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UNIDADE 1 AULA 1 HISTORIOGRAFIA GERAL E BRASILEIRA A historiografia anterior ao século XIX QUAL É A RELAÇÃO ENTRE A NARRATIVA MÍTICA HISTÓRICA E A MEMÓRIA NOS CONTEXTOS DA ANTIGUIDADE CLÁSSICA E DA IDDE MÉDIA? Esta unidade identificará as origens da historiografia, que antecederam o século XIX, momento de consolidação da disciplina. Logo nesse primeiro momento, desde a Antiguidade Clássica até o racionalismo da Idade Moderna, a historiografia esteve associada à escrita mítica, às narrativas épicas. Objetivos Ao final desta unidade, você deverá ser capaz de: · Relacionar a escrita da história a partir do mito, da narrativa e da experiência científica no escrever histórico com o ofício do historiador. Conteúdo Programático Esta unidade está dividida em: · Aula 1 - O mito na escrita historiográfica, da Antiguidade Clássica à Idade Média · Aula 2 - A historiografia narrativa de viés biográfico, geográfico, político e monárquico na Antiguidade Clássica e na Idade Média · Aula 3 - Filosofia da história, da Idade Média à Idade Moderna Rota de Aprendizagem A Rota de Aprendizagem apresenta as ações que devem ser realizadas nesta unidade. Utilize a Rota de Aprendizagem para planejar e gerir, com eficiência, as suas ações e o seu tempo de estudo. Isso facilitará a construção do seu conhecimento e aumentará a possibilidade de que você tenha um bom desempenho nas avaliações. Clique aqui para acessar a Rota de Aprendizagem. Vamos iniciar nossa primeira aula estudando alguns conceitos prévios. Memória e história A memória humana tem caráter seletivo e é estimulada por fatores externos. Ela não é um simples repositório de lembranças. A memória constitui um dos alicerces da história. Só no fim da década de 1970, porém, os historiadores começaram a trabalhar com tal conceito, principalmente a partir das metodologias para utilização do que se convencionou chamar de “história oral”. Segundo Jacques Le Goff, a memória é a propriedade de conservar certas informações, propriedade que se refere a um conjunto de funções psíquicas que permite ao indivíduo atualizar impressões ou informações passadas, ou reinterpretadas como passadas. O estudo da memória passa da psicologia à neurofisiologia, com cada aspecto seu interessando a uma ciência diferente, sendo a memória social um dos meios fundamentais para se abordar os problemas do tempo e da história. [...] Antonio Montenegro, por exemplo, considera que, apesar de haver uma distinção entre memória e história, elas são inseparáveis, pois, se a história é uma construção que resgata o passado do ponto de vista social, é também um processo que encontra paralelos em cada indivíduo por meio da memória. Mas a memória não é apenas individual. Na verdade, a forma de maior interesse para o historiador é a memória coletiva, composta pelas lembranças vividas pelo indivíduo ou que Ihe foram repassadas, mas que não Ihe pertencem somente, entendidas como propriedade de uma comunidade, um grupo. O estudo histórico da memória coletiva começou a se desenvolver com a investigação oral. Esse tipo de memória tem algumas características bem específicas: primeiro, gira quase sempre em torno de lembranças do cotidiano do grupo, como enchentes, boas safras ou safras ruins, quase nunca fazendo referências a acontecimentos históricos valorizados pela historiografia, e tende a idealizar o passado. Em segundo lugar, a memória coletiva fundamenta a própria identidade do grupo ou comunidade, mas, normalmente, tende a se apegar a um acontecimento considerado fundador, simplificando todo o restante do passado. Por outro lado, ela também simplifica a noção de tempo, fazendo apenas grandes diferenciações entre o presente (“nossos dias”) e o passado (“antigamente”, por exemplo). Além disso, mais do que em datas, a memória coletiva se baseia em imagens e paisagens. O próprio esquecimento é também um aspecto relevante para a compreensão da memória de grupos e comunidades, pois, muitas vezes, é voluntário, indicando a vontade do grupo de ocultar determinados fatos. Assim, a memória coletiva reelabora constantemente os fatos. Fonte: KALINA, Vanderlei Silva; MACIEL, Henrique Silv. Dicionário de Conceitos Históricos. São Paulo: Contexto, 2006. Mito A palavra “mito” – mythos (μῦθος) – está relacionada às narrativas de caráter simbólico produzidas no âmbito das sociedades humanas com o intuito de explicar fenômenos naturais, sociais e políticos, assim como de instituir um tipo de memória coletiva, estrutura-base para a criação das identidades individuais e coletivas. Os mitos podem ser cosmogônicos, tendo como temática a origem do universo, como, por exemplo: · · · · · Geralmente, o mito está associado às sociedades antigas e à oralidade. No entanto, ele pode ser produzido pelas sociedades contemporâneas também, podendo ser reproduzido por outros formatos, como a escrita, a imagética e o rito. Este último, inclusive, é a maneira pela qual as sociedades vivenciam seus mitos, a partir de cerimônias, cânticos, danças, orações e sacrifícios. O rito é o que difere o mito da lenda. À organização de mitos dentro de um sistema social, religioso e/ou mental de uma determinada sociedade denominamos “mitologia”. Nas palavras de Werner Jaeger: Falamos do valor educativo dos exemplos criados pelo mito. [...] O mito contém em si esse significado normativo, mesmo quando não é empregado expressamente como modelo ou exemplo. [...] O mito serve sempre de instância normativa para a qual apela o orador. Há no seu âmago alguma coisa que tem validade universal. Não tem um caráter meramente fictício, embora, originariamente, seja, sem dúvida alguma, o sedimento de acontecimentos históricos que alcançaram a imortalidade por meio de uma longa tradição e da interpretação enaltecedora da fantasia criadora da posteridade. Fonte: JAEGER, W. apud ROSSI, Andrea L. D. O. C. Mitologia: abordagem metodológica para o historiador da Antiguidade Clássica. História, São Paulo, v. 26, n. 1, 2007, pp. 36-52, pp. 36-37. História, memória e mito na Antiguidade Clássica O mito era o grande mestre dos gregos nas questões mentais, comportamentais e políticas. As narrativas mitológicas desempenhavam importante papel pedagógico na formação dos cidadãos, ensinando sobre moralidade, conduta, virtudes, cultura, identidade e política. Historiadores gregos como Homero e Tucídides se utilizaram da mitologia, da memória coletiva e das informações advindas da oralidade para construir suas narrativas históricas. Homero e Tucídides. Fontes: pt.wikipedia.org/Homer / pt.wikipedia.org/Thucydides No entanto, enquanto Homero (circa 850 a.C.) se utilizava das narrativas míticas, produzindo história em formato de poesia; Tucídides (460 a.C. – 400 a.C.) construía seus relatos em formato de prosa, utilizando-se de informações advindas da oralidade e produzindo uma história de fatos coetâneos a ele. História, memória e mito para a cristandade medieval Para o historiador francês Jacques Le Goff (1924 – 2014), a memória coletiva do Ocidente europeu, formada por diferentes estratos sociais, sofreu profundas transformações na passagem da Antiguidade para a Idade Média, devido ao estabelecimento do cristianismo como religião e como ideologia dominante e ao monopólio da produção intelectual pela Igreja Católica. Dessa forma, a formação da memória ocidental no período medieval (séculos V-XV) foi fortemente permeada pela religiosidade judaico-cristã. Tais religiosidades monoteístas, por sua vez, se constituem “religiões da recordação” em diferentes aspectos, como, por exemplo: · Os atos divinos de salvação situados em um tempo passado e formadores do conteúdo da fé e do objeto do culto. · A imposição de uma narrativa histórica como formadora de seu livro sagrado, cuja necessidade de lembrança constitui-se tarefa religiosa fundamental. Assim, toda a retórica e pensamento teológico produzido pela cristandade medieval baseou-se nas narrativas históricas fundamentadoras dos livros sagrados, influenciando, inclusive, a própria noção de tempo e de história. E, como exemplo disso,podemos citar o pensamento escolástico, cujo maior representante foi o teólogo e filósofo italiano Tomás de Aquino (1225-1274). A escolástica foi uma corrente filosófica baseada numa metodologia crítica que buscava equacionar a fé e a razão a partir da conciliação entre conceitos provenientes da filosofia clássica (principalmente de autores como Platão e Aristóteles) com valores de ordem espiritual da cristandade ocidental. E, além de ser uma corrente filosófica, a escolástica também pode ser considerada um método de pensamento que influenciou as áreas do conhecimento produzidas no âmbito das universidades medievais, como, por exemplo, o Trivium — composto por gramática, retórica e dialética — e o Quadrivium – composto por aritmética, geometria, astronomia e música. Ver: CHARTIER, Roger. Do mito ao fato. (2’20”). Ler: História e memória, de Jacques Le Goff (pp 13-16; 246-247; 366-369). Ampliando o foco Para aprofundar seus conhecimentos sobre Jacques Le Goff leia as páginas 13 – 16, 246 – 247 e 366 -369 do texto História e Memória de Jacques Le Goff. AULA2 A história narrativa de viés biográfico, geográfico, político e monárquico na Antiguidade Clássica e na Idade Média A historiografia produzida na Antiguidade Clássica Por historiografia grega entende-se aquela realizada na Grécia antiga no período compreendido entre o século V a.C. até o século IV d.C., contando com historiadores, mitógrafos e cronistas como Homero, Hecateu de Mileto, Heródoto, Tucídides, Posidônio, Políbio, Zósimo, entre outros. Em linhas gerais, tal prática se caracterizava pelos seguintes fatores: · A preponderância da utilização das fontes orais sem critérios analíticos que versassem sobre sua veracidade. Assim, como método crítico-reflexivo sobre a produção da história, tais escritores elencavam gradações de valor dos testemunhos recolhidos. Dessa forma, até poder-se-iam apresentar todas as versões reconhecidas sobre um determinado fato, mas costumava-se apontar a que se considerava “a mais verdadeira”. · Apresentava as inclinações exploradoras e colonizadoras de novos territórios, a partir da descrição de novas sociedades e rotas comerciais, produzindo as narrativas que se denominam “périplos”. · O nascimento de uma concepção racional do mundo, proporcionando o surgimento de uma produção histórica baseada na cartografia e permeada por elementos geográficos. · A gradual substituição do mito por esquemas racionais, a partir da abordagem da história dos grandes Estados, das guerras e da política (característica marcante da historiografia produzida na Antiguidade romana). · O fato de que a historiografia grega era, majoritariamente, uma produção contemporânea aos historiadores. Isso explicava porque havia maior informação sobre temas próximos no tempo e preferência das fontes testemunhais orais às escritas. Tucídides, por exemplo, considerava a experiência pessoal como imprescindível, da mesma forma que Políbio. As práticas de produção histórica dos romanos da Antiguidade foram inspiradas nas práticas dos gregos. A historiografia produzida na Idade Média ocidental A historiografia eclesiástica medieval abarca a produção historiográfica dos religiosos da Idade Média europeia, que acabaram por criar um estilo próprio de desenvolver a história e repassá-la para a posteridade. Em linhas gerais, tal prática se caracterizava pelos seguintes fatores: 1 As fontes documentais utilizadas pelos historiadores medievais provinham principalmente de bibliotecas e arquivos, sendo utilizadas especialmente para os estudos sobre os “tempos antigos”, sendo a Bíblia a principal fonte para muitos trabalhos. 2 As fontes documentais costumavam sofrer acréscimos e falsificações dos historiadores da cristandade medieval, no intuito de enquadrar as narrativas históricas aos ideais daquela sociedade. 3 As fontes documentais utilizadas pelos historiadores medievais provinham principalmente de bibliotecas e arquivos, sendo utilizadas especialmente para os estudos sobre os “tempos antigos”, sendo a Bíblia a principal fonte para muitos trabalhos. No momento em que a história conseguiu conquistar sua autonomia perante as outras ciências, surgiram os gêneros históricos, como os anais e as crônicas, conhecidos por fornecerem descrições breves de acontecimentos e fatos relacionados a feitos políticos e cotidianos. Posteriormente, surgiram outros gêneros históricos, como a história erudita (utilizada por clérigos e chancelarias), a história política (dos grandes Estados e de suas relações diplomáticas) e a história "romance" (que conquista leitores de outros grupos sociais que não o clero, como a nobreza, por exemplo). Houve, ainda, um grande interesse pela genealogia e pela biografia de grandes personalidades, imperadores e nobres, favorecendo a produção de grande número de obras históricas feitas por encomenda, como maneira de nobres manterem sua memória viva para a posteridade. A historiografia produzida no Renascimento Enquanto a historiografia cristã medieval era essencialmente uma historiografia teocêntrica, a historiografia do Renascimento vai se caracterizar pelo antropocentrismo. Em linhas gerais, tal prática se caracterizava por: 1 Uma produção tipicamente urbana, ligada aos valores de uma elite economicamente dominante, mas que ainda não detinha o monopólio do poder político. 2 Predominância do humanismo e do individualismo. 3 Exaltação do livre-arbítrio, do valor da experiência e da glória individual. 4 Maior utilização das obras e dos valores pertinentes à Antiguidade greco-romana. 5 A função da história como uma narrativa educativa para as sociedades. 6 Importância da utilização das fontes documentais e escritas. 7 Utilização de fontes auxiliares, como os monumentos, as ruínas e os objetos de arte, por exemplo. E, embora ainda não existissem instrumentos metodológicos nem ciências adequadas para estudar o passado por meio de seu legado material, já se considerava a importância desse tipo de fonte. Apesar dos problemas metodológicos, as práticas historiográficas produzidas no âmbito do período moderno ocidental (séculos XVI-XVIII) tiveram grande relevância para o desenvolvimento da história enquanto disciplina acadêmica, deixando um legado que inclui o desenvolvimento de ciências auxiliares, como a bibliografia, a epigrafia, a arqueologia e a genealogia. A transição do mundo antigo e medieval para o mundo moderno é resultante de uma mudança na percepção da existência humana. Essa mudança ocorre em decorrência da relação que passa a existir entre a sociedade, suas práticas culturais e políticas num contexto temporal que passou a compreender o homem como ponto de partida, e não mais as divindades. E a produção histórica resultante de tais contextos seguiu a trajetória do pensamento filosófico e social das sociedades europeias ocidentais. CAIRE-JABINET, Marie-Paule. Introdução à historiografia. Bauru: EDUSC, 2003. Le GOFF, Jacques; SCHMITT, Jean-Paul. Dicionário Temático do Ocidente Medieval. Bauru: EDUSC, 2006. 2 vols. Ampliando o Foco Para aprofundar seus conhecimentos sobre história e historiografia leia o texto História e historiografia antigas: a construção de um gênero discursivo. AULA 3 A historiografia anterior ao século XIX · Introdução · Aula 1 · Aula 2 · Aula 3 · Encerramento · Midiateca Aula 3Filosofia da história, da Idade Média à Idade Moderna Na perspectiva da historicidade da produção historiográfica ocidental anterior ao século XIX, podemos destacar os seguintes períodos: A produção histórica desenvolvida na Antiguidade Clássica, fundamentada no alcance do presente, pouco reflexiva e sem análises críticas, com grande apelo cartográfico, descritiva de épocas breves e baseada em narrativas informativas sobre populações, rotas e acontecimentos. A produção histórica desenvolvida no contexto do Medievo europeu, da qual destacaremos as produções eclesiásticas e acadêmicas; assim como o início de uma história secular, desenvolvida a partir das narrativas relativas à formação dos reinos, suas relações diplomáticas e suas dinastias.Afresco O Juízo Final, de Michelangelo Buonarroti. Capela Sistina, Palácio Apostólico, Cidade do Vaticano. Fonte: . Período denominado de filosofia da história, relativo à sistematização da história e da filosofia, cuja percepção corrente era de que havia um motor que dava sentido à trajetória histórica da humanidade, que teria um fim a ser alcançado. Durante a Idade Média, por exemplo, o motor da história era a própria vontade de Deus e o fim a ser alcançado pela história da humanidade relacionava-se ao Juízo Final, que resultaria na extinção da terra, com a ressureição da humanidade num plano espiritual. Já no período moderno (séculos XVI-XVIII), os pensadores secularizaram tanto a noção de motor quanto a de finalidade da história, passando o progresso, a razão e a tecnologia a representarem o ideal de perfeição para a humanidade. Dessa forma, passou-se a admitir que a história das sociedades humanas sempre rumaria para a evolução e o progresso – na época, entendidos como traduções da cultura, da sociedade, da tecnologia e do sistema político dos Estados europeus. Há, ainda, o período de formação da ciência histórica, iniciado a partir do século XIX, no qual se constituem as chamadas teorias da história, que serão abordadas na Unidade II. O historiador brasileiro José D'Assunção Barros (BARROS, José D’Assunção. Teoria da história, v. I. Petrópolis: Vozes, 2011, pp. 101-150) distingue as filosofias da história e as teorias da história: Filosofias da história: Trata-se de especulações individuais de filósofos como Kant, Voltaire, Vico, Hobbes, entre outros, que abordam uma reflexão sobre o sentido da história e o futuro das sociedades humanas; normalmente, ausentes das teorias da história. Teorias da história: Produções do conhecimento histórico relacionadas às duas dimensões da história enquanto disciplina: a história como “realidade” (res gestae), referente ao conjunto dos fatos humanos no seu curso temporal; e a história como “conhecimento” (narratio rerum gestarum), referente às narrativas sobre o entendimento de tais fatos. Dessa forma, as teorias da história não costumam se preocupar com o sentido da história, mas sim com a interpretação dos fatos históricos, a partir do estudo das fontes e de sua análise sob o viés de suporte teórico. Folha de rosto da edição de 1642 do Leviatã, de Hobbes. Fonte: . No século XIX, as produções historiográficas contavam com teorias provenientes de distintos paradigmas, como o positivismo, o historicismo, o materialismo histórico, entre outros. E, ao contrário do fazer histórico individual dos filósofos da história do século XVIII, os paradigmas estabelecidos no âmbito do século XIX correspondiam a um ambiente teórico partilhado por muitos historiadores, que aprimoram seus fundamentos, conceitos e perspectivas. Ampliando o foco Para aprofundar seus conhecimentos sobre a filosofia moderna leia o texto Filosofia Moderna. Resumo da Unidade Nesta primeira unidade identificamos as origens da produção historiográfica, anteriores ao século XIX, momento de consolidação da história enquanto disciplina e ciência do conhecimento humano. Vimos um primeiro momento, no qual a história estava associada ao mito e às narrativas épicas, com um viés muito forte de oralidade, como é o caso da Antiguidade, quando verificamos uma produção fortemente vinculada à religiosidade dominante, praticada no âmbito das instituições religiosas e acadêmicas, como é o caso do Medievo ocidental. Ainda, vimos o nascimento de uma produção histórica mais voltada aos fatos seculares e políticos, a partir das crônicas, anais e histórias biográficas das dinastias e dos Estados, iniciada na Idade Média e perpetuada na Idade Moderna. Atividades Além do estudo dos roteiros, do livro da disciplina, das leituras complementares e dos vídeos das unidades, você deverá realizar as atividades pontuadas que se encontram no ambiente virtual de aprendizagem. Acompanhe os prazos de envio das avaliações no documento “Calendário e Critérios de Avaliação”, na introdução da disciplina. Lembre-se: procure o professor-tutor no fórum "Fale com o tutor". UNIDADE 2 AULA 1 Aula 1A construção da escrita histórica na formação dos Estados nacionais francês, alemão e austro-húngaro Historiografia, nacionalismos e Estados nacionais A história e, no caso, a sua escrita, tem alguma relação com as identidades nacionais e os nacionalismos? Durante o século XIX a Europa estava envolta em movimentos de unificação e de afirmação das nacionalidades. Assim, Estados como Alemanha, Inglaterra, França e Itália despertaram para o estudo do passado, buscando nele as origens de uma sensação de nacionalidade, ou seja, os fundamentos de uma nação. Consequentemente, a história foi uma ferramenta primordial na construção desses sentimentos, que foram moldados em uma inédita conjuntura. Com efeito, para grande parte dos cientistas sociais, a história tem relevância no que conhecemos atualmente como nação. Marcel Dettiene (2003) expõe que, se a “consciência nacional” se faz por vezes “vontade geral”, ela não surge da decisão singular do Estado; ela se modela. Nesse sentido, a historiografia que tem como foco a nação e uma série de tradições auxilia a moldar essa sensação de pertencimento: “A história ‘nacional’, ontem e hoje, é, sabe-se, um gênero narrativo muito apreciado e eficaz para dar forma e conteúdo à ‘identidade nacional’” (DETTIENE, 2003, p. 12). Todavia, torna-se relevante a análise de alguns casos específicos. É preciso compreender o contexto historiográfico e intelectual do período oitocentista e sua função no desenvolvimento das nações. Foi no século XIX que a história se institucionalizou, foi inserida nas universidades e passou a servir aos Estados. Isso manteve os historiadores trabalhando em grandes empreendimentos de pesquisa e publicações que, entre outras funções, legitimaram os Estados nação. Inicialmente, A organização do estudo científico da história se deu na Alemanha e coube a Leopoldo Von Ranke, a maior expressão da chamada “Escola Científica Alemã”, o avanço do pensamento histórico alemão. Suas ideias influenciaram as futuras gerações de historiadores alemães e franceses. As teses de Ranke postulam um afastamento da história de especulações filosóficas, subjetivas e moralizantes. Segundo esse autor, “a ciência positiva pode atingir a objetividade e conhecer a verdade da história” (DANTAS, 2007, p. 2). Ampliando o foco Para aprofundar seus conhecimentos sobre a unificação alemã e sua historiografia, leia o texto Cultura política e historiografia alemã no século XIX: a Escola Histórica Prussiana e a Historische Zeitschrift. Já na França, Jules Michelet realizou uma importante sistematização histórica em sua obra sobre o seu país de origem. Nela, o historiador teve a ambição de escrever a história francesa por meio de um trabalho minucioso, na tentativa de uma compreensão total do passado. Nesse caso, as revoluções ocorridas na França, em especial a Francesa, de 1789, representaram um grande marco: É certo que o nacionalismo francês do século XIX não foi apenas reação e conservadorismo, que Michelet (1798-1874) não pode ser esquecido e ele é o melhor representante da perspectiva nacional, democrática e popular. Mas é no âmbito da mensagem que vai do conservadorismo, do tradicionalismo à reação antidemocrática, racista e xenófoba que as ideias de nação e o nacionalismo francês vão mais fortemente circular, seja no contexto da Revolução de 1848 seja como reação à derrota na guerra com a Prússia em 1870, seja como reação à Comuna de Paris, em 1871, seja como reação à crise da Terceira República, no final do século XIX, de que é emblemático o caso Dreyfus. (PAULA, 2008, p. 219-235). Ao mesmo tempo, o processo nacionalista de “fundar a consciência” francesa tinha a história como sua principal ferramenta. Ernest Levisse foi um historiador que objetivava que a alta universidade se misturasse intimamente com a vida nacional. Lançou em 1884 um grande manual que contava a história francesasob um prisma nacionalista e ensinava que a “França era a essência da Europa” e que nela a república e a liberdade não cessaram de desabrochar. Legitimações de territórios nacionais e nacionalismos também criaram uma série de conflitos, como o que foi o estopim da Primeira Guerra Mundial. É de consenso entre os historiadores que o período entre a segunda metade do século XIX e o início da Primeira Grande Guerra foi de exacerbação dos nacionalismos europeus e do imperialismo, que incluiu uma série de disputas territoriais com populações formadas por mais de uma nacionalidade, como na Alsácia e na Lorena (entre a Alemanha e a França), na Trentina e proximidades de Trieste (Itália e Império Austríaco) e na península balcânica (disputada pela Rússia e pela Áustria). Mesmo tendo havido uma série de incidentes diplomáticos entre 1905 e 1914, o fator desencadeante do primeiro grande conflito mundial foi o assassinato do herdeiro do Império Austro-Húngaro, Francisco Ferdinando, em Sarajevo, capital da Bósnia, por um ativista nacionalista sérvio. Gravura representando o assassinato de Francisco Ferdinando em 1914. Fonte Não nos interessa aqui analisar o desenrolar e outros detalhes do conflito, que será estudado em outras disciplinas. Nossa intenção ao mencionar esse incidente é perceber de que forma a historiografia europeia contribuiu para o conflito. Não podemos inferir peremptoriamente que as obras historiográficas publicadas na Europa do século XIX foram fatores primordiais de conflitos nacionalistas. No entanto, com convicção, podemos afirmar que a escrita da história contribuía para a exacerbação dos sentimentos nacionais e auxiliou conjunturalmente para que a historia se projetasse dessa forma. Como pudemos perceber, a escrita da história realizada nos diferentes países europeus no contexto do século XIX e início do século XX estava conectada a uma ampla conjuntura. Ao mesmo tempo em que fora influenciada pelo pensamento nacionalista e imperialista das jovens nações do Velho Mundo, também foram ferramentas de legitimação das suas ideias e de todo esse sentimento. A historiografia serviu, portanto, como legitimadora dos Estados nação e, por que não dizer, dos conflitos por eles acarretados. Ao mesmo tempo em que sustentava a supremacia nacional, também contribuía para os embates gerados por esses pensamentos, como a Primeira Guerra Mundial. AULA 2 ( UNIDADE 2) A escrita da história no séc. XIX: uma construção disciplinar e nacional · Introdução · Aula 1 · Aula 2 · Aula 3 · Encerramento · Midiateca Aula 2As narrativas coloniais e dos viajantes estrangeiros em terras brasileiras Inúmeros interessados em investigar o Brasil oitocentista estiveram por estas paragens desde o século XVI, mas, especialmente, no decorrer do século XIX, entre os quais, grande parte oriunda da Europa. Várias foram as motivações que fizeram com que artistas, geógrafos, biólogos, comerciantes, cientistas das mais diversas áreas cruzassem o Oceano Atlântico e registrassem suas impressões sobre o Brasil. Todavia, essa produção anotada sob o olhar estrangeiro pode ser considerada como parte integrante da historiografia brasileira e será estudada a seguir. Com efeito, essa perspectiva adventícia pode auxiliar a compreensão das especificidades locais a partir de um olhar “de fora”, trazendo consigo mais variáveis analíticas. É um ponto de vista que se agrega à documentação nacional. Notadamente, a diversidade profissional desses viajantes pode cooperar na discussão acerca da sua percepção sobre o Brasil. Partindo de variados relatos desses viajantes, apresentamos diversos conjuntos de informações que nos trazem apontamentos das características do Brasil oitocentista. Da mesma forma, não temos intenção alguma de esgotar a discussão sobre essas fontes, mas sim de traçar algumas considerações sobre aquilo que julgamos pertinente em uma massa documental imensa e que, sabemos, pode render ainda inúmeras outras ponderações. Apresentamos a seguir alguns exemplos dessa historiografia extremamente importante na formação dos historiadores. A pujança econômica crescente e a constante circulação de europeus no século XIX foram registradas por diversos viajantes, das mais distintas nacionalidades e com os mais diferentes objetivos, que aportavam no país. Um desses casos é o do comerciante inglês John Luccock (1942), que esteve em Porto Alegre no primeiro quartel do século e registrou algumas importantes impressões, como a busca de um ideal “civilizado”: Grande número de ingleses de há muito que se estabeleceu em redor dessa localidade favorecida, mas o lugar ainda não progrediu bastante nas artes da vida civilizada, para que já seja de residência agradável. [...] Este lado da província, contudo, progride rapidamente e dia por dia, apesar de que o povo não tem instrução e muito menos cultura moral e religiosa (LUOCCOCK, 1942, p. 28). Luccock (1942), nesse fragmento, apresenta um pouco do ideal britânico, que, além de procurar negócios, buscava civilizar. É evidente que, enquanto potência econômica e industrial mundial, essa “política” civilizatória se estendia não somente ao Brasil, mas a todas as regiões onde a Inglaterra possuía parcerias comerciais. Essa estratégia agia por diversas frentes, nas quais a instrução dos habitantes se destacava na tentativa de adequação do povo aos novos hábitos propostos. Nesse sentido, os relatos do europeu apontam para as peculiaridades que deveriam ser desenvolvidas a partir do seu olhar eurocêntrico, como o próprio viajante registra: as “artes da vida civilizada”, que podem ser entendidas como um conjunto de regras e hábitos comuns aos habitantes de boa parte do Velho Mundo e que ao sul do Brasil ainda estavam defasados, na sua visão. No pacote de “evoluções” proposto pelo inglês, cabia não somente o aumento da produção agrícola, com a adoção de novas técnicas e equipamentos, mas também o desenvolvimento do homem do Novo Mundo. A moral britânica e europeia deveria ser espraiada e sobreposta aos hábitos “bárbaros” que ali se mantinham. O desenvolvimento brasileiro, e no caso de Porto Alegre, passava por um refinamento de costumes e pensamentos que teria sempre a Europa como modelo e a sua religião como a portadora da moralidade condizente com um país que deveria se desenvolver de maneira superior. O registro desse Brasil a ser formado pelos europeus, agradável, mas não refinado o suficiente, converge em muitos viajantes que neste país fizeram seus apontamentos. Essa “necessidade” e tendência a adotar os hábitos dos seus “civilizadores” também foi alvo de crítica por alguns estrangeiros. O pintor alemão Johann Moritz Rugendas anotou, na década de 1820, no Rio de Janeiro, a inclinação de parte da população à imitação dos costumes ingleses, o que foi reprovado por ele: É de bom tom, na alta sociedade, imitar os costumes ingleses; mas estes são tão contrários à vivacidade dos habitantes e mesmo ao clima que uma tal preocupação só pode provocar uma impressão desagradável no estrangeiro imparcial. [...] Assim, por exemplo, nenhum aspecto agradável apresenta ao artista o transeunte que, como é aqui de praxe, atravessa o Passeio Público vestido à última moda de Paris ou Londres. (RUGENDAS, 1972, p. 186). A influência europeia no Brasil, notadamente a inglesa, era referência a hábitos civilizados, característica de uma nação que buscava se desenvolver e, para tanto, pretendia se consolidar em práticas superiores. O viajante, no entanto, alertou para essa sobreposição de valores. A valorização do way of life britânico deveria ser tomada com cautela para que com ela não fossem agregados os vícios da antiga sociedade d’além-mar. O alemão declarou que os habitantes do Rio de Janeiro, com todas as suas características tropicais, vestidos à europeia e desprezando sua cultura local, lhe causavam estranheza. Como o próprio sublinhou, esse novo hábito era mais perceptível nas altas classes, que tinham um contato mais próximo com os representantes da cultura do Antigo Continente e, por consequência, eram os mais influenciadose pressionados a aderir ao modo de ser inglês. Da mesma forma, Rugendas aponta incompatibilidades culturais, contradições causadas pela “imposição” dos hábitos estrangeiros. Seriam incoerências que não contribuiriam com o desenvolvimento brasileiro, visto que as características naturais dos nativos estariam sendo desvalorizadas frente a valores importados e que não poderiam ser sustentados. Essa “imitação” não era compartilhada pelas classes mais pobres, que, para o artista, eram mais francas e sinceras. A eles, era cara a prática de hábitos refinados e, ao contrário, demonstravam sua alegria com expansão, característica dos fluminenses. Até mesmo a festividade do povo do Rio de Janeiro teve destaque frente à sobriedade das camadas abastadas, que buscavam imitar os comedidos estrangeiros: Tudo no Rio de Janeiro é mais animado, barulhento, variado, livre. Nas partes da cidade habitadas pelo povo, a música, a dança, os fogos de artifício emprestam a cada noite uma atmosfera de festa, e se não se encontram grande vigor nem muita delicadeza na letra das canções para violão, e nas conversas barulhentas dos grupos, observam-se pelo menos bastante espírito e bom senso (RUGENDAS, 1972, p. 129). Nesse mesmo registro, Rugendas demonstrou a dificuldade de estabelecer um padrão, ou seja, um caráter nacional dos brasileiros. Ele aponta uma identidade nacional indefinida, com certas características da postura portuguesa. Positivamente, o alemão chamou a atenção para os hábitos dos estratos inferiores, que, para ele, eram a essência do Brasil, com suas características próprias, e não uma imitação da Europa. São diferenciadas da população pobre de Lisboa, pois nelas está a verdadeira essência nacional, onde, no Rio de Janeiro, se destacavam a alegria, a música e a dança, assim como as conversas barulhentas, contrastando com o caráter grave das classes altas, que tentavam assumir uma postura “civilizada”. Crédito de atribuição editorial: neftali / Shutterstock.com Da mesma forma, as particularidades regionais da capital do Rio Grande do Sul também se realçavam na visão dos europeus. Saint-Hilaire (2004, p. 38), que esteve no Brasil em parte do primeiro quartel do século XIX, anotou que “[em Porto Alegre] lembramos o sul da Europa e tudo quanto ele tem de mais encantador”. Da mesma forma, um diferencial, com relação ao Rio de Janeiro, é a composição étnica da população, com um grande percentual de brancos europeus, notadamente muitos alemães, como o viajante francês destacou: “Aqui veem-se pouquíssimos mulatos. A população compõe-se de pretos escravos e de brancos, em número muito mais considerável, e constituídos de homens grandes, belos, robustos, tendo a maior parte o rosto corado e os cabelos castanhos” (SAINT-HILAIRE, 2004, p. 38). Ele ainda salientou que em Porto Alegre não havia tanta vida social como nas cidades europeias, mas que, em relação ao Brasil, era visível uma maior atividade, onde “são frequentes as reuniões nas residências para saraus musicais, tocando algumas senhoras, com maestria, o bandolim e o piano” (SAINT-HILAIRE, 1974, p. 43). A presença europeia, notadamente alemã, e a sua importância na formação cultural, social e econômica foram destacadas por diversos viajantes que estiveram no sul do Brasil no século XIX – fator que, segundo os registros, era percebido rapidamente por aqueles que ali passavam, como o médico alemão Avé-Lallemant, que anotou em 1858: A reminiscência nórdica não se restringe apenas ao alto da cidade de Porto Alegre, de onde se pode contemplar longa distância. Desce também a parte comercial. Ali, em toda parte, se vê gente de raça loura perambulando. A cada momento se vê um alemão transitando, a cada momento se vê um nome alemão sobre as portas das casas e se ouve falar a rude língua alemã de Holstein e do dialeto pomerânio até ao bávaro renano. Deve haver em Porto Alegre uns três mil alemães, ao passo que toda a cidade não tem mais que 20 mil habitantes. (AVÉ-LALLEMANT, 1980, p. 110). Se Porto Alegre, nos relatos dos viajantes, é destacada pela quantidade de alemães, cabe uma nota para realçar a presença negra na maior cidade do Brasil. Rugendas registra que, talvez, o Rio de Janeiro seria o melhor lugar para se observar todos os tipos de raça de negros, “membros de quase todas as tribos da África” (1972, p. 89). Ainda destacando a quantidade e variedade de africanos no Rio de Janeiro, o viajante alemão anota que, para se observar em outro local o que ele vê na capital brasileira com relação às diferentes etnias daquele continente, somente “através de longas e perigosas viagens a todas as regiões dessa parte do mundo” (RUGENDAS, 1972, p. 89). Da mesma forma, a capital do Brasil, o Rio de Janeiro, era o destino preferido da maioria dos negociantes estrangeiros que aportavam no país. Como cidade polo da economia, convergia as atenções dos investidores do Antigo Mundo. Essa íntima relação econômica compartilhava muito mais que mercadorias. Ideias liberais e novas propostas para a transformação do Brasil em uma potência além-mar necessitavam, entre outros, de conhecimento e desenvolvimento científico e tecnológico importado, por óbvio, dos “superiores” europeus. O ideal inglês parecia pressupor a predisposição a suas propostas. Juntamente com os produtos britânicos, os novos modos de comportamento ditavam modas, os consumos, como destaca novamente Johann Rugendas, quando escreveu que “os processos da civilização no Rio de Janeiro, durante os últimos dez anos, são principalmente o resultado das inúmeras relações comerciais com as nações europeias” (RUGENDAS, 1972, p. 185). Dessa forma, o viajante atestava o Rio de Janeiro como tendo “um caráter estrangeiro” que “se mostra na vida social, nas variações e no desenvolvimento do luxo e das necessidades” (1972, p. 185), assim como nas classes elevadas, no desejo sempre crescente de cultivar, de maneira mais complexa, as suas faculdades intelectuais. Os viajantes que estiveram no Brasil, principalmente nos séculos XVIII e XIX, realizavam seus registros a partir de um olhar estrangeiro, geralmente embebido de eurocentrismo. Suas percepções, todavia, quando vistas com critério metodológico e rigor científico, são excelentes fontes para a compreensão de um país pretérito. Esses registros históricos são, portanto, fontes privilegiadas da história do Brasil e do pensamento da época, exemplo de um tipo especial de historiografia. Ampliando o foco Para aprofundar seus conhecimentos sobre o Brasil sob o olhar dos estrangeiros (séc. XVI ao XIX), assista aos vídeos Brasil no olhar dos viajantes, pelos links: · Brasil no olhar dos viajantes – Episódio 1 (programa completo). · Brasil no olhar dos viajantes – Episódio 2 (programa completo). · Brasil no olhar dos viajantes – Episódio 3 (programa completo). · Brasil no olhar dos viajantes – Episódio 4 (programa completo). AULA 3 Aula 3O processo sócio-político de constituição do IHGB, a História Nacional: Karl von Martius, Capistrano de Abreu, Joaquim Nabuco e Francisco Varnhagen O Brasil, a partir do momento em que se tornou um país independente, se viu na iminência de estabelecer uma identidade nacional que passava pela necessidade da existência de uma história e de um grupo de pensadores preocupados com os destinos da nação longe da sua origem colonial. Essa intelligentsia tinha como um dos locais privilegiados ao seu trabalho o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – IHGB, como destaca Lilia Moritz Schwarcz: Crédito de atribuição editorial: AlexanderZam / Shutterstock.com A fundação do primeiro Instituto Histórico e Geográfico em 1838 responde também à lógica do contexto que segue à emancipação política do país. Sediado no Rio de Janeiro, o IHGB surgia como um estabelecimento ligado à forte oligarquia local associada financeira e intelectualmente a um “monarca ilustrado” e centralizador. Em suas mãos estava a responsabilidade de criar uma história para a nação, inventar uma memória para um país que deveria separar, a partir de então, seus domínios para os da antiga metrópole europeia.(SCHWARCZ, 1993, p. 24). O instituto seria, portanto, um dos pontos de concentração dos pensadores de um “novo” Brasil: independente, gigante e mestiço. Tinha por principal função promover agendas de investigação e produção de relatórios científicos sobre as diversas regiões que integravam a nação, visando assim a uma maior compreensão da complexidade brasileira e à produção de uma identidade cultural, social e política. Tais relatórios passaram a ser publicados na revista trimestral do instituto. A sua produção científica tinha como objetivo esclarecer as camadas mais altas da sociedade que seriam os emanadores de conhecimento para os estratos inferiores da sociedade brasileira ainda em formação. Com efeito, alguns dos maiores intelectuais e historiadores brasilianistas tiveram passagem pelo IHGB. Destacamos alguns abaixo: Karl von Martius (Carl Friedrich Philipp von Martius – 1794-1868) Era um naturalista alemão, natural da cidade de Erlangen, nascido em 1794. Em 1810, aos 16 anos, Karl fora aprovado como estudante de Medicina na Universidade de Erlangen, em que seu pai antes atuara como professor honorário. Na universidade, o alemão se aproximou das disciplinas do campo de botânica. No ano de 1814, Martius graduou-se na Friedrich Alexander Universität, recebendo o título de doctor medicinae, de médico. Em seguida, passou a atuar como pesquisador assistente na Academia Real de Ciências de Munique, ainda na Baviera, na Alemanha, estando sob a supervisão de Schrank, responsável pelo Jardim Botânico da Real Academia de Ciências de Munique. A partir desse momento, iniciou uma série de pesquisas que lhe renderam as primeiras publicações acadêmicas sobre o tema da botânica. No entanto, na sua pesquisa realizada no Brasil, conhecida como Missão Austro-Alemã, acompanhou o séquito real de uma princesa da família dos Habsburgos de Áustria, que viria ao Brasil, D. Leopoldina, que viria a casar-se com D. Pedro I. Essa investigação teve relevância nos estudos sobre a flora brasileira: A expedição científica, saída da cidade de Trieste, percorreu o Brasil dos anos de 1817 ao ano de 1820. Durante esse tempo, Carl F. P. von Martius recolheu espécimes vegetais e descreveu a flora brasileira, apresentando à ciência moderna uma parcela da natureza desconhecida até então. Além de coletar e descrever as espécies, Carl F. P. von Martius aprendeu e descreveu as línguas indígenas do Brasil, buscando investigar a partir do conhecimento dos povos da floresta o valor medicinal de plantas até então desconhecidas da Ciência (KALTNER, s./d.). Com efeito, Martius é um dos pensadores estrangeiros que, por meio dos seus estudos de botânica, contribuiu na formação de uma identidade que ainda não estava definida e, para isso, utilizou uma das maiores riquezas do país, sua biodiversidade biológica. Capistrano de Abreu (João Capistrano Honório de Abreu – 1853-1927) O historiador cearense Capistrano de Abreu nasceu na cidade de Maranguape em 23 de outubro de 1853 e faleceu na capital do Brasil, o Rio de Janeiro, em 13 de agosto de 1927. É considerado um dos primeiros grandes historiadores do país e sua obra se caracteriza como o estudo do período colonial brasileiro. Uma de suas publicações mais famosas é a tese defendida na ocasião da sua entrada como professor de corografia e história no Colégio D. Pedro II, Descobrimento do Brasil e seu desenvolvimento no século XVI, que se tornou referência na historiografia do país. Ao mesmo tempo, no IHGB, Selo comemorativo ao centenário do nascimento de Capistrano de Abreu Crédito de atribuição editorial: rook76 / Shutterstock.com Capistrano foi admitido como sócio correspondente em 1887, elevando-se à classe dos membros beneméritos em 1917. A despeito desse acolhimento, manteve uma relação ambígua com a agremiação, evidenciada na crítica impiedosa e mordaz, por vezes, aos seus consórcios. [...] Capistrano foi reconhecido por seus pares, e até mesmo louvado, precisamente pelo método de estudos e de pesquisa que praticava, por sua preocupação constante em repertoriar fontes documentais que suprissem as lacunas e inexatidões da história pátria. (OLIVEIRA, Maria da Glória apud NICOLAZZI, 2015, p. ?) Uma das suas características marcantes é a valorização dos textos documentais enquanto testemunhos ou provas autênticas da realidade buscada pelo historiador – o passado. Por um leitor menos atento, o cearense poderia ser até mesmo acusado de um mero empirista, apenas angustiado com a persistência inadmissível de verdadeiras lacunas documentais. No entanto, no entender de Capistrano, ser objetivo não consiste em deixar-se escravizar ao conteúdo dos documentos, mas, sim, em saber relacioná-los com as visões interpretativas do historiador. Cabe a este indagar, propor questões, encaminhar respostas e soluções, ou seja, uma leitura crítica sobre a fonte primeira da história, os documentos. Joaquim Nabuco (Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo – 1849-1910) O pernambucano Joaquim Nabuco nasceu na cidade de Recife no dia 19 de agosto de 1849 e faleceu em Washington (EUA) em 17 de janeiro de 1910. Seu currículo é extenso: político, diplomata, historiador, jurista, orador e jornalista brasileiro, formado pela Faculdade de Direito do Recife. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. Dessa forma, o seu pensamento apresentava características que contribuíram sobremaneira para o desenvolvimento intelectual nacional: Recusando-se a discutir apenas as questões do ponto de vista do sistema ou das instituições políticas, Joaquim Nabuco optou por produzir uma obra onde procurava demonstrar as razões pelas quais os valores do liberalismo não podiam ser implantados no Brasil. Alterava, assim, a natureza das análises que eram produzidas até então, pois buscou evidenciar que os impasses vividos pelo Brasil não estavam relacionados ao modo como se organizavam as instituições políticas, pois o “calcanhar de Aquiles” do país encontrava-se na vigência da escravidão. Nabuco retomava, assim, parte das análises feitas por José Bonifácio, mas o projeto nacional que elaborou foi além daquele proposto por Bonifácio. (PRADO, 2011, p. 131-145). Além da abolição da escravidão, Nabuco lutava pela elaboração de uma reforma agrária no Brasil, inevitável após o fim do trabalho cativo, anunciava o intelectual. O objetivo do historiador era tornar o Brasil uma nação moderna, onde a liberdade vigorasse em sua plenitude. Também um dos seus princípios era o estabelecimento de um sistema educacional público eficiente, além de saúde e previdência. Ampliando o foco Para ter acesso a diversas obras de Joaquim Nabuco, acesse o site da Fundação Joaquim Nabuco. Francisco Varnhagen (Francisco Adolfo de Varnhagen – 1816-1878) Varnhagem é considerado um dos fundadores da historiografia brasileira no contexto de criação de um passado de glórias de um Brasil que precisava de uma identidade e, ao mesmo tempo, se orgulhar dela. Um projeto de nação recémindependente passava pela sua escrita. Uma primeira construção ideológica abrangente, com a idealização do Império brasileiro, tinha Varnhagem como um dos seus alicerces. Com efeito, a produção do historiador tem uma relação direta com a criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). A ele coube a tarefa de pintar um retrato do Brasil encomendado pela Coroa. Crédito de atribuição editorial: rook76 / Shutterstock.com Varnhagen trabalhou com enredos temáticos encadeados cronologicamente. Assim, nos seus escritos, as origens do Brasil remontam à época do Descobrimento. É como se a história do Brasil não existisse antes da chegada dos portugueses. Na sequência, o autor de História geral do Brasil considera a formação do povo, por meio da integração entre negros, índios e brancos. Nesse caso, a herança portuguesa se sobrepunha às demais. No livro, Varnhagen também trabalha com um mito fundador, este relacionado à invasão holandesa. Na visão dele, a união das três raças para expulsar os elementos estrangeiros teria sido o primeiro sinal de nacionalidade. [...] Esses enredos temáticosconstituíram um modelo de cronologia que se tornou constante nos manuais e livros didáticos de história do Brasil elaborados a partir da segunda metade do século XIX e ao longo do século XX. Se consultarmos as obras de autores do naipe de João Ribeiro, João Pandiá Calógeras, Pedro Calmon, Vicente Tapajós, Boris Furtado, entre outros, será possível identificar a presença da grade cronológica temática esboçada por Varnhagen, ainda que inserida em abordagens teóricas, metodológicas e ideológicas distintas. (ALVES FILHO, 2009). Enfim, Francisco Varnhagen pode ser considerado um representante do pensamento aristocrático brasileiro do século XIX. É importante compreender, no entanto, o contexto da produção historiográfica do momento, financiada pelo Estado e com nítida intenção de produção de uma identidade calcada em um passado glorioso. Dessa forma, ele deve ser entendido como um participante do processo político existente no Brasil, onde, dentro dos limites do seu tempo, elaborou sua leituras e interpretações da nação incipiente. Por meio das suas produções, é possível perceber um pouco das características do Brasil oitocentista. UNIDADE 3 Ciência histórica e sua construção ao longo dos séculos XIX e XX · Introdução · Aula 1 · Aula 2 · Aula 3 · Encerramento · Midiateca 1. Como a historiografia brasileira posicionava-se frente a diferentes períodos autoritários da História do Brasil como o Estado Novo e a ditadura militar? 2. Quais são os principais fundamentos do materialismo histórico e da historiografia positivista/metódica? 3. Quais são as principais aproximações e distanciamentos entre a historiografia de Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre e Caio Prado Júnior? · 1 · 2 · 3 · próximo Nesta terceira unidade, abordaremos a historiografia no seguinte contexto: final do período oitocentista e maior parte do século XX. Durante esse período, o Brasil passou por governos autoritários e alterou seu status político de Monarquia para República. Ao mesmo tempo, o mundo também sofreu com duas grandes guerras mundiais, além da bipolarização que o dividiu entre socialistas e capitalistas. Inserida nesse entrave está a historiografia, que também é fruto de um contexto social, político, econômico. Analisar essas questões e a escrita da história desse período é de fundamental importância para a própria compreensão da ciência histórica e do historiador. Objetivos Ao final desta unidade, você deverá ser capaz de: · Conjugar os diferentes interesses e as linhas historiográficas de acordo com a escrita da História e suas filiações de reconhecimento. Analisar como a historiografia é reflexo de políticas e ideologias, da evolução cultural, social e econômica de uma sociedade. Conteúdo Programático Esta unidade está dividida em: · Aula 1 - A historiografia e o autoritarismo no Brasil · Aula 2 - O materialismo histórico e a escola positivista · Aula 3 - Diferentes concepções historiográficas brasileiras Rota de Aprendizagem A Rota de Aprendizagem apresenta as ações que devem ser realizadas nesta unidade. Utilize a Rota de Aprendizagem para planejar e gerir, com eficiência, as suas ações e o seu tempo de estudo. Isso facilitará a construção do seu conhecimento e aumentará a possibilidade de que você tenha um bom desempenho nas avaliações. Clique aqui para acessar a Rota de Aprendizagem. A ilustração abaixo — elaborada por Cícero Dias —, da casa-grande do engenho Noruega, antigo Engenho dos Bois, em Pernambuco, é parte integrante de um clássico da história brasileira denominado Casa grande e senzala, escrito pelo pernambucano Gilberto Freyre (1978). Qual é a relação entre a casa grande e a senzala no Brasil escravista? Como isso se reflete na formação do país e na escrita da história? Que tal investigarmos um pouco mais sobre a historiografia brasileira e mundial e compreendermos as suas peculiaridades e aproximações? Aula 1A historiografia e o autoritarismo no Brasil O Brasil é um país que sempre esteve flertando em sua história com períodos que variavam entre autoritários e democráticos. De toda forma, a historiografia nacional esteve sempre sendo produzida assimilando características de cada momento histórico, analisando e/ou contemplando em distintos períodos. São essas questões que abordaremos a seguir. Estado Novo (1937-1945) Getúlio Dornelles Vargas, o presidente brasileiro durante o Estado Novo. O Estado Novo foi um período autoritário da história do Brasil implantado pelo presidente Getúlio Vargas e perdurou de 1937 até 1945. Vargas determinou o encerramento das Assembleias Legislativas, da Câmara dos Deputados e do Congresso Nacional. Ele também impôs o fim dos partidos e das organizações. Além disso, deu início a uma perseguição política e, em alguns casos, prisão e morte de opositores e inimigos do Estado. Uma das metas do Estado Novo era a constituição de uma identidade nacional. Para isso, alguns artifícios foram usados como a obrigatoriedade da disciplina de Educação Moral e Cívica nas escolas e a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Sphan, entre outros mecanismos. Além disso, a industrialização e a implementação dos direitos trabalhistas mediante a Consolidação das Leis do Trabalho – CLT também são marcas do período, juntamente com o populismo característico de Getúlio Vargas. Com efeito, o “varguismo” ganhou destaque na produção historiográfica brasileira, sobretudo, no que se refere aos anos de 1930 a 1945. As análises referentes aos anos 1930 buscaram recuperar traços de resistência de trabalhadores à nova política trabalhista ou as razões da sua aceitação. Os historiadores debruçaram-se sobre esse novo contexto nacional. Um dos exemplos de produção historiográfica sobre o período foi exposto pela pesquisadora Maria Capelato: A tese de Ângela Castro Gomes sobre a Invenção do trabalhismo explica a adesão dos trabalhadores a essa política varguista a partir da existência de uma “dupla lógica” no processo histórico, que conferiu poderes ampliados ao Estado e possibilidades de intervir na sociedade: se essa adesão, por um lado, pode ser explicada pela lógica material – os interesses nos benefícios trazidos pelo direito trabalhista - , por outro pode ser entendida segundo uma lógica simbólica de formação e mobilização de identidade. Esta última relia os valores e demandas dos trabalhadores, transformando seu atendimento num ato de generosidade que reclamava, implicitamente, reciprocidade. (CAPELATO, 2014, p. 185) Desse modo, a historiografia desse período foi revisitada pelos historiadores brasileiros, que procuraram preencher lacunas que não estavam contempladas no período. Os investigadores passaram a pesquisar principalmente em materiais inéditos que dessem conta de especificidades que até então não estavam sendo postas em pauta. O Estado Novo foi muito fértil sendo objeto na produção de textos de memórias, em que os escritos políticos e discursos foram pouco explorados nas produções anteriores. Um dos temas que mais inspiraram os pesquisadores foram as pesquisas de ordem biográfica — principalmente da figura de Getúlio Vargas — além da produção de sua figura mitológica. Os demais assuntos latentes do período como a revisão do conceito de totalitarismo, propaganda política, construção dos imaginários, controle dos meios de comunicação, concepção de cultura e participação dos intelectuais foram e são temas privilegiados na produção historiográfica sobre o período. Ampliando o Foco Para aprofundar seus conhecimentos sobre História, Política e Historiografia no Brasil nos anos 1930, leia as páginas 159-182 do livro FREITAS, Marcos Cézar (Org.) Historiografia brasileira em perspectiva. 7. ed. São Paulo: Contexto, 2014. Este livro está disponível na Biblioteca Virtual. Ditadura militar (1964-1985) Outro período que tem relevante impacto na história e na historiografia brasileira é a ditadura militar (ou civil-militar, de acordo com alguns autores), que perdurou no Brasil entre os anos de 1964 e 1985. Nesses mais de 20 anos de regime autoritário em um contextoglobal de Guerra Fria, uma série de direitos foram reprimidos e interpretações controversas foram fecundas tanto entre os cidadãos quanto na historiografia que trata sobre o período. Nesse sentido, destaca o historiador Carlos Fico: A abordagem propriamente histórica da ditadura militar é recente. Poderíamos dizer que se trata de uma espécie de movimento de incorporação, pelos historiadores, de temáticas outrora teorizadas quase exclusivamente por cientistas políticos e sociólogos e narradas pelos próprios partícipes. De fato, a literatura sobre o golpe de 64 e o regime que o sucederia ficaria marcada, em uma primeira fase, por dois importantes gêneros. O primeiro foi uma espécie de politologia: inspirados sobretudo pela vertente norte-americana da Ciência Política, muitos estudiosos buscaram explicar e classificar, em termos quase nominalistas, as crises militares de países como o Brasil. [...] O segundo gênero predominante no que poderia ser caracterizado como primeira fase dos estudos sobre o período foi a memorialística, que cresceu sobretudo a partir da distensão política patrocinada pelo governo de Ernesto Geisel. Foi, de algum modo, a primeira tentativa de construção de uma narrativa histórica sobre o período, embora já existisse uma ou outra incursão nesse sentido, especialmente no que se refere ao governo Goulart e sua ruína. (FICO, 2004). Esse é um dos momentos mais fecundos da produção historiográfica brasileira. Existe um significativo número de livros de memória de opositores do regime militar. Além desses livros, há diversos trabalhos acadêmicos nas áreas da Ciência Política, da Sociologia e também da História. Também são comuns reportagens de cunho histórico em jornais alternativos e, ainda, alguns trabalhos de ficção que tematizavam o período em estudo. Para além desses trabalhos, a produção recente sobre o período possui as suas peculiaridades. Novos olhares passaram a fazer parte deste processo que valorizou abordagens inéditas nesse contexto, como estudos que envolvessem indivíduos e não somente classes sociais, seu cotidiano, suas emoções, sua mentalidade, sua trajetória de vida, enfim, a cultura passou, também, a ser abordada nos estudos sobre a ditadura civil-militar que fez parte da história brasileira na segunda metade do século XX. Ampliando o foco Sobre História, Política e Historiografia no Brasil nos anos 1930: BORGES, Vavy Pacheco. Anos trinta e política: história e historiografia. In. FREITAS, Marcos Cezar (Org.). Historiografia brasileira em perspectiva. 7. ed. São Paulo: Contexto, 2014. p. 159-182. Disponível na Biblioteca Virtual. image4.jpeg image5.jpeg image6.jpeg image7.jpeg image8.jpeg image9.jpeg image10.jpeg image11.jpeg image12.jpeg image13.jpeg image14.jpeg image15.jpeg image16.jpeg image17.wmf Introdução image18.png image1.jpeg image19.jpeg image20.jpeg image2.jpeg image3.jpeg