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Nu_e_Vestido_-_Mirian_Goldenberg_(Org.)_-_A_civilizacao_das_formas_-_o_corpo_como_valor

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confessa uma administradora de empresas de 31 anos. A atriz Marisa
Orth, de 37 anos, uma das poucas famosas presentes na matéria, dis-
se achar "mais fácil tirar a roupa para um fotógrafo, com toda aque-
la produção, do que ficar nua a dois sem retoques". De acordo com
o maquiador Kaká Moraes, que já "montou" várias capas da revista
Playboy, difusora de um dos padrões de beleza mais cobiçado de todo
o planeta — o de suas "coelhinhas" —, "as mulheres que posam para
a Playboy, hoje, são mais paranóicas com o físico do que em qual-
quer outra época. Querem saber o que o computador pode retocar,
se o nariz vai sair daquele jeito, têm crise de choro"9.
Pode-se dizer que as regras subjacentes à atual exposição dos
corpos são de ordem fundamentalmente estética. Para atingir a
forma ideal e expor o corpo sem constrangimentos, é necessário
investir na força de vontade e na autodisciplina, alertam as revistas
femininas e masculinas, além de todas aquelas dedicadas à boa for-
ma existentes no mercado. O autocontrole da aparência física é cada
vez mais estimulado. Promete-se, entre outras benesses, um abdô-
men cheio de gomos salientes ou nádegas duras e livres de celulites
caso o indivíduo se dedique a tal propósito e receba todas as infor-
mações fornecidas como um conjunto de obrigações. "Não exis-
tem receitas para manter seu corpo divino e maravilhoso", afirma
Costanza Pascolato em seu O essencial: O que você precisa saber
para viver com mais estilo. Mas, continua, "o fundamental é apren-
der a ter prazer na autodisciplina. Disciplina no comer e no dor-
mir, o que ajuda a constituir boas relações emocionais e físicas. Só
assim você poderá fazer seus contatos imediatos com o mundo em
grande forma" (1999: 27).
"Elas são loucas" (folha de S. Paulo, 3/9/2000).
28 NU & VESTIDO A CIVILIZAÇÃO DAS FORMAS: O CORPO COMO VALOR 29
Nesse contexto, até as noções do que é decente e indecente, no
que se refere ao vestuário, passaram por mudanças. A utilização de
uma indumentária que deixa à mostra determinadas partes do cor-
po, ou mesmo a exibição do corpo nu, não é considerada, muitas
vezes, tão indecente quanto a exibição de um corpo "fora de for-
ma" e o uso de roupas não condizentes com a forma física. Muitas
revistas femininas, e algumas masculinas, têm uma seção dedicada
aos erros cometidos pelas "vítimas da moda". Na grande maioria
das vezes, as críticas são dirigidas àqueles que vestem roupas perce-
bidas como inadequadas ao seu corpo10. Não há dúvida de que os
estilistas de moda, ao explorarem transparências, decotes, peças que
valorizam e expõem partes do corpo, pensam, explicitamente, num
determinado padrão estético11. Cabe àqueles que pretendem se vestir
decentemente procurar se enquadrar nesse padrão ou, simplesmen-
te, não ousar. Seguindo as dicas dos consultores de moda, devem
recorrer a alguns artifícios (modelos, cores e estampas apropriadas)
para disfarçar as suas "formas"12.
10Um exemplo pode ser encontrado na revista Vip (setembro de 1997), em que uma
matéria assinala que "uma ronda de rotina flagrou alguns cidadãos decentemente ves-
tidos. Outros foram detidos por desacato à elegância". Um dos textos diz "o elemento
é gordinho: ninguém tem nada com isso, mas esta calça branca o torna disforme. Suge-
rimos calça escura com corte reto, e o liberamos". Também na revista Víp (fevereiro de
1998), na seção "Patrulha da moda", outra imagem tem como texto: "Saidinho de-
mais: tentamos convencer o infrator a aderir a camisas lisas, mas ele disse que mesmo
gordinho não abandonaria as estampas. Foi atuado!"
"Basta observar as tendências atuais da moda, associadas às mudanças nos padrõef
estéticos ocorridas nas últimas décadas, para verificar que junto com as barrigas, du-
ras, malhadas, sem vestígio de gordura, voltaram à tona as calças femininas de cintura
baixa, assim como as camisas masculinas ficaram mais justas e curtas, realçando o cor-
po musculoso, deixando à mostra bíceps e tríceps conquistados em horas de malhação.
Podemos pensar ainda que os piercings no umbigo feminino e as tatuagens nos braços
masculinos, que viraram febre nos últimos anos, também surgem como enfeites para
valorizar essas partes do corpo.
UA revista Elle, em uma edição dedicada às gordinhas (julho de 2001), afirma que,
embora o mundo da moda faça crer o contrário, elegância e sensualidade não são ex-
clusividade das magras. No entanto, recomenda: "Estampado só embaixo: Estampas
são proibidas? Á resposta é quase, porque se for na parte de baixo pode até ficar muito
bom. Lembre-se apenas de que as cores não podem ser vibrantes, para não deixarem as
proporções maiores do que são."
Pode-se dizer que, sob a moral da "boa forma", um corpo tra-
balhado, cuidado, sem marcas indesejáveis (rugas, estrias, celulites,
manchas) e sem excessos (gorduras, flacidez) é o único que, mesmo
sem roupas, está decentemente vestido. Como lembra Courtine
(1995), ao tratar do desvelamento do corpo masculino nos Esta-
dos Unidos do final do século XIX, "um corpo de homem, se é
musculoso, não está jamais verdadeiramente nu" (:96).
O exemplo das roupas de banho, citado por Elias (1990), per-
mite considerar, ainda, a força com que essa moral da "boa for-
ma" se instaura em locais como o Rio de Janeiro, onde as praias,
as áreas de lazer e a temperatura elevada durante quase todo o
ano favorecem o desnudamento, fazendo com que a cidade seja
lembrada, dentro e fora do país, pela descontração, liberdade e
sensualidade dos corpos expostos ao sol. Porém, basta um exame
mais apurado ou mesmo o simples folhear dos principais jornais e
revistas, especialmente nos meses que antecedem o verão, para
verificarmos que a cultura corporal carioca tem normas muito mais
rígidas do que se imagina. Tomando como base as inúmeras maté-
rias com dicas, roteiros e planos de cuidados com a aparência e a
forma física, veiculadas na mídia ao longo do ano, pode-se afir-
mar que ocorre uma verdadeira variação sazoneira (Mauss, 1974)
no que diz respeito às atitudes quanto ao corpo. Se no outono
recomendam-se tratamentos para reparar os danos causados pelo
sol à pele e aos cabelos, no inverno, com o sol e o mar à distância,
são aconselhados os tratamentos dermatológicos para rugas, man-
chas, acnes, estrias. O inverno também é indicado como a estação
ideal para o lifting, a lipoaspiração, as cirurgias de pálpebra e nariz
e os implantes de prótese de silicone. Já quando chega a primave-
ra, é hora de "correr contra o tempo" para estar "em forma" no
verão. "Quem sonha começar o verão com as medidas no lugar,
não pode perder mais tempo. Para entrar em forma até dezem-
bro, quando a estação mais quente do ano se inicia, é preciso se
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mexer já."13 É nessa época do ano que ocorre a maior procura pe-
las academias de musculação e ginástica14. Os "malhadores sazo-
nais" — a maioria mulheres — têm como objetivo chegar ao verão
com "tudo em cima". Desejam "endurecer" e "perder gordurinhas"
para passarem ilesos pelo impiedoso "teste da areia". "Todos que-
rem ficar sequinhos e definidos. Aqui no Rio há uma cobrança muito
grande por um corpo bonito: com o calor, todo mundo vive quase
nu. E não dá para ficar indecente sem roupa"15, diz o dono de uma
academia carioca de grande porte.
Nelson Rodrigues, muitas décadas atrás, já havia notado uma
mudança no padrão estético feminino que, hoje, se tornou mais evi-
dente. "A paisagem carioca anda escassa de gordas", disse em uma
de suas famosas frases, "não há mais os antigos quadris monumen-
tais. E, outro dia, um parteiro fazia-me a confidencia amarga: 'ba-
cias estreitas'. Ali, numa restrição sucinta, estava todo o julgamento
de uma época." Tal consideração nos remete às observações de
Gilberto Freyre (1986) sobre as "encantadoras ancas femininas" que
possuíam, na cultura brasileira, significados não apenas estéticos
mas, também, enobrecedores das mulheres portadoras de tais for-
mas. Antes "dignas", "virtuosas" e "dignificantes", como adjetivou
Freyre, as protuberâncias do corpo feminino parecem estar grada-
tivamente perdendo