato a qualidade de vida de famílias com crianças e adolescentes portadores desses transtornos. Entretanto os estudos indicam que a medicação sozinha não é tão eficiente quanto a combinação com terapia psicossocial. É importante fazer que as famílias compreendam que não existe um meio de dar “um remédio ficar bem”. Deve ser enfatizada a importância das terapias psicossociais. Alguns médicos não prescrevem medicamentos para um cliente a menos que ele frequente simultaneamente sessões de psicoterapia. Os efeitos benéficos dos medicamentos promovem o aprimoramento na capacidade de lidar com as situações, o que, por sua vez, aprimora o tratamento intencionado pela terapia psicossocial. Resumo e pontos fundamentais ■ Retardo mental é definido por déficits gerais no funcionamento intelectual e adaptativo. ■ Quatro níveis de retardo mental – leve, moderado, grave e profundo – estão associados às diversas manifestações comportamentais e capacidades. ■ O transtorno autístico é caracterizado por um retraimento da criança para dentro de si mesma e para o mundo de fantasia criado por ela. ■ É de aceitação geral o conceito de que o transtorno autístico é causado por anormalidades em estruturas ou funções cerebrais. Acredita-se que também haja participação de fatores genéticos. ■ Crianças com TDAH exibem sintomas de desatenção ou hiperatividade e impulsividade ou uma combinação dos dois. ■ Fatores genéticos têm um papel importante na etiologia do TDAH. Os neurotransmissores que têm sido implicados incluem dopamina, norepinefrina e serotonina. Estudos têm associado mães que fumam durante a gravidez e comportamento hiperativo de sua prole. ■ Os estimulantes do SNC, alfa-agonistas, atomoxatina e bupropiona são usados comumente no tratamento de TDAH. ■ No transtorno de conduta existe um padrão repetitivo e persistente de comportamento no qual os direitos básicos das outras pessoas ou as principais normas sociais condizentes com a faixa etária do indivíduo são violadas. ■ O transtorno desafiador de oposição é caracterizado por um padrão de comportamento negativista, desafiador, desobediente e hostil direcionado contra figuras de autoridade, que ocorre com mais frequência do que geralmente se observa em indivíduos da mesma faixa etária e estágio de desenvolvimento. ■ A característica essencial da síndrome de Tourette é a presença de diversos tiques motores e um ou mais tiques vocais. ■ Os medicamentos mais comumente utilizados no tratamento da síndrome de Tourette incluem haloperidol, pimozida, clonidina, guanfacina e antipsicóticos atípicos, como risperidona, olanzapina ou ziprasidona. ■ A característica fundamental do transtorno de ansiedade da separação é uma ansiedade excessiva em relação à possibilidade de estar longede casa ou das pessoas com as quais existe forte vínculo afetivo. ■ Crianças com transtorno de ansiedade da separação podem possuir, ao nascimento, características de temperamento que as predispõem ao transtorno. ■ As abordagens terapêuticas genéricas para crianças e adolescentes com distúrbios psiquiátricos incluem terapias comportamental, familiar, de grupo (inclusive atividades de música, arte, artesanato, jogos e psicoeducação) e psicofarmacologia. Questões de revisão Exercícios de autoavaliação/verificação do aprendizado Escolha a resposta mais adequada para cada uma das questões a seguir: 1. Na tentativa de ajudar a criança com retardo mental entre leve e moderado a desenvolver relacionamentos satisfatórios com outras pessoas, qual das seguintes intervenções de enfermagem é a mais apropriada? a. Interpretar o comportamento da criança para os outros. b. Estabelecer limites sobre o comportamento que é socialmente inadequado. c. Permitir que a criança se comporte espontaneamente, porque ela não compreende o conceito de certo e errado. d. Essa criança não é capaz de estabelecer relações sociais. 2. A criança com transtorno autístico tem dificuldade em confiar. Com isso em mente, qual das ações de enfermagem seria a mais apropriada? a. Incentivar os membros da equipe a segurar a criança o máximo possível, demonstrando confiança por meio do toque. b. Designar um membro diferente da equipe a cada dia para que a criança aprenda que pode confiar em todo mundo. c. Designar a mesma pessoa da equipe sempre que possível para promover sentimentos de segurança e confiança. d. Evitar contato visual, pois é extremamente desconfortável para a criança e pode até desencorajar a confiança. 3. Qual dos seguintes diagnósticos de enfermagem seria considerado prioritário no plano de cuidados para uma criança com desordem do espectro autista? a. Risco de automutilação evidenciado por bater a cabeça contra a parede. b. Interação social prejudicada evidenciada por não responder às pessoas. c. Comunicação verbal prejudicada evidenciada pela ausência de expressão verbal. d. Distúrbio da identidade pessoal evidenciado pela incapacidade de diferenciação entre si mesmo e os outros. 4. Qual das seguintes atividades seria mais apropriada para uma criança com TDAH? a. Monopólio (jogo de tabuleiro). b. Voleibol. c. Natação. d. Jogo de damas. 5. Qual dos seguintes grupos de substâncias é mais comumente utilizado no tratamento de uma criança com TDAH? a. Depressores do SNC (p. ex., diazepam). b. Estimulantes do SNC (p. ex., metilfenidato). c. Anticonvulsivantes (p. ex., fenitoína). d. Tranquilizantes (p. ex., haloperidol). 6. A criança com TDAH tem um diagnóstico de enfermagem de interação social prejudicada. Quais das intervenções de enfermagem a seguir são adequadas para essa criança? Assinale todas as corretas. a. Isolar socialmente a criança quando as interações com os outros são inadequadas. b. Estabelecer limites e consequências para comportamentos inadequados. c. Oferecer recompensa para comportamentos adequados. d. Oferecer atividades em grupo para a criança. 7. A entrevista e o exame de enfermagem de um adolescente com transtorno de conduta revelarão todos os comportamentos a seguir, exceto: a. Manipulação dos outros para satisfazer os próprios desejos. b. Violação crônica de regras. c. Sentimentos de culpa associados a exploração de outros. d. Incapacidade de estabelecer relações próximas com seus pares. 8. Algumas dinâmicas familiares muitas vezes predispõem os adolescentes a desenvolver transtorno de conduta. Qual dos padrões a seguir pode ser considerado um fator contribuinte? a. Pais superprotetores. b. Pais com grandes expectativas para os filhos. c. Pais que estabelecem limites consistentes sobre o comportamento dos filhos. d. Pais alcoólatras. 9. Qual dos fatores a seguir é o menos provável a predispor uma criança à síndrome de Tourette? a. Ausência de ligação com os pais. b. Histórico familiar da síndrome. c. Anormalidade nos neurotransmissores cerebrais. d. Anormalidades estruturais no cérebro. 10. Qual dos seguintes medicamentos é utilizado no tratamento da síndrome de Tourette? a. Metilfenidato. b. Haloperidol. c. Imipramina. d. Fenitoína. Teste suas habilidades de raciocínio crítico Jimmy tem 9 anos de idade e foi admitido na unidade de psiquiatria pediátrica com diagnóstico de transtorno do déficit de atenção e hiperatividade. Ele tem sido uma criança incontrolável tanto na escola quanto em casa e recentemente foi suspenso por atrapalhar continuamente as aulas. Ele se recusa a ficar sentado na carteira ou fazer sua lição. Ele grita na classe, interrompe o professor e outros alunos e ultimamente tem se tornado fisicamente agressivo quando não consegue o que quer. Ele foi suspenso depois de bater na professora quando ela pediu que ele retornasse a sua carteira. A mãe de Jimmy o descreve como um bebê agitado e exigente que cresceu tornando-se uma criança inquieta e demandante. Ele nunca se entendeu bem com os colegas. Mesmo quando bebê ele tomava o brinquedo dos amigos e mordia as crianças que tentavam pegar seus brinquedos. Sua irmã de 5 anos de idade tem medo dele e se recusa a ficar sozinha com ele. Durante a entrevista inicial de enfermagem Jimmy ficou andando pela sala ou se balançando na cadeira. Ele falava sem parar em um nível superficial e pulava de um assunto para o outro. Ele disse à enfermeira que não sabia por que estava lá. Ele reconheceu que havia tido alguns problemas na escola, mas disse que isso aconteceu apenas porque as outras crianças implicavam com ele o professor não gostava dele. Ele disse que às vezes se metia em encrenca em casa, mas que isso era porque seus pais gostavam mais da sua irmãzinha do que dele. O médico prescreveu 5 mg de metilfenidato 2 vezes/dia para Jimmy. A resposta dele à prescrição foi: “Eu não vou tomar remédio. Eu não estou doente!” Responda às questões a seguir relacionadas com Jimmy: 1. Quais os dados do histórico de enfermagem que são pertinentes e que devem ser anotados pela enfermeira? 2. Qual é o diagnóstico de enfermagem primário para o caso de Jimmy? 3. Além da segurança, a que outros problemas a enfermeira direcionaria as intervenções com Jimmy? Bibliografia American Psychiatric Association. (2000). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (4th ed.) Text revision. Washington, DC: American Psychiatric Publishing. Autism Genome Project Consortium. (2007). Mapping autism risk loci using genetic linkage and chromosomal rearrangements. Nature Genetics, 39, 319-328. Bagley, C., & Mallick, K. (2000). Spiraling up and spiraling down: Implications of a long-term study of temperament and conduct disorder for social work with children. Child & Family Social Work, 5(4), 291-301. Ben-Amor, L., Grizenko, N., Schwartz, G., Lageix, P., Baron, C., TerStepanian, M., et al. (2005). Perinatal complications in children with attention-deficit hyperactivity disorder and their unaffected siblings. Journal of Psychiatry & Neuroscience, 30, 120-126. Bhat, M., Grizenko, N., Ben-Amor, L., & Joober, R. (2005). 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Referências na internet • Informações adicionais sobre transtorno do déficit de atenção e hiperatividade podem ser encontradas nos seguintes endereços na internet: • http://www.chadd.org • http://www.nimh.nih.gov/health/topics/attention-deficit-hyperactivity-disorder-adhd/index.shtml • Informações adicionais sobre transtorno autístico podem ser encontradas nos seguintes endereços de internet: • http://www.autism-society.org • http://www.nimh.nih.gov/health/topics/autism-spectrum-disorders-pervasive-developmental-disorders/index.shtml • Informações adicionais sobre síndrome de Tourette podem ser encontradas nos seguintes endereços na internet: • http://www.ninds.nih.gov/disorders/tourette/detail_tourette.htm • http://www.tsa-usa.org/ • Informações adicionais sobre medicação para o tratamentode TDAH e síndrome de Tourette podem ser encontradas nos seguintes endereços na internet: • http://www.fadavis.com/townsend • http://www.drugs.com/ • http://www.nimh.nih.gov/publicat/medicate.cfm Nota: sugerimos também os seguintes sites brasileiros: Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA) em http://www.tdah.org.br/ Associação Brasileira de Autismo (ABRA) em http://www.autismo.org.br/ Associação Brasileira da Síndrome de Tourette em http://www.astoc.org.br/ Informações sobre medicamentos: Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) em http://portal.anvisa.gov.br/wps/content/Anvisa+Portal/Anvisa/Inicio/Medicamentos Conexões Bill (retardo mental) • Bill, on His Own (retardo mental) • Na Corda Bamba (Sling Blade) (retardo mental) • Forrest Gump (retardo mental) • Rain Man (transtorno autístico) • Código para o Inferno (Mercury Rising) (transtorno autístico) • Niágara, Niágara (Niagara, Niagara) (síndrome de Tourette) • Tough love (transtorno de conduta) Capítulo 24 Delírio, Demência e Transtornos Amnésicos Conceitos fundamentais Amnésia Delírio Demência ■ Tópicos do capítulo Objetivos Exercícios Delírio Demência Transtornos amnésicos Aplicação do processo de enfermagem Modalidades de tratamento clínico Resumo e pontos fundamentais Questões de revisão ■ Termos-chave Afasia Apraxia Ataxia Confabulação Demência primária Pseudodemência Demência secundária Confusão noturna (sundowning) ■ Objetivos Ao término da leitura deste capítulo, o leitor será capaz de: 1. Definir e diferenciar entre delírio, demência e transtorno amnésico. 2. Discutir fatores predisponentes implicados na etiologia do delírio, da demência e do transtorno amnésico. 3. Descrever os sintomas clínicos e usar as informações para avaliar os clientes com delírio, demência e transtornos amnésicos. 4. Identificar diagnósticos de enfermagem comuns aos clientes com delírio, demência e transtornos amnésicos e selecionar intervenções de enfermagem adequadas para cada um. 5. Identificar tópicos para ensino ao cliente e à família relevantes para os distúrbios cognitivos. 6. Discutir critérios para avaliar os cuidados de enfermagem de clientes com delírio, demência e transtornos amnésicos. 7. Descrever várias modalidades de tratamento relevantes para o cuidado de clientes com delírio, demências e transtornos amnésicos. ■ Exercícios Leia capítulo e responda às seguintes perguntas: 1. Cite uma alteração na qual o neurotransmissor está mais estreitamente associado à etiologia da doença dede confiança com o cuidador e meios para comunicação de suas necessidades 1. Mantenha consistência na designação de membro da equipe ao longo do tempo 2. Antecipe e preencha as necessidades do cliente até que sejam estabelecidos padrões de comunicação satisfatórios. Aprenda (com os familiares, se possível) palavras 1. A consistência na designação do mesmo membro da equipe para o cuidado facilita a confiança e a capacidade de compreensão das ações e comunicações do cliente 2. Algumas crianças com retardo mental, especialmente em um grau grave, Metas a longo prazo • As necessidades do cliente estão sendo preenchidas pelos meios de comunicação estabelecidos • Se o cliente não é capaz de falar ou de se comunicar por outros meios, suas necessidades devem ser antecipadas pelo cuidador especiais empregadas pelo cliente e diferentes daquelas normalmente utilizadas. Na ausência de comunicação verbal, identifique gestuais ou sinais de comunicação não verbal que o cliente utiliza para manifestar suas necessidades. Pratique constantemente estas habilidades de comunicação conseguem aprender somente por meio de treinamento sistemático habitual Diagnóstico de enfermagem: Interação social prejudicada Relacionado com: deficiência da fala ou dificuldade de adesão ao comportamento social convencional Critérios de resultados Intervenções de enfermagem Justificativa Meta a curto prazo • O cliente será capaz de interagir com outros empregando comportamentos socialmente aceitáveis e apropriados ao estágio de desenvolvimento Meta a longo prazo • O cliente será capaz de interagir com outros empregando comportamentos socialmente aceitáveis e apropriados ao estágio de desenvolvimento 1. Permaneça ao lado do cliente durante as interações iniciais com outros dentro da unidade 2. Explique a outros clientes da unidade o significado de gestos e sinais de comunicação não verbais utilizados pelo cliente. Use uma linguagem simples para explicar ao cliente que tipo de comportamento é aceitável e aqueles que não serão aceitos. Estabeleça um procedimento para modificação de um comportamento com recompensa para aqueles apropriados e reforço aversivo para os inadequados 1. A presença de um indivíduo em quem o cliente confia fornece sensação de segurança 2. Reforços positivo, negativo e aversivo podem contribuir para as alterações de comportamento desejadas. Privilégios e penalidades devem ser determinados caso a caso à medida que a equipe aprende o que o cliente gosta e o que não gosta ■ Avaliação final A avaliação final ou evolução dos cuidados fornecidos ao cliente com retardo mental deve refletir alterações positivas de comportamento. A evolução é realizada verificando-se se foram preenchidas as metas de cuidado por intermédio da execução das intervenções de enfermagem selecionadas. A enfermeira deve reavaliar o plano de cuidados e fazer as alterações necessárias. Os dados da evolução devem incluir informações conseguidas pelas respostas às perguntas a seguir: ■ As intervenções de enfermagem fornecidas para segurança do cliente foram suficientes para prevenir lesões? ■ Todas as necessidades de autocuidado do cliente foram preenchidas? O cliente pode desempenhar alguma destas atividades de maneira independente? ■ O cliente tem sido capaz de comunicar suas necessidades e desejos de maneira compreensível? ■ O cliente aprendeu a interagir com os outros de maneira adequada? ■ Quando surge um comportamento regressivo, o cliente consegue aceitar feedback construtivo e descontinuar o comportamento inapropriado? ■ A ansiedade tem sido mantida em um nível controlável? ■ O cliente aprendeu novas estratégias de enfrentamento por meio de alterações no comportamento? O cliente demonstra aumento da autoestima pela conquista de novas habilidades e de um comportamento adaptativo? ■ Os principais cuidadores foram informados sobre as expectativas realísticas em relação ao comportamento do cliente e aos métodos para tentar modificar comportamentos inaceitáveis? ■ Os principais cuidadores foram informados sobre as diversas fontes onde podem buscar assistência e suporte na comunidade? Conceito fundamental Transtorno do espectro autístico É um grupo de distúrbios caracterizados pelo comprometimento de diversas áreas do desenvolvimento, incluindo habilidades de interação social e de comunicação interpessoal. Estão incluídos nesta categoria o autismo, a síndrome de Rett, o transtorno desintegrativo da infância, a desordem pervasiva do desenvolvimento sem especificação e a síndrome de Asperger (APA, 2000). Transtorno autista Achados clínicos O autismo ou transtorno autista é caracterizado por um retraimento da criança para dentro de si mesma e para o mundo de fantasia criado por ela. A criança apresenta desenvolvimento marcadamente anormal ou comprometido na interação e na comunicação, e um repertório bastante restrito de atividades e interesses (APA, 2000). As atividades e interesses podem, de certo modo, ser considerados bizarros. Epidemiologia e curso do transtorno Uma pesquisa realizada pela Autism and Developmental Disabilities Monitoring (ADDM) Network e patrocinada pelos Centers for Disease Control and Prevention (CDC) determinou que a prevalência de transtornos do espectro autístico (TEA) nos EUA é de cerca de 9 por 1.000 (CDC, 2009). A incidência de autismo é quatro vezes maior entre meninos do que entre meninas. A manifestação ocorre antes dos 3 anos de idade e na maioria dos casos o curso da doença é crônico, com os sintomas persistindo até a vida adulta. Fatores predisponentes ■ Implicações neurológicas É de aceitação geral o conceito de que o autismo é causado por anormalidades em estruturas ou funções cerebrais (National Institute of Mental Health [NIMH], 2008). Estudos por imagem demonstram a implicação de diversas estruturas cerebrais associadas ao transtorno. Isso inclui cerebelo, córtex cerebral, sistema límbico, corpo caloso, gânglio basal e tronco cerebral (Black e Andreasen, 2011; NIMH, 2008). Atualmente está sendo investigado o papel dos neurotransmissores, como serotonina, dopamina e epinefrina. ■ Implicações fisiológicas Ursano, Kartheiser e Barnhill (2008) identificaram diversas condições clínicas que podem estar envolvidas na predisposição ao transtorno autista. Isso inclui esclerose tuberosa, síndrome do X frágil, rubéola materna, hipotireoidismo congênito, fenilcetonúria, síndrome de Down, neurofibromatose e síndrome de Angelman. Usarno et al. (2008) declaram: “Na maioria dos casos (provavelmente mais que 90%) não existe uma causa prontamente identificável para o autismo” (p. 879). ■ Fatores genéticos As pesquisas revelam forte evidência de que fatores genéticos desempenham um papel significativo na etiologia do autismo (Ursano et al., 2008). Estudos demonstram que pais que têm uma criança autista estão sob maior risco de ter mais de um filho com o mesmo problema. Outras pesquisas com gêmeos monozigóticos e dizigóticos também fornecem evidência de envolvimento genético. Estudos sobre como os fatores genéticos influenciam o desenvolvimento de transtornos autísticos são permanentes. Vários estudos relacionados implicam áreas de diversos cromossomos ao desenvolvimento desse distúrbio, principalmente nos cromossomos 2, 7, 15, 16 e 17 (Brkanac, Raskind e King, 2008; NIMH, 2010; Ursano et al., 2008). Os resultados de uma pesquisa feita pelo Autism Genome Project Consortium patrocinada pelo National Institutes of Health dos EUA implicam uma região no cromossomo 11 e mutações em um gene do desenvolvimento cerebral chamado neurexina 1 (Autism Genome Project Consortium, 2007). Os pesquisadores enfatizam que esses achados sugerem fortemente a necessidade de mais estudos nessa área. ■ Influência perinatal Em um estudo feito por pesquisadores do Kaiser Permanente em Oakland, na Califórnia, EUA, descobriu-se que mulheres que sofrem de asma e/ou alergias durante o período de gravidez apresentam maior risco de ter uma criança afetada por um transtorno do espectro autístico (Croen, Grether, Yoskida, Odoulie Van Dewater, 2005). Mulheres com asma e alergia ocorridas durante o segundo trimestre de gravidez apresentam risco duas vezes maior de ter uma criança afetada pelo autismo. Os pesquisadores acreditam que isso se deve à resposta imunológica materna durante a gravidez, ou porque a asma e a alergia podem compartilhar fatores de risco ambientais com o transtorno do espectro autístico. Aplicação do processo de enfermagem no autismo ■ Avaliação de dados de background (sintomatologia) A sintomatologia aqui descrita é comum entre crianças com autismo. Essa informação, juntamente com o conhecimento sobre fatores predisponentes associados ao transtorno, é importante na criação de um plano de cuidados acurado para o cliente. Comprometimento na interação social Crianças com autismo não desenvolvem relacionamento interpessoal. Elas não respondem ou não demonstram interesse nas pessoas. Enquanto lactentes, podem manifestar aversão a contato físico e afeto. Nas crianças em idade pré-escolar, a ligação a um adulto significativo pode ser ausente ou se manifestar por meio de comportamentos de união exagerados. Na infância, não conseguem desenvolver jogos cooperativos, jogos de imaginação e amizades. Aquelas crianças com comprometimento mínimo podem, eventualmente, progredir até o ponto de reconhecer outras crianças como parte do seu ambiente, mesmo que de maneira passiva. Comprometimento na comunicação e na atividade imaginativa Tanto as habilidades verbais quanto não verbais são afetadas. A linguagem pode estar totalmente ausente ou ser caracterizada por estruturas imaturas ou articulação de sons idiossincráticos, cujo significado é compreendido apenas por aqueles que estão familiarizados com as experiências anteriores da criança. A comunicação não verbal, como expressão facial ou gestos, frequentemente está ausente ou é socialmente inadequada. O padrão de jogos de imaginação, em geral, é restrito e estereotipado. Restrição de atividades e interesses Mesmo alterações mínimas no ambiente são frequentemente enfrentadas com resistência e, algumas vezes, com respostas histéricas. É comum uma ligação exagerada ou fascinação extrema por objetos que se movem ou giram (p. ex., ventilador). A rotina pode se tornar uma obsessão e a menor alteração nesta rotina resulta em profundo estresse. São característicos os movimentos estereotipados do corpo (bater palmas, rolar no chão, balançar o corpo) e verbalizações (repetição de palavras ou frases). As anormalidades na dieta podem incluir comer apenas alguns alimentos específicos ou ingerir uma quantidade exagerada de fluidos. Comportamentos autolesivos podem estar evidentes, como bater com a cabeça, morder as mãos ou os braços. Os critérios de diagnóstico DSM-IV-TR (APA, 2000) para transtorno do espectro autístico são apresentados no Boxe 23.2. Boxe 23.2 Critérios de diagnóstico para o transtorno do espectro autístico A. Um total de seis (ou mais) características listadas em (1), (2) e (3), com pelo menos uma de cada em (2) e (3): 1. comprometimento qualitativo na interação social manifestado por pelos menos duas das características a seguir: (a) comprometimento marcante no uso de diversos comportamentos não verbais, como olhar fixo olho no olho, expressões faciais, postura corporal e gestos que regulam a interação social; (b) problemas para desenvolver relacionamentos apropriados ao estágio de desenvolvimento com seus pares; (c) falta de reciprocidade emocional ou social; 2. comprometimento qualitativo na comunicação manifestado por pelo menos uma das características a seguir: (a) atraso ou ausência total de desenvolvimento de linguagem falada (não acompanhado por tentativas de compensação por meio de modalidades alternativas de comunicação como gestos e mímica); (b) nos indivíduos com fala adequada, comprometimento marcante na capacidade de iniciar ou sustentar conversação com outros; (c) uso de linguagem estereotipada e repetitiva ou linguagem idiossincrática; (d) falta de espontaneidade para brincadeiras de fingir ou de imitar comportamentos sociais apropriados ao estágio de desenvolvimento; 3. padrões restritos, repetitivos e estereotipados de comportamento, interesses e atividades manifestados por pelo menos uma das características a seguir: (a) abrangendo preocupações com um ou mais padrões de interesse restritos e estereotipados, o que é anormal tanto na intensidade quanto no foco; (b) adesão aparentemente inflexível a rituais e rotinas específicos e não funcionais; (c) maneirismos motores estereotipados e repetitivos (p. ex., balançar ou torcer a mão ou os dedos; movimentos complexos envolvendo o corpo inteiro); (d) preocupação persistente com partes de objetos. B. Atraso ou funcionamento anormal em pelo menos uma das áreas a seguir manifestado antes dos 3 anos de idade: (1) interação social, (2) linguagem empregada na comunicação social ou (3) jogos de imaginação ou simbólicos. Com permissão da American Psychiatric Association. (2000). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (4th ed.) Text revision. Washington, DC: American Psychiatric Publishing. ■ Diagnóstico/identificação dos objetivos Com base nos dados coletados durante a avaliação ou histórico de enfermagem, possíveis diagnósticos de enfermagem para um cliente com transtorno do espectro autístico incluem: ■ risco de automutilação relacionado com a alterações neurológicas; ■ interação social prejudicada relacionada com a incapacidade de confiar; alterações neurológicas; ■ comunicação verbal prejudicada relacionada com o retraimento para dentro de si mesmo; estimulação sensorial inadequada; alterações neurológicas; ■ distúrbio da identidade pessoal relacionado com estimulação sensorial inadequada; alterações neurológicas. Critérios de resultados Os resultados esperados incluem metas de curto e longo prazos. O período para o alcance das metas deve ser determinado individualmente. Os critérios a seguir podem ser utilizados para avaliar os resultados dos cuidados de enfermagem a um cliente com transtorno do espectro autístico. O cliente ■ Não exibe sinais de autolesão. ■ Interage de maneira apropriada com pelo menos um membro da equipe. ■ Demonstra confiar em pelo menos um membro da equipe. ■ Consegue se comunicar de modo a ser compreendido por pelo menos um membro da equipe. ■ Demonstra um comportamento que indica que iniciou o processo de individualização/separação. ■ Planejamento/implementação A Tabela 23.3 apresenta um plano de cuidados para crianças com transtorno autístico, incluindo diagnósticos de enfermagem selecionados, critérios de resultados e intervenções de enfermagem adequadas, juntamente com suas justificativas. Tabela 23.3 Plano de cuidados para crianças com transtorno do espectro autístico Diagnóstico de enfermagem: Risco de automutilação Relacionado com: alterações neurológicas Critérios de resultados Intervenções de enfermagem Justificativa Meta a longo prazo • O cliente demonstrará comportamentos alternativos (p. ex., iniciando uma interação entre ele e a enfermeira) em resposta à ansiedade dentro de um tempo específico. (O intervalo necessário para alcançar essa meta dependerá da gravidade e cronicidade do transtorno.) 1. Trabalhe com a criança individualmente 2. Tente determinar se o comportamento de automutilação ocorre em resposta a um aumento da ansiedade, e, sendo assim, a que está atribuída essa ansiedade 3. Tente introduzir atividades de distração ou substituição e ofereça sua presença à criança à medida que o nível de ansiedade começa a aumentar 1. A interação individual facilita a confiança 2. Comportamentos de mutilação podem ser revertidos se a causa puder ser determinada e aliviada 3. Atividades de distração e substituição podem oferecer a sensação de segurança necessária e reverter comportamentos de automutilação Critério de resultado Intervenções de enfermagem Justificativa Meta a longo prazo • O cliente não causará automutilação 4. Proteja a criança durante os eventos de automutilação. Equipamentos como capacete, luvasacolchoadas ou protetores para os braços podem fornecer proteção quando existe risco de automutilação 4. A segurança do cliente é prioridade de enfermagem Diagnóstico de enfermagem: Interação social prejudicada Relacionado com: incapacidade de confiar; alterações neurológicas Critério de resultado Intervenções de enfermagem Justificativa Meta a curto prazo • O cliente demonstrará confiança em um dos cuidadores (evidenciada por expressões faciais e contato visual) dentro de um determinado tempo (dependendo da gravidade e cronicidade da desordem)Meta a longo prazoO cliente tomará a iniciativa para interações sociais (física, verbal, não verbal) com o cuidador até a data da alta do tratamento 1. Determine um número limitado de cuidadores para a criança. Certifique-se de que eles ofereçam carinho, aceitação e disponibilidade 2. Forneça à criança objetos que lhe sejam familiares, como seu cobertor ou brinquedo favorito. Forneça suporte às tentativas da criança de estabelecer contato com os outros 3. Ofereça reforço positivo para contato visual por intermédio de alguma coisa de que a criança goste (p. ex., comida, objeto familiar). Gradualmente substitua por reforço social (p. ex., toque, sorriso, abraço) 1. Carinho, aceitação e disponibilidade, juntamente com consistência no atendimento, aprimoram o estabelecimento e manutenção de uma relação de confiança 2. Objetos familiares e a presença de alguém em quem a criança confia fornecem segurança durante períodos estressantes 3. Ser capaz de estabelecer contato visual é essencial para que a criança desenvolva relacionamentos interpessoais satisfatórios Diagnóstico de enfermagem: Comunicação verbal prejudicada Relacionado com: retraimento para dentro de si mesmo; estimulação sensorial inadequada; alterações neurológicas Critério de resultado Intervenções de enfermagem Justificativa Meta a curto prazo • O cliente demonstrará confiança em um dos cuidadores (evidenciada por expressões faciais e contato visual) dentro de um determinado tempo (dependendo da gravidade e cronicidade da desordem) Meta a longo prazo • O cliente estabelecerá meios para comunicar seus desejos e necessidades aos outros 1. Mantenha a consistência em relação aos cuidadores 2. Antecipe e preencha as necessidades da criança até que a comunicação possa ser estabelecida 3. Busque esclarecimento e validação 4. Ofereça reforço positivo quando for utilizado contato visual para conduzir expressões não verbais 1. A consistência facilita a confiança e aprimora a capacidade do cuidador de compreender as tentativas de comunicação da criança 2. A antecipação das necessidades ajuda a minimizar a frustração enquanto a criança aprende as habilidades de comunicação 3. A validação garante que a mensagem pretendida foi corretamente passada 4. Reforço positivo aumenta a autoestima e incentiva a repetição Diagnóstico de enfermagem: Distúrbio da identidade pessoal Relacionado com: estimulação sensorial inadequada; alterações neurológicas Critério de resultado Intervenções de enfermagem Justificativa Meta a curto prazo • O cliente nomeará as partes do corpo individualmente e separadas do corpo dos outros Meta a curto prazo • O cliente desenvolverá um ego individualizado (evidenciado pela capacidade de reconhecer-se física e emocionalmente separado dos outros) até a data da alta do tratamento 1. Ajude a criança a reconhecer partes separadas do corpo durante as atividades de autocuidado, como vestir-se ou alimentar-se 2. Ajude a criança a aprender o nome de cada parte do seu próprio corpo. O ensino pode ser facilitado com o uso de espelhos, desenhos e fotografias. Incentive a criança a tocar e ser tocada por outros apropriadamente 1. O reconhecimento de partes do corpo durante o processo de se vestir e se alimentar aumenta a consciência da criança como um self separado de outros 2. Todas essas atividades podem ajudar a aumentar a consciência da criança como um self separado de outros ■ Avaliação final A avaliação final ou evolução dos cuidados de uma criança com autismo reflete se as intervenções de enfermagem foram bem-sucedidas no alcance das metas estabelecidas. O processo de enfermagem exige uma reavaliação do plano de cuidados. Questões para reunião de dados de reavaliação podem incluir as seguintes: ■ A criança conseguiu estabelecer uma relação de confiança com pelo menos um de seus cuidadores? ■ As ações de enfermagem direcionadas à prevenção de comportamento de automutilação foram bem-sucedidas para proteger o cliente de lesões causadas por ele mesmo? ■ A criança fez tentativas de interaçãocom outras pessoas? Recebeu reforço positivo em cada uma das tentativas? ■ O contato visual progrediu? ■ A criança conseguiu estabelecer um meio de comunicar seus desejos e necessidades aos outros? A criança preenche todas as necessidades de autocuidado? ■ A criança demonstra consciência de si mesma como um ser separado dos outros? Ela consegue nomear partes do próprio corpo e do corpo dos cuidadores? ■ A criança aceita ser tocada por outras pessoas? Ela toca os outros de maneira apropriada e por vontade própria? Intervenção psicofarmacológica no transtorno do espectro autístico A Food and Drug Administration (FDA) aprovou dois medicamentos para o tratamento da irritabilidade associada ao autismo: risperidona (para crianças e adolescentes entre 5 e 16 anos de idade) e aripiprazol (para crianças e adolescentes entre 6 e 17 anos de idade). Os sintomas comportamentais para os quais esses medicamentos são destinados incluem: ■ agressividade; ■ automutilação deliberada; ■ explosões de raiva; ■ alteração súbita de humor. As dosagens de risperidona para o tratamento do autismo são baseadas no peso da criança e na resposta clínica. Em pesquisas clínicas, crianças com peso entre 15 e 45 kg receberam doses de 2,5 mg/dia, e aquelas com peso superior a 45 kg, 3,5 mg/dia. Os efeitos colaterais mais comuns foram sonolência, aumento do apetite de leve a moderado, congestão nasal, fadiga, constipação intestinal, fala enrolada, tontura e ganho de peso. Embora tenham sido descritos relatos de “movimentos anormais”, não foi relatado caso de discinesia tardia nos estudos clínicos (Research Unitis on Pediatrics Psychopharmacology Autism Network, 2002, 2005). Quando se administra risperidona, deve haver cautela relacionada com possíveis efeitos colaterais menos comuns, porém mais graves, como síndrome maligna neuroléptica, discinesia tardia, hiperglicemia e diabetes. Em estudos clínicos com aripiprazol os efeitos colaterais mais comumente relatados incluem sedação, fadiga, ganho de peso, vômitos, sonolência e tremores. As razões mais comuns para descontinuar o tratamento com aripiprazol foram sedação, fala enrolada, tremores, vômitos e efeito extrapiramidal. A dose para tratamento da irritabilidade em casos de autismo é iniciada com 2 mg/dia. A dosagem pode ser aumentada até 5 mg/dia em intervalos nunca inferiores a 1 semana, até a dose máxima de 15 mg/dia. A eficácia da manutenção da terapia com aripiprazol ainda não foi estimada e os clientes devem ser periodicamente avaliados para determinar a necessidade de continuação do tratamento. Conceito fundamental Hiperatividade Atividade psicomotora excessiva, que pode ser ou não proposital, acompanhada de movimentos físicos e expressões verbais que em geral são mais aceleradas do que as normais. Desatenção e distração são comportamentos comuns em pessoas hiperativas. Transtorno do déficit de atenção e hiperatividade Achados clínicos, epidemiologia e curso do transtorno A característica essencial do TDAH é um padrão persistente de desatenção e/ou hiperatividade impulsividade que é mais frequente e grave do que tradicionalmente observado em indivíduos em estágio de desenvolvimento comparável (APA, 2000). Essas crianças se distraem com extrema facilidade e não são capazes de conter os estímulos. A atividade motora é excessiva e os movimentos são aleatórios e impulsivos. A manifestação do transtorno é de difícil diagnóstico em crianças commenos de 4 anos de idade porque seu comportamento característico apresenta variáveis muito maiores do que em crianças mais velhas. Frequentemente o transtorno não é identificado até que a criança entre para a escola. É mais comum em meninos do que em meninas em uma razão de 2:1 até 4:1 e pode se manifestar entre 7% e 10% das crianças em idade escolar (Ferguson-Noyes e Wilkinson, 2008). Entre 60% e 70% dos casos o TDAH persiste até a fase de adulto jovem e em cerca de 25% o indivíduo preencherá os critérios para adultos com distúrbio de personalidade antissocial (Black e Andreasen, 2011). O DSM-IV-TR categoriza o transtorno nos seguintes subtipos: ■ transtorno do déficit de atenção e hiperatividade, do tipo combinado: esse subtipo é empregado se pelo menos seis sintomas de desatenção e seis de hiper-ratividade-impulsividade persistirem por um período mínimo de 6 meses. A maioria das crianças com o transtorno tem o tipo combinado. Não se sabe se o mesmo acontece em adultos portadores; ■ transtorno do déficit de atenção e hiperatividade, com predominância de desatenção: esse subtipo é empregado se pelo menos seis sintomas de desatenção (porém menos de seis sintomas de hiperatividade-impulsividade) persistirem por um período mínimo de 6 meses; ■ transtorno do déficit de atenção e hiperatividade, com predominância de hiperatividade-impulsividade: esse subtipo é empregado se pelo menos seis sintomas de hiperatividade-impulsividade (porém menos de seis sintomas de desatenção) persistirem por um período mínimo de 6 meses. Em muitos casos, a desatenção ainda pode ser uma característica clínica significativa. Conceito fundamental Impulsividade É a característica de agir sem refletir e sem pensar nas consequências do comportamento. Uma abrupta inclinação a agir (e incapacidade de resistir) em determinadas urgências comportamentais. Fatores predisponentes ■ Influências biológicas Fatores genéticos Diversos estudos têm revelado evidências que dão suporte a influências genéticas sobre a etiologia do TDAH. Os resultados das pesquisas indicam que um grande número de pais de crianças hiperativas mostrou sinais de hiperatividade durante a infância; que crianças hiperativas apresentam maior possibilidade do que crianças normais de ter irmãos que também são hiperativos e que quando um gêmeo de um par idêntico é portador do transtorno, o outro provavelmente também o é (Kollins, 2008). Estudos sobre adoção revelam que os pais biológicos de crianças com TDAH apresentam maior número de psicopatologias do que os pais adotivos. Figura 23.1 Neurobiologia do TDAH. Neurotransmissores Os principais neurotransmissores envolvidos na fisiopatologia do TDAH são dopamina, norepinefrina e, possivelmente, serotonina. Parece haver depleção de dopamina e norepinefrina nos casos de TDAH. O estudo do papel desempenhado pela serotonina não é tão abrangente, porém evidências recentes sugerem que também seu s níveis estão reduzidos em crianças com TDAH. Funções dos neurotransmissores • Acredita-se que a norepinefrina desempenha um papel na capacidade de realização de funções executivas, como análise e raciocínio, e na prontidão cognitiva essencial para o processamento do estímulo e sustentação da atenção e do pensamento (Hunt, 2006) • Acredita-se que a dopamina desempenha um papel na filtragem sensorial, memória, concentração, controle de emoções, atividade de locomoção e raciocínio • Déficits de norepinefrina e dopamina têm sido implicados na desatenção, impulsividade e hiperatividade associadas ao TDAH • Acredita-se que a serotonina desempenha um papel no TDAH, embora seja possivelmente menos importante que o da norepinefrina e da dopamina. Tem sido sugerido que alterações nos níveis de serotonina podem estar relacionadas com a desinibição e a impulsividade observadas em crianças com TDAH. Acredita-se que a serotonina tem um papel em transtornos do humor, principalmente na depressão, que é uma comorbidade comum associada ao TDAH. Áreas cerebrais afetadas • Córtex pré-frontal: associado a manutenção da atenção, organização e função executiva. Serve também para modular a inibição, sendo a serotonina o neurotransmissor inibidor central predominante para esta função • Gânglio basal (principalmente o núcleo caudado e o globo pálido): envolvido na regulação de movimentos de alta precisão, em associação com seus circuitos conectados ao córtex pré-frontal, pode ser também importante na cognição. Interrupção nesses circuitos pode resultar em desatenção ou impulsividade • Hipocampo: desempenha um importante papel no aprendizado e na memória • Sistema límbico (composto por amígdala, hipocampo, corpo mamilar, hipotálamo, tálamo, fórnix, giro cingulado e septo pelúcido): regula as emoções. Uma deficiência de neurotransmissor nessa região pode resultar em nervosismo, desatenção ou volatilidade emocional • Sistema ativador reticular (composto pela formação reticular [localizada no tronco cerebral] e suas conexões): é o principal sistema de transmissão entre as diversas vias que entram e saem do cérebro. Acredita-se ser o centro da excitação e motivação e é fundamental na manutenção do estado de consciência. • Medicamentos para TDAH ESTiMuLANTES DO SiSTEMA NERvOSO CENTRAL (SNC) • Anfetaminas (dextroanfetamina, lisdexanfetamina, metanfetamina e mistas): causam a liberação de norepinefrina dos neurônios noradrenérgicos centrais. Em altas doses, pode liberar dopamina no sistema mesolímbico • Metilfenidato e dexmetilfenidato: bloqueiam a recaptação de norepinefrina e dopamina pelo neurônio pré-sináptico e aumentam a liberação dessas monoaminas no espaço extraneuronal. • Os efeitos colaterais do uso de estimulantes do SNC incluem nervosismo, insônia, dor de cabeça, palpitação, perda de peso, supressão do crescimento em crianças (com o uso prolongado), elevação da pressão arterial, dor abdominal, ansiedade, desenvolvimento de tolerância e de dependência física e psicológica. OUTROS • Atomoxatina: inibe seletivamente a recaptação de norepinefrina pelo bloqueio do transportador pré-sináptico. • Os efeitos colaterais incluem dor de cabeça, dor abdominal, náuseas e vômitos, anorexia, tosse, boca seca, constipação intestinal, elevação da frequência cardíaca e da pressão arterial, além de fadiga • Bupropiona: inibe a recaptação de norepinefrina e dopamina pelos neurônios pré-sinápticos. • Os efeitos colaterais incluem dor de cabeça, tontura, insônia ou sedação, taquicardia, elevação da pressão arterial, boca seca, náuseas e vômitos, perda ou ganho de peso e convulsões (dose-dependentes) • Alfa-agonistas (clonidina, guanfacina): estimulam os receptores alfa-adrenérgicos do cérebro, resultando na redução do fluxo simpático do SNC. Os efeitos colaterais incluem palpitação, bradicardia, constipação intestinal, boca seca e sedação. Uma pesquisa recente sobre a evidência genética do TDAH encontrou um número de reprodução de variantes em uma região específica do cromossomo 16 (Williams et al., 2010). Os pesquisadores também encontraram uma quantidade de reproduções variantes sobrepostas a regiões cromossômicas previamente vinculadas a desordens do espectro autista e à esquizofrenia. Teoria bioquímica Embora se acredite que determinados neurotransmissores – principalmente dopamina, norepinefrina e, possivelmente, serotonina – estejam envolvidos na produção de sintomas associados ao TDAH, seu envolvimento ainda está senso investigado. Níveis anormais desses neurotransmissores podem estar associados a sintomas como desatenção, hiperatividade, impulsividade, alterações de humor e agressividade frequentemente observados em indivíduos portadores do transtorno (Faraone, 2006; Hunt, 2006) (Figura 23.1). Influências anatômicas Estudos recentes têm implicado alterações em áreas específicas do cérebro em indivíduos com TDAH. Estão incluídos os lobos pré-frontais, gânglio basal, núcleo caudado, globo pálido e cerebelo (Ursano et al., 2008). Fatores pré-natal, perinatal e pós-natal Estudos têm associado mães que fumam durante a gravidez e comportamentohipercinético-impulsivo em sua prole (Linnet et al., 2005; Rizwan, Manning e Brabin, 2007). A exposição intrauterina a substâncias tóxicas, incluindo o álcool, pode produzir efeitos sobre o comportamento. A síndrome do álcool fetal inclui hiperatividade, impulsividade e desatenção, bem como anomalias físicas (Capítulo 25). As influências perinatais que podem contribuir para o TDAH são prematuridade ou baixo peso no nascimento, sinais de desconforto fetal, trabalho de parto precipitado ou prolongado, asfixia perinatal e escore Apgar baixo (Bhat, Grizenko, Ben- Amor e Joober, 2005). Os fatores pós-natais que têm sido implicados incluem paralisia cerebral, convulsões e outras anormalidades do SNC resultantes de traumatismo, infecções ou outras desordens neurológicas (Ben-Amor et al., 2005; Popper, Gammon, West e Bailey, 2003). ■ Influências ambientais Chumbo ambiental As pesquisas continuam a fornecer evidências dos efeitos adversos de níveis elevados de chumbo no organismo sobre o desenvolvimento cognitivo e comportamental de crianças. O governo colocou restrições mais fortes sobre a substância nos últimos anos, tornando a exposição a níveis tóxicos menos prevalente do que anteriormente. Popper et al. (2003) declaram: Tanto a exposição pré-natal quanto pós-natal a níveis tóxicos de chumbo podem preceder TDAH e outros déficits cognitivos. A exposição transitória ao chumbo durante a infância produz anormalidades neurocognitivas e neurocomportamentais que podem persistir por 10 anos ou mais. Embora sua toxicidade física se eleve de maneira dependente da dose, parece não haver um nível mínimo abaixo do qual o chumbo deixa de apresentar efeitos tóxicos sobre o desenvolvimento cognitivo. (p. 840) Fatores da dieta A possível ligação entre corantes e aditivos alimentares, como aromatizantes artificiais e conservantes, foi introduzida no meio da década de 1970. Pesquisas sobre o efeito dos alimentos e dos aditivos no surgimento de alergias permanecem controversas, em grande parte devido à inconsistência de resultados. Tem sido relatada por pais e professores uma incrível melhora no comportamento quando crianças hiperativas são colocadas em uma dieta livre de corantes e aditivos. Pesquisadores da Grã-Bretanha relataram recentemente em um estudo que revelou comportamento hiperativo significativo em crianças de 3, 8 e 9 anos de idade que consumiram sucos com aditivos em comparação com aquelas que receberam placebo (McCann et al., 2007). São necessárias maiores pesquisas nessa área. Outro fator dietético que tem recebido muita atenção por sua possível associação ao TDAH é o açúcar. Diversos estudos foram conduzidos na tentativa de determinar o efeito do açúcar sobre o comportamento hiperativo, e os resultados sugerem fortemente que o açúcar não influencia a ocorrência de hiperatividade. ■ Influência psicossocial Ambientes desorganizados ou caóticos ou desequilíbrio familiar podem contribuir para o TDAH em alguns indivíduos. Um alto grau de estresse psicossocial, distúrbio mental materno, criminalidade paterna, baixo status socioeconômico, viver na pobreza, crescer em uma instituição e instabilidade em lares adotivos têm demonstrado elevar o risco de TDAH em indivíduos com predisposição (Dopheide e Pliszka, 2009; Voeller, 2004). Aplicação do processo de enfermagem no TDAH ■ Avaliação de dados de background (sintomatologia) Uma grande quantidade dos problemas de crianças hiperativas está relacionada com a dificuldade em realizar tarefas apropriadas a sua faixa etária. Crianças hiperativas se distraem com muita facilidade e possuem enorme déficit de atenção. Elas, com frequência, mudam de uma atividade incompleta para outra. Também são comuns a impulsividade ou o déficit no controle inibitório. Crianças hiperativas têm dificuldade de estabelecer relações interpessoais satisfatórias. Elas demonstram comportamentos que inibem a interação social em padrões aceitáveis; tumultuam e atrapalham as tarefas do grupo; têm dificuldade em cumprir as normas sociais e algumas são muito agressivas ou apresentam comportamento de oposição, enquanto outras exibem comportamentos mais regressivos e imaturos. São comuns baixa tolerância à frustração e explosões de temperamento. Crianças com TDAH possuem energia sem limite, exibindo níveis excessivos de atividade, agitação e inquietação. Elas têm sido descritas como “máquinas de moto perpétuo”, continuamente correndo, pulando, balançando-se ou contorcendo-se. Elas passam por um número muito acima da média de acidentes, de pequenos infortúnios até incidentes mais sérios, que podem levar a lesão física ou destruição de patrimônio. Os critérios de diagnóstico do DSM-IV-TR para TDAH são apresentados no Boxe 23.3. Comorbidade A prevalência de comorbidade entre distúrbios psiquiátricos e TDAH pode chegar a 84% (Ferguson-Noyes e Wilkinson, 2008). As comumente identificadas incluem transtorno desafiador de oposição, transtorno de conduta, ansiedade, depressão, distúrbio bipolar e uso abusivo de substâncias. É extremamente importante identificar e tratar qualquer condição psiquiátrica de comorbidade em uma criança com TDAH. Em algumas instâncias, como ansiedade e depressão, a comorbidade deve ser tratada juntamente com os sintomas de TDAH. Jenson (2005) sugere que a depressão como comorbidade de TDAH pode responder ao tratamento com bupropiona ou atomoxatina como agente único e que indivíduos com comorbidade de ansiedade e TDAH podem ser beneficiados com o tratamento com atomoxatina (Dopheide e Pliszka, 2009). Boxe 23.3 Critérios diagnósticos para transtorno do déficit de atenção e hiperatividade A. (1) ou (2): 1. Seis ou mais dos sintomas de desatenção a seguir, que persistam por pelo menos 6 meses em um grau mal-adaptado e inconsistente com o estágio de desenvolvimento: Desatenção (a) Frequentemente falha em se concentrar em detalhes ou comete erros por descuido nos trabalhos escolares, trabalho, ou outras atividades (b) Frequentemente tem dificuldade de manter a concentração em tarefas ou atividades de lazer (c) Frequentemente parece não perceber que alguém está falando diretamente com ele (d) Frequentemente não segue as instruções e não consegue terminar seus trabalhos escolares, tarefas ou deveres no local de trabalho (não porque apresente comportamento oposicional ou porque não entendeu as instruções) (e) Frequentemente tem dificuldade para se organizar e realizar tarefas e atividades (f) Frequentemente evita, não gosta ou se mostra relutante para se envolver em tarefas que requerem esforço mental (como trabalhos escolares ou dever de casa) (g) Frequentemente perde coisas necessárias para a realização de tarefas ou atividades (p. ex., brinquedos, reunião com os colegas de escola, lápis, livros ou ferramentas) (h) Frequentemente se distrai com facilidade com estímulos externos (i) Frequentemente se esquece de atividades cotidianas 2. Seis ou mais dos sintomas de hiperatividade-impulsividade a seguir, que persistam por pelo menos 6 meses em um grau mal adaptado e inconsistente com o estágio de desenvolvimento: Hiperatividade (a) Frequentemente se mostra irrequieto, mexendo mãos e pés ou se contorcendo na cadeira (b) Frequentemente sai da carteira da escola ou não fica sentado em outras situações nas quais se esperava que ficasse (c) Frequentemente fica correndo ou subindo nas coisas em situações nas quais não é apropriado (em adolescentes ou adultos pode ficar limitado a uma sensação subjetiva de impaciência) (d) Frequentemente tem dificuldade de se envolver em brincadeiras ou atividades de lazer mais calmas. (e) Frequentemente age como se fosse “movido a pilha” (f) Frequentemente fala em excesso Impulsividade (g) Frequentemente solta a resposta de uma pergunta que ainda nem terminou de ser feita (h) Frequentemente tem dificuldade de esperar pela sua vez (i) Frequentemente interrompe ou atrapalha os outros (p. ex., se intromete nas conversas e nos jogos) B. Alguns dos sintomas hiperativo-impulsivos ou de desatenção que causam algum tipo de comprometimento se apresentaramantes dos 7 anos de idade C. Algum tipo de comprometimento se apresenta em duas ou mais áreas de atividade (p. ex., no trabalho, na escola ou em casa) D. Há evidências perceptíveis de comprometimento significativo de funções sociais, acadêmicas ou ocupacionais E. Os sintomas não ocorrem exclusivamente durante o curso de um distúrbio de desenvolvimento generalizado, esquizofrenia ou outras desordens psicóticas e não são completamente explicadas por qualquer outro problema mental (p. ex., transtorno de humor, ansiedade, dissociativo ou de personalidade) Subtipos 1. Transtorno de hiperatividade/déficit de atenção, tipo combinado: se os critérios A1 e A2 foram preenchidos nos últimos 6 meses. 2. Transtorno de hiperatividade/déficit de atenção, apresentando predominantemente sinais de desatenção: se o critério A1 foi preenchido, mas não ocorreu o critério A2 nos últimos 6 meses 3. Transtorno de hiperatividade/déficit de atenção, apresentando predominantemente sinais de hiperatividadeimpulsividade: se o critério A2 foi preenchido, mas não ocorreu o critério A1 nos últimos 6 meses Com permissão da American Psychiatric Association. (2000). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (4th ed.) Text revision. Washington, DC: American Psychiatric Publishing. Outros distúrbios podem requerer tratamento separado. Wilens e Upadhyaya (2007) declaram: “Em pacientes que fazem uso abusivo de substâncias em conjunto com TDAH a prioridade é estabilizar a adição a substâncias antes de tratar o TDAH.” Como agentes estimulantes podem exacerbar a mania, tem sido sugerido que a medicação para TDAH seja iniciada somente depois que os sintomas de bipolaridade tenham sido controlados com o uso de estabilizadores de humor (Dopheide e Pliszka, 2009). Os tipos de condições clínicas encontrados com mais frequência, juntamente com TDAH e sua taxa de comorbidade, são apresentados na Tabela 23.4. Tabela 23.4 Tipo e frequência de comorbidade com TDAH Comorbidade Taxas Transtorno desafiador de oposição Superior a 50% Transtorno de conduta Cerca de 33% Distúrbios de aprendizagem 20% a 30% Ansiedade 25% a 35% Depressão Cerca de 26% Distúrbio bipolar 11% a 20% Uso abusivo de substâncias 13% a 26% Fontes: Dopheide and Pliszka (2009); Ferguson-Noyes e Wilkinson (2008); Jenson (2005); e Robb (2006). ■ Diagnóstico/identificação dos objetivos Com base nos dados coletados durante a avaliação ou histórico de enfermagem, os possíveis diagnósticos de enfermagem para uma criança com TDAH incluem: ■ risco de lesão relacionado com o comportamento impulsivo e propenso a acidente e incapacidade de perceber autolesão; ■ interação social prejudicada relacionada com comportamento intrusivo ou imaturo; ■ baixa autoestima relacionada com sistema familiar disfuncional e feedback negativo; ■ recusa em cumprir tarefas relacionada com baixos níveis de tolerância à frustração e déficit de atenção. Critérios de resultados Os resultados esperados incluem metas a curto e longo prazos. O período para o alcance das metas deve ser determinado individualmente. Os critérios a seguir podem ser utilizados para avaliar os resultados dos cuidados de enfermagem a um cliente com TDAH. O cliente ■ Não exibe sinais de lesão física. ■ Interage de maneira apropriada com os outros. ■ Verbaliza aspectos positivos sobre si mesmo. ■ Demonstra menos comportamentos exigentes. ■ Coopera com a equipe na tentativa de completar as tarefas designadas. ■ Planejamento/implementação A Tabela 23.5 fornece um plano de cuidados para crianças com TDAH, incluindo diagnósticos de enfermagem mais comuns ao transtorno, critérios de resultados e intervenções de enfermagem adequadas, juntamente com suas justificativas. O mapa conceitual do plano de cuidados é uma abordagem inovadora para o planejamento e a organização dos cuidados de enfermagem (ver Capítulo 9). É uma estratégia de ensino e aprendizado em forma de diagrama que possibilita a visualização das inter-relações entre diagnóstico médico, diagnóstico de enfermagem, dados de avaliação e tratamento. A Figura 23.2 apresenta um exemplo de um mapa conceitual do plano de cuidados para um cliente com TDAH. Tabela 23.5 Plano de cuidado para crianças com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade Diagnóstico de enfermagem: Risco de lesão Relacionado com: comportamento impulsivo e propenso a acidentes e incapacidade de perceber a autolesão Critério de resultado Intervenções de enfermagem Justificativa Meta a curto e longo prazos • O cliente se manterá livre de lesões 1. Crie um ambiente seguro para o cliente. Certifique-se de que sejam removidos todos os objetos da área de deambulação com os quais ele possa sofrer lesão acidental devido ao seu comportamento hiperativo 2. Identifique comportamentos deliberados que coloquem a criança sob risco de lesão. Imponha consequências para a repetição desse tipo de comportamento 3. Se houver risco associado a atividades terapêuticas específicas, providencie supervisão e assistência adequadas ou limite a participação do cliente, se não for possível supervisão apropriada 1. Objetos adequados para situações cotidianas normais podem ser perigosos para crianças com atividades motoras fora de controle 2. O comportamento pode ser modificado por intermédio de reforço aversivo 3. A segurança do cliente deve ser uma prioridade de enfermagem Diagnóstico de enfermagem: Interação social prejudicada Relacionado com: comportamento intrusivo e imaturo Critério de resultado Intervenções de enfermagem Justificativa Meta a longo prazo • O cliente será capaz de interagir individualmente com a enfermeira de modo aceitável e apropriado a sua idade em 1 semana Meta a curto prazo • O cliente observará limites estabelecidos para comportamentos intrusivos e será capaz de interagir apropriadamente com os outros 1. Estabeleça uma relação de confiança com a criança. Demonstre sua aceitação à parte do comportamento inaceitável 2. Converse com o cliente sobre que tipo de comportamento é inaceitável. Descreva de maneira realística as consequências desse tipo de comportamento. Mantenha acompanhamento 3. Promova situações de grupo para o cliente 1. Aceitação incondicional aumenta o sentimento de autoestima 2. Reforço aversivo pode contribuir para alterar comportamentos indesejados 3. Comportamentos socialmente apropriados são muitas vezes aprendidos por meio de feedback positivo ou negativo dos colegas da criança Diagnóstico de enfermagem: Baixa autoestima Relacionado com: sistema familiar disfuncional e feedback negativo Critério de resultado Intervenções de enfermagem Justificativa 1. Garanta metas realísticas 1. Metas pouco realistas levam o cliente a Meta a curto prazo • O cliente irá realizará independentemente os próprios cuidados e suas atividades cotidianas dentro de 1 semana Meta a longo prazo • O cliente demonstrará elevação nos sentimentos de autovalorização por meio de verbalizações positivas sobre si mesmo e sendo menos demandante 2. Planeje atividades que ofereçam oportunidade de sucesso 3. Demonstre aceitação incondicional e respeito 4. Demonstre reconhecimento pelo esforço bem-sucedido e reforço positivo pelas tentativas de sucesso. Ofereça imediatamente feedback positivo para um comportamento aceitável falhar, o que diminui sua autoestima 2. O sucesso aumenta a autoestima 3. Afirmar que o cliente é um ser humano que tem valor eleva sua autoestima 4. O reforço positivo eleva a autoestima e pode aumentar a quantidade de comportamentos desejáveis Diagnóstico de enfermagem: Recusa (à expectativa de realização de tarefas) Relacionado com: baixos níveis de tolerância à frustração e déficit de atenção Critério de resultado Intervenções de enfermagem Justificativa Meta a curto prazo • O cliente participará e cooperará durante as atividades terapêuticas Meta a longo prazo • O cliente será capaz de completar tarefas que lhe foram designadas de maneira independente ou com um mínimo de assistência 1. Forneça um ambiente para as tentativas de realização detarefas com a menor quantidade possível de estímulos de distração. 2. Forneça assistência individual, começando com instruções simples e concretas 3. Peça ao cliente que repita as informações para você 4. Estabeleça metas que permitam ao cliente completar a tarefa por partes, recompensando cada etapa completada com um intervalo para atividades físicas 5. Gradualmente reduza a quantidade de assistência fornecida, garantindo ao cliente que, ao mesmo tempo, a ajuda estará disponível se ainda for necessária 1. O cliente se distrai com muita facilidade e é incapaz de realizar as tarefas na presença do menor estímulo 2. Falta ao cliente a capacidade de assimilar informação que seja muito complicada ou abstrata 3. A repetição das informações ajuda a avaliar o nível de entendimento do cliente 4. Metas a curto prazo não são opressivas para uma pessoa com déficit de atenção. O reforço positivo (atividade física) aumenta a autoestima e oferece incentivo ao cliente para buscar completar a tarefa 5. Isso incentiva o cliente a realizar individualmente a tarefa, enquanto oferece uma sensação de segurança pela presença de uma pessoa na qual confia Figura 23.2 Mapa conceitual de um plano de cuidados para clientes com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. Implicações de pesquisa para a prática com base em evidência Frame, K., Kelly, L., & Bayley, E. (2003). Increasing perceptions of self-worth in preadolescents diagnosed with ADHD. Journal of Nursing Scholarship, 35(3), 225-229. Descrição da pesquisa: o referencial teórico deste estudo se baseia no modelo adaptado por Roy. A amostra neste estudo consiste em 65 pré-adolescentes diagnosticados com transtorno do déficit de atenção (TDA) ou TDAH em uma comunidade de classe média alta nos EUA. Os participantes foram incluídos aleatoriamente tanto para o grupo de controle como para o grupo experimental, e todos completaram a Escala de Autopercepção de Harter no começo da pesquisa e quatro semanas depois. Essa ferramenta foi projetada para medir a competência académica, aceitação social, competência atlética, aparência física, conduta comportamental e autoestima global. As crianças no grupo de experimentação participaram de um grupo de suporte escolar, com uma enfermeira como facilitadora, que se encontrava 2 vezes/semana durante 4 semanas. Nas atividades do grupo os participantes recebiam assistência para aprender estratégias eficientes de interação com seus pares, professores e familiares. As intervenções serviam para promover autoavaliações adaptativas e para lidar com a autopercepção desfavorável de muitas crianças portadoras de TDAH. Resultados da pesquisa: no período pós-teste, os participantes do grupo de suporte pontuaram significativamente mais alto nas seis categorias testadas do que as crianças do grupo de controle, com pontuações significativamente maiores para quatro categorias: percepção da aceitação social, percepção da competência atlética, percepção da aparência física e percepção da autoestima global. Implicações para a prática de enfermagem: essa pesquisa tem implicações para enfermeiras que trabalham com crianças e particularmente para aquelas que trabalham com crianças diagnosticadas como portadoras de TDAH. Como a pré-adolescência é um período em que as crianças fazem comparações positivas ou negativas entre si mesmas e seus pares, a interação com o grupo é uma intervenção especialmente significativa. Os autores declaram: “O grupo de suporte, com crianças ajudando crianças, permite o engajamento dos participantes na resolução criativa de problemas e no desenvolvimento de soluções para as próprias dificuldades.” Essa intervenção demonstrou a promoção de uma percepção e um comportamento positivo entre crianças com TDA e TDAH. É especialmente apropriado para a enfermeira que trabalha em ambiente escolar, mas também é consistente com o papel de qualquer enfermeira que interage diretamente com crianças ou adolescentes com problemas similares. ■ Avaliação final A avaliação final ou evolução da eficácia dos cuidados com um cliente com TDAH envolve examinar os comportamentos do cliente após a implementação das ações de enfermagem para determinar se as metas terapêuticas foram alcançadas. A coleta de dados utilizando as questões a seguir pode fornecer informação adequada para a avaliação final. ■ As ações de enfermagem direcionadas à segurança do cliente se mostraram eficazes na proteção da criança contra lesões? ■ A criança foi capaz de estabelecer uma relação de confiança com seu cuidador principal? ■ O cliente responde aos limites estabelecidos para comportamentos inaceitáveis? ■ O cliente é capaz de agir de maneira apropriada com outras pessoas? ■ O cliente é capaz de verbalizar aspectos positivos sobre si mesmo? ■ O cliente é capaz de completar tarefas de maneira independente ou com um mínimo de assistência? Ele consegue obedecer após receber instruções simples? ■ O cliente é capaz de exercer autocontrole para reduzir sua atividade motora? Intervenção psicofarmacológica para o TDAH ■ Indicações Exemplos de agentes mais comumente utilizados no tratamento de TDAH são apresentados na Tabela 23.6. Os medicamentos propostos nesta seção são utilizados no tratamento de crianças e adultos com TDAH. As anfetaminas também são empregadas para tratar narcolepsia e obesidade exógena. A bupropiona é utilizada no tratamento da depressão maior e para interromper o hábito de fumar (apenas Zyban). Clonidina e guanfacina são usadas para tratamento de hipertensão. ■ Ação Os estimulantes do SNC aumentam os níveis de neurotransmissores nas sinapses neuronais (provavelmente norepinefrina, dopamina e serotonina). Eles estimulam o SNC e o sistema respiratório, dilatam as pupilas, aumentam a atividade motora e a agilidade mental, diminuem a sensação de fadiga e acendem o ânimo. Os estimulantes do SNC discutidos nesta seção incluem: sulfato de dextroanfetamina, metanfetamina, lisdexanfetamina, anfetaminas mistas, metilfenidato e dexmetilfenidato. O mecanismo de ação dessas substâncias no tratamento de TDAH ainda não está claro. Tabela 23.6 Agentes farmacológicos para o tratamento de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade Classe química Substância Faixa de dosagem diária (mg) Categoria de controle Categoria para gravidez/ meia-vida (horas) Estimulantes do SNC Anfetaminas Sulfato de dextroanfetamina 2,5 a 40 CII C/cerca de 12 Metanfetamina 5 a 25 CII C/4 a 5 Lisdexanfetamina 20 a 70 CII C/ 70kg: 40 a 100. — C/5,2 (metabólitos 6 a 8) ≤ 70 kg: 0,5 a 1,4 mg/kg (ou 100 mg, o que for menor) Bupropiona 3mg/kg(TDAH); 100- 300 (depressão) — C/8 a 24 CII = segundo Classificação do Federal Drug Enforcement Administration (DEA), substância com baixa utilidade clinica e alto potencial de abuso e dependência. C = segundo Classificação do Federal Drug Enforcement Administration (DEA), a substância risco C não possui estudos adequados em mulheres, e nas experiências com animais ocorreram alguns efeitos colaterais no feto, mas o seu benefício clínico pode justificar o risco potencial durante a gravidez. A atomoxatina inibe a recaptação da norepinefrina e a bupropiona bloqueia a captação neuronal de serotonina, norepinefrina e dopamina. Clonidina e guanfacina estimulam os receptores alfa-adrenérgicos do cérebro, resultando na redução do fluxo simpático que parte do SNC. O mecanismo de ação preciso pelo qual esses agentes não estimulantes produzem seu efeito terapêutico no tratamento de TDAH ainda não foi totalmente solucionado. ■ Precauções e contraindicações Os estimulantes do SNC são contraindicados para indivíduos com hipersensibilidade a aminas simpaticomiméticas. Não devem ser utilizados na presença de condições clínicas como arteriosclerose avançada, doença cardiovascular, hipertensão,