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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
CENTRO DE CIÊNCIAS MATEMÁTICAS E DA NATUREZA
INSTITUTO DE QUÍMICA
Química na Escola sob o referencial de Piaget
Letícia Andrade da Silva - DRE 116030103
Química na Escola IV - Segunda Parte
Professora: Priscila Tamiasso Martinhon
Rio de Janeiro
Agosto de 2024
Introdução
O ensino de Química na escola, em especial no contexto do ensino fundamental e médio,
enfrenta desafios singulares. A disciplina, marcada por conceitos abstratos como estrutura
atômica, reações químicas e leis da natureza, exige métodos pedagógicos adequados para
promover a compreensão dos alunos. Jean Piaget, psicólogo suíço conhecido por sua teoria
do desenvolvimento cognitivo, oferece um referencial teórico fundamental para orientar
práticas pedagógicas eficazes, inclusive na Química. Este ensaio visa explorar como os
princípios da teoria piagetiana podem ser aplicados para tornar o ensino de Química mais
significativo e adequado às diferentes fases do desenvolvimento cognitivo dos alunos,
favorecendo o aprendizado ativo e a construção do conhecimento.
Piaget e o Desenvolvimento Cognitivo: Relevância para a Química
A teoria de Piaget sobre o desenvolvimento cognitivo propõe que as crianças passam por
estágios universais, que afetam a forma como percebem e interagem com o mundo. Esses
estágios são:
1. Estágio sensório-motor (0 a 2 anos): A aprendizagem ocorre por meio das interações
sensoriais e motoras com o ambiente.
2. Estágio pré-operacional (2 a 7 anos): A criança desenvolve a capacidade de
representação simbólica, mas ainda não consegue realizar raciocínios lógicos
completos.
3. Estágio operacional concreto (7 a 11 anos): Os alunos começam a utilizar o
raciocínio lógico, mas ainda restrito a situações concretas.
4. Estágio operacional formal (a partir de 12 anos): Os adolescentes passam a ser
capazes de pensar abstratamente e de forma hipotética, podendo raciocinar sobre
problemas abstratos e complexos.
No ensino de Química, essas diferentes etapas de desenvolvimento têm implicações diretas
sobre como os conteúdos devem ser apresentados. O ensino de Química precisa ser
cuidadosamente planejado de acordo com o estágio de desenvolvimento cognitivo dos alunos,
para garantir que o aprendizado ocorra de forma eficaz e significativa.
A Química na Escola e os Estágios Piagetianos
A Química é uma ciência que lida com conceitos complexos e abstratos, exigindo do aluno a
capacidade de pensar de forma lógica e abstrata. A partir do estágio operacional formal, por
volta dos 12 anos, os alunos já possuem a habilidade de lidar com abstrações e raciocínios
hipotéticos. Neste estágio, o ensino de Química pode ser mais focado em conceitos como a
estrutura atômica, as leis dos gases e a química orgânica. Essas questões demandam um
pensamento lógico-dedutivo e a capacidade de manipular relações abstratas, como na
resolução de equações químicas e cálculos estequiométricos. Assim, para alunos nessa faixa
etária, o foco do ensino deve estar em estimular o pensamento crítico, a formulação de
hipóteses e a experimentação.
Por outro lado, alunos mais novos, geralmente no estágio operacional concreto, precisam de
um ensino que envolva mais atividades práticas e visíveis. A Química, neste estágio, deve ser
abordada de forma concreta, por meio de experimentos simples e observações diretas dos
fenômenos químicos. Isso permite que os alunos compreendam a química de forma palpável,
como quando observam a reação entre vinagre e bicarbonato, ou as mudanças de estado físico
da água. Neste estágio, os alunos ainda não conseguem lidar bem com abstrações, por isso, o
ensino precisa ser baseado em experiências sensoriais, em que eles possam ver, tocar e
experimentar.
A abordagem piagetiana para o ensino de Química enfatiza que os alunos constroem o
conhecimento ativamente, interagindo com o ambiente e os conceitos químicos. Isso implica
que o ensino da Química não deve ser simplesmente a transmissão de informações, mas sim
uma construção contínua de significados, onde o aluno se engaja de maneira ativa.
A Construção Ativa do Conhecimento no Ensino de Química
Piaget acreditava que a aprendizagem é um processo ativo, no qual os alunos não são
receptores passivos de informações, mas construtores do próprio conhecimento. Para ele, os
alunos aprendem por meio da interação com o ambiente e da resolução de problemas. Esse
processo é fundamental no ensino de Química, uma vez que a disciplina exige uma
compreensão profunda e o desenvolvimento de habilidades cognitivas complexas, como o
pensamento abstrato e a resolução de problemas.
A aplicação desse princípio no ensino de Química pode ser observada na utilização de
metodologias que favoreçam a investigação e a experimentação. Os professores de Química,
alinhados à teoria piagetiana, devem promover atividades práticas que permitam aos alunos
manipular materiais, observar reações químicas e formular explicações para os fenômenos
observados. Por exemplo, ao estudar as reações de oxidação e redução, os alunos podem
realizar experimentos para observar esses processos e, a partir disso, construir seu
entendimento dos conceitos envolvidos.
Além disso, Piaget enfatizou a importância da resolução de conflitos cognitivos no processo
de aprendizagem. Quando os alunos se deparam com situações que desafiam seu
entendimento prévio, eles são motivados a revisar seus conceitos e adaptar suas estruturas
cognitivas. No contexto da Química, isso pode ocorrer quando os alunos se deparam com
conceitos que contradizem suas concepções iniciais sobre a matéria, como a ideia de que a
matéria é infinitamente divisível. Esses desafios proporcionam momentos de aprendizagem
profunda, no qual os alunos devem refletir, testar e reconfigurar seu entendimento sobre o
mundo químico.
O Papel do Professor na Química Escolar: Facilitador da Construção do Conhecimento
No referencial piagetiano, o papel do professor não é o de simplesmente transmitir conteúdos,
mas o de criar um ambiente propício à aprendizagem ativa e à construção do conhecimento.
O professor deve atuar como facilitador, oferecendo experiências que despertem o interesse
dos alunos e os motivem a explorar, investigar e descobrir conceitos. No ensino de Química,
isso pode ser feito por meio da proposta de atividades investigativas, resolução de problemas
práticos e experimentos que incentivem os alunos a construir e aplicar seu entendimento dos
conceitos químicos.
A interação entre o professor e os alunos também é crucial para o desenvolvimento cognitivo.
Piaget destaca que o processo de aprendizagem é ampliado por meio das interações sociais,
nas quais os alunos têm a oportunidade de compartilhar suas ideias, esclarecer dúvidas e
colaborar com os colegas. Portanto, o ensino de Química deve incluir atividades
colaborativas, como discussões em grupo sobre os resultados de experimentos e debates
sobre os conceitos químicos estudados. Esse tipo de interação facilita a reflexão crítica e a
construção conjunta do conhecimento, elementos essenciais para a aprendizagem
significativa.
Implicações Pedagógicas para o Ensino de Química
A teoria de Piaget oferece orientações valiosas para a prática pedagógica no ensino de
Química. Algumas das implicações pedagógicas incluem:
1. Adequação do Conteúdo ao Estágio Cognitivo dos Alunos: O ensino de Química
deve ser ajustado aos diferentes estágios de desenvolvimento dos alunos. No ensino
fundamental, é necessário adotar abordagens concretas, com experimentos e
atividades práticas, enquanto no ensino médio, os conceitos mais abstratos e
complexos podem ser introduzidos, estimulando o pensamento crítico e analítico.
2. Aprendizagem Ativa e Investigativa: O aluno deve ser colocado no centro do
processo de aprendizagem, participando ativamente da construção do conhecimento.
A realização de experimentos, resolução de problemas e investigação de fenômenos
químicos são práticas essenciais para esse tipo de aprendizagem.
3. Resolução de Conflitos Cognitivos: Quando os alunos enfrentamconceitos que
desafiam suas ideias pré-existentes, o ensino de Química deve proporcionar
oportunidades para que eles reflitam, testem e adaptem suas concepções, promovendo
uma aprendizagem mais profunda.
4. Importância da Interação Social: A aprendizagem de Química pode ser enriquecida
por meio de atividades colaborativas, nas quais os alunos discutem e resolvem
problemas juntos, o que fortalece a construção coletiva do conhecimento.
Conclusão
A teoria de Piaget oferece uma base sólida para o ensino de Química na escola, ao reconhecer
que o aprendizado é um processo ativo, contínuo e construtivo. Para que os alunos aprendam
de maneira significativa, o conteúdo deve ser adequado ao seu estágio de desenvolvimento
cognitivo e envolver experiências que favoreçam a investigação, a reflexão e a resolução de
problemas. O papel do professor é fundamental, pois deve criar um ambiente que estimule o
pensamento crítico e a interação, permitindo que os alunos construam seu conhecimento
sobre os conceitos químicos de forma ativa e contextualizada.
Referências Bibliográficas
1. PIAGET, Jean. O nascimento da inteligência na criança. São Paulo: Martins Fontes,
1970.
2. PIAGET, Jean. A equilibração das estruturas cognitivas. Rio de Janeiro: Zahar, 1987.
3. MILLER, Paul H. Teorias do desenvolvimento infantil: conceitos e aplicações. São
Paulo: Pearson, 2011.
4. DILLON, John T. Teaching science through inquiry. ERIC Clearinghouse, 2001.
Disponível em: http://eric.ed.gov/?id=ED463738. Acesso em: 15 ago. 2024.
5. BARBOSA, Maria G.; SANTOS, Ana Lúcia. A aprendizagem de Ciências:
metodologias e práticas pedagógicas. São Paulo: Contexto, 2015.
6. LOBATO, Regina Célia. Ensino de Ciências: pesquisa e prática pedagógica. São
Paulo: Cortez, 2009.

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