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AULA 3 PERÍCIA AMBIENTAL Prof. Klaus Dieter Sautter 2 TEMA 1 – PRINCÍPIOS DO DIREITO AMBIENTAL Consideramos o Direito Ambiental como um conjunto de regras que são sistematizadas, com a finalidade de disciplinar o comportamento humano, visando, basicamente, proteger o meio ambiente. Como em todas as áreas do Direito, o Direito Ambiental é baseado em Princípios, Jurisprudência, Atos Normativos (legislação), e Doutrina (Figura 1). Figura 1 – Bases do Direito Ambiental Fonte: Sautter, 2021. A Jurisprudência é o conjunto de decisões e interpretações da legislação, que são feitas por tribunais superiores, conforme as situações de fato apresentadas. Atos Normativos são os diferentes tipos de legislação (Lei Ordinária, Portaria, etc.). Dizemos que Doutrina é o conjunto de ideias fundamentais que são transmitidas por juristas mais experientes, advindas de sua interpretação dos atos normativos. E os Princípios são o alicerce, a base, isto é, consideramos como Princípios proposições elementares e fundamentais que atuam como base de determinado ramo do Direito, atuam como uma proposição lógica básica para a evolução do Direito. O Princípio jurídico normalmente toma forma em um enunciado lógico, seja explícito ou implícito, vinculando de modo inequívoco o entendimento e a aplicação dos atos normativos jurídicos. acabando por agir como regra básica de aplicação do Direito e influenciando o desenvolvimento de outras fontes, como a Doutrina, Jurisprudência e Atos Normativos. O Direito Ambiental possui alguns Princípios básicos que norteiam a criação e interpretação da Legislação ambiental. Vamos examinar alguns destes Princípios? 3 1.1 Princípio do direito humano fundamental Neste Princípio, é afirmado que o meio ambiente pertence a todos, isto é, não deve ser considerado como propriedade privada, mas sim de toda a sociedade. Cabe aos eleitos pela sociedade (Poder Executivo e Legislativo), bem como ao Poder Judiciário, a defesa do meio ambiente, em nome da sociedade. 1.2 Princípio democrático No Princípio Democrático, é afirmado que todos têm direito à informação e participação na elaboração das políticas públicas ambientais, não cabendo isso somente ao Direito Ambiental, mas a todas as áreas do Direito. Este Princípio é alcançado por diferentes atos realizados, como Audiências Públicas, Ações Populares, Ação Civil Pública etc. 1.3 Princípio da precaução Este Princípio prega que só poderemos fazer alguma modificação no meio ambiente se soubermos que estas intervenções não causem efeitos adversos sobre ele. Se houver dúvidas, o ideal é que estas ações não sejam efetivadas. 1.4 Princípio da prevenção O Princípio da Prevenção, muitas vezes, é ligado de forma íntima ao Princípio da Precaução. Enquanto o Princípio da Precaução prega que se não conhecermos os efeitos das atividades humanas no ambiente, não devemos torná-las efetivas, o Princípio da Prevenção coloca que devemos procurar saber quais são os efeitos destas atividades sobre o meio, para então definirmos como devemos agir. Este princípio é muito utilizado no mundo inteiro, inclusive no Brasil, na forma do Licenciamento Ambiental e do Estudo de Impactos Ambientais (EIA), onde, em primeiro lugar, estudamos o estado atual do meio ambiente. Após determinados os impactos, os danos, que essas atividades podem provocar, só então definimos como e se essas atividades serão efetivadas, isto é, colocadas em prática. 4 1.5 Princípio da responsabilidade Este Princípio determina que o poluidor deve responder por suas ações ou mesmo omissões, que resultem em algum prejuízo ao meio ambiente. Este Princípio encontra um forte representante na Lei de Crimes Ambientais. 1.6 Princípios do usuário pagador e do poluidor pagador Estes dois Princípios estão ligados ao Princípio da Responsabilidade. No Princípio do Usuário Pagador fica determinado que o usuário de um certo recurso natural deve pagar pelo uso. É o caso típico do pagamento pelo uso da água pelo consumidor, seja pessoa física ou jurídica. O montante arrecadado deve ser direcionado para os Comitês de Bacias Hidrográficas, e investidos na recuperação ambiental, educação ambiental, etc. Já o Princípio do Poluidor Pagador sustenta a ideia de que quem polui ou degrada deve assumir os custos de reparação destes danos ambientais causados. São os casos das sanções penais (prisão, por exemplo) e administrativas (multas, por exemplo). A base contida neste Princípio é a de que o poluidor deve internalizar os custos ambientais causados por sua atividade. Este Princípio tem grande efetividade quando as sanções penais e administrativas são maiores que a internalização dos custos ambientais, fazendo com que o poluidor opte por tomar iniciativas de controle ambiental ou não poluição, em detrimento à poluição ambiental. 1.7 Princípio do limite O Princípio do Limite sustenta que a Administração Pública, seja em nível municipal, estadual ou federal, tem o dever de definir parâmetros máximos e/ou mínimos de poluição admitidos pela sociedade, como, por exemplo, emissão de partículas no ar, poluição do solo, poluição do ar, ruídos, etc. Estes parâmetros podem ser definidos, mantidos e modificados ao longo do tempo, através de diferentes atos normativos. 1.8 Princípio do desenvolvimento sustentável Este Princípio prega que o desenvolvimento econômico deve estar ligado à menor degradação ambiental possível, e isso deve ser conduzido através do uso 5 racional dos recursos naturais renováveis e não renováveis, isto é, o desenvolvimento econômico e social deve ser compatibilizado com a preservação do meio ambiente e com o equilíbrio dos ecossistemas. TEMA 2 – POLÍTICA NACIONAL DO MEIO AMBIENTE Desde a Segunda Guerra Mundial, que terminou em 1945, o mundo inteiro passou a experimentar um grande avanço na agricultura e na indústria. Porém, o custo para este avanço foi o consumo exagerado de recursos naturais e a poluição ambiental. A partir da década de 1960, o ser humano começou a se preocupar se aquilo que estávamos fazendo era correto ou não. Em 1972, em Estocolmo, na Suécia, foi realizada a primeira grande Conferência Internacional sobre o Meio Ambiente. A partir daí, debates intensos foram travados sobre a importância de se preservar o ambiente a nossa volta. Uma das conclusões que se chegou nesta conferência foi que Poluir é Crime. Para a aplicação prática desta ideia básica, os países participantes iniciaram uma escalada de proteção ambiental, principalmente através da aprovação de legislação específica. O Brasil, dentro desta iniciativa, promulgou, em 31 de agosto de 1981, a Lei n. 6.938, também chamada de Política Nacional do Meio Ambiente (Brasil, 1981), estabelecendo, desta maneira, conceitos básicos, princípios, objetivos, necessidade de instrumentos, penalidades e outros, com a intenção da correta gestão e proteção de nossos recursos naturais. A Política Nacional do Meio Ambiente (PNMA), pode ser considerada como uma “Constituição Ambiental” de nosso País. Ela é que desenvolve as diretrizes ambientais, que servirão de apoio para a criação de novas legislações, bem como determinar o comportamento da sociedade perante o meio ambiente. No seu art. 2º (Brasil, 1981), a PNMA coloca que “tem por objetivo a preservação, melhoria e recuperação da qualidade ambiental propícia à vida, visando assegurar, no País, condições ao desenvolvimento sócio-econômico [sic], aos interesses da segurança nacional e à proteção da dignidade da vida humana”. Para isto, ela especifica como base os seguintes princípios, que deverão ser seguidos em nosso País: I - ação governamental na manutenção do equilíbrio ecológico, considerando o meio ambiente como um patrimônio público a ser necessariamente assegurado e protegido, tendo em vista o uso coletivo; II - racionalização do uso do solo,do subsolo, da água e do ar; Ill - planejamento e fiscalização do uso dos recursos ambientais; 6 IV - proteção dos ecossistemas, com a preservação de áreas representativas; V - controle e zoneamento das atividades potencial ou efetivamente poluidoras; VI – incentivos ao estudo e à pesquisa de tecnologias orientadas para o uso racional e a proteção dos recursos ambientais; VII - acompanhamento do estado da qualidade ambiental; VIII - recuperação de áreas degradadas; IX - proteção de áreas ameaçadas de degradação; X - educação ambiental a todos os níveis de ensino, inclusive a educação da comunidade, objetivando capacitá-la para participação ativa na defesa do meio ambiente. (Brasil, 1981) Muito importante também é o que a PNMA coloca em seu art. 6º: a criação do Sistema Nacional do Meio Ambiente (SISNAMA). O SISNAMA reúne os diferentes órgãos e outras entidades (como fundações, por exemplo), tanto a nível federal (União), quanto a nível estadual, quanto municipal, que são responsáveis pelas ações de proteção do meio ambiente, e melhoria da qualidade ambiental. A PNMA estrutura o SISNAMA da seguinte maneira (Figura 2): I - órgão superior: o Conselho de Governo, com a função de assessorar o Presidente da República na formulação da política nacional e nas diretrizes governamentais para o meio ambiente e os recursos ambientais; (Redação dada pela Lei nº 8.028, de 1990) II - órgão consultivo e deliberativo: o Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), com a finalidade de assessorar, estudar e propor ao Conselho de Governo, diretrizes de políticas governamentais para o meio ambiente e os recursos naturais e deliberar, no âmbito de sua competência, sobre normas e padrões compatíveis com o meio ambiente ecologicamente equilibrado e essencial à sadia qualidade de vida; (Redação dada pela Lei nº 8.028, de 1990) III - órgão central: a Secretaria do Meio Ambiente da Presidência da República, com a finalidade de planejar, coordenar, supervisionar e controlar, como órgão federal, a política nacional e as diretrizes governamentais fixadas para o meio ambiente; (Redação dada pela Lei nº 8.028, de 1990) IV - órgãos executores: o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis - IBAMA e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade - Instituto Chico Mendes, com a finalidade de executar e fazer executar a política e as diretrizes governamentais fixadas para o meio ambiente, de acordo com as respectivas competências; (Redação dada pela Lei nº 12.856, de 2013) V - Órgãos Seccionais: os órgãos ou entidades estaduais responsáveis pela execução de programas, projetos e pelo controle e fiscalização de atividades capazes de provocar a degradação ambiental; (Redação dada pela Lei nº 7.804, de 1989) VI - Órgãos Locais: os órgãos ou entidades municipais, responsáveis pelo controle e fiscalização dessas atividades, nas suas respectivas jurisdições; (Incluído pela Lei nº 7.804, de 1989) (Brasil, 1981). 7 Figura 2 – Composição do SISNAMA Fonte: Sautter, 2021. Mas, sem dúvida alguma, um dos pontos mais importantes do PNMA se dá quando determina os instrumentos da política ambiental brasileira. Segundo Barros et al. (2012), estes instrumentos têm como objetivo diminuir a ameaça das atividades econômicas ao meio ambiente. Isto é realizado através de medidas preventivas e coibitivas, na aplicação de políticas de comando e controle, resultando em restrição de certas atividades, no controle do uso dos recursos naturais e no uso de novas tecnologias, as chamadas tecnologias “limpas”. Art 9º - São instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente: I - o estabelecimento de padrões de qualidade ambiental; II - o zoneamento ambiental; III - a avaliação de impactos ambientais; IV - o licenciamento e a revisão de atividades efetiva ou potencialmente poluidoras; Órgão Superior Conselho de Governo Órgão Consultivo e Delibertivo CONAMA Órgão Central Secretaria do MA - Presidência da república Órgãos executores IBAMA e ICMBio Órgãos seccionais Instituições estaduais Órgãos locais Instituições municipais 8 V - os incentivos à produção e instalação de equipamentos e a criação ou absorção de tecnologia, voltados para a melhoria da qualidade ambiental; VI - a criação de espaços territoriais especialmente protegidos pelo Poder Público federal, estadual e municipal, tais como áreas de proteção ambiental, de relevante interesse ecológico e reservas extrativistas; (Redação dada pela Lei nº 7.804, de 1989) VII - o sistema nacional de informações sobre o meio ambiente; VIII - o Cadastro Técnico Federal de Atividades e Instrumentos de Defesa Ambiental; IX - as penalidades disciplinares ou compensatórias ao não cumprimento das medidas necessárias à preservação ou correção da degradação ambiental. X - a instituição do Relatório de Qualidade do Meio Ambiente, a ser divulgado anualmente pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis - IBAMA; (Incluído pela Lei nº 7.804, de 1989) XI - a garantia da prestação de informações relativas ao Meio Ambiente, obrigando-se o Poder Público a produzí-las, quando inexistentes; (Incluído pela Lei nº 7.804, de 1989) XII - o Cadastro Técnico Federal de atividades potencialmente poluidoras e/ou utilizadoras dos recursos ambientais. (Incluído pela Lei nº 7.804, de 1989) XIII - instrumentos econômicos, como concessão florestal, servidão ambiental, seguro ambiental e outros. (Brasil, 1981) É bom lembrar que a PNMA determina somente as linhas gerais da política de gestão ambiental da sociedade brasileira. Os detalhes, a partir destas linhas gerais, devem ser especificados através de atos normativos adicionais, como leis, portarias, resoluções, entre outros. TEMA 3 – LEI DE CRIMES AMBIENTAIS Podemos considerar crime aquela ação ou mesmo omissão que pode lesar ou expor a perigo de lesão os bens jurídicos tutelados. Pensando assim, levamos em conta a relevância do mal que foi ou seria produzido. Portanto, o crime é legitimado quando a conduta em questão tiver alguma relevância do ponto de vista jurídico penal, provocando um dano ou havendo ameaça de dano. A Lei de Introdução ao Código Penal (Brasil, 1941), considera que crime é a: [...] infração penal que a lei comina pena de reclusão ou de detenção, quer isoladamente, quer alternativa ou cumulativamente com a pena de multa; contravenção, a infração penal a que a lei comina, isoladamente, pena de prisão simples ou de multa, ou ambas, alternativa ou cumulativamente. Partindo desta premissa, podemos dizer que crimes ambientais são as ações ou atos, que provocam ou podem provocar graves danos, lesões aos diferentes aspectos ambientais. 9 Em 12 de fevereiro de 1998, o Brasil promulgou a Lei n. 9.605, determinando as sanções penais e administrativas relacionadas às ações e condutas lesivas ao meio ambiente (Brasil, 1998). A chamada Lei de Crimes Ambientais tipifica os crimes cometidos em relação ao meio ambiente em crimes contra a fauna, a flora, crimes de poluição, crimes contra o ordenamento urbano e contra o patrimônio cultural, assim como crimes contra a administração ambiental. No Tema 5 desta aula, detalharemos cada uma destas tipificações. A Lei de Crimes Ambientais considera culpado aquele que descumpre as condições colocadas, bem aqueles que, sabendo de certa conduta criminosa, não impedem a prática, quando poderiam fazê-lo. As pessoas jurídicas ainda podem ser responsabilizadas no âmbito administrativo, civil e penal, dependendo da infração cometida. É claro que a responsabilização da pessoa jurídica não retira aquela da pessoa física. Para decisão da pena, a autoridade competente no caso, deverá levar em conta: I - a gravidade do fato, tendo em vista os motivos da infração e suas conseqüências para a saúde pública e para o meio ambiente; II - os antecedentes doinfrator quanto ao cumprimento da legislação de interesse ambiental; III - a situação econômica do infrator, no caso de multa. (Brasil, 1998) A pena será aplicada em conformidade com o delito que foi cometido. Na Leis de Crimes Ambientais consideram-se três categorias básicas: Pena privativa de liberdade; Pena restritiva de direito e Multa. Falamos em pena privativa de liberdade, quando o culpado cumpre sua pena em regime penitenciário, podendo ser regime fechado, regime semi-aberto ou regime aberto. Pode ser o caso de crimes de cunho doloso. As penas restritivas de direitos, são aplicadas quando se trata de crime culposo (não doloso), e para penas privativas de liberdade que forem inferiores a quatro anos. O juiz ainda pode decidir por uma pena restritiva de direitos quando houver atenuantes, que justifiquem a substituição de eventuais penas privativas de liberdade. As penas restritivas de direito podem ser na forma de prestação de serviços à comunidade, na interdição temporária dos direitos do cidadão, na suspensão total ou somente parcial de atividades, na prestação pecuniária ou no recolhimento domiciliar. 10 Finalmente, o Juiz pode decidir por multa, que é a aplicação de um valor pecuniário. A multa é considerada um método tradicional com a finalidade de se exigir que o condenado tome ações consideradas socialmente corretas. Na proposição da pena, o Juiz pode levar em consideração atenuantes com a finalidade de diminuir o peso da pena: Art. 14. São circunstâncias que atenuam a pena: I - baixo grau de instrução ou escolaridade do agente; II - arrependimento do infrator, manifestado pela espontânea reparação do dano, ou limitação significativa da degradação ambiental causada; III - comunicação prévia pelo agente do perigo iminente de degradação ambiental; IV - colaboração com os agentes encarregados da vigilância e do controle ambiental. (Brasil, 1998) Assim como, pode levar em consideração circunstâncias que agravem o crime ambiental cometido: Art. 15. São circunstâncias que agravam a pena, quando não constituem ou qualificam o crime: I - reincidência nos crimes de natureza ambiental; II - ter o agente cometido a infração: a) para obter vantagem pecuniária; b) coagindo outrem para a execução material da infração; c) afetando ou expondo a perigo, de maneira grave, a saúde pública ou o meio ambiente; d) concorrendo para danos à propriedade alheia; e) atingindo áreas de unidades de conservação ou áreas sujeitas, por ato do Poder Público, a regime especial de uso; f) atingindo áreas urbanas ou quaisquer assentamentos humanos; g) em período de defeso à fauna; h) em domingos ou feriados; i) à noite; j) em épocas de seca ou inundações; l) no interior do espaço territorial especialmente protegido; m) com o emprego de métodos cruéis para abate ou captura de animais; n) mediante fraude ou abuso de confiança; o) mediante abuso do direito de licença, permissão ou autorização ambiental; p) no interesse de pessoa jurídica mantida, total ou parcialmente, por verbas públicas ou beneficiada por incentivos fiscais; q) atingindo espécies ameaçadas, listadas em relatórios oficiais das autoridades competentes; r) facilitada por funcionário público no exercício de suas funções. TEMA 4 – DANO AMBIENTAL: CARACTERIZAÇÃO JURÍDICA Estimar os danos ambientais nem sempre é fácil. Normalmente não se conhece a relação entre a ação poluidora e o seu efeito no meio ambiente. Mais complexo ainda é quando tratamos de substâncias tóxicas. O efeito da mistura de substâncias pode ser ainda mais nocivo ao meio ambiente. 11 Quando falamos de danos ambientais, devemos pensar não somente no dano ao patrimônio ambiental em si, mas também ao patrimônio artificial, cultural, meio ambiente urbano e assim por diante. Para caracterizarmos dano ambiental, devemos mostrar que a modificação provocada pelo ser humano é significativa. Além disso, a reparação do meio ambiente é muito difícil, pois ele perde suas características básicas. Muitas vezes a recuperação do meio ambiente original, antes do dano, é impossível. Leite (2003), caracteriza Dano ambiental como, O dano ambiental constitui uma expressão ambivalente, que designa, certas vezes, alterações nocivas ao meio ambiente e outras, ainda, os efeitos que tal alteração provoca na saúde das pessoas e em seus interesses. Dano ambiental significa, em uma primeira acepção, uma alteração indesejável ao conjunto de elementos chamados meio ambiente, como, por exemplo, a poluição atmosférica; seria, assim, a lesão ao direito fundamental que todos têm de gozar e aproveitar do meio ambiente apropriado. Contudo, em sua segunda conceituação, dano ambiental engloba os efeitos que esta modificação gera na saúde das pessoas e seus interesses. O dano ambiental também é de difícil valoração. A economia ambiental ainda está desenvolvendo diferentes métodos de valoração ambiental. Isto se dá porque os recursos naturais não possuem valor de mercado, então qualquer tentativa de valoração, sempre haverá subestimativas. Afinal, quanto vale o ar? Quanto vale a água para a saúde das pessoas e do meio ambiente? 4.1 Tipos de danos ambientais Se levarmos em conta a tutela jurisdicional, podemos classificar os danos ambientais em dois grandes grupos: Dano ambiental coletivo, e Dano ambiental individual: 1. Dano ambiental coletivo: também chamado de dano ambiental em sentido estrito ou dano ambiental propriamente dito. É considerado quando há um dano considerando o meio ambiente globalmente. Este tipo de dano é chamado de difuso, pois não atinge um ponto somente, e pode trazer consequências para um número indefinido de pessoas. Nesse caso se houver indenização, esta deve ser cobrada por meio de Ação Civil Pública ou mesmo Ação Popular. E os recursos arrecadados devem ser destinados a um Fundo, que será utilizado para a recuperação do meio ambiente afetado; 12 2. Dano ambiental individual: Ocorre quando interesses pessoais são violados, cabendo então à pessoa reparação, seja por prejuízo patrimonial ou extrapatrimonial. As ações devem ser de cunho individual e não coletivo. TEMA 5 – INFRAÇÕES PASSÍVEIS DE PERÍCIA AMBIENTAL As infrações ambientais são aquelas previstas na Lei de Crimes Ambientais, e, segundo a necessidade estabelecida pelo Juiz da demanda, um perito pode ser necessário para determinar- se os danos e extensão destes. São considerados como infrações ou crimes: 1. Contra a Fauna: são considerados crimes/infrações contra a fauna, matar, perseguir, apanhar, caçar ou utilizar animais silvestres, nativos ou que estejam em rota migratória, sem ter permissão, licença ou autorização da autoridade que seja competente para tal, ou, mesmo tendo permissão, não a cumprir de forma correta (Figura 3). Figura 3 – Crimes contra a fauna (aprisionamento ilegal) Crédito: Rattanachat/Adobe Stock. 2. Contra a Flora: neste caso, é considerado como crime/infração contra a flora, destruir ou somente danificar uma floresta que seja considerada de preservação permanente, mesmo que ela ainda esteja em formação. Também se considera crime contra a flora, se esta mesma floresta for utilizada de forma contrária às normas vigentes (Figura 4); 13 Figura 4 – Crime contra a flora (desmatamento ilegal) Crédito: Marcio Isensee e Sá/Adobe Stock. 3. De Poluição: considera-se crime de poluição, quando o infrator poluir, causar poluição, de tal monta, que cause danos à saúde humana, mortandade de animais ou também a destruição de forma significativa da flora (Figura 5); Figura 5 – Poluição (poluição de rios) Crédito: Alisluch/Adobe Stock. 4. Contra o ordenamento urbano e o patrimônio cultural: neste caso considera-se crime/infração quando o infrator destrói, inutiliza ou deteriora um bem que esteja sendo protegido por lei ou decisão judicial, como, por exemplo um arquivo,museu, instalação científica, entre outros. É o caso da pichação e dos balões de festa junina (Figura 6); 14 Figura 6 – Crime contra o ordenamento urbano e patrimônio cultural (Pichação) Crédito: Cleantho/Adobe Stock. 5. Por fim, contra a Administração Ambiental: neste caso e considerado crime/infração ambiental omitir a verdade, sonegar informações ou dados em procedimentos de licenciamento ambiental, ou levar a funcionários públicos fornecerem afirmações falsas ou enganosas. Saiba mais Sabia que você pode consultar, junto ao IBAMA, autos de infrações ambientais, assim como áreas embargadas? É simples, clique no link disponível em: . Acesso em: 20 out. 2021. 15 REFERÊNCIAS ALMEIDA, J. R. de. Perícia ambiental, judicial e securitária: impacto, dano e passivo ambiental. Rio de Janeiro: Thex, 2011. 512p. ARANTES, C. A.; ARANTES, C. de. Perícia ambiental: aspectos técnicos e legais. 2ª ed. Birigui: Boreal Editora, 2016. 299 p. BARROS, D. A.; BORGES, L. A. C.; NASCIMENTO, G. de O.; PEREIRA, J. A. A.; REZENDE, J. L. P.de; SILVA, R. A. Breve análise dos instrumentos da política de gestão ambiental brasileira. Política & Sociedade, v.11, n.22, p.155-179. Disponível em: . Acesso em 06 out. 2021. BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Lei Nº 6.938, de 31 de agosto de 1981. Dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, seus fins e mecanismos de formulação e aplicação, e dá outras providências. Disponível em: . Acesso em 06 out. 2021. _______. Decreto Lei Nº 3.914, de 9 de dezembro de 1941. Lei de introdução do Código Penal (decreto-lei n. 2.848, de 7-12-940) e da Lei das Contravenções Penais (decreto-lei n. 3.688, de 3 outubro de 1941). Disponível em: . Acesso em 06 out. 2021. _______. Lei Nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998. Dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente, e dá outras providências. Disponível em: . Acesso em 06 out. 2021. IBAPE – Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia. Glossário de Terminologia Básica Aplicável à Engenharia de Avaliações e Perícias do IBAPE/SP. São Paulo: IBAPE, 1994. LEITE, J. R. M. Dano Ambiental: do individual ao coletivo extrapatrimonial. 4 ed., São Paulo: LTr, 2003. PINTO NETO, M. C.; ARANTES, C. A.; NADALINI, A. C. V. (Coord.) Perícia ambiental. São Paulo: Pini, 2011. 161 p.