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Virginia_M._Axline___Dibs___Em_Busca_de_Si_Mesmo

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continuavam a luta com 
redobrada coragem. 
Expressando seus sentimentos, pensamentos, sonhos e 
esperanças, novos horizontes abriram-se para cada um desses 
pequeninos. Alguns superavam seus pavores e ansiedades lutando 
contra o mundo, que por muitas razões lhes era insuportável. Outros 
haviam emergido com renovada força e capacidade para enfrentar seu 
ambiente muito mais construtivamente. 
Outros, ainda, foram incapazes de resistir ao impacto de seu 
ultrajante destino. E não há explicação simples para tão dramáticos 
desencontros. 
Afirmar que a criança foi rejeitada ou não aceita nada significa em 
termos de entendimento de seu mundo interior. Muito freqüentemente, 
esses termos valem apenas como convenientes rótulos que funcionam 
como álibis para desculpar nossa ignorância. Devemos cortar clichês, 
interpretações rápidas e explicações. Se, de fato, queremos aproximar-
nos da verdade, devemos olhar profundamente as razões de nosso 
comportamento. 
Irei à escola amanhã bem cedo, decidi. Telefonarei para a mãe de 
Dibs e marcarei um encontro com ela em sua casa o mais cedo possível. 
Na próxima quinta-feira já começarei as sessões de ludoterapia com 
Dibs. E onde tudo isso irá terminar? E se ele não conseguir quebrar as 
paredes que tão rigidamente construiu ao redor de si mesmo? Esta, sem 
dúvida, seria uma possibilidade. Mas não era a dominante. Animava-me 
a certeza de que daria àquele garoto meu apoio para que empreendesse 
a aventura de decifrar-se. Cada ser humano tem seu próprio caminho. 
E o que pode representar grande ajuda para uma criança poderá ter 
baixa ou nenhuma funcionalidade com outra. Mas não desistimos 
facilmente. Nunca classificamos um caso como sem esperanças, sem 
tentar uma vez mais. 
Alguns julgam ser desonesto manter a esperança quando não há 
evidências que a estimulem. Mas não esperamos um milagre. Estamos 
buscando compreensão, acreditando que o verdadeiro entendimento 
nos conduzirá ao portão dos caminhos mais efetivos para estimularmos 
a pessoa a desenvolver-se e utilizar suas capacidades positivamente. 
Preparamo-nos sempre para persistir na investigação das causas, 
lutando para iluminar a fantástica selva de nossa ignorância. 
Na manhã seguinte, cheguei à escola antes dos alunos. As salas 
ocupadas pelas turmas do maternal e jardim da infância eram claras e 
alegres, com equipamento apropriado e atraente. 
- As crianças chegarão daqui a pouco - disse Miss Jane. - Estou 
muito interessada em saber sua opinião sobre Dibs. Espero que possa 
ajudá-lo. A preocupação que esse garoto me inspira assemelha-se a 
uma angústia de morte. Você sabe, quando a criança é realmente 
retardada mental, há uma consciência global em seu comportamento 
que se evidencia em seus interesses e ações. Mas, e Dibs? Nunca 
sabemos em que estado de ânimo ele se encontra, embora estejamos 
certos de que não esboçará nenhum sorriso. Jamais algum de nós o viu 
sorrindo. Jamais alguém percebeu um ar de felicidade, ainda que 
remota, a iluminar-lhe o rosto. 
Isso nos leva a crer que seu problema vai além de um 
retardamento mental; envolve a esfera afetiva. Veja, estão chegando 
algumas crianças gora. 
Em poucos minutos o colégio estava repleto de crianças. Quase 
todas expressavam no rosto a feliz expectativa ante o novo dia escolar 
que iniciavam. Depois da entrada, tiravam os chapéus e agasalhos, 
dependurando-os cada um em seu próprio cabide. Pareciam 
descontraídos e cercados de conforto naquele ambiente. 
Cumprimentavam-se entre si e aos professores, com espontaneidade. 
Alguns se aproximaram de mim para conversar. Perguntaram meu 
nome e por que estava em sua escola. 
A primeira atividade das crianças foi baseada na livre (Pag. 18 19) 
escolha. Cada uma buscava os brinquedos que mais a atraíam. 
Divertiam-se e conversavam juntos com muita naturalidade. 
Foi então que Dibs chegou. Sua mãe levou-o até dentro da classe. 
Num relance, percebi-a falando apressadamente com Miss Jane 
para, em seguida, despedir-se. Inerte, Dibs ali permaneceu. Usava 
casaco e gorro de lã cinza. Miss Jane perguntou-lhe se gostaria de tirar 
o agasalho. 
Nada respondeu. 
Era um garoto bem crescido para sua idade. Sua face estava 
muito pálida. Tinha os cabelos negros e cacheados. Seus braços flácidos 
pareciam pendurados em seu ombro. Miss Jane tirou-lhe o sobretudo e 
o boné. Dibs parecia não querer colaborar. Foi ainda a professora quem 
guardou seus apetrechos no armário. 
- Bem, eis Dibs - disse Miss Jane num sussurro, enquanto se 
aproximava de mim. - Como ele nunca tira o casaco e o gorro por si 
mesmo, nós o fazemos, já rotineiramente. Temos tentado repetidas 
vezes entrosá-lo com as outras crianças em alguma atividade; ou 
sugerimos-lhe uma tarefa específica para que a execute. Mas Dibs 
rejeita todas as nossas ofertas. Esta manhã, quando o deixarmos 
sozinho, você poderá observar sua conduta. Talvez mantenha-se ali por 
muito e muito tempo. 
Talvez movimente-se de uma escolha para outra. Tudo depende 
de como esteja se sentindo. Na verdade, com certa freqüência, ele 
parece saltar de um brinquedo para outro, como se não tivesse 
nenhuma capacidade de concentrar a atenção. Mas, em outras 
ocasiões, fixa-se durante longo período numa atividade que lhe 
interessa. 
Miss Jane voltou-se para atender outras crianças. Com o olhar 
discreto observava Dibs. Tentava disfarçar o foco de minha atenção. 
Dibs continuava em pé. Lenta e cautelosamente virou-se de 
frente. 
Levantou os braços num gesto de desespero e logo depois deixou-
os cair novamente. Virou-se, e ficou numa posição que alargava o 
ângulo de sua visão. Poderia ver-me se prestasse atenção. Suspirou, 
mordeu os lábios e continuou de pé. 
Um dos garotinhos da turma correu para ele, convidando-o. 
- Ei, Dibs! Venha brincar! 
Dibs lançou-se sobre o garoto. E ele o teria esmurrado, se não 
fosse a rapidez do menino recuando para trás, de imediato. 
- Gato, gato, gato - gritou o pequeno. 
Miss Jane acorreu, sugerindo ao menino que fosse brincar no 
outro lado da classe. 
Movimentando-se em direção à parede, Dibs aproximou-se de 
uma mesinha, sobre a qual estavam pedras, conchas, pedaços de 
carvão e outros minerais. Parou e, muito devagar, apanhou primeiro um 
objeto, depois outro. Correu os dedinhos em volta deles, roçou-os em 
seu queixo, cheirou-os e finalmente provou-os com a língua. Então, 
recolocou-os em seus lugares cuidadosamente. Num relancear de olhos 
captou minha presença e com a velocidade de um relâmpago desviou a 
direção do olhar. 
Abaixou-se recurvado sob a mesa; ali sentou-se numa tentativa 
de esconder-se. 
As outras crianças trouxeram suas cadeirinhas para formar um 
círculo em volta de uma das professoras. Era a hora em que cada um 
mostrava aos outros o que trouxera para a escola e narrava algumas 
coisas importantes para eles. A professora complementava a conversa 
com uma estória. Cantavam algumas canções. 
Dibs não estava muito afastado. Continuava quieto em seu 
esconderijo. De sua localização estratégica, poderia ouvir tudo o que 
falavam e ver o que mostravam, desde que lhe interessasse. Teria ele 
previsto essa atividade do grupo quando se acocorou debaixo da mesa? 
Era difícil de dizer. Ele permaneceu ali até que o círculo se dissolveu e 
seus participantes foram se dedicar a outras atividades. Então, buscou 
um outro entretenimento. 
Engatinhou em volta da sala, conservando-se próximo à parede. 
De quando em quando, parava para examinar diversas coisas que 
encontrava. 
Chegando próximo ao peitoril de uma janela, onde estavam um 
aquário e um viveiro, Dibs ergueu-se fixando neles o olhar 
perscrutador. 
Então, esticou