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UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO ALFABETIZAÇÃO DE ADULTOS SOB A PERSPECTIVA DE PAULO FREIRE: UM RELATO DE MINHA EXPERIÊNCIA NO NEJA - UFV Camila Ferreira Mafra VIÇOSA - MG 2023 UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO ALFABETIZAÇÃO DE ADULTOS SOB A PERSPECTIVA DE PAULO FREIRE: RELATO DE MINHA EXPERIÊNCIA NO NEJA - UFV Camila Ferreira Mafra Trabalho apresentado como exigência da disciplina EDU 392 - Trabalho de Conclusão de Curso III, como parte do requisito para obtenção do título de graduada em Pedagogia do Departamento de Educação da Universidade Federal de Viçosa, sob a orientação da professora Elen Machado Tavares. Viçosa - MG 2023 UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA 2 CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO Trabalho de Conclusão de Curso intitulado “Alfabetização de adultos sob a perspectiva de Paulo Freire: relato de minha experiência no Neja - UFV”, de autoria da graduanda Camila Ferreira Mafra, analisada pela banca examinadora constituída pelos seguintes professores: ___________________________________________________________ Profa. Dra. Elen Machado Tavares – Orientadora ____________________________________________________________ Profa. Dra. Silvana Claudia dos Santos – Avaliadora ___________________________________________________________ Profa. Dra. Rosa Cristina Porcaro – Avaliadora Viçosa Dezembro, 2023 3 Aos meus pais, por terem me educado com amor! A todos que participaram da minha construção pessoal! 4 AGRADECIMENTOS Todos com quem temos a oportunidade de conviver nos proporcionam uma troca de vivências. Essas experiências nos constroem e nos fazem ser quem somos. Na reta final da graduação, é difícil não olhar para trás e lembrar dos bons momentos. Desta forma, quero agradecer, embora isso não pareça ser suficiente frente à dimensão das experiências que vivi. Quero agradecer a Deus, por me dar vida, saúde e sabedoria para sempre aprender mais, e capacidade de sempre perseguir os meus sonhos. Pela minha vida, também agradeço aos meus pais, Ana Lúcia e Cláudio, que me criaram, me amaram e me incentivaram a ser quem sou. Agradeço a minha tia Carmélia, por também ter me apoiado nesse percurso e ter ajudado em minha criação. Dedico a vocês amor incondicional e gratidão. Agradeço às amizades que construí durante a caminhada da graduação. Quero agradecer à Angélica, Francineide e Victoria, por terem tornado o processo tão leve, por me apoiarem nos momentos difíceis, por me ouvirem quando precisei e por serem minhas parceiras de grupo. Agradeço à minha orientadora - Elen - que, com toda certeza, foi essencial na solidificação desse caminho. Agradeço ao Neja, por ter propiciado um ambiente para que nascesse esse trabalho. Agradeço também à Cristiane, pelos momentos descontraídos e formativos durante minha vivência. A todos que contribuíram para a realização do meu curso, para a conclusão do meu trabalho e para a formação da minha pessoa, meu mais sincero obrigado. Gratidão. 5 “A experiência é uma lanterna dependurada nas costas que apenas ilumina o caminho já percorrido”. (Confúcio) 6 RESUMO O trabalho se constitui um relato de experiência com perspectiva autobiográfica e abordagem crítico-reflexiva, acerca da minha vivência como alfabetizadora na Educação de Jovens e Adultos (EJA), desenvolvida por meio de um estágio não obrigatório realizado no Núcleo de Formação de Educadores de Jovens e Adultos (Neja), na Universidade Federal de Viçosa (UFV), no período de março de 2021 a dezembro de 2023. O trabalho busca elucidar a seguinte questão: como os estudos no Campo da EJA contribuíram para o entendimento crítico das minhas principais vivências pedagógicas ativas no Neja, durante dois anos, como estudante em formação da graduação em pedagogia? Tem como objetivo principal relatar criticamente as minhas principais experiências como alfabetizadora, vivenciadas na educação de jovens e adultos em português e matemática, no Neja, entre 2021 e 2023. Especificamente, pretende contextualizar e compreender a EJA no Núcleo de Formação de Educadores de Jovens e Adultos da UFV; relatar criticamente a minha experiência na alfabetização de adultos no Núcleo, dada através da proposta de Paulo Freire; compreender os principais desafios que se tornaram presentes nessa experiência de alfabetização de adultos. Como resultado esclareço que durante o tempo em que estive atuando como estagiária no Neja, pude construir vivências e conhecimentos indispensáveis à minha atuação no campo da educação. O ambiente formador do Neja me possibilitou compreender e problematizar minha história de vida e minha formação acadêmica. Além disso, tive a oportunidade de pôr em prática estratégias pedagógicas que envolvem a participação ativa e a aplicação de forma prática dos conceitos matemáticos e de alfabetização. Palavras-chave: educação de jovens e adultos; alfabetização de jovens e adultos; formação docente; formação de professores para a EJA; analfabetismo. 7 SUMÁRIO 1. Introdução............................................................................................................... 9 2. Elementos Metodológicos............................................................................................... 13 3. Contextualização do tema................................................................................................15 3.1 Contexto histórico da EJA no Brasil............................................................................15 3.2 O Núcleo de Formação de Educadores de Jovens e Adultos da UFV................. 20 3.3 As contribuições de Paulo Freire.................................................................... 22 4. Minha vivência docente....................................................................................................28 4.1 Onde tudo começou: formações pedagógicas no Neja.............................................. 28 4.2 Primeiro planejamento................................................................................................ 30 5. Desafios enfrentados....................................................................................................... 37 7. Considerações Finais.......................................................................................................39 Referências............................................................................................................................40 Anexo 1.................................................................................................................................. 44 Anexo 2.................................................................................................................................. 45 8 1. Introdução O presente texto se refere a um relato de experiência apresentado à disciplina EDU 392 - Trabalho de Conclusão de Curso III, do curso de Licenciatura em Pedagogia da Universidade Federal de Viçosa (UFV), como requisito do processo de conclusão do curso. Tem como objetivo relatar, de forma crítica, as principais experiências que vivenciei durante o estágio não obrigatório em ensino no Núcleo de Formação de Educadores de Jovens e Adultos da UFV (Neja)1, em que foi possível atuar ativamente na alfabetização de adultos em português e matemática. Para a realização deste trabalho, foi escolhido um tema que se relaciona comigo: a alfabetização de Jovens e Adultos (EJA). Por isso, optei por elaborar um relato de experiência em ensino acerca da minha atuação como estagiária no Neja, dentro do Campus da UFV em Viçosa - MG. O estágio ocorreu no período de março de 2021 a dezembro de 2023. O trabalho tem como problema de pesquisa: como os estudos no campo da EJA contribuíram para o entendimento crítico das minhas principais vivências pedagógicas no Neja, como professora em formação em formação da graduaçãona seção anterior. No decorrer da experiência, passei por desafios da docência na EJA. Os desafios dos estudantes são característicos deles mas, não particulares, uma vez que estando em sala de aula é necessário que o professor adote estratégias para ajudar o educando a superá-los. Posso destacar três principais desafios da docência vivenciados durante a minha trajetória no Neja, são eles: material didático disponível infantilizado; a EJA não possui material didático específico para ser trabalhado em sala de aula. O Neja possui um banco de atividades próprio que os estagiários podem consultar e aplicar em aula. Porém esse banco de atividades não possui atividades que englobam especificidades de cada sala e cada estudante. De acordo com as necessidades que surgem à medida em que vamos trabalhando os conteúdos com os estudantes, recorremos a atividades prontas disponíveis na internet. Geralmente, essas atividades são infantilizadas e fora do contexto real, isso implica que apliquemos um critério de escolha muito 38 específico, o que diminui drasticamente as atividades aceitáveis para trabalharmos em sala de aula. Outro desafio se refere à descontinuidade das aulas por parte do educando; a falta é um sintoma de um desafio vivenciado pelos educandos, influenciando no ambiente da sala em si. Quando o estudante tem faltas constantes ocorre uma descontinuidade do trabalho e isso resulta em dificuldades em compreender os conteúdos trabalhados. Algumas vezes essa dificuldade é externalizada pelo educando em forma de frustração e isso influencia nas aulas e na autoestima do professor. A insegurança para trabalhar conteúdos de matemática também se constituiu em desafio quando iniciei minhas atividades no Núcleo, uma vez que presenciei relatos de pessoas que viam a matemática como um tabu. Estagiárias que não tiveram uma boa experiência com a matemática durante a alfabetização e não acreditavam possuir capacidade para trabalhar em sala de aula. Os educandos também apresentam uma certa resistência em relação a esse componente curricular, pois eles acreditam que apenas pessoas extremamente inteligentes podem aprender a matemática e como acreditam que possuem muita dificuldade de aprender, eles já deixam isso bem claro. Esse pensamento é tão forte que alguns faltam propositalmente nos dias das aulas de matemática. Inicialmente, eu pensava não possuir capacidade de ensinar matemática, isso em partes pela minha experiência de alfabetização com meu pai. Porém, durante a formação de matemática, a Professora Silvana nos mostrou que é possível trabalhar a matemática, aplicando as contribuições de Paulo Freire, de modo a construir um ensino significativo e relevante para o educando, trabalhando assim como na alfabetização na língua materna, com questões do seu cotidiano. Portanto, esses foram os principais desafios que eu vivenciei durante o meu estágio no Neja, mas, aprendi a lidar com a insegurança e a superar os demais desafios presentes no ambiente de ensino. 7. Considerações Finais Durante o tempo em que estive atuando como estagiária no Neja, pude construir vivências e conhecimentos indispensáveis para a minha atuação no campo 39 da educação. O ambiente formador do Neja me possibilitou compreender e problematizar minha história de vida e minha formação acadêmica. Além disso, tive a oportunidade de colocar em prática estratégias pedagógicas que envolvem a participação ativa, a aplicação dos conceitos matemáticos e de alfabetização. Percebi que os professores que trabalham com a EJA precisam de uma formação específica para lidar com as características desse público. É preciso que aprendamos a desenvolver estratégias de ensino diferenciadas e uma abordagem sensível às necessidades individuais dos educandos. Precisamos adotar métodos de avaliação que levem em consideração a diversidade de habilidades e conhecimentos na sala de aula e avaliações formativas que auxiliam no direcionamento do ensino (Porcaro, 2011). Aprendi que para aplicar isso na vivência em sala é preciso desenvolver uma abordagem pedagógica flexível, adaptada às características específicas da EJA. Isso envolve a criação de ambientes de aprendizado inclusivos, a utilização de métodos de ensino inovadores e a compreensão das necessidades individuais dos educandos adultos. Levo em consideração que houveram lacunas na escrita deste trabalho acerca da minha experiência, há mais vivências que eu poderia detalhar melhor. Essas informações, juntamente de sua análise, buscarei desenvolver em trabalhos futuros. Com isso, espero poder multiplicar o que aprendi e buscarei daqui em diante me aperfeiçoar cada vez mais na Educação de Jovens e Adultos. Futuramente, planejo fazer uma pesquisa de mestrado com a temática da EJA e também pretendo contribuir da forma que eu puder com o desenvolvimento do Neja, seja em formato de pesquisa ou criação de material didático específico para o público da EJA. Referências ARANHA, Sônia. A ANTIGA 1ª SÉRIE E O ATUAL 1°ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL DE 9 ANOS. Sônia Aranha tirando suas dúvidas sobre educação. 27, Abril, 2018. Disponível em: . Acesso em: Nov. 2023. BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é Educação? São Paulo: Editora Brasiliense, 1981. 40 https://www.soniaranha.com.br/a-antiga-1a-serie-e-o-atual-1ano-do-ensino-fundamental-de-9-anos/ https://www.soniaranha.com.br/a-antiga-1a-serie-e-o-atual-1ano-do-ensino-fundamental-de-9-anos/ CAMPOS, E. L. F. OLIVEIRA D. A. A Infrequência dos alunos adultos trabalhadores, em processo de alfabetização, na Universidade Federal de Minas Gerais. 2003. 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Grandezas e Medidas Medidas de comprimento Medidas de massa Medidas de capacidade Conversões entre unidades de medidas Medidas monetárias 46 Tratamento da Informação Gráficos de setores Gráficos de linhas simples 3º Números e Operações Problemas sobre operações com naturais Operações com Números Racionais (multiplicação e divisão) Porcentagem Espaço e Forma Figuras planas e sólidos geométricos: características, classificação Polígonos e Poliedros Sólidos de revolução: esfera, cone e cilindro Grandezas e Medidas Perímetro, Área e Volume Tratamento da Informação Tabela de dupla entrada Gráfico de coluna ou barras múltiplas Gráfico de linhas múltiplas 4º Revisão e preparação para exame de certificação 47em pedagogia? Acredito ter proximidade com o tema por alguns motivos. Entre eles, destaco o fato de que os meus pais não finalizaram a educação básica. Deste modo, como adultos, além de integrarem o público da EJA, quando tiveram oportunidade de retornar os seus estudos nesta modalidade, ainda assim, mais uma vez não concluíram os estudos. Meu pai, nascido em 1976, começou a frequentar a escola com 7 anos, em 1983. Neste período, sob o vigor da Lei de Diretrizes e Bases 5692/71 (Brasil, 1971), iniciou os estudos na 1ª série do pré, popularmente conhecida como primeira série relaxada. Tal adjetivo se justificava em virtude de que nessa série as crianças iam para escola com a finalidade de desenvolver atividades lúdicas como: pinturas, colagens, recortes, entre outras. Lembro de meu pai relatar que, após a primeira série relaxada, no ano seguinte a 1ª série do 1º Grau, diferente do pré, destinava o seu maior tempo escolar para o trabalho com conteúdos, envolvendo o estudo da escrita, leitura, matemática, ciências e humanidades, numa perspectiva tecnicista, deixando um 1 O Neja é o Núcleo de Formação de Educadores de Jovens e Adultos da UFV, situado na Vila Jeanete, n° 33, dentro do Campus da Universidade Federal de Viçosa, UFV, em Viçosa - MG. 9 ínfimo espaço para atividades lúdicas, em geral limitado ao parquinho, em horário específico para cada turma, além do horário de recreio, em que o parquinho era fechado para o uso livre por parte das crianças (Aranha, 2018). Meu pai frequentou uma escola na zona rural de Paula Cândido - MG. Estudou até os 14 anos, em 1989, concluindo a 4ª Série. Em virtude de sua saúde muito frágil, passava a maior parte do ano doente e, por esta razão, interrompeu os seus estudos por duas vezes, demorando 7 anos para concluir as primeiras quatro primeiras séries do ensino fundamental. Após concluir a 4ª série, ele não continuou a estudar, pois não havia escola para dar seguimento aos estudos na zona rural. Em conformidade com a LDB 5692/71, como o Poder Público não tinha obrigatoriedade de viabilizar, por meio de financiamento, a escolarização obrigatória. Para que a continuidade dos estudos de meu pai fosse possível, ele teria que mudar de residência, algo inviável na época, visto que era o filho mais novo entre 9 irmãos e meus avós paternos não tinham recursos econômicos para abrir mão do lugar de onde tiravam seu sustento, sua casa própria, para que seus filhos estudassem. Com efeito, dos nove irmãos de meu pai, apenas duas conseguiram concluir o ensino fundamental e o fizeram depois da maioridade, depois de casadas, na modalidade de EJA. Assim, duas irmãs de meu pai completaram a educação básica por meio do supletivo e do magistério2, se formando para atuarem na área educacional. Em conformidade com esse acontecimento, acerca da formação em magistério, Pimenta; Pinto e Severo, 2022, dizem que: Argumentando que a profissão em educação “é uma só e, por natureza, não só admite como exige `modalidades´ diferentes de capacitação a partir de uma base comum” (BRASIL, 1969, p.106), a Resolução n. 02/1969 instituiu o curso de Pedagogia como formação da/o pedagoga/o, com uma base comum e outra diversificada em habilitações: a de Magistério – para formar professoras/es do ensino normal; e as de Orientação Educacional, Administração escolar, Supervisão escolar, Inspeção escolar – para formar especialistas (Pimenta; Pinto; Severo, 2022) Minha mãe, nascida em 1981, também iniciou os estudos com 7 anos, em 1988, no pré, em escola da zona rural de Paula Cândido-MG. Deixou de frequentar a escola em 1991, quando estava na 3ª série, pois faltava muito às aulas para 2MAGISTÉRIO In: Oxford dictionary: cargo ou ofício de professor; professorado, exercício desse ofício; ensino, professorado. 10 trabalhar em casa. Desde os 6 anos, na condição de irmã mais velha, precisava auxiliar a minha avó nas tarefas domésticas, incluindo o cuidado de seus irmãos. No ano de 1995, mudou-se para Viçosa – MG, para morar com amigos da família. Assim, com 14 anos, minha mãe reingressou na escola regular de ensino fundamental, e frequentou a 4ª e 5ª séries simultaneamente, por orientação da direção da escola, devido a idade. Porém, após dois anos, em 1997, mais uma vez precisou interromper os seus estudos, em virtude de um trabalho doméstico sem direitos trabalhistas. Esse trabalho ocupava todos os turnos de seu dia, pois morava na casa da patroa e, ainda assim, não recebia remuneração, pois o pagamento era entregue diretamente à minha avó. Deste modo, abandonou a escola sem concluir nenhuma das séries. Em 2002, por 6 meses, frequentou o Centro Estadual de Educação Continuada, Cesec, em Paula Cândido, iniciando no 6º ano, junto a meu pai. Infelizmente precisaram parar devido à falta de apoio e à necessidade de trabalhar. Em 2013, ela entrou em um supletivo3 na 6ª, 7ª, e 8ª séries, que também foram inconclusivas, dessa vez por falta de uma rede de apoio para auxiliá-los no cuidado dos filhos, pois nessa época meus irmãos e eu já éramos nascidos. Por fim, em 2019, ingressou no Neja e parou em 2020, devido à pandemia, não retornando aos estudos desde então. Ao olhar para a trajetória escolar de meus pais, compreendo que, apesar de diferenças em suas trajetórias, ambos representam tendências comuns que convergem com a realidade de muitos brasileiros que formam o público da EJA, tendo em vista as descontinuidades nos estudos regulares, as dificuldades para concluir a educação básica, bem como a ausência e a negligência por parte do Poder Público. O abandono da escolarização é reincidente entre jovens e adultos que não completaram a educação básica no Brasil, não sendo algo particular da vida dos meus pais. Trata-se de uma característica dos alunos da EJA. Campos (2003), define a evasão escolar do público da EJA como um abandono, por tempo determinado ou não. Isso se dá devido a diversas razões, que podem ser de nível social e econômico. 3 SUPLETIVO In: Oxford dictionary: ensino que se destina a suprir a escolarização regular de adolescentes e adultos que não a concluíram na idade própria. ORIGEM (1881) lat.tar. suppletīvus,a,um 'que serve para completar', de supplētum, supn. de supplēre 'encher de novo, suprir. 11 A minha atuação ativa no Neja me proporcionou um contato direto com uma parte do público frequente da EJA, acentuando o meu interesse pela temática. Como estudante de Pedagogia, no decorrer do curso, me chamou atenção o lugar da EJA na matriz curricular do curso em vigência na UFV, que se dá, explicitamente através de uma disciplina optativa e uma obrigatória, no 6º e no 7º períodos do curso, respectivamente. Além disso, não há um estágio curricular obrigatório para a EJA, assim como ocorre na educação infantil, no ensino fundamental I, na coordenação pedagógica e na educação inclusiva, pontuados no Projeto Pedagógico do curso (PPC) de Pedagogia, de 2023 da seguinte forma: O Estágio Supervisionado é um componente obrigatório que proporciona aos futuros pedagogos o contato com o seu campo de atuação profissional futuro. No curso de Pedagogia da UFV o estágio supervisionado possui uma carga horária total de 480 horas distribuídas a partir do 5º período em quatro disciplinas, com 120 horas cada uma: EDU 451 Estágio Supervisionado em Educação Infantil; EDU 452 Estágio Supervisionado em Ensino Fundamental; EDU 449 Estágio Supervisionado em Educação Especial/Inclusiva e; EDU 453 Estágio Supervisionado em Coordenação Pedagógica. Os estágios preveem a realização desta prática em espaços escolares de Viçosa e região. (PPC curso de Pedagogia, UFV, 2023) De acordo com a Lei Federal nº 9.394/96, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), em seu Art. 37, a EJA é uma modalidade de educação básica nas etapas fundamental e médio, que se baseia não apenas no alfabetismo de jovens e adultos, mas também na oferta de oportunidades de escolarização no ambiente de educação regular, proporcionando-lhes uma educaçãoque possa desenvolver seu sistema crítico e inseri-los no contexto social atual (Brasil, 1996). Além disso, a educação é um direito do cidadão, assegurado na Constituição Federal de 1988, conforme seu Art. 208, parágrafo I: Art. 208. O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de: I - educação básica obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos de idade, assegurada inclusive sua oferta gratuita para todos os que a ela não tiveram acesso na idade própria; (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 59, de 2009) (Vide Emenda Constitucional nº 59, de 2009) (BRASIL, 1988) Portanto, a modalidade da EJA diz muito sobre a realidade do país. Precisamos compreender a sua relevância social para fortalecer a luta pela efetivação da política pública da EJA para além do caráter assistencial e filantrópico. 12 Os estudos feitos na área da educação, sobretudo aqueles nascidos dos movimentos de cultura popular e da educação popular, são de grande importância para a construção da política pública da EJA e da construção da cidadania em nossa sociedade. Por isso, espero contribuir, através desse relato, para somar a outros trabalhos que, de alguma forma, constroem essa modalidade em diferentes espaços e tempos. Diante desta realidade, com este trabalho, encontrei a oportunidade de escrever sobre a) a minha experiência como educadora na EJA; b) o desenvolvimento do ensino dentro do Neja; e c) como os princípios de Paulo Freire são postos em prática. Dessa forma, com base nos estudos da área, senti a necessidade de elucidar os desafios enfrentados por mim, como educadora, bem como minha visão sobre aqueles enfrentados pelos educandos da EJA com os quais trabalhei de março de 2022 até a presente data. Diante do exposto, o objetivo geral deste trabalho é: relatar criticamente as minhas principais experiências como alfabetizadora vivenciadas na educação de jovens e adultos no ensino de português e matemática no Neja, entre março de 2021 e dezembro de 2023. Como objetivos específicos, o trabalho pretendeu: ● contextualizar e compreender a EJA no Núcleo de Formação de Educadores de Jovens e Adultos da UFV; ● relatar criticamente a minha experiência na alfabetização de adultos no Núcleo desenvolvida a partir da proposta de Paulo Freire; ● compreender os principais desafios que se tornaram presentes nessa experiência de alfabetização de adultos. 2. Elementos Metodológicos Esse trabalho trata-se de um relato de experiência, de abordagem crítico-reflexiva, acerca da minha vivência como alfabetizadora. Para tanto, a metodologia escolhida para atender aos objetivos estabelecidos e fazer a análise deste relato foi a metodologia autobiográfica. A metodologia autobiográfica permite que seja: [...] concedida uma atenção muito particular e um grande respeito pelos processos das pessoas que se formam: nisso reside uma das suas principais qualidades, que o distinguem, aliás, da maior parte das metodologias de investigação em ciência sociais (Nóvoa; Finger, 2010, p. 23). 13 Portanto, para a elaboração do relato, foram utilizados trabalhos acadêmicos e textos desenvolvidos sobre o assunto. Além disso, realizei uma consulta aos arquivos do Neja, sendo utilizados os seguintes materiais: o regimento do Neja (Neja, 2023), uma dissertação de mestrado e TCCs. Entre esses últimos, analisei os seguintes trabalhos: O processo de formação de educadores de jovens e adultos: uma breve revisão de estudos, de Camila Ribeiro Machado (Machado, 2017); A formação do educador de jovens e adultos na Universidade Federal de Viçosa, de Deise do Carmo Silva (Silva, 2014); Ensino da Língua Portuguesa no Nead4/UFV: uma análise a partir do trabalho pedagógico dos educadores e da experiência dos educandos, de Daniela Saraiva Mafia (Mafia, 2014); O Núcleo de Educação de Adultos da UFV como espaço de formação de educadores: desafios e possibilidades, Letícia de Paula Mesquita (Mesquita, 2011); e a dissertação intitulada: A trajetória da Educação de Jovens e adultos na UFV, de Roseli de Castro Paula Pinto (Pinto, 2000), de modo a construir um escopo sobre o Neja, tendo em vista a sua história e o trabalho pedagógico desenvolvido no Núcleo. Ler sobre esta história é, também, me encontrar, uma vez que o Neja é construído por muitas mãos, entre as quais também me encontro. Os trabalhos mencionados compõem uma biblioteca de trabalhos impressos que está na sede do Neja, produzidos entre os anos 2000 e 2021. Ao todo, são cerca de 52 trabalhos de conclusão de graduação, que foram feitos sobre o Neja e uma dissertação de mestrado. O critério de escolha dos cinco trabalhos se deu por aproximação ao assunto do relato de experiência: ensino em EJA. Tomando como base os objetivos propostos e a metodologia utilizada, este estudo constitui um relato de experiência, cuja fundamentação teórica se desenvolveu, por meio de um estudo documental, com base em arquivos da secretaria do Neja, TCCs que já foram produzidos na UFV sobre essa temática, bem como bibliografia que são referências na área, sobretudo com base em Paulo Freire. Para atender aos objetivos pontuados, o trabalho está dividido a partir daqui, nos seguintes tópicos: contextualização da experiência, que trata de aspectos que considero fundamentais acerca da história da EJA no Brasil; o segundo tópico faz um compilado acerca das principais mudanças ocorridas no Neja desde sua criação, 4 A sigla antiga do Neja, Nead, foi utilizada aqui na nomenclatura deste trabalho e em citações diretas e indiretas durante o corpo do documento, pois, os trabalhos citados foram elaborados anteriormente à mudança da nomenclatura do Núcleo, feita em 2023. 14 até os dias de hoje; o terceiro acerca do método de alfabetização utilizado no Neja e, por fim, as vivências e desafios da experiência. 3. Contextualização do tema Para uma melhor compreensão do tema e alcance dos objetivos propostos neste trabalho foi feito uma contextualização da EJA no Neja e sobre as contribuições de Paulo Freire à alfabetização. 3.1 Contexto histórico da EJA no Brasil Para que possamos falar sobre a EJA, é necessário compreendermos seu processo histórico e saber que a educação consiste em uma ferramenta social, um processo de disputa e um instrumento transformador da sociedade (Dias; Pinto, 2019). No que diz respeito à escolarização ou a institucionalização da educação, a EJA se faz presente desde a época de colonização do Brasil, com os jesuítas que trabalhavam com alfabetização e catequese, o primeiro para os filhos da elite e a catequese para as crianças e adultos indígenas. Essa foi a primeira medida de cunho educacional voltada para jovens e adultos na história do país. (Friedrich; Benite; Benite; Pereira, 2010) Em sua trajetória histórica, o Brasil foi inicialmente uma colônia de extração. Portanto, não se visou um investimento na educação, na saúde, entre outros setores, como no país colonizador, Portugal. O cenário da falta de acesso a direitos se tornou ainda mais acentuado após a chegada da família real portuguesa (1808) e a expulsão dos jesuítas no século XVIII. Com isso, a educação, que já era elitista, acaba por ficar ainda menos abrangente, visto que passou a ser de responsabilidade do Império (Strelhow, 2010). Sobre esse aspecto, Haddad e Pierro, (2000) trazem que: a Constituição de 1891, sendo o primeiro marco legal da República brasileira, consagrou uma concepção de federalismo em que a responsabilidade pública pelo ensino básico foi descentralizada nas Províncias e Municípios. À União reservou-se a assumir uma presença maior no ensino secundário e superior. Mais uma vez garantiu-se a formação das elites em detrimento de uma educação para as amplas camadas sociais marginalizadas, quando novamente as decisões relativas à oferta de ensino elementar ficaram dependentes da fragilidade financeira das Províncias e dos interesses das oligarquias regionais que as controlavam politicamente (Haddad; Pierro. 2000, p.109). 15 Ao adentrar na compreensão sobre elementos da história do Brasil, acessamos elementos de uma realidade social profundamente desigual que, com efeito, se traduz na educação. Por isso, por mais que, aparentemente, o período do Brasil República possa estar distante de minha realidade, basta refletir e contextualizar os estudos de Paulo Freire, nascido 30 anos depois da Primeira República. Freire consolida as suas primeiras experiências como educador, em um Brasil onde ainda não havia a Constituição Cidadã (1988). Por isso, há de se considerar que a nova Constituição republicana estabeleceu também a exclusão dos adultos analfabetos da participação pelo voto, isto em um momento em que a maioria da população adulta era iletrada. Apesar do descompromisso da União em relação ao ensino elementar, o período da Primeira República se caracterizou pela grande quantidade de reformas educacionais que, de alguma maneira, procuraram um princípio de normatização e preocuparam-se com o estado precário do ensino básico. Porém, tais preocupações pouco efeito prático produziram, uma vez que não havia dotação orçamentária que pudesse garantir que as propostas legais resultassem numa ação eficaz (Haddad; Pierro, 2000, p. 110). Em contrapartida, surgiram muitas críticas aos adultos analfabetos, visto que, apesar da legislação ter tornado o ensino primário um direito constitucional, haviam ainda muitos adultos não alfabetizados, uma vez que “o Censo de 1920, realizado 30 anos após o estabelecimento da República no país, indicou que 72% da população acima de cinco anos permanecia analfabeta” (Haddad; Pierro, 2000, p. 110). Somente no século XX, na década de 1930, é que há um destaque da educação de jovens e adultos no país. Em 1934, o governo cria o Plano Nacional de Educação, que estabeleceu como dever do Estado o ensino primário integral, gratuito, de frequência obrigatória e extensiva para adultos como direito constitucional (Friedrich et.al, 2010). No ano de 1967, o governo militar criou o Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL), Lei n° 5.379, com o intuito de alfabetizar funcionalmente e promover uma educação continuada (Strelhow, 2010), ou seja, alfabetizar para que os adultos soubessem pelo menos assinar o nome. Conforme Soares (2004), o alfabetizado não letrado é aquela pessoa que sabe escrever, mas não sabe interpretar. 16 Pensar a realidade dentro do movimento mobralense é diferente de pensar a realidade dentro das concepções de Paulo Freire, pois enquanto o Mobral foca na transmissão de habilidades práticas para integração no mercado de trabalho, com uma possível tendência à conformidade, às concepções de Paulo Freire, visam empoderar os educandos para compreenderem criticamente sua realidade e participarem ativamente na transformação social. Ambas as abordagens refletem diferentes visões sobre o papel da educação na sociedade e como ela pode influenciar a conscientização e a ação dos indivíduos (Jannuzzi, 1983). Na década de 1970, destaca-se no país o ensino supletivo, criado em 1971 pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº. 5.692/71 (BRASIL, 1971). No contexto dessa época, a criação do supletivo possibilitou que pessoas como minhas tias, irmãs de meu pai, completassem a educação básica, conseguindo a formação em magistério posteriormente. Nos anos de 1980, foi possível implantar a Fundação Nacional para Educação de Jovens e Adultos (Fundação Educar), vinculada ao Ministério da Educação, que ofertava apoio técnico e financeiro às iniciativas de alfabetização existentes (Vieira, 2004). Em diálogo com esse ponto, posso relatar que meu avô paterno, nascido em 1932, hoje com 91 anos de idade, foi estudante do Mobral. Ele tinha vontade de aprender a escrever o nome para poder votar, uma vez que na época era necessário saber assinar para preencher a ficha de votação. Isso pode ser explicado pela Lei Saraiva: O projeto Saraiva é apresentado em sessão extraordinária realizada em 29 de abril de 1880. O chefe do governo diz que em seu projeto não há a exigência de saber ler e escrever, apenas se exige o necessário para dar regularidade à eleição, como a assinatura. Contando com o apoio do Gabinete Saraiva um projeto substitutivo é apresentado por uma comissão especial. Nesse projeto substitutivo os analfabetos seguem excluídos de fato do direito de voto, já que a pessoa habilitada a votar deverá escrever de próprio punho o nome do(s) candidato(s) escolhido(s) e assinar a ata da eleição (Leão, 2012, p. 609). Esta prerrogativa da Lei Saraiva permaneceu vigente até a Constituição de 1988, que passou a vigorar mais de um século depois, durante o período republicano. A Constituição Cidadã trouxe mudanças significativas para o sistema político e eleitoral brasileiro, abordando questões de participação, direitos e garantias individuais. Com base nos estudos de Oliveira e Oliveira (2011), podemos citar algumas das mudanças e princípios trazidos pela Constituição Cidadã como: a 17 universalidade do voto. A Constituição de 1988 reafirma o princípio da universalidade do voto, garantindo o direito de voto a todos os cidadãos maiores de 16 anos, incluindo analfabetos. A igualdade e não discriminação; a Constituição enfatiza a igualdade entre os cidadãos, proibindo qualquer forma de discriminação, o que inclui restrições ao direito de voto com base em critérios como a educação. A educação e a cidadania; a Constituição reconhece a educação como um direito fundamental e um dever do Estado e também destaca a importância da educação para o pleno exercício da cidadania. No seu Art. 6º, a Constituição Cidadã reforça princípios de igualdade, participação política e direitos individuais, ao estabelecer que são direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 90, de 2015), (Brasil, 1988). Em contrapartida, somente em 1996, a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) nº. 9.394/96, reafirma o direito dos jovens e adultos trabalhadores ao ensino básico e o dever público de oferta gratuita, estabelecendo responsabilidades aos entes federados através da identificação e mobilização da demanda, com garantia ao acesso e permanência (BRASIL, 1996). Em 2003, o Governo Federal, criou a Secretaria Extraordinária de Erradicação do Analfabetismo, lançando então o Programa Brasil Alfabetizado, nele incluídos o Projeto Escola de Fábrica (voltado para cursos de formação profissional), o PROJOVEM (com enfoque central na qualificação para o trabalho unindo a implementação de ações comunitárias) e o Programa de Integração da Educação Profissional ao Ensino Médio para Jovens e Adultos (PROEJA) (Vieira, 2004). Em 2007 o Ministério da Educação (MEC) aprovou a criação do Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica (FUNDEB), passando a fazer parte dos recursos financeiros destinados à educação básica obrigatória, de 4 a 17 anos e EJA (BRASIL, 2007). Com base nos estudos de Porcaro, (2011) e Friedrich, et.al, (2010), em linhas gerais, a sociedade tem os jovens e os adultos analfabetos como sinônimos de problema e motivo de preocupação. Diante de tudo isso, é possível afirmar que a EJA no Brasil tem enfrentado diversos desafios. A descontinuidade e a fragilidade das políticas públicas são 18 aspectos que impactam diretamente a sua efetividade. No que se refere à descontinuidade, a EJA, muitas vezes, é marcada por iniciativas pontuais e descontínuas ao longo dos anos. A falta de continuidade nos programas e políticas dificulta a construção de um ambiente educacional estável e eficaz (Porcaro, 2011). Além disso, a falta de investimento na EJA tem contribuído para a escassez de recursos, como materiais didáticos, infraestrutura escolar e formação de professores. Tudo isso impacta diretamente na qualidadedo ensino oferecido. Outro desafio diz respeito à demanda por educação de jovens e adultos que é significativa, mas muitas vezes as políticas existentes não são suficientes para atender a todos os que necessitam. Isso pode resultar em uma lacuna entre a oferta e a demanda por educação (Porcaro, 2011). Desse modo, apesar de a Constituição Federal de 1988 estabelecer que a educação é um direito de todos, a efetiva implementação desse direito na prática pode ser comprometida pela falta de políticas consistentes e abrangentes para a EJA (Friedrich; Benite; Benite; Pereira, 2010). Soma-se aos desafios já mencionados o fato de que a EJA lida com uma população diversificada em termos de idade, experiência de vida e conhecimentos prévios. Isso requer abordagens pedagógicas específicas para atender às necessidades desses alunos e a falta de estratégias adequadas pode afetar o aprendizado (Porcaro, 2011). E, por fim, muitos alunos da EJA enfrentam desafios socioeconômicos, como a necessidade de conciliar trabalho e estudo. Isso pode tornar difícil para eles frequentar regularmente as aulas, o que contribui para altas taxas de evasão (Porcaro, 2011). Para enfrentar os desafios aqui apresentados torna-se crucial a implementação de políticas educacionais consistentes e sustentáveis, bem como a promoção de acesso igualitário à educação de qualidade para jovens e adultos. Investir em formação de professores, atualização de currículos e criação de estratégias pedagógicas adequadas à diversidade dessa população também são passos essenciais para melhorar a EJA no Brasil (Friedrich, et.al, 2010). O adulto analfabeto se vê frente à sociedade letrada e necessita de, no mínimo, saber enfrentar a tecnologia da comunicação para que, como cidadão, saiba lutar e usufruir de seus direitos, pois ao contrário, torna-se mais uma vítima de um sistema excludente e pensado para poucos (Friedrich, et.al, 2010). Até o momento, o que se viu foi a criação de programas, a curto prazo, que não garantiram que os alunos pudessem dar continuidade aos estudos. Há muito o que se fazer acerca da 19 realidade da EJA, tendo em conta que, a modalidade de ensino ainda encontra-se marginalizada nas políticas educacionais do país e, dado o histórico da EJA no Brasil, não tem se mostrado como uma prioridade em relação à sua implementação e continuidade. 3.2 O Núcleo de Formação de Educadores de Jovens e Adultos da UFV Diante do cenário nacional de analfabetismo e da falta de direitos, na UFV, ao final da década de 1980, foi criada a Associação de Servidores Administrativos (ASAV), que de início já apresentou inúmeras reivindicações, dentre elas: um espaço destinado à alfabetização dos funcionários que ainda permaneciam sem saber ler e escrever. Estes caracterizavam cerca de quase 30% do quadro de funcionários, quase 1000 servidores. Esta reivindicação foi analisada e atendida pela Reitoria da Universidade no ano de 1987 e, em parceria com a ASAV, deu-se início a um Projeto de Alfabetização de Adultos (Pinto, 2000). No ano de 1993, a coordenadora do Projeto e professora da UFV, Rosemarie Costa, recebeu recursos de pesquisa que lhe permitiram montar uma sede. Durante esse período, a UFV estava passando por um processo de desocupação e retomada das casas da Vila Gianetti5, casas que foram cedidas até então para a moradia de professores que atuavam na Universidade. Deste modo, foi solicitada à Reitoria da UFV uma autorização de uso de uma das casas para o desenvolvimento do Projeto de Alfabetização, sendo esta atendida. Desde então, o Projeto passou a funcionar na casa 33, da Vila Giannetti, onde permanece até o presente momento. Nesse contexto, o Projeto de Educação de Adultos ampliou o seu atendimento, passando a oferecer, também, cursos de preparação para exames de suficiência do primeiro segmento do ensino fundamental (Mesquita, 2011). 5A partir de 1948, com a transformação da Escola Superior de Agricultura e Veterinária de Minas Gerais – ESAV em Universidade Rural do Estado de Minas Gerais – UREMG, houve a necessidade de se construir residências para os professores, inclusive os dos convênios internacionais iniciados em meados da década de 1950. As casas foram construídas com recursos do Estado de Minas Gerais e entidades parceiras, como a Fundação Ford. O conjunto foi denominado Vila Giannetti em homenagem a Américo René Giannetti. (Vila Gianetti. UFV vida e memória. S d. Acesso em: Nov. 2023. Disponível em: ) 20 Em meados de 1995, sob coordenação da professora Maria das Graças Floresta, a partir da demanda dos alunos, o Projeto passou a oferecer, algumas turmas do segundo segmento do Ensino Fundamental. Posteriormente, foram abertas turmas de preparação para os exames supletivos do Ensino Médio. Em decorrência de seu crescimento, o Projeto alterou seu nome para Núcleo de Educação de Adultos - Nead (Mesquita, 2011). Atualmente, tornou-se o Núcleo de Formação de Professores para a Educação de Jovens e Adultos e atende não apenas aos servidores da UFV, mas também, a comunidade viçosense que não teve acesso à escolaridade na infância e na adolescência; além de constituir um espaço de formação docente para os graduandos dos diversos cursos de licenciatura da UFV. O Núcleo funciona em sede própria, e conta com uma equipe de Apoio Administrativo, composta por um Secretário, responsável pelo patrimônio, pela organização de toda a documentação e pelo apoio operacional às atividades desenvolvidas pelos estagiários; e por uma Técnica em Assuntos Educacionais, que se responsabiliza pelo apoio pedagógico à coordenação e aos estagiários, no desenvolvimento de suas atividades, bem como por docentes que são responsáveis pelo acompanhamento dos educandos no processo de aprendizagem (Porcaro, 2011). Durante muitos anos o Núcleo atendia a um público de 100 a 120 alunos ao ano, abrangendo a Alfabetização, o Ensino Fundamental, o Ensino Médio e a Inclusão Digital, e contando com a participação de graduandos de diversos cursos de licenciatura da UFV, como: Pedagogia, Letras, Matemática, História, Geografia, Biologia, Química, Física, Dança, Educação Física e bacharéis de Informática que, sob orientação da coordenação do Núcleo, assumiam a regência de aulas. Atualmente, ele atende de 30 a 40 alunos por ano. Essa queda ocorreu após a pandemia de 2020, Covid-19, na qual o Núcleo precisou suspender as atividades e, quando retornou, muitos alunos não regressaram por diversos motivos. Dentre eles, cabe citar: o agravamento de doenças, desistência por desmotivação depois de interromperem os estudos no período da pandemia, falecimento, entre outras. Recentemente, em 2023, o Núcleo de Educação de Adultos, Nead, foi renomeado para Núcleo de Formação de Educadores de Jovens e Adultos, Neja, para acompanhar as mudanças ocorridas no núcleo nos últimos anos, visto que, antes o Núcleo foi criado com o objetivo de atender a uma demanda de alfabetizar 21 servidores da UFV e após atingir em quase totalidade esse objetivo, o Núcleo ampliou seu atendimento para a população do município de Viçosa e se tornou um espaço de formação docente para os estudantes de licenciatura tenham oportunidade de desenvolver saberes sobre a EJA. Portanto, o Neja completou em 2023, trinta e seis anos de existência, tendo como objetivos principais a formação docente para educação de jovens, adultos e idosos e formação complementar dos graduandos, principalmente das licenciaturas, na modalidade de EJA. Com isso, os objetivos do Neja e a metodologia utilizada para alcançá-los, podem ser definidos da seguinte forma: O principal objetivo do Nead, atualmente, não está mais focado em apenas alfabetizar e escolarizar o educando adulto, mas também em proporcionar aos estagiários momentos de estudo e reflexões sobre a Educação de Jovense Adultos, constituindo-se, portanto, em espaço de formação de educadores para a modalidade de EJA. Nesse contexto, os princípios teóricos que fundamentam a Proposta Pedagógica do Núcleo estão pautados na filosofia do educador Paulo Freire, priorizando-se, pois, o diálogo entre o educador e o educando, a liberdade de expressão e a socialização dos indivíduos envolvidos na ação, bem como a adequação dos conteúdos escolares às características das classes populares. (Porcaro, 2020, p. 47) Iniciei minhas atividades no Núcleo no final de 2020, quando me inscrevi a um edital de monitoria e participei da entrevista de seleção. Como nesse período ainda nos encontrávamos em pandemia, o Núcleo não havia voltado com suas atividades presenciais Diante disso, no início de 2021 foi elaborada uma formação de forma remota para os monitores, e durante três meses, de março a junho de 2022 estive participando ativamente da formação e do desenvolvimento de material didático para o Núcleo. Da data em que ingressei até o momento de atuar ativamente em sala de aula, tive a oportunidade de participar de pelo menos quatro formações, sendo duas remotas e duas presenciais. Devido a, inicialmente, terem ingressado seis monitores e, no decorrer da formação, muitos desistiram por motivos pessoais. As vagas foram preenchidas por três vezes e a cada vez ocorria uma nova formação para apresentar o Núcleo e o método de alfabetização utilizado - O Método Paulo Freire (Brandão, 1981) - ao(s) novo(s) integrante(s) da equipe. 3.3 As contribuições de Paulo Freire A primeira vez que ouvi falar sobre a proposta de Paulo Freire foi já na graduação, em 2019/2, na disciplina EDU 463 - Alfabetização e Letramento, 22 ministrada pela professora doutora Leci. No início do curso, eu pensava que apenas era utilizado o método de alfabetização a que eu havia sido submetida na minha infância. Cabe salientar que eu fui alfabetizada em casa pelos meus pais. Lembro que meu pai costumava dizer que as professoras que mais passavam atividades, que eram mais autoritárias, aplicavam castigo e violência física, eram as melhores professoras e que eu deveria ser uma boa aluna, para não precisar passar por essas punições. Apesar de meu pai e minha mãe não conseguirem concluir a educação básica, eles sabiam da sua importância e sempre incentivaram meus irmãos e eu a estudar. Neste ponto, peço licença para discorrer sobre alguns aspectos que, em certo sentido, extrapolam a perspectiva freireana de alfabetização, ponto este que será retomado, ao longo deste tópico. No ano de 2008, aos 7 anos, eu ingressei no 1º Ano do Ensino Fundamental, em uma escola pública que ficava na zona rural de Canaã-MG. Nesta instituição, devido ao contexto em que estava inserida, havia uma cultura que disseminava a ideia de que os estudantes que ali completaram a primeira etapa do ensino fundamental tinham dificuldades em prosseguir os estudos em outras escolas, pois o ensino se caracterizava pela precariedade de acesso aos conhecimentos básicos pertinentes aos primeiros anos escolares. Por esta razão, minha mãe, mesmo sem conhecimentos específicos na área, me alfabetizou em Português, utilizando o método fonético, com o uso de cartilhas, feitas por ela, e caderno de caligrafia para treinar a letra cursiva. Isso ocorreu durante o ano de 2007. Nessa época, eu estava no primeiro ano do ensino fundamental I, com 7 anos de idade. No final do ano, eu já estava lendo e escrevendo pequenos textos com letra de imprensa e cursiva, sabendo fazer diferenciação e uso de maiúsculas, minúsculas e pontuações. Da mesma forma que minha mãe, mesmo sem aprofundamento de estudos da área, meu pai me alfabetizou na matemática. Ele me ensinou a fazer operações de adição e subtração simples com números de 0 até 100 e multiplicação. Essa última ele me ensinou utilizando a representação dos fatores multiplicativos, a tabuada. Se fizer um comparativo, entendo que tive menos facilidade de aprender a matemática escolar do que o português, isso pode ser explicado segundo Nacarato e Passos (2018) porque, o ensino de matemática está mais atrelado à escola. Apesar de a matemática estar no mundo, os conteúdos matemáticos exigidos na escola, são objetos de ensino e aprendizagem muito mais vinculado à escola. 23 Leitura e escrita, ao que parece, há caminhos alternativos fora da escola. Além da imagem social da matemática que pouco contribui com a alfabetização matemática fora do ambiente escolar. Com isso, a matemática, eu acreditava que precisava decorar e o português, eu precisava entender para conseguir ler. Com certa dificuldade e muita paciência por parte do meu pai, eu consegui entender o que ele queria me ensinar e aplicar nas atividades escolares. Hoje, com a formação que estou obtendo no curso de Pedagogia, consigo compreender o esforço dos meus pais quanto à minha educação e a de meus irmãos e os admiro imensamente por terem conseguido romper o ciclo da educação punitiva e violenta, a qual eles foram submetidos durante a infância. Refletindo sobre como aprendi o português com minha mãe, percebo que houve, também, um investimento por parte dela, que me auxiliou a aprender a escrita para além da repetição mecânica das palavras, pois eu conseguia aplicar o conhecimento em meu contexto. Durante as suas lições, recordo de me sentir em um clima de acolhimento, que me permitiu não ter medo de errar ao realizar as atividades de língua portuguesa. Com minha mãe aprendi o hábito de estudar e isso me ajudou muito nos anos futuros, de tal modo que concluí os ensinos fundamental e médio sem dificuldade de aprender e me dedicar aos estudos. Chama-me a atenção que, entre meus irmãos e eu, fui a única com quem meus pais conseguiram tal feito. Meus irmãos, diferente de mim, não tinham tanta disposição em aprender e, meus pais, que não tinham uma postura mais autoritária, respeitavam o tempo de cada um. Lembro, inclusive, que quando minha mãe percebia que eu não estava focada nas atividades, ela sugeria que eu fosse fazer as minhas coisas, de forma muito respeitosa, e que eu voltasse quando quisesse e estivesse disposta a estar ali. Meus pais não eram especialistas em educação, mas enquanto frequentavam a escola e durante a vida, eles desenvolveram uma leitura de mundo crucial para o processo da minha educação. Em consonância a isso, Freire (2015) diz que: havia dicotomia, mas relação entre o ensinar e o aprender, a teoria e a prática, o senso comum e a ciência e a filosofia; também, para ele não poderia haver a leitura da palavra, ou do texto, desvinculada da leitura do mundo ou do contexto. Entre texto e contexto há uma conexão intrínseca, mediatizada pelo diálogo entre os seres humanos, que não permite que possa existir o diálogo fora daquela relação, isto é, fora da relação texto/contexto (Freire, 2015, p. 296). 24 Nesse sentido, em concordância com o método ao qual fui alfabetizada, e como estudante de Pedagogia, durante a minha vivência em estágios em sala de aula, em escolas públicas, nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, pude reparar que o método geralmente utilizado nas escolas que frequentei era o método alfabético (Soares, 1990). Tal método tem como abordagem o ensino da leitura e escrita, caracterizado através dos seguintes pontos: o foco nas letras e sons individuais, o método alfabético concentra-se inicialmente nas letras individuais do alfabeto e em seus sons correspondentes. Os educandos aprendem a associar cada letra a um som específico. Os alunos também praticam a identificação e manipulação de sons, na qual pode incluir atividades como identificar os sons iniciais e finais das palavras, segmentar palavras em seus sons componentes, e assim por diante. As sílabas como resultado da combinação de sons: o método fonético aborda as sílabas como sendo compostas por sons individuais. Os alunos aprendem a combinar sons para formar sílabas e palavras (Soares, 1990). Além disso, o método alfabético segue uma progressãogradual que começa com a introdução de letras e seus sons mais simples e avança para sons mais complexos. Por exemplo, pode-se começar com consoantes e vogais isoladas antes de introduzir combinações de letras que produzem diferentes sons. Ele também utiliza materiais como cartilhas ou livros didáticos, que são frequentemente utilizados para guiar os alunos através do processo de aprendizado. Esses materiais geralmente apresentam palavras e frases que enfatizam os sons e as letras que estão sendo ensinados, exercícios de decodificação, nos quais os alunos praticam a decodificação de palavras, ou seja, associam os sons das letras às palavras escritas. Isso é feito por meio de exercícios que envolvem a leitura de palavras isoladas, frases e textos (Soares, 1990). É importante salientar que diferentes abordagens pedagógicas podem ser combinadas e os educadores muitas vezes podem adaptar suas práticas de ensino com base nas necessidades individuais dos alunos. O método silábico é uma abordagem tradicional, mas existem outras abordagens, como a alfabética, a global e a construtivista, que também são utilizadas em diferentes contextos educacionais (Soares, 1990). Paulo Freire propunha uma perspectiva mais abrangente que transcende a aquisição de habilidades de leitura e escrita. Paulo Freire desenvolveu o que ele 25 chamou de "educação problematizadora" ou "pedagogia do oprimido". Seu trabalho mais conhecido, especialmente em relação à alfabetização, é apresentado na obra "Pedagogia do Oprimido" (Freire, 1974). A abordagem de Paulo Freire não se limita à instrução formal e ao simples ato de ensinar a ler e escrever. Ela busca, acima de tudo, uma conscientização crítica dos educandos em relação à sua realidade social, cultural e política. Paulo Freire acreditava que a alfabetização deveria ser um processo libertador, capacitando as pessoas não apenas a decodificar palavras, mas também a entender e questionar as estruturas de poder que moldam suas vidas (Freire, 1974). A "conscientização" consiste em um conceito central em sua pedagogia, enfatizando a importância de os educandos desenvolverem uma compreensão crítica do mundo ao seu redor, identificando as relações de poder e participando ativamente na transformação social. Assim, torna-se mais apropriado referir-se à abordagem de Paulo Freire como uma pedagogia crítica e libertadora do que apenas como um "método de alfabetização" (Freire, 1974). Diferente do método alfabético, o método silábico, junto das contribuições de Paulo Freire para a alfabetização, parte de outro princípio. O método de alfabetização silábico também é uma abordagem no ensino da leitura e da escrita, concentrando-se no ensino das sílabas como unidades fundamentais. Esse método parte do princípio de que os educandos aprendem a ler e escrever melhor quando conseguem associar os sons da fala com as sílabas correspondentes (Brandão, 1981). Aqui estão algumas características e passos comuns associados ao método de alfabetização silábico: a consciência fonêmica; antes de começar a trabalhar com sílabas, os alunos geralmente são expostos a atividades que desenvolvem a consciência fonêmica. Isso inclui atividades que os ajudam a identificar e manipular os sons da fala, como rimas, aliterações e jogos com sons iniciais e finais das palavras. Sílabas como unidades básicas: no método silábico, as sílabas são ensinadas como as unidades básicas de leitura e escrita. Os alunos aprendem a reconhecer, segmentar e combinar sílabas para formar palavras (Brandão, 1981). O ensino das sílabas, geralmente, segue uma progressão gradual, começando com sílabas simples e avançando para sílabas mais complexas. Por exemplo, pode-se começar com sílabas formadas por uma vogal (a, e, i, o, u) e depois introduzir 26 sílabas com uma consoante seguida de uma vogal (ma, me, mi, mo, mu) (Brandão, 1981). O método silábico geralmente envolve a prática simultânea de leitura e escrita. Os alunos aprendem a ler palavras ao mesmo tempo em que praticam escrevê-las. Os alunos também praticam a decodificação de palavras, ou seja, associam os sons das letras às sílabas para formar palavras. Isso é feito por meio de exercícios que envolvem a leitura de palavras isoladas, frases e textos (Brandão, 1981). Esse método frequentemente utiliza materiais didáticos específicos, como fichas, que são pensadas para guiar os alunos através do processo de aprendizagem, apresentando sistematicamente as sílabas e suas combinações. Além da leitura e da escrita, os alunos geralmente participam de atividades práticas, como jogos e exercícios, para fortalecer a associação entre letras, sílabas e sons (Brandão, 1981). Diante disso, diferente do método tradicional, o método de Paulo Freire busca trabalhar com a realidade do educando, trazendo palavras com significância que fazem parte do cotidiano de quem está aprendendo. Com base no diálogo e na comunicação, pode-se dizer que o próprio método de alfabetização que Paulo Freire pensou funciona de tal sorte que realiza, dentro do círculo de cultura, a prática do diálogo que o sonho do educador imagina um dia poder existir no círculo do mundo, entre todos os homens, aí sim, plenamente educadores-educandos de todas as coisas. Daí surge a ideia de conscientização, tão nuclear em Paulo Freire (Brandão,1981, p. 62). Conforme Brandão (1981), o método de Paulo Freire se divide nos seguintes pontos: Círculo de Cultura (levantamento do universo vocabular) e seleção do tema gerador. Com base no diálogo, é por meio do círculo de cultura que se obtêm informações acerca da realidade e do pensar dos educandos. É aconselhável a utilização de uma ficha de cultura, podendo esta ser um objeto ou imagem com elementos da realidade da turma. Com base nesse material, são feitas perguntas com o intuito de estimular a fala e a interação na turma (Brandão, 1981). Outro aspecto da proposta de Paulo Freire consiste na escolha da palavra geradora. Através do círculo de cultura é possível chegar em diversas palavras geradoras, que podem ser registradas no momento da conversa ou posteriormente. Essas possíveis palavras fomentarão a produção dos próximos materiais e atividades. Após o círculo de cultura (em que a imagem já estava presente), o professor deve apresentar a 27 ficha de cultura com a nova palavra gerada (com imagem associada à palavra) (Brandão, 1981). Há alguns critérios que devem ser considerados na hora da escolha da palavra geradora, que são os seguintes: relevância, riqueza fonética (três sílabas ou mais) e grau de dificuldade da palavra, simples, média ou complexa6 (Brandão, 1981). Após feito o círculo de cultura e a escolha da palavra geradora, é necessário confeccionar as fichas de roteiro. Elas são compostas por uma ficha da figura da palavra com a palavra escrita inteira, a palavra separada em sílabas; as famílias fonéticas. Neste ponto, com a apresentação da palavra e das fichas de roteiro, deve-se estimular a leitura da palavra e das famílias silábicas. Após, devem ser passadas atividades de fixação das famílias silábicas (Brandão, 1981). Em seguida, são utilizadas as fichas de descoberta, a qual consiste em uma ficha composta pela palavra geradora e as famílias silábicas dessa palavra. Deve-se estimular a formação de novas palavras com as sílabas da ficha para que os educandos possam juntar as sílabas formando novas palavras. O alfabetizador deve deixar que eles formem novas palavras a partir do quadro, até que se esgotem as possibilidades ou eles não encontrem mais nenhuma. Orienta-se para que eles apontem palavras que possam não ter encontrado e anotem todas no quadro. É fundamental que o professor faça o registro com todas as possibilidades de palavras geradas. Após a formação de palavras, deve-se aplicar atividades com todas as palavras encontradas no quadro (ditados, nomear figuras, frases, leituras, etc) (Brandão, 1981). Na seção seguinte, abordo como este conhecimento foi por mim assimiladoe utilizado, como alfabetizadora de adultos. 4. Minha vivência docente 4.1 Onde tudo começou: formações pedagógicas no Neja Inicialmente, na condição de estágio não curricular no Neja, antes do primeiro contato com a turma de alfabetização de jovens e adultos e o conteúdo a ser 6 Observa-se o grau de dificuldade da palavra em relação às famílias das sílabas que a compõe, as famílias são compostas pela consoante e as vogais, no caso da família do BA ela é da seguinte forma: BA, BE, BI, BO, BU, com isso, nós temos as divisões das famílias da seguinte maneira: simples (BA, DA, FA, LA, MA, NA, PA, TA, VA e JA), médias (GA, CA, SA, SSA, ZA, ÇA, RA e RRA) e complexas (AR, CHA, XA, LHA, NHA, QUA, GUA, BRA, BLA, AZ, AN, AM, ÃO, AX e AL). Essa divisão é definida e adotada pelo Neja, ela pode ser diferente em outras instituições. 28 trabalhado, são planejadas e oferecidos momentos de formação com os estagiários. Esses momentos são voltados para uma contextualização do ambiente, dos educandos e da modalidade da EJA. Essa ação torna-se necessária pois, muitas vezes, para alguns estagiários, esse será o primeiro contato que terão durante a graduação com a modalidade. Isso porque o Núcleo, além dos estudantes de Pedagogia, que tem uma disciplina obrigatória e uma disciplina optativa de EJA7, recebe estudantes de outras graduações, como, ciências sociais, educação infantil, letras, entre outros, que não possuem essa especificidade na formação. A primeira formação de que participei, em 2021/1, em virtude da pandemia da Covid-19, foi em formato remoto e síncrono. Foi a formação mais longa e mais completa dentre todas, ministrada pelas Professoras Silvana Claudia dos Santos e Rosa Cristina Porcaro, sobre alfabetização de adultos e ensino de matemática na EJA. Tivemos momentos distintos, nos quais pudemos elaborar materiais permanentes para o Neja, como fichas para serem utilizadas na alfabetização e materiais para as aulas de matemática, como quadros de valor lugar (QVL), réguas de sequência numérica, formulário de diagnóstico matemático, entre outros. Também foi proporcionado, pela formação, momentos em que nos debruçamos com um olhar atento sobre os estudos de Paulo Freire, sobre a história da EJA, sobre o público da EJA e sobre metodologias e formas de ensinar a matemática de modo mais significativo. Recordo-me que na primeira formação que participei, estava ansiosa para conhecer o trabalho do Núcleo, e à medida que nos foram sendo apresentadas as informações, me senti maravilhada com o tamanho marco que representava a criação do Núcleo e as ações feitas a partir dele para a comunidade viçosense. Esses momentos me proporcionaram a resolução de dúvidas e a desconstrução de preconceitos com o ensino de matemática e da minha capacidade de ensinar. Apesar do repertório proporcionado pela graduação, antes de ingressar no Núcleo, eu não me imaginava capaz de alfabetizar um estudante da EJA. Durante as formações, essa barreira que eu mesma havia me imposto, foi sendo deixada de lado. Com isso, a formação consiste em um momento de apresentação do Núcleo e de todos os sujeitos que o constituem (estagiários, docentes, técnicos). Os 7No ano em que ingressei no Núcleo era pré-requisito termos cursado pelo menos uma disciplina de EJA durante a graduação, no decorrer do ano, com a saída de alguns estagiários, pela necessidade de estagiários e por algumas graduações a quais o edital atendia, não terem obrigatoriedade e especificidade nas disciplinas de EJA, isso deixou de ser um pré-requisito e foi compensado com formações mais completas acerca da EJA para todos os estagiários que ingressassem. 29 estagiários conhecem o espaço do Neja, a sua história, os funcionários, os materiais disponíveis e a realidade dos educandos, estes geralmente são pessoas do município ou servidores da UFV. Acerca dos estudantes do Neja, entendemos que eles possuem diferentes motivações para estudar. Geralmente, os servidores da UFV estão buscando uma forma de complementar o salário. Já as pessoas do município buscam uma oportunidade para aprender a ler e escrever, para participar melhor das atividades da comunidade e algumas buscam preparação para fazer a prova de conclusão e certificação do ensino fundamental I ou II. Os estagiários precisam atender a todas essas demandas. Nós somos preparados para pensar e planejar as atividades e como as trabalharemos em sala, de acordo com as especificidades e interesses de cada estudante. 4.2 Primeiro planejamento A EJA exige um planejamento com características específicas para o seu público, levando isso em consideração, o Neja dispõe de um modelo de planejamento semanal, escolhido para atender às principais necessidades do ambiente. Ele precisa estar bem descrito e completo de modo que, se necessário, outro estagiário possa aplicá-lo. Trago a seguir trechos do meu planejamento, feito para a minha primeira semana de aula, que foi apresentado para a equipe pedagógica antes de ser aplicado em sala. Trago esse planejamento, dentre tantos outros que fiz, pois, é um modelo rico em vivência, a primeira semana de aula apresentou particularidades que exigiram uma grande adaptação, e os demais planejamentos foram elaborados pensando nessas mudanças. Com isso, trago abaixo uma explicação sobre as etapas do planejamento e ressalto que pela época em que foi escrito, possa haver alguns termos e nomenclaturas que já não são mais utilizados. Pontuo ao final de cada tópico do planejamento as observações feitas e as alterações que foram se mostrando necessárias no decorrer da semana à medida em que ele foi colocado em prática. Nesse aspecto, optamos por destacar as seguintes etapas do planejamento: ● Contextualização 30 O planejamento que somos orientadas, enquanto estagiárias, a elaborar no Neja referente à primeira semana de aulas, prevê, inicialmente, uma descrição geral do contexto da turma com a quantidade de alunos, faixa etária, principais dificuldades e potencialidades. Para as demais aulas, utiliza-se este tópico para relatar o que foi trabalhado na semana anterior, fazendo uma análise das faltas, dos pontos mais importantes da aula e do conteúdo trabalhado. Com isso, é possível verificar se o tempo foi suficiente para desenvolver as atividades planejadas e se estas foram adequadas para a turma. A partir daí, torna-se possível construir o planejamento da semana que se inicia. Imagem 1 - Contextualização Fonte: Autora, planejamento. 2021. Na Imagem 1- Contextualização, apresento um print da contextualização do planejamento no qual é possível identificar que inicialmente, a turma do 1° período foi composta por 4 estudantes previamente matriculados. Na sequência, embora a imagem tenha sido cortada para preservar as informações dos estudantes, eu, como educadora, para fins de planejamento, faço uma breve descrição sobre cada estudante, considerando: suas idades, experiências escolares e outros aspectos que foram identificados nas fichas de inscrição do Neja. Os estudantes tinham idades distintas e, provavelmente, apresentando níveis de aprendizagem diferentes, sendo que nenhum esteve presente na primeira semana, mas houve uma matrícula feita no início das aulas e apenas essa estudante esteve presente. ● Objetivos Outro aspecto explicitado no planejamento semanal, se refere aos objetivos. Esse espaço do planejamento é destinado para definir os pontos em que se quer chegar com os alunos, dentro do processo de ensino. Eles deverão ser sintéticos e 31 devem dar condições ao professor de avaliar se foram atingidos ao final da semana, como é possível observar na imagem 2 - Objetivos. Imagem 2 - Objetivos Fonte: Autora, planejamento. 2021. ● Conteúdo Neste tópico, pontua-se o que será trabalhado para alcançar os objetivos estabelecidos: família silábica, atividades com as famílias, atividades com palavras, atividades com frases, eixos de conhecimento matemático, (trago nos anexos 1 e 2 os documentos elaborados no Nejaacerca dos conteúdos de português e matemática), entre outros . Como podemos observar na imagem 3 - Conteúdos. Imagem 3 - Conteúdos Fonte: Autora, planejamento. 2021. ● Metodologia Nesse tópico, são apresentadas as atividades desenvolvidas no planejamento, consiste em descrever as atividades que serão trabalhadas para atender aos objetivos e conteúdos estabelecidos. Aqui devem estar todas as anotações e observações necessárias sobre as atividades a serem desenvolvidas. Essas atividades devem ser distribuídas em 5 aulas de 2 horas, sendo elas: segunda-feira – português; terça-feira – matemática; quarta-feira – português; 32 quinta-feira – matemática e sexta-feira – português. Na imagem 4 - Metodologia, apresento como foi abordado esse aspecto no planejamento. Imagem 4 - Metodologia Fonte: Autora, planejamento. 2021. Para a primeira aula do ano, é recomendado que se faça uma dinâmica de apresentação. Uma atividade que estimule a fala do educando e faça com que a sala se torne um ambiente acolhedor e tranquilo. Nesse sentido, a dinâmica é pensada para ser feita em grupo e eu havia estipulado o tempo de uma aula para realizá-la, além do levantamento do universo vocabular da turma. Como eu pontuei no tópico “Contextualização”, apenas uma estudante esteve presente e, por isso, nós duas conversamos e nos apresentamos, mas não fizemos a dinâmica. Por meio dessa apresentação, pude conhecer um pouco acerca da realidade da estudante e fazer o levantamento vocabular para trabalharmos os conteúdos de alfabetização conforme os princípios freireanos. Diferente do esperado inicialmente, em que a maioria dos educandos, senão todos, já tivessem tido um contato anterior com um ambiente escolar, essa estudante 33 nunca havia frequentado escola. Não conhecia o alfabeto nem as sílabas, e isso fez com que eu precisasse modificar todo o planejamento preparado para aquela semana. Essa educanda não era alfabetizada, mas detinha o saber cotidiano: O saber cotidiano não é necessariamente um saber utilitário, desenvolvido para atender a uma necessidade imediata da pessoa. Pelo contrário, pode também se configurar em uma espécie de conhecimento que requer um afastamento, uma transcendência com relação ao seu objeto. Uma cozinheira, por exemplo, pode executar uma simples receita mas pode, também, recriá-la, estabelecendo hipóteses a respeito de um novo ingrediente que poderia ser acrescentado para melhorar o sabor do prato em questão (Costa; Álvares; Barreto, s.a, p. 7). Esse saber cotidiano contribuiu para o desenvolvimento de uma relativa facilidade, por parte da educanda, para relacionar alguns conteúdos de matemática durante as aulas. A seguir, na imagem 5, apresento como foi planejada as atividades de matemática para a primeira aula. Imagem 5 - Diagnóstico de matemática Fonte: Autora, planejamento. 2021. 34 Imagem 6 - Diagnóstico de matemática Fonte: Autora, planejamento. 2021. Imagem 7 - Diagnóstico de matemática Fonte: Autora, planejamento. 2021. 35 Para o diagnóstico de matemática, havíamos preparado durante a formação um pequeno questionário com questões simples divididas por eixos de aprendizagem do conteúdo de matemática, que são 4: Números e operações; Espaço e Forma; Grandezas e Medidas; e Tratamento da Informação (Brasil, 2018). Este último, eu havia pensado em abordá-lo no planejamento da semana seguinte, visto que haviam muitas questões matemáticas para abordar na primeira semana. Por esse motivo, ele não consta no primeiro planejamento. Cheguei a fazer as perguntas gerais para a aluna presente e assim como no português, ela detinha apenas o saber cotidiano sobre a matemática. Isso fez com que eu precisasse modificar toda a metodologia pensada para o restante da semana. Na quarta-feira iniciamos a introdução do tema gerador COMUNICAÇÃO, escolhido durante a conversa que tivemos na aula de português da segunda-feira, por meio da palavra geradora TELEFONE. Dessa forma, foi possível apresentar 4 famílias silábicas diferentes: TA, LA, FA e NA. Na matemática foi necessário preparar atividades bem simples (agrupar, separar, contar e registrar) para apresentar os números e sentidos numéricos, visto que esse eixo de aprendizagem matemático é a base para trabalharmos os demais eixos. ● Avaliação Aqui, indica-se os instrumentos que deverão ser utilizados para avaliar se os objetivos trabalhados foram alcançados. Para isso, devemos avaliar o planejamento e as aulas dadas. No Núcleo, não utilizamos testes e provas como estratégias de avaliação. Geralmente, a avaliação é feita analisando as atividades e dinâmicas, se foram bem aceitas, e o grau de dificuldade da turma. Imagem 8 - Avaliação 36 Fonte: Autora, planejamento. 2021. 5. Desafios enfrentados Durante a trajetória como alfabetizadora me deparei com alguns desafios. Dentre eles, posso destacar a falta de material didático específico para a EJA e a heterogeneidade de idade e conhecimentos dentro de uma mesma sala de aula (Porcaro, 2011). Isso é uma preocupação significativa, pois essa modalidade de ensino possui características distintas em comparação com a educação regular. A heterogeneidade de conhecimentos ou de idade é uma característica da EJA, os educandos da EJA frequentemente apresentam diferentes níveis de conhecimento, desde aqueles que possuem pouca ou nenhum conhecimento até aqueles que já têm algum domínio da leitura e da escrita. Isso exige estratégias diferenciadas para atender a essa diversidade. Lidar com isso em sala de aula de modo a corresponder a todas as necessidades e objetivos da turma foi realmente desafiador para mim ao longo dessa experiência na EJA. Outro ponto é sobre as faltas (Porcaro, 2011). Os estudantes em geral faltam por diversos motivos. Dentre eles, podemos destacar questões relacionadas à família, em caso de mulheres que são mães e avós. Essas educandas da EJA comumente faltam às aulas para ficar com os netos quando os pais precisam de apoio, acompanhar algum filho em consultas, entre outros motivos. Também faltam por motivos de saúde, por consultas médicas, que se tornam frequentes a depender da idade do educando e repouso por procedimentos médicos. Um terceiro desafio presente é o abandono (Porcaro, 2011). Quando o educando começa a ter faltas frequentes isso se torna um forte indicador de abandono. Isso pode acontecer por diversos motivos, dentre eles, a autoestima baixa do estudante. Ele pode acreditar que possui muita dificuldade de aprendizagem ou que não faz parte do ambiente de ensino. Isso pode acontecer 37 também após um longo período de pausa, seja por férias ou por motivos de saúde, após um longo período sem aulas o estudante tende a não querer retornar às aulas. Quanto ao ensino de matemática, posso destacar que as educandas da EJA frequentemente possuem diferentes níveis de conhecimento prévio em matemática, pois muitos podem ter tido lacunas em sua educação formal anterior. A diversidade de conhecimentos prévios requer estratégias flexíveis de ensino para atender às necessidades individuais. Em meu caso, as estratégias flexíveis utilizadas foram: adoção de jogos como estratégia para estimular a aprendizagem; uso de material dourado e outros materiais concretos em sala; aplicação de atividades com situações-problemas do cotidiano dos estudantes, de modo a construir uma aprendizagem significativa. Além dos desafios pontuados acima, destaco mais um: a motivação, já que alguns educandos da EJA podem ter tido experiências negativas anteriores na escola. Tornar o ensino de matemática relevante para suas vidas cotidianas é crucial para estimular o interesse e a participação. A literatura aponta outros desafios que podem se fazer presentes, mas durante o período em que estive atuando no Neja esses foram os principais desafios que pude vivenciar. Durante o meu período de atuação, vivenciei e superei muitos desafios, e também compartilhei os desafios característicos dos educandos, que são os pontuados