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3 História clínica Lígia Fidelis Ivanovic José Antonio Atta Mílton de Arruda Martins INTRODUÇÃO A história clínica (ou anamnese) é, na maioria das vezes, o primeiro contato do paciente com o médico. A anamnese visa orientar o raciocínio do médico para diagnósticos e prognósticos possíveis, assim como definir a terapêutica mais adequada. Além disso, a maneira como essa história é obtida pode ajudar a consolidar a relação entre o médico e seu paciente, pelo interesse que o médico demonstra e pelo cuidado nos termos empregados. O raciocínio diagnóstico, o cuidado do médico com seus pacientes, a avaliação cuidadosa de diversos aspectos do espectro saúde-doença, tornam o profissional médico insubstituível. A capacidade de raciocínio, a organização das prioridades, a escolha dos caminhos a serem trilhados no processo diagnóstico e terapêutico são qualidades praticamente impossíveis de serem reproduzidas por softwares, por maior que seja o arsenal tecnológico à nossa disposição. Talvez a função mais importante da anamnese seja a obtenção de dados para estabelecer um raciocínio diagnóstico, que guiará todos os caminhos diagnósticos e terapêuticos a serem seguidos. Para estabelecer diagnósticos, o médico faz perguntas e ouve o que o paciente tem a dizer. A experiência clínica e o conhecimento médico agregado durante os anos de prática vão aperfeiçoando esse modo de desenvolver e elaborar diagnósticos. Se observarmos as relações pessoais e profissionais à nossa volta, veremos isso ser usado em vários aspectos da sociedade. Ao levar o carro para o mecânico porque a direção está “puxando” mais para um lado, o mecânico já formula algumas hipóteses (desalinhamento, problemas com amortecedor, etc.) e faz perguntas que ajudam no diagnóstico: “– Passou por algum buraco?” “– Quando foi a última vez que alinhou os pneus?” A mesma coisa fazem as mães (não médicas e médicas) com seus filhos: “– Mamãe, estou com dor de barriga...” “– O que você comeu hoje, meu filho?” É claro que, quanto maior nossa experiência, mais diretas serão nossas perguntas e menos tempo será necessário para formular hipóteses plausíveis. Ao conhecer mais doenças, a queixa de meu paciente me fará pensar em diversos diagnósticos possíveis e, também graças a esse maior conhecimento, ficará mais fácil formular perguntas que me aproximarão mais do diagnóstico. Esse processo é extremamente dinâmico, e novas hipóteses vão sendo feitas com base nos dados obtidos. Mesmo durante a realização do exame clínico, esse processo não é interrompido, pois novas hipóteses podem ser feitas a partir de achados, suscitando novos caminhos diagnósticos. Essa abordagem diagnóstica deve basear-se em dois eixos principais: 1. A exploração da queixa (ou queixas) inicial, com interrogatório detalhado. 2. A utilização de um pensamento epidemiológico, em todos os momentos, considerando as doenças mais prevalentes no segmento populacional específico do paciente. Muitas vezes, no afã de fazer diagnósticos difíceis, negligenciamos as doenças mais comuns. É preciso ter em mente que sempre é mais provável vermos manifestações raras de doenças habituais que apresentações típicas de doenças raras. Um grupo de pesquisadores fez duas pesquisas, a primeira com médicos formados e a segunda com estudantes de medicina. Na primeira pesquisa, médicos de família e internistas foram filmados consultando pacientes com diagnósticos conhecidos (pericardite, úlcera duodenal, neuropatia periférica e esclerose múltipla). A primeira hipótese diagnóstica foi gerada, em média, 28 segundos após ouvir a queixa principal e a hipótese correta foi feita após 6 minutos, em média (o índice de acerto foi de 75% dos diagnósticos), sendo formuladas em torno de 5,5 hipóteses por paciente. Ao mesmo tempo em que geravam possibilidades diagnósticas para esses pacientes, os médicos faziam perguntas e os examinavam para ir descartando e mantendo a sua lista em torno de três hipóteses principais, a qualquer momento da entrevista. Na outra pesquisa, o mesmo tipo de paciente foi consultado por estudantes de medicina de vários anos e a mesma estratégia foi usada por estudantes, mesmo pelos do primeiro ano, sendo as diferenças entre estudantes e profissionais formados quantitativas e não qualitativas. Quanto mais experientes os médicos, mais cedo as hipóteses são formuladas e os dados de história e exame clínico obtidos são mais pertinentes. Muitas vezes, o diagnóstico é feito porque reconhecemos um determinado padrão na apresentação da doença. Exemplo clássico são as lesões de pele, nas quais a experiência do médico é crucial, e as lesões são comparadas com um “banco de lesões” que esses especialistas têm armazenado em seu cérebro. Não só aspectos visuais são reconhecidos, mas qualquer sentido pode ser estimulado para realizar diagnósticos, por exemplo, o odor inconfundível de melena, o timbre de voz de pessoas com hipotireoidismo, a palpação de gânglios abdominais em “saco de batatas”. Esse reconhecimento de padrões pode ser a explicação para o tal “olho clínico” que médicos mais experientes parecem ter. Um jeito um pouco diferente de andar, a maneira de apertar a mão ou se levantar da cadeira, a característica palpatória de determinada massa desperta a lembrança de uma situação já vivida, prontificando a formulação de hipóteses mesmo com poucos dados de história ou do exame clínico. Apesar disso, muitas vezes, médicos experientes não conseguem estabelecer essa relação de causa-efeito e não conseguem explicar para alunos ou médicos em treinamento por que pensaram em determinada hipótese e por que fizeram determinadas perguntas. Outros exemplos são a marcha característica das pessoas com doença de Parkinson, o aspecto esbugalhado dos olhos na exoftalmia de Graves, o odor que pacientes em cetoacidose diabética exalam. Hoje ninguém mais recomenda que seja realizada uma “história completa”. É claro que, por mais completa que seja a história, ela necessariamente deixará de contemplar um ou outro dado, pois é impossível perguntar tudo para todos os pacientes, assim como o exame completo nunca será absolutamente completo, sempre algo ficará faltando. Essa tentativa de ser o mais completo e abrangente possível fazia, também, com que histórias clínicas feitas pelos alunos durassem muito tempo, às vezes horas, tornando-se um fardo para ambos, entrevistado e entrevistador. Esse método não leva em conta as características próprias de cada pessoa, suas queixas específicas e o impacto dessas queixas no seu dia a dia, por isso não deve mais ser utilizado. Interessante notar que mesmo médicos treinados nesse método raramente (ou nunca) o utilizam. PODER DIAGNÓSTICO DA ANAMNESE E DO EXAME CLÍNICO Vários estudos comprovaram o poder da anamnese e do exame clínico para estabelecer diagnósticos. Mesmo com todo o avanço tecnológico em exames de imagem ou de biologia molecular, por exemplo, o uso da capacidade de raciocínio do médico é mais poderoso para estabelecer diagnóstico, prognóstico e plano terapêutico para a maioria dos pacientes e dos lugares de atendimento médico. Em um estudo inglês, Sandler mostrou que, ao final da história clínica, o diagnóstico correto foi feito em 56% dos casos, e em 73% dos pacientes o diagnóstico correto foi feito após história e exame clínico. Estudo semelhante feito em São Paulo por Benseñor et al. obteve resultados semelhantes. Avaliando pacientes que procuraram ambulatório de clínica médica em hospital universitário, Benseñor observou que a anamnese isolada foi capaz de levar a 78,1% dos diagnósticos feitos, após o exame clínico foi possível fazer mais 11,9% dos diagnósticos e os 10% restantes foram feitos após analisar os resultados dos exames complementares solicitados. Qualquer que seja o método empregado para a realização da anamnese, e geralmente mesclamos diferentes técnicas, ao final, devemos formular hipóteses diagnósticas que guiarão a realização dos exames complementares (ou propostas de tratamento) para os diagnósticos finais. Mais que simplesmente listar as hipóteses,é interessante listar os problemas de saúde encontrados, com suas respectivas propostas de intervenção/acompanhamento. Muito mais que somente identificar e tratar as queixas apresentadas pelos pacientes, também é função do médico identificar precocemente doenças com potenciais de intervenção precoce, identificar fatores de risco para doenças mais prevalentes, assim como hábitos potencialmente nocivos, e propor intervenções para essas alterações. Assim, ao final da história, o médico deverá: Reunir os sintomas e sinais apresentados pelo paciente e formular as hipóteses diagnósticas correspondentes, assim como as estratégias diagnósticas e de intervenção. Decidir o que deve ser feito para buscar diagnóstico precoce de doenças que estejam ainda em fase pré-clínica, assintomática (“rastreamento”), no caso de doenças em que esteja comprovado que o diagnóstico nessa fase e consequente tratamento beneficiarão o paciente. Por exemplo, solicitar a dosagem do colesterol sérico em um paciente de 50 anos, ou solicitar uma mamografia em uma mulher de 55 anos, para diagnóstico precoce de câncer de mama. Identificar o que deve ser proposto para aquele determinado paciente a fim de manter e promover sua saúde. Por exemplo, identificar um indivíduo sedentário e propor uma estratégia para iniciar atividade física. ESTRUTURA DA ANAMNESE Além da história clínica em si, outros elementos da anamnese trazem dados importantes para a construção do raciocínio diagnóstico. A primeira parte é a identificação, na qual se anotam dados importantes do paciente, como nome e idade. Na sequência, anotamos a fonte das informações e a confiabilidade, partindo depois para a queixa e sua duração. Logo após a anotação da queixa, iniciamos a história clínica, seguida de interrogatório sobre órgãos e sistemas e dos antecedentes (pessoais e familiares). Os hábitos (nocivos ou benéficos) desse paciente também devem ser anotados (Tabela 1). Identificação Em uma primeira consulta, além da obtenção dos dados importantes para a construção do raciocínio diagnóstico, a identificação serve também como um primeiro contato, deixando o paciente um pouco mais à vontade antes de relatar suas queixas. Serve como um “quebra-gelo”. TABELA 1 Sinopse das etapas da anamnese Etapas Dados Identificação Nome Idade Sexo Origem étnica (raça/cor) Profissão Local de nascimento e procedência atual Religião Grau de escolaridade Estado civil Fonte da história e confiabilidade Quem fornece as informações e se são fidedignas Queixa principal (ou queixas) e duração História da moléstia atual Impacto da condição de saúde/doença na funcionalidade da pessoa Alterações de funcionalidade e da qualidade de vida relacionadas às condições de saúde e doença TABELA 1 Sinopse das etapas da anamnese Etapas Dados Antecedentes pessoais Doenças pregressas (enfatizar as que tenham influência no quadro atual, as mais prevalentes e as que representem fatores de risco ou morbidade) Medicações em uso atual ou prévias, incluindo não prescritas Tratamentos realizados e adesão a eles Traumas, procedimentos cirúrgicos e obstétricos Internações prévias Imunizações Alergias e intolerâncias a medicações e alimentos Hábitos fisiológicos: intestinal, menstrual Sono Antecedentes familiares Doenças prevalentes e com hereditariedade – grau de parentesco Doenças infecciosas Alergias Hábitos e vícios Tabagismo atual ou pregresso, passivo Álcool Substâncias psicoativas Atividade física Alimentação Exposição solar Risco de acidentes Exposição a infecções sexualmente transmissíveis e medidas de proteção Visitas ao dentista Histórico sexual Orientação sexual, identidade de gênero, histórico de violência, satisfação sexual, preocupações Histórico social e familiar Situação familiar, moradia Rede de apoio social Relações sociais e de trabalho Interrogatório sobre órgãos e sistemas Sintomas gerais e constitucionais Pele Sistema nervoso Psiquismo Olhos Ouvidos Nariz Boca e garganta Pescoço Mamas Tórax Sistema respiratório Sistema cardiocirculatório Sistema digestório Sistema urinário Sistema genital feminino Sistema genital masculino Sistema vascular Sistema musculoesquelético articular Sintomas endócrinos Outros sintomas Além do nome, perguntamos ao paciente sua idade, o sexo, sua origem étnica, sua profissão, local de nascimento e procedência atual, sua religião, grau de escolaridade e estado civil. Sexo biológico (nascimento) e idade São fundamentais para situar a pessoa em estratos epidemiológicos, já delimitando alguns acometimentos mais comuns a esses grupos e, também, sugerindo possíveis condutas para rastreamento de doenças e medidas de promoção de saúde. Etnia Em um país como o Brasil, a miscigenação torna difícil estabelecer com tranquilidade a origem étnica de várias pessoas, confundindo às vezes o raciocínio diagnóstico. Mais do que confiar na sua avaliação visual, é fundamental inquirir o paciente quanto às suas origens étnicas, pensando em possíveis doenças mais comuns em determinados grupos (anemia falciforme em afrodescendentes, talassemia em oriundos de países mediterrâneos, doença celíaca em judeus etc.). Vale a pena lembrar que, no Brasil, temos pouquíssimos estudos clínicos com grupos étnicos, e a maioria das descrições sobre variações étnicas vem de publicações de países europeus ou da América do Norte, dificultando sua utilização no Brasil (p. ex., a maior incidência de hipertensão arterial em afrodescendentes foi muito estudada nos EUA, mas não temos dados brasileiros sobre isso, muito menos sobre a influência da miscigenação). Profissão A exposição profissional deve sempre ser considerada. Associações entre grupos profissionais e doenças estão muito bem estabelecidas, e esse dado pode facilitar muito o raciocínio. Não basta perguntar a profissão ou em que ramo produtivo o paciente trabalha; precisamos saber mais detalhes de sua vida profissional para poder avaliar possíveis riscos (se é secretária, quantas horas em média passa digitando? Se é trabalhador da indústria, qual o grau de exposição a irritantes respiratórios ou substâncias carcinogênicas?). Procedência Em um país de dimensões continentais, é muito importante conhecermos a origem geográfica de nosso paciente, assim como os locais por onde morou na vida. Esse dado, aliado ao conhecimento de algumas doenças mais prevalentes nas regiões do país (principalmente doenças infecciosas), pode também facilitar a elaboração do raciocínio diagnóstico. Além disso, saber sobre recentes viagens pode nos ajudar quando suspeitamos de doenças contagiosas, por exemplo, região Norte e malária, região Centro-Oeste e febre amarela. Religião Apesar de raramente ser fator de risco para doenças (lembrar que alguns ritos religiosos pedem o consumo de substâncias com potencial tóxico), a relação das pessoas com seus grupos religiosos pode influir no processo saúde-doença, por facilitar ou dificultar a tomada de medicamentos ou limitar o uso de determinados procedimentos diagnósticos ou terapêuticos. Escolaridade O conhecimento da escolaridade pode auxiliar na escolha de como perguntar ou relatar fatos a nossos pacientes. É obrigação do médico usar linguajar acessível aos pacientes, e, eventualmente, esse conhecimento sobre a escolaridade nos faz mais cuidadosos para escolher termos e expressões que melhor explicarão o que queremos transmitir. Estado civil É importante aqui descrever não a situação legal da pessoa, mas sim sua situação real, se tem companheiro estável ou não, quantas pessoas compõem o núcleo familiar. Fonte da história e confiabilidade Na maioria das vezes, ao fazer a anamnese de adultos, o próprio paciente é a fonte da história, mas em algumas situações outra pessoa pode ser a fonte dos dados, por exemplo, o caso de pessoas muito doentes e enfraquecidas, que não conseguem nem falar adequadamente, ou pessoas com confusão mental. Outras vezes, ainda, o médico e o paciente não falam a mesma língua, necessitando de um tradutor. Quer seja a própria pessoa a relatar, quer seja seufamiliar ou acompanhante, deve-se sempre registrar a confiabilidade dos dados obtidos (“História relatada pelo próprio paciente, bom informante”, “História obtida através de filho que não mora com a mãe”). Queixa principal (ou queixas) e duração Após os dados da identificação, deve-se perguntar ao paciente o motivo que o trouxe para atendimento médico. Muitas vezes, o paciente vai relatar sintomas como o motivo de sua vinda (p. ex., tosse e febre, ou tontura, ou ainda dor de cabeça), outras vezes, preocupações (quer parar de fumar, quer emagrecer, quer saber se a saúde está em ordem), ou, ainda, procura atenção médica por encaminhamento (avaliação de risco pré-operatório, avaliação de alterações de exames diagnósticos). Essa parte da anamnese deve ser bem curta, e serve mais como o título de um capítulo do que como um resumo da história. Pode ser escrita tanto com o linguajar habitual como em termos médicos. Não deve ser escrita como diagnóstico, pois a essa altura ainda não se tem um diagnóstico preciso. Evitar, por exemplo, “enxaqueca há um dia”, preferindo usar “dor de cabeça (ou cefaleia) há um dia”. História da moléstia atual Após o registro da queixa principal, iniciamos a história do paciente, que deve possibilitar um aprofundamento da queixa (ou queixas), assim como fornecer dados relevantes obtidos durante essa conversa. Deve-se perguntar (e registrar) sobre o início dos sintomas, como evoluíram e como estão no momento, o aparecimento de outras alterações no período, de maneira meticulosa, perguntando e esclarecendo todos os detalhes pertinentes. Apesar de ser relatada pelo paciente, a história é coletada pelo médico e por ele deve ser anotada, seguindo uma ordem cronológica e procurando dar sentido e encadeamento aos fatos. É interessante que o observador faça suas anotações após ouvir a história. Com isso, consegue-se dar uma ordenação cronológica mais pertinente, além de poder esclarecer pontos obscuros, tornando a história mais clara e linear para quem for lê-la. Além disso, o hábito de primeiro ouvir e perguntar e depois anotar, apesar de encompridar um pouco a entrevista, permite que o observador se concentre mais no que está sendo falado e propicia um contato visual constante, o que pode ajudar a verificar informações não verbais (expressões faciais, posturas) que, de outro modo, poderiam se perder, sem contar o ganho na relação médico-paciente. De modo geral, todos os dados pertinentes à queixa principal devem estar nessa parte da anamnese. Além disso, dados positivos ou negativos, relativos ao órgão ou sistema investigado a partir da queixa principal, devem ser inseridos na história da doença atual. Deve-se evitar ao máximo fazer um relato das visitas feitas pelo paciente a outros médicos e hospitais (“Passou com o Dr. X no hospital do bairro Y, sendo medicado com Z”), principalmente se for muito extenso, devendo-se fazer um resumo dessas ocorrências (“Procurou vários especialistas, sem solução do quadro”, “Após passar por dois hospitais, foi medicado com o medicamento W, com melhora parcial”). Também devem estar na história possíveis repercussões da doença atual sobre aspectos sociais, profissionais, familiares, psicológicos e espirituais. Perguntar sobre possíveis limitações de suas atividades por incapacidade ou por temores associados à queixa. ALGUNS CUIDADOS A SEREM TOMADOS Use perguntas abertas. Isso permite ao paciente discorrer mais espontaneamente, obtendo- se mais detalhes que poderiam não ser obtidos por perguntas fechadas (preferir: “O que você está sentindo?” ou “Descreva como é a sua dor” a perguntas fechadas como “Sua dor é forte ou fraca?” ou “O catarro estava amarelo ou avermelhado?”). Evite histórias muito longas. Faça uma transcrição objetiva e sintética das informações obtidas. Ordene cronologicamente. Deixe claras as possíveis relações de causa e efeito. Escreva de forma legível. Esse é um problema com tendência a desaparecer com o uso cada vez maior de formas eletrônicas de registrar os dados. Lembre-se de que é um documento médico, deve ficar claro para qualquer pessoa que vá lê-lo, e não só para você. Não use de maneira exaustiva as expressões “o paciente refere” ou “o paciente conta”, bem como a expressão “sic”. Impacto da condição de saúde/doença na funcionalidade da pessoa As doenças ou alterações no estado de saúde das pessoas podem ocasionar perdas na sua funcionalidade. Assim, perguntar: “O que o(a) senhor(a) deixou de fazer em razão de sua condição atual de saúde?” Isso fornece uma visão do impacto da doença na vida da pessoa. Antecedentes pessoais Após a história clínica, vêm as seções que vão colocar em contexto nossos pacientes, seus potenciais riscos genéticos e hábitos de vida, as dificuldades que problemas de saúde causam ou causaram em sua vida, como é sua interação com sociedade, família, amigos e religião. Assim, essa ordem não precisa ser estrita, pode (e deve) ser modificada conforme as conveniências do entrevistador e rotinas do serviço. Perguntamos sobre os antecedentes médicos de nosso paciente para obter as seguintes informações: Doenças pregressas (já resolvidas ou em curso) que possam ter influência no quadro atual. Dar especial ênfase a doenças prevalentes e que são importantes fatores de risco ou de morbidade (depressão, transtornos ansiosos, tuberculose, hipertensão arterial, diabete, dislipidemia, doenças cardiovasculares, asma, doença pulmonar obstrutiva crônica). Medicações em uso, não só as de prescrição mas também as de uso comum (analgésicos, anti-inflamatórios, antialérgicos, descongestionantes, antiespasmódicos, anticoncepcionais orais). Não esquecer de outros tratamentos que poderiam interferir em medicações prescritas (chás, remédios naturais, florais). Descrever tratamentos realizados para as doenças crônicas já diagnosticadas previamente (como hipertensão arterial e diabete, p. ex.) e adesão às terapêuticas prescritas. Procedimentos cirúrgicos e obstétricos, inclusive exames de pré-natal, assim como história de traumas, com detalhes de tempo de internação, procedimentos realizados etc. As consultas de pré-natal são, para muitas pacientes, as únicas consultas médicas por elas realizadas, sendo, por isso, um bom momento para detectar diabete, hipertensão, infecções sexualmente transmissíveis etc. Consultas de rotina para rastreamento de doenças prevalentes (incluindo papanicolaou e mamografia para mulheres). Anotar valores e a última vez em que foram realizadas glicemia de jejum e dosagem do colesterol e suas frações. História vacinal. Adultos também devem ser vacinados regularmente dependendo de sua faixa etária, doenças concomitantes, presença de condição geneticamente determinada (como na síndrome de Down), atividade profissional, programação de viagens para áreas endêmicas ou presença de comorbidades. Alergias e intolerâncias a medicações e alimentos. Procurar estabelecer vínculos de causa-efeito. Mesmo que os dados não sejam concludentes, vale a pena deixar o registro (histórias de alergia à dipirona e à penicilina, por exemplo, muitas vezes não se sustentam após um interrogatório cuidadoso sobre os sintomas apresentados e a temporalidade). Hábitos fisiológicos, menstruação (perguntar sobre o início das menstruações e o aparecimento da menopausa), hábito intestinal e se houve modificação na atual doença. Perguntar como é o sono, se há ronco, sonolência diurna, dificuldade para iniciar o sono, acordar durante a noite, insônia. A prevalência de distúrbios do sono é elevada, e muitos dos problemas clínicos prevalentes são influenciados por esse fato. Perguntar sempre sobre o humor, em razão da elevada prevalência de depressão. Duas perguntas devem sempre ser formuladas: “Nas últimas duas semanas, você tem se sentido para baixo, deprimido, sem esperança?” e “Nas últimas duas semanas, você tem sentido pouco interesse ou prazer nas coisas?”. Perguntar sobre a vida sexual. Uma forma de perguntar é simplesmente: “Como é a sua vida sexual?”. Lembrar sempre que uma das importantes funções do médicoé a de educador; portanto, esclarecer sobre dúvidas diagnósticas, nesse momento, também deve fazer parte de nossa rotina. Antecedentes familiares Além do contexto do próprio paciente no processo saúde-doença (avaliado nos antecedentes pessoais e hábitos), é importante conhecer sua carga genética, que tanto pode influir no processo atual como ser motivo de orientações de saúde. A avaliação dos antecedentes familiares permite aprofundar a relação médico-paciente e compreender o impacto médico, social e emocional das doenças em uma determinada família. Devemos perguntar sobre parentes de primeiro grau: pais (se estão vivos; em caso positivo, se há doenças com potencial de transmissão genética. Se não, com que idade faleceram e por quais motivos) e filhos; parentes de segundo e terceiro graus: irmãos, meios-irmãos, tias, tios, sobrinhas, sobrinhos, avós e netos, principalmente no que concerne a doenças prevalentes e com hereditariedade (hipertensão arterial, diabete melito, dislipidemia, doença cardiovascular, cânceres de cólon, mama, colo de útero). Na suspeita de condição clínica de caráter hereditário, devemos aprofundar a anamnese para um maior número de gerações. Também devemos conhecer a história da família próxima em relação a doenças infecciosas, por exemplo, tuberculose, e doenças de transmissão sexual em parceiros (hepatite B, sífilis, HIV). Histórias alérgicas na família também podem ter importância no processo saúde-doença (asma, rinite alérgica, dermatite seborreica). Hábitos e vícios Nossos hábitos de vida influenciam muito o processo saúde-doença, tanto para um lado quanto para outro. De novo, além das funções de diagnosticar e propor tratamentos, é função do médico educar seus pacientes e procurar fatores (principalmente os evitáveis) que possam causar morbidade atual ou no futuro. Nessa seção também podemos incluir os ciclos fisiológicos, como hábito intestinal e ciclo menstrual, mas geralmente eles estão mais bem localizados na história ou no interrogatório sobre órgãos e sistemas. Assim, devemos, em todas as consultas iniciais, perguntar sobre: Tabagismo atual ou pregresso: importante saber a quantidade diária de cigarros consumidos e o tempo de uso, tanto para fumantes atuais quanto para ex-fumantes. O tipo de tabaco utilizado também é importante (cigarros com ou sem filtro, cigarrilhas, charutos, cachimbo, fumo de corda, fumo de mascar). Quantifica-se o uso de cigarros utilizando a unidade maços/dia/ano (comumente expressa como maços/ano), ou seja, quantos maços de cigarros a pessoa fuma a cada dia, multiplicado pelos anos de uso (p. ex., 10 anos de consumo de 1 maço por dia é igual a 10 maços/ano; 2 maços e meio por dia por 18 anos é igual a 45 maços/ano). Tabagismo passivo: de difícil quantificação, mas reconhecido fator de risco para doenças pulmonares e cardiovasculares. Perguntar se existem fumantes em casa, se fumam em ambientes comuns, quanto tempo o paciente passa diariamente nesses ambientes, se o cônjuge fuma no quarto e se há fumantes no ambiente de trabalho (perguntar sobre ventilação, ar-condicionado etc.). Consumo de álcool: diferentemente do uso de cigarros, no qual uma quantidade muito pequena já aumenta o risco de doenças, o consumo de bebidas alcoólicas em pequena quantidade provavelmente não tem impacto prejudicial à saúde. Assim, devemos perguntar sobre a regularidade do consumo, a quantidade diária e o tipo de bebida. Usa- se muito a expressão “etilismo social”, o que é um erro, pois etilismo tem definição muito clara, ou pela quantidade de álcool ingerida ou pela influência do álcool na vida da pessoa. Nesses casos (consumo eventual de bebidas sem preencher diagnóstico para transtornos relacionados ao álcool), deve-se usar “consumo eventual de bebidas alcoólicas” ou expressão similar. Consumo de substâncias psicoativas (legais ou não): desde tempos imemoriais, a humanidade se serve de substâncias psicoativas para diversos fins, incluindo recreativos e religiosos. Muitas dessas substâncias (senão todas) podem causar danos à saúde, além de seu potencial de dependência física e psíquica. Mesmo o uso eventual dessas substâncias pode causar danos diversos. O uso, mesmo recreativo, deve sempre ser perguntado, inclusive a frequência e a quantidade. Entre as substâncias mais usadas pelos brasileiros estão a maconha, a cocaína (em suas diversas formas) e os anorexígenos, assim como as drogas relativamente novas produzidas em laboratórios (ecstasy, MDMA, ácido). As drogas mais comuns, como maconha e cocaína, já são relativamente bem estudadas, e vários de seus danos potenciais são conhecidos, mas drogas novas e de pouco uso têm poucos estudos de peso realizados. Atividade física: deve-se perguntar sobre a prática de atividade física, tanto no trabalho quanto no lazer ou para promoção da saúde. No trabalho, saber quanto do tempo é expendido sentado ou com pouca movimentação, e quanto tempo caminhando ou realizando outras atividades (carregar pesos, subir escadas). Anotar também qual a frequência (e duração) diária ou semanal de atividades, como corrida, caminhada, natação, bicicleta, musculação, dança etc. Alimentação: devemos perguntar sobre a frequência diária de refeições e a qualidade. Avaliar, também, a quantidade relativa de alimentos não processados e alimentos ultraprocessados. Grau de exposição ao sol e uso regular de protetor solar. Grau de exposição a situações de risco de acidentes e uso de medidas protetoras, como uso de cinto de segurança no carro, posse de arma de fogo em casa, envolvimento em atividades e grupos expostos (torcidas uniformizadas, procura de pontos de venda e consumo de drogas ilícitas, envolvimento em brigas de trânsito ou de convivência etc.). Exposição a infecções sexualmente transmissíveis e uso de medidas de proteção: perguntar sobre o número de parceiros(as) sexuais nos últimos anos e sobre sexo sem proteção. Questionar sobre o comportamento sexual quando está sob a influência de álcool e o grau de exposição a riscos nesses momentos. Frequência de visitas ao dentista e medidas tomadas nas consultas, assim como frequência de escovação de dentes, língua e bochechas. História sexual A saúde sexual é parte da saúde e bem-estar gerais do indivíduo e tem influência na felicidade e longevidade. Incluí-la na anamnese de forma proativa permite a adoção de medidas preventivas e terapêuticas para infecções sexualmente transmissíveis (IST); identificar a presença de disfunção sexual, que pode ser secundária a doenças orgânicas, psiquiátricas ou ainda a medicações prescritas; orientar para fertilidade e gravidez, além de dar suporte e orientação para questões relacionadas a orientação sexual e identidade de gênero. Em algumas situações, podemos nos sentir desconfortáveis ou recear gerar desconforto para o(a) paciente. Assim, uma forma de iniciar o assunto na consulta poderia ser explicando ao paciente que “a saúde sexual faz parte da saúde geral das pessoas, e algumas perguntas fazem parte dessa avaliação”, sempre garantindo o sigilo e confidencialidade das informações recebidas. Preferir perguntas que não infiram orientação sexual ou condição conjugal, por exemplo, perguntar número de parceiros(as) em vez de indagar se é casado(a) ou se tem namorado(a). Uma regra mnemônica proposta pelo CDC (Centers for Disease Control and Prevention) para as perguntas da história sexual com enfoque na avaliação de risco é a dos 5 P: parceiros, práticas, proteção para IST, passado de IST, prevenção de gravidez. Para a avaliação do bem-estar sexual seria acrescido um sexto P (plus), que englobaria: orientação sexual, identidade de gênero, histórico de violência, satisfação sexual, preocupações que o(a) paciente e/ou parceiro(a) tenham (como libido, orgasmo, lubrificação, dor, p. ex.). História social e familiar Nessa parte, fazemos as perguntas necessárias para apreender as relações sociais e familiares do paciente, perguntando sobre a situação familiar (quantas pessoas moram na casa, qual o grau de parentesco, como é o uso dos aposentosda casa, como estão as relações familiares etc.) e um pouco sobre a rede de apoio social com a qual essa pessoa conta (participação em sociedades, como Rotary, grupos esportivos, centros comunitários da prefeitura ou ligados a igrejas). As relações sociais e de trabalho também devem ser objeto da entrevista, pois muitas vezes as queixas de nossos pacientes podem ser reflexo de descontentamentos no ambiente profissional ou familiar, repercutindo em sintomas. Nessa parte, podemos também aprofundar as questões sobre a vida espiritual e religiosa do paciente (se pertence a alguma religião, como a pratica, qual a frequência de comparecimento a cultos e eventos religiosos, crenças religiosas que possam afetar o processo saúde-doença). A forma como o paciente se relaciona em seu trabalho, na sociedade ou em família pode ser determinante de problemas atuais ou futuros de saúde. Assim, é interessante saber como é sua capacidade de lidar com situações estressantes, quais medidas toma para relaxar, como e com que frequência realiza atividades de lazer, quantas vezes por ano tira férias, capacidade de lidar com problemas. Interrogatório sobre órgãos e sistemas Às vezes é inserido logo após a história da doença atual, mas pode também ser a última etapa da anamnese. Seu tamanho vai depender muito da clareza e da precisão da história, pois, se foi bem desenvolvida, permitindo a realização de hipóteses diagnósticas consistentes, o interrogatório pode ser muito curto, só uma complementação. Em outros pacientes, principalmente quando a história é curta e pouco esclarecedora, um extenso interrogatório se torna necessário para tornar as hipóteses diagnósticas mais concretas. De modo geral, deve-se fazer perguntas sobre alterações nos sistemas e órgãos, principalmente as relacionadas temporalmente com a queixa principal. Tenha uma sistemática própria de perguntas para evitar esquecimentos e ser o mais abrangente possível, sem esgotar sua paciência e a de seu paciente. A seguir, sugestões de algumas perguntas a serem feitas no interrogatório, lembrando que essa lista não deve ser usada de forma sistemática. Sintomas gerais e constitucionais: variação do peso, alteração do padrão de sono, febre, cansaço, sudorese, alterações do apetite, aparecimento de icterícia, cianose. Pele: aparecimento de manchas, erupções, alterações da coloração, mudanças nos pelos e cabelos, mudanças nas unhas, nódulos, úlceras, ressecamentos, pruridos. Sistema nervoso: cefaleia, tontura, alterações de marcha, esquecimentos, parestesias e outras alterações da sensibilidade, alterações de força muscular, falta de coordenação motora, paralisias, síncopes, tremores, convulsões. Psiquismo: alterações do humor, alterações de sono e apetite, irritabilidade, dificuldade de concentração, agitação motora, astenia, pensamentos repetitivos, ansiedade, medo, apreensão de difícil controle. Olhos: acuidade visual, uso de lentes corretoras, cirurgias corretoras, vermelhidão, dores oculares e periorbitais, lacrimejamento, ressecamento, prurido, fotofobia, perturbações do campo visual, visão dupla, manchas no campo visual. Ouvidos: alterações da acuidade auditiva, zumbidos, prurido ou dores em canal auditivo, secreção, vertigens. Nariz (e seios paranasais): sangramento nasal, prurido, secreções, obstrução nasal, desvio de septo, diagnóstico prévio de rinite ou rinossinusite, diminuição ou alterações do olfato. Boca e garganta: alterações do paladar, lesões em mucosa oral e língua, dificuldade de fala, sangramentos gengivais e gengivites de repetição, uso de próteses dentárias, alterações da salivação, rouquidão e dores de garganta, dor à mastigação. Pescoço: aparecimento de caroços, dificuldade de movimentação, problemas relacionados à tireoide. Mamas: caroços, nódulos, alteração dos mamilos, saída de secreção mamilar (atenção: homens também). Tórax: dores torácicas, traumas, abaulamentos, alterações de pele. Sistema respiratório: dispneia, chiados, tosse, secreção, hemoptise. Sistema cardiocirculatório: dispneia de esforços ou de decúbito, dispneia paroxística noturna, dores precordiais, palpitações, sintomas sincopais, edema periférico. Sistema digestório: alterações do paladar ou da deglutição, disfagia e odinofagia, azia, queimação retroesternal, náuseas e vômitos, eructação, regurgitação (relacionada ou não ao decúbito), intolerâncias alimentares, hematêmese, sintomas dispépticos, empachamento, alterações do hábito intestinal, aspecto e coloração das fezes, cólicas abdominais, presença de hemorroidas, sangramento anal, prurido anal, melena, flatulência, puxo, tenesmo, incontinência fecal. Sistema urinário: alterações do hábito urinário, variações na quantidade ou coloração da urina, sangramento urinário, cólicas em flancos e fossas ilíacas, interrupção da urina, dificuldade para iniciar a micção, hesitação urinária, desconforto, disúria, polaciúria, nictúria e noctúria, diminuição do jato urinário, incontinência urinária, gotejamento terminal, infecções de repetição. Sistema genital feminino: alterações do hábito menstrual, data da última menstruação, sangramentos genitais, dismenorreia e tensão pré-menstrual, prurido vaginal, úlceras e secreções vaginais, dor às relações sexuais, alterações na libido, alterações no tempo para atingir o orgasmo (prolongamento ou encurtamento). Sistema genital masculino: feridas, úlceras, secreção peniana, aparecimento de tumorações testiculares, alterações na libido, aparecimento de disfunção erétil, prolongamento ou encurtamento do tempo ejaculatório. Sistema vascular: dor ao caminhar, varizes em pernas, edema e alteração na coloração das pernas, palidez cutânea. Sistema musculoesquelético articular: dores musculares, cãibras, fraquezas, movimentos involuntários, dificuldade em realizar movimentos, edemas articulares e periarticulares, rigidez articular, rigidez matinal, lombalgia, ombro dolorosos. Sintomas endócrinos: polidipsia, polifagia, emagrecimento sem alteração de apetite, intolerância ao frio ou ao calor. Outros sintomas: sangramentos fáceis, petéquias, infecções de repetição, equimoses, alergias. Ao final do interrogatório, sempre fazer perguntas abertas que deixem o paciente à vontade para incluir tópicos que ainda não tenham sido abordados ou que ele sinta necessidade de aprofundar, como: “Tem mais alguma coisa que o(a) senhor(a) gostaria de discutir/comentar?”; “Sente algo mais que eu não tenha perguntado?”; “Algo mais o(a) perturba que o(a) senhor(a) gostaria de discutir?”. Atenção: a anotação da história é uma fonte importante de informações para outras pessoas que também vão atender em algum momento o seu paciente e fará parte do prontuário dele. Portanto, deve-se tomar cuidado especial ao escrever a história, para que fique legível e preferencialmente sem o uso de siglas ou abreviaturas (siglas muito em uso em um hospital podem ser completamente desconhecidas por médicos ou estudantes de outras instituições, o que tornará a sua história clínica difícil de ser entendida por outros médicos). Além disso, as anotações médicas são documentos oficiais e podem ser requisitadas em processos judiciais, por isso, além de legíveis, não devem conter, sob forma alguma, rasuras. Outro problema habitual no preenchimento da história clínica é a ausência da data da observação, inclusive o ano (em hospitais universitários, boa parte dos atendimentos é feita por residentes e alunos que passam poucas semanas ou meses nos estágios, e ao anotarem os dados podem se esquecer de mencionar o ano em que a observação está sendo feita). RETORNOS AMBULATORIAIS E ANOTAÇÕES DA INTERNAÇÃO Após uma primeira consulta em ambulatório, a grande maioria dos pacientes faz consultas de retorno, tanto para avaliação dos exames subsidiários solicitados quanto para avaliação do tratamento proposto e acompanhamento das doenças crônicas. Se nessa primeira consulta fizemos uma avaliação exaustiva de sua queixa atual, de seus problemas de saúde e de seus hábitos (potencialmente prejudiciais ou benéficos à manutenção do bem-estar físicoe psíquico), nas consultas subsequentes verificaremos os tratamentos propostos, a adesão a esses tratamentos, novas queixas que surgiram, aparecimento de efeitos secundários ao tratamento proposto etc. As rotinas de cada serviço variam, mas, de forma geral, as anotações de retorno ambulatorial devem conter alguns dados que são comuns. Uma boa anotação deverá ter inicialmente a data da observação, a identificação do paciente e, após a identificação, a lista dos diagnósticos (atuais, pregressos ou ainda sob investigação) e a medicação em uso. Na sequência, pergunta-se como foi a evolução sintomática do paciente desde a última consulta, se houve aparecimento de novos problemas, como foi a adesão ao tratamento proposto, aparecimento de efeitos colaterais, consultas com outros profissionais e suas conclusões etc. Após essa conversa, devemos examinar o paciente, anotar o exame clínico e, então, verificar os exames subsidiários solicitados, anotando-os. Se, após essas etapas, novas hipóteses forem feitas, também deverão ser anotadas, e, por último, deve-se traçar o plano terapêutico e o diagnóstico, finalizando com nome legível e assinatura. É interessante ter, dentro da rotina dos serviços, algum lugar para anotar, de forma bem evidente e de fácil acesso, os exames preventivos e vacinações realizados, além dos resultados, favorecendo lembrar-se de quando solicitá-los novamente. Em pacientes internados, também devemos seguir rotinas que facilitem o preenchimento e permitam, mesmo em uma olhada rápida, obter o máximo de informações. Deve-se seguir um roteiro de anotações semelhantes, incluindo data, identificação do paciente, há quanto tempo está internado. Se for paciente internado em unidade intensiva ou de enfermarias cirúrgicas, anotar também há quantos dias está nessa unidade e qual o dia de pós-operatório, se for o caso. Em seguida, devemos anotar os diagnósticos e problemas desse paciente, as medicações em uso e as medidas fisiológicas feitas no período (diurese, variação da pressão e da temperatura, balanço hídrico e eletrolítico, dentre outros), quando pertinentes. Se o paciente estiver consciente e se comunicar, anotar como passou desde a última observação, prestando atenção a sintomas (já existentes ou novos) e estado de humor. A seguir, fazer e anotar o exame clínico, registrando depois os resultados dos exames laboratoriais solicitados e de possíveis consultas realizadas, finalizando com suas impressões diagnósticas e condutas a serem tomadas. MÉTODO CLÍNICO CENTRADO NA PESSOA Existem muitos modelos de abordagem para o acompanhamento sistemático e longitudinal de um paciente por um médico, independentemente do número necessário de retornos ao ambulatório ou ao consultório. Um método que consideramos muito adequado é o método clínico centrado na pessoa (ou centrado no paciente), que se propõe a atender tanto às expectativas dos pacientes como dos médicos. A abordagem centrada na pessoa coloca o indivíduo no centro de seu contexto, de sua história, de sua família, de suas forças e fragilidades; transforma o modelo de cuidado no qual o paciente é passivo para outro no qual a pessoa tem papel ativo no seu cuidado e no processo decisório da terapêutica. O método clínico centrado na pessoa tem seis componentes: 1. Explorar a doença e a experiência da pessoa em estar doente 2. Entender a pessoa como um todo, inteira, e não como uma doença ou um órgão doente 3. Elaborar um projeto comum ao médico e à pessoa para solução e acompanhamento de todos os problemas 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 4. Incorporar a promoção da saúde e a prevenção à prática diária 5. Intensificar a relação médico-paciente 6. Ser realista O primeiro componente desse método envolve a compreensão de dois conceitos, a doença e a experiência da pessoa com essa doença. Na língua inglesa, tradicionalmente duas palavras diferentes são utilizadas: disease, como a doença, e illness, como a experiência da pessoa com essa doença. Na abordagem da experiência da pessoa com a doença, são propostas quatro dimensões a serem abordadas: 1. Suas ideias sobre o que está errado. 2. Seus sentimentos, especialmente medos gerados pela doença. 3. Os impactos da doença sobre sua vida. 4. As expectativas sobre o que deve ser feito. Esse modelo envolve empatia; respeito às crenças, ao valores e às escolhas; estar presente e ter comprometimento, dedicando o tempo necessário para escutar e compreender a necessidade da pessoa; parceria e confiança mútua; adequada comunicação; decisão compartilhada, incluindo empoderamento e autonomia; foco holístico que considera o papel do contexto em que a pessoa está inserida; foco indivilualizado que considera a vida da pessoa e suas preferências; cuidado coordenado entre os profissionais de saúde, de forma interprofissional colaborativa. O objetivo final do cuidado centrado no paciente e na pessoa é uma vida funcional e repleta de significado. BIBLIOGRAFIA Barrows HS, Norman GR, Neufeld VR, Feightner JW. The clinical reasoning of randomly selected physicians in general medical practice. Clin Invest Med. 1982;5:49. Bennett RL. The family medical history. Prim Care Clin Office Pract. 2004;31:479-95. Benseñor IJM. 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