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HISTÓRIA DA CULTURA AFRODESCENDENTE E INDÍGENA

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HISTÓRIA DA CULTURA 
AFRODESCENDENTE E 
INDÍGENA 
 
Letícia Cristina Fonseca Destro 
FACULDADE ÚNICA 
DE IPATINGA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
2 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Letícia Cristina Fonseca Destro 
 
Graduada em História pela Universidade Federal de Viçosa (2010), Mestre em História 
Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2012) e Doutora em História Social da 
Cultura da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2016). Atualmente é 
Professora Titular e coordenadora do curso de História EaD da Faculdade Única de 
Ipatinga, além de professora da Educação Básica na rede estadual de ensino. 
1ª edição 
 
Ipatinga – MG 
2020 
HISTÓRIA DA CULTURA 
AFRODESCENDENTE E INDÍGENA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
3 
 
 
 
FACULDADE ÚNICA EDITORIAL 
Diretor Geral: Valdir Henrique Valério 
Diretor Executivo: William José Ferreira 
Ger. do Núcleo de Educação a Distância: Cristiane Lelis dos Santos 
Coord. Pedag. da Equipe Multidisciplinar: Gilvânia Barcelos Dias Teixeira 
Revisão Gramatical e Ortográfica: Izabel Cristina da Costa 
Revisão/Diagramação/Estruturação: Bruna Luiza Mendes Leite 
 Fernanda Cristine Barbosa 
 Guilherme Prado Salles 
 Lívia Batista Rodrigues 
Design: Bárbara Carla Amorim O. Silva 
 Élen Cristina Teixeira Oliveira 
 Maria Eliza Perboyre Campos 
 
 
© 2021, Faculdade Única. 
 
Este livro ou parte dele não podem ser reproduzidos por qualquer meio sem 
Autorização escrita do Editor. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
NEaD – Núcleo de Educação a Distância FACULDADE ÚNICA 
Rua Salermo, 299 
Anexo 03 – Bairro Bethânia – CEP: 35164-779 – Ipatinga/MG 
Tel (31) 2109 -2300 – 0800 724 2300 
www.faculdadeunica.com.br 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
4 
 
 
 
Menu de Ícones 
Com o intuito de facilitar o seu estudo e uma melhor compreensão do 
conteúdo aplicado ao longo do livro didático, você irá encontrar ícones ao lado 
dos textos. Eles são para chamar a sua atenção para determinado trecho do 
conteúdo, cada um com uma função específica, mostradas a seguir: 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
São sugestões de links para vídeos, documentos 
científico (artigos, monografias, dissertações e teses), 
sites ou links das Bibliotecas Virtuais (Minha Biblioteca e 
Biblioteca Pearson) relacionados com o conteúdo 
abordado. 
 
Trata-se dos conceitos, definições ou afirmações 
importantes nas quais você deve ter um maior grau de 
atenção! 
 
São exercícios de fixação do conteúdo abordado em 
cada unidade do livro. 
 
São para o esclarecimento do significado de 
determinados termos/palavras mostradas ao longo do 
livro. 
 
Este espaço é destinado para a reflexão sobre questões 
citadas em cada unidade, associando-o a suas ações, 
seja no ambiente profissional ou em seu cotidiano. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
5 
 
 
 
SUMÁRIO 
 
POVOS INDÍGENAS E A COLONIZAÇÃO PORTUGUESA .......................... 8 
1.1 INTRODUÇÃO.......................................................................................................... 8 
1.2 A “QUARTA PARTE” DO MUNDO............................................................................ 9 
1.3 A CHEGADA DOS EUROPEUS ............................................................................... 11 
1.4 “CIVILIZANDO” OS ÍNDIOS? ................................................................................ 15 
1.5 DOS ESTEREÓTIPOS ............................................................................................... 17 
1.5.1 Selvagens desordenados ............................................................................ 17 
1.5.2 Bárbaros canibais .......................................................................................... 18 
1.5.3 Luxuriosos e preguiçosos .............................................................................. 20 
FIXANDO CONTEÚDO .......................................................................................... 22 
POLÍTICA INDIGENISTA NO BRASIL INDEPENDENTE ............................... 27 
2.1 INTRODUÇÃO........................................................................................................ 27 
2.1.1 Primitivismo e Romantismo .......................................................................... 27 
2.2 SOB A TUTELA DO ESTADO ................................................................................... 29 
2.3 QUESTÃO DAS TERRAS INDÍGENAS ...................................................................... 31 
FIXANDO CONTEÚDO .......................................................................................... 36 
DIREITOS INDÍGENAS E A CONSTITUIÇÃO DE 1988 ............................... 41 
3.1 INTRODUÇÃO........................................................................................................ 41 
3.2 MOVIMENTO E RESISTÊNCIA INDÍGENA .............................................................. 41 
3.3 POR UMA EDUCAÇÃO INDÍGENA ....................................................................... 43 
3.4 AS TRANSFORMAÇÕES CULTURAIS ...................................................................... 47 
FIXANDO CONTEÚDO .......................................................................................... 49 
A ESCRAVIDÃO NEGRA NO BRASIL ....................................................... 54 
4.1 INTRODUÇÃO........................................................................................................ 54 
4.2 ESCRAVIDÃO ANTIGA E MODERNA .................................................................... 54 
4.3 TRÁFICO TRANSATLÂNTICO ................................................................................. 56 
4.4 ESCRAVIDÃO NO BRASIL ..................................................................................... 60 
FIXANDO CONTEÚDO .......................................................................................... 66 
O LEGADO DA ESCRAVIDÃO NA ESTRUTURA SOCIAL BRASILEIRA ....... 71 
5.1 INTRODUÇÃO........................................................................................................ 71 
5.2 A ESCRAVIDÃO COMO CARACTERÍSTICA NACIONAL DO BRASIL ................... 72 
5.3 A TESE DA DEMOCRACIA RACIAL COMO PRODUTO DA ESCRAVIDÃO ........... 74 
5.4 O PROBLEMA DA INTEGRAÇÃO DO NEGRO NA SOCIEDADE DE CLASSES ...... 75 
5.5 RAÇA E DESIGUALDADE SOCIAL BRASILEIRA ..................................................... 77 
FIXANDO O CONTEÚDO ...................................................................................... 79 
NEGRITUDE, AFRODESCENDÊNCIA E DIÁSPORA AFRICANA ................ 83 
6.1 INTRODUÇÃO........................................................................................................ 83 
6.2 DIMENSÕES DA NEGRITUDE ................................................................................. 84 
6.3 NEGRITUDE E AFRODESCENDÊNCIA .................................................................... 85 
6.4 O CULTO ÀS RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA .................................................. 86 
6.5 OS REMANESCENTES DAS COMUNIDADES DOS QUILOMBOS ........................... 89 
6.6 NEGRITUDE E DIÁSPORA ....................................................................................... 89 
FIXANDO O CONTEÚDO ...................................................................................... 92 
RESPOSTAS DO FIXANDO O CONTEÚDO ........................................... 95 
UNIDADE 
01 
UNIDADE 
02 
UNIDADE 
03 
UNIDADE 
04 
UNIDADE 
05 
UNIDADE 
06 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
6 
 
 
 
REFERÊNCIAS ...................................................................................... 96 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
7 
 
 
 
CONFIRA NO LIVRO 
 
Nesta unidade estudaremos os impactos da chegada dos 
portugueses no território que viria a se chamar o Brasil tendo em 
vista as populações nativas que aqui já habitavam.UNIDADE 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
42 
 
 
 
 
 
Diante desse cenário histórico de exploração e espoliação, os povos 
indígenas foram se organizando de modo a assumir cada vez mais novos espaços, 
além daqueles tradicionais. A partir da década de 1970 é possível encontrar 
associações e organizações indígenas em várias regiões brasileiras por influência da 
atuação do Conselho Indigenista Missionário que promoveu assembleias indígenas, 
onde se desenhou os primeiros contornos da luta. A partir delas, as lideranças 
passaram a lidar com o mundo institucional nacional e internacional tratando das 
suas demandas territoriais, assistenciais e comerciais. Na década seguinte, por sua 
vez, é eleito o primeiro deputado indígena e na sequência os indígenas passaram a 
fazer-se presente no Congresso Nacional e na política de maneira geral. Os povos 
indígenas, inclusive, se fizeram muito presente na Assembleia Constituinte de 1987-
1988 com a finalidade de levantar suas demandas para que fossem incorporadas 
na Constituição de 1988. 
A unificação do movimento indígena se deu em 2002 com a criação da APIB 
(Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) que tem importantes representantes 
como a Sônia Guajajara do povo Guajajara do Maranhão. Sônia é muito 
conhecida por sua atividade em prol das demandas indígenas, tendo atuado em 
eventos internacionais como Conferência do Clima em Paris e no Conselho dos 
Direitos Humanos da ONU. Nas eleições de 2018, ela chegou, inclusive, a concorrer 
A Amazônia é um solo com um número quase incalculável de riquezas minerais e 
naturais. Uma dessas riquezas é o ouro. Sobre o garimpo na Amazônia e com este afeta 
as comunidades indígenas, sugerimos as seguintes materiais: 
 “Por dentro de um garimpo ilegal na Amazônia” é uma matéria da National 
Geographic que trata um pouco mais a fundo o garimpo ilegal na Amazônia. 
Disponivel em: https://bit.ly/3gwHr1w. Acesso em: 10 out. 2020. 
 Leia também sobre a denúncia de invasão das terras dos Yanomami e Yekwana por 
garimpeiros em 2019 “Povos Yanomami e Ye’kwana se unem e exigem: ‘Fora, 
garimpo!’”. plublicada pela ISA. Disponível em: https://bit.ly/35oVOCK. Acesso em: 10 
out. 2020. 
 Assista o vídeo “Serra Pelada | A História de Um Massacre” e entenda um pouco mais 
sobre o caso mais emblemático do grampimpo nacional. Disponíve em: 
https://bit.ly/3lrWVaD. Acesso em: 10 out. 2020. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
43 
 
 
 
como vice-presidente do Brasil. Também sobre a visibilidade internacional das 
questões indígenas e da preservação da floresta podemos citar o Cacique Raoni. 
No âmbito acadêmico, os povos nativos têm ocupado cada vez mais 
espaços de modo a congregar forças e conhecimentos que possam retornar em 
qualidade para seus grupos de origens. Muitos indígenas têm buscado formações 
acadêmicas para atuarem na melhoria da saúde e educação, principalmente, de 
suas tribos. Além de se tornarem representantes e porta-vozes da cultura e luta do 
povo indígena, como é o caso de Cristine Takuá, Renata Machado Tupinambá, 
Daiara Tukano, Célia Xakriabá, Ailton Krenak dentre diversos outros. 
 
3.3 POR UMA EDUCAÇÃO INDÍGENA 
Com a Constituição de 1988, entra em pauta diversas questões relacionados 
aos direitos indígenas, como direito a saúde e educação. Para fins didáticos e 
práticos, tendo em vista a especificidade do curso em questão, abordaremos a 
questão do direito indígena à escola e a processos educacionais diferenciados. 
Até então, o acesso dos nativos à escola se dava no modelo tradicional 
quando muito, cuja proposta educacional voltavam-se à integração e ao ensino 
monolíngue em português. Assim como a própria relação do Estado com os grupos 
indígenas, a educação tinha o propósito de integrá-los. Contudo, na passagem 
para a década de 1990, já sob a égide da Constituição, diversos grupos indígenas 
começaram a se organizar de modo a exigir uma reformulação desse modelo de 
modo a centrar-se em professores indígenas, valorizando as identidades indígenas 
bem como o ensino bilíngue. Nesse momento, irá formar-se as primeiras 
organizações de professores indígenas, haverá também o reconhecimento da 
educação alternativa, promulgação de leis e normas visando normatizar e 
reorganizar uma política específica para a educação escolar indígena (GRUPIONI, 
2008). 
 
Em contraposic ̧ão a uma escola que se constituía pela imposic ̧ão do 
ensino da língua portuguesa, pelo acesso à cultura nacional e pela 
perspectiva da integrac ̧ão é que se molda um outro modelo de 
como deveria ser a nova escola indígena, caracterizada como uma 
escola comunitária (na qual a comunidade indígena deveria ter 
papel preponderante), diferenciada (das demais escolas brasileiras), 
específica (própria a cada grupo indígena onde fosse instalada), 
intercultural (no estabelecimento de um diálogo entre 
conhecimentos ditos universais e indígenas) e bilíngüe (com a 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
44 
 
 
 
conseqüente valorizac ̧ão das línguas maternas e não só de acesso à 
língua nacional) (GRUPIONI, 2008, p. 37). 
 
Um dos principais princípios norteadores passou a ser o reconhecimento do 
direito indígena à educação. Dessa forma, o acesso à escola deveria ser tratado 
não como assistência e sim como um direito adquirido. A consequência dessa 
determinação retoma o mencionado anteriormente, passava-se a reconhecer a 
escola como um espaço que reforçasse a identidade étnica local. Do Estado, 
portanto, passou a ser exigido mecanismos garantidores desse direito. 
Também foi discutido a questão da laicidade desse ensino diferenciado. De 
maneira geral, a Constituição já reforçava o caráter laico que deveria ter a 
educação básica no país, contudo, o modelo de educação historicamente 
constituído especialmente no que tange às comunidades indígenas esteve 
associada ao proselitismo religioso. Lembrando que as populações indígenas 
possuem uma diversidade de crenças e religiões, a premissa se tornava 
fundamental para que a educação indígena não fosse encarada como catequese 
ou evangelização (GRUPIONI, 2008). 
Para efetivar todo esse processo por parte do governo, as políticas públicas 
de educação escolar indígena passaram a ser conduzidas no âmbito dos Ministérios 
da Educação e da Cultura que levando sempre em consideração a valorização e 
respeito à língua e à cultura indígena, bem como a formação de índios para a 
docência, na escola indígena. Dessa forma, efetivamente foi transferida da FUNAI 
para o MEC a coordenação das ações de educação indígena. Tal transferência 
contribuiu especialmente para a aceitação, por parte do Estado brasileiro, de uma 
nova ideologia quanto aos objetivos da educação a ser oferecida aos povos 
indígenas (GRUPIONI, 2008). 
A legitimação do MEC como operador das políticas públicas somada a 
articulação de um conjunto de atores (como professores indígenas, antropólogos, 
linguístas, educadores e indigenistas ligados à ONGs e universidades) que 
esforçaram-se por construir um novo papel para a escola indígena nos anos de 
1990. 
Em 1993 foi criado o Comitê de Educação Escolar Indígena que ficou com a 
tarefa de elaborar uma política nacional de educação indígena. O documento 
oficializado teve efeito importante no rompimento com o modelo de educação 
que até então vinha sendo operacionalizado pelo Estado. Diversos seminários foram 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
45 
 
 
 
promovidos para debater as estratégias que seriam implementadas visando o novo 
modelo de educação. Outro documento importante nesse processo, desenvolvido 
com base nos seminários, foi o Referencial Curricular Nacional para as Escolas 
Indígenas (RCNEI), lançado em 1998, cuja coordenação também ficara a cargo do 
Comitê. Dessa forma, a elaboração de documentos referenciais e de diretrizes 
constituiu uma importante atuação do MEC como coordenador do processos. 
Obviamente, a constituição de políticas públicas não se promove com 
documentosnorteadores apenas, são necessários programas de investimentos de 
recursos públicos. O aumento de recursos financeiros para o apoio para a 
formação de professores indígenas, produção de materiais didáticos diferenciados 
foi visto ao longos dos anos. Contudo, não disponibilizaram recursos específicos ou 
suplementares para tanto, devendo os sistemas de ensino ficarem responsáveis 
pelas demandas, o que demonstra a baixa a institucionalidade dessas políticas 
públicas. Além disso, a prática de toda a discussão se demonstrou diferente das 
propostas apresentadas fazendo muitos questionarem se a nova escola 
diferenciada não seria apenas mais uma nova modelagem para a velha e 
conhecida escola civilizadora (GRUPIONI, 2008). Além disso, dada a diversidade 
brasileira, a realidade da educação indígena no Brasil é diversa e varia de região 
para região. 
No âmbito do ensino regular, em todo o país, a demanda por valorização e 
reconhecimento da diversidade indígena para a formação nacional que rompa 
com a visão romântica e primitiva anterior também foi uma das demandas de 
movimentos sociais indígenas seguindo na luta juntamente ao movimento negro. 
Com o intuito de reparar os danos causados à população afrodescendente 
e indígena, surge no Brasil (na década de 1990) o conceito de “ação afirmativa” 
para combater as desigualdades e promover o acesso de minorias à educação 
pública gratuita e de qualidade. Assim, visando reparar as desvantagens 
historicamente impostas aos negros e indígenas, as ações afirmativas buscam 
construir mecanismos para promover a democratização (PRADO; PEDRO; GOMES, 
2018). Nesse ínterim, as Leis Federais no. 10.639/2003 e a posterior 11.645/2008 foram 
criadas a partir das demandas dos movimentos sociais que buscavam romper com 
os estereótipos racistas que permeavam o ensino de história e cultura afro-brasileira 
e indígena. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
46 
 
 
 
 
 
A Lei n. 10.639/2003 alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 
(LDB) no. 9394/1996 e passou a incluir no currículo oficial da rede de ensino a 
obrigatoriedade da história e cultura afro-brasileira. Após cinco anos da 
promulgação da dita Lei, a mesma foi expandida para a temática indígena com a 
Lei no. 11.645 (PRADO; PEDRO; GOMES, 2018). 
Ambas as leis, nesse sentido, procuram atender à necessidade de construção 
de uma educação mais igualitária, rumo a um ensino que possibilite a 
desconstrução de verdades construídas pelos currículos oficiais, materiais didáticos 
e nas diversas práticas do cotidiano escolar. Entretanto, a de se ressaltar que apesar 
dos esforços verificados no sentido em se contemplar as exigências das ditas Leis, 
ainda há muito o que ser feito especialmente no que tange à formação de 
professores comprometidos em assegurar a qualidade de um ensino que verse por 
discutir as relações étnico-raciais no país, bem como a valorização e 
reconhecimento dessas culturas e identidades rompendo com a visão eurocêntrica 
e discriminatória que foi construída ao longo do tempo. 
 
 
Vídeo esclarecendo sobre o conceito “ação afirmativa”: https://bit.ly/3eV9tF6. Acesso 
em: 10 out. 2020.
O livro “Histórias e culturas indígenas na Educação Básica” de Giovani José da Silva e 
Anna Maria Ribeiro fornece uma ferramenta importante para professores e alunos 
indígenas e não-indigenas para promover uma "cultura de paz". Disponível em: 
https://bit.ly/3luaENW. Acesso em: 10 out. 2020.
Outro livro recomendado é o “A temática indígena na Escola” de de Ana Piñon e Pedro 
Paulo Funari. Este obra é dirigida a professores de escolas não indígenas (os quais 
geralmente não têm nem conhecimento suficiente sobre índios) para mostrar os motivos 
dessa contradição: o quanto temos relação com os índios e nossa falta de 
compreensão dessa realidade. Disponível em: https://bit.ly/35ngriK. Acesso em: 10 out. 
2020. 
Assita o vídeo “Olhar indígena” onde o prof. e escritor indígena Daniel Munduruku fala 
sobre Educação Indígena. Disponível em: https://bit.ly/36qiTV4. Acesso em: 10 out. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
47 
 
 
 
 
 
 
 
3.4 AS TRANSFORMAÇÕES CULTURAIS 
Ao reconhecer a diversidade étnica, a Constituição de 1988 interferida por 
toda essa mobilização indígena acima mencionada, modificou também 
paradigmas conceituais. Ao reconhecer os índios como sujeitos históricos, alguns 
conceitos importantes utilizados no mundo acadêmico também tiveram que ser 
remanejados. Cultura, por exemplo, deixou de ser vista como fixa e imutável. Nessa 
mesma linha, o conceito de “aculturação” também se alterou. Antes, o conceito 
era utilizado de modo a significar uma resignação que implicava em 
desaparecimento de grupos étnicos. Contudo, em termos sociológicos 
contemporâneos, especialmente em vista da intensa globalização e da ideia de 
cultura como algo dinâmico, não há como se ater ao conceito de maneira fixa. 
Assim sendo, é estabelecido nas discussões atuais que as trocas culturais 
entre as populações indígenas e não-indígenas não diminuem a cultura e 
identidade étnica de nenhum povo, seja ele pertencente a uma tribo ameríndia, 
africana ou mesmo da Polinésia. As culturas, por não serem estáticas, estão sempre 
em constantes transformações e estas transformações não resultam em perda de 
identidade (leia novamente o artigo do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro). 
Assim sendo, um povo indígena que optou por manter-se distante do não-indígena 
Por fim, assista também o vídeo “A obrigatoriedade do estudo da história e cultura afro-
brasileira e indígena” sobre a obrigatoriedade do estudo da história e cultura afro-
brasileira e indígena: https://bit.ly/3gL2SxD. Acesso em: 10 out. 2020. 
O dia do Índio é comemorado no dia 19 de abril desde 1943. Desde então as escolas e 
outras instituições celebram o dia pintando os alunos e fantasiando-os. Contudo, 
recentemente, essa evocação folclórica do índio tem sido alvo de críticas. Com base 
em tudo o que aprendemos ao longo desses capítulos, reflita sobre os motivos para as 
críticas acerca da forma como a comemoração é feita. Quais ideias a respeito da 
população indígena as comemorações reforçam? Como professores de História, como 
poderiam ressignificar esta data em sala de aula? Para ajudá-los, leiam a entrevista com 
Daniel Munduruku, doutor em Educação: https://glo.bo/36uivFd. Acesso em: 10 out. 2020.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
48 
 
 
 
(muitas vezes em função da violência sofrida no contato) não é mais índio do que 
aqueles grupos que, como estudado, acabaram sofrendo com as intervenções 
forçadas (ou não) do contato com o não-índio. Além disso, devemos lembrar que 
nós somos apenas mais um dos povos com que cada povo indígena manteve 
contato, seja amistoso ou bélico, ao longo da história. E a utilização do argumento 
da aculturação como forma de deslegitimar a identidade indígena vai ao encontro 
do discurso já estudado que buscou desvalorizar essas culturas, a sua identidade 
para então diminuir os seus direitos e posse à terra. Além disso, só para ressaltarmos 
ainda mais a historicidade do argumento, ele remete àquela imagem romântica da 
cultura indígena e os que não corresponderem a ela, diz-se que perderam sua 
tradição. Pensemos sobre isso. 
 
 
 Para compreender melhor a discussão acerca da influência das trocas culturais na 
cultura indígena, leiam o artigo da antropóloga Clarice Cohn “Culturas Em 
Transformação os Índios e a Civilização” disponível em: https://bit.ly/3gDqWkF. Acesso 
em: 10 out. 2020. 
 Assista ao documentário “Índio Cidadão?”, o qual resgata a participação do 
movimento indígena na Assembleia Constituinte (1987-1988) com a finalidade de 
elaborar a Constituição de 1988. Disponível em: https://bit.ly/32BSdiU. Acesso em: 10 
out. 2020. 
 Assista as duas entrevistas cedidas por Ailton Krenak (escritor e ambientalista) sobre os 
avanços e recuos da situação dos povos indígenas no Brasil desde a promulgaçãoda 
Constituição de 1988: 
 “Enquanto tiver gente no Brasil, vai ter presença indígena”. Disponível em: 
https://bit.ly/35r9Rrq. Acesso em: 10 out. 2020. 
 “Diálogos: Desafios para a decolonialidade”. Disponível em: https://bit.ly/3eRiVt3. 
Acesso em: 10 out. 2020 
 Assista aos episódios do documentário “Vozes da Floresta” realizado pelo Le Monde 
Diplomatique Brasil na qual indígenas falam sobre a relação dos índios e seringueiros 
(povos da floresta), a disputa com o latifúndio, os desafios atuais e futuros: 
 “Vozes da Floresta|Marcos Terena.” Disponível em: https://bit.ly/3lryxpz. Acesso em: 
10 out. 2020; 
 “Vozes da Floresta|Toya Manchineri.” Disponível em: https://bit.ly/3kprHzq. Acesso 
em: 10 out. 2020 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
49 
 
 
 
FIXANDO CONTEÚDO 
1. (Professor de História/ IF-TO) Considerando as contribuições da cultura indígena 
no Brasil, analise os itens abaixo, julgue-os e em seguida assinale a alternativa 
correta. 
 
I. A influência cultural indígena na sociedade brasileira perpassa o hibridismo 
quanto a assimilação da língua portuguesa e suas influências das línguas 
indígenas. Várias palavras de origem indígena se encontram em nosso 
vocabulário cotidiano, como palavras ligadas à flora e à fauna (como 
abacaxi, caju, mandioca, tatu) e palavras que são utilizadas como nomes 
próprios (como o parque do Ibirapuera, em São Paulo, que significa, “lugar 
que já foi mato”, em que “ibira” quer dizer árvore e “puera” tem o sentido de 
algo que já foi. O rio Tietê em São Paulo também é um nome indígena que 
significa “rio verdadeiro”) 
II. Além da influência indígena na culinária brasileira, herdamos também a 
crença nas práticas populares de cura derivadas das plantas. Por isso se 
recorre ao pó de guaraná, ao boldo, ao óleo de copaíba, à catuaba, à 
semente de sucupira, entre outros, para curar alguma enfermidade. 
III. A culinária brasileira herdou vários hábitos e costumes da cultura indígena, 
como a utilização da mandioca e seus derivados (farinha de mandioca, beiju, 
polvilho), o costume de se alimentar com peixes, carne socada no pilão de 
madeira (conhecida como paçoca) e pratos derivados da caça (como 
picadinho de jacaré e pato ao tucupi), além do costume de comer frutas 
(principalmente o cupuaçu, bacuri, graviola, caju, açaí e o buriti). 
IV. Por volta de 1500, momento da chegada dos europeus, até os dias atuais, 
século XXI, a população indígena diminuiu drasticamente, de três a cinco 
milhões de índios para, atualmente, segundo a FUNAI (Fundação Nacional do 
Índio), 358 mil índios. 
 
a) Os itens I, II, III e IV estão corretos. 
b) Os itens I, II e III estão corretos. 
c) O item IV está correto e os itens I, II e III fazem inferências aparentemente 
equivocadas sobre o tema abordado. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
50 
 
 
 
d) Os itens I e II são complementares e os itens III e VI são concorrentes, pois estes 
últimos fazem uma análise fenomenológica sobre o tema. 
e) Os itens II e III podem ser didaticamente tratados como contraditórios enquanto 
os itens I e IV mostram associações temporais antagônicas. 
 
2. (Professor de História/FUNCAB) Sobre a questão indígena, no século XVIII, na 
história do Brasil leia, o texto a seguir: 
 
“No Rio de Janeiro, a transformação das aldeias em vilas e lugares portugueses 
não impediu que continuassem sendo identificadas como aldeias indígenas, 
inclusive pela documentação oficial. As câmaras municipais e os moradores 
incentivados pela legislação intensificavam as investidas sobre as terras das 
aldeias, enquanto os índios procuravam preservá-las com base nos direitos 
adquiridos pela condição de índios aliados à Coroa, para a qual ainda 
prestavam serviços. Aldeia de São Francisco Xavier, por exemplo, chegou a ser 
extinta, mas foi restaurada por pressão dos índios [...]". 
ALMEIDA, Maria Regina Celestino de.Comunidades indígenas e Estado nacional: histórias, memórias 
e identidades em construção. In: Cultura política e leituras do passado, 2007. 
 
De acordo com o texto, e com seus conhecimentos sobre a questão indígena no 
Brasil, é correto afirmar que 
 
a) a recente luta dos indígenas demonstra uma desigualdade social, que marca 
apenas os dias atuais. 
b) o desenrolar da luta dos indígenas sugere uma solução favorável a eles, proposta 
pelo Estado. 
c) vinda de longa data, a disputa por terras marca a história da questão indígena 
no Brasil. 
d) o Estado português, anteriormente, e o Estado brasileiro, na atualidade, se 
comportam de forma igual na questão indígena. 
e) a conquista dos índios pelo reconhecimento de seu direito à terra, já se tornou 
uma realidade efetiva no Brasil atual. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
51 
 
 
 
3. (SEDUC/AM – Professor de ensino indígena) "Uma só palavra ou teoria não seria 
capaz de abarcar todos os processos e experiências históricas que marcaram a 
formação do povo brasileiro." 
Por Rainer Sousa - Mestre em História 
Adaptado de https://brasilescola.uol.com.br/historiag/brasileiro.htm 
 
Analise as afirmativas abaixo sobre o ensino da história e cultura afro-brasileira e 
africana nas escolas: 
 
I. Torna-se obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nos 
estabelecimentos de Ensino Fundamental e Médio. 
II. Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados 
apenas nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileira. 
III. O conteúdo programático incluirá entre outros, a luta dos negros no Brasil, a 
cultura negra brasileira e a importância do negro na formação da sociedade 
nacional. 
IV. O ensino da cultura afro-brasileira deve contribuir para o resgate da 
contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes 
à História do Brasil. 
 
a) I, II, III. 
b) I,IV. 
c) I, III, IV. 
d) I, II, IV. 
e) I, II, III, IV. 
 
4. ( IFRR – Professor de Ensino Básico) A Lei Federal no 11.645/2008 alterou a Lei de 
Diretrizes e Bases - LDB (Lei Federal no 9.394/1996), para incluir no currículo oficial 
da rede de ensino a obrigatoriedade da temática história e cultura afro-brasileira 
e indígena. O caput do artigo 26-A prevê expressamente que "Nos 
estabelecimentos de Ensino Fundamental e de Ensino Médio, torna- se obrigatório 
o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena". No parágrafo segundo 
consta que: "Os conteúdos referentes à história e cultura afro-brasileira e dos 
povos indígenas brasileiros serão ministrados no a ̂mbito de todo currículo escolar, 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
52 
 
 
 
em especial nas áreas de 
 
a) Educação Artística e de Filosofia. 
b) Educação Artística e de Matemática 
c) Literatura e História Brasileiras e de Filosofia. 
d) Matemática e de Literatura e História Brasileiras. 
e) Educação Artística e de Literatura e História. 
 
5. (SEDUC-AM/professor indígena) "Nossas terras são invadidas, nossas terras são 
tomadas, os nossos territórios são invadidos... Dizem que o Brasil foi descoberto; o 
Brasil não foi descoberto não, Santo Padre. O Brasil foi invadido e tomado dos 
indígenas do Brasil. Essa é a verdadeira história que realmente precisa ser 
contada." 
Marçal Tupã'i, líder Guarani-Nhandeva, no discurso feito ao Papa João Paulo II, por ocasião de sua 
visita ao Brasil, em 1980. 
 
São caracterizados como direitos de cidadania o direito à igualdade, à 
liberdade de expressão, direitos políticos, e direitos a uma vida digna e 
gratificante. Uma evolução da ideia de cidadania trouxe ainda a noc ̧ão de 
direito ambientais, de gênero e o direito à diversidade. Quanto ao 
reconhecimento ao direito à cidadania dos povos indígenas podemos afirmar 
que 
 
a) a CF/88 reconheceu o respeito às formas de organização própria dos povos 
indígenas, além de suas crenças costumes, usos e tradições bem como os direitos 
originários dos povos indígenas sobre suas terras. 
b) a inclusão do estudo da Históriada África e dos Africanos, a luta dos negros no 
Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, 
resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política 
pertinentes à História do Brasil, incentivará o respeito à diversidade. 
c) o direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e 
moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da 
identidade, da autonomia, dos valores, ideias e crenças, dos espaços e objetos 
pessoais, sendo importante para a vida familiar da criança. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
53 
 
 
 
d) a Lei 9.394/96 garante estimular o conhecimento dos problemas do mundo 
presente, em particular os nacionais e regionais, prestar serviços especializados à 
comunidade e estabelecer com esta uma relação de reciprocidade, através do 
ensino superior. 
e) a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem 
patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de 
publicações ou de outras formas de comunicação, são fatores que estimularam 
a compreensão da diversidade. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
54 
 
 
 
A ESCRAVIDÃO NEGRA NO BRASIL 
 
 
 
4.1 INTRODUÇÃO 
Como visto nas unidades anteriores, a escravidão no Brasil decorreu da 
presença dos portugueses na região. Quando da chegada dos europeus, os 
membros das primeiras expedições trataram logo de conseguir, em troca de 
quinquilharias, a força de trabalho indígena. Quando elas não mais satisfaziam aos 
nativos e a recusa pelo trabalho degradante fortaleceu, o mesmo passa, então, a 
ser forçado. Entretanto, essa mão-de-obra logo será substituída pela africana e aqui 
poderíamos citar diversos fatores: desde a fraca densidade demográfica indígena, 
a resistência das aldeias indígenas, a proteção dos jesuítas até a lucratividade do 
tráfico transatlântico que trouxera milhões de africanos escravizados para o 
continente americano. A escravidão africana, por sua vez, além de rentável foi 
muito duradoura (cerca de 300 anos) e gerou diversas consequências para a 
sociedade brasileira e para a formação do próprio país que viria a se chamar Brasil. 
Assim, como os povos indígenas e portugueses, a cultura africana (e 
afrodescendente) é uma das matrizes culturais do Brasil. Vejamos mais sobre isso. 
 
4.2 ESCRAVIDÃO ANTIGA E MODERNA 
Para começar, é preciso fazer uma importante ressalva aos conceitos: 
“escravidão” e “escravos”. Em função da história brasileira, é muito comum 
associarem a escravidão à população africana ou afrodescendente. Contudo, 
essa relação foi construída e remete a uma ideia moderna da escravidão. De uma 
maneira geral, o conceito de escravidão, de acordo com a formulação Igor 
Kopytoff (1982), apud Marquese (2006, p. 110) define que: 
 
[...]a escravidão não deve ser definida como um status, mas sim 
como um processo de transformac ̧ão de status que pode prolongar-
se uma vida inteira e inclusive estender -separa as gerac ̧ões 
seguintes. O escravo comec ̧a como um estrangeiro [outsider] social 
e passa por um processo para se tornar um membro [insider]. Um 
indivíduo,despido de sua identidade social prévia, é colocado à 
margem de um novo grupo social que lhe dá uma nova identidade 
UNIDADE 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
55 
 
 
 
social. A estraneidade [outsidedness], então, é sociológica e não 
étnica. 
 
A partir desse sentido, escravidão compreende diversas formas possíveis de 
trabalho compulsório que remetem à perda de liberdade. Houve sociedades em 
que o escravo era reduzido ao status de objeto, como no caso brasileiro, de um 
bem mercantilizável. Mas também tiveram sociedades em que o escravo não se 
tornou, em nenhum momento, um bem que se possa vender ou comprar. Na 
Mesopotâmia e no Egito antigos, por exemplo, para a construção das obras 
públicas, a mão-de-obra recrutada pertencia ao governante, mas os indivíduos não 
eram vendidos e as atividades poderiam cessar quando ao fim da construção. 
(PINSKY, 2010). 
Diferentemente era o caso das sociedades gregas e romanas, nas quais os 
escravos eram comprados ou obtidos por meio de saques e batalhas e não 
perdiam, exceto em alguns casos, a sua condição. A escravidão na Antiguidade 
Clássica era tão comum que o filósofo grego Aristóteles (384 a.C.- 322 a.C.) chegou 
a estabelecer o conceito de “escravo natural”. Ou seja, haveria aqueles indivíduos 
que nasceram destinados a serem escravos pela sua humanidade deficiente. Para 
ele também haveria o “escravo legal”, que diferentemente do natural, poderia de 
alguma maneira conquistar a sua liberdade. 
A proposta do moderno sistema escravocrata implantado nas Américas, por 
sua vez, encontra-se ainda mais radicalizada em relação à situação da 
Antiguidade Clássica. Uma discrepância crucial é que a diferença social não seria 
mais aplicada apenas a certos indivíduos considerados de natureza humana 
deficiente, mas sim à um grupo humano específico, que traria na cor da pele os 
sinais da sua inferioridade da alma (BARROS, 2013). 
A inferioridade, por sua vez, viria, na época moderna, justificada por 
interpretações de passagens bíblicas como a clássica “maldição de Cam” 
associada arbitrariamente aos povos africanos. O discurso do escravismo colonial, 
portanto, tratará de associar a escravidão às diferenças de cor e de geografia: o 
negro e o africano. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
56 
 
 
 
 
 
Deve-se, por fim, ressaltar que os ibéricos não foram os primeiros a a propor a 
ideia de uma escravidão racial. O comércio islâmico de escravos, que já se 
desenvolvia séculos antes da chegada dos europeus no Norte da África, também 
se baseava em distinções raciais. Apesar de iniciar-se com uma concepção muito 
semelhante à da Antiguidade clássica: escravidão atrelada ao “estrangeiro”. Mas 
por constante presença islâmica no tráfico de escravos negros através do Norte da 
África, irá gradualmente se consolidar uma relação mais ligada à pigmentação da 
pele. Entretanto, a escravidão estabelecida no mundo árabe não pode ser 
comparada, em termos de abrangência e significação social, àquela verificada no 
mundo cristão (BARROS, 2013). 
 
4.3 TRÁFICO TRANSATLÂNTICO 
Os navios portugueses foram os primeiros a transportar escravizados da África 
para as Américas. Entretanto, no auge do tráfico, no século XVIII, constata-se que 
boa parte dos escravizados foram transportados por embarcações inglesas, 
francesas, holandesas e dinamarquesas. Conforme destaca Florentino (1997, p. 150): 
 
[...] embora o tráfico atlântico se constituísse em um negócio de 
base local, em mãos de homens e de mulheres residentes nos 
maiores portos do Atla ̂ntico, sua rede de interesse abrangia milhares 
de pessoas na América, Ásia, Europa e África. Muitos participavam 
diretamente de sua organizac ̧ão, nas tripulac ̧ões dos tumbeiros, nas 
capturas, vendas e revendas dos cativos, dentre outras etapas. 
Indiretamente, porém, esse número era ainda maior, como por 
exemplo na construc ̧ão de navios e na produc ̧ão de manufaturas 
que, junto com produtos tropicais, participavam do escambo. 
 
O tráfico de escravizados, portanto, era um dos mais importantes ramos do 
De acordo com a passagem Bíblica, o mundo pós-dilúvio teria sido dividido entre os três 
filhos de Noé: Sem, Jafet e Cam. Na interpretação moderna da passagem, Sem teria 
povoado a Ásia (os semitas), Jafet a Europa e Cam a África. Cam, por sua vez, teria 
recebido uma maldição de seu pai por zombar dele e de acordo com as palavras de 
Noé, os descendentes de Cam seriam eternamente servos dos servos de seus irmãos. Por 
conclusão, os descendentes de Cam, os africanos, seriam, portanto, destinados por uma 
maldição bíblica à escravidão eterna. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
57 
 
 
 
comércio internacional e envolvia poderosos grupos econômicos, por isso oenvolvimento de diversos países na lógica comercial. Este peso econômico do 
tráfico ajuda a explicar como foi possível o transporte de almas subsistir por tanto 
tempo. 
 
Figura 5: Navio Negreiro 
 
Fonte: Rugendas (1830) 
 
Segundo o balanço feito Lovejoy (1982), há um consenso a respeito dos 
números de africanos que foram embarcados no tráfico atlântico: 11.863.000 e que 
entre 9.600.000 e 10.800.000 teriam chegado às Américas. Tais números, contudo, 
dependem da taxa de mortalidade no trajeto, lembrando que as condições nas 
quais os africanos eram transportadas eram muito precárias e cruéis. Lovejoy estima 
uma perda de 15% de mortalidade na travessia. 
No caso brasileiro, por sua vez, a estimava baseada nos estudos de Robert 
Conrad, indicam que 100 mil africanos entraram no Brasil no século XVI, quatro 
milhões nos séculos XVII e XVIII e mais de um milhão e meio nos últimos anos do 
tráfico, na primeira metade do século XIX (CONRAD, 1985). 
No momento inicial, o sistema era assegurado por traficantes portugueses (na 
sua maioria) estabelecidos nos principais portos brasileiros. Os grandes compradores, 
antes de 1700, eram os senhores de engenho. Com a drástica baixa no preço do 
açúcar brasileiro (ocasionado pela concorrência com o açúcar produzido nas 
Antilhas), grande parte do setor açucareiro brasileiro foi destruído, levando muito 
tempo para se recuperar. Mesmo regiões como a Bahia, que conseguiram manter-
se apesar da crise, não vivia mais a opulência de outrora. O valor do escravizado, 
que já era alto, tornou-se exorbitante. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
58 
 
 
 
A descoberta de ouro na região hoje conhecida como Minas Gerais, por sua 
vez, gerou novamente um aumento na demanda por escravizados no Brasil. Os 
negociantes da Bahia perceberam a oportunidade de grandes lucros 
especialmente em função do preço do cativo e do pagamento em ouro. Essa 
transferência da demanda para Minas gerou também uma modificação 
significativa no tráfico. Os traficantes foram se desvinculando dos proprietários de 
terras e diversificando o mercado no Brasil. O tráfico, então, passava a ser uma 
atividade em si. O escravizado, por sua vez, começou a passar por várias mãos até 
chegar ao seu destino final – o que encarecia ainda mais o valor. Isso irá, por sua 
vez, desenvolver o tráfico interno. Na sequência, já no século XIX, o café irá se 
tornar o principal produto exportador da economia brasileira, e para ele irá se 
deslocar um gigantesco contingente de mão-de-obra escrava para as regiões 
produtoras, especialmente na região de São Paulo. Foi nesse período que o Brasil 
registrará a maior concentração de entrada de escravizados africanos. Ressaltamos, 
contudo, que em diversas outras partes do Brasil outras atividades também irão 
utilizar-se dessa força de trabalho, como no norte com a extração da borracha, por 
exemplo. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
59 
 
 
 
Ao longo de todo processo, as flutuações dos preços dos escravizados e as 
ações de piratarias de navios estrangeiros prejudicaram o tráfico, mas não foram 
suficientes para desmantelá-lo. O fim do tráfico só foi efetivado com muita pressão 
inglesa, que após proibir o tráfico de escravizados para suas colônias nas Antilhas, 
viu o preço do açúcar disparar. Em contrapartida, o caso brasileiro mantinha seu 
preço mantendo o tráfico e a força de trabalho escravizada. Para controlar a 
competição, os ingleses iniciaram uma ofensiva contra o tráfico. Paulatinamente, 
foram cerceando o mesmo. Primeiro, D. Pedro I, em 1826, assinara uma Convenção 
que estabelecia um prazo de três anos para extinguir o tráfico nacional e em 1831 
teve-se a primeira lei a proibir a importação de escravizados no Brasil. A Lei Feijó 
acabou ficando conhecida como “lei para inglês ver” em função da sua não 
efetividade, apesar dos esforços do governo brasileiro para aplicá-la por cinco anos. 
Em 1845, o Parlamento do Reino Unido autorizou os britânicos a prender 
qualquer navio suspeito de transportar escravizados no Oceano Atlântico. Na 
sequência, pressionado, o governo brasileiro acaba sancionando a Lei Eusébio de 
Queirós, em 1850, proibindo, enfim, o tráfico. Vale ressaltar, contudo, que apesar de 
proibido o tráfico transatlântico, permanecia o tráfico no interior do Brasil. O 
movimento de escravizados, portanto, irá ainda ocorrer praticamente até a época 
da abolição. 
 
 
 Em 1999 foi lançado um grande banco de dados contendo informações sobre milha-
res de viagens do tráfico negreiro. A sua versão online, Transatlantic Slave Trade Data-
base, contou ainda com a colaboração de dezenas de historiadores do mundo intei-
ro. Nele é possível encontrar estimativas sobre o tráfico do século XVI ao XIX, por por-
tos de embarque e desembarque. Disponível em: https://bit.ly/2ZSgpfW. Acesso em: 
16 out. 2020; 
 Assista o vídeo em 3D de um tumbeiro. Disponível em: https://bit.ly/3km7uKN. Acesso 
em: 16 out. 2020; 
 No seu livro “A abolição do tráfico de escravos no Brasil: A Grã-Bretanha, o Brasil e a 
questão do tráfico de escravos, 1807-1869”, Leslie Bethel (2002) mostra como os pode-
res britânicos ampliaram-se no combate ao tráfico levando o Brasil a concordar, pelo 
Bill Aberdeen de 1845, que o tráfico negreiro fosse considerado pirataria. Leia mais 
em: https://bit.ly/3eRzZPB. Acesso em: 16 out. 2020. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
60 
 
 
 
4.4 ESCRAVIDÃO NO BRASIL 
A origem dos escravizados no Brasil era inicialmente africana. Nesse 
continente, a escravidão já se fazia sentir mesmo antes da chegada dos europeus, 
mas a forma como essa instituição se estabelecia entre as sociedades africanas era 
diferente daquela desenvolvida a partir do tráfico mercantil. No caso africano, a 
escala era menor e os escravizados eram geralmente prisioneiros de guerra e por 
dívida. Não era raro, contudo, após algumas gerações, era possível ocorrer o fim 
das relações escravistas. Além disso, conforme ressalta John Thornton, muitos 
escravizados conseguiam inserir-se socialmente ocupando cargos importantes 
(THORNTON, 2004). 
Contudo, as relações mercantis estabelecidas pelo comércio moderno eram 
diferentes e alteraram, inclusive, a lógica local (demográfica, política, econômica e 
sociocultural) das sociedades africanas. Nesse novo cenário, o escravizado era 
tratado como mercadoria, não havendo nenhuma preocupação em respeitar sua 
natureza humana. No mercado do Vallongo, no Rio de Janeiro, gravuras e 
descrições mostram pessoas cativas à venda sendo examinados como animais. Pais 
e filhos separados por compradores que não tinham interesse na família inteira. 
Enquanto mercadoria, além de comprado, vendido ou alugado, a pessoa 
escravizada podia ainda ser oferecida como fiança e trocado por bens móveis e 
imóveis (PINSKY, 2010). 
 
Figura 6: Mercado da rua do Valongo 
 
Fonte: Debret (1835) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
61 
 
 
 
Como mencionado no item anterior, inicialmente, a grande lavoura fora a 
principal demanda por mão-de-obra escrava. Baseada na família de proprietários – 
da terra e dos escravos – girava em seu entorno feitores, agregados e escravizados. 
Conforme ressalta Jaime Pinsky, na lavoura, os horários, as tarefas o ritmo e os turnos 
de trabalhos eram determinados pelo proprietário e sua equipe (PINSKY, 2010). Os 
escravizados trabalhavam, assim, em ritmos intensos plantando, cultivando e 
beneficiando a cana para transformá-la em açúcar. A complexidade e diversidade 
da atividade, exigia, por sua vez, a adoção de uma grande quantidade de braços. 
Já no século XX, quando o café começa a se constituir como o principal 
produto exportador, a força de trabalho escrava é então deslocada para essa 
atividade. Nas fazendas de cafés era comum uma jornada de trabalho de quinze a 
dezoito horas diárias iniciadas ainda de madrugada e assim como no caso da 
lavoura, muitos feriados e domingos não eram respeitados – dependia do interessedo senhor. Alguns senhores chegavam a pagar um pequeno valor para os trabalhos 
aos domingos – alguns escravizados, ao final da vida (quando não estavam mais 
produtivos para o seu senhor), conseguiam, com muita economia e trabalho, 
comprar sua liberdade (alforria). O retorno se dava pelas nove ou dez horas das 
noites. As refeições eram rápidas para que o trabalho não fosse interrompido por 
muito tempo e não raro é possível ler em fontes da época reclamações dos 
senhores enfatizando que os escravizados eram preguiçosos (PINSKY, 2010). 
Mas certamente, não eram essas as únicas atividades que utilizavam a mão-
de-obra escrava no Brasil, como mencionado anteriormente, a extração aurífera 
utilizou-se muito dessa força de trabalho, bem como a prestação de serviços dos 
mais diversos como transportar mercadorias, executarem tarefas domésticas (muito 
do funcionamento da Casa Grande - e mesmo nas de casas menores - coube às 
mulheres escravizadas desde amamentar, as “amas de leite” e cuidar dos filhos da 
sua sinhá até lavar, passar, cozinhar dentre outras atividades internas), pedir 
esmolas em favor de seu proprietário dentre outras. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
62 
 
 
 
Figura 7: Augusto Gomes Leal com sua ama de leite Mônica (1860) 
 
Fonte: Vilela (2017) 
 
 
 
Em termos religiosos, assim como no caso indígena, os africanos escravizados 
 Produzido em 2015, “Que horas ela volta?” Filme de Anna Muylaert, retrata o 
cotidiano da relação entre uma empregada doméstica, no caso Val (interpretada 
por Regina Casé), e a família que a contrata residente do rico bairro paulistano, 
Morumbi. O filme mostra as contradições dessas relações ambíguas que, travestidas 
de uma suposta amizade e afeto, possibilitam a exploração, segregação e 
desigualdade historicamente construídas e institucionalizadas no Brasil. Filme complet 
disponível emo: https://bit.ly/34wzZkX. Acesso em: 16 out. 2020; 
 De acordo com os dados estatístico do IBGE de 2011, o número de empregados 
domésticos no Brasil era de 6,6 milhões de pessoas (o país com o maior número de 
empregados domésticos no mundo), sendo que 61% dessas pessoas eram negras. 
Lembrando que a aprovação da “PEC das domésticas” de 2013, que apenas dava os 
direitos às empregadas domésticas já garantidos constitucionalmente a todos os 
trabalhos desde 1988, gerou muita crítica. Ao ver o filme observe: 
 Como se estabelece às relações entre Val e os filhos da sua patroa? 
 Quais os direitos trabalhistas estão assegurados à funcionária e quais não estão? 
 Quais as transformações ocorridas com a chegada da filha de Val? 
 Agora, analise o filme à luz dos dados apresentados pelo IBGE e reflita acerca des-
sas questões fazendo um paralelo com o passado escravista brasileiro. 
 É possível considerar o alto índice de emprego de mulheres (especialmente afro-
descendentes) na organização da esfera doméstica de outras famílias no Brasil 
uma herança escravista? 
Seria essa relação uma justificativa para o caso do Brasil ser o país que mais adota 
esse tipo de trabalho por tantos anos sem os devidos direitos trabalhistas?
 
 
 
 
 
 
 
 
 
63 
 
 
 
eram batizados e convertidos ao catolicismo. A adoção de um novo nome “cristão” 
e todo o processo de imposição religiosa foi também uma importante e simbólica 
repressão e imposição da identidade de escravo, conformado e submisso ao seu 
senhor e à sua situação. Mas não há como ignorar, a resistência cultural e é até 
mesmo física (como a revolta dos Malês) desenvolvida em oposição. 
 
 
 
No plano cultural, o catolicismo irá sofrer alterações significativas. O 
sincretismo religioso é uma importante característica da adaptação do catolicismo 
por parte dos escravizados, além da manutenção da adaptação de religiões de 
matriz africana como o Candomblé (perseguido e repreendido até os dias atuais, a 
julgar pela violência que os praticantes sofrem ainda hoje no Brasil). Aliás, tão 
intensa quanto a escravidão foram os tipos de resistências à ela. Esta se revelou das 
mais variadas formas desde a recusa em deixar sua terra natal até as ações mais 
radicais como assassinato de senhores e escravizadores. Também podemos citar a 
resistência cultural já mencionada a partir do sincretismo, das manutenção e 
adaptação de rituais religiosos, da capoeira, bem como a formação específica de 
estruturas familiares nas senzalas dentre outras. Movimentos organizados – como 
fugas e formação de quilombos – também revelam uma dimensão importante da 
resistência. 
Até a abolição da escravatura, em 1888, os movimentos em prol da 
liberdade do cativo eram quase sempre clandestinos. Sendo o escravizado 
considerado propriedade privada, fugas (mencionadas com frequência em 
anúncios de jornais) e revoltas (Revolta dos Malês, por exemplo) ameaçavam a 
ordem vigente e obviamente causavam prejuízos econômicos – o que se tornava 
motivo para repressão violenta. No cotidiano do trabalho, diversas formas de 
 Na Bahia (Salvador) ocorreu, em 1835, um movimento por parte de africanos 
muçulmanos escravizados que lutavam contra a sua condição e contra a imposição 
de outras religiões. Esse movimento teve muita repercussão e ficou conhecida como 
Revolta dos Malês. O levante foi reprimido pela polícia com armas de fogo. A seguir 
um vídeo de Lilia Schwarcz acerca da revolta dos Malês: https://bit.ly/3htQnpZ. 
Acesso em: 16 out. 2020 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
64 
 
 
 
castigos demonstravam a perversidade da relação escravista. Mesmo com diversas 
leis, portarias e recomendações buscando controlar o “excesso” da crueldade do 
tratamento (não a violência em si), os senhores se sentiam no direito de descumprir 
leis que atentassem à sua condição de donos. Mas o sistema escravista, de maneira 
geral, permitia aos proprietários uma série de práticas de coação física para fazer o 
escravizado cumprir suas obrigações e os impedisse de fugir. 
 
 
Acesso em: 16 out. 2020;
Acesso em: 16 out. 2020;
Acesso em: 16 out. 2020;
Acesso em: 16 out. 
2020;
Acesso em: 16 out. 2020.
Acesso em: 16 out. 2020;
 
 
 
 
 
 
 
 
 
65 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 FREYRE, Gilberto. Casa grande & senzala. São Paulo: Global, 2003. Disponível em: 
https://bit.ly/3pqBV6s. Acesso em: 16 out. 2020.; 
 CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da 
escravidão na Corte. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. Disponível em: 
https://bit.ly/2Uolt8p. Acesso em: 16 out. 2020.; 
 SLENES, Robert Wayne. Na senzala, uma flor – esperanc ̧as e recordac ̧ões na 
formacã̧o da família escrava: Brasil Sudeste, século XIX. 2a ed. corrigida. Campinas: 
Editora da Unicamp, 2011.; 
 SOARES, Mariza de Carvalo. Devotos da cor. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.; 
 REIS, João José. Rebelião Escrava no Brasil, a História do Levante dos Malês em 1835. 
Cia. das Letras. 
 COSTA, Emilia Viotti da. Coroas de glória, lágrimas de sangue: a rebelião dos escravos 
em Demerara em 1823. São Paulo: Companhia das Letras , 1998.; 
 FLORENTINO, Manolo. Em costas negras: uma história do tráfico atlântico de escravos 
entre a África e o Rio de Janeiro (séculos XVIII e XIX). Rio de Janeiro : Arquivo 
Nacional, 1995.; 
 SCHWARTZ, Stuart B. Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial. 
Companhia das Letras: São Paulo, 1995. Disponível em: https://bit.ly/3nj2CYU. Acesso 
em: 16 out. 2020.; 
 PINSKY, Jaime. Escravismo colonial. São Paulo: Editora Contexto, 2010. Disponível na 
Biblioteca Pearson: https://bit.ly/3f8a6eB. Acesso em: 16 out. 2020.; 
 GOMES, Flávio. Palmares: Escravidão e Liberdade no Atlântico Sul. São Paulo: Editora 
Contexto, 2005. Disponível em: https://bit.ly/3eXeMnf. Acesso em: 16 out. 2020.; 
 MATOS, Hebe Maria. Escravidão e cidadania no Brasil monárquico. Rio de Janeiro: 
Zahar, 1999. Disponível em: https://bit.ly/3ltxMwb. Acesso em: 16 out. 2020.;66 
 
 
 
FIXANDO CONTEÚDO 
1. (Professor de História – Prefeitura de Salvador/Bahia) “Os grupos de escravos 
egressos da Costa da Mina, sob diferentes identidades (Nagô, Hauçá, Jeje, Tapa), 
promoveram o maior ciclo de revoltas escravas africanas de que se tem notícia 
na história do Brasil. O caráter de resistência sistêmica à escravidão só teve 
equivalente, antes, na Guerra dos Palmares e, depois, no movimento 
abolicionista da década de 1880. Com efeito, entre 1807 e 1835, a Bahia viveu 
um período de rebeliões contínuas dos escravos africanos, cujo ápice foi a 
Revolta dos Malês.” 
 
REIS, João José. Rebelião Escrava no Brasil, a História do Levante dos Malês em 1835. Cia. das Letras. 
 
Completando 175 anos em 2010, a Revolta dos Malês, na Bahia, embora não 
tenha conseguido modificar a ordem escravista brasileira, teve um aspecto 
bastante representativo, uma vez que 
 
a) foi o levante de escravos urbanos, na sua grande maioria de religião muçulmana, 
mais sério ocorrido no Brasil. 
b) foi um levante de escravos com objetivos claros e definidos, o que justifica a sua 
longa duração. 
c) foi, por meio dessa Revolta, que, pela primeira vez, um grupo de escravos 
ocupou, ainda que por curto período, o poder em Salvador. 
d) precipitou a assinatura da Lei Eusébio de Queirós, que extinguiu o tráfico negreiro. 
e) acelerou a introdução de imigrantes para substituir a mão de obra escrava negra. 
 
2. (IF-PA/professor de história) “Os negros escravizados procuraram sempre que 
puderam resistir à opressão a eles imposta no interior dos complexos mundos da 
escravidão. Buscavam nas diversas formas de enfrentamento [...] conquistar 
aquilo que concebiam como liberdade” 
GOMES, Flávio dos Santos. Em torno dos bumerangues: outras histórias de mocambos na Amazônia colonial, 
IRevista USP, São Paulo (28), Dez-Fev. 1995, p. 41. 
 
Com base nos debates historiográficos sobre os mundos da escravidão e a 
resistência escrava é possível assinalar que 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
67 
 
 
 
a) pesquisas recentes reforçam os quilombos como um dos grandes exemplos do 
protesto negro. Sua manutenção fundamentava-se no distanciamento 
geográfico e o isolamento total dos quilombolas, que garantiu por sua vez, a 
experiência da liberdade, com forte solidariedade entre seus membros. 
b) historiadores ainda defendem que a presença negra foi pouco significativa na 
economia regional dos séculos XVII e XVIII, fundada predominantemente sobre o 
trabalho indígena. Afirmam que os africanos não conheciam a região e nem a 
floresta e, por isso, preferiam-se os índios. 
c) várias foram as experiências de resistência da massa escrava na Amazônia como 
reação ao sistema opressor, mas os protestos assumiram dimensão política 
quando do calor e da efervescência das campanhas abolicionistas no século XIX. 
d) estudos revelam novos mundos, marcados por dores, lutas e embates cotidianos 
de africanos e índios. Quando aquilombados, andavam armados, caçavam, 
“salgavam” carne para comercializar, faziam roças, tijolos, extraiam madeiras 
etc..., contudo, não amedrontavam as autoridades locais certas que o 
“fantasma haitiano” não chegou à Amazônia. 
e) fugitivos escravos buscavam a liberdade até com mocambos em regiões de 
fronteira. Como hidras renasciam em todo lugar e contavam com a ajuda de 
cativos nas plantações, vendeiros, índios, vaqueiros, comerciantes, camponeses, 
soldados e marinheiros numa rede de cooperação e conflito. 
 
3. (IF-TO/professor de história) A influência africana no processo de formação 
da cultura afro-brasileira começou a ser delineada a partir do tráfico negreiro, 
quando milhões de africanos "deixaram" forçadamente o continente africano e 
despontaram no Brasil para exercer o trabalho compulsório. Sobre esta temática 
é correto afirmar que 
 
a) houve uma homogeneidade cultural praticada pelos negros africanos, visto que 
esta homogeneidade era de certa forma favorecida pelas origens similares dos 
africanos, que oriundos do continente africano, acabavam por apresentava 
uma prática cultural muito semelhante em alguns aspectos devido à região que 
pertenciam. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
68 
 
 
 
b) além da prática cultural similar ressaltada, os africanos incorporaram práticas 
europeias e indígenas, além de influenciá-los culturalmente. O intercâmbio 
cultural entre os elementos citados contribuiu para uma formação cultural afro-
brasileira pouco híbrida e peculiar. 
c) ao longo dos períodos pré-colonial, colonial, monárquico e republicano brasileiro, 
foi grande o contingente de escravos africanos no Brasil, visto que o país 
constituía o maior mercado consumidor do período. A contribuição desses 
escravos foi além da participação econômica, uma vez que foram inserindo suas 
práticas, seus costumes e seus rituais religiosos na sociedade brasileira, 
contribuindo, dessa forma, para uma formação cultural peculiar no Brasil. 
d) importante ressaltar que as práticas desses escravos africanos eram muito 
semelhantes entre si, pois eles eram oriundos do continente africano. De acordo 
com VAINFAS (2001 p.66) (2), durante o período pré-colonial e colonial, quase 
nada se sabia sobre a origem étnica dos africanos traficados para o Brasil. Porém, 
ao longo do período, passou-se a designá-los a partir da região ou porto de 
embarque, ou seja, das áreas de procedência. 
e) o escravo africano era um elemento de suma importância no campo 
econômico do período colonial sendo considerado "as mãos e os pés dos 
senhores de engenho porque sem eles no Brasil não é possível fazer, conservar e 
aumentar fazenda, nem ter engenho corrente" (ANTONIL, 1982, p.89) (1). 
Contudo, a contribuição africana no período colonial foi muito além do campo 
econômico, uma vez que os escravos souberem reviver suas culturas de origem e 
recriaram novas práticas culturais através do contato com outras culturas. 
 
(1) ANTONIL, André João. Cultura e Opulência do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia: São Paulo: EDUSP, 1982. 
(2) VAINFAS, Ronaldo. Dicionário do Brasil Colonial (1500-1808). Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. 
 
 
4. (Prefeitura de Suzano/SP – Professor de História) A capoeira pode ser vista, da 
mesma forma que as irmandades religiosas e as reuniões em batuques, como um 
espaço construído por escravos libertos, africanos e crioulos, para encontros e 
afirmação de apoio e de solidariedade entre os membros de um mesmo grupo. 
Esses grupos distintos de capoeiras eram conhecidos por maltas. Eram 
verdadeiras organizações, marcadas por hierarquias, rituais e símbolos 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
69 
 
 
 
específicos. [...] E os assobios marcavam o movimento dos componentes do 
grupo, a hora para atacar e o momento de retirada, além de alertarem para o 
perigo quando da chegada de inimigos ou policiais. 
Regiane A. de Mattos. História e cultura afro-brasileira 
 
De acordo com a autora, dentre as diversas possibilidades de análise, a capoeira 
pode ser estudada nas aulas de História como sendo um exemplo de 
 
a) superioridade cultural da etnia dos haúça. 
b) uma cultura subdesenvolvida que sobreviveu aos dias atuais. 
c) reprodução das desigualdades sociais e culturais. 
d) legitimação da estrutura social racista. 
e) resistência e oposição ao sistema escravista. 
 
5. (Prefeitura de Sertãozinho/SP – Professor de História) Leia o texto. 
 
Os africanos foram trazidos do chamado “continente negro” para o Brasil em um 
fluxo de intensidade variável. Os cálculos sobre o número de pessoas 
transportadas como escravos variam muito. Estima-se que entre 1550 e 1855 
entraram pelos portos brasileiros 4 milhões de escravos, na sua grande maioria 
jovens do sexo masculino. 
A região de proveniência dependeu da organização do tráfico, das condições 
locais na África e, em menor grau, das preferências dos senhores brasileiros. 
(Boris Fausto, História do Brasil, p. 51) 
 
Acerca do tráfico negreiro, é corretopovoou-o como 
se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; 
insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor, seu silên-
cio sem concentração, suas alegrias sem causa, sua felicidade sem dia seguinte… É ela o 
suspiro indefinível que exalam ao luar as nossas noites do norte. 
NABUCO, Joaquim apud VELOSO, Caetano. Noites do Norte. Disponível em:herdada da cultura ocidental europeia e que continua a 
condicionar o racismo após a escravidão. 
A oposição fundamental que comanda todas as classificações e distinções 
sociais na cultura ocidental de matriz europeia, lentamente formulada desde a 
antiguidade até a idade moderna e incrustada no cerne do capitalismo, é aquela 
entre mente e corpo. Ela determina o preconceito de classe, baseado na oposição 
entre trabalho manual e intelectual. Rege também a oposição entre os gêneros 
Perceba que, na sequência de autores tratados aqui, desde Joaquim Nabuco se aborda 
a escravidão enquanto uma instituição social – um conjunto de práticas, ideias e valores 
que orientam a vida social – e não apenas um regime de trabalho. O que varia, neste 
caso, são as estruturas sociais com as quais ela se relaciona. Para Nabuco e a geração 
de intelectuais do final do século XIX, a raça era uma estrutura biológica e social 
considerada enquanto um parâmetro científico. Já no século XX, após a guinada 
representada por Gilberto Freyre, o conceito cai em desuso nas ciências sociais e aos 
poucos as análises vão se concentrando sobre um outro parâmetro científico: o da 
classe.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
78 
 
 
 
masculino e feminino, bem como entre a raça branca e as raças não-brancas. O 
homem é, pretensamente, o portador das virtudes morais e intelectuais superiores. 
 
A mulher, por oposição, é percebida como repositária [sic] da 
sensibilidade, dos afetos e do mundo emocional associado às 
virtudes ambíguas da corporalidade. É essa associação inconsciente 
e pré-reflexiva que a torna suspeita, ainda hoje, para exercer cargos 
de comando por exemplo. Do mesmo modo, a "raça branca" é 
associada à europeidade e sua herança cultural, ao controle dos 
instintos e necessidades corporais em favor do autocontrole e 
disciplina. A "raça negra" é considerada inferior pela associação ao 
"primitivismo" africano que é percebido tal qual repositário de valores 
ambíguos como força muscular e sensualidade. […] No contexto 
estamental e adscritivo da sociedade escravocrata, a cor funciona 
como índice tendencialmente absoluto da situação servil, ainda que 
esta também assumisse formas mitigadas [...]. Na sociedade 
competitiva, a cor funciona como índice "relativo" de primitividade – 
sempre em relação ao padrão contingente do tipo humano definido 
como útil e produtivo no nacionalismo ocidental e implementado por 
suas instituições fundamentais – que pode ou não ser confirmado 
pelo indivíduo ou grupo em questão (SOUZA, 2006, p. 86). 
 
A cor e a raça são uma espécie de marcador social de diferença que atua 
hoje de forma relativa, e não mais absoluta como na sociedade de castas do 
regime escravista, porém ainda identificada a uma hierarquia moral etnocêntrica. 
Isto posto, a escravidão, tal como o patriarcalismo, são instituições sociais que 
ajudaram a socializar e a naturalizar no Brasil os parâmetros daquela hierarquia 
moral. Daí que atualmente os movimentos sociais ligados às questões da negritude 
e do feminismo insistam tanto na quebra dos estereótipos de raça e de gênero. 
 
 
 
 
 
 
Com base neste último item da unidade, você é capaz de perceber a relação entre a 
quebra de estereótipos sociais e a demanda por representatividade social desses 
segmentos da população? Quão importante na formação de um indivíduo é crescer 
sendo capaz de se identificar com personagens e figuras públicas do seu gênero e 
etnia? Como essa representatividade contribui para romper com aquela hierarquia 
moral etnocêntrica identificada à pouco? 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
79 
 
 
 
FIXANDO O CONTEÚDO 
1. Em sua obra "O Abolicionismo", Joaquim Nabuco afirma: "Para nós a raça negra 
é um elemento de considerável importância nacional, estreitamente ligada por 
infinitas relações orgânicas à nossa constituição, parte integrante do povo 
brazileiro. Por outro lado, a emancipação não significa tão somente o termo da 
injustiça de que o escravo é martyr, mas também a eliminação simultânea dos 
dois typos contrários, e no fundo os mesmos: o escravo e o senhor." 
(NABUCO, Joaquim. O Abolicionismo. Edição fac-similar. Recife. Fundação Joaquim Nabuco. Ed. 
Massangana. 1988. p. 20) 
 
Em relação à condição do negro na sociedade brasileira, é correto afirmar que 
 
a) a abolição representou uma perda total da mão de obra pelos antigos senhores. 
b) o fim da escravidão possibilitou ao negro liberto a integração no mercado de 
trabalho e o livre acesso à terra. 
c) as Sociedades Libertadoras tinham como objetivo principal promover a 
integração do ex-escravo na sociedade, garantindo-lhe os direitos de cidadania. 
d) a diferença entre o processo abolicionista ocorrido nos Estados Unidos da 
América e o ocorrido no Brasil foi a ausência de preconceito racial em nosso país. 
e) o negro livre permaneceu à margem do universo cultural estabelecido por uma 
sociedade regida pelo branco e continuou sujeito ao preconceito e a novos 
mecanismos de controle social. 
 
2. (UERJ 2014 – ADAPTADO) 
 
“A redenção de Cam” (1895), de Modesto Brocos y Gomes (Foto: itaucultural.org.br) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
80 
 
 
 
No I Congresso Mundial das Raças, ocorrido em Londres em 1911, o médico João 
Baptista de Lacerda ilustrou suas reflexões sobre a sociedade brasileira 
analisando a tela “A redenção de Cam”, que retrata três gerações de uma 
família. 
 
Essa pintura foi utilizada na época para indicar a seguinte tendência 
demográfica no Brasil: 
 
a) controle de natalidade. 
b) branqueamento da população. 
c) equilíbrio entre faixas etárias. 
d) segregação dos grupos étnicos. 
e) anti-miscigenação. 
 
3. (VUNESP) “A desagregação do regime escravocrata e senhorial ocorreu, no 
Brasil, sem que se oferecesse aos antigos agentes do trabalho escravo assistência 
e garantias que os protegessem na transição para o sistema de trabalho livre. Os 
senhores foram eximidos da responsabilidade pela manutenção e segurança dos 
libertos, sem que o Estado, a Igreja ou qualquer outra instituição assumissem 
encargos especiais, que tivessem por objeto prepará-los para o novo regime de 
organização da vida e do trabalho.” 
 
(Florestan Fernandes. A integração do negro na sociedade de classes. Volume 1, São Paulo: Editora 
Globo, 2008, p. 29. Adaptado) 
 
Segundo o texto, o processo de abolição da escravatura no Brasil 
 
a) negou aos libertos o auxílio necessário para que se adaptassem às novas 
condições sociais. 
b) ofereceu recursos institucionais para proteger e amparar os libertos na nova 
estrutura social. 
c) impôs aos antigos senhores a obrigação de oferecer boas condições de vida aos 
libertos. 
d) concedeu aos ex-escravos formação profissional para atenderem o mercado de 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
81 
 
 
 
trabalho. 
e) proporcionou condições para que os antigos escravos fossem inseridos 
facilmente na sociedade. 
 
4. A teoria da democracia racial, derivada a partir da hipótese de pesquisa 
desenvolvida por Gilberto Freyre, principalmente com sua obra “Casa-Grande e 
Senzala”, pode ser relacionada à política de cotas implementada nos institutos 
federais a partir da Lei 12.711 de 29 de agosto de 2012. Dentre as opções abaixo, 
marque a CORRETA em relação aos conteúdos do enunciado acima. 
 
a) A teoria desenvolvida por Gilberto Freyre contribui para explicar a diferença 
entre os níveis de violência racial ocorridos nos EUA e no Brasil, bem como 
sustenta teoricamente a política de cotas raciais adotada em nosso país. 
b) A teoria da democracia racial, derivada da obra de Freyre, sustenta uma 
suposta convivência pacífica e democrática entre os negros, indígenas e 
brancos europeus, de modo a sustentar a política de cotas raciais. 
c) A teoria desenvolvida por Freyre atribui uma visão romantizada da realidade, 
tornando invisíveis várias formas de violência praticadas por brancos europeus 
em relação aos negros. A política de cotas raciais,Veremos o 
processo de escravidão dos indígenas, seus formas de resistência 
bem como as imagens criadas e divulgadas acerca dessas 
populações. 
Nesta unidade estudaremos as políticas desenvolvidas para lidar 
com a questão indígena ao longo da História do Brasil 
independente. Compreenderemos o histórico de criação das 
primeiras instituições governamentais e suas ações. 
 
 
Nesta unidade conheceremos as lutas e demandas da população 
indígena brasileira, especialmente no âmbito da educação, e os 
direitos adquiridos pela Constituição de 1988. 
Nesta unidade vamos discutir o conceito de escravidão moderno, 
bem como a estrutura sócio-econômica do tráfico transatlântico 
de escravizados e a própria escravidão no Brasil. Além disso, 
abordaremos as formas de resistência escrava destacando o 
papel ativo dos indivíduos escravizados dentro da própria lógica 
escravocrata. 
 
 
Nesta unidade conheceremos a discussão sobre a escravidão 
como uma característica nacional do Brasil no âmbito do 
pensamento sociológico e político brasileiro, sobretudo do ponto 
de vista da formulação da tese da democracia racial e de sua 
crítica. 
Nesta unidade nos voltaremos para a compreensão dos sentidos 
da negritude enquanto uma experiência social que aponta, de um 
lado, para a ancestralidade cultural de matriz africana, e de outro, 
para os paralelos com os diferentes modos de vida das 
populações negras ao redor do mundo no contexto da chamada 
"diáspora africana". 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
8 
 
 
 
POVOS INDÍGENAS E A 
COLONIZAÇÃO PORTUGUESA 
 
 
1.1 INTRODUÇÃO 
Antes da chegada dos europeus às terras americanas, e à terra que daria 
origem ao país chamado Brasil, já habitavam este território povos diversos em 
termos linguísticos, culturais, políticos e econômicos – nesse sentido, são 
considerados povos nativos e/ou originários. Contudo, não se sabe exatamente de 
onde vieram, algumas teorias não consensuais apontam para a Ásia de onde 
teriam vindo pelo Estreito de Bering (faixa de terra congelada que ligaria a Sibéria 
ao Alasca) e outras para a Polinésia ou Oceania a partir de possíveis navegações. 
De acordo com o Instituto Socioambiental, estima-se que hoje o Brasil possua 
cerca de 256 povos falantes de mais de 150 línguas diferentes. Contudo, apesar de 
toda sua história e importante presença na formação do Brasil, a grande maioria 
dos brasileiros ainda ignora a imensa diversidade desses povos nativos que vivem no 
país. Mesmo em termos historiográficos, a densidade histórica do Brasil indígena e 
sua profunda influência na formação do Brasil foi por muito tempo ignorada. Na 
disciplina, portanto, vamos compreender mais sobre a história e cultura desses 
diversos povos que povoaram e povoam o território brasileiro, além de conhecer 
um pouco das suas lutas e demandas por reconhecimento. 
 
 
 O Instituto Socioambiental (ISA) é uma organização não-governamental, sem fins 
lucrativos, fundada em 1994 com o objetivo de defender os bens e direitos humanos 
dos povos nativos. Acesse em: https://bit.ly/3nbxytY. Acesso em: 27 set. 2020; 
 O programa Povos Indígenas no Brasil, por sua vez, é parte do portal do Instituto com 
oferece informações sobre os povos e a temática indígena. Para saber mais acesse: 
https://bit.ly/35oRDqD. Acesso em: 27 set. 2020. 
UNIDADE 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
9 
 
 
 
 
 
1.2 A “QUARTA PARTE” DO MUNDO 
Quando os europeus chegaram no território que batizaram de América, por 
um equívoco histórico, toda a diversidade populacional que aqui já existia foi 
genericamente chamada de Índios e/ou Ameríndios. Mas por que o termo é 
considerado um equívoco histórico? Ao não reconhecerem as terras como um 
novo continente, julgaram ter chegada na região que almejavam alcançar para 
fins comerciais: a Índia. Expliquemos melhor isso. 
Para começarmos a compreender o contexto da época, é muito importante 
nos deslocarmos do nosso próprio. Como as pessoas daquela época pensavam? 
Como elas compreendiam o mundo? Pois bem, o mundo para os europeus 
medievais, de uma maneira geral, estava baseado nos ensinamentos bíblicos em 
função da importante e forte presença da Igreja Católica no cotidiano e na 
formação do conhecimento. Tendo a Bíblia como uma verdade absoluta, o mundo 
de então seguia sua narração. Assim, ele era dividido em três partes, que de 
acordo com a Bíblia, havia sido povoado, após o grande dilúvio, pelos três filhos de 
Noé: Sam, Jafé e Cam. Nesse sentido, de acordo com a interpretação bíblica da 
época, Sam teria povoado a Ásia, Jafé a Europa e Cam a África. Veja um esquema 
de mapa estilo T.O. comum na Idade Média para representar o mundo de então. 
 
Figura 1: Mapa Esquemático estilo T.O 
 
Fonte: Isidoro de Sevilha (1492) 
Antes de começarmos, faça um exercício e responda: o que é ser índio? O que você 
sabe e aprendeu sobre a população indígena no seu país? Na sequência, veja o que 
alguns brasileiros responderam essas perguntas no primeiro capítulo da sério Índios no 
Brasil: https://bit.ly/3kkPctn. Acesso em: 27 set. 2020.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
10 
 
 
 
Não havia, nesse sentido, espaço para uma quarta parte do mundo. Por 
conta disso, em um primeiro momento, quando os navegadores europeus 
desembarcaram nessas longínquas terras acreditaram que haviam chegado nas 
Índias, região que buscavam alcançar para comercializar. Conforme salienta 
Edmundo O’Gorman em seu livro A Invenção da América, Cristovão Colombo 
acreditou que havia chegada ao extremo oriente do mundo e todas observações 
que fazia eram provas empíricas de sua hipótese, respaldada, vale destacar, pela 
dimensão que a Ilha da Terra (como era chamado a parcela de terra habitada) 
possuía no imaginário de então. Somente com Américo Vespúcio que aquelas 
terras passaram a ser consideradas uma entidade geográfica desconhecida, um 
“Novo Mundo”. 
 
 
 
Apesar da posterior adequação da novidade, o termo genérico “índio” 
continuou a ser utilizado para denominar toda a diversidade populacional desse 
grande território que viria a ser chamado de América e é hoje adotado até por 
parte dos próprios nativos de maneira ressignificada. Contudo, não podemos 
desconsiderar a grande diversidade que eles possuem. Ou seja, apesar de usarmos 
um termo genérico para denominá-los não podemos unificar sua cultura, história, 
 
Apesar de ser muito comum falar-se em descobrimento 
da América, o historiador mexicano Edmundo 
O’Gorman, no livro citado de 1955, analisa que a 
América foi inventada e não descoberta. A América, 
nesse sentido, não existia antes da chegada do 
europeu, não possuía esse nome e nem os sentidos que 
ela representa. Ou seja, América não é algo natural, foi 
resultado da ação de agentes históricos. 
Para O’Gorman, ao se considerar que a América foi descoberta parte-se da noção 
de que a mesma já existia antes da chegada de Cristóvão Colombo e como já 
analisado anteriormente, nem mesmo Colombo considerou de imediato ter chegado 
na dita América. Considerar aquele território como uma nova parte do mundo, um 
novo continente chamado América foi um processo histórico. Disponível em: 
https://bit.ly/3eU2fB4. Acesso em: 27 set. 2020. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
11 
 
 
 
organização e língua. 
 
1.3 A CHEGADA DOS EUROPEUS 
Ao chegarem ao território que viria ser o Brasil, os europeus logo perceberam 
que grande parte do litoral se encontrava ocupada por sociedades nativas, que 
compartilhavam, conforme ressalta Monteiro (1994), certas características básicas 
comuns à cultura tupi-guarani. No entanto, ainda assim, mantinham suas 
diversidades. Para enfrentar este problema, os europeus do século XVI resumiram o 
vasto panorama cultural em duas categorias genéricas: Tupi e Tapuia. Os Tupis 
seriam as sociedades litorâneas em contato direto com os europeus desde o 
Maranhão até Santa Catarina, incluindo os Guaranis. Já os Tapuias eram os grupos 
menos conhecidos dos europeus.nesse sentido, visa validar a 
teoria de Freyre. 
d) A teoria da democracia racial, derivada da obra de Freyre, mascara em grande 
medida a violência praticada por brancos contra negros no Brasil, sustentando 
de certo modo parte das críticas atribuídas à adoção de cotas raciais no país. 
e) A teoria da democracia racial de Freyre tem por princípio desvelar todas as 
formas de violência de brancos contra negros no Brasil, amparando 
teoricamente a adoção de cotas raciais como forma de compensação histórica. 
 
5. Temos, no Brasil, uma grande diversidade cultural e racial. Descendentes de 
povos africanos e de índios brasileiros, de imigrantes europeus, asiáticos e latino-
americanos compõem o cenário brasileiro. Por conta disso, podemos que afirmar 
que 
 
a) atualmente, o termo “pluralidade cultural” não se aplica ao Brasil por causa da 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
82 
 
 
 
Globalização. 
b) a mistura de todas estas raças e etnias não caracteriza a identidade do povo 
brasileiro. 
c) o Brasil é um país dotado de uma ampla “pluralidade cultural”, ou seja, diferentes 
culturas foram e são produzidas pelos grupos sociais que fazem parte da nossa 
história. 
d) a diversidade cultural e racial não interfere nas formas com que os habitantes do 
Brasil organizaram sua vida social e política. 
e) ações racistas e discriminatórias não existem na sociedade brasileira por causa 
da grande diversidade cultural e racial do país. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
83 
 
 
 
NEGRITUDE, AFRODESCENDÊNCIA E 
DIÁSPORA AFRICANA 
 
 
 
6.1 INTRODUÇÃO 
Na unidade anterior tratamos da herança histórica da escravidão da 
perspectiva do pensamento social brasileiro. Nesta, por sua vez, trataremos da 
experiência da descendência africana no Brasil do ponto de vista de uma 
sociologia das relações étnico-raciais. Nosso ponto de partida será uma brevíssima 
discussão do significado dos conceitos de raça e etnia no nosso mundo 
contemporâneo, de onde enveredaremos especificamente pelo debate acerca 
dos sentidos potenciais da negritude e da africanidade no contexto brasileiro, norte 
e sul-americano. 
No tocante à ideia de “raça”, uma boa introdução pode ser encontrada 
logo no início do livro Racismo Estrutural, de Silvio Almeida. Ali, o autor nos informa 
que raça é um conceito historicamente utilizado, sobretudo desde a época da 
expansão ultramarina europeia no século XVI, para distinguir e classificar grupos 
humanos conforme as suas características físicas, os seus costumes e o seu modo de 
vida adaptado a uma determinada região (AMEIDA, 2019). Desde antes de sua 
incorporação pela biologia, a ideia de raça tem essa tripla dimensão: corporal, 
cultural e geográfica. 
As teorias do racismo científico do século XIX e da primeira metade do século 
XX buscaram dar sustentação biológica à ideia de raça, como se o modo de ser 
dos indivíduos fosse determinado por uma rígida correlação de características 
físicas e morais repartidas conforme uma hierarquia profundamente etnocêntrica, 
neste caso, eurocêntrica (ver nesse sentido o final da última unidade). Perceba que, 
dito isto, já avançamos, quase sem querer, sobre a ideia de “etnia”, de modo que 
convém defini-la. Afinal, o que é uma “etnia”? Raça e etnia são sinônimos? 
No contexto científico atual, em que as teorias do racismo científico foram 
invalidas, o termo etnia é usado de modo análogo, porém diferente. Sai o critério 
físico e ambiental, ganhando prevalência os critérios culturais e geográficos. Assim, 
UNIDADE 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
84 
 
 
 
o que define uma etnia não são características físicas comuns, mas o 
compartilhamento de uma mesma origem cultural e histórica, isto é, uma mesma 
genealogia ou ancestralidade. Raça, contudo, permanece um conceito 
largamente utilizado na linguagem coloquial, sobretudo em sentido social e político. 
 
 
 
6.2 DIMENSÕES DA NEGRITUDE 
 “O caso do Brasil demonstra com muita ênfase que a identidade étnica é 
um constructo social de caráter contingente e que difere de um contexto para 
outro”, já observou Sansone (2004, p. 12), professor da Universidade Federal da 
Bahia e importante pesquisador do campo da sociologia das relações étnico-raciais 
no país. Com isso quis dizer que a etnicidade não está inscrita na natureza dos 
povos, e que são fatores sociais e históricos que levam à sua configuração, mais ou 
menos acentuada, em cada país. A pele negra por si só não produz o 
pertencimento étnico. 
Os conceitos que utilizamos para expressar 
nossas ideias tendem a ser polissêmicos, 
razão pela qual encontramos sobreposi-
ções no uso dos conceitos de raça, etnia e 
nacionalidade em diversas formas de dis-
curso, nas mais variadas circunstâncias. No 
diagrama ao lado, onde você incluiria as 
seguintes afirmações? 
 
- A anemia falciforme atinge principalmente a raça negra; 
- Dicas de beleza para o cabelo/penteado afro/étnico; 
- Ticura, Guarani e Caingangue são etnias diferentes; 
- Churchill acreditava na superioridade da raça britânica; 
- O racismo na Turquia levou a um etnocídio dos curdos; 
- Bolívia, oficialmente, Estado Plurinacional da Bolívia; 
- Nascidos no território nacional são cidadãos brasileiros. 
Que outros exemplos você incluiria neste diagrama? 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
85 
 
 
 
Ao tratar dos usos e sentidos da negritude em texto clássico sobre o assunto, 
outro importante pesquisador do tema, o antropólogo congolês radicado no Brasil, 
Kabengele Munanga, observa que, entre a população negra sem relação com os 
cultos religiosos de matriz africana, a ancestralidade fica em segundo plano diante 
da resistência à exploração econômica e à discriminação racial. Por isso, “[n]a 
militância negra há uma tomada de consciência aguda da perda da história e, 
consequentemente, a busca simbólica de uma África idealizada.” (MUNANGA, 
2009, p. 133). 
Assim, esquematicamente, podemos dizer que o espectro das identidades 
negras no mundo contemporâneo, e a própria experiência da negritude, se 
constitui entre o passado e o presente, entre o centro e a periferia: entre o passado 
da diáspora africana e o presente das experiências de vida das populações negras, 
sobretudo na periferia dos grandes centros urbanos; entre um modo de ser mais 
integrado ou mais marginalizado em relação aos padrões culturais dominantes – 
padrões de beleza, de gosto, etc. –, cuja matriz remonta ao colonialismo europeu. 
 
 
 
6.3 NEGRITUDE E AFRODESCENDÊNCIA 
Infelizmente, há quem pense que afrodescendente é apenas o sinônimo 
“politicamente correto” de negro ou de preto. Mas quem concebe o adjetivo dessa 
forma, reducionista, confunde raça e etnia. Como vimos acima, as expressões da 
negritude são diversas, e não é toda a população negra no Brasil que se define ou 
se reconhece enquanto afrodescendente. A afrodescendência é o sentimento de 
pertencimento étnico de parte da população negra brasileira, que percebe, no 
Moda como índice de expressões da negritude: ao centro, 
homem com camisa e adereços étnicos; à esquerda, jo-
vem negra com calça jeans e blusa; à direita, jovem negro 
usando boné e camisa larga. 
Fonte: COLETIVO FORA DO EIXO. IX Marcha da Consciência 
Negra: Cotas Sim, Genocídio Não, no Dia da Consciência 
Negra. São Paulo (SP), 20/11/12. Disponível em: 
https://bit.ly/3f0IcRE. Acesso em 26 out. 2020 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
86 
 
 
 
resgate e valorização das culturas de matriz africana, uma expressão autêntica da 
sua negritude. 
 
6.4 O CULTO ÀS RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA 
Para algumas pessoas e grupos, a afrodescendência se expressa no culto às 
religiões de matriz africana, que tem talvez o seu exemplo mais notório no 
candomblé da Bahia, característico sobretudo da região do recôncavo baiano. O 
candomblé é uma religião afro-brasileira organizada em torno do culto a uma 
divindade superior e a uma série de entidades – compreendidascomo a 
personificação de forças da natureza ou como espíritos de ancestrais ilustres – 
chamadas de orixás, voduns ou inquices, dependendo da “nação” – termo de 
significado específico no candomblé. 
 
[O candomblé] refere-se ao sistema social e sagrado dos [grupos 
étnicos] iorubás/nagôs. Esse sistema nasce das histórias dos orixás que 
representam os elementos da natureza e importantes personagens 
relacionados ao poder hierarquizado em [antigos] reinos e Cidades-
Estados [do continente Africano]. Exemplo é o reino de Oió, cujo 
alafim [rei] mais notável foi Xangô, ou, ainda, o reino de lfé com o 
reinado de Oxalá, e entre outros. Assim, os orixás, são amplamente 
popularizados e relacionados a processos de memória, identidade e 
principalmente de resistência afrodescendente. […] Além dos deuses 
que dominam os elementos da natureza, o tema ancestralidade é 
fundamental aos sistemas sociais, hierárquicos e religiosos dos 
africanos e de suas relações no Brasil. Assim, já nacional, o caboclo é 
a síntese do ancestral dono da terra, terra brasileira (LODY, 2008, p. 
XII). 
 
Cada “nação” no candomblé representa a herança de um dialeto, de uma 
liturgia e de um determinado modo de percutir os atabaques, legado por um dos 
grupos étnicos originais a que pertenciam as populações de escravos trazidos à 
força para o Brasil durante o período colonial. Os rituais são praticados em lugares 
sagrados chamados de “casas” e “terreiros”, com realização de oferendas aos 
orixás, na forma de danças, comidas e bebidas. As performances variam de terreiro 
para terreiro, de nação para nação, e de babalorixá (pai ou mãe de santo) para 
babalorixá. 
 
Quando, na segunda metade do século XIX, com o fim do tráfico e o 
decréscimo progressivo de africanos no Brasil, as denominações 
étnicas dos grupos africanos deixaram de ser operacionais para a 
classe senhorial, elas persistiram entre os africanos e seus 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
87 
 
 
 
descendentes crioulos no âmbito de suas redes de solidariedade 
familiar e, sobretudo, de práticas religiosas. A identidade étnica foi 
sendo acomodada àquele território de sociabilidade que era 
controlado exclusivamente pela população negro-mestiça, em que 
ainda era possível estabelecer relações de contraste internas. 
Vivaldo da Costa Lima, no seu já clássico artigo “O conceito de 
nação nos candomblés da Bahia”, foi o primeiro autor a chamar a 
atenção sobre como, aos poucos, o termo "nação" foi perdendo [no 
candomblé a] sua conotação política para se transformar num 
conceito quase exclusivamente teológico. Nação passou a ser, 
desse modo, o padrão ideológico e ritual dos terreiros de candomblé 
da Bahia". Em outras palavras, nação passou a designar uma 
"modalidade de rito", ou uma "forma organizacional definida em 
bases religiosas (PARÉS, 2018, p. 102). 
 
Contudo, o caminho para a expressão da afrodescendência no Brasil está 
repleto de preconceitos de longa data, que revelam o racismo estrutural no nosso 
país. Se há um preconceito contra os evangélicos no Brasil, às vezes chamado de 
“cristofobia”, este não representa um obstáculo expressivo à manifestação da fé 
evangélica em seus locais de culto e à manutenção de suas instituições. O mesmo 
não pode ser dito do candomblé, prática historicamente referida de modo 
pejorativo como “macumba”, junto com a umbanda, ambas perseguidas durante 
a República Velha. 
 
Figura 8: Detalhe da crônica sobre um ritual de umbanda publicada no Diário da Tarde em 
1929 
 
Fonte: Pires (2019, online) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
88 
 
 
 
 
 
Convém não deixar de lado o fato de que a umbanda e o candomblé são 
religiões afro-brasileiras distintas. Enquanto o candomblé surge na Bahia no século 
XIX como forma de manutenção da cultura dos escravos no período pós-abolição, 
a umbanda surge nas primeiras décadas do século XX, como fusão de elementos 
de candomblé, catolicismo, espiritismo kardecista e referências indígenas, voltada à 
criação de uma autêntica religião brasileira e mestiça. Como observa o 
pesquisador Prandi (2004), a busca de aceitação pública moldou o 
desenvolvimento dessas religiões: 
 
Em resumo, ao longo do processo de mudanças mais geral que 
orientou a constituição das religiões dos deuses africanos no Brasil, o 
culto aos orixás primeiro misturou-se ao culto dos santos católicos 
para ser brasileiro, forjando-se o sincretismo; depois apagou 
elementos negros para ser universal e se inserir na sociedade geral, 
gestando-se a umbanda; finalmente, retomou origens negras para 
transformar também o candomblé em religião para todos, iniciando 
um processo de africanização e dessincretização para alcançar sua 
autonomia em relação ao catolicismo. Nos tempos atuais, as 
mudanças pelas quais passam essas religiões são devidas, entre 
outros motivos, à necessidade da religião se expandir e se enfrentar 
de modo competitivo com as demais religiões. A maior parte dos 
atuais seguidores das religiões afro-brasileiras nasceu católica e 
adotou a religião que professa hoje em idade adulta. Não é 
diferente para evangélicos e membros de outros credos (PRANDI, 
2004, p. 224). 
 Saiba sobre o histórico da perseguição social e jurídica às religiões afro-brasileiras, leia 
o artigo de João Ferreira Dias, “Chuta que é Macumba’: o percurso histórico-legal da 
perseguição às religiões afro-brasileiras”. Disponível em: https://bit.ly/3lsY1my. Acesso 
em 26 out. 2020.; 
 Veja também o dossiê elaborado pela Época para a sessão Infográfico do site da 
revista em 2019 sobre a perseguição aos terreiros de candomblé no Rio de Janeiro 
desde o fim do século XIX: “Sagrado Perseguido”, por Juliana Dal Piva, Nicollas Witzel, 
Cíntia Cruz e Bárbara Libório. Disponível em: https://bit.ly/3f0MF6S. Acesso em 26 out. 
2020. 
 Além disso, é bom conhecer os dados da intolerância religiosa no Brasil. Para tanto, 
leia esta reportagem produzida pela BBC News Brasil em 2016 (Disponível em: 
https://bbc.in/2UrwohO. Acesso em 26 out. 2020.) e outra, pela Folha de São Paulo em 
2020 (Disponível em: https://bit.ly/3ktrbk5. Acesso em 26 out. 2020). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
89 
 
 
 
A expressão da afrodescendência no culto às religiões de matriz africana 
não escapa, pois, à dinâmica observada de início acerca das dimensões da 
negritude. 
 
6.5 OS REMANESCENTES DAS COMUNIDADES DOS QUILOMBOS 
A expressão da afrodescendência para uma parte da população negra das 
regiões rurais do país se dá a partir do reconhecimento de uma identidade 
quilombola. Mas para compreender isso, é importante distinguir o sentido original do 
sentido contemporâneo do termo “quilombo”. Durante os períodos colonial e 
imperial, “quilombo” era o termo usado para se referir a uma comunidade negra 
constituída por escravos fugitivos. Após a abolição, e com destaque a partir da 
Constituição de 1988, “quilombo” significa a comunidade negra rural constituída 
enquanto grupo étnico. 
Os remanescentes deste ou daquele quilombo são considerados grupos 
étnicos no Brasil de forma análoga às tribos indígenas, à diferença de que, o que os 
caracteriza é menos o compartilhamento de uma língua e de um tipo de 
sociedade diferente da sociedade brasileira, do que a manutenção de uma cultura 
e de um estilo de vida herdado de uma população de ex-escravos, não 
necessariamente de escravos fugidos. Exemplo disso é a preservação de dialetos 
crioulos, práticas religiosas mais ou menos sincréticas, e danças como o jongo. 
É nesse sentido que o dispositivo constitucional garante a essas comunidades 
tradicionalmente constituídas o direito de posse sobre o território que historicamente 
ocupam, como comenta O’Dwyer (2002, p. 16): 
 
A observação dos processos de construção dos limites étnicos e sua 
persistência no caso das comunidades negras rurais — também 
chamadas terras de preto, com a vantagem de ser uma expressão 
nativa, e não uma denominação importada historicamente e 
reutilizada — permite considerarque a afiliação étnica é tanto uma 
questão de origem comum quanto de orientação das ações 
coletivas no sentido de destinos compartilhados. 
 
6.6 NEGRITUDE E DIÁSPORA 
A matriz cultural africana não diz respeito somente à herança dos grupos 
étnicos africanos que foram trazidos para o Brasil e para as Américas durante o 
período colonial. Diz respeito ainda ao repertório cultural produzido pelas 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
90 
 
 
 
populações negras espalhadas pelo mundo em função dos séculos de tráfico 
negreiro no oceano Atlântico. Perceba que as experiências dessas populações 
negras constituem um patrimônio cultural que não tem origem na África, mas nesse 
contexto de imigração forçada, que se convencionou chamar de “a diáspora 
africana”. 
Na música, esse patrimônio é formado pelos ritmos do jazz, do blues, do soul, 
do rap, do hip-hop; do choro, do samba, do pagode, do maracatu, do axé; do 
reggae, etc. – para citar apenas os da América. A este propósito, Sansone (2004, p. 
26) observa que o interesse dos jovens negros da América Latina pela África “é, 
muitas vezes, menos manifesto do que sua curiosidade sobre outras culturas negras, 
especificamente as dos Estados Unidos e, às vezes, da Jamaica. Muitos deles vêm 
lutando para redefinir um modo de serem negros que rime com a modernidade.” 
 
 
 
No Brasil, antes mesmo da abolição da escravidão, a busca de uma 
identidade negra levou à criação de diversas entidades e associações de 
promoção dos interesses dessas populações. Durante o Império, destacam-se a 
criação de sociedades abolicionistas pelos libertos a fim de obter recursos para a 
compra de alforrias. Após a abolição, a partir da década de 1910, surgem clubes 
sociais e recreativos voltados para negros em todo o Brasil, nos quais se realizavam 
festas, bailes e atividades esportivas, sem rígidos contornos étnicos. 
Observe que o candomblé, a umbanda e a identidade étnica quilombola também são 
expressões da negritude na diáspora, dado que nenhuma dessas manifestações culturais 
teve origem na África. Todavia são manifestações que, para dizer como Sansone (2004), 
“rimam” com a ancestralidade. Essa metáfora da rima é muito interessante, porque nos 
permite tratar a questão de uma forma não excludente. Veja por exemplo como um 
artista como Leandro Roque de Oliveria, o Emicida, rima ancestralidade e modernidade 
em canções como “Mandume” e “Mufete”, do Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e 
Lições de Casa, seu disco de 2015. Disponível em: https://bit.ly/3eVsHdw. Acesso em 26 
out. 2020.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
91 
 
 
 
 
 
Assim é possível observar, no contexto do pós-abolição, o surgimento de dois 
tipos de associações ou entidades civis criadas pela população negra para a 
população negra: os clubes recreativos e os movimentos culturais. Como analisa 
Lélia Gonzalez, antropóloga e fundadora do Movimento Negro Unificado (MNU), 
“esses dois tipos de entidades negras remetem-nos para dois tipos de escolha: o 
assimilacionismo e a prática cultural” (GONZALEZ, 1982, p. 22). O ponto de vista da 
autora enfatiza, no caso, as de segundo tipo, com destaque para algumas delas. 
A trajetória das entidades com perfil de prática cultural é tradicionalmente 
percebida enquanto uma sequência ininterrupta, que parte da atuação da Frente 
Negra Brasileira (1931-1938), passando pela da companhia teatral “Teatro 
Experimental do Negro” ou TEN (1941-1961), a poesia publicada na revista Cadernos 
Negros no final da década de 1970, e chegando, nesse mesmo período, à 
fundação do MNU – principal grupo de pressão por adoção de políticas públicas 
de reparação histórica e de ação afirmativa pelo Estado brasileiro. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 Conheça a história das escolas de samba, com essa matéria de Akemi Nitahara para 
a Agência Brasil. Disponível em: https://bit.ly/3lybM3d. Acesso em 26 out. 2020. 
Saiba mais sobre os clubes negros de Santa Catarina com essa matéria de Ana 
Cláudia Araújo. Disponível em: https://bit.ly/36yg9F5. Acesso em 26 out. 2020.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
92 
 
 
 
FIXANDO O CONTEÚDO 
1. (CS-UFG ADAPTADO) A resistência à discriminação racial tem inúmeras expres-
sões intelectuais e populares, seja nos Estados Unidos, nas Antilhas, na Europa ou 
na África, sendo identificadas, desde o início do século XX, com a noção de ne-
gritude, que diz respeito à 
 
a) negação de acontecimentos históricos associados à escravidão e à ocupação 
imperialista. 
b) valorização das características culturais e físicas negras no contexto da ances-
tralidade e da diáspora africana. 
c) unificação dos dialetos do continente africano para estabelecer a unidade polí-
tica. 
d) liderança africana dos movimentos pelos direitos civis em curso nos outros conti-
nentes. 
e) ocidentalização da cultura africana como forma de combate ao colonizador 
 
2. (IF-SC ADAPTADO) A respeito dos estudos contemporâneos sobre a diáspora afri-
cana, avalie as afirmações: 
 
I. ressaltam eventos socioculturais e políticos como a luta em prol dos direitos ci-
vis dos descendentes africanos norte-americanos e os movimentos anticoloni-
ais na África. 
II. representam uma inovação historiográfica, ao privilegiar uma visão da história 
da África que ultrapassa a simples visão moderna do escravismo ou do imperi-
alismo da era contemporânea. 
III. revelam aspectos amplos e complexos a respeito da história dos grupos étni-
cos africanos originais e a estrutura de suas relações sociais no continente afri-
cano. 
IV. atribuem a importância do foco na diáspora como uma forma de suscitar o in-
teresse por uma historiografia transnacional que seja capaz de conectar o 
passado e o presente das populações negras. 
V. buscam compreender a África na conjuntura transnacional, através de um 
olhar propriamente afro-centrado, afastando-se da concepção epistemológi-
 
 
 
 
 
 
 
 
 
93 
 
 
 
ca tradicional e etnocêntrica. 
 
Estão corretas 
a) I, II e III, 
b) I, II, IV e V. 
c) II, IV e V. 
d) I e IV. 
e) II, III e IV. 
 
3. (PUC-SP ADAPTADO) “No primeiro quartel do século XX, o intercâmbio entre afri-
canos e negros da diáspora ocorreu de diversas formas. De um lado, por meio do 
retorno de afrodescendentes, principalmente da América do Norte, para a Libé-
ria, mas também das Antilhas e Brasil para diversas regiões da África. De outro, 
através da saída de jovens pertencentes à elite africana para ingressar nas uni-
versidades dos Estados Unidos e da Europa.” 
 
Regina Claro. Olhar a África. Fontes visuais para a sala de aula. São Paulo: Hedra, 2012, p. 151. 
 
O impacto do fenômeno apresentado no texto (“o intercâmbio entre africanos e 
negros da diáspora”) manifestou-se, entre outros fatores, no 
 
a) fim do preconceito racial nos Estados Unidos e na Europa ocidental, com a de-
corrente ampliação, em diversos países, dos direitos civis das populações afro-
descendentes. 
b) surgimento do Pan-africanismo e do movimento da Negritude, que rejeitavam as 
doutrinas sobre a inferioridade dos negros e defendiam o reconhecimento da 
cultura africana. 
c) esforço, pelos governos da maioria dos países africanos, de revalorização das 
religiosidades locais e de combate à influência cultural europeia e norte-
americana. 
d) reconhecimento e na afirmação, pela Organização das Nações Unidas, da 
igualdade étnica e do direito de todos os povos de viverem de forma livre e au-
tônoma. 
e) aumento da desigualdade racial em países de largo passado escravista, que por 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
94 
 
 
 
último suprimiram o regime social baseado na mão de obra escrava de origem 
africana. 
 
4. (CESPE - 2018 - IPHAN ADAPTADO) A partir dos anos 70 do século passado, a 
questão quilombola foi recolocada no contexto nacional com a “descoberta 
das comunidades quilombolas”, devido, em grande parte, ao movimento negro 
contemporâneo e ao exercício intelectual de autores como Abdiasdo Nasci-
mento, Clóvis Moura, Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez, Joel Rufino e Kabengele 
Munanga, entre outros. Ao lado disso, é importante mencionar a mobilização po-
lítica que culminou na publicação do artigo 68 das Disposições Constitucionais 
Transitórias (Constituição Federal de 1988), que dá aos quilombolas o direito à ti-
tulação das terras por eles ocupadas. 
 
Joseane Maia Silva Santos. Comunidades quilombolas, suas lutas, sonhos e utopias. Disponível em: 
 (com adaptações). 
 
Considerando o tema do texto antecedente e os vários aspectos antropológicos 
a ele relacionados, julgue as alternativas que se seguem, e assinale a CORRETA. 
 
a) Os quilombos, descobertos somente no século XX, permaneceram secretos du-
rante todo o período colonial. 
b) O direito à posse da terra ocupada tradicionalmente pelas comunidades qui-
lombolas é facultado somente àquelas que demonstram a descendência direta 
de quilombos militares do período colonial. 
c) O reconhecimento do direito das comunidades quilombolas à terra foi uma inici-
ativa descolada do movimento negro que se constituiu nos centros urbanos co-
mo São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. 
d) A luta do movimento negro nos anos 70 era sobretudo a favor de um ideal de 
democracia racial e da defesa de um Brasil mestiço. 
e) O entendimento das comunidades negras rurais que guardavam costumes do 
tempo da escravidão enquanto “quilombolas” foi uma conquista do Movimento 
Negro. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
95 
 
 
 
RESPOSTAS DO FIXANDO O CONTEÚDO 
 
UNIDADE 01 
 
 
 
UNIDADE 02 
 
QUESTÃO 1 A QUESTÃO 1 D 
QUESTÃO 2 A QUESTÃO 2 C 
QUESTÃO 3 B QUESTÃO 3 A 
QUESTÃO 4 B QUESTÃO 4 B 
QUESTÃO 5 E QUESTÃO 5 B 
 
UNIDADE 03 
 
 
 
 
UNIDADE 04 
 
QUESTÃO 1 A QUESTÃO 1 A 
QUESTÃO 2 C QUESTÃO 2 E 
QUESTÃO 3 C QUESTÃO 3 E 
QUESTÃO 4 E QUESTÃO 4 E 
QUESTÃO 5 A QUESTÃO 5 C 
 
UNIDADE 05 
 
 
 
UNIDADE 06 
 
QUESTÃO 1 E QUESTÃO 1 B 
QUESTÃO 2 B QUESTÃO 2 B 
QUESTÃO 3 A QUESTÃO 3 B 
QUESTÃO 4 D QUESTÃO 4 E 
QUESTÃO 5 C QUESTÃO 5 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
96 
 
 
 
REFERÊNCIAS 
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Plurais). 
BARROS, J. D. Escravidão Clássica e Escravidão Moderna. Desigualdade e 
Diferença no Pensamento Escravista: uma comparação entre os antigos e os 
modernos. Ágora. Estudos Clássicos em Debate, Aveiro, v. 15, p. 195-230, 2013. 
Disponível em: https://bit.ly/2QkYJUX. Acesso em: 31 jun. 2020. 
BETHELL, L. A abolição do tráfico de escravos no Brasil: A Grã-Bretanha, o 
Brasil e a questão do tráfico de escravos, 1807-1869. Tradução de Luís A. P. 
Souto Maior. Brasília: Senado Federal, 2002. 478 p. 
CAMINHA, P. V. D. A carta de Pero Vaz de Caminha. Fundação Biblioteca 
Nacional, 1500. Disponível em: https://bit.ly/2OIQxgi. Acesso em: 12 out. 2019. 
CAVALCANTE, T. L. V. "Terra indígena": aspectos históricos da construção e 
aplicação de um conceito jurídico. História, , Franca, v. 35, n. 75, jul. 2016. 
Disponível em: https://bit.ly/2YH2qZE. Acesso em: 23 jun. 2020. 
CONRAD, R. Tumbeiros – o tráfico de escravos para o Brasil. São Paulo: 
Brasiliense , 1985. 224 p. 
CUNHA, M. C. D. Índios no Brasil: história, direitos e cidadania. 1. ed. São 
Paulo: Claro Enigma, 2012. 
DE BRY, T. Os Filhos de Pindorama. Wikimedia Commons, [1596] 2015. 
Disponível em: https://bit.ly/34ws4E4. Acesso em: 30 jun. 2020. 
DEBRET, J. B. Mercado da rua Valongo. 1835. Pintura, aquarela, 17,5 x 26,2 cm. 
Public Library, New York. 
FERNANDES, F. O Brasil de Florestan. (Organização de Antônio David). Belo 
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Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: https://bit.ly/3aTvaDa. 
Acesso em: 30 jun. 2020.Além dessas denominações, também havia 
outras comumente encontradas nas primeiras descrições acerca da terra e seus 
habitantes como: “gentios” (pagãos), “brasis”, “negros da terra” e “índios”. 
Com a intensificação da exploração, os portugueses buscaram impor 
diversas formas de organização do trabalho. Os nativos foram primeiramente 
utilizados para a extração do pau-brasil (madeira corante valorizada na Europa). Os 
nativos cortavam e transportavam a mercadoria até a feitoria, onde era trocada 
por artigos diversos a partir dos escambos. A mão de obra indígena também foi 
utilizada na extração das drogas do sertão (especiarias comercializadas com 
preços muitos elevados). 
 
Figura 2: Representação dos índios extraindo pau Brasil 
 
Fonte: Thévet (1575) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
12 
 
 
 
Com a introdução da cultura da cana-de-açúcar, os colonos passaram a 
utilizar a mão de obra indígena escrava. Houve, na sequência, um declínio do 
escambo em função das exigências que passaram a inviabilizar o mercado. A 
escravidão indígena foi utilizada em larga escala tanto para a produção comercial 
quanto de subsistência. E como se adquiria essa mão-de-obra? A partir do resgate, 
aprisionados em decorrência de guerras intertribais, e também a partir das 
chamadas “guerras justas”, que buscavam aprisionar os indígenas considerados 
“inimigos”. Nesse processo, combatia-se, inclusive, os missionários jesuítas (padres 
pertencentes a ordem religiosa Companhia Jesus ligada à Igreja Católica) que 
eram contrários a escravização dos índios aldeados (ver o próximo item). Muitos 
indígenas foram forçadamente deslocados de outras regiões para o litoral, onde 
concentravam as fazendas produtoras do açúcar. 
 
 
Estas diversas formas de exploração acabaram gerando uma 
desorganização social, que somada às mortes em decorrência das epidemias, 
fomes e guerras (entre tribos e com os europeus) causaram um extermínio de boa 
parte da população indígena. Observe o gráfico da Funai (Fundação Nacional do 
Índio) acerca da densidade populacional indígena no Brasil desde 1500. Lembrem-
se que os dados dos séculos iniciais são baseados em descrições e podem variar, 
pois não há muita precisão no levantamento. 
 
 
 
 
 
 
 
No livro “Negros da Terra”, o historiador John Monteiro analisa que com os 
aprisionamentos em decorrência das bandeiras, as guerras e os descimentos, a captura 
de mão de obra obra escrava indígena viabilizou a agricultura em São Paulo. Assim, a 
inserção indígena na sociedade paulista foi de suma importância para a formação 
sociocultural de São Paulo. Disponível em: https://bit.ly/2GXNAZ6. Acesso em: 27 set. 
2020.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
13 
 
 
 
Figura 3: Dados demográficos da população indígena no Brasil (Dados da FUNAI) 
 
Fonte: Elaborado pelo Autor (2020) 
 
Ao observar a tabela e o gráfico (Figura 3) fica evidente a perda 
populacional dos povos indígenas entre 1500 e 1970. Vale ressaltar que somente em 
1991 que o IBGE os incluiu no censo demográfico brasileiro e por isso tivemos um 
aumento de 150% dessa população na década de 1990. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
14 
 
 
 
 
 
Contudo, devemos salientar que o processo acima descrito não pode ser 
resumido apenas pelo extermínio indígena. Muitas foram as resistências dessas 
sociedades frente aos avanços europeus. Diante da exploração de seu trabalho, 
muitos desertavam e fugiam para a floresta e passavam a adotar emboscadas 
para atacar governamentais e bandeiras. Outros chegaram a organizar e participar 
de importantes revoltas do século XIX como a Cabanagem e a Cabanada 
(OLIVEIRA; FREIRE, 2006). 
Também foi necessário aos europeus aliar-se à grupos indígenas como 
estratégia. No século XVI, os franceses e os portugueses em guerra aliaram-se aos 
Tamoios e Tupiniquins, respectivamente. Já no século XVII, os holandeses se aliaram 
a grupos “tapuias” contra os portugueses. Os grupos indígenas, por sua vez, tinham 
seus próprios interesses ao se aliarem aos europeus. Os grupos Canibos, por exemplo, 
se aliaram aos missionários espanhóis para contestar o monopólio piro (arawak) no 
comércio dos Andes. De uma forma ou de outra, os povos indígenas eram sujeitos 
 Para conhecer um pouco da história e realidade dos povos indígenas, com especial 
atenção para o papel da mulher, pela ótica nativa assista o episódio do 
documentário Vozes da Floresta realizado pelo Le Monde Diplomatique Brasil com 
Edna Shanenawa: Disponível em: https://bit.ly/3aVESoB. Acesso em: 27 set. 2020; 
 Assista ao vídeo da antropóloga brasileira Lilian Schwarcz sobre o extermínio indígena 
nos primeiros contatos. Disponível em: https://bit.ly/2CXcUMK. Acesso em: 27 set. 2020; 
 Assista ao vídeo da historiadora Maria Regina Celestino na Bienal do Livro de 2019 
sobre seu livro Os Índios na História do Brasil. Disponível em: https://bit.ly/2YywtTe. 
Acesso em: 27 set. 2020; 
 Leia mais no livro “Os Índios e o Brasil” de Mércio Pereira Gomes disponível na 
Biblioteca virtual em: https://bit.ly/2Qo00dN. Acesso em: 27 set. 2020; 
 O livro “Os índios antes do Brasil“ de Carlos Fausto fala sobre a organização indígena 
antes da chegada dos europeus disponível na Minha Biblioteca Virtual Única: 
https://bit.ly/2D39rfO. Acesso em: 27 set. 2020. 
 Para saber mais sobre as guerras e revoltas indígenas leia a Parte 2 do livro “A 
presença indígena na formação do Brasil” de João Pacheco de Oliveira e Carlos 
Augusto da Rocha Freire, disponível em: https://bit.ly/3jcvdwN. Acesso em: 27 set. 
2020. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
15 
 
 
 
ativos da história (CUNHA, 2012). 
 
 
 
No final do século XVI, o uso da mão-de-obra escravizada dos indígenas nos 
engenhos acabou declinando e passou a predominar a escravização dos africanos, 
que somente foi abolida no final do século XIX. Contudo, vale ressaltar que apesar 
de ter sido abolida a escravidão indígena, ainda é possível observar a sua 
existência na prática ao longo dos séculos seguintes até pelo menos 1850. 
 
1.4 “CIVILIZANDO” OS ÍNDIOS? 
A catequese dos índios na colônia portuguesa foi iniciada tão logo iniciou-se 
a exploração e colonização estratégica do território. Os primeiros responsáveis pela 
conversão indígena foram os jesuítas, que eram missionários vinculados à ordem 
católica conhecida como Companhia de Jesus fundada por Inácio de Loyola no 
contexto da Contrarreforma Católica. 
Os primeiros missionários jesuítas desembarcaram em Salvador, na Bahia, já 
em meados do século XVI acompanhando o primeiro governador-geral, Tomé de 
Sousa. A sua função seria a de converter os pagãos da terra à fé cristã. 
 
 
 
Os missionários jesuítas, nesse sentido, foram os primeiros a adotar, conforme 
analisa Fabricio Santos, a prática de aldear ou reunir os índios com o objetivo de 
No livro “As muralhas do Sertão”, a autora Nádia Farage analisa as intensas disputas 
territoriais envolvendo portugueses, espanhóis, ingleses e holandês em torno da região 
do Rio Branco. Na sua análise, Farage considera a importante participação dos 
indígenas como um agente histórico e social na contenda. 
Nos relatos de época, os europeus chamavam pagãos e gentios povos que geralmente 
possuíam tradições religiosas politeístas (acreditavam na existência de vários deuses e 
não apenas um – monoteísmo – como o Cristianismo. Os gregos antigos, romanos 
antigos, povos africanos, indígenas eram considerados pagãos pela perspectiva cristã. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
16 
 
 
 
torná-los cristãos. A instalação do aldeamento podia se dar pela construção da 
igreja e da residência do missionário em uma aldeia indígena já existente ou em um 
outro sítio. Nesses aldeamentos, a catequese era iniciada com o ensinamento 
rudimentar da fé e com a preparação para o batismo. Novos grupos indígenas 
eram constantemente deslocados (“descimento”) para essas povoações, visando 
concentrar a catequese naqueles espaços(SANTOS, 2012). 
Para os jesuítas, os nativos deveriam abandonar características fundamentais 
de sua cultura e adotar os preceitos e estilo de vida cristão. Os índios, por sua vez, 
estavam dispostos a manter seus costumes, apesar de aceitarem, aparentemente, 
com facilidade a nova religião. Essa aparente contradição observada pelos 
missionários, fez com que o aldeamento se tornasse uma solução para que 
pudessem controlar cotidianamente os nativos. Assim, esta inserção na vida social 
indígena possibilitou aos missionários criar uma rotina de ensino e catequese que 
transformavam lentamente o modo de vida daqueles nativos aldeados (SANTOS, 
2012). 
A conversão católica, dessa forma, operou no sentido de domesticar os 
considerados “selvagens” obtendo, além disso, trabalhadores para os 
empreendimentos missionários – o que gerou tensão com os interesses dos colonos e 
autoridades civis que também se interessavam por recrutar mão de obra indígena 
para suas atividades econômicas. O conflito de interesses ocasionados culminou 
com a expulsão dos jesuítas no século XVIII. No período, a política colonial buscava 
uma maior laicização (separação do Estado da Igreja) do Estado, incluindo o 
controle de todos os agentes em contato com as populações nativas. 
Nesse contexto, implantou-se uma política guiada pelo Diretório (um 
documento com 95 parágrafos com determinações sobre economia e 
administração dos aldeamentos), de 1757, que não só dispôs sobre a liberdade dos 
índios como também alterou a administração destes, reorganizando as aldeias 
após a expulsão dos missionários (OLIVEIRA; FREIRE, 2006). 
Os novos diretores de índios, conforme o decreto real, deveriam, de maneira 
geral, expandir a fé católica, extinguir o gentilismo, civilizar os índios, introduzir o 
comércio e aumentar a agricultura. A língua portuguesa tornou-se uma exigência 
para os povos indígenas, que deveriam se comunicar exclusivamente por ela. A 
“civilização” dos índios, por sua vez, ficava a cargo das escolas públicas, que os 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
17 
 
 
 
ensinava ofícios domésticos dentre outras competências. Buscava-se também 
combater a suposta “ociosidade” com o uso do trabalho dos indígenas para fins 
particulares. Os índios, dessa forma, passariam a ser governados por juízes e 
vereadores, e não mais pelos missionários. 
Vale ressaltar, por fim, que na prática o Diretório enfrentou muitas 
dificuldades como epidemias, mortes, fugas, desorganização social. Com o fim do 
Diretório em 1798, juízes de órfãos passaram a ser responsáveis pelos índios 
considerados “domésticos” e eles juntamente com o Estado velavam pelos bem 
índios, considerados incapazes (OLIVEIRA; FREIRE, 2006). 
Com a revogação do Diretório, criou-se um vazio administrativo acerca do 
governo povos indígenas que só foi preenchido em 1845, pelo “Regulamento 
acerca das Missões de catequese e civilização dos índios”. 
 
1.5 DOS ESTEREÓTIPOS 
Como já estudado, quando os europeus desembarcaram no Novo Mundo, 
desconheciam sua existência e a seus habitantes. O processo de exploração e 
colonização também passou pela avaliação dos costumes e culturas desses povos 
sob a ótica da própria cultura europeia. Nesse item, portanto, vamos estudar como 
as diferenças culturais foram adaptadas e divulgadas pelos colonizadores a partir 
de pinturas e relatos de viagens, contribuindo para se criar uma imagem do índio 
que justificava a presença europeia. 
 
1.5.1 Selvagens desordenados 
Para começar, os nativos foram considerados homens selvagens 
contrapostos ao ideal de civilidade ocidental por viveram, de acordo com os 
colonizadores, sem controle, sem o ordenamento do Estado e sem a salvação 
prometida pela Igreja. O cronista português, Pero Magalhães Gândavo, resume de 
forma canônica essa premissa: “A língua deste gentio toda pela Costa he huma: 
carece de três letras – scillet, não se acha nela f, nem l, nem r, cousa digna de 
espanto, por que assi não tem Fé, nem Lei, nem Rei; e desta maneira vivem sem 
justiça e desordenadamente” (GANDAVO, 1980, p. 52). 
Além disso, ao contrário dos europeus muito interessados em riquezas 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
18 
 
 
 
materiais, as sociedades indígenas não se importavam, de maneira geral, com 
coisas materiais como o ouro, por exemplo. 
 
 
 
A partir do pensamento do francês Michel de Montaigne, por sua vez, a 
suposta selvageria aproximou-se ao tema do primitivismo no qual o selvagem viveria 
em um estado de pureza, sem as marcas do pecado original (lembrando que o 
pensamento da época era muito moldado pelos ensinamentos bíblicos, como 
ressaltado anteriormente). Na Carta de Pero Vaz de Caminha (primeira escrita 
sobre o Brasil e encaminhada ao el-rei dom Manuel em 1500), ainda é possível ver 
referências ao primitivismo ao endossar a inocência dos nativos e a boa vontade 
com que aceitavam a conversão, uma vez que seriam desprovidos, aos olhos de 
Caminha, de qualquer crença. Os nativos seriam, assim, uma espécie de papel em 
branco: 
 
Parece-me gente de tal inoce ̂ncia que, se homem os entendesse e 
eles a nós, seriam logo cristãos, porque eles, segundo parece, não 
têm, nem entendem em nenhuma crenc ̧a. E portanto, se os 
degredados, que aqui hão de ficar aprenderem bem a sua fala e os 
entenderem, não duvido que eles, segundo a santa intenção de 
Vossa Alteza, se hão de fazer cristãos e crer em nossa santa fé, à qual 
praza a Nosso Senhor que os traga, porque, certo, esta gente é boa 
e de boa simplicidade. E imprimir-se-á ligeiramente neles qualquer 
cunho, que lhes quiserem dar. E pois Nosso Senhor, que lhes deu bons 
corpos e bons rostos, como a bons homens, por aqui nos trouxe, creio 
que não foi sem causa (CAMINHA, 1500, 11-12) 
 
1.5.2 Bárbaros canibais 
Bárbaro foi um termo utilizado na Grécia Antiga para denominar, de maneira 
O filósofo e etnólogo Pierre Clastres analisa a noção de sociedade e Estado em seu livro 
A sociedade contra o Estado para refutar a ideia de que a evolução das sociedades 
deve ser medida pela presença ou ausência da centralização do poder. Para ele, o 
poder coercitivo do Estado é somente apenas uma modalidade de poder dentre 
diversas outras. Ou seja, as sociedades ameríndias seriam, para Clastres, “essencialmente 
igualitárias” recusando qualquer força que impunha o enriquecimento de um pequeno 
grupo. A chefia indígena, nesse sentido, é esvaziada de poder coercitivo e considerada 
um importante mecanismo contra a concentração de poder. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
19 
 
 
 
geral, os povos estrangeiros destacando a superioridade grega. A partir de então, 
seu uso passou a ser mais diversificado e recorrente. Na Idade Média, bárbaro 
equivalia ao pagão como aquele que não havia convertido à fé cristã. 
A ideia do barbarismo, conforme demonstra Ronald Raminelli, atravessou o 
Oceano Atlântico e encontrou solo fértil nas narrativas de viagens acerca do 
continente americano. Bárbaros eram os índios de corpos nus, eram os “canibais” 
que devoravam a carne dos inimigos, os indivíduos que viviam em guerra 
(RAMINELLI, 1996). 
 
Figura 4: Canibais, século XVI 
 
Fonte: Theodor de Bry ([1596] 2015) 
 
O canibal também era uma figura que já permeava o imaginário europeu 
sem ter um ponto geográfico específico. Mas os Tupinambás, principais 
representantes desse canibalismo brasileiro, eram antropófagos e não canibais. 
Canibalismo apresenta-se a partir de uma noção bestial de indivíduos que 
consomem carne humana para saciar-se. 
É nesse sentido que o canibalismo se distancia da antropofagia, esta última 
mais praticada entre alguns grupos indígenas brasileiros como os Tupinambás à 
época da chegada dos europeus (não é mais uma prática ritual entre os povos 
atualmente). A antropofagia tinha um sentido mais social ritualístico. Ou seja, o ato 
de comer carne humana era realizado em cerimônias com diversos significados 
simbólicos a incluir vingança.20 
 
 
 
 
 
1.5.3 Luxuriosos e preguiçosos 
A sexualidade indígena também suscitou grande interesse. Por princípio 
cristão, os europeus defendiam a monogamia, ou seja, o casamento apenas entre 
um homem e uma mulher. Contudo, entre os povos indígenas, eram muito comum 
a poligamia e não possuíam, como os europeus, diversas regras matrimoniais e 
sexuais, o que fora visto como luxúria conforme ressalta o cronista português Gabriel 
Soares de Souza em 1597: 
 
São os Tupinambos, tão luxuriosos que não há pecado de luxúria que 
não cometam […] são muito afeiçoados ao pecado nefando, entre 
os quais se não têm por afronta; […] e nas suas aldeias pelo sertão há 
alguns que têm tenda pública a quantos os querem como mulheres 
públicas (SOUZA, 1971, p. 308). 
 
No caso das relações de trabalho, os povos indígenas foram associados à 
indolência e preguiça em função da recusa destas populações em serem 
escravizados. Outro detalhe importante é que a cultura indígena não valoriza a 
produção de excedentes para acúmulo, como as sociedades europeias. De uma 
maneira geral, a produção era/é para a subsistência para que sobrasse tempo 
para dedicar-se a outras atividades consideradas importantes como rituais, cuidado 
com o corpo, convívio com a família e o lazer. 
Assim sendo, a difusão desses, e diversos outros, estereótipos constituiu uma 
forma de absorver a diversidade cultural encontrada no Novo Mundo tendo sempre 
 Para saber mais, leia o artigo “Antropofagia ritual e identidade cultural entre os 
Tupinambás” de Adone Agnoli. Disponível em: https://bit.ly/34weCQH. Acesso em: 
27 set. 2020. 
 
Um dos poucos relatos da antropofagia indígena no 
Brasil é o do mercenário alemão Hans Staden, que foi 
aprisionado pelos Tupinambás e a partir dessa 
experiência escreveu um relato. Baseado na 
descrição de Stade, na década de 1970 foi lançado o 
filme “Como era gostoso o meu francês”. A 
iconografia do filme foi baseada nos trabalhos do 
gravurista Theodore de Bry. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
21 
 
 
 
como parâmetro a própria cultura europeia. Ou seja, não houve uma 
preocupação em compreender as culturas nativas pela sua própria organização. 
Os perfis traçados envolvendo guerra, canibalismo, nudez, hábitos alimentares 
distintos, habitação, suposta ausência de uma legislação e de poder centralizado 
compunham as representações dos índios como seres inferiores, legitimando, assim, 
a guerra justa, a necessidade urgente de conversão. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
22 
 
 
 
FIXANDO CONTEÚDO 
1. Professor de História / SEDUC-MT (adaptada) Leia atentamente o trecho a seguir: 
“Os grupos do Brasil central, desde os princípios da colonização, foram 
enquadrados na categoria genéricas de tapuias (os de língua travada, que não 
falam o tupi – Guarani). Entre eles os Jê – que englobam uma grande parte das 
etnias nos cerrados do Centro-Oeste brasileiro...”. 
Considerando o trecho acima e seus conhecimentos sobre as culturas indígenas 
no Brasil assinale a alternativa correta. 
 
a) Podemos perceber que o Indígena no Brasil era e é pouco reconhecido de 
maneira geral, considerando que foram e são tratados por termos genéricos 
como “tapuias", sem muita preocupação em conhecer e perceber as diferenças 
culturais que cada etnia possui, e reflete de forma política na vida desses grupos. 
b) O indígena no Brasil há muito foi incorporado na sociedade branca, além das 
terras que lhes foram dadas, muitos fazem uso de tecnologias e da cultura 
ocidental, como internet, celulares, contas bancarias. 
c) Não se pode dizer que no Brasil ainda há indígenas, pois se no início da 
colonização os portugueses foram responsáveis pelo assassinato em massa 
desses grupos, posteriormente o império pouco ajudou aqueles que ainda viviam. 
A consequência disso é a não presença indígena na sociedade brasileira atual. 
d) A situação do indígena no Brasil se resolveu logo após o fim do período colonial, 
pois os europeus se preocuparam logo em compreender a realidade local e as 
necessidades específicas desses povos. 
e) Os indígenas brasileiros só sofreram grandes perdas demográficas com a 
chegada dos europeus porque não gostavam de trabalhar e resistiram 
violentamente a qualquer tipo de trabalho. 
 
2. (Professor de História / IF-MT - adaptada) Por aqui lhe urdem os portugueses 
muitas brigas com que se desavêm umas nações com as outras, com o qual ardil 
os entramos e desbaratamos, que todos juntos ninguém pudera com eles [...] 
 
WEHLING, A.; WEHLING, M. J. Formação do Brasil Colonial. 2ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 
1999.) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
23 
 
 
 
O trecho do documento acima faz referência a uma estratégia largamente 
utilizada pelos portugueses na conquista da América, tanto para a incorporação 
de terras como para a escravização dos indígenas. Assinale a alternativa que 
apresenta essa estratégia. 
 
a) Estímulo às rivalidades existentes entre grupos indígenas. 
b) Massacre sistemática das populações nativas. 
c) Aldeamento dos índios pelos jesuítas. 
d) Aliança política com as elites indígenas. 
e) Aliança econômica com outras nações europeias. 
 
3. (INEP/História do Brasil) “Dali avistamos homens que andavam pela praia, obra de 
sete ou oito. Eram pardos, todos nus. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Não 
fazem o menor caso de encobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta 
inocência como em mostrar o rosto. Ambos traziam os beiços de baixo furados e 
metidos neles seus ossos brancos e verdadeiros. Os cabelos seus são corredios. 
 
CAMINHA, P. V. Carta. RIBEIRO, D. et al. Viagem pela história do Brasil: documentos. São Paulo: 
Companhia das Letras, 1997 (adaptado). 
 
O texto é parte da famosa Carta de Pero Vaz de Caminha, documento 
fundamental para a formação da identidade brasileira. Tratando da relação que, 
desde esse primeiro contato, se estabeleceu entre portugueses e indígenas, esse 
trecho da carta revela a 
 
a) preocupação em garantir a integridade do colonizador diante da resistência dos 
índios à ocupação da terra. 
b) postura etnocêntrica do europeu diante das características físicas e práticas 
culturais do indígena. 
c) orientação da política da Coroa Portuguesa quanto à utilização dos nativos 
como mão de obra para colonizar a nova terra. 
d) oposição de interesses entre portugueses e índios, que dificultava o trabalho 
catequético e exigia amplos recursos para a defesa da posse da nova terra. 
e) abundância da terra descoberta, o que possibilitou a sua incorporação aos 
interesses mercantis portugueses, por meio da exploração econômica dos índios. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
24 
 
 
 
4. (TJ-SC adaptada.) “ [...] Eles não lavram nem criam. Nem há aqui boi ou vaca, 
cabra, ovelha ou galinha, ou qualquer outro animal que esteja acostumado ao 
viver do homem. E não comem senão deste inhame, de que aqui há muito, e 
dessas sementes e frutos que a terra e as árvores de si deitam. E com isto andam 
tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto, com quanto trigo e 
legumes comemos.” 
 
O trecho acima, retirado da Carta que Pero Vaz de Caminha redigiu ao Rei D. 
Manuel, é um exemplo do deslumbramento do europeu diante do Novo Mundo 
e das pessoas que por aqui eles encontraram. Quanto às sociedades indígenas 
do Brasil, leia as alternativas abaixo e marque Verdadeiro e Falso. 
 
(X) A antropofagia entre os indígenas tinha caráter ritual. Para alguns grupos a 
alimentação de carne humana era parte dos cultos religiosos e das tradições 
tribais. 
(X) As grandes nações indígenas estavam distribuídas por, praticamente, toda a 
extensão do território brasileiro. Os Tupis estavam espalhados pelo litoral e foram 
os primeiros a ter contato com os brancos. 
(X) Atualmente, estudos comprovam que a origem dos primeiros habitantes do Brasil 
é proveniente, unicamente,da corrente migratória asiática. 
(X) Diferentemente das demais sociedades indígenas americanas, os povos que 
viviam no território brasileiro possuíam uma característica homogeneidade 
cultural e linguística. 
(X) A chegada dos europeus não causou grandes impactos nas sociedades nativas 
do território americano. 
 
A sequência correta é 
 
a) F, F, V, F, V. 
b) V, V, F, F, F. 
c) F, V, F, V, V. 
d) V, V, F, V, F. 
e) V, F, V, V, F. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
25 
 
 
 
5. (Enade) 
Documento I 
 E, segundo que a mim e a todos pareceu, esta gente não lhes falece outra coisa 
para ser toda cristã, senão entender-nos, porque assim tomavam aquilo que nos 
viam fazer, como nós mesmos, por onde nos pareceu a todos que nenhuma 
idolatria, nem adoração têm. E bem creio que, se Vossa Alteza aqui mandar 
quem entre eles mais devagar ande, que todos serão tornados ao desejo de 
Vossa Alteza. E por isso, se alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os 
batizar, porque já então terão mais conhecimento de nossa fé, pelos dois 
degredados, que aqui entre eles ficam, os quais, ambos, hoje também 
comungaram. 
Carta de Pero Vaz de Caminha. In: PEREIRA, Paulo Roberto (org). Os três únicos testemunhos do 
Descobrimento do Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Lacerda, 1999. p. 54;57. 
 
Documento II 
[...] nenhuma fé têm, nem adoram a algum deus; nenhuma lei guardam ou 
preceitos, nem têm rei que lha dê e a quem obedeçam, senão é um capitão, 
mais pera a guerra que pera a paz. 
SALVADOR, Frei Vicente do. História do Brasil (1500-1627). 6 ed. São Paulo: Edic ̧ões Melhoramentos, 
1975. 
 
A partir da análise desses documentos conclui-se que, no período compreendido 
entre a produção do primeiro e do segundo 
 
a) a administração portuguesa no Brasil orientou-se pelas observações dos autores 
dos documentos e optou pelo isolamento das populações indígenas por 
considerar que eram inúteis ao processo de colonização. 
b) a Coroa deixou integralmente a cargo da Igreja Católica a responsabilidade 
pela integração das populações indígenas ao modo de vida europeu, conforme 
as sugestões dos autores dos documentos. 
c) a predominância das ações de natureza religiosa, por meio da catequese junto 
às populações indígenas, preservou sua cultura e impediu que elas fossem 
escravizadas. 
d) o entendimento dos portugueses acerca das populações indígenas e de seus 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
26 
 
 
 
costumes favoreceu o seu processo de integração pela religião, finalizado no 
século XVII. 
e) os colonizadores empenharam-se em transplantar para o interior das 
comunidades indígenas as formas de organização da sociedade portuguesa, 
usando a religião e a presença de europeus entre eles. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
27 
 
 
 
POLÍTICA INDIGENISTA NO BRASIL 
INDEPENDENTE 
 
 
2.1 INTRODUÇÃO 
Os povos indígenas que aqui se encontravam anteriormente a chegada dos 
europeus e que lutaram para manter seu território e sua existência gozam, hoje, de 
privilégios aos olhos de grande parte da população brasileira e não de direitos. 
Direitos estes conquistados historicamente e à custa de muita luta e pouco 
reconhecimento. Neste capítulo, portanto, entenderemos melhor o caminho 
historicamente percorrido para a aquisição dos direitos pelos povos indígenas, 
respaldado, atualmente, pela Constituição Federal de 1988, carta maior do país. 
 
2.1.1 Primitivismo e romantismo 
Para começar, vamos dar continuidade a uma análise iniciada no capítulo 
anterior acerca de alguns estereótipos que se incorporaram à imagem do índio 
desde o período colonial. No século XIX, passaram a circular na Europa imagens dos 
povos indígenas criadas por viajantes (dentre as quais podemos citar Spix e Martius, 
Rugendas, Debret dentre outros) que integravam missões científicas na América. 
Essas missões científicas tinham como intuito observar, descrever e ilustrar as viagens 
de modo a registrar a natureza local do território. Esses relatos, por sua vez, 
contribuíram para divulgar informações acerca do continente para o público leigo 
e ainda serviu como fonte de pesquisa para muitos cientistas de então. A partir 
dessas observações, os índios acabaram sendo enquadrados em “estágios de 
desenvolvimento” correspondentes à ideia evolucionista que se impunha no século 
XIX. Nesse ínterim, as discussões acerca das raças e a classificação dos grupos em 
termos hierárquicos e evolutivos ganharam maiores contornos e consequências. 
Algumas sociedades, nesse discurso, acabaram sendo alocadas no início do 
processo evolutivo. Por não conceberem a ideia de Estado centralizado tal como a 
Europa (que se tinha como modelo ideal), elas foram concebidas como sociedade 
“primitivas”. 
 
UNIDADE 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
28 
 
 
 
 
 
Nessa vertente, alguns cientistas como Carl von Martius e Francisco Adolfo 
Varnhagen postularam a decadência dos povos da América. Varnhagen, ao se 
fundamentar em uma posição etnocêntrica, chegara a defender as guerras como 
forma de controlar os “vícios” indígenas, que, na sua concepção, seriam 
proveniente do nomadismo. Para ele, somente o sedentarismo poderia promover a 
civilização (OLIVEIRA; FREIRE, 2006). 
 
 
 
Na contramão dessa visão, contudo, outras também surgiram no período. 
Políticos como José Bonifácio de Andrada e Silva, por exemplo, entraram em defesa 
da humanidade dos povos nativos influenciando, inclusive, a legislação indigenista 
do Brasil Imperial. Apesar do índio, no seu cotidiano, ser discriminado pela 
população de maneira geral e pela legislação imperial, muitos dirigentes políticos 
apropriaram-se da imagem do “bom selvagem” difundida pela Romantismo 
europeu no século XVIII com filósofos iluministas como Jean-Jacques Rousseau. A 
ideia do “bom selvagem”, por sua vez, encontrará expressão máxima no 
“indianismo” literário brasileiro. 
Na literatura brasileira, romancistas como José de Alencar (1829-1877) e 
Gonçalves Ledo (1823-1864) irão construir obras baseadas no imaginário romântico 
sobre os índios, distanciado da realidade. A natureza será valorizada pela sua 
intocabilidade e o índio eleito o herói nacional, nativo brasileiro legítimo que lutou 
No século XIX, circularam teorias que buscavam classificar os seres humanos. O 
darwinismo social (uma releitura da teoria de Charles Darwin) considerava, por exemplo, 
que os seres humanos eram desiguais por natureza e, portanto, alguns seriam superiores 
e outros inferiores. Nesse mesmo contexto, o racismo científico se funda dividindo os seres 
humanos em raças superiores (arianos) e inferiores (judeus, negros, indígenas, etc.). Para 
compreender melhor acerca dessas (e outras) teorias sociais que contribuíram para a 
circulação do conceito de raça e classificação dos seres humanos em escala evolutiva, 
leia: https://bit.ly/3goWzhr. Acesso em: 02 out. 2020. 
Vídeo explicando o que é Etnocentrismo: Acesso em: 02 out. 2020.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
29 
 
 
 
heroicamente contra os colonizadores (OLIVEIRA; FREIRE, 2006). 
 
 
 
2.2 SOB A TUTELA DO ESTADO 
Tendo em vista todo esse repertório das teorias darwinistas que se criou 
acerca dos povos nativos, passou-se a instituir uma nova forma, política e social, de 
se lidar com os povos indígenas. O Código Civil de 1916, nesse sentido, vai instituir 
oficialmente o regime de tutela a partir do Estado (como estudado no capítulo 
anterior, a tutela ficava à cargo dos juízes de órfãos). No Código em questão fica 
expresso a intenção do Estado em promover a incorporação dos povos nativos à 
sociedade comum. A tutela, nesse sentido, se tornou um instrumento da missão 
civilizadora. Assim sendo, até que fossem civilizados e inseridos na sociedade, 
deveriam ser protegidos, conforme Oliveira (2001, p. 224): 
 
As terras ocupadas por indígenas, bem como o seu próprio ritmo de 
vida, as formas admitidas de sociabilidade, os mecanismos de 
representação política e as suas relac ̧ões com os não-índios passam 
a ser administradas por funcionários estatais; estabelece-se um 
regime tutelar do que resulta o reconhecimento pelos próprios 
sujeitos de uma ‘indianidade’ genérica, condic ̧ão que passam a 
partilhar com outros índios, igualmente objeto da mesma relac ̧ão 
tutelar. 
 
De acordo com o Código Civil, até que fossem totalmente incorporados à 
sociedade, os povos indígenas ficavam sob os desígnios do Serviço de Proteção ao 
Índio (SPI). O SPI, criado em 1910, surgira como a primeira agência leiga do Estado 
brasileiro destinada à gerenciar os povos indígenas. Interessante observar que 
apesar de anunciarem uma proposta mais laica, na prática se assemelhou muito à 
administração colonial gerida pelas missões jesuítas. Assim, apesar de propor a 
proteção da cultura indígena, agia na prática transferindo índios, liberando 
territórios para ocupação e reprimindo práticas tradicionais o que foi chamado pelo 
antropólogo João Pacheco Oliveira de “paradoxo da tutela” (1987). Tanto o 
Código quanto o SPI, por sua vez, partiam de uma noção genérica de índio e não 
Para compreender mais sobre a construção da imagem do índio na literatura, leia o 
artigo: https://bit.ly/2QqVeMO. Acesso em: 02 out. 2020. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
30 
 
 
 
davam conta da diversidade dos povos nativos brasileiros. Vale ressaltar que muito 
das técnicas de aproximação adotadas pela SPI e pelos órgãos seguintes 
basearam-se nas condutas da Comissão do Marechal Rondon (1865-1958) que, 
inclusive, foi o primeiro presidente do órgão. Sua prática indigenista originou-se de 
sua atuação na Comissão de Linhas Telegráficas (1907-1915), na qual pode 
experimentar diversas técnicas de aproximação com os povos indígenas. 
 
 
 
Na sequência, já no período do Estado Novo (1935-1945), foi criado o 
Conselho Nacional de Proteção Indígena (CNPI) ainda sob a gerência e fama do 
General Rondon, mas que contava a atuação de antropólogos importantes como 
Heloísa Alberto Torres e Darcy Ribeiro. A participação dos cientistas sociais buscava 
levar às ações do SPI premissas antropológicas da época. As discussões propostas 
traziam debates internacionais realizados pela Organização das Nações Unidas 
(ONU) que, em 1977, havia promulgado a Organização Internacional do Trabalho 
(OIT) dispondo sobre a proteção e integração das populações indígenas do mundo. 
Foi também no âmbito desse Conselho que foram gestados os planos para uma 
nova política indigenista que superasse os impasses do SPI. Essa política seria, então, 
uma tópica da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) a partir de 1968. 
Na década de 1960, escândalos de corrupção, ineficiência administrativa e 
acusações de genocídio acabaram levando o SPI e CNPI à extinção. Assim, para 
continuar o programa de tutela foi, então, criada a FUNAI, que assim como o órgão 
anterior, contava com recursos escassos. A maior parte do corpo de funcionários do 
SPI foi transferido para a FUNAI, o que contribuiu para que a FUNAI continuasse 
muitas das práticas já desenvolvidas pelo SPI, inclusive, as indesejadas e altamente 
criticadas como o clientelismo, paternalismo, dentre outras. 
Durante a Ditadura Militar, inclusive, a ação da FUNAI foi fortemente 
marcada pela perspectiva assimilacionista, dado o interesse do regime em 
Acesso em: 02 out. 2020.
Acesso em: 02 out. 2020.
Acesso em: 02 out. 2020.
Acesso em: 02 out. 2020.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
31 
 
 
 
promover a expansão pelo interior do país, em especial, pela região amazônica. E 
durante boa parte da sua existência, a FUNAI foi criticada especialmente pela 
ineficiência. A FUNAI também se viu envolta por polêmicas relativas a alta 
mortandade indígena, especialmente dos povos mais “isolados”. A tragédia dos 
Kren Akarore ou Krenakore (1974) é um caso emblemático, no qual mais da metade 
dos índios morreu em decorrência dos primeiros contatos. Em 2000, eles inclusive 
ganharam nos tribunais, contra a União e a FUNAI, uma ação indenizatória pelos 
danos materiais e morais causados. 
Em 2009, a FUNAI foi reformulada por um decreto do então Presidente Luiz 
Inácio “Lula” da Silva, no que se propôs oferecer maior capacidade de atuação 
técnica. Buscou-se regionalizar mais a administração e capacitar seus técnicos para 
estabelecer ações participativas em parceria com os índios. Contudo, diversos 
grupos indígenas constantemente reascendem debates chamando a atenção 
para a importância da sua participação nas tomadas de decisão do poder 
Executivo mesmo em relação ao órgão. 
 
2.3 QUESTÃO DAS TERRAS INDÍGENAS 
Apesar de muito se debater acerca das “terras indígenas”, o termo jurídico 
em si é desconhecido entre a maior parte da população brasileira. Os debates 
acalorados do senso comum atualmente ignoram os significados históricos que 
carrega e não contribuem para uma solução dos conflitos gerados em torno das 
demandas por reconhecimento e demarcação de terras. 
Terras indígenas, nesse sentido, é um conceito jurídico brasileiro com origem 
na definição de direitos territoriais indígenas. Estes direitos, por sua vez, foram 
reconhecidos, conforme ressalta a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, ao 
longo da história pelo Estado brasileiro por meio de diversos dispositivos legais, ao 
mesmo tempo que se busca burlar ilegalmente tais reconhecimentos. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
32 
 
 
 
 
 
Voltemos no tempo, em 1609, a Carta Régia já garantia os direitos indígenas 
às suas terras. Contudo, poderosos mecanismos desenvolveram-se para burlar tal 
demanda. Um importante instrumento utilizado foi o discurso negando a identidade 
ao índio. Ora, se não há índio, não há porque resguarda-lhes direitos, não é mesmo? 
As imagens negativas aqui analisadas, nesse sentido, de povos preguiçosos, 
primitivos, viciosos, violentos que permeou o imaginário acerca dos povos indígena 
foi um importante instrumento para negar-lhes uma identidade e garantir os direitos. 
No período imperial, mais precisamente no século XIX, o interesse pela 
questão de terras aumentou consideravelmente especialmente pelo interesse do 
então Império em expandir suas fronteiras. As políticas, nesse sentido, vão se 
estabelecendo no sentido de restringir o acesso à propriedade fundiária e converter 
os povos indígenas em assalariados. Sim, a política de terras não necessariamente é 
independente de uma política de trabalho (CUNHA, 2012). Já existia, em 
contrapartida, claramente expresso o reconhecimento da primazia dos índios 
sobres suas terras. Assim, na própria Lei de Terras de 1850 fica claro que as terras dos 
 O significado da terra para as culturas indígenas é complexo e diverso. Além disso, a 
cultura indígena não é o “lugar de fala” da autora desse material para que a apre-
sentação seja completa. Portanto, para compreender melhor os significados culturais 
em questão, se torna muito importante compreendê-los pela ótica dos próprios agen-
tes culturais, no caso, os povos indígenas. Sendo assim, para compreender a impor-
tância da terra veja o relato do Povo Baniwa e Koripako (lembrando que há aqui uma 
seleção do grupo apresentado, podendo, dessa forma, haver distinção quando 
comparado com outras etnias): https://bit.ly/3aVcWBt. Acesso em: 02 out. 2020. 
 Lugar de falar é um conceito bastante importante nos debates acerca das minorias 
sociais. Basicamente, refere-se a autoridade que pessoa possui para falar sobre algo 
enquanto pertencente a um grupo minoritário (minorias não em termos numéricos, 
mas por estarem em desvantagem social, cultural, política, religiosa, etc.), seja ele ét-
nico, de gênero, religioso, político e etc. Apesar de pessoas diferentes da realidade 
social estudas poderem analisar e teorizar sobre situações sociais de grupo do qual 
não pertence, quem possui argumentos de autoridade sobre essas situações são os 
grupos que possuem a experiência. Para compreender melhor, vejao vídeo da filóso-
fa Djalma Ribeiro: https://bit.ly/3aZuwEw. Acesso em: 02 out. 2020. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
33 
 
 
 
índios não poderiam ser devolutas, uma vez que o título dos índios sobres suas terras 
era um título originário, ou seja, decorre do simples fato de serem índios. 
A Lei de Terras também dispunha sobre as terras de aldeias extintas que, a 
rigor, deveriam ser dadas em plena propriedade aos índios. Contudo, esse 
entendimento será rapidamente esquecido e acabaram sendo distribuídos, quando 
muito, lotes aos índios. Tal situação será, por sua vez, ratificada na Constituição de 
1891 já no período republicano. As terras das aldeias indígenas extintas poderiam, 
enfim, ser devolutas e o processo de espoliação torna-se mais transparente. 
No Brasil independente, desde a Constituição de 1934, todas as demais leis a 
seguiram no tema tratado, assegurando um direito dos povos indígenas à terra, mas 
não garantia a inalienabilidade da mesma – o que favorecia, na prática, diversas 
manobras para tentar favorecer terceiros. Contudo, mesmo assim havia ressalvas. 
Nas Constituições de 1934, 1937 e 1946, por exemplo, garantia-se aos povos 
silvícolas o seu direito às terras que nela habitarem de maneira permanente. 
Entretanto, por viverem da agricultura, caça e pesca, muitos grupos circulavam 
pelo território de modo a buscar a melhor região para se estabelecer em dada 
época, essa necessidade de deslocamento foi utilizada, por sua vez, para destituir 
os índios de qualquer relação com a terra. O argumento, então, foi: se eles não se 
apegavam ao território, não haveria a necessidade de possuí-lo. 
Foi somente com a Constituição de 1967 que foi garantido a posse e o 
usufruto exclusivo das riquezas e a inalienabilidade das terras, dando algumas bases 
para a construção do conceito jurídico acima ressaltado, o de “terra indígena”. 
(CAVALCANTE, 2016). 
O conceito de “terra indígena” irá, por sua vez, aparecer pela primeira no 
Estatuto do Índio de 1973. Vale ressaltar, contudo, que apesar disso, o Estado 
brasileiro como um todo reconhecia somente àquelas terras já demarcadas pelo 
aparato estatal (as reservas indígenas) e ignorou os artigos constitucionais. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
34 
 
 
 
 
 
Foi somente com a Constituição de 1988, vigente hoje no Brasil, que irá se 
romper com a tradição assimilacionista trazendo mudanças fundamentais no 
ordenamento jurídico no que diz respeito ao conceito de índio e à posse de suas 
terras. Para começar, a Constituição Cidadã como é conhecida rompe com a 
herança tutelar estudada anteriormente mudando o status do índio, permitindo que 
individualmente ou através de suas organizações ingressem em juízo para defender 
direitos e interesses. 
 
 
 
No que tange o conceito de “terra indígena”, ele foi consideravelmente 
ampliado. No texto da Constituição se entende que terras indígenas se referem à 
toda terra necessária para a reprodução física, cultural e social do povo. Dessa 
forma, ao se realizar a identificada e a delimitação de uma terra indígena, o grupo 
técnico não deve se limitar a levantar os espaços para a habitação e reprodução 
econômica de um povo, mas também incluir a importância do local para sua 
cultura, religião e organização social. (CAVALCANTE, 2016, p. 23). A partir desse 
entendimento, não se fala mais em criação de terras indígenas, apenas de 
reconhecimento por parte da União da sua existência e demarcação. 
No Estatuto do Índio já três tipos de “terras indígenas”: 
1) terras ocupadas ou habitadas por silvícolas (sem necessidade de demarcação e/ou 
reconhecimento prévio pelo Estado) 
2) áreas reservadas (as chamadas reservas indígenas criadas e demarcadas pelo Esta-
do) 
3) terras de domínio das comunidades indígenas ou de silvícolas (CAVALCANTE, 2016) 
No artigo “No Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é” o antropólogo brasileiro 
Eduardo Viveiros de Casto analisa uma das principais questões levantadas acerca da 
identidade indígena: quem é índio? Disponível em: https://bit.ly/3hvyYNn. Acesso em: 03 
out. 2020. 
Tendo em vista a principal temática do artigo, como o antropólogo entende a 
identidade indígena? 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
35 
 
 
 
A demarcação de terras, entretanto, continua a ser extremamente 
importante, pois sem ela dificilmente os povos indígenas conseguiriam ter a plena 
posse de suas terras. Ainda se verificam, por exemplo, inúmeras dificuldades para a 
instalação de serviços públicos em áreas não homologadas como terras indígenas, 
deixando os povos indígenas sem a proteção do Estado (ou seja, sem acesso a 
saúde pública, educação, obras públicas, dentre outros). Além disso, o 
agronegócio e empresas de mineração tentam barrar os processos de 
demarcação de novas terras indígenas (especialmente diminuindo o poder da 
Funai). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A maior parte das terras indígenas encontra-se na chamada Amazônia Legal (área de 
nove estados brasileiros – Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, 
Roraima e Tocantins - pertencentes à bacia Amazônica). Acesse o mapa com a 
localização e extensão das terras indígenas produzido pela ISA Disponível em: 
https://bit.ly/3koXGje. Acesso em: 03 out. 2020. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
36 
 
 
 
FIXANDO CONTEÚDO 
1. (FUNAI – Indigenista) A demarcação de uma terra indígena é determinada 
 
a) pelo fato de serem terras utilizadas para suas atividade produtivas, e para os 
interesses de empresas que pretendem desenvolver economicamente as terras 
para o benefício dos índios. 
b) pelas 19 condicionantes do Supremo Tribunal Federal para a Terra Indígena 
Raposa Serra do Sol, no estado de Roraima, em 2009, que servem como uma 
orientação geral. 
c) pela tese do “marco temporal”, apresentada pelo Supremo Tribunal Federal, que 
sustenta que os indígenas só teriam direito às terras efetivamente ocupadas em 5 
de outubro de 1988, na data da promulgação da Constituição. 
d) pelo fato de serem terras tradicionalmente ocupadas pelos índios, as por eles 
habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, 
as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-
estar e as necessárias à sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, 
costumes e tradições. 
e) por uma negociação entre o Estado representado pela Fundação Nacional do 
Índio, as empresas que pretendem desenvolver projetos de desenvolvimento nas 
terras dos índios pagando indenizações e royalties aos indígenas e a anuência 
das comunidades indígenas. 
 
2. (ENADE) Os atuais índios do estado de São Paulo não representam um elemento 
de trabalho e de progresso. Como também nos outros estados do Brasil, não se 
pode esperar trabalho sério e continuado dos índios civilizados e como os 
Caingangs selvagens são um empecilho para a colonização das regiões do 
sertão que habitam, parece que não há outro meio, de que se possa lançar mão, 
senão o seu extermínio. 
IHERING, H. A anthropologia do estado de São Paulo. Revista do Museu Paulista, VII. São Paulo: Typ. 
Cardozo, Filho & Cia, 1907. 
 
Opinião como essa, expressa em 1907, por um importante cientista teuto-
brasileiro, inspirava-se, segundo Darcy Ribeiro, em uma atitude secular presente 
em qualquer área onde sobrevivam grupos indígenas no Brasil. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
37 
 
 
 
Sobre a reação a essa “atitude secular”, no início do século XX, avalie as 
afirmações a seguir. 
 
I. Desenvolveu-se um ideal catequizador, responsável pelo aldeamento dos 
indígenas e pela entrada em cena do evangelismo protestante, bem como uma 
preocupação oficial com a saúde e proteção material das propriedades dos 
indígenas. 
II. Organizou-se o aldeamento dos indígenas em reservas criadas com a finalidade 
precípua de preservar a cultura das diversas etnias e possibilitar o aumento da 
população indígena, a fim de queesses povos conseguissem competir em 
igualdade com os imigrantes europeus. 
III. Surgiu uma ideologia inspirada no positivismo, caracterizada pela assistência 
leiga e pela crença de que bastava o Estado proteger os indígenas de ataques 
externos e assisti-los socialmente para que progredissem rumo à civilização. 
IV. Criaram-se instituições de proteção e defesa dos indígenas, destacando-se o 
Serviço de Proteção aos Índios (SPI), criado em 1910 a partir de ações oficiais 
lideradas pelo Marechal Cândido Rondon. 
 
É correto apenas o que se afirma em 
 
a) I e II. 
b) I e IV. 
c) III e IV. 
d) I, II e III. 
e) II, III e IV. 
 
3. (Professor/ Prefeitura de São Luis – MA) 
Canção do Tamoio 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
38 
 
 
 
(Natalícia) I 
Não chores, meu filho; Não chores, que a 
vida É luta renhida: Viver é lutar. A vida é 
combate, Que os fracos abate, Que os 
fortes, os bravos Só pode exaltar. 
 Um dia vivemos! O homem que é forte Não 
teme da morte; Só teme fugir; No arco 
que entesa Tem certa uma presa, Quer 
seja tapuia, Condor ou tapir. 
 O forte, o cobarde Seus feitos inveja De o 
ver na peleja Garboso e feroz; E os tímidos 
velhos Nos graves concelhos, Curvadas as 
frontes, Escutam-lhe a voz! 
 Domina, se vive; Se morre, descansa Dos 
seus na lembrança, Na voz do porvir. Não 
cures da vida! Sê bravo, sê forte! Não 
fujas da morte, Que a morte há de vir! 
 E pois que és meu filho, Meus brios reveste; 
Tamoio nasceste, Valente serás. Sê duro 
guerreiro, Robusto, fragueiro, Brasão dos 
tamoios Na guerra e na paz. 
Teu grito de guerra Retumbe aos ouvidos 
D'imigos transidos Por vil comoção; E 
tremam d'ouvi-lo Pior que o sibilo Das 
setas ligeiras, Pior que o trovão. 
 E a mão nessas tabas, Querendo calados Os 
filhos criados Na lei do terror; Teu nome 
lhes diga, Que a gente inimiga Talvez não 
escute Sem pranto, sem dor! 
 Porém se a fortuna, Traindo teus passos, Te 
arroja nos laços Do inimigo falaz! Na 
última hora Teus feitos memora, Tranqüilo 
nos gestos, Impávido, audaz. 
 E cai como o tronco Do raio tocado, 
Partido, rojado Por larga extensão; Assim 
morre o forte! No passo da morte Triunfa, 
conquista Mais alto brasão. 
 As armas ensaia, Penetra na vida: Pesada 
ou querida, Viver é lutar. Se o duro 
combate Os fracos abate, Aos fortes, aos 
bravos, Só pode exaltar. 
 
Gonçalves Dias. Canção do Tamoio. Internet: (com 
adaptações). 
 
Na Canção do Tamoio, de Gonçalves Dias, apresenta-se o perfil literário do 
indígena construído pela poesia romântica com forte motivação nacionalista. 
Nessa fase da poesia romântica, o índio foi escolhido como o símbolo ideal do 
nacionalismo porque 
 
a) o negro e o português, vindos de outros continentes, não mantinham com as 
terras brasileiras o mesmo vínculo de identidade que os indígenas. 
b) a influência dos indígenas na formação da cultura nacional foi muito mais 
significativa que a exercida pelo negro e pelo branco colonizador. 
c) o negro e o português estavam mais distantes da realidade social imediata que o 
indígena, bem mais presente no cotidiano da vida nacional. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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d) os indígenas, ao contrário dos negros, se adaptaram com maior facilidade aos 
costumes impostos pelo branco colonizador. 
e) os indígenas estiveram fortemente engajados na luta pela independência do 
Brasil, diferentemente do negro e do branco colonizador. 
 
4. (USP) O índio, em alguns romances de José de Alencar, como Iracema e 
Ubirajara, é 
 
a) retratado com objetividade, numa perspectiva rigorosa e científica. 
b) idealizado sobre o pano de fundo da natureza, da qual é o herói épico. 
c) pretexto episódico para descrição da natureza. 
d) visto com o desprezo do branco preconceituoso, que o considera inferior. 
e) representado como um primitivo feroz e de maus instintos. 
 
5. (UFRR adaptado) O processo de demarcação de terras indígenas no Estado 
brasileiro é marcado por lutas, conflitos e mortes. Nos territórios indígenas, a 
compreensão sobre a utilização dos recursos da terra, para os diversos povos 
indígenas, inclusive, em Roraima, não é a mesma, que predomina no sistema 
capitalista atual. Isso se comprova na fala do líder Xucuru, assassinado em 1998, 
no agreste pernambucano. 
"A gente tem a terra como nossa mãe. Então, se ela é nossa mãe, é ela quem 
nos dá todo fruto de sobrevivência, e deve ser zelada e preservada, a partir das 
pedras, das águas e das matas”. 
Fonte: (CIMI, Revista Coleção Fraternidade viva N.° 08. São Paulo, 2001. Pág. 21. In.: VIEIRA, J. G. 
Missionários, fazendeiros e índios em Roraima: a disputa pela terra – 1777 a 1980. Boa Vista: Editora 
UFRR, 2007). 
 
Com base nessas informações, analise as assertivas a seguir: 
 
I. Para os povos indígenas, a terra é seu território, espaço necessário e essencial à 
vida. Ou seja, isso significa que a terra vai além da própria vida, a memória dos 
seus antepassados, como também o futuro da sua gente. 
II. Ao afirmar que a “terra é nossa mãe”, o líder Xucuru entende que a terra é uma 
fonte de vida e não de capital financeiro. 
III. Se a terra, para o Líder Xucuru, “é sua mãe”, então, ela deve ser preservada 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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como fonte de vida para as diversas populações indígenas que se utilizarão 
delas futuramente. 
IV. O líder Xucuru atribui valor de preservação para as pedras, águas, matas, que 
estão em sua terra, entretanto, o que preocupa e interessa ao indígena, é o 
valor monetário da terra para sua comunidade. 
V. O índio Xurucu, ao explicar o significado do uso da terra, este demonstra que a 
sobrevivência do seu povo não depende da terra, mas a considerada um ente 
sagrado e importante. 
 
Estão corretas 
 
a) III e V, apenas. 
b) I, II e III. 
c) I e II, apenas. 
d) I, II, IV. 
e) I, III e V. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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DIREITOS INDÍGENAS E A 
CONSTITUIÇÃO DE 1988 
 
 
3.1 INTRODUÇÃO 
A Constituição de 1988 trouxe uma série de direitos indígenas reconhecendo 
a sua diversidade e importância para a formação identitária e cultural do Brasil. Sua 
promulgação foi um marco e contribuiu para organização de movimentos, de 
novas abordagens e novas demandas por políticas públicas específicas para as 
comunidades indígenas. Contudo, apesar de todos os avanços, ainda vemos 
resquícios das velhas políticas imperando na prática. Nesse capítulo, veremos mais 
sobre esses avanços e dificuldades que ainda vivenciam as comunidades indígenas. 
 
3.2 MOVIMENTO E RESISTÊNCIA INDÍGENA 
Como vimos no capítulo anterior, o direito indígena à terra foi reconhecido 
pela Constituição de 1988 como um direito originário, ou seja, anterior ao próprio 
processo de formação do Estado brasileiro. Contudo, mesmo após a promulgação 
da Constituição, esse direito vive constantemente sob ameaça dos interesses do 
agronegócio, do garimpo, da grilagem e madeireiros. Ameaças estas muitas vezes 
desembocadas em grandes e violentos conflitos em decorrência da carência de 
políticas destinadas à efetiva demarcação e fiscalização das terras. 
Para dificultar ainda mais o processo já lento de demarcação, muitos 
projetos de emendas constitucionais (PEC) e normas federais foram elaboradas. 
Dentre vários, podemos citar a tentativa de flexibilização do Código Florestal, que 
delimita as áreas que devem ser preservadas e quais podem receber diferentes 
tipos de produção rural. Após a votação do código, parlamentares ligados à 
bancada ruralista (vinculados diretamente aos interesses de latifundiários, empresas 
e confederações do agronegócio), tem preparado projetos de lei que buscam 
extinguir direitos adquiridos e dificultar o processo de reconhecimento das terras 
indígenas – uma vez que o reconhecimento impossibilita a exploração da área 
para fins econômicos particulares.e os africanos na formação do Mundo Atlântico 1400-
1800. São Paulo: Campus, 2004. 436 p. 
VELOSO, C. O "quase pernambucano" Caetano Veloso vê o brasil pelos olhos 
de Joaquim Nabuco. [Entrevista concedida a] Geneton Moraes Neto. 
GENETON.COM, online, 2007. Disponível em: https://bit.ly/3nqtE0D. Acesso em: 
04 out. 2020. 
VILLELA, J. F. Augusto Gomes Leal com a Ama-de-Leite Mônica (1860, Acervo 
Fundação Joaquim Nabuco). In: Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura 
Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: https://bit.ly/3aTvaDa. 
Acesso em: 30 jun. 2020.

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