Prévia do material em texto
Tutoria 1 - FEBRE Objetivos: 1. Explicar a fisiopatologia da febre, abordando o papel do centro termorregulador hipotalâmico , dos pirógenos exógenos e endógenos e da prostaglandina E₂ . 2. Diferenciar febre de hipertermia e caracterizar os principais padrões de curva térmica , considerando a forma e a frequência de aferição da temperatura e a interpretação dos diferentes momentos da curva. 3. Conceituar febre sem sinais localizatórios — FSSL — e diferenciá-la da febre com foco clínico identificado e da febre de origem indeterminada . 4. Descrever a abordagem clínica inicial da criança febril , considerando duração e intensidade da febre, faixa etária , estado vacinal , contexto epidemiológico , manifestações associadas e condições clínicas gerais. 5. Reconhecer e explicar os sinais clínicos e laboratoriais de gravidade na criança febril , incluindo: ● alteração do estado geral; ● comprometimento neurológico; ● alterações da perfusão; ● hipotensão; ● petéquias; ● lactato elevado; ● plaquetopenia; ● aumento dos marcadores inflamatórios. 6. Explicar a fisiopatologia , os critérios diagnósticos e as manifestações clínicas da sepse e do choque séptico na pediatria , relacionando a infecção à resposta desregulada do hospedeiro, à disfunção orgânica e às alterações hemodinâmicas. 7. Caracterizar a meningite bacteriana e a meningococcemia na infância, abordando fisiopatologia , manifestações clínicas , evolução e possíveis complicações . 8. Estabelecer a investigação diagnóstica diante da suspeita de meningite bacteriana ou meningococcemia, incluindo: ● interpretação do hemograma; ● marcadores inflamatórios; ● lactato; ● coagulograma; ● hemocultura; ● análise do líquido cefalorraquidiano; Que tal salvar esse conteúdo? ● indicações e contraindicações da punção lombar; ● interpretação dos resultados obtidos. 9. Descrever o manejo inicial da sepse e da doença meningocócica na criança, contemplando: ● estabilização hemodinâmica; ● antibioticoterapia empírica precoce; ● monitorização; ● suporte das disfunções orgânicas; ● critérios de internação em centro de terapia intensiva. 10. Analisar as medidas de vigilância epidemiológica e prevenção da doença meningocócica, incluindo: ● notificação compulsória; ● precauções por gotículas; ● quimioprofilaxia dos contatos; ● vacinação; ● ações de bloqueio epidemiológico. Que tal salvar esse conteúdo? Objetivo 1: Explicar a fisiopatologia da febre, abordando o papel do centro termorregulador hipotalâmico, dos pirógenos exógenos e endógenos e da prostaglandina E₂. Regulação da Temperatura Corporal - o papel do Hipotálamo A temperatura do corpo é regulada quase inteiramente por mecanismos de feedback neurais e quase todos esses mecanismos operam por meio de centros regulatórios da temperatura , localizados no hipotálamo . Para que esses mecanismos de feedback operem, deve haver detectores de temperatura para determinar quando a temperatura do corpo está muito alta ou muito baixa. O PAPEL DA ÁREA PRÉ-ÓPTICA-HIPOTALÂMICA ANTERIOR NA DETECÇÃO TERMOSTÁTICA DA TEMPERATURA A área hipotalâmica anterior pré-óptica contém grande número de neurônios sensíveis ao calor, bem como cerca de um terço dos neurônios sensíveis ao frio. Acredita-se que esses neurônios atuem como sensores de temperatura para o controle da temperatura corporal. Quando a área pré-óptica é aquecida : ● a pele de todo corpo produz sudorese profusa , ● enquanto os vasos sanguíneos da pele ficam muito dilatados . Essa resposta é uma reação imediata que causa perda de calor, portanto, está claro que a área hipotalâmica anterior pré-óptica tem a capacidade de funcionar como centro de controle termostático da temperatura corporal . DETECÇÃO DA TEMPERATURA POR RECEPTORES NA PELE E NOS TECIDOS CORPORAIS PROFUNDOS A pele apresenta mais receptores para o frio do que para o calor. Quando a pele é resfriada, desencadeiam-se efeitos reflexos que aumentam a temperatura corporal de várias formas: (1) calafrios → para aumento da produção de calor corporal ; (2) inibição da sudorese (3) vasoconstrição da pele → para diminuir a perda de calor corporal pela pele. Esses receptores corporais profundos detectam, em sua maior parte, o frio ao invés do calor. É provável que tanto os receptores da pele como os receptores profundos do corpo se destinem à prevenção da hipotermia, ou seja, impedir a baixa temperatura corporal. O HIPOTÁLAMO POSTERIOR INTEGRA OS SINAIS SENSORIAIS DA TEMPERATURA CENTRAL E PERIFÉRICA Mesmo que muitos dos sinais sensoriais para a temperatura surjam nos receptores periféricos, esses sinais contribuem para o controle da temperatura corporal, principalmente por meio do hipotálamo. A área do hipotálamo que eles estimulam está localizada bilateralmente no hipotálamo posterior, aproximadamente no nível dos corpos mamilares. Que tal salvar esse conteúdo? Os sinais sensoriais de temperatura da área hipotalâmica anterior pré-óptica também são transmitidos para essa área no hipotálamo posterior . Aí, os sinais da área pré-óptica e os sinais de outros locais do corpo são combinados e integrados para controlar as reações de produção e de conservação de calor do corpo . MECANISMOS EFETORES NEURONAIS QUE DIMINUEM OU AUMENTAM A TEMPERATURA CORPORAL Mecanismos de Diminuição da Temperatura com Corpo Quente São três mecanismos importantes para reduzir o calor do corpo, quando a temperatura: 1. Vasodilatação dos vasos sanguíneos cutâneos : Essa dilatação é causada pela inibição dos centros simpáticos no hipotálamo posterior que causam vasoconstrição . 2. Sudorese: perda de calor evaporativo, quando a temperatura central for > 37°C. 3. Diminuição da produção de calor : (↓) calafrios e (↓) termogênese química. Mecanismos de Elevação da Temperatura com Corpo Frio São procedimentos exatamente opostos: 1. Vasoconstrição da pele por todo o corpo: causada pela estimulação dos centros simpáticos hipotalâmicos posteriores. 2. Piloereção : significa “pelos eriçados”. O estímulo simpático faz com que os músculos eretores dos pelos se contraiam, colocando os pelos na posição vertical, permitindo que eles retenham uma camada de “ar isolante” próximo à pele, diminuindo a transferência de calor para o meio. 3. Aumento na produção de calor: (↑) calafrios, (↑) excitação simpática e (↑) secreção de tiroxina. “PONTO DE AJUSTE” PARA O CONTROLE DA TEMPERATURA A temperatura corporal central crítica é aproximadamente, 37,1°C . Esse nível crítico de temperatura é chamado “ponto de ajuste” , isto é, todos os mecanismos de controle da temperatura tentam continuamente trazer a temperatura corporal para o nível desse ponto crítico de ajuste. ANORMALIDADES DA REGULAÇÃO DA TEMPERATURA CORPORAL FEBRE Febre , que significa temperatura corporal acima da faixa normal de variação , pode ser provocada por anormalidades no cérebro ou por substâncias tóxicas que afetam os centros reguladores da temperatura. Que tal salvar esse conteúdo? Reajuste do Centro de Regulação Hipotalâmico da Temperatura nas Doenças Febris — Efeito dos Pirogênios Muitas proteínas, produtos da degradação das proteínas e toxinas de lipossacarídeosoriundas das membranas celulares de bactérias, podem fazer com que o ponto de ajuste do termostato hipotalâmico se eleve . As substâncias que causam esse efeito são chamadas de pirogênios . Os pirogênios liberados por bactérias tóxicas ou os liberados por tecidos corporais em degeneração, causam febre durante condições patológicas. Quando o ponto de ajuste do centro de regulação hipotalâmico da temperatura se eleva acima do normal , todos os mecanismos para a elevação da temperatura corporal começam a atuar , incluindo a conservação de calor e o aumento da produção de calor . Em algumas horas, após a elevação do ponto de ajuste, a temperatura corporal se aproxima desse nível, como mostrado na figura a seguir ––––––––––→ Mecanismo de Ação dos Pirogênios na Causa da Febre — O Papel das Citocinas. Os pirogênios , quando injetados no hipotálamo, atuam sobre o centro de regulação da temperatura no hipotálamo e aumentam seu ponto de ajuste . Esse fato é válido para vários pirogênios bacterianos, especialmente as endotoxinas das bactérias gram-negativas . Quando as bactérias ou os produtos da degradação das bactérias estão nos tecidos ou no sangue, eles são fagocitados pelos leucócitos do sangue, pelos macrófagos teciduais e pelas NK, ocorrendo posteriormente a liberação de citocinas. A mais importante dessas citocinas é a IL-1 ( denominada pirogênio leucocitário ou pirogênio endógeno) . A IL-1 é liberada pelos macrófagos para os líquidos corporais e, ao chegar ao hipotálamo, quase imediatamente ativa os processos produtores de febre aumentando , por vezes, a temperatura corporal . A IL-1 inicialmente cause febre pela indução da formação de prostaglandinas , principalmente a prostaglandina E₂ , a qual atua no hipotálamo para desencadear a reação da febre. Quando a formação de prostaglandinas é bloqueada por fármacos , a febre pode ser abortada ou diminuída. De fato, esta pode ser a explicação para o mecanismo de atuação da aspirina na redução da febre, pois a aspirina impede a formação de prostaglandinas, a partir do ácido araquidônico. Fármacos que reduzem a febre são chamados antipiréticos . Que tal salvar esse conteúdo? 2. Diferenciar febre de hipertermia e caracterizar os principais padrões de curva térmica, considerando a forma e a frequência de aferição da temperatura e a interpretação dos diferentes momentos da curva. A febre é uma elevação da temperatura corporal que ultrapassa a variação diária normal e ocorre associada a aumento do ponto de ajuste hipotalâmico (p. ex., de 37 para 39°C). A hipertermia caracteriza-se por aumento descontrolado da temperatura corporal , que excede a capacidade do organismo de perder calor . Não há alteração no ajuste do centro termorregulador hipotalâmico. Ao contrário do que ocorre com a febre nas infecções, a hipertermia não envolve a presença de moléculas pirogênicas . A exposição ao calor exógeno e a geração de calor endógeno são dois mecanismos pelos quais a hipertermia pode produzir temperaturas internas perigosamente altas. A produção excessiva de calor pode facilmente causar hipertermia apesar dos controles fisiológicos e comportamentais da temperatura corporal . Por exemplo, o trabalho ou o exercício em ambientes aquecidos podem gerar calor mais rapidamente do que os mecanismos periféricos conseguem dissipar. É importante distinguir entre febre e hipertermia , tendo em vista que a última pode ser rapidamente fatal e caracteristicamente não responde aos antipiréticos . Entretanto, em uma situação de emergência, tal distinção pode ser difícil. Por exemplo, na sepse sistêmica, a febre (hiperpirexia) pode começar rapidamente, e a temperatura pode ser > 40,5°C. A hipertermia costuma ser diagnosticada com base nos eventos imediatamente precedentes à elevação da temperatura central – por exemplo, exposição ao calor ou tratamento com fármacos que interferem na termorregulação. Nos pacientes com síndromes de intermação* e nos indivíduos que estejam usando fármacos que impeçam a transpiração, a pele encontra-se quente e seca, enquanto nos casos febris, a pele pode estar fria em consequência da vasoconstrição. Os antipiréticos não abaixam a temperatura na hipertermia, enquanto nos casos de febre – e até mesmo na hiperpirexia –, doses adequadas de ácido acetilsalicílico ou de paracetamol geralmente produzem alguma redução da temperatura corporal. ↳ intermação* → É uma emergência médica grave caracterizada pelo aumento descontrolado da temperatura corporal acima de 40ºC. PORTO Locais de verificação da temperatura e valores normais A mensuração da temperatura corporal pode apresentar variações dependendo do local em que é registrada: axilar, oral, retal, timpânico, arterial pulmonar, esofágico, nasofaringiano e vesical. O local tradicional é o oco axilar. As pequenas diferenças de valores entre os diferentes tipos de termômetro não têm significado clínico. Contudo, é necessário conhecer as diferenças fisiológicas existentes entre os três locais – oco axilar, boca e reto –, porque, em determinadas situações patológicas, a medida das temperaturas axilar e retal tem valor clínico, quando se encontra uma diferença maior que 0,5°C. Que tal salvar esse conteúdo? Febre (PORTO) Significa temperatura corporal acima da faixa da normalidade , podendo ser causada por distúrbios no próprio cérebro ou por substâncias tóxicas que influenciam os centros termorreguladores. A febre pode ser resultado de infecções, lesões teciduais, processos inflamatórios e neoplasias malignas. Muitas proteínas ou seus produtos de hidrólise , além de outras substâncias tóxicas, como toxinas bacterianas , podem provocar elevação do ponto de ajuste do termostato hipotalâmico. As substâncias que causam esse efeito são chamadas de pirogênios . Os pirogênios são secretados por bactérias ou liberados dos tecidos em degeneração. Quando o ponto de ajuste do termostato hipotalâmico é elevado a um nível mais alto que o normal, todos os mecanismos de regulação da temperatura corporal são postos em ação, inclusive os mecanismos de conservação e de aumento da produção de calor. A regulação da temperatura corporal requer um equilíbrio entre produção e perda de calor , cabendo ao hipotálamo regular o nível em que a temperatura deve ser mantida. Na febre, este ponto está elevado. A produção de calor não é inibida, mas a dissipação do calor está ampliada pelo fluxo sanguíneo aumentado através da pele e pela sudorese . SIGNIFICADO BIOLÓGICO DA FEBRE A febre constitui um sinal de alerta de que estão circulando substâncias indicativas da existência de um processo mórbido. INTENSIDADE (referência → temperatura axilar) Pode-se classificar a intensidade, tomando como referência a temperatura axilar: ● Febre leve ou febrícula: até 37,5°C ● Febre moderada: de 37,6° a 38,5°C ● Febre alta ou elevada: acima de 38,6°C. A intensidade da febre depende da causa e da capacidade de reação do organismo. Pacientes em mau estado geral, em choque e as pessoas idosas podem não apresentar febre ou ter apenas uma febrículaquando acometidos de processos infecciosos EFEITOS DA FEBRE A incapacidade de um paciente apresentar febre em face de infecção grave geralmente significa mau prognóstico. É provável que nas infecções a febre, por si só, tenha pouco a ver com a evolução, uma vez que a maioria dos germes não produz uma mudança na temperatura corporal que os destrua. A febre que acompanha doenças não infecciosas não parece servir a qualquer fim útil, podendo, às vezes, ser nociva. Nas neoplasias malignas, por exemplo, a temperatura elevada apenas acelera a perda de peso e causa mal- estar. Que tal salvar esse conteúdo? MODO DE EVOLUÇÃO Evolução da febre → da análise de um quadro térmico. O registro da temperatura em uma tabela, dividida em dias, subdivididos em 4 ou 6 horários , compõe o que se chama gráfico ou quadro térmico, tomando como base a temperatura normal (em preto na figura). A anotação costuma ser feita 1 ou 2 vezes/dia, mas, em certos casos, registra-se a temperatura de 4 em 4 ou de 6 em 6 h. Descrevem -se os seguintes tipos evolutivos de febre: ● Febre contínua : aquela que permanece sempre acima do normal com variações de até 1°C e sem grandes oscilações; por exemplo, febre tifoide, endocardite infecciosa e pneumonia (em vermelho na figura) ● Febre irregular ou séptica: registram-se picos muito altos intercalados por temperaturas baixas ou períodos de apirexia . Não há um padrão nestas variações. Mostram- se totalmente imprevisíveis e são bem evidenciadas quando se registra a temperatura várias vezes ao dia; um exemplo típico é a septicemia .(em azul na figura) ● Febre remitente: há hipertermia diária, com variações de mais de 1°C e sem períodos de apirexia . Ocorre na septicemia, pneumonia, tuberculose (em amarelo na figura) ● Febre intermitente: nesse tipo, a hipertermia é ciclicamente interrompida por um período de temperatura normal ; isto é, registra -se febre pela manhã, mas esta não aparece à tarde; ou então, em 1 dia ocorre febre, no outro, não. Por vezes, o período de apirexia dura 2 dias. A primeira se denomina cotidiana, a segunda terçã e a última quartã. O exemplo mais comum é a malária e aparece também na malária.(em verde na figura) ● Febre recorrente ou ondulante: caracteriza-se por período de temperatura normal que dura dias ou semanas até que sejam interrompidos por períodos de temperatura elevada . Durante a fase de febre não há grandes oscilações; por exemplo: brucelose, doença de Hodgkin e outros linfomas. Que tal salvar esse conteúdo? OBJETIVO 3 - Conceituar febre sem sinais localizatórios — FSSL — e diferenciá-la da febre com foco clínico identificado e da febre de origem indeterminada. FEBRE SEM SINAIS LOCALIZATÓRIO: O Inimigo Oculto Definição: Febre aguda ( 38ºC há menos de 7 dias, na ausência de sintomas clínicos, com exame físico normal, em criança hígida e em bom estado geral até 36 meses (3 anos). Na maioria dos casos, é possível identificar a origem da febre após uma anamnese detalhada e um exame físico completo , definindo a conduta mais adequada. Mas em até 20% dos casos não é possível verificar a causa após a avaliação inicial. Nessas situações, dizemos que estamos diante de uma FSSL. A maioria dessas crianças apresenta uma doença benigna e autolimitada, mas em alguns poucos casos estamos diante de uma infecção bacteriana grave, com elevada morbimortalidade. O desafio no atendimento da FSSL está em diferenciar esses quadros ainda no começo do processo infeccioso, permitindo a instituição precoce do tratamento. SANAR: A febre sem sinais localizatórios é definida como febre de duração inferior a sete dias encontrada em um paciente que está em bom estado geral e não apresenta outros sinais e sintomas que localizem a infecção. Na FSSL, os esforços devem ser concentrados em identificar os pacientes com maior risco de bacteremia oculta e de Infecção do Trato Urinário (ITU), que, principalmente em crianças abaixo de 2 anos, podem cursar apenas com febre, sem outros sinais e sintomas. FEBRE DE ORIGEM INDETERMINADA A Febre de Origem Indeterminada (FOI) , também chamada de Febre de Origem Obscura, é uma síndrome clínica que tem como principal manifestação a febre que, apesar de esforços para identificação da causa, permanece sem uma etiologia esclarecida . Foi definida por Petersdorf e Beeson, em 1961, por meio de 3 critérios: 1. Temperatura axilar superior a 37,8°C em diversas ocasiões. 2. Duração mínima de 3 semanas. 3. Ausência de diagnóstico etiológico após 1 semana de investigação hospitalar. Etiologias da FOI: As principais são infecções, doenças inflamatórias não infecciosas, como doenças do tecido conjuntivo, e neoplasias malignas. O uso inadequado de antibióticos e anti-inflamatórios, aliados a erros de interpretação de exames, são responsáveis por aumentar o número de casos. No entanto, o maior acesso à saúde e o avanço das tecnologias em saúde podem permitir um diagnóstico mais precoce. Que tal salvar esse conteúdo? Foco Clínico Identificado Ocorre quando a avaliação clínica inicial (anamnese e exame físico) revela claramente o órgão ou sistema comprometido pelo processo infeccioso ou inflamatório. Exemplos: Pneumonia (febre com tosse produtiva e alteração na ausculta pulmonar), meningite (com rigidez de nuca e alteração do nível de consciência), gastroenterite (com diarreia e vômitos). Diferença principal: Na febre com foco, o exame físico segmentar aponta a localização da doença (ex.: pulmões, ouvidos, pele, trato gastrointestinal). Na FSSL, o exame físico é normal ou inocente, não explicando a origem da elevação térmica FSSL vs. Febre de Origem Indeterminada (FOI) A diferenciação entre FSSL e FOI apoia-se principalmente na duração da febre e na extensão do protocolo investigativo necessário Duração do quadro febril: FSSL: É um quadro agudo, com duração inferior a 7 dias FOI: É um quadro prolongado/persistente. Investigação necessária: FSSL: O foco não é identificado após a avaliação clínica inicial de rotina (anamnese e exame físico) realizada na emergência ou ambulatório FOI: A etiologia permanece desconhecida mesmo após investigação abrangente e estruturada (laboratorial e exames de imagem), englobando pelo menos 1 semana de avaliação ambulatorial/hospitalar detalhada ou 3 dias de internação/3 consultas médicas sem diagnóstico Perfil etiológico: FSSL: Causas predominantemente virais agudas e autolimitadas ou infecções bacterianas agudas focais sem sinais de alerta evidentes (como ITU e bacteremia oculta) FOI: O leque etiológico é amplo e envolve doenças infecciosas atípicas ou crônicas (com destaque para a tuberculose, além de endocardite e abscessos profundos), neoplasias (linfomas, leucemias) e doenças reumatológicas/autoimunes (lúpus eritematoso sistêmico, doença de Still) Que tal salvar esse conteúdo? Objetivo 4: Descrever a abordagem clínica inicial da criança febril, considerando duração e intensidade da febre, faixa etária,estado vacinal, contexto epidemiológico, manifestações associadas e condições clínicas gerais. ABORDAGEM CLÍNICA Lembre-se de que na definição de febre sem sinais localizatórios a criança deve estar em bom estado geral . Em crianças com toxemia (irritabilidade, alteração do nível de consciência, hipoatividade, hipotonia, letargia, hiper ou hipoventilação, hipotensão, taquicardia, sinais de má perfusão periférica ou cianose), independentemente da idade , devemos internar, colher hemograma (HMG), hemocultura (HMC), urina tipo 1 (ou sumário de urina), urocultura (URC), líquor (LCR), raio X de tórax e iniciar antibiótico empírico (ceftriaxone ou cefotaxima). O mesmo se aplica para crianças com doenças de base que levem à imunossupressão e em contatos com doença meningocócica . Em lactentes menores de 3 meses, os parâmetros do exame físico são insuficientes para identificar o risco de infecção bacteriana grave, sendo necessária sempre a solicitação de exames laboratoriais. ENTRE 0 E 28 DIAS A faixa etária de maior risco para doença bacteriana grave é a dos recém-nascidos ; portanto, até os 28 dias de vida, todo paciente com febre > 38°C deve ser internado , submetido à coleta de HMG, HMC, urina tipo 1, URC e LCR (submetido a quimiocitológico, bacterioscopia, cultura, látex ou contraimunoeletroforese, incluindo pesquisa para enterovírus e herpesvírus). A radiografia de tórax deverá ser feita apenas na presença de sintomas respiratórios , e a pesquisa de leucócitos nas fezes somente em caso de diarreia . Após a coleta dos exames , deve ser iniciado antibiótico empírico com uma cefalosporina de terceira geração , como a cefotaxima , mantido até o resultado das culturas. Na presença de líquor alterado considerar adicionar à cefalosporina também a ampicilina (para cobertura de Listeria) e o aciclovir (para cobertura de meningite herpética ). ENTRE 1 E 3 MESES DE VIDA Todos os pacientes com FSSL entre 1 e 3 meses de vida devem ser submetidos à coleta de HMG, urina tipo 1 e URC, já que o exame físico é insuficiente para a determinação de risco de infecção bacteriana grave nessa idade. Caso os exames sejam normais , o paciente é considerado de baixo risco e pode receber alta com orientação de reavaliação médica diária até o resultado das culturas. A internação para observação até o resultado das culturas é indicada em lactentes de baixo risco sem possibilidade de acesso imediato ao hospital ou com pais não confiáveis para o retorno, mas nesses casos não há necessidade de introdução de antibiótico. Caso o hemograma seja normal e a urina alterada (>10 leucócitos/campo ou >10.000 leucócitos/mm3 ou bacterioscópico positivo), devemos considerar a hipótese de ITU , que pode ser tratada: Que tal salvar esse conteúdo? ● Domicílio: amoxicilina-clavulanato ou cefuroxima oral , com reavaliação das culturas em 48 horas. ● Hospitalar: ceftriaxone endovenoso , indicado em menores de 2 meses, com sinais de comprometimento sistêmico ou outros critérios de internação. Nesses casos considerar também a coleta de líquor. Já se o hemograma estiver alterado (Leucócitos > 15.000/mm3 ou 10.000/mm3 ou índice neutrofílico > 0,2) considerar internação com ceftriaxone endovenoso, realização de radiografia de tórax e coleta de líquor, buscando o diagnóstico de pneumonia ou meningite ENTRE 3 E 24 MESES DE VIDA Nessa faixa etária, consideramos como baixo risco todas as crianças com FSSL em bom estado geral e com temperatura inferior a 39°C . Nesses casos, não há necessidade de coleta de exames ou de antibiótico empírico. Se a temperatura for superior a 39°C , devemos levar em consideração os fatores de risco para bacteremia oculta (sendo o principal o número de doses recebidas da vacina antipneumocócica) e de ITU (descritos no Quadro 1) para decidir quanto à coleta de exames complementares. Devemos iniciar a avaliação pelo risco de bacteremia oculta, ou seja, avaliar se a criança recebeu pelo menos duas doses da vacina antipneumocócica , para decidir sobre a coleta de HMG e HMC. No caso de vacinação incompleta, além do risco de bacteremia oculta, precisamos estimar o risco de ITU (Quadro 1) para decidir sobre a coleta de urina tipo 1 e URC (Figura 1). Caso a vacinação antipneumocócica esteja completa, a possibilidade de bacteremia oculta está descartada, devendo-se avaliar em seguida quanto à presença de fatores de risco para ITU (Quadro 1) e, assim, decidir sobre a coleta de urina do tipo 1 e URC (Figura 2). Que tal salvar esse conteúdo? Objetivo 5: Reconhecer e explicar os sinais clínicos e laboratoriais de gravidade na criança febril. Sinais Clínicos de Gravidade Alteração do Estado Geral (Aspecto Toxemiado / Toxemia) ➢ Reconhecimento: Criança com má aparência global, prostrada, hipoativa ou com apatia marcada que não melhora mesmo após o controle da temperatura com antitérmicos. ➢ Significado: A toxemia em qualquer faixa etária é um indicador isolado de alto risco para Infecção Bacteriana Grave ou sepse . Exige pronta hospitalização, colheita de culturas (sangue, urina e líquor) e início de antibioticoterapia empírica parenteral. Comprometimento Neurológico ➢ Reconhecimento: Irritabilidade inconsolável, letargia, sonolência excessiva, hipoatividade, hipotonia, confusão mental ou ocorrência de crises convulsivas. ➢ Significado: Reflete o acometimento do Sistema Nervoso Central — por infecção direta (como meningite bacteriana) ou por hipoperfusão cerebral sistêmica decorrente de sepse grave. Alterações da Perfusão Periférica ➢ Reconhecimento: Extremidades frias e pálidas, cianose, pele moteada/reticulada, vasoconstrição periférica e tempo de enchimento capilar alentado. ➢ Significado: Indica vasoconstrição simpática compensatória para desviar o fluxo sanguíneo para órgãos vitais diante da queda do débito cardíaco, caracterizando sinal precoce de choque séptico ou má perfusão tecidual. Hipotensão ➢ Reconhecimento: Pressão arterial sistólica reduzida (PAS ≤ 100 mmHg em crianças maiores/adultos ou abaixo do percentil mínimo para a idade e altura). ➢ Significado: Marcador de instabilidade hemodinâmica e choque descompensado. Na pediatria, a hipotensão é um sinal tardio e gravíssimo, indicando que os mecanismos fisiológicos de compensação falharam. Petéquias e Lesões Purpúricas ➢ Reconhecimento: Presença de púrpuras ou pequenas manchas vermelhas/vinhos na pele que não desaparecem à vitropressão. ➢ Significado: Febre acompanhada de petéquias representa alto risco de infecção bacteriana fulminante, com destaque para a meningococcemia, febre maculosa ou complicações graves de arboviroses (como a dengue). Sinais Laboratoriais de Gravidade Plaquetopenia (Trombocitopenia) e Coagulopatia ➢ Reconhecimento: Queda substancial no número de plaquetas ou achados de coagulopatia no perfil de coagulação. ➢ Significado: Pode indicar consumo plaquetário por Coagulação Intravascular Disseminada (CIVD) em quadros de sepse grave, ou ser um marcador de gravidade e extravasamento plasmático nas fases críticas de arbovirosescomo a dengue. Que tal salvar esse conteúdo? Aumento dos Marcadores Inflamatórios e Alterações do Leucograma ➢ Proteína C Reativa (PCR): Níveis acima de 20 mg/L em menores de 2 anos associam-se a maior risco de Infecção Bacteriana Grave. Eleva-se geralmente a partir de 12 horas do início do estímulo infeccioso. ➢ Leucograma: ○ Leucocitose expressiva (≥ 15.000 a 20.000 células/mm³) ou neutrofilia (neutrófilos totais > 10.000/mm³). ○ Desvio à esquerda : aumento de formas jovens (bastonetes > 1.500/mm³ ou índice neutrofílico / relação bastonetes/neutrófilos > 0,2). ○ Leucopenia: Em lactentes menores de 3 meses, contagens de leucócitosnormais para a idade. 2. Respiratória (0 a 3 pontos): Avaliada pela relação PaO2/FiO2 ou SpO2/FiO2 (utilizada apenas se SpO2 ≤ 97%) combinada à necessidade de oxigenoterapia, ventilação não invasiva (VNI) ou ventilação mecânica invasiva (VMI). 3. Coagulação (0 a 2 pontos): Pontua diante de plaquetopenia ( 1,3, D-dímero > 2 mg/L FEU ou Fibrinogênio 2 a 3 segundos), taquicardia e hipotensão arterial. ● Lesões Cutâneas Características: ○ Nas fases iniciais, pode surgir um exantema maculopapular transitório . ○ Evolui rapidamente para petéquias e lesões purpúricas/sufusões hemorrágicas que não desaparecem à vitropressão (presentes em cerca de 60% dos casos de meningite meningocócica e marcantes na meningococcemia). Evolução Clínica Curso Hiperagudo: A doença meningocócica possui uma evolução rápida e fulminante, podendo evoluir do início dos primeiros sintomas gerais para o óbito em poucas horas. Síndrome de Waterhouse-Friderichsen (Meningococcemia Fulminante): Forma extremamente grave da doença meningocócica, caracterizada por início abrupto de sepse e choque séptico grave , frequentemente acompanhados de petéquias e púrpura, coagulação intravascular disseminada (CIVD) e hemorragia adrenal bilateral , podendo resultar em insuficiência adrenal aguda, colapso circulatório e rápida evolução para óbito . Suspeita-se da síndrome Waterhouse-Friderichsen nos quadros de instalação precoce, em doente com sinais clínicos de choque e extensas lesões purpúricas. A CIVD que se associa determina aumento da palidez, prostração, hemorragias, taquicardia e taquipneia. A taxa de letalidade da meningococcemia é elevada (geralmente acima de 40%), ocorrendo a maioria dos óbitos nas primeiras 48 horas do início dos sintomas. Possíveis Complicações Complicações Neurológicas e Sequela a Longo Prazo: ● Perda Auditiva (Hipoacusia/Surdez): É a sequela neurológica crônica mais frequente após meningite bacteriana; ● Crises Convulsivas / Epilepsia; ● Déficits motores e paresias; ● Comprometimento Cognitivo e de Linguagem: Retardo mental, distúrbios de aprendizagem, alterações de comportamento e de linguagem. ● Hidrocefalia e Vasculite Cerebral: Isquemia ou trombose de vasos cerebrais. Que tal salvar esse conteúdo? Complicações Sistêmicas e Vasculares:● Choque Séptico e Falência Múltipla de Órgãos (FMOD). ● Necrose isquêmica de extremidades: Decorrente da trombose microvascular e CIVD, podendo necessitar de amputação de membros ou dedos e enxertos de pele. ● Insuficiência Renal Aguda (por necrose tubular aguda). ● Insuficiência Adrenal Aguda (na Síndrome de Waterhouse-Friderichsen) Objetivo 8: Estabelecer a investigação diagnóstica diante da suspeita de meningite bacteriana ou meningococcemia. Diante da suspeita clínica de meningite bacteriana ou meningococcemia, a investigação laboratorial deve ser iniciada imediatamente. Ressalta-se que a coleta de exames e culturas jamais deve atrasar o início da antibioticoterapia empírica parenteral. Interpretação do Hemograma O hemograma avalia a resposta infecciosa sistêmica e a gravidade do quadro: Leucocitose expressiva: Contagem de leucócitos de ≥ 15.000 a 20.000/mm³ ou neutrófilos totais > 10.000/mm³. Desvio à esquerda: Aumento de formas jovens com bastonetes > 1.500/mm³ ou índice neutrofílico (relação bastonetes/neutrófilos) > 0,2 (20%). Leucopenia: Contagem de leucócitos 20 mg/L associam-se a maior risco de IBG em crianças menores de 2 anos, enquanto níveis > 100 mg/L sugerem fortemente infecção bacteriana. Procalcitonina (PCT): Apresenta maior especificidade para infecção bacteriana em relação à PCR e elevação mais precoce (a partir de 6 horas). Valores > 0,3 ng/mL indicam alto risco de IBG em crianças pequenas. Dosagem do Lactato Sérico Significado: É o principal marcador de hipoperfusão tecidual, metabolismo anaeróbico celular e disfunção orgânica cardiovascular. Interpretação: Níveis de hiperlactatemia (frequentemente observados entre 2 e 4 mmol/L ou em faixas superiores a 5 mmol/L) associam-se a aumento progressivo da mortalidade e indicam necessidade de ressuscitação hemodinâmica imediata. Que tal salvar esse conteúdo? Coagulograma Significado: Avalia a presença de Coagulação Intravascular Disseminada (CIVD), complicação frequente e grave da meningococcemia (Síndrome de Waterhouse-Friderichsen). Achados de Gravidade: Alargamento do INR > 1,3, elevação do D-dímero > 2 mg/L FEU e consumo de Fibrinogênio ( 1.000 leucócitos/mm³ (podendo variar de centenas a milhares), com nítido predomínio de polimorfonucleares neutrófilos (75% a 95%). Glicose: Diminuída, com valores habitualmentecom Cefotaxima (ou Aminoglicocídeo como Gentamicina) para cobertura de patógenos do canal de parto ( Streptococcus do grupo B, E. coli , L. monocytogenes ). ● Crianças > 1 a 2 meses (com suspeita de Sepse ou Doença Meningocócica): Utiliza-se Cefalosporina de 3ª geração parenteral — Ceftriaxona ou Cefotaxima . Caso haja suspeita de infecção pneumocócica com elevada taxa de resistência aos beta-lactâmicos, associa-se Vancomicina . Que tal salvar esse conteúdo? Objetivo 10: Analisar as medidas de vigilância epidemiológica e prevenção da doença meningocócica, incluindo: As medidas de vigilância epidemiológica e controle visam i nterromper precocemente as cadeias de transmissão e proteger a população suscetível. Notificação Compulsória e Investigação Epidemiológica A doença meningocócica é um agravo de notificação compulsória. ● Casos suspeitos isolados devem ser notificados às autoridades de saúde em até 24 horas. ● Surtos, aglomerados de casos ( clusters ) ou óbitos exigem notificação imediata. Todos os casos devem ser registrados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) por meio do preenchimento da Ficha de Investigação de Meningite . Precauções por Gotículas O meningococo é transmitido de pessoa a pessoa pelo contato direto por meio de gotículas de secreções respiratórias da nasofaringe. Isolamento de Contato/Gotículas: Todo paciente com suspeita ou confirmação de doença meningocócica deve ser mantido internado sob precauções respiratórias para gotículas durante as primeiras 24 horas de antibioticoterapia adequada (com cefalosporinas de 3ª geração, como ceftriaxona ou cefotaxima). Após 24 horas de tratamento antimicrobiano adequado, a bactéria é eliminada da nasofaringe, cessando o risco de transmissão. Quimioprofilaxia dos Contatos Próximos O objetivo da quimioprofilaxia é erradicar o estado de portador assintomático na nasofaringe e prevenir casos secundários entre pessoas expostas. Quem deve receber quimioprofilaxia (Contatos Próximos): ● Moradores do mesmo domicílio ou alojamento/dormitório . ● Pessoas expostas diretamente a secreções orais (beijo, compartilhamento de copos/talheres/escovas de dente). ● Indivíduos com exposição próxima e contínua (≥ 4 horas E a ≤ 1 metro) em ambiente fechado (ex.: passageiro no assento ao lado em viagens > 8h, sala de aula). ● Pessoas com convivência próxima por ≥ 5 dias (colegas de turma de creche/pré-escola