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NUTRIÇÃO E DISTÚRBIOS NUTRICIONAIS DE CÃES E GATOS ATIVIDADES LÚDICAS AFRICANAS 1 1 Sumário NUTRIÇÃO E DISTÚRBIOS NUTRICIONAIS DE CÃES E GATOS ........ 0 NOSSA HISTÓRIA .................................................................................. 2 INTRODUÇÃO ......................................................................................... 3 COMPORTAMENTO ALIMENTAR DE CÃES E GATOS ........................ 5 EXIGÊNCIA ALIMENTAR DE CÃES E GATOS ...................................... 5 ALIMENTOS FUNCIONAIS ..................................................................... 7 TIPOS DE RAÇÕES PARA ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO ........................ 12 ALIMENTAÇÃO POR FASES DA VIDA DOS CÃES ............................. 15 ALIMENTAÇÃO POR FASES DA VIDA DOS GATOS .......................... 18 GESTAÇÃO E LACTAÇÃO DE CÃES E GATOS .................................. 22 NOVOS PONTOS DE VISTA SOBRE AS RECOMENDAÇÕES NUTRICIONAIS ................................................................................................ 25 INFORMAÇÃO SOBRE DIGESTIBILIDADE DE INGREDIENTES ........ 27 SAÚDE, QUALIDADE E EXPECTATIVA DE VIDA ............................... 27 PAPEL DA NUTRIÇÃO NA PREVENÇÃO E SUPORTE DE AFECÇÕES ......................................................................................................................... 28 MICROBIOTA DO TRATO GASTRINTESTINAL E SUA IMPORTÂNCIA NA IMUNIDADE ............................................................................................... 31 DIFERENÇAS ENTRE CÃES E GATOS ............................................... 33 EXIGÊNCIAS NUTRICIONAIS .............................................................. 34 APORTE ENERGÉTICO DOS ALIMENTOS ......................................... 36 CÁLCULO DA QUANTIDADE DE ALIMENTO ...................................... 37 FONTES DE CARBOIDRATO PARA CÃES E GATOS ......................... 39 FONTES DE PROTEÍNA PARA CÃES E GATOS ................................. 41 REFERÊNCIAS ..................................................................................... 46 file://192.168.0.2/E$/PostagemNova/CIÊNCIAS%20AGRÁRIAS%20E%20VETERINÁRIA/NUTRIÇÃO%20ANIMAL/NUTRIÇÃO%20E%20DISTÚRBIOS%20NUTRICIONAIS%20DE%20CÃES%20E%20GATOS/NUTRIÇÃO%20E%20DISTÚRBIOS%20NUTRICIONAIS%20DE%20CÃES%20E%20GATOS.docx%23_Toc56525710 2 2 NOSSA HISTÓRIA A nossa história inicia com a realização do sonho de um grupo de empresários, em atender à crescente demanda de alunos para cursos de Graduação e Pós-Graduação. Com isso foi criado a nossa instituição, como entidade oferecendo serviços educacionais em nível superior. A instituição tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua. Além de promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicação ou outras normas de comunicação. A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. 3 3 INTRODUÇÃO A relação entre o homem e os animais de estimação já se encontra estabelecida há séculos. Mesmo sem códigos de comunicação verbal inteligíveis, exceto as manifestações de afeto, os animais de estimação ou pets conquistaram lugar no consumo de massas só pelo fato de necessitarem e exigirem cuidados especiais (YABIKU, 2003). Pesquisas científicas relacionadas à nutrição de animais de companhia, principalmente nos últimos 10 anos, deixaram de focar a dicotomia entre as necessidades mínimas e teores máximos, sobretudo quanto ao estabelecimento das recomendações nutricionais (CARCIOFI; JEREMIAS, 2010). O conhecimento das necessidades mínimas deixou de ser tão importante e, cada vez mais, busca-se entender o papel da nutrição na promoção de saúde, bem-estar e longevidade (YABIKU, 2003). No início desta década foi formado um comitê pelo Conselho Nacional de Pesquisas Norte Americano para revisar as publicações sobre necessidades nutricionais de cães (Canis lupus familiaris) e gatos (Felis catus). Segundo Carciofi e Jeremias (2010) foi atribuída a esse comitê a tarefa de revisar estas publicações e transformá-las em um único documento, que veio a ser publicado em 2006, o NRC - Nutrient requirements of dogs and cats. Antes do lançamento do NRC para cães e gatos havia apenas informações dispersas sobre a biodisponibilidade de nutrientes e necessidades nutricionais de animais de companhia. O progresso na nutrição de cães e gatos exigia informações mais precisas sobre as necessidades das diversas fases da vida (especialmente a reprodução e manutenção), juntamente com os valores de biodisponibilidade dos nutrientes dos ingredientes das dietas (CAPPILLI et al., 2016). A partir desta demanda pesquisadores e indústria de alimentos para cães e gatos têm respondido, redirecionando objetivos e métodos de pesquisa. 4 4 A pesquisa nutricional tem, assim, se diversificado em objetivos abrangendo áreas como longevidade, gerontologia, bem-estar, imunidade, beleza de pelo e pela função digestiva, função cognitiva, saúde oral e prevenção de doenças degenerativas, dentre as quais se pode incluir o manejo nutricional de extenso número de condições como endocrinopatias, obesidade, distúrbios gastrointestinais, distúrbio alérgicos, entre outros (CARCIOFI, 2005; CARCIOFI, 2007; CARCIOFI, 2008 e CARCIOFI; JEREMIAS, 2010). Segundo NRC (2006) o importante e correto conhecimento das fases de vida do animal ajuda a determinar, de maneira lógica, o manejo alimentar aplicado a estas fases visando um ótimo estado de saúde e qualidade de vida. O objetivo desta revisão é realizar um levantamento sobre os principais conceitos relacionados à nutrição de cães e gatos nas diferentes fases de vida. 5 5 COMPORTAMENTO ALIMENTAR DE CÃES E GATOS A base do consumo alimentar é genética, onde os animais, de certa forma atribuem conceitos de ingestão dos alimentos com base em seus antepassados e o período de domesticação (CAPPILLI et al., 2016). Em tempos remotos os animais ingeriam alimentos de uma forma incerta, visto que a quantidade também era irregular, muito diferente dos atuais manejos e formas alimentares (YABIKU, 2003). Ogoshi et al (2015) afirmam que cães e gatos são animais anatomicamente carnívoros, pois apresentam caninos bem desenvolvidos, ausência de amilase salivar, estomago bastante desenvolvido e extremamente ácido. Apesar disso, ressaltam que mesmo assim, pela própria história evolutiva do cão, a sua dieta tem característica mais onívora enquanto que a do gato indica uma dieta mais carnívora. Cães e gatos apresentam-se como carnívoros, porém com hábitos e formas alimentares muitas vezes classificadas como de uma espécie onívora. Silva Junior et al. (2006) ressaltam que há um senso comum em dizer que os cães são classificados como carnívoros não restritos e os gatos como carnívoros restritos. EXIGÊNCIA ALIMENTAR DE CÃES E GATOS Assim como a dieta humana, a saúde dos cães depende de uma alimentação correta e balanceada que contenha um amplo conjunto de nutrientes para suprir todas as necessidades diárias, são eles: proteínas, gorduras, carboidratos,APORTE ENERGÉTICO DOS ALIMENTOS Dentre os constituintes dos alimentos, os carboidratos, lipídeos e as proteínas são os grandes fornecedores de energia para o organismo animal. Toda a energia contida no alimento é denominada de energia bruta (EB). Cães e gatos, assim como os demais animais, não conseguem extrair totalmente a energia do alimento. A energia disponível para o organismo é chamada de energia metabolizável (EM). A EM de um alimento pode ser determinada a partir de resultados de experimentos com animais, mas um método experimental rápido que combina a utilização de animais com equações de predição é a estimativa das perdas urinárias da energia digestível por equações, para estimar a EM. As perdas pela urina são preditas pelo conteúdo de proteína digestível, em que para cães usa-se a subtração de 1,25kcal/g da proteína digestível e para gatos, 0,9 kcal/g da proteína digestível. O NRC (2006) fornece equações de predição mais detalha que é utilizada a nível experimental. Entretanto, para os tutores, há uma alternativa mais simples para obter conteúdo de energia metabolizável. 3 7 37 A predição pode ser feita pelos fatores de Atwater, os quais consideram que 1g de proteína bruta (PB), 1g de extrato etéreo (EE) e 1g de extrativo não nitrogenado (ENN - corresponde aos carboidratos da dieta, exceto a fibra) geram, respectivamente, 4kcal, 9kcal e 4kcal de EM nos alimentos de alta qualidade e dietas naturais e 3,5kcal, 8,5kcal e 3,5kcal em alimentos de baixa qualidade. Assim: EM alimento alta qualidade (kcal/kg) = (4 x g PB)+(9 x g EE)+(4 x g ENN) EM alimento baixa qualidade (kcal/kg) = (3,5 x g PB)+(8,5 x g EE)+(3,5 x g ENN) Exemplo: Rótulo alimento: UM= 12%; PB= 28%; EE=13%; MF=6%; MM=7,5% ou UM= 120 g/kg; 280 g/kg; 130 g/kg; 60 g/kg; 75 g/kg de alimento ENN(g/kg)= 1000-UM-PB-FB-EE-MM = 335 g EM= (280 x 3,5)+(130 x 8,5)+(335 x 3,5) EM = 3257,5 ~ 3258kcal/kg de alimento. CÁLCULO DA QUANTIDADE DE ALIMENTO A quantidade de alimento a ser fornecida é calculada considerando a energia metabolizável do alimento (estimada ou determinada in vivo) e a necessidade energética estimada para o animal. Sendo assim é determinada como: Quantidade de alimento (kg) = necessidade energética do animal (kcal por dia) energia metabolizável do alimento (kcal por kg) Exemplo: NE=1892kcal por dia EM alimento: 3258kcal/kg Quantidade de alimento=1892 = 0,580kg ou 580 gramas por dia. Na natureza, os canídeos caçam em matilhas, havendo disputas e dessa maneira ingerem rápido. Dependendo da raça, comem 4 a 8 ou até mesmo mais refeições, geralmente durante o período diurno, com algumas raças também se alimentando durante o período noturno (NRC, 2006). Assim, recomenda-se fornecer a quantidade calculada, de preferência, dividida em no mínimo duas porções diárias e separar os animais para não haver competição. Já os felídeos (exceto os leões) geralmente são caçadores solitários. 3 8 38 O gato por seu pequeno porte, na natureza só conseguiria presas pequenas e para atender suas necessidades energéticas diárias precisava fazer várias caças diárias. Gatos comem voluntariamente 12-20 refeições por dia uniformemente distribuído pelo período diurno e noturno (NRC, 2006). Dessa maneira, para eles, o alimento deve ficar disponível durante 24 horas, já que restrição de horários pode levar a diminuição de consumo, exceto em casos de problemas com obesidade. Estima-se, no Brasil, um crescimento de 667% na produção de alimentos industrializados para cães e gatos nos últimos 10 anos. Segundo dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Alimentos para Animais de Estimação (Anfalpet, 2007), em 2006, a produção nacional de ração para animais de companhia foi de 1.687.404 toneladas, um crescimento de 8% em relação ao ano anterior, com movimentação de dois bilhões de reais. Este crescimento teve suporte em avanços científicos e tecnológicos, no aprimoramento do processo de produção em larga escala e na disponibilidade de matérias primas, especialmente os subprodutos de origem animal. Vê-se no mundo uma explosão do número de marcas de dietas comerciais prontas para o consumo, com formulações cada vez mais sofisticadas e específicas (Steiff & Bauer, 2001). Estabeleceu-se, com isto, elevada competitividade, o que tem levado à segmentação de produtos que apresentam padrões comerciais e nutricionais distintos. As empresas, de um lado, têm desenvolvido produtos específicos, com o intuito de chamar a atenção do consumidor para um alimento diferenciado e de elevado valor nutricional, com consequente maior custo. Estes apresentam formulação mais sofisticada, com o emprego de ingredientes selecionados e melhor processamento. Por outro lado, também são produzidos alimentos econômicos, de baixo valor agregado e que competem no mercado apenas por preço, sendo formuladas com ingredientes mais baratos. Desta forma, o mercado pet absorve hoje ampla gama de ingredientes e subprodutos, empregados na produção de alimentos variados, com densidades nutricionais e digestibilidades distintas. 3 9 39 Ao lado desta expansão e sofisticação do mercado, um levantamento dos dados científicos disponíveis sobre nutrição e, principalmente, sobre alimentos para cães e gatos, demonstra uma surpreendente escassez de informações. Apesar de se registrar progresso no conhecimento acerca das necessidades nutricionais de cães e gatos (NRC, 2006), são necessárias informações mais precisas sobre quase todos os nutrientes. Não se conhece, tampouco, as biodisponibilidades dos nutrientes nos alimentos empregados nas formulações (Bontempo, 2005), o que faz com que, via de regra, as formulações sejam baseadas nos nutrientes brutos, não nos disponíveis. Não se dispõem de tabelas de composição dos alimentos para cães e gatos que apresentem estimativas de nutrientes digestíveis, como ocorre para suínos e aves, como exemplo em Rostagno, et al. (2005). FONTES DE CARBOIDRATO PARA CÃES E GATOS Na maioria das rações extrusadas para cães e gatos, os amidos constituem a maior fonte de energia (Cheeke, 1999). Podem representar de 40 a 55% da matéria seca destes alimentos (Kronfeld, 1975), fornecendo de 30% a 60% de sua energia metabolizável. Suas características nutritivas dependem da composição dos seus açúcares, de seus tipos de ligação química, de fatores físico-químicos de digestão (Van Soest, 1994) e de seu processamento (Holste et al., 1989; Wolter et al., 1998). Apesar de sua suscetibilidade à ação enzimática dos monogástricos, há uma porção do amido que é resistente à hidrólise. Sua digestibilidade é afetada por sua forma física, interações entre proteína e amido, integridade de seus grânulos e pela presença de fatores antinutricionais, como o tanino (Rooney & Pflugfelder, 1986). As razões para a digestão incompleta do amido podem ser separadas em fatores intrínsecos e extrínsecos (Englyst et al., 1992). Dentre os fatores intrínsecos incluem-se: inacessibilidade física do amido; resistência dos grânulos à ação enzimática; formação de amido retrogradado. A inacessibilidade física ocorre quando o amido encontra-se contido em uma estrutura celular, como grãos e sementes integrais ou parcialmente moídas, 4 0 40 sendo inacessíveis à ação enzimática. A resistência do grânulo depende da sua composição em amilopectina e amilose e de sua estrutura cristalina. A estrutura cristalina é classificada de acordo com a difração aos raios-X, em formas A, B e C. Os grânulos nas formas B e C são mais resistentes à ação enzimática do que os grânulos na forma A. O amido retrogradado é formado durante o resfriamento do amido gelatinizado, ocorrendo sua recristalização nas formas B e C, maisresistentes à digestão (Englyst & Cummings, 1990; Annison & Topping, 1994; Englyst et al., 1996; Lobo & Silva, 2003). Os fatores extrínsecos que influenciam a digestibilidade do amido no intestino delgado são: tempo de trânsito intestinal, concentração de amilase disponível para a quebra do amido e a presença de outros componentes da dieta que retardem a hidrólise enzimática (Englyst & Cummings, 1990; Englyst et al., 2003). O processamento do amido, incluindo sua moagem e cozimento durante o processo de extrusão, é fundamental para aumentar sua digestibilidade para os carnívoros (Murray et al., 2001). Em relação ao tamanho das partículas, têm-se como regra geral que quanto mais finamente moído, melhor a digestibilidade, mas isto não é sempre verdadeiro, como será discutido adiante. Meyer (1997) relata que a digestibilidade do amido varia conforme a fonte e o processamento da matéria prima. Assim, apesar dos amidos de arroz e trigo apresentarem digestão acima de 97% mesmo sem tratamento algum, para apresentarem boa digestão (99% e 100%) pelos cães, o amido de milho precisa ser moído e micronizado e os amidos de batata e mandioca, cozidos. Wolter et al. (1998) compararam a digestibilidade de dois carboidratos em sua forma crua e gelatinizada. Demonstraram que o processo de gelatinização não foi importante para a digestibilidade ileal do amido de trigo, resultando em 99,4% para o amido cru e 98,0% para o gelatinizado. Contudo, para o amido de mandioca, a digestibilidade ileal aumento de 57,6%, para o amido cru, para 97,4%, para o gelatinização. Murray et al. (1999) compararam a digestibilidade das farinhas de cevada, milho, batata, arroz, sorgo e trigo para cães. 4 1 41 Os resultados demonstraram digestibilidade ileal do amido acima de 99% para todas as fontes, mas a digestão da proteína, matéria orgânica, matéria seca e a qualidade das fezes variaram entre as dietas, destacando a importância da fonte de amido sobre a digestão geral da ração. Mesmo entre cultivares de um mesmo grão existem diferenças quanto à digestibilidade do amido. Estudando o arroz, Belay et al. (1997) demonstraram menor digestibilidade para o arroz de grão longo, devido à sua maior proporção de amilose. Carciofi, et al. (2008) estudaram, em dietas isonutrientes, seis fontes de amido para cães. A diferença entre este estudo e os anteriormente citados é que, neste, foram empregados grãos inteiros ou farinhas integrais, da forma como são empregados pela indústria, enquanto que nos experimentos anteriores foram empregados amidos puros ou farinhas refinadas. As farinhas de grãos são constituídas basicamente por amido e proteína, ao passo que a constituição dos grãos moídos, mais rotineiramente empregados nas rações, inclui o pericarpo, o germe e a aleurona, que conferem lípides, fibras e cinzas (Hoseney, 1994), tornando as vezes difícil a extrapolação dos resultados para situações práticas. A fibra, presente nos grãos integrais, é também um nutriente importante e que necessita ser avaliado, pois esta interfere na digestão do alimento (Burrows, et al., 1982, Fahey et al., 1990a; Fahey et al., 1990b). FONTES DE PROTEÍNA PARA CÃES E GATOS Vários autores (Johns et al., 1986; Wang & Parsons, 1998) verificaram efeito negativo da temperatura elevada durante o processamento de proteínas animais sobre a digestibilidade de aminoácidos para animais de produção. Johnson et al., (1998) também verificaram menor coeficiente de digestibilidade de aminoácidos totais em dietas para cães contendo farinha de carne e ossos processada à 143o C, em relação à processada a 129o C. Em um dos poucos estudos que avaliaram o efeito do tratamento térmico em alimentos para felinos, Hendriks et al. (1999) empregaram alimentos úmidos com aproximadamente 60% de derivados cárneos. Por meio da determinação dos coeficientes de digestibilidade de 4 2 42 aminoácidos em ratos, constataram que quanto maior o tempo no qual os alimentos foram submetidos à 121,1o C, menor foi a digestibilidade dos aminoácidos. Ácido aspártico foi o aminoácido mais afetado, tendo sua digestibilidade caído de 78,3 para 40,2% após 24,2 minutos a 121,1o C. As fontes proteicas vegetais, por outro lado, apresentam composição mais uniforme, com menor variação entre partidas e fornecedores. No entanto, possuem fatores antinutricionais como inibidores de enzimas, lectinas, tanino, fitato, polissacarídeos não amiláceos, dentre outros, que quando presentes podem influenciar negativamente a disponibilidade de seus nutrientes. O tratamento térmico e industrial à que são submetidos, no entanto, pode reduzir e ou mesmo eliminar alguns destes fatores, melhorando significativamente a qualidade destas matérias-primas. Carciofi, et al (2006) avaliaram quatro formulações para cães, cada uma contendo uma única fonte de proteína: farelo de soja, farelo de glúten de milho 60%, farinha de vísceras de frango e farinha de carne e ossos. A fonte proteica em estudo representou 85% da proteína da ração. Na figura 4 encontram-se ilustrados os coeficientes de digestibilidade encontrados para cada ração. A dieta à base de farelo de soja apresentou o menor coeficiente de digestibilidade aparente da matéria seca, as dietas com farinha de carne e ossos e glúten de milho apresentaram valores intermediários e a farinha de vísceras de frango o maior valor. Estudo semelhante, também pelo método da substituição, foi conduzido em gatos por de-Oliveira et al. (2006). Verificaram, também, que o glúten de milho 60% e a soja micronizada foram bem digeridos pelos gatos, sendo tão bem digeridos ou até melhor aproveitados que a farinha de vísceras de frango e a farinha de carne e ossos. Desta forma, proteínas vegetais podem ser alternativa interessante também para felinos, apesar das restrições apresentadas por alguns autores (Funaba et al., 2001). Em função de suas boas digestibilidades e composição química, gluten de milho 60%, soja micronizada e farinha de vísceras de frango apresentaram maiores teores de energia metabolizável. 4 3 43 Atentar para as diferenciações nutricionais que ocorrem nas diversas fases da vida de um cão ou gato é uma importante ferramenta para garantir, entre outros pontos, a longevidade do animal em questão. De modo grosseiro, as variações nutricionais são muito mais gritantes entre etapas fisiológicas distintas que entre necessidades nutricionais entre espécies diferentes, em uma mesma etapa fisiológica. O crescimento é um dos Períodos mais críticos em termos nutricionais, sendo necessário cobrir todos os requisitos dos animais para um bom desempenho e, ao mesmo tempo, evitar um superconsumo. Um subconsumo leva a quadros genéricos de perda de peso, problemas dermatológicos, etc., enquanto que uma dieta desbalanceada pode levar a problemas específicos. Uma alimentação caseira cuja base seja a carne bovina poderá conduzir a uma deficiência de cálcio com um quadro de osteodistrofia, maus aprumos, menor crescimento e agravamento de displasia (em raças predispostas. Por outro lado, o superconsumo pode levar também a problemas graves, principalmente nas raças grandes ou gigantes. Já na fase adulta é importante observar os requisitos nutricionais adequando-se os mesmos de acordo com mudanças no grau de atividade, raça, de temperatura ambiente, entre outros fatores. Ao contrário dos países europeus onde grande parte das raças criada é de caça (atividade média a pesada), no Brasil os cães normalmente são criados como animais de companhia (pouca atividade) ou guarda territorial (atividade leve a média). A nutrição adequada nesta fase, a mais longa de todas as etapas fisiológicas, será determinante em garantir saúde e longevidade ao animal. Na faseadulta o maior erro nutricional encontrado é o superconsumo de alimentos. Pesquisas sobre a população de cães e gatos levados às universidades ou clínicas veterinárias mostram que de 25 a 33% dos cães e 25% dos gatos são obesos e 40% dos cães adultos apresentam sobrepeso, condição definida pelo excesso de peso entre 10 a 20 % do peso ideal. Esta porcentagem pode chegar até 75% em cães idosos. A obesidade é o problema nutricional mais importante na clínica de pequenos animais e 4 4 44 apresenta uma firme tendência a um aumento progressivo relacionado ao aumento da população de animais de estimação em todo o mundo. Os animais de estimação dos grandes centros urbanos estão cada vez mais concentrados em pequenos espaços (apartamentos) e com vida sedentária, e a conjunção de três fatores; castração, disponibilidade alta de alimentos e manejo inadequado do proprietário, aumenta, em muito, o aparecimento da enfermidade. Nas fases de gestação e lactação as mudanças fisiológicas são imensas e rápidas, exigindo um manejo nutricional criterioso. Considerando a elevada produção de leite de uma cadela, em função do tamanho da ninhada, além do alto valor energético do leite, as necessidades energéticas durante o período de lactação são bastante altas. Quando a cadela alcança o máximo de produção leiteira (entre a terceira e quarta semana de lactação), as necessidades energéticas totais são da ordem de três a quatro vezes a necessidade de manutenção, dependendo do tamanho da ninhada. Já as gatas acumulam reservas corporais durante a gestação; sendo mobilizadas durante a posterior lactação, entretanto é necessário um manejo nutricional adequado para manutenção do crescimento adequado dos lactentes e para evitar demasia perda corporal da lactante. Na senilidade a alimentação deve tentar contornar ou dar suporte a sinais, tanto físicos como metabólico inerentes à idade, diminuir ou eliminar os sinais clínicos de enfermidades e manter um peso corporal adequado. Animais velhos apresentam tendências à obesidade, perdas gustativas e problemas dentários, insuficiência renal crônica, problemas hepáticos e cardíacos. Tomando-se como referência à vida média de um cão como 12 anos e a de um gato como 14 anos, a maioria dos cães e gatos é considerada geriátrica aos sete anos de idade, entretanto cães de raças gigantes podem ser considerados geriátricos aos cinco anos de idade, por apresentarem uma vida média mais curta (em torno de 9 a 10 anos). Entretanto, a idade pela qual o paciente e considerado geriátrico sofre influências de fatores ambientais, sanitários e nutricionais. 4 5 45 Entretanto, uma nova abordagem nutricional baseada em modificações quantitativas e qualitativas são necessárias devido às alterações físicas e metabólicas, celulares e orgânicas, particulares ao processo de envelhecimento. A quantidade de nutrientes requerida por unidade de peso corporal pode mudar, e a maneira de fornecer esses nutrientes ao animal pode precisar de modificações (Case et al., 1998). Assim, o manejo da alimentação depende da dieta normal do animal e do seu estado de saúde atual. Por isso é importante questionar o proprietário sobre a quantidade e a marca da ração oferecida, se é fornecido comida caseira ou algum tipo de suplementação. A história, exame físico e a avaliação laboratorial completa do animal devem permitir que o veterinário decida se a dieta atual é adequada e identifique a presença de qualquer doença crônica que possa exigir uma modificação dietética. Se o cão ou gato estiver saudável, o clínico deve então decidir se é necessária uma dieta especial para o animal idoso (Buffington, 1991). 4 6 46 REFERÊNCIAS ALLEN, T.A.; KRUGER, J.M. Enfermedad felina de las vias urinarias. In: HAND, M.S.; THATCHER, C.D.; REMILLARD, R.L. (Eds.) Nutrición clinica en pequeños animales. 4.ed. 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Intern Journal Appl Research of Veterinary Medicine, v.44, p.58-66, 2006. 4 8 48 ZENTEK, J.; SCHULZ, A. Urinary composition of cats Ia affected by the source of dietary protein. Journal of Nutrition, v.134, p.2162-2165, 2004. ZORAN, D.L. The carnivore connection to nutrition in cats. Journal American Veterinary Medical Association, v.221, p.1559-67, 2002.vitaminas, minerais e água (CAPPILLI et al., 2016). De acordo com Yabiku (2003) é importante também a adição de ingredientes funcionais como prebióticos, fibras especiais, auxiliadores da saúde articular, entre outros, que promovem a saúde, bem-estar e contribuem para uma maior longevidade. 6 6 Outro fator que se deve levar em conta na dieta dos cães é a idade e o estilo de vida, com o objetivo de promover um equilíbrio nutricional nas diferentes fases. Segundo o NRC (2006), os cães atletas ou muito agitados geralmente necessitam de alimentos ricos em nutrientes com alto valor energético, já os castrados e sedentários precisam ter a dieta adaptada ao estilo de vida. O nível reduzido de atividade física precisa ser equilibrado com uma alimentação de baixo teor calórico e de nutrientes especiais para apoiar esta condição (YABIKU, 2003). A falta ou excesso de nutrientes pode desequilibrar o sistema fisiológico do animal e predispor o organismo ao mau desenvolvimento corporal e constituição óssea, obesidade, alterações reprodutivas, dentre outros (CARCIOFI, 2005). Uma alimentação adequada ao cão filhote, por exemplo, propicia boas condições para sua saúde e consequentemente para seu desempenho futuro (CARCIOFI; JEREMIAS, 2010). No entanto, os gatos possuem características peculiares em relação ao manejo e dieta, sendo de extrema importância uma atenção especial quanto à alimentação para garantir uma melhor saúde e bem-estar (CARCIOFI, 2008). De acordo com Cappilli et al. (2016), devido ao metabolismo específico, estes animais têm necessidades nutricionais diferentes dos cães, como: maior exigência proteica; assim como do aminoácido arginina, da vitamina B6 e da niacina (respectivamente cerca de duas, três e quatro vezes maiores em relação aos cães); ingestão de vitamina A pré-formada na dieta e dificuldade em digerir carboidratos. Apesar dos gatos serem considerados fisiologicamente carnívoros por necessitarem de nutrientes específicos, os quais só são encontrados na carne; com o advento do avanço nas tecnologias de processamento dos alimentos, como a extrusão, é permissível o uso de ração na alimentação dos felinos contendo uma grande fração de carboidrato, porém respeitando o equilíbrio dos nutrientes (SILVA JÚNIOR et al., 2006). Vale ressaltar que os gatos não conseguem sintetizar o ácido araquidônico (um ácido graxo da família ômega 6) e o aminoácido taurina, sendo fundamental que estejam presentes na dieta. A 7 7 alimentação quando filhote é de suma importância, pois é o período em que acontece o desenvolvimento de todos os tecidos e órgãos. Na fase adulta é necessário oferecer um alimento que contenha todos os nutrientes necessários para o bom desenvolvimento e manutenção do animal (CARCIOFI, 2005; CARCIOFI, 2008). ALIMENTOS FUNCIONAIS Os alimentos funcionais englobam tanto alimentos quanto ingredientes que cumprem as funções nutricionais básicas ao serem ingeridos, e vão além, produzindo efeitos metabólicos e/ou fisiológicos e/ou efeitos benéficos à saúde. Estes alimentos demonstram ser capazes de controlar funções corporais no sentido de auxiliar na proteção contra enfermidades como câncer, osteoporose, doenças coronárias, entre outras (SOUZA et al., 2003; BORGES et al., 2011). A nutrição de cães e gatos, atualmente tem-se equiparado à nutrição dos humanos, com a adição de ingredientes funcionais aos alimentos. Esses alimentos são formulados ou modificados pela inclusão de fibras, prebióticos, probióticos, ácidos graxos poliinsaturados e os minerais quelatados (BORGES et al., 2011). Fibras Em um passado não muito remoto, a importância da fibra na alimentação de animais monogástricos era questionada, pois acreditava-se que possuía função apenas na formação do bolo fecal e na manutenção do trânsito intestinal, com efeitos sobre a diluição da energia e redução na digestibilidade dos demais nutrientes. Portanto, era considerada apenas uma substância inerte nas rações de carnívoros e onívoros e a sua quantificação nos alimentos tinha o objetivo de estabelecer o limite máximo de inclusão de ingredientes (ROQUE et al., 2006). A fibra dietética apresenta dois conceitos um fisiológico e outro químico. O conceito fisiológico descreve a fibra dietética como indisponível para fonte energética, por ser um componente dos alimentos que não sofre hidrólise pelas enzimas digestivas dos mamíferos. Já o conceito químico define a fibra dietética como um polissacarídeo não amiláceo e lignina (FISCHER, 2011). Quanto às 8 8 propriedades físico-químicas, a fibra alimentar é dividida em insolúvel e solúvel em água. As fibras insolúveis sofrem fermentação na flora intestinal de forma muito reduzida e são responsáveis por aumentar e dar consistência à massa fecal e aumentar o peristaltismo intestinal. Já as solúveis servem como substrato para a fermentação no cólon, aumenta a viscosidade do bolo alimentar e assim reduzem o esvaziamento gástrico (MAIORKA e OLIVEIRA, 2014). Os principais ácidos graxos voláteis (AGV) produzidos durante a fermentação das fibras são o acetato, propionato e o butirato. O principal efeito direto da produção de AGV relaciona-se com a acidificação do cólon que contribui para evitar a proliferação em demasia de bactérias indesejadas. Animais que recebem fibras moderadamente fermentáveis apresentam cólon com uma área maior e hipertrofia da mucosa, otimizando a digestibilidade dos nutrientes (BORGES et al., 2011). O NRC (2006) não estabelece nenhuma recomendação com relação aos teores mínimos de fibra e nenhum limite que deve conter nos alimentos destinados a cães e gatos. A grande maioria dos alimentos comercializados contém um teor entre 1 e 4% da matéria seca, exceto os produtos com fins terapêuticos. A inclusão de fibra na dieta de cães é hoje reconhecida como necessária para a manutenção da saúde do trato gastrointestinal, além da prevenção de doenças como o câncer de cólon. Apesar de poucos nutricionistas considerarem a importância da fibra na nutrição e carnívoros, já existem alimentos comerciais contendo fibras dentro dos parâmetros estudados. Probióticos e Prebióticos Os probióticos são microrganismos vivos adicionados aos alimentos, que ao serem fornecidos continuamente na dieta, afetam de forma benéfica o organismo animal no desenvolvimento da microbiota intestinal. São utilizados a fim de evitar infecções entéricas e gastrointestinais. Os microrganismos empregados como probióticos são integrantes não patogênicos da flora microbiana normal, como as bactérias ácido- lácticas e leveduras (ANFALPET, 2010). Segundo França et al. (2011), esses microrganismos atuam para desfavorecer a colonização da 9 9 microbiota intestinal por microrganismos patogênicos como a Salmonella, Escherichia coli e outros patógenos potenciais. Estes microrganismos também sintetizam vitaminas, enzimas e ácidos graxos voláteis, que podem ter efeito benéfico sobre a saúde gastrintestinal, e ajudam na absorção de nutrientes. Resultados positivos são encontrados relacionados a utilização dos probióticos nas dietas de animais de produção. Feliciano et al. (2009) avaliaram os efeitos da suplementação de dois tipos de probióticos para cães filhotes que receberam dois tipos de dieta, de alta e de baixa qualidade, e verificaram que o probiótico contendo Bifidobacterium e Lactobacillus apresentou efeitos positivos no trato gastrointestinal, principalmente quando administrado junto com dietas de menor qualidade. Contudo, em se tratando de cães e gatos os efeitos são variáveis e ainda não foram totalmente comprovados. Outra problemática relaciona-se com a dificuldade no processamento, pois os alimentossecos são extrusados e passam por altas temperaturas por poucos segundos (180°C) o que já é suficiente para matar os microrganismos. Logo, os probióticos devem ser adicionados após a extrusão (BORGES et al., 2011). Os prebióticos são oligossacarídeos não digeridos no organismo animal, mas seletivamente fermentados pelos microrganismos do trato gastrintestinal (TGI) que podem estar presentes nos ingredientes da dieta ou adicionados a ela através de fontes exógenas concentradas (SILVA; NORNBERG, 2003). O principal papel dos prebióticos é promover o desenvolvimento e/ou ativar o metabolismo de determinado grupo de bactérias benéficas ao trato intestinal. Atuam bloqueando os sítios de aderência e assim paralisando e diminuindo a capacidade de fixação de algumas bactérias patogênicas na mucosa intestinal. O êxito desses compostos é dependente da sua não hidrolização pelas enzimas digestivas, o que possibilita chegarem sem danos ao intestino grosso onde são fermentados pelos microrganismos ali presentes. Os prebióticos mais empregados na alimentação animal são os mananoligossacarídeos (MOS), os frutoligossacarídeos (FOS) e os glucoligossacarídeos (GOS) (BRITO, et al., 2014). Segundo Silva e Nornberg (2003), os prebióticos são compostos biologicamente seguros à saúde humana e animal, justificando o seu 1 0 10 uso alternativo em substituição a antibióticos promotores de crescimento. Entretanto, seus efeitos nem sempre são comprovados devido a vários fatores, tais como, composição química dos demais ingredientes, dosagem usada ou estresse dos animais. Ácidos graxos poliinsaturados Os ácidos graxos são fontes energéticas de grande importância para os animais carnívoros, como os cães e os gatos. Eles também possuem função estrutural importante nos organismos vivos, na forma de fosfolipídios, como constituintes das membranas celulares, são também cofatores enzimáticos, transportadores de eletrons, pigmentos fotossensíveis, ancoras hidrofóbicas para proteínas, agentes emulsificantes no trato digestivo, hormônios e mensageiros intracelulares (TREVIZAN; KESSLER, 2009; NELSON; COX, 2011). De acordo com Nelson e Cox (2011) os ácidos graxos podem ser classificados como ácidos graxos poli-insaturados, os quais são ácidos carboxílicos com cadeias hidrocarbonadas de comprimento variado, contendo mais de uma dupla ligação, apresentando-se na forma líquida em temperatura ambiente, o que é favorável ao sistema circulatório. Na dieta de cães e gatos é de suma importância suprir os ácidos graxos poli-insaturados denominados de Ômega 3 (Ácido alfa-linolênico) e os Ômega 6 (Ácido Linoleico e Araquidônico), pois esses ácidos são considerados essenciais, ou seja, o organismo é incapaz de sintetizá- los (WORTINGER, 2009). Além disso, os ácidos graxos linoleicos são precursores de vários ácidos graxos, sendo essencial para manter as estruturas apropriadas para as membranas, o crescimento normal, a manutenção do estado da pele, como a regulação da permeabilidade da água, e o transporte de lipídeos pelo sangue. Já o ácido araquidônico é essencial, principalmente para os gatos, na formação de eicosanóides, que afetam diretamente nas funções reprodutoras (CASE, et al., 1998). Segundo Wortinger (2009) os cães têm mecanismos que conseguem converter o ácido linoleico em araquidônico ou em gama-linolênico, assim se fornecido ácido linoleico em quantidades adequadas, pode suprir as necessidades de ácido araquidônico e gama-linolênico. Já os gatos requerem uma fonte de ácido araquidônico na dieta, pois falta atividade da enzima deltadesaturase, que é produzida pelas células do fígado, assim são incapazes de fazer conversões de ácido linoleico em araquidônico. 1 1 11 De acordo com Case et al., (1998) gatas gestantes que não recebem ácido araquidônico apresentam alterações das plaquetas e trombocitopenia, podendo ocasionar nos gatos também ligeira mineralização dos rins, atraso no crescimento, deterioração na cicatrização de feridas, e desenvolvimento de lesões cutâneas. Estes ácidos graxos são encontrados em óleos vegetais e estão presentes em níveis significativos em vísceras de animais e derivados de peixes, de forma que seu conteúdo usual em alimentos comerciais, feitos a partir de ingredientes vegetais, carne e subprodutos de animais, são normalmente baixos, mas suprem as exigências (TREVIZAN; KESSLER, 2009). Minerais quelatados De acordo com Wortinger (2009) os minerais são a porção inorgânica da dieta, sendo utilizados pelo organismo como componentes estruturais, como porções dos líquidos corpóreos e como eletrólitos cofatores de sistemas enzimáticos e hormonais. Os minerais podem ser denominados como quelatados, ou seja, são todos os compostos formados por íons metálicos sequestrados por substâncias orgânicas como aminoácidos, peptídeos ou complexos polissacarídeos que proporcionam a esses íons alta disponibilidade biológica, alta estabilidade e solubilidade. (KIEFER, 2005). A maioria dos alimentos para cães e gatos fornecem os minerais em sua forma simples (não quelatada), sendo assim a maioria dos elementos minerais, para serem absorvido, devem fazer uma ligação iônica com os aminoácidos que se encontram livres no estômago e intestino, ou aqueles presentes na membrana das células do trato intestinal, assim frequentemente ocorrem competições de diferentes minerais para se ligarem aos mesmos aminoácidos, contudo impedindo que alguns minerais sejam absorvidos (BORGES et. al., 2011). No entanto o uso de minerais quelatados nas dietas de cães e gatos diminuem os riscos da não absorção, pois entram no trato intestinal já ligados aos ligantes, assim o mineral quelatado é absorvido pelo organismo e nele se mantém intacto, ou seja, as suas ligações com seus ligantes permanecem inalteradas (BORGES et. al., 2011). 1 2 12 TIPOS DE RAÇÕES PARA ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO No Brasil a indústria de rações destinadas aos cães e gatos teve um crescimento satisfatório nos últimos anos. A produção do país passou de 1,15 para 1,93 milhões de toneladas somente entre os anos de 2001 e 2009, respectivamente o que representou um aumento de 68% em apenas 8 anos (SINDIRAÇÕES, 2009). Até o princípio do século XX, a alimentação dos animais de estimação se restringia aos restos da alimentação de seu proprietário. Com o início da produção de rações comerciais as opções nos mercados só têm se expandido. Hoje a grande maioria dos proprietários de cães e gatos só alimentam seus animais com rações comerciais no lugar de dietas caseiras (WORTINGER, 2009). A classificação geral dos alimentos comerciais para os animais de estimação é feita de acordo com a fabricação, os métodos de conservação e a quantidade de umidade. Estas categorias compreendem: os alimentos secos, os enlatados e os semiúmidos (CASE, et al., 1998). Alimentos Secos Os alimentos secos ou desidratados destinados aos animais de estimação apresentam entre 6 e 10% de umidade e 90% ou mais de matéria seca. Estes alimentos são vendidos sob a forma de biscoitos, farinhas, pedaços triturados e pellets expandidos e extrusados. Os alimentos comumente empregados incluem cereais em grãos, produtos de carne, aves ou peixes, alguns produtos lácteos e suplementos vitamínicos e minerais (CASE et al., 1998; WORTINGER, 2009). Os carboidratos nestas dietas correspondem a mais de 50% da formulação, sendo responsáveis por 30 a 60% da energia metabolizável (EM). A grande maioria das dietas produzidas no Brasil são extrusadas. Essas dietas apresentam como maior vantagem sua facilidade de conservação, manuseio e custo (FORTES, 2005). Ainda de acordo com Fortes (2005), o processo de conservação das dietas secas está relacionado à baixa umidadeem conjunto aos antioxidantes, antifúngicos e acidificantes. Outro aspecto importante é o uso de embalagens adequadas, que impedem a entrada de água, oxigênio e luz no produto, prologando sua vida de prateleira. 1 3 13 Segundo Wortinger (2009) as rações secas contêm maior teor de nutrientes e energia por unidade de peso quando comparadas com as de maior conteúdo de umidade. Com relação a densidade calórica os alimentos secos apresentam entre 3.000 e 4.500 Kcal de EM/kg. Quantitativamente os alimentos destinados aos gatos, possuem uma densidade energética pouco maior que a dos cães. Uma das desvantagens dos alimentos secos relaciona-se com sua menor palatabilidade, especialmente os produtos com baixo percentual de gorduras ou com ingredientes de escassa digestibilidade. Mas nos últimos anos a indústria alimentícia de pets tem se preocupado, na busca por ingredientes de alta qualidade, com muito sabor e digestibilidade (CASE, et al., 1998). Alimentos úmidos As rações úmidas estão disponíveis no mercado de forma enlatada, em sachês e bandejas de plástico. O teor de umidade nestes alimentos varia entre 72 e 85%. Estas rações podem fornecer desde uma alimentação completa e equilibrada, servir como alimento suplementar ou petisco saboroso (WORTINGER, 2009). Os alimentos úmidos de alta qualidade devem atender as exigências nutricionais do NRC (NATIONAL RESEARCH COUNCIL) e do WALTHAM (CENTRE FOR PET NUTRITION) (WALTHAM, 2007). Os alimentos mais empregados na produção de rações úmidas incluem: carnes, carne mecanicamente separada, vísceras de frango, peixes, farinha de soja, amido de milho, pectinas, gomas entre outros. Com relação ao processo de fabricação estes são preparados sob temperatura e pressão elevadas para eliminação de bactérias nocivas o que lhes confere largos períodos nas prateleiras. Normalmente são produtos caros devido a todo o processamento necessário, elevado teor de água e tipo de embalagem (CASE, et al., 1998; FORTES, 2005). Segundo Waltham (2007) os alimentos úmidos apresentam entre 60 e 130 Kcal/100g enquanto que os alimentos secos por volta de 350Kcal/100g. Algumas das vantagens dos alimentos úmidos são: ● Contribui para a manutenção do balanço hídrico ótimo do organismo animal; 1 4 14 ● Textura ideal, é mais facilmente mastigado e engolido, principalmente por filhotes e animais idosos; e ● Níveis próximos dos ótimos para a concentração de macronutrientes tanto para cães quanto para gatos. Alimentos semiúmidos Os alimentos semiúmidos apresentam entre 15 e 30% de água, e os ingredientes comumente utilizados são tecidos animais congelados ou frescos, cereais, gorduras e açúcares simples. Para conservação destas rações são empregados umectantes como açúcares, sais e glicerol e outros conservantes. Por conterem alta percentagem de açúcares simples possuem maior sabor e digestibilidade. Embora alimentos com teores de açúcares simples mais elevados sejam mais atrativos para cães do que para os gatos (CASE, et al., 1998). O conteúdo de EM dos alimentos semiúmidos varia entre 3.000 e 4.000Kcal/Kg de matéria seca. E com relação ao teor proteico estas rações apresentam entre 20 e 28% e entre 8 e 14% de gorduras, tomando como base a matéria seca (WORTINGER, 2009). O processo de conservação destes produtos ocorre através de umectantes, antioxidantes, baixo pH, antifúngicos e baixa umidade. Por causa destes quesitos as embalagens das rações semiúmidas são relativamente mais caras quando comparadas as das rações secas, pois as mesmas devem evitar a perda de água que prejudicaria a plasticidade e palatabilidade do produto (FORTES, 2005). 1 5 15 ALIMENTAÇÃO POR FASES DA VIDA DOS CÃES Cães Neonatos As 48 horas iniciais pós-parto são os momentos primordiais para o desenvolvimento e crescimento para toda a vida do animal. Para esse período é necessário que as fêmeas forneçam o alimento inicial, o colostro, tendo como função de alimentar e imunizar os filhotes. Após as primeiras 48 horas o leite perde a capacidade de imunizar, desenvolvendo somente a função de alimento (LAZZAROTTO, 2000). Nas quatro primeiras semanas, os filhotes devem se alimentar por volta de 3 a 6 vezes por dia. A ingestão intensa de leite materno ajuda a minimizar as enfermidades e proporciona um melhor desenvolvimento inicial. Em média após a 5ª semana os filhotes necessitam de uma suplementação alimentar, esses suplementos são comercialmente produzidos por várias empresas para serem oferecidos até o desmame. De acordo com Bordin (2014), esse oferecimento deve seguir as orientações dos fabricantes, tendo como condições básicas: ● Umidificar estes alimentos com água morna, facilitando a ingestão; ● Ofertar por no máximo 30 minutos; ● Não adicionar leite de outros animais; ● Período médio de desmame por volta de 45 dias de idade. Cães em Crescimento Após o desmame os animais deverão se adaptar a uma nova realidade, sem a mãe e uma nova dieta alimentar, com somente alimentos processados. O período de crescimento dos animais podem variar de 7 a 12 meses iniciais, dependendo do porte da raça. Conforme o proposto por Bordin (2014), raças caninas de grande porte, como Dogue Alemão, estabiliza seu ganho de peso por volta dos 12 meses de idade com peso próximo aos 80 kg, enquanto cães de pequeno porte, como o Poodle Miniatura, estabiliza o seu ganho de peso por volta dos seis meses com aproximadamente três quilos. A intensidade de ganho de peso e desenvolvimento são de 35 vezes o peso inicial para o peso adulto. Deve-se observar que o crescimento deve ser de forma definitiva e equilibrada. Recomenda-se a utilização 1 6 16 de dietas formuladas específicas para esta fase da vida do animal, associando o fornecimento de alimentos ideal ao crescimento animal, a fim de desenvolver os constituintes orgânicos de forma equilibrada (LAZZAROTTO, 2000). O rápido crescimento de raças de grande porte, predispõe o surgimento de problemas ósseos, assim com o fornecimento de uma dieta equilibrada nutricionalmente, minimiza o desenvolvimento dessas enfermidades. As necessidades energéticas podem ser calculadas conforme a Tabela 1: Na prática alguns elementos alimentares devem ser observados: Dieta altamente digestível, completa e balanceada para o crescimento; ● Determinar um manejo alimentar controlado no fornecimento de alimentos – 3 refeições diárias; ● Relacionar o crescimento ao tipo de alimento fornecido – dieta X curva de crescimento; ● Raças grandes e gigantes não devem apresentar níveis suplementares de cálcio, além dos níveis da dieta ofertada; ● Um esquema de exercícios deve ser estipulado durante o crescimento. (WOLFARTH et al., 2011) 1 7 17 Cães Adultos Cães adultos, são os animais que não estão em nenhum estado reprodutivo ou em atividade intensa e, nesse caso, deve-se adequar uma dieta alimentar completa e balanceada sem ultrapassar os níveis ideais de energia, para evitar problemas de obesidade (SÁ, 2002). Em um contexto geral, os animais que estão em um estado de manutenção podem apresentar uma vida condicionada e restrita, e recomenda-se o fracionamento da alimentação em três refeições diárias. Nesse caso utiliza-se uma fórmula para calcular a necessidade energética desses animais (BORGES et al., 2011). Onde: ● NEM = necessidade energética ● P = peso vivo do animal em kg, ● K = 99 – inativos; 132 – ativos; ou 160 – grande atividade. Outro fator de suma importância é a oferta de água fresca e à vontade aos animais, pois todos os processos metabólicos necessitam de hidratação. Cães Idosos Com a expectativa devida dos cães, deve-se observar os padrões nutricionais e de saúde desses animais. Quando equilibrada a nutrição desses animais, possibilita melhor qualidade de vida, reduzindo os possíveis problemas metabólicos em função da idade avançada (BORGES et al., 2011). As diferenças de raças, porte e ritmos de vida, podem variar os parâmetros de velhice dos animais, recomenda-se observar cada animal em especial. Algumas reações clínicas são notadas em cães idosos como: diminuição da constituição de tecido muscular magro, aumento da quantidade de gordura corpórea, problemas articulares variáveis, diminuição da quantidade de água corporal (SÁ, 2002). De acordo com Bordin et al. (2014) alguns pontos devem ser observados para uma melhor alimentação destes animais: ● Consultas, revisões clínicas e nutricionais ao menos 2 vezes ao ano; ● Manter uma dieta adequada e balanceada para idosos; 1 8 18 ● Valor proteico da dieta, com alta qualidade e mais digestível; ● Regular a quantidade de alimento e energia ingerida; ● Evitar a obesidade; ● Atividade física associada à nutrição, ambos equilibrados; ● Dietas terapêuticas podem ser recomendadas. ALIMENTAÇÃO POR FASES DA VIDA DOS GATOS Gatos Neonatos A primeira semana de vida dos gatos é extremamente crítica e irá definir seu desenvolvimento ao longo de sua vida, pois esses animais são fisiologicamente e neurologicamente imaturos, tendo baixas porcentagens de gordura corpórea. Contudo, são preconizados alguns cuidados essenciais, principalmente no que desrespeito a alimentação, para o bom desenvolvimento dos recém-nascidos (WORTINGER, 2009; CASE et. al, 1998). O principal alimento que o recém-nascido deve receber nas primeiras 24 às 72h é o colostro, no qual agregara imunidade, devido os anticorpos presentes, além de ser rico em proteína e gordura que iram suprir a demanda nutricional do animal (WORTINGER, 2009). Os gatos recém-nascidos devem permanecer com as mães, já os rejeitados devem ser aleitados separadamente com leite comercial destinado a espécie, de 4 a 6 vezes ao dia. No entanto deve se atentar aos cuidados sanitários com animais órfãos, pois o leite comercial não fornece anticorpos, sendo que esses animais são mais susceptíveis a doenças, pois geralmente não mamaram o colostro (WORTINGER, 2009). Prats (2005) desenvolveu uma formula caseira para formular sucedâneo do leite felino no qual é uma ferramenta opcional na falta de sucedâneo do leite formulado industrialmente. A receita é composta de 90 mL de leite condensado, 120 mL de iogurte integral, três a quatro gemas de ovos e 90 mL de água. 1 9 19 Segundo Case et. al. (1998) os alimentos sólidos podem ser introduzidos na 3ª ou 4ª semana de vida, sendo ofertado juntamente com leite ou água morna para amolecer e facilitar a ingestão. A quantidade de leite ou água deve diminuir gradativamente até a 5ª semana, na qual pode ser ofertado o alimento completamente sólido. Gatos em Crescimento A fase de crescimento e desenvolvimento é relativamente curta o que se dá quando os gatos atingem a maturidade com média de 45 vezes o peso ao nascimento. Para garantir um crescimento com um tamanho normal para os filhotes, é necessário garantir uma dieta bem equilibrada (CASE, et al., 1998). Ainda Case et al., (1998), ressalta que no período de crescimento os gatos necessitam de uma quantidade superior de energia metabolizável (EM) do que a exigida para a manutenção dos gatos adultos. Mesmo que um gato adulto ativo necessite de 70 kcal de EM por kg de peso corporal, os gatos na fase de crescimento necessitam de, no mínimo, 160 kcal de EM por kg de peso corporal durante todo o período de seu crescimento. Segundo Seixas et al. (2003), os gatos em crescimento necessitam de mais alimentos ricos em proteína que os gatos adultos devido a formação dos novos tecidos associado à fase de crescimento. A proteína desse alimento deve ser de alta qualidade e de fácil digestão, para garantir a liberação de todos os aminoácidos essenciais para o crescimento e desenvolvimento. A crença que se deve adicionar cálcio e fósforo nas rações para os gatos e cães não é justificada pelos perfis nutricionais recomendados pela Association of America Feed Control Official (AAFCO), pois a quantidade de cálcio e fósforo exigido pelo organismo desses animais na fase de crescimento é muito baixa (1% para cálcio e 0,8% para fósforo). É sabido que as rações comercializadas contêm níveis desses dois elementos acima do recomendado, fornecendo assim mais do que o suficiente para esses animais em crescimento (WORTINGER, 2009). Wortinger (2009) ressalta que, os cães e gatos ao serem levados para um novo lar após o desmame, normalmente são submetidos a uma nova ração. Porém essa mudança deve ser feita de forma gradual a 2 0 20 partir do terceiro dia, com o fornecimento da mesma ração consumida antes de deixar a mãe. Os felinos apresentam um comportamento alimentar que os diferenciam dos cães principalmente na fase de crescimento. A sua alimentação consiste no consumo frequente de pequenas quantidades de alimento ao longo do dia. Sendo assim, quanto mais ativo o gato mais frequente será sua alimentação podendo ser fornecida como dieta de livre escolha ou ad libitum (WORTINGER, 2009). Gatos adultos Segundo Case et al. (1998) diferente dos cães, os gatos não são animais vorazes, pois possuem o hábito de se alimentar durante várias vezes ao dia em pequenas porções e manter um peso ideal, podendo ser submetidos a uma dieta ad libitum. (WALTHAM, 2007). Case et al. (1998) considera como gatos adultos aqueles que não estão em período de gestação, lactação ou trabalho ativo. Geralmente eles atingem sua fase adulta aos 10 e 12 meses de idade paralisando seu peso aos 18 meses. A manutenção da fase adulta geralmente vai dos 12 meses aos oito anos de vida. Para esses animais em manutenção adulta, a alimentação deve conter as seguintes características básicas, como: ● Proporcionar quantidade e a disponibilidade correta de nutrientes para manter a saúde física, mental e as atividades; ● Favorecer o melhor estado de saúde e, dessa maneira, reduzir a suscetibilidade a doenças; ● Ser suficientemente rica em nutrientes para permitir que o animal supra as suas exigências nutricionais ao se alimentar e; ● Ser suficientemente saborosa para assegurar um consumo adequado. Os gatos não necessitam de amplas variedades de rações, basta ração de boa qualidade para suprir as necessidades nutricionais e uma boa disponibilidade de água. O que ocorre, é que muitos proprietários condicionam os animais a maus hábitos alimentares. A mudança frequente de dieta pode causar problemas gástricos produzindo disenteria e vômito (WORTINGER, 2009). 2 1 21 Wortinger, (2009) comenta que, as exigências nutricionais diárias de gatos castrados são reduzidas em 24 a 33% quando comparada as de gatos inteiros. Essas reduções nutricionais se dão pela redução da taxa metabólica basal, pois os gatos castrados não diminuem as suas atividades. Gatos idosos A capacidade funcional dos órgãos dos gatos começa a cair logo depois que ele atinge a idade adulta, o que corresponde ao terço final da vida. Ruiz (2013) ressalta que, os diferentes sistemas que constituem o organismo começam a envelhecer em velocidades diferentes, sendo essa velocidade dependente de muitos fatores relacionados a vida do animal, como a genética, o ambiente e a alimentação. Os animais idosos necessitam dos mesmos nutrientes que necessitavam nas fases de vida anteriores, porém, em proporção e quantidades diferentes, alguns mais e outros menos, como a energia metabolizável (em menor quantidade).A proteína também deve ser fornecida em menor quantidade e deve ser de qualidade elevada, para garantir melhor digestibilidade (CASE, et al., 1998). A falência renal crônica e o hipertiroidismo são as doenças mais comuns em gatos idosos. Para amenizar o surgimento desses problemas da idade, deve se ter maior cuidado com a higiene oral, assim como, a disponibilidade de água limpa (CAMILO et al., 2014). Segundo Ruiz (2013), à medida que os gatos vão envelhecendo, cai a sua eficiência digestiva, principalmente para os lipídios e proteínas. Com isso, nota-se que os gatos com função digestiva comprometida, tem tendência em aumentar o consumo diário de alimento, com o objetivo de compensar o efeito descrito anteriormente. A recomendação aos proprietários é que continuem fornecendo a mesma quantidade de ração aos gatos quando atingem o terço final da vida, porém esses alimentos devem ser de alta digestibilidade, principalmente para proteína e lipídios (Case, et al., 1998). 2 2 22 GESTAÇÃO E LACTAÇÃO DE CÃES E GATOS Segundo Cappilli et al. (2016) as fases destinadas à reprodução de cães e gatos são fases que requerem maior atenção alimentar, pois além das fêmeas, os filhotes que estão sendo gestados ou mesmo lactentes, necessitam de uma nutrição adequada para o desenvolvimento de ambos. A fêmea necessita de uma capacidade de manutenção e desenvolvimento dos filhotes e condições alimentares e ambientais para a lactação. Os filhotes necessitam de condições para o correto desenvolvimento embrionário e após o nascimento, para o seu crescimento. Segundo Carciofi e Jeremias (2010) alguns fatores básicos são recomendados durante a gestação e lactação, como: a) Durante a gestação: ● Alimentos de alta digestibilidade e específico para a fase; ● Valores energéticos controladas até a quinta semana; ● No terço final da gestação – pequenas porções diárias; ● Valorizar o conceito nutricional pela fase fisiológica; ● Observar ganho de peso das fêmeas – 20% na média; b) Durante a lactação: ● Alimentos de alta digestibilidade e específico para a fase; ● Administrar quantidade e qualidade energética evitando perda de peso; ● Fornecer duas vezes o valor de energia de manutenção para a fêmea evitar emagrecimento; ● Água limpa e a vontade sempre; ● Redução do consumo a partir da 3° semana de lactação. Ao final da lactação os animais devem receber uma dieta que possibilite a recuperação corpórea e reprodutiva da fêmea (CARCIOFI, 2005; CARCIOFI, 2007). No período de desmame a redução alimentar é realizada para evitar a intensa e contínua produção láctea desnecessária, podendo gerar problemas com as mamas – mastites (CARCIOFI; JEREMIAS, 2010). Outro ponto a ser considerado é a perda de peso durante a lactação, fato este que não pode ser maior que 10% do peso corpóreo normal da fêmea. A complementação alimentar com cálcio nas dietas não deve ser realizada, as dietas industriais fornecidas nesta fase são completas e 2 3 23 balanceadas, podendo esta suplementação gerar problemas fetais com inadequado desenvolvimento (CARCIOFI, 2007). Os avanços na nutrição de animais de companhia são evidentes e vários conceitos aplicados à nutrição humana nos últimos anos têm sido aplicados à nutrição dos pets. Os proprietários destes animais, em grande maioria, abandonaram as dietas caseiras e passaram a fornecer dietas comerciais balanceadas e nutricionalmente completas, sendo capazes de suprir as necessidades diárias de seus animais em todas as fases de vida. Os proprietários de pets atualmente buscam produtos que não só sustentem nutricionalmente seus animais de estimação, mas que também proporcionem a eles uma melhor qualidade de vida. Cães e gatos são classificados como carnívoros, porém ambos apresentam particularidades quanto as suas necessidades nutricionais de acordo com sua fase de vida, sendo os gatos considerados carnívoros obrigatórios e os cães facultativos. Logo, é de extrema importância o conhecimento das características fisiológicas e das exigências das diferentes espécies nas diferentes fases de vida para que se possa atender a demanda de um mercado que está em franca expansão, o da Nutrição de Pets. Pesquisas científicas relacionadas à nutrição de animais de companhia, principalmente nos últimos 10 anos, deixaram de focar a dicotomia necessidades mínimas e teores máximos, sobretudo quanto ao estabelecimento das recomendações nutricionais. O conhecimento das necessidades mínimas deixou de ser tão importante e, cada vez mais, busca-se entender o papel da nutrição na promoção de saúde, bem-estar e longevidade. A adequação da composição nutricional, matriz de ingredientes, processamento do alimento, entre outros, às necessidades específicas de cada estágio de vida, à condição fisiológica, ao estilo de vida e às diversas condições fisiopatológicas que acometem estes animais têm ocupado os temas principais de pesquisa. 2 4 24 Este novo direcionamento de objetivos científicos é em grande parte explicado pela mudança da condição de experimentação e importância que cães e gatos assumiram na sociedade. No início da pesquisa estes eram encarados como animais de laboratório, usados em protocolos que, embora adaptados à sua fisiologia e necessidades comportamentais específicas, em pouco se diferenciavam dos empregados em roedores e outros animais de pesquisa. Hoje inseridos na estrutura familiar, as informações científicas que resultam em impacto social e econômico requerem protocolos, métodos e propósitos de investigação totalmente diferentes, que se aproximam bastante da própria dinâmica investigativa da nutrição humana. Recebendo informações nutricionais da mídia, proprietários passaram a se interessar também em como a alimentação poderia afetar a saúde de seus animais. A partir desta demanda pesquisadores e indústria de alimentos para cães e gatos têm respondido, redirecionando objetivos e métodos de pesquisa. A pesquisa nutricional tem, assim, se diversificado em objetivos abrangendo áreas como longevidade, gerontologia, bem-estar, imunidade, beleza de pele e pelos, função digestiva, função cognitiva, saúde oral e prevenção de doenças degenerativas, dentre as quais pode-se incluir o manejo nutricional de extenso número de condições como urolitíases, neoplasias, cardiopatias, nefropatias, artropatias, endocrinopatias, obesidade, distúrbios gastrointestinais, distúrbio alérgicos, entre outros. Paralelo a toda esta pesquisa em saúde, verificam-se alguns estudos sobre ingredientes e muito poucos sobre processo, aspectos não tão bem conhecidos para cães e gatos e que necessitariam de mais investigação. Este texto traz breve revisão sobre algumas destas novas abordagens em pesquisa, não necessariamente destacando os mais importantes ou mais extensamente investigados, mas também àqueles que são mais familiares aos autores desta revisão. 2 5 25 NOVOS PONTOS DE VISTA SOBRE AS RECOMENDAÇÕES NUTRICIONAIS No início desta década foi formado um comitê pelo Conselho Nacional de Pesquisas Norte Americano para revisar as publicações sobre necessidades nutricionais de cães e gatos, anteriormente reunidas no Nutrient Requirements of Dogs (1985) e no Nutrient Requirements of Cats (1986). Foi atribuída a esse comitê a tarefa de revisar estas publicações e transformá-las em um único documento, que veio a ser publicado em 2006 (NRC, 2006). Antes do lançamento do NRC (2006) haviam apenas informação dispersas sobre a biodisponibilidade de nutrientes e necessidades nutricionais de animais de companhia. O progresso na nutrição de cães e gatos exigia informações mais precisas sobre as necessidades das diversas fases da vida (especialmentea reprodução e manutenção), juntamente com os valores de biodisponibilidade dos nutrientes dos ingredientes das dietas (Morris & Rogers, 2004). O Comitê analisou e sintetizou milhares de artigos científicos publicados nos últimos 25 anos. Fez recomendações nutricionais baseadas no nível de atividade física e estágio de vida do animal. A publicação também analisa a forma como os nutrientes são metabolizados, os indícios de deficiência nutricional e doenças relacionadas à má nutrição. Há discussão abrangente dos aditivos alimentares para animais de estimação e tabelas detalhando a composição dos ingredientes normalmente utilizados, em texto de referência para pesquisadores, fabricantes de alimentos e os veterinários. Deixando clara a preocupação com a qualidade de vida, longevidade e até mesmo com a obesidade, a última edição do NRC (2006) estabeleceu novas necessidades energéticas diárias para cães e gatos e dividiu as necessidades dos nutrientes em quatro categorias distintas, diferente das versões anteriores (NRC, 1985, 1986) que apresentavam apenas as necessidades mínimas e máximas. As novas categorias criadas estão descritas a seguir: § Necessidades mínimas (NM) - representa a concentração ou quantidade mínima biodisponível do nutriente que supre as necessidades em um determinado estado fisiológico. 2 6 26 § Ingestão adequada (IA) - representa a concentração ou a quantidade de um nutriente que supre as necessidades em uma determinada fase da vida, estimada nos casos em que não foram determinadas experimentalmente as NM. É baseada em dados de estudos sobre o assunto já publicados com cães e gatos, e, em alguns casos, em dados comparativos retirados de estudos em outras espécies. § Ingestão recomendada (IR) - expressão do inglês "recommended allowance", representa a concentração ou quantidade recomendada de um nutriente em dieta prática formulada para um determinado estado fisiológico. A IR é baseada na NM e, se for caso, inclui fator de segurança para nutrientes com biodisponibilidade não determinada. Quando não existe NM, a IR é baseada na IA. § Limite superior de segurança (LSS) - valores baseados na concentração ou quantidade máxima de nutrientes que não está associada a efeitos adversos em cães e gatos. Infelizmente, os valores de LSS não estão disponíveis para muitos nutrientes, especialmente para minerais e vitaminas. Evidencia-se, assim, um enfoque próximo ao da nutrição humana no novo texto do NRC (2006). Mesmo existindo muitas lacunas sobre as necessidades nutricionais mínimas, estas foram contornadas pela proposição das IR. Os nutrientes que ainda carecem de estudos para estabelecimento de suas NM estão listados na Tabela 1. Destacam-se, em termos de IR, a inclusão dos ácidos graxos aracdônico, eicosapentaenóico e docosahexaenoico, tanto para cães como para gatos (Bauer, 2008). Desta forma, a semelhança da formulação de aminoácidos, a formulação de ácidos graxos exige a inclusão de vários ingredientes com vistas à obtenção de concentrações específicas destes nutrientes para cada espécie ou faixa etária. https://www.scielo.br/img/revistas/rbz/v39sspe/05t01.gif 2 7 27 INFORMAÇÃO SOBRE DIGESTIBILIDADE DE INGREDIENTES O conhecimento sobre biodisponibilidade dos nutrientes nos alimentos empregados nas formulações evoluiu pouco nos últimos anos (Bontempo, 2005, Carciofi et al., 2006). A produção destas informações, inclusive, vem se reduzindo recentemente devido ao maior enfoque em saúde das pesquisas mais recentes (Carciofi et al., 2009). Mesmo métodos de estudo da digestibilidade dos alimentos é área pouco pesquisada para cães (Carciofi et al., 2007) e gatos (Vasconcellos et al., 2006; Vasconcellos et al., 2007). A escassez de informações faz com que, via de regra, as formulações para animais de companhia sejam baseadas nos nutrientes brutos, não nos disponíveis (Fortes et al., 2010), indicando a necessidade de pesquisas na área de caracterização físico-química dos ingredientes utilizados pela indústria, de forma a aperfeiçoar a utilização destes nas formulações (Fahey, 2003; Carciofi, 2008). Talvez por isto, ao menos no Brasil, produtos com problemas de composição de rótulo (Carciofi et al., 2006) e com baixa digestibilidade e energia metabolizável ainda estejam disponíveis no mercado (Carciofi et al., 2009). SAÚDE, QUALIDADE E EXPECTATIVA DE VIDA Os avanços na nutrição de animais de companhia têm seguido aqueles verificados na nutrição humana. Vê-se no mundo uma explosão do número de marcas de dietas comerciais prontas para o consumo, com formulações cada vez mais sofisticadas e específicas (Steiff & Bauer, 2001). Os conceitos de nutrição estão se expandindo para além da fronteira da sobrevivência e satisfação da fome para enfatizar a utilização de alimentos que promovam bem-estar, melhora de saúde e redução do risco de doenças (Fahey, 2003). Têm se buscado compreender como a dieta pode maximizar a expectativa e a qualidade de vida pela utilização de ingredientes e nutrientes que desenvolvam a capacidade de resistir a doenças e melhorem a saúde (Tzortzis et al., 2003). Exemplo disso são estudos recentes sobre a influência da restrição energética sobre a expectativa e qualidade de vida em cães (Kealy et 2 8 28 al., 2002), ou sobre o uso de nutrientes por felinos idosos (Teshima et al., 2010). Nos últimos anos, as pesquisas em nutrição de animais de companhia têm também dado maior ênfase aos aspectos metabólicos desencadeados pela ingestão dos alimentos. Os efeitos metabólicos do alimento estão relacionados com alterações de saúde a longo prazo, que podem se estabelecer ao longo de vários meses ou anos de ingestão alimentar. Alguns exemplos incluem as urolitíases, nefropatias, alterações articulares, distúrbios cardio- circulatórios, obesidade, intolerância aos carboidrados (Diabetes Mellitus), dentre outras, todas relacionadas com a qualidade de vida e longevidade de cães e gatos (Carciofi, 2007). PAPEL DA NUTRIÇÃO NA PREVENÇÃO E SUPORTE DE AFECÇÕES O emprego de alimentos na promoção de saúde se estende por diversas áreas, como saúde bucal (Carciofi et al., 2007), suporte nutricional em condições de hospitalização (Brunetto et al., 2010) e suporte nutricional em afecções clínicas diversas (Tortola et al., 2009; Jeremias et al., 2009). Este é um tópico bastante amplo, não sendo objetivo desta revisão fazer apanhado completo sobre o mesmo. Alguns pontos com quantidade importante de pesquisas na última década seriam: Obesidade A obesidade está transformando-se em um dos grandes desafios dos nutricionistas e pesquisadores no século XXI (Budsberg, 2010). Esta se tornou o problema de saúde mais frequente em cães e gatos de estimação. Segundo o último levantamento da Associação Médica Veterinária Americana, 40% dos cães dos Estados Unidos apresentam sobrepeso ou são obesos. A principal preocupação médica na obesidade é que esta está associada a muitas doenças, com efeitos prejudiciais sobre a saúde e longevidade dos cães e gatos (Michel et al., 2008). 2 9 29 Os problemas a que os animais de companhia obesos podem estar predispostos incluem doenças ortopédicas, diabetes mellitus, anormalidades no perfil lipídico, doenças cardiorrespiratórias, urinárias, distúrbios reprodutivos, neoplasias (tumores de mama, carcinoma de células de transição), doenças dermatológicas e complicações anestésicas (German, 2006). Tem sido demonstrado que a obesidade aumenta o estresse oxidativo em crianças obesas, gatos e outras espécies. O estresse oxidativo pode resultar em danos no DNA, com alterações posteriores na expressão gênica, sinalização celular, mutações, morte e transformação celular.Estes efeitos do dano oxidativo podem predispor os animais e os seres humanos a numerosas doenças, incluindo o câncer (Cline et al., 2009). Opções terapêuticas nutricionais têm sido investigadas para cães (Carciofi et al., 2005; Brunetto et al., 2008) e gatos (Vasconcellos et al., 2009) obesos. Importante preocupação com dieta restrita de energia, no entanto, é que esta cubra todas as necessidades de nutrientes essenciais, especialmente aminoácidos. Em estudos com humanos e animais obesos, o aumento da proteína dietética tem sido eficaz para manter a massa corporal magra (Diez et al., 2002; Vasconcellos et al., 2009). Metabolismo de carboidratos O estudo das respostas glicêmicas e insulínicas dos alimentos se remete, em última instância, ao estudo do metabolismo de carboidratos. Características intrínsecas aos próprios carboidratos, como amidos e fibras, bem como dos alimentos, incluindo composição química e processamento, são importantes. Seu estudo é necessário para cães e gatos, pois parece se relacionar com a manutenção da composição corporal e a incidência de doenças degenerativas (Carciofi, 2007). Alimentos industrializados secos apresentam grande quantidade de carboidratos em sua composição, empregados por questões de processamento de extrusão e custos, havendo importante controvérsia científica sobre suas consequências metabólicas para cães (Carciofi et al., 2008) e gatos (De-Oliveira et al., 2008). Este debate foi recentemente posto em voga com a publicação do artigo "The carnivore connection to nutrition in cats" (Zoran, 2002), no entanto parece ter havido certo exagero e ao menos para felinos 3 0 30 sadios, os teores de amido normalmente empregados parecem não causar malefício algum. O controle glicêmico pode estar prejudicado em alguns estágios fisiológicos e condições de saúde, como diabetes melitus, obesidade, gestação, estresse, infecção, câncer e idade avançada (Kahn et al., 2001). Acredita-se que a utilização de dietas que minimizem e estendam a onda glicêmica pós-prandial proporciona, para animais nestas condições, o restabelecimento mais rápido e fácil da glicemia (Bouchard & Sunvold, 1999), aspecto que promete futuros estudos em nutrologia veterinária. Formulação de macroelementos e urolitíases As urolitíases são a causa mais comum de doença obstrutiva do trato urinário inferior em cães e gatos (Wagner et al., 2006). A formação de urólitos no trato urinário é problema clínico significativo para animais de companhia em muitos países (Robertson et al., 2002). Sabe-se que a dieta influencia a composição da urina, de modo que determinados fatores alimentares desempenham papel significativo no aumento do risco ou na prevenção de urolitíases (Stevenson & Rutgers, 2006). Atualmente, pesquisadores e empresas buscam a produção de alimentos que atuem na prevenção das urolitíases por estruvita e oxalato de cálcio, os dois tipos mais comuns de urólitos. O desafio na formulação dos alimentos é conciliar as medidas preventivas, já que as mesmas são praticamente opostas em relação a cada um destes urólitos. Em geral, estruvita associa-se a um pH urinário alcalino e oxalato de cálcio a pH urinário ácido, sendo necessário se determinar, por meio da supersaturação urinária, o ponto de equilíbrio entre ambos. Nos últimos anos foram interessantes os avanços nesta área. Sabe-se hoje que a relação entre os macroelementos que compões a dieta, expressa como o excesso de bases do alimento, apresenta grande correlação com o pH urinário e com equilíbrio ácido-básico de cães e gatos (Zentek & Schulz, 2004; Jeremias, 2009). Trabalhos recentes também demonstraram que o pH urinário, por si só, não permite avaliar o risco de formação de urólitos no trato urinário de cães e gatos. Atualmente, a pesquisa sobre esse tema está focada na determinação da supersaturação relativa, um método que avalia o risco de formação de cristais urinários com base no nível de saturação de sais de fraca solubilidade, tais como o oxalato de cálcio e a estruvita 3 1 31 (Allen & Kruger, 2000). É o método mais utilizado em humanos e foi validado para a urina de cães e de gatos, representando o futuro desta área de investigação (Robertson et al., 2002). MICROBIOTA DO TRATO GASTRINTESTINAL E SUA IMPORTÂNCIA NA IMUNIDADE O equilíbrio da microbiota intestinal é necessário para as funções digestiva e imunológica dos animais. Saúde comprometida, susceptibilidade às infecções e taxa de crescimento diminuída podem ser sinais de desequilíbrio da microbiota. Estratégias dietéticas para estabelecer e manter o status de eubiose têm incluído o emprego de prebióticos e probióticos (Czarnecki-Maulden, 2008; Carciofi & Gomes, 2010). Diferentemente de outros monogástricos e humanos, a pesquisa sobre a microbiota intestinal de cães e gatos é ainda limitada (Hussein & Sunvold, 2000). No início desta década, ainda havia escassez de informações em animais de companhia sobre o efeito de prebióticos na digestibilidade dos nutrientes, função imunológica intestinal e populações microbianas no intestino grosso (Buddington & Sunvold, 2000; Swanson et al., 2002). Nos últimos 10 anos foi importante a modificação ocorrida no direcionamento da pesquisa científica em nutrição de animais de companhia, bem como o avanço do conhecimento nesta área. O modo como cães e gatos estão inseridos na sociedade, a preocupação dos proprietários com alimentação e o desenvolvimento industrial motivado pelo aquecimento econômico do setor, sem dúvida, contribuíram em grande parte para o direcionamento do atual perfil de pesquisas, como foco principal em estudos sobre formulação de alimentos capazes de maximizar a expectativa e a qualidade de vida, pela utilização de ingredientes e nutrientes que desenvolvam a capacidade de resistir à doenças e melhorem a saúde. Apesar desta evolução, muitos aspectos ainda permanecem desconhecidos na nutrição de cães e gatos, necessitando-se de estudos em caracterização físico-química, efeitos de processo, biodisponibilidade e respostas metabólicas dos ingredientes utilizados pela indústria. Paralelo à esta 3 2 32 necessidade de informações básicas, a importância e interação da dieta e manejo alimentar com a saúde gastrointestinal, imunidade e afecções como urolitíases, nefropatias, artropatias, dematopatias, distúrbios cardiocirculatórios, obesidade, diabetes mellitus, dentre outras, também despontam em cenário futuro como horizontes importantes de pesquisa. Durante o processo de domesticação, ou seja, quando a criação, cuidados e alimentação passaram a ser totalmente controlados por seres humanos, os cães e os gatos exerceram diversas funções como fonte de alimento próxima ao homem nômade, proteção contra outros animais, caça de pragas, companhia e atualmente são considerados membros efetivos da família. Ambos os cães e gatos domésticos são membros da ordem Carnívora, o que indica espécies que se especializaram no hábito alimentar carnívoro e por isso apresentam anatomia peculiar. No entanto, pertencem a diferentes ramos da ordem e, consequentemente, têm herdado distintos legados de preferências alimentares e comportamento de seleção de alimentos. Enquanto que a história evolutiva do cão sugere uma dieta mais onívora na natureza, a história do gato indica que esta espécie consumia uma dieta a base de carne durante seu desenvolvimento evolutivo. A permanência do gato com uma dieta altamente especializada resultou em adaptações metabólicas que se manifestam como particularidades nas exigências nutricionais. Desse modo, os alimentos disponíveis no mercado apresentam características determinadas basicamente pelas diferenças nas exigências nutricionais e nos hábitos alimentares de cada uma destasespécies. O entendimento das diferenças interespécies é de importância prática, uma vez que alguns utores (responsáveis) podem erroneamente acreditar que gatos podem ser alimentados como se fossem cães. O avanço nas pesquisas sobre nutrição nos últimos anos promoveu maior entendimento sobre as necessidades nutricionais destes animais, e consequentemente, houve uma grande evolução na alimentação dos mesmos. Os alimentos, atualmente, buscam além de nutrir, a promoção da saúde, bem-estar e longevidade. Porém, com a enorme quantidade de alimentos comerciais prontos para o consumo, com formulações cada vez mais sofisticadas, facilitam que os tutores estejam propensos a cometerem outro erro 3 3 33 primário no manejo alimentar: a superalimentação. De forma simultânea, a maioria dos animais de companhia sofre com a humanização, vivendo em espaços reduzidos culminados em ociosidade. Nesse caso, pode-se considerar que o grande problema nutricional em animais de companhia atualmente é um consumo de energia maior do que a demanda, o que pode ser comprovado pelos altos índices de obesidade em ambas as espécies atualmente. Acredita-se que mais da metade da população pet nos Estados Unidos apresenta sobrepeso ou obesidade (Association for Pet Obesity Prevention, 2015). Assim sendo, os objetivos do presente trabalho são evidenciar as diferenças nos requerimentos nutricionais e fornecer informações que permitam mensurar a quantidade e o manejo do alimento, visando retardar ou prevenir a progressão de distúrbios que possam comprometer a qualidade de vida e reduzir o tempo de vida de cães e gatos. DIFERENÇAS ENTRE CÃES E GATOS Para entender sobre nutrição e alimentação de cães e gatos é necessário saber primeiramente as diferenças nutricionais entre essas espécies. Ambas as espécies são da classe Mammalia e a ordem Carnívora, mas de superfamílias distintas, sendo que o cão (Canis familiaris) pertence à moderna superfamília Canoidea e o gato à superfamília Feloidea (Felis catus). Na superfamília Canoidea há famílias com hábitos alimentares diversificados, a Ursídae (ursos) e a Procionidae (texugos) são onívoras, a Alurídae (pandas) são estritamente herbívoras e as carnívoras incluem a Canidae (cães) e a Mustelidae (doninhas) (Case et al, 2011). A superfamília Feloidea inclui famílias estritamente carnívoras: Viveridae (ginetas), Hyaenidae (hienas) e a Felidae (gatos) (Case et al., 2011). Desta maneira, um ponto em comum entre cães e gatos é que são animais anatomicamente carnívoros, com dentes caninos bem desenvolvidos, ausência de amilase salivar, estômago bastante desenvolvido e com pH rigorosamente ácido apto a digerir proteínas e 3 4 34 intestino grosso curto (Murgas et al., 2005) realçando baixa capacidade de fermentação e aproveitamento de carboidratos. No entanto, a história evolutiva do cão sugere uma dieta mais onívora na natureza, a história do gato indica que esta espécie consumia uma dieta a base de carne através de seu desenvolvimento evolutivo. EXIGÊNCIAS NUTRICIONAIS A nutrição é o estudo dos alimentos, os seus nutrientes e outros componentes, incluindo as ações dos nutrientes específicos, as suas interações com o outro, e seu equilíbrio dentro de uma dieta. As seis categorias de nutrientes são água, carboidratos, proteínas, gorduras, sais minerais e vitaminas, os quais têm funções específicas e contribuem para o crescimento, manutenção dos tecidos do corpo e saúde ótima (Case et al., 2011). Os nutrientes, principalmente carboidratos, lipídeos e proteínas, produzem energia quando oxidados pelo metabolismo. Por ter revisado e reunido inúmeras publicações cientificas a respeito das necessidades nutricionais e por fazer recomendações nutricionais baseadas no nível de atividade de cães e gatos, o NRC (2006) consiste em uma das principais referências bibliográficas para a nutrição e alimentação desses animais e por isso será bastante citado no texto que segue. A energia dietética corresponde a um dos principais reguladores de consumo voluntário de animais, incluindo cães e gatos. Assim, todos os nutrientes se apresentam balanceados conforme a densidade energética do alimento. Para cães e gatos, tanto os requisitos energéticos como valor energético dos alimentos, se expressam em energia metabolizável (EM) uma vez que em carnívoros as perdas energéticas pela urina são muito importantes. As necessidades energéticas de cães e gatos, como em outras espécies animais, se calculam segundo o peso metabólico (PM). O PM correlaciona o peso corporal (PC) ao crescimento alométrico do animal, uma vez que a perda de calor é proporcional a superfície corpórea. 3 5 35 Desse modo, as necessidades energéticas de um animal dependem mais do seu PM do que do seu PC. Para o cálculo do PM em cães o NRC (2006) recomenda usar o expoente 0,75 por melhor acomodar variações nas proporções dos órgãos em cães. Isto porque, as inúmeras raças caninas existentes apresentam uma gama de PC (entre 1,0 a 100kg) e padrões de crescimentos distintos, consequentemente, requisitos nutricionais e manejos alimentares diferentes. Já para gatos não obesos utiliza o expoente 0,67, pois a espécie não apresenta grande variação entre as raças, no entanto, para animais obesos o expoente é 0,4. A necessidade energética para manutenção (NEM) é a energia necessária para suportar o equilíbrio energético (onde a EM é igual à produção de calor), acima de um longo período de tempo. Dessa forma, a NEM pode variar com qualquer fator que influencie na produção de calor. Isso inclui a energia exigida para termo regulação, atividade espontânea e exercício moderado. Nesse sentido, um animal adulto em manutenção corresponde àquele que não está na fase de gestação ou lactação e não realiza atividades intensas. As necessidades energéticas diárias variam com as diversas etapas fisiológicas e deste modo o NRC (2006) de cães e gatos também sugere métodos de predição para cada fase. O crescimento corresponde à fase de desmama até atingir o PC adulto. O período de maior intensidade do crescimento em cães e gatos se dá até os sete primeiros meses de vida. Em raças grandes este intervalo pode se estender até por volta dos 12 meses iniciais. Independente da raça, os cães atingem 50% da altura corporal bem antes de atingir 50% do peso adulto. Para estimar as necessidades energéticas de cães em crescimento, o NRC (2006) introduz as estimativas do peso quando adulto (dependente da raça) e logaritmo neperiano (mais de acordo com os modelos de crescimento não linear). Na Tab. 4 e 5 estão as equações de predição das necessidades energéticas de cães e gatos, respectivamente. Para um desempenho reprodutivo satisfatório, o ganho de PC na gestação deve incluir o ganho tecidual na preparação para lactação, fetal, placentário e as renovações teciduais. 3 6 36 A mudança de ganho de PC de cadelas e gatos difere consideravelmente durante gestação e lactação. As gatas tendem a perder peso durante a lactação independentemente da sua dieta. Desse modo, é recomendável para gatas prenhes uma dieta para aumentar 40 a 50% de energia. Assim para elas a recomendação de ingestão de energia passa a ser 140 xPC 0,67. Cadelas gestantes não requerem muita energia nos dois terços iniciais da gestação, sendo considerada nessa fase a NEM. Apenas no terço final, quando há um crescimento expressivo dos fetos, há um incremento de 26 kcal/kg de PC. A quantidade de leite e o conteúdo de energia contido no leite são importantes fatores na estimativa das exigências energéticas de cadelas e gatas durante a lactação. O NRC (2006) para estimar as necessidades nessa fase considera o número de filhotes e o estágio de lactação.