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Virginia_M._Axline___Dibs___Em_Busca_de_Si_Mesmo

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- Claro. Vamos fingir que é uma hora - sugeriu. 
- E você imagina que fingindo mudaria de fato o tempo? 
- Bem, isso não. Mas há dois tipos de fingimento - replicou. 
- E quais são eles? 
- Bem, o fingimento que é correto praticar e o fingimento que faz 
as pessoas passarem por tolas - explicou, levantando-se e dirigindo-se a 
mim. - E algumas vezes essas duas formas se misturam tanto, que você 
não pode dizer onde acaba uma e começa a outra. Estou indo agora 
para o consultório do médico. De fato, estávamos a caminho do 
consultório médico quando viemos para cá. No entanto, viemos para 
aqui primeiro, porque eu queria muito vir e mamãe achou que estava 
bem, porque disse que lhe havia perguntado se você já tinha tido 
sarampo e sua resposta foi que sim. Mas talvez o médico não me tivesse 
permitido - continuou, vestindo o casaco e o chapéu. - Mas estou bem - 
reafirmou. - E não posso passar o sarampo para ninguém (Pag. 11) 
agora - falou sorrindo. - Até mais! Espero vê-la na próxima quinta-feira. 
- E saiu. 
Dibs foi embora e eu fiquei com minhas interrogações e as 
inferências que poderia extrair de parte dessa conversa com Dibs. Ele 
parecia mais tranqüilo em seu relacionamento com a mãe. Havia 
indicações de que Dibs estava sendo tratado com mais consideração, 
respeito e compreensão, em sua casa. Mesmo "papai" parecia estar 
permitindo que suas potencialidades humanas desabrochassem. Mas 
estariam eles modificando-se para melhor entender Dibs? Ou seria Dibs 
quem havia mudado em sua capacidade de relacionar-se com os pais e 
por isso podia aceitar a aproximação de ambos mais naturalmente? 
Sem dúvida, eles haviam providenciado amplo e variado material 
para alimentar a aguçada capacidade intelectual de Dibs. Certamente, 
seus pais tentaram comunicar-se com ele e ensinar-lhe o que julgavam 
importante. Era dificílimo compreender como eles podiam sentir que 
seu filho era retardado mental, quando o material que lhe davam ia 
muito além da capacidade média de uma criança na faixa etária de 
Dibs. 
Certamente devem ter pressentido que os problemas de Dibs não 
eram causados por falta de capacidade intelectual. Entretanto, por que 
Dibs ainda mantinha esses dois tipos de comportamento: um tão 
talentoso e superior e outro lamentavelmente deficiente? 
 
Capítulo XIII 
 
Dibs parecia completamente feliz quando retornou à sala de 
ludoterapia na semana seguinte. 
- Mamãe deverá apanhar-me um pouco mais tarde hoje - disse. 
- Sim, eu sei. Ela me disse. 
- Ela tem algumas coisas a resolver e disse que deveria esperá-la 
aqui. Disse que combinou isso com você. 
- Está tudo certo, Dibs. 
Caminhou pela sala com um sorriso no rosto. 
- Acho que vou cantar - anunciou. 
- Se você quer cantar, cante - repliquei. Ele riu. 
- E se quiser ficar quieto, fico quieto! - exclamou. - E se quiser 
pensar, apenas penso. E se quiser brincar, eu brinco. É assim, não? 
- Sim, Dibs. 
Aproximou-se do cavalete e observou atentamente as tintas. 
Pegou o pote de tinta azul. Começou a cantar, e enquanto cantava 
levantava o pote de tinta e balançava-o ritmicamente de um lado para 
outro. 
- Oh tinta! Oh tinta tão azul! O que, oh, o que você pode fazer? 
Você pode pintar um céu. Você pode pintar um rio. Você pode pintar 
uma flor. Você pode pintar um pássaro. Todas as coisas são azuis, Se 
você as faz azuis. Oh tinta azul, oh tinta, tão azul! 
Encaminhou-se para mim com o pote de tinta nas mãos. (Pag. 
112 113) 
- Ela vai entornar. Ela vai manchar. Ela vai derramar. Ela vai 
escorrer. Minha linda tinta azul, ela vai. 
Continuou cantando as palavras que criava enquanto prosseguia. 
- É uma cor movimento. Ela balança e balança. Oh azul! Oh azul! 
Oh azul! 
Balançava o pote de tinta para a frente e para trás enquanto 
cantava. Recolocou-o no cavalete e apanhou o pote de tinta verde. 
- Oh tinta verde! Tão verde! Você é calma e agradável, A meu 
redor na primavera, A meu redor no verão. Nas folhas, na grama, nas 
colinas. Oh verde! Oh verde! Oh verde! 
Guardou a tinta verde e pegou o pote de tinta preta. 
- Oh preto! Oh noite! Oh, terrível escuridão. Vem a mim de todos 
os lados. Oh sombras e sonhos, E tempestades e noite! Oh preto! Oh 
preto! Oh preto! 
Recolocou o pote e pegou a tinta vermelha. Trouxe-a para mim, 
levantou-a, segurando-a com ambas as mãos. Dessa vez enfatizava 
cada palavra: 
- Oh vermelho, tinta zangada. Oh tinta que se aborrece. Oh 
sangue tão vermelho. Oh ódio. Oh loucura. Oh medo. Oh lutas 
barulhentas e viscosas de sangue! Oh ódio. Oh sangue. Oh lágrimas. 
Pouco a pouco foi baixando a tinta vermelha. Em silêncio, fixou-
lhe o olhar. Suspirou profundamente antes de colocá-la no cavalete. 
Pegou, então, a tinta amarela. - Oh vil cor amarela - disse. - Oh cor 
zangada. Oh grades na janela que mantêm as árvores distantes. Oh 
porta fechada a chave. Eu te odeio, amarelo. Cor abjeta. Cor das 
prisões. Cor dos abandonados e amedrontados. Oh mesquinha cor 
amarela. - Recolocou-a sobre o cavalete. 
Dirigiu-se à janela e olhou para fora. - Que dia lindo está hoje - 
comentou. 
- É verdade - respondi. 
Durante um longo tempo, Dibs lá permaneceu olhando para fora 
da janela. Sentada perto, imaginava por que havia ele projetado aquelas 
associações com as cores das tintas. Por que teria mostrado ligações tão 
negativas com o amarelo? Voltou para o cavalete. - Esta tinta turquesa 
é nova - disse. 
- É, sim, Dibs. 
Colocou duas folhas grandes de papel no cavalete e 
cuidadosamente mexeu a tinta turquesa com um pincel. Em seguida, 
levou o pincel à pia e sobre ele deixou correr a água. - Oh, veja! A água 
tornou-se azul. - Vedando a passagem da água com as pontas dos 
dedos, fez correr jatos de água por toda a sala. - A água sai, sai, sai - 
gritava e ria. - E eu, Dibs, posso fazer da água uma fonte e tornar azul a 
cor da água. 
- Eu vi. Você pode. 
O pincel caiu inesperadamente de sua mão e foi logo absorvido 
pelo escoadouro da pia. Imediatamente, Dibs tentou alcançá-lo, mas 
não o conseguiu. Já estava no meio do cano. - Bem - exclamou. - Que 
bonito desfecho! Não posso mais pegá-lo. Ele lá se foi, bem para baixo, 
fora do alcance de minha vista. Mas está no cano. Em sua parte mais 
funda. Abriu as portas do armário sob a pia e examinou o cano. - Muito 
mau - comentou, rindo. 
- Sim. O pincel está no meio do encanamento. 
Voltou, então, a brincar com a água, fazendo-a girar em todas as 
direções. Apanhou a mamadeira e encheu-a. Tentou colocar-lhe o bico, 
mas a excessiva umidade, tornando a superfície escorregadia, 
dificultava a tarefa. Mordeu e apertou com os lábios o bico. Deixou a 
mamadeira na pia, em tal posição que a água corrente a mantinha 
sempre cheia. Depois, colocou o frasco bem em cima do escoadouro e 
logo a água começou a encher toda a pia. Abriu então a torneira de 
água potável, pôs nela o bico da mamadeira e baixou o (Pag. 114 115) 
rosto para molhá-lo. - A água está saindo - anunciou. Lave. Lave. Lave. 
- Pegou dois potes de tinta vazios e sujos e colocou-os na pia. 
Entretanto, um conjunto de pratinhos de plástico, que estavam 
na prateleira, pareceram a Dibs mais apropriados para sua atividade. E 
a segunda opção substituiu a primeira. Ou melhor, uma escolha 
completou a outra. É que ele havia entornado as sobras de tinta sobre 
os pratos. Ao verificar o efeito, pulou, aproximando-se de mim e 
expressando sua decisão. 
- Lavarei a louça! Eles estão nadando e ficando molhados. Tudo 
está molhado. E tudo fica salpicado de água! Onde está o pano de 
prato? E o escorredor de louça? E o sabão? Que boa água brincalhona 
que espirra! Que divertido! 
- Você está gostando da brincadeira, não é,