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A civilização das formas:
O corpo como valor
MÍRIAM GOLDENBERG E MARCELO SILVA RAMOS
Antes de passar pelo menos duas horas
com o maquiador e o cabeleireiro,
nem eu pareço com a Cindy Crawford.
CINDY CRAWFORD
No início do romance Um, nenhum e cem mil, de Luigi Pirandello, o
personagem Vitangelo Moscarda, um jovem de 28 anos, rico e ocioso,
é surpreendido por sua mulher Dida olhando-se demoradamente no
espelho. "O que você está fazendo?", pergunta-lhe Dida. "Nada, es-
tou olhando aqui, dentro do meu nariz, esta narina. Quando aperto
sinto uma dorzinha." A mulher, sorrindo, diz com certo sarcasmo:
"Pensei que estivesse olhando para que lado ele cai." "Cai? O meu
nariz?", retruca. "Claro, querido. Repare bem: ele cai para a direita",
responde Dida, placidamente. A partir daí, o protagonista que até então
considerava seu nariz, se não propriamente belo, pelo menos "bastan-
te decente" — desconhecedor deste e de outros "leves defeitos" (so-
brancelhas que parecem dois acentos circunflexos, orelhas mal
grudadas, uma mais saliente que a outra...) enumerados, logo em se-
guida, por sua mulher —, fixou-se na idéia de que não era para os outros
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aquilo que imaginava ser. Pensava, naquele momento, apenas no seu
corpo, escolhido pelo autor como ponto de partida para as posterio-
res reflexões do personagem sobre o desajuste entre sua vida subjetiva
e a imagem que os outros tinham dele. Após tomar consciência de que
não era tal como se via, mas como os outros o viam, bem como não
era o que pensava ser, mas o que dele pensavam os outros, Moscarda
procura decompor as imagens que dele faziam, numa busca "exis-
tencialista" de si mesmo. No percurso, despoja-se de todos os seus bens
e escolhe viver em um albergue de mendigos e loucos. A moral da
história o próprio autor revela: "O aspecto trágico da vida está preci-
samente nessa lei a que o homem é forçado a obedecer, a lei que o
obriga a ser um. Cada qual pode ser um, nenhum, cem mil, mas a es-
colha é um imperativo necessário."1
Dessa forma, o romance do dramaturgo italiano, conhecido por
seus personagens que lutam por uma existência livre de qualquer
convenção, suscita questões caras à antropologia e à sociologia,
dando destaque aos processos por meio dos quais os indivíduos,
inseridos em situações interativas, desempenham seus papéis sociais
e procuram agenciar as impressões que transmitem uns aos outros.
Uma perspectiva que, sem negligenciar os condicionamentos sociais,
ajuda a refletir sobre o atual culto ao corpo na cultura brasileira,
uma vez que os significados atribuídos pelos indivíduos à aparên-
cia e à forma física, no processo de revelação de suas identidades,
parecem inflacionados, especialmente entre as camadas mais sofis-
ticadas dos grandes centros urbanos. Nunca como hoje, a máxima
pirandelliana Assim é, se lhe parece esteve tão em voga.
Em um contexto social e histórico particularmente instável e
mutante, no qual os meios tradicionais de produção de identidade
— a família, a religião, a política, o trabalho, entre outros — se
'Trecho de entrevista concedida por Luigi Pirandello (1867-1936) a Sérgio Buarque de
Holanda, por ocasião da visita do Teatro d'Arte de Roma ao Rio de Janeiro. A entre-
vista foi publicada em O Jornal, de 11 de dezembro de 1927 (Pirandello, 2001).
A CIVILIZAÇÃO DAS FORMAS: O CORPO COMO VALOR 21
encontram enfraquecidos, é possível imaginar que muitos indiví-
duos ou grupos estejam se apropriando do corpo como um meio
de expressão (ou representação) do eu.
A difundida ideologia do body building — própria da chamada
"cultura da malhação" —, que se fundamenta na concepção de bele-
za e forma física como produtos de um trabalho do indivíduo sobre
seu corpo, assim como outros movimentos importados dos EUA, que
vêm ganhando cada vez mais adeptos em alguns segmentos da nossa
sociedade, parecem se basear nesse tipo de apropriação. A body art
e a body modification, que utilizam técnicas que vão da tatuagem,
passando pelos piercings e podendo chegar a outras, mais extremas,
como marcas a ferro quente (brandings), talhos com navalha e gra-
vações com bisturi incandescente, servem como exemplos. Seus
praticantes "trabalham" o corpo como suporte para sua arte e trans-
formação, muitos deles com um projeto bem definido, como o de
uma jovem paulista de 22 anos, que, em depoimento ao site Mix
Brasil, disse que desejava ser (ou melhor, parecer) uma vaca. Para
tanto, tatuou manchas em todo o corpo, pretendendo demonstrar,
assim, o quanto acha o ser humano e a sociedade atual medíocres:
Escolhi a vaca pela metáfora de seu processo de digestão. Os
ruminantes são os únicos animais que digerem o mesmo alimento
duas vezes. Num paralelo ao ser humano, que se considera su-
perior, é exatamente o que não fazemos. Refletimos superficial-
mente em relação a todas as coisas2.
L
2Esta jovem pode ser vista como uma versão brasileira da artista plástica francesa Orlan,
<)ue, em 1990, aos 43 anos, fez a primeira de suas inúmeras operações plásticas, exibi-
das em performances coreografadas e publicamente documentadas. As cirurgias que
sofreu transformaram totalmente seu corpo e rosto, não para buscar um aperfeiçoa-
mento estético, mas como uma tentativa de transformar o próprio corpo em obra de
arte. Seu corpo modificado, desconstruído e reconstruído, através do processo da
performance cirúrgica, é transformado em linguagem, em espaço de debate público,
afirmando a "liberdade individual do artista, de colocar-se contra a inexorabilidade, o
programado, a natureza e, por fim, contra Deus" (Falbo, 2000).
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Devido ao aspecto inusitado dos corpos transformados ou à agres-
sividade das técnicas utilizadas, que podem ser vistas, por muitos,
como demonstrações de loucura ou "masoquismo", as práticas men-
cionadas costumam chocar aqueles que as observam de longe, con-
siderando-as, em geral, demasiadamente exóticas, ao passo que
outras técnicas, legitimadas pelo saber científico de especialistas,
são adotadas por um número cada vez maior de pessoas em busca
de uma aparência idealizada. Seriam aquelas mais agressivas ou
extremadas do que as já banalizadas operações plásticas no nariz,
lifting, implante de próteses de silicone e lipoaspiração?
A descrição de uma cirurgia de lipoaspiração, como a que se
segue, é capaz de causar náusea até mesmo nos menos sensíveis:
Para que as veias se contraiam e o sangramento seja menor, o cirur-
gião injeta meio litro de soro fisiológico misturado com adrenalina
nas partes do corpo previamente demarcadas com pincel atômico.
São oitenta picadas em menos de dois minutos. O ritmo frenético
não pára. Através de um corte de l centímetro de largura feito pouco
acima do cóccix, o médico introduz uma cânula com 30 centíme-
tros de comprimento e 4 milímetros de diâmetro, parecida com
um espeto de churrasco feito de teflon. A gordura entra por um
buraco na ponta e é sugada pela cânula. A sucção pode ser feita
tanto por uma seringa com vácuo encaixada no final da cânula
quanto por um tubo plástico ligado a um aparelho aspirador (...).
O médico empurra e puxa o espeto sem parar (...). Depois de quin-
ze minutos cavoucando para a direita e para a esquerda, ele des-
cansa (...). É preciso um pouco de força e velocidade para vencer as
placas de gordura (...). Terminada a cirurgia o médico sai da sala e
tira o avental. Sua camisa está encharcada de suor3.
Basta, portanto, um olhar de estranhamento sobre muitas práticas
atuais relacionadas ao corpo, mesmo as mais cotidianas, para en-
3
"A vitória sobre o espelho" ÇVeja, 23/8/1995).
A CIVILIZAÇÃO DAS FORMAS: O CORPO COMO VALOR 23
centrarmos exemplos de extremos a que o comportamento huma-
no pode chegar, tal como procurou demonstrar Horace Minner
(1956) em sua etnografia do ritual do corpo entre os Sonacirema.
Os Sonacirema, segundo o autor, são um grupo norte-americano
cuja cultura é ainda pouco compreendida. Um povo que despende uma
grande porção dos frutos do seu trabalho e uma considerável parte do
dia em atividades rituais que têm como