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Resumo	Aprofundado	de	Semiologia:	Orelha,	Nariz,	Boca,
Faringe	e	Laringe
Fontes	 utilizadas:	 Porto,	 C.C.	 Semiologia	 Médica,	 8ª	 ed.	 (2019)	 —	 Seções	 de	 Orelhas,	 Nariz	 e	 Seios	 Paranasais,	 Boca	 e
Faringe	 e	 Laringe;	 Arruda	 Martins,	 M.	 Semiologia	 Clínica	 —	 capítulo	 de	 Exame	 Físico	 da	 Cabeça	 e	 Pescoço;	 Bates,	 B.
Propedêutica	Médica,	12ª	ed.	—	capítulo	de	Cabeça,	Olhos,	Orelhas,	Nariz	e	Garganta.
Compilado	e	sintetizado	para	fins	de	estudo	em	17/09/2026.
Sumário
1.	 Orelha
2.	 Nariz	e	Seios	Paranasais
3.	 Boca	e	Língua
4.	 Faringe
5.	 Laringe
6.	 Glossário	Consolidado
Capítulo	1	—	Orelha
1.1	Anatomia	e	Fisiologia
A	orelha	divide-se	classicamente	em	três	compartimentos	—	orelha	externa,	orelha	média	e	orelha	interna	—,	cada	um	com
função	específica	dentro	da	via	auditiva	e	do	sistema	do	equilíbrio.
A	 orelha	 externa	 é	 formada	 por	 duas	 partes:	 o	 pavilhão	 auricular,	 fixado	 lateralmente	 à	 cabeça,	 e	 o	meato	 acústico
externo	(MAE),	que	se	estende	do	pavilhão	até	a	membrana	timpânica,	medindo	cerca	de	24	mm	de	comprimento.	O	pavilhão
possui	esqueleto	 fibrocartilaginoso	e,	em	sua	porção	medial,	uma	escavação	profunda	chamada	concha,	ao	redor	da	qual	se
distinguem	 quatro	 saliências	 principais	 —	 hélice,	 antélice,	 trago	 e	 antitrago	 —	 além	 de	 uma	 quinta	 saliência	 inferior
desprovida	 de	 cartilagem,	 o	 lóbulo.	 Entre	 a	 antélice	 e	 a	 hélice	 situam-se	 as	 fossas	 triangular	 e	 escafoide.	 O	 trago	 é	 uma
pequena	proeminência	cartilaginosa	anterior	que	aponta	para	trás	sobre	a	entrada	do	meato.	Os	dois	terços	externos	do	MAE
são	cartilaginosos	e	revestidos	por	pele	com	pelos	e	glândulas	produtoras	de	cerume;	o	terço	 interno	é	ósseo,	revestido	por
pele	fina	e	glabra,	sensível	à	compressão	—	dado	relevante	ao	examinar	a	orelha.	Logo	atrás	e	abaixo	do	meato	encontra-se	o
processo	mastóideo	 do	 osso	 temporal,	 palpável	 por	 trás	 do	 lóbulo.	 Funcionalmente,	 a	 orelha	 externa	 atua	 como	 caixa	 de
ressonância,	amplificando	o	som	—	principalmente	nas	frequências	de	2.000	a	5.000	Hz	—	e	contribuindo	para	a	localização	da
fonte	sonora	(a	cabeça	funciona	como	obstáculo	relativo	para	a	orelha	contralateral).	Ela	também	protege	as	orelhas	média	e
interna,	mantendo	o	equilíbrio	térmico	e	de	umidade	necessário	à	integridade	da	membrana	timpânica.
A	orelha	média	é	uma	cavidade	pneumática	(cavidade	timpânica)	localizada	na	parte	petrosa	do	osso	temporal.	Comunica-se
anteriormente	com	a	nasofaringe	por	meio	da	tuba	auditiva	(o	que	explica	a	frequente	complicação	de	infecções	respiratórias
altas	 com	 otites)	 e	 posteriormente	 com	 a	 cavidade	 mastóidea	 e	 as	 células	 aéreas	 do	 processo	 mastóideo.	 Em	 seu	 interior
encontra-se	a	cadeia	ossicular	—	martelo,	bigorna	e	estribo	—,	articulada	e	responsável	por	transmitir	a	energia	mecânica
do	 som	até	 a	 orelha	 interna.	A	membrana	 timpânica	 protege	 a	 orelha	média	 e	 transmite	 essa	 energia	 aos	 ossículos.	 Três
mecanismos	permitem	a	amplificação	sonora	na	orelha	média:	(1)	a	diferença	entre	a	área	da	membrana	timpânica	(55	mm²)	e
a	da	janela	oval	(3,2	mm²),	concentrando	a	força	em	área	muito	menor	e	gerando	ganho	de	aproximadamente	25	dB;	(2)	a	forma
côncava	 da	membrana	 timpânica,	 que	 faz	 o	martelo	 se	mover	 com	 o	 dobro	 da	 força;	 e	 (3)	 o	mecanismo	 de	 alavancas	 dos
ossículos,	com	ganho	adicional	de	cerca	de	2,5	dB.	A	orelha	média	funciona,	assim,	como	um	transformador	de	impedâncias,
adaptando	 a	 energia	 sonora	 do	meio	 aéreo	 (baixa	 impedância)	 para	 o	meio	 coclear,	 líquido	 e	 de	 alta	 impedância;	 sem	esse
mecanismo,	cerca	de	99,9%	da	energia	sonora	seria	refletida	e	não	alcançaria	a	orelha	interna.
Ao	 otoscópio,	 a	 membrana	 timpânica	 normal	 tem	 formato	 arredondado	 e	 coloração	 perlácea	 (rosa-acinzentada),	 com	 uma
região	anterior	que	reflete	a	luz	—	o	triângulo	(ou	cone)	luminoso	de	Politzer.	O	cabo	do	martelo	dispõe-se	verticalmente,
terminando	no	umbigo	(umbus),	o	ponto	mais	côncavo	da	membrana.	Acima	do	processo	curto	do	martelo	situa-se	a	parte
flácida;	 o	 restante	 da	 membrana	 é	 a	 parte	 tensa,	 sendo	 ambas	 separadas	 pelas	 pregas	 maleolares	 anterior	 e	 posterior
(geralmente	 invisíveis,	salvo	retração	 timpânica).	Um	segundo	ossículo,	a	bigorna,	pode	por	vezes	ser	visualizado	através	da
membrana.
A	 orelha	 interna,	 contida	 na	 parte	 petrosa	 do	 osso	 temporal,	 é	 composta	 pelo	 labirinto	 ósseo	 (vestíbulo,	 três	 canais
semicirculares	e	cóclea),	dentro	do	qual	se	encontra	o	labirinto	membranoso	(ductos	e	vesículas).	Entre	os	dois	labirintos	há
perilinfa;	 dentro	 do	 labirinto	membranoso,	 endolinfa.	 A	 cóclea,	 em	 forma	 de	 ducto	 espiralado,	 divide-se	 em	 três	 escalas
(vestibular,	 média	 e	 timpânica)	 e	 é	 responsável	 pela	 transdução	 mecanoelétrica	 (conversão	 da	 energia	 mecânica	 em
impulsos	 elétricos)	 e	 pela	 separação	 dos	 sons	 conforme	 seu	 espectro	 de	 frequência.	 A	membrana	 basilar,	 com	 fibras	 de
diferentes	graus	de	elasticidade,	 faz	 com	que	 sons	agudos	excitem	a	 região	basal	da	 cóclea	e	 sons	graves	excitem	a	 região
apical	—	fenômeno	conhecido	como	tonotopia	coclear.
O	equilíbrio	depende	do	sistema	vestibular	periférico,	formado	pelo	labirinto,	canais	semicirculares,	sáculo	e	utrículo.	Os	três
canais	semicirculares	 (anterior/superior,	 posterior	 e	 lateral/horizontal)	 formam	pares	 coplanares	espelhados	entre	as	duas
orelhas	e	detectam	acelerações	angulares	da	cabeça;	cada	canal	possui	uma	dilatação	(ampola)	contendo	a	crista	ampular,
onde	células	ciliadas	envoltas	pela	cúpula	gelatinosa	percebem	o	movimento.	O	sáculo	e	o	utrículo	contêm	células	ciliadas
agrupadas	 nas	 máculas,	 embebidas	 em	 uma	 membrana	 otolítica	 com	 cristais	 de	 carbonato	 de	 cálcio	 (otocônias);	 por
gravidade,	 esses	 otólitos	 pressionam	 o	 epitélio	 sensorial,	 permitindo	 a	 detecção	 de	 acelerações	 lineares,	 inclinações	 e
estímulos	gravitacionais.
A	 via	 auditiva	 compreende	 duas	 fases:	 a	 fase	 condutiva	 (da	 orelha	 externa	 até	 a	 orelha	média)	 e	 a	 fase	 sensorineural
(cóclea	e	nervo	coclear	até	o	córtex).	A	condução	pode	ocorrer	por	via	aérea	(CA)	—	a	via	fisiológica	normal	—	ou	por	via	óssea
(CO),	utilizada	para	fins	de	teste,	na	qual	a	vibração	do	crânio	estimula	diretamente	a	cóclea;	em	condição	normal,	CA	>	CO.
Distúrbios	da	orelha	externa	e	média	comprometem	a	fase	condutiva	(causas	incluem	corpo	estranho,	cerume	impactado,	otite
média,	perfuração	timpânica,	otosclerose),	enquanto	distúrbios	da	orelha	interna	comprometem	a	fase	sensorineural	(exposição
a	ruído,	infecções	virais,	ototóxicos,	doença	de	Ménière,	neuroma	do	acústico,	presbiacusia,	causas	congênitas).
1.2	Semiotécnica	—	Anamnese
A	identificação	do	paciente	já	direciona	hipóteses	diagnósticas:	em	recém-nascidos,	destacam-se	infecções	perinatais,	uso	de
medicamentos	ototóxicos	e	mutações	genéticas;	em	crianças	pré-escolares	e	escolares,	predomina	a	otite	média;	em	idosos,
ganha	relevância	a	presbiacusia.	Quanto	ao	sexo,	a	presbiacusia	é	mais	prevalente	em	homens,	enquanto	otosclerose,	doenças
imunomediadas	e	paraganglioma	são	mais	comuns	em	mulheres.	A	cor	branca	associa-se	a	maior	frequência	de	otosclerose.	A
profissão	 deve	 levantar	 suspeita	 de	 perda	 auditiva	 em	 pacientes	 expostos	 a	 ambientes	 ruidosos	 ou	 a	 agentes	 ototóxicos
inaláveis.
Nos	 antecedentes	 pessoais	 de	 crianças,	 investigam-se	 fatores	 pré-natais	 (substâncias	 ototóxicas,	 infecções	 como
toxoplasmose,	rubéola,	citomegalovirose	e	HIV),	perinatais	 (prematuridade,	anóxia,	hipóxia)	e	pós-natais	 (internação	em	UTI,
uso	 de	 aminoglicosídeos	 ou	 diuréticos	 de	 alça,	 hiperbilirrubinemia,	 meningite	 neonatal).	 Em	 adultos	 e	 idosos,	 avaliam-se
tabagismo,	 etilismo,	 alimentação,	 sedentarismo,	 cirurgias	 otorrinolaringológicas	 prévias,	 doenças	 sistêmicas,	 uso	 de
medicamentos	 ototóxicos	 (aminoglicosídeos,	 diuréticos	 de	 alça,	 salicilatos,	 cisplatina,	 anti-inflamatórios	 não	 hormonais,
quinina),	exposiçãoser	completada	pelo	exame	dos	linfonodos	de	cabeça	e	pescoço.
4.4	Exames	Complementares
A	radiografia	de	cavum	(em	perfil,	sem	choro	ou	deglutição,	sem	infecção	ativa)	é	indicada	para	diagnóstico	de	hiperplasia	de
tonsila	faríngea/adenoide,	com	boa	sensibilidade	quando	bem	executada,	embora	a	videoendoscopia	seja	hoje	o	método	mais
utilizado.	TC	e	RM	são	indicadas	principalmente	na	investigação	de	neoplasias.	Os	exames	laboratoriais	mais	relevantes	na
diferenciação	de	tonsilite	bacteriana	versus	viral	são	o	teste	rápido	de	detecção	do	antígeno	estreptocócico	(realizável	em
consultório;	quando	positivo,	confirma	S.	pyogenes	do	grupo	A,	mas	resultado	negativo	não	exclui	outras	bactérias)	e	a	cultura
de	 orofaringe,	 padrão-ouro,	 essencial	 quando	 há	 necessidade	 de	 confirmar	 indicação	 obrigatória	 de	 antibioticoterapia
(prevenção	de	 febre	 reumática).	O	hemograma	é	 inespecífico,	mas	pode	 sugerir	 infecção	bacteriana	 (desvio	à	 esquerda)	 em
contextos	de	urgência.	A	biópsia	de	glândula	salivar	menor	é	o	exame	de	maior	acurácia	para	síndrome	de	Sjögren,	além	de
indicada	em	lesões	inflamatórias	persistentes	(>15	dias	após	remoção	do	agente	irritante)	e	em	tumorações/lesões	infiltrativas.
4.5	Principais	Afecções	da	Faringe
As	aftas	—	ulcerações	superficiais	dolorosas,	únicas	ou	múltiplas,	em	mucosa	não	queratinizada,	com	halo	eritematoso	e	fundo
esbranquiçado/amarelado	 —	 podem	 acometer	 também	 a	 faringe.	 A	 estomatite	 aftoide	 recidivante	 cursa	 com	 lesões	 por
período	≥1	ano,	em	intervalos	de	15–30	dias,	resolvendo-se	em	1–4	semanas	sem	sequelas.	A	tríade	de	aftas	orais	e	genitais
recorrentes	associada	a	uveíte	recidivante	caracteriza	a	doença	de	Behçet	(vasculite	crônica	sistêmica),	na	qual	a	presença	de
úlceras	orais	é	critério	obrigatório.
As	 faringotonsilites	 (anginas)	 —	 infecções	 da	mucosa	 faríngea	 e	 do	 anel	 de	Waldeyer	—	 classificam-se	 em	 eritematosas
(geralmente	 virais),	 eritematopultáceas	 (virais,	 como	 na	 mononucleose,	 ou	 bacterianas),	 pseudomembranosas	 (geralmente
bacterianas)	 e	 ulcerosas.	 As	 faringotonsilites	 virais	 (adenovírus	 como	 principal	 agente,	 além	 de	 rinovírus,	 coronavírus,
influenza,	 parainfluenza	 e	 vírus	 sincicial	 respiratório)	 cursam	 com	 febre,	 exsudato,	 mialgia,	 coriza	 e	 obstrução	 nasal.	 A
mononucleose	 infecciosa	 ("doença	 do	 beijo"),	 causada	 pelo	 vírus	 Epstein-Barr	 e	 transmitida	 pela	 saliva,	manifesta-se	 por
odinofagia,	 disfagia,	 febre	 e	 linfadenomegalias,	 podendo	 cursar	 com	 náuseas,	 vômitos,	 dor	 abdominal	 e	 cefaleia;	 ao
hemograma,	 linfócitos	atípicos	>10%	são	altamente	sugestivos,	confirmando-se	com	sorologia	 IgM/IgG	específica;	ao	exame,
hiperemia	 difusa	 da	 orofaringe,	 mucosa	 edemaciada,	 tonsilas	 com	 exsudato/pontos	 purulentos	 nas	 criptas	 e	 linfonodos
submandibulares	 aumentados	 e	 dolorosos.	 Quadros	 semelhantes	 ("mononucleose-like")	 podem	 ser	 causados	 por
citomegalovírus,	 toxoplasmose,	 adenovírus	 ou	 vírus	 da	 hepatite.	 A	 herpangina	 (vírus	 Coxsackie,	 enterovírus),	 acometendo
predominantemente	crianças	de	1–7	anos,	inicia	com	febre	alta,	anorexia,	odinofagia,	vômito	e	diarreia,	evoluindo	em	2–4	dias,
com	lesões	hiperemiadas	e	vesiculares	(evoluindo	a	úlceras	rasas)	principalmente	nos	pilares	tonsilares,	palato	mole	e	úvula.	A
faringotonsilite	 estreptocócica	 (S.	 pyogenes	 beta-hemolítico	 do	 grupo	 A)	 apresenta	 início	 súbito,	 dor	 de	 garganta,	 febre
>38°C,	cefaleia,	náuseas/vômitos	(e	dor	abdominal	em	crianças),	com	hiperemia	faríngea,	edema	de	mucosa,	exsudato	tonsilar,
linfonodos	cervicais	dolorosos	e	ausência	de	sinais	virais	 (coriza,	 tosse);	a	probabilidade	de	etiologia	estreptocócica	pode	ser
estimada	pelo	escore	de	Centor	modificado	(McIsaac)	(Quadro	4.1).	Suas	complicações	não	supurativas	 incluem	febre
reumática	(risco	de	~1%	se	não	tratada,	1–4	semanas	após	o	quadro	agudo),	glomerulonefrite	aguda	pós-estreptocócica
(10–15%	 dos	 infectados	 por	 cepas	 nefrogênicas)	 e	 síndrome	 do	 choque	 tóxico.	 O	 abscesso	 peritonsilar,	 complicação
supurativa	 da	 tonsilite	 (infecção	 do	 espaço	 entre	 a	 cápsula	 tonsilar	 e	 o	 músculo	 constritor	 superior),	 manifesta-se	 por	 dor
intensa	 unilateral	 irradiada	 para	 a	 orelha,	 sialorreia,	 disfagia,	 voz	 anasalada,	 podendo	 haver	 trismo,	 febre	 e	 calafrios,	 com
abaulamento	unilateral	e	desvio	medial	da	tonsila	ao	exame.
Quadro	4.1	—	Escore	de	Centor	modificado	(McIsaac)	para	probabilidade	de	faringotonsilite	estreptocócica
Critério Pontuação
Febre	>	38°C +1
Ausência	de	tosse +1
Adenopatia	cervical	anterior	>	1	cm +1
Exsudato	ou	edema	amigdaliano +1
Idade	3–14	anos +1
Idade	15–44	anos 0
Idade	≥	45	anos –1
Probabilidade	estimada	de	S.	pyogenes:	≤0	ponto	≈2,5%;	1	ponto	≈6–7%;	2	pontos	≈15%;	3	pontos	≈30–35%;	≥4	pontos	≈50–60%.
A	síndrome	PFAPA	 (periodic	fever,	adenopathy,	pharyngitis,	aphthous	stomatitis)	acomete	principalmente	crianças	menores
de	5	anos	(predomínio	masculino),	com	febre	súbita	e	elevada	(>39°C)	por	3–6	dias,	em	intervalos	regulares	de	3–6	semanas,
associada	a	faringite	(65–89%),	estomatite	aftosa	(67–71%)	e	adenite	cervical	(72–88%);	é	diagnóstico	clínico,	de	exclusão,	com
periodicidade	característica	de	cerca	de	30	dias.	A	angina	de	Plaut-Vincent	decorre	da	associação	entre	o	bacilo	fusiforme
Fusobacterium	plautvincenti	e	o	espirilo	Spirochaeta	dentium,	saprófitas	orais	que	se	tornam	patogênicos	em	má	higiene	oral,
desnutrição	 ou	 imunodepressão,	 causando	disfagia,	 odinofagia	 e	 lesões	 ulceronecróticas	 unilaterais	 recobertas	 por	 exsudato
pseudomembranoso	fétido.	A	difteria	(Corynebacterium	diphtheriae),	hoje	rara	graças	à	vacinação,	causa	faringite	exuberante
com	hiperemia	e	formação	de	pseudomembrana	acinzentada	na	úvula,	faringe	e	língua,	podendo	obstruir	as	vias	aéreas	—
diagnóstico	e	tratamento	imediatos	são	essenciais.
As	neoplasias	de	faringe	mais	frequentes	são	o	câncer	de	amígdala,	o	fibroma	de	nasofaringe	e	o	câncer	do	cavum,	podendo
localizar-se	em	qualquer	das	três	porções.	Na	nasofaringe,	a	queixa	mais	frequente	é	adenopatia	cervical	geralmente	indolor,
podendo	 também	 causar	 perda	 auditiva	 condutiva	 unilateral	 (por	 otite	 média	 secretora	 secundária	 a	 disfunção	 tubária)	 e,
tardiamente,	epistaxe	e	obstrução	nasal	unilateral.	Na	orofaringe,	os	pacientes	costumam	ser	assintomáticos	inicialmente,	com
dor	 persistente	 unilateral	 refratária	 a	 analgésicos	 como	 sintoma	mais	 comum,	 podendo	 o	 primeiro	 achado	 ser	 um	 linfonodo
cervical	 aumentado;	 a	 orofaringe	 é	 localização	 preferencial	 de	 linfomas,	 por	 vezes	 caracterizados	 por	 assimetria	 tonsilar;
trismo	 e	 halitose	 surgem	 em	 fases	 avançadas.	 Na	 hipofaringe,	 manifestam-se	 disfagia,	 odinofagia,	 pigarro,	 halitose,
linfonodomegalia,	dor	referida	na	orelha	e	alteração	da	voz.
Pontos-chave
A	faringe	divide-se	em	nasofaringe,	orofaringe	e	hipofaringe,	cada	qual	com	limites	anatômicos	e	comunicações	específicas
(cóanas	e	tubas	auditivas	para	a	nasofaringe).
O	anel	linfático	de	Waldeyer	(adenoide,	tonsilas	tubárias,	palatinas	e	linguais)	atinge	seu	maior	volume	na	infância	e	regride
na	adolescência	—	daí	a	normalidade	de	tonsilas	visíveis	em	crianças	e	sua	raridade	em	adultos	saudáveis.
Odinofagia	(dor	à	deglutição)	e	disfagia	(dificuldade	mecânica/funcional	de	deglutir)	são	sintomas	distintos	que	devem	ser
diferenciados	na	anamnese.
O	escore	de	Centor	modificado	ajuda	a	estimar	a	probabilidade	de	faringotonsilite	estreptocócica	e	orienta	a	necessidade	de
teste	rápido/cultura.
A	febre	reumática	e	a	glomerulonefrite	pós-estreptocócica	são	complicações	não	supurativas	importantes	da	faringotonsilite
estreptocócica	não	tratada.
Toda	queixa	faríngea	persistente	(>3	semanas)	exige	investigação	por	laringoscopia	indireta,	nasofibroscopia	ou
laringoscopia	direta.
Questões	para	autoavaliação
1.	 Compare	a	faringotonsilite	viral,	a	mononucleose	infecciosa	e	a	faringotonsilite	estreptocócica	quanto	a	agente	etiológico,
achados	clínicos	e	complicaçõespossíveis.
2.	 Calcule	o	escore	de	Centor	modificado	para	um	paciente	de	10	anos	com	febre	de	38,5°C,	sem	tosse,	com	adenopatia
cervical	anterior	de	2	cm	e	exsudato	amigdaliano,	e	estime	a	probabilidade	de	etiologia	estreptocócica.
3.	 Descreva	a	técnica	de	exame	da	hipofaringe	(laringofaringe)	e	cite	as	estruturas	avaliadas.
4.	 Por	que	a	adenopatia	cervical	indolor	pode	ser	o	primeiro	(e	único)	sinal	de	uma	neoplasia	de	nasofaringe?
Capítulo	5	—	Laringe
5.1	Anatomia	e	Fisiologia
A	laringe	é	um	órgão	musculocartilaginoso	situado	na	região	infra-hióidea,	ao	nível	das	vértebras	C3	a	C6,	estendendo-se	da
porção	laríngea	da	faringe	até	a	margem	inferior	da	cartilagem	cricoide.	Desempenha	três	funções	essenciais:	esfincteriana
(protege	 a	 via	 respiratória	 durante	 a	 deglutição),	 respiratória	 (regula	 o	 fluxo	 aéreo	 inspiratório	 e	 expiratório)	 e	 fonatória
(produz	o	som	glótico	pela	vibração	das	pregas	vocais,	seguido	de	ressonância	e	articulação	no	trato	vocal	supraglótico).
Seu	esqueleto	é	formado	por	nove	cartilagens	(três	ímpares	e	três	pares),	articuladas	por	membranas,	ligamentos	e	pregas.
Entre	 as	 ímpares,	 a	 cartilagem	 tireóidea	 é	 a	 maior	 —	 cartilagem	 hialina	 que	 forma	 a	 proeminência	 laríngea	 anterior;	 a
cartilagem	 cricóidea,	 situada	 logo	 abaixo	 da	 tireoide,	 é	 a	 única	 cartilagem	 hialina	 da	 via	 respiratória	 a	 formar	 um	 anel
completo;	a	epiglote,	cartilagem	elástica	revestida	por	mucosa,	 localiza-se	no	orifício	superior	da	 laringe,	atrás	da	base	da
língua	e	do	osso	hioide,	com	função	de	proteger	as	vias	aéreas	inferiores	durante	a	deglutição.	Entre	as	pares,	as	cartilagens
aritenoides	são	estruturas	hialinas	piramidais,	cuja	base	contém	o	processo	vocal	(inserção	posterior	do	ligamento	vocal)	e	o
processo	muscular	 (inserção	 dos	 músculos	 cricoaritenóideos	 posterior	 e	 lateral);	 há	 ainda	 as	 cartilagens	 corniculadas.	 A
membrana	 quadrangular,	 lâmina	 fina	 de	 tecido	 conjuntivo	 submucoso,	 une	 as	 faces	 laterais	 das	 aritenoides	 à	 cartilagem
epiglótica.
Anatômica	e	funcionalmente,	a	laringe	divide-se	em	três	regiões:	supraglote	(acima	das	pregas	vocais,	até	o	ádito	laríngeo),
glote	 (ao	 nível	 das	 pregas	 vocais)	 e	 subglote	 (abaixo	 das	 pregas	 vocais,	 até	 a	 margem	 inferior	 da	 cricoide)	 —	 divisão
fundamental	para	 localizar	 lesões	e	compreender	a	apresentação	clínica	de	doenças	 laríngeas	 (tumores	supraglóticos	versus
glóticos,	por	exemplo,	têm	sintomas	iniciais	distintos).
5.2	Semiotécnica	—	Anamnese
A	idade	orienta	a	etiologia:	em	crianças,	predominam	distúrbios	vocais	funcionais	e	malformações	congênitas	como	causa	de
rouquidão;	 em	 idosos,	 laringites	 crônicas	 e	doenças	neoplásicas.	Quanto	ao	sexo,	 disfonias	 funcionais	 são	mais	 comuns	em
meninos	na	infância	e	em	mulheres	na	vida	adulta.	A	profissão	é	dado	relevante	em	pacientes	que	abusam	da	voz	(professores,
locutores,	 cantores)	 ou	 trabalham	 expostos	 a	 poluentes	 inalatórios	 (pedreiras,	 marcenarias).	 Nos	 antecedentes	 pessoais,
investigam-se	 tabagismo,	 etilismo,	 cirurgias	 prévias	 (sintomas	 vocais	 no	 pós-operatório	 de	 cirurgia	 cardíaca	 ou	 de	 tireoide
sugerem	lesão	do	nervo	laríngeo	recorrente),	doenças	sistêmicas,	medicamentos,	exposição	a	irritantes	inalatórios,	trauma
laríngeo	externo	(cervical)	ou	interno	(intubação	orotraqueal)	e	intercorrências	neonatais	quando	há	história	de	estridor.
Os	dois	principais	sintomas	são	rouquidão	(disfonia)	e	estridor.	Na	rouquidão,	deve-se	avaliar	o	início	(alterações	súbitas
sugerem	 distúrbio	 emocional	 —	 disfonia	 psicogênica	 —	 ou	 doença	 neurológica,	 como	 paralisia	 de	 prega	 vocal;	 evolução
progressiva	 e	 arrastada	 sugere	 neoplasia)	 e	 a	 frequência	 (distúrbios	 funcionais	 associam-se	 a	 períodos	 de	 abuso	 vocal;
distúrbios	orgânicos	cursam	com	rouquidão	fixa,	sem	melhora).	Sintomas	associados	auxiliam	a	localização:	otalgia	reflexa	e
odinofagia	 sugerem	 tumores	 supraglóticos	 com	 extensão	 para	 a	 hipofaringe;	 tosse	 e	 desconforto	 respiratório	 sugerem
tumores	glóticos	volumosos	com	extensão	subglótica.	Outras	causas	de	disfonia	 incluem	edema	 inflamatório	ou	alérgico,	uso
excessivo	 da	 voz,	 trauma	 (intubação,	 tosse	 vigorosa,	 corpo	 estranho),	 calos/nódulos/fissuras	 de	 pregas	 vocais,	 refluxo
gastroesofágico	 e	 lesões	 extralaríngeas	 compressivas	 dos	 nervos	 laríngeos	 (tumores	 tireoidianos,	 por	 exemplo)	 —	 além	 de
doenças	neurológicas	como	Parkinson,	esclerose	lateral	amiotrófica	e	miastenia	gravis.	Toda	rouquidão	com	duração	superior	a
2	semanas	deve	ser	investigada,	especialmente	em	tabagistas/etilistas,	ou	associada	a	tosse	crônica,	hemoptise,	perda	ponderal
ou	adenomegalia	cervical	unilateral.
O	estridor	—	som	produzido	por	turbilhonamento	do	ar	em	vias	respiratórias	superiores	estreitadas	—	deve	ser	caracterizado
quanto	 ao	 tipo	 (inspiratório,	 sugerindo	 obstrução	 supraglótica	 ou	 glótica;	expiratório,	 sugerindo	 obstrução	 subglótica;	 ou
misto),	época	de	início	(desde	o	nascimento	ou	primeiras	semanas	sugere	malformação	congênita,	como	laringomalacia;	após
intubação/UTI	 sugere	estenose	adquirida),	 sintomas	associados	 (início	abrupto	afebril	 em	criança	 sugere	aspiração	de	corpo
estranho;	 febre	 sugere	 laringite	 aguda),	 periodicidade	 e	 fatores	 de	melhora/piora	 (piora	 com	 esforço,	 choro	 ou	mamadas	 é
característica	da	 laringomalacia).	Devem-se	 identificar	sinais	de	gravidade	respiratória:	 taquipneia	com	retração	 torácica,
retração	 de	 fúrcula/costal,	 apneia,	 uso	 de	 musculatura	 acessória,	 cianose	 e	 bradicardia	 com	 hipóxia/hipercapnia	 —	 a
intensidade	 do	 estridor	 isoladamente	 não	 define	 a	 gravidade	 do	 quadro,	 podendo	 uma	 obstrução	 muito	 grave	 cursar	 sem
estridor	evidente.
5.3	Semiotécnica	—	Exame	Físico
Como	 distúrbios	 vocais	 podem	 decorrer	 de	 lesões	 neurológicas,	 deve-se	 avaliar	 sistematicamente	 os	 pares	 cranianos,	 a
posição	e	contração	da	musculatura	do	palato	mole,	a	estase	salivar,	a	mobilidade	da	língua	e	o	reflexo	do	vômito.	Diante	de
estridor,	 esclarece-se	 se	 é	 inspiratório,	 expiratório	 ou	 ambos,	 e	 identificam-se	 sintomas	 respiratórios	 associados;	 em	 recém-
nascidos	e	prematuros,	realiza-se	ausculta	cervical	para	melhor	caracterização.
A	laringoscopia	indireta,	com	o	espelho	de	Garcia	(a	mesma	técnica	utilizada	para	a	hipofaringe	—	ver	Capítulo	4),	permite
avaliar	a	laringe	durante	a	fonação	e	a	respiração,	observando	posição,	simetria	e	mobilidade	das	pregas	vocais,	estase	salivar,
restos	alimentares,	secreção	ou	lesões	em	região	supraglótica	e	glótica	(dificilmente	subglótica).	Esse	exame	não	é	viável	em
crianças	ou	adultos	não	colaborativos,	tornando	obrigatória	a	endoscopia	das	vias	respiratórias	nesses	casos.
5.4	Exames	Complementares
A	 nasolaringoscopia	 flexível	 (nasofibrolaringoscopia),	 introduzida	 pelas	 fossas	 nasais,	 permite	 avaliação	 dinâmica	 da
laringe,	faringe	e	cavidades	nasais,	com	possibilidade	de	aspiração	e	biópsia;	é	de	fácil	realização	em	consultório	ou	UTI,	mas
apresenta	 limitações	 para	 avaliação	 abaixo	 das	 pregas	 vocais.	 Em	 cerca	 de	 80%	dos	 casos	 de	 estridor	 na	 infância,	 permite
estabelecer	 a	 causa;	 quando	 insuficiente,	 prossegue-se	 com	 laringotraqueobroncoscopia	 rígida	 sob	 anestesia,	 capaz	 de
avaliar	 subglote,	 traqueia	 e	 brônquios.	 A	endoscopia	 rígida	 (telescopia)	 oferece	 imagens	 de	melhor	 definição,	mas	 exige
segurar	a	língua	do	paciente,	impedindo	a	fonação	espontânea;	permite	realizar	estroboscopia,	que	avalia	o	ritmo	de	vibração
das	pregas	vocais	por	meio	de	imagem	ilusória	em	câmera	lenta.	A	biópsia	de	laringe	pode	ser	feita	por	laringoscopia	direta,
indireta,	ou	por	microcirurgia	com	laringoscópio	de	suspensão	 sob	anestesia	geral,	permitindo	retirada	mais	precisa	de
fragmentos.
5.5	Principais	Afecções	da	Laringe
As	 anomalias	 congênitas	 têm	 na	 laringomalacia	 sua	 forma	 mais	 frequente:	 colabamento	 das	 estruturas	 supraglóticas
durante	a	inspiração,principal	causa	de	estridor	inspiratório	em	lactentes,	piorando	com	agitação,	choro,	alimentação	ou
posição	 supina,	 e	 melhorando	 em	 repouso	 com	 hiperextensão	 cervical;	 como	 o	 estridor	 é	 sintoma,	 e	 não	 diagnóstico,	 todo
recém-nascido	com	estridor	deve	ser	submetido	a	exame	endoscópico	confirmatório.
As	lesões	fonotraumáticas	incluem:	nódulos	de	pregas	vocais	—	espessamento	bilateral	na	junção	do	terço	anterior	com	o
médio	 (ponto	 de	 maior	 amplitude	 vibratória),	 mais	 frequentes	 em	 mulheres	 adultas	 e	 meninos	 na	 infância,	 com	 disfonia
relacionada	 ao	 uso	 vocal	 (piora	 ao	 longo	 do	 dia),	 voz	 áspera	 e	 soprosa,	 e	 fenda	 triangular	médio-posterior	 à	 laringoscopia;
pólipos	de	pregas	 vocais	—	processo	 inflamatório	 geralmente	unilateral,	 associado	 a	 trauma/abuso	 vocal,	 com	disfonia	 de
início	súbito,	constante,	podendo	piorar	progressivamente,	voz	rouca/soprosa,	e	lesão	de	aspecto	gelatinoso/fibroso/edematoso
à	 inspeção;	 e	edema	de	Reinke	—	 processo	 inflamatório	 crônico	 da	 lâmina	 própria	 superficial	 de	 ambas	 as	 pregas	 vocais
(assimétrico),	fortemente	relacionado	ao	tabagismo	e	mais	frequente	em	mulheres,	com	disfonia	lentamente	progressiva	e	voz
cada	vez	mais	grave,	podendo	causar	desconforto	respiratório	em	casos	avançados.
A	 papilomatose	 laríngea	 recorrente,	 tumor	 benigno	 mais	 frequente	 da	 laringe,	 apresenta-se	 com	 lesões	 exofíticas,
verrucosas,	 pediculadas	 ou	 nodulares;	 etiologia	 viral	 pelo	papilomavírus	humano	 (HPV),	 sendo	 os	 subtipos	 6	 e	 11	 (baixo
risco)	os	mais	frequentes	e	os	subtipos	16	e	18	(alto	risco)	associados	a	carcinoma	epidermoide;	a	disfonia	é	o	sintoma	mais
comum,	 seguida	 de	 obstrução	 e	 dificuldade	 respiratória	 —	 potencialmente	 grave	 em	 crianças,	 cuja	 via	 aérea	 é	 menor;	 a
confirmação	diagnóstica	é	sempre	histopatológica.
As	laringites	agudas	compreendem:	laringite	catarral	aguda	—	forma	clínica	mais	comum,	geralmente	após	resfriado,	com
sensação	de	constrição,	dor	laríngea	e	tosse	inicialmente	seca	evoluindo	a	produtiva,	seguida	de	rouquidão	(podendo	evoluir	a
afonia);	 a	 nasolaringoscopia	mostra	 congestão/edema	 da	mucosa,	 principalmente	 em	 região	 glótica	 e	 supraglótica,	 sendo	 a
etiologia	 mais	 frequente	 bacteriana	 (Branhamella	 catarrhalis	 e	 Haemophilus	 influenzae);
laringotraqueíte/laringotraqueobronquite	 (crupe	 viral)	 —	 tosse	 tipo	 "latido",	 estridor	 inspiratório	 e	 desconforto
respiratório,	 causada	 principalmente	 pelos	 vírus	 parainfluenza	 tipos	 1	 e	 2,	 sincicial	 respiratório,	 rinovírus	 e	 enterovírus,
desenvolvendo-se	 gradualmente	 após	 1–2	 dias	 de	 infecção	 respiratória	 alta,	 com	 o	 clássico	 "sinal	 da	 torre	 da	 igreja"
(estreitamento	 subglótico)	 à	 radiografia	 —	 achado	 característico,	 mas	 não	 patognomônico;	 e	 epiglotite	 —	 infecção	 aguda
comprometendo	epiglote,	aritenoides	e	pregas	ariepiglóticas,	causada	principalmente	por	Haemophilus	influenzae	tipo	B,	com
potencial	evolução	fatal	por	asfixia	se	não	tratada	rapidamente;	inicia	com	odinofagia	e	febre	baixa,	progredindo	para	disfagia
(sólidos	e	líquidos),	odinofagia	intensa	e,	à	radiografia	cervical,	o	"sinal	do	dedo	polegar"	(edema	supraglótico).
O	 câncer	 de	 laringe	 acomete	 predominantemente	 homens	 entre	 50–60	 anos,	 associado	 em	 cerca	 de	 80%	 dos	 casos	 ao
consumo	 combinado	 de	 álcool	 e	 tabaco;	 manifesta-se	 tipicamente	 por	 rouquidão	 progressiva	 sem	 períodos	 de	 melhora;
odinofagia	e	otalgia	reflexa	são	queixas	comuns	em	tumores	supraglóticos	com	extensão	para	a	hipofaringe,	enquanto	tosse	e
dispneia	predominam	em	tumores	glóticos	volumosos	com	extensão	subglótica;	a	 inspeção	e	palpação	cervical	são	essenciais
para	identificar	assimetrias	e	linfadenomegalias.
Vale	reforçar,	por	fim,	a	interface	entre	laringe	e	outras	estruturas	discutidas	nos	capítulos	anteriores:	o	angioedema	(Capítulo
3)	torna-se	potencialmente	fatal	quando	envolve	a	laringe;	e	a	disfonia/estridor	deve	sempre	ser	correlacionada,	na	anamnese,
com	antecedentes	de	intubação,	cirurgia	cervical/tireoidiana	e	exposição	vocal	ocupacional.
Pontos-chave
A	laringe	situa-se	entre	C3	e	C6,	com	funções	esfincteriana,	respiratória	e	fonatória,	e	divide-se	em	supraglote,	glote	e
subglote.
Estridor	inspiratório	em	lactente	que	piora	ao	choro/alimentação	e	melhora	com	hiperextensão	cervical	é	característico	de
laringomalacia	—	todo	caso	exige	confirmação	endoscópica.
Nódulos,	pólipos	e	edema	de	Reinke	são	lesões	fonotraumáticas	distintas	quanto	a	lateralidade,	sexo	predominante	e	fator
causal	(uso	vocal	vs.	tabagismo).
Laringite	catarral	aguda,	crupe	viral	e	epiglotite	diferenciam-se	por	agente	etiológico,	sinais	radiológicos	(sinal	da	torre	da
igreja	vs.	sinal	do	dedo	polegar)	e	gravidade	potencial.
O	câncer	de	laringe	está	fortemente	associado	a	tabagismo	e	etilismo	combinados;	a	localização	(supraglótica	vs.	glótica)
determina	o	padrão	sintomático	inicial.
Rouquidão	persistente	por	mais	de	2	semanas,	sobretudo	em	tabagistas/etilistas,	sempre	exige	investigação	laringoscópica.
Questões	para	autoavaliação
1.	 Explique	por	que	a	laringomalacia	melhora	com	a	hiperextensão	cervical	e	piora	em	decúbito	dorsal,	choro	ou	mamadas.
2.	 Compare	laringite	catarral	aguda,	crupe	viral	e	epiglotite	quanto	a	agente	etiológico,	achados	radiológicos	e	gravidade.
3.	 Um	paciente	etilista	e	tabagista	de	longa	data	apresenta	rouquidão	progressiva	associada	a	otalgia	reflexa	e	odinofagia.	Que
localização	tumoral	laríngea	é	sugerida	por	esse	padrão	sintomático,	e	por	quê?
4.	 Diferencie	nódulos,	pólipos	e	edema	de	Reinke	quanto	a	fisiopatologia,	lateralidade	e	principal	fator	etiológico	associado.
Glossário	Consolidado
Abscesso	peritonsilar	—	 coleção	 purulenta	 no	 espaço	 entre	 a	 cápsula	 tonsilar	 e	 o	músculo	 constritor	 superior	 da	 faringe,
complicação	de	tonsilite,	com	abaulamento	unilateral	e	desvio	medial	da	tonsila.
Anacusia	—	perda	auditiva	total.
Angina	de	Plaut-Vincent	—	 infecção	ulceronecrótica	unilateral	 da	orofaringe	por	 associação	de	bacilo	 fusiforme	e	 espirilo
saprófitas,	em	contexto	de	má	higiene	oral	ou	imunodepressão.
Angioedema	—	edema	subcutâneo/submucoso	por	extravasamento	de	líquido	intravascular,	mediado	por	mastócitos	(alérgico)
ou	por	bradicinina	(hereditário	ou	por	IECA);	potencialmente	fatal	se	envolver	laringe,	língua	ou	vias	aéreas.
Anosmia	—	perda	completa	do	olfato.
Anquiloglossia	—	"língua	presa";	frênulo	lingual	curto	que	limita	a	mobilidade	lingual	e	prejudica	a	fonação.
Área	 de	Kiesselbach	—	 região	 do	 septo	 nasal	 anterior	 com	 confluência	 de	 ramos	 arteriais,	 sítio	mais	 comum	 de	 epistaxe
anterior.
Aritenoides	 —	 cartilagens	 pares,	 piramidais,	 da	 laringe,	 com	 processo	 vocal	 (inserção	 do	 ligamento	 vocal)	 e	 processo
muscular.
Atresia	de	coana	—	malformação	congênita	com	obstrução	da	comunicação	entre	cavidade	nasal	e	nasofaringe,	mais	comum
em	meninas.
Cadeia	ossicular	—	conjunto	de	martelo,	bigorna	e	estribo,	na	orelha	média,	que	transmite	as	vibrações	sonoras	da	membrana
timpânica	à	orelha	interna.
Caseum	—	massa	esbranquiçada	de	restos	celulares	e	proteicos	acumulada	nas	criptas	tonsilares,	causa	de	halitose.
Cerume	—	secreção	protetora	do	meato	acústico	externo,	hidrofóbica	e	bactericida.
Cóana	—	abertura	posterior	da	cavidade	nasal,	que	se	comunica	com	a	nasofaringe.
Colesteatoma	—	presença	de	epitélio	escamoso	queratinizado	na	cavidade	timpânica,	com	potencial	destrutivo	local;	pode	ser
congênito	ou	adquirido	(primário	ou	secundário).
Condução	aérea	(CA)	/	condução	óssea	(CO)	—	vias	de	transmissão	do	som	até	a	cóclea;	normalmente	CA	>	CO.
Crupe	(laringotraqueíte	viral)	—	infecção	viral	(parainfluenza,	principalmente)	com	tosse	"de	latido",	estridor	inspiratório	e
estreitamento	subglótico	("sinal	da	torre	da	igreja").
Disacusia	—	termo	geral	para	perda	auditiva	(hipoacusia	ou	anacusia).
Disfagia	—	dificuldade	mecânica	ou	funcional	para	deglutir.
Disfonia	—	alteração	da	voz;	ver	rouquidão.
Disosmia—	distorção	da	percepção	olfatória	(parosmia,	com	estímulo	real;	fantosmia,	alucinação	olfatória).
Edema	de	Reinke	—	 edema	 crônico	 da	 lâmina	 própria	 superficial	 das	 pregas	 vocais,	 associado	 a	 tabagismo,	 com	 disfonia
progressiva	grave.
Endolinfa	—	líquido	contido	no	labirinto	membranoso	da	orelha	interna.
Epiglote	—	cartilagem	elástica	que	protege	as	vias	aéreas	inferiores	durante	a	deglutição.
Epiglotite	—	infecção	aguda	grave	das	estruturas	supraglóticas,	geralmente	por	H.	influenzae	tipo	B,	com	risco	de	obstrução
fatal	("sinal	do	dedo	polegar"	à	radiografia).
Epistaxe	—	sangramento	nasal;	classificado	em	anterior	(mais	comum,	área	de	Kiesselbach)	e	posterior	(mais	grave,	acima	de
50	anos).
Escore	de	Centor	modificado	(McIsaac)	—	ferramenta	clínica	para	estimar	probabilidade	de	faringotonsilite	estreptocócica.
Estribo,	martelo,	bigorna	—	os	três	ossículos	da	orelha	média.
Estridor	 —	 som	 de	 turbilhonamento	 aéreo	 por	 obstrução	 das	 vias	 respiratórias	 superiores;	 inspiratório	 (supra/glótico)	 ou
expiratório	(subglótico).
Fáceis	 do	 respirador	 bucal	 —	 conjunto	 de	 achados	 faciais	 (ausência	 de	 vedamento	 labial,	 narinas	 estreitas,	 mandíbula
retraída)	por	obstrução	nasal	crônica.
Fantosmia	—	alucinação	olfatória	sem	estímulo	ambiental.
Faringotonsilite	(angina)	—	infecção	da	mucosa	faríngea	e	do	anel	de	Waldeyer,	de	etiologia	viral	ou	bacteriana.
Fenda	palatina	—	malformação	congênita	com	comunicação	entre	cavidade	nasal/oral	e	a	nasofaringe.
Fístula	 nasoliquórica	 —	 comunicação	 anômala	 entre	 espaço	 subaracnóideo	 e	 cavidade	 nasal,	 geralmente	 pós-traumática,
causando	rinorreia	hialina.
Gap	aéreo-ósseo	—	diferença	≥10	dB	entre	as	curvas	aérea	e	óssea	na	audiometria,	característica	de	perda	condutiva.
Herpangina	—	infecção	por	vírus	Coxsackie	em	crianças,	com	vesículas/úlceras	em	pilares	tonsilares,	palato	mole	e	úvula.
Hiperosmia	—	aumento	da	capacidade	olfativa.
Hiperplasia	adenoideana	—	aumento	da	tonsila	faríngea	(adenoide),	causa	comum	de	obstrução	nasal	crônica	e	síndrome	do
respirador	bucal.
Hipoacusia	—	perda	auditiva	parcial.
Hiposmia	—	diminuição	do	olfato.
Impedanciometria	—	exame	objetivo	da	função	da	orelha	média	(timpanometria	e	reflexo	do	estapédio).
Labirintite	 —	 infecção	 da	 orelha	 interna	 por	 contiguidade	 da	 orelha	 média/mastoide;	 causa	 rara,	 porém	 popularmente
superestimada,	de	vertigem.
Labirinto	membranoso	/	labirinto	ósseo	—	estruturas	da	orelha	interna	contendo,	respectivamente,	endolinfa	e	perilinfa.
Laringomalacia	 —	 colabamento	 das	 estruturas	 supraglóticas	 à	 inspiração;	 principal	 causa	 de	 estridor	 inspiratório	 em
lactentes.
Laringoscopia	indireta	—	exame	da	laringe/hipofaringe	com	espelho	de	Garcia,	durante	fonação	e	respiração.
Leucoplasia	(leucoplaquia)	—	placa	esbranquiçada	persistente	em	mucosa	oral/lingual,	potencialmente	pré-maligna.
Leucoplaquia	pilosa	oral	—	placas	esbranquiçadas	de	aspecto	aveludado,	não	removíveis	à	raspagem,	associadas	a	HIV/EBV.
Manobra	de	Dix-Hallpike	—	teste	posicional	para	diagnóstico	de	VPPB,	avaliando	nistagmo	do	canal	semicircular	posterior.
Martelo	(cabo,	processo	curto,	umbigo)	—	ossículo	da	orelha	média	em	contato	com	a	membrana	timpânica.
Mastoidite	—	complicação	infecciosa	da	otite	média,	com	envolvimento	do	processo	mastóideo.
Membrana	 timpânica	 —	 estrutura	 que	 separa	 a	 orelha	 externa	 da	 média,	 transmitindo	 vibrações	 sonoras	 aos	 ossículos;
observa-se	normalmente	o	triângulo	luminoso	de	Politzer.
Mononucleose	infecciosa	—	infecção	pelo	vírus	Epstein-Barr	("doença	do	beijo"),	com	odinofagia,	febre,	linfadenomegalia	e
linfócitos	atípicos.
Nariz	em	sela	—	deformidade	nasal	por	destruição	do	septo,	clássica	da	sífilis	congênita.
Nasofaringe	(rinofaringe)	—	porção	superior	da	faringe,	comunicando-se	com	fossas	nasais	(cóanas)	e	orelha	média	(tubas
auditivas).
Nistagmo	—	movimento	ocular	rítmico	involuntário;	espontâneo	ou	de	posição,	periférico	ou	central.
Nódulo	de	prega	vocal	—	lesão	fonotraumática	por	espessamento	bilateral	na	junção	do	terço	anterior-médio	da	prega	vocal.
Odinofagia	—	dor	à	deglutição.
Otalgia	—	dor	na	orelha,	podendo	ser	própria	ou	referida	(ATM,	faringe,	pescoço).
Otite	 externa	 (difusa/necrosante)	 —	 inflamação/infecção	 do	 meato	 acústico	 externo;	 a	 forma	 necrosante	 acomete
imunocomprometidos	e	pode	se	estender	à	base	do	crânio.
Otite	média	aguda	(OMA)	—	infecção	da	orelha	média	com	abaulamento	timpânico	patognomônico.
Otite	média	com	efusão	—	presença	de	líquido	na	orelha	média	sem	sinais	infecciosos	agudos.
Otite	média	crônica	(OMC)	—	processo	inflamatório	da	orelha	média	com	duração	>3	meses;	colesteatomatosa	ou	não.
Otomicose	—	infecção	fúngica	do	meato	acústico	externo	(Aspergillus,	Candida).
Otorreia	—	saída	de	secreção	pela	orelha.
Otosclerose	—	anquilose	da	platina	do	estribo,	causando	perda	auditiva	condutiva	progressiva.
Pares	coplanares	—	organização	espelhada	dos	canais	semicirculares	entre	as	duas	orelhas.
Pavilhão	auricular	—	porção	cartilaginosa	externa	e	visível	da	orelha	(hélice,	antélice,	trago,	lóbulo).
Perilinfa	—	líquido	entre	o	labirinto	ósseo	e	o	membranoso,	na	orelha	interna.
Pericondrite/condrite	auricular	—	inflamação	do	pericôndrio/cartilagem	do	pavilhão	auricular,	com	risco	de	necrose.
Plenitude	auricular	—	sensação	de	"orelha	cheia"	por	acúmulo	líquido.
Pólipo	de	prega	vocal	—	lesão	fonotraumática	unilateral	por	trauma/abuso	vocal	agudo.
Polipose	 nasossinusal	 —	 degeneração	 polipoide	 bilateral	 da	 mucosa	 nasossinusal,	 associada	 a	 processos
alérgicos/inflamatórios	crônicos.
Presbiacusia	—	perda	auditiva	neurossensorial	relacionada	ao	envelhecimento,	predominando	em	agudos.
Reflexo	do	estapédio	—	contração	muscular	protetora	desencadeada	por	som	intenso,	avaliada	na	impedanciometria.
Rinite	—	inflamação	da	mucosa	nasal	(infecciosa,	alérgica,	ocupacional,	medicamentosa,	hormonal,	entre	outras).
Rinorreia	—	corrimento	nasal;	hialino	(alérgico/viral	inicial)	ou	purulento	(bacteriano).
Rinossinusite	 —	 inflamação	 do	 nariz	 e	 seios	 paranasais,	 aguda	 (CO)	é	normal/sensorineural;	negativo	(CO≥CA)	indica	perda
condutiva.
Teste	de	Weber	—	diapasão	na	linha	média;	lateraliza	para	a	orelha	doente	na	perda	condutiva	e	para	a	orelha	sã	na	perda
neurossensorial.
Timpanometria	—	medida	da	complacência	da	membrana	timpânica	(tipos	A,	AS/AR,	AD,	B,	C).
Tonsila	palatina	(amígdala)	—	estrutura	linfoide	da	orofaringe,	entre	os	pilares	palatoglosso	e	palatofaríngeo.
Toro	(torus)	palatino/mandibular	—	proliferação	óssea	benigna	da	linha	média	do	palato	ou	face	interna	da	mandíbula.
Tuba	auditiva	(trompa	de	Eustáquio)	—	canal	que	conecta	a	orelha	média	à	nasofaringe,	equalizando	pressões.
Umbigo	(umbus)	—	ponto	mais	côncavo	da	membrana	timpânica,	onde	termina	o	cabo	do	martelo.
Vertigem	—	sensação	ilusória	de	movimento	rotatório,	de	origem	periférica	(labiríntica)	ou	central.
Vertigem	postural	paroxística	benigna	(VPPB)	—	crises	vertiginosas	breves	desencadeadas	por	movimento	cefálico,	sem
sintomas	auditivos,	por	desprendimento	de	otólitos.
Vestíbulo	(orelha	interna)	—	porção	do	labirinto	ósseo	que,	junto	aos	canais	semicirculares,	compõe	o	sistema	vestibular.
Zumbido	(tinnitus)	—	percepção	sonorasem	estímulo	externo	correspondente.a	ruído	e	história	de	traumatismo	cranioencefálico.	Nos	antecedentes	familiares,	pesquisam-se	disacusias
congênitas,	otosclerose	e	presbiacusia.
Os	 principais	 sinais	 e	 sintomas	 otológicos	 são	 a	disacusia	 (hipoacusia	—	 perda	 parcial	—	 ou	 anacusia	—	 perda	 total),	 a
tontura/vertigem	 e	 o	 zumbido.	 A	 disacusia	 deve	 ser	 caracterizada	 quanto	 à	 lateralidade,	 ao	 modo	 de	 início	 (insidioso,
rapidamente	progressivo	ou	abrupto),	à	intensidade,	ao	tempo	de	duração,	à	constância	ou	flutuação,	ao	momento	de	instalação
em	 relação	 à	 aquisição	 da	 linguagem	 oral	 (pré	 ou	 pós-lingual)	 e	 a	 sintomas	 associados	 (zumbido,	 tontura,	 plenitude	 aural,
acometimento	de	outros	pares	cranianos,	como	o	facial).	É	 importante	notar,	ainda	durante	a	anamnese,	o	volume	da	voz	do
paciente:	pacientes	 com	perda	neurossensorial	 tendem	a	 falar	mais	 alto,	 enquanto	aqueles	 com	perda	condutiva	 falam	mais
baixo;	nas	perdas	neurossensoriais	há	pouca	compreensão	da	fala,	com	piora	em	ambientes	ruidosos,	ao	passo	que	nas	perdas
condutivas	o	ambiente	pouco	influencia.	Deve-se	questionar	ativamente	sobre	déficit	auditivo	a	partir	dos	50	anos,	já	que	cerca
de	1	em	cada	3	pessoas	acima	de	65	anos	apresentará	algum	grau	de	perda,	com	impacto	em	isolamento	social,	dependência	e
aceleração	de	quadros	demenciais.
A	 tontura	 e	 a	 vertigem	 são	 frequentemente	 usadas	 como	 sinônimos	 pelos	 pacientes,	 mas	 sua	 diferenciação	 clínica	 é
fundamental:	 a	 sensação	 rotatória	 caracteriza	 a	 vertigem,	 enquanto	 sensações	 de	 flutuação,	 "cabeça	 vazia",	 escurecimento
visual	 (pré-síncope)	ou	 instabilidade/desequilíbrio	não	devem	ser	confundidas	com	ela.	Deve-se	 investigar	 tempo	de	evolução
(aguda,	 com	 menos	 de	 1	 semana,	 ou	 crônica),	 caráter	 recorrente	 ou	 autolimitado,	 periodicidade,	 sintomas	 associados
(hipoacusia,	 zumbido,	 cefaleia,	 náuseas,	 vômitos)	 e	 fatores	 desencadeantes	 (posição	 da	 cabeça,	 esforço	 físico,	 alimentação,
estresse).	O	controle	do	equilíbrio	 integra	orelhas,	olhos,	cerebelo,	 tronco	encefálico	e	propriocepção;	sintomas	neurológicos
associados	—	diplopia,	disartria,	ataxia,	 fraqueza	 focal,	alteração	de	marcha	—	sugerem	 lesão	central	ou	de	outros	sistemas
(ex.:	baixo	débito	cardíaco),	enquanto	quadros	psicogênicos	(pânico,	ansiedade,	hiperventilação)	e	a	cinetose	(enjoo	em	viagens,
por	desbalanço	entre	informação	labiríntica	e	visual)	são	diagnósticos	diferenciais	importantes.
O	zumbido	(tinnitus)	é	a	percepção	de	som	na	ausência	de	estímulo	externo,	podendo	ser	a	primeira	manifestação	de	perda
auditiva.	 Deve-se	 caracterizar	 localização	 (uni,	 bilateral	 ou	 "na	 cabeça"),	 qualidade	 do	 som	 (agudo,	 grave,	 apito,	 chiado,
pulsátil),	tempo	de	evolução,	modo	de	início,	fatores	de	melhora	ou	piora	(movimentação	cefálica,	cafeína,	chocolate,	alimentos
condimentados),	grau	de	incômodo	(podendo-se	usar	escala	visual	analógica	de	0	a	10)	e	sintomas	associados.	Zumbido	pulsátil
ou	 "em	 jato"	 deve	 levantar	 suspeita	 de	 aterosclerose,	 fístulas	 ou	 malformações	 arteriovenosas	 intracranianas,	 dada	 a
proximidade	das	carótidas	internas	com	a	orelha	média.	Outras	queixas	relevantes	incluem	otalgia	(dor,	que	pode	originar-se
nas	 três	 porções	 da	 orelha,	 ou	 ser	 referida	 por	 disfunção	 da	 ATM,	 lesões	 faríngeas	 ou	 cervicais),	 plenitude	 auricular
(sensação	de	"orelha	cheia",	por	acúmulo	de	secreção)	e	otorreia	 (saída	de	secreção,	mais	comumente	de	origem	na	orelha
externa;	secreção	hialina	após	trauma	craniano	levanta	suspeita	de	fístula	liquórica).
1.3	Semiotécnica	—	Exame	Físico
O	exame	físico	da	orelha	compreende	inspeção,	palpação,	ausculta	e	testes	de	função	auditiva	e	vestibular.
Na	 inspeção,	avaliam-se	forma,	tamanho	e	cor	do	pavilhão	auricular,	buscando	malformações	como	agenesia	ou	microtia	do
pavilhão,	 aplasia/hipoplasia	 do	 MAE,	 orelhas	 proeminentes,	 fístulas	 ou	 cistos	 pré-auriculares,	 além	 de	 assimetrias,	 sinais
flogísticos,	cicatrizes,	queloides	e	úlceras.	A	atresia	(ausência	parcial	ou	completa	do	pavilhão	ou	do	canal	auditivo,	por	falta	de
formação)	deve	 ser	 sempre	questionada	ativamente	 ao	paciente,	 assim	como	 remoções	 cirúrgicas	 ou	 traumáticas	prévias.	O
hematoma	auricular	(orelha	"em	couve-flor"),	de	aspecto	irregular,	é	encontrado	após	trauma	local,	típico	de	lutadores.	No
meato	 acústico	 externo,	 pesquisam-se	 edema,	 secreções,	 descamações,	 sangue,	 cerume,	 corpos	 estranhos	 e	 alterações
estruturais.
Na	 palpação,	 avalia-se	 o	 pavilhão	 e	 a	 região	 retroauricular	 em	 busca	 de	 tumorações,	 linfonodos,	 cistos,	 abscessos	 e
hematomas,	 sendo	 indispensável	para	 identificar	áreas	de	 flutuação	quando	há	 suspeita	de	abscesso.	Em	caso	de	otalgia	ou
otorreia,	movimenta-se	o	pavilhão	para	 cima	e	para	baixo	e	 comprime-se	o	 trago	e	a	 região	da	mastoide:	 a	dor	à	 tração	do
pavilhão/trago	sugere	otite	externa,	enquanto	a	dor	à	palpação	da	região	mastóidea	sugere	otite	média	 (e	deve	 levantar	a
hipótese	de	mastoidite).	A	ausculta	nas	regiões	retroauricular,	periauricular	e	cervical	é	indicada	em	pacientes	com	zumbido
pulsátil,	para	investigar	aneurisma,	fístula	ou	malformação	arteriovenosa.
A	otoscopia	é	realizada	tracionando-se	delicadamente	o	pavilhão	para	cima	e	para	trás	(retificando	o	MAE	em	adultos	—	em
crianças	 pequenas	 a	 tração	 costuma	 ser	 para	 baixo	 e	 para	 trás),	 utilizando-se	 o	 maior	 espéculo	 tolerável	 pelo	 paciente.	 O
examinador	deve	"ancorar"	o	otoscópio,	apoiando	a	mão	que	o	segura	na	face	do	paciente,	de	modo	que	movimentos	bruscos	do
paciente	não	desloquem	o	instrumento	contra	as	paredes	do	canal	(o	que	pode	causar	dor	intensa	mesmo	sem	lesão).	Deve-se
evitar	 tocar	 a	 membrana	 timpânica	 com	 o	 espéculo.	 À	 otoscopia,	 observam-se	 hiperemia,	 secreções,	 sangramento,
deformidades,	 corpos	 estranhos	 e	 dispositivos	 de	 drenagem;	 a	mobilidade	 da	membrana	 pode	 ser	 avaliada	 por	manobra	 de
Valsalva	ou	por	otoscopia	pneumática.	A	ausência	do	reflexo	luminoso	sugere	espessamento	da	membrana.	Cerume	acumulado
pode	impedir	totalmente	a	visualização	e	necessitar	remoção	com	curetas.
A	acuidade	auditiva	pode	ser	rastreada	pelo	teste	da	voz	sussurrada:	o	examinador	posiciona-se	cerca	de	60	cm	atrás	do
paciente	sentado	(para	 impedir	 leitura	 labial),	 tampa	a	orelha	não	testada	e	 friccciona	delicadamente	o	trago	em	movimento
circular	(evitando	transferência	sonora),	expira	completamente	antes	de	sussurrar	uma	combinação	de	três	 letras	e	números
(ex.:	 "3-U-1"),	 repetindo	 com	 combinação	 diferente	 se	 necessário.	 O	 teste	 é	 considerado	 normal	 quando	 o	 paciente	 repete
corretamente	 ao	 menos	 3	 de	 6	 itens	 (em	 duas	 tentativas);	 é	 anormal	 com	 4	 ou	 mais	 erros,	 devendo-se	 então	 solicitar
audiometria.	Esse	teste	tem	sensibilidade	de	90–100%	e	especificidade	de	70–87%	para	perda	auditiva	superior	a	30	dB,	sendo
o	teste	de	rastreamento	mais	acurado	quando	comparado	aos	testes	com	diapasão	—	cuja	acurácia	e	reprodutibilidade	têm	sido
questionadas,	embora	continuem	amplamente	utilizados.
Os	 testes	 com	 diapasão	 (preferencialmente	 256	 ou	 512	 Hz)	 ajudam	 a	 diferenciar	 perdas	 condutivas	 de	 neurossensoriais,
devendo	ser	realizados	em	ambiente	silencioso:	Teste	de	Weber	—	o	diapasão	vibrando	é	apoiado	na	 linha	média	do	crânio
(vértice,	glabela	ou	incisivos);	em	audição	normal,	o	som	é	percebido	igualmente	nas	duas	orelhas	ou	na	linha	média.	Na	perda
condutiva	unilateral,	o	som	lateraliza	para	a	orelha	comprometida	(pois	o	ruído	ambiente,	não	competindo	por	via	aérea,
permite	melhor	percepção	óssea	nesse	lado).	Na	perda	neurossensorial	unilateral,	o	som	lateraliza	para	a	orelha	sã	(a	lesão
coclear/nervosa	prejudica	a	transmissão	do	lado	doente).	Teste	de	Rinne	—	compara	a	condução	aérea	(CA)	com	a	condução
óssea	 (CO):	 apoia-se	 o	 diapasão	 vibrando	 sobre	 o	 processo	 mastóideo	 até	 o	 desaparecimento	 da	 percepção	 sonora,
aproximando-o	 então	 do	 meato	 acústico	 e	 perguntando	 se	 o	 pacienteainda	 ouve.	 Em	 condição	 normal	 e	 na	 perda
neurossensorial,	 CA	 >	 CO	 (Rinne	 positivo,	 embora	 na	 perda	 neurossensorial	 ambas	 as	 vias	 estejam	 rebaixadas	 de	 forma
equivalente);	na	perda	condutiva,	CO	≥	CA	(Rinne	negativo).
Os	 testes	 de	 função	 vestibular	 dividem-se	 em	 estáticos	 e	 dinâmicos.	 O	 teste	 de	 Romberg	 (estático)	 avalia	 o	 reflexo
vestíbulo-espinal	 e	 as	 conexões	 do	 tronco	 encefálico	 e	 do	 cerebelo:	 paciente	 em	 pé,	 calcanhares	 juntos,	 pontas	 dos	 pés
separadas	 a	 30°,	 braços	 estendidos	 e	 olhos	 fechados	 por	 cerca	 de	 1	 minuto.	 Queda	 para	 frente	 ou	 para	 trás	 sugere
comprometimento	de	sistema	nervoso	central;	oscilação	ou	queda	lateral	sugere	alteração	vestibular	periférica.	Entre	os	testes
dinâmicos,	a	marcha	revela	desvio	ou	queda	para	o	lado	comprometido	nas	lesões	vestibulares	periféricas	unilaterais,	piorando
de	olhos	fechados;	o	teste	de	Fukuda	consiste	em	60	passos	"marchando	no	lugar"	com	olhos	fechados	e	braços	estendidos,
sendo	 normais	 desvios	 laterais	 de	 até	 30°	 e	 deslocamento	 anterior	 de	 até	 1	 metro	 —	 desvios	 progressivos	 para	 um	 lado
sugerem	déficit	vestibular	daquele	lado.	O	nistagmo	espontâneo	(observado	com	o	paciente	sentado,	olhando	ao	centro,	sem
fixação	ocular)	e	o	nistagmo	de	posição,	pesquisado	pela	manobra	de	Dix-Hallpike	(paciente	sentado,	cabeça	rodada	45°
para	 o	 lado	 testado,	 deitado	 rapidamente	 com	 a	 cabeça	 pendente	 cerca	 de	 15–30°	 abaixo	 da	 borda	 da	 maca),	 permitem
diferenciar	 a	 origem	 periférica	 da	 central:	 o	 nistagmo	 periférico	 é	 horizontal	 ou	 torcional,	 inibido	 pela	 fixação	 ocular,
geotrópico	 e	 fatigável	 (desaparece	 com	 repetição	 da	manobra);	 o	 nistagmo	 central	 é	 vertical	 puro,	 horizontal	 ou	 torcional,
pouco	ou	nada	 influenciado	pela	 fixação	ocular.	Essa	diferenciação	 também	se	aplica	ao	quadro	mais	amplo	de	avaliação	da
crise	vertiginosa	(ver	Quadro	1.1).
Quadro	1.1	—	Diferenciação	entre	vertigem	de	origem	periférica	e	central
Achado Origem	periférica Origem	central
Nistagmo	espontâneo Desaparece	ou	diminui	com	fixação	ocular Aumenta	ou	não	se	altera	com	fixação	ocular
Direção	do	nistagmo Horizontal	e	oblíquo Vertical,	oblíquo,	múltiplas	direções
Teste	de	Romberg Desvio	para	o	lado	lesionado Desvio	sem	lado	preferencial
Teste	de	Fukuda Desvio	para	o	lado	lesionado Desvio	sem	lado	preferencial
Teste	dos	braços	estendidos Sem	queda,	apenas	desvio	para	o	lado	lesionado Queda	de	um	ou	ambos	os	braços
Coordenação Sem	alteração Dismetria,	hipo/hipermetria	(sugere	lesão	cerebelar)
1.4	Exames	Complementares
A	 audiometria	 tonal	 determina	 limiares	 auditivos	 por	 via	 aérea	 (fones	 em	 cabine	 acústica)	 e	 por	 via	 óssea	 (vibrador	 na
mastoide,	estímulo	direto	à	cóclea).	No	audiograma,	usam-se	símbolos	convencionados:	O	(vermelho)	para	via	aérea	direita,	X
(azul)	para	via	aérea	esquerda,		para	via	óssea	esquerda.	A	perda	auditiva	é	classificada,	pela	média
tritonal	em	dB	NA,	em:	normal	 (10–25),	 leve	(26–40),	moderada	(41–55),	moderada-severa	(56–70),	grave	(71–90)	e	profunda
(>90).	 Quanto	 ao	 tipo,	 a	 perda	 condutiva	 mostra	 curva	 óssea	 normal	 e	 curva	 aérea	 rebaixada,	 com	 gap	 aéreo-ósseo
(diferença	≥10	dB	entre	as	curvas);	a	perda	neurossensorial	mostra	ambas	as	curvas	rebaixadas,	sem	gap;	a	perda	mista
apresenta	ambas	rebaixadas,	com	gap	presente.	A	audiometria	vocal	avalia	o	limiar	de	reconhecimento	de	fala	(SRT)	—
menor	intensidade	em	que	o	paciente	repete	50%	das	palavras	—	e	o	índice	percentual	de	reconhecimento	de	fala	(IPRF),
com	discriminação	normal	entre	88–100%;	entre	60–88%	suspeita-se	de	lesão	coclear,	e	abaixo	de	60%,	de	lesão	retrococlear.
A	impedanciometria	mede	objetivamente	a	integridade	da	orelha	média,	incluindo	timpanometria	(tipo	A	=	normal;	AS/AR	=
complacência	 reduzida,	 sugestivo	 de	 otosclerose;	 AD	 =	 sem	 pico	 de	 complacência	 com	 hipermobilidade,	 sugestivo	 de
desarticulação	 ossicular;	 B	 =	 sem	 pico,	 sugestivo	 de	 líquido	 ou	 massa	 na	 caixa	 timpânica;	 C	 =	 pico	 em	 pressão	 negativa,
sugestivo	 de	 disfunção	 tubária)	 e	 o	 reflexo	 do	 estapédio,	 útil	 na	 avaliação	 da	 orelha	média	 e,	 indiretamente,	 dos	 estados
coclear	e	retrococlear.
Os	 exames	 de	 imagem	 —	 tomografia	 computadorizada	 (TC)	 e	 ressonância	 magnética	 (RM)	 de	 ossos	 temporais	 —
complementam-se:	a	TC	é	o	principal	exame	para	lesões	de	orelha	externa,	média	e	interna	(malformações,	atresia/estenose	do
MAE,	avaliação	da	cadeia	ossicular,	diagnóstico	de	colesteatoma	pelo	alargamento	do	espaço	de	Prussak	e	erosão	do	esporão
de	Chaussé,	e	 identificação	de	malformações	congênitas	da	orelha	interna);	a	RM	complementa	a	avaliação	de	partes	moles,
sendo	indicada	na	suspeita	de	schwannoma	vestibular	(zumbido/perda	auditiva	unilateral),	em	casos	de	surdez	súbita	e	na
investigação	 de	 paralisia	 facial	 periférica,	 além	 de	 identificar	 alterações	 vasculares	 do	meato	 acústico	 interno	 e	 do	 ângulo
pontocerebelar.
1.5	Principais	Afecções	da	Orelha
Orelha	 externa.	 O	 cerume	 em	 excesso	 ou	 impactado	 pode	 causar	 hipoacusia	 e	 desconforto.	 Corpos	 estranhos	 (grãos,
sementes,	insetos,	pedaços	de	brinquedo)	são	frequentes,	sobretudo	em	crianças,	causando	hipoacusia,	zumbido	e,	no	caso	de
insetos,	desconforto	intenso.	A	otite	externa	difusa	é	uma	inflamação	do	MAE	geralmente	iniciada	por	prurido/trauma	local
(cotonetes,	imersão	em	água),	sendo	a	Pseudomonas	aeruginosa	o	agente	mais	comum	(~40%	dos	casos);	caracteriza-se	por	dor
intensa	 que	 piora	 à	 manipulação	 da	 orelha,	 prurido,	 perda	 condutiva	 e	 plenitude	 auricular,	 com	 meato	 eritematoso	 e
edemaciado	ao	exame.	A	otite	externa	necrosante	 (maligna)	estende-se	à	base	do	crânio,	acometendo	predominantemente
diabéticos	mal	controlados	e	imunocomprometidos;	a	otalgia	é	intensa,	resistente	a	analgésicos	comuns,	podendo	evoluir	com
paralisia	 facial	 periférica	 e	 acometimento	 de	 outros	 pares	 cranianos	 (VII,	 X,	 XI),	 sinalizando	 pior	 prognóstico.	 A	otomicose
(Aspergillus,	mais	frequentemente,	ou	Candida	albicans)	causa	prurido	intenso,	com	micélios	de	coloração	variável	conforme	a
espécie	 (preto	 —	 A.	 niger;	 verde	 —	 A.	 viridans;	 amarelo	 —	 A.	 flavus;	 marrom	 —	 A.	 fumigatus).	 A	 pericondrite/condrite
auricular	 —	 inclusive	 a	 associada	 a	 piercing	 de	 cartilagem	 —	 deve-se	 sobretudo	 à	 Pseudomonas	 aeruginosa	 e	 ao
Staphylococcus	 aureus,	 com	 risco	 de	 necrose	 por	 comprometimento	 da	 irrigação	 via	 pericôndrio.	 O	 herpes-zóster	 ótico
decorre	de	reativação	do	vírus	varicela-zóster,	com	dor	neurálgica	e	vesículas	na	concha	e	parede	superior	do	MAE.	Achados
adicionais	 descritos	 incluem	 exostoses	 (crescimentos	 ósseos	 benignos	 no	 MAE	 que	 dificultam	 a	 otoscopia),	 e	 nódulos	 do
pavilhão	auricular	como	queloide,	condrodermatite	da	hélice	(pápula	dolorosa,	exige	biópsia	para	excluir	carcinoma),	tofos
gotosos,	carcinoma	basocelular,	cisto	cutâneo	(epidermoide)	e	nódulos	reumatoides.
Orelha	média.	A	otite	média	aguda	(OMA)	decorre	tipicamente	de	infecção	de	vias	aéreas	superiores	que	provoca	congestão
e	edema	da	mucosa	da	tuba	auditiva,	retendo	secreção	na	orelha	média;	fatores	de	risco	incluem	creche,	tabagismo	dos	pais,
aleitamento	materno	curto	e	atopia.	O	diagnóstico	é	feito	por	otalgia	associada	a	abaulamento	da	membrana	timpânica	à
otoscopia	—	achado	considerado	patognomônico	—,	com	redução	de	mobilidade	à	pneumotoscopia;	cerca	de	metade	dos	casos
é	viral	e	metade	bacteriana	(Streptococcus	pneumoniae,	Haemophilus	influenzae,	Moraxella	catarrhalis).	A	otite	média	com
efusão	 caracteriza-se	 por	 líquido	 na	 orelha	média	 sem	 sinais	 infecciosos	 agudos,	 classificando-se	 em	 aguda	 (3	 meses);	 à	 otoscopia	 observam-se	 bolhas	 de	 secreção,	 nível	 hidroaéreo	 e
horizontalização	do	cabo	do	martelo,	com	resolução	espontânea	em	75–90%	dos	casos	após	3	meses.	A	otitemédia	crônica
(OMC),	 com	duração	superior	a	3	meses,	 classifica-se	em	não	colesteatomatosa	 (simples	—	perfuração	central	ou	marginal,
com	otorreia	 intermitente;	ou	supurativa	—	otorreia	mucopurulenta	persistente,	com	erosões	ossiculares)	e	colesteatomatosa
(congênita,	adquirida	primária	—	a	partir	de	bolsas	de	retração	por	disfunção	tubária	—,	ou	adquirida	secundária	—	a	partir	de
perfuração	marginal).	O	colesteatoma	consiste	em	pele	(epitélio	escamoso	queratinizado)	na	cavidade	timpânica,	cujas	lamelas
de	 queratina	 descamam	 progressivamente,	 distendendo	 o	 espaço;	 o	 sintoma	 mais	 frequente	 é	 otorreia	 purulenta	 fétida
contínua,	 sendo	 hipoacusia	 o	 sintoma	mais	 importante	 na	 forma	 congênita	—	 vertigem,	 dor	 e	 complicações	 como	 zumbido
agudo,	 surdez	 súbita,	 paralisia	 facial	 e	 meningite	 indicam	 extensão	 à	 orelha	 interna	 ou	 complicação	 grave.	 A	mastoidite
coalescente	 manifesta-se	 por	 hiperemia,	 calor	 e	 rubor	 retroauriculares,	 podendo	 formar	 abscesso.	 A	 otosclerose	 é	 a
hipoacusia	por	anquilose	da	platina	do	estribo,	com	início	entre	15–35	anos,	mais	comum	em	pessoas	de	cor	branca;	a	otoscopia
costuma	ser	normal	(raramente	observa-se	o	sinal	de	Schwartz	—	mancha	róseo-avermelhada	no	promontório)	e	a	audiometria
mostra	 perda	 condutiva	 predominando	 em	 graves.	 Outros	 achados	 descritos	 à	 otoscopia	 incluem	 timpanosclerose	 (placa
branca	 "de	 giz"	 por	 depósito	 hialino,	 geralmente	 sem	 repercussão	 auditiva	 significativa),	 derrame	 seroso	 (líquido	 âmbar,
comum	em	barotrauma	ou	infecção	viral	de	vias	aéreas)	e	miringite	bolhosa	(vesículas	hemorrágicas	dolorosas,	associada	a
otite	bacteriana,	viral	ou	por	Mycoplasma).
Padrões	de	perda	auditiva	—	resumo	comparativo:
Quadro	1.2	—	Perda	condutiva	vs.	perda	neurossensorial
Aspecto Perda	condutiva Perda	neurossensorial
Sítio	da	lesão Orelha	externa/média	(corpo	estranho,	otite	média,
perfuração,	otosclerose)
Orelha	interna/nervo	coclear	(ruído,	ototóxicos,	trauma,	neuroma
do	acústico,	envelhecimento)
Meato/tímpano Geralmente	alteração	visível	(exceto	otosclerose) Geralmente	não	visível
Voz	do
paciente
Tende	a	ser	baixa Pode	ser	alta
Ambiente
ruidoso
Audição	pode	até	"melhorar" Audição	piora
Teste	de
Weber
Lateraliza	para	a	orelha	comprometida Lateraliza	para	a	orelha	sã
Teste	de	Rinne CO	≥	CA	(Rinne	negativo) CA	>	CO,	porém	ambas	rebaixadas	(Rinne	positivo)
Orelha	interna	e	vestibulopatias.	A	perda	auditiva	induzida	por	ruído	(PAIR)	é	doença	ocupacional,	irreversível,	bilateral
e	 não	 evolutiva	 após	 cessar	 a	 exposição,	 com	 perda	 inicial	 tipicamente	 em	 4.000–6.000	 Hz.	 A	 presbiacusia	 é	 a	 perda
neurossensorial	relacionada	à	idade,	iniciando	a	partir	dos	55	anos	e	progredindo	lentamente	(5–6	dB/década),	predominando
em	 agudos	 —	 o	 que	 explica	 a	 dificuldade	 característica	 para	 discriminar	 consoantes.	 A	 vertigem	 verdadeira	 (sensação
rotatória)	 tem	 múltiplas	 causas	 —	 cardiovasculares,	 metabólicas,	 enxaqueca,	 centrais,	 traumáticas,	 inflamatórias	 —,	 sendo
essencial	 diferenciar	 a	 origem	 periférica	 da	 central	 (Quadro	 1.1).	 Entre	 as	 vestibulopatias	 periféricas,	 destacam-se:	 a
síndrome	 de	 Ménière,	 com	 tétrade	 de	 vertigem	 episódica	 (minutos	 a	 24h),	 perda	 auditiva	 neurossensorial	 flutuante	 e
progressiva	 (inicialmente	 em	 graves),	 zumbido	 e	 plenitude	 aural;	 a	 vertigem	postural	 paroxística	 benigna	 (VPPB),	 com
crises	breves	desencadeadas	por	movimento	cefálico,	sem	sintomas	auditivos,	diagnosticada	pela	manobra	de	Dix-Hallpike;	e	a
neurite	 vestibular,	 de	 provável	 etiologia	 viral	 (herpes	 simples	 tipo	 1),	 com	 vertigem	 súbita	 e	 intensos	 sintomas
neurovegetativos	(náuseas,	vômitos,	sudorese	fria),	sem	queixas	auditivas,	durando	dias	a	semanas.	É	importante	notar	que	a
labirintite	propriamente	dita	—	disseminação	de	infecção	da	orelha	média/mastoide	para	a	orelha	interna	pela	janela	redonda
—	é	 causa	 rara	 de	 vertigem,	 embora	 seja	 um	 "rótulo	 diagnóstico"	 popularmente	 (e	 por	 vezes	 equivocadamente)	 atribuído	 a
qualquer	quadro	vertiginoso.	Um	resumo	comparativo	mais	amplo	de	causas	de	tontura/vertigem	periférica	e	central	(incluindo
neuroma	do	acústico	e	toxicidade	medicamentosa)	está	sintetizado	no	Quadro	1.3.
Quadro	1.3	—	Causas	de	vertigem	periférica	e	central	(síntese)
Condição Início Duração Audição Zumbido Outros	achados
VPPB Súbito,	ao	girar/inclinar	a
cabeça
Segundos	a		CO	é	o	padrão	normal.
O	abaulamento	da	membrana	timpânica	é	achado	patognomônico	de	otite	média	aguda.
O	teste	de	Weber	lateraliza	para	a	orelha	doente	na	perda	condutiva	e	para	a	orelha	sã	na	perda	neurossensorial;	no	teste	de
Rinne,	CO	≥	CA	indica	perda	condutiva.
A	diferenciação	entre	vertigem	periférica	e	central	baseia-se	principalmente	nas	características	do	nistagmo	e	nos	testes	de
coordenação/equilíbrio.
Otosclerose,	colesteatoma,	presbiacusia	e	PAIR	são	causas	importantes	e	distintas	de	hipoacusia,	cada	uma	com	perfil	etário,
audiométrico	e	otoscópico	característico.
Questões	para	autoavaliação
1.	 Explique	por	que	a	lateralização	do	som	no	teste	de	Weber	ocorre	em	sentidos	opostos	na	perda	condutiva	e	na	perda
neurossensorial	unilaterais.
2.	 Um	lactente	apresenta	estridor	inspiratório	que	piora	ao	choro	e	melhora	em	repouso	com	hiperextensão	cervical.	Que
hipótese	diagnóstica	otológica/laríngea	deve	ser	considerada	e	qual	a	conduta	obrigatória?
3.	 Diferencie,	do	ponto	de	vista	fisiopatológico	e	semiológico,	a	vertigem	da	síndrome	de	Ménière,	da	VPPB	e	da	neurite
vestibular.
4.	 Por	que	o	abaulamento	da	membrana	timpânica	é	considerado	achado	patognomônico	de	otite	média	aguda,	e	o	que	a
pneumotoscopia	acrescenta	ao	diagnóstico?
Capítulo	2	—	Nariz	e	Seios	Paranasais
2.1	Anatomia	e	Fisiologia
A	 principal	 função	 do	 nariz	 é	 conduzir	 o	 ar,	 em	 condições	 adequadas	 de	 temperatura,	 umidade	 e	 limpeza,	 até	 os	 alvéolos
pulmonares,	participando	ativamente	da	modulação	do	fluxo	aéreo.	Em	comparação	com	a	respiração	bucal,	a	respiração	nasal
é	mais	lenta	e	profunda,	permitindo	difusão	máxima	dos	gases	nos	alvéolos.	O	nariz	é	dividido	em	duas	cavidades	pelo	septo
nasal,	estrutura	sustentada	por	osso	(porção	superior)	e	cartilagem	(dois	terços	inferiores).	As	narinas	abrem-se	externamente
nos	vestíbulos,	revestidos	lateralmente	por	pele	com	pelos	protetores	(vibrissas)	e,	medialmente,	sobre	o	septo,	por	mucosa
hipervascularizada.	 A	 estrutura	 externa	 visível	 corresponde	 apenas	 à	 porção	 anterior	 da	 cavidade	 nasal,	 que	 se	 estende
posteriormente	até	a	nasofaringe.
Internamente,	em	cada	lado,	encontram-se	três	conchas	nasais	 (turbinas)	—	inferior,	média	e	superior	—,	estruturas	ósseas
revestidas	por	mucosa	hipervascularizada,	responsáveis	por	aumentar	a	superfície	de	contato	com	o	ar	e	por	imprimir	direção
ao	fluxo	aéreo.	O	fluxo,	 inicialmente	turbulento,	favorece	o	contato	máximo	doar	com	a	mucosa,	otimizando	filtração	 (pelas
vibrissas,	pelo	reflexo	do	espirro,	pela	ação	adesiva	e	bactericida	do	muco	e	pelos	cílios	do	epitélio	respiratório),	aquecimento
(pelo	rico	plexo	vascular	capilar	e	sinusoidal	venoso	da	mucosa)	e	umidificação	(por	secreções	nasais,	transudação	serosa	dos
vasos	e	secreção	 lacrimal).	Estima-se	que	as	cavidades	nasais	secretem/transudem	cerca	de	1.000	mL/dia,	dos	quais	75%	se
destinam	à	umidificação	do	ar	inspirado	e	25%	ao	transporte	mucociliar.
Sob	 cada	 concha	 existe	 um	meato	 correspondente.	No	meato	 inferior	 drena	 o	ducto	 nasolacrimal;	 a	maioria	 dos	 seios
paranasais	drena	para	o	meato	médio.	Didaticamente,	distinguem-se	duas	vias	de	drenagem	dos	seios	da	face:	a	primeira
via	conduz	as	secreções	dos	seios	frontal,	maxilar	e	células	etmoidais	anteriores	pelo	infundíbulo	etmoidal	(no	meato	médio),
seguindo	anterior	e	inferiormente	ao	óstio	da	tuba	auditiva	rumo	à	rinofaringe;	a	segunda	via	conduz	as	secreções	das	células
etmoidais	 posteriores	 e	 do	 seio	 esfenoidal	 pelo	 recesso	 esfenoetmoidal	 (no	 meato	 superior),	 unindo-se	 posteriormente	 à
primeira	via	na	rinofaringe.
O	epitélio	olfatório	localiza-se	no	teto	da	cavidade	nasal	(lâmina	cribriforme),	na	superfície	medial	da	concha	nasal	superior	e
na	 porção	 superior	 do	 septo,	 ocupando	 cerca	 de	 1	 cm²	 e	 sendo	 constituído	 por	 neuroepitélio	 olfatório	 associado	 ao	 epitélio
respiratório.	Apenas	10	a	20%	do	ar	inspirado	passa	por	essa	região;	existe	também	fluxo	retronasal	de	moléculas	odoríferas
provenientes	da	cavidade	oral	e	da	faringe	durante	a	mastigação	e	a	deglutição,	o	que	contribui	para	a	percepção	do	sabor	dos
alimentos.
Os	seios	paranasais	—	frontais,	maxilares,	células	etmoidais	e	seio	esfenoidal	—	são	cavidades	aeradas	nos	ossos	da	face	e	do
crânio,	recebendo	os	nomes	dos	ossos	onde	se	localizam;	também	revestidos	por	mucosa	produtora	de	muco,	contribuem	para
limpeza	e	umidificação	do	ar.	Os	seios	frontais	e	maxilares	são	os	únicos	facilmente	acessíveis	ao	exame	clínico	(palpação,
percussão	e	transiluminação).	O	desenvolvimento	embrionário	dos	seios	inicia-se	por	volta	do	segundo	mês	de	vida	intrauterina,
sendo	as	células	etmoidais	anteriores	e	o	seio	maxilar	os	únicos	presentes	ao	nascimento;	os	seios	esfenoidal	e	frontal
desenvolvem-se,	respectivamente,	após	os	4	e	os	6	anos	de	idade,	acelerando	seu	crescimento	após	o	nascimento.
2.2	Semiotécnica	—	Anamnese
Na	 identificação,	 a	 idade	 é	 dado	 relevante:	 recém-nascidos	 com	 alterações	 respiratórias	 nasais	 devem	 levantar	 suspeita	 de
malformações	congênitas	ou	infecções	perinatais,	sendo	urgência	médica	abaixo	dos	6	meses	de	vida,	já	que	o	recém-nascido	é
respirador	nasal	obrigatório.	Quanto	ao	sexo,	malformações	como	a	atresia	de	coana	são	duas	vezes	mais	prevalentes	em
meninas.	A	profissão,	quando	associada	à	exposição	a	poluentes	ambientais	 (gases	de	combustão,	produtos	químicos),	pode
causar	 rinites	ocupacionais.	Nos	antecedentes	pessoais,	 investigam-se	 tabagismo,	etilismo,	 cirurgias	otorrinolaringológicas
prévias,	 doenças	 sistêmicas,	 uso	 de	medicamentos	 (descongestionantes	 nasais,	 ácido	 acetilsalicílico,	 estatinas),	 exposição	 a
irritantes	 inalatórios	e	história	de	 trauma	cranioencefálico.	Nos	antecedentes	 familiares,	 a	história	de	alergia	é	altamente
relevante:	se	ambos	os	pais	apresentam	rinite	alérgica,	a	probabilidade	de	a	criança	desenvolvê-la	chega	a	80%.
Os	 principais	 sintomas	 nasais	 são	 obstrução	 nasal,	 rinorreia,	 alteração	 do	 olfato	 e	 epistaxe.	 A	obstrução	 nasal	 deve	 ser
investigada	 quanto	 à	 lateralidade,	 ao	 início,	 a	 fatores	 desencadeantes	 ou	 de	 melhora	 e	 a	 manifestações	 associadas	 (coriza
hialina,	 espirros	 e	 prurido	 sugerem	 edema	 inflamatório	 da	mucosa).	 A	 rinorreia	 (coriza)	 deve	 ser	 caracterizada	 quanto	 a
lateralidade,	aspecto/viscosidade	e	periodicidade:	rinorreia	hialina	ou	serosa,	associada	a	prurido	e	espirros	em	salva,	sugere
rinite	alérgica;	nas	infecções	virais	de	vias	aéreas,	a	coriza	costuma	iniciar	hialina	e	tornar-se	progressivamente	mais	turva	e
espessa;	aspecto	purulento,	esverdeado	ou	piossanguinolento,	especialmente	com	febre	alta,	sugere	infecção	bacteriana.
Rinorreia	 hialina	 persistente	 sem	 quadro	 alérgico,	 sobretudo	 após	 trauma	 craniano,	 deve	 levantar	 suspeita	 de	 fístula
nasoliquórica.	 Em	 crianças,	 rinorreia	 unilateral	 fétida	 é	 sinal	 clássico	 de	 corpo	 estranho	nasal.	 O	gotejamento	 pós-
nasal	(secreção	no	fundo	do	nariz,	irritando	a	garganta)	é	frequente	nas	infecções	de	vias	aéreas,	especialmente	em	sinusites
etmoidais	e	esfenoidal,	podendo	ser	causa	de	tosse	crônica.
A	alteração	do	olfato	classifica-se	em	anosmia	(perda	completa),	hiperosmia	(aumento),	hiposmia	(diminuição)	e	disosmia
(distorção	 —	 parosmia,	 quando	 há	 estímulo	 real	 distorcido,	 ou	 fantosmia,	 alucinação	 olfatória	 sem	 estímulo).	 Quanto	 à
topografia,	 pode	 ser	 condutiva	 (bloqueio	 da	 chegada	 de	 moléculas	 ao	 epitélio	 olfatório	 —	 rinites,	 alterações	 anatômicas,
tumores),	 neurossensorial	 (lesão	 do	 epitélio	 ou	 dos	 nervos	 olfatórios	 —	 infecções	 virais,	 TCE)	 ou	 central	 (tumores
intracranianos,	 doenças	 degenerativas).	 A	epistaxe	 (sangramento	 nasal)	 deve	 ser	 avaliada	 quanto	 a	 lateralidade,	 tempo	 de
evolução,	 episódios	prévios	 semelhantes,	 fatores	 associados	 ao	 início	 (trauma	—	 inclusive	manipulação	digital,	 a	 causa	mais
comum,	 dado	 o	 hipervascularização	 da	 mucosa	—,	 infecção	 de	 vias	 aéreas,	 rinite),	 comorbidades	 (hipertensão	 arterial	 mal
controlada,	 coagulopatias	 —	 sobretudo	 se	 bilateral),	 uso	 de	 anticoagulantes	 ou	 AAS,	 tabagismo/etilismo	 e	 resposta	 a
compressão	local.	Sangramentos	de	regiões	mais	posteriores	raramente	se	exteriorizam	como	epistaxe,	manifestando-se	antes
como	hemoptise	ou	hematêmese	por	estimulação	do	reflexo	nauseoso.
Outras	queixas	relevantes	incluem	a	dor	na	topografia	dos	seios	faciais,	que	não	é	sinônimo	automático	de	sinusite	(exigindo
tosse,	 expectoração	 ou	 gotejamento	 posterior	 associados,	 além	 de	 febre	 ou	 infecção	 prévia	 para	 reforçar	 a	 hipótese),
tipicamente	piorando	ao	abaixar	a	cabeça	ou	ao	deitar	sobre	um	dos	lados.
2.3	Semiotécnica	—	Exame	Físico
O	exame	 compreende	 inspeção,	 rinoscopia	 anterior,	 rinoscopia	posterior,	oroscopia	 e	palpação/percussão	dos	 seios
paranasais.
Na	 inspeção,	analisa-se	a	pirâmide	nasal	quanto	a	dismorfias,	distúrbios	de	desenvolvimento	e	desvios,	 sinais	sugestivos	de
processo	infeccioso	(hiperemia,	edema,	abaulamento)	e	a	presença	da	chamada	"saudação	alérgica"	—	traço/prega	horizontal
no	 dorso	 nasal,	 resultado	 do	 hábito	 de	 elevar	 a	 ponta	 do	 nariz	 com	 a	 mão	 para	 aliviar	 o	 prurido/coriza.	 Pode-se	 observar
também	 a	 fácies	 do	 respirador	 bucal:	 ausência	 de	 vedamento	 labial,	 encurtamento	 do	 lábio	 superior,	 eversão	 do	 lábio
inferior,	narinas	estreitas	e	olheiras	evidentes.	Compressão	suave	na	ponta	do	nariz	costuma	dilatar	as	narinas,	 facilitando	a
visualização	parcial	dos	vestíbulos	com	o	auxílio	de	lanterna	ou	otoscópio;	deve-se	testar	a	obstrução	unilateral	comprimindo
alternadamente	cada	asa	nasal	e	solicitando	inspiração.	Observam-se	ainda	alterações	de	formato	como	o	nariz	em	sela	(sífilis
congênita),	desabamento	nasal	(tumores	agressivos,	blastomicose,	leishmaniose,	hanseníase)	e	o	rinofima	(aumento	de	volume
nasal	 com	 hipervascularização	 e	 espessamento	 cutâneo,	 comum	 em	 idosos);	 durante	 a	 inspiração	 profunda,	 o	 colapso	 das
narinas	(formando	uma	"válvula")	sugere	fraqueza	das	paredes	nasais.
Na	rinoscopia	anterior,	com	espéculo	nasal	(ou	o	próprio	otoscópio	com	espéculo	largo),	promove-se	a	lateralização	da	asa
nasal,	 evitando	 tocar	 o	 septo	 (mais	 sensível	 e	 doloroso	 à	 compressão).	 Avaliam-se:	 inferiormente,	 o	 assoalho	 da	 cavidade	 e
presença	 de	 secreções	 ou	 lesões;	 lateralmente,	 a	 cabeça	 das	 conchas	 inferior	 e	 média	 (coloração	 da	 mucosa,	 hipertrofia,degeneração	polipoide)	 e	 o	meato	médio	 (local	 de	drenagem	dos	 seios	 frontal,	maxilar	 e	 etmoidal	 anterior);	medialmente,	 o
septo	nasal	(deformidades,	desvios,	perfurações,	ulcerações).	A	mucosa	nasal	normalmente	é	mais	avermelhada	que	a	mucosa
oral;	fica	pálida,	azulada	ou	avermelhada	na	rinite	alérgica	e	eritematosa/edemaciada	na	rinite	viral.	O	desvio	da	porção
inferior	do	septo	é	achado	comum,	raramente	causando	obstrução	relevante	isoladamente.
A	 rinoscopia	 posterior	 é	 realizada	 com	 a	 língua	 relaxada	 e	 abaixada,	 introduzindo-se	 um	 pequeno	 espelho	 de	 laringe
previamente	aquecido	em	direção	à	parede	posterior	da	orofaringe,	ultrapassando	o	palato	mole,	permitindo	avaliar	as	paredes
da	rinofaringe,	as	cóanas,	a	cauda	da	concha	inferior,	a	porção	posterior	do	septo,	o	tamanho	das	tonsilas	faríngeas	e	as	tubas
auditivas	 (exame	 de	 difícil	 realização	 em	 crianças	 e	 pacientes	 pouco	 colaborativos).	 A	oroscopia,	 no	 contexto	 da	 avaliação
nasal,	permite	observar	o	palato	ogival	(atrésico),	comum	em	respiradores	bucais	crônicos.
A	palpação	dos	seios	paranasais	é	feita	comprimindo-se	a	parte	óssea	das	sobrancelhas	de	baixo	para	cima	(seios	frontais,
evitando	pressão	sobre	os	olhos)	e	a	região	malar	de	baixo	para	cima	(seios	maxilares);	em	condições	normais,	a	manobra	não
deve	 causar	 dor.	 Pode-se	 complementar	 com	 percussão	 das	 projeções	 dos	 seios	 (técnica	 similar	 à	 percussão
torácica/abdominal,	com	o	paciente	de	olhos	fechados)	e	com	transiluminação:	em	ambiente	escurecido,	aplica-se	fonte	de	luz
forte	e	estreita	sob	a	sobrancelha	(seio	frontal)	ou	sob	a	órbita,	avaliando-se	o	brilho	no	palato	duro	através	da	boca	entreaberta
(seio	maxilar);	ausência	de	transiluminação	pode	indicar	espessamento	mucoso,	secreção	retida	ou	hipoplasia	do	seio	—	método
pouco	sensível	e	pouco	específico.	O	sinal	da	vela	—	secreção	purulenta	na	parede	posterior	da	orofaringe,	 lembrando	cera
derretida	—	 pode	 ser	 observado	 em	 quadros	 de	 sinusite	 durante	 a	 oroscopia.	 Hipersensibilidade	 à	 palpação/percussão	 dos
seios,	associada	a	febre,	tosse	e	expectoração,	sugere	rinossinusite.
2.4	Exames	Complementares
A	endoscopia	nasal	(flexível	ou	rígida)	permite	visualização	completa	da	cavidade	nasal,	do	vestíbulo	à	rinofaringe,	avaliando
posição	 e	 deformidades	 do	 septo,	 secreções	 anormais,	 coloração	 e	 dimensões	 das	 conchas,	 condições	 do	 meato	 médio
(secreção,	bloqueio,	degeneração	polipoide)	e	tecido	adenoideano.	A	rinometria	e	a	rinomanometria	são	os	únicos	exames
que	 avaliam	 objetivamente	 a	 função	 nasal,	 empregados	 principalmente	 em	 pesquisa.	 Entre	 os	 exames	 de	 imagem,	 a
radiografia	simples	em	perfil	do	cavum	é	útil	na	avaliação	de	hiperplasia	de	tonsila	faríngea	(adenoide),	desde	que	realizada	em
condições	técnicas	ideais	(perfil	correto,	sem	choro	ou	deglutição,	e	sem	infecção	ativa).	É	fundamental	destacar	que	não	se
deve	solicitar	radiografia	simples	de	seios	da	face	para	avaliação	de	rinossinusite	aguda,	pois	esse	é	um	diagnóstico
eminentemente	clínico	(a	secreção	purulenta	no	meato	médio	à	endoscopia	é	achado	patognomônico);	exames	de	imagem	—
sobretudo	a	tomografia	computadorizada	de	seios	da	face	—	reservam-se	para	suspeita	de	complicações.	A	avaliação	de
secreções	(coleta	por	swab,	evitando	contaminação	e	uso	prévio	de	medicações	tópicas	nas	12h	anteriores)	tem	limitações,	já
que	 a	 flora	 do	 vestíbulo/cavidade	 nasal	 nem	 sempre	 corresponde	 à	 dos	 seios	 paranasais.	 A	biópsia	da	mucosa	nasal	 está
indicada	 na	 suspeita	 de	 discinesia	 ciliar	 ou	 diante	 de	 lesão	 expansiva/tumoral,	 sendo	 essencial	 para	 diferenciar	 neoplasias
benignas	de	malignas.
2.5	Principais	Afecções	do	Nariz	e	dos	Seios	Paranasais
As	 rinites	 —	 inflamação	 da	 mucosa	 nasal,	 com	 obstrução,	 rinorreia,	 espirros,	 prurido	 e	 hiposmia	 —	 classificam-se	 em
infecciosas	 (viral,	 bacteriana,	 fúngica),	 alérgica,	 ocupacional,	 induzida	por	medicamentos	 (AAS	e	 outros),	 hormonal	 e	 outras
causas	(eosinofílica	não	alérgica,	irritantes,	alimentar,	emocional,	atrófica,	por	refluxo	gastroesofágico)	ou	idiopática.	A	rinite
alérgica,	mediada	por	IgE	após	exposição	a	alérgenos,	classifica-se	quanto	à	duração	em	intermitente	(12	 semanas,	 sem	 resolução
completa).	A	forma	aguda	caracteriza-se	por	dois	ou	mais	dos	sintomas:	obstrução/congestão	nasal	e	secreção	nasal	anterior	ou
posterior	(frequentemente,	mas	não	necessariamente,	purulenta),	podendo	associar-se	odinofagia,	disfonia,	tosse	(mais	comum
em	 crianças	 e	 à	 noite),	 pressão/plenitude	 auricular,	 sintomas	 sistêmicos	 e	 dor/pressão	 facial.	 Deve-se	 atenção	 especial	 a
pacientes	 asmáticos,	 dado	 o	 conceito	 de	 "vias	 respiratórias	 unidas".	 Embora	 40–60%	 das	 rinossinusites	 agudas	 bacterianas
resolvam-se	espontaneamente,	são	sinais	de	alerta	para	complicações	(orbitárias,	mais	comuns,	ou	intracranianas):	ausência
de	 resposta	 ao	 antibiótico	 após	72h,	 edema/eritema	palpebral,	 alterações	 visuais,	 cefaleia	 intensa,	 irritabilidade,	 toxemia	 ou
irritação	 meníngea.	 A	 suspeita	 de	 etiologia	 bacteriana	 fundamenta-se	 na	 duração	 dos	 sintomas	 (piora	 após	 o	 5º	 dia	 ou
persistência	além	de	10	dias)	ou	na	presença	de	ao	menos	três	dentre:	secreção	purulenta	unilateral	predominante,	dor	local
intensa	 unilateral,	 febre	 >38°C,	 VHS/PCR	 elevados	 e	 "dupla	 piora"	 (reagudização	 após	 melhora	 inicial)	 —	 a	 coloração	 da
secreção	 isoladamente	 não	 caracteriza	 infecção	 bacteriana.	 A	 rinossinusite	 crônica	 compreende	 as	 formas	 sem	 e	 com
polipose	nasossinusal	(esta	última,	bilateral,	iniciando	no	meato	médio,	podendo	formar	a	polipose	de	Woaks,	associada	a
alargamento	da	pirâmide	nasal);	a	TC	de	seios	da	face	é	o	exame	de	escolha	para	avaliar	extensão	e	anatomia.
A	hiperplasia	 adenoideana	 ("adenoides",	 na	 linguagem	 leiga)	 causa	 obstrução	 nasal	 crônica	 e,	 na	 forma	 crônica,	 altera	 o
padrão	 respiratório	 (síndrome	 do	 respirador	 bucal),	 com	 desvios	 do	 crescimento	 craniofacial	 e	 dentário	 (maxila	 atrésica,
protrusão	dos	incisivos	superiores,	mordida	aberta/cruzada),	maior	frequência	de	infecções	respiratórias	e	distúrbios	do	sono
(ronco,	pausas	respiratórias,	sonolência/irritabilidade	diurna).
A	epistaxe	classifica-se	em	anterior	(90%	dos	casos,	menos	grave,	originada	principalmente	na	área	de	Kiesselbach	do	septo
—	confluência	das	artérias	etmoidal	anterior,	esfenopalatina,	 labial	 superior	e	palatina	maior	—,	mais	comum	em	crianças	e
adultos	 jovens)	 e	posterior	 (10%	 dos	 casos,	mais	 grave,	 originada	 na	 parede	 posterolateral	 abaixo	 da	 concha	média,	mais
comum	acima	dos	50	anos).	Fatores	predisponentes	incluem	clima	frio	e	baixa	umidade	(ressecamento	da	mucosa)	e	poluição
atmosférica.
As	doenças	granulomatosas	nasais	são	inflamações	crônicas	específicas	com	formação	de	granulomas,	manifestando-se	de
forma	 inespecífica	 (obstrução,	 crostas,	 cacosmia,	 rinorreia	 mucossanguinolenta),	 podendo	 cursar	 com	 perfuração	 septal;
classificam-se	 em	 infecciosas	 (bacterianas—	 actinomicose,	 hanseníase,	 rinoscleroma,	 sífilis,	 tuberculose;	 fúngicas	 —
histoplasmose,	 paracoccidioidomicose,	 rinosporidiose;	 parasitárias	 —	 leishmaniose),	 de	 etiologia	 desconhecida	 (sarcoidose,
doença	 de	 Crohn),	 autoimunes	 (granulomatose	 de	 Wegener,	 lúpus	 eritematoso	 sistêmico,	 síndrome	 de	 Churg-Strauss,
policondrite	recorrente)	e	induzidas	por	trauma	(granuloma	de	colesterol,	granuloma	por	uso	de	cocaína	—	que	também	pode
causar	necrose/perfuração	septal	por	seu	potente	efeito	vasoconstritor).	As	neoplasias	nasais	e	nasossinusais	manifestam-se
principalmente	por	obstrução	nasal	unilateral,	podendo	cursar	com	rinorreia	purulenta,	epistaxe	e	cacosmia;	dor	e	deformidade
são	manifestações	tardias,	refletindo	crescimento	silencioso	até	infiltração	de	par	craniano	ou	obstrução	de	óstio	sinusal	—	a	TC
é	o	método	de	escolha	para	estadiamento,	reservando-se	a	biópsia	para	os	casos	sem	diagnóstico	radiológico	típico	ou	sem	risco
hemorrágico	proibitivo	(osteomas,	hemangiomas,	nasoangiofibromas).
Pontos-chave
A	cavidade	nasal	filtra,	aquece	e	umidifica	o	ar;	os	cornetos	aumentam	a	superfície	de	contato	e	direcionam	o	fluxo
turbulento.
A	maioria	dos	seios	paranasais	(frontal,	maxilar,	etmoidais	anteriores)	drena	para	o	meato	médio;	etmoidais	posteriores	e
esfenoidal	drenam	para	o	meato	superior.
O	diagnóstico	de	rinossinusite	aguda	é	clínico;	radiografia	simples	de	seios	da	face	não	deve	ser	solicitada	para	esse	fim.
A	rinorreia	hialina	persistente	pós-trauma	craniano	deve	levantar	suspeita	de	fístula	liquórica;	rinorreia	unilateral	fétida	em
criança	sugere	corpo	estranho.
Epistaxe	anterior	(área	de	Kiesselbach)	é	mais	comum	e	menos	grave	que	a	posterior.
A	síndrome	do	respirador	bucal	(por	hiperplasia	adenoamigdaliana	ou	rinite	alérgica)	causa	alterações	craniofaciais
características	quando	crônica.
Questões	para	autoavaliação
1.	 Descreva	as	duas	vias	de	drenagem	dos	seios	paranasais	e	sua	relevância	para	a	compreensão	da	rinossinusite.
2.	 Quais	critérios	clínicos	sugerem	etiologia	bacteriana	em	uma	rinossinusite	aguda,	e	quais	são	os	sinais	de	alerta	para
complicações?
3.	 Compare	a	epistaxe	anterior	e	a	posterior	quanto	a	localização,	frequência,	gravidade	e	faixa	etária	predominante.
4.	 Explique	a	relação	fisiopatológica	entre	rinite	alérgica/hiperplasia	adenoideana	crônicas	e	o	desenvolvimento	da	síndrome	do
respirador	bucal.
Capítulo	3	—	Boca	e	Língua
3.1	Anatomia	e	Fisiologia
A	 cavidade	 oral	 é	 delimitada	 anteriormente	 pelos	 lábios	 (superior	 e	 inferior)	 —	 pregas	 musculares	 revestidas	 por	 epitélio
delicado	e	translúcido,	hipervascularizado,	o	que	confere	sua	coloração	avermelhada	e	permite	reconhecer	palidez	ou	cianose.
Na	maxila	(superiormente)	e	na	mandíbula	(inferiormente)	situam-se	os	alvéolos	dentários.	A	gengiva	e	o	palato	duro	são
recobertos	por	epitélio	queratinizado,	mais	resistente	ao	atrito	mecânico	da	mastigação,	situando-se	logo	acima	do	periósteo;	já
a	mucosa	 jugal	 (face	 interna	 das	 bochechas),	 a	mucosa	 vestibular	 (entre	 lábios	 e	 gengivas),	 a	 face	 interna	 dos	 lábios,	 o
assoalho	da	boca	e	o	palato	mole	têm	epitélio	não	queratinizado,	mais	avermelhado	—	o	que	explica	por	que	áreas	de	atrito
ou	 cicatrização	 recorrente	 nessas	 regiões	 podem	 apresentar	 placas	 esbranquiçadas	 (espessamento	 epitelial	 com	 perda	 de
transparência).	O	frênulo	labial,	prega	mucosa	mediana,	conecta	o	lábio	à	gengiva;	o	sulco	gengival,	entre	a	borda	gengival	e
cada	dente,	é	pouco	visível	ao	exame	simples.	O	adulto	possui	32	dentes,	numerados	convencionalmente	de	1	a	16	(maxila,
direita	para	esquerda)	e	17	a	32	(mandíbula,	esquerda	para	direita);	cada	dente	é	formado	principalmente	por	dentina,	com
coroa	revestida	por	esmalte	exposta	ao	meio	oral,	e	vasos/nervos	que	penetram	pelo	ápice	até	a	câmara	pulpar.
A	língua	é	constituída	por	feixe	muscular	com	fibras	em	múltiplas	direções,	recoberta	dorsalmente	por	papilas	gustativas	que
lhe	 conferem	 aspecto	 rugoso	 —	 algumas	 arredondadas	 e	 róseas	 (fungiformes),	 outras	 filiformes	 e	 esbranquiçadas.	 A	 face
inferior	da	língua	não	possui	papilas;	sua	mucosa	é	delgada,	com	importante	plexo	venoso,	o	que	a	torna	superfície	ideal	para
absorção	 de	 medicamentos	 administrados	 por	 via	 sublingual	 diretamente	 na	 corrente	 sanguínea.	 A	 língua	 possui	 frênulo
lingual,	conectando-a	ao	assoalho	da	boca;	ao	lado	do	frênulo	emergem	os	ductos	das	glândulas	submandibulares	(ductos
de	 Wharton).	 As	 glândulas	 salivares	 sublinguais	 situam-se	 logo	 abaixo	 da	 mucosa	 do	 assoalho	 bucal;	 as	 glândulas
submentonianas	 drenam	 por	 múltiplos	 pequenos	 ductos,	 de	 difícil	 visualização;	 as	 parótidas	 abrem-se	 na	 mucosa	 jugal,
próximo	ao	segundo	molar	superior,	por	meio	do	ducto	parotídeo	(ducto	de	Stensen),	cujo	trajeto	horizontal	sob	a	mucosa	é
às	vezes	visível	e	palpável.
Acima	e	posteriormente	à	língua	encontram-se	os	pilares	anterior	(arco	palatoglosso)	e	posterior	(arco	palatofaríngeo),
formando,	na	transição	para	a	orofaringe,	um	arco	entre	o	qual	se	aloja	a	tonsila	palatina	(amígdala)	—	estrutura	linfoide
frequentemente	visível	em	jovens,	tendendo	a	diminuir/desaparecer	após	os	18–20	anos,	podendo	hipertrofiar-se	novamente	em
quadros	de	ativação	imune.	O	palato	mole	é	parcialmente	muscular,	participando	ativamente	da	deglutição	e	da	proteção	da
via	 aérea,	 sendo	 recoberto	 por	 mucosa	 com	 rede	 vascular	 superficial	 visível;	 termina	 na	 úvula.	 A	 articulação
temporomandibular	(ATM)	relaciona-se	funcionalmente	à	mastigação	e	pode	ser	fonte	de	dor	referida,	inclusive	otológica.
3.2	Semiotécnica	—	Exame	Físico
O	exame	segue	inspeção	sistemática,	complementada	pela	oroscopia,	com	uso	de	luvas	para	palpação	de	lesões	e	de	espátulas
de	madeira	 ou	 plástico	 (descartáveis)	 para	 exame	 de	mucosas	 e	 faringe.	 Qualquer	 lesão	 encontrada	 deve	 ser	 palpada	 para
avaliar	extensão,	mobilidade,	presença	de	dor	e	secreção.	Se	o	paciente	utiliza	prótese	dentária,	deve-se	solicitar	sua	remoção
para	 permitir	 a	 visualização	 completa	 da	 mucosa	 subjacente	 —	 próteses	 mal	 ajustadas	 podem,	 inclusive,	 ser	 causa	 de
traumatismo	crônico	e	retardar	o	diagnóstico	de	neoplasias	(a	estomatite	da	dentadura	manifesta-se	por	mucosa	edemaciada
e	de	coloração	vermelho-viva	sob	a	prótese).
Lábios.	Avaliam-se	deformidades	 (congênitas,	como	o	 lábio	 leporino,	associado	ou	não	a	 fenda	palatina;	 traumáticas;	ou	por
paralisia	 facial,	 com	 desvio	 da	 rima	 para	 o	 lado	 não	 afetado),	 coloração	 (palidez	 sugerindo	 anemia;	 cianose	 por	 hipoxemia;
espessamento	e	perda	de	elasticidade	na	queilite	actínica,	condição	pré-cancerosa	por	exposição	solar	crônica,	predispondo	a
carcinoma	 espinocelular;	 máculas	 hipercrômicas	 na	 síndrome	 de	 Peutz-Jeghers,	 associada	 a	 polipose	 intestinal;
telangiectasias,	 que	 podem	 indicar	 a	 síndrome	 de	 Osler-Weber-Rendu),	 umidade	 (relevante	 para	 avaliação	 de	 hidratação
sistêmica),	 edema	 (trauma	 local,	 infecção,	 ou	 angioedema	 —	 extravasamento	 de	 líquido	 intravascular	 por	 alteração	 da
permeabilidade	capilar,	mediado	por	mastócitos	nas	reações	alérgicas/anafiláticas	ou	por	bradicinina	nas	reações	a	IECA	ou	no
angioedema	hereditário;	potencialmente	fatal	se	atingir	língua,	glote	ou	vias	aéreas),	nódulos	(trauma	repetitivo/granulomas,	ou
suspeita	de	neoplasia	—	especial	atenção	a	tabagistas,	sobretudo	usuários	de	cachimbo),	ulcerações	(trauma,	neoplasia,	ou	o
cancro	da	sífilis	primária	—	lesão	nodular	ulcerada,	indolor,	endurada,	sem	secreção,	surgindo	1–6	semanas	após	infecção	e
resolvendo-se	espontaneamente	em	2–6	semanas)	e	rachaduras	(variações	de	umidade/temperatura,	condições	autoimunes,	ou
queilite	 angular	 —	 maceração	 e	 fissuras	 nos	 ângulos	 da	 boca,	 por	 deficiência	 vitamínica	 ou	 oclusão	 labial
excessiva/insuficiente,	frequentemente	com	sobreinfecção	por	Candida	albicans).	Vesículas	agrupadas	sobre	base	eritematosa,
dolorosas	e	recidivantes	na	mesma	localização,	sugerem	herpes	simples,	associadoa	quedas	de	imunidade.	Fasciculações	no
canto	dos	lábios	podem	sinalizar	hipocalcemia	(sinal	de	Trousseau).
Mandíbula	e	ATM.	A	disfunção	temporomandibular	pode	causar	cefaleia	temporal,	dor	articular	ou	otalgia	referida	—	o	que
reforça	a	importância	de	examinar	a	ATM	em	queixas	de	otalgia	não	aguda.	Avaliam-se	estalidos	à	abertura	oral,	dor	à	palpação
do	 côndilo	 (em	 repouso	 e	 à	 abertura/fechamento),	 trismo,	 desvios	 da	mandíbula	 durante	 o	 movimento	 e	 dor	 à	 mordida	 de
espátula	 (diferenciando-se	 de	 afecção	 dentária	 por	 percussão	 isolada	 dos	 dentes).	 Antecedentes	 relevantes	 incluem	 trauma,
tratamento	 ortodôntico,	 vícios	 de	 oclusão,	 próteses	 mal	 adaptadas	 e	 extrações	 múltiplas.	 O	 bruxismo	 (ranger	 de	 dentes,
sobretudo	noturno)	relaciona-se	a	tensão	muscular,	ansiedade	e	estresse.
Cavidade	 oral,	 dentes.	 Avalia-se	 o	 estado	 de	 conservação	 dentária	 (cáries,	 fraturas,	 higienização,	 manchas,	 ausências),
podendo-se	testar	amolecimento	e	dor	à	palpação/percussão	com	espátula	(diferenciando	de	dor	referida	por	sinusite	maxilar
ou	 afecção	 da	 ATM/mandíbula).	 A	 erosão	 dentária	 (desgaste	 do	 esmalte	 com	 exposição	 da	 dentina	 amarelo-acastanhada)
associa-se	à	exposição	a	substâncias	químicas	corrosivas,	como	no	contato	repetido	com	ácido	gástrico	na	bulimia;	a	abrasão
decorre	 do	 desgaste	 mecânico	 repetido	 (uso,	 hábitos	 como	 segurar	 objetos	 com	 os	 dentes).	 A	 extração	 dentária	 leva	 à
reabsorção	progressiva	do	alvéolo	e,	depois,	do	osso	mandibular.
Gengivas	e	mucosa	oral.	A	gengiva	normal	é	rosa-pálida	(podendo	ser	mais	pigmentada	em	peles	mais	escuras),	firmemente
aderida	 aos	 dentes	 e	 ao	 osso.	 Na	 gengivite,	 observam-se	 hiperemia,	 edema,	 sangramento	 (inclusive	 espontâneo	 —
gengivorragia,	que	quando	multifocal	e	sem	lesão	local	associada	deve	levantar	suspeita	de	coagulopatia	ou	plaquetopenia)	e
retração	 gengival	 (exposição	 do	 colo/raiz	 dentária,	 dando	 falsa	 impressão	 de	 "dentes	 alongados").	 A	hiperplasia	 gengival
(massas	gengivais	que	podem	cobrir	os	dentes)	associa-se	a	uso	de	fenitoína,	gravidez,	puberdade	e	leucemias.	Metais	pesados
podem	depositar-se	na	gengiva,	 alterando	 sua	coloração	 (ex.:	 linha	escura	na	 intoxicação	por	chumbo).	O	exame	da	mucosa
jugal,	vestibular,	sublingual,	do	palato	e	do	assoalho	bucal	é	feito	com	boa	iluminação	e	espátula,	everte-se	o	lábio	com	auxílio
de	luvas	para	inspecionar	a	mucosa	vestibular.	As	aftas	são	ulcerações	pequenas	(até	~5	mm),	ovais/arredondadas,	dolorosas,
com	 fundo	 esbranquiçado/amarelado	 sobre	 base	 hiperemiada,	 resolvendo-se	 espontaneamente	 em	 7–10	 dias,	 mas
frequentemente	 recorrentes;	 lesões	 numerosas,	muito	 grandes,	 persistentes,	 sangrantes	 ou	 com	 sintomas	 sistêmicos	 exigem
investigação	e	biópsia	—	assim	como	qualquer	lesão	oral	que	não	cicatrize	em	até	2	semanas,	sempre	suspeita	de	malignidade.
Vesículas	 mucosas	 ocorrem	 na	 doença	 mão-pé-boca	 (viral,	 comum	 na	 infância)	 e	 no	 pênfigo	 vulgar	 (autoimune);
vesículas/bolhas	associadas	a	quadro	alérgico	grave	 sugerem	síndrome	de	Stevens-Johnson.	Placas	acinzentadas	ovaladas
em	qualquer	estrutura	oral	podem	representar	sífilis	secundária	 (lesões	altamente	contagiosas).	No	palato,	o	toro	(torus)
palatino	 é	 proliferação	 óssea	 benigna	 da	 linha	 média,	 sem	 necessidade	 de	 correção;	 a	 fenda	 palatina	 é	 malformação
congênita	com	comunicação	naso-orofaríngea,	frequentemente	associada	ao	lábio	leporino.	A	úvula	deve	ser	avaliada	quanto	a
formato	e	mobilidade	à	fonação	("AAAA"),	testando	o	NC	X	(nervo	vago):	ausência	de	elevação	de	um	dos	lados	provoca	desvio
da	úvula	para	o	lado	normal	(contrátil);	a	úvula	bífida	pode	acompanhar	fendas	palatinas	discretas.
Glândulas	 salivares.	 A	 saliva	 limpa	 e	 lubrifica	 a	 cavidade	 oral,	 auxilia	 a	 deglutição	 e	 contém	 amilase	 salivar	 digestiva.	 A
xerostomia	(boca	seca)	pode	decorrer	de	doença	das	glândulas	salivares,	condições	autoimunes	(como	a	síndrome	de	Sjögren)
ou	medicamentos	 anticolinérgicos,	 aumentando	o	 risco	de	 cáries,	mucosite	 e	gengivite.	As	glândulas	devem	ser	palpadas	—
parótidas	 externamente	 sobre	 os	 ramos	mandibulares;	 submandibulares	 e	 submentonianas	 preferencialmente	 por	palpação
bimanual	 (uma	 mão	 no	 assoalho	 bucal,	 outra	 externamente).	 A	 sialoadenite	 (inflamação,	 mais	 comum	 na	 parótida)	 e	 a
sialolitíase	(cálculos,	mais	comuns	nas	submandibulares)	podem	causar	tumefação	que	piora	durante	a	mastigação	e	regride
após	a	refeição,	quando	a	obstrução	ductal	é	parcial.
Língua.	 Solicita-se	 ao	 paciente	 que	 protrua	 a	 língua	 e	 a	movimente	 lateralmente	 e	 para	 cima;	 desvio	 na	 protrusão	 sugere
disfunção	 do	 nervo	 hipoglosso	 (NC	 XII)	 —	 a	 língua	 desvia-se	 para	 o	 lado	 da	 lesão.	 Segura-se	 a	 ponta	 com	 gaze	 para
inspecionar	e	palpar	as	bordas	 laterais	e	a	 face	 inferior	—	regiões	mais	 frequentes	de	neoplasia,	principalmente	em	homens
acima	de	50	anos,	tabagistas	ou	usuários	de	fumo	mastigável,	sendo	suspeito	todo	nódulo	ou	úlcera	persistente,	sobretudo	se
endurecido.	A	anquiloglossia	("língua	presa")	decorre	de	frênulo	lingual	curto,	interferindo	na	mobilidade	e	na	fonação.	Entre
os	achados	descritos	na	língua:	saburra	(camada	de	papilas	filiformes,	variável	em	aspecto);	língua	fissurada	(escrotal)	—
pregas	profundas	indolores,	mais	comum	na	síndrome	de	Down,	sem	significado	patológico	isolado,	mas	predispondo	a	acúmulo
de	resíduos	e	halitose;	língua	geográfica	(glossite	migratória	benigna)	—	áreas	avermelhadas	sem	papilas,	lembrando	um
mapa	 que	 muda	 de	 padrão,	 podendo	 piorar	 com	 estresse;	 língua	 careca/lisa	 (glossite	 atrófica)	 —	 ausência	 de	 papilas,
avermelhada	 e	 dolorosa,	 associada	 a	 deficiências	 vitamínicas	 (riboflavina,	 niacina,	 ácido	 fólico,	 B12,	 piridoxina,	 ferro)	 ou
quimioterapia;	língua	pilosa	—	hipertrofia	das	papilas	filiformes	com	depósito	de	queratina,	podendo	escurecer	por	associação
a	 infecção	 fúngica;	 leucoplasia/leucoplaquia	—	placas	brancas	espessadas,	 indolores	e	persistentes,	exigindo	diferenciação
por	biópsia	com	carcinoma	espinocelular	inicial,	sobretudo	acima	dos	40	anos;	leucoplaquia	pilosa	—	placas	esbranquiçadas
de	 aspecto	 "aveludado"	 nas	 bordas	 laterais,	 não	 removíveis	 à	 raspagem,	 associadas	 a	 infecção	 por	 HIV/EBV;	 sarcoma	 de
Kaposi	—	lesões	vermelho-arroxeadas,	associadas	a	imunossupressão	grave	(HHV-8);	monilíase	(candidíase)	oral	—	placas
brancas	espessas,	removíveis	à	raspagem	(deixando	área	hiperemiada),	associadas	a	imunossupressão,	uso	de	corticosteroide
ou	antibioticoterapia	prolongada,	podendo	estender-se	à	faringe	e	ao	esôfago.
3.3	Principais	Achados	e	Afecções	(síntese	complementar)
Além	 do	 já	 descrito,	 destacam-se	 achados	 clássicos	 de	 provas	 e	 exames	 físicos:	manchas	 de	 Fordyce	 (glândulas	 sebáceas
ectópicas,	pequenas	manchas	amareladas	benignas	na	mucosa	bucal/lábios);	manchas	de	Koplik	(pontos	brancos	sobre	base
eritematosa	 próximos	 aos	 molares,	 sinal	 precoce	 de	 sarampo);	 petéquias	 orais	 (mordedura	 acidental,	 infecção	 ou
plaquetopenia);	 veias	 varicosas	 sublinguais	 (achado	 benigno	 relacionado	 à	 idade);	 toros	 mandibulares	 (crescimentos
ósseos	bilaterais	na	face	interna	da	mandíbula,	benignos);	dentes	de	Hutchinson	(incisivos	centrais	superiores	permanentes
menores,	 espaçados	 e	 chanfrados	 —	 sinal	 de	 sífilis	 congênita);	 carcinoma	 de	 assoalho	 de	 boca	 (lesão	 ulcerada,
frequentemente	com	eritroplaquia	adjacente,	também	suspeita	de	malignidade).
Pontos-chave
A	mucosa	oral	queratinizada	(gengiva,	palato	duro)	resiste	ao	trauma	mecânico;	a	não	queratinizada	(jugal,	vestibular,
assoalho,	palato	mole)	é	mais	avermelhada	e	mais	suscetível	a	alterações	visíveis	de	coloração.
O	desvio	da	língua	na	protrusão	indica	lesão	do	NC	XII	(para	o	lado	da	lesão);	a	ausência	de	elevação	do	palato	mole/desvio
da	úvula	indica	lesão	do	NC	X	(úvula	desvia	para	o	lado	são).
As	bordas	laterais	e	a	face	inferior	da	língua,	alémdo	assoalho	da	boca,	são	os	sítios	mais	frequentes	de	neoplasia	oral	—
inspeção	e	palpação	continuam	padrão-ouro	para	detecção	precoce.
Toda	lesão	oral	(nódulo,	úlcera,	placa)	persistente	por	mais	de	2	semanas	deve	ser	considerada	suspeita	e
investigada/biopsiada.
Angioedema	que	envolve	língua,	glote	ou	vias	aéreas	é	emergência	potencialmente	fatal.
Leucoplasia,	leucoplaquia	pilosa	e	eritroplaquia	têm	implicações	diagnósticas	distintas	(a	primeira	exige	exclusão	de
carcinoma	espinocelular;	a	segunda	associa-se	a	HIV/EBV;	a	terceira	é	fortemente	sugestiva	de	malignidade).
Questões	para	autoavaliação
1.	 Um	paciente	apresenta	desvio	da	língua	para	a	direita	ao	protruí-la.	Qual	par	craniano	está	comprometido	e	de	que	lado	está
a	lesão?
2.	 Diferencie	leucoplasia,	leucoplaquia	pilosa	oral	e	eritroplaquia	quanto	a	aspecto,	associação	clínica	e	conduta.
3.	 Explique	por	que	a	palpação	bimanual	é	a	técnica	indicada	para	avaliar	as	glândulas	submandibulares,	e	o	que	sugere	uma
tumefação	que	aumenta	durante	a	mastigação	e	regride	depois.
4.	 Cite	três	causas	de	queilite	angular	e	explique	o	mecanismo	fisiopatológico	comum	a	elas.
Capítulo	4	—	Faringe
4.1	Anatomia	e	Fisiologia
A	faringe	é	a	continuação	da	cavidade	bucal,	sendo,	do	ponto	de	vista	clínico	e	anatomofuncional,	indissociável	dela.	Estende-se
da	 base	 do	 crânio	—	 onde	 sua	 parede	 posterior	 se	 insere	 no	 tubérculo	 faríngeo	 do	 osso	 occipital	 e,	 lateralmente,	 na	 parte
petrosa	 do	 osso	 temporal	 —	 até	 a	 borda	 inferior	 da	 cartilagem	 cricoide,	 dividindo-se	 em	 três	 porções:	 nasofaringe
(rinofaringe),	orofaringe	e	hipofaringe	(laringofaringe).
A	nasofaringe	estende-se	da	base	do	crânio	até	uma	linha	imaginária	no	palato	mole,	comunicando-se	com	a	cavidade	nasal
pelas	cóanas	 e	 com	a	 orelha	média	 pelas	 tubas	auditivas	—	 via	 pela	 qual	 infecções	 respiratórias	 altas	 frequentemente	 se
complicam	com	otites.	A	orofaringe	tem	como	limite	anterior	a	superfície	posterior	do	palato	mole;	lateralmente,	é	delimitada
pelos	arcos	palatoglosso	(anterior)	e	palatofaríngeo	(posterior),	entre	os	quais	se	situam	as	fossas	tonsilares,	ocupadas	pelas
tonsilas	 palatinas;	 inferiormente,	 limita-se	 pelo	 dorso	 da	 língua,	 e	 posteriormente	 pela	 epiglote.	 A	 hipofaringe
(laringofaringe)	estende-se	da	borda	superior	da	epiglote	até	a	borda	inferior	da	cartilagem	cricoide.
Na	 fase	 faríngea	 da	 deglutição,	 o	 palato	 mole	 eleva-se	 para	 fechar	 a	 nasofaringe,	 os	 músculos	 constritores	 da	 faringe
contraem-se	para	propulsionar	o	bolo	alimentar,	e	simultaneamente	a	laringe	se	fecha	para	proteger	a	via	aérea	inferior.
A	faringe	abriga	o	anel	linfático	de	Waldeyer,	conjunto	de	estruturas	linfoepiteliais	que	formam	uma	barreira	imunológica	na
entrada	 dos	 sistemas	 respiratório	 e	 digestório:	 a	 tonsila	 faríngea	 (adenoide),	 no	 teto	 da	 faringe;	 um	 par	 de	 tonsilas
tubárias,	na	abertura	faríngea	da	tuba	auditiva;	um	par	de	tonsilas	palatinas,	na	orofaringe;	e	as	tonsilas	linguais,	no	terço
posterior	da	língua.	O	anel	de	Waldeyer	atua	na	produção	de	anticorpos	e	como	reservatório	de	linfócitos	T,	crescendo	ao	longo
da	 infância	 (pico	 após	 os	 2–3	 anos,	 até	 os	 11	 anos)	 e	 regredindo	 espontaneamente	 com	 o	 início	 da	 produção	 hormonal	 na
adolescência	—	o	que	explica	por	que	tonsilas	palatinas	visíveis	são	fisiológicas	em	crianças/jovens,	mas	incomuns	após	os	18–
20	anos,	 salvo	hipertrofia	 reativa.	Funcionalmente,	a	 faringe	participa	da	 respiração	 (passagem	do	ar),	da	 fonação	 (caixa	de
ressonância	faringobuconasal)	e,	primordialmente,	da	deglutição.
4.2	Semiotécnica	—	Anamnese
A	 idade	 orienta	 a	 suspeita	 etiológica:	 faringotonsilites	 virais	 correspondem	a	75%	das	 infecções	de	 vias	 aéreas	 em	crianças
menores	 de	 2	 anos;	 a	mononucleose	 infecciosa	 ocorre	 tipicamente	 na	 2ª–3ª	 décadas	 de	 vida;	 a	 infecção	 por	Streptococcus
pyogenes	torna-se	relevante	a	partir	dos	2–3	anos,	com	pico	entre	5–15	anos.	Ambientes	confinados,	convívio	com	tabagistas	e
frequência	precoce	a	creches/escolas	aumentam	a	incidência	de	faringotonsilites.
Os	principais	sintomas	são:	dor	de	garganta	(espontânea	ou	à	deglutição,	presente	na	quase	totalidade	das	afecções	faríngeas,
inflamatórias	ou	neoplásicas,	podendo	acompanhar-se	de	dor	reflexa	nos	ouvidos	—	inclusive	na	neuralgia	do	glossofaríngeo,
associada	a	dor	periauricular);	dispneia	(pouco	comum,	associada	a	hiperplasia	amigdaliana	exagerada	—	podendo	cursar	com
síndrome	de	apneia	do	sono	—,	cistos	volumosos	da	face	faríngea	da	epiglote	ou	neoplasias	malignas	avançadas,	sobretudo	de
hipofaringe);	 disfagia	 (dificuldade	 para	 deglutir,	 por	 processos	 inflamatórios,	 neoplásicos,	 paralíticos	 do	 véu
palatino/constritores	faríngeos,	ou	mesmo	emocionais);	tosse	 (reflexa,	por	hiperplasia	amigdaliana,	ou	por	aspiração	noturna
de	secreções	tonsilares,	causando	traqueítes/traqueobronquites	"descendentes");	e	halitose	 (frequentemente	por	acúmulo	de
detritos	 e	 descamação	 epitelial	 nas	 criptas	 tonsilares	 —	 "massas	 caseosas"	 ou	 caseum	 —	 que	 se	 tornam	 fétidas	 por
fermentação,	 podendo	 justificar	 indicação	 de	 tonsilectomia	 por	 fator	 social).	 É	 importante,	 na	 anamnese,	 diferenciar
odinofagia	(dor	à	deglutição)	de	disfagia	(dificuldade	mecânica/funcional	para	deglutir,	com	sensação	de	parada	do	alimento
ou	engasgos),	 questionando	 também	exposição	a	 agentes	químicos/poeira/gases,	 uso	excessivo	da	 voz,	 tabagismo,	 etilismo	e
antecedente	de	intubação	orotraqueal	prolongada	(risco	de	lesão	laríngea/traqueal).	Toda	dor	de	garganta,	rouquidão,	disfagia
ou	odinofagia	com	duração	superior	a	3	semanas	é	considerada	prolongada	e	exige	investigação.
4.3	Semiotécnica	—	Exame	Físico
O	exame	da	orofaringe	é	realizado	em	continuidade	ao	exame	bucomaxilofacial,	com	o	abaixador	de	língua	posicionado	nos	dois
terços	 anteriores	 da	 língua	 (relaxada,	 sem	 protrusão),	 solicitando-se	 ao	 paciente	 que	 diga	 "ah"	 ou	 boceje	 para	 melhor
visualização	—	o	que	também	permite	avaliar	a	elevação	do	palato	mole	(teste	do	NC	X:	ausência	de	elevação	e	desvio	da	úvula
para	o	lado	oposto	indicam	paralisia	daquele	lado).	Quando	o	reflexo	nauseoso	é	muito	sensível,	pode-se	usar	duas	espátulas	em
"V",	 tocando	 pontos	 menos	 centrais	 da	 língua,	 ou	 apoiar	 a	 espátula	 sobre	 a	 região	 arqueada	 central	 sem	 pressionar
profundamente.
Avaliam-se	a	orofaringe,	as	tonsilas	palatinas,	os	arcos	palatoglossos	e	palatofaríngeos,	o	tamanho	da	língua	em	relação
ao	palato	mole	(podendo-se	utilizar	a	classificação	de	Mallampati,	modificada	por	Friedman,	para	sistematizar	o	exame)	e	as
tonsilas	quanto	a	tamanho,	simetria,	exsudato/caseum,	tamanho	das	criptas,	ulcerações,	tumores	ou	abaulamentos	—	podendo-
se	utilizar	a	classificação	de	Brodsky	para	registrar	posição	e	tamanho	tonsilar,	graduando	de	0	(não	visíveis)	a	4	(ocupando
mais	de	75%	do	espaço	transverso	da	orofaringe),	passando	por	1	(até	25%),	2	(25–49%)	e	3	(50–74%).	As	tonsilas	normais	em
adultos	 (>20	 anos)	 tendem	 a	 não	 ser	 visíveis,	 exceto	 quando	 hipertrofiadas	 por	 processo	 inflamatório;	 possuem	 criptas
(invaginações	epiteliais	profundas)	nas	quais	pode	se	formar	o	caseum.
A	rinofaringe	(nasofaringe)	é	examinada	por	rinoscopia	posterior.	A	hipofaringe	(laringofaringe),	por	sua	vez,	exige	o
uso	 do	espelho	de	Garcia	 (previamente	 aquecido),	 segurando-se	 a	 língua	 do	 paciente	 com	gaze	 para	 expor	 a	 orofaringe	 e
posicionando-se	o	espelho	contra	a	úvula,	voltado	para	a	região	a	examinar	—	avaliando-se	inicialmente	a	base	da	língua	e	as
tonsilas	 linguais,	depois	a	valécula,	as	pregas	glossoepiglóticas	e	os	seios	piriformes	 (essa	 técnica	constitui	a	 laringoscopia
indireta,	 também	 utilizada	 para	 avaliar	 a	 laringe	 propriamente	 dita	—	 ver	 Capítulo	 5).	 Fatores	 que	 dificultam	 esse	 exame
incluem	reflexo	nauseoso	intenso	e	classificação	de	Mallampati	III/IV,	exigindo,	nesses	casos,	videoendoscopia.	A	investigação
semiológica	da	faringe	deve	sempre

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