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Livro didático sobre desenvolvimento infantil que reúne fundamentos da psicologia do desenvolvimento — histórico, objetivos e métodos de estudo; inclui apresentação das autoras, prefácio, bibliografia e o sumário da Unidade 1.

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Maria da Glória Feitosa Freitas
Dorothy de Souza Alves Moura Coelho
Beatriz Marcondes de Azevedo
DESENVOLVIMENTO 
INFANTIL
DESENVOLVIMENTO 
INFANTIL
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou 
transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo 
fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de 
informação, sem prévia autorização, por escrito, do Grupo Ser Educacional. 
Diretor de EAD: Enzo Moreira
Gerente de design instrucional: Paulo Kazuo Kato 
Coordenadora de projetos EAD: Manuela Martins Alves Gomes
Coordenadora educacional: Pamela Marques
Equipe de apoio educacional: Caroline Guglielmi, Danise Grimm, Jaqueline Morais, Laís Pessoa
Designers gráficos: Kamilla Moreira, Mário Gomes, Sérgio Ramos,Tiago da Rocha
Ilustradores: Anderson Eloy, Luiz Meneghel, Vinícius Manzi 
 
Freitas, Maria da Gloria Feitosa.
 Desenvolvimento infantil / Maria da Gloria Feitosa Freitas; Dorothy de Souza Alves 
Moura Coelho; Beatriz de Azevedo Siqueira Campos. – São Paulo: Cengage – 2020.
 Bibliografia.
 ISBN 9786555581539
 1. Pedagogia 2. Psicologia do desenvolvimento 3. Coelho, Dorothy de Souza Alves 
Moura; Campos, Beatriz de Azevedo Siqueira. 
Grupo Ser Educacional
 Rua Treze de Maio, 254 - Santo Amaro 
CEP: 50100-160, Recife - PE 
PABX: (81) 3413-4611 
E-mail: sereducacional@sereducacional.com
“É através da educação que a igualdade de oportunidades surge, e, com 
isso, há um maior desenvolvimento econômico e social para a nação. Há alguns 
anos, o Brasil vive um período de mudanças, e, assim, a educação também 
passa por tais transformações. A demanda por mão de obra qualificada, o 
aumento da competitividade e a produtividade fizeram com que o Ensino 
Superior ganhasse força e fosse tratado como prioridade para o Brasil.
O Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego – Pronatec, 
tem como objetivo atender a essa demanda e ajudar o País a qualificar 
seus cidadãos em suas formações, contribuindo para o desenvolvimento 
da economia, da crescente globalização, além de garantir o exercício da 
democracia com a ampliação da escolaridade.
Dessa forma, as instituições do Grupo Ser Educacional buscam ampliar 
as competências básicas da educação de seus estudantes, além de oferecer-
lhes uma sólida formação técnica, sempre pensando nas ações dos alunos no 
contexto da sociedade.”
Janguiê Diniz
PALAVRA DO GRUPO SER EDUCACIONAL
Autoria
Maria da Gloria Feitosa Freitas
Meu nome é Glória Freitas. Sou graduada em Pedagogia, fiz uma Especialização em Metodologia da 
Compreensão Existencial, aprofundando contatos com a Gestalt e a Psicomotricidade. Anos depois fiz 
mestrado em Psicologia e Educação (USP), aprofundando o meu conhecimento sobre a conexão entre 
Psicanálise e a Educação. Cursei o Doutorado na área de Educação Brasileira, entrei em contato com 
a obra de Deleuze e Guattari e Esquizoanálise. Trabalhando com crianças na Educação Infantil, em 
1984 e conheci a obra de Jean Piaget. E a partir de 1990, comecei a lecionar na área de Psicologia da 
Educação, no Ensino Superior, em Universidades Públicas e Particulares. Atualmente sou Conteudista 
e Tutora de Educação a Distância. Espero que consigamos ter um bom diálogo, através das teorias do 
desenvolvimento infantil, aqui nesta disciplina. Bom estudo! 
Dorothy Coelho
Graduação em psicologia pela Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde da PUC/SP. Formação em 
atendimento clínico bilíngue para crianças e jovens surdos pela DERDIC/PUC. Atua no serviço de 
psicologia adulto da AACD.
Beatriz Marcondes de Azevedo
Possui graduação em Psicologia pela UFSC (1994), graduação em Administração pela UFSC (2004), 
mestrado em Psicologia pela UFSC (2002) e doutorado em Engenharia de Produção pela UFSC (2010), 
na área de Ergonomia, Pós-doutorado pela UFSC (2018). Atua na docência na área de graduação e pós-
graduação, nas modalidades de ensino presencial e EaD. Em relação à pesquisa, investiga temáticas 
referentes à Psicologia Organizacional e do Trabalho, Ergonomia, Gestão de Pessoas, Saúde e Segurança 
no Trabalho, avaliação do desempenho do sistema de produção hospitalar. 
SUMÁRIO
Prefácio .................................................................................................................................................8
UNIDADE 1 - Histórico e conceito da psicologia do desenvolvimento ..............................................9
Introdução.............................................................................................................................................10
1 Histórico da Psicologia do Desenvolvimento .................................................................................... 11
2 Objetivos e métodos de estudo da Psicologia do Desenvolvimento ...............................................16
3 Processos do Desenvolvimento Humano .......................................................................................... 19
4 Teorias da Psicologia do Desenvolvimento humano ..........................................................................19
PARA RESUMIR ..............................................................................................................................24
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................25
UNIDADE 2 - Desenvolvimento I ....................................................................................................27
Introdução.............................................................................................................................................28
1 Gravidez e vida intrauterina: a formação do bebê ............................................................................ 29
2 Conceito de infância........................................................................................................................... 33
3 Desenvolvimento bio-psico-social e cognitivo na 1ª infância (0-2 anos) ...........................................33
4 Desenvolvimento bio-psico-social e cognitivo na 2ª infância (3-6 anos) ...........................................36
5 Desenvolvimento bio-psico-social e cognitivo na 3ª infância (7-11 anos) .........................................38
PARA RESUMIR ..............................................................................................................................42
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................43
UNIDADE 3 - Teorias da clínica infantil e desenvolvimento da criança na escola .............................45
Introdução.............................................................................................................................................46
1 Antecedentes históricos do atendimento clínico com crianças ......................................................47
2 História do conceito moderno de infância ........................................................................................ 47
3 Histórico do atendimento clínico com crianças a partir da modernidade ........................................48
4 Contribuição de Freud e da Psicanálise na constituição da clínica infantil contemporânea ..............52
5 Principais teorias da clínica infantil ................................................................................................... 55
6 Desenvolvimento da criança na escola: aspectos físicos, emocionais e cognitivos .........................58
PARA RESUMIR ..............................................................................................................................61
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................62
UNIDADE 4 - A infância, o início da adolescência e a relação com a família ...................................65com crianças que 
veremos que nem sempre os adultos, psicólogos clínicos, estudiosos ou pais, educadores ou 
responsáveis por atendê-los tiveram a mesma forma de conceituar a infância e a clínica, por 
exemplo. Assim, ao entender o conceito de infância através da história, é possível compreender 
melhor o histórico do atendimento oferecido à infância. 
2 HISTÓRIA DO CONCEITO MODERNO DE INFÂNCIA
Você pode se perguntar: se não existiam os modernos smartphones, como foi possível 
documentar para estudos posteriores como eram as crianças na transição entre a Idade Média e 
a Idade Moderna? Sem as câmeras fotográficas atuais, as famílias ricas contratavam pintores para 
retratar, o mais fielmente possível, seus filhos. Esses registros permitiram importantes estudos sobre 
as relações entre pais e filhos, no período de transição e antes do aparecimento da clínica infantil.
Coube ao renomado historiador francês Ariès (1981) desenvolver suas suposições e teorias. 
Uma delas incidiu sobre uma possível especialização dos brinquedos usados pelas crianças, na 
transição entre os tempos medieval e moderno. O exame apurado da iconografia, ou seja, desses 
quadros pintados pelos pintores, no Renascimento, revelaram uma mudança histórica.
48
Examinando esses quadros, foi possível, na contemporaneidade, ter informações históricas 
sobre a infância de Luís XIII, um dos reis franceses. Quando menino, desde os seus primeiros anos, 
“ao mesmo tempo que brincava com bonecas, jogava péla e malha, jogos que hoje nos parecem 
ser muito mais jogos de adolescentes e de adultos. Numa gravura de Arnoult do século XVII, 
vemos crianças jogando boliche” (ARIÈS, 1981, p. 77).
Ariès defendeu que às criancinhas medievais foram destinados alguns costumes abandonados 
pelos adultos. Um desses singulares casos são as bonecas usadas para enviar novos modelos de 
roupas para as mulheres ricas conseguirem, com tais modelos, fazer suas roupas novas. Depois 
de usadas para fazer novos e belos vestidos, essas bonequinhas vestidas com os modelos de 
roupas femininas ficavam abandonadas e sem uso definido, virando brinquedos para as meninas 
da época (ARIÈS, 1981).
Por volta do ano 1600, somente as crianças pequenas recebiam um cuidado especial, tendo seus 
próprios brinquedos, ocorrendo que depois dos três ou quatro anos a criança “jogava os mesmos 
jogos e participava das mesmas brincadeiras dos adultos, quer entre crianças, quer misturada aos 
adultos” (ARIÈS, 1981, p. 77). As bonecas antigas medievais eram um misto de réplicas e brinquedos. 
Ocorreu, nesses tempos, uma busca “em representar de forma reduzida as coisas e as pessoas da 
vida quotidiana, hoje reservado às criancinhas, resultou numa arte e num artesanato populares 
destinados tanto à satisfação dos adultos como à distração das crianças” (ARIÈS, 1981, p. 75).
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3 HISTÓRICO DO ATENDIMENTO CLÍNICO COM 
CRIANÇAS A PARTIR DA MODERNIDADE 
Percorremos a história de fatos significativos que construíram a estrada por onde trilham 
hoje as crianças, seus pais e seus psicólogos clínicos e psicanalistas infantis. Da Idade Medieval 
49
aos atuais cenários em que vivem as crianças do século XXI, uma mudança radical foi a separação 
entre o público e o privado. Na contemporaneidade, toda criança em desenvolvimento e seus 
pais possuem nítidas diferenciações entre a instância da rua e da casa. Um dia, inventamos a 
infância, desenvolvemos teorias sobre o seu desenvolvimento e a clínica infantil foi inventada 
para essa criança, na modernidade.
3.1 Surgimento do conceito de infância na modernidade antes da clínica
Quando alguém pergunta sobre a importância da clínica infantil, ao longo da sua constituição 
será necessário saber de qual infância e em que momento da história estamos falando. Tudo 
transmutou significativamente a partir da modernidade quando se fala em infância e isso irá 
condicionar as futuras instituições que vão lidar com as infâncias.
Por volta do século XVII, em plena Idade Moderna, os filhos dos ricos, as crianças da Aristocracia, 
eram beneficiados com uma preocupação especial com suas infâncias. Assim, ocorreu uma 
mudança de ordem individualista, estabelecendo inusitadas formas de conviver com as crianças. 
São essas novas sociabilidades que suscitaram mudanças radicais com relação às demonstrações 
de afeto e de cuidado com os seus filhinhos, “que se expressa, por exemplo, num maior empenho 
em planejar o futuro profissional dos filhos, seja para assumir cargos administrativos, para seguir 
uma profissão autônoma ou continuar os negócios da família” (VEIGA, 2007, p. 38).
Com o desenvolvimento da tipografia, os livros foram publicados para socorrer os adultos, 
indicando como ser os condutores desse progresso, já desde casa e antes das crianças serem 
enviadas aos colégios. Foi constituída uma literatura própria para 
instruir os pais sobre como cuidar dos filhos, evitando ao mesmo tempo práticas violentas e 
atitudes de excessiva condescendência. A ênfase recai na formação moral, na cultura geral, nas regras 
de comportamento e nos comedimentos necessários. (VEIGA, 2007, p. 38)
São exemplares dessa literatura que fez muito sucesso entre os mais abastados da sociedade 
europeia: “A arte de criar bem os filhos na idade da puerícia (1685), do jesuíta português Alexandre 
de Gusmão; o Tratado sobre a educação das meninas, de Fénelon (1687); e Alguns pensamentos 
sobre educação, de John Locke (1708)” (VEIGA, 2007, p. 38). 
Mas qual seria o foco dessas e outras obras?
Era passar uma certeza presente à mente desses estudiosos: a criança seria maleável, necessitando 
ser contida no que eles concebiam como a natureza rebelde infantil, sendo imprescindível ser educada 
já na idade precoce, antes de sair de casa e ir ao colégio (VEIGA, 2007). Assim, as elites preparariam 
seus filhos para serem os futuros mandatários das sociedades europeias.
Essa poderosa literatura do século XVII foi muito apreciada pelos pais e suas recomendações 
50
sobre o desenvolvimento infantil foram muito lidas e acatadas. Assim, os pais lutaram para 
vencer e amenizar algo bastante condenado por esses celebrados autores: A paparicação com 
as crianças. Significa acariciar demasiadamente, mimar excessivamente. A paparicação com 
as crianças foi considerada como o 1.º Sentimento de Infância, dos adultos com relação às 
crianças, dos tempos medievais aos modernos. Antes desse sentimento, adultos não estavam 
demasiadamente apegados às crianças (BOTO, 2017).
Esses teóricos da infância cravaram esforços na constituição de um eficaz rol de normas e 
padrões para serem incorporados na educação dos filhos. O pensador Erasmo de Rotterdam 
escreveu no seu livro De Pueris suas típicas críticas aos exagerados carinhos dos pais aos filhos, 
clamando que primassem por educá-los mais do que mimá-los. Dispondo de inúmeras dicas 
práticas para a educação das crianças aristocráticas e assim preparar bem a elite (BOTO, 2017).
Ressaltava uma forte crítica direcionada às senhoras da Aristocracia e que teriam um hábito 
comum, visto por esses pensadores humanistas como deplorável, de devotar demasiados 
mimos maternos, chegando na visão deles a tratar seus filhinhos de sete anos como se fossem 
bonequinhas ou animais de estimação. Os autores clamavam em suas páginas que os filhos eram 
crianças, que fossem deixados de lado, solicitando que essas senhoras fossem mimar animais 
domésticos. Alertavam para a excessiva tendência de subestimação do relevante desenvolvimento 
e de formação (modelação) das mentes infantis (BOTO, 2017).
Com o apogeu dessa literatura voltada para a educação das crianças, surge outro sentimento 
de infância, o sentimento de família, ditado pelos escritores moralistas humanistas, impondo 
disciplinamento a racionalização dos costumes.
Os amores maternos e paternos deveriam ser expressos com as necessárias preocupações 
psicológicas e morais com seus filhos, menos com as brincadeiras deles e mais com a educação. 
Isso exigiauma vigilância constante nas atitudes da família em não visualizar seus filhos como 
divertidos, evitando os exagerados mimos.
Esse disciplinamento transformou cada criança em estudante, sob controle constante. Até 
mesmo as edificações dos colégios eram, arquitetonicamente, pensadas para favorecer os 
intentos. Tudo em nome da disciplina. Foucault explica que o produto produzido por tais colégios, 
a educação das novas gerações, só foi possível graças ao poder disciplinar.
Seria um poder com a
função maior ‘adestrar’; ou sem dúvida adestrar para retirar e se apropriar ainda mais e melhor. 
(...) A disciplina ‘fabrica’ indivíduos; ela é a técnica específica de um poder que toma os indivíduos ao 
mesmo tempo como objetos e como instrumentos de seu exercício. (FOUCAULT, 1987, p. 153) 
Esse exercício de poder é bem calculado permanentemente.
51
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3.2 Psicologia na modernidade e o diálogo com o Atendimento Clínico 
Infantil
A expressão atividade clínica é derivada da palavra grega klinê, significando leito. Remetendo 
a presença do médico próximo do doente, acamado, entrevistando-o e prescrevendo um 
tratamento a ser seguido. O Atendimento Clínico Psicológico está em sua origem atrelado à 
medicina. O apogeu da clínica médica ocorre entre o fim do século XVIII e o início do século XIX. 
“Este último foi, sem dúvida, um dos séculos mais prósperos para a área, devido às descobertas 
no ramo da biologia e às invenções que possibilitaram a instrumentalização médica” (MOREIRA; 
ROMAGNOLI; NEVES, 2007, p. 611).
Nesse momento histórico, dialogando com o pensamento de Michel Foucault, é possível 
concluir que a medicina e o discurso do médico vão agir para o controle disciplinar e tecnológico 
do corpo. Esses poderosos senhores, nas suas clínicas, sabedores dos sintomas, exerceram 
poderes, advindos de suas práticas e saberes médicos. Assim, na modernidade, no decorrer do 
século XIX, acontece a instauração “do poder sobre o homem como ser vivo e, nesse processo, a 
medicina teve papel preponderante. Esse poder recebe o nome de biopoder, poder sobre a vida” 
(MOREIRA; ROMAGNOLI; NEVES, 2007, p. 611). Esse modelo de sociedade de controle, a partir 
da modernidade, foi exercido pela medicina e tomado de empréstimo da nascente Psicologia.
A Psicologia moderna, segundo Michel Foucault (1987), é uma ciência que operou para 
mudar processos de individualização.
Mudaram como as crianças eram vistas nos tempos medievais. Na Idade Média valiam os 
mecanismos históricorituais de formação da individualidade. As crianças recebiam os símbolos 
significativos para tornar-se membro de sua comunidade (FOUCAULT, 1987).
Já a partir da modernidade, surgem os mecanismos científico-disciplinares, e com eles o 
52
que vale, para examinar o desenvolvimento da criança, não é outra coisa que pregar rótulos de 
normalidade ou não normalidade, por parte da nascente clínica psicológica.
Antes, nos tempos medievos, valiam os legados dos ancestrais, que eram contados para que a 
criança fosse preparada para fazer parte daquela história, em uma linha genealógica (FOUCAULT, 
1987).
Sendo assim, a nascente psicologia já mirava menos nas subjetividades e nas observações 
sobre os lugares ocupados pela família, nas suas vidas comunitárias e preferia focar nas medidas, 
como medir a inteligência, entre outras. Foucault comenta que a individualidade do homem 
medieval memorável foi, nos tempos modernos, sendo substituída pelos cálculos sobre o 
desenvolvimento (FOUCAULT, 1987).
Isso impregnou a cultura ocidental com a mania de olhar a criança em desenvolvimento sob 
a mania de avaliar a sua normalidade, seu ajustamento aos testes como o Q.I (Quociente de 
Inteligência), ocorrendo que os pais entrarassem nesta lógica moderna.
A modernidade é o lugar para viver o homem calculável. Como se o desenvolvimento infantil 
fosse unicamente o desabrochar de funções biológicas ou cabíveis de ortopedização moral, ou 
seja, o uso de técnicas para “endireitar o comportamento” infantil. “Esse momento, em que as 
ciências do homem se tornaram possíveis, é aquele em que foram postas em funcionamento uma 
nova tecnologia do poder e uma outra anatomia política do corpo” (FOUCAULT, 1987, p. 172).
Essa individualização no interior das famílias passava pelas leituras de compêndios escritos como 
educar seus filhos, numa busca incessante para controlar corpos e mentes infantis. Inaugurou-se uma 
sociedade disciplinar para vigiar todos, em particular as crianças. As instituições eram administradas 
dentro desse espírito da modernidade, tanto escolas quanto prisões, como os manicômios. Momento 
bastante conturbado para o surgimento da clínica, de uma sociedade disciplinar.
4 CONTRIBUIÇÃO DE FREUD E DA PSICANÁLISE 
NA CONSTITUIÇÃO DA CLÍNICA INFANTIL 
CONTEMPORÂNEA
Hoje, reconhecidamente, a clínica infantil está consolidada e já não é incomum que uma 
família busque um Psicólogo Clínico para ouvir as queixas infantis, encontrando nos sintomas 
apontados pela família e a criança, caminhos para a cura.
Dr. Freud foi um fabuloso inovador. Antes mesmo de existir algo similar à prática atual de 
atendimento psicológico clínico individual, o fundador da psicanálise inovou. Pôs o saber nas 
53
mãos do cliente e não mais nas mãos do médico. O saber do paciente é um saber inconsciente. 
Ainda que inconsciente é estritamente dele. Nesse processo,
o analista é um mero facilitador, já que, na condução do tratamento, ele apenas aponta o caminho 
e o paciente não apenas ouve, como se fosse prescrição médica, mas elabora e encontra sua verdade 
no próprio inconsciente. (MOREIRA; ROMAGNOLI; NEVES, 2007, p. 612)
4.1 Sigmund Freud
Faltou aos cientistas da nascente Psicologia do século XIX, aos seus sucessores e aos muitos 
pensadores da atualidade, saberem responder profundamente o que é uma criança. A indagação 
sobre o que é uma criança,
em que consiste uma criança, conduz a pré-história, tomando-a não apenas no sentido que lhe 
outorga Freud (primeiros anos de vida, que logo sucumbem à amnésia), mas a pré-história em direção 
às gerações anteriores (pais, avós etc.). (RODULFO, 1990, p. 17). 
A clínica infantil teve grande impulso com o desenvolvimento da Psicanálise. Freud (1856-
1939) não dedicou muitos estudos psicanalíticos diretamente com as crianças, na clínica. O que 
não significa afirmar que os discursos sobre as infâncias de seus analisandos adultos não tenham 
ficado de fora das sessões de análise. “Freud assinala que o sintoma tem um ‘sentido’ (sinn) 
inconsciente e está estritamente ligado à experiência daquele que teceu o texto do sintoma, na 
medida” (FERREIRA, 2017, p. 76).
O sintoma, para Jacques Lacan, seria uma resposta às questões que o sujeito vai, 
inconscientemente, fazendo a si mesmo. “O sintoma advém como uma resposta que o sujeito dá a 
essa questão, mas não sabe a que responde” (FERREIRA, 2017, p. 76). Isso demandará uma escuta 
apurada do analista, com atenção especial aos caminhos usados pela criança como respostas, 
via sintomas. Poderá acontecer, como previa Lacan, que o “sintoma da criança se encontra em 
posição de corresponder ao que há de sintomático na estrutura familiar” (FERREIRA, 2017, p. 77).
Isso significa que o sintoma, que pode levar a criança à clínica, traz verdades sobre as subjetividades 
dos pais, responsabilidades, excessos e falhas deles sobre a constituição subjetiva da criança. “É 
possível escutar que o sintoma da criança, ao mesmo tempo em que é uma espécie de coadjuvante do 
que há de sintomático na estrutura da família, é também uma resposta a isso” (FERREIRA, 2017, p. 80).
Diferente do pensamento de muitas teorias do desenvolvimento infantil, a contribuição 
freudiana não está vinculada à ideia de desenvolvimento, a clínica revelou a inexistência desse 
aparelho psíquico completo e totalmente eficiente. Os sintomas psíquicos podem surgir. Tal 
aparelho é “constituído de fraturas, de hiâncias, de ruptura, de cisão, sendo por isso mesmo 
instável, e nãoum aparelho capaz de se fazer maduro e completo com o passar do tempo” 
(FERREIRA, 2017, p. 60).
54
A clínica de Freud e a sua psicanálise foi voltada aos adultos e reminiscências das infâncias 
deles. Lembranças que estavam soterradas nos cantos escondidos do inconsciente e tinham 
suas origens traumáticas lá nos tempos de meninice. Ao longo da obra de Freud, foram deixadas 
teorizações sobre a criança e algumas importantes temáticas, como sexualidade, saber, formações 
do inconsciente (sonhos, atos falhos, lapsos, sintomas e chistes), fantasias, identificações, 
romance familiar, escola e professores, mentiras, jogo, angústia e neurose (FERREIRA, 2017). 
Figura 1 - Sigmund Freud 
Fonte: Catwalker, Shutterstock, 2020.
#ParaCegoVer: A imagem mostra um selo usado para colocar em cartas enviadas pelos 
correios, no centro da imagem está uma foto de Sigmund Freud. Do lado direito da imagem está 
escrito o nome Sigmund Freud. Do lado esquerdo está escrito 1856-1936, as datas de nascimento 
e morte de Freud. Abaixo da foto está escrito Republik Osterreich (Áustria, em português). 
Ele desenvolveu suas técnicas para fazer com que as lembranças traumáticas fossem faladas, 
deixando seus pacientes falar livremente, para produzir associações livres que viessem a revelar 
sentimentos inconscientes nessas falas, nas revelações de sonhos, ao pronunciar lapsos ou enganos 
e chistes (palavras espirituosas). Com Freud, a humanidade descobriu que o inconsciente guia os 
sentimentos humanos e age na vida das pessoas. Profundamente marcados pelo racionalismo 
cartesiano, o pensamento ocidental vai admitir que somos onde não pensamos.
Vale a pena resgatar uma escrita muito especial de Freud. É uma narrativa que ele fez sobre 
uma brincadeira de seu neto, uma repetitiva brincadeira de esconder e encontrar um objeto. 
Psicanalistas, depois da morte de Freud, continuaram encontrando saberes apropriados à clínica 
infantil ao ler e comentar os escritos de Freud sobre a brincadeira do netinho, bem como a obra 
inteira. A partir dessas observações de Freud sobre a brincadeira do seu neto, as compulsões dele 
55
por repetir o mesmo gesto, chegando a entender que o que aparece no jogo é algo que vai além 
do prazer. “É por isso que Freud o inscreve entre suas teorizações sobre a compulsão de repetição 
e a pulsão de morte. O jogo é resposta. Resposta do real” (FERREIRA, 2017, p. 97).
São com essas teorizações de Freud que os psicanalistas posteriores a ele foram capazes de 
criar uma clínica para as crianças que os permitam indagar “sobre como um analista irá responder 
ao que se apresenta como resposta do real nas ficções produzidas pelas crianças no seu jogo, no 
decurso de sua análise” (FEREIRA, 2017, p. 97).
 Assim, para Freud, “o corpo da criança, sendo um corpo atravessado pela pulsão, a 
despeito do que dizia Rousseau, é um corpo de desejo. Certamente, nenhum dos métodos de 
repressão pode dar cabo disso” (FERREIRA, 2017, p. 54). Freud e a Psicanálise ainda lidaram 
com a sexualidade infantil, “mas também com o fato de que as próprias crianças teorizam sobre 
questões da sexualidade, muitas vezes em segredo” (FERREIRA, 2017, p. 54).
5 PRINCIPAIS TEORIAS DA CLÍNICA INFANTIL
A clínica infantil psicanalítica surgiu nas primeiras décadas do século XX, com duas mulheres 
pioneiras, Anna Freud (filha de Freud) e Melanie Klein. 
Anna Freud
Defendeu que o método mais apropriado de clínica infantil é a análise da criança e dos pais, 
simultaneamente (FERREIRA, 2017). 
Melanie Klein 
Para ela a importância do estabelecimento de uma relação de confiança entre o analista e os 
pais era mais importante (FERREIRA, 2017). 
5.1 Clínica infantil depois de Freud
As gerações seguintes foram trazendo novas práticas, escritas e construindo a clínica que 
conhecemos hoje. Alguns dos renomados psicanalistas infantis dos séculos XX são Melanie Klein, 
Anna Freud e Winnicott. Winnicott (1896-1971) escreveu uma interessante obra sobre o brincar 
infantil. Ele insistia que a brincadeira era universal e própria à saúde. O analista infantil deveria 
ficar atento e perceber o que o brincar transporta aos relacionamentos grupais. 
 O brincar pode ser uma forma de comunicação na psicoterapia; finalmente, a psicanálise foi 
desenvolvida como forma altamente especializada do brincar, a serviço da comunicação consigo 
mesmo e com os outros. (WINNICOTT, 1971, p. 63)
56
Ao longo do século XX, surge ainda Jacques Lacan, além de muitas outras práticas clínicas 
infantis. Françoise Dolto e Maud Mannoni, cada uma delas com um foco distinto, com interessantes 
práticas clínicas com alcance social, com crianças. Mannoni (1923-1998) criou uma instituição 
para acolhimento, tratamento clínico e educacional para crianças com neuroses graves, autismo 
e psicose, na França.
A Escola de Bonneuil fez história, continuando a existir após a sua morte. Entrevistada sobre 
o trabalho desenvolvido nesse misto de escola e hospital-dia, Mannoni declarou: “Explica-se às 
crianças que, para poder escapar da exclusão e encontrar um trabalho em que se possa ganhar 
mais que um salário mínimo, precisam de um diploma. Assim, podem se tornar trabalhadores e 
mestres-artesãos com a sua cota de loucura” (LAJONQUIERE; SCAGLIOLA, 1998, p. 22).
Mannoni explicou que o pedido da Escola de Bonneuil aos que passavam por ela era fazer um 
só gesto, “como dizia Winnicott, o único que pedimos às crianças é que, na vida, façam semblante 
de serem normais” (LAJONQUIERE; SCAGLIOLA, 1998, p. 22).
Sobre a clínica infantil:
Maud Mannoni
Valorizou o discurso dos pais e defendeu que as falas dos pais ajudam a entender o sintoma da 
criança. A analista infantil deveria, ao seu ver, refletir sobre o que falam os pais sobre as crianças.
Françoise Dolto
Nascida em 1908, falecendo aos 79 anos, contribuiu com a popularização da psicanálise 
através de programa de rádio. Entendia que a participação familiar era importante em momentos 
preliminares, no início do atendimento clínico da criança. Posteriormente, se desejavam falar, 
seriam encaminhados para outro analista (FERREIRA, 2017).
Dolto defendia que a cura acontece quando os sintomas desaparecem duradouramente e a 
criança consegue viver interiormente em paz.
Reagindo às dificuldades reais da vida sem angústia, adotando uma atitude espontaneamente 
adaptada às exigências de uma ética em concordância com o meio em que escolheu e às suas próprias; 
e tudo isso permitindo às suas pulsões instintivas traduções adequadas. (DOLTO, 1988, p. 149)
Segundo ela, é aquele momento em que as descargas libidinais estão em qualidade e em 
quantidade suficientes, assegurando a conservação do equilíbrio adquirido.
57
5.2 Teorias e técnicas de atendimento em consultório de psicologia 
infantil
A terapia analítico-comportamental infantil é respaldada em um modelo que envolve a 
contingência, modelação e necessidade de intervenção, com foco em resolver a queixa, na busca 
da resiliência, da adaptação e em prevenir novas queixas, com o uso de ludoterapia (atividades 
lúdicas) (CARPIGIANI, 2011). Além desse tipo de atendimento, há outras três maneiras que 
detalharemos a seguir.
Psicologia Analítica
É fundamentada em três grandes vertentes dela, a saber: a clássica, a desenvolvimentista 
e a arquetípica. Lembrando que foi Carl Jung quem deu os primeiros passos da elaboração 
da Psicologia Analítica. O terapeuta infantil deve acreditar na sua capacidade de produção de 
mudanças, nas vidas psíquicas dos pacientes, considerando a neurose e a psicose como duas, 
diferenciadas uma da outra, além de tomar decisões a respeito dos conflitos dos pacientes, 
refletindo se esses conflitos são discernentes ao processo adaptativo ou ao processo de 
individuação (CARPIGIANI, 2011).
Psicodrama
O método psicodramático objetiva a busca da espontaneidade, da criatividade, incentivando 
uma intervenção nas relações interpessoais que apareçam nos momentos de atendimento 
terapêutico. São usadas técnicas de inversões de papéis, montagens de cenase ação 
psicodramática, com a presença de complementos aos diálogos verbais (CARPIGIANI, 2011).
Gestalterapia 
Foca no aqui e agora, pretendendo colaborar com interações sociais baseadas na verdade 
dos sentimentos, incentivadas pelas ações ativas e diretivas do Gestalterapeuta, em uma busca 
incessante por preencher as lacunas da personalidade da pessoa que busca uma Gestalterapia. 
Um foco é fazer com que as pessoas tomem consciência de seus sentimentos, pedindo que elas 
passem a ter consciência de si próprias, de seus sentimentos, de seus papéis, de suas ações, de 
seus conflitos e possam ter novos insights, espécie de luzes novas sobre seus modos de viver, 
modificando-os para viver melhor (MORRIS; MAISTO, 2004).
58
6 DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA NA ESCOLA: 
ASPECTOS FÍSICOS, EMOCIONAIS E COGNITIVOS 
Pense sobre o seguinte: Assim como hoje as crianças lidam com o fim, doloroso para 
algumas, das suas infâncias, não podemos afirmar que outros povos, em outras épocas 
lidavam igualmente. Isso ficará mais evidente quando você pensa sobre o conceito de infância, 
a partir da Era Moderna. Isso significa que não é possível afirmar que a história da Psicologia 
do Desenvolvimento é composta pelos mesmos fatos, conceitos e métodos infalíveis, testados, 
imutáveis e incontestáveis. Então, o bom pesquisador sobre o desenvolvimento humano é aquela 
pessoa interessada em atualizar os seus conhecimentos, sempre!
A Psicologia do Desenvolvimento está constantemente revendo suas ênfases, certezas e 
verdades e seus objetivos, pois o desenvolvimento humano não é estático através dos tempos, 
ou seja, nós seres humanos estamos constantemente nos transformando, burilando nossos 
comportamentos individuais e nossos modos de convivências sociais.
Utilize o QR Code para assistir ao vídeo:
As sociedades tradicionais têm seus ritos de passagem para decretar o fim da infância e o começo 
da adolescência. Aldeias dos povos indígenas costumam fazer festas, no exato momento da menarca, 
marcando para eles que seus povos terão continuidade.
FIQUE DE OLHO
Para saber mais sobre o que estamos estudando, leia o artigo sobre psicoterapias infantis “A 
prática da psicoterapia infantil na visão de terapeutas nas seguintes abordagens: psicodrama, 
Gestalt terapia e centrada na pessoa”. É o relato, a análise e a discussão de entrevistas com 
psicoterapeutas infantis e seus sentimentos diante dos obstáculos. 
59
E as crianças que gastam suas horas nos videogames ou já são youtubers e com seus vídeos 
alcançam muitos seguidores em seus programas na internet? E aqueles que costumam faltar as aulas 
nas sextas-feiras para chamar a atenção de seus governantes para as mudanças climáticas? Como 
fazem suas despedidas da infância?
Para alguns pais e educadores, o fim da infância e a chegada na puberdade é um momento de 
game over (fim de jogo) e das dificuldades cotidianas de conviver com um estranho que passará a ser 
o filho ou aluno. Para alguns adultos, essa transição do fim da infância e chegada na puberdade trazem 
muitos pesares (CORSO; CORSO, 1997). 
Fica uma sensação dolorosa nos pais de que acabou qualquer possibilidade de interferir e educar 
seus filhos. Alguns pais ficam traumatizados com a chegada da puberdade e o fim da infância. Os 
lutos também são enfrentados pelos púberes pelas perdas de seus corpos da infância, pelas atitudes 
dos pais não mais serem iguais aos tempos de infância. E não duvide, sofrem muito os pais (CORSO; 
CORSO, 1997). 
É necessário entender que nem tudo no amadurecimento do indivíduo, do atravessamento desde 
a primeira infância à puberdade, ocorre somente por obra das transformações biológicas. Existe um 
trabalho constante das famílias em prol da infância de seus filhos (CORSO; CORSO, 1997). 
Os desencontros entre pais e filhos, crianças que amadureceram e viraram adolescentes, 
ocorrem pelo fato desses filhos serem exímios intérpretes do desejo dos adultos. Interpretam bem 
os desejos reprimidos dos seus pais, mas o próprio sucesso de suas interpretações produz fatalmente 
desencontros entre adultos e adolescentes.
 O adolescente esbarra na realização de um ideal que é simplesmente idêntico a algum desejo 
reprimido pelo pai ou pela mãe. Pode acontecer que esse desejo não era reprimido pelo adulto 
por acaso. Se reprimiu, foi porque queria esquecê-lo. Por consequência, o adulto só pode negar a 
paternidade desse desejo e aproveitar-se da situação para reprimi-lo ainda mais no adolescente. 
(CALLIGARIS, 2000, p. 27)
6.1 Piaget e a abertura para todos os possíveis com a chegada da 
puberdade
Piaget estudou o julgamento moral das crianças, através do seu método clínico, entrevistando 
ou acompanhando as brincadeiras das crianças e suas atitudes com relação aos juízos morais. 
Assim, os modos de realizar julgamentos morais mudam como os estádios do desenvolvimento 
cognitivo também mudam com o passar do tempo e as estimulações pelas quais passam. Vejamos 
as três fases pelas quais as crianças passam em relação a esse assunto.
Anomia
A primeira fase é chamada de anomia, ou seja, a ausência de conhecimento de regras morais 
e sociais. A criança pequena está regulada pelo egocentrismo, o que a impede de perceber sob 
outros ângulos.
60
Heteronomia
Em seguida, a criança em idade escolar irá começar a introjetar regras advindas dos adultos e 
aprenderá a respeitá-las. É a fase da heteronomia, as regras chegam de fora e são determinadas 
pelos adultos, que exercem forte autoridade sobre as crianças.
Autonomia
E a terceira fase é da autonomia, corresponde ao acréscimo de cooperação, distinta da coação, 
significa operar em conjunto, em grupo, aprendendo as dinâmicas necessárias para lidar e operar 
conjuntamente. Implica aprender a respeitar os outros e a ver sob pontos de vista diferentes.
Outro aprendizado fundamental é o respeito às regras e decisões coletivas, o que implica 
agir de maneira firme e de posse de seus próprios valores apropriados ao convívio social justo 
e democrático (MAIA, 2017). É a exata saída do Estádio Operatório Concreto e a chegada no 
Estádio Operatório Formal. Uma grande mudança acontece no julgamento moral, passando a 
agir com autonomia e de forma cooperativa. O pensamento formal, desconjuntado do concreto, 
potencializa muitas novas possibilidades.
Vygotsky comenta que a criança em desenvolvimento vivencia um complexo processo 
dialético, aberta aos mais variados fatores internos, externos e adaptativos. Sendo imprescindível 
o papel estimulador e antecipador dos adultos (MAIA, 2017).
Dentro da perspectiva psicanalítica, cabe muito a família dentro da constituição da subjetividade 
humana, justamente na infância, nos seis primeiros anos dessa constituição. É aquilo que o 
psicanalista francês Jacques Lacan chamou de ideal do ego, ressaltando um papel considerável para 
a figura materna, aquela pessoa que a criança ama e que lhe fala, quando ela era um bebê.
 Isso sim interessa! Habitamos em um mundo que nos chega na doçura da voz de nossas mães. 
Quanto aos pais, esses poderosos e amados senhores da infância de uma criança operam para 
interditá-la dos excessos de amor materno, significando aquela passagem de toda criança pelo 
Estádio do Espelho e o Complexo de Édipo, tirando-lhe o excessivo e dando-lhe uma possibilidade 
de ser sujeito do desejo (LACAN, 1994).
Chegamos ao século XXI, com fortes demandas, por parte das famílias e dos educadores para 
o enfrentamento das chamadas dificuldades de aprendizagem. A lógica dissociada dentro da 
cultura é herdeira de pensamentos próximos e sucessórios aos cientistas do século XIX, vistos 
anteriormente. São muitas falas exigindo diagnósticos, atendimentos, medicamentos e muitos 
entendimentos bastante equivocados sobre as crianças. Qualquer comportamento diferente já é 
visto pelo educador como um Transtorno de Atenção e Hiperatividade. E a criança é encaminhada 
à clínica infantil!
61
Nesta unidade, você teve a oportunidade de:
• compreender o histórico do atendimento clínico com crianças,a partir da moderni-
dade, entendendo a nascente Psicologia;
• conhecer o conceito moderno de infância, antes do surgimento da clínica, através 
da análise da iconografia, na transição entre medievo e modernidade;
• entender a contribuição de Freud e da Psicanálise na constituição da clínica infantil 
contemporânea;
• conhecer as teorias principais da clínica infantil;
• refletir sobre o desenvolvimento da criança na escola, pensando nos aspectos físi-
cos, emocionais, cognitivos e de julgamento moral..
PARA RESUMIR
ANDERY, M. A. (org.). Para compreender a ciência: uma perspectiva histórica. Rio de 
Janeiro: Garamond; São Paulo: EDUC, 1988.
ARIÈS, P. História social da criança e da família. Trad. Dora Flaksman. 2ª edição. Rio de 
Janeiro: Zahar Editores, 1981.
BAKHTIN, M. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: O Contexto de 
François Rabelais. São Paulo: Hucitec, Brasília: Universidade de Brasília, 1993.
BOTO, C. A Liturgia Escolar na Idade Moderna. Campinas, Papirus, 2017.
CALLIGARIS, C. A adolescência. São Paulo: Publifolha, 2000. 
CARPIGIANI, B. (org.). Teorias e técnicas de atendimento em consultório de psicologia. 
São Paulo: Vetor, 2011.
CORSO, M.; CORSO, D. Game over. Adolescência entre o passado e o futuro. Porto 
Alegre: APPOA e Artes e Ofícios, 1997.
DOLTO, F. Psicanálise e pediatria. Trad. A. Cabral, Rio de Janeiro: Guanabara-Koogan, 
1988.
FERREIRA, T. A escrita da clínica: psicanálise com crianças. Belo Horizonte: Autêntica 
Editora, 2017.
FOUCAULT, M. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Trad. Lígia M. Pondé Vassallo. 
Petrópolis, Vozes, 1987.
LACAN, J. O Seminário: livro 1 – Os escritos técnicos de Freud. Trad. Betty Milan, Rio de 
Janeiro, Zahar, 1994.
LAJONQUIERE, L. de; SCAGLIOLA, R. Conversando sobre Bonneuil. Entrevistas com 
Maud Mannoni, Marie-José Richer-Lérès e Lito Benvenutti. Estilos clin., São Paulo, v. 3, 
n. 4, p. 20-40, 1998. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_
arttext&pid=S1415-71281998000100003&lng=pt&nrm=iso. Acesso em: 09 abr. 2020.
MALSON, L. As crianças selvagens: mito e realidade. Porto, Civilização, 1980, p. 152.
MAIA, C. M. Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem. Curitiba: InterSaberes, 
2017.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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MOREIRA, J. de O.; ROMAGNOLI, R. C.; NEVES, E. de O. O surgimento da clínica 
psicológica: da prática curativa aos dispositivos de promoção da saúde. Psicol. cienc. 
prof., Brasília, v. 27, n. 4, p. 608-621, dez. 2007. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.
org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932007001200004&lng=pt&nrm=iso. 
Acesso em: 10 abr. 2020.
MORRIS, C. G.; MAISTO, A. A. Introdução à Psicologia. Trad. Ludmila Lima; Marina 
Sobreira Duarte Batista. São Paulo: Prentice Hall, 2004. 
NÓVOA, A. Para o estudo sócio-histórico da gênese e desenvolvimento da profissão 
docente. Teorias e Educação, n. 4, 1991.
PERROTTI, E. A criança e a produção cultural. In: ZILBERMAN, R. A produção cultural 
para a criança. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982.
RODULFO, R. O brincar e o significante – Um estudo psicanalítico sobre a constituição 
precoce. Trad. Francisco Franke Settineri, Porto Alegre, Artes Médicas, 1990.
VEIGA, C. G. História da educação. São Paulo, Ática, 2007.
WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro, Imago, 1971.
UNIDADE 4
A infância, o início da adolescência e 
a relação com a família
Você está na unidade A infância, o início da adolescência e a relação com a família. 
Compreenda aqui a mediação dos pais no desenvolvimento infantil em suas dimensões 
físicas, emocionais e cognitivas. Perceba a relação do apego na construção da autoestima 
da criança em desenvolvimento. Reflita sobre a importância da família em suas diferentes 
configurações no desenvolvimento da criança. Estude o processo de socialização primária 
tendo como base a preparação das condições básicas à vida em sociedade. Conheça a 
clínica infantil na contemporaneidade e as diferentes demandas relacionadas à procura 
pela psicoterapia infantil. Identifique os principais aspectos que culminam com o 
amadurecimento da infância e possibilitam a entrada da criança na fase da adolescência.
Bons estudos!
Introdução
67
1 A CRIANÇA EM DESENVOLVIMENTO E OS PAIS
Segundo as principais teorias do desenvolvimento humano, o indivíduo, desde o seu 
nascimento até o fim de sua vida passa por uma série de mudanças de natureza cognitiva, 
social, física e emocional. Em cada uma dessas dimensões, a manifestação de determinadas 
características é esperada para que o processo de desenvolvimento seja considerado “típico”, nos 
principais marcos da vida humana (infância, adolescência, adultez e velhice).
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A relação da criança com os pais, via de regra, inicia-se antes mesmo de seu nascimento. Existe 
uma infinidade de fatores que pode influenciar a construção de um relacionamento saudável ou 
“tóxico” entre as duas partes.
Você já parou para pensar nas diversas situações que antecedem o nascimento de um bebê? 
Será que a gravidez foi planejada? A mãe ou o pai queria um menino, mas o ser que está sendo 
gerado é uma menina? Quem são as pessoas que assumirão os papeis parentais? A mãe teve 
FIQUE DE OLHO
O desenvolvimento típico diz respeito ao padrão geral de desenvolvimento infantil, 
conforme parâmetros expectados segundo a faixa etária de cada criança, no que se refere 
ao comportamento e à aprendizagem escolar, definidos pela Organização Pan-Americana 
de Saúde (2005). Para conhecer o padrão típico do desenvolvimento infantil (com foco 
nas crianças de 2 meses a 5 anos), pesquise o Manual AIDPI Criança e leia o capítulo 5 do 
documento. 
68
acompanhamento pré-natal? O recém-nascido é o primogênito da família? Quais são as condições 
socioeconômicas e cognitivas dos pais? Enfim, são tantas situações possíveis que, certamente, 
influenciarão positiva ou negativamente na construção dos primeiros vínculos afetivos do bebê. 
Para a Psicologia do Desenvolvimento, a relação entre pais e filhos também é conhecida 
como práticas parentais. Schmid et al. (2016) explicam que as práticas parentais podem ser 
identificadas ao longo do processo de cuidado e socialização dos filhos por parte dos pais e 
das mães, podendo assumir um caráter negativo ou positivo. Práticas parentais negativas são 
marcadas por comportamentos negligentes e violentos. Por outro lado, nas práticas parentais 
positivas estão presentes comportamentos afetuosos e zelosos.
Os vínculos afetivos são fundamentais em todas as fases da vida do ser humano, entretanto, 
na fase da infância, eles assumem uma significativa importância no que diz respeito ao 
crescimento físico, cognitivo e psíquico, uma vez que ajuda a construir uma base sólida para 
o desenvolvimento das potencialidades e idiossincrasias de cada indivíduo. Além disso, podem 
contribuir para o desenvolvimento das competências socioemocionais da criança.
Abuchaim et al. (2016, p. 4) corroboram o entendimento na questão da vinculação da criança 
com os pais e/ou cuidadores afirmando que “para que os vínculos se estabeleçam, os adultos 
devem ser fontes de segurança e acolhimento para as crianças, de modo que elas construam uma 
base segura. Boas experiências afetivas iniciais têm influência positiva no desenrolar da vida do 
indivíduo”.
Mas, por que será? Por que a infância pode ser vista como uma etapa crucial no 
desenvolvimento humano? Por que os adultos são tão importantes para sua sobrevivência e seu 
crescimento?
Segundo o dicionário Priberam (2020), a infância é definida como uma etapa de crescimento 
do ser humano, delimitada pelo período entre o nascimento e a puberdade. Etimologicamente, 
a palavra infância vem do latim infantia, que significa incapacidade de falar. Pascoal e Marta 
(2012) acrescentam que, conforme a tradição filosófica ocidental, a incapacidade de falar, 
ou seja,a ausência da linguagem significa não ter pensamento, não ter conhecimento, não 
ter racionalidade. Portanto, a criança pode ser entendida como um “ser menor, alguém a ser 
adestrado, a ser moralizado, a ser educado” (PASCOAL; MARTA, 2010, p. 224). 
O adestramento (no sentido de tornar-se apto, capaz), a moralidade e a educação são 
condições necessárias para que a criança possa ser socializada e, futuramente, consiga transitar 
com desenvoltura na sociedade na qual está inserida.
As experiências e oportunidades de bons relacionamentos, nos primeiros anos de vida, auxiliam 
na criação de um forte alicerce, gerando valores, habilidades cognitivas e sociabilidade. Essa etapa 
é crucial para o desenvolvimento humano, pois nela acontecem importantes maturações físicas 
69
e neurológicas, aprendizados sociais e afetivos. Já é consenso entre especialistas de diversas áreas 
que boas condições de vida, nos primeiros anos, podem ter impactos positivos futuros na formação 
humana. (SANTOS et al., 2016, p. 4)
É importante destacar que o conceito de infância e as peculiaridades dessa importante etapa 
da vida humana estão diretamente relacionados ao contexto social, cultural e econômico de uma 
determinada época e de uma determinada sociedade. Ariès (1981) confirma essa assertiva ao 
defender a tese de que não existia infância antes da modernidade, uma vez que as crianças eram 
vistas como “adultos em miniatura”. Ao longo da Idade Moderna, observou-se o fenômeno da 
escolarização, propiciou um alongamento dessa fase e um retardamento da entrada das crianças 
no mundo adulto.
Segundo Postman (2005), por exemplo, na sociedade contemporânea, a cultura infantil é 
marcada por características próprias no que diz respeito ao vestuário, à alimentação, à linguagem, 
às brincadeiras, aos programas televisivos etc. Assim, podemos dizer que o consumismo e a mídia 
foram, de certa forma, responsáveis por propiciar maior visibilidade e escuta ao universo infantil. 
Para Tomaz (2015), são muitas as designações e os entendimentos do que é a experiência da 
infância, uma vez que essa fase do ciclo de vida humano é influenciada por uma gama de variáveis, 
tais como: etnia, religião, classe e gênero, evidenciando, portanto, as inúmeras possibilidades de 
compreendê-la e vivenciá-la.
Na literatura especializada, existe um certo consenso de que a criança em desenvolvimento 
passa por uma série de significativas mudanças ao longo da infância, período esse marcado por 
três etapas que, segundo Papalia et al. (2013) são:
• Primeira infância
Período do desenvolvimento da criança desde o seu nascimento até dois anos.
• Segunda infância
Período do desenvolvimento da criança compreendido dos dois aos sete anos.
• Terceira infância
Período do desenvolvimento da criança compreendido dos sete anos até o início da 
adolescência.
Uma outra divisão é apresentada por Piaget (1982), tendo a primeira infância marcada pelo 
período do nascimento até os seis anos; e a segunda infância, entre os sete e 11 anos.
Independentemente da divisão adotada, ou seja, se a infância é constituída por três fases 
70
ou duas, especialistas em desenvolvimento infantil afirmam que existe um desconhecimento 
total ou parcial por parte da maioria dos adultos (pais, cuidadores, familiares e demais atores 
que fazem parte do universo da criança) sobre a importância dos primeiros anos de vida e suas 
consequências para os anos subsequentes da criança. Alguns aspectos centrais referentes à tal 
desconhecimento são resumidos no quadro 1.
Quadro 1 - Principais mensagens de especialistas em desenvolvimento infantil 
Fonte: Baran et al., 2014, p. 10 (Adaptado).
#ParaCegoVer: imagem mostra um quadro de uma coluna e quatro linhas, apresentando 
as principais mensagens não traduzidas sobre desenvolvimento na primeira infância no Brasil, 
enfatizando o que é desenvolvimento na primeira infância; o que dificulta o desenvolvimento na 
primeira infância e o que pode ser feito para melhorar o desenvolvimento na primeira infância.
Para Gulliford et al. (2015), a infância, em especial os primeiros anos de vida, é uma etapa 
crucial do desenvolvimento humano, por isso cabe aos pais e/ou cuidadores conduzi-la da forma 
mais salutar possível. Em outras palavras, o período compreendido desde o nascimento até, 
aproximadamente, os seis anos de idade, é primordial para o desenvolvimento de diferentes 
habilidades cognitivas, motoras, linguísticas e sociais.
71
Utilize o QR Code para assistir ao vídeo:
Costa et al. (2016, p. 4) complementam destacando que, nesse momento o infante apresenta 
maior plasticidade cerebral, ou seja, seu cérebro se transforma de uma maneira impressionante, 
em função dos estímulos disponíveis no ambiente e das experiências vivenciadas. Essas 
habilidades são imprescindíveis para o desenvolvimento futuro de habilidades mais complexas. 
“Desperdiçar as possibilidades da primeira infância significa limitar o potencial individual, uma 
vez que nem sempre é possível recuperá-lo plenamente com investimentos posteriores”. 
O Núcleo Ciência pela Infância (2018) complementa o entendimento de Costa et al. (2016) 
trazendo o conceito de “Janela de Oportunidade”, que significa a oportunidade de potencializar 
a aprendizagem de habilidades e desenvolvimento de competências em função dos estímulos 
psicossociais recebidos pela criança. Assim, por sua plasticidade, o cérebro se desenvolve de 
maneira célere e sensível aos diversos estímulos.
1.1 O apego e a construção da autoestima da criança em desenvolvimento 
O apego está relacionado ao vínculo afetivo que se estabelece entre o bebê e seus pais e/
ou cuidador. Ele é construído a partir dos primeiros relacionamentos. Como dito anteriormente, 
muitas vezes, antes do nascimento, na relação estabelecida entre o feto e a criança projetada 
pelos pais.
Assim que nasce, o bebê depende integralmente de alguém para sobreviver, precisando de 
cuidados e provimento de suas necessidades fisiológicas, de segurança e psicossocial (alimentação, 
higiene, sono, proteção, amor, zelo). Com o passar do tempo, por meio do vínculo afetivo, a criança 
deve aprender a respeitar a si mesma e aos outros, bem como consolidar sua autoestima.
Para tanto, a construção de vínculos seguros requer dos pais e/ou cuidadores um comportamento 
responsivo, confortante e acolhedor, estando atentos a quaisquer sinais de desconforto, desagrado, 
dor ou necessidade de atenção por parte da criança (ABUCHAIM et al., 2016).
72
O comportamento responsivo, confortante e acolhedor dos pais e/ou cuidadores está 
intrinsecamente relacionado com a capacidade de ser continente dos sentimentos e emoções 
do infante.
Por continência entende-se a qualidade intrínseca potencial do vínculo afetivo de um modo geral, 
a ser desenvolvida como espaço na relação para o acolhimento dos estados emocionais pertinentes 
à determinada situação. Particularmente, na relação afetiva mãe/bebê, a continência é uma condição 
da função materna de estar presente afetivamente e dando acolhimento ao filho em suas demandas 
emocionais. (CYPEL et al., 2013, p. 15)
Nesse sentido, qualquer ação por parte do bebê que incite uma resposta do adulto pode ser 
entendida como um comportamento de construção do apego. Segundo Morris e Maisto (2004, p. 
310), o apego é construído ao longo de muitas horas de interação e é evidenciado, por exemplo, 
na hora em que “o bebê reage com sorrisos e ruídos quando vê a pessoa que cuida dele, e com 
choro e olhares tristes quando essa pessoa vai embora”. Conforme o vínculo afetivo vai sendo 
construído e fortalecido, o bebê começa a desenvolver a confiança básica.
o adquirirem a confiança básica, os bebês começam a explorar o ambiente em busca de 
novos estímulos e a desenvolver seu espírito epistemofílico, que, por meio do desenvolvimento 
da confiança e do senso de independência, aguçam seus interesses por novas descobertas. Para 
Morris e Maisto (2004, p. 311), “autonomia e apego podem parecer conceitos opostos, masna 
verdade estão intimamente relacionados”. 
A autonomia e o apego também estão associados à autoestima, uma vez que a autoestima está 
associada à confiança que a criança passa a ter em si mesma e nas próprias ideias, percebendo-se 
com uma conotação positiva. A confiança vai sendo construída a partir da segurança, que, por sua 
vez, é engendrada no vínculo afetivo com seus pais e/ou cuidadores. Finalmente, a autonomia 
permite que a criança seja capaz de fazer escolhas pautadas na racionalidade.
2 IMPORTÂNCIA DA FAMÍLIA NO 
DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA
A sobrevivência da criança e seu desenvolvimento psicossocial estão intrinsecamente 
relacionados com a interação da criança com os membros de sua família (nuclear e extensa) e/ou 
com sua rede de apoio social. “Na sua relação com os adultos, ela assimila habilidades que foram 
construídas pela história social ao longo do tempo, tais como as habilidades de sentar, andar, 
falar, controlar os esfíncteres etc.” (BRASIL, 2012, p. 121).
Para Correa et al. (2018, p. 53), a qualidade encontrada nas relações estabelecidas no 
contexto familiar exerce uma significativa e incisiva influência no desenvolvimento infantil. Nesse 
73
sentido, a instituição familiar é a precursora das redes de interação e do processo de socialização 
da criança nos estágios iniciais de sua vida. No decorrer dos anos, “esse sistema imediato é que 
irá integrá-la ao mundo, em particular pelos pais e/ou cuidadores que se responsabilizam pelas 
funções parentais dessa criança”.
Podemos perceber então que a família ocupa um significativo papel no que diz respeito 
à modelagem da maneira de ser, agir e decidir de seus membros. No seio familiar, as crianças 
aprendem as diretrizes essenciais para convivência com outras pessoas e grupos e desenvolvem 
competências e habilidades indispensáveis ao desvelamento de seu potencial e à aquisição 
de recursos para enfrentar desafios e dificuldades impostos pela realidade e pelas diferentes 
instâncias da vida em sociedade.
Benczik (2011, p. 71) corrobora esse entendimento afirmando que se a criança cresce no 
meio de “pais afetivos dos quais pôde contar com apoio incondicional, conforto e proteção, 
consegue desenvolver estruturas psíquicas suficientemente fortes e seguras para enfrentar as 
dificuldades da vida cotidiana”.
Em outras palavras, a instituição familiar tem um papel fundamental na vida de seus filhos, 
seja no que diz respeito ao provimento das necessidades básicas de sobrevivência e crescimento, 
seja na construção de alicerces psicossociais que o ajudem, por meio da segurança afetiva e 
econômica, a enfrentar os desafios e problemas futuros da melhor forma possível.
As pessoas nascem com um potencial genético que, para ser desenvolvido, necessita de interações 
sociais adequadas e saudáveis. Um ambiente favorável ao desenvolvimento das funções executivas na 
primeira infância é fundamental para que o potencial genético possa ser alcançado posteriormente, na 
fase adulta. (COSTA et al., 2016, p. 8)
Quando nos referimos à família, temos que ter em mente que existem outros modelos além 
daquele tradicional. Atualmente, segundo Oliveira e Marinho-Araújo (2010) e Prado (2011), 
existem diversas configurações familiares em função de sua diversidade cultural, social e em 
função da orientação sexual e da composição de seus membros.
Dentre as diversas possibilidades de estruturação e composição familiar, podemos mencionar: 
as famílias homoafetivas, famílias adotivas, famílias monoparentais, famílias reconstruídas e 
famílias binucleares. Independentemente da configuração assumida, a instituição familiar é 
considerada a principal responsável pelo processo de socialização primária.
Morgado et al. (2013, p. 130) entendem que as mudanças verificadas na estrutura familiar 
contemporânea poderão ter influência no desenvolvimento do processo de socialização de 
crianças e adolescentes. Portanto, é preciso levar em consideração a qualidade das relações 
“pais-filhos” enquanto “agentes mediadores do eventual impacto dessas mudanças estruturais 
no desenvolvimento dos filhos”.
74
Segundo Berger e Luckman (1976), o processo de socialização primária é aquele que permite 
inserir a criança na sociedade. Esse processo ocorre no âmbito familiar por meio da transmissão de 
valores e conceitos essenciais à vida social. Trata-se de uma rede de relações e interações mediadas 
por emoções e afetos que interfere diretamente na construção da identidade do indivíduo.
A partir dos dois anos, a criança começa a desenvolver o senso de identidade, percebendo-a 
como uma pessoa e fornecendo atributos a si própria. Há também uma busca por maior 
autonomia, requerendo dos pais a imposição de limites para que haja maior equilíbrio entre 
autonomia e independência. Segundo Morris e Maisto (2004, p. 311), a disciplina que os pais 
começam a fornecer à criança é o “primeiro e essencial passo para a socialização”. 
A imposição de disciplina, além de estabelecer limites, deve contribuir para o estímulo e o 
reconhecimento das realizações conquistadas pela criança, possibilitando, por meio do vínculo de 
afeto, o desenvolvimento da capacidade de empatia. Mcclelland e Tominey (2014) acrescentam 
que cabe ao adulto transmitir segurança à criança, deixando claro os motivos de determinadas 
ações ou proibições. Ao escutar e compreender as razões que a leva fazer ou não determinadas 
coisas, viabiliza a internalização de modelos comportamentais adequados, bem como ajuda o 
desenvolvimento do pensamento crítico da criança.
Utilize o QR Code para assistir ao vídeo:
No período pré-escolar, a qualidade das relações familiares e os estilos parentais têm 
efeitos sobre uma gama de variáveis presentes (autoestima, moral, sociabilidade, autocontrole, 
segurança, confiança, curiosidade, desenvoltura) no desenvolvimento social e da personalidade 
da criança. 
Aprender a interagir com outras pessoas é um dos aspectos importantes do desenvolvimento na 
infância. Desde cedo, as relações mais importantes para as crianças são as que elas estabelecem com os 
pais e outras pessoas que cuidam delas. Mas já aos três anos de idade, seu âmbito de relacionamentos 
75
importantes se expande para incluir irmãos, colegas com quem brincam, outras crianças e adultos 
que não fazem parte da família. Seu mundo social se expande ainda mais quando vão para a escola. 
(MORRIS; MAISTO, 2004, p. 310)
Podemos, portanto, entender a socialização com um processo de aprendizagem em que a 
criança internaliza crenças e valores, desenvolve a linguagem, incorpora as regras indispensáveis 
para vida em sociedade e modelos de comportamentos esperados e parametrizados pelos 
grupos a que pertence. Uma vez internalizado esse modelo comportamental, dá-se sequência ao 
processo de socialização secundária com a inserção do indivíduo em outras instituições ou grupos 
sociais (escola, amigos, igreja, clube, trabalho).
Sendo assim, outra instituição que influencia sobremaneira o processo de socialização da 
criança é a escola, uma vez que ela “se encarrega, principalmente, da transmissão do saber 
organizado, que é o produto do desenvolvimento cultural” (BRASIL, 2012, p. 121).
Oliveira e Marinho (2010) assinalam que a escola e a família são os contextos precípuos para 
o desenvolvimento infantil, uma vez que ao possibilitar constantes interações e trocas sociais, 
acabam favorecendo ou inibindo a produtividade escolar e, mais tarde, o desempenho acadêmico 
e profissional da criança em desenvolvimento.
Nunes (2012) complementa afirmando que o início da vida escolar é um marco importante 
no desenvolvimento infantil, requerendo da família atenção e apoio constantes. Trata-se de um 
processo de adaptação e ajustamento a uma ambiência completamente nova, com rotinas, regras 
e padrões de relacionamentos diferentes daqueles vivenciados em casa. 
3 CLÍNICA INFANTIL NA CONTEMPORANEIDADE 
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), sancionado pela Lei nº 8.069, de 13 de julho 
de 1990, estabeleceque toda criança tem direito aos atendimentos necessários para que seu 
desenvolvimento físico e mental possa se desenrolar da maneira mais saudável possível. Diante 
dessa premissa, a atuação do psicólogo junto à criança é de significativa importância. Ao auxiliar 
no diagnóstico precoce das dificuldades psicossociais da criança em desenvolvimento, torna-se 
possível iniciar um tratamento que contribua para o enfrentamento de seus conflitos internos e/
ou externos e, consequentemente, a prepare para lidar com situações adversas que irá se deparar 
ao longo de sua vida (BRASIL, 1990).
As demandas relacionadas às dificuldades psicossociais da criança podem ser de diferentes 
naturezas e manifestas, muitas vezes, por meio de sinais e sintomas, que interferem negativamente 
nas esferas familiar, escolar, social. Tais sinais e sintomas são percebidos em noites mal dormidas, 
problemas alimentares, enurese noturna, encoprese, fobias, compulsões, deficits de atenção, 
isolamento, atraso no desenvolvimento da fala, irritabilidade, baixa autoestima etc.
76
Em termos mais pontuais, Gastaud et al. (2011), em seus estudos, procuraram identificar os 
motivos que levam ao encaminhamento para a psicoterapia infantil. Listados em ordem crescente 
de prevalência estão os problemas de pensamento, comportamento desafiador, retraimento e 
depressão, queixas somáticas, problemas de relacionamento, problemas de aprendizagem, 
problemas de atenção, ansiedade e depressão e comportamento agressivo. Além disso, 
identificaram que as principais fontes de encaminhamento eram: as escolas, os familiares, os 
médicos e outros profissionais da saúde, conselho tutelar, pedagogo etc.
A atuação do psicólogo na psicoterapia pode ser orientada por diferentes modelos teóricos-
metodológicos e paradigmáticos. Na psicoterapia infantil, não é diferente. São várias as 
abordagens e instrumentais utilizados para intervir clinicamente junto ao público infantil.
Figura 1 - Psicoterapia infantil 
Fonte: Photographee.eu, Shutterstock, 2020.
#ParaCegoVer: A imagem mostra uma situação da clínica infantil, na qual uma criança, por 
meio de figuras, sinaliza seu sentimento para a psicóloga.
Historicamente, a psicoterapia psicanalítica infantil foi a primeira abordagem utilizada, tendo 
Sigmund Freud como seu precursor e, na sequência, outros nomes mundialmente conhecidos, como 
Anna Freud, Melanie Klein, Françoise Dolto, Donald Winnicott, Maud Mannoni e Jacques Lacan.
Segundo Camarotti (2010), Freud assegurava que a psicanálise infantil poderia ter resultados 
consistentes e duradouros, por isso incentivava a aplicação da análise infantil com fins de profilaxia. 
Entretanto, fazia-se necessário um ajustamento na técnica utilizada com adultos. Por pressupor que 
a criança não possuía superego formado, a utilização da associação livre não tinha sentido.
Além da psicanálise, as abordagens existencialista, não diretiva e Gestalt-terapias são 
outras possibilidades de intervir junto às crianças. Segundo Mattar (2010, p. 76), elas “possuem 
aproximações no que se referem às atitudes do psicoterapeuta e à opção pelo método 
77
fenomenológico, o qual visa apreender o sentido do brincar e de outras expressões da criança”.
Entretanto, independente da abordagem que se queira utilizar, podemos observar que 
as peculiaridades da clínica infantil contemporânea estão marcadas pelas características 
estruturantes e funcionais da sociedade moderna que engendram problemas e dificuldades de 
diferentes ordens que, muitas vezes, são endereçados aos psicólogos como um pedido de ajuda 
e de ressignificação das questões relacionais e/ou existenciais.
Verificamos que na contemporaneidade o excesso de consumismo, a “síndrome da pressa”, as 
preocupações com o consumo, a busca pelo novo, a utilização frequente dos recursos tecnológicos 
e a sobrecarga no trabalho são alguns dos exemplos de questões cotidianas e, muitas vezes, 
valorizadas que estão presentes na vida de muitas famílias, as quais produzem efeitos, muitas 
vezes, danosos para as crianças em desenvolvimento.
É comum vermos as crianças crescendo cada vez mais com aparatos tecnológicos e se 
constituindo psiquicamente por meio das relações virtuais. Os desenhos infantis e os jogos 
eletrônicos, em muitas situações, atuam como uma “espécie de calmante”, uma vez que as 
crianças ficam entretidas e ocupadas, trazendo assim um certo conforto aos pais que, via de 
regra, estão sobrecarregados com as demandas da vida adulta e não têm tempo ou paciência 
para interagir com seus filhos, seja jogando, cantando músicas ou contando histórias.
Para piorar, Jerusalinsky (2014), em seu artigo intitulado “A era da palmatória química: 
responsabilidade social e medicalização da infância”, alerta que tem sido muito comum o 
aumento significativo de diagnósticos de transtorno de deficit de atenção e hiperatividade (TDAH) 
em crianças, que culminam com prescrições indiscriminadas de medicamentos controlados 
conhecidos como “a droga da obediência”. A autora termina seu texto com uma reflexão: Será que 
os crescentes diagnósticos de TDHA correspondem de fato a um problema cerebral das crianças 
contemporâneas ou a dificuldade em lidar com as necessidades do cuidado e da educação tem 
levado os adultos a buscar solução na “palmatória química”?
Outra questão que tem gerado preocupação na qualidade das relações parentais é a 
verificação cada vez mais frequente de problemas conjugais que terminam em separação, e a 
guarda compartilhada surge como uma estratégia possível de manutenção do vínculo com a 
criança. Entretanto, o fenômeno da alienação parental tem chamado atenção de estudiosos 
e profissionais da área da saúde, justamente pelo seu potencial de gerar efeitos nefastos e 
duradouras nas esferas psíquicas e comportamental.
Presenciamos novas subjetividades emergindo com características semelhantes, como fenômeno 
da pós-modernidade: crianças que brincam menos com o corpo e mais com a máquina; crianças 
expostas a mais informações do que podem lidar; crianças em múltiplas e inusitadas configurações 
familiares; crianças empoderadas precocemente, e seus pais sem referências claras e buscando em 
manuais o segredo do sucesso na educação dos filhos. (SOARES, 2011, p. 72)
78
Mattar (2010, p. 77) acrescenta que muitas demandas da modernidade estão associadas “aos 
ideais de desempenho, sucesso, perfeição, produção e rapidez, o que faz com que, muitas vezes, 
tais questões levem a família a procurar psicoterapia para os filhos, caso estes não correspondam 
ao modelo que ‘deveriam seguir’”.
Nessa direção, as Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs), a necessidade de 
consumir cada vez mais, a busca pela novidade e o excesso de trabalho dos pais contribuem 
para que brinquedos tecnológicos e modernos façam parte da vida de muitas crianças. Diante 
desse fato, Freitas (2016) assinala que o psicólogo infantil, para ir ao encontro da criança, precisa 
planejar estratégias inovadoras que o ajudem acessar o mundo infantil.
No que diz respeito às estratégias inovadoras, Quaresma da Silva et al. (2015) mencionam 
que a utilização dos contos infantis, na clínica contemporânea, é um dos recursos que contribuem 
para uma melhor compreensão do psiquismo infantil e de sua dinâmica funcional. 
Entretanto, independente das estratégias e dos procedimentos utilizados no tratamento 
de crianças, há um claro entendimento de que o envolvimento dos pais é uma variável de 
significativa influência nos resultados a serem obtidos. Sendo assim, o psicólogo, ao demonstrar 
acessibilidade e disponibilidade, deve contribuir para o desenvolvimento saudável, implicando 
os pais no processo psicoterapêutico. Os pais “devem auxiliar como coparticipantes do processo, 
estabelecendo uma aliança com o terapeuta, permitindo o bom andamento e resultados 
favoráveis da psicoterapia” (FREITAS, 2016, p. 128).
A implicação dos pais no processo psicoterapêutico é significativamente importante para a 
adesão ao tratamento, uma vez que háuma considerável chance de abandono da terapia quando 
os pais demonstram motivação ambivalentes ou expectativas ilusórias ou impossíveis quanto aos 
resultados (GASTAUD et al., 2011).
4 AMADURECIMENTO DA INFÂNCIA: INÍCIO DA 
ADOLESCÊNCIA 
O período final da infância é aquele compreendido entre os seis/sete anos até os 11/12 
anos. Podemos destacar duas fases importantes nessa etapa do ciclo de vida do ser humano, 
entendidas por perspectivas teóricas-metodológicas diferentes.
Segundo Bee (2011), sob o ponto de vista da psicanálise, essa etapa é conhecida como o 
que Freud denominou período de latência, no qual a sexualidade, ou melhor, as pulsões sexuais 
ficam adormecidas e canalizadas para outras esferas da vida da criança como social, cultural e 
aprendizagem.
79
A autora continua assegurando que na perspectiva do construtivismo, Piaget (1982) denominou 
essa etapa de período das operações concretas, no qual são verificadas mudanças progressivas no 
pensamento da criança, por exemplo, há uma maior complexidade na habilidade de classificação, 
uma vez que a criança passa a compreender a classificação múltipla. Nesse momento, ela passa a 
perceber que um objeto pode pertencer a mais de uma categoria simultaneamente, bem como seu 
raciocínio indutivo se aprimora. Essas habilidades são estimuladas e melhores desenvolvidas no 
ambiente escolar, uma vez que a escola passa a ocupar um espaço importante na vida da criança.
Para Pascoal e Marta (2012, p. 229), a adolescência pode ser vista como uma etapa do ciclo 
de vida do ser humano que marca o fim da infância e o começo da adultez. É um momento em 
que ocorre uma série de mudanças de natureza física e psicossocial, podendo desencadear o 
aparecimento de “comportamentos irreverentes e desafiantes e questionamento dos modelos e 
padrões infantis que são necessários ao próprio crescimento”.
A partir dos entendimentos de Bee (2011) e Papalia et al. (2013), Gonçalves (2016) elaborou 
o quadro 2, com fins de se ter uma ideia sintetizada das principais características das fases da 
infância e adolescência, verificando a transição entre o fim da primeira e o começo da segunda. 
Quadro 2 - Síntese das fases da infância e adolescência 
Fonte: Gonçalves, 2016, p. 108 (Adaptado).
#ParaCegoVer: A imagem mostra um quadro de quatro colunas e sete linhas, apresentando 
uma síntese das fases da infância e adolescência, mencionando suas respectivas subfases, idades 
compreendidas e características principais de cada uma delas.
Hoje, as crianças estão adolescendo de maneira precoce e, proporcionalmente, de maneira 
inversa, entrando tardiamente na fase da adultez. Esse fato é reflexo de variáveis psicológicas, 
familiares, socioeconômicas, tecnológicas e culturais. Segundo Tiba (2010), muitas dessas 
crianças, situadas na faixa etária dos 9 aos 12 anos, nem chegaram à puberdade e já se encontram 
emancipadas para experienciar a etapa da adolescência.
Na área da Educação e da Psicologia, tem-se verificado uma tendência de classificar os 
indivíduos dessa faixa etária como pré-adolescentes e não mais como crianças. Para Tomaz (2015, 
p. 1.270), “o processo de juvenilização da cultura permite que as mais velhas se aproximem 
80
mais de uma estética jovem do que de uma infantil, levando-as a serem identificadas como pré-
adolescentes e não mais como crianças”. 
O perfil desse público é marcado por uma atitude independente e considerado precoce para 
a idade cronológica que possui. É comum o consumo de produtos usados e/ou voltados para os 
adolescentes, bem como o uso de recursos tecnológicos para se comunicar com os amigos. Ao 
buscar imitá-los, percebem seus pares com desdém, rotulando as crianças de sua idade como 
chatas (TIBA, 2010).
O amadurecimento da infância é marcado pelas mudanças físicas e psicológicas que, por 
sua vez, implicam em lidar com a perda do corpo infantil. O abandono dos aspectos infantis e, 
consequentemente, a aquisição de novas competências e habilidades, contribuem para que o ser 
em crescimento possa assumir outros papeis sociais, escolher outras pessoas que lhe sirvam de 
referência e de modelos de comportamentos a serem seguidos, adquirir novas e mais complexas 
capacidades cognitivas. Além disso, as intensas alterações hormonais e físicas, instabilidade 
emocional e apropriação de novas crenças e valores contribuem para moldar e solidificar sua 
identidade e personalidade.
O fim da infância desvela novamente a necessidade do vínculo afetivo do adolescente com 
seus pais e/ou cuidadores, pois é por meio do apego, da compreensão, da tolerância, da paciência 
e da disciplina que o adolescente conseguirá lidar com sua imaturidade e desenvolver um modo 
de ser e de relacionar-se com os outros e com as novas situações que fazem parte desse momento 
de seu ciclo de vida.
81
Nesta unidade, você teve a oportunidade de:
• compreender a mediação dos pais no desenvolvimento infantil em suas dimensões 
físicas, emocionais e cognitivas;
• perceber a relação da teoria do apego na construção da autoestima da criança em 
desenvolvimento;
• refletir sobre a importância da família, em suas diferentes configurações, no 
desenvolvimento da criança;
• caracterizar o processo de socialização primária;
• discorrer sobre a clínica infantil na contemporaneidade e as diferentes demandas 
relacionadas à procura pela psicoterapia infantil;
• identificar os principais aspectos que culminam com o amadurecimento da infância e 
possibilitam a entrada da criança na fase da adolescência.
PARA RESUMIR
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estudosdecomunicacao/article/view/22519/21603. Acesso em: 4 maio 2020. 
Desenvolvimento infantil é um livro direcionado para estudantes 
dos cursos de pedagogia e psicologia do desenvolvimento. 
Além de abordar assuntos gerais, o livro traz conteúdo sobre 
o histórico e o conceito da psicologia do desenvolvimento, 
desenvolvimento infantil, as teorias da clínica infantil, 
desenvolvimento da criança na escola, a infância, o início da 
adolescência e a relação com a família.
Após a leitura da obra, o leitor vai obter conhecimentos sobre os 
objetivos e métodos de estudo da psicologia do desenvolvimento; 
refletir sobre os processos do desenvolvimento humano; 
entender a construção do conceito do que é a infância; conhecer 
as transformações que ocorrem no ser humano, desde o seu 
nascimento até os 11 anos de idade, a primeira, segunda e terceira 
infâncias; compreender a mediação dos pais no desenvolvimento 
infantil em suas dimensões físicas, emocionais e cognitivas; perceber 
a relação da teoria do apego na construção da autoestima da criança 
em desenvolvimento; saber o conceito moderno de infância, antes 
do surgimento da clínica, por meio da análise da iconografia e na 
transição entre medievo e modernidade; dominar o histórico 
do atendimento clínico com crianças a partir da modernidade, 
entendendo a nascente Psicologia, e muito mais.
Aproveite a leitura do livro. 
Bons estudos!Introdução.............................................................................................................................................66
1 A criança em desenvolvimento e os pais ........................................................................................... 67
2 Importância da família no desenvolvimento da criança ....................................................................72
3 Clínica infantil na contemporaneidade ............................................................................................. 75
4 Amadurecimento da infância: início da adolescência ......................................................................78
PARA RESUMIR ..............................................................................................................................81
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................82
O livro Desenvolvimento infantil traz ao leitor, além de informações básicas da 
área, o conteúdo parcialmente descrito a seguir em suas quatro unidades.
Em linhas gerais, a primeira unidade, Histórico e conceito da psicologia do 
desenvolvimento, trata da história da psicologia do desenvolvimento antes da 
modernidade e na modernidade, dos objetivos e dos métodos de estudo da psicologia 
do desenvolvimento, dos processos do desenvolvimento humano, das teorias 
cognitivas de Jean Piaget, Vygotsky e Wallon, e a psicanálise de Sigmund Freud.
A segunda unidade, Desenvolvimento I, aborda a formação do bebê (início do 
ciclo vital, influências ambientais no período pré-natal, e o processo do nascimento), 
o conceito de infância, o desenvolvimento bio-psico-social e cognitivo na 1ª, 2ª e 3ª 
infâncias.
A terceira unidade, Teorias da clínica infantil e desenvolvimento da criança na 
escola, apresenta os antecedentes históricos do atendimento clínico com crianças, 
a história do conceito moderno de infância, o histórico do atendimento clínico 
com crianças a partir da modernidade, a contribuição de Freud e da psicanálise na 
constituição da clínica infantil contemporânea, as principais teorias da clínica infantil, e 
os aspectos físicos, emocionais e cognitivos da criança na escola.
Concluindo a obra, a quarta e última unidade, A infância, o início da adolescência 
e a relação com a família, discute os pais e a criança em desenvolvimento, importância 
da família no desenvolvimento da criança, a clínica infantil na contemporaneidade e o 
início da adolescência. 
Esta é apenas uma pequena amostra do que o leitor aprenderá após a leitura do 
livro. 
Agora é com você! Sorte em seus estudos!
PREFÁCIO
UNIDADE 1
Histórico e conceito da psicologia do 
desenvolvimento
Olá,
Você está na unidade Histórico e conceito da Psicologia do Desenvolvimento. Conheça 
aqui os passos iniciais para a introdução aos estudos da psicologia do desenvolvimento 
humano. Entenda os objetivos, métodos de estudo, conceitos, teorias e teóricos da 
psicologia do desenvolvimento e compreenda também os processos do desenvolvimento 
humano. 
Bons estudos!
Introdução
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1 HISTÓRICO DA PSICOLOGIA DO 
DESENVOLVIMENTO 
Existem diversas pesquisas e publicações já consolidadas sobre o desenvolvimento humano na 
área da Psicologia do Desenvolvimento, as quais são constantemente revisitadas. Essas pesquisas 
guiam tanto as ações dos psicólogos clínicos como dos psicólogos que trabalham em instituições 
educacionais e/ou assistenciais, no atendimento de diversas etapas do desenvolvimento humano, 
na infância, adolescência, vida adulta ou velhice.
Conhecer a história da Psicologia do Desenvolvimento é uma importante trajetória a ser 
feita para compreender os passos dados por vários teóricos, no decorrer de suas intervenções 
unicamente como pesquisadores ou em atendimentos clínicos com sujeitos.
1. 1 História da Psicologia do Desenvolvimento antes da Modernidade
A história da Psicologia do Desenvolvimento, assim como a História da Psicologia em geral, 
bem como a história do pensamento do mundo ocidental, carregou o legado dos pensadores 
gregos, antes da Era Comum (Antes de Cristo). Algumas marcas que os gregos nos deixaram, na 
Antiguidade, ainda circulam em alguns dos nossos discursos sobre o desenvolvimento humano.
Pensadores gregos, na Antiguidade, estiveram refletindo e escrevendo sobre como funciona 
o mecanismo da atividade humana, como agem as emoções, além de fazer considerações sobre 
o pensamento humano, a percepção, os movimentos voluntários e como aprendemos (CASTRO; 
LANDEIRA-FERNANDEZ, 2011).
Em detrimento dos esforços de muitos povos, foram os gregos, antes de Cristo, que cunharam o 
termo Psicologia, palavra composta por psyché e logos significando, respectivamente, alma e estudo, 
significados até hoje como o estudo da alma (MAIA, 2017). Durante a Antiguidade, na Grécia, o pai 
carregava a responsabilidade pela gestão desde a educação, passado pelos cuidados com a saúde 
infantil até a constituição estrutural psicológica e a educação moral. Os conhecidos filósofos gregos 
eram especialistas em muitos saberes, incluindo concepções sobre a infância. Assim, Aristóteles, o 
grande pensador grego que viveu entre os anos 384 e 322 a.C., já tratava sobre a infância há pelo 
menos 300 anos antes do nascimento de Cristo (MOURA; VIANA; LOYOLA, 2013).
Ao passar do tempo, outros filósofos, pensadores e historiadores também foram estudando 
o assunto e tirando suas conclusões.
Aristóteles
Criando explicações para o desenvolvimento humano, Aristóteles entendia a criança como 
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incapaz de pensar sozinho para atingir a virtude. Assim, os adultos precisavam cuidar e educar 
seus filhos enquanto estivessem na infância, desprovidos da identidade e entendidos como 
incapazes de tomar decisões, sem capacidade de discernimento para tomar decisões e ter 
pensamento autônomo. Dessa forma, essa fase necessitava ser rapidamente superada para que 
o indivíduo ganhasse autonomia para adentrar ao universo adulto, tornando-se apto para tomar 
decisões (MOURA; VIANA; LOYOLA, 2013).
Santo Agostinho
A Idade Média assistiu mudanças nos modos de pensar sobre a infância. Um dos grandes 
pensadores da Igreja Católica, Santo Agostinho, escreveu sobre a infância dele próprio, ao mesmo 
tempo em que a explicava à luz do pensamento cristão medieval as prescrições para a educação 
moral necessária para retirar a maldade das mentes infantis. Com inspirações na filosofia de 
Platão, Santo Agostinho apoiou-se nas crenças inatistas, defendendo que as verdades brotavam 
de dentro da alma humana. O infans, o desprovido de fala, o sem fala, palavra de origem latina, 
que originou a palavra infância, representa bem o modo medieval de enxergar os primeiros anos 
da existência humana (MOURA; VIANA; LOYOLA, 2013).
Ariès
Ainda nos tempos medievais, surgem mudanças nas concepções sobre a infância. Em um trabalho 
com base no estudo da iconografia, examinando como eram retratadas as crianças das cortes 
europeias, um renomado historiador francês do século XX, Ariès, aponta uma mudança, datada do 
século XIII, a intenção de imortalizar as crianças nas telas das pinturas a óleo. Até então as crianças 
eram invisíveis, ausentes, vistas como desprovidas de alma e personalidade. Ainda eram vistas como 
indiferentes aos adultos, que não conseguiam perceber nelas qualquer marca de singularidade ou a 
necessidade de tratá-las com diferenciação por serem crianças (MOURA; VIANA; LOYOLA, 2013).
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1.2 História da Psicologia do Desenvolvimento e a Modernidade
O importante momento histórico do Renascimento, durante a Idade Moderna, foi um tempo 
de rupturas e trouxe relevantes descobertas e convicções em vários campos do pensamento. A 
difusão de uma visão naturalista e a relevância da ciência começam a fazer fortes ecos. Exemplo 
desse pensamento, é o livro escrito em 1574, por Levunus Lemnius, “De ocultae Naturae”, que 
pode ser traduzido como “A natureza secreta”(FREITAS, 1999).
Esse autor defende, nessa obra, a tese de que a mente e o corpo podem passar por mudanças 
vinculadas às variações climáticas e regionais (ROSENFELD, 1984). O autor renascentista defendeu, 
ainda, que os humores seriam os verdadeiros causadores de doenças. Dentro da visão dele, os 
“estados de consciência têm um correspondente corporal e a consciência depende dos modos de 
vida e da constituição de cada um” (ROSENFELD, 1984, p. 53).
Isso significa que Lemnius supera as ultrapassadas generalizações próprias do pensamento 
inatista, ligada aos pensadores que julgavam que os pensamentos e as ações humanas possuem 
fontes inatas, já presentes na mente humana desde o nascimento, como era do gosto de 
pensadores da Antiguidade e Idade Medieval. Esse autor renascentista defende a importância de 
observar e entender os múltiplos comportamentos dos indivíduos.
O famoso racionalista Descartes ofereceu o respaldo necessário para uma superação histórica 
dos pesos que a Psicologia já carregava desde os gregos, na Antiguidade. A relevância da obra 
de Descartes foi trazer a defesa de que a razão humana era capaz de fazer uma intermediação 
entre o indivíduo e as coisas (objetos), relevando-se preciosamente as verdades sobre as coisas. A 
mente e o corpo não seriam indissociáveis. Era o exato momento de romper com a denominação 
de Psicologia como o estudo da alma e passar a denominá-la como o estudo da mente (FREITAS, 
1999). Surge, então, a possibilidade de distinguir corpo e mente, o chamado dualismo psicofísico, 
que irá fundar princípios para os conhecimentos psicológicos dos próximos tempos (TELES, 1995).
A seguir, veja mais algumas definições e visões de pensadores sobre a Psicologia do 
Desenvolvimento.
René Descartes
No século XVII, o Racionalismo Cartesiano (criado por René Descartes) propôs o seu método 
dedutivo, partindo de verdades óbvias e inatas e se embrenhava nas lutas para deduzir novos 
conhecimentos (FREITAS, 1999). Isso significou que as inspirações racionalistas e cartesianas 
invadiram o pensamento da psicologia, a partir da modernidade, sugerindo que a introspecção 
oferece razoáveis juízos sobre a realidade exterior. Não se esqueça que Descartes ficou 
notabilizado em repetir, imortalizado para a história do pensamento ao afirmar que cada um de 
nós: Pensa, logo existe (cogito ergo sum). 
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Francis Bacon
Os empiristas do século XVII trouxeram suas contribuições contrapondo-se aos racionalistas. 
Um deles, o renomado Francis Bacon defendeu que para usar as “forças da natureza, é preciso 
conhecê-las: saber é poder. Para adquirir conhecimento há somente um caminho: a experiência” 
(ROSENFELD, 1984, p. 67). Essa visão empirista, a partir da modernidade, vai considerar que é 
preciso a experiência com os objetos, presentes na realidade, para adquirir conhecimentos sobre 
eles, manipulando-os, manuseando-os, experimentando-os para produzir novos conhecimentos. 
John Locke 
Assim foi possível concluir, como era do gosto dos empiristas, que a mente seria uma folha 
em branco, uma tábula rasa, e tudo estaria por acontecer ao longo da experiência com o real 
(ROSENFELD, 1984). O famoso empirista John Locke determinou “que o início é o ‘papel branco’ 
da mente. Todas as ideias decorrem, sem exceção, da experiência”. (ROSENFELD, 1984, p. 69). 
Wilhelm Wundt
É importante relembrar que foi somente no século XIX que a Psicologia se elevou ao lugar 
de ciência moderna, filiada aos nascentes métodos científicos. O marco foi o laboratório de 
Psicofisiologia, fundado por Wundt em 1879, na Alemanha, e as publicações de estudos na 
Revista Científica, na Universidade de Leipzig (no ano de 1873). O que fez Wundt foi usar um 
método de investigação advindo das ciências naturais, dentro do seu laboratório. A partir desse 
gesto inaugural dele, objetos, campos, métodos e teorias eram montados para os estudos da 
nascente Psicologia, com status de ciência.
Stanley Hall
Na segunda metade do século XIX, no ano de 1882, considera-se o nascimento da Psicologia 
do Desenvolvimento. Isso aconteceu com a publicação de um livro escrito por Preyers, “The 
mind of the child” (A Mente da Criança). Esses anos finais do século XIX foram marcados pelo 
surgimento de algumas sociedades voltadas ao estudo do desenvolvimento, tanto nos Estados 
Unidos quanto na França. Stanley Hall foi um desses pioneiros. Até mesmo Freud foi convidado a 
realizar conferência lá na Universidade em que Stanley Hall atuava, a Clark University, no Instituto 
de Pesquisas sobre a criança (MOTA, 2005).
Michel Foucault 
O pensador francês Michel Foucault criticou o fato de as ciências, no século XIX, preferirem 
realizar um alinhamento dos saberes, na modernidade, com as certezas das áreas matemáticas 
em apogeu. O que isso significou, segundo Foucault, foi a submissão real dos demais saberes “ao 
ponto de vista único da objetividade do conhecimento a questão da positividade dos saberes, de 
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seu modo de ser, de seu enraizamento nessas condições de possibilidade que lhes dá, na história, 
a um tempo, seu objeto e sua forma” (FOUCAULT, 1995, p. 363). 
O conceito de Psicologia do Desenvolvimento deverá precisar das variáveis internas e 
externas dos indivíduos relacionadas às mudanças em seus comportamentos ao longo da 
vida. Além disso, sem cometer o erro de exacerbar na dosagem com interfaces importantes 
com as seguintes áreas: Biologia, Educação, Antropologia, entre outras, levando em conta 
que os estudos da Psicologia do Desenvolvimento não se restringem às fases iniciais da vida 
(infância e adolescência). É necessário qualificar como as condições externas e internas afetam 
o desenvolvimento individual. Um fato é real mundialmente e em particular no nosso país, o 
Brasil, a população idosa cada vez vive mais. A longevidade alcançou um lugar não visto em 
momentos anteriores da história da vida humana (MOTA, 2005)
Ainda a partir do século XX, os estudos interdisciplinares, reunindo outras áreas, dentro e fora 
da Psicologia foram somados aos esforços de constituir estudos sobre o desenvolvimento humano.
Qual é o conceito possível, dada as diferenciações sobre as práticas da Psicologia do 
Desenvolvimento, ao longo dos tempos?
 A Psicologia do Desenvolvimento é uma ciência voltada a teorizar sobre o desenvolvimento 
humano, nas mais distintas fases da existência humana, da concepção à morte, da infância à 
velhice, da primeira infância à maturidade, da pré-adolescência à transição entre a vida adulta e a 
velhice. No decorrer de toda a vida de uma pessoa, devem ser estimadas tanto as continuidades 
quanto as rupturas, intrínsecas ao desenvolvimento humano, “integrando diferentes aspectos, 
tais como afetivo-emocional, social, físico-motor e intelectual, em que as influências dos aspectos 
biológicos, sociais, culturais e físicos são consideradas” (PILLETI; ROSSATO; ROSSATO, 2014, p. 18).
Outra proposição de conceito apresentada por Mota (2005) seria que a Psicologia do 
Desenvolvimento é estudo, por meio de uma metodologia específica, atrelada “ao contexto sócio-
histórico das múltiplas variáveis, sejam elas cognitivas, afetivas, biológicas ou sociais, internas ou 
externas ao indivíduo que afetam o desenvolvimento humano ao longo da vida” (MOTA, 2005, p. 03).
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2 OBJETIVOS E MÉTODOS DE ESTUDO DA 
PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO 
A Psicologia do Desenvolvimento surgiu com o objetivo de detalhar muitas e antigas ânsias 
por saberes da humanidade, ao longo de tantas eras e por diferenciados povos. Nem sempre 
tudo foi igual! Por mais que seria tranquilizador pensar que a humanidade agiu sempre de forma 
constantemente idêntica. 
2.1 Objetivos da Psicologia do Desenvolvimento
Entre os pesquisadores do desenvolvimento infantil e do adolescente existe um consenso 
sobre o uso do método científico. Com essa escolha, esses pesquisadores conseguem atingir seus 
objetivos de explicar, prever, descrever e influenciar o desenvolvimento dessas novas gerações.O pesquisador do desenvolvimento humano explica as razões de um certo evento acontecer. 
Isso vai exigir que ele faça a escolha de algumas teorias sobre o desenvolvimento humano, em 
detrimento de outras teorias que ele julga que são inapropriadas para aquela situação pesquisada 
(BOYD; BEE, 2011).
2.2 Métodos de estudos da Psicologia do Desenvolvimento
A Psicologia do Desenvolvimento, nos tempos atuais, segue os objetivos vistos anteriormente 
e métodos de estudos focados nas mais diferentes possibilidades que são abertas ao pleno 
desenvolvimento humano. Vamos ver quais são esses métodos de pesquisas?
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Métodos Descritivos
Dos Métodos Descritivos, é importante compreender que os estudos de caso são fixados em 
conhecer, profundamente, a realidade de um indivíduo. Estudos de casos são apropriadíssimos 
para futuras decisões de atendimentos clínicos individuais. “Por exemplo, para descobrir se uma 
criança tem retardo mental, um psicólogo conduziria um extenso estudo de caso envolvendo 
testes, entrevistas com os pais da criança, observações comportamentais e assim por diante” 
(BOYD; BEE, 2011, p. 39). Isso porque esses estudos de caso podem trazer valorosas hipóteses 
sobre a história de vida do sujeito estudado. 
Observação Naturalista
Esse método de pesquisa implica realizar observações nos ambientes naturais em que 
vivem os sujeitos pesquisados (BOYD; BEE, 2011). No caso de crianças, as observações poderão 
acontecer na escola, na casa da criança ou em qualquer outra instituição frequentada por ela, 
trazendo informações essenciais aos psicólogos do desenvolvimento a respeito dos processos 
psicológicos dos sujeitos pesquisados, em contextos cotidianos.
Observação Laboratorial
Nesse método, o pesquisador faz uma condução do desenvolvimento humano ao usar esse 
método, controlando o ambiente em que as pesquisas acontecem. Analisando a capacidade de 
atenção, o “pesquisador poderia observar por quanto tempo crianças de diversas idades prestam 
atenção em diversos tipos de estímulos na ausência dos tipos de distração que estão presentes 
em ambientes naturais, tais como pátios e salas de aula” (BOYD; BEE, 2001, p. 40).
Correlações
Uma correlação representa uma relação que acontece entre duas variáveis, sendo 
demonstrada como um número que varia em um intervalo entre –1,00 e +1,00. Uma correlação 
de zero “indica que não existe relação entre as duas variáveis. Uma correlação positiva significa 
que altos escores em uma variável geralmente são acompanhados por altos escores na outra. 
Quanto mais próxima de +1,00, mais forte é a correlação” (BOYD, BEE, 2011, p. 40).
Método Experimental
Associado ou não aos estudos longitudinais, o Método Experimental é usado para testar uma 
hipótese causal. O pesquisador cria suas hipóteses e as comprova com esse método. “Vamos 
supor que achássemos que as diferenças de idade na capacidade de atenção se devem ao fato de 
que as crianças pequenas não utilizam estratégias de manutenção da atenção, tais como ignorar 
distrações”. (BOYD, BEE, 2011, p. 40). 
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Pesquisa Intercultural
A Pesquisa intercultural, já consolidada no campo da Antropologia, traz uma oportunidade 
ímpar ao campo da pesquisa sobre o desenvolvimento humano, de usar um método que compara 
diferentes contextos e culturas. A Etnografia já é um método tradicional utilizado por diversos 
antropólogos reconhecidos que viajaram e permaneceram em comunidades tradicionais em 
diversos lugares do mundo.
Existem outros dois delineamentos bem comuns às pesquisas em Psicologia do 
Desenvolvimento, ou seja, os delineamentos transversais e longitudinais. 
Os Estudos Transversais são aquelas que realizam comparações entre indivíduos diferentes, 
ao mesmo tempo. Assim, são organizados grupos com diferentes indivíduos. Um exemplo seria 
se “um estudo sobre desenvolvimento linguístico pode comparar o número de palavras utilizadas 
por crianças de 2 e 3 anos de idade” (MOTA, 2010, p. 145). Esses estudos podem acontecer em 
um curto período, com as habilidades dos mais diversos indivíduos.
Os Métodos Longitudinais são aquelas escolhas lançadas em métodos de pesquisa que 
focam em variações presentes em indivíduos, analisados ao longo de um consistente tempo. 
Tais métodos de análise do desenvolvimento humano oportunizam um acompanhamento do 
indivíduo por um tempo amplo, implicando uma oportunidade de controlar diversas variáveis 
envolvidas no desenvolvimento individual do sujeito pesquisado. 
Já metodologias relacionadas aos Estudos Sequenciais são bastante apropriadas para 
pesquisas realizadas com um determinado grupo, com características similares, como serem 
todos adolescentes. Podem ser utilizados em uma pesquisa que envolva comparações entre 
grupos etários e levam às informações esperadas tanto quanto fosse feito um estudo transversal. 
“Comparações dos escores ou comportamentos dos participantes em cada grupo com seus 
próprios escores ou comportamentos em um ponto anterior de testagem produzem evidências 
longitudinais ao mesmo tempo” (BOYD; BEE, 2011, p. 43).
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3 PROCESSOS DO DESENVOLVIMENTO HUMANO
A Psicologia do Desenvolvimento não precisa ser um discurso favorável a um ordenamento 
único aos animais e aos humanos, usando padrões psicológicos idênticos para todos os indivíduos 
diante das diferenciadas provocações apresentadas pelo meio ambiente e de distintos processos 
de desenvolvimento humano.
Os estudos da Psicologia já superaram crenças de que o desenvolvimento age em um curso 
predeterminado, aliado e preso ao que o desenvolvimento estrutural, geneticamente determinado, 
num ambiente ‘normal’ ou ‘característico’ dos ambientes nos quais as espécies de organismos, objetos 
de estudos, se desenvolveram e podem sobreviver. (CARMICHEL, 1975, p. 04)
4 TEORIAS DA PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO 
HUMANO
As teorias do desenvolvimento humano são teorias diferentes, historicamente construídas 
por longos tempos, consolidadas por pesquisas conduzidas por pensadores do desenvolvimento 
humano e seus seguidores.
4.1 A psicanálise de Sigmund Freud
Sigmund Freud (1856-1939) foi um médico austríaco que se destacou por suas contribuições 
ao campo da psicanálise. Ele desenvolveu novas metodologias para tratar pacientes que 
sofriam de distúrbios psicológicos. Freud introduziu o conceito de que muitas dessas questões 
estavam enraizadas em experiências da infância, enfatizando a importância de explorar essas 
reminiscências para entender e tratar os sofrimentos psíquicos. Seu método, que incluía a 
associação livre e a interpretação dos sonhos, buscava revelar os conflitos inconscientes que 
impactavam o comportamento e as emoções de seus pacientes. 
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Ganharam notoriedade os famosos estágios psicossexuais de Freud. “Freud acreditava 
que os estágios do desenvolvimento da personalidade eram fortemente influenciados pelo 
amadurecimento. Em cada um dos cinco estágios psicossexuais, a libido está centrada na parte 
do corpo que é mais sensível naquela idade” (BEE; BOYD, 2011, p. 36).
Esses estágios psicossexuais freudianos localizam que em uma criança recém-nascida a boca 
dela será a parte mais sensível do seu corpo, “o estágio é chamado de estágio oral. À medida que 
o desenvolvimento neurológico progride, o bebê tem mais sensação no ânus (daí o estágio anal) 
e posteriormente nos órgãos genitais (os estágios fálico e, eventualmente, o genital” (BEE; BOYD, 
2011, p. 35). Veja mais detalhes sobre cada um desses estágios a seguir.
Fase oral
A chamada fase oral corresponde ao momento em que a zona de erotização está concentrada 
na boca, eventos como amamentação, levar brinquedos à boca e pequenas mordidas são típicos 
e trazem prazer. É um misto de gratificação e necessidade a se concentrarem na região de lábios, 
língua e dentes. Amamentar um bebê vai além de saciar a fome, trazendo-lhe carinho, conforto 
e aconchego, a cada novo momento de amamentação (MAIA, 2017). Nessa fase é instaurado o 
momento inicial da constituiçãoda subjetividade, com o apoio da figura materna, aquela pessoa 
que cuida, protege, canta e vai trazendo um mundo para habitar.
Fase anal
Na fase anal, a criança cresce, começa a ter um controle motor maior, movimenta-se pelo 
espaço, experimenta-se com a linguagem falada pelos queridos adultos ao seu redor. Por 
volta dos 2 anos, além de tudo isso, ela começa a exercitar um novo poder, o controle de seus 
esfíncteres anais e bexiga. Assim começará a ter seus maiores controles e poderá abandonar as 
fraldas. A figura materna está lá comemorando essas conquistas ligadas à evacuação (fezes) e 
micção (urina). Um caminho de autodescoberta está relacionado aos novos poderes ligados ao 
toalete. E a criança vai estabelecendo, com relação aos seus êxitos de controle fisiológico, novas 
fontes de prazer. Recebe elogios ou advertências da figura materna ou exerce perfeitamente seus 
controles esfincterianos ou não. Com certeza as crianças ficam muito atentas às informações 
fornecidas pelos pais sobre esse desenvolvimento (MAIA, 2017).
FIQUE DE OLHO
Aprenda mais sobre a perspectiva da Psicanálise sobre a infância em uma das apresentações 
do Programa Café Filosófico, com um instigante tema: “Até que ponto as crianças de hoje são 
diferentes das de antes?” Com o Psicanalista Leandro de Lajonquière (USP).
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Fase fálica
A fase posterior é conhecida como fase fálica. Aqui as diferenças sexuais entre meninos e 
meninas ficaram mais visíveis. O foco das atenções é perceber quem possui ou não pênis, 
associado a um temor de perdê-lo. Todos os adultos passaram por essas investigações (MAIA, 
2017). No decorrer dessa fase fálica, é instaurada, a partir do foco das crianças nas diferenças 
sexuais, identificações com as figuras paternas e maternas, em um processo essencial para a 
formação dos sujeitos e para a constituição da subjetividade, é o famoso Complexo de Édipo.
Nesse momento, meninos e meninas ficarão atentos às suas figuras maternas e paternas, 
na busca incessante dos que lhe faltam para serem futuros pais e mães. Olham com atenção as 
relações que se estabelecem entre pais e mães.
Fase de latência
A fase de latência é o momento em que todas as investigações sexuais darão um tempo até 
que a maturação biológica sexual aconteça no corpo das crianças, lá na puberdade e adolescência. 
Coincide com os tempos de escolaridade elementar, tempos de permanência nas salas de aula, as 
descobertas que os conhecimentos escolares oportunizam sobre os mais diversos assuntos, trazendo 
a possibilidade de sublimar as pulsões sexuais com conhecimentos dos mais diversos (MAIA, 2017).
Fase genital
A fase genital é marcada com todo o progresso advindo do desenvolvimento biológico, 
a chegada na puberdade, a potencial canalização da energia libidinal aos órgãos sexuais, 
o amadurecimento das identificações sexuais e que começaram lá atrás, na fase fálica, no 
atravessamento do Complexo de Édipo. A fase genital é o momento de consolidação. Será possível 
começar a planejar os caminhos que enfrentará, por escolha pessoal e na vida adulta, para a 
satisfação de suas pulsões eróticas e interpessoais (MAIA, 2017). Enganam-se os que pensam e 
defendem que somente na puberdade existe um querer saber da criança sobre a sexualidade. 
Enganam-se também até mesmo os que desacreditam da existência da sexualidade infantil e do 
inconsciente e da teoria psicanalítica que Freud desenvolveu.
4.2 Teorias cognitivas: Jean Piaget, Vygotsky e Wallon
Jean Piaget, o renomado psicólogo do desenvolvimento, utilizou uma terminologia específica 
para descrever os diferentes níveis de desenvolvimento cognitivo das crianças. No Brasil, é comum 
encontrar os termos “estádios”, “estágios” e “fases” referindo-se às etapas do desenvolvimento 
segundo Piaget. Nascido em 1896, viveu até 1980, deixando uma vasta obra, com relatos originais 
de pesquisas conduzidas por ele e seus colaboradores, diretamente com crianças. É interessante 
ressaltar que ele fez as suas observações com seus filhos.
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Engana-se quem pensa que foi como pesquisador do desenvolvimento humano que as 
pesquisas de Piaget estavam centradas, inicialmente. Ele interessou-se em explicar como uma 
criança saía de um nível elementar de acesso ao conhecimento e passava, ao longo da vida, para 
níveis superiores de acesso aos conhecimentos. “Piaget ficou impressionado com o fato de que 
todas as crianças parecem passar pela mesma sequência de descobertas sobre seus mundos, 
cometendo os mesmos erros e chegando às mesmas conclusões”. (BOYD; BEE, 2011, p. 61).
Sendo assim, o objetivo maior dele era epistemológico, e realizando a busca por uma teoria 
sobre o conhecimento, eis que teve a oportunidade ímpar de construir uma teoria original sobre 
o desenvolvimento cognitivo humano, em suas mais diferenciadas e progressivas etapas. Ele 
denominou essas fases exaustivamente estudadas como Estádios do Desenvolvimento Cognitivo. 
Foram todos os seus esforços de pesquisa, com o método clínico, que trouxeram um arcabouço 
muito bem elaborado, para que os adultos pudessem colaborar e estimular as construções 
diversas, que acontecem em distintos estádios do desenvolvimento.
Veja a seguir os diferentes Estádios do Desenvolvimento Cognitivo segundo Jean Piaget.
Figura 1 - Estádios do Desenvolvimento Cognitivo de Jean Piaget 
Fonte: XAVIER; NUNES, 2015.
#ParaCegoVer: A imagem apresenta uma tabela de duas colunas e quatro linhas com os 
quatro estádios do Desenvolvimento Cognitivo de Jean Piaget e suas respectivas características.
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Vygotsky nasceu na Bielo-Rússia em 1896 e morreu em 1934, já consolidado como um 
pioneiro pesquisador das funções psíquicas superiores e como respeitado pesquisador no 
pós-revolução bolchevique, na antiga União Soviética. Sua teoria recebeu forte influência do 
Materialismo Histórico de Marx. Ele defendeu que as formas complexas de pensamento são 
geradas nas interações sociais. Nesse sentido, ganha um peso considerável a intervenção adulta 
sobre as aprendizagens infantis.
De um modo genial, Vygotsky desenvolveu a ideia de que existe a Zona de Desenvolvimento 
Proximal (ZDL), naquele limite entre o que a criança não é capaz de fazer mesmo sozinha e aquilo que 
faz com o apoio de um adulto ou de uma criança mais velha ou mais experiente em alguns saberes.
Vygotsky defendeu que a criança passa por estágios do desenvolvimento cultural e em cada 
um desses estágios são diferenciadas as formas de estabelecer relações com o mundo exterior, 
de utilizar objetos que estão ao redor, de intervir e de usar as técnicas comuns dentro da cultura 
de cada criança (MAIA, 2017). Isso esclarece que na construção teórica de Vygotsky, a cultura é 
determinante do desenvolvimento. 
A Teoria psicogenética de Wallon é uma explicação sobre a formação e transformação pelos 
quais passam o psiquismo humano. Henri Wallon valorizou o poder das trocas sociais no decorrer 
do processo de desenvolvimento na vida dos seres humanos, a partir da infância. As crianças não 
são dependentes somente de suas constituições biológicas para seus plenos desenvolvimentos.
Wallon acredita no papel regulador da oposição funcional que ocorre entre a afetividade e a 
cognição, ou razão versus emoção, no decorrer do desenvolvimento. Uma vez que a maturação foi 
alcançada, as estruturas psíquicas devem progredir em um permanente processo de especificação 
e melhoria (XAVIER; NUNES, 2015).
FIQUE DE OLHO
Aprenda mais pesquisando no YouTube e assistindo à “Introdução à Psicologia do 
Desenvolvimento”, sobre as teorias e seus teóricos mais importantes da História dessa área, 
entre eles Piaget, Vygotsky e Wallon, apresentados por pesquisadores do Desenvolvimento 
Humano, da USP.
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Nesta unidade, você teve a oportunidade de:
• adquirir conhecimentos sobre a introdução aos estudos de Psicologia do 
Desenvolvimento;
• conhecer o histórico da Psicologia do Desenvolvimento;
• aprender sobre o conceito de Psicologia do Desenvolvimento e seus passos iniciais 
para a introdução aos estudos daPsicologia do Desenvolvimento Humano;
• obter conhecimentos sobre os objetivos e métodos de estudo da Psicologia do 
Desenvolvimento;
• refletir sobre os processos do Desenvolvimento Humano;
• conhecer as teorias da Psicologia do Desenvolvimento.
PARA RESUMIR
BEE, H.; BOYD, D. A Criança em Desenvolvimento. Porto Alegre: Artmed, 2011.
BOYD, D.; BEE, H. A Criança em Crescimento. Porto Alegre: Artmed, 2011. 
CARMICHEL, L. Manual de Psicologia da Criança. São Paulo, EPU e EDUSP, 1975.
CASTRO, F. S.; LANDEIRA-FERNANDEZ, J. Alma, corpo e a antiga civilização grega: as pri-
meiras observações do funcionamento cerebral e das atividades mentais. Psicol. Reflex. 
Crit., Porto Alegre, v. 24, n. 4, p. 798-809, 2011. Disponível em: http://www.scielo.br/
scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-79722011000400021&lng=en&nrm=iso. Aces-
so em: 31 mar. 2020. 
COELHO, W. F. Psicologia do Desenvolvimento. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 
2014.
DAVIS, C. L. F.; ALMEIDA, L. R. de; RIBEIRO, M. P. de O.; RACHMAN, V. C. B. Abordagens 
vygotskiana, walloniana e piagetiana: diferentes olhares para a sala de aula. Psicol. educ., 
São Paulo, n. 34, p. 63-83, jun. 2012. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.
php?script=sci_arttext&pid=S1414-69752012000100005&lng=pt&nrm=iso. Acesso em: 
3 abr. 2020.
FOUCAULT, M. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. Tradução 
de Salma Tannus Muchail, São Paulo, Martins Fontes, 1995.
FREITAS, M. da G. F. Da psico(bio)logia do jogo infantil ao desejo de fazer-de-conta que é 
adulto: um estudo sobre o brincar infantil. Dissertação (Mestrado em Educação) - Facul-
dade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1999. Disponível em: https://
doi.org/10.11606/D.48.1999.tde-27022014-144555. Acesso em: 30 mar. 2020. 
HEINDBREGER, E. Psicologias do século XX. Tradução de Lauro S. Blandy. São Paulo: Mes-
tre Jou Editora, 1969.
JAPIASSU, H. A Psicologia dos Psicólogos. Rio de Janeiro, Imago, 1983.
MAIA, C. M. Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem. Curitiba: InterSaberes, 
2017.
MOTA, M. M. P. E. Metodologia de Pesquisa em Desenvolvimento Humano: Velhas Ques-
tões Revisitadas. Psicologia em Pesquisa | UFJF | 4(02) | 144-149 | julho-dezembro de 
2010. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/psipesq/v4n2/v4n2a07.pdf. Acesso 
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MOTA, M. M. P. E. Psicologia do desenvolvimento: uma perspectiva histórica. Temas 
psicol., Ribeirão Preto, v. 13, n. 2, p. 105-111, dez. 2005. Disponível em: http://pepsic.
bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413389X2005000200003&lng=pt&nr-
m=iso. Acesso em: 1 abr. 2020.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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ça e a inserção da infância no consumismo. Psicol. cienc. prof., Brasília, v. 33, n. 2, p. 
474-489, 2013. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi-
d=S1414-98932013000200016&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 31 mar. 2020.
PILETTI, N.; ROSSATO, S. M.; ROSSATO, G. Psicologia do Desenvolvimento. São Paulo, 
Contexto, 2014.
ROSENFELD, A. O Pensamento Psicológico. São Paulo: Editora Perspectiva, 1984.
TELES, M. L. S. O que é Psicologia? São Paulo: Brasiliense Editora, 1995.
XAVIER, A. S.; NUNES, A. I. B. L. Psicologia do desenvolvimento. Ceará: Editora UECE, 
2015. Disponível em: https://educapes.capes.gov.br/bitstream/capes/431892/2/Livro_
Psicologia%20do%20Desenvolvimento.pdf. Acesso em: 3 mar. 2020.
UNIDADE 2
Desenvolvimento I 
Você está na Unidade Prática de Enfermagem para Tratamento e Diagnóstico de 
Alterações Cardiovasculares. Conheça aqui as alterações do sistema cardiovascular, as 
técnicas de realização do eletrocardiograma, e pressão venosa central no contexto da 
prática assistencial do(a) enfermeiro(a). 
Aprenda aspectos importantes, tais como os aspectos clínicos, epidemiológicos e 
psicossociais que fundamentam o cuidar de pessoas com alterações do sistema 
cardiovascular, assim como os fatores relacionados à hipertensão, trombose venosa 
profunda, insuficiência, cardíaca congestiva, infarto do miocárdio e arritmias cardíacas. 
Você já pensou como esses fatores podem impactar a saúde de nossos pacientes? Pois 
então, essa é a resposta que iremos descobrir a seguir nesta unidade.
Bons estudos!
Introdução
29
1 GRAVIDEZ E VIDA INTRAUTERINA: A FORMAÇÃO 
DO BEBÊ 
Há muitas transformações que ocorrem em diferentes fases do desenvolvimento humano, 
iniciando com a vida ainda dentro do útero, passando pelo nascimento, os primeiros anos de 
vida e chegando até o desenvolvimento da 3ª infância, quando a criança atinge os 11 anos de 
idade. Assim, entenderemos o que ocorre no processo de formação do bebê e vida uterina, que 
dura em torno de 38 a 40 semanas e é chamado gravidez, e o processo do nascimento. Veremos 
ainda as características específicas a cada idade da infância, relacionada ao desenvolvimento 
bio-psico-social, quando poderemos compreender o ser humano dentro de uma perspectiva 
desenvolvimentista.
Figura 1 - Ciclo da vida 
Fonte: Mathisa, Shutterstock, 2020.
#ParaCegoVer: A imagem mostra em um fundo verde um galho de árvore em que, da 
esquerda para direita, há uma lagarta, seguida por um casulo totalmente fechado, depois um 
casulo se abrindo, em seguida uma borboleta saindo do casulo e, finalmente, uma borboleta 
voando, representando o início do ciclo de uma vida.
1.1 Início do ciclo vital 
O desenvolvimento humano inicia durante a fecundação, em que milhões de espermatozoides 
são lançados no corpo da mulher e percorrem um caminho da vagina, passando pelo útero, até 
as trompas (Trompas de Falópio) em busca do óvulo. Na maioria dos casos, uma vez a cada 28 
dias (normalmente em meados do ciclo menstrual, conhecido também como período fértil, 
que dura aproximadamente entre 3 e 7 dias), um óvulo amadurece em um dos dois ovários 
e sai para as trompas de Falópio em direção ao útero, momento em que pode ser penetrado 
por um espermatozoide, dando início a uma gravidez (BEE, 1997). Esse momento em que o 
30
espermatozoide masculino encontra o óvulo feminino é chamado de concepção. Após isso, inicia-
se ao desenvolvimento pré-natal, que é dividido em períodos, são eles:
Período germinal
Esse período, chamado de estágio germinal de desenvolvimento, com duração de 
aproximadamente duas semanas, corresponde ao período da fecundação até a introdução no 
útero. O ovo formando pelo espermatozoide inicia um processo de divisão celular e migração até 
se alojar na parede do útero para se implantar e continuar seu desenvolvimento. Enquanto isso, 
o útero começa a passar por mudanças em preparação para receber o óvulo fertilizado. O tempo 
entre a fertilização do óvulo até a primeira subdivisão celular normalmente é entre 24 e 36 horas 
(BEE, 1996 e NEWCOMBE, 1999).
Período embriônico (2ª semana até a 8ª semana)
Duas semanas após a concepção, inicia-se o período embrionário. Este segundo estágio da 
gestação é caracterizado por um rápido desenvolvimento e uma diferenciação dos principais 
sistemas (respiratório, digestivo e nervoso) e órgãos do corpo, assim como de várias estruturas 
que apoiam o desenvolvimento fetal, como a placenta. As células que se tornarão um embrião, 
no final da terceira semana, já formarão um coração começando a bater. Entre 8 e 9 semanas o 
embrião começa a tomar uma forma, rosto, boca, olhos, braços, pernas, mãos e pés começam 
a aparecer e os órgãos sexuais estão começando a se formar. (BEE, 1997 e NEWCOMBE, 1999).
Período fetal (8ª semana até o parto)
O terceiro estágio de desenvolvimento, o estágio fetal, estende-se do final do segundo mês 
até o nascimento. É o estágio em que ocorrem, rapidamente, as mudanças na forma do corpo e 
aprimoramento de todos os sistemas e órgãos. O feto chega a crescer até 20 vezes seu cumprimento 
anterior (BEE, 1997). É nessa fase que a mãe costuma sentir os primeiros movimentos do bebê e 
os ossos começam a se desenvolver. O sistema reprodutivotambém começa a se desenvolver e é 
possível de ser reconhecido o sexo do bebê através dos exames de ultrassom. Contudo, o sistema 
nervoso ainda está bastante incompleto e é por volta da 28ª semana, assim como outros sistemas 
do corpo, que a maturidade estará suficiente para uma chance de funcionar adequadamente fora 
do útero, embora muitos cuidados especiais sejam necessários (BEE, 1997 e NEWCOMBE, 1999).
As últimas semanas da gestação (38 a 40 semanas) são marcadas pela continuação do 
desenvolvimento das estruturas e funções do corpo, do aumento do peso e da altura. Cada 
semana que o feto permanece na barriga da mãe, faz aumentar suas chances de sobrevivência e 
desenvolvimento normal (NEWCOMBE, 1999).
31
1.2 Influências ambientais no período pré-natal 
Com o estudo do desenvolvimento pré-natal, pode-se observar que durante a gestação o 
estado físico e emocional da mãe e, consequentemente, o ambiente pré-natal em que ela está 
inserida, exerce uma influência importante no desenvolvimento fetal. Entre os fatores que podem 
afetar o desenvolvimento estão (NEWCOMBE, 1999 e BEE, 1996):
Idade dos pais
Com o avanço nos cuidados à saúde e nutrição correta, a maioria dos pais de todas as idades 
terá bebês saudáveis, porém a idade avançada pode aumentar a chance de ter filhos com alguma 
alteração genética.
Mulheres acima dos 30 anos tronam-se menos férteis, tendo maior probabilidade de passar 
por doenças durante a gravidez.
Álcool
A ingestão de álcool por mulheres grávidas pode causar a síndrome alcoólica fetal, uma série 
de problemas irreversíveis (más formações) que pode atingir desde os aspectos comportamental, 
cognitivo e fisiológico, como principalmente o sistema nervoso central.
Nicotina
O uso do cigarro pode retardar o crescimento do feto devido à diminuição de oxigênio 
recebida, aumento da chance de um nascimento prematuro e um baixo peso ao nascer.
Nutrição
A desnutrição da mãe pode afetar o desenvolvimento intelectual das crianças. Alguns 
aspectos da dieta são especialmente importantes, como a ingestão de ácido fólico, encontrada 
em folhas verdes, pois a ausência dessa vitamina é um fator de risco para ter um bebê com má 
formação na coluna.
1.3 Processo do nascimento
Uma vez que o bebê se desenvolveu completamente no útero, ele está pronto para nascer e o 
corpo da mulher se prepara para o parto. Esse momento é chamado de trabalho de parto e pode 
ser dividido em quatro períodos distintos (POSNER et al., 2014):
Primeiro período
Nesse período, ocorre a dilatação e é dividido em: Fase latente – quando as contrações 
32
começam, ainda numa frequência e intensidade baixas, e a dilatação do colo do útero atinge 3,5 
cm. Fase ativa – as contrações ligeiramente aumentam de intensidade e o colo do útero de 4 cm 
de dilatação passa a ter dilatação total ou completa, ou seja, o cérvix abre até os 10 cm e agora o 
bebê tem um estreito canal para descer (canal vaginal).
Segundo período
Fase de expulsão do bebê. Durante esse período, as contrações são substituídas por uma 
vontade enorme de fazer força para baixo. Essa fase inicia-se com a dilatação completa e culmina 
com o nascimento do bebê.
Terceiro período
Período que se inicia logo após a saída do bebê e termina com o deslocamento, a descida e a 
expulsão da placenta para o meio externo.
Quarto período
Considerado o período de estabilização do quadro da mulher, de grande importância no 
processo hemostático.
O parto vaginal nem sempre é possível ou talvez possa colocar em risco a vida ou a saúde da 
mãe e do bebê. Nesses casos, o médico pode optar por uma cesariana, que corresponde a um 
procedimento cirúrgico que envolve uma incisão no útero.
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33
2 CONCEITO DE INFÂNCIA
Assim como em outras fases da vida, a infância tem suas especificidades e pode ser dividida 
em 1ª, 2ª e 3ª infância de acordo com a idade e as características de cada momento.
Segundo o dicionário Michaelis, infância significa um período da vida, no ser humano, que 
corresponde desde o nascimento até o início da adolescência. Esse momento caracteriza o 
período que vai do zero a dois anos, chamado de primeira infância; período dos três aos seis anos, 
chamado segunda infância; e, por último, período que vai dos sete aos 11 anos, terceira infância. 
2.1 Uma etapa construída
A análise do desenvolvimento da concepção sobre o que é infância, nos mostra que a criança 
nem sempre esteve nesse lugar social de cuidados especiais. Foi a partir do livro, escrito na década 
de 1960 pelo francês Philippe Ariés, que o questionamento sobre a infância como uma etapa 
natural ou universal do ser humano ganhou um marco teórico. A criança era considerada um 
“mini adulto”, suas particularidades não eram consideradas, não havia distinção entre o mundo 
adulto e infantil, era apenas considerado como um momento fisicamente mais frágil e, depois 
disso, elas logo se misturavam aos adultos. Falavam e se vestiam como adultos, viviam em meio 
a esse universo, participando de jogos e festas. 
A partir do desenvolvimento industrial, do surgimento da instituição familiar, que a criança 
passa por uma gradual separação e assume um novo lugar. É nesse momento que as primeiras 
instituições escolares surgem e que a educação e formação da criança começa a ser questionada 
e desenvolvida até os dias de hoje (CANUTO, 2017).
3 DESENVOLVIMENTO BIO-PSICO-SOCIAL E 
COGNITIVO NA 1ª INFÂNCIA (0-2 ANOS)
Nesse momento, após o processo do desenvolvimento do feto dentro do útero, o bebê 
continua se desenvolvendo, mas agora fora do útero da mãe, numa fase que corresponde aos 
primeiros dois anos de vida. 
3.1 Desenvolvimento do corpo
Os bebês crescem rapidamente nos dois primeiros anos de vida, chegam a dobrar seu peso de 
nascimento em quatro ou seis meses e quando chegam aos dois anos, possuem metade de sua 
provável altura quando forem adultos. Shafferd (2005) comenta que se as crianças mantivessem 
esse ritmo, teriam mais de 3 m de altura ao chegar nos 18 anos! 
34
O desenvolvimento corporal ocorre em duas direções:
Cefalocaudal: da cabeça para os pés.
Próximo-distal: do centro para as extremidades.
A cabeça do recém-nascido apresenta 70% de seu tamanho adulto. À medida que se 
desenvolve, com um ano de idade, por exemplo, a cabeça representa apenas 20% do comprimento 
corporal total, sendo o tronco o segmento do corpo que mais cresce (SHAFFERD, 2005).
O cérebro do bebê se desenvolve em uma velocidade impressionante no início da vida e 
há uma grande plasticidade neuronal. Os neurônios e as sinapses estão prontos para receber 
todo e qualquer tipo de estimulação sensorial e motora, por isso que as primeiras experiências 
determinam e muito a arquitetura do cérebro, pois os neurônios que não são estimulados irão se 
degenerar (SHAFFERD, 2005).
Um dos grandes desenvolvimentos que o bebê realiza nessa primeira fase da infância, é o 
controle motor. Da condição de “indefesos” ao nascer, chegam ao final dos dois anos conseguindo 
chutar uma bola. Sustentar a cabeça, rolar, sentar-se com e depois sem apoio, engatinhar, andar com 
apoio, ficar em pé sozinho, andar, subir escadas e chutar uma bola para frente são as habilidades 
motoras conquistadas respectivamente nos dois primeiros anos de vida (SHAFFERD, 2005).
3.2 Desenvolvimento cognitivo
Há inúmeros referenciais teóricos diferentes sobre o estudo do pensamento da criança, e 
o trabalho de Jean Piaget é a grande referência, assim como a base das ideias atuais sobre o 
desenvolvimento cognitivo. Piaget contribui com conceitos fundamentais sobre como ocorre o 
funcionamento intelectual do ser humano nas diferentes fases da vida, são eles (BEE, 1996):
• Adaptação
Processo de ajustamento ao meio ambiente.
• Organização
Processo que inclui a combinação de informações e classificação ou agrupamento em 
conjuntos ou sistemas.
• Assimilação
Processo de incorporação de novas experiências.
• Acomodação
35
Processo de modificação das ideias em função da nova experiência.• Esquemas
Padrões de comportamento, mas não uma estrutura passiva. À medida que a criança progride, 
esses esquemas se tornam gradativamente sofisticados.
Nesse primeiro período de vida, o bebê se desenvolve cognitivamente também por meio de 
seus avanços e conquistas das habilidades motoras. A capacidade de engatinhar e se locomover 
sozinho representam uma autonomia para a criança, expandem seu campo de visão e exploração 
do mundo. Aos poucos o bebê se torna capaz de organizar atividades em relação ao ambiente 
por meio da atividade sensorial e motora. Esse é o momento do desenvolvimento intelectual que 
Piaget nomeou como período sensório-motor.
Em relação à linguagem, o bebê já se comunica, o choro, o balbucio e a imitação dos sons é a 
chamada fala pré-linguística. Aos seis meses o bebê já aprendeu os sons básicos de sua língua e 
por volta dos 12 meses a primeira palavra costuma surgir, dando início à fala linguística. 
3.3 A importância do ambiente
O desenvolvimento motor básico dos primeiros dois anos não acontece simplesmente como 
parte de um grande plano da natureza. Um mundo real de objetos e eventos interessantes provê 
o bebê com muitos motivos para desejar alcançar algo, ou seja, os estímulos podem servir para, 
constantemente, organizar habilidades já existentes em sistemas de novas e mais complexas ações. 
Dessa maneira, tanto o processo de maturação quanto a experiência são fatores importantes para 
o desenvolvimento humano.
FIQUE DE OLHO
O uso do andador infantil ainda é bastante popular, cerca de 60 a 90% dos bebês utilizam, 
porém, os últimos estudos científicos mostram que as vantagens de seu uso fazem parte 
apenas de uma crença dos pais e não da realidade. A Sociedade Brasileira de Pediatria, assim 
como sociedades de outros países, proíbe o uso do andador, pois coloca a vida do bebê 
em risco, devido aos acidentes. Saiba mais sobre isso lendo o artigo “Andador: perigoso e 
desnecessário” da Sociedade Brasileira de Pediatria.
36
4 DESENVOLVIMENTO BIO-PSICO-SOCIAL E 
COGNITIVO NA 2ª INFÂNCIA (3-6 ANOS)
As habilidades adquiridas na primeira fase da infância continuam se desenvolvendo nessa 
segunda fase, ganhando agora amplitude e refinamento maior. É uma etapa em que a criança 
passará por um florescimento social, passando a reconhecer o mundo em que está inserida, se 
diferenciando uma das outras e podendo interagir socialmente.
4.1 Desenvolvimento do corpo
À medida que as crianças amadurecem, suas habilidades locomotoras alcançam novas 
conquistas. O desenvolvimento nessa fase é continuo, porém mais lento se comparado à primeira 
infância. 
3 anos
Podem andar ou correr e levantar ambos os pés do chão, embora não consigam parar 
abruptamente quando estão correndo.
4 anos
São capazes de pegar uma bola grande com ambas as mãos, pular em um pé só e correr muito 
mais longe e mais rápido que podiam um ano antes.
5 anos
O equilíbrio já se desenvolveu a tal ponto que podem aprender a andar de bicicleta e 
conseguem descer uma escada alterando seus pés.
Apesar do rápido progresso, é comum que as crianças se interessem por desafios e conquistas 
maiores. A cada ano que passa, elas podem pular um pouco mais alto e jogar uma bola mais 
longe, por exemplo. Isso representa o desenvolvimento dos músculos e aperfeiçoamento de suas 
habilidades motoras (SHAFFERD, 2005).
É nessa fase que também observamos o desenvolvimento das atividades artísticas. Os 
rabiscos, traços e grafismos começam a expressar a evolução da coordenação motora fina e a 
maturação do cérebro. 
4.2 Desenvolvimento cognitivo
Algumas características importantes durante a segunda infância, conforme Piaget (1987), é 
37
a expansão do pensamento simbólico, que surgiu no estágio anterior. A criança, nessa fase, não 
precisa mais ver o objeto concretamente para que possa pensar nele e saber que ele existe, agora 
ela é capaz de fazer uso de símbolos, que são representações mentais atribuídas de significados 
que ajudam a criança a lembrar e pensar coisas que não estão em sua frente, presentes. É a 
função simbólica que capacita a criança a representar objetos, acontecimentos e o meio em 
que está inserida, por meio de desenhos, jogos e linguagem. É como se a criança, através dessa 
capacidade, conseguisse tornar público o que lhe é privado, é conseguir se comunicar com o seu 
meio social, por isso está intimamente ligada com a evolução do desenho e da linguagem.
Outro significativo avanço nessa fase é o início da percepção de causa e efeito. As crianças 
começam a desenvolver o entendimento de que alguns acontecimentos têm causas por 
consequência de outras ações. Piaget (1987) descreve a elaboração desse pensamento da criança 
fazendo uso das características do egocentrismo, ou seja, a criança nessa fase não consegue uma 
elaboração de causalidade abstrata, ela está centrada no seu próprio ponto de vista.
O desenvolvimento cognitivo apresenta períodos ou estágios caracterizados pelas novas 
formas de pensar cada vez mais complexas e elaboradas. Na abordagem piagetiana, essa forma 
de organização mental da segunda infância é chamada de período pré-operatório. 
4.3 Desenvolvimento psicossocial 
É durante a segunda infância que há uma das mais importantes fases do desenvolvimento 
psicossocial da criança. É a fase do início da escolarização, em que o contato social ganha 
expressiva representatividade. A capacidade de brincar, o uso da imaginação e o faz de conta 
demonstra o saudável desenvolvimento da criança, uma vez que é por meio das brincadeiras que 
a criança poderá explorar o mundo a sua volta.
Outra aquisição importante durante a segunda infância é o desenvolvimento da identidade. 
A criança inicia um processo de autoconceito que se desenvolve a partir das representações 
descritivas e avaliativas que ela recebe do seu meio. Por isso, o acolhimento e a aprovação dos 
pais como mediadores contribuintes dessas fases de exploração e conquista têm importante 
contribuição na autoestima da criança, uma vez que esta é a parte autoavaliativa do autoconceito 
que a criança faz sobre seu valor, com base na capacidade cognitiva de descrever e definir a si 
própria (PAPALIA; FELDMAN, 2013).
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5 DESENVOLVIMENTO BIO-PSICO-SOCIAL E 
COGNITIVO NA 3ª INFÂNCIA (7-11 ANOS)
As aquisições obtidas na primeira e segunda infância propiciaram à criança interagir 
socialmente, assim como se conhecer melhor. É nessa terceira fase da infância que as crianças se 
desenvolvem principalmente no contato com os outros. Podemos dizer que representa o período 
de consolidação da independência. 
5.1 Desenvolvimento do corpo
Essa é uma fase de desenvolvimento físico, um pouco mais lenta comparada à fase anterior. O 
crescimento físico continua com expressividade no desenvolvimento dos músculos, assim como 
na altura e no peso. É nessa fase também que os dentes de leite começam a cair. As habilidades 
motoras continuam cada vez mais complexas, sua força e agilidade são mais expressivas, a criança 
é capaz de participar de atividades físicas e esportivas que exigem maior coordenação motora. As 
habilidades motoras finas também são aprimoradas. A escrita é uma das atividades importantes 
nessa fase e que ganha uma notória evolução na apreensão ao lápis e no uso da tesoura, por 
exemplo, representando também a evolução do amadurecimento cerebral.
5.2 Desenvolvimento cognitivo
Essa é a fase que a criança inicia os “porquês” e o querer saber sobre os fatos e o que ocorre. 
Elas passam a racionalizar seus pensamentos e suas crenças, procurando as razões das coisas.
Um grande marco nesse período é o início da escolarização. Apesar de a criança frequentar a 
39
escola em anos anteriores, é agora que o seu pensamento passará a operar de forma mais lógica 
e com o ensino mais formalizado e estruturado, diferente da primeira e segunda infância, em que 
o investimento maior para o desenvolvimento saudável da criança é pautado pela proposta do 
brincar, desenhar e expressarfisicamente com atividades recreativas ou mesmo o brincar livre.
A criança vivencia um aumento significativo das suas capacidades cognitivas e do processo de 
aprendizagem. Piaget chamou essa fase de período operatório concreto. É a fase do pensamento 
concreto, em que seu raciocínio deixa de se apoiar em materiais que podem ser manipulados ou 
controlados para passar a compreender suas operações.
Piaget descreve dois tipos de operações e três tipos de conservação que a criança consegue 
manipular nessa fase para exemplificar como ocorre o pensamento da criança, são elas:
• Operações lógicas matemática, que se referem à classe e ao número.
• Operações infralógicas, que se referem ao espaço e ao tempo, compreendendo as no-
ções de medidas.
Conservação de sólidos
Em que independentemente do tamanho a quantidade é a mesma. Piaget demonstra esse 
raciocínio exemplificando com o uso de massinhas, em que apresenta para a criança duas 
massinhas, porém em formatos diferente (“bolinha” e “canudo”) e a criança da fase pré-operatória 
consegue responder que ambas são iguais, diante da pergunta de qual possuem mais massinha. 
Conservação de líquidos
Em que a criança consegue entender que, por exemplo, dois copos (ou outro recipiente) 
de água com tamanhos diferentes, um mais comprido e outro achatado, podem ter a mesma 
quantidade de líquido. 
FIQUE DE OLHO
Jean William Fritz Piaget foi um biólogo de formação, nascido na Suíça (1896-1980), 
que também se dedicou à psicologia, epistemologia e educação. Durante seu trabalho e 
experiência em padronização de testes percebeu que as crianças apresentavam o mesmo 
tipo de erro, havendo um padrão e uma lógica semelhante nas respostas, então, Piaget 
desenvolveu a teoria dos estágios cognitivos. Assista ao vídeo “Fases de desenvolvimento 
cognitivo segundo Jean Piaget” e veja o exemplo.
40
Conservação de peso
Em que o que não importa é a quantidade, pois pode-se ter um volume maior de determinada 
substância, mas ter o mesmo peso. 
Na terceira infância, observamos uma capacidade maior de manipulação mental das 
informações. Por exemplo, a criança deixa de usar os dedos ou imagens para fazer contas. Ela 
também apresenta maior velocidade de processamento de informações, mantém mais de uma 
informação ativa, conseguindo manipular mais informações a nível mental, manipulando as 
informações para chegar a uma resposta mais complexa.
Outra importante característica dessa fase também é a noção de reversibilidade, em que a 
criança passa a entender que uma ação pode acontecer e depois voltar a seu estado inicial, é a 
ideia do ir e voltar. A criança também desenvolve a noção de tempo (passado, presente e futuro) 
e esta é fundamental para a compreensão das relações causais entre os fatos e acontecimentos.
A noção de causalidade, ou seja, a possibilidade de estabelecer relações entre acontecimentos, 
estados, fatos e objetos diferentes é fundamental para o desenvolvimento do pensamento lógico 
e para a compreensão dos conceitos científicos.
5.3 Desenvolvimento psicossocial
Essa é a fase em que a criança deixa de lado o egocentrismo, dando lugar à sociabilidade, ela 
vira-se para fora, para o grupo, para os colegas, para o outro. Além disso, a partir dos seis anos de 
idade, as crianças passam a comparar-se com outras crianças da mesma faixa etária, elas estão 
mais atentas ao seu ambiente externo e também começam a imitar as crianças mais velhas. Esses 
dois fatos, aliados ao crescimento da vida social da criança, diminuem a importância dos pais e 
da família como modelos de comportamento da criança e aumentam a importância dos amigos 
e dos professores.
Enfim, o desenvolvimento da criança precisa ser encarado como um processo de interação 
entre diferentes variáveis que não só a orgânica, mas também sociais, familiares e psíquicas. O 
profissional precisa estar atento em como essa complexa rede está interligada e se são inibidoras 
ou propulsoras do desenvolvimento saudável da criança em suas diferentes fases.
41
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42
Nesta unidade, você teve a oportunidade de:
• compreender como os bebês se desenvolvem no útero e as respectivas fases do 
pré-natal, assim como os fatores do ambiente que podem influenciar esse desenvol-
vimento;
• aprender as diferentes fases do parto e os diferentes modelos de partos;
• entender a construção do conceito do que é a infância;
• conhecer as transformações que ocorrem no ser humano, desde o seu nascimento 
até os 11 anos de idade, a chamada primeira, segunda e terceira infância. 
• entender os fenômenos psicológicos que ocorrem nos pais durante a gestação e 
puerpério. 
PARA RESUMIR
BADINTER, E. Um amor conquistado: o mito do amor materno. São Paulo: Círculo do 
Livro, 1980.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
UNIDADE 3
Teorias da clínica infantil e desen-
volvimento da criança na escola
Introdução
Você está na unidade Teorias da clínica infantil e desenvolvimento da criança na 
escola. Conheça aqui os antecedentes históricos do atendimento clínico infantil, o 
conceito moderno de infância, antes do surgimento da clínica. Compreenda esse histórico 
do atendimento clínico com crianças a partir da modernidade, entendendo a nascente 
Psicologia e o surgimento do atendimento clínico infantil, com Freud e depois de Freud. 
Conheça também as teorias principais da clínica infantil e reflita sobre o desenvolvimento 
da criança na escola, pensando nos aspectos físicos, emocionais, cognitivos e de 
julgamento moral.
Bons estudos!
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1 ANTECEDENTES HISTÓRICOS DO ATENDIMENTO 
CLÍNICO COM CRIANÇAS 
Examinando antecedentes históricos do atendimento clínico com crianças, fica visível que a partir 
da criação do famoso laboratório de Wundt, a psicologia se tornou uma ciência. Desde a conquista 
desse estatuto de cientificidade, foi perceptível, dentro da área de Psicologia do Desenvolvimento, 
a extensa dedicação dos teóricos do desenvolvimento infantil ao estudo da infância.
É bastante recorrente, na história dos estudos sobre o desenvolvimento humano, a 
preocupação em estudar as crianças, observá-las bem de perto, surgindo novas teorias. Isso 
aconteceu também nas casas de renomados estudantes da psicologia do século XX. Jean Piaget 
observou seus próprios filhos e Sigmund Freud observou o seu neto. Tais práticas são bem mais 
antigas e remontam ao século XIX.
Para refletir sobre o histórico do atendimento clínico com crianças, incluindo os importantes 
papéis dos pais, é necessário entender em que tempo vive ou viveu uma determinada criança. 
Ocorre um fato de suma importância ao pensar na história do atendimento clínico com crianças, 
além de esclarecer sobre a cultura em que elas e suas famílias vivem. Um fato é incontestável: 
Não duvide que as crianças narradas por seus psicólogos e analistas, no decorrer do século XX, 
são bem diferentes das crianças do século XXI. 
Será dentro da própria história da psicologia e do atendimento clínico

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