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UNESP
Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”
Campus de Araraquara
Aspectos lingüísticos e sociais do empréstimo
Trabalho apresentado a professora Silvia como requisito parcial de avaliação da disciplina Filologia românica
Bruno Henrique
Camila Bravo
Lívia Fontão
Jean Paul Sant’ana
Maria Paula Piruzelli
Marlon Polli
Pedro Zambrano
Junho - 2006
Introdução
	Este trabalho trata do processo de evolução do Latim referente aos empréstimos que sofreu de outras línguas, até chegar no estágio de língua portuguesa como nós a conhecemos nos dias atuais. Optamos por começar desde o começo da transformação – quando começou a infiltração e desaparecimento de alguns vocábulos dessa língua mãe – até os empréstimos que o Português vem tomando. Para essa tarefa, usamos como base os livros de Mattoso Câmara Princípios de lingüística geral (1954) e o livro do pesquisador T. H. Maurer O problema do latim vulgar (1962), além de alguns suplementos retirados de jornais que explicam o problema do gerundismo.
1 Os dois tipos de Latim: o começo do surgimento das línguas românicas
Segundo Maurer (1962) existiram dois tipos de latim:
Latim aristocrático: (sermo urbanus), que na forma escrita constitui o latim clássico, ou, no sentido menos restrito, o latim literário. Era o latim usado pela sociedade mais refinada de Roma. Como ficou reduzido à língua escrita, tornou-se pouco a pouco uma língua artificial, usada, no fim do império, apenas pelos letrados em ocasiões especiais. Com a queda do Império romano, as escolas de cultura clássica foram fechadas e a aristocracia social caiu, reduzindo esse latim literário, já bem diferente do latim falado, à uma língua, de algum modo, morta.; 
Latim vulgar (sermo plebeius), isto é, o latim da plebe romana. Foi sempre e essencialmente um latim falado, do qual os documentos literários antigos e mesmo as inscrições nos dão apenas fragmentos imperfeitos. Não corresponde à outra língua, mas é uma variante popular e simplificada do mesmo latim. No começo era a língua do povo do campo e da massa plebéia que povoava Roma, porém, em determinado período, essa língua foi se infiltrando nas camadas mais altas da sociedade. Esse fenômeno ocorreu com a maioria das línguas, só que no caso do Latim, esse processo foi lento e tardio, só ocorreu e consolidou-se quando houve a formação das línguas literárias no romance. Esse foi o momento que o latim vulgar, já bem transformado, ocupou o lugar do velho Latim.
1.1 A formação do latim clássico e do latim vulgar
Desde os primórdios, Roma era povoada por duas classes distintas: os patrícios e os plebeus. No começo existiam como classes fechadas, sendo proibidos os casamentos entre membros de classes sociais diferentes, e para a plebe, um grande número de direitos era negado. Porém, com o tempo, muitas barreiras foram vencidas e famílias senatorias, de cavaleiros e outras também alcançam a classe aristocrata, trazendo consigo costumes e modos novos para aquele meio. Os patrícios eram conservadores com relação à sua cultura e, principalmente, sua língua que era mais pura e mais correta. Por outro lado, a plebe era constituída de elementos sociais diversos, era um classe mista, portanto sem muito contato com o passado, afinal, não sabia de onde vinha e não incorporava em si um ideal de cultura ou de classe.
2 Mattoso Câmara: a origem dos empréstimos
	O livro Princípios de lingüística geral nos mostra desde os primórdios do processo de empréstimos lingüísticos sofrido pelo Latim até os nossos dias.
Cap. XX – “Aspectos lingüísticos e sociais do empréstimo”
2.1 “Empréstimos culturais”
	Os empréstimos culturais derivam das seguintes fontes:
aquisições estrangeiras por meios políticos, comerciais e culturais;
no caso de dominação de povos: o povo conquistado sempre passa a usar a língua do conquistador;
comerciais: potência econômica empresta vocábulos á outras línguas.
	Nas línguas, as palavras estão intimamente ligadas ao signo que aqueles falantes tem na cabeça, então quando é feito o empréstimo, essa palavra, apesar de adaptada a morfologia daquele país, ainda possui caráter anômalo. (CAMARA, 1954, p. 287-289).
2.2 “Empréstimos íntimos”
é a co-existência de duas línguas no mesmo meio social. Nesse caso, existe sempre uma língua forte que acaba por abolir sua rival da qual já tomou empréstimos em abundância;
nesse tipo de empréstimo, ocorre por um longo período o bilingüismo;
em todas as línguas do mundo, isso já aconteceu em algum período histórico. (CAMARA, 1954, p. 290-291).
2.3 “Condições sociais para os empréstimos íntimos”
	Pode-se exemplificar isso em dois casos:
Romanização do ocidente durante a expansão do império romano:
Nação poderosa que conquistou um povo fraco e faz do território conquistado uma província. A conseqüência disso é o infiltramento lento e constante da língua dos conquistadores, por impor um novo sistema político, econômico e educacional;
Outra situação é se o povo dominador ocupa a terra conquistada. Dessa forma, os nativos são mortos ou escravizados. Isso aconteceu provavelmente com o Indo-europeu e com o Inglês;
Outra forma é se os conquistadores usarem termos da língua dos conquistados para se comunicar com eles. Porém, logo a língua invasora vai se extinguindo e a língua usada pelos governantes se modifica para parecer-se com a língua do povo. Isso talvez ocorra devido ao número de falantes da língua nativa ser maior do que aqueles conquistadores. (CAMARA, 1954, p. 293).
2.4 “A atuação da língua comum”
A língua comum estende-se por todo o país, superpondo-se aos seus falares (língua strictu-sensu). Assim, o francês é, grosso-modo, o conjunto de falares, muito homogêneo, da região parisiense. Do mesmo modo, o português foi de início – como indica o nome – a língua da região do Porto ou Porto Cale.
A língua comum tende a sufocar as línguas locais. Primeiro em caráter fonético e depois morfológico.
A infiltração começa com o empréstimo amplo de sufixos, depois vocábulos pronominais, como advérbios de lugar e tempo, depois a vez dos instrumentos gramaticais, como preposições, os morfemas desinenciais é o estágio final de degradação.
As gírias são também como empréstimo para a língua comum. Mattoso Câmara chama essa linguagem de língua especial, pois tem vocábulos próprios e utilização peculiar dos outros do acervo geral, essa utilização é feita mudando-se a semântica das palavras.
Nota-se que muitos empréstimos culturais são importados para um vocabulário profissional e em seguida generalizados no emprego.
Ex.: chegar em português possui o étimo latino plicure (dobrar). Isso aconteceu porque quando os marinheiros chegavam próximos ao porto eles tinham de dobrar as velas (plicare uela). Contrário a isso é o romeno que peca semanticamente quer dizer sair, pois vem da linguagem do exército (plicare impedimenta = dobrar as bagagens ao levantar acampamento, pois, partir). (CAMARA, 1954, p. 298-301).
2.5 “A gíria, propriamente dita, e a língua literária”
Nos grandes centros urbanos, começa a se desenvolver a gíria, utilizada pelas classes populares;
Os ingleses chamam de slang, é uma atitude estilística de desrespeito intencional à norma estabelecida;
A literatura também cria para si uma língua paralela, secundária, porém numa posição sui-generis (elevada);
A língua literária nasce da imitação de certos modelos, no nosso caso, na literatura do século XIX e meados do século XX, dos franceses e os latinos dos gregos. Além disso, pega frases anteriores da língua. (CAMARA, 1954, p. 302-304).
FILOLOGIA: o estudo da língua da literatura constitui uma exegese, a que se chama de filologia e que convém manter, na conceituação e na nomenclatura, bem distinta da lingüística, ao contrário do que se faz às vezes.
2.6 “A língua escrita e sua influência”
A língua escrita se pauta na língua literária, por isso a gramática normativa se baseia nas línguas literárias.
Para que a norma culta é importante:
torna-se, não obstante, especialmente útil como expressão de uma vidacultural superior, pois esta exige, com efeito, um instrumento de mais sutileza e precisão do que a língua cotidiana, constituída para a expressão de uma vida mental muito mais corriqueira e muito menos complexa (CÂMARA, 1954, p. 304).
Língua morta: o ideal lingüístico coletivo tornou-se completamente outro daquele consubstanciado nos padrões literários. (CÂMARA, 1954, 304).
	Sobre a importância da língua escrita
É a língua escrita que, trazida paralelamente com o transplante da cultura, se torna a materialização do ideal de unidade lingüística dentro do estado. Tal é a situação do Brasil, por exemplo, onde são pouquíssimos os traços lingüísticos, não reconhecidos pela norma escrita, que dominem em todo o país. (CAMARA, 1954, p. 307).
2.7 Conclusão
A ciência do século passado não desconhecia esses fatos, mas tendia a considerá-los despicientemente como perturbações anômalas da evolução das línguas. Contra tal atitude já advertia Meillet que o empréstimo “é um fato normal” de mudança lingüística. São normais, em verdade, todas e quaisquer mudanças. É normal, o empréstimo em seu sentido genérico, e normais são as ações da língua literária e das gírias sobre a língua comum. Tanto diacrônica como sincronicamente, aliás, a lingüística é o estudo da língua sob todos os seus aspectos, e todos os meios de comunicação lingüística, determinados por quaisquer tipos de vida social, têm de ser considerados manifestações normais e objeto de ciência. (CAMARA, 1954, p. 308).
O que é o gerundismo?
O gerundismo é, simplesmente, um mau uso do gerúndio. Na verdade, essa afirmação seria uma visão muito simplista de um modismo que vem preocupando tanto os gramáticos e defensores da língua portuguesa, que já pensam várias maneiras de protegê-la dessa nova praga que infecta nossa língua mãe.
É evidente o tamanho dessa preocupação ao observarmos pessoas do cotidiano que, muitas vezes, não têm um conhecimento científico e/ou específico da língua portuguesa saírem com os “ouvidos doendo” do telefone depois de uma longa conversa com um “gerundista”. 
Por que o exemplo do telefone? É simples. Basta buscarmos a origem desse novo mau para entendermos. E nada melhor do que um comentário de alguém que entende do assunto para que vejamos bem como isso aconteceu:
Isso é uma influência mal digerida do inglês em frases como will be sending (vou mandar e não vou estar mandando), trazidos ao português por uma má tradução de manuais de telemarketing e cujo uso infelizmente não é mais exclusividade de atendentes desse tipo de rede de comercialização e, agora, ganham as ruas. Infelizmente, porque com essa disseminação do gerundismo seu combate se torna mais árduo. (Eduardo Martins, jornalista e autor do Manual de redação estilo do Grupo Estado e que já abordou o assunto em seu programa De palavra em palavra, na Rádio Eldorado e no suplemento Estadinho).
Entendido sua origem e, conseqüentemente, o exemplo acima, podemos partir para uma discussão gerúndio x gerundismo.
Gerúndio não é gerundismo
O fato de algumas pessoas usarem o gerúndio de maneira equivocada e assim fazerem parte dessa nova onda, horrenda, chamada gerundismo, não quer dizer que o gerúndio seja abominável. Pelo contrário: ele pode e deve ser usado para expressar uma ação em curso ou uma ação simultânea a outra, ou para exprimir a idéia de progressão indefinida. Combinado com os auxiliares estar, andar, ir, vir, o gerúndio marca uma ação durativa, com aspectos diferenciados:
1) com estar, o momento é rigoroso:
Está havendo, hoje em dia, um certo abuso... 
Os preços estão subindo todos os dias. 
O país está entrando numa crise sem precedentes. 
2) com andar, predomina a idéia de intensidade ou movimento reiterado:
Andei buscando uma saída para a crise. 
Andaram falando mal de ti. 
3) com ir, a ação durativa se realiza progressivamente:
O tempo foi passando e nada de solução. 
Aos poucos ela vai ganhando a confiança do patrão. 
4) com vir, a ação se desenvolve gradualmente em direção à época ou ao lugar em que nos encontramos:
O livro não registra como tal expressão vem sendo usada pelos brasileiros. 
A noite vai chegando de mansinho.
 
Há, porém, casos de exemplos reais em que o uso do “gerundismo vai ser aceito”:
 
5) Em virtude do atraso, estaremos recebendo o pagamento em conta corrente nos dias 27 e 28.
6) – Podemos nos encontrar no fim-de-semana?
– Infelizmente não, pois vou estar viajando. [ou: estarei viajando]
7) Em outros artigos ela estará dando maior atenção a cada um desses temas.
8) Ela deve estar fazendo as tarefas de casa agora.
É abusivo – gerundismo – nos seguintes casos:
9) Vou aproveitar o 13º para estar pagando tudo. [devemos trocar por: para pagar]
10) Concomitantemente, temos que estar discutindo e reconstruindo um currículo escolar que venha a ser um instrumento de formação integral. [temos que discutir e reconstruir]
11) Estes temas devem servir para estarmos aprofundando as discussões. [para aprofundarmos]
12) Nossos atendentes vão estar efetuando a cobrança somente em maio. [vão efetuar = efetuarão]
Levando em conta o que vimos na discussão anterior (Gerúndio x Gerundismo) e considerando as frases acima: evita-se o gerundismo ao fazer a troca da locução verbal ESTAR (andar, ir, vir) + GERÚNDIO por um simples INFINITIVO (flexionado ou não), desde que não se trate efetivamente de uma ação durativa, como nos exemplos 5 a 8.
Sobre a lei do Aldo Rebelo
Um projeto de lei, aprovado em março de 2001 na Câmara dos Deputados, restringe o uso de palavras estrangeiras e obriga o uso da língua portuguesa por brasileiros natos e naturalizados e pelos estrangeiros residentes no Brasil há mais de um ano. O projeto rege o ensino e a aprendizagem, o trabalho, as relações jurídicas, a expressão oral, escrita audiovisual e eletrônica oficial e nos eventos públicos nacionais, os meios de comunicação de massa. Trata-se do PL nº 1676, proposto pelo deputado Aldo Rebelo, do PC do B de São Paulo. Após a aprovação na Câmara, o projeto seguiu para o Senado. Se for aprovado pelos senadores, terá um ano para ser regulamentado.
Para proteger e defender a língua portuguesa, o Art. 2° do Projeto de Lei determina que o Poder Público, com a colaboração da sociedade, deve melhorar as condições de ensino e de aprendizagem da língua portuguesa em todos os graus, níveis e modalidades da educação nacional. Além disso deve incentivar o estudo e a pesquisa sobre os modos normativos e populares de expressão oral e escrita dos brasileiros, incentivar o uso da língua portuguesa dentro e fora do Brasil, fomentar a participação do Brasil na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e atualizar as normas do Formulário Ortográfico da Língua Portuguesa, para que sejam incluídos e aportuguesados vocábulos de origem estrangeira.
No texto de apresentação do projeto aos seus pares no Congresso, intitulado "Culta, Bela e Ultrajada: um projeto em defesa da língua portuguesa", Aldo Rabelo afirma que a proposta "trata com generosidade as exceções, e ainda abre à regulamentação a possibilidade de novas situações excepcionais". Neste mesmo documento, o deputado mostra a sua intenção de "conscientizar a nação de que é preciso agir em prol da língua pátria, mas sem xenofobia ou intolerância de nenhuma espécie. É preciso agir com espírito de abertura e criatividade para enfrentar - com conhecimento, sensibilidade e altivez - a inevitável, e claro indesejável, interpenetração cultural que marca o nosso tempo globalizante”.
O Projeto de Lei define como prática abusiva os casos em que a palavra ou expressão em língua estrangeira utilizada, tiver equivalente em língua portuguesa. Além disso, o projeto define como prática enganosa se a palavra ou expressão em língua estrangeira puder induzir qualquer pessoa a erro ou ilusão de qualquer espécie; e prática danosa ao patrimônio cultural se a palavra ou expressão em língua estrangeira puder descaracterizar qualquer elemento da cultura brasileira.
Após a publicação da lei, as palavras ou expressões em língua estrangeirapostas em uso no território nacional ou em repartição brasileira no exterior terão que ser substituídas por palavras ou expressões equivalente em língua portuguesa. O prazo é de 90 dias, a contar da data de registro da ocorrência.
Um dos pontos polêmicos do projeto é o uso constante de termos estrangeiros na literatura científica e técnica. Segundo Rebelo, estes neologismos da nomenclatura técnica e científica "devem ser aportuguesados para adquirir a feição e a sonoridade de um verso de Camões".
Apesar da Constituição dizer que a língua portuguesa é o idioma oficial brasileiro, a presença de estrangeirismos é marcante. A Academia Brasileira de Letras é responsável por fazer o vocabulário ortográfico da língua portuguesa, e tem função importante no aportuguesamento das palavras estrangeiras. Nos termos do Projeto de Lei apresentado, continuará desempenhando seu tradicional papel de centro maior de cultivo da língua portuguesa no Brasil.
A opinião do Presidente da Academia Brasileira de Letras dada em entrevista ao Jornal do Brasil, é compartilhada por muitas pessoas. Segundo Padilha, o projeto tem méritos por pretender preservar a língua portuguesa da invasão estrangeira. Contudo, ele não acredita na viabilidade, pois uma lei não seria suficiente para conter o uso de determinadas expressões ou palavras. Segundo ele, trata-se de uma questão de bom senso não abusar de estrangeirismos.
Referências bibliográficas
MAURER, T. H. O problema do latim vulgar. Rio de Janeiro: Livraria Acadêmica, 1962.
CAMARA, J. Mattoso Jr. Princípios de lingüística geral. Rio de Janeiro: Livraria acadêmica, 1954.
Jornal do Brasil, Guia de Vestibulandos, 2001.

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