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TEMA 5
SALA DE AULA INVERTIDA, SEQUÊNCIAS DIDÁTICAS, CENÁRIOS DE APRENDIZAGEM
Prof. Claudia Lisete Oliveira Groenwald
Introdução:
Neste capítulo, vamos estudar a metodologia Sala de Aula Invertida (SAI), que visa mudar a metodologia tradicional de ensino, em que o professor utiliza o tempo de sala de aula para explanar os conteúdos que serão desenvolvidos com os estudantes e utiliza esse tempo para trabalhar com atividades desafiadoras e que exijam a orientação do professor com feedback imediato. Essa metodologia trabalha com três momentos: 1. O estudantes estuda antes do horário da aula os conteúdos que foram enviados pelo professor; 2. O professor, no horário da aula, tira dúvidas do conteúdo estudado e apresenta atividades desafiadoras para os estudantes trabalharem os conceitos estudados, dando orientação e auxiliando sempre que necessário; 3. Os estudantes realizam em casa atividades e exercícios para fixar os conceitos estudados.
Também, serão trabalhados a ideia de sequência didática para o planejamento didático do professor e como desenvolver cenários didáticos para a gravação de aulas.
A ideia é que os futuros professores tenham condições de trabalhar com o ensino híbrido, no qual o estudante desenvolve estudos independentes fora do horário de aula e depois ele desenvolve as atividades propostas pelo professor no horário da aula.
Convida-se o aluno a ser protagonista da sua aprendizagem e o professor a ser um orientador de trabalhos. O papel do professor é selecionar os conteúdos e as competências que devem ser desenvolvidos com os estudantes e realizar planejamentos de acordo com a metodologia Sala de Aula Invertida.
Sala de Aula Invertida:
Basicamente, o conceito de sala de aula invertida é: o que tradicionalmente é feito em sala de aula, agora é executado em casa, em horário extraclasse, e o que tradicionalmente é feito como trabalho de casa, agora é realizado em sala de aula.
1. Momentos do estudo como sala de aula invertida:
2. Os estudantes estudam, em casa (antes da aula), o vídeo que o professor preparou;
3. A aula inicia com a discussão das perguntas dos estudantes sobre a leitura anterior;
4. O professor sugere a atividade da aula com o conteúdo do vídeo;
5. O professor age em sala de aula como um orientador e resolvedor de dúvidas;
6. O professor pode dedicar alguns minutos para gerenciar os estudos futuros dos estudantes (caso isto seja necessário).
Yang (2017) destaca como a abordagem atual de ensino pode se modificar com a adoção de tecnologias digitais, por exemplo, as quais se apresentam incorporadas ao cotidiano dos alunos, para funções diversas. A propagação das tecnologias digitais têm modificado os meios educativos, visto que elas, por meio dos estudantes, entram em sala de aula. Esse fato pode ser encarado como uma oportunidade educacional transformadora se forem utilizadas com os objetivos convenientes (VALENTE, 2014). Tal integração das tecnologias no meio acadêmico/escolar fez nascer uma modalidade de ensino chamada blended learning, também conhecida como ensino híbrido (VALENTE, 2014), na qual parte do ensino é realizado de forma presencial e parte a distância. À medida que diferentes técnicas de blended learning vêm sendo adotadas, também crescem as opções de como organizar e integrar as orientações. Como as modalidades de blended learning vêm progressivamente se consolidando no Ensino Superior, é indispensável que se estudem as estratégias e métodos desse formato de ensino (SOMMER; RITZHAUPT, 2018).
Uma metodologia ativa caracterizada como categoria de ensino híbrido é a chamada sala de aula invertida (SAI) ou flipped classroom, cuja implementação tem ocorrido na Educação Básica e no Ensino Superior (VALENTE, 2014). Os estudos em sala de aula invertida podem se tornar um auxílio para o entendimento de como trabalhar, de forma mais assertiva, as práticas de blended learning, por meio da investigação do desempenho e das percepções de estudantes que passam por essas experiências, em comparação com a instrução tradicional (SOMMER; RITZHAUPT, 2018). Segundo estes autores, a SAI é uma técnica de blended learning que combina métodos de instrução direta assíncrona através da web, fora da sala de aula, onde discentes visualizam as aulas antes das atividades presenciais e, posteriormente, em sala de aula, desenvolvem atividades colaborativas e de maior aprofundamento do conteúdo.
Valente (2014) apresenta a SAI como uma modalidade de e-learning, em que o estudo dos conteúdos é feito de maneira on-line e prévia, enquanto a sala de aula passa a se tornar um espaço de atividades diversas, trabalhos em grupo e de laboratório. Yang (2017) argumenta que a SAI consiste em o docente aplicar instruções diretas on-line, enquanto que as reuniões presenciais se destinam à realização de atividades em grupo. Para Jensen et al. (2018), trata-se de um modelo em que o aprendizado do conteúdo é deslocado para antes da aula, e o tempo da aula é utilizado para aplicação desse conteúdo. Quanto ao seu histórico, a origem da sala de aula invertida é um tanto incerta, não havendo um consenso sobre seu surgimento.
As características significativas do modelo invertido incluem aspectos como o uso do tempo, a importância dos prazos, a produção de materiais e os papéis do professor e do aluno. O tempo é um componente que ganha novo olhar, pois ele passa a ser reestruturado, já que o período utilizado para exposição docente em aula agora é empregado para sanar dúvidas dos alunos quanto ao conteúdo disponibilizado por meio dos materiais prévios e realização de atividades diversas (BERGMAN; SAMS, 2018).
Um aspecto marcante em relação ao tempo consiste em não utilizá-lo com aulas expositivas no encontro presencial, mas privilegiar a realização de atividades pelos alunos (PAVANELO; LIMA, 2017). Outro componente significativo que permeia a sala de aula invertida é o prazo, pois se apresenta como um compromisso tanto ao professor quanto ao aluno, de modo a determinar a qualidade da inversão realizada.
A SAI é dotada de dois componentes: um que requer interação humana (aquele realizado de forma presencial); aquele que não requer interação humana (realizado fora da sala de aula com o auxílio dos meios digitais) (PAVANELO; LIMA, 2017).
Em função da necessidade do suporte material na pré-aula e na parte presencial, diversas ferramentas e atividades passaram a ser elaboradas e discutidas, em prol de investigar as melhores escolhas didáticas para o modelo da SAI. De acordo com a proposta de cada disciplina, o material fornecido aos alunos passa a variar nessa metodologia, o que amplia consideravelmente as possibilidades de aplicações de práticas diversificadas (VALENTE, 2014).
Fique de olho!
Em função da disponibilidade prévia, um fato relevante é que os estudantes podem acessar e estudar o material enviado pelo professor quantas vezes forem necessárias, antes do encontro presencial (SÁNCHEZ-RODRÍGUES et al., 2017).
Na SAI, é indispensável atenção e cuidado com os materiais, pois sempre que se dispõe a implementar uma estratégia diferente é preciso assegurar que os materiais sejam organizados para fornecer suporte adequado (SOMMER; RITZHAUPT, 2018). Os vídeos têm sido o recurso mais utilizado e possibilitam que os alunos o assistam quantas vezes forem necessárias para atingir a compreensão do tópico estudado (VALENTE, 2014). Além de vídeos, outros materiais podem oferecer suporte à SAI, a partir das tecnologias digitais, as quais têm se mostrado como aliadas dessa metodologia. Múltiplas ferramentas foram produzidas para disponibilizar os conteúdos, como softwares e demais recursos relacionados com mídias e plataformas virtuais (VALÉRIO; MOREIRA, 2018). Por meio do apoio das tecnologias digitais, o professor pode fornecer aos estudantes os materiais necessários, nos formatos que considerar mais adequado (SÁNCHEZ-RODRÍGUEZ et al., 2017). Os dispositivos móveis podem ser, também, um apoio para a inversão, pois contribuem para desenvolver elementos como a comunicação, criatividade e colaboração (MARTÍN; TOURÓN, 2017).As tecnologias digitais, quando integradas às tarefas educativas:
Têm alterado a dinâmica da escola e da sala de aula como, por exemplo, a organização dos tempos e espaços da escola, as relações entre o aprendiz e a informação, as interações entre alunos, e entre alunos e professor. (VALENTE, 2014, p. 82)
Apesar de os vídeos ainda serem o suporte virtual mais utilizado para a realização da pré-aula, é fundamental que o professor conheça e possa utilizar outras possibilidades de organizar o material prévio, tendo por base as tecnologias digitais, considerando opções como animações, simulações e laboratórios virtuais. O uso de diferentes materiais navegáveis, como esses, auxilia os alunos no aprofundamento dos seus conhecimentos. Igualmente necessário é que o professor possa receber algum tipo de teste ou aviso, ao final do estudo on-line do aluno, que o direcione para as principais dúvidas e deficiências do material elaborado (VALENTE, 2014).
A aula invertida tem como foco central os alunos e não o professor, o qual está presente para fornecer feedback, tendo o papel de amparar os discentes, e não o de apenas transmitir informações. Aos alunos compete o compromisso de estudar o material pré-aula e perguntar as dúvidas, aprender através de atividades diversas, e não apenas de memorização (BERGMAN; SAMS, 2018). Um papel de destaque atribuído ao professor na sala de aula invertida é de que ele consiga mobilizar os alunos para que realizem o estudo prévio prescrito, motivando-os e comprometendo-os para esta finalidade, fator que determinará, em parte, o sucesso ou fracasso da aplicação. Para que essa tarefa seja exitosa, o docente pode lançar mão de artifícios, como a sensibilização da turma para o tema e a conscientização da importância dessa ação para seu bom desempenho, além de esclarecer como a metodologia funciona (MARTIN et al., 2018).
O contato prévio dos alunos com o material de aula possibilitaria trabalhar em seu próprio ritmo, sendo, portanto, o incentivo para o estudante ir preparado para o encontro presencial. Se o estudo anterior for bem realizado, pode ajudá-lo a perceber quais são os principais conceitos a serem trabalhados, além de manifestar dúvidas, o que já fornece suporte para um melhor aproveitamento do encontro presencial (VALENTE, 2014). Nessa perspectiva, a preparação prévia pode contribuir para um melhor aprofundamento do conteúdo em sala de aula, bem como sua aplicação.
Fique de olho!
Outro aspecto favorável é que o professor pode customizar as atividades presenciais a partir das necessidades apresentadas pelos alunos, as quais podem, eles mesmos, ir identificando no decorrer do estudo (VALENTE, 2014).
A inversão contribui para que os estudantes modifiquem seus hábitos de estudo, bem como a participação em sala de aula, pois existem mais oportunidades de interação tanto com os colegas quanto com o professor. Outro ponto em destaque é a redução dos gastos do professor, que diminui em função da utilização de questionários e materiais on-line (MARTIN et al., 2018).
Bergman e Sams (2018) elencam razões inadequadas para inverter uma sala de aula, como por, simplesmente, achar que está seguindo uma tendência do novo século, ou por introduzir tecnologia e utilizar as tecnologias mais recentes, acreditando que diminui as obrigações docentes ou que essa metodologia facilitará o trabalho. Para Bergman e Sams (2018), um dos inconvenientes da SAI é de que os alunos não podem fazer de imediato as perguntas, como seria ao vivo. Por isso, é importante que recebam dicas de como acessar os vídeos de modo eficaz, anotando, resumindo e transcrevendo pontos importantes. Já Yang (2017) aponta uma dificuldade técnica, pois os alunos podem não ter acesso à internet em casa para estudo do material prévio digital. Para o professor, o contratempo seria a sobrecarga de trabalho, caso optem por gravar seus próprios vídeos, pois geralmente estão cansados e disponibilizam pouco tempo para essa função. Esse aspecto também é mencionado por Sánchez-Rodríguez et al. (2017), ressaltando que as classes inversas geram um sobre-esforço docente, pois precisam buscar recursos e preparar atividades ativas. Com relação aos vídeos, um ponto embaraçoso para o corpo docente seria a realização das gravações. Apesar disso, vale ressaltar que a gravação das aulas ajuda o professor a estar ciente de suas fragilidades, as quais são mais facilmente observadas quando nos ouvimos ou nos assistimos. Outro aspecto relacionado ao docente é a estranheza frente ao fato de não exercer uma aula expositiva, o que pode ocasionar um desconforto, por caracterizar-se como uma aula diferente do habitual (SÁNCHEZ-RODRÍGUEZ et al., 2017).
Sommer e Ritzhaupt (2018) apresentam o desafio de analisar quais conteúdos são mais significativos para serem trabalhados a partir da inversão, já que um impacto significativo não foi observado por esses estudiosos quando o conteúdo ou os resultados de aprendizagem não são complexos e não impõem uma carga cognitiva intrínseca do conteúdo.
Bergman e Sams (2018) acreditam que a chave para a eficácia da sala de aula invertida passa pelo comprometimento dos alunos com os objetivos de aprendizagem, ao invés de apenas esforço para cumprir obrigações acadêmicas.
Fique de olho!
Recomendação de Leitura: Silton José Dziadzio e Carlos Roberto Ferreira. Sala de aula invertida: Caracterização e reflexões das três etapas do ensino da Matemática. RPEM, Campo Mourão, PR, Brasil, v.09, n.20, p.411-425, nov.-dez. 2020.
Sequência Didática:
Segundo Pais (2002):
Uma sequência didática é formada por um certo número de aulas planejadas e analisadas previamente com a finalidade de observar situações de aprendizagem, envolvendo os conceitos previstos na pesquisa didática. (PAIS, 2002, p. 102)
Elementos de uma sequência didática:
· Título: apesar de ser dentre os elementos da SD o mais simples, o título não deve ser menosprezado, pois por si só é capaz de atrair a atenção ou, pelo contrário, criar resistências no alunado. Desta forma, enfatizamos que o título deve ser atrativo como também é necessário que ele reflita o conteúdo e as intenções formativas;
· Público-alvo: um fato fundamental e pouco considerado é que as SD não são universais, não há um método definitivo válido em qualquer situação. Assim, uma característica implícita da eficácia de um plano de ensino é quanto ele foi planejado segundo as condições sob as quais será submetido;
· Problematização: a problematização é o agente que une e sustenta a relação sistêmica da sequência didática, portanto a argumentação sobre o problema é o que ancora a SD, através de questões sociais e científicas que justifiquem o tema e também que problematizem os conceitos que serão abordados (DELIZOIKOV, 2001);
· Objetivos Gerais: os objetivos propostos devem ser passíveis de serem atingidos, os conteúdos devem refletir tais objetivos, que a metodologia deve propiciar para que sejam atingidos e que a avaliação é uma das formas de se verificar se foram efetivamente alcançados;
· Objetivos Específicos: representam metas do processo de ensino-aprendizagem passíveis de serem atingidas mediante desenvolvimento da situação de ensino proposta (SD). São um organizador detalhado das intenções de ensino, que auxiliam a planejar tanto a escolha das metodologias mais pertinentes a tal situação didática como nas formas de avaliação;
· Conteúdos: embora os conteúdos estejam tradicionalmente organizados de forma disciplinar, é também possível estabelecer relação com os demais componentes curriculares e integrar conceitos aparentemente isolados, mesmo porque os fenômenos da natureza não se manifestam segundo divisão disciplinar. Igualmente importante é promover a continuidade das várias unidades didáticas ao longo das aulas que compõem o plano de ensino;
· Dinâmica: as metodologias de ensino têm caráter fundamental, pois é principalmente através do desenvolvimento delas que as situações de aprendizagem se estabelecem. Dinâmicas variadas de ensino são importantes e necessárias desde que se mantenham fiéis àestrutura e contexto social que a escola-alvo ofereça;
· Avaliação: os métodos avaliativos precisam ser condizentes com os objetivos e com os conteúdos previstos na sequência didática. Desta forma, o que se avalia deve estar diretamente relacionado com o que se pretende ensinar;
· Referências Bibliográficas: este item se relaciona com as obras, livros, textos, vídeos etc. que efetivamente serão utilizadas no desenvolvimento das aulas propostas;
· Bibliografia Utilizada: neste espaço, devem ser apresentados os trabalhos utilizados para estruturar os conceitos, metodologias de desenvolvimento e/ou avaliação, ou seja, aqueles que foram utilizados na elaboração da SD ou que servem como material de apoio e estudo ao professor que irá aplicar tal Sequência Didática.
Fique de olho!
De um modo mais geral, sequências didáticas podem ser consideradas como um conjunto de atividades ordenadas, estruturadas e articuladas para a realização de certos objetivos educacionais, que têm um princípio e um fim conhecidos tanto pelos professores como pelos alunos (ZABALA, 1998).
Historicamente, nos cenários nacional e internacional, as sequências didáticas têm sido utilizadas como instrumentos de planejamento do ensino e também como objetos de pesquisa, criando condições favoráveis para os alunos se apropriarem de ferramentas culturais próprias da comunidade científica, permitindo a análise desse processo e estimulando o diálogo entre a pesquisa no ensino de ciências e a sala de aula.
Deve haver uma atenção especial às produções de textos escritos que estimulem os alunos a emitir opiniões e expressar conceitos científicos. Procura-se, nas aulas, promover momentos que sistematizem informações e encaminhamentos de atividades para as aulas seguintes, bem como retomadas importantes para o desenvolvimento de atividades futuras.
Cenários de Investigação
Consideram-se cenários os ambientes que o professor cria para que possa organizar e gravar seus materiais de estudos para que os estudantes possam estudar. Recomenda-se que os cenários sejam desenvolvidos de acordo com o conteúdo que vai ser trabalhado com os estudantes. Buscando desenvolver cenários motivadores e que sejam visuais, cuidando para que não tenham poluição visual. Veja o exemplo de um cenário na Figura 1 a seguir.
Depois de construídos os cenários, planeje o conteúdo e grave os vídeos.
Regras para gravar um vídeo:
· Seja breve;
· Fale com entusiasmo;
· Crie o vídeo com outro professor, pois é mais estimulante observar duas pessoas conversando sobre determinado tema do que assistir a um professor discursando para a plateia;
· Acrescente humor;
· Não desperdice o tempo dos alunos;
· Acrescente anotações, pense em sua tela como um quadro branco, com imagens atraentes. Use o equipamento de anotação para acrescentar marcas à caneta;
· Acrescente chamadas;
· Aumente e diminua o zoom;
· Respeite os direitos autorais.
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