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1 APLICAÇÃO DA LEI MARIA DA PENHA (LEI 11.340/2006) AOS CASOS DE NAMORO Fernanda Zampieri Rodrigues Aluna de Graduação em Direito Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo fernanda.zampieri@usp.br Resumo: O presente artigo trata da aplicação da Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006) aos casos que envolvam namoro, sejam as partes namorados ou ex-namorados. A escolha do assunto se deu com base na situação de vulnerabilidade dentro dos relacionamentos afetivos que ainda não se classificam como casamento ou união estável, vivida por muitas mulheres no Brasil, de maneira a se chegar ao questionamento se a Lei em questão abrangeria tais casos. Com base na análise jurisprudencial do Tribunal de Justiça do estado de São Paulo buscou-se avaliar como foram dadas as aplicações da Lei ao transcorrer do tempo, observando se houve uma melhora no sentido de conceder maior proteção aos envolvidos em situações abarcadas por tal lei. Palavras-chave: Lei Maria da Penha, LPM, Namoro, Aplicação. Área de conhecimento: Humanas 1. Introdução A violência contra a mulher tem espaço na sociedade brasileira, sendo historicamente praticada e acobertada pelo véu do patriarcado, de modo a intensificar esta estrutura de desigualdade entre homens e mulheres nos diversos setores. No entanto, não é porque ela existe e se repete há anos que deve continuar sendo aceita sem criação de medidas de proteção à vida das mulheres. Assim, inauguram-se órgãos, delegacias especializadas e leis específicas para este cenário como, por exemplo, a Lei do Feminicídio (Lei 13.104/2015) e a Lei Maria da Penha – LMP - (Lei 11.340/2006) a qual se destina, em partes, esta pesquisa. A Lei 11.340/2006 destina-se especialmente à violência doméstica e familiar contra as mulheres e é conhecida popularmente como Lei Maria da Penha por ter a criação motivada pelo caso de Maria da Penha Maia Fernandes. Maria da Penha Maia Fernandes era casada e morava em Fortaleza, Ceará. Foi alvo de diversas práticas violentas praticadas pelo então marido que, depois de repetidas agressões e ameaças, tentou matá-la uma primeira vez com um tiro de espingarda o que provocou nela paraplegia. Houve ainda uma segunda tentativa de morte enquanto ela tomava banho e ele tentou eletrocutá-la (PENHA, 2015). Levando-o a julgamento, na primeira vez, o réu respondeu em liberdade com posterior anulação do julgamento; na segunda vez, ainda recorreu em liberdade e acabou por ficar somente dois anos preso. Decorrente desta história, abriu-se uma denúncia feita em conjunto pela Maria da Penha com o Centro pela Justiça e o Direito Internacional e pelo Comitê Latino-Americano e mailto:fernanda.zampieri@usp.br 2 do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher contra o Estado Brasileiro à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (CIDH-OEA) que culminou a condenação internacional do Brasil em 2001 (COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS, 2001), junto da condenação, o Brasil recebeu diversas recomendações e foi obrigado a indenizar financeiramente Maria da Penha. O projeto da lei, iniciado em 2002 e sancionado em 2006, foi elaborado por ONGs responsáveis por trabalhos com violência doméstica e foi impulsionado não só pelo caso de Maria da Penha, mas também pelos debates feministas em torno da situação da mulher no âmbito das políticas públicas (SEVERI, 2017). A aprovação da Lei foi de extrema importância visto que, em estimativa, 40% das mulheres já foram violentadas de algum modo, sendo que em mais de 80% dos casos, o agressor era o parceiro íntimo, sendo ele namorado, cônjuge ou ex (FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 2010, CAP. V). Entretanto, mesmo com a existência da lei, muitas mulheres ainda sofrem violência doméstica e familiar e quando buscaram auxílio na justiça não o conseguiram por, aos olhos do juiz, as relações não caracterizarem família: é o que ocorreu e, hoje em menor proporção ocorre, nos casos que envolvem namorados. Como a Lei 11.340/2006 destina-se à violência doméstica e familiar, nos primeiros anos após o início de sua vigência (entenda-se entre 2006 e 2009), as decisões ao tratarem de agressões a mulheres sofridas pelos seus namorados ou ex-namorados não eram abarcadas pela lei sob a justificativa de que era um simples namoro e que namoros são fugazes, em muitas das vezes ((STJ, CC 91.980-MG (2007/0275982-4) e CC 94.447-MG (2008/0054686-0), Rel. Min. Nilson Naves, j. 08/10/2008), ou seja, não havia uma ‘família’ necessitada de proteção, de modo a ser improcedente a aplicação da lei ao caso. O que causa incômodo ao ver tais tipos de decisão é que elas foram tomadas mesmo com o destaque no inciso III do art. 5° da Lei em questão no qual diz-se: Art. 5o Para os efeitos desta Lei, configura violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial: III - em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor conviva ou tenha convivido com a ofendida, independentemente de coabitação (BRASIL, LEI 11.340, DE 7 DE AGOSTO DE 2006, ART. 5°, INC. III). Tais decisões pautam-se no conceito inexistente, tanto no Código Civil quanto na Constituição Federal, de família; ou seja, as decisões seguiam simplesmente o que se entendia por família e âmbito doméstico de relações à época – período marcado por um patriarcalismo mais forte que atualmente. Devido à ausência de conceito definido nesses dois ordenamentos, encara-se a família como uma realidade social, definida de diversas maneiras conforme o jurista que a estuda dependendo de sua época. Família já foi considerada como a entidade formada por homem e mulher casados e seus filhos, mas atualmente, na doutrina escrita por C. R. Gonçalves (GONÇALVES, 2017) entende-se família como sendo, em sentido amplo, todas aquelas pessoas que são ligadas por laços sanguíneos, afinidades ou adoção. No entanto, há um afunilamento deste conceito na referência que fazem as leis gerais, fechando a família como aquele círculo pequeno formado por pais e filhos, o que dificulta ações de leis tais como a Lei Maria da Penha. 3 Por esse motivo e para não restarem dúvidas em relação aos objetos de proteção visados por ela, vem pela primeira vez uma lei – Maria da Penha - (BRASIL, LEI 11.340, DE 7 DE AGOSTO DE 2006, ART. 5°, INC. II) definir o conceito de família como sendo a união de indivíduos que são (consanguineamente) ou consideram-se (afinidade ou vontade expressa) aparentados. Além disso, define o conceito de unidade doméstica e de relação íntima de afeto, estipulando sua aplicação aos três âmbitos, independente da orientação sexual dos componentes da entidade familiar. Art. 5o Para os efeitos desta Lei, configura violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial: I - no âmbito da unidade doméstica, compreendida como o espaço de convívio permanente de pessoas, com ou sem vínculo familiar, inclusive as esporadicamente agregadas; II - no âmbito da família, compreendida como a comunidade formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa; III - em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor conviva ou tenha convivido com a ofendida, independentemente de coabitação. Com a definição dos âmbitos que caracterizam a violência doméstica e familiar contra a mulher, vê-se que não há motivos para que a Lei Maria da Penha não seja aplicada aos casos de namoro, recebendo até justificativa por parte do Superior Tribunal de Justiça, em 2014, o qual em Recurso Especial deixa claro que o namoro é uma relação íntima de afeto independente de coabitação (STJ, REsp 1416580/RJ, Relatora Ministra LAURITA VAZ, julgado01-4-2014), impondo que a lei deva ser aplicada aos casos de namoro, na tentativa de acabar com os conflitos existentes em torno deste tema. Mesmo com a resposta do STJ, a questão da aplicação da Lei Maria da Penha aos casos de namoro não é de simples assunto judiciário ou legislativo, mas, sobretudo social, visto que as mulheres já sofrem demasiada marginalização e violência na sociedade brasileira, sendo esta intensificada a depender da cor e classe social, por exemplo (WAISELFISZ, 2015). Outro indicador social que mostra a importância da aplicação da Lei 11.340/2006 aos casos de namoro são as pesquisas que assinalam o início das agressões já na relação íntima de namoro, assumindo números que beiram 81% (DE MELLO AMARAL ET AL, 2016) no Estado do Ceará, por exemplo. Além dos namoros já mostrarem sinais de violência contra as mulheres, é o namoro que inaugura uma possível relação familiar futura de matrimônio. Dessa maneira, partindo da problemática explorada anteriormente e sabendo da existência de conflito quanto ao encaixe do namoro como relação familiar, vem-se a questionar qual o âmbito da aplicabilidade da Lei em questão e se este envolve os namorados, haja vista a necessidade de proteger a mulher de abusos e violências desde o início dos relacionamentos, pois estes podem se tornar, no futuro, relações familiares juridicamente estabelecidas no ordenamento. E seguindo o Ciclo da Violência estudado por Lenore Walker (WALKER, 2009, CAP. V), as agressões seguem um modo de operação cíclico, de maneira que começado no namoro, se não interrompido, prolongar-se-á, provavelmente, ao casamento. 4 2. Objetivos A partir da breve exposição anterior do assunto, o artigo será dedicado à busca dos objetivos a seguir: Verificar se ocorre a aplicação da Lei 11.340/2006 (Lei Maria da Penha) aos casos de violência entre namorados; Uma vez comprovada a aplicação, verificar se existe uma evolução, no sentido da lei ser empregada, protegendo mulheres, ou um retrocesso na aplicação ao decorrer do tempo; Justificar, com base legal e doutrinária, o emprego da Lei Maria da Penha quando a violência ocorrer entre namorados; Analisar os tipos de violência predominantes nos julgados, a aceitação ou não de recurso e a parte que entrou com a ação. 3. Métodos O presente artigo foi realizada com análise jurisprudencial do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJSP), análise da doutrina de direito civil e penal referentes à Lei 11.340/2006, incluindo uma evolução histórica das mulheres na sociedade, dos índices de violência e conquista de direitos, artigos publicados em revistas de psicologia, direito e saúde pública e da legislação brasileira referente ao tema. O início do estudo foi dado com a leitura da Lei Maria da Penha (11.340/2006) e das opiniões expostas em relação ao tema nos manuais civilistas e penalistas em relação à aplicação da citada Lei aos relacionamentos caracterizados como namoro, não havendo, portanto, a coabitação entre as partes. Em relação à Jurisprudência, foram analisados os últimos 5 (cinco) anos (2013, 2014, 2015, 2016 e 2017), para facilitar a análise, são excluídos os casos que tratam a mulher- vítima como companheira, amásia, esposa ou que caracterizam a relação entre esta e o agressor como relacionamento amoroso, sem definir o tipo, foram excluídos também os casos que tratavam o casal como participantes de União Estável. Para encontrar as decisões, utilizou-se o site do Tribunal de Justiça de São Paulo na parte de busca por Jurisprudência utilizando as palavras: Lei Maria da Penha com o filtro “E” namoro. As datas procuradas foram de acordo com o ano de publicação das sentenças de segunda instância, buscando sempre desta forma: 01/01/2013 a 31/12/2013 – para todos os anos. Depois de aplicado este filtro, como os objetos de análise são decisões em 2° Grau, foram elaboradas tabelas com os casos restantes que levaram em conta os seguintes fatores: a aplicação ou não da lei na segunda instância, o tipo de violência sofrida pela vítima, a justificativa do requerimento de recurso sendo o pedido vindo do réu ou da vítima e se o recurso foi aceito ou não. São feitas, portanto, as devidas críticas, reflexões e comparações com base nas informações coletadas, a fim de atingir a resposta que esse artigo incita. 5 4. Desenvolvimento A análise da Jurisprudência coletada no TJ-SP nos anos de 2013 a 2017, nos moldes descritos na metodologia, resultou em mais de 350 casos. Dessa maneira, para tornar a análise mais enxuta e menos cansativo, para a elaboração do presente artigo, foram selecionados 35 (trinta e cinco) casos para a feitura de tabelas, as quais, em um trabalho mais elaborado, se pretende fazer com a totalidade dos casos. Estes 35 casos foram escolhidos aleatoriamente após o filtro aplicado - excluindo os casos que tratam a mulher-vítima como companheira, amásia, esposa; os relacionamentos caracterizados como amorosos ou União Estável/casamento – de maneira que não é possível identificar, neste artigo, o caso escolhido. Na composição das tabelas são comparados o número absoluto de casos com o percentual dos eixos analisados – adota-se até duas casas depois da vírgula para facilitar a aproximação. A tabela 1 mostra a relação entre o número de casos analisados e se neles, a Lei Maria da Penha (LMP) é aplicada: N° de Casos Aplicação da LMP (%) 35 100% Fonte: Fernanda Zampieri Rodrigues A tabela 2 mostra a relação entre o número de casos analisados e o tipo de violência nele retratados: N° de Casos Tipo de violência (%)* 35 25,71% Ameaça 77,14% Física 2,85% Psicológica *A soma excede 100% porque os crimes cometidos podem ser combinados em mais de um tipo Fonte: Fernanda Zampieri Rodrigues A tabela 3 mostra a relação entre o número de casos analisados e a parte ingressante com o recurso. N° de Casos Parte que entrou com recurso (%) 35 11,42% Ministério Público 88,58% réu Fonte: Fernanda Zampieri Rodrigues A tabela 4 mostra a relação entre o número de casos analisados e a justificativa dada para o pedido de recurso: 6 N° de Casos Justificativa (%)* 35 - 54,28% insuficiência probatória (todos de recurso interposto pelo réu); - 25,71% ausência de dolo, legítima de defesa, atipicidade ou não materialidade da conduta (todos de recurso interposto pelo réu); - 17,14% ausência de violência de gênero, não cabe aplicação da LMP, incompetência da Vara de Crimes de Violência Contra Mulher no âmbito doméstico para julgar o caso (todos de recurso interposto pelo réu); - 2,87% (foram os casos propostos pelo MP) que pediam a aplicação da LMP à vara, por haver error in procedendo e pela vida da mulher estar em risco. *A soma excede 100% porque há combinação de justificativas dadas para o pedido de recurso nos casos Fonte: Fernanda Zampieri Rodrigues A tabela 5 mostra a relação entre o número de casos analisados e o resultado do recurso provido – se ele foi aprovado ou não: N° de Casos Recurso (%) 35 - 71,42% negados (todos propostos pelo réu); - 17,14% parcialmente aceitos (todos propostos pelo réu); - 11,44% aceitos (todos propostos pelo Ministério Público). Fonte: Fernanda Zampieri Rodrigues 5. Conclusão A pesquisa jurisprudencial propulsora deste artigo, aliada à análise doutrinária, possibilitou chegar à conclusão de que a violência física é a mais presente nos casos, aliada ou não à psicológica, isso muito é relacionado com o Ciclo da Violência (WALKER, 2009, CAP.V), pois analisando intimamente o caso, pode ser possível ver como a agressão evolui, já que muitas vezes, a agressão psicológica evolui para uma física, podendo chegar até à morte da mulher. Pode-se ver também que com o passar do tempo, mais especificamente desde 2009, três anos após o início da vigência da LMP, a Jurisprudência adequou-se e passou a aplicar a 7 Lei Maria da Penhaàs situações que envolvam namorados e ex-namorados (CC 90.767-MG, DJe 19/12/2008. CC 100.654-MG, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 25/3/2009. Informativo nº 0384. Período: 16 a 27 de fevereiro de 2009) dentro dos quesitos especificados pelo texto legal. Esta aplicação é justificada pelo argumento de que: “'O namoro é uma relação íntima de afeto que independe de coabitação; portanto, a agressão do namorado contra a namorada, ainda que tenha cessado o relacionamento, mas que ocorra em decorrência dele caracteriza violência doméstica'” (STJ, REsp 1416580/RJ, Relatora Ministra Laurita Vaz, julgado 01-4-2014). Este sentido da aplicação vai de encontro às expectativas de muitas feministas, inclusive da autora deste artigo, no sentido de fornecer proteção e amparo legal à mulher em situação de violência, seja ela de qualquer tipo. Aos olhos deste grupo, pode-se considerar uma melhoria na leitura do que escreveu o legislador, conferindo maiores e melhores condições de convivência e uso do sistema de justiça. 6. Referências BASTOS, Tatiana Barreira, Violência Doméstica e familiar contra a mulher - Análise da Lei Maria da Penha (Lei n° 11.340/2006): um diálogo entre a teoria e a prática, 2°. ed., Porto Alegre, Verbo Jurídico, 2013. 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