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HISTÓRIA DA CULTURA AFRODESCENDENTE E INDÍGENA Letícia Cristina Fonseca Destro FACULDADE ÚNICA DE IPATINGA 2 Letícia Cristina Fonseca Destro Graduada em História pela Universidade Federal de Viçosa (2010), Mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2012) e Doutora em História Social da Cultura da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2016). Atualmente é Professora Titular e coordenadora do curso de História EaD da Faculdade Única de Ipatinga, além de professora da Educação Básica na rede estadual de ensino. 1ª edição Ipatinga – MG 2020 HISTÓRIA DA CULTURA AFRODESCENDENTE E INDÍGENA 3 FACULDADE ÚNICA EDITORIAL Diretor Geral: Valdir Henrique Valério Diretor Executivo: William José Ferreira Ger. do Núcleo de Educação a Distância: Cristiane Lelis dos Santos Coord. Pedag. da Equipe Multidisciplinar: Gilvânia Barcelos Dias Teixeira Revisão Gramatical e Ortográfica: Izabel Cristina da Costa Revisão/Diagramação/Estruturação: Bruna Luiza Mendes Leite Fernanda Cristine Barbosa Guilherme Prado Salles Lívia Batista Rodrigues Design: Bárbara Carla Amorim O. Silva Élen Cristina Teixeira Oliveira Maria Eliza Perboyre Campos © 2021, Faculdade Única. Este livro ou parte dele não podem ser reproduzidos por qualquer meio sem Autorização escrita do Editor. NEaD – Núcleo de Educação a Distância FACULDADE ÚNICA Rua Salermo, 299 Anexo 03 – Bairro Bethânia – CEP: 35164-779 – Ipatinga/MG Tel (31) 2109 -2300 – 0800 724 2300 www.faculdadeunica.com.br 4 Menu de Ícones Com o intuito de facilitar o seu estudo e uma melhor compreensão do conteúdo aplicado ao longo do livro didático, você irá encontrar ícones ao lado dos textos. Eles são para chamar a sua atenção para determinado trecho do conteúdo, cada um com uma função específica, mostradas a seguir: São sugestões de links para vídeos, documentos científico (artigos, monografias, dissertações e teses), sites ou links das Bibliotecas Virtuais (Minha Biblioteca e Biblioteca Pearson) relacionados com o conteúdo abordado. Trata-se dos conceitos, definições ou afirmações importantes nas quais você deve ter um maior grau de atenção! São exercícios de fixação do conteúdo abordado em cada unidade do livro. São para o esclarecimento do significado de determinados termos/palavras mostradas ao longo do livro. Este espaço é destinado para a reflexão sobre questões citadas em cada unidade, associando-o a suas ações, seja no ambiente profissional ou em seu cotidiano. 5 SUMÁRIO POVOS INDÍGENAS E A COLONIZAÇÃO PORTUGUESA .......................... 8 1.1 INTRODUÇÃO.......................................................................................................... 8 1.2 A “QUARTA PARTE” DO MUNDO............................................................................ 9 1.3 A CHEGADA DOS EUROPEUS ............................................................................... 11 1.4 “CIVILIZANDO” OS ÍNDIOS? ................................................................................ 15 1.5 DOS ESTEREÓTIPOS ............................................................................................... 17 1.5.1 Selvagens desordenados ............................................................................ 17 1.5.2 Bárbaros canibais .......................................................................................... 18 1.5.3 Luxuriosos e preguiçosos .............................................................................. 20 FIXANDO CONTEÚDO .......................................................................................... 22 POLÍTICA INDIGENISTA NO BRASIL INDEPENDENTE ............................... 27 2.1 INTRODUÇÃO........................................................................................................ 27 2.1.1 Primitivismo e Romantismo .......................................................................... 27 2.2 SOB A TUTELA DO ESTADO ................................................................................... 29 2.3 QUESTÃO DAS TERRAS INDÍGENAS ...................................................................... 31 FIXANDO CONTEÚDO .......................................................................................... 36 DIREITOS INDÍGENAS E A CONSTITUIÇÃO DE 1988 ............................... 41 3.1 INTRODUÇÃO........................................................................................................ 41 3.2 MOVIMENTO E RESISTÊNCIA INDÍGENA .............................................................. 41 3.3 POR UMA EDUCAÇÃO INDÍGENA ....................................................................... 43 3.4 AS TRANSFORMAÇÕES CULTURAIS ...................................................................... 47 FIXANDO CONTEÚDO .......................................................................................... 49 A ESCRAVIDÃO NEGRA NO BRASIL ....................................................... 54 4.1 INTRODUÇÃO........................................................................................................ 54 4.2 ESCRAVIDÃO ANTIGA E MODERNA .................................................................... 54 4.3 TRÁFICO TRANSATLÂNTICO ................................................................................. 56 4.4 ESCRAVIDÃO NO BRASIL ..................................................................................... 60 FIXANDO CONTEÚDO .......................................................................................... 66 O LEGADO DA ESCRAVIDÃO NA ESTRUTURA SOCIAL BRASILEIRA ....... 71 5.1 INTRODUÇÃO........................................................................................................ 71 5.2 A ESCRAVIDÃO COMO CARACTERÍSTICA NACIONAL DO BRASIL ................... 72 5.3 A TESE DA DEMOCRACIA RACIAL COMO PRODUTO DA ESCRAVIDÃO ........... 74 5.4 O PROBLEMA DA INTEGRAÇÃO DO NEGRO NA SOCIEDADE DE CLASSES ...... 75 5.5 RAÇA E DESIGUALDADE SOCIAL BRASILEIRA ..................................................... 77 FIXANDO O CONTEÚDO ...................................................................................... 79 NEGRITUDE, AFRODESCENDÊNCIA E DIÁSPORA AFRICANA ................ 83 6.1 INTRODUÇÃO........................................................................................................ 83 6.2 DIMENSÕES DA NEGRITUDE ................................................................................. 84 6.3 NEGRITUDE E AFRODESCENDÊNCIA .................................................................... 85 6.4 O CULTO ÀS RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA .................................................. 86 6.5 OS REMANESCENTES DAS COMUNIDADES DOS QUILOMBOS ........................... 89 6.6 NEGRITUDE E DIÁSPORA ....................................................................................... 89 FIXANDO O CONTEÚDO ...................................................................................... 92 RESPOSTAS DO FIXANDO O CONTEÚDO ........................................... 95 UNIDADE 01 UNIDADE 02 UNIDADE 03 UNIDADE 04 UNIDADE 05 UNIDADE 06 6 REFERÊNCIAS ...................................................................................... 96 7 CONFIRA NO LIVRO Nesta unidade estudaremos os impactos da chegada dos portugueses no território que viria a se chamar o Brasil tendo em vista as populações nativas que aqui já habitavam.UNIDADE 42 Diante desse cenário histórico de exploração e espoliação, os povos indígenas foram se organizando de modo a assumir cada vez mais novos espaços, além daqueles tradicionais. A partir da década de 1970 é possível encontrar associações e organizações indígenas em várias regiões brasileiras por influência da atuação do Conselho Indigenista Missionário que promoveu assembleias indígenas, onde se desenhou os primeiros contornos da luta. A partir delas, as lideranças passaram a lidar com o mundo institucional nacional e internacional tratando das suas demandas territoriais, assistenciais e comerciais. Na década seguinte, por sua vez, é eleito o primeiro deputado indígena e na sequência os indígenas passaram a fazer-se presente no Congresso Nacional e na política de maneira geral. Os povos indígenas, inclusive, se fizeram muito presente na Assembleia Constituinte de 1987- 1988 com a finalidade de levantar suas demandas para que fossem incorporadas na Constituição de 1988. A unificação do movimento indígena se deu em 2002 com a criação da APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) que tem importantes representantes como a Sônia Guajajara do povo Guajajara do Maranhão. Sônia é muito conhecida por sua atividade em prol das demandas indígenas, tendo atuado em eventos internacionais como Conferência do Clima em Paris e no Conselho dos Direitos Humanos da ONU. Nas eleições de 2018, ela chegou, inclusive, a concorrer A Amazônia é um solo com um número quase incalculável de riquezas minerais e naturais. Uma dessas riquezas é o ouro. Sobre o garimpo na Amazônia e com este afeta as comunidades indígenas, sugerimos as seguintes materiais: “Por dentro de um garimpo ilegal na Amazônia” é uma matéria da National Geographic que trata um pouco mais a fundo o garimpo ilegal na Amazônia. Disponivel em: https://bit.ly/3gwHr1w. Acesso em: 10 out. 2020. Leia também sobre a denúncia de invasão das terras dos Yanomami e Yekwana por garimpeiros em 2019 “Povos Yanomami e Ye’kwana se unem e exigem: ‘Fora, garimpo!’”. plublicada pela ISA. Disponível em: https://bit.ly/35oVOCK. Acesso em: 10 out. 2020. Assista o vídeo “Serra Pelada | A História de Um Massacre” e entenda um pouco mais sobre o caso mais emblemático do grampimpo nacional. Disponíve em: https://bit.ly/3lrWVaD. Acesso em: 10 out. 2020. 43 como vice-presidente do Brasil. Também sobre a visibilidade internacional das questões indígenas e da preservação da floresta podemos citar o Cacique Raoni. No âmbito acadêmico, os povos nativos têm ocupado cada vez mais espaços de modo a congregar forças e conhecimentos que possam retornar em qualidade para seus grupos de origens. Muitos indígenas têm buscado formações acadêmicas para atuarem na melhoria da saúde e educação, principalmente, de suas tribos. Além de se tornarem representantes e porta-vozes da cultura e luta do povo indígena, como é o caso de Cristine Takuá, Renata Machado Tupinambá, Daiara Tukano, Célia Xakriabá, Ailton Krenak dentre diversos outros. 3.3 POR UMA EDUCAÇÃO INDÍGENA Com a Constituição de 1988, entra em pauta diversas questões relacionados aos direitos indígenas, como direito a saúde e educação. Para fins didáticos e práticos, tendo em vista a especificidade do curso em questão, abordaremos a questão do direito indígena à escola e a processos educacionais diferenciados. Até então, o acesso dos nativos à escola se dava no modelo tradicional quando muito, cuja proposta educacional voltavam-se à integração e ao ensino monolíngue em português. Assim como a própria relação do Estado com os grupos indígenas, a educação tinha o propósito de integrá-los. Contudo, na passagem para a década de 1990, já sob a égide da Constituição, diversos grupos indígenas começaram a se organizar de modo a exigir uma reformulação desse modelo de modo a centrar-se em professores indígenas, valorizando as identidades indígenas bem como o ensino bilíngue. Nesse momento, irá formar-se as primeiras organizações de professores indígenas, haverá também o reconhecimento da educação alternativa, promulgação de leis e normas visando normatizar e reorganizar uma política específica para a educação escolar indígena (GRUPIONI, 2008). Em contraposic ̧ão a uma escola que se constituía pela imposic ̧ão do ensino da língua portuguesa, pelo acesso à cultura nacional e pela perspectiva da integrac ̧ão é que se molda um outro modelo de como deveria ser a nova escola indígena, caracterizada como uma escola comunitária (na qual a comunidade indígena deveria ter papel preponderante), diferenciada (das demais escolas brasileiras), específica (própria a cada grupo indígena onde fosse instalada), intercultural (no estabelecimento de um diálogo entre conhecimentos ditos universais e indígenas) e bilíngüe (com a 44 conseqüente valorizac ̧ão das línguas maternas e não só de acesso à língua nacional) (GRUPIONI, 2008, p. 37). Um dos principais princípios norteadores passou a ser o reconhecimento do direito indígena à educação. Dessa forma, o acesso à escola deveria ser tratado não como assistência e sim como um direito adquirido. A consequência dessa determinação retoma o mencionado anteriormente, passava-se a reconhecer a escola como um espaço que reforçasse a identidade étnica local. Do Estado, portanto, passou a ser exigido mecanismos garantidores desse direito. Também foi discutido a questão da laicidade desse ensino diferenciado. De maneira geral, a Constituição já reforçava o caráter laico que deveria ter a educação básica no país, contudo, o modelo de educação historicamente constituído especialmente no que tange às comunidades indígenas esteve associada ao proselitismo religioso. Lembrando que as populações indígenas possuem uma diversidade de crenças e religiões, a premissa se tornava fundamental para que a educação indígena não fosse encarada como catequese ou evangelização (GRUPIONI, 2008). Para efetivar todo esse processo por parte do governo, as políticas públicas de educação escolar indígena passaram a ser conduzidas no âmbito dos Ministérios da Educação e da Cultura que levando sempre em consideração a valorização e respeito à língua e à cultura indígena, bem como a formação de índios para a docência, na escola indígena. Dessa forma, efetivamente foi transferida da FUNAI para o MEC a coordenação das ações de educação indígena. Tal transferência contribuiu especialmente para a aceitação, por parte do Estado brasileiro, de uma nova ideologia quanto aos objetivos da educação a ser oferecida aos povos indígenas (GRUPIONI, 2008). A legitimação do MEC como operador das políticas públicas somada a articulação de um conjunto de atores (como professores indígenas, antropólogos, linguístas, educadores e indigenistas ligados à ONGs e universidades) que esforçaram-se por construir um novo papel para a escola indígena nos anos de 1990. Em 1993 foi criado o Comitê de Educação Escolar Indígena que ficou com a tarefa de elaborar uma política nacional de educação indígena. O documento oficializado teve efeito importante no rompimento com o modelo de educação que até então vinha sendo operacionalizado pelo Estado. Diversos seminários foram 45 promovidos para debater as estratégias que seriam implementadas visando o novo modelo de educação. Outro documento importante nesse processo, desenvolvido com base nos seminários, foi o Referencial Curricular Nacional para as Escolas Indígenas (RCNEI), lançado em 1998, cuja coordenação também ficara a cargo do Comitê. Dessa forma, a elaboração de documentos referenciais e de diretrizes constituiu uma importante atuação do MEC como coordenador do processos. Obviamente, a constituição de políticas públicas não se promove com documentosnorteadores apenas, são necessários programas de investimentos de recursos públicos. O aumento de recursos financeiros para o apoio para a formação de professores indígenas, produção de materiais didáticos diferenciados foi visto ao longos dos anos. Contudo, não disponibilizaram recursos específicos ou suplementares para tanto, devendo os sistemas de ensino ficarem responsáveis pelas demandas, o que demonstra a baixa a institucionalidade dessas políticas públicas. Além disso, a prática de toda a discussão se demonstrou diferente das propostas apresentadas fazendo muitos questionarem se a nova escola diferenciada não seria apenas mais uma nova modelagem para a velha e conhecida escola civilizadora (GRUPIONI, 2008). Além disso, dada a diversidade brasileira, a realidade da educação indígena no Brasil é diversa e varia de região para região. No âmbito do ensino regular, em todo o país, a demanda por valorização e reconhecimento da diversidade indígena para a formação nacional que rompa com a visão romântica e primitiva anterior também foi uma das demandas de movimentos sociais indígenas seguindo na luta juntamente ao movimento negro. Com o intuito de reparar os danos causados à população afrodescendente e indígena, surge no Brasil (na década de 1990) o conceito de “ação afirmativa” para combater as desigualdades e promover o acesso de minorias à educação pública gratuita e de qualidade. Assim, visando reparar as desvantagens historicamente impostas aos negros e indígenas, as ações afirmativas buscam construir mecanismos para promover a democratização (PRADO; PEDRO; GOMES, 2018). Nesse ínterim, as Leis Federais no. 10.639/2003 e a posterior 11.645/2008 foram criadas a partir das demandas dos movimentos sociais que buscavam romper com os estereótipos racistas que permeavam o ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena. 46 A Lei n. 10.639/2003 alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) no. 9394/1996 e passou a incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da história e cultura afro-brasileira. Após cinco anos da promulgação da dita Lei, a mesma foi expandida para a temática indígena com a Lei no. 11.645 (PRADO; PEDRO; GOMES, 2018). Ambas as leis, nesse sentido, procuram atender à necessidade de construção de uma educação mais igualitária, rumo a um ensino que possibilite a desconstrução de verdades construídas pelos currículos oficiais, materiais didáticos e nas diversas práticas do cotidiano escolar. Entretanto, a de se ressaltar que apesar dos esforços verificados no sentido em se contemplar as exigências das ditas Leis, ainda há muito o que ser feito especialmente no que tange à formação de professores comprometidos em assegurar a qualidade de um ensino que verse por discutir as relações étnico-raciais no país, bem como a valorização e reconhecimento dessas culturas e identidades rompendo com a visão eurocêntrica e discriminatória que foi construída ao longo do tempo. Vídeo esclarecendo sobre o conceito “ação afirmativa”: https://bit.ly/3eV9tF6. Acesso em: 10 out. 2020. O livro “Histórias e culturas indígenas na Educação Básica” de Giovani José da Silva e Anna Maria Ribeiro fornece uma ferramenta importante para professores e alunos indígenas e não-indigenas para promover uma "cultura de paz". Disponível em: https://bit.ly/3luaENW. Acesso em: 10 out. 2020. Outro livro recomendado é o “A temática indígena na Escola” de de Ana Piñon e Pedro Paulo Funari. Este obra é dirigida a professores de escolas não indígenas (os quais geralmente não têm nem conhecimento suficiente sobre índios) para mostrar os motivos dessa contradição: o quanto temos relação com os índios e nossa falta de compreensão dessa realidade. Disponível em: https://bit.ly/35ngriK. Acesso em: 10 out. 2020. Assita o vídeo “Olhar indígena” onde o prof. e escritor indígena Daniel Munduruku fala sobre Educação Indígena. Disponível em: https://bit.ly/36qiTV4. Acesso em: 10 out. 47 3.4 AS TRANSFORMAÇÕES CULTURAIS Ao reconhecer a diversidade étnica, a Constituição de 1988 interferida por toda essa mobilização indígena acima mencionada, modificou também paradigmas conceituais. Ao reconhecer os índios como sujeitos históricos, alguns conceitos importantes utilizados no mundo acadêmico também tiveram que ser remanejados. Cultura, por exemplo, deixou de ser vista como fixa e imutável. Nessa mesma linha, o conceito de “aculturação” também se alterou. Antes, o conceito era utilizado de modo a significar uma resignação que implicava em desaparecimento de grupos étnicos. Contudo, em termos sociológicos contemporâneos, especialmente em vista da intensa globalização e da ideia de cultura como algo dinâmico, não há como se ater ao conceito de maneira fixa. Assim sendo, é estabelecido nas discussões atuais que as trocas culturais entre as populações indígenas e não-indígenas não diminuem a cultura e identidade étnica de nenhum povo, seja ele pertencente a uma tribo ameríndia, africana ou mesmo da Polinésia. As culturas, por não serem estáticas, estão sempre em constantes transformações e estas transformações não resultam em perda de identidade (leia novamente o artigo do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro). Assim sendo, um povo indígena que optou por manter-se distante do não-indígena Por fim, assista também o vídeo “A obrigatoriedade do estudo da história e cultura afro- brasileira e indígena” sobre a obrigatoriedade do estudo da história e cultura afro- brasileira e indígena: https://bit.ly/3gL2SxD. Acesso em: 10 out. 2020. O dia do Índio é comemorado no dia 19 de abril desde 1943. Desde então as escolas e outras instituições celebram o dia pintando os alunos e fantasiando-os. Contudo, recentemente, essa evocação folclórica do índio tem sido alvo de críticas. Com base em tudo o que aprendemos ao longo desses capítulos, reflita sobre os motivos para as críticas acerca da forma como a comemoração é feita. Quais ideias a respeito da população indígena as comemorações reforçam? Como professores de História, como poderiam ressignificar esta data em sala de aula? Para ajudá-los, leiam a entrevista com Daniel Munduruku, doutor em Educação: https://glo.bo/36uivFd. Acesso em: 10 out. 2020. 48 (muitas vezes em função da violência sofrida no contato) não é mais índio do que aqueles grupos que, como estudado, acabaram sofrendo com as intervenções forçadas (ou não) do contato com o não-índio. Além disso, devemos lembrar que nós somos apenas mais um dos povos com que cada povo indígena manteve contato, seja amistoso ou bélico, ao longo da história. E a utilização do argumento da aculturação como forma de deslegitimar a identidade indígena vai ao encontro do discurso já estudado que buscou desvalorizar essas culturas, a sua identidade para então diminuir os seus direitos e posse à terra. Além disso, só para ressaltarmos ainda mais a historicidade do argumento, ele remete àquela imagem romântica da cultura indígena e os que não corresponderem a ela, diz-se que perderam sua tradição. Pensemos sobre isso. Para compreender melhor a discussão acerca da influência das trocas culturais na cultura indígena, leiam o artigo da antropóloga Clarice Cohn “Culturas Em Transformação os Índios e a Civilização” disponível em: https://bit.ly/3gDqWkF. Acesso em: 10 out. 2020. Assista ao documentário “Índio Cidadão?”, o qual resgata a participação do movimento indígena na Assembleia Constituinte (1987-1988) com a finalidade de elaborar a Constituição de 1988. Disponível em: https://bit.ly/32BSdiU. Acesso em: 10 out. 2020. Assista as duas entrevistas cedidas por Ailton Krenak (escritor e ambientalista) sobre os avanços e recuos da situação dos povos indígenas no Brasil desde a promulgaçãoda Constituição de 1988: “Enquanto tiver gente no Brasil, vai ter presença indígena”. Disponível em: https://bit.ly/35r9Rrq. Acesso em: 10 out. 2020. “Diálogos: Desafios para a decolonialidade”. Disponível em: https://bit.ly/3eRiVt3. Acesso em: 10 out. 2020 Assista aos episódios do documentário “Vozes da Floresta” realizado pelo Le Monde Diplomatique Brasil na qual indígenas falam sobre a relação dos índios e seringueiros (povos da floresta), a disputa com o latifúndio, os desafios atuais e futuros: “Vozes da Floresta|Marcos Terena.” Disponível em: https://bit.ly/3lryxpz. Acesso em: 10 out. 2020; “Vozes da Floresta|Toya Manchineri.” Disponível em: https://bit.ly/3kprHzq. Acesso em: 10 out. 2020 49 FIXANDO CONTEÚDO 1. (Professor de História/ IF-TO) Considerando as contribuições da cultura indígena no Brasil, analise os itens abaixo, julgue-os e em seguida assinale a alternativa correta. I. A influência cultural indígena na sociedade brasileira perpassa o hibridismo quanto a assimilação da língua portuguesa e suas influências das línguas indígenas. Várias palavras de origem indígena se encontram em nosso vocabulário cotidiano, como palavras ligadas à flora e à fauna (como abacaxi, caju, mandioca, tatu) e palavras que são utilizadas como nomes próprios (como o parque do Ibirapuera, em São Paulo, que significa, “lugar que já foi mato”, em que “ibira” quer dizer árvore e “puera” tem o sentido de algo que já foi. O rio Tietê em São Paulo também é um nome indígena que significa “rio verdadeiro”) II. Além da influência indígena na culinária brasileira, herdamos também a crença nas práticas populares de cura derivadas das plantas. Por isso se recorre ao pó de guaraná, ao boldo, ao óleo de copaíba, à catuaba, à semente de sucupira, entre outros, para curar alguma enfermidade. III. A culinária brasileira herdou vários hábitos e costumes da cultura indígena, como a utilização da mandioca e seus derivados (farinha de mandioca, beiju, polvilho), o costume de se alimentar com peixes, carne socada no pilão de madeira (conhecida como paçoca) e pratos derivados da caça (como picadinho de jacaré e pato ao tucupi), além do costume de comer frutas (principalmente o cupuaçu, bacuri, graviola, caju, açaí e o buriti). IV. Por volta de 1500, momento da chegada dos europeus, até os dias atuais, século XXI, a população indígena diminuiu drasticamente, de três a cinco milhões de índios para, atualmente, segundo a FUNAI (Fundação Nacional do Índio), 358 mil índios. a) Os itens I, II, III e IV estão corretos. b) Os itens I, II e III estão corretos. c) O item IV está correto e os itens I, II e III fazem inferências aparentemente equivocadas sobre o tema abordado. 50 d) Os itens I e II são complementares e os itens III e VI são concorrentes, pois estes últimos fazem uma análise fenomenológica sobre o tema. e) Os itens II e III podem ser didaticamente tratados como contraditórios enquanto os itens I e IV mostram associações temporais antagônicas. 2. (Professor de História/FUNCAB) Sobre a questão indígena, no século XVIII, na história do Brasil leia, o texto a seguir: “No Rio de Janeiro, a transformação das aldeias em vilas e lugares portugueses não impediu que continuassem sendo identificadas como aldeias indígenas, inclusive pela documentação oficial. As câmaras municipais e os moradores incentivados pela legislação intensificavam as investidas sobre as terras das aldeias, enquanto os índios procuravam preservá-las com base nos direitos adquiridos pela condição de índios aliados à Coroa, para a qual ainda prestavam serviços. Aldeia de São Francisco Xavier, por exemplo, chegou a ser extinta, mas foi restaurada por pressão dos índios [...]". ALMEIDA, Maria Regina Celestino de.Comunidades indígenas e Estado nacional: histórias, memórias e identidades em construção. In: Cultura política e leituras do passado, 2007. De acordo com o texto, e com seus conhecimentos sobre a questão indígena no Brasil, é correto afirmar que a) a recente luta dos indígenas demonstra uma desigualdade social, que marca apenas os dias atuais. b) o desenrolar da luta dos indígenas sugere uma solução favorável a eles, proposta pelo Estado. c) vinda de longa data, a disputa por terras marca a história da questão indígena no Brasil. d) o Estado português, anteriormente, e o Estado brasileiro, na atualidade, se comportam de forma igual na questão indígena. e) a conquista dos índios pelo reconhecimento de seu direito à terra, já se tornou uma realidade efetiva no Brasil atual. 51 3. (SEDUC/AM – Professor de ensino indígena) "Uma só palavra ou teoria não seria capaz de abarcar todos os processos e experiências históricas que marcaram a formação do povo brasileiro." Por Rainer Sousa - Mestre em História Adaptado de https://brasilescola.uol.com.br/historiag/brasileiro.htm Analise as afirmativas abaixo sobre o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas: I. Torna-se obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nos estabelecimentos de Ensino Fundamental e Médio. II. Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados apenas nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileira. III. O conteúdo programático incluirá entre outros, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e a importância do negro na formação da sociedade nacional. IV. O ensino da cultura afro-brasileira deve contribuir para o resgate da contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil. a) I, II, III. b) I,IV. c) I, III, IV. d) I, II, IV. e) I, II, III, IV. 4. ( IFRR – Professor de Ensino Básico) A Lei Federal no 11.645/2008 alterou a Lei de Diretrizes e Bases - LDB (Lei Federal no 9.394/1996), para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática história e cultura afro-brasileira e indígena. O caput do artigo 26-A prevê expressamente que "Nos estabelecimentos de Ensino Fundamental e de Ensino Médio, torna- se obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena". No parágrafo segundo consta que: "Os conteúdos referentes à história e cultura afro-brasileira e dos povos indígenas brasileiros serão ministrados no a ̂mbito de todo currículo escolar, 52 em especial nas áreas de a) Educação Artística e de Filosofia. b) Educação Artística e de Matemática c) Literatura e História Brasileiras e de Filosofia. d) Matemática e de Literatura e História Brasileiras. e) Educação Artística e de Literatura e História. 5. (SEDUC-AM/professor indígena) "Nossas terras são invadidas, nossas terras são tomadas, os nossos territórios são invadidos... Dizem que o Brasil foi descoberto; o Brasil não foi descoberto não, Santo Padre. O Brasil foi invadido e tomado dos indígenas do Brasil. Essa é a verdadeira história que realmente precisa ser contada." Marçal Tupã'i, líder Guarani-Nhandeva, no discurso feito ao Papa João Paulo II, por ocasião de sua visita ao Brasil, em 1980. São caracterizados como direitos de cidadania o direito à igualdade, à liberdade de expressão, direitos políticos, e direitos a uma vida digna e gratificante. Uma evolução da ideia de cidadania trouxe ainda a noc ̧ão de direito ambientais, de gênero e o direito à diversidade. Quanto ao reconhecimento ao direito à cidadania dos povos indígenas podemos afirmar que a) a CF/88 reconheceu o respeito às formas de organização própria dos povos indígenas, além de suas crenças costumes, usos e tradições bem como os direitos originários dos povos indígenas sobre suas terras. b) a inclusão do estudo da Históriada África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil, incentivará o respeito à diversidade. c) o direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, ideias e crenças, dos espaços e objetos pessoais, sendo importante para a vida familiar da criança. 53 d) a Lei 9.394/96 garante estimular o conhecimento dos problemas do mundo presente, em particular os nacionais e regionais, prestar serviços especializados à comunidade e estabelecer com esta uma relação de reciprocidade, através do ensino superior. e) a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicações ou de outras formas de comunicação, são fatores que estimularam a compreensão da diversidade. 54 A ESCRAVIDÃO NEGRA NO BRASIL 4.1 INTRODUÇÃO Como visto nas unidades anteriores, a escravidão no Brasil decorreu da presença dos portugueses na região. Quando da chegada dos europeus, os membros das primeiras expedições trataram logo de conseguir, em troca de quinquilharias, a força de trabalho indígena. Quando elas não mais satisfaziam aos nativos e a recusa pelo trabalho degradante fortaleceu, o mesmo passa, então, a ser forçado. Entretanto, essa mão-de-obra logo será substituída pela africana e aqui poderíamos citar diversos fatores: desde a fraca densidade demográfica indígena, a resistência das aldeias indígenas, a proteção dos jesuítas até a lucratividade do tráfico transatlântico que trouxera milhões de africanos escravizados para o continente americano. A escravidão africana, por sua vez, além de rentável foi muito duradoura (cerca de 300 anos) e gerou diversas consequências para a sociedade brasileira e para a formação do próprio país que viria a se chamar Brasil. Assim, como os povos indígenas e portugueses, a cultura africana (e afrodescendente) é uma das matrizes culturais do Brasil. Vejamos mais sobre isso. 4.2 ESCRAVIDÃO ANTIGA E MODERNA Para começar, é preciso fazer uma importante ressalva aos conceitos: “escravidão” e “escravos”. Em função da história brasileira, é muito comum associarem a escravidão à população africana ou afrodescendente. Contudo, essa relação foi construída e remete a uma ideia moderna da escravidão. De uma maneira geral, o conceito de escravidão, de acordo com a formulação Igor Kopytoff (1982), apud Marquese (2006, p. 110) define que: [...]a escravidão não deve ser definida como um status, mas sim como um processo de transformac ̧ão de status que pode prolongar- se uma vida inteira e inclusive estender -separa as gerac ̧ões seguintes. O escravo comec ̧a como um estrangeiro [outsider] social e passa por um processo para se tornar um membro [insider]. Um indivíduo,despido de sua identidade social prévia, é colocado à margem de um novo grupo social que lhe dá uma nova identidade UNIDADE 55 social. A estraneidade [outsidedness], então, é sociológica e não étnica. A partir desse sentido, escravidão compreende diversas formas possíveis de trabalho compulsório que remetem à perda de liberdade. Houve sociedades em que o escravo era reduzido ao status de objeto, como no caso brasileiro, de um bem mercantilizável. Mas também tiveram sociedades em que o escravo não se tornou, em nenhum momento, um bem que se possa vender ou comprar. Na Mesopotâmia e no Egito antigos, por exemplo, para a construção das obras públicas, a mão-de-obra recrutada pertencia ao governante, mas os indivíduos não eram vendidos e as atividades poderiam cessar quando ao fim da construção. (PINSKY, 2010). Diferentemente era o caso das sociedades gregas e romanas, nas quais os escravos eram comprados ou obtidos por meio de saques e batalhas e não perdiam, exceto em alguns casos, a sua condição. A escravidão na Antiguidade Clássica era tão comum que o filósofo grego Aristóteles (384 a.C.- 322 a.C.) chegou a estabelecer o conceito de “escravo natural”. Ou seja, haveria aqueles indivíduos que nasceram destinados a serem escravos pela sua humanidade deficiente. Para ele também haveria o “escravo legal”, que diferentemente do natural, poderia de alguma maneira conquistar a sua liberdade. A proposta do moderno sistema escravocrata implantado nas Américas, por sua vez, encontra-se ainda mais radicalizada em relação à situação da Antiguidade Clássica. Uma discrepância crucial é que a diferença social não seria mais aplicada apenas a certos indivíduos considerados de natureza humana deficiente, mas sim à um grupo humano específico, que traria na cor da pele os sinais da sua inferioridade da alma (BARROS, 2013). A inferioridade, por sua vez, viria, na época moderna, justificada por interpretações de passagens bíblicas como a clássica “maldição de Cam” associada arbitrariamente aos povos africanos. O discurso do escravismo colonial, portanto, tratará de associar a escravidão às diferenças de cor e de geografia: o negro e o africano. 56 Deve-se, por fim, ressaltar que os ibéricos não foram os primeiros a a propor a ideia de uma escravidão racial. O comércio islâmico de escravos, que já se desenvolvia séculos antes da chegada dos europeus no Norte da África, também se baseava em distinções raciais. Apesar de iniciar-se com uma concepção muito semelhante à da Antiguidade clássica: escravidão atrelada ao “estrangeiro”. Mas por constante presença islâmica no tráfico de escravos negros através do Norte da África, irá gradualmente se consolidar uma relação mais ligada à pigmentação da pele. Entretanto, a escravidão estabelecida no mundo árabe não pode ser comparada, em termos de abrangência e significação social, àquela verificada no mundo cristão (BARROS, 2013). 4.3 TRÁFICO TRANSATLÂNTICO Os navios portugueses foram os primeiros a transportar escravizados da África para as Américas. Entretanto, no auge do tráfico, no século XVIII, constata-se que boa parte dos escravizados foram transportados por embarcações inglesas, francesas, holandesas e dinamarquesas. Conforme destaca Florentino (1997, p. 150): [...] embora o tráfico atlântico se constituísse em um negócio de base local, em mãos de homens e de mulheres residentes nos maiores portos do Atla ̂ntico, sua rede de interesse abrangia milhares de pessoas na América, Ásia, Europa e África. Muitos participavam diretamente de sua organizac ̧ão, nas tripulac ̧ões dos tumbeiros, nas capturas, vendas e revendas dos cativos, dentre outras etapas. Indiretamente, porém, esse número era ainda maior, como por exemplo na construc ̧ão de navios e na produc ̧ão de manufaturas que, junto com produtos tropicais, participavam do escambo. O tráfico de escravizados, portanto, era um dos mais importantes ramos do De acordo com a passagem Bíblica, o mundo pós-dilúvio teria sido dividido entre os três filhos de Noé: Sem, Jafet e Cam. Na interpretação moderna da passagem, Sem teria povoado a Ásia (os semitas), Jafet a Europa e Cam a África. Cam, por sua vez, teria recebido uma maldição de seu pai por zombar dele e de acordo com as palavras de Noé, os descendentes de Cam seriam eternamente servos dos servos de seus irmãos. Por conclusão, os descendentes de Cam, os africanos, seriam, portanto, destinados por uma maldição bíblica à escravidão eterna. 57 comércio internacional e envolvia poderosos grupos econômicos, por isso oenvolvimento de diversos países na lógica comercial. Este peso econômico do tráfico ajuda a explicar como foi possível o transporte de almas subsistir por tanto tempo. Figura 5: Navio Negreiro Fonte: Rugendas (1830) Segundo o balanço feito Lovejoy (1982), há um consenso a respeito dos números de africanos que foram embarcados no tráfico atlântico: 11.863.000 e que entre 9.600.000 e 10.800.000 teriam chegado às Américas. Tais números, contudo, dependem da taxa de mortalidade no trajeto, lembrando que as condições nas quais os africanos eram transportadas eram muito precárias e cruéis. Lovejoy estima uma perda de 15% de mortalidade na travessia. No caso brasileiro, por sua vez, a estimava baseada nos estudos de Robert Conrad, indicam que 100 mil africanos entraram no Brasil no século XVI, quatro milhões nos séculos XVII e XVIII e mais de um milhão e meio nos últimos anos do tráfico, na primeira metade do século XIX (CONRAD, 1985). No momento inicial, o sistema era assegurado por traficantes portugueses (na sua maioria) estabelecidos nos principais portos brasileiros. Os grandes compradores, antes de 1700, eram os senhores de engenho. Com a drástica baixa no preço do açúcar brasileiro (ocasionado pela concorrência com o açúcar produzido nas Antilhas), grande parte do setor açucareiro brasileiro foi destruído, levando muito tempo para se recuperar. Mesmo regiões como a Bahia, que conseguiram manter- se apesar da crise, não vivia mais a opulência de outrora. O valor do escravizado, que já era alto, tornou-se exorbitante. 58 A descoberta de ouro na região hoje conhecida como Minas Gerais, por sua vez, gerou novamente um aumento na demanda por escravizados no Brasil. Os negociantes da Bahia perceberam a oportunidade de grandes lucros especialmente em função do preço do cativo e do pagamento em ouro. Essa transferência da demanda para Minas gerou também uma modificação significativa no tráfico. Os traficantes foram se desvinculando dos proprietários de terras e diversificando o mercado no Brasil. O tráfico, então, passava a ser uma atividade em si. O escravizado, por sua vez, começou a passar por várias mãos até chegar ao seu destino final – o que encarecia ainda mais o valor. Isso irá, por sua vez, desenvolver o tráfico interno. Na sequência, já no século XIX, o café irá se tornar o principal produto exportador da economia brasileira, e para ele irá se deslocar um gigantesco contingente de mão-de-obra escrava para as regiões produtoras, especialmente na região de São Paulo. Foi nesse período que o Brasil registrará a maior concentração de entrada de escravizados africanos. Ressaltamos, contudo, que em diversas outras partes do Brasil outras atividades também irão utilizar-se dessa força de trabalho, como no norte com a extração da borracha, por exemplo. 59 Ao longo de todo processo, as flutuações dos preços dos escravizados e as ações de piratarias de navios estrangeiros prejudicaram o tráfico, mas não foram suficientes para desmantelá-lo. O fim do tráfico só foi efetivado com muita pressão inglesa, que após proibir o tráfico de escravizados para suas colônias nas Antilhas, viu o preço do açúcar disparar. Em contrapartida, o caso brasileiro mantinha seu preço mantendo o tráfico e a força de trabalho escravizada. Para controlar a competição, os ingleses iniciaram uma ofensiva contra o tráfico. Paulatinamente, foram cerceando o mesmo. Primeiro, D. Pedro I, em 1826, assinara uma Convenção que estabelecia um prazo de três anos para extinguir o tráfico nacional e em 1831 teve-se a primeira lei a proibir a importação de escravizados no Brasil. A Lei Feijó acabou ficando conhecida como “lei para inglês ver” em função da sua não efetividade, apesar dos esforços do governo brasileiro para aplicá-la por cinco anos. Em 1845, o Parlamento do Reino Unido autorizou os britânicos a prender qualquer navio suspeito de transportar escravizados no Oceano Atlântico. Na sequência, pressionado, o governo brasileiro acaba sancionando a Lei Eusébio de Queirós, em 1850, proibindo, enfim, o tráfico. Vale ressaltar, contudo, que apesar de proibido o tráfico transatlântico, permanecia o tráfico no interior do Brasil. O movimento de escravizados, portanto, irá ainda ocorrer praticamente até a época da abolição. Em 1999 foi lançado um grande banco de dados contendo informações sobre milha- res de viagens do tráfico negreiro. A sua versão online, Transatlantic Slave Trade Data- base, contou ainda com a colaboração de dezenas de historiadores do mundo intei- ro. Nele é possível encontrar estimativas sobre o tráfico do século XVI ao XIX, por por- tos de embarque e desembarque. Disponível em: https://bit.ly/2ZSgpfW. Acesso em: 16 out. 2020; Assista o vídeo em 3D de um tumbeiro. Disponível em: https://bit.ly/3km7uKN. Acesso em: 16 out. 2020; No seu livro “A abolição do tráfico de escravos no Brasil: A Grã-Bretanha, o Brasil e a questão do tráfico de escravos, 1807-1869”, Leslie Bethel (2002) mostra como os pode- res britânicos ampliaram-se no combate ao tráfico levando o Brasil a concordar, pelo Bill Aberdeen de 1845, que o tráfico negreiro fosse considerado pirataria. Leia mais em: https://bit.ly/3eRzZPB. Acesso em: 16 out. 2020. 60 4.4 ESCRAVIDÃO NO BRASIL A origem dos escravizados no Brasil era inicialmente africana. Nesse continente, a escravidão já se fazia sentir mesmo antes da chegada dos europeus, mas a forma como essa instituição se estabelecia entre as sociedades africanas era diferente daquela desenvolvida a partir do tráfico mercantil. No caso africano, a escala era menor e os escravizados eram geralmente prisioneiros de guerra e por dívida. Não era raro, contudo, após algumas gerações, era possível ocorrer o fim das relações escravistas. Além disso, conforme ressalta John Thornton, muitos escravizados conseguiam inserir-se socialmente ocupando cargos importantes (THORNTON, 2004). Contudo, as relações mercantis estabelecidas pelo comércio moderno eram diferentes e alteraram, inclusive, a lógica local (demográfica, política, econômica e sociocultural) das sociedades africanas. Nesse novo cenário, o escravizado era tratado como mercadoria, não havendo nenhuma preocupação em respeitar sua natureza humana. No mercado do Vallongo, no Rio de Janeiro, gravuras e descrições mostram pessoas cativas à venda sendo examinados como animais. Pais e filhos separados por compradores que não tinham interesse na família inteira. Enquanto mercadoria, além de comprado, vendido ou alugado, a pessoa escravizada podia ainda ser oferecida como fiança e trocado por bens móveis e imóveis (PINSKY, 2010). Figura 6: Mercado da rua do Valongo Fonte: Debret (1835) 61 Como mencionado no item anterior, inicialmente, a grande lavoura fora a principal demanda por mão-de-obra escrava. Baseada na família de proprietários – da terra e dos escravos – girava em seu entorno feitores, agregados e escravizados. Conforme ressalta Jaime Pinsky, na lavoura, os horários, as tarefas o ritmo e os turnos de trabalhos eram determinados pelo proprietário e sua equipe (PINSKY, 2010). Os escravizados trabalhavam, assim, em ritmos intensos plantando, cultivando e beneficiando a cana para transformá-la em açúcar. A complexidade e diversidade da atividade, exigia, por sua vez, a adoção de uma grande quantidade de braços. Já no século XX, quando o café começa a se constituir como o principal produto exportador, a força de trabalho escrava é então deslocada para essa atividade. Nas fazendas de cafés era comum uma jornada de trabalho de quinze a dezoito horas diárias iniciadas ainda de madrugada e assim como no caso da lavoura, muitos feriados e domingos não eram respeitados – dependia do interessedo senhor. Alguns senhores chegavam a pagar um pequeno valor para os trabalhos aos domingos – alguns escravizados, ao final da vida (quando não estavam mais produtivos para o seu senhor), conseguiam, com muita economia e trabalho, comprar sua liberdade (alforria). O retorno se dava pelas nove ou dez horas das noites. As refeições eram rápidas para que o trabalho não fosse interrompido por muito tempo e não raro é possível ler em fontes da época reclamações dos senhores enfatizando que os escravizados eram preguiçosos (PINSKY, 2010). Mas certamente, não eram essas as únicas atividades que utilizavam a mão- de-obra escrava no Brasil, como mencionado anteriormente, a extração aurífera utilizou-se muito dessa força de trabalho, bem como a prestação de serviços dos mais diversos como transportar mercadorias, executarem tarefas domésticas (muito do funcionamento da Casa Grande - e mesmo nas de casas menores - coube às mulheres escravizadas desde amamentar, as “amas de leite” e cuidar dos filhos da sua sinhá até lavar, passar, cozinhar dentre outras atividades internas), pedir esmolas em favor de seu proprietário dentre outras. 62 Figura 7: Augusto Gomes Leal com sua ama de leite Mônica (1860) Fonte: Vilela (2017) Em termos religiosos, assim como no caso indígena, os africanos escravizados Produzido em 2015, “Que horas ela volta?” Filme de Anna Muylaert, retrata o cotidiano da relação entre uma empregada doméstica, no caso Val (interpretada por Regina Casé), e a família que a contrata residente do rico bairro paulistano, Morumbi. O filme mostra as contradições dessas relações ambíguas que, travestidas de uma suposta amizade e afeto, possibilitam a exploração, segregação e desigualdade historicamente construídas e institucionalizadas no Brasil. Filme complet disponível emo: https://bit.ly/34wzZkX. Acesso em: 16 out. 2020; De acordo com os dados estatístico do IBGE de 2011, o número de empregados domésticos no Brasil era de 6,6 milhões de pessoas (o país com o maior número de empregados domésticos no mundo), sendo que 61% dessas pessoas eram negras. Lembrando que a aprovação da “PEC das domésticas” de 2013, que apenas dava os direitos às empregadas domésticas já garantidos constitucionalmente a todos os trabalhos desde 1988, gerou muita crítica. Ao ver o filme observe: Como se estabelece às relações entre Val e os filhos da sua patroa? Quais os direitos trabalhistas estão assegurados à funcionária e quais não estão? Quais as transformações ocorridas com a chegada da filha de Val? Agora, analise o filme à luz dos dados apresentados pelo IBGE e reflita acerca des- sas questões fazendo um paralelo com o passado escravista brasileiro. É possível considerar o alto índice de emprego de mulheres (especialmente afro- descendentes) na organização da esfera doméstica de outras famílias no Brasil uma herança escravista? Seria essa relação uma justificativa para o caso do Brasil ser o país que mais adota esse tipo de trabalho por tantos anos sem os devidos direitos trabalhistas? 63 eram batizados e convertidos ao catolicismo. A adoção de um novo nome “cristão” e todo o processo de imposição religiosa foi também uma importante e simbólica repressão e imposição da identidade de escravo, conformado e submisso ao seu senhor e à sua situação. Mas não há como ignorar, a resistência cultural e é até mesmo física (como a revolta dos Malês) desenvolvida em oposição. No plano cultural, o catolicismo irá sofrer alterações significativas. O sincretismo religioso é uma importante característica da adaptação do catolicismo por parte dos escravizados, além da manutenção da adaptação de religiões de matriz africana como o Candomblé (perseguido e repreendido até os dias atuais, a julgar pela violência que os praticantes sofrem ainda hoje no Brasil). Aliás, tão intensa quanto a escravidão foram os tipos de resistências à ela. Esta se revelou das mais variadas formas desde a recusa em deixar sua terra natal até as ações mais radicais como assassinato de senhores e escravizadores. Também podemos citar a resistência cultural já mencionada a partir do sincretismo, das manutenção e adaptação de rituais religiosos, da capoeira, bem como a formação específica de estruturas familiares nas senzalas dentre outras. Movimentos organizados – como fugas e formação de quilombos – também revelam uma dimensão importante da resistência. Até a abolição da escravatura, em 1888, os movimentos em prol da liberdade do cativo eram quase sempre clandestinos. Sendo o escravizado considerado propriedade privada, fugas (mencionadas com frequência em anúncios de jornais) e revoltas (Revolta dos Malês, por exemplo) ameaçavam a ordem vigente e obviamente causavam prejuízos econômicos – o que se tornava motivo para repressão violenta. No cotidiano do trabalho, diversas formas de Na Bahia (Salvador) ocorreu, em 1835, um movimento por parte de africanos muçulmanos escravizados que lutavam contra a sua condição e contra a imposição de outras religiões. Esse movimento teve muita repercussão e ficou conhecida como Revolta dos Malês. O levante foi reprimido pela polícia com armas de fogo. A seguir um vídeo de Lilia Schwarcz acerca da revolta dos Malês: https://bit.ly/3htQnpZ. Acesso em: 16 out. 2020 64 castigos demonstravam a perversidade da relação escravista. Mesmo com diversas leis, portarias e recomendações buscando controlar o “excesso” da crueldade do tratamento (não a violência em si), os senhores se sentiam no direito de descumprir leis que atentassem à sua condição de donos. Mas o sistema escravista, de maneira geral, permitia aos proprietários uma série de práticas de coação física para fazer o escravizado cumprir suas obrigações e os impedisse de fugir. Acesso em: 16 out. 2020; Acesso em: 16 out. 2020; Acesso em: 16 out. 2020; Acesso em: 16 out. 2020; Acesso em: 16 out. 2020. Acesso em: 16 out. 2020; 65 FREYRE, Gilberto. Casa grande & senzala. São Paulo: Global, 2003. Disponível em: https://bit.ly/3pqBV6s. Acesso em: 16 out. 2020.; CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na Corte. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. Disponível em: https://bit.ly/2Uolt8p. Acesso em: 16 out. 2020.; SLENES, Robert Wayne. Na senzala, uma flor – esperanc ̧as e recordac ̧ões na formacã̧o da família escrava: Brasil Sudeste, século XIX. 2a ed. corrigida. Campinas: Editora da Unicamp, 2011.; SOARES, Mariza de Carvalo. Devotos da cor. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.; REIS, João José. Rebelião Escrava no Brasil, a História do Levante dos Malês em 1835. Cia. das Letras. COSTA, Emilia Viotti da. Coroas de glória, lágrimas de sangue: a rebelião dos escravos em Demerara em 1823. São Paulo: Companhia das Letras , 1998.; FLORENTINO, Manolo. Em costas negras: uma história do tráfico atlântico de escravos entre a África e o Rio de Janeiro (séculos XVIII e XIX). Rio de Janeiro : Arquivo Nacional, 1995.; SCHWARTZ, Stuart B. Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial. Companhia das Letras: São Paulo, 1995. Disponível em: https://bit.ly/3nj2CYU. Acesso em: 16 out. 2020.; PINSKY, Jaime. Escravismo colonial. São Paulo: Editora Contexto, 2010. Disponível na Biblioteca Pearson: https://bit.ly/3f8a6eB. Acesso em: 16 out. 2020.; GOMES, Flávio. Palmares: Escravidão e Liberdade no Atlântico Sul. São Paulo: Editora Contexto, 2005. Disponível em: https://bit.ly/3eXeMnf. Acesso em: 16 out. 2020.; MATOS, Hebe Maria. Escravidão e cidadania no Brasil monárquico. Rio de Janeiro: Zahar, 1999. Disponível em: https://bit.ly/3ltxMwb. Acesso em: 16 out. 2020.;66 FIXANDO CONTEÚDO 1. (Professor de História – Prefeitura de Salvador/Bahia) “Os grupos de escravos egressos da Costa da Mina, sob diferentes identidades (Nagô, Hauçá, Jeje, Tapa), promoveram o maior ciclo de revoltas escravas africanas de que se tem notícia na história do Brasil. O caráter de resistência sistêmica à escravidão só teve equivalente, antes, na Guerra dos Palmares e, depois, no movimento abolicionista da década de 1880. Com efeito, entre 1807 e 1835, a Bahia viveu um período de rebeliões contínuas dos escravos africanos, cujo ápice foi a Revolta dos Malês.” REIS, João José. Rebelião Escrava no Brasil, a História do Levante dos Malês em 1835. Cia. das Letras. Completando 175 anos em 2010, a Revolta dos Malês, na Bahia, embora não tenha conseguido modificar a ordem escravista brasileira, teve um aspecto bastante representativo, uma vez que a) foi o levante de escravos urbanos, na sua grande maioria de religião muçulmana, mais sério ocorrido no Brasil. b) foi um levante de escravos com objetivos claros e definidos, o que justifica a sua longa duração. c) foi, por meio dessa Revolta, que, pela primeira vez, um grupo de escravos ocupou, ainda que por curto período, o poder em Salvador. d) precipitou a assinatura da Lei Eusébio de Queirós, que extinguiu o tráfico negreiro. e) acelerou a introdução de imigrantes para substituir a mão de obra escrava negra. 2. (IF-PA/professor de história) “Os negros escravizados procuraram sempre que puderam resistir à opressão a eles imposta no interior dos complexos mundos da escravidão. Buscavam nas diversas formas de enfrentamento [...] conquistar aquilo que concebiam como liberdade” GOMES, Flávio dos Santos. Em torno dos bumerangues: outras histórias de mocambos na Amazônia colonial, IRevista USP, São Paulo (28), Dez-Fev. 1995, p. 41. Com base nos debates historiográficos sobre os mundos da escravidão e a resistência escrava é possível assinalar que 67 a) pesquisas recentes reforçam os quilombos como um dos grandes exemplos do protesto negro. Sua manutenção fundamentava-se no distanciamento geográfico e o isolamento total dos quilombolas, que garantiu por sua vez, a experiência da liberdade, com forte solidariedade entre seus membros. b) historiadores ainda defendem que a presença negra foi pouco significativa na economia regional dos séculos XVII e XVIII, fundada predominantemente sobre o trabalho indígena. Afirmam que os africanos não conheciam a região e nem a floresta e, por isso, preferiam-se os índios. c) várias foram as experiências de resistência da massa escrava na Amazônia como reação ao sistema opressor, mas os protestos assumiram dimensão política quando do calor e da efervescência das campanhas abolicionistas no século XIX. d) estudos revelam novos mundos, marcados por dores, lutas e embates cotidianos de africanos e índios. Quando aquilombados, andavam armados, caçavam, “salgavam” carne para comercializar, faziam roças, tijolos, extraiam madeiras etc..., contudo, não amedrontavam as autoridades locais certas que o “fantasma haitiano” não chegou à Amazônia. e) fugitivos escravos buscavam a liberdade até com mocambos em regiões de fronteira. Como hidras renasciam em todo lugar e contavam com a ajuda de cativos nas plantações, vendeiros, índios, vaqueiros, comerciantes, camponeses, soldados e marinheiros numa rede de cooperação e conflito. 3. (IF-TO/professor de história) A influência africana no processo de formação da cultura afro-brasileira começou a ser delineada a partir do tráfico negreiro, quando milhões de africanos "deixaram" forçadamente o continente africano e despontaram no Brasil para exercer o trabalho compulsório. Sobre esta temática é correto afirmar que a) houve uma homogeneidade cultural praticada pelos negros africanos, visto que esta homogeneidade era de certa forma favorecida pelas origens similares dos africanos, que oriundos do continente africano, acabavam por apresentava uma prática cultural muito semelhante em alguns aspectos devido à região que pertenciam. 68 b) além da prática cultural similar ressaltada, os africanos incorporaram práticas europeias e indígenas, além de influenciá-los culturalmente. O intercâmbio cultural entre os elementos citados contribuiu para uma formação cultural afro- brasileira pouco híbrida e peculiar. c) ao longo dos períodos pré-colonial, colonial, monárquico e republicano brasileiro, foi grande o contingente de escravos africanos no Brasil, visto que o país constituía o maior mercado consumidor do período. A contribuição desses escravos foi além da participação econômica, uma vez que foram inserindo suas práticas, seus costumes e seus rituais religiosos na sociedade brasileira, contribuindo, dessa forma, para uma formação cultural peculiar no Brasil. d) importante ressaltar que as práticas desses escravos africanos eram muito semelhantes entre si, pois eles eram oriundos do continente africano. De acordo com VAINFAS (2001 p.66) (2), durante o período pré-colonial e colonial, quase nada se sabia sobre a origem étnica dos africanos traficados para o Brasil. Porém, ao longo do período, passou-se a designá-los a partir da região ou porto de embarque, ou seja, das áreas de procedência. e) o escravo africano era um elemento de suma importância no campo econômico do período colonial sendo considerado "as mãos e os pés dos senhores de engenho porque sem eles no Brasil não é possível fazer, conservar e aumentar fazenda, nem ter engenho corrente" (ANTONIL, 1982, p.89) (1). Contudo, a contribuição africana no período colonial foi muito além do campo econômico, uma vez que os escravos souberem reviver suas culturas de origem e recriaram novas práticas culturais através do contato com outras culturas. (1) ANTONIL, André João. Cultura e Opulência do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia: São Paulo: EDUSP, 1982. (2) VAINFAS, Ronaldo. Dicionário do Brasil Colonial (1500-1808). Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. 4. (Prefeitura de Suzano/SP – Professor de História) A capoeira pode ser vista, da mesma forma que as irmandades religiosas e as reuniões em batuques, como um espaço construído por escravos libertos, africanos e crioulos, para encontros e afirmação de apoio e de solidariedade entre os membros de um mesmo grupo. Esses grupos distintos de capoeiras eram conhecidos por maltas. Eram verdadeiras organizações, marcadas por hierarquias, rituais e símbolos 69 específicos. [...] E os assobios marcavam o movimento dos componentes do grupo, a hora para atacar e o momento de retirada, além de alertarem para o perigo quando da chegada de inimigos ou policiais. Regiane A. de Mattos. História e cultura afro-brasileira De acordo com a autora, dentre as diversas possibilidades de análise, a capoeira pode ser estudada nas aulas de História como sendo um exemplo de a) superioridade cultural da etnia dos haúça. b) uma cultura subdesenvolvida que sobreviveu aos dias atuais. c) reprodução das desigualdades sociais e culturais. d) legitimação da estrutura social racista. e) resistência e oposição ao sistema escravista. 5. (Prefeitura de Sertãozinho/SP – Professor de História) Leia o texto. Os africanos foram trazidos do chamado “continente negro” para o Brasil em um fluxo de intensidade variável. Os cálculos sobre o número de pessoas transportadas como escravos variam muito. Estima-se que entre 1550 e 1855 entraram pelos portos brasileiros 4 milhões de escravos, na sua grande maioria jovens do sexo masculino. A região de proveniência dependeu da organização do tráfico, das condições locais na África e, em menor grau, das preferências dos senhores brasileiros. (Boris Fausto, História do Brasil, p. 51) Acerca do tráfico negreiro, é corretopovoou-o como se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor, seu silên- cio sem concentração, suas alegrias sem causa, sua felicidade sem dia seguinte… É ela o suspiro indefinível que exalam ao luar as nossas noites do norte. NABUCO, Joaquim apud VELOSO, Caetano. Noites do Norte. Disponível em:herdada da cultura ocidental europeia e que continua a condicionar o racismo após a escravidão. A oposição fundamental que comanda todas as classificações e distinções sociais na cultura ocidental de matriz europeia, lentamente formulada desde a antiguidade até a idade moderna e incrustada no cerne do capitalismo, é aquela entre mente e corpo. Ela determina o preconceito de classe, baseado na oposição entre trabalho manual e intelectual. Rege também a oposição entre os gêneros Perceba que, na sequência de autores tratados aqui, desde Joaquim Nabuco se aborda a escravidão enquanto uma instituição social – um conjunto de práticas, ideias e valores que orientam a vida social – e não apenas um regime de trabalho. O que varia, neste caso, são as estruturas sociais com as quais ela se relaciona. Para Nabuco e a geração de intelectuais do final do século XIX, a raça era uma estrutura biológica e social considerada enquanto um parâmetro científico. Já no século XX, após a guinada representada por Gilberto Freyre, o conceito cai em desuso nas ciências sociais e aos poucos as análises vão se concentrando sobre um outro parâmetro científico: o da classe. 78 masculino e feminino, bem como entre a raça branca e as raças não-brancas. O homem é, pretensamente, o portador das virtudes morais e intelectuais superiores. A mulher, por oposição, é percebida como repositária [sic] da sensibilidade, dos afetos e do mundo emocional associado às virtudes ambíguas da corporalidade. É essa associação inconsciente e pré-reflexiva que a torna suspeita, ainda hoje, para exercer cargos de comando por exemplo. Do mesmo modo, a "raça branca" é associada à europeidade e sua herança cultural, ao controle dos instintos e necessidades corporais em favor do autocontrole e disciplina. A "raça negra" é considerada inferior pela associação ao "primitivismo" africano que é percebido tal qual repositário de valores ambíguos como força muscular e sensualidade. […] No contexto estamental e adscritivo da sociedade escravocrata, a cor funciona como índice tendencialmente absoluto da situação servil, ainda que esta também assumisse formas mitigadas [...]. Na sociedade competitiva, a cor funciona como índice "relativo" de primitividade – sempre em relação ao padrão contingente do tipo humano definido como útil e produtivo no nacionalismo ocidental e implementado por suas instituições fundamentais – que pode ou não ser confirmado pelo indivíduo ou grupo em questão (SOUZA, 2006, p. 86). A cor e a raça são uma espécie de marcador social de diferença que atua hoje de forma relativa, e não mais absoluta como na sociedade de castas do regime escravista, porém ainda identificada a uma hierarquia moral etnocêntrica. Isto posto, a escravidão, tal como o patriarcalismo, são instituições sociais que ajudaram a socializar e a naturalizar no Brasil os parâmetros daquela hierarquia moral. Daí que atualmente os movimentos sociais ligados às questões da negritude e do feminismo insistam tanto na quebra dos estereótipos de raça e de gênero. Com base neste último item da unidade, você é capaz de perceber a relação entre a quebra de estereótipos sociais e a demanda por representatividade social desses segmentos da população? Quão importante na formação de um indivíduo é crescer sendo capaz de se identificar com personagens e figuras públicas do seu gênero e etnia? Como essa representatividade contribui para romper com aquela hierarquia moral etnocêntrica identificada à pouco? 79 FIXANDO O CONTEÚDO 1. Em sua obra "O Abolicionismo", Joaquim Nabuco afirma: "Para nós a raça negra é um elemento de considerável importância nacional, estreitamente ligada por infinitas relações orgânicas à nossa constituição, parte integrante do povo brazileiro. Por outro lado, a emancipação não significa tão somente o termo da injustiça de que o escravo é martyr, mas também a eliminação simultânea dos dois typos contrários, e no fundo os mesmos: o escravo e o senhor." (NABUCO, Joaquim. O Abolicionismo. Edição fac-similar. Recife. Fundação Joaquim Nabuco. Ed. Massangana. 1988. p. 20) Em relação à condição do negro na sociedade brasileira, é correto afirmar que a) a abolição representou uma perda total da mão de obra pelos antigos senhores. b) o fim da escravidão possibilitou ao negro liberto a integração no mercado de trabalho e o livre acesso à terra. c) as Sociedades Libertadoras tinham como objetivo principal promover a integração do ex-escravo na sociedade, garantindo-lhe os direitos de cidadania. d) a diferença entre o processo abolicionista ocorrido nos Estados Unidos da América e o ocorrido no Brasil foi a ausência de preconceito racial em nosso país. e) o negro livre permaneceu à margem do universo cultural estabelecido por uma sociedade regida pelo branco e continuou sujeito ao preconceito e a novos mecanismos de controle social. 2. (UERJ 2014 – ADAPTADO) “A redenção de Cam” (1895), de Modesto Brocos y Gomes (Foto: itaucultural.org.br) 80 No I Congresso Mundial das Raças, ocorrido em Londres em 1911, o médico João Baptista de Lacerda ilustrou suas reflexões sobre a sociedade brasileira analisando a tela “A redenção de Cam”, que retrata três gerações de uma família. Essa pintura foi utilizada na época para indicar a seguinte tendência demográfica no Brasil: a) controle de natalidade. b) branqueamento da população. c) equilíbrio entre faixas etárias. d) segregação dos grupos étnicos. e) anti-miscigenação. 3. (VUNESP) “A desagregação do regime escravocrata e senhorial ocorreu, no Brasil, sem que se oferecesse aos antigos agentes do trabalho escravo assistência e garantias que os protegessem na transição para o sistema de trabalho livre. Os senhores foram eximidos da responsabilidade pela manutenção e segurança dos libertos, sem que o Estado, a Igreja ou qualquer outra instituição assumissem encargos especiais, que tivessem por objeto prepará-los para o novo regime de organização da vida e do trabalho.” (Florestan Fernandes. A integração do negro na sociedade de classes. Volume 1, São Paulo: Editora Globo, 2008, p. 29. Adaptado) Segundo o texto, o processo de abolição da escravatura no Brasil a) negou aos libertos o auxílio necessário para que se adaptassem às novas condições sociais. b) ofereceu recursos institucionais para proteger e amparar os libertos na nova estrutura social. c) impôs aos antigos senhores a obrigação de oferecer boas condições de vida aos libertos. d) concedeu aos ex-escravos formação profissional para atenderem o mercado de 81 trabalho. e) proporcionou condições para que os antigos escravos fossem inseridos facilmente na sociedade. 4. A teoria da democracia racial, derivada a partir da hipótese de pesquisa desenvolvida por Gilberto Freyre, principalmente com sua obra “Casa-Grande e Senzala”, pode ser relacionada à política de cotas implementada nos institutos federais a partir da Lei 12.711 de 29 de agosto de 2012. Dentre as opções abaixo, marque a CORRETA em relação aos conteúdos do enunciado acima. a) A teoria desenvolvida por Gilberto Freyre contribui para explicar a diferença entre os níveis de violência racial ocorridos nos EUA e no Brasil, bem como sustenta teoricamente a política de cotas raciais adotada em nosso país. b) A teoria da democracia racial, derivada da obra de Freyre, sustenta uma suposta convivência pacífica e democrática entre os negros, indígenas e brancos europeus, de modo a sustentar a política de cotas raciais. c) A teoria desenvolvida por Freyre atribui uma visão romantizada da realidade, tornando invisíveis várias formas de violência praticadas por brancos europeus em relação aos negros. A política de cotas raciais,Veremos o processo de escravidão dos indígenas, seus formas de resistência bem como as imagens criadas e divulgadas acerca dessas populações. Nesta unidade estudaremos as políticas desenvolvidas para lidar com a questão indígena ao longo da História do Brasil independente. Compreenderemos o histórico de criação das primeiras instituições governamentais e suas ações. Nesta unidade conheceremos as lutas e demandas da população indígena brasileira, especialmente no âmbito da educação, e os direitos adquiridos pela Constituição de 1988. Nesta unidade vamos discutir o conceito de escravidão moderno, bem como a estrutura sócio-econômica do tráfico transatlântico de escravizados e a própria escravidão no Brasil. Além disso, abordaremos as formas de resistência escrava destacando o papel ativo dos indivíduos escravizados dentro da própria lógica escravocrata. Nesta unidade conheceremos a discussão sobre a escravidão como uma característica nacional do Brasil no âmbito do pensamento sociológico e político brasileiro, sobretudo do ponto de vista da formulação da tese da democracia racial e de sua crítica. Nesta unidade nos voltaremos para a compreensão dos sentidos da negritude enquanto uma experiência social que aponta, de um lado, para a ancestralidade cultural de matriz africana, e de outro, para os paralelos com os diferentes modos de vida das populações negras ao redor do mundo no contexto da chamada "diáspora africana". 8 POVOS INDÍGENAS E A COLONIZAÇÃO PORTUGUESA 1.1 INTRODUÇÃO Antes da chegada dos europeus às terras americanas, e à terra que daria origem ao país chamado Brasil, já habitavam este território povos diversos em termos linguísticos, culturais, políticos e econômicos – nesse sentido, são considerados povos nativos e/ou originários. Contudo, não se sabe exatamente de onde vieram, algumas teorias não consensuais apontam para a Ásia de onde teriam vindo pelo Estreito de Bering (faixa de terra congelada que ligaria a Sibéria ao Alasca) e outras para a Polinésia ou Oceania a partir de possíveis navegações. De acordo com o Instituto Socioambiental, estima-se que hoje o Brasil possua cerca de 256 povos falantes de mais de 150 línguas diferentes. Contudo, apesar de toda sua história e importante presença na formação do Brasil, a grande maioria dos brasileiros ainda ignora a imensa diversidade desses povos nativos que vivem no país. Mesmo em termos historiográficos, a densidade histórica do Brasil indígena e sua profunda influência na formação do Brasil foi por muito tempo ignorada. Na disciplina, portanto, vamos compreender mais sobre a história e cultura desses diversos povos que povoaram e povoam o território brasileiro, além de conhecer um pouco das suas lutas e demandas por reconhecimento. O Instituto Socioambiental (ISA) é uma organização não-governamental, sem fins lucrativos, fundada em 1994 com o objetivo de defender os bens e direitos humanos dos povos nativos. Acesse em: https://bit.ly/3nbxytY. Acesso em: 27 set. 2020; O programa Povos Indígenas no Brasil, por sua vez, é parte do portal do Instituto com oferece informações sobre os povos e a temática indígena. Para saber mais acesse: https://bit.ly/35oRDqD. Acesso em: 27 set. 2020. UNIDADE 9 1.2 A “QUARTA PARTE” DO MUNDO Quando os europeus chegaram no território que batizaram de América, por um equívoco histórico, toda a diversidade populacional que aqui já existia foi genericamente chamada de Índios e/ou Ameríndios. Mas por que o termo é considerado um equívoco histórico? Ao não reconhecerem as terras como um novo continente, julgaram ter chegada na região que almejavam alcançar para fins comerciais: a Índia. Expliquemos melhor isso. Para começarmos a compreender o contexto da época, é muito importante nos deslocarmos do nosso próprio. Como as pessoas daquela época pensavam? Como elas compreendiam o mundo? Pois bem, o mundo para os europeus medievais, de uma maneira geral, estava baseado nos ensinamentos bíblicos em função da importante e forte presença da Igreja Católica no cotidiano e na formação do conhecimento. Tendo a Bíblia como uma verdade absoluta, o mundo de então seguia sua narração. Assim, ele era dividido em três partes, que de acordo com a Bíblia, havia sido povoado, após o grande dilúvio, pelos três filhos de Noé: Sam, Jafé e Cam. Nesse sentido, de acordo com a interpretação bíblica da época, Sam teria povoado a Ásia, Jafé a Europa e Cam a África. Veja um esquema de mapa estilo T.O. comum na Idade Média para representar o mundo de então. Figura 1: Mapa Esquemático estilo T.O Fonte: Isidoro de Sevilha (1492) Antes de começarmos, faça um exercício e responda: o que é ser índio? O que você sabe e aprendeu sobre a população indígena no seu país? Na sequência, veja o que alguns brasileiros responderam essas perguntas no primeiro capítulo da sério Índios no Brasil: https://bit.ly/3kkPctn. Acesso em: 27 set. 2020. 10 Não havia, nesse sentido, espaço para uma quarta parte do mundo. Por conta disso, em um primeiro momento, quando os navegadores europeus desembarcaram nessas longínquas terras acreditaram que haviam chegado nas Índias, região que buscavam alcançar para comercializar. Conforme salienta Edmundo O’Gorman em seu livro A Invenção da América, Cristovão Colombo acreditou que havia chegada ao extremo oriente do mundo e todas observações que fazia eram provas empíricas de sua hipótese, respaldada, vale destacar, pela dimensão que a Ilha da Terra (como era chamado a parcela de terra habitada) possuía no imaginário de então. Somente com Américo Vespúcio que aquelas terras passaram a ser consideradas uma entidade geográfica desconhecida, um “Novo Mundo”. Apesar da posterior adequação da novidade, o termo genérico “índio” continuou a ser utilizado para denominar toda a diversidade populacional desse grande território que viria a ser chamado de América e é hoje adotado até por parte dos próprios nativos de maneira ressignificada. Contudo, não podemos desconsiderar a grande diversidade que eles possuem. Ou seja, apesar de usarmos um termo genérico para denominá-los não podemos unificar sua cultura, história, Apesar de ser muito comum falar-se em descobrimento da América, o historiador mexicano Edmundo O’Gorman, no livro citado de 1955, analisa que a América foi inventada e não descoberta. A América, nesse sentido, não existia antes da chegada do europeu, não possuía esse nome e nem os sentidos que ela representa. Ou seja, América não é algo natural, foi resultado da ação de agentes históricos. Para O’Gorman, ao se considerar que a América foi descoberta parte-se da noção de que a mesma já existia antes da chegada de Cristóvão Colombo e como já analisado anteriormente, nem mesmo Colombo considerou de imediato ter chegado na dita América. Considerar aquele território como uma nova parte do mundo, um novo continente chamado América foi um processo histórico. Disponível em: https://bit.ly/3eU2fB4. Acesso em: 27 set. 2020. 11 organização e língua. 1.3 A CHEGADA DOS EUROPEUS Ao chegarem ao território que viria ser o Brasil, os europeus logo perceberam que grande parte do litoral se encontrava ocupada por sociedades nativas, que compartilhavam, conforme ressalta Monteiro (1994), certas características básicas comuns à cultura tupi-guarani. No entanto, ainda assim, mantinham suas diversidades. Para enfrentar este problema, os europeus do século XVI resumiram o vasto panorama cultural em duas categorias genéricas: Tupi e Tapuia. Os Tupis seriam as sociedades litorâneas em contato direto com os europeus desde o Maranhão até Santa Catarina, incluindo os Guaranis. Já os Tapuias eram os grupos menos conhecidos dos europeus.nesse sentido, visa validar a teoria de Freyre. d) A teoria da democracia racial, derivada da obra de Freyre, mascara em grande medida a violência praticada por brancos contra negros no Brasil, sustentando de certo modo parte das críticas atribuídas à adoção de cotas raciais no país. e) A teoria da democracia racial de Freyre tem por princípio desvelar todas as formas de violência de brancos contra negros no Brasil, amparando teoricamente a adoção de cotas raciais como forma de compensação histórica. 5. Temos, no Brasil, uma grande diversidade cultural e racial. Descendentes de povos africanos e de índios brasileiros, de imigrantes europeus, asiáticos e latino- americanos compõem o cenário brasileiro. Por conta disso, podemos que afirmar que a) atualmente, o termo “pluralidade cultural” não se aplica ao Brasil por causa da 82 Globalização. b) a mistura de todas estas raças e etnias não caracteriza a identidade do povo brasileiro. c) o Brasil é um país dotado de uma ampla “pluralidade cultural”, ou seja, diferentes culturas foram e são produzidas pelos grupos sociais que fazem parte da nossa história. d) a diversidade cultural e racial não interfere nas formas com que os habitantes do Brasil organizaram sua vida social e política. e) ações racistas e discriminatórias não existem na sociedade brasileira por causa da grande diversidade cultural e racial do país. 83 NEGRITUDE, AFRODESCENDÊNCIA E DIÁSPORA AFRICANA 6.1 INTRODUÇÃO Na unidade anterior tratamos da herança histórica da escravidão da perspectiva do pensamento social brasileiro. Nesta, por sua vez, trataremos da experiência da descendência africana no Brasil do ponto de vista de uma sociologia das relações étnico-raciais. Nosso ponto de partida será uma brevíssima discussão do significado dos conceitos de raça e etnia no nosso mundo contemporâneo, de onde enveredaremos especificamente pelo debate acerca dos sentidos potenciais da negritude e da africanidade no contexto brasileiro, norte e sul-americano. No tocante à ideia de “raça”, uma boa introdução pode ser encontrada logo no início do livro Racismo Estrutural, de Silvio Almeida. Ali, o autor nos informa que raça é um conceito historicamente utilizado, sobretudo desde a época da expansão ultramarina europeia no século XVI, para distinguir e classificar grupos humanos conforme as suas características físicas, os seus costumes e o seu modo de vida adaptado a uma determinada região (AMEIDA, 2019). Desde antes de sua incorporação pela biologia, a ideia de raça tem essa tripla dimensão: corporal, cultural e geográfica. As teorias do racismo científico do século XIX e da primeira metade do século XX buscaram dar sustentação biológica à ideia de raça, como se o modo de ser dos indivíduos fosse determinado por uma rígida correlação de características físicas e morais repartidas conforme uma hierarquia profundamente etnocêntrica, neste caso, eurocêntrica (ver nesse sentido o final da última unidade). Perceba que, dito isto, já avançamos, quase sem querer, sobre a ideia de “etnia”, de modo que convém defini-la. Afinal, o que é uma “etnia”? Raça e etnia são sinônimos? No contexto científico atual, em que as teorias do racismo científico foram invalidas, o termo etnia é usado de modo análogo, porém diferente. Sai o critério físico e ambiental, ganhando prevalência os critérios culturais e geográficos. Assim, UNIDADE 84 o que define uma etnia não são características físicas comuns, mas o compartilhamento de uma mesma origem cultural e histórica, isto é, uma mesma genealogia ou ancestralidade. Raça, contudo, permanece um conceito largamente utilizado na linguagem coloquial, sobretudo em sentido social e político. 6.2 DIMENSÕES DA NEGRITUDE “O caso do Brasil demonstra com muita ênfase que a identidade étnica é um constructo social de caráter contingente e que difere de um contexto para outro”, já observou Sansone (2004, p. 12), professor da Universidade Federal da Bahia e importante pesquisador do campo da sociologia das relações étnico-raciais no país. Com isso quis dizer que a etnicidade não está inscrita na natureza dos povos, e que são fatores sociais e históricos que levam à sua configuração, mais ou menos acentuada, em cada país. A pele negra por si só não produz o pertencimento étnico. Os conceitos que utilizamos para expressar nossas ideias tendem a ser polissêmicos, razão pela qual encontramos sobreposi- ções no uso dos conceitos de raça, etnia e nacionalidade em diversas formas de dis- curso, nas mais variadas circunstâncias. No diagrama ao lado, onde você incluiria as seguintes afirmações? - A anemia falciforme atinge principalmente a raça negra; - Dicas de beleza para o cabelo/penteado afro/étnico; - Ticura, Guarani e Caingangue são etnias diferentes; - Churchill acreditava na superioridade da raça britânica; - O racismo na Turquia levou a um etnocídio dos curdos; - Bolívia, oficialmente, Estado Plurinacional da Bolívia; - Nascidos no território nacional são cidadãos brasileiros. Que outros exemplos você incluiria neste diagrama? 85 Ao tratar dos usos e sentidos da negritude em texto clássico sobre o assunto, outro importante pesquisador do tema, o antropólogo congolês radicado no Brasil, Kabengele Munanga, observa que, entre a população negra sem relação com os cultos religiosos de matriz africana, a ancestralidade fica em segundo plano diante da resistência à exploração econômica e à discriminação racial. Por isso, “[n]a militância negra há uma tomada de consciência aguda da perda da história e, consequentemente, a busca simbólica de uma África idealizada.” (MUNANGA, 2009, p. 133). Assim, esquematicamente, podemos dizer que o espectro das identidades negras no mundo contemporâneo, e a própria experiência da negritude, se constitui entre o passado e o presente, entre o centro e a periferia: entre o passado da diáspora africana e o presente das experiências de vida das populações negras, sobretudo na periferia dos grandes centros urbanos; entre um modo de ser mais integrado ou mais marginalizado em relação aos padrões culturais dominantes – padrões de beleza, de gosto, etc. –, cuja matriz remonta ao colonialismo europeu. 6.3 NEGRITUDE E AFRODESCENDÊNCIA Infelizmente, há quem pense que afrodescendente é apenas o sinônimo “politicamente correto” de negro ou de preto. Mas quem concebe o adjetivo dessa forma, reducionista, confunde raça e etnia. Como vimos acima, as expressões da negritude são diversas, e não é toda a população negra no Brasil que se define ou se reconhece enquanto afrodescendente. A afrodescendência é o sentimento de pertencimento étnico de parte da população negra brasileira, que percebe, no Moda como índice de expressões da negritude: ao centro, homem com camisa e adereços étnicos; à esquerda, jo- vem negra com calça jeans e blusa; à direita, jovem negro usando boné e camisa larga. Fonte: COLETIVO FORA DO EIXO. IX Marcha da Consciência Negra: Cotas Sim, Genocídio Não, no Dia da Consciência Negra. São Paulo (SP), 20/11/12. Disponível em: https://bit.ly/3f0IcRE. Acesso em 26 out. 2020 86 resgate e valorização das culturas de matriz africana, uma expressão autêntica da sua negritude. 6.4 O CULTO ÀS RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA Para algumas pessoas e grupos, a afrodescendência se expressa no culto às religiões de matriz africana, que tem talvez o seu exemplo mais notório no candomblé da Bahia, característico sobretudo da região do recôncavo baiano. O candomblé é uma religião afro-brasileira organizada em torno do culto a uma divindade superior e a uma série de entidades – compreendidascomo a personificação de forças da natureza ou como espíritos de ancestrais ilustres – chamadas de orixás, voduns ou inquices, dependendo da “nação” – termo de significado específico no candomblé. [O candomblé] refere-se ao sistema social e sagrado dos [grupos étnicos] iorubás/nagôs. Esse sistema nasce das histórias dos orixás que representam os elementos da natureza e importantes personagens relacionados ao poder hierarquizado em [antigos] reinos e Cidades- Estados [do continente Africano]. Exemplo é o reino de Oió, cujo alafim [rei] mais notável foi Xangô, ou, ainda, o reino de lfé com o reinado de Oxalá, e entre outros. Assim, os orixás, são amplamente popularizados e relacionados a processos de memória, identidade e principalmente de resistência afrodescendente. […] Além dos deuses que dominam os elementos da natureza, o tema ancestralidade é fundamental aos sistemas sociais, hierárquicos e religiosos dos africanos e de suas relações no Brasil. Assim, já nacional, o caboclo é a síntese do ancestral dono da terra, terra brasileira (LODY, 2008, p. XII). Cada “nação” no candomblé representa a herança de um dialeto, de uma liturgia e de um determinado modo de percutir os atabaques, legado por um dos grupos étnicos originais a que pertenciam as populações de escravos trazidos à força para o Brasil durante o período colonial. Os rituais são praticados em lugares sagrados chamados de “casas” e “terreiros”, com realização de oferendas aos orixás, na forma de danças, comidas e bebidas. As performances variam de terreiro para terreiro, de nação para nação, e de babalorixá (pai ou mãe de santo) para babalorixá. Quando, na segunda metade do século XIX, com o fim do tráfico e o decréscimo progressivo de africanos no Brasil, as denominações étnicas dos grupos africanos deixaram de ser operacionais para a classe senhorial, elas persistiram entre os africanos e seus 87 descendentes crioulos no âmbito de suas redes de solidariedade familiar e, sobretudo, de práticas religiosas. A identidade étnica foi sendo acomodada àquele território de sociabilidade que era controlado exclusivamente pela população negro-mestiça, em que ainda era possível estabelecer relações de contraste internas. Vivaldo da Costa Lima, no seu já clássico artigo “O conceito de nação nos candomblés da Bahia”, foi o primeiro autor a chamar a atenção sobre como, aos poucos, o termo "nação" foi perdendo [no candomblé a] sua conotação política para se transformar num conceito quase exclusivamente teológico. Nação passou a ser, desse modo, o padrão ideológico e ritual dos terreiros de candomblé da Bahia". Em outras palavras, nação passou a designar uma "modalidade de rito", ou uma "forma organizacional definida em bases religiosas (PARÉS, 2018, p. 102). Contudo, o caminho para a expressão da afrodescendência no Brasil está repleto de preconceitos de longa data, que revelam o racismo estrutural no nosso país. Se há um preconceito contra os evangélicos no Brasil, às vezes chamado de “cristofobia”, este não representa um obstáculo expressivo à manifestação da fé evangélica em seus locais de culto e à manutenção de suas instituições. O mesmo não pode ser dito do candomblé, prática historicamente referida de modo pejorativo como “macumba”, junto com a umbanda, ambas perseguidas durante a República Velha. Figura 8: Detalhe da crônica sobre um ritual de umbanda publicada no Diário da Tarde em 1929 Fonte: Pires (2019, online) 88 Convém não deixar de lado o fato de que a umbanda e o candomblé são religiões afro-brasileiras distintas. Enquanto o candomblé surge na Bahia no século XIX como forma de manutenção da cultura dos escravos no período pós-abolição, a umbanda surge nas primeiras décadas do século XX, como fusão de elementos de candomblé, catolicismo, espiritismo kardecista e referências indígenas, voltada à criação de uma autêntica religião brasileira e mestiça. Como observa o pesquisador Prandi (2004), a busca de aceitação pública moldou o desenvolvimento dessas religiões: Em resumo, ao longo do processo de mudanças mais geral que orientou a constituição das religiões dos deuses africanos no Brasil, o culto aos orixás primeiro misturou-se ao culto dos santos católicos para ser brasileiro, forjando-se o sincretismo; depois apagou elementos negros para ser universal e se inserir na sociedade geral, gestando-se a umbanda; finalmente, retomou origens negras para transformar também o candomblé em religião para todos, iniciando um processo de africanização e dessincretização para alcançar sua autonomia em relação ao catolicismo. Nos tempos atuais, as mudanças pelas quais passam essas religiões são devidas, entre outros motivos, à necessidade da religião se expandir e se enfrentar de modo competitivo com as demais religiões. A maior parte dos atuais seguidores das religiões afro-brasileiras nasceu católica e adotou a religião que professa hoje em idade adulta. Não é diferente para evangélicos e membros de outros credos (PRANDI, 2004, p. 224). Saiba sobre o histórico da perseguição social e jurídica às religiões afro-brasileiras, leia o artigo de João Ferreira Dias, “Chuta que é Macumba’: o percurso histórico-legal da perseguição às religiões afro-brasileiras”. Disponível em: https://bit.ly/3lsY1my. Acesso em 26 out. 2020.; Veja também o dossiê elaborado pela Época para a sessão Infográfico do site da revista em 2019 sobre a perseguição aos terreiros de candomblé no Rio de Janeiro desde o fim do século XIX: “Sagrado Perseguido”, por Juliana Dal Piva, Nicollas Witzel, Cíntia Cruz e Bárbara Libório. Disponível em: https://bit.ly/3f0MF6S. Acesso em 26 out. 2020. Além disso, é bom conhecer os dados da intolerância religiosa no Brasil. Para tanto, leia esta reportagem produzida pela BBC News Brasil em 2016 (Disponível em: https://bbc.in/2UrwohO. Acesso em 26 out. 2020.) e outra, pela Folha de São Paulo em 2020 (Disponível em: https://bit.ly/3ktrbk5. Acesso em 26 out. 2020). 89 A expressão da afrodescendência no culto às religiões de matriz africana não escapa, pois, à dinâmica observada de início acerca das dimensões da negritude. 6.5 OS REMANESCENTES DAS COMUNIDADES DOS QUILOMBOS A expressão da afrodescendência para uma parte da população negra das regiões rurais do país se dá a partir do reconhecimento de uma identidade quilombola. Mas para compreender isso, é importante distinguir o sentido original do sentido contemporâneo do termo “quilombo”. Durante os períodos colonial e imperial, “quilombo” era o termo usado para se referir a uma comunidade negra constituída por escravos fugitivos. Após a abolição, e com destaque a partir da Constituição de 1988, “quilombo” significa a comunidade negra rural constituída enquanto grupo étnico. Os remanescentes deste ou daquele quilombo são considerados grupos étnicos no Brasil de forma análoga às tribos indígenas, à diferença de que, o que os caracteriza é menos o compartilhamento de uma língua e de um tipo de sociedade diferente da sociedade brasileira, do que a manutenção de uma cultura e de um estilo de vida herdado de uma população de ex-escravos, não necessariamente de escravos fugidos. Exemplo disso é a preservação de dialetos crioulos, práticas religiosas mais ou menos sincréticas, e danças como o jongo. É nesse sentido que o dispositivo constitucional garante a essas comunidades tradicionalmente constituídas o direito de posse sobre o território que historicamente ocupam, como comenta O’Dwyer (2002, p. 16): A observação dos processos de construção dos limites étnicos e sua persistência no caso das comunidades negras rurais — também chamadas terras de preto, com a vantagem de ser uma expressão nativa, e não uma denominação importada historicamente e reutilizada — permite considerarque a afiliação étnica é tanto uma questão de origem comum quanto de orientação das ações coletivas no sentido de destinos compartilhados. 6.6 NEGRITUDE E DIÁSPORA A matriz cultural africana não diz respeito somente à herança dos grupos étnicos africanos que foram trazidos para o Brasil e para as Américas durante o período colonial. Diz respeito ainda ao repertório cultural produzido pelas 90 populações negras espalhadas pelo mundo em função dos séculos de tráfico negreiro no oceano Atlântico. Perceba que as experiências dessas populações negras constituem um patrimônio cultural que não tem origem na África, mas nesse contexto de imigração forçada, que se convencionou chamar de “a diáspora africana”. Na música, esse patrimônio é formado pelos ritmos do jazz, do blues, do soul, do rap, do hip-hop; do choro, do samba, do pagode, do maracatu, do axé; do reggae, etc. – para citar apenas os da América. A este propósito, Sansone (2004, p. 26) observa que o interesse dos jovens negros da América Latina pela África “é, muitas vezes, menos manifesto do que sua curiosidade sobre outras culturas negras, especificamente as dos Estados Unidos e, às vezes, da Jamaica. Muitos deles vêm lutando para redefinir um modo de serem negros que rime com a modernidade.” No Brasil, antes mesmo da abolição da escravidão, a busca de uma identidade negra levou à criação de diversas entidades e associações de promoção dos interesses dessas populações. Durante o Império, destacam-se a criação de sociedades abolicionistas pelos libertos a fim de obter recursos para a compra de alforrias. Após a abolição, a partir da década de 1910, surgem clubes sociais e recreativos voltados para negros em todo o Brasil, nos quais se realizavam festas, bailes e atividades esportivas, sem rígidos contornos étnicos. Observe que o candomblé, a umbanda e a identidade étnica quilombola também são expressões da negritude na diáspora, dado que nenhuma dessas manifestações culturais teve origem na África. Todavia são manifestações que, para dizer como Sansone (2004), “rimam” com a ancestralidade. Essa metáfora da rima é muito interessante, porque nos permite tratar a questão de uma forma não excludente. Veja por exemplo como um artista como Leandro Roque de Oliveria, o Emicida, rima ancestralidade e modernidade em canções como “Mandume” e “Mufete”, do Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa, seu disco de 2015. Disponível em: https://bit.ly/3eVsHdw. Acesso em 26 out. 2020. 91 Assim é possível observar, no contexto do pós-abolição, o surgimento de dois tipos de associações ou entidades civis criadas pela população negra para a população negra: os clubes recreativos e os movimentos culturais. Como analisa Lélia Gonzalez, antropóloga e fundadora do Movimento Negro Unificado (MNU), “esses dois tipos de entidades negras remetem-nos para dois tipos de escolha: o assimilacionismo e a prática cultural” (GONZALEZ, 1982, p. 22). O ponto de vista da autora enfatiza, no caso, as de segundo tipo, com destaque para algumas delas. A trajetória das entidades com perfil de prática cultural é tradicionalmente percebida enquanto uma sequência ininterrupta, que parte da atuação da Frente Negra Brasileira (1931-1938), passando pela da companhia teatral “Teatro Experimental do Negro” ou TEN (1941-1961), a poesia publicada na revista Cadernos Negros no final da década de 1970, e chegando, nesse mesmo período, à fundação do MNU – principal grupo de pressão por adoção de políticas públicas de reparação histórica e de ação afirmativa pelo Estado brasileiro. Conheça a história das escolas de samba, com essa matéria de Akemi Nitahara para a Agência Brasil. Disponível em: https://bit.ly/3lybM3d. Acesso em 26 out. 2020. Saiba mais sobre os clubes negros de Santa Catarina com essa matéria de Ana Cláudia Araújo. Disponível em: https://bit.ly/36yg9F5. Acesso em 26 out. 2020. 92 FIXANDO O CONTEÚDO 1. (CS-UFG ADAPTADO) A resistência à discriminação racial tem inúmeras expres- sões intelectuais e populares, seja nos Estados Unidos, nas Antilhas, na Europa ou na África, sendo identificadas, desde o início do século XX, com a noção de ne- gritude, que diz respeito à a) negação de acontecimentos históricos associados à escravidão e à ocupação imperialista. b) valorização das características culturais e físicas negras no contexto da ances- tralidade e da diáspora africana. c) unificação dos dialetos do continente africano para estabelecer a unidade polí- tica. d) liderança africana dos movimentos pelos direitos civis em curso nos outros conti- nentes. e) ocidentalização da cultura africana como forma de combate ao colonizador 2. (IF-SC ADAPTADO) A respeito dos estudos contemporâneos sobre a diáspora afri- cana, avalie as afirmações: I. ressaltam eventos socioculturais e políticos como a luta em prol dos direitos ci- vis dos descendentes africanos norte-americanos e os movimentos anticoloni- ais na África. II. representam uma inovação historiográfica, ao privilegiar uma visão da história da África que ultrapassa a simples visão moderna do escravismo ou do imperi- alismo da era contemporânea. III. revelam aspectos amplos e complexos a respeito da história dos grupos étni- cos africanos originais e a estrutura de suas relações sociais no continente afri- cano. IV. atribuem a importância do foco na diáspora como uma forma de suscitar o in- teresse por uma historiografia transnacional que seja capaz de conectar o passado e o presente das populações negras. V. buscam compreender a África na conjuntura transnacional, através de um olhar propriamente afro-centrado, afastando-se da concepção epistemológi- 93 ca tradicional e etnocêntrica. Estão corretas a) I, II e III, b) I, II, IV e V. c) II, IV e V. d) I e IV. e) II, III e IV. 3. (PUC-SP ADAPTADO) “No primeiro quartel do século XX, o intercâmbio entre afri- canos e negros da diáspora ocorreu de diversas formas. De um lado, por meio do retorno de afrodescendentes, principalmente da América do Norte, para a Libé- ria, mas também das Antilhas e Brasil para diversas regiões da África. De outro, através da saída de jovens pertencentes à elite africana para ingressar nas uni- versidades dos Estados Unidos e da Europa.” Regina Claro. Olhar a África. Fontes visuais para a sala de aula. São Paulo: Hedra, 2012, p. 151. O impacto do fenômeno apresentado no texto (“o intercâmbio entre africanos e negros da diáspora”) manifestou-se, entre outros fatores, no a) fim do preconceito racial nos Estados Unidos e na Europa ocidental, com a de- corrente ampliação, em diversos países, dos direitos civis das populações afro- descendentes. b) surgimento do Pan-africanismo e do movimento da Negritude, que rejeitavam as doutrinas sobre a inferioridade dos negros e defendiam o reconhecimento da cultura africana. c) esforço, pelos governos da maioria dos países africanos, de revalorização das religiosidades locais e de combate à influência cultural europeia e norte- americana. d) reconhecimento e na afirmação, pela Organização das Nações Unidas, da igualdade étnica e do direito de todos os povos de viverem de forma livre e au- tônoma. e) aumento da desigualdade racial em países de largo passado escravista, que por 94 último suprimiram o regime social baseado na mão de obra escrava de origem africana. 4. (CESPE - 2018 - IPHAN ADAPTADO) A partir dos anos 70 do século passado, a questão quilombola foi recolocada no contexto nacional com a “descoberta das comunidades quilombolas”, devido, em grande parte, ao movimento negro contemporâneo e ao exercício intelectual de autores como Abdiasdo Nasci- mento, Clóvis Moura, Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez, Joel Rufino e Kabengele Munanga, entre outros. Ao lado disso, é importante mencionar a mobilização po- lítica que culminou na publicação do artigo 68 das Disposições Constitucionais Transitórias (Constituição Federal de 1988), que dá aos quilombolas o direito à ti- tulação das terras por eles ocupadas. Joseane Maia Silva Santos. Comunidades quilombolas, suas lutas, sonhos e utopias. Disponível em: (com adaptações). Considerando o tema do texto antecedente e os vários aspectos antropológicos a ele relacionados, julgue as alternativas que se seguem, e assinale a CORRETA. a) Os quilombos, descobertos somente no século XX, permaneceram secretos du- rante todo o período colonial. b) O direito à posse da terra ocupada tradicionalmente pelas comunidades qui- lombolas é facultado somente àquelas que demonstram a descendência direta de quilombos militares do período colonial. c) O reconhecimento do direito das comunidades quilombolas à terra foi uma inici- ativa descolada do movimento negro que se constituiu nos centros urbanos co- mo São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. d) A luta do movimento negro nos anos 70 era sobretudo a favor de um ideal de democracia racial e da defesa de um Brasil mestiço. e) O entendimento das comunidades negras rurais que guardavam costumes do tempo da escravidão enquanto “quilombolas” foi uma conquista do Movimento Negro. 95 RESPOSTAS DO FIXANDO O CONTEÚDO UNIDADE 01 UNIDADE 02 QUESTÃO 1 A QUESTÃO 1 D QUESTÃO 2 A QUESTÃO 2 C QUESTÃO 3 B QUESTÃO 3 A QUESTÃO 4 B QUESTÃO 4 B QUESTÃO 5 E QUESTÃO 5 B UNIDADE 03 UNIDADE 04 QUESTÃO 1 A QUESTÃO 1 A QUESTÃO 2 C QUESTÃO 2 E QUESTÃO 3 C QUESTÃO 3 E QUESTÃO 4 E QUESTÃO 4 E QUESTÃO 5 A QUESTÃO 5 C UNIDADE 05 UNIDADE 06 QUESTÃO 1 E QUESTÃO 1 B QUESTÃO 2 B QUESTÃO 2 B QUESTÃO 3 A QUESTÃO 3 B QUESTÃO 4 D QUESTÃO 4 E QUESTÃO 5 C QUESTÃO 5 96 REFERÊNCIAS AMEIDA, S. 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Figura 2: Representação dos índios extraindo pau Brasil Fonte: Thévet (1575) 12 Com a introdução da cultura da cana-de-açúcar, os colonos passaram a utilizar a mão de obra indígena escrava. Houve, na sequência, um declínio do escambo em função das exigências que passaram a inviabilizar o mercado. A escravidão indígena foi utilizada em larga escala tanto para a produção comercial quanto de subsistência. E como se adquiria essa mão-de-obra? A partir do resgate, aprisionados em decorrência de guerras intertribais, e também a partir das chamadas “guerras justas”, que buscavam aprisionar os indígenas considerados “inimigos”. Nesse processo, combatia-se, inclusive, os missionários jesuítas (padres pertencentes a ordem religiosa Companhia Jesus ligada à Igreja Católica) que eram contrários a escravização dos índios aldeados (ver o próximo item). Muitos indígenas foram forçadamente deslocados de outras regiões para o litoral, onde concentravam as fazendas produtoras do açúcar. Estas diversas formas de exploração acabaram gerando uma desorganização social, que somada às mortes em decorrência das epidemias, fomes e guerras (entre tribos e com os europeus) causaram um extermínio de boa parte da população indígena. Observe o gráfico da Funai (Fundação Nacional do Índio) acerca da densidade populacional indígena no Brasil desde 1500. Lembrem- se que os dados dos séculos iniciais são baseados em descrições e podem variar, pois não há muita precisão no levantamento. No livro “Negros da Terra”, o historiador John Monteiro analisa que com os aprisionamentos em decorrência das bandeiras, as guerras e os descimentos, a captura de mão de obra obra escrava indígena viabilizou a agricultura em São Paulo. Assim, a inserção indígena na sociedade paulista foi de suma importância para a formação sociocultural de São Paulo. Disponível em: https://bit.ly/2GXNAZ6. Acesso em: 27 set. 2020. 13 Figura 3: Dados demográficos da população indígena no Brasil (Dados da FUNAI) Fonte: Elaborado pelo Autor (2020) Ao observar a tabela e o gráfico (Figura 3) fica evidente a perda populacional dos povos indígenas entre 1500 e 1970. Vale ressaltar que somente em 1991 que o IBGE os incluiu no censo demográfico brasileiro e por isso tivemos um aumento de 150% dessa população na década de 1990. 14 Contudo, devemos salientar que o processo acima descrito não pode ser resumido apenas pelo extermínio indígena. Muitas foram as resistências dessas sociedades frente aos avanços europeus. Diante da exploração de seu trabalho, muitos desertavam e fugiam para a floresta e passavam a adotar emboscadas para atacar governamentais e bandeiras. Outros chegaram a organizar e participar de importantes revoltas do século XIX como a Cabanagem e a Cabanada (OLIVEIRA; FREIRE, 2006). Também foi necessário aos europeus aliar-se à grupos indígenas como estratégia. No século XVI, os franceses e os portugueses em guerra aliaram-se aos Tamoios e Tupiniquins, respectivamente. Já no século XVII, os holandeses se aliaram a grupos “tapuias” contra os portugueses. Os grupos indígenas, por sua vez, tinham seus próprios interesses ao se aliarem aos europeus. Os grupos Canibos, por exemplo, se aliaram aos missionários espanhóis para contestar o monopólio piro (arawak) no comércio dos Andes. De uma forma ou de outra, os povos indígenas eram sujeitos Para conhecer um pouco da história e realidade dos povos indígenas, com especial atenção para o papel da mulher, pela ótica nativa assista o episódio do documentário Vozes da Floresta realizado pelo Le Monde Diplomatique Brasil com Edna Shanenawa: Disponível em: https://bit.ly/3aVESoB. Acesso em: 27 set. 2020; Assista ao vídeo da antropóloga brasileira Lilian Schwarcz sobre o extermínio indígena nos primeiros contatos. Disponível em: https://bit.ly/2CXcUMK. Acesso em: 27 set. 2020; Assista ao vídeo da historiadora Maria Regina Celestino na Bienal do Livro de 2019 sobre seu livro Os Índios na História do Brasil. Disponível em: https://bit.ly/2YywtTe. Acesso em: 27 set. 2020; Leia mais no livro “Os Índios e o Brasil” de Mércio Pereira Gomes disponível na Biblioteca virtual em: https://bit.ly/2Qo00dN. Acesso em: 27 set. 2020; O livro “Os índios antes do Brasil“ de Carlos Fausto fala sobre a organização indígena antes da chegada dos europeus disponível na Minha Biblioteca Virtual Única: https://bit.ly/2D39rfO. Acesso em: 27 set. 2020. Para saber mais sobre as guerras e revoltas indígenas leia a Parte 2 do livro “A presença indígena na formação do Brasil” de João Pacheco de Oliveira e Carlos Augusto da Rocha Freire, disponível em: https://bit.ly/3jcvdwN. Acesso em: 27 set. 2020. 15 ativos da história (CUNHA, 2012). No final do século XVI, o uso da mão-de-obra escravizada dos indígenas nos engenhos acabou declinando e passou a predominar a escravização dos africanos, que somente foi abolida no final do século XIX. Contudo, vale ressaltar que apesar de ter sido abolida a escravidão indígena, ainda é possível observar a sua existência na prática ao longo dos séculos seguintes até pelo menos 1850. 1.4 “CIVILIZANDO” OS ÍNDIOS? A catequese dos índios na colônia portuguesa foi iniciada tão logo iniciou-se a exploração e colonização estratégica do território. Os primeiros responsáveis pela conversão indígena foram os jesuítas, que eram missionários vinculados à ordem católica conhecida como Companhia de Jesus fundada por Inácio de Loyola no contexto da Contrarreforma Católica. Os primeiros missionários jesuítas desembarcaram em Salvador, na Bahia, já em meados do século XVI acompanhando o primeiro governador-geral, Tomé de Sousa. A sua função seria a de converter os pagãos da terra à fé cristã. Os missionários jesuítas, nesse sentido, foram os primeiros a adotar, conforme analisa Fabricio Santos, a prática de aldear ou reunir os índios com o objetivo de No livro “As muralhas do Sertão”, a autora Nádia Farage analisa as intensas disputas territoriais envolvendo portugueses, espanhóis, ingleses e holandês em torno da região do Rio Branco. Na sua análise, Farage considera a importante participação dos indígenas como um agente histórico e social na contenda. Nos relatos de época, os europeus chamavam pagãos e gentios povos que geralmente possuíam tradições religiosas politeístas (acreditavam na existência de vários deuses e não apenas um – monoteísmo – como o Cristianismo. Os gregos antigos, romanos antigos, povos africanos, indígenas eram considerados pagãos pela perspectiva cristã. 16 torná-los cristãos. A instalação do aldeamento podia se dar pela construção da igreja e da residência do missionário em uma aldeia indígena já existente ou em um outro sítio. Nesses aldeamentos, a catequese era iniciada com o ensinamento rudimentar da fé e com a preparação para o batismo. Novos grupos indígenas eram constantemente deslocados (“descimento”) para essas povoações, visando concentrar a catequese naqueles espaços(SANTOS, 2012). Para os jesuítas, os nativos deveriam abandonar características fundamentais de sua cultura e adotar os preceitos e estilo de vida cristão. Os índios, por sua vez, estavam dispostos a manter seus costumes, apesar de aceitarem, aparentemente, com facilidade a nova religião. Essa aparente contradição observada pelos missionários, fez com que o aldeamento se tornasse uma solução para que pudessem controlar cotidianamente os nativos. Assim, esta inserção na vida social indígena possibilitou aos missionários criar uma rotina de ensino e catequese que transformavam lentamente o modo de vida daqueles nativos aldeados (SANTOS, 2012). A conversão católica, dessa forma, operou no sentido de domesticar os considerados “selvagens” obtendo, além disso, trabalhadores para os empreendimentos missionários – o que gerou tensão com os interesses dos colonos e autoridades civis que também se interessavam por recrutar mão de obra indígena para suas atividades econômicas. O conflito de interesses ocasionados culminou com a expulsão dos jesuítas no século XVIII. No período, a política colonial buscava uma maior laicização (separação do Estado da Igreja) do Estado, incluindo o controle de todos os agentes em contato com as populações nativas. Nesse contexto, implantou-se uma política guiada pelo Diretório (um documento com 95 parágrafos com determinações sobre economia e administração dos aldeamentos), de 1757, que não só dispôs sobre a liberdade dos índios como também alterou a administração destes, reorganizando as aldeias após a expulsão dos missionários (OLIVEIRA; FREIRE, 2006). Os novos diretores de índios, conforme o decreto real, deveriam, de maneira geral, expandir a fé católica, extinguir o gentilismo, civilizar os índios, introduzir o comércio e aumentar a agricultura. A língua portuguesa tornou-se uma exigência para os povos indígenas, que deveriam se comunicar exclusivamente por ela. A “civilização” dos índios, por sua vez, ficava a cargo das escolas públicas, que os 17 ensinava ofícios domésticos dentre outras competências. Buscava-se também combater a suposta “ociosidade” com o uso do trabalho dos indígenas para fins particulares. Os índios, dessa forma, passariam a ser governados por juízes e vereadores, e não mais pelos missionários. Vale ressaltar, por fim, que na prática o Diretório enfrentou muitas dificuldades como epidemias, mortes, fugas, desorganização social. Com o fim do Diretório em 1798, juízes de órfãos passaram a ser responsáveis pelos índios considerados “domésticos” e eles juntamente com o Estado velavam pelos bem índios, considerados incapazes (OLIVEIRA; FREIRE, 2006). Com a revogação do Diretório, criou-se um vazio administrativo acerca do governo povos indígenas que só foi preenchido em 1845, pelo “Regulamento acerca das Missões de catequese e civilização dos índios”. 1.5 DOS ESTEREÓTIPOS Como já estudado, quando os europeus desembarcaram no Novo Mundo, desconheciam sua existência e a seus habitantes. O processo de exploração e colonização também passou pela avaliação dos costumes e culturas desses povos sob a ótica da própria cultura europeia. Nesse item, portanto, vamos estudar como as diferenças culturais foram adaptadas e divulgadas pelos colonizadores a partir de pinturas e relatos de viagens, contribuindo para se criar uma imagem do índio que justificava a presença europeia. 1.5.1 Selvagens desordenados Para começar, os nativos foram considerados homens selvagens contrapostos ao ideal de civilidade ocidental por viveram, de acordo com os colonizadores, sem controle, sem o ordenamento do Estado e sem a salvação prometida pela Igreja. O cronista português, Pero Magalhães Gândavo, resume de forma canônica essa premissa: “A língua deste gentio toda pela Costa he huma: carece de três letras – scillet, não se acha nela f, nem l, nem r, cousa digna de espanto, por que assi não tem Fé, nem Lei, nem Rei; e desta maneira vivem sem justiça e desordenadamente” (GANDAVO, 1980, p. 52). Além disso, ao contrário dos europeus muito interessados em riquezas 18 materiais, as sociedades indígenas não se importavam, de maneira geral, com coisas materiais como o ouro, por exemplo. A partir do pensamento do francês Michel de Montaigne, por sua vez, a suposta selvageria aproximou-se ao tema do primitivismo no qual o selvagem viveria em um estado de pureza, sem as marcas do pecado original (lembrando que o pensamento da época era muito moldado pelos ensinamentos bíblicos, como ressaltado anteriormente). Na Carta de Pero Vaz de Caminha (primeira escrita sobre o Brasil e encaminhada ao el-rei dom Manuel em 1500), ainda é possível ver referências ao primitivismo ao endossar a inocência dos nativos e a boa vontade com que aceitavam a conversão, uma vez que seriam desprovidos, aos olhos de Caminha, de qualquer crença. Os nativos seriam, assim, uma espécie de papel em branco: Parece-me gente de tal inoce ̂ncia que, se homem os entendesse e eles a nós, seriam logo cristãos, porque eles, segundo parece, não têm, nem entendem em nenhuma crenc ̧a. E portanto, se os degredados, que aqui hão de ficar aprenderem bem a sua fala e os entenderem, não duvido que eles, segundo a santa intenção de Vossa Alteza, se hão de fazer cristãos e crer em nossa santa fé, à qual praza a Nosso Senhor que os traga, porque, certo, esta gente é boa e de boa simplicidade. E imprimir-se-á ligeiramente neles qualquer cunho, que lhes quiserem dar. E pois Nosso Senhor, que lhes deu bons corpos e bons rostos, como a bons homens, por aqui nos trouxe, creio que não foi sem causa (CAMINHA, 1500, 11-12) 1.5.2 Bárbaros canibais Bárbaro foi um termo utilizado na Grécia Antiga para denominar, de maneira O filósofo e etnólogo Pierre Clastres analisa a noção de sociedade e Estado em seu livro A sociedade contra o Estado para refutar a ideia de que a evolução das sociedades deve ser medida pela presença ou ausência da centralização do poder. Para ele, o poder coercitivo do Estado é somente apenas uma modalidade de poder dentre diversas outras. Ou seja, as sociedades ameríndias seriam, para Clastres, “essencialmente igualitárias” recusando qualquer força que impunha o enriquecimento de um pequeno grupo. A chefia indígena, nesse sentido, é esvaziada de poder coercitivo e considerada um importante mecanismo contra a concentração de poder. 19 geral, os povos estrangeiros destacando a superioridade grega. A partir de então, seu uso passou a ser mais diversificado e recorrente. Na Idade Média, bárbaro equivalia ao pagão como aquele que não havia convertido à fé cristã. A ideia do barbarismo, conforme demonstra Ronald Raminelli, atravessou o Oceano Atlântico e encontrou solo fértil nas narrativas de viagens acerca do continente americano. Bárbaros eram os índios de corpos nus, eram os “canibais” que devoravam a carne dos inimigos, os indivíduos que viviam em guerra (RAMINELLI, 1996). Figura 4: Canibais, século XVI Fonte: Theodor de Bry ([1596] 2015) O canibal também era uma figura que já permeava o imaginário europeu sem ter um ponto geográfico específico. Mas os Tupinambás, principais representantes desse canibalismo brasileiro, eram antropófagos e não canibais. Canibalismo apresenta-se a partir de uma noção bestial de indivíduos que consomem carne humana para saciar-se. É nesse sentido que o canibalismo se distancia da antropofagia, esta última mais praticada entre alguns grupos indígenas brasileiros como os Tupinambás à época da chegada dos europeus (não é mais uma prática ritual entre os povos atualmente). A antropofagia tinha um sentido mais social ritualístico. Ou seja, o ato de comer carne humana era realizado em cerimônias com diversos significados simbólicos a incluir vingança.20 1.5.3 Luxuriosos e preguiçosos A sexualidade indígena também suscitou grande interesse. Por princípio cristão, os europeus defendiam a monogamia, ou seja, o casamento apenas entre um homem e uma mulher. Contudo, entre os povos indígenas, eram muito comum a poligamia e não possuíam, como os europeus, diversas regras matrimoniais e sexuais, o que fora visto como luxúria conforme ressalta o cronista português Gabriel Soares de Souza em 1597: São os Tupinambos, tão luxuriosos que não há pecado de luxúria que não cometam […] são muito afeiçoados ao pecado nefando, entre os quais se não têm por afronta; […] e nas suas aldeias pelo sertão há alguns que têm tenda pública a quantos os querem como mulheres públicas (SOUZA, 1971, p. 308). No caso das relações de trabalho, os povos indígenas foram associados à indolência e preguiça em função da recusa destas populações em serem escravizados. Outro detalhe importante é que a cultura indígena não valoriza a produção de excedentes para acúmulo, como as sociedades europeias. De uma maneira geral, a produção era/é para a subsistência para que sobrasse tempo para dedicar-se a outras atividades consideradas importantes como rituais, cuidado com o corpo, convívio com a família e o lazer. Assim sendo, a difusão desses, e diversos outros, estereótipos constituiu uma forma de absorver a diversidade cultural encontrada no Novo Mundo tendo sempre Para saber mais, leia o artigo “Antropofagia ritual e identidade cultural entre os Tupinambás” de Adone Agnoli. Disponível em: https://bit.ly/34weCQH. Acesso em: 27 set. 2020. Um dos poucos relatos da antropofagia indígena no Brasil é o do mercenário alemão Hans Staden, que foi aprisionado pelos Tupinambás e a partir dessa experiência escreveu um relato. Baseado na descrição de Stade, na década de 1970 foi lançado o filme “Como era gostoso o meu francês”. A iconografia do filme foi baseada nos trabalhos do gravurista Theodore de Bry. 21 como parâmetro a própria cultura europeia. Ou seja, não houve uma preocupação em compreender as culturas nativas pela sua própria organização. Os perfis traçados envolvendo guerra, canibalismo, nudez, hábitos alimentares distintos, habitação, suposta ausência de uma legislação e de poder centralizado compunham as representações dos índios como seres inferiores, legitimando, assim, a guerra justa, a necessidade urgente de conversão. 22 FIXANDO CONTEÚDO 1. Professor de História / SEDUC-MT (adaptada) Leia atentamente o trecho a seguir: “Os grupos do Brasil central, desde os princípios da colonização, foram enquadrados na categoria genéricas de tapuias (os de língua travada, que não falam o tupi – Guarani). Entre eles os Jê – que englobam uma grande parte das etnias nos cerrados do Centro-Oeste brasileiro...”. Considerando o trecho acima e seus conhecimentos sobre as culturas indígenas no Brasil assinale a alternativa correta. a) Podemos perceber que o Indígena no Brasil era e é pouco reconhecido de maneira geral, considerando que foram e são tratados por termos genéricos como “tapuias", sem muita preocupação em conhecer e perceber as diferenças culturais que cada etnia possui, e reflete de forma política na vida desses grupos. b) O indígena no Brasil há muito foi incorporado na sociedade branca, além das terras que lhes foram dadas, muitos fazem uso de tecnologias e da cultura ocidental, como internet, celulares, contas bancarias. c) Não se pode dizer que no Brasil ainda há indígenas, pois se no início da colonização os portugueses foram responsáveis pelo assassinato em massa desses grupos, posteriormente o império pouco ajudou aqueles que ainda viviam. A consequência disso é a não presença indígena na sociedade brasileira atual. d) A situação do indígena no Brasil se resolveu logo após o fim do período colonial, pois os europeus se preocuparam logo em compreender a realidade local e as necessidades específicas desses povos. e) Os indígenas brasileiros só sofreram grandes perdas demográficas com a chegada dos europeus porque não gostavam de trabalhar e resistiram violentamente a qualquer tipo de trabalho. 2. (Professor de História / IF-MT - adaptada) Por aqui lhe urdem os portugueses muitas brigas com que se desavêm umas nações com as outras, com o qual ardil os entramos e desbaratamos, que todos juntos ninguém pudera com eles [...] WEHLING, A.; WEHLING, M. J. Formação do Brasil Colonial. 2ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.) 23 O trecho do documento acima faz referência a uma estratégia largamente utilizada pelos portugueses na conquista da América, tanto para a incorporação de terras como para a escravização dos indígenas. Assinale a alternativa que apresenta essa estratégia. a) Estímulo às rivalidades existentes entre grupos indígenas. b) Massacre sistemática das populações nativas. c) Aldeamento dos índios pelos jesuítas. d) Aliança política com as elites indígenas. e) Aliança econômica com outras nações europeias. 3. (INEP/História do Brasil) “Dali avistamos homens que andavam pela praia, obra de sete ou oito. Eram pardos, todos nus. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Não fazem o menor caso de encobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto. Ambos traziam os beiços de baixo furados e metidos neles seus ossos brancos e verdadeiros. Os cabelos seus são corredios. CAMINHA, P. V. Carta. RIBEIRO, D. et al. Viagem pela história do Brasil: documentos. São Paulo: Companhia das Letras, 1997 (adaptado). O texto é parte da famosa Carta de Pero Vaz de Caminha, documento fundamental para a formação da identidade brasileira. Tratando da relação que, desde esse primeiro contato, se estabeleceu entre portugueses e indígenas, esse trecho da carta revela a a) preocupação em garantir a integridade do colonizador diante da resistência dos índios à ocupação da terra. b) postura etnocêntrica do europeu diante das características físicas e práticas culturais do indígena. c) orientação da política da Coroa Portuguesa quanto à utilização dos nativos como mão de obra para colonizar a nova terra. d) oposição de interesses entre portugueses e índios, que dificultava o trabalho catequético e exigia amplos recursos para a defesa da posse da nova terra. e) abundância da terra descoberta, o que possibilitou a sua incorporação aos interesses mercantis portugueses, por meio da exploração econômica dos índios. 24 4. (TJ-SC adaptada.) “ [...] Eles não lavram nem criam. Nem há aqui boi ou vaca, cabra, ovelha ou galinha, ou qualquer outro animal que esteja acostumado ao viver do homem. E não comem senão deste inhame, de que aqui há muito, e dessas sementes e frutos que a terra e as árvores de si deitam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos.” O trecho acima, retirado da Carta que Pero Vaz de Caminha redigiu ao Rei D. Manuel, é um exemplo do deslumbramento do europeu diante do Novo Mundo e das pessoas que por aqui eles encontraram. Quanto às sociedades indígenas do Brasil, leia as alternativas abaixo e marque Verdadeiro e Falso. (X) A antropofagia entre os indígenas tinha caráter ritual. Para alguns grupos a alimentação de carne humana era parte dos cultos religiosos e das tradições tribais. (X) As grandes nações indígenas estavam distribuídas por, praticamente, toda a extensão do território brasileiro. Os Tupis estavam espalhados pelo litoral e foram os primeiros a ter contato com os brancos. (X) Atualmente, estudos comprovam que a origem dos primeiros habitantes do Brasil é proveniente, unicamente,da corrente migratória asiática. (X) Diferentemente das demais sociedades indígenas americanas, os povos que viviam no território brasileiro possuíam uma característica homogeneidade cultural e linguística. (X) A chegada dos europeus não causou grandes impactos nas sociedades nativas do território americano. A sequência correta é a) F, F, V, F, V. b) V, V, F, F, F. c) F, V, F, V, V. d) V, V, F, V, F. e) V, F, V, V, F. 25 5. (Enade) Documento I E, segundo que a mim e a todos pareceu, esta gente não lhes falece outra coisa para ser toda cristã, senão entender-nos, porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer, como nós mesmos, por onde nos pareceu a todos que nenhuma idolatria, nem adoração têm. E bem creio que, se Vossa Alteza aqui mandar quem entre eles mais devagar ande, que todos serão tornados ao desejo de Vossa Alteza. E por isso, se alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os batizar, porque já então terão mais conhecimento de nossa fé, pelos dois degredados, que aqui entre eles ficam, os quais, ambos, hoje também comungaram. Carta de Pero Vaz de Caminha. In: PEREIRA, Paulo Roberto (org). Os três únicos testemunhos do Descobrimento do Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Lacerda, 1999. p. 54;57. Documento II [...] nenhuma fé têm, nem adoram a algum deus; nenhuma lei guardam ou preceitos, nem têm rei que lha dê e a quem obedeçam, senão é um capitão, mais pera a guerra que pera a paz. SALVADOR, Frei Vicente do. História do Brasil (1500-1627). 6 ed. São Paulo: Edic ̧ões Melhoramentos, 1975. A partir da análise desses documentos conclui-se que, no período compreendido entre a produção do primeiro e do segundo a) a administração portuguesa no Brasil orientou-se pelas observações dos autores dos documentos e optou pelo isolamento das populações indígenas por considerar que eram inúteis ao processo de colonização. b) a Coroa deixou integralmente a cargo da Igreja Católica a responsabilidade pela integração das populações indígenas ao modo de vida europeu, conforme as sugestões dos autores dos documentos. c) a predominância das ações de natureza religiosa, por meio da catequese junto às populações indígenas, preservou sua cultura e impediu que elas fossem escravizadas. d) o entendimento dos portugueses acerca das populações indígenas e de seus 26 costumes favoreceu o seu processo de integração pela religião, finalizado no século XVII. e) os colonizadores empenharam-se em transplantar para o interior das comunidades indígenas as formas de organização da sociedade portuguesa, usando a religião e a presença de europeus entre eles. 27 POLÍTICA INDIGENISTA NO BRASIL INDEPENDENTE 2.1 INTRODUÇÃO Os povos indígenas que aqui se encontravam anteriormente a chegada dos europeus e que lutaram para manter seu território e sua existência gozam, hoje, de privilégios aos olhos de grande parte da população brasileira e não de direitos. Direitos estes conquistados historicamente e à custa de muita luta e pouco reconhecimento. Neste capítulo, portanto, entenderemos melhor o caminho historicamente percorrido para a aquisição dos direitos pelos povos indígenas, respaldado, atualmente, pela Constituição Federal de 1988, carta maior do país. 2.1.1 Primitivismo e romantismo Para começar, vamos dar continuidade a uma análise iniciada no capítulo anterior acerca de alguns estereótipos que se incorporaram à imagem do índio desde o período colonial. No século XIX, passaram a circular na Europa imagens dos povos indígenas criadas por viajantes (dentre as quais podemos citar Spix e Martius, Rugendas, Debret dentre outros) que integravam missões científicas na América. Essas missões científicas tinham como intuito observar, descrever e ilustrar as viagens de modo a registrar a natureza local do território. Esses relatos, por sua vez, contribuíram para divulgar informações acerca do continente para o público leigo e ainda serviu como fonte de pesquisa para muitos cientistas de então. A partir dessas observações, os índios acabaram sendo enquadrados em “estágios de desenvolvimento” correspondentes à ideia evolucionista que se impunha no século XIX. Nesse ínterim, as discussões acerca das raças e a classificação dos grupos em termos hierárquicos e evolutivos ganharam maiores contornos e consequências. Algumas sociedades, nesse discurso, acabaram sendo alocadas no início do processo evolutivo. Por não conceberem a ideia de Estado centralizado tal como a Europa (que se tinha como modelo ideal), elas foram concebidas como sociedade “primitivas”. UNIDADE 28 Nessa vertente, alguns cientistas como Carl von Martius e Francisco Adolfo Varnhagen postularam a decadência dos povos da América. Varnhagen, ao se fundamentar em uma posição etnocêntrica, chegara a defender as guerras como forma de controlar os “vícios” indígenas, que, na sua concepção, seriam proveniente do nomadismo. Para ele, somente o sedentarismo poderia promover a civilização (OLIVEIRA; FREIRE, 2006). Na contramão dessa visão, contudo, outras também surgiram no período. Políticos como José Bonifácio de Andrada e Silva, por exemplo, entraram em defesa da humanidade dos povos nativos influenciando, inclusive, a legislação indigenista do Brasil Imperial. Apesar do índio, no seu cotidiano, ser discriminado pela população de maneira geral e pela legislação imperial, muitos dirigentes políticos apropriaram-se da imagem do “bom selvagem” difundida pela Romantismo europeu no século XVIII com filósofos iluministas como Jean-Jacques Rousseau. A ideia do “bom selvagem”, por sua vez, encontrará expressão máxima no “indianismo” literário brasileiro. Na literatura brasileira, romancistas como José de Alencar (1829-1877) e Gonçalves Ledo (1823-1864) irão construir obras baseadas no imaginário romântico sobre os índios, distanciado da realidade. A natureza será valorizada pela sua intocabilidade e o índio eleito o herói nacional, nativo brasileiro legítimo que lutou No século XIX, circularam teorias que buscavam classificar os seres humanos. O darwinismo social (uma releitura da teoria de Charles Darwin) considerava, por exemplo, que os seres humanos eram desiguais por natureza e, portanto, alguns seriam superiores e outros inferiores. Nesse mesmo contexto, o racismo científico se funda dividindo os seres humanos em raças superiores (arianos) e inferiores (judeus, negros, indígenas, etc.). Para compreender melhor acerca dessas (e outras) teorias sociais que contribuíram para a circulação do conceito de raça e classificação dos seres humanos em escala evolutiva, leia: https://bit.ly/3goWzhr. Acesso em: 02 out. 2020. Vídeo explicando o que é Etnocentrismo: Acesso em: 02 out. 2020. 29 heroicamente contra os colonizadores (OLIVEIRA; FREIRE, 2006). 2.2 SOB A TUTELA DO ESTADO Tendo em vista todo esse repertório das teorias darwinistas que se criou acerca dos povos nativos, passou-se a instituir uma nova forma, política e social, de se lidar com os povos indígenas. O Código Civil de 1916, nesse sentido, vai instituir oficialmente o regime de tutela a partir do Estado (como estudado no capítulo anterior, a tutela ficava à cargo dos juízes de órfãos). No Código em questão fica expresso a intenção do Estado em promover a incorporação dos povos nativos à sociedade comum. A tutela, nesse sentido, se tornou um instrumento da missão civilizadora. Assim sendo, até que fossem civilizados e inseridos na sociedade, deveriam ser protegidos, conforme Oliveira (2001, p. 224): As terras ocupadas por indígenas, bem como o seu próprio ritmo de vida, as formas admitidas de sociabilidade, os mecanismos de representação política e as suas relac ̧ões com os não-índios passam a ser administradas por funcionários estatais; estabelece-se um regime tutelar do que resulta o reconhecimento pelos próprios sujeitos de uma ‘indianidade’ genérica, condic ̧ão que passam a partilhar com outros índios, igualmente objeto da mesma relac ̧ão tutelar. De acordo com o Código Civil, até que fossem totalmente incorporados à sociedade, os povos indígenas ficavam sob os desígnios do Serviço de Proteção ao Índio (SPI). O SPI, criado em 1910, surgira como a primeira agência leiga do Estado brasileiro destinada à gerenciar os povos indígenas. Interessante observar que apesar de anunciarem uma proposta mais laica, na prática se assemelhou muito à administração colonial gerida pelas missões jesuítas. Assim, apesar de propor a proteção da cultura indígena, agia na prática transferindo índios, liberando territórios para ocupação e reprimindo práticas tradicionais o que foi chamado pelo antropólogo João Pacheco Oliveira de “paradoxo da tutela” (1987). Tanto o Código quanto o SPI, por sua vez, partiam de uma noção genérica de índio e não Para compreender mais sobre a construção da imagem do índio na literatura, leia o artigo: https://bit.ly/2QqVeMO. Acesso em: 02 out. 2020. 30 davam conta da diversidade dos povos nativos brasileiros. Vale ressaltar que muito das técnicas de aproximação adotadas pela SPI e pelos órgãos seguintes basearam-se nas condutas da Comissão do Marechal Rondon (1865-1958) que, inclusive, foi o primeiro presidente do órgão. Sua prática indigenista originou-se de sua atuação na Comissão de Linhas Telegráficas (1907-1915), na qual pode experimentar diversas técnicas de aproximação com os povos indígenas. Na sequência, já no período do Estado Novo (1935-1945), foi criado o Conselho Nacional de Proteção Indígena (CNPI) ainda sob a gerência e fama do General Rondon, mas que contava a atuação de antropólogos importantes como Heloísa Alberto Torres e Darcy Ribeiro. A participação dos cientistas sociais buscava levar às ações do SPI premissas antropológicas da época. As discussões propostas traziam debates internacionais realizados pela Organização das Nações Unidas (ONU) que, em 1977, havia promulgado a Organização Internacional do Trabalho (OIT) dispondo sobre a proteção e integração das populações indígenas do mundo. Foi também no âmbito desse Conselho que foram gestados os planos para uma nova política indigenista que superasse os impasses do SPI. Essa política seria, então, uma tópica da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) a partir de 1968. Na década de 1960, escândalos de corrupção, ineficiência administrativa e acusações de genocídio acabaram levando o SPI e CNPI à extinção. Assim, para continuar o programa de tutela foi, então, criada a FUNAI, que assim como o órgão anterior, contava com recursos escassos. A maior parte do corpo de funcionários do SPI foi transferido para a FUNAI, o que contribuiu para que a FUNAI continuasse muitas das práticas já desenvolvidas pelo SPI, inclusive, as indesejadas e altamente criticadas como o clientelismo, paternalismo, dentre outras. Durante a Ditadura Militar, inclusive, a ação da FUNAI foi fortemente marcada pela perspectiva assimilacionista, dado o interesse do regime em Acesso em: 02 out. 2020. Acesso em: 02 out. 2020. Acesso em: 02 out. 2020. Acesso em: 02 out. 2020. 31 promover a expansão pelo interior do país, em especial, pela região amazônica. E durante boa parte da sua existência, a FUNAI foi criticada especialmente pela ineficiência. A FUNAI também se viu envolta por polêmicas relativas a alta mortandade indígena, especialmente dos povos mais “isolados”. A tragédia dos Kren Akarore ou Krenakore (1974) é um caso emblemático, no qual mais da metade dos índios morreu em decorrência dos primeiros contatos. Em 2000, eles inclusive ganharam nos tribunais, contra a União e a FUNAI, uma ação indenizatória pelos danos materiais e morais causados. Em 2009, a FUNAI foi reformulada por um decreto do então Presidente Luiz Inácio “Lula” da Silva, no que se propôs oferecer maior capacidade de atuação técnica. Buscou-se regionalizar mais a administração e capacitar seus técnicos para estabelecer ações participativas em parceria com os índios. Contudo, diversos grupos indígenas constantemente reascendem debates chamando a atenção para a importância da sua participação nas tomadas de decisão do poder Executivo mesmo em relação ao órgão. 2.3 QUESTÃO DAS TERRAS INDÍGENAS Apesar de muito se debater acerca das “terras indígenas”, o termo jurídico em si é desconhecido entre a maior parte da população brasileira. Os debates acalorados do senso comum atualmente ignoram os significados históricos que carrega e não contribuem para uma solução dos conflitos gerados em torno das demandas por reconhecimento e demarcação de terras. Terras indígenas, nesse sentido, é um conceito jurídico brasileiro com origem na definição de direitos territoriais indígenas. Estes direitos, por sua vez, foram reconhecidos, conforme ressalta a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, ao longo da história pelo Estado brasileiro por meio de diversos dispositivos legais, ao mesmo tempo que se busca burlar ilegalmente tais reconhecimentos. 32 Voltemos no tempo, em 1609, a Carta Régia já garantia os direitos indígenas às suas terras. Contudo, poderosos mecanismos desenvolveram-se para burlar tal demanda. Um importante instrumento utilizado foi o discurso negando a identidade ao índio. Ora, se não há índio, não há porque resguarda-lhes direitos, não é mesmo? As imagens negativas aqui analisadas, nesse sentido, de povos preguiçosos, primitivos, viciosos, violentos que permeou o imaginário acerca dos povos indígena foi um importante instrumento para negar-lhes uma identidade e garantir os direitos. No período imperial, mais precisamente no século XIX, o interesse pela questão de terras aumentou consideravelmente especialmente pelo interesse do então Império em expandir suas fronteiras. As políticas, nesse sentido, vão se estabelecendo no sentido de restringir o acesso à propriedade fundiária e converter os povos indígenas em assalariados. Sim, a política de terras não necessariamente é independente de uma política de trabalho (CUNHA, 2012). Já existia, em contrapartida, claramente expresso o reconhecimento da primazia dos índios sobres suas terras. Assim, na própria Lei de Terras de 1850 fica claro que as terras dos O significado da terra para as culturas indígenas é complexo e diverso. Além disso, a cultura indígena não é o “lugar de fala” da autora desse material para que a apre- sentação seja completa. Portanto, para compreender melhor os significados culturais em questão, se torna muito importante compreendê-los pela ótica dos próprios agen- tes culturais, no caso, os povos indígenas. Sendo assim, para compreender a impor- tância da terra veja o relato do Povo Baniwa e Koripako (lembrando que há aqui uma seleção do grupo apresentado, podendo, dessa forma, haver distinção quando comparado com outras etnias): https://bit.ly/3aVcWBt. Acesso em: 02 out. 2020. Lugar de falar é um conceito bastante importante nos debates acerca das minorias sociais. Basicamente, refere-se a autoridade que pessoa possui para falar sobre algo enquanto pertencente a um grupo minoritário (minorias não em termos numéricos, mas por estarem em desvantagem social, cultural, política, religiosa, etc.), seja ele ét- nico, de gênero, religioso, político e etc. Apesar de pessoas diferentes da realidade social estudas poderem analisar e teorizar sobre situações sociais de grupo do qual não pertence, quem possui argumentos de autoridade sobre essas situações são os grupos que possuem a experiência. Para compreender melhor, vejao vídeo da filóso- fa Djalma Ribeiro: https://bit.ly/3aZuwEw. Acesso em: 02 out. 2020. 33 índios não poderiam ser devolutas, uma vez que o título dos índios sobres suas terras era um título originário, ou seja, decorre do simples fato de serem índios. A Lei de Terras também dispunha sobre as terras de aldeias extintas que, a rigor, deveriam ser dadas em plena propriedade aos índios. Contudo, esse entendimento será rapidamente esquecido e acabaram sendo distribuídos, quando muito, lotes aos índios. Tal situação será, por sua vez, ratificada na Constituição de 1891 já no período republicano. As terras das aldeias indígenas extintas poderiam, enfim, ser devolutas e o processo de espoliação torna-se mais transparente. No Brasil independente, desde a Constituição de 1934, todas as demais leis a seguiram no tema tratado, assegurando um direito dos povos indígenas à terra, mas não garantia a inalienabilidade da mesma – o que favorecia, na prática, diversas manobras para tentar favorecer terceiros. Contudo, mesmo assim havia ressalvas. Nas Constituições de 1934, 1937 e 1946, por exemplo, garantia-se aos povos silvícolas o seu direito às terras que nela habitarem de maneira permanente. Entretanto, por viverem da agricultura, caça e pesca, muitos grupos circulavam pelo território de modo a buscar a melhor região para se estabelecer em dada época, essa necessidade de deslocamento foi utilizada, por sua vez, para destituir os índios de qualquer relação com a terra. O argumento, então, foi: se eles não se apegavam ao território, não haveria a necessidade de possuí-lo. Foi somente com a Constituição de 1967 que foi garantido a posse e o usufruto exclusivo das riquezas e a inalienabilidade das terras, dando algumas bases para a construção do conceito jurídico acima ressaltado, o de “terra indígena”. (CAVALCANTE, 2016). O conceito de “terra indígena” irá, por sua vez, aparecer pela primeira no Estatuto do Índio de 1973. Vale ressaltar, contudo, que apesar disso, o Estado brasileiro como um todo reconhecia somente àquelas terras já demarcadas pelo aparato estatal (as reservas indígenas) e ignorou os artigos constitucionais. 34 Foi somente com a Constituição de 1988, vigente hoje no Brasil, que irá se romper com a tradição assimilacionista trazendo mudanças fundamentais no ordenamento jurídico no que diz respeito ao conceito de índio e à posse de suas terras. Para começar, a Constituição Cidadã como é conhecida rompe com a herança tutelar estudada anteriormente mudando o status do índio, permitindo que individualmente ou através de suas organizações ingressem em juízo para defender direitos e interesses. No que tange o conceito de “terra indígena”, ele foi consideravelmente ampliado. No texto da Constituição se entende que terras indígenas se referem à toda terra necessária para a reprodução física, cultural e social do povo. Dessa forma, ao se realizar a identificada e a delimitação de uma terra indígena, o grupo técnico não deve se limitar a levantar os espaços para a habitação e reprodução econômica de um povo, mas também incluir a importância do local para sua cultura, religião e organização social. (CAVALCANTE, 2016, p. 23). A partir desse entendimento, não se fala mais em criação de terras indígenas, apenas de reconhecimento por parte da União da sua existência e demarcação. No Estatuto do Índio já três tipos de “terras indígenas”: 1) terras ocupadas ou habitadas por silvícolas (sem necessidade de demarcação e/ou reconhecimento prévio pelo Estado) 2) áreas reservadas (as chamadas reservas indígenas criadas e demarcadas pelo Esta- do) 3) terras de domínio das comunidades indígenas ou de silvícolas (CAVALCANTE, 2016) No artigo “No Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é” o antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Casto analisa uma das principais questões levantadas acerca da identidade indígena: quem é índio? Disponível em: https://bit.ly/3hvyYNn. Acesso em: 03 out. 2020. Tendo em vista a principal temática do artigo, como o antropólogo entende a identidade indígena? 35 A demarcação de terras, entretanto, continua a ser extremamente importante, pois sem ela dificilmente os povos indígenas conseguiriam ter a plena posse de suas terras. Ainda se verificam, por exemplo, inúmeras dificuldades para a instalação de serviços públicos em áreas não homologadas como terras indígenas, deixando os povos indígenas sem a proteção do Estado (ou seja, sem acesso a saúde pública, educação, obras públicas, dentre outros). Além disso, o agronegócio e empresas de mineração tentam barrar os processos de demarcação de novas terras indígenas (especialmente diminuindo o poder da Funai). A maior parte das terras indígenas encontra-se na chamada Amazônia Legal (área de nove estados brasileiros – Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins - pertencentes à bacia Amazônica). Acesse o mapa com a localização e extensão das terras indígenas produzido pela ISA Disponível em: https://bit.ly/3koXGje. Acesso em: 03 out. 2020. 36 FIXANDO CONTEÚDO 1. (FUNAI – Indigenista) A demarcação de uma terra indígena é determinada a) pelo fato de serem terras utilizadas para suas atividade produtivas, e para os interesses de empresas que pretendem desenvolver economicamente as terras para o benefício dos índios. b) pelas 19 condicionantes do Supremo Tribunal Federal para a Terra Indígena Raposa Serra do Sol, no estado de Roraima, em 2009, que servem como uma orientação geral. c) pela tese do “marco temporal”, apresentada pelo Supremo Tribunal Federal, que sustenta que os indígenas só teriam direito às terras efetivamente ocupadas em 5 de outubro de 1988, na data da promulgação da Constituição. d) pelo fato de serem terras tradicionalmente ocupadas pelos índios, as por eles habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem- estar e as necessárias à sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições. e) por uma negociação entre o Estado representado pela Fundação Nacional do Índio, as empresas que pretendem desenvolver projetos de desenvolvimento nas terras dos índios pagando indenizações e royalties aos indígenas e a anuência das comunidades indígenas. 2. (ENADE) Os atuais índios do estado de São Paulo não representam um elemento de trabalho e de progresso. Como também nos outros estados do Brasil, não se pode esperar trabalho sério e continuado dos índios civilizados e como os Caingangs selvagens são um empecilho para a colonização das regiões do sertão que habitam, parece que não há outro meio, de que se possa lançar mão, senão o seu extermínio. IHERING, H. A anthropologia do estado de São Paulo. Revista do Museu Paulista, VII. São Paulo: Typ. Cardozo, Filho & Cia, 1907. Opinião como essa, expressa em 1907, por um importante cientista teuto- brasileiro, inspirava-se, segundo Darcy Ribeiro, em uma atitude secular presente em qualquer área onde sobrevivam grupos indígenas no Brasil. 37 Sobre a reação a essa “atitude secular”, no início do século XX, avalie as afirmações a seguir. I. Desenvolveu-se um ideal catequizador, responsável pelo aldeamento dos indígenas e pela entrada em cena do evangelismo protestante, bem como uma preocupação oficial com a saúde e proteção material das propriedades dos indígenas. II. Organizou-se o aldeamento dos indígenas em reservas criadas com a finalidade precípua de preservar a cultura das diversas etnias e possibilitar o aumento da população indígena, a fim de queesses povos conseguissem competir em igualdade com os imigrantes europeus. III. Surgiu uma ideologia inspirada no positivismo, caracterizada pela assistência leiga e pela crença de que bastava o Estado proteger os indígenas de ataques externos e assisti-los socialmente para que progredissem rumo à civilização. IV. Criaram-se instituições de proteção e defesa dos indígenas, destacando-se o Serviço de Proteção aos Índios (SPI), criado em 1910 a partir de ações oficiais lideradas pelo Marechal Cândido Rondon. É correto apenas o que se afirma em a) I e II. b) I e IV. c) III e IV. d) I, II e III. e) II, III e IV. 3. (Professor/ Prefeitura de São Luis – MA) Canção do Tamoio 38 (Natalícia) I Não chores, meu filho; Não chores, que a vida É luta renhida: Viver é lutar. A vida é combate, Que os fracos abate, Que os fortes, os bravos Só pode exaltar. Um dia vivemos! O homem que é forte Não teme da morte; Só teme fugir; No arco que entesa Tem certa uma presa, Quer seja tapuia, Condor ou tapir. O forte, o cobarde Seus feitos inveja De o ver na peleja Garboso e feroz; E os tímidos velhos Nos graves concelhos, Curvadas as frontes, Escutam-lhe a voz! Domina, se vive; Se morre, descansa Dos seus na lembrança, Na voz do porvir. Não cures da vida! Sê bravo, sê forte! Não fujas da morte, Que a morte há de vir! E pois que és meu filho, Meus brios reveste; Tamoio nasceste, Valente serás. Sê duro guerreiro, Robusto, fragueiro, Brasão dos tamoios Na guerra e na paz. Teu grito de guerra Retumbe aos ouvidos D'imigos transidos Por vil comoção; E tremam d'ouvi-lo Pior que o sibilo Das setas ligeiras, Pior que o trovão. E a mão nessas tabas, Querendo calados Os filhos criados Na lei do terror; Teu nome lhes diga, Que a gente inimiga Talvez não escute Sem pranto, sem dor! Porém se a fortuna, Traindo teus passos, Te arroja nos laços Do inimigo falaz! Na última hora Teus feitos memora, Tranqüilo nos gestos, Impávido, audaz. E cai como o tronco Do raio tocado, Partido, rojado Por larga extensão; Assim morre o forte! No passo da morte Triunfa, conquista Mais alto brasão. As armas ensaia, Penetra na vida: Pesada ou querida, Viver é lutar. Se o duro combate Os fracos abate, Aos fortes, aos bravos, Só pode exaltar. Gonçalves Dias. Canção do Tamoio. Internet: (com adaptações). Na Canção do Tamoio, de Gonçalves Dias, apresenta-se o perfil literário do indígena construído pela poesia romântica com forte motivação nacionalista. Nessa fase da poesia romântica, o índio foi escolhido como o símbolo ideal do nacionalismo porque a) o negro e o português, vindos de outros continentes, não mantinham com as terras brasileiras o mesmo vínculo de identidade que os indígenas. b) a influência dos indígenas na formação da cultura nacional foi muito mais significativa que a exercida pelo negro e pelo branco colonizador. c) o negro e o português estavam mais distantes da realidade social imediata que o indígena, bem mais presente no cotidiano da vida nacional. 39 d) os indígenas, ao contrário dos negros, se adaptaram com maior facilidade aos costumes impostos pelo branco colonizador. e) os indígenas estiveram fortemente engajados na luta pela independência do Brasil, diferentemente do negro e do branco colonizador. 4. (USP) O índio, em alguns romances de José de Alencar, como Iracema e Ubirajara, é a) retratado com objetividade, numa perspectiva rigorosa e científica. b) idealizado sobre o pano de fundo da natureza, da qual é o herói épico. c) pretexto episódico para descrição da natureza. d) visto com o desprezo do branco preconceituoso, que o considera inferior. e) representado como um primitivo feroz e de maus instintos. 5. (UFRR adaptado) O processo de demarcação de terras indígenas no Estado brasileiro é marcado por lutas, conflitos e mortes. Nos territórios indígenas, a compreensão sobre a utilização dos recursos da terra, para os diversos povos indígenas, inclusive, em Roraima, não é a mesma, que predomina no sistema capitalista atual. Isso se comprova na fala do líder Xucuru, assassinado em 1998, no agreste pernambucano. "A gente tem a terra como nossa mãe. Então, se ela é nossa mãe, é ela quem nos dá todo fruto de sobrevivência, e deve ser zelada e preservada, a partir das pedras, das águas e das matas”. Fonte: (CIMI, Revista Coleção Fraternidade viva N.° 08. São Paulo, 2001. Pág. 21. In.: VIEIRA, J. G. Missionários, fazendeiros e índios em Roraima: a disputa pela terra – 1777 a 1980. Boa Vista: Editora UFRR, 2007). Com base nessas informações, analise as assertivas a seguir: I. Para os povos indígenas, a terra é seu território, espaço necessário e essencial à vida. Ou seja, isso significa que a terra vai além da própria vida, a memória dos seus antepassados, como também o futuro da sua gente. II. Ao afirmar que a “terra é nossa mãe”, o líder Xucuru entende que a terra é uma fonte de vida e não de capital financeiro. III. Se a terra, para o Líder Xucuru, “é sua mãe”, então, ela deve ser preservada 40 como fonte de vida para as diversas populações indígenas que se utilizarão delas futuramente. IV. O líder Xucuru atribui valor de preservação para as pedras, águas, matas, que estão em sua terra, entretanto, o que preocupa e interessa ao indígena, é o valor monetário da terra para sua comunidade. V. O índio Xurucu, ao explicar o significado do uso da terra, este demonstra que a sobrevivência do seu povo não depende da terra, mas a considerada um ente sagrado e importante. Estão corretas a) III e V, apenas. b) I, II e III. c) I e II, apenas. d) I, II, IV. e) I, III e V. 41 DIREITOS INDÍGENAS E A CONSTITUIÇÃO DE 1988 3.1 INTRODUÇÃO A Constituição de 1988 trouxe uma série de direitos indígenas reconhecendo a sua diversidade e importância para a formação identitária e cultural do Brasil. Sua promulgação foi um marco e contribuiu para organização de movimentos, de novas abordagens e novas demandas por políticas públicas específicas para as comunidades indígenas. Contudo, apesar de todos os avanços, ainda vemos resquícios das velhas políticas imperando na prática. Nesse capítulo, veremos mais sobre esses avanços e dificuldades que ainda vivenciam as comunidades indígenas. 3.2 MOVIMENTO E RESISTÊNCIA INDÍGENA Como vimos no capítulo anterior, o direito indígena à terra foi reconhecido pela Constituição de 1988 como um direito originário, ou seja, anterior ao próprio processo de formação do Estado brasileiro. Contudo, mesmo após a promulgação da Constituição, esse direito vive constantemente sob ameaça dos interesses do agronegócio, do garimpo, da grilagem e madeireiros. Ameaças estas muitas vezes desembocadas em grandes e violentos conflitos em decorrência da carência de políticas destinadas à efetiva demarcação e fiscalização das terras. Para dificultar ainda mais o processo já lento de demarcação, muitos projetos de emendas constitucionais (PEC) e normas federais foram elaboradas. Dentre vários, podemos citar a tentativa de flexibilização do Código Florestal, que delimita as áreas que devem ser preservadas e quais podem receber diferentes tipos de produção rural. Após a votação do código, parlamentares ligados à bancada ruralista (vinculados diretamente aos interesses de latifundiários, empresas e confederações do agronegócio), tem preparado projetos de lei que buscam extinguir direitos adquiridos e dificultar o processo de reconhecimento das terras indígenas – uma vez que o reconhecimento impossibilita a exploração da área para fins econômicos particulares.e os africanos na formação do Mundo Atlântico 1400- 1800. São Paulo: Campus, 2004. 436 p. VELOSO, C. O "quase pernambucano" Caetano Veloso vê o brasil pelos olhos de Joaquim Nabuco. [Entrevista concedida a] Geneton Moraes Neto. GENETON.COM, online, 2007. Disponível em: https://bit.ly/3nqtE0D. Acesso em: 04 out. 2020. VILLELA, J. F. Augusto Gomes Leal com a Ama-de-Leite Mônica (1860, Acervo Fundação Joaquim Nabuco). In: Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: https://bit.ly/3aTvaDa. Acesso em: 30 jun. 2020.