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HISTÓRIA I-História e memória

Apostila de História I (1º ano), Unidade 1. Trata de história e memória como campo de disputa; fontes históricas (escritas, não escritas e orais) e interpretação; etimologia de história; percepções e ritmos do tempo (tempo natural vs. industrial, com exemplo de Febvre).

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HISTÓRIA I- PRIMEIRO ANO- UNIDADE 01
“Pensar é perigoso. Não pensar é mais perigoso ainda.” (Hannah Arendt)
História e memória 
O conjunto dos acontecimentos e das experiências que ocorrem no dia a dia, tanto de uma pessoa como de um grupo, pode ser chamado de história vivida. Essa história pode integrar as lembranças das pessoas e dos grupos que a viveram. Mas existem outras vivências que podem ser esquecidas. A memória constitui, então, um “campo de disputa histórico” entre lembranças e esquecimentos. Muitas vezes essas disputas são marcadas pelos interesses sociais que estão em jogo em uma época ou sociedade. Dessas disputas, resultam frequentemente a predominância dos marcos históricos ligados à memória dos grupos sociais dominantes. Lutar pela ampliação da memória social, abrangendo eventos relevantes para diversos grupos, é um exercício de cidadania e de consciência histórica.
Fontes históricas 
Os historiadores trabalham com diversas fontes em suas pesquisas. No entanto, essas fontes não são “documentos” ou “objetos” de onde a história possa surgir, nascer ou jorrar de forma única e cristalina. As fontes sugerem indícios, pistas, indicações sobre o tema pesquisado. Por isso, devem ser interpretadas pelo historiador. 
Durante muito tempo, os historiadores utilizaram principalmente as fontes escritas para fundamentar as pesquisas históricas. Atualmente, devido ao desenvolvimento de novas tecnologias (como televisão, rádio, cinema, DVD, computador), os historiadores estão cada vez mais consultando e interpretando uma grande variedade de fontes não escritas (imagens, sons) e outros elementos da cultura material.
As fontes históricas podem ser classificadas de várias maneiras: recentes ou antigas, privadas ou públicas, representativas da cultura material ou imaterial etc. Também já foi muito valorizado o critério de classificar as fontes em escritas e não escritas: • 
Fontes Escritas – cartas, letras de canções, livros, jornais, revistas, documentos públicos ou particulares etc.; •
 Fontes Não Escritas – registros da cultura material, como vestimentas, armas, utensílios, pinturas, esculturas, construções, músicas, filmes, fotografias, depoimentos orais etc.
Entre as fontes não escritas, destacam-se as fontes orais, como depoimentos e entrevistas. A coleta de depoimentos tem contribuído para conservar a memória (pessoal e coletiva) e ampliar a compreensão de um passado recente ou da história que está sendo construída no presente.
Com base em pesquisas, os historiadores procuram reconstituir as formas de viver em determinada sociedade. Podem, também, propor interpretações sobre como as ações humanas desencadearam mudanças ou preservaram situações ao longo do tempo. Em suas análises, os historiadores podem investigar a vida pública ou privada em seus múltiplos aspectos: econômicos, artísticos, políticos, tecnológicos, filosóficos etc. 
Estudar História é, portanto, uma maneira de adquirir consciência sobre a trajetória humana. No entanto, devemos ficar atentos aos limites ou problemas da interpretação histórica.
Neste sentido, podemos dizer que a História, como forma de conhecimento, é uma atividade contínua de pesquisa.
 Em sua etimologia, história deriva de historein que, em grego antigo, significa “procurar saber, informar-se”. História significa, pois, “procurar”
O QUE VOCÊ PERCEBE PELA ANÁLISE DA PINTURA ABAIXO?
Tempo: Diferentes percepções e medições
A experiência do tempo faz parte do nosso cotidiano quando, por exemplo, olhamos as horas do relógio, ouvimos relatos de pessoas mais velhas, percebemos o que mudou ou permaneceu de uma época para outra. A noção de tempo é ampla, pois abrange aspectos cronológicos, psicológicos e históricos. O chamado tempo histórico se relaciona com as ações e reflexões dos seres humanos. É o tempo das criações culturais. Da mesma maneira que os povos têm diferentes culturas, eles também possuem diversas formas de viver o seu tempo, de senti-lo, de contá-lo, de responder aos seus desafios.
RITMOS DO TEMPO
Em muitas sociedades rurais, os trabalhadores vivenciavam um “tempo da natureza”, relacionado ao dia e à noite, às variações do clima, às épocas de plantio e de colheita etc. Isso pode persistir em vários lugares. 
De acordo com o historiador francês Lucien Febvre, a população do campo na França do século XVI referia- -se ao tempo desta maneira: “por volta do sol levante ou por volta do sol poente”. 
Já em sociedades industriais contemporâneas, os trabalhadores de uma fábrica, por exemplo, vivenciam um ritmo de tempo marcado pelo relógio, mesmo porque as horas de trabalho, em geral, são vendidas por determinado preço — o salário. Assim, nesse “tempo da indústria” — também encontrado, é claro, em outras atividades profissionais —, a jornada de trabalho “não obedece mais ao nascer e ao pôr do sol nem às variações do clima, mas às exigências da empresa”.
 Podemos falar também no tempo das sociedades pós-industriais marcadas pela conectividade das comunicações, dos transportes e dos serviços no mundo globalizado. Um mundo ligado aos avanços da microeletrônica, internet e tecnologia da informática
Relógio 
Em nossas sociedades, as pessoas vivem consultando relógios. Mas esta forma de medir o tempo não foi praticada em todas as épocas e por todos os povo. Os primeiros relógios mecânicos foram instalados nas torres das igrejas, nos monumentos de praças, nos edifícios públicos. Atualmente, o relógio é considerado um instrumento para a organização das rotinas diárias. Por isso, encontramos o relógio no pulso das pessoas, no telefone celular, no computador, nos veículos etc.
Calendário 
O calendário é um sistema que estabelece um modo de contar o tempo. O termo deriva do latim calendarium, o livro de contas no qual constavam os juros dos empréstimos, pagos nas calendae, que correspondiam ao primeiro dia dos meses romanos. Diferentes tipos de calendários foram desenvolvidos por povos como judeus, cristãos e muçulmanos. 
Os calendários são, portanto, uma criação cultural e, por isso, têm uma história, ou muitas histórias.6 Supõe-se que os primeiros calendários tenham sido criados entre 3 mil e 2 mil anos antes do nascimento de Cristo — provavelmente pelos chineses, egípcios ou sumérios — com base na observação do Sol e da Lua. Atualmente, o calendário cristão é o mais utilizado no mundo, embora nem todos os povos o tenham adotado. Muçulmanos e judeus, por exemplo, têm sistemas próprios de contagem do tempo.
Calendário cristão 
Os povos cristãos têm como marco básico da contagem do tempo o nascimento de Cristo.
Segundo o calendário cristão, as datas anteriores ao nascimento de Cristo recebem a abreviatura a.C. (antes de Cristo) e as datas posteriores podem vir acompanhadas ou não da abreviatura d.C. (depois de Cristo):
O calendário cristão organiza o tempo em dias, semanas, meses e anos. Os períodos maiores podem ser agrupados de dez em dez anos (décadas), de cem em cem anos (séculos), de mil em mil anos (milênios). O século é uma unidade de tempo muito utilizada nos estudos de História. Costuma ser indicado por algarismos romanos, tradição que vem da Roma Antiga. Um modo fácil de saber a que século pertence determinado ano é somar 1 ao número de centenas do ano. Por exemplo: no ano de 2018, o número de centenas é 20. Temos, então:
	2018 ➔ 20 + 1 = século XXI
No entanto, quando um ano termina em 00, como o ano 2000, por exemplo, temos uma exceção à regra anterior. Nesse caso, o número de centenas indica o século.
 2000 ➔ 20 centenas = século XX
Periodizações históricas 
Periodizar significa “separar ou dividir em períodos”, isto é, em espaços de tempo demarcados por eventos considerados significativos. Os historiadores elaboram periodizações históricas como forma de ordenar, compreender e avaliar os acontecimentos e temas estudados.
É possível elaborar periodizações da história, com base em diferentes enfoques ou critérios — econômico, político, tecnológico, ideológico-cultural etc. Como as periodizações são concebidas pelos historiadores,elas expressam o ponto de vista interpretativo de quem as elaborou
Veja, por exemplo, o caso de uma periodização da história que se tornou tradicional, elaborada por historiadores europeus que davam maior importância às fontes escritas e aos fatos políticos europeus. 
Nesta periodização, chamaram de Pré-História o período anterior à invenção da escrita e estabeleceram como marcos divisórios das “idades” acontecimentos ocorridos na Europa ou a ela relacionados.
 Deixaram de lado a história de sociedades em outros continentes, como América, Ásia e África. Observe alguns dos principais marcos dessa periodização tradicional: 
• Pré-História – do surgimento do ser humano até o aparecimento da escrita (cerca de 4000 a.C.); 
• Idade Antiga ou Antiguidade – do aparecimento da escrita até a queda do Império Romano do Ocidente (476 d.C.); 
• Idade Média – da queda do Império Romano do Ocidente até a tomada de Constantinopla pelos turcos (1453 d.C.); 
• Idade Moderna – da tomada de Constantinopla até a Revolução Francesa (tomada da Bastilha, 1789 d.C.);
 • Idade Contemporânea – da Revolução Francesa até os dias atuais.
Críticas à periodização tradicional
 O termo Pré-História costuma ser criticado, pois o ser humano, desde seu surgimento, é um ser histórico, mesmo que não tenha utilizado a escrita. Outras expressões foram propostas para denominar os povos sem escrita, como povo pré-letrado ou povo ágrafo. Mas o uso dessas expressões não se generalizou tanto quanto o termo Pré-História. Por esse motivo, podemos, eventualmente, também utilizar esse termo, desde que estejamos cientes de que todo o passado humano faz parte da História, isto é, das inúmeras histórias. 
Outra crítica à periodização tradicional refere-se a seu caráter eurocêntrico, já que ela foi elaborada com base no estudo de apenas algumas regiões da Europa, do Oriente Médio e do norte da África. Portanto, não pode ser aplicada a todas as sociedades do mundo. No entanto, podemos observar que essa periodização ainda serve de referência para denominar muitas disciplinas históricas lecionadas em várias universidades do Brasil e do mundo. 
Por fim, há um problema próprio de toda periodização: como ela elege certos fatos ou acontecimentos como marcos dos períodos, dá a falsa impressão de que as mudanças históricas ocorrem repentinamente. Embora exista o costume de adotar um evento como símbolo de uma transformação, podemos dizer que, a rigor, é impossível que um único fato possa inaugurar ou encerrar um período histórico. Em geral, as grandes mudanças históricas fazem parte de um processo longo e gradativo.
CULTURA: Modos de ser e de viver
Empregado por antropólogos, historiadores e sociólogos, o termo cultura refere-se aos modos de vida criados e transmitidos de uma geração para outra entre os membros de uma sociedade. Abrange conhecimentos, crenças, artes, costumes, normas, padrões de controle e muitos outros elementos adquiridos socialmente pelos seres humanos. 
O termo cultura costuma aparecer em diferentes situações ou contextos. Podemos falar, por exemplo, em cultura ocidental ou oriental (própria de um conjunto de povos ou sociedades com certas características históricas comuns), cultura italiana ou brasileira (própria de certas “lealdades comuns” conhecidas como nacionalidade), cultura tupi ou sudanesa (própria de um grupo étnico), cultura cristã ou muçulmana (própria de um grupo religioso), cultura familiar ou empresarial (própria do conjunto de pessoas que constituem uma instituição) etc. 
A cultura envolve os padrões através dos quais pensamos e agimos como membros de um grupo social. Nesse sentido, todas as sociedades humanas, das mais antigas às da atualidade, possuem e produzem cultura. E cada cultura tem seus valores e suas verdades. 
Em uma abordagem mais ampla, cultura é a resposta oferecida pelos grupos humanos ao desafio da existência. Essa resposta se manifesta por meio de conhecimento (logos), paixão (pathos) e comportamento (ethos), ou seja, em termos de razão, sentimento e ação.
Quase se pode dizer que a cultura vive na mente das pessoas que a possuem. Mas as pessoas não nascem com ela; adquirem-na à medida que crescem
Algumas características da cultura: 
• Adquirida pela aprendizagem em convívio social, e não herdada em termos genéticos; •transmitida de geração a geração, por meio da linguagem verbal e não verbal, nas diferentes sociedades;
 •Inclui toda a produção material e não material dos seres humanos; 
• Múltipla e variável, no tempo e no espaço, de sociedade para sociedade
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