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UNIVERSIDADE FEDERAL DO CARIRI CURSO DE FILOSOFIA FRANCISCO ROBSON DE BRITO GONÇALVES RETROSPECTIVA DO LIVRO DE ECLESIASTES: UMA PERSPECTIVA QOHELÉTICA DISCIPLINA: ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA JUAZEIRO DO NORTE - CE 2016 RETROSPECTIVA DO LIVRO DE ECLESIASTES: UMA PERSPECTIVA QOHELÉTICA Francisco Robson de Brito Gonçalves RESUMO: O presente artigo tece considerações relevantes acerca do Livro de Eclesiastes, se eximindo de um contexto narrativo teológico, cujo principal objetivo é apresentar questões em abertas que estão explícitas nessa obra, através de uma análise reflexiva sobre o existencialismo, abrangendo também em seu bojo literário uma diversidade de gêneros que podem ser explorados a partir da ideia central do livro que será discutido posteriormente. palavras-chave: Eclesiastes. Análise reflexiva. Existencialismo. Gêneros. ABSTRACT: This article presents relevant considerations about the Book of Ecclesiastes, was absolving a theological narrative context, the main objective is to present open on issues that are explicit in this work through a reflective analysis of existentialism, also including in its literary bulge a variety of genres that can be explored from the central idea of the book that will be discussed later. keywords: Ecclesiastes. Reflective analysis. Existentialism. Genres. INTRODUÇÃO “Toda obra é uma viagem, um trajeto, mas que só percorre tal ou qual caminho exterior em virtude dos caminhos e trajetórias interiores que a compõem, que constituem sua paisagem ou seu concerto”. GILLES DELEUZE Em particular, o Livro de Eclesiastes, apresenta-se como uma obra ímpar da literatura bíblica, por possuir na sua estrutura um discurso muito atrativo aos seus leitores e, principalmente, por pesquisadores, constituindo assim, em meio ao contexto bíblico teológico, uma composição filosófica, por apreciar um tema existencial, que por natureza, é universal: relatada pela própria experiência humana diante da vida e questionada pelo seu pensamento diante da morte. Assim como toda obra filosófica, o contexto deste livro proporciona uma viagem ao pensamento humano, caracterizado, por angústias e lutas contra a vaidade. No entanto, essa viagem a Eclesiastes é exterior e não terá sentido se não for percorrida paralelamente a uma viagem introspectiva do ser, senão, seria apenas, o que o próprio autor relata: “Tenho visto tudo o que é feito debaixo do sol; tudo é inútil, é correr atrás do vento” (BÍBLIA, Eclesiastes, 1,14). O texto descrito no Livro de Eclesiastes segue uma estrutura literária muito complexa. De acordo com Hendry, “o livro desafia qualquer análise lógica, não permitindo assim nenhum esboço de conteúdo” (HENDRY, 1990, p. 659). Para tanto, são encontrados ditos de sabedoria, possuindo também, seções meditativas e reflexivas, sendo que boa parte é desenvolvido por passagens narrativas numa linguagem poética. Ao contrário de Hendry, Festorazzi admite haver unidade em sua estrutura, onde, segundo ele “a melhor solução seria deixar o problema em aberto, chegando ao máximo ao seguinte guia: pensamentos expressos; reflexões múltiplas sobre o objeto; re-exposição dos pensamentos” (FESTORAZZI, 1993, p. 208). Entretanto, dentro de uma possibilidade maleável, se estabeleceu para este estudo, uma divisão ternária que fosse plausível, a fim de corroborar com a leitura e esclarecimento do livro da seguinte forma: exposição dos argumentos, reflexão e conclusão. De modo geral, o livro procura transmitir uma reflexão acerca de indagações do sentido da vida e a retribuição dos atos humanos como justificativa para o sucesso ou fracasso do ser humano no transcorrer de sua breve existência. Sob essa perspectiva, se torna bastante propício analisar a diversidade de pensamentos e de gêneros literários, transcritas no conjunto dessa obra, fora de um contexto teológico, visando uma abordagem filosófica, como de fato é o seu conteúdo. Sendo assim, figura vários questionamentos em abertos que serão discutidos no decorrer desse artigo. 1. CONTEXTO HISTÓRICO É imprescindível argumentar sobre todos os aspectos que envolvem o tema central do livro de Eclesiastes, sem antes, se submeter ao seu contexto histórico. Assim, faz-se necessário, de forma sucinta, abordar algumas considerações, na qual, está inserida essa obra. No entanto, é preciso observar que há vários questionamentos em relação à datação do Livro de Eclesiastes, porém é concebível que o período no qual foi escrito situa-se entre a data de 300 e 200 a.C, tendo como origem a Palestina, cenário histórico do processo de helenização1. Durante este período, a Palestina estava sob o domínio Ptolomaico que durou cerca de 100 anos, e desencadeou uma mudança no panorama sócio- político-religioso a partir de então. Nesse tempo, os reis helenistas foram tolerantes com os povos dominados quanto a suas leis e costumes, desde que não se pusesse em risco sua soberania e o recolhimento de impostos2. Embora, os templos fossem uma propriedade do rei, isso não ameaçava o privilégio de Jerusalém ser uma cidade sagrada e, tradicionalmente, o sumo sacerdote figurava como sendo o representante do povo judeu, que tinha a gerusia3 como forma de seu governo. Assim, foi um fator decisivo para o período de helenização, com o fortalecimento das comunidades judaicas da “diáspora egípcia4”, onde gradativamente, Jerusalém se tornava uma verdadeira pólis. 1 O pensamento filosófico helenístico era dominado por duas correntes: o Estoicismo, que acentuava a firmeza do espírito, a indiferença à dor, a submissão à ordem natural das coisas e a independência em relação aos bens materiais; e o Epicurismo, que aconselhava a busca do prazer. 2 De acordo com HENGEL, Martin, op. cit., p. 25 “o sistema tributário estava fundamentado no princípio de que todo o império pertencia ao rei. Assim, o proprietário de terras e de outros bens pagava o arrendamento, o usufruto de um bem que não lhe pertencia”. 3 O termo corresponde à “assembleia de anciãos”, “conselho de anciãos”. Este conselho era composto pelos representantes das principais famílias leigas e sacerdotais; e, dentre estes, era escolhido o sumo sacerdote (VÍLCHEZ LÍNDEZ, José, Eclesiastes ou Qohelet, p. 470). 4 São comunidades judaicas que vão se fixar em várias cidades do Egito, formando verdadeiros "centros judaicos". Falavam a língua grega, gozavam de certos privilégios jurídicos e exerciam várias profissões: agricultores, artesãos, militares, preceptores, recebedores de impostos. Essa integração entre a cultura hebraica e a grega fez florescer uma literatura judaica em língua grega, inclusive com a tradução da Bíblia para o grego, a Septuaginta ou LXX. http://www.todamateria.com.br/estoicismo/ http://www.todamateria.com.br/epicurismo/ O livro de Eclesiastes fornece algumas insinuações que se referem ao contexto histórico acima mencionado, que pode ser percebida diante de certa impotência exercida pela autoridade estabelecida (rei) ao dizer: “Eu digo: Observe o mandamento do rei, e isso em consideração ao juramento que fizestes a Deus. Não te apresses a sair da presença dele, nem persistas em alguma coisa má, porque ele faz tudo o que quer. Porque a palavra do rei tem poder; e quem lhe dirá: Que fazes? Quem guardar o mandamento não experimentará nenhum mal; e o coração do sábio discernirá o tempo e o juízo” (BÍBLIA, Eclesiastes, 8,2-5). Essa submissão diante do poder estabelecido é um sentimento manifestado logo após os constantes conflitos e levantes no período romano. Apesar de poucas informações datadas da época, o próprio Livro de Eclesiastes, aponta umaaristocracia judaica não participativa diante das decisões políticas que fossem relevantes: “[...] pois quem está altamente colocado tem superior que o vigia; e há mais altos do que aqueles” (BÍBLIA, Eclesiastes, 5,8). Esse mesmo verso também recita que não se deve estranhar a opressão do pobre, a violação do direito e a injustiça: “Se vires em alguma província opressão do pobre, e violência do direito e da justiça, não te admires de tal procedimento [...]” (BÍBLIA, Eclesiastes, 5,8). Outro fator histórico que é relatado visivelmente no livro é a situação de grande desigualdade social ao dizer: “Depois voltei-me, e atentei para todas as opressões que se fazem debaixo do sol; e eis que vi as lágrimas dos que foram oprimidos e dos que não têm consolador, e a força estava do lado dos seus opressores; mas eles não tinham consolador” (BÍBLIA, Eclesiastes 4,1). Essas opressões eram tantas que faziam o autor refletir acerca da situação dos mortos serem mais ditosa do que a dos vivos: “Por isso eu louvei os que já morreram, mais do que os que vivem ainda. E melhor que uns e outros é aquele que ainda não é; que não viu as más obras que se fazem debaixo do sol” (BÍBLIA, Eclesiastes, 4,2-3). Em virtude de seu contexto histórico-literário, a maioria dos comentaristas defende que o autor do Livro de Eclesiastes era pertencente da região da Judéia, mais especificamente de Jerusalém e fazia parte da aristocracia, de uma família com muitas posses. No entanto, há muitas controvérsias acerca de quem escreveu o Livro de Eclesiastes, porém muito dos comentaristas concorda que o livro, tenha sido escrito por um discípulo de Salomão, personagem protagonista relatado nos escritos, segundo a afirmação que diz: “E, quanto mais sábio foi o pregador, tanto mais ensinou ao povo sabedoria; e atentando, e esquadrinhando, compôs muitos provérbios. Procurou o pregador achar palavras agradáveis; e escreve-as com retidão, palavras de verdade” (BÍBLIA, Eclesiastes, 12,9-10). Apesar desse fato, outras correntes afirmam que o perfil autobiográfico do escritor do livro aponta de modo inequívoco para Salomão. As evidências são muitas indicadas no próprio enredo do livro, umas delas apontam Salomão, "filho de Davi, rei de Jerusalém" (BÍBLIA, Eclesiastes, 1,1) e "rei de Israel, em Jerusalém" (BÍBLIA, Eclesiastes, 1,12), o que testifica sua autoria, pois o papel daquele que "ensinou ao povo o conhecimento" e escreveu "muitos provérbios" (BÍBLIA, Eclesiastes, 12,9) corresponde à sua vida. Outros textos bíblicos de outros livros como em I Reis nos capítulos 2 e 11, mostram a odisseia moral do autor e narra a sua vida, dando outros indícios. A teoria das citações é fundamental para compreender muitas nuances do seu gênero literário. Uma vez, sendo Salomão aceito como o autor, a data e a ocasião ficam evidentes. Provavelmente ele escreveu no final de sua vida, num período não posterior a c. 931 a.C, com a principal intenção de advertir os jovens de seu reino, sem omitir os demais. Diante do pressuposto, as discussões que circundam a respeito da autoria do livro e a origem do personagem, embora, de forma geral seja um aspecto importante, não nos limitaremos a essa análise neste artigo; de imediato, prioriza-se percorrer uma trajetória de investigação acerca do material crítico-literário através de muitos questionamentos em abertos disponíveis em termos de pesquisa referente a esta obra clássica da literatura. Portanto, na sequência, será abordado um esboço acerca da composição que engloba esse gênero literário, influenciado por influências da cultura grega e mesopotâmica presentes no livro de Eclesiastes, e consequentemente, os jargões que envolvem o autor do livro como sendo uma figura determinista, agnóstico, epicurista, hedonista, entre outros. 2. VISÃO PANORÂMICA DO LIVRO DE ECLESIASTES O título da obra “Eclesiastes” advém da Septuaginta do Antigo Testamento e é uma tradução da palavra hebraica Qoheleth que tem sua origem nas traduções grega e latina do livro de Salomão. A Septuaginta usou o termo grego ekklesiastes para seu título, que significa "pregador", derivado da palavra ekklesia, traduzido no Novo Testamento por "assembleia" ou "congregação". Tanto a versão grega como a latina tiraram seus títulos do título em hebraico, Qoheleth, que significa "alguém que chama ou reúne" o povo, o que dá a entender que o autor é professor ou pregador, ou seja, aquele que fala na congregação. Em razão da composição de seu conteúdo, não se trata de uma obra de fácil compreensão, na realidade, o seu autor estabelece uma linha de discussão consigo mesmo criticando os próprios pensamentos e ações, que de modo geral, segue uma estrutura literária composta de pelo menos um terço de poesia, mas com passagens narrativas. Para facilitar seu estudo, muitos autores costumam dividir o livro superficialmente em três partes: a primeira fala sobre a exposição dos argumentos com a tese de que tudo é vaidade (1.1-11); a segunda trata de uma reflexão acerca da prova de que tudo é vaidade (1.12- 6.12); e por último resulta na conclusão do conselho para viver com a vaidade (7.1-12.14). Em síntese, o esboço do mesmo está baseado na explanação, reflexão e conclusão do problema exposto, por intermédio da incapacidade da rígida aplicação do princípio da retribuição individual como forma de justificar o sucesso ou fracasso do ser humano no transcorrer de sua breve existência. Assim, o livro norteia a procurar refletir sobre o que o Qoheleth está indagando acerca do sentido da vida e sobre a retribuição dos atos humanos. Os argumentos são apresentados contrapostos à realidade a partir de presunções acordadas pela sabedoria tradicional, podendo ser aplicada a todos que tomar conhecimento através dos princípios extraídos das experiências de Salomão. Além do conhecimento empírico de Salomão, a construção narrativa histórica é pouca, o que, particularmente, se objetiva a responder a algumas das mais desafiadoras questões da vida. Essa característica representada por uma autobiografia dolorosa tem levado alguns estudiosos a concluir de modo equivocado que Eclesiastes é um livro de ceticismo. A mensagem principal do livro está declarada ao longo do texto pelo o autor diversas vezes, enfatizando o termo "tudo é vaidade", que inicia dizendo “Vaidade de vaidades, diz o Pregador; vaidade de vaidades, tudo é vaidade” (BÍBLIA, Eclesiastes 1,2) e o qual, finaliza praticamente com a mesma repetição “Vaidade de vaidade, diz o Pregador, tudo é vaidade” (BÍBLIA, Eclesiastes, 12,8). Esse termo ganha conotações diferentes no decorrer do texto, significando algo efêmero, que se refere a natureza transitória e fútil, destacando a condição amaldiçoada do universo e seus efeitos debilitantes sobre a experiência terrena do homem e enigmática, que considera as questões inexplicáveis da vida. Outros registros abordados no livro são as investigações e conclusões a respeito da vida de trabalho do homem, que combina todas as atividades e seus possíveis resultados, incluindo a satisfação limitada. No discurso do Livro de Eclesiastes, se concentra acerca da existência e ao mesmo tempo faz uma crítica à sabedoria tradicional. 3. DA EXISTÊNCIA A MORTE “O Eclesiastes não é um mero professor de sabedoria, ainda que mais honesto e direto que a maioria deles. Não é apenas amigo da afetação e da hipocrisia. É um homem com um medo desesperado de morrer antes de aprender a viver. Nada do que já fez, nada do que fará teria importância, pois um dia morrerá e será como se nunca tivesse vivido. E ele não consegue suportar este medo de morrer e desaparecer sem deixar um traço de si”. HAROLD KUSHNER 5 A discussão que se refere sobre a temática da existência e morte é percebida numa visão bastante atípica para a época, aliás, é algo que faz o autor do Livrode Eclesiastes ser conhecido em alguns momentos como um possível “ancestral do existencialismo”, o que segundo Campos (1991), seu 5 Quando tudo não é o bastante. São Paulo: Nobel, 1999, p. 22. estudo revela um livro muito importante para a crítica literária sobre esse aspecto. É nesse contexto existencialista, que o livro ganha outras proporções, pois até mesmo o ensinamento tradicional da religiosidade acerca de Deus é questionado, onde não existem argumentações que façam alguma menção sobre a possibilidade de existência de vida após a morte, nem mesmo a terminologia de céu ou inferno. É interessante observar a seguinte citação: “[...] O Eclesiastes nega radicalmente a retribuição terrena de bem e mal. Essa é uma das afirmativas mais importantes do livro de Eclesiastes: a experiência contesta as respostas tradicionais (Ec 7.25-8.14). A felicidade é algo fugaz e só se encontra consolo na fruição daquelas alegrias simples que o cotidiano é capaz de fornecer (Ec 3.12-13; 8.15; 9.7-9). Mas mesmo a fruição das alegrias cotidianas não consegue consolar o ser humano. Do começo ao fim ele permanece insatisfeito (Ec 3.21; 9.10; 12.7). Com isso, o Eclesiastes demonstra definitivamente que o esquema ação- retribuição não funciona mais. Mas o livro não traz respostas novas. As seguranças tradicionais, as antigas respostas de Israel estão abaladas, mas ainda não apareceu nada de novo em seu lugar” (SIEGER, apud, ZIEGLER, 2006, p. 56). Para Qoheleth o processo de recompensa por alguma obra não funcionam na sua concepção e, ele deixa claro o envolvimento direto do homem com sua existência no tempo presente. A polêmica toda gira em torno de um conteúdo existencial deprimente experimentado pelo ser humano no seu curto espaço de vida que dura até a morte. Para compreender a influência da literatura de Eclesiastes com ênfase da problemática existencial acerca da morte, fenômeno que marca a estrutura de toda narrativa em discussão, é preciso uma investigação baseada no pano de fundo da cultura ocidental, como é proposta por Bloom: “[...] Espanta-me ainda mais o fato de Coélet ter sido incluído no cânone, pois o foco principal é a mortalidade, e o livro considera o destino e o acaso (não mencionado em outros livros bíblicos, visto que são conceitos pagãos) fatores decisivos no estabelecimento da data da morte” (BLOOM, 2009, p. 36). Na visão do autor, a morte é um tema que sempre será evidenciado em análises, porém é necessário compreender como esse conceito surge em Qoheleth, ao ponto do livro ter sido incluído no cânone. Partindo do pressuposto de que a nacionalidade de Qoheleth era judaica, para Campos (1991) deve-se buscar na sua cultura o significado da palavra morte, por ser um tema muito enfático e repetitivo nessa obra. Nesse sentido, têm-se alguns subsídios através de uma breve análise do livro Antropologia do Antigo Testamento (2007) do exegeta alemão Hans Walter Wolff (1911 – 1993) que trata desse conceito no judaísmo Pré-exílico. O autor evidencia em sua obra, que o povo Judeu6 vivia sempre caracterizado por sua fé em um Deus único, com uma maneira peculiar de explicar a finitude, e distinguia em alguns aspectos dos egípcios, persas, babilônios, etc. Por esses povos terem uma compreensão de vida após a morte mais definida do que o povo judeu, tudo indica, que o pensamento judaico tenha sido influenciado posteriormente, uma vez que, entre esses povos, o conceito de vida eterna era bastante comum. Ziegler comenta que: “[...] ao contrário do livro do Eclesiastes, que se refere à morte como definitiva e anuladora de todas as coisas terrenas, para os egípcios o tumulo não representa tanto a “última morada” quanto uma “morada para a eternidade”, sutil mas importante diferença; é certo que o livro do Eclesiastes utiliza essa expressão em 12.5 (“[...] porque o homem já esta a caminho da casa de sua eternidade”) [...] mas ali ela não pode ser interpretada da mesma forma como o fazem os egípcios” (ZIEGLER, 2006, p. 67). É certo de que na visão de Qoheleth, a morte sempre parece apontar constantemente para uma finitude definitiva do ser onde descarta a perspectiva de imortalidade da alma e da vida eterna. Porém, numa tentativa de demonstrar a diversidade de ideias acerca da morte presentes no judaísmo, podemos encontrar uma defesa dos ensinamentos, que afirmam a existência de um ser interior que sobrevive à morte do corpo físico e se apresenta em outro plano de existência, como pronuncia Gerard acerca da comunidade israelita: “[...] Não havia como duvidar da continuação da existência do morto, sobretudo quando ritualmente garantida; ele, portanto, apenas havia passado por uma transformação e representava, mais que em sua vida terrestre, um poder com que os vivos tinham que contar. Consequentemente (sic) havia um interesse profundo em manter em ordem a relação dos vivos com os mortos. É que os mortos poderiam causar algum mal. Mas também era possível tirar proveito do conhecimento superior deles. Essas concepções eram, portanto, muito familiares a Israel, como vemos pela sua constante tentação de 6 A morte no judaísmo não tem um conceito fixo. As interpretações dos conceitos metafísicos e dos procedimentos a serem realizados, varia conforme as épocas e as interpretações das diversas correntes judaicas. Não há uniformidade quanto à crença de vida após morte, com perspectivas variando desde reencarnação até a mortalidade da alma.”. MORTE NO JUDAÍSMO. In: Wikipédia, a enciclopédia livre. Disponível em: Acesso em: 02 Jun. 2016. https://pt.wikipedia.org/wiki/Reencarna%C3%A7%C3%A3o consultar os mortos ainda na época de Isaías e do deuteronômio (Is 8. 19; Dt 18. 11)” (RAD, 2006, p. 269, 270). Devido os antigos hebreus não dispor de nenhum ensinamento específico quanto à existência de vida depois da morte, ou a compreensão de um mundo para além daquele que eles viviam, de certa forma, isso restringia muito o conceito de vida e não supria suas perspectivas que decorriam de sua crença a um Deus criador e soberano. Esse fato contribuiu para a ideia de vida após a morte entre os judeus, por uma questão de necessidade de retribuição, uma vez que as promessas por parte do Criador não poderiam estar limitadas apenas a existência terrena. Assim, o conceito de vida pós-morte e de ressurreição dos mortos só surge na doutrina judaica primitiva, por volta do século IV ou V a.C, apesar do tema não afirmar claramente a sua existência nas Escrituras Judaicas. O que se observa é um pensamento rígido que reduz a nada a doutrina da sobrevivência da alma em um mundo transcendente, relatada no Livro de Eclesiastes, onde Qoheleth destaca a impossibilidade de esperança em todo o processo, no qual a morte é o fim de toda a atividade humana: “Para aquele que está entre os vivos há esperança; porque mais vale um cão vivo do que um leão morto. Porque os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem tampouco terão eles recompensa, porque a sua memória jaz no esquecimento” (BÍBLIA, Eclesiastes, 9,4-6). De forma geral, no que concerne ao conceito clássico de morte no pensamento judaico antigo, é não haver possibilidade de vida pós-morte ou mesmo anterior a existência, nos moldes de Platão e dos pitagóricos. Para Qoheleth a morte é o maior de todos os problemas que aflige os homens, sem solução, insuperável, e não há como combatê-la: “Porque para todo propósito há tempo e o modo; porquanto é grande o mal que pesa sobre o homem. Porque este não sabe o que há de suceder; e, como há de ser, ninguém há que lho declare. Não há nenhum homem que tenha domínio sobre o vento para o reter; nem tampouco tem ele poder sobre o dia da morte; nem há tréguasnesta peleja; nem tampouco a perversidade livrará aquele que a ela se entrega” (BÍBLIA, Eclesiastes, 8,7-8). Na sua declaração, a morte se trata de uma guerra perdida para o homem que “ainda que aquele viesse duas vezes mil anos” (BÍBLIA, Eclesiastes, 6,6) não teria como vencê-la, sendo assim, torna-se a principal causa das frustações humanas. É por isso que ao longo de todo o contexto da história do povo judaico a morte era apresentada como algo indesejado e impuro, até mesmo, para aqueles que tocavam em cadáver tornavam-se igualmente impuros. Nos textos de Eclesiastes também há uma singularidade do pensamento quanto à morte e denuncia que “a morte é a grande niveladora, não só dos justos e injustos, sábios e nécios, mas também de homens e animais [...]” (LÍNDEZ, 1999, p. 442). Especificamente nos textos durante todo o discurso do sábio Qoheleth tenta demonstrar essa fragilidade diante da realidade de que a morte é totalmente aniquiladora, tornando-se, assim, o fim absoluto da existência para qualquer ser vivente. “Pois tanto do sábio como do estulto, a memória não durará para sempre; pois passados alguns dias, tudo cai no esquecimento. Ah! Morre o sábio, e da mesma sorte, o estulto” (BÍBLIA, Eclesiastes, 2,16). 4. A TESSITURA DA TEMPORALIDADE EM QOHELETH "Então, o que é o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; se quiser explicá-lo a quem me pergunta, não sei". (Confissões, Livro XI). A questão da temporalidade é extremamente importante para tecermos algumas considerações no contexto inserido por Qoheleth. O autor discursa acerca do tempo, imerso por uma pressão para realizar todas as atividades “debaixo do céu”, sob uma perspectiva de saudosismo melancólico. Ele percorre o tempo pretérito expresso por crises e incertezas acrescentando lembranças de um passado de grande prosperidade como ingredientes que aprofundam ainda mais a sua tristeza. O texto base para a reflexão será abordado com ênfase na argumentação a respeito do tempo enquanto momentos que se sucedem e, sobretudo enquanto oportunidade, escolha e decisão, explícitos no capítulo 3 do Livro de Eclesiastes. E, para designar a dimensão da palavra tempo, historicamente, há uma compreensão acerca de Aíon, Kairós e Kronos. A partir dessa classificação é possível estabelecer um norte para distinguir a temporalidade em Qoheleth. Nos capítulos 1 e 2, o tempo decorre de um período de bonança e fartura, onde nitidamente, Salomão, filho de Davi, reinou por quarenta anos em Jerusalém (962 a 922 a.C), revelando-se por um empreendedor excepcional, onde descreve um passado que se deseja repetir. Em Aion, alcançamos a dimensão do eterno, da finalidade da expansão, da justa medida imprecisa entre a imanência e a transcendência. Porque este é o "não tempo". E "não tempo" também é tempo. Imensurável. Tempo do para sempre 7 . No período em que Salomão assumiu o trono, os impérios Assírios, Babilônicos e os Egípcios enfrentavam crises internas e, portanto não ofereciam ameaças a Israel, onde Salomão soube aproveitar as oportunidades no momento de pacificação, o que proporcionou um tempo de grande prosperidade econômica e florescimento cultural. “Não era guerreiro, e tinha pouca necessidade de o ser, pois nenhum inimigo externo ameaçava seu reino. Politicamente, seu dever também não o era o de defender o estado ou ampliá-lo, mas de conservá-lo unido. E nisto, na maioria das vezes, foi bem sucedido” (BRIGHT, 1978, p. 276). Contudo, em face de muita soberba e riqueza, Salomão revelava uma personalidade contraditória as suas convicções internas, onde passou a empregar práticas religiosas incompatíveis com o que se adotava na fé de Israel, se comprometeu em casamentos com várias mulheres para ratificar alianças com outros povos, entre outras coisas, que sua cobiça indisfarçável e os delírios de grandeza se misturavam gradativamente com sua sabedoria, conforme relatos do historiador: Ele era naturalmente um homem de grande astúcia, capaz de realizar plenamente as potencialidades econômicas criadas por Davi. Ao mesmo tempo, ele manifestou em outras áreas uma cegueira tal, para não dizer estupidez, que apressou a desintegração deste império. (BRIGHT, 1978, p. 276). No capítulo 3 do Livro de Eclesiastes, o autor faz a seguinte declaração: 7 Extraído de artigo “aíon, kronos e kairós”. http://www.biocentrum.com.br/2012/03/os-tempos-em-aion-kairos-e-kronos-por.html “Tudo tem seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu: há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar e tempo de curar; tempo de derribar e tempo de edificar; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de saltar de alegria; tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar; tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de deitar fora; tempo de rasgar e tempo de coser; tempo de estar calado e tempo de falar; tempo de amar e tempo de aborrecer; tempo de guerra e tempo de paz. Que proveito tem o trabalhador naquilo com que se afadiga? Vi o trabalho que Deus impôs aos filhos dos homens, para com ele os afligir. Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até o fim.” (BÍBLIA, Eclesiastes, 3,1-8). Nesses versículos que compõem a dialética de Salomão, ele usa a expressão tempo, que é traduzido pela Septuaginta8 por kairós numa frequência de pelo menos 30 ocorrências, como tradução do termo hebraico zeman9. Kairós é uma espécie de tempo que exige bastante atenção e prontidão, por ser uma passagem rápida, onde não há espaço para protelação, procrastinação e displicência. Seja como for, o que é realçado pelo autor a esse respeito, não reside no tempo que é determinado pela ampulheta, mas nas estações próprias que se apresentam diante da existência de formas variadas. Através da sua dialética, o autor revela que o kairós inclui na existência tanto por momentos que possam ser celebrados quanto por experiências que conduzem ao quebrantamento. Nesse caso, bem e mal recebem significados distintos daqueles que a sociedade moderna estabeleceu, contextualizando o bem a situação de experiências prazerosas e confortáveis e o mal como sendo aqueles momentos de dramaticidade. A grande dificuldade de compreensão da mensagem qohelética é devido à relação com a aparente contradição entre a cosmovisão hebraica acerca da linearização do tempo e a visão cíclica e repetitiva apresentada pelo autor, sobretudo no capítulo 1. “Geração vai e geração vem; mas a terra permanece para sempre. Levanta-se o sol, e volta ao seu lugar, onde nasce de novo. O vento 8 Septuaginta, ou tradução dos LXX (setenta). Resultado de séculos de esforços de tradução para o grego do Antigo Testamento a partir do período pós-exílio. 9 Significa “uma ocasião estabelecida”, “um tempo marcado ou determinado” ou “certo tempo”. Essa mesma expressão somente é encontrada na literatura posterior dos seguintes livros bíblicos (Neemias 2.6; Ester 9.27; 31 e Daniel 2.16; 7.12,25). vai para o sul e faz o seu giro para o norte; volve-se, e resolve-se, na sua carreira, e retorna aos seus circuitos. Todos os rios correm para o mar, e o mar não se enche; ao lugar para onde correm os rios, para lá tornam eles a correr.” (BÍBLIA, Eclesiastes, 1,4-7). Por fim, vale a pena finalizar esta seção com uma reflexão de Jostein Gaarder10 em “O castelo dos Pirineus”: “Não sabemos quando há de ser, mas um dia nós iremos embora deste carnaval cheio de máscaras e papéis, legando apenas alguns bens passageiros que depois também serão varridos.Somos obrigados a sair do tempo, disto que chamamos de realidade” (GAARDER, 2010, p. 8-9). 5. A PRECARIEDADE DO HOMEM A visão do campo das relações inter-humanas por Qoheleth se confundem com outras definições de precariedade vistas em alguns fragmentos em relação à concepção do homem na antiguidade. “ 11 Quais folhas criadas pela estação florida da primavera, quando de súbito crescem sob os raios do Sol, assim somos nós: por um tempo de nada nos deleita a flor da juventude, sem conhecermos o mal ou o bem que vêm dos deuses. Ao lado, estão as Parcas tenebrosas, uma, detentora da velhice medonha, a outra, da morte. Pouco dura o fruto da juventude — o tempo de o sol derramar a sua luz sobre a terra. E depois, logo que chega o fim da estação, melhor é morrer logo que viver, pois são muitos os males que surgem no nosso coração: ora é a casa que cai em ruína, e os efeitos dolorosos da pobreza; outro não tem filhos, e, sentindo a sua falta, desce ao Hades, debaixo da terra; outro tem doença que destrói a vida. Não há homem a quem Zeus não dê muitos infortúnios” (5A. MIMNERMO DE CÓLOFON, fr. 2 Diehl). Agora, observe o que fora dito em alguns trechos no Livro de Eclesiastes: “Que proveito tem o trabalhador naquilo com que se afadiga? Vi o trabalho que Deus impôs aos filhos dos homens, para com ele os afligir. Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até o fim” (BÍBLIA, Eclesiastes, 3,9-11). 10 É um escritor e professor de filosofia de nacionalidade norueguesa, que ficou conhecido por sua obra: “O mundo de Sofia” publicado em 1991. 11 David Mourão-Ferreira em Imagens da Poesia Europeia, 1º Vol., Lisboa, 1970, reeditado em Colóquio|Letras, nos. 166/167, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Janeiro-Junho de 2004. https://pt.wikipedia.org/wiki/Literatura https://pt.wikipedia.org/wiki/Professor https://pt.wikipedia.org/wiki/Filosofia Qoheleth afirma em outro versículo que “pelo que tenho por mais felizes os que já morreram, mais do que os que ainda vivem; porém mais que uns e outros tenho por feliz aquele que ainda não nasceu [...]” (BÍBLIA, Eclesiastes, 4,2). Fazendo uma analogia do fragmento citado com Qoheleth, é possível afirmar que há uma constatação semelhante repetida em ambos os textos com ênfase na precariedade do homem, cujo conceito arcaico está fundamentado numa visão crítica da realidade e, consequentemente, da crítica implacável que faz ao que se ensinou tradicionalmente, confrontando-o através da negação de qualquer recompensa. Nesse contexto em busca de uma definição existencial do homem em que a duração de sua juventude é efêmera, nefasto e funesto, Qoheleth apresenta absolutamente tudo o que o homem tem ao seu alcance e, tudo o que se firma e se sucede debaixo do sol é vazio, fumaça, vaidade, e andar atrás disso é “correr atrás do vento”. 12 “A sorte dos mortais cresce num só momento e um só momento basta para a lançar por terra, quando o cruel destino a venha sacudir. Efêmeros, que somos? Que não somos? O homem é o sonho de uma sombra. Mas quando os deuses lançam sobre ele a sua luz, claro esplendor o envolve e doce é então a vida” (5C. PÍNDARO, Odes Pítacas, VIII, 95-98). Em parte, através da citação do poema, é intencional aduzir uma série de testemunhos que razoavelmente possa reconhecer o senso da precariedade da vida, somados pela dramaticidade e melancolia, podendo-se extrair, ao mesmo tempo com suas luzes e suas sombras; pois, apesar de todos os pesares: “Doce é a luz, e agradável aos olhos, ver o sol” (BÍBLIA, Eclesiastes, 11,7). Em geral, a tentativa persistente de Qoheleth de compreender a existência das coisas e da vida humana em particular, acaba de certa forma fracassada, em razão do pessimismo que reside na incapacidade do homem de compreender as obras de Deus: “Então, contemplei toda a obra de Deus e vi que o homem não pode compreender a obra que se faz debaixo do sol; por mais que trabalhe o homem para a descobrir, não a entenderá [...] (BÍBLIA, 12 Poema: Píndaro - "O Sonho de uma Sombra" (8º pítica, excerto). Tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos. Tradução integral da 8ºpítica por Trajano Vieira. http://primeiros-escritos.blogspot.com/2008/03/serenidade-filha-benvola-da-justia.html Eclesiastes, 8,17). Assim, para ele é evidente que a morte põe fim definitivo à única vida do homem, ou “[...] durante os poucos dias da sua vida” (BÍBLIA, Eclesiastes, 2,3), ou seja, “os dias de sua vida que Deus lhe concedeu sob o sol” (BÍBLIA, Eclesiastes, 8,15), “os dias de tua vida fugaz que Deus te concedeu sob o sol” (BÍBLIA, Eclesiastes, 9,9). Em suas investigações outorga paradoxalmente a seus múltiplos pensamentos valor transcendental, que relativiza tudo quanto existe ao que se pode fazer debaixo o sol. Para Qoheleth, a experiência concreta sem abstratos, parece ser sua norma suprema de contraditórios, distantes das apologias tradicionais que o confortasse. É evidente que a precariedade do homem do ponto de vista moderno se contrapõe com as ideias implicadas por Salomão, porém, não obstante sua antiguidade, suas palavras parecem recém-pronunciadas e, causam uma surpreendente semelhança com o homem hodierno que tende a manifestar seu espírito contraditório no transcorrer do tempo. Apesar de uma época bem remota, provavelmente, essas afirmações são atemporais, uma vez que reina a instabilidade cosmológica acerca da existência humana. 6. QOHÉLET X FILÓSOFOS Na construção dos ideais questionados por Qoheleth, quanto à transitoriedade e a velocidade como tudo ocorre durante a vida debaixo do sol, é inevitável não fazer uma conjectura com outros pensadores da filosofia num curto espaço reflexivo. Para tanto, é preciso lembrar um pouco desses conceitos. Relembrando os Pré-Socráticos, filósofos da physis, buscavam através de um elemento, o princípio de todas as coisas, denominado de arché. Assim, resumidamente, Tales pensou na água, Anaxímenes no ar, Empédocles nos quatro elementos (água, fogo, terra e ar); Todavia, Anaximandro imaginou uma substância intangível, o ápeiron. Porém, é a partir de Heráclito, que a constituição cosmológica muda substancialmente o foco da pesquisa filosófica, que suplantava as instâncias do campo físico, ou seja, no devir, na constante transformação, onde se inaugura a partir de então, uma visão metafísica da realidade. No contexto, do Livro de Eclesiastes, embora, não se buscasse um princípio material existencial para todas as coisas como na maioria dos Pré- Socráticos, pode-se identificar a palavra “vaidade” repetida inúmeras vezes, para indicar o quanto o espírito humano é variável e falível, não possuindo subsídio suficiente para perceber que o fluxo de mudanças captadas pelos sentidos é ilusório, o que pode ser associado com as ideias de Parmênides e também com a oposição ao panta rei de Heráclito, que se refere à unidade da multiplicidade. Para Heráclito, apesar de uma aparente imobilidade, o universo é dinâmico e encontra-se em constante transformação, no qual, as mudanças resultantes desse processo, são explicadas pelo fluxo de contrários, que acabam por se harmonizar no cosmos. Sua compreensão acerca dos opostos se torna necessário para que um venha a existir e, portanto, inseparáveis, temos o sentido de que tudo é um. O ser sempre existirá, pois é um, mas esse um sempre será múltiplo, uma vez que tudo flui (panta rei). “Em rio não se pode entrar duas vezes no mesmo” (HERÁCLITO, 1973, p. 94). Ao contrário, Parmênides “propõe uma ideia, doutrina contraditoriamente oposta à de Heráclito, onde o real é o ser e não o devir e este é apenas aparência do sensível, pois,se o ser estivesse sujeito à mudança, viria do não ser, que é absurdo” (JOLIVET, 1972, p. 37). [...] o ser é e não pode não ser; o não ser não é e não pode ser de modo algum. Pois bem, eu te direi [...] apenas em que caminhos de busca se pode pensar: um que é o ser é e não é que não seja [...]. é necessário dizer e pensar que o ser seja: com efeito, o ser é, o nada não é. Um só caminho resta ao discurso: o que o ser é. (REALE; ANTISERI, 1990, v. 1, p. 50-51). Parmênides acreditava na permanência igualitária de um mesmo Ser, em que não é possível que algo exista e não exista ao mesmo tempo, isso porque ele pensava a realidade como a existência do Ser, nas coisas que existem essencialmente. É nessa questão sobre a imobilidade do Ser que Qoheleth se assemelha com Parmênides, no sentido em que se refere a aparências, através do emprego do termo “vaidade” sugerir uma ideia de subsistência da realidade, onde se dá pela impossibilidade da transformação: “Geração vai e geração vem; mas a terra permanece para sempre. Levanta-se o sol, e volta ao seu lugar, onde nasce de novo. O vento vai para o sul e faz o seu giro para o norte; volve-se, e resolve-se, na sua carreira, e retorna aos seus circuitos. Todos os rios correm para o mar, e o mar não se enche; ao lugar para onde correm os rios, para lá tornam eles a correr. Todas as coisas são canseiras tais, que ninguém as pode exprimir; os olhos não se fartam de ver, nem se enchem os ouvidos de ouvir. O que foi é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer; nada há, pois novo debaixo do sol. Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Não! Já foi nos séculos que foram antes de nós. Já não há lembrança das coisas que precederam; e das coisas posteriores também não haverá memória entre os que hão de vir depois delas” (BÍBLIA, Eclesiastes, 1,4-11). Percebe-se na seguinte afirmação “nada há, pois novo debaixo do sol”, onde Qoheleth certifica e estabelece uma diferenciação que, desta vez, leva- nos a uma correspondência platônica, no sentido da possibilidade de enxergar a essência das coisas, pois para ambos se imaginam existir um lugar onde habite essa essência, eterna, imutável e absoluto. Para Qoheleth, essa figura está representada por Deus, e para Platão seria o Hiperurânio (supra celeste, o que está acima dos céus), onde ambos associam e se assemelham com o habitáculo de um mundo inteligível, que somente é perceptível pelo intelecto. Nesse caso, os autores se distanciam radicalmente do materialismo para vislumbrar a questão do Ser permanente referente a Parmênides. Outra descrição que pode ser feito uma analogia com outros filósofos encontra-se na seguinte passagem: [...] Sei que tudo quanto Deus faz durará eternamente, nada se lhe pode acrescentar e nada lhe tirar; e isto faz Deus para que os homens temam diante dele. O que é já foi, e o que há de ser também já foi; Deus fará renovar-se o que se passou (BÍBLIA, Eclesiastes 3,14-15). Nesta afirmação metafísica feita por Qoheleth, se constata uma referência ética que se opõe à lógica judaico-cristã. Caso o mundo seja imutável, acaba se tornando inútil para o ser humano procurar antecipar ou postergar sua própria existência, pois o que deve ser aproveitado da vida é o momento, sem, no entanto, a absorção de princípios materialistas. Essa característica percebida por Qoheleth aproxima com o pensamento dos estoicos. “Se no estoicismo a natureza se identifica a um Deus único, imortal e feliz, se os fatos se ligam e se passam de acordo com o destino e a necessidade; se tudo é governado pelo Deus, hálito de fogo, espírito ou Logos, autor do universo, e o homem deve submeter-se a essa razão universal” (NOVAK, 1999, p. 260) Ao mesmo tempo se distancia dos epicuristas, porque essa vivência se dá sem uma busca desenfreada de prazer, mas de resignação pelo que é possível alcançar, pois no epicurismo “os deuses, eternos, perfeitos, admiráveis e imitáveis, nada têm a ver com a vida humana ou com os fenômenos da natureza” (Pyth. §97). Em razão de um aspecto negativista e pessimista, o Livro de Eclesiastes se equipara a um Shopenhauer bíblico, justamente pelas inúmeras referências que faz à inexorabilidade do destino, que é a morte. Em Qoheleth, a morte funciona como um fundamento igualitário a qualquer ser humano: o rei e o plebeu, o rico e o pobre, o sábio e o tolo, o poderoso e o escravo, todos tem um final comum e um fardo a carregar, o esquecimento. Shopenhauer defende que viver é sofrimento, pois ao buscar motivações, o homem estaria apenas nutrindo a vontade de estar vivo, em virtude de mais cedo ou mais tarde, a paz que o homem procura na felicidade se traduzirá em tédio. Assim, estaríamos vivendo sempre na expectativa de um novo desafio, como diz o trecho: A vida do homem é um combate perpétuo, não só contra males abstratos, a miséria, os aborrecimentos, mas também contra os outros homens. Em toda parte encontra-se um adversário: a vida é uma guerra sem tréguas, e morre-se com as armas na mão (SCHOPENHAUER, 2014. p. 26). Fica evidente que para Schopenhauer a morte é sinônimo de alívio dessa luta incessante, pois a Terra é o próprio inferno. Ele chega a usar a força de expressão de que “os demônios estariam cumprindo pena se resolvessem possuir os homens” (SCHOPENHAUER, 2014. p. 30). A complexidade que o Livro de Eclesiastes apresenta é diversa, e as conjecturas não acabam por aí, desta vez sob uma ótica Nietzschiana acerca do Aforismo Eterno Retorno13: 13 O eterno retorno é um conceito filosófico do tempo postulado, em primeira vez no ocidente, pelo estoicismo e que propunha uma repetição do mundo no qual se extinguia para voltar a criar-se. Sob esta concepção, o mundo era retornado a sua origem através da conflagração, https://pt.wikipedia.org/wiki/Estoicismo “E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!” Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: “Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: “Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?” Pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?” (NIETZSCHE, 1978, p.208 ). A indagação que Nietzsche nos faz é propor uma experimentação intelectual na sua doutrina do Eterno Retorno, não se tratando de uma negação da vida, pelo contrário, nos remete a uma afirmação da vida. Nietzsche não busca uma saída para aquilo que seria uma maldição na vida, mas sim um tipo de aceitação, ou afirmação desta vida, por amor ao destino já que ele especula o curso de todo o conjunto da história de maneira cíclica. Isso proporciona ao ser humano um crescimento, quando se experimenta um declínio, ou vice- versa, ou seja, são faces de uma mesma moeda em que não haja demarcações de tempo, de tal modo, que segundo Nietzsche “os homens não têm de fugir à vida como os pessimistas, mas como alegres convivas de um banquete que desejamsuas taças novamente cheias, dirão à vida: uma vez mais” (NIETZSCHE, 2000, p.10). Assim como Nietzsche, Qoheleth insinua que "não há nada melhor para o homem do que comer e beber, e fazer que a sua alma goze do bem do seu trabalho. Vi que também isso vem da mão de Deus" (BÍBLIA, Eclesiastes, 2,24). onde tudo ardia em fogo. Uma vez queimado, ele se reconstruía para que os mesmos atos ocorressem novamente. Para Nietzsche se trata de um conceito inacabado, trabalhado em vários de seus textos (Em "Assim falou Zaratustra"; aforismo 341 de "A gaia ciência"; aforismo 56 de "Além do bem e do mal"; e trechos dos fragmentos póstumos, que podem ser encontrados no livro "Nietzsche" da coleção "Os Pensadores", da Abril Cultural). Ele mesmo considerava como seu pensamento mais profundo e amedrontador, que lhe veio à mente durante uma caminhada, ao contemplar uma formação rochosa. https://pt.wikipedia.org/wiki/Assim_falou_Zaratustra https://pt.wikipedia.org/wiki/Aforismo https://pt.wikipedia.org/wiki/A_gaia_ci%C3%AAncia https://pt.wikipedia.org/wiki/Al%C3%A9m_do_bem_e_do_mal https://pt.wikipedia.org/wiki/Al%C3%A9m_do_bem_e_do_mal Da mesma maneira, em Eclesiastes, Qoheleth explora as áreas da vida em que a pretensão se desliga da realidade. Observe como ele focaliza a natureza cíclica da vida em uma diversidade de versículos; “Geração vai e geração vem; mas a terra permanece para sempre. Levanta-se o sol, e volta ao seu lugar, onde nasce de novo. O vento vai para o sul e faz o seu giro para o norte; volve-se, e resolve-se, na sua carreira, e retorna aos seus circuitos. Todos os rios correm para o mar, e o mar não se enche; ao lugar para onde correm os rios, para lá tornam eles a correr. Todas as coisas são canseiras tais, que ninguém as pode exprimir; os olhos não se fartam de ver, nem se enchem os ouvidos de ouvir. O que foi é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer; nada há, pois novo debaixo do sol. Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Não! Já foi nos séculos que foram antes de nós. Já não há lembrança das coisas que precederam; e das coisas posteriores também não haverá memória entre os que hão de vir depois delas” (BÍBLIA, Eclesiates, 1,4-11). “O que já foi, e o que há de ser também já foi; Deus fará renovar-se o que se passou” (BÍBLIA, Eclesiates, 3,15). “[...] e o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu” (BÍBLIA, Eclesiates, 12,7). Analisando o discurso de Nietzsche com Qoheleth, verifica-se que ambos apontam contradições e dilemas na vida, e categoricamente afirmam que o ser humano deveria desfrutar a vida aqui e agora. Assim, nesses dois pensadores nós encontramos imperativos idênticos com indicativos opostos. Para Nietzche, o homem deve desfrutar a vida (imperativo) porque ela é tudo que existe (indicativo), enquanto, Qoheleth afirma que o homem deve desfrutar a vida (imperativo) precisamente porque aquilo que nós ele vê não é tudo o que existe (indicativo). 7. CONSIDERAÇÕES FINAIS Evidentemente não se tem a presunção de findar este artigo esgotando todas as possibilidades de leituras e interpretações da obra, pelo contrário, pretende-se ao menos apresentar uma intertextualidade do Livro de Eclesiastes com outros textos exteriores, a partir de análises que não tem a intenção de fechar os questionamentos dos temas abordados neste ensaio, sob o aspecto narrativo de Qoheleth que se baseia fundamentalmente em uma forma introspectiva, crítica e reflexiva. Isto pode ser evidenciado diante da retrospectiva do livro se isentando, exclusivamente, de uma simples narrativa que privilegiasse apenas o seu fator histórico. Pode-se concluir que o enredo do livro se torna complexo, uma vez que mescla vários temas, que não depende, necessariamente, de um motivador histórico, mas revestido por um pano de fundo que provoca sua marca de angústia existencialista, evidenciadas por crises e precariedades da vida num curto espaço de tempo, onde a própria vida é um mistério de difícil desdobramento. Em síntese, é nessa perspectiva que o Livro de Eclesiastes pensa o presente e a vida inserida no tempo perceptível ao intelecto. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS A BÍBLIA SAGRADA. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil. 1993. BLOOM, Harold. Onde encontrar a sabedoria?. Tradução José Roberto O’Shea. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. BRIGHT, Jonh. História de Israel. Trad. Euclides Carneiro da Silva; Rev. José Carlos Fernandes. São Paulo: Paulinas, 1978. p. 692. CAMPOS, Haroldo de. 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