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Panificação Clássica e Brasileira Samara Fernandes “Promover a educação de qualidade nas diferentes áreas do conhecimento, forman- do profissionais cidadãos que contribuam para o desenvolvimento de uma sociedade justa e solidária” Missão DIREÇÃO UNICESUMAR Reitor Wilson de Matos Silva, Vice-Reitor Wilson de Matos Silva Filho, Pró-Reitor de Administração Wilson de Matos Silva Filho, Pró- Reitor Executivo de EAD William Victor Kendrick de Matos Silva, Pró-Reitor de Ensino de EAD Janes Fidélis Tomelin, Presidente da Mantenedora Cláudio Ferdinandi. NEAD - NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Diretoria Executiva Chrystiano Mincoff, James Prestes e Tiago Stachon, Diretoria de Design Educacional Débora Leite, Diretoria de Graduação e Pós-graduação Kátia Coelho, Diretoria de Permanência Leonardo Spaine, Head de Produção de Conteúdos Celso Luiz Braga de Souza Filho, Gerência de Produção de Conteúdo Diogo Ribeiro Garcia, Gerência de Projetos Especiais Daniel Fuverki Hey, Supervisão do Núcleo de Produção de Materiais Nádila Toledo, Supervisão Operacional de Ensino Luiz Arthur Sanglard, Coordenador de Contéudo Andrea Shima da Motta, Projeto Gráfico Jaime de Marchi Junior e José Jhonny Coelho Editoração José Jhonny Coelho, Designer Educacional Yasminn Zagonel, Revisão Textual Simone Limonta, Ilustração Bruno Pardinho e André Onishi, Fotos Shutterstock e Istockphoto. NEAD - Núcleo de Educação a Distância Av. Guedner, 1610, Bloco 4 - Jd. Aclimação - Cep 87050-900 Maringá - Paraná | unicesumar.edu.br | 0800 600 6360 C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância; FERNANDES, Samara. Panificação Clássica e Brasileira. Samara Fernandes Maringá-Pr.: UniCesumar, 2015. Reimpresso em 2018. 124 p. “Graduação em Gastronomia - EaD”. 1. Panificação. 2. Clássica. 3. Brasileira. 4. EaD. I. Título. ISBN 978-85-459-0137-2 CDD - 22ª Ed. 641.3 CIP - NBR 12899 - AACR/2 Ficha catalográfica elaborada pelo bibliotecário João Vivaldo de Souza - CRB-8 - 6828 Impresso por: 3 Em um mundo global e dinâmico, nós trabalhamos com princípios éticos e profissionalismo, não somente para oferecer uma educação de qualidade, mas, acima de tudo, para gerar uma conversão integral das pes- soas ao conhecimento. Baseamo-nos em 4 pilares: intelectual, profissional, emocional e espiritual. Iniciamos a Unicesumar em 1990, com dois cursos de graduação e 180 alunos. Hoje, temos mais de 100 mil estudantes espalhados em todo o Brasil: nos quatro campi presenciais (Maringá, Curitiba, Ponta Grossa e Londrina) e em mais de 300 polos EAD no país, com dezenas de cursos de graduação e pós-graduação. Produzimos e revisamos 500 livros e distribuímos mais de 500 mil exemplares por ano. Somos reconhecidos pelo MEC como uma instituição de excelência, com IGC 4 em 7 anos consecutivos. Estamos entre os 10 maiores grupos educacionais do Brasil. A rapidez do mundo moderno exige dos edu- cadores soluções inteligentes para as necessidades de todos. Para continuar relevante, a instituição de educação precisa ter pelo menos três virtudes: ino- vação, coragem e compromisso com a qualidade. Por isso, desenvolvemos, para os cursos de Engenharia, metodologias ativas, as quais visam reunir o melhor do ensino presencial e a distância. Tudo isso para honrarmos a nossa missão que é promover a educação de qualidade nas diferentes áreas do conhecimento, formando profissionais ci- dadãos que contribuam para o desenvolvimento de uma sociedade justa e solidária. Vamos juntos! pa la vr a do re it or Reitor Wilson de Matos Silva Prezado(a) Acadêmico(a), bem-vindo(a) à Comunidade do Conhecimento. Essa é a característica principal pela qual a UNICESUMAR tem sido conhecida pelos nossos alunos, professores e pela nossa sociedade. Porém, é importante destacar aqui que não estamos falando mais daquele conhecimento estático, repetitivo, local e elitizado, mas de um conhecimento dinâmico, reno- vável em minutos, atemporal, global, democratizado, transformado pelas tecnologias digitais e virtuais. De fato, as tecnologias de informação e comuni- cação têm nos aproximado cada vez mais de pessoas, lugares, informações, da educação por meio da conec- tividade via internet, do acesso wireless em diferentes lugares e da mobilidade dos celulares. As redes sociais, os sites, blogs e os tablets ace- leraram a informação e a produção do conhecimen- to, que não reconhece mais fuso horário e atravessa oceanos em segundos. A apropriação dessa nova forma de conhecer transformou-se hoje em um dos principais fatores de agregação de valor, de superação das desigualdades, propagação de trabalho qualificado e de bem-estar. Logo, como agente social, convido você a saber cada vez mais, a conhecer, entender, selecionar e usar a tecnologia que temos e que está disponível. Da mesma forma que a imprensa de Gutenberg modificou toda uma cultura e forma de conhecer, as tecnologias atuais e suas novas ferramentas, equipamentos e aplicações estão mudando a nossa cultura e transformando a todos nós. Priorizar o conhecimento hoje, por meio da Educação a Distância (EAD), significa possibilitar o contato com ambientes cativantes, ricos em infor- mações e interatividade. É um processo desafiador, que ao mesmo tempo abrirá as portas para melhores oportunidades. Como já disse Sócrates, “a vida sem desafios não vale a pena ser vivida”. É isso que a EAD da Unicesumar se propõe a fazer. Pró-Reitor Executivo de EAD William V. K. de Matos Silva bo as -v in da s 5 bo as -v in da s Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está iniciando um processo de transformação, pois quando investimos em nossa formação, seja ela pessoal ou pro- fissional, nos transformamos e, consequentemente, transformamos também a sociedade na qual estamos inseridos. De que forma o fazemos? Criando opor- tunidades e/ou estabelecendo mudanças capazes de alcançar um nível de desenvolvimento compatível com os desafios que surgem no mundo contemporâneo. O Centro Universitário Cesumar mediante o Núcleo de Educação a Distância, o(a) acompanhará durante todo este processo, pois conforme Freire (1996): “Os homens se educam juntos, na transfor- mação do mundo”. Os materiais produzidos oferecem linguagem dialógica e encontram-se integrados à proposta pe- dagógica, contribuindo no processo educacional, complementando sua formação profissional, desen- volvendo competências e habilidades, e aplicando conceitos teóricos em situação de realidade, de ma- neira a inseri-lo no mercado de trabalho. Ou seja, estes materiais têm como principal objetivo “provocar uma aproximação entre você e o conteúdo”, desta forma possibilita o desenvolvimento da autonomia em busca dos conhecimentos necessários para a sua formação pessoal e profissional. Portanto, nossa distância nesse processo de cresci- mento e construção do conhecimento deve ser apenas geográfica. Utilize os diversos recursos pedagógicos que o Centro Universitário Cesumar lhe possibilita. Ou seja, acesse regularmente o AVA – Ambiente Virtual de Aprendizagem, interaja nos fóruns e enquetes, as- sista às aulas ao vivo e participe das discussões. Além disso, lembre-se que existe uma equipe de professores e tutores que se encontra disponível para sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em seu processo de aprendiza- gem, possibilitando-lhe trilhar com tranquilidade e segurança sua trajetória acadêmica. Pró-Reitor de Ensino de EAD Janes Fidélis Tomelin Diretoria de Graduação e Pós Kátia Solange Coelho P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a Ap re se nt aç ão d o Li vr o Professora Especialista Samara Fernandes Olá, seja bem-vindo(a), à disciplina de Panificação Clássica e Brasileira! Sou a professora Samara Fernandes, forma- da em Publicidade e Propaganda (2010), espe- cializada em Styling e Varejo de Moda (2013) e Gastronomialeu uma receita de um ou viu alguém fazendo, possivelmente notou que se pode utilizar ovo, leite, manteiga, margarina, mel etc. Isso é muito comum e cada um desses ingredientes afetam o resultado da massa final de uma forma diferente. Para você ter uma primeira ideia, os adoçantes, se utilizados em quantidades moderadas, amaciam o glúten, ou seja, permitem que a massa estique com mais facilidade. No terceiro tópico teremos um pouquinho de matemática, mas não se assuste, são algumas regras de três bem simples! Isso é necessário para que você seja capaz de interpretar a linguagem de um padeiro, afinal, ele fala tudo em porcentagem: “x% de hidratação”, “y% de farinha” etc. Você vai ver que depois de bem explicadinho, não é nenhum “bicho de sete cabeças”. E então, vamos começar? 53 P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a 55G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R A Levedura e a Fermentação Sabemos que para assar um pão devemos esperar que a massa cresça, ou seja, aguardamos o processo de fermentação ocorrer até que, com a liberação de gases e de álcool, ela infle, resultando em um pão macio. O que você deve tomar nota agora é que existem pré-fermentos – ou fermentação primária – que possibilitam dife- rentes ações da levedura na fermentação. Suas (2012) mostra que a base para um pré-fermento é sempre semelhante (farinha, água, fermento, natural ou industrial, e, em alguns casos, sal), porém, altera-se a textura e o período controlado de tempo de fermentação antes de se adicionar à massa final, obtendo diferentes resultados. Os pré-fermentos podem ser a esponja, a biga, a massa pré- -fermentada, o poolish, e ainda, o método de fermentação natural sourdough. Para entendermos cada um desses métodos, serão utilizados, para embasamento teórico, os autores Cauvain e Young (2009), Sebess (2014) e Suas (2012). P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a Esponja A esponja é uma mistura cremosa feita com fermento e a mesma quantidade de farinha e água (ou outro líquido, como o leite). Essa massa deve ser feita de 2 a 8 horas antes de se produzir realmente o pão, para que ocorra a fermentação completa no pré-fermento. Duração do tempo de fermentação da esponja Dosagem de fermento x quilo de farinha 2 horas 20 gramas 3 horas 15 gramas 5 horas 08 gramas 8 horas 05 gramas Tabela 6: Dosagem de fermento para realização de esponja Fonte: SEBESS (2014, p.57). Sendo assim, a quantidade de fermento vai variar de acordo com o tempo que se pode esperar antes de utilizá-lo. A tabela abaixo mostra a quantidade ideal de fermento por quilo de farinha de acordo com o tempo de fermentação. A essa mistura normalmente não se acrescenta sal e a utilização de uma esponja resulta num pão com sabor levemente adocicado. O ideal é que se espere essa massa atingir maturidade, ou seja, quando bolhas estiverem bem formadas à superfície e começarem a se romper é sinal de que ela está pronta para ser misturada à massa final. Se ela não chegar a esse ponto, sua utili- zação não terá o mesmo resultado, pois não terá desenvolvido a acidez suficiente – bem como o excesso de fermentação deixará a esponja muito ácida cuja característica afetará o pão. A acidez ideal de uma esponja também prolonga a vida do pão depois de assado, ou seja, além de melhorar o sabor também aumenta sua durabilidade. Vale ressaltar que não há contra indicação em seu uso, pelo contrário, as massas doces, principalmente, são muito beneficiadas, pois, por conta da grande quantidade de açúcar, a rede de glúten não se desenvolve como deveria e a esponja ajuda a firmar essa massa, compen- sando o outro enfraquecimento. 57G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R 57G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Figura 9: Esponja madura. Vantagens do uso da esponja Proporciona benefícios signifi cativos para a qualidade do pão: • Aumenta o sabor e a conservação do pão, deixando na boca um leve sabor de avelãs. • Ajuda a manter a massa do pão no for- mato inicial. • Os cortes feitos na casca abrem bem. • Os pães obtêm boa coloração. • Melhora a cocção dos pães. Fonte: Sebess (2014, p.58). Utilize a esponja quando seu volume, no mínimo, triplicar com relação ao início e já houver uma leve depressão em seu topo. Antes disso ela não está no ponto ideal de uso, perdendo suas vantagens. P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a Biga A biga é uma fermentação primária de origem italiana. Para os italianos, a biga pode ser líquida, firme, mais azeda, fermentadas em temperatura ambiente ou ainda em ambientes frios. Já ao nosso modo, a biga se caracteriza por um pré- -fermento mais firme, com menos água e mais farinha que uma esponja (65% de água para 100% de farinha, utilizando de 0,8% a 1% de fermento biológico fresco). Em temperatura controlada a 16°C, a biga pode ser mantida em fermentação por até 18 horas. Fórmula em kg Percentual do padeiro Farinha 1 kg 100% Fermento fresco 0,008 kg 0,8% Água 0,650 kg 65% Tabela 7: Receita básica para fabricação de biga Fonte: SEBESS (2014, p.66). As funções dessa massa fermentada são seme- lhantes à da esponja, enfatizando o sabor e a du- rabilidade. Por ser um pré-fermento mais firme, é importante utilizar farinha forte de modo que não prejudique a extensibilidade da massa. Massa pré-fermentada Também conhecida como massa velha, a massa pré-fermentada é uma invenção recente e fácil, criada para compensar a qualidade baixa dos pães produzidos com fermentação muito curta. Uma massa bem básica é feita e reservada para fermentar por um período antes de ser mis- turada à massa final. A mais simples é feita com farinha, água, fermento e sal, sendo indicado deixar no mínimo três horas fermentando – sem ultrapassar seis em temperatura ambiente. É possível deixar a massa velha fermentar por mais tempo – até 48 horas –, porém, nessa situação é necessário mantê-la entre 2°C a 7°C e retirá-la duas horas antes de utilizar, para que a temperatura fique mais próxima ao ambiente. A massa pré-fermentada pode ser feita também reservando parte de alguma massa final. Por exemplo, reserva-se parte de uma massa de farinha integral para que ela fermente e seja usada dias depois como pré-fermento. Ou então a massa da baguete, que leva apenas os in- gredientes básicos e pode servir de fermentação primária para qualquer tipo de mistura final. Da quantidade total de farinha utilizada para um pão, a média de massa velha que se acrescenta varia entre 40% e 50%, mas, de acordo com a receita, pode-se pedir de 10% a 180%. As proporções de cada ingrediente variam de receita para receita, tendo como base a fari- nha destinada à fermentação da esponja – que pode ser de 20% a 30% da farinha total da mistura final. Segue tabela com proporções: 59G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Fórmula em kg Percentual do padeiro Farinha 1 kg 100% Fermento fresco 0,015 kg 1,5% Água 0,640 kg a 0,660 kg 64% a 66% Sal 0,002 kg 2% Tabela 8: Proporções para fabricação de massa pré-fermentada Fonte: adaptado de SUAS (2012). Lembrete: os 20% a 30% da farinha total da mistura (em destaque) representam os 100% para a mistura da massa velha. A massa pré-fermentada pode ser utilizada para qualquer tipo de pão, desde os mais tradi- cionais – como baguetes e pães de forma – até pães mais elaborados – como croissant e brioche. Poolish Um dos primeiros pré-fermentos feito com fermento industrial, o poolish, foi criado na Polônia – final do século XX –, adaptado na Áustria e depois chegou à França. O pão re- sultante da utilização dessa massa era menos ácido que o comum na época (com sourdough, que você conhecerá a seguir) e mais leve em textura também, de modo a ter rápida aceitação. Para se preparar o poolish, utiliza-se de baseo volume de água que vai na receita, na fórmula do padeiro. Essa medida pode variar de 20% a 80% do total de água (em temperatura de 16°C), usando a mesma quantidade de farinha e a consistência será mais líquida. Não é comum acrescentar sal a esse pré-fermento, então, para manter o efeito de fermentação esperado, deve-se controlar a quanti- dade de fermento acrescido à massa de acordo com o tempo disponível para a fermentação. O indicado é deixar que o poolish fermente em temperatura ambiente (considerada de 27°C a 29°C). Figura 10: Poolish sendo acrescentado à massa final Tempo de fermentação 3 horas 7 a 8 horas 12 a 15 horas Quantidade de fermento fresco 1,5% 0,7% 0,1% Tabela 9: Cálculo para a quantidade de fermento para o poolish Fonte: SUAS (2012, p.90). Apesar de poder ser usado em pães e doces, costu- ma ser o pré-fermento preferido para a fabricação de baguetes. O ponto ideal para utilização do poolish é quando atinge a maturidade, que pode ser reconhecida quando algumas formas mais côncavas se formam na superfície. A acidez que leva à durabilidade está ideal nesse ponto, menos desenvolvida ou desenvolvida em demasia faz com que o pré-fermento não tenha esse benefício. P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a Sourdough Para alguns, sourdough, para outros, levain. Trata-se do mesmo pré-fermento, porém, este não é desenvolvido a partir de um fermento industrial, como os outros, e sim, cultiva-se uma cultura de micro-organismos (levedura e bactérias) que aumentam em quantidade e depois são utilizados para fermentar a massa. Sempre que uma parte do sourdough é utiliza- do, reserva-se uma porção dessa cultura para perpetuar o fermento criado, sendo necessário acrescentar mais farinha e água a cada vez para manter a atividade da levedura. Quando estudamos a história do pão e o surgimento da fermentação na primeira unidade do livro, vimos que uma das teo- rias a respeito do primeiro pão fermentado se deu no Egito por volta de 4.000 a 3.000 a.C. Aquela massa esquecida que dobrou de volume e que, depois de reencontrada, foi levada para assar marca também o surgimento do método sourdough. Até conseguirmos a levedura em si, precisa- mos criar a cultura e esperar que ela se desenvol- va, seguindo algumas etapas. Primeiro cria-se e elabora-se a cultura; depois que se alimenta uma ou duas vezes, essa cultura passa a ser chama- da de fermento; depois da alimentação final, é chamada levedura. Para manter a cultura viva, sempre separa-se parte para a massa final, parte para realimentar – quando o fermento chega nesse estágio ele passa a ser chamado de starter; a parte retirada para a utilização na massa final resulta em um pão sourdough. Para elaborar sua própria cultura de levain, ou seja, começar a cultura do seu fermento na- tural, siga a programação a seguir: Programação Farinha Água Starter Tempo antes da próxima alimentação 1º dia - manhã1 500 g de farinha integral e 500 g de farinha branca 1 kg - 24 horas 2º dia - manhã 500 g de farinha branca 500 g 500 g 6 - 8 horas 2º dia - tarde 500 g de farinha branca 500 g 500 g 16 horas 3º dia - manhã 500 g de farinha branca 500 g 500 g 6 - 8 horas 3º dia - tarde 500 g de farinha branca 500 g 500 g 16 horas 4º dia - manhã 500 g de farinha branca 500 g 500 g 6 - 8 horas 4º dia - tarde 500 g de farinha branca 500 g 500 g 16 horas 5º dia - manhã 500 g de farinha branca 500 g 500 g 6 - 8 horas 5º dia - tarde 500 g de farinha branca 500 g 500 g 16 horas Tabela 10: Começar o starter (iniciador de fermento natural para produção de sourdough). Fonte: Suas (2012, p. 97). 1 Acrescentar 15 g de malte na primeira alimentação para ajudar a iniciar a fermentação. Essa programação é um guia para iniciar um starter desde o início. Durante esse processo, o starter deve ser mantido em temperatura de 27°C para estimular a fermentação. Uma cultura madura será capaz de multiplicar três vezes em volume em um espaço de 8 a 10 horas. 61G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R A fim de garantir que o fermento natural con- tinue vivo para ser utilizado em massas finais para fabricação de diversos pães, é necessário garantir a ele alimento, ou seja, o açúcar da fa- rinha, água e oxigênio. Esse é o processo cha- mado de alimentar a cultura e devem-se seguir as seguintes proporções: Farinha 100% Água 50% Starter 50% Total do primeiro alimento 200% Tabela 11: Proporções para alimentar a cultura. Fonte: Suas (2012, p. 99). O starter é retirado depois do 5º dia, então, guarda-se 50% e a outra metade será alimentada para utilizar na massa final de um pão. Esta primeira alimentação deve fermentar por 12 horas em temperatura ambiente e em seguida será alimentado novamente: Farinha 100% Água 50% Primeiro alimento 50% Total do primeiro alimento 200% Tabela 12: Primeiro alimento Fonte: Suas (2012, p. 99). Na tabela anterior, o que era representado por “total do primeiro alimento” como 200%, agora será considerado 50%, ou seja, a quantidade total será realimentada com o mesmo volume de água e dobro de farinha, resultando na segunda Figura 11: Sourdough alimentação – também chamada de levedura –, que depois de mais 12 horas será enfim acres- centada à massa final. Para a fabricação de um pão sourdough, o receituário indicará a quantidade necessária de levedura. O resultado será um pão com carac- terísticas mais rústicas, mais escuros, de casca crocante e, graças à acidez, um pão de maior durabilidade e sabor mais expressivo. Agora, que tal conhecer outras matérias-pri- mas que podemos utilizar para a fabricação de um pão? Este será o tópico do nosso próximo tópico! P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a 63G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Outras Matérias-Primas Utilizamos, na panificação, no mínimo quatro ingredientes básicos para a fabricação de um pão: farinha, fermento, água e sal – como já dito previamente. Além desses, outros ingredientes secundá- rios podem ser acrescentados à massa, de modo que tenhamos resultados diferentes. Já tratamos, na unidade anterior, a respeito da farinha de trigo (e de outras farinhas que podemos utilizar) e do fermento (bem como da ação da levedura). Por isso, vamos entender algumas peculiaridades e ações do sal e da água na panificação e depois discutiremos a respeito de algumas das outras matérias-primas que são utilizadas. P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a Água A água é um dos ingredientes mais importantes para o pão, nas palavras de Kalanty (2012, p.54) “é o segundo maior ingrediente na panificação” – pois só não é maior que a farinha. Ela é a respon- sável por determinar o resultado final do pão, se este ficará mais leve, o tamanho dos alvéolos, quão crocante será a casca (CAMARGO, 2013). Se a água da torneira for clorada demais, é indicado que se filtre antes de utilizá-la para pre- parar pães para reduzir os minerais e aditivos em excesso. É possível utilizar água envazada, mas para fabricação em larga escala não é rentável, por isso, filtrar ainda é a sugestão mais viável. Atente-se mesmo à temperatura, afinal, a água muito fria retarda a ação do fermento e acima de 51,67°C – muito quente – o fermento pode morrer e parar. O ideal é que a água esteja entre 32,22°C e 37,78°C, de modo que a água aqueça a farinha e mantenha a massa em temperatura média de 26,67°C. Se você mora em uma região muito quente, utilize a água mais fria, em torno de 15,56°C, para que a temperatura da farinha misturada aos outros ingredientes não se eleve demais (KALANTY, 2012). Sal Sabe aquela casquinha dourada que nós adora- mos no pão? Se não fosse o sal, ela ficaria opaca e clara, bem sem graça. O sal é responsável por agregar sabor, cor e aroma, resultando em um pão mais bonito e saboroso. Segundo Kalanty (2012),uma de suas fun- ções é frear a fermentação, deixando que esta ocorra mais lentamente até a hora de assar o pão – e quando essa hora chegar, ainda haverá açú- cares dentro dela, o que leva à cor mais escura e charmosa da qual tanto gostamos. Caso contrá- rio, o que ocorreria então? Sem o sal, os açúcares seriam rapidamente devorados pelo fermento, o pão cresceria muito rápido e, como resulta- do, sentiríamos sabor alcóolico, podre. O autor ainda explica que a massa sem sal tende a ser mais pegajosa, sem uma boa estrutura proteica. Ainda sobre o sal, Camargo (2013, p.19) indica: Vá além do tipo ordinário, de cozinha. Use o marinho fino, por exemplo, ou compre sal marinho grosso e coloque para moer. [...] Fique à vontade para tentar outros tipos. Mas lembre-se de que grãos muito grossos dificultam uma distribuição mais equânime pela massa. E, principalmente, dificultam a dissolução. 65G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Com relação à quantidade, o indicado para que haja harmonia na massa é utilizar em torno de 2% do peso da farinha (ibidem). O sal é respon- sável por agregar sabor, cor e aroma, resultando em um pão mais bonito e saboroso. Açúcar O açúcar não precisa ser, necessariamente, o convencional branco. Pode-se utilizar líquidos ou sólidos, seja o granulado branco, mascavo, demerara etc., ou ainda os xaropes de milho, de bordo e o mel. Kalanty (2012) explica que o fato de os açúcares reterem umidade influencia na durabilidade dos pães assados, prolongando a vida do produto. Quantidade de açúcar com relação à % de farinha Açúcares e a colônia de fermento Açúcares e a rede proteica Menos de 5% Pequena quantidade: afeta pouco o fermento. Poucos efeitos detectados. Pequeno efeito. De 5% a 10% Quantidade moderada: acelera a velocidade metabólica do fermento de maneira notável. Crescimento ligeiramente mais rápido mantém a massa com sabor suave. Amacia o glúten: estica com mais facilidade. Entre 11% e 20% Grande quantidade: o açúcar rouba o suprimento de água do fermento. Pode interromper o seu metabolismo. Roubam proteínas da água de que o fermento precisa: massa muito macia (caso das massas doces). Tabela 13: ação do fermento e da rede proteica de acordo com a quantidade de açúcar utilizado na massa. Fonte: adaptado de Kalanty (2012, p. 57). Quando há necessidade de se utilizar mais açúcar, como no caso das massas doces, por exemplo, haverá a indicação ideal dos outros componentes da receita para que haja harmonia entre todos os ingredientes. P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a Gorduras Devemos entender como gorduras – para a pani- ficação – tanto laticínios quanto óleos vegetais e animais. Os laticínios podem ser manteiga, margari- na, iogurte, creme de leite azedo etc. São itens que conferem sabor, aroma e textura ao pão – principalmente a manteiga (ibidem). A manteiga é resultado da agitação do creme de leite e tem de 16 a 18 g de água em cada 100 g. Ao utilizar muita manteiga em uma massa, apesar da riqueza conferida ao sabor, ela fica mais mole e também mais pesada. Nesse tipo de situação, é indicada uma quantidade maior de fermento para contrabalancear o efeito (SEBESS, 2014). A margarina é uma emulsão de óleo e água ou óleo, água e leite. Mas não apenas isso, muitos aditivos são acrescentados à margari- na, como lecitina de soja (estabilizante de óleo com líquidos), sal, glicose-lactose (açúcares), fécula, vitaminas, ácido sórbico (antifúngico) etc. Assim como a manteiga, aumenta o peso da massa e por isso haverá indicação na receita da quantidade ideal de fermento para compensar a textura (ibidem). Revisite com frequência os ensinamentos da disciplina de Higiene e Segurança e coloque-os em prática todas as vezes que for realizar um preparo na cozinha! 67G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R • Laticínios são perecíveis e devem ser armazenados sob refrigeração. • Qualquer gordura utilizada em uma massa pode ser substituída por manteiga! A banha bovina refinada é uma gordura de origem animal obtida a partir da separação por cristalização dos sebos. Se for utilizá-la, lembre-se de conferir se ela tem odor neutro e aparência de massa untuosa e plástica (ibidem). Em algumas receitas brasileiras, utiliza-se também a banha do porco. Os óleos vegetais podem ser de milho, de canola, de gergelim, de amêndoa, de noz, de azeite de oliva, dentre outros. Líquidos estes que podem ser acrescentados à massa em tempera- tura ambiente. Com exceção do azeite, os óleos vegetais costumam não agregar tanto sabor à massa, deixando-as mais aguadas. Ainda assim, são valiosos para pequenos pães que se estraga- riam com mais facilidade se utilizada outra gor- dura. Mas cuidado, vale lembrar que esse tipo de gordura, quando exposta ao ar por muito tempo, tende a ficar rança (KALANTY, 2012). No caso da grande quantidade de gordura, ocorrerá da mesma forma que para o açúcar, haverá a indicação ideal dos outros componen- tes da receita para que haja harmonia entre todos os ingredientes. Quantidade de gordura com relação à % de farinha Gorduras e a rede de proteínas Menos de 5% Pequena quantidade: efeito irrelevante na estrutura da massa. Exemplos de utilização: pretzels e grissinis. Entre 5% e 10% Quantidade moderada: amaciam a estrutura proteica. Exemplos: pão de forma integral de mel e ballons. Acima de 15% Grande quantidade: interfere no desenvolvimento da rede de glúten. Se acrescentado muito cedo: rede de suporte muito fraca. Indicado: desenvolver o glúten primeiro, depois acrescentar a gordura. Técnica de emulsão. Exemplos: brioche e pão de manteiga. Tabela 14: ação da rede proteica de acordo com a quantidade de gordura utilizada na massa. Fonte: adaptado de Kalanty (2012, p. 59). P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a Ovos O ovo tem ação tanto de gordura quanto de pro- teína para a estrutura do pão. Segundo Kalanty (2012), a gema é rica em gordura, agregando cor e intensidade à massa, realçando sua textura; e a clara é rica em proteína, que se liga à rede proteica da farinha e sustenta a estrutura – prin- cipalmente de massas doces, que apresentam estrutura mais fraca graças à quantidade de gordura e de açúcar. Aprofunde seu conhecimento sobre ovos na disciplina de Café da Manhã e Lanches. Além de um estudo sobre toda a estrutura do ovo e temperaturas de coagulação, você irá aprender na prática diversos preparos clássicos! Melhoradores de massa Os melhoradores, como o próprio nome sugere, são utilizados com função de melhorar o pro- duto final, ou seja, o pão. Segundo Suas (2012), podem ser aditivos naturais ou químicos, lem- brando que os pães podem, sim, ser produ- zidos sem nenhum deles. Em muitos casos, recorre-se aos melhoradores para corrigir as fraquezas de nossa farinha ou a falta de to- lerância do glúten (farinha mais fraca), como explica Sebess (2014). A tabela a seguir explica os aditivos encontrados em melhoradores e a dosagem a ser utilizada: 69G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Melhorador Tipo de ação Dosagem Local de Incorporação Ácido ascórbico E300 ou vitamina C Reforça o glúten, deixa a massa mais flexível, serve também para proteger a massa da ação dos fermentos proteolíticos. Na atualidade, é o mais importante agente oxidante usado mundialmente no setor alimentício. 500 mg a 2 g por cada 100 kg de farinha. Nos moinhos ou nas padarias. Lecitina de soja E322 (emulsificante) Deixa a massa macia, melhora a textura e deixa o miolo do pão mais fino e suave. Facilita a formação de cadeias de proteínas com o amido, dando maior estabilidade às massas. 0,3% do peso de farinha utilizada. Na própria padaria. Extrato de malte (proveniente de grãos de trigo ou cevada germinados) Alimenta as leveduras, ativando a fermentação. 4 a 10g por quilo de farinha. Nos moinhos ou nas padarias. Amilases A amilase fúngica é mais segura para emprego na panificação em virtude de seu baixo pH (5). O malte ou a farinha de malte (que é portadora de enzimas amilásicas) produzem grandes quantidades de açúcares fermentáveis, alimento vital para as leveduras. Além disso, ajuda a produzir um pão com casca de cor muito apetitosa, dourada uniformemente, e com tempo de conservação maior. A farinha de soja, por exemplo, tem ação direta no miolo, deixando-o mais branquinho.* - - Farinha de favas Descora os pigmentos da farinha de trigo, deixando assim o miolo do pão mais branco. 0,7% a 1% do peso da farinha. Nos moinhos. Glúten Serve para suprir a carência de glúten em farinhas com insuficiência de proteínas. 1% a 3%. Nos moinhos e nas padarias. Propionato de cálcio E282 Assim como o ácido propiônico, o propionato de cálcio é utilizado como conservante, principalmente como antimofo. 0,3% do peso da farinha. Nas padarias. *As enzimas mais importantes da farinha são as amilases e as proteases. Tabela 15: Melhoradores e suas funções. Fonte: SEBESS, 2014, p.33. Como você pôde notar, na tabela anterior, a adição de aditivos ou correção da farinha pode ser feita nos moinhos produtores ou na própria padaria. Se você não tem uma padaria e nem pre- tende abrir, mas vai precisar de melhoradores de massa em casa, não se preocupe. Existem pacotes com pequenas quantidades de melhoradores já misturados em proporções ideais à venda nos supermercados. Normalmente na embalagem está escrito: melhorador para pães. Escolha um de sua marca de confiança e lembre-se de pesar adequadamente de acordo com cada receituário. P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a 71G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R A Porcentagem do Padeiro Caro(a) aluno(a), nesta unidade você entenderá como se interpreta um receituário de padeiro. Se você já teve algum contato com livros profissionais, com receitas de pães ou até mesmo conversou com um padeiro, deve ter notado que elas dificilmente são apresenta- das com medidas em kg ou g, mas em porcentagem (%). Kalanty (2012) explica a utilização da porcentagem do padeiro (PP%) de uma forma bem divertida: Dois padeiros entram no bar... Um deles pergunta ao outro: “Quanta água você põe nas suas baguetes?”. Ele não quer saber um peso exato. Se a resposta for 2,27 quilos, ela não será muito esclarecedora. Quantas baguetes essa quantidade de água faz? Cinco? Quinze? O padeiro espera ouvir uma resposta que indique uma por- centagem. Se alguém lhe perguntar sobre suas baguetes, o padeiro diz: “Perto de 65%”, esperando satisfazer a pergunta do amigo. A isso o primeiro padeiro pode retrucar: “Bom, eu usava 65%, mas ultimamente ando usando 67%, porque a farinha parece mais seca” (KALANTY, 2012, p. 71). P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a P ara um leigo no assunto ou um inician- te talvez a terminologia soe estranha. Porém, o mais importante a se verifi- car no exemplo que o autor coloca é a compreensão que os padeiros fazem a partir desse percentual, ou seja, ele notou que houve mudan- ça na última leva de farinha que utilizou para a produção de suas baguetes, sendo que necessitou de mais água para que chegasse à textura ideal. Todo ingrediente de um pão tem como refe- rência a quantidade de farinha. Então toda que vez que falarmos sobre a porcentagem de um ingrediente, estamos dizendo que é comparado ao peso da farinha total da receita. Vou utilizar a conversa acima para exemplificar: quando o padeiro fala em 65% de água, ele quer dizer que baseado no total de farinha (100%) que vai na massa, 65% desse peso deve ser referente à água. Se estivéssemos falando em 1kg de fari- nha, estes mesmos 65% seriam 650 g. Devo atentá-lo ao fato de que se há mais de um tipo de farinha na mesma receita, então a soma das duas é que será considerada 100%. Este caso é muito recorrente em pães integrais, para a produção dos quais utiliza-se, por exem- plo, 600 g de farinha branca e 300 g de farinha de centeio que somam 900 g de farinha, então esse é o total – 100% (SEBESS, 2014). 73G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Veja a tabela com a receita básica de um pão de forma tradicional, com a fórmula em quilo – método comumente utilizado em cozinhas e em confeitaria. Receita básica Fórmula em kg Farinha 0000 1 kg Sal 0,020 kg Fermento fresco 0,025 kg Água 0,600 kg Manteiga ou margarina 0,100 kg Tabela 16: Receita básica de pão de forma Fonte: adaptado de SEBESS (2014, p.170). Agora vamos entender como encontrar a PP%. Nesta receita, o total de farinha da massa é 1 kg, que corresponde a 100%. Os 0,020 kg (ou 20 g) de sal correspondem a 2% de 1 kg. Seguindo a mesma lógica, conseguimos encon- trar o percentual dos outros ingredientes? Qual é a porcentagem de água utilizada nessa receita? Se você respondeu 60% acertou. De modo mais detalhado, devemos fazer o seguinte raciocínio utilizando regra de três: 1 kg 100% 0,020 kg PP% de sal Pergunte-se: se 1 kg (1000 g) de farinha re- presenta 100%, então 0,020 kg corresponde a quanto? E então resolva a regra de três: 1 kg x PP% = 0,020 kg × 100% PP% = 0,020 × 100 = 2% 1 Mas se a farinha é 100% e a água pode ser 65%, então só aí, antes de acrescentar outros ingredientes, eu já tenho 165%? Estaria isso correto? Sim! Não se assuste ao ler receituários de padeiro, pois aqui nada resultará em 100%. Como todos os ingre- dientes são comparados ao peso da fari- nha, como explica Kalanty (2012), então o total de todos os ingredientes sempre será um valor acima e quanto mais ingredien- tes, maior a porcentagem total da receita. Fonte: adaptado de Kalanty (2012). Figura 12: Pão de forma P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a Aplicando a mesma equação à quantidade de qualquer ingrediente, teremos como resultado o percentual do padeiro daquele item. Sendo assim, segundo Kalanty (2012, p.72), podemos dizer: Peso do ingrediente X × 100% = PP% do ingrediente X Peso da farinha Vamos aplicar a fórmula a outros ingredientes: • Peso da manteiga × 100% = PP% manteiga Peso da farinha • 0,100 kg × 100% = PP% manteiga 1 kg • 0,100 kg × 100% = PP% manteiga 1 kg • 0,100 × 100% = PP% manteiga • 10% = PP% manteiga Vamos ver então como fica a tabela comple- ta com o percentual do padeiro de todos os ingredientes: Receita básica Fórmula em kg Percentual do Padeiro (PP%) Farinha 0000 1 kg 100% Sal 0,020 kg 2% Fermento fresco 0,025 kg 2,5% Água 0,600 kg 60% Manteiga ou margarina 0,100 kg 10% 174,5% Tabela 17: Receita básica de pão de forma Fonte: adaptado de SEBESS (2014, p.170). 75G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Na receita do pão de forma temos uma PTF (porcentagem total da fórmula) – termo uti- lizado por Sebess (2014) – de 174,5%, cor- respondente à soma dos percentuais de cada ingrediente. Como visto anteriormente, é comum que esse valor ultrapasse 100% quando o assunto é pão. Mas e então, o que notamos com a utiliza- ção dessas porcentagens? A absorção de água varia de acordo com a qualidade da farinha. Se considerarmos a fari- nha para panificação, provavelmente utilizar- -se-á em torno de 60% de água. De modo geral, Sebess (2014) define uma taxa de hidratação das farinhas que podem variar entre 58% e 66%. O autor, ainda, lista as taxas de hidratação, classi- ficando o tipo de massa resultante de cada uma. Acompanhe na tabela: Taxa de hidratação Massa a ser preparada Exemplos Menos de 57% Massas duras Pães italianos De 57% a 60% Massas firmes Para trabalhos com divisora automática De 60% a 63% Massa bastarda Trabalho para todos os dias De 63% a 66% Massa suave Trabalhos manuais Mais de 66% Massas moles Massas que necessitam de correções Tabela 18: Taxa de hidrataçãoda massa Fonte: SEBESS (2014, p.53). Utilizando esses dados, pode-se calcular quanto de farinha e de água são necessários para a pro- dução de determinada quantidade de pão. Como isso é feito? Vamos entender, aplicando a linha de raciocínio de Sebess (2014). Primeiro devemos determinar quantos pães faremos e o peso de cada um, para tal explicação. Seguiremos com o seguinte exemplo: • 20 pãezinhos (de massa bastarda) de 50 g cada. • 20 × 50 = 1000 g ou 1 kg de massa total. A massa bastarda tem hidratação de 60% e a fari- nha totaliza sempre 100%. Partindo desse prin- cípio, podemos dizer que se tivéssemos 100 kg de farinha, utilizaríamos 60 kg de água, resul- tando num total de 160 kg de massa. Sendo assim, para encontrar a quantidade de farinha e de água necessárias para a produção dos 20 pãezinhos, faremos uma regra de três simples: Massa em quilos – 160 kg 1 kg Farinha em quilos – 100 kg x P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a 160x = 100 × 1 → x = 100 ÷ 160 → x = 0,625 kg ou 625 g de farinha. Conclui-se que serão necessários 625 g de fa- rinha para produzir 1 kg de massa, ou seja, os 20 pãezinhos. Para encontrar a quantidade necessária de água segue-se o mesmo raciocínio: Massa em quilos – 160 kg 1 kg Água em quilos – 60 kg x 160x = 60 × 1 → x = 60 ÷ 160 → x = 0,375 kg ou 375 g de água. Precisaremos de 375 g de água para produzir os 20 pãezinhos, ou seja, peso que completa a diferença entre farinha e quantidade total de massa necessária (1000 g de massa – 625 g de farinha = 375 g de água). Conhecendo a hidratação da massa, con- seguimos prever o resultado final. A massa menos hidratada é mais firme e por isso é mais fácil de manipular; já na mais hidratada, a dificuldade de modelar é um pouco maior. Mesmo que você se depare com receituários prontos, com a PP% já calculada, é importan- te que entenda qual é a linguagem utilizada por padeiros profissionais, de modo que em qualquer necessidade você saberá interpretar qualquer receita de pães. 77G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R co ns id er aç õe s fi na is T enho certeza de que você finalizou esta unidade se programando para fazer sua própria cultura de sourdough, já separou todos os ingredientes nas pro- porções corretas, já pegou uma caderneta de anotações para saber em que passo está e já está calculando quanto de fermento será necessário para o próximo pão que você fará. Que ótimo, pois na próxima unidade você vai aprender como moldar alguns pães bem clássicos e outros não tão conhecidos, mas ainda tradicionais. Caro(a) aluno(a), você pode notar como a escolha dos ingredientes é extremamente im- portante para a panificação? Você imaginaria que a água seria um dos fatores mais decisivos para o seu resultado final? Pois é, chega a ser considerado o segundo maior ingrediente, per- dendo apenas para a farinha de trigo e isso se dá porque é a água que determina a leveza do pão. Não por acaso algumas indicações exigem que a água seja filtrada, para evitar o excesso de cloro na produção de pães. Nesta unidade que finalizamos, foi possível averiguar a quantidade de sal suficiente para conferir sabor, aroma e cor aos pães sem que se mate o fermento. Como agora você já sabe que, se tiver mais de 11% de açúcar em um re- ceituário de pão, é sinal de que a massa é doce e o glúten está comprometido, você é capaz de identificar a solução, pois conhece as funções do ovo e entende que ele, como possui função emulsificante, ajuda a reestruturar ou auxilia na estruturação do glúten mais frágil. E quanto aos pré-fermentos? São essenciais para resultados aprimorados de um pão de qua- lidade e com maior durabilidade. Sabendo as características de cada fermentação prévia, você é capaz de identificar qual é a melhor opção para um pão italiano ou para um pão doce. Nós também verificamos como é que os padeiros se entendem entre si e resolvem, pro- porcionalmente, as quantidades necessárias de cada ingrediente para a fabricação de um pão, pois a farinha é sempre 100% e a nossa mate- mática aqui vai além desse número, sendo que a receita de um pão pode totalizar até mais de 300% por conta disso. Mas você, jovem padeiro, já nem se assusta mais com isso. Agora que você está “antenado” em tudo acerca de pães, vamos para a última unidade contemplar o passo a passo para você pôr as mãos na massa? P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a at iv id ad es d e es tu do 1. Estudamos nesta unidade a ação da levedura na fermentação. Conhecendo pré-fermentos, explique a diferença entre esponja e biga. 2. Qual é a ação do sal e do açúcar na massa final do pão? Devo me preocupar com as quantidades? 3. Você trabalha em uma padaria e acaba de receber uma encomenda: produzir 250 pães italianos de 500 g cada. Qual é o peso total de massa necessário para preparar esses pães? Quanto você precisará de farinha e de água? 79G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R m at er ia l c om pl em en ta r Pão da Paz – 195 receitas de pão de países membros da ONU Paulo Braga Editora: Gaia Editora Sinopse: Esta obra traz uma apresentação dos 192 países in- tegrantes da Organização das Nações Unidas por meio de suas receitas tradicionais de pão. Idealizado por Paulo Braga, padeiro amador, fotógrafo profi ssional e pacifi sta apaixonado, o livro é totalmente ilustrado e cada receita vem acompanhada de uma mensagem de paz. Veja a bela produção do The Food Club (clube da comida, livre tradução) para preparar um pão de espelta rústico. Disponível em: . Acesso em:10 jul.2015. P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a le it ur a co m pl em en ta r A baguette Em nenhum outro país aconteceu que um simples pedaço de pão se tenha tornado no símbolo de uma nação. A baguette com cerca de 70 cm de com- primento, e uma côdea estaladiça, com uma história de quase 100 anos é considerada pelo resto do mundo como tipicamente francesa, ao passo que os franceses a identificam com Paris. As cidades francesas estavam habituadas a confiar no abastecimento de alimentos provenientes, sobretudo, dos seus arredores rurais. A própria cidade de Paris raramente sofreu falta de pão. Já que desde o tempo dos romanos a vasta planície de Beauce lhe servia como celeiro. Graças a esta riqueza de cereais, a Catedral de Notre-Dame pôde ser construída. Os seus espetaculares vitrais foram financiados pelos comerciantes locais. Os padeiros doaram quatro janelas, mais que qualquer outra corporação, o que demonstra a sua importância nessa época. Os padeiros faziam bolas com sua massa, boules de onde deriva a designação boulanger, que remonta ao século XV. Os Pães eram redondos e grandes com uma côdea grossa e um miolo denso, e sem sal, porque o sal era muito caro. Para a população o pão era alimento básico. O pão integral escuro e rústico era feito com uma mistura de vários tipos de farinha, pois na maior parte das vezes nos campos ceifavam-se simultaneamente diversos tipos de cereais, para reduzir o risco de eventuais prejuízos nas colheitas devido a doenças das espigas. O mais pobre, que nem este pão rústico podia pagar, comprava o biscuit (bis-cuit significa cozido duas vezes), o pão do dia anterior que era novamente levado ao forno, para se manter seco e poder ser conservado. Mas foi apenas no reinado do Rei-Sol que se descobriu a forma de separar o farelo, para fazer pão branco, pois Luís XIV preferia pão de trigo branco e delicado. Para o conseguir, enriquecia-se a massa azeda com levedura de cerveja. No entanto, o pão branco feito de farinha refinada existia apenas nas cidades, onde ia ganhando a sua posição como símbolo de prestígio, pois os nobres rapidamente descobriram que era o mínimo que os seus delicados estômagos podiam suportar.Tal como todas as cidades, também Paris foi vítima de más colheitas. A decisão do governo, de 1787, de aumentar o preço dos cereais, além de uma má colheita no ano 81G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R le it ur a co m pl em en ta r seguinte, e, ainda, um Inverno extremamente rigoroso, foram factores que acabaram por fazer eclodir a Revolução. No decorrer do século XVIII surgiram as primeiras formas de pão compridas e estreitas, que alteravam a relação entre a côdea e o miolo, em prol da côdea, o que desde logo fez os deleites dos parisienses. Graças à adição de fermento, a baguette adquiriu a sua côdea fina e dourada e a estrutura macia. Felizmente para os padeiros, o sucesso da baguette coincidiu com a expansão dos amas- sadores mecânicos, que muito lhes facilitaram o trabalho. Enquanto Paris se deliciava com o pão comprido, a população rural continuava a consumir o tradicional pão grande redondo e, de facto, só no século XX é que a baguette conseguiu introduzir-se na província. As melhores baguettes são douradas e tostadas por fora, e os cortes feitos na massa formam saliências estaladiças. Por dentro o miolo deve ter cor creme, não demasiado branca, uma consistência macia e flexível, com pequenos orifícios e um delicado sabor a leite e amêndoas. Se a côdea se esfarelar e o interior parecer algodão, é porque a baguette foi feita provavelmente com massa con- gelada. Os métodos industriais de cozer pão reduzem o tempo de amassar e levedar, o que dá origem a um miolo insípido, branco e muito poroso, que seca rapidamente. Esta perda de humidade produz-se na superfície devido à evaporação, sendo o resultado uma côdea rija e um miolo ainda mais duro. Isto pode acontecer com o pão dos supermercados, que são embalados em celofane com gás neutro e inofensivo, como o azoto, que prolonga a conservação, evitando o processo de oxidação, mas que nunca apresenta a frescura de um pão acabado de cozer. Infelizmente, desde os anos 60, as panificadoras industriais têm vindo a impor-se, e a qualidade das baguettes ressentiu-se de tal forma que os consumidores franceses ou reduziram drasticamente o consumo P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a le it ur a co m pl em en ta r P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a de pão, ou voltaram-se para outros tipos de pão, como o pain complet (pão integral) ou o pain de campagne (pão rural), que hoje são considerados mais nutritivos. Foi só graças a uma nova geração de excelentes artífices que os parisienses voltaram a descobrir, a pouco e pouco, como é que uma verdadeira baguette deve ser. Um deles é Jean-Luc Poujauran, que trabalha uma farinha rica, lentamente moída entre duas mós, deixando a massa levedar num processo lento mas contínuo para ganhar sabor. Para iniciar a fermentação, utiliza uma massa mais velha, o que lhe confere um sabor mais amendoado do que o fermento fresco. Os jovens padeiros oferecem aos seus clientes uma grande variedade de pães e pãezinhos especiais, enriquecidos com ervas, especiarias, nozes, ou frutos secos. Em França, existem actualmente 35000 padarias, que produzem 3,2 milhões de toneladas de pão por dia. Mas os franceses só consomem 150 g de pão por ano, enquanto no século passado consumiam 500 g. Um em cada três pães vendidos é uma baguette. Estima-se um consumo de 10 milhões de unidades por dia. Os papéis inverteram-se actuamente. Considera-se saudável o pão integral, que tem, hoje em dia, grande aceitação entre as pessoas abastadas, ao passo que o povo recorre aos produtos industriais à base de farinha branca. Fonte: Dominé, André (2001, p.17). Processos da Panificação SAMARA FERNANDES A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • Passo-a-passo da panificação • Moldagens tradicionais • Outras moldagens • Entender o passo-a-passo da panificação. • Compreender o processo de mistura da massa. • Conhecer as modelagens. • Identificar como assar os pães. • Reconhecer as características de pães clássicos. Plano de Estudo Objetivos de Aprendizagem Introdução 85 Introdução Bem-vindo(a) à última unidade do nosso livro de panificação. Nesta unidade, trataremos a respeito das abordagens mais práticas da panificação. O passo- -a-passo necessário para fabricar um pão, do começo ao fim. Como você já deve ter imaginado, existem, sim, etapas corretas a se seguir para obter um melhor resultado e agora vamos identificar cada um desses passos para termos um pão com a maciez, a cor, o aroma e a textura ideias. Nós consideraremos, basicamente, seis etapas: a mistura e sova de todos os ingredientes; a primeira fermentação; a divisão da massa; o boleamento – também chamado de moldagem da massa –; a fermentação final; e a cocção, momento em que os pães são levados para assar. Você verá que tem ordem para misturar os ingredientes, depois, tempo para descansar a massa antes de moldá-la, pois, caso contrário, ela fica estressada e não corresponde às nossas expectativas. A extensibilidade e a elasticidade da massa são dependentes desse processo, principalmente da qualidade da proteína da farinha juntamente da sova e do descanso mínimo necessário. Pois é, caro(a) aluno(a), para ser um bom padeiro é preciso paciência e respeito pela gastronomia, pois se você pular as etapas cruciais, seu resultado final mostrará que isso aconteceu. Com relação a isso, teremos contato com a sequência de mistura direta, que dispõe da ordem de se misturar inicialmente fermento com a água, depois a farinha e, por último, o sal. Reconhecendo esse processo mais básico, você terá as indicações do momento ideal para se acrescentar qualquer elemento secundário, seja ele um ovo ou uma gordura. Mas os detalhes desse processo eu deixo para daqui a pouco, logo no nosso primeiro tópico. Além de colocarmos as mãos na massa, vamos também moldar essas massas. Você já deve ter visto a vitrine daquelas padarias cheias de pãezinhos de tudo quanto é forma, com recheio, sem recheio, redondo, achatado, em formato de cone, como filão, baguete, enfim, poderíamos citar muitos. O importante é que ao menos os básicos você aprenderá, aqueles que são cruciais para sua formação. Temos outras moldagens além das apresentadas aqui, é claro, mas, as clás- sicas não poderíamos deixar de apresentar. Afora isso, você também pode criar sua própria moldagem de pão, o que acha? Vamos então começar a nossa última etapa de trabalho. P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a 87G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Passo-a-Passo da Panificação Agora que você já conhece os ingredientes que podem ser utilizados para se fazer um pão, vamos entender as etapas, o passo-a-passo da panificação, desde o processo de mistura dos ingredientes até termos um pão assado. Seguindo esses passos, com certeza você terá um ótimo resultado (SEBESS, 2014). P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a 1 2 3 5 64 1. Mistura dos ingredientes e sova; 2. Primeira fermentação; 3. Divisão da massa; 4. Boleamento ou moldagem final; 5. Fermentação final; 6. Cocção. 89G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Mistura dos ingredientes e sova Para o padeiro, é crucial que as medidas sejam exatas, sendo assim, é necessário fazer primei- ro a mise en place de todos os ingredientes. O ideal, segundo Kalanty (2012), é que cada um deles seja pesado, pois não dá para se confiar em medidas de volume, como a xícara. Uma xícara de manteiga não tem o mesmo peso que uma xícara de farinha, sendo assim, usar a balança ainda é a maneira mais confiável de seguir à risca sua receita. Vamos, então, à mistura dos ingredientes. Este é o primeiro passo e um dos mais impor- tantes também, pois resulta na preparação da massa. A primeira preocupação é com a água. Devemos mantê-la em uma média de 23ºC a 25ºC. Acimadessa temperatura, o fermento cresce rápido demais, não chegando ao ponto ideal de textura e sabor; e abaixo o tempo será longo demais até atingir a fermentação ideal (SUAS, 2012). Kalanty (2012) explica que existe a sequên- cia de mistura direta, que nada mais é que mis- turar primeiro o fermento com a água; depois a farinha; e por fim o sal. Isso se tratando dos quatro ingredientes básicos. Quando há adição de gordura, é impor- tante ficar atento ao momento ideal de acres- centá-la à massa. Se a receita indicar de 2% a 4% - considerada pequena quantidade – você pode incorporá-la à farinha e à água logo no início da mistura; de 5% a 15% é ideal colocar no meio do processo, enquanto estiver desen- volvendo a massa; e acima de 15% – grande quantidade – o melhor é incorporar ao final, depois da mistura completamente desenvol- vida, pois a quantidade maior poderia que- brar a rede de glúten, mas, acrescentando no momento final, o glúten já se desenvolveu e é capaz de suportar o tanto de gordura. Isso se tratamos de gorduras sólidas, como manteiga ou margarina. Em caso de gorduras líquidas, estas podem ser consideradas parte da hidra- tação da farinha e dispostas à mistura logo no começo (SUAS, 2012). Figura 13: Mise en place dos ingredientes P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a Se a mistura for mecânica, significa que utilizare- mos uma masseira, um equipamento profissio- nal, para preparar toda a massa. Sebess (2014) compara a primeira velocidade da masseira à mistura manual. Depois, a sova para atingir o ponto de véu necessita da segunda velocidade. O autor explica que as fases de misturar e sovar os ingredientes duram em média de 3 a 5 minu- tos na masseira – de modo que água e farinha estejam bem incorporadas. Depois disso, passa-se à segunda velocida- de, nesta etapa é que desenvolve-se o glúten. Confira na tabela a seguir os tempos e as tem- peraturas médias mais utilizadas: Temperaturas de base* para a mistura e sova Mistura e sova intensiva (54ºC) 20 min em segunda velocidade. Mistura e sova melhorada (58ºC a 59ºC) 5 min em primeira e 10 min em segunda velocidade. Mistura e sova lenta (68ºC) em velocidade lenta, a massa esquenta menos. Tabela 19: Temperaturas para mistura e sova Fonte: Sebess (2014, p.41). * Temperatura de base é o valor obtido pelo somatório das tem- peraturas da bacia, das pás da masseira, da farinha e da água. A mistura e a sova lentas resultam em massa menos trabalhada, de fermentação mais longa, o pão é saboroso, mas o volume final do pão não é grande; mistura e sova melhora- das resultam em um pão volumoso e de bom sabor, um tipo de mistura bem recomendado; a mistura e sova intensiva pode chegar ao limite do glúten, arriscando perder o ponto e quebrar toda a rede, se feito de maneira ideal, o pão fica bem volumoso e com miolo bem branco (SEBESS, 2014). Figura 14: Masseira de braço 91G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Primeira fermentação A primeira fermentação se dá depois da massa sovada, é o primeiro momento de descan- so da mistura. O ideal é fazer um primeiro boleamento e deixar descansando dentro do bowl utilizado, da bacia da batedeira ou da superfície de trabalho, sempre cobrindo a su- perfície para que não resseque. Esse momento é chamado de relaxamento da massa – ou, de maneira informal, “desestressar” o glúten –, o que ocorre nos primeiros 10 minutos. Quando a massa precisar de um tempo de fermentação primária maior, virá designado no receituário específico e esse tempo deverá ser respeitado para que ela tenha a melhor consistência final possível. Não se esqueça de um princípio funda- mental destacado em todas as nossas dis- ciplinas: utilize sempre ingredientes de qualidade, independentemente da receita que estiver executando! Com os pães, siga o mesmo princípio! Divisão da massa A divisão da massa pode ser feita de maneira manual, utili- zando-se uma balança, de modo que se pese cada pedaço de massa para obtermos um resultado final padronizado. Porém, também existem as divisoras, que são máquinas próprias para porcionar. Esse tipo de equipamento é mais utilizado em pada- rias, onde se fabrica um grande número de pães de uma só vez. Figura 15: Relaxamento da massa Figura 16: Massa dividida manualmente P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a Boleamento ou modelagem final Depois de definido o tamanho dos pães que você fará e dividida a massa, é hora de modelar. O boleamento ou modelagem podem ser feitos de maneira manual ou mecânica. O boleamento manual consiste em definir o formato que você deseja para seu pão e então fazer a modelagem. Pães como coroas e espigas precisam ser mode- las manualmente. Já a máquina modeladora “serve para enrolar pães como baguete, francês, careca” (SEBESS, 2014, p.44). temperatura e umidade controladas – de modo que o volume aumente graças à ação da fermen- tação (que vimos logo na primeira unidade). Para identificar se o pão está pronto para ser levado ao forno tem um pequeno segredinho: O pão que estiver pronto para ir ao forno, ao ser pressionado, deve retornar à posi- ção anterior deixando uma leve marca. A massa que ainda não fermentou o su- ficiente retorna rapidamente e tem uma textura firme, ao passo que massa exces- sivamente fermentada mantém a marca do dedo e fica achatada (ou começa a murchar) no ponto onde foi pressionada. (SUAS, 2012, p.118) Veja só, caro(a) aluno(a), antes de seguir para o próximo passo, lembre-se sempre de pres- sionar a massa de seu pão já modelado para verificar se está pronto para a cocção. É nessa etapa, também, que você deve fazer os cortes nos pães – quando necessário ou característico. Figura 17: Máquina modeladora Fermentação final Nessa etapa, temos a última fermentação antes que o pão seja assado. Sendo assim, depois de modelado, os pães serão deixados para fermen- tar – seja na bancada de trabalho, já nas formas que irão ao forno, seja na fermentadora com Figura 18: Pães já fermentados 93G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Cocção No momento de levar os pães para a cocção, é importante deixar espaço entre eles, pois é necessário que o calor circule para que todos sejam assados de forma uniformizada (SUAS, 2012). Essa é a etapa em que o pão se torna mesmo pão, com textura, aroma e sabor como conhecemos. Ao colocar o tabuleiro no forno, em 5 mi- nutos em média, as leveduras são destruídas, pois a massa atinge 50ºC, o que faz parar a fermentação. Após este momento, o miolo do pão começa a se formar e a casca vai fican- do dourada. Essa cor da casca é resultado da reação de Maillard, que ocorre graças à carame- lização dos açúcares provenientes na superfície da massa – a dextrina que fica na casca do pão (SEBESS, 2014). Parte da água contida no pão evapora, o que resulta na casca firme e miolo macio. Alguns tipos de pães exigem jatos de vapor, ou seja, que seja injetado vapor dentro do forno, isso para que a casca fique mais bri- lhante e fina, também mais crocante e cara- melizada (ibidem). Aqueles pães com casca quebradiça, como o pão francês, são exem- plos de pães que levam jatos de vapor durante a cocção. Confira, a seguir, o resultado de pães com falta de vapor e com excesso de vapor, para entender melhor sua função na panificação. Falta de vapor: • Casca grossa • Fata de crescimento • Aspecto fosco • Rachaduras na casca. Excesso de vapor: • Pães não crescem direito • Pães com casca muito fina • Pães ficam murchos depois de assados. Fonte: Sebess (2014, p.47) Figura 19: Pão depois da cocção finalizada P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a 95G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Moldagens Tradicionais Agora que você já conhece os passos que deve seguir para ter um bom resultado na panificação,falta aprender algumas técnicas de modelagens. Começaremos com as mais clássicas. E lembre-se: nesta etapa, a sua massa já passou pela primeira fermentação, depois de modelada ela irá para a fermentação final! P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a Moldagem de baguete Neste ponto, o glúten já descansou o suficiente para ficar maleável à moldagem. Primeiro você deve fazer um retângulo com a massa, tirando o excesso de ar contido nela. Na sequência, dobre a massa ao meio até unir as duas partes. Na terceira etapa, você deve ter já o formato inicial da baguete. Agora basta enrolá-la com as duas mãos de modo que ela fique maior ho- rizontalmente. Ainda neste movimento, afine as duas pontas laterais para caracterizar a baguete. Pronto, sua moldagem está completa, agora é só deixar que ela fermente novamente para então assar (SUAS, 2012). A dica mais importante agora é como efetuar o corte que deixa a bague- te tão característica. Sim, aluno(a), existe uma técnica também para isso. Acompanhe comigo as ilustrações a seguir. 97G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Na primeira ilustração, segue um corte feito corretamente, note que estão padronizados, seguindo a mesma orientação e de tamanhos semelhantes. Na ilustração 2 e 3 temos cortes desiguais, resultando em um acabamento amador e malfeito. A 4 apresenta o corte quadriculado. Já na 5 e 6, visualize a massa na vertical, sendo a ilustração 5 a maneira incorreta de posicionar a lâmina de corte, pois está reto demais; e a 6 a maneira correta, o corte é mais superficial e inclinado, protegendo esse corte do calor, o resultado é uma abertura bonita e dourada (SEBESS, 2014). Figura 20: Fazendo os cortes P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a Se você fizer o corte corretamente, suas baguetes ficarão harmoniosas, cara- melizadas e com padrão de excelência. Para fazer o pão bengala, é só reduzir o tamanho da baguete e fazer menos cortes. Bem como para o francês, utiliza-se a porção média de 60g de massa crua para resultar em um pãozinho de 50g – padrão brasileiro. Fonte: a autora. Moldagem do filão Para moldar o filão, a massa descansada pode ficar mais ovalada – contrário da baguete, que era necessário começar por um retângulo. 99G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Sendo assim, você deve fazer uma primeira dobra, puxando a parte superior da massa para o centro; em seguida, faça uma segunda dobra, seguindo a mesma orientação; depois você fará uma terceira dobra, resultando em apenas uma marca- ção fina e simples ao centro da massa, como se fosse uma “costura” (SUAS, 2012). Por último, conforme a figura 4, coloque a “costura” para baixo e reforce o formato do filão. Pronto, seu pão está moldado. Moldagem da broa Para começar a moldagem da broa, você deve ter a massa já descansada no mesmo formato que o início do filão, ovalada ou em formato de bola. Como na ilustração 2, você deve puxar uma ponta da bola até o outro lado, reali- zando uma dobra completa, sove-a para dentro de modo que a superfície comece a ficar lisa. Em seguida, você deve levar toda a superfície da massa para um mesmo centro em movimento circular, formando embaixo um “umbigo” (SUAS, 2012). Por fim, é só bolear a massa na bancada, unificando a parte inferior e mantendo a superfície bem lisa. P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a Moldagem do brioche Para modelar o brioche parisiense, você deve ter em mãos uma forma própria e grande. Unte a forma grande e própria com manteiga derretida. Forme cinco bolas de 100 g cada e boleie a última em formato de gota. Assim que tiver as cinco partes em mãos, reserve a que está em formato de gota e coloque as outras na forma, como mostra a ilustração do meio. Em seguida, enfarinhe o dedo mínimo, ele te auxiliará a introduzir a gota ao centro da forma. 101G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Utilize o dedo mínimo enfarinhado para pressionar a ponta da gota ao centro das outras bolas de massa. Faça isso com cuidado, para que não percam o formato. Ao final, você terá o brioche parisiense como na última ilustração (SEBESS, 2014). Para modelar o brioche parisiense individual você deve ter em mãos uma forma própria de tamanho pequeno. Comece untando a forma própria individual com manteiga derretida. Separe 100 g de massa e boleie. Com a lateral da mão, divida a massa em duas partes, deixando 2/3 de um lado e 1/3 de outro, sem que os lados se separem. Na terceira ilustração você vê como deve parecer depois de marcar a divisão. Coloque a massa na forma com a bola maior para baixo. Torça em 360ºC a bolinha menor, enfarinhe o dedo mínimo e pressione-a para o fundo da forma. O resultado é o brioche individual que você vê na última ilustração. Também para preparar um brioche individual, temos outro método que resulta no mesmo aspecto. P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a Comece como o primeiro método, porém, aqui você pegará os 100 g de massa e formará uma espécie de anel com 2/3 da massa. Com 1/3 dela, você fará a gota, como no modelo do brioche grande. Coloque a rosquinha na forma untada, enfarinhe o dedo mínimo para que ele o ajude a introduzir a gotinha ao fundo da forma, como você na ilustração. Ao final, você terá também um brioche parisiense individual (ibidem). Figura 21: Brioche parisiense individual Para ficar douradinho, como o da Foto, é só esperar crescer e pincelar gema de ovo delicadamente para que não escorra (isso dificultaria desenformar) e levar para assar. 103G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Moldando Cinnamon Rolls A moldagem de cinnamon rolls é uma das mais simples. A massa deve ser aberta em formato retangular com espessura de 5mm. Pincele a borda inferior com gema de ovo e deixe secar. Pincele manteiga derretida no restante da massa. Polvilhe açúcar (mascavo ou cristal) e canela por cima de toda a manteiga. Enrole a massa da parte superior, onde não foi pincelado com ovo, na direção da borda que foi pincelada com a gema. Enrole sempre de maneira firme, para que o rolo final fique de tamanho uniforme. Agora, é só cortar rolinhos de 3,5 cm de espessura com uma faca do chef bem afiada e dispor em um tabuleiro enfarinhado. A moldagem dos cinnamon rolls está completa (ibidem). P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a “O enroladinho de canela (cinnamon roll) é um pão doce derivado do brioche. Ele é fa- cilmente encontrado na América do Norte e em alguns países do norte da Europa. Segundo alguns estudiosos, foi criado na Suécia, onde é chamado de kanelbulle.” Fonte: Sebess (2014, p.91). Se você quiser seu cinnamon roll como o da foto, é só cobrir ainda quente com glacê real ou fondant e estará pronto para servir. 105G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Figura 22: Cinnamon roll P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a 107G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Outras Moldagens No tópico anterior, apresentei a você as moldagens de pães mais tradicionais. Neste, vamos conhecer como modelar alguns outros pães, uns mais rústicos, outros mais modernos. P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a Moldagem margarida Para a moldagem margarida, depois da primeira fermentação, você deve manter o formato boleado da massa, como a broa vista anteriormente. Com um rolo pequeno, afunde o centro da massa. Em seguida, gire o rolo em 90º e repita essa ação. Faça isso mais duas vezes e você terá o formato finalizado. Coloque uma pequena bola no centro e está pronto (SUAS, 2012). Moldagem espiga Para a moldagem em formato de espiga, comece com o processo igual ao da baguete, porém, não é necessário afinar as pontas. Enfarinhe a superfície de todos os pães e deixe fermentar. 109G A S T R O N O M I A • U N I C E S U MA R Depois que dobrar de volume, use uma tesoura afiada para fazer cortes a 45º em um lado e no outro da baguete, até que ela esteja toda modelada. Cuidado para não chegar à base do pão, deixe sempre um pedacinho de massa ao final para que a espiga permaneça inteira (SEBESS, 2014). Moldagem torcido Comece moldando um filão. Enfarinhe o centro do filão para que o rolo não grude. Em seguida, abra apenas o centro da massa, de modo que fique bem marcado. Enrole a massa de dentro para fora, até que ela fique inteiramente torcida (SUAS, 2012). P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a Moldagem vivarais Para moldar no formato vivarais, você deve começar formando um filão. Para continuar, será necessário uma raspadeira ou cortador de massa. Corte um “X” em um lado e outro “X” próximo ao outro. Junte com as mãos e transfira a massa para uma superfície enfarinhada com o corte para baixo (SUAS, 2012). Moldagem Charleston A moldagem Charleston é semelhante à vivarais, porém não é feito o corte em si. Ainda assim, você deve começar modelando um filão. 111G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Em seguida, enfarinhe a superfície do filão para que o rolo não se prenda à massa. Utilizando o rolo fino, aprofunde-o em forma de “X” em um lado da massa. Faça outro “X” no outro lado da massa. Na última ilustração você pode ver o resultado final da moldagem. Agora é só deixar crescer em superfície enfarinhada (ibidem). Moldagem Coroa Bordalesa Essa moldagem fica realmente em formato de coroa e para isso precisaremos de um cesto próprio para pães em formato de coroa. Abra uma pequena quantidade de massa em formato redondo e fino, utilizando o rolo. Em seguida, coloque a massa aberta no centro do cesto em formato de coroa. Faça seis bolas de massa e disponha cada uma delas no cesto, uma ao lado da outra. Entre uma bola e outra, corte a porção do meio formando tiras. Coloque cada uma dessas abas sobre uma das bolas, para que você tenha uma moldagem de coroa (ibidem). P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a Moldagem Ferradura Essa modelagem termina realmente semelhante a uma ferradura e para chegar a esse resultado, você precisará de uma cesta em formato de coroa, como a utilizada anteriormente. A fenda está para baixo. Mantenha-a assim e curve-a, deixando no formato de ferradura. Deixe fermentar na cesta para manter o formato (ibidem). Aqui, também começaremos modelando um filão. Em seguida, vamos en- farinhar levemente todo o centro dele para que o rolo não se prenda. Abra o centro da massa com o rolo pequeno e depois comece enrolar, deixando a marca de fenda ao final. 113G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Moldagem de Croissant Para moldar o croissant, primeiro temos que abrir a massa em formato retangular. Feito isso, corte uma longa tira, com média de 20,5 cm de altura. Nela, faça triângulos de 10 em 10 cm. Cada triângulo será utilizado para moldar um croissant, então, comece esticando levemente um deles. Faça um pequeno corte ao meio da base de cada triângulo e estique as duas pontas, uma para cada lado, em lados opostos, para deixar a base mais larga. Enrole a massa a partir da base do triângulo até chegar à ponta. Por fim, é só colocar na forma e pincelar com gema de ovo misturada com um pouquinho de água (ibidem). P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a É claro que existem inúmeras formas de se moldar um pão e, além das que eu apresentei aqui, você pode também criar a sua própria molda- gem. Esses moldes servem para pães com ou sem recheio. Claro que uns se adaptam melhor que outros, mas com bom senso, você pode criar pães maravilhosos! Não deixe de conferir nossas aulas con- ceituais em que algumas modelagens estudadas aqui serão demonstradas deta- lhadamente. Depois, a prática será funda- mental para obter os melhores resultados!! Figura 23: Croissant 115G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R co ns id er aç õe s fi na is C hegamos ao fim de mais uma unida- de, a última deste livro. Nela vimos o passo-a-passo da panificação. Agora sabemos que é necessário misturar os ingredientes, normalmente pela sequência direta de mistura, e, depois de sovar bem a massa, para que o glúten tenha um bom desenvolvimen- to, depois, precisamos deixar que ela passe por uma primeira fermentação, para desestressar o glúten. Essa etapa é quando temos o relaxamento da massa, ela ocorre nos primeiros dez minutos, sendo assim, pode-se ou não deixar mais tempo, sendo importante ressaltar que, na ausência de tempo, pode-se esperar pouco tempo para dar continuidade ao processo. Apenas depois disso é que podemos moldá-la ao nosso gosto, ou de acordo com o pão que estamos fazendo, esperar mais uma vez para que a massa cresça e só então depois é que levamos o pão à cocção. É válido sempre reforçar que as etapas são importantes e devem ser respeitadas. Sem isso, não teremos um pão com as características es- peradas, seja em cor, em textura, em aroma, em leveza. Os dois últimos tópicos desta unidade foram cruciais para que você acompanhasse o desenvolvimento de uma moldagem, etapa que só ocorre depois que a massa passou por uma primeira fermentação. Note que algumas características se repetem, por exemplo, re- tirar o ar antes de modelar é essencial para a finalização do pão antes de seu crescimento final. O pão mais básico para nós, brasileiros, é o pão francês. Com a base semelhante a ele, temos a baguete, um clássico tradicional fran- cês. Sendo assim, não poderia ter deixado de demonstrar como é que podemos moldar esse pão, tão tradicional não apenas na França, como no Brasil todo. Além disso, agora podemos identificar cor- retamente quando um corte foi bem executado ou não. Aquele corte bem aberto, padronizado, douradinho, é sinal de que a lâmina foi usada da maneira esperada, tendo talhado na massa um corte superficial inclinado, de modo que fique protegido do calor, resultando na bonita abertura de cor dourada. Nem todos os padeiros se atentam à padronização. A falta de padroni- zação, aparentemente simples e sem problemas, é o mesmo que mostrar ao seu cliente que o capricho e o cuidado com a fabricação não foi tão grande assim, e que, na verdade, havia pressa ou desconhecimento de técnicas. É isso que você gostaria que seu cliente pensasse de você? Acredito que não. E mais, desmistificamos algumas dessas modelagens, como a do croissant, que muitos não sabem o segredinho do pequeno corte na base para que ele abra mais e fique mais bonito. Porém, agora você sabe e é capaz de fazer sua massa folhada e seu croissant, recheando-o e aproveitando as técnicas para o seu melhor fim. P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a at iv id ad es d e es tu do 1. Qual é a função da primeira fermentação da massa? 2. Explique a modelagem de um pão tradicional. 3. Explique a modelagem do croissant. 117G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R m at er ia l c om pl em en ta r Grandes Chefs da Panifi cação Fernando de Oliveira e André Schmid Editora: Padaria 2000 Sinopse: Obra concebida por Fernando de Oliveira, Responsável Técnico pelo DAT 2000 – Departamento de Assistência Técnica, reúne 80 receitas dos principais consultores em panifi cação do Brasil. Desfrute das receitas de pães sofi sticados e de alto valor agregado apresentados nas boulangeries dos países mais desen- volvidos da alta panifi cação. O Livro do Pão Richard Bertinet Editora: Marco Zero Sinopse: O autor Richard Bertinet traz mais detalhes sobre o pre- paro de massas e desmistifi ca os pães mais sofi sticados, para que qualquer pessoa possa prepará-los em casa, sem difi culdade. P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a le it ur a co m pl em en ta r A Boulangeriede Hoje Bonjour, Madame, Merci, Madame, Au Revoir, Madame, Bonne Journée, Madame....essa musiquinha, curiosamente mais aguda que em outras cir- cunstâncias, você vai ouvir assim que colocar os pés no templo da panificação francesa. Ao sair, também vai se perguntar quantas vezes por dia aquela senhora bem penteada e elegante, frequentemente a mulher do boulanger que fica lá nos fundos imantando ao forno, deve ter repetido essas fórmulas inevitáveis! Para você que chegou agora, é primordial fazer uma turnê pelas padarias do bairro para achar aquela que faz a verdadeira baguete, crocante e dourada por fora, com o miolo irregular, macio, com um vago gosto de amêndoas (dizem as más línguas que ela só é boa em Paris) e que se comprada às 4 da tarde, quando sai do forno para o goûter das crianças, resiste bravamente até o café da manhã do dia seguinte. Depois de comer uma baguete ruim, você andará, sem reclamar, mais uma quadra ou duas em busca da melhor! Grande parte das padarias está aberta no domingo até meio dia, mas fecha na segunda-feira. É bom prever então uma regra-de-três para sua baguete quentinha da tarde se não quiser se afligir em busca de uma boulangerie de plantão (como farmácias). Aquela figura caricatural do francês com a baguete debaixo do braço não é tão ultrapassada assim. Ainda se vê de vez em quando sendo elemento indispensável à mesa, ela é complicada de carregar, por isso não é tão raro vê-la atravessada sob um braço enquanto o outro se ocupa das compras co- tidianas ou das chaves. Os mais metódicos pedem que seja cortada ao meio (coupée, síl vous plaît) para reduzir o comprimento e não trancar nas portas. Saiba, a propósito, que corte do pão em fatias é cobrado (algo em torno de 0,60 centimes). Se as instalações visíveis de uma boulangerie (prateleiras, vitrines, balcão etc.) são quase sempre impecáveis, geralmente bonitas, não se assuste ao ver a Mão que serviu o pão se ocupar do troco e voltar aos Pães. Mesmo as melhores boulangeries não se preocupam com essas “manias exageradas” de 119G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R le it ur a co m pl em en ta r asseio! Espátulas, pinças e outros acessórios do gênero são raríssimos. Também não espere por embrulhos, Dê-se por satisfeito se tiver a habitual folhinha de papel no meio da baguete para segurá-la (as grandes padarias oferecem generosamente meio saquinho de papel!). Console-se com o fato de que com tantos séculos dessa prática, pouco asseada para nós obcecados da higiene, nunca soube de doença por causa do manuseio do pão. Nas horas do rush – de manhã, no almoço e em torno de 16 horas – é bom já saber o que vai comprar, porque a fila é grande e o ritmo de atendimento... de fórmula 1! Olhe só tudo que você vai achar na boulangerie francesa: • Sanduíches diversos (panninis incluídos) e saladinhas mistas. • Minipizzas, quiches, tortilhas salgadas, que podem ser requentadas no microondas local. • Balas e bombons para a meninada: carambars (barrinha fina de caramelo puxa-puxa, delicioso ganha pão dos dentistas), malanbars, (o nosso chi- clete), réglisse (rolinho negro com gosto de remédio, feito de plantas) e outras esquisitisses “fluorescentes”. Fonte: Donel (1999, p.105-107). P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a CONCLUSÃO GERAL Querido(a) aluno(a), É a contento que digo a você que chegamos ao final de mais uma etapa que contribui para a sua formação. Neste tempo juntos, pudemos nos apro- fundar em uma parcela da gastronomia que dificilmente desagrada alguém: a panificação. Para você, aluno(a) e futuro profissional, que entrará em um mercado de trabalho que dispõe de um leque tão grande de opções, é importante já ter um conhecimento prévio do que irá encontrar e como atuar em cada uma dessas situações. Com este livro, você é capaz de entender como produzir pães do começo ao fim, compreendendo todas as reações que ocorrem durante esse processo, seja o processo de fermentação, seja o desenvolvimento do glúten e até mesmo a hora ideal de assar o pão. Agora você sabe que com apenas quatro ingredientes conseguimos fazer um pão: farinha de trigo, água, fermento e sal. Conquanto, usamos outros ingredientes para agregar sabor, cor ou melhorar a textura de nosso pão, além disso, você é capaz de identificar as falhas de uma massa e como corrigi-la. Quem diria que o sal, produto tão utilizado no nosso dia a dia na cozinha, seria tão determinante para um pãozinho de qualidade? Sabemos que ele é importante para frear a fermentação, de modo que essa ocorra mais lenta- mente até que tenhamos a hora de assar o pão, sobrando ainda açúcares para caramelizar a casquinha. Imagine que sem este ingrediente que parece tão simples, os pães não teriam o mesmo sabor nem a mesma textura, teríamos um pão crescido tão rapidamente que sentiríamos aquela nota de álcool no produto final. Apesar de muito importante, o sal é apenas um dos ingredientes e re- conhecemos que temos proporções para se seguir justamente porque o sal freia enquanto o fermento tenta consumir cada vez mais e mais rápido o açúcar que acrescentamos para rebater a carência no glúten proveniente do acréscimo desse açúcar. Vimos que podemos juntar um ovo, por exemplo, e assim por diante, cada ingrediente tem uma função, então, reconhecendo cada 121G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R uma delas, podemos ler um receituário de pão, em linguagem de padeiro e compreender que há uma lógica na quantidade de cada um dos ingredientes escolhidos – não apenas se é manteiga, margarina ou ovo, mas também nas quantidades envolvidas. O mais importante, caro(a) aluno(a), é reconhecer essas características é mais um elemento diferencial para o seu futuro como profissional. Você chegou aqui inteirado à linguagem dos padeiros, podendo já ser considerado um! E, profissionalmente falando, esse é um conhecimento muito importante, pois, para padronizar seu negócio ou suas encomendas, é preciso saber quanto de massa precisa preparar para que não haja desperdício e, com os cálculos do padeiro, você sabe exatamente quanto utilizar de cada ingrediente de modo inteligente. A padronização agrega ainda mais valor ao seu trabalho, pois, como você deve ter visto, panificação é um exercício meticuloso para quem está iniciando, mas nada difícil se tiver as proporções respeitadas. Por fim, espero que tenha aproveitado cada página e se deliciado com a mão na massa. Lembre-se: a padaria pode estar à sua espera! Até mais, prezado(a) padeiro(a). P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a re fe rê nc ia s BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Disponível em: Acesso em: 19 abr. 2015. BRESCIANI, E. Alimentos e bebidas do Antigo Egito. In: FLANDRIN, Jean Louis; MONTANARI, Massimo (Orgs.). História da Alimentação. Tradução por Luciano Vieira Machado, Guilherme J. F. Teixeira. 4.ed. São Paulo: Estação Liberdade, 1998. p.68-79. CAMARGO, L. A. Pão nosso: receitas caseiras com fermento natural. 1. ed. São Paulo: Editora Panelinha, 2013. CAUVAIN, S. P.; YOUNG, L. S. Tecnologia da Panificação. Tradução por Carlos David Szlak. 2. ed. Barueri, São Paulo: Manole, 2009. DONEL, E. O Passaporte do Gourmet: um mergulho na gastronomia francesa. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999. DOMINÉ, A. Especialidades francesas. Tradução por Onoma, Gabinete de Produções, Lda. Könemann Verlagsgesellschaft mbH, 2001. JACOB, H. E. Seis mil anos de pão: a civilização humana através de seu principal alimento. Tradução por José M. Justo. São Paulo: Editora Nova Alexandria, 2003. KALANTY, M. Como assar pães: as cinco famílias de pães. Tradução por Renata Lucia Bottini. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2012. O VERDADEIRO panetone italiano. Pão Rústico. Disponível em:(2014) – todas concluídas no Centro Universitário Cesumar (UniCesumar). Atualmente, sou professora de panificação no curso presencial de Gastronomia na mesma instituição em que me formei. Apesar de ter trabalhado muito tempo com direção de arte, na área publicitária, meu es- timulo artístico foi mudando de foco até que a arte gastronômica se sobressaiu em minha vida; desde a gestão, que a especialização em muito ajudou, até as áreas mais práticas, aquelas realmente apaixonantes. Com essa disciplina, você verá que fazer pão é muito mais que misturar água, fermento, farinha e sal. Você entenderá que é um processo rico, detalhado, que demanda atenção e cuidado para que o seu resultado apresente um diferen- cial. Visto que o pão é um alimento tão presente e importante para a nossa alimentação, saber executá-lo com maestria é essencial. Neste livro, faremos, inicialmente, uma viagem histórica pelo Antigo Egito, para que você conheça o surgimento do pão e para que entenda como esse povo perspicaz, em época tão longínqua, se aproveitou da natureza para produzir um alimento tão maravilhoso. Também estudaremos aspectos mais es- pecíficos: as farinhas disponíveis no mercado e que podemos utilizar para preparar pães, como é um grão de trigo e de onde tiramos a farinha mais importante, o que é um fermento, quais tipos existem e como ele age para o crescimento daquela massa que fica tão fofinha e saborosa depois de assada. Você verá, ainda, que o padeiro tem sua lin- guagem própria para escrever e ler receitas e termi- nará esta leitura compreendendo a “porcentagem do padeiro”. Mas esse conhecimento não basta, não é mesmo? Que tal aprendermos algumas mol- dagens de pães também? Tenho certeza que você fica curioso(a) para entender como é que se faz um croissant, aquele formato tão bonito que se exalta ainda mais depois de apresentar tantas folhas. Pois bem, me acompanhe por estas páginas para que, passo a passo, possamos contemplar todas essas experiências. Assim, ao final do livro, terei mais um(a) amigo(a) aspirante a padeiro(a). O que acha? O seu conhecimento será um dife- rencial para o mercado de trabalho e sucesso é o que desejo em sua empreitada. Bons estudos! SUMÁRIO UNIDADE 1 O Pão 13 A História do Pão 27 A Farinha 37 O Fermento e a Fermentação UNIDADE 2 Panificação por Etapas 55 A Levedura e a Fermentação 63 Outras Matérias-Primas 71 A Porcentagem do Padeiro UNIDADE 3 Processos da Panificação 87 Passo-a-Passo da Panificação 95 Moldagens Tradicionais 107 Outras Moldagens dica do chef habilidades Legendas de Ícones recapitulando saiba mais fatos e dados minicaso reflita Dica do Chef: dicas rápidas para complementar um conceito, detalhar procedimentos e proporcionar sugestões. Habilidades: elo entre as disciplinas do curso. Mão na massa: indicação de atividade prática. Fatos e Dados: complementação do conteúdo com informações relevantes ou acontecimentos. Minicaso: aplicação prática do conteúdo. Reflita: informações relevantes que proporcionam a reflexão de determinado conteúdo. . Recapitulando: síntese de determinado conteúdo, abordando principais conceitos. Saiba mais: Informações adicionais ao conteúdo. mão na massa O Pão SAMARA FERNANDES A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • A História do Pão • A Farinha • O Fermento e a Fermentação • Conhecer a história do pão e as populações de maior influência nesse produto. • Identificar as teorias de surgimento do pão fermentado. • Entender os aspectos do grão de trigo. • Conhecer os variados tipos de farinha. • Compreender o processo de fermentação e os tipos de fermento. Plano de Estudo Objetivos de Aprendizagem Introdução Nesta unidade teremos, inicialmente, uma abordagem mais histórica, de modo que possamos compreender a evolução do pão, afinal, ele nem sempre foi como o conhecemos atualmente. Os primeiros pães não eram fermentados e por isso eram mais firmes e parecidos com uma bolacha. A primeira ideia de pão sequer tinha o formato como o conhecemos e ele já foi, também, um acirrado divisor de classes sociais. Falar em pão e colocar o termo “fermentado” à frente pode parecer estranho, pois, atual- mente, nossa concepção básica frequente é a de pães que são fermentados, ou seja, dificilmente – ou mesmo nunca – ouve-se falar no contrário, um pão que não necessita de fermento ou de esperar crescer. Ainda assim deve estar claro que a primeira noção de pão para os povos antigos se baseava na utilização dos grãos em si e que apenas tempos depois ocorreu a descoberta de que esperar um tempo faria o pão crescer. Você verá, em meio a isso, que há duas teorias a res- peito do surgimento do pão fermentado e que até hoje não se sabe qual delas é a verídica – há tendências de opinião, mas não há confirmação. Depois de visto a parte histórica, partiremos para especificações a respeito do grão do trigo: qual é sua composição e quais nutrientes são mais importantes em cada camada. Como é feita a farinha de trigo branca que tanto utilizamos na panificação e quais outras farinhas podem ser uti- lizadas. Nessa etapa ficará, claro que o endosperma é muito importante para você, futuro padeiro. Agora, pergunto-lhe: “você sabia que o fermento é um ser vivo?” É sobre ele que falaremos no último tópico desta unidade. Vou apresentar a você quais tipos de fermento biológico temos disponíveis no mercado – o fresco, aquele pastoso, era o mais comum deles, mas você já deve conhecer o de pacotinho, bem seco, que também é utilizado para fabricação de pães –, como cada um deve ser utilizado e a diferença entre eles. Assim concluiremos esta unidade entendendo como se dá o processo de fermentação, arre- matando a importância das características da farinha utilizada – como o amido e as proteínas do endosperma – com os ingredientes básicos para produção de um pão, ou seja, entenderemos a influência de cada componente para o crescimento do pão. 11 P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a 13G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R A História do Pão Caro(a) aluno(a), a história que vou contar não começa com esse pão fofinho e branquinho que você gosta tanto de comer quen- tinho com manteiga no café da manhã, pois, para chegarmos a essa evolução, devemos partir do Período Neolítico, há cerca de 10.000 anos, quando o homem já reconhecia as qualidades nutritivas dos cereais. P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a As sociedades, que eram inicialmente nômades – cuja alimentação dependia de caça e de coleta –, tornaram-se sedentárias – comunidade agrí- cola. Sendo assim, no período de nomadismo, parte da alimentação era baseada em caças (cervo, faisão ou peixes) e outra parte em nozes, frutas silvestres e grãos (como centeio, espelta, painço e trigo). Esses grãos já originavam a primeira ideia de pão primitivo, uma pasta que ficava de molho e depois era cozida em água. Mas perceba a utiliza- ção dos grãos e da água (ingredientes básicos para se elaborar um pão) com a finalidade de melhorar a digestão se comparado ao cru, além de notarem que dessa forma havia mais nutrientes – claro que sem a utilização desses termos, mas perceber que o alimento saciava mais já é um reconhecimento no sentido nutricional (SUAS, 2012). Entre os anos 9.000 e 4.000 a.C., data-se uma evolução agrícola, pois nesse período o seden- tarismo passou a ser mais frequente, gerando os primeiros cultivos de cereais. Em sequên- cia, aparecem as primeiras farinhas rústicas, com os grãos triturados em pedras planas, que misturadas à água formavam uma massa e esta era deixada para secar ao sol ou mesmo sobre brasas – temos, então, um pão rústico, com textura semelhante à da bolacha (SEBESS, 2014). Atenção: ainda não temos aqui um pão fermentado. A espelta é um tipo de trigo mais rústico, avermelhado;com/2014/11/16/o-verdadeiro-panetone-italiano/>. Acesso em: 10 jul. 2015. SEBESS, P. Técnicas de padaria profissional. Tradução por Renato Freire. 2. ed. Rio de Janeiro: Senac Nacional, 2014. SITWELL, W. A História da Culinária em 100 Receitas. Uma incrível viagem pelos hábitos alimen- tares ao longo do tempo. Tradução por Áurea Akemi Arata. São Paulo: Publifolha, 2013. SUAS, M. Panificação e viennoiserie: abordagem profissional. Tradução por Beatriz Karan Guimarães. São Paulo: Cengage Learning, 2012. 123G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R ga ba ri toUNIDADE I 1. Existem duas teorias que fundamentam o sur- gimento do pão fermentado, quais são elas? A primeira afirma que os egípcios aprimoraram o processo de fabricação de cerveja e utilizaram a bebida no lugar da água, dessa forma houve a fermentação da massa e esta foi então assada. A segunda teoria alega que parte da massa tenha sido esquecida em algum lugar, fermen- tou naturalmente e foi então assada. A primeira especulação é mais aceita por ser vista como mais realista, afinal, o método se disseminou e popularizou dentre os egípcios. 2. O grão de trigo é constituído por casca (farelo), gérmen e endosperma. De qual dessas partes provém a farinha mais utilizada na panificação? Explique as razões dessa escolha. O endosperma é a parte de maior constituição do grão e também a mais importante. O que de- nominamos de farinha é o endosperma moído, composto de amido e proteínas (mais amido que proteínas). O amido se torna alimento para o fermento, fazendo o pão crescer, e a proteína se desenvolve em cadeia de glúten, conferindo elasticidade ao pão. 3. Com base na resposta anterior, explique o pro- cesso de fermentação alcóolica, como se dá o desenvolvimento da rede de glúten e sua impor- tância para o crescimento da massa. Farinha, fermento e água misturados ativam as enzimas beta-amilases que quebram os amidos (amilose e amilopectina) em açúcares simples (glicose). Esses açúcares servem de alimento para o fermento que, durante esse processo, libera dióxido de carbono e álcool, resultando no crescimento da massa. As proteínas da farinha em contato com água e ação mecânica de sova (ou do gancho) formam uma rede glutinosa que, bem desenvolvida, é capaz de segurar os gases liberados na fermentação dentro da massa, per- mitindo que ela cresça com maestria. UNIDADE II 1. Estudamos nesta unidade a ação da levedura na fermentação. Conhecendo pré-fermentos, explique a diferença entre esponja e biga. A esponja é uma mistura cremosa feita com fer- mento e a mesma quantidade de farinha e água (ou outro líquido, como o leite). Essa massa deve ser feita de 2 a 8 horas antes de se produzir re- almente o pão, para que ocorra a fermentação completa no pré-fermento. A biga se caracteriza por um pré-fermento mais firme, com menos água e mais farinha que uma esponja (65% de água para 100% de farinha, utilizando de 0,8% a 1% de fermento biológico fresco). Em temperatura controlada a 16°C, a biga pode ser mantida em fermentação por até 18 horas. 2. Qual é a ação do sal e do açúcar na massa final do pão? Devo me preocupar com as quantidades? O sal é responsável por agregar sabor, cor e aroma, resultando em um pão mais bonito e saboroso. Com relação à quantidade, o indicado para que haja harmonia na massa é utilizar em torno de 2% do peso da farinha. Os açúcares retêm umidade e influenciam para a durabilidade dos pães assados, sendo que os líquidos absorvem ainda mais e por isso prolonga a vida do produto. Menos de 5% de açúcar a massa praticamente não é afetada, detectando-se poucos efeitos. De 5% a 10% o açúcar amacia o glúten, resultando numa massa que estica com mais facilidade e cresce mais rápida. Acima de P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a ga ba ri to encontrar a quantidade de farinha e de água ne- cessárias para a produção dos 250 pães, faremos uma regra de três simples: Massa em quilos – 157 kg -------- 125 kg Farinha em quilos – 100 kg ------- x 157x = 100 × 125 → x = 12500 ÷ 157 → x ≅ 79,62 kg de farinha. E para a água: Massa em quilos – 157 kg -------- 125 kg Água em quilos – 57 kg --------- x 157x = 125 × 57 → x = 7125 ÷ 157 → x ≅ 45,38 g de água. Conclui-se que serão necessários 79,62 kg de farinha e 45,38 kg de água para produzir 125 kg de massa, ou seja, os 250 pães italianos. 11% o açúcar rouba proteínas da água que o fermento precisa, resultando em massa muito macia, podendo até interromper o processo de fermentação. 3. Você trabalha em uma padaria e acaba de rece- ber uma encomenda: produzir 250 pães italianos de 500 g cada. Qual é o peso total de massa necessário para preparar esses pães? Quanto você precisará de farinha e de água? Peso total de massa → 250 pães × 500 g = 125.000 g ou 125 kg. A massa italiana tem hidratação de 57% e a fari- nha totaliza sempre 100%. Partindo desse princí- pio, podemos dizer que se tivéssemos 100 kg de farinha, utilizaríamos 57 kg de água, resultando num total de 157 kg de massa. Sendo assim, para UNIDADE III 1. Qual é a função da primeira fermentação da massa? A primeira fermentação se dá depois da massa sovada, é o primeiro momento de descanso da mistura. Esse momento é chamado de relaxamen- to da massa – ou, de maneira informal, “deses- tressar” o glúten –, o que ocorre nos primeiros 10 minutos. 2. Explique a modelagem de um pão tradicional. Filão: a massa descansada deve ficar em formato redondo. Faz-se uma primeira dobra, puxando a parte superior da massa para o centro. Depois faz-se uma segunda dobra, seguindo a mesma orientação. Por fim, faz-se uma terceira dobra, resultando em uma fina marcação bem ao centro da massa. 3. Explique a modelagem do croissant. Primeiro abre-se a massa em formato retangular. Depois corta-se uma longa tira, com média de 20,5 cm de altura. Nesta, faz-se triângulos de 10 em 10 cm. Cada triângulo deve ser esticado levemente. Faz-se um pequeno corte ao meio da base de cada triângulo e estica-se as duas pontas, uma para cada lado, em lados opostos, para deixar a base mais larga. Deve-se enrolar a massa a partir da base do triângulo até chegar à ponta. Por fim, é só colocar na forma e pincelar com gema de ovo misturada com um pouquinho de água.e o painço um cereal sem glúten, também conhecido por “milho alvo”, atualmente utilizado como comida para pássaros. Fonte: a autora. 15G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Figura 1: ilustração do arado rudimentar D e modo geral, egípcios e gregos foram os povos que mais fizeram avanços na panificação, pois desde que os grãos se tornaram fonte básica da alimentação (advento do sedentarismo), eles realizaram experimentos com esses ingredientes e desenvolveram novas técnicas (SUAS, 2012). P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a Egito Cereais como o trigo, a espelta e a cevada já eram encontrados em plantações no Egito há mais de 6.000 anos, como descrito: [...] encontrou-se cevada em sítios pré-históricos do delta datados de cerca de 4.000 a.C., à qual se devem acrescentar o trigo e a espelta. Às planícies do Nilo, periodicamente inundadas, produziam cereais em quantidade abundante e suficiente para o consumo nacional e para a exportação. O trigo e a cevada constituíam a base da alimentação e eram usados para a fabricação do pão e da cerveja [...] (BRESCIANI in FLANDRIN, 1999, p.71) Segundo Suas (2012), na Antiguidade Clássica (5.500 a.C. – 300 d.C.), os grãos podiam ser plantados ou trazidos de outras regiões. Bresciani (1999) explica que o Egito exportava para os gregos, por exemplo, que então produziam seus pães e massas doces. Figura 2: Antigo Egito: colheita do trigo 17G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R “Um pouco de pó mineral sempre se misturava à farinha, o que, sem dúvida, explica o desgaste dos dentes, verificado na maioria das múmias egípcias.” (BRESCIANI, in FLANDRIN, 1999, p. 71) Os grãos eram, até então, consumidos de três formas: inteiros (mastigados), cozidos como angu (cocção em água e sal que resulta numa pasta) ou como um pão sem fermentação. Os primeiros pães eram feitos de farinha de trigo, cevada ou espelta, mais água e sal. A massa era sovada tanto com as mãos quanto com os pés, como mostram os hieróglifos, e assados em lajes, fornos de pedra e – desconfia-se que – até mesmo nas paredes de fornos (SUAS, 2012). Aqueles que consumiam o grão no formato de pão normalmente produ- ziam sua farinha individualmente em casa. Os grãos eram dispostos ao sol para secar e tostar; em seguida eram triturados em um pilão; depois moídos entre duas pedras; e, por último, peneirados, resultando na farinha (ibidem). Nesse período, o tipo de pasta ou de pão já era associado ao status na sociedade da seguinte forma: pães mais brancos eram consumidos pelos mais ricos, pães com poucos grãos integrais eram os da classe média e os pães completamente integrais (ou de espelta) eram o alimento dos mais pobres (SUAS, 2012). Por volta de 1.500 a.C., temos um marco: os pães fermentados começa- ram a ser produzidos e, nesse entorno, existem duas teorias a respeito do surgimento do processo de fermentação. A primeira afirma que os egípcios aprimoraram o processo de fabricação de cerveja e utilizaram a bebida no lugar da água, dessa forma houve a fermentação da massa e esta foi então assada. A segunda teoria alega que parte da massa tenha sido esquecida em algum lugar, fermentou naturalmente e foi assada após essa fermentação (ibidem). P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a A primeira especulação é mais aceita por ser considerada mais realista, afinal, o método se disseminou e se popularizou dentre os egípcios. Mas fique à vontade para escolher a teoria de sua preferência, querido(a) estudante. Entenda que esse pão fermentado não era muito leve, embora, se o compararmos a um sem fermen- tação, a leveza já era incrível. A partir daí, a importância do pão aumenta ainda mais. Os egípcios não apenas eram chama- dos de “comedores de pão”, como disse Hecateu de Mileto em 500 a.C., como também utilizavam esse alimento como unidade cultural, desig- nando a riqueza pela quantidade de pães que dispunha (JACOB, 2003). Temos, então, o pão como moeda, pois até mesmo pagamentos eram feitos com o pão e sua ausência era passível de revoltas, como mostra o autor: Um relato do tempo de Ramsés IX conta-nos um acontecimento quase novelístico, no qual o não pagamento em dia de salários e uma ação de greve desempenham um papel cômico. Um grupo de trabalhadores enviado para a província recebeu gordura e cerveja, mas não lhes deram o pão. Em vista disso, os trabalhadores “deitaram-se dentro de casa”, ou seja, recusaram-se a trabalhar. Um mês depois, novamente na falta da ração de pão, “voltaram e deite-se” e enviaram delegados seus a Tebas. Os grevistas tiveram sucesso com a queixa apresentada na capital provincial: o governo mandou dar-lhes o pão que o empregador tinha recusado por duas vezes aos homens (JACOB, 2003, p.71). N esse livro de pagamentos, pode- mos ter ideia de como foi uma das primeiras greves da história. Além disso, o fato de o governo dar o pão aos empregados revoltados mostra também a consciência de controle social, acreditando na ideia de que alimento suficiente para o povo garante a ordem, evita revoltas e outros tipos de reivindicações. Nas palavras do próprio Faraó Kheti (apud BRESCIANI in FLANDRIN, 1999, p.69) “um pobre pode se tornar um inimigo, um homem que passa necessidades pode se tornar um rebelde. Acalma-se uma multidão que se rebela pela comida”. 19G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R • Pão primitivo: grãos de molho + cocção em água. • Pão rústico (sem fermentação): farinha rústica + água + secagem ao sol ou em brasa. • Pão fermentado: 1. farinha + sal + cerveja (levedura da cerveja leva à fermentação + assar); 2. farinha + sal + água (tempo e umidade levam à fermentação + assar) Muitas fontes indicam que a criação do arado pode ter ocorrido no delta do Nilo, no Egito, porém não há certeza a esse respeito. Conta a lenda: “Um dia o homem regressou à casa, alegre, na companhia dos seus amigos. Com eles veio também a manada. O deus do Sol havia coberto os prados de erva suculenta e as vacas estavam gordas. Queriam oferecer uma festa ao deus e puseram-se a beber as bebidas fermentadas. Sentaram-se debaixo das árvores, junto à plantação doméstica. Um dos homens, por brincadeira, pegou na enxada e desferiu com ela um tal golpe no solo que ninguém conseguiu arrancá-la, mesmo quando vários tentaram puxá-la ao mesmo tempo. No meio dos risos e de alguma gritaria, o dono da casa foi buscar um boi e amarrou-o com uma corda forte à enxada enterrada no solo. O boi começou a puxar. Mas não exercia força de baixo para cima, antes puxava a enxada na horizontal, e lançou um mugido que fez tremer os confins do céu. Mas os homens ficaram estarrecidos ao ver como a terra se deixava rasgar como se fosse uma peça de roupa. [...] Envergonharam-se, pensando que haviam cometido um pecado, e foram desamarrar o boi da enxada. No dia seguinte queriam tapar o rasgão [...] A mulher, contudo, impediu-os de o fazer e disse-lhes: ‘Antes de tapar o buraco, ponhamos as sementes de ervas no ventre da mãe terra’. E assim os homens puseram-se a fazer aquilo que as mulheres faziam havia já muito tempo. [...] Pediam perdão à terra por a terem rasgado e faziam-lhe diversas oferendas. Temiam que ela se abrisse e os engolisse a todos. Porém, o que aconteceu foi uma coisa bem diferente. [...] As plantas cresceram mais alto, mais verdes e mais carregadas de frutos do que nunca.” Fonte: Jacob (2003, p. 39-40.) P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a Outro fator relevante à história do pão e dos egípcios é a relação com a religião. Nos tú- mulos antigos, foram encontradas dezenas e até milhares de alimentos, pois eram tidos como provimentos para a vida após a morte: “[...] A crença em uma vida após a morte, que existe desde as épocas mais remotas, insiste na necessidade de prodigalizar alimentos aos defuntos. As orações fúnebresrequeriam pão e cerveja, aves e bois [...]” (BRESCIANI, 1999, p.69). Podemos fazer, atualmente, várias as- sociações , comparando a relação dos alimen- tos expressa na citação anterior a inúmeros atos religiosos, seja o pão representando o corpo de Cristo, seja remetendo à multipli- cação dos pães ou mesmo reconhecendo esse Consulte sempre a disciplina de História e Cultura Gastronômica e confira quais outras contribuições os egípcios deixa- ram como legado para a Gastronomia! Atualize-se e aprofunde sempre seus conhecimentos! alimento como nossa manutenção enérgica diária, como na oração do Pai Nosso (“o pão nosso de cada dia”). Grécia Os gregos da Antiguidade Clássica já eram conhecidos por uma grande variedade de pães, em média 72 tipos diferentes, o que nos leva a crer que já na época houve evolução de moagem e de fornos que permitissem tamanha diversidade. Os fornos foram redesenhados e o processo de moagem melhorado, permitindo espessuras diferenciadas de farinhas. Além disso, a combinação de sabores (outros grãos, ervas, óleos, frutas e sementes) ampliava a gama de produções. Eles passaram a se preo- cupar até mesmo com os formatos de acordo com o sabor, para diferenciar um do outro, fazendo pães em formato de cones, redondos, ovais e triangulares, além dos básicos acha- tados. Porém, diferentemente dos egípcios, os gregos (e os italianos) utilizavam métodos mais relacionados à produção de vinho e apro- veitavam a fermentação das uvas, para obter a fermentação dos pães (SUAS, 2012). 21G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Império Romano A panificação chegou à Roma (100 a.C. ao século I) por meio de mãos gregas. Os romanos ficaram tão encantados com a arte e a ciência do pão, que todo o Império Romano passou a basear sua alimentação no pão – população e exército abastecidos com pão. Em 100 d.C., o imperador Trajano, com intenção de controle social e desig- nando a importância do pão para a população de modo que os mantivesse em ordem – como faziam os egípcios –, criou uma guilda de padei- ros, chamada Colégio Oficial de Padeiros, cuja obrigação era fornecer esse alimento a todos às custas do Estado. Além disso, aqueles que ali aprendiam, deviam passar o conhecimento de pai para filho (ibidem; SEBESS, 2014). Com a queda do Império Romano, no século V (marco inicial da Idade Média), a provisão de trigo ficou escassa em quase toda a Europa, gerando a crise do pão. Como consequência, passou-se a produzir pães com outros cereais, como centeio, cevada e aveia, ficando o trigo apenas para os ricos. Temos mais uma vez o pão como fator de diferenciação de classes sociais (ibidem). Idade Média Além da escassez de grãos, a Idade Média (séc. V ao XV) foi marcada por crescimento urbano, fome, doenças e muitas mudanças na fabricação de pães – como citado anteriormente. Houve a retomada de atividades pecuárias, de caça, por conta da influência dos povos germâni- cos nômades. Apenas por volta do século X é que houve a retomada da agricultura, levando também ao retorno da fabricação de pães como na Antiguidade. Como o pão era importante nos rituais da Igreja Católica, os sacerdotes se empenharam em fixar populações ao entorno da igreja para plantar novamente, de forma que aos poucos houve a ascensão do trigo e do pão (SUAS, 2012). Um século depois e o ofício dos padeiros foi regulamentado como profissão. E mais um século adiante, definia-se a diferença entre as funções: fornarii assavam os pães e pistores pre- paravam e assavam a massa (ibidem). Na medida em que o consumo de pão cresceu na região do mediterrâneo, os fornarii se deram conta de que poderiam se beneficiar da venda de pães também, P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a e conquistaram esse direito com a ajuda da Igreja. Já em Paris, por volta de 1.200 d.C., os pistores pressionaram e conse- guiram o direito de exclusividade na pa- nificação. Em troca desse direito, ficavam obrigados a fornecer pães à realeza e a se submeter às frequentes inspeções para assegurar que os regulamentos sa- nitários e de pesagem estivesse sendo seguidos. (FLANDRIN & MONTANARI apud SUAS, 2012). Surge na França a guilda de padeiros nomeada Tamelier (referente ao ato de peneirar a farinha de acordo com a receita). Para ser considerado um tamelier, era preciso passar por 4 anos de aprendizagem, realizar testes e passar pela apro- vação final do rei, para, então, poder exercer a profissão. O que lhes dava privilégios na socie- dade, por exemplo, os que forneciam pães aos hospitais ganhavam tratamento médico (SUAS, 2012). Podemos, aqui, comparar o processo de aprendizagem de um tamelier à ideia atual de universidade ou de um curso profissionalizante. Durante o século XIII, os pães já haviam retornado à produção baseada na utilização do trigo, retomando os aspectos de status social – mais brancos e macios, mais rica a família. Vale ressaltar que, com o ofício regulamentado, a corte dita direitos e deveres da guilda, que deveria obedecer às regras de comércio, aos pa- drões de fabricação de pães definidos pelo rei, ao controle de preços e à garantia de qualidade: “Em 1366, Carlos V da França definiu regras relativas a quando e onde os pães poderiam ser vendidos e determinou o preço de pães feitos com os di- versos tipos de farinhas” (SUAS, 2012, p.11). Revolução Industrial Durante a primeira Revolução Industrial, no século XVIII, criaram a máquina a vapor, o que melhorou ainda mais as técnicas de moagem do trigo. A farinha passou a ter qualidade melhor, além de ser produzida em larga escala com redução de custos. Com as novas tec- nologias, os componentes do trigo podiam inclusive ser separados (farelo, gérmen), as masseiras possibilitaram produção de pão em número exacerbado, além de máquinas que dividem a massa, a pesam, a modelam, a fer- mentam sob controle de temperatura e a leva às assadeiras, automaticamente, de acordo com a necessidade de cada padaria. Enfim, a revolução possibilitou que o pão fosse ainda mais acessível a toda a sociedade a baixo custo (SEBESS, 2014). 23G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Brasil No Brasil, antes da colonização, a tapioca (fécula extraída da mandioca), ou beiju de tapioca, era um dos principais alimentos dos indígenas, servindo de base alimentar. Quando portugueses e europeus vierem para cá, trouxeram então o pão fermentado e influenciam o consumo desse alimento. Em 1530, Martin Afonso tenta plantar pela primeira vez o trigo no Brasil, porém, escassa até o século XIX, o pão feito a partir da farinha de trigo era desti- nado aos mais abastados. Nesse mesmo período surgem padarias com fornos ao estilo francês e as técnicas são melhoradas, o que inclui a importação de farinhas de melhor qualidade (SUAS, 2012). Deve-se lembrar que, por conta das ricas farinhas de milho e de mandioca no nosso país, a panificação logo associou a utilização delas à farinha de trigo. No Brasil, o consumo de pão de trigo sofre variações regionais. No Sul e no Sudeste, por exemplo, o consumo é de cerca de 35kg pessoa/ano contra apenas 10kg no Nordeste, o que pode ser facilmente explicado pelas características da cultura regional, no qual o pão de trigo sofre a concorrência direta de substitutos como o beiju, o cuscuz e o polvilho doce. (BOSISIO JUNIOR apud SUAS, 2012, p.15). “No Brasil, o pão mais consumido é o chamado ‘pão francês’. De fato, este pão não é tradicional- mente francês, mas, sim, brasileiro. Dependendo da região do Brasil, recebe nomes diferenciados como filãozinho, cacetinho, pão de sal, pão jacó, média, entre outros. [...] A origem do ‘pão francês’ do Brasil não é muito certa, acredita-se que a receita foi elaborada no início do século XX. As famílias mais abastadas, que retornavam da França, descreviam as caracte-rísticas do pão francês com intuito de que fossem reproduzidos nas padarias do Brasil. [...] Assim teria surgido o ‘pão tipo francês’, uma adaptação que os padeiros brasileiros fizeram com base nas descrições solicitadas pelos seus fregueses, que mais tarde ganhou o nome de ‘pão francês’. O maior diferencial do pão francês das famosas baquetes francesas é que o primeiro tem a adição de açúcar e gordura na massa, enquanto o segundo é composto apenas de ingredientes básicos, como farinha, água, sal e fermento. Os dois ingredientes adicionais são responsáveis pelo dife- rencial na qualidade da casca e do miolo dos pães”. Fonte: Suas (2012, p.199) P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a S e pensarmos em pães brasileiros, logo associamos o pão de queijo ao consu- mo nacional, pãozinho esse feito de polvilho. Além dele, podemos citar a utilização de ingredientes como a mandioca, o pinhão, o cará e a banana na produção de pães que agradam ao nosso paladar com a mesma facilidade que o pão de trigo branco tradicional agrada aos europeus. Atualmente, inúmeros ingredientes são incorporados aos pães carac- terizando-os à nossa nação, como o cupuaçu e as castanhas brasileiras. 25G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a 27G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R A Farinha Agora, prezado(a) estudante, entraremos realmente nas especifi- cidades necessárias para se produzir um pão. E já que começamos, existe uma informação importantíssima que você deve sempre ter em mente: para preparar um pão, quatro ingredientes são funda- mentais: farinha, fermento, sal e água. Qualquer outro item agrega sabor, textura, aroma etc. à massa, mas não é essencial, e sim um complemento. Claro que isso vai depender do aspecto final desejado para o seu pão, mas lembre-se dos quatro grandes ingredientes. Quando tratamos da farinha, associamos rapidamente essa ideia à farinha de trigo branca, pois é a mais utilizada para fabrica- ção de pães e é, inclusive, da qual trataremos mais a fundo. Porém, antes de falarmos da farinha em si, vamos nos ater à origem dela, o grão de trigo. P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a O grão de trigo O grão de trigo, de forma oval e cor que pode ir do avermelhado ao branco, é composto de três partes principais: o farelo, o gérmen e o endos- perma. Quais são as propriedades de cada uma delas? Na ilustração você consegue verificar cada camada do grão e identificar suas respectivas funções (SEBESS, 2014). Como você pode conferir, cada camada é rica em uma propriedade e cada uma delas exerce função diferente na massa do pão. 12% a 15% do grão é constituído por casca, 3% é de gérmen e de 82% a 84% é constituído de endosperma. Você já conse- gue ter ideia de qual dessas partes sai a nossa tão adorada farinha branca, não é mesmo?! (Ibidem) A casca (ou farelo) é a película protetora de todo o grão. Além de vitamina B, é rica em fibras in- solúveis. Sendo assim, pães com farelo de trigo melhoram a digestão, saciam por mais tempo, re- duzem colesterol e ainda auxiliam na quantidade de vitaminas ingeridas. A sensação do farelo é de uma poeira áspera e crua, por isso o padeiro deve tomar cuidado ao utilizá-lo, de modo que a quan- tidade ideal em combinação com a farinha branca amenize essas sensações (KALANTY, 2012). O gérmen é responsável por gerar o nascimen- to de uma nova planta e é rico em sais minerais, óleos e vitaminas A, D e E. Além disso, devido ao seu alto teor de gordura (12,5%) pode se tornar rançoso e por isso é retirado da farinha, mas não desperdiçado. O gérmen é utiliza- do para fabricação de óleos e dele também é feito um pó que pode ser agregado à farinha para caracterizar algum tipo de pão integral (SEBESS, 2014). Estrutura do grão de trigo. Ilustrador: Bruno Pardinho 29G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R O endosperma constitui a maior parte do grão e é também a mais importante. O que deno- minamos de farinha é o endosperma moído, composto de amido e proteínas (mais amido que proteínas). O amido se torna alimento para o fermento, fazendo o pão crescer, e a proteína se desenvolve em cadeia de glúten, conferindo elasticidade ao pão – não se preocupe, nós de- talharemos esses aspectos na próxima unidade (KALANTY, 2012). A composição da farinha A farinha – que pode ter grânulos de tamanhos entre 11 e 41 milésimos de milímetros de diâ- metro – proveniente do endosperma é composta por amido e glúten, como anteriormente dito. O amido se torna solúvel quando adicionado à água aquecida entre 55°C e 70°C, transformando-se num tipo de gel, porém, em água fria ou em álcool é insolúvel. De toda forma, os grãos de amido absorvem metade de seu peso em água e os grãos danificados (grande parte da farinha é de amido danificado), absorvem o dobro de seu peso em água (SEBESS, 2012). Figura 3: Plantação de trigo e grãos de trigo nas mãos do agricultor P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a O glúten não é realmente encontrado na farinha, mas assim designamos por ser proveniente de proteínas que constituem o en- dosperma do trigo. O endosperma é composto por gliadina e glutenina, duas proteínas que, em contato com água e com ação de amassamento (sova), unem-se, formando o glúten. Kalanty (2012) explica que o farelo e o gérmen são removidos do grão de trigo e então o endosperma é moído, resultando na farinha. Depois dessa moagem, temos três resultados da farinha do endosperma: a farinha comum, a especial e a integral. Quer saber se a farinha contém glúten? Faça o experimento: Junte 100g de farinha com 50g de água e amasse até formar uma bola. Coloque essa massa embaixo de um fio de água (da torneira mesmo); vá amassando bem, lavando a massa com a água que es- corre; depois de 10 minutos, em média, você terá em suas mãos uma massa gos- menta cinza-esverdeada, muito elástica. Essa massinha gosmenta é o glúten! Fonte: Sebess (2014, p.28). A farinha de trigo comum é a encontrada com mais facilidade nos mercados, proveniente da parte externa do endosperma (como apresen- tado na ilustração). Ela é um pouco mais escura que a especial e apresenta mais sais minerais. Confere sabor diferenciado a pães de estilo mais artesanal (ibidem). A farinha de trigo especial é oriunda da região central do endosperma. Resulta numa fari- nha bem clara, mais branca, e com mais proteínas – ótimo para a estruturação do glúten. Aqueles pães que se prezam por coloração bem branca no miolo são feitos com farinha especial (ibidem). E a farinha de trigo integral provém das três partes do grão, ou seja, do grão completo – soma-se gérmen, farelo e endosperma. O resultado é uma farinha rica em fibras e vitaminas, porém pobre em glúten, que necessita da combinação com a farinha branca para obter-se um bom resultado de elasticidade e crescimento (CAMARGO, 2013). Figura 4: Camadas do endosperma que originam as diferentes farinhas Fonte: Kalanty (2012, p.38). A farinha integral é proveniente de todo o grão 31G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Já falamos a respeito de amidos, vitaminas, sais minerais, proteínas etc. Entenda, com auxílio da tabela abaixo, a composição nutricional da farinha de trigo. Composição de 100g de farinha: Glicídios 56 g Água 35 g Proteínas 7,5 g Lipídios 1 g Sódio 370 mg Cálcio 100 mg Potássio 109 mg Enxofre 50 mg Fósforo 100 mg Vitamina B1 0,07 mg Vitamina B2 0,03 mg Vitamina E 0,023 mg Tabela 1: Composição da farinha Fonte: SEBESS (2014, p.26). Já que ressaltamos a importância da proteína na farinha para a formação do glúten, ou da rede de glúten como chamamos, é importante atentar-se aos termos de padeiro que você pode ouvir no que diz respeito à farinha: farinha forte e farinha fraca.Mas e aí, qual será a diferença? Quando se trata de uma farinha mais forte, quer-se dizer que nela há mais proteína, ou que ela é mais “dura” (você pode ouvir com esse termo também). Isso quer dizer que o desen- volvimento de glúten será melhor, logo, para a panificação indica-se uma farinha forte. Pães feitos com farinha forte são mais consistentes e necessitam de mastigação prolongada. Para explicar, Kalanty (2012, p.38) exemplifica: Faça de conta que você está comendo uma bomba. Ela oferece alguma resis- tência quando é mordida, mas é fácil de mastigar. Agora, finja estar comendo uma fatia de pão branco para sanduíche. Ela é igualmente fácil de morder, mas leva um pouco mais de tempo para mas- tigar até que se rompa na boca. No exemplo, temos a comparação de sensações entre uma farinha fraca, utilizada para doces, e uma farinha forte, utilizada para pães. A tabela a seguir apresenta o tipo de farinha usado para cada alimento, qual é o termo utilizado para denomi- ná-la e a média de proteína contida na mesma. Conforme resolução RDC nº 344, de 13 de dezembro de 2002: “4.1. É obrigatória a adição de ferro e ácido fólico nas farinhas de trigo e nas farinhas de milho pré-embaladas na ausência do cliente e prontas para oferta ao consumidor, as destinadas ao uso industrial, incluindo as de panificação e as farinhas adicionadas nas pré-misturas, devendo cada 100 g de farinha de trigo ou de farinha de milho for- necerem no mínimo 4,2 mg (quatro vírgula dois miligramas) de ferro e 150 mcg (cento e cinquenta microgramas) de ácido fólico.” Fonte: Brasil – Agência Nacional de Vigilância Sanitária (online). P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a Quando você se deparar com as farinhas bra- sileiras e prestar atenção à quantidade de pro- teínas, pode ser que haja um espanto, pois elas não contém os 12% de proteínas como eu acabei de informar que é indicado para a fabricação de pães. Não se assuste! Nem todo trigo tem um endosperma rico em proteína mesmo. Mas você pode utilizar a matéria-prima que encontrar com o maior percentual possível, sem problema algum. Com 9%, por exemplo, é facilmente encontrada e você terá ótimos resultados. Tipo de farinha branca Termo do padeiro Média de proteína Bolo Muito fraca 8% Doce Fraca 8,5% Para todos os usos Moderada 10% Pão Forte 12% Tabela 2: Farinhas e seu conteúdo médio de proteínas Fonte: Kalanty (2012, p.39). Que tal na sua próxima ida ao supermercado, antes de escolher a farinha que levará para casa, conferir a quantidade de proteínas contida nela e escolher aquela que melhor couber ao seu propósito? Fonte: a autora. Outras farinhas Encontra-se no mercado inúmeras farinhas im- portantes para a panificação, sejam combinadas com a farinha de trigo ou mesmo puras, cada uma em um caso. Imprescindível é saber que essas farinhas agregam valores nutricionais, aroma, textura, sabor e cor aos pães, permitindo vasta variedade de resultados de acordo com as associações feitas pelo padeiro. Para contextualizar as características de cada uma dessas farinhas, dois autores foram mais utilizados como embasamento teórico, são eles: Camargo (2013) e Sebess (2012). 33G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Por que a farinha de trigo? • Rica em amido: - Liga. - Substrato para fermento. • Rica em proteína: - Estrutura física. - Sabor suave. - Massa leve. - Fácil digestão. - Textura apreciada. A farinha de centeio é integral, da mesma família que o trigo e também muito utilizada na panificação. Rica em vitamina A e fósforo, o centeio contém glúten, porém em proporção menor que o trigo. O resultado da utilização do centeio (junto da farinha de trigo branca) é um pão mais escuro e denso, porém muito aromático. A farinha grano duro (ou grão duro) é do trigo triticum durum L., matéria-prima muito utilizada para fabricação das massas italianas. No Brasil se produz pouco, encontra-se em quantidades maiores em países próximos. O teor de glúten é muito elevado (percentual excede 12%, podendo chegar a 14% facilmente). A semolina de grão duro é farinha de moagem mais grossa, amarelinha e de sabor surpreendente quando agregada à farinha branca para conferir textura, cor e sabor ao pão. P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a A farinha de mandioca (ou fécula de mandioca) é proveniente da raiz mais famosa do país, que também pode ser chamada de amido de man- dioca ou farinha de tapioca fi na (com 86% de amido e ausente de glúten). Com essa farinha se produz pães de queijo, chipas e inúmeros biscoitos. A farinha de milho (ou fubá) é ausente de glúten, por isso, ao ser utilizada, precisa ser acompanhada de farinha de trigo. Apesar disso, é uma farinha de sabor ousado e, mesmo em pouca quantidade, agrega facilmente suas ca- racterísticas à massa. O miolo resultante dessa mistura é mais fi no e compacto. A farinha de aveia, seja em fl ocos fi nos ou grossos, é facilmente agregada às massas à base de trigo – carece de glúten. É uma farinha ex- tremamente nutritiva – rica em vitaminas, em carboidratos, em minerais, em oligoelementos, em proteínas e em lipídios – que auxiliam na redução do mau colesterol. A quinoa – rica em proteínas, em fi bras e em ômega 3 – não é um cereal, mas é tratada na panificação como se fosse. Desta planta se faz uma farinha que é utilizada para compor pães (combinada à farinha de trigo devido à ausência de glúten). Mas, ainda, mais utiliza- dos na panifi cação são seus grãos, que con- ferem textura principalmente se associados a outros grãos. A farinha de cevada é pobre em glúten e, apesar de mais utilizada em preparos de sopas e enso- pados, a moagem da cevada perolada resulta em uma farinha que, misturada à farinha de trigo, confere ao pão sabor adocicado e textura levemente terrosa. Por fi m, a farinha de soja, riquíssima em proteína, cálcio e vitamina B. A soja pode ser encontrada como grão inteiro (com e sem casca), em forma de farinha, de lecitina, de óleo, de leite etc. A farinha de soja parcialmente desengordu- rada é utilizada no preparo de pães integrais. Ela é pobre em amido e rica em proteína e deve ser utilizada com cuidado, pois a grande quantidade afeta o volume e o sabor do resultado fi nal. Aproveite este conteúdo para relacioná-lo com os estudos e preparações apresen- tadas na disciplina de Cozinha Clássica sobre os tipos de farinha para a confec- ção de massas frescas e industrializadas, e qual o papel da semolina de grano duro nesses preparos. Aprofunde sempre seus conhecimentos! A farinha de cevada é pobre em glúten e, apesar de mais utilizada em preparos de sopas e enso- pados, a moagem da cevada perolada resulta em uma farinha que, misturada à farinha de trigo, confere ao pão sabor adocicado e textura levemente terrosa. Por fi m, a farinha de soja, riquíssima em proteína, cálcio e vitamina B. A soja pode ser encontrada como grão inteiro (com e sem casca), em forma de farinha, de lecitina, de óleo, de leite etc. A farinha de soja parcialmente desengordu- rada é utilizada no preparo de pães integrais. Ela é pobre em amido e rica em proteína e deve ser utilizada com cuidado, pois a grande quantidade afeta o volume e o sabor do resultado fi nal. Aproveite este conteúdo para relacioná-lo com os estudos e preparações apresen- tadas na disciplina de Cozinha Clássica sobre os tipos de farinha para a confec- ção de massas frescas e industrializadas, e qual o papel da semolina de grano duro nesses preparos. Aprofunde sempre seus conhecimentos! 35G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a 37G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R O Fermento e a Fermentação Você sabia que o fermento é um fungo? Isso significa que ele é um organismovivo (por isso chamado de fermento biológico), unicelu- lar e bem pequenino. Kalanty (2012) nos conta que em uma colher de sopa de fermento comercial podem ser encontrados mais de 100 bilhões desses fungos, cujo nome científico é Saccharomyces cerevisiae (fungos comedores de açúcar). Nós encontramos fermento biológico de três tipos no comércio: fresco, ativo seco e instantâneo. P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a O fermento biológico fresco tem aparência de uma pasta cremosa e é encontrado facilmente em supermercados, mercearias e lojas especia- lizadas em alimentos. Apresenta uma textura maleável, de fácil manipulação e deve ser arma- zenado coberto e refrigerado. Em temperatura controla de 2,22°C a 4,44°C ele permanece vivo por pelo menos 21 dias (KALANTY, 2012). E como devemos utilizá-lo? A melhor indi- cação é esfarelar o fermento em água primeiro (ou em líquido) e misturar bem, para que ele seja bem dissolvido antes de se adicionar qual- quer ingrediente à massa, dessa forma, teremos pães mais resistentes. Evite esfarelar o fermento diretamente na massa, pois será mais difícil homogeneizá-lo, prejudicando a fermentação posterior (ibidem). Usando fermento fresco 1. Coloque água ou leite em uma tigela. Na maioria dos casos, o intervalo de temperatura do líquido é entre 21,11°C e 32,22°C. No entanto, o fermento fresco pode tolerar temperaturas tão baixas quanto 4,44°C e tão altas quanto 35°C. 2. Mexa para dissolver. 3. Proceda com os ingredientes restantes conforme a receita. Tabela 3: Como utilizar fermento fresco Fonte: Kalanty (2012, p.46). O fermento seco ativo tem aparência granula- da grossa e de cor bege e é também facilmente encontrado em mercearias, supermercados e lojas especialidades em produtos alimentícios. Se a embalagem não for aberta, o fermento pode durar mais de um ano em prateleira, porém, depois de aberto, deve ser armaze- nado em recipiente fechado sob refrigeração, permanecendo vivo por 3 a 4 meses. Se con- gelado, sua atividade pode durar 6 ou mais meses (ibidem). Esse tipo de fermento deve necessariamen- te ser reidratado em água morna antes de ser utilizado, por 10 minutos. O resultado da massa com esse tipo de fermento é menos elástica, não encolhendo tanto quando se faz a modelagem, por isso é muito utilizado para fabricação de pizzas (ibidem). Figura 5: Fermento biológico fresco. 39G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Usando o fermento seco ativo Aqueça a tigela deixando-a sob água corrente quente. Elimine a água. 1. Coloque água a 43,33°C na tigela. 2. Salpique o fermento seco ativo sobre a água. Não misture. Deixe descansar por 5 minutos. 3. Mexa uma vez. Deixe descansar por mais 5 minutos. 4. Proceda com os ingredientes restantes conforme a receita. Tabela 4: Utilizando o fermento biológico seco ativo Fonte: Kalanty (2012, p.47). O fermento seco instantâneo apresenta aspecto de grânulos finos, menores que do fermento seco ativo, mais liso e de coloração bege-claro. É encontrado em embalagens de 10g e também Figura 6: Fermento biológico seco ativo. em embalagens maiores, tanto em supermerca- dos, como em mercearias e outros estabeleci- mentos alimentícios. Vem se tornando dos mais populares por conta da facilidade de utilização e armazenagem, além de ser extremamente con- fiável. Fechado se mantém por mais de um ano se armazenado em recipiente hermético sob refrigeração (10°C a 21,22°C). Aberto, deve-se guardar da mesma forma, tendo duração de 3 a 4 meses e congelado pode durar por seis meses ou mais (ibidem). Apesar de nas embalagens desse fermen- to vir a informação de que ele não precisa de reidratação e deve ser acrescentado diretamente à massa, não é uma recomendação que eu faça. Para pães mais resistentes, dissolva o fermento seco instantâneo em água antes de utilizá-lo também. Usando o fermento instantâneo 1. Aqueça a tigela deixando-a sob água corrente quente. 2. Coloque na tigela água a 40,56°C. 3. Salpique o fermento instantâneo sobre a água. 4. Mexa para dissolver. 5. Continue com os ingredientes restantes, conforme a receita. Tabela 5: Utilizando o fermento biológico seco instantâneo Fonte: Kalanty (2012, p.48). P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a A Fermentação O processo de panificação é um equilíbrio harmonioso entre o domí- nio técnico do padeiro e a transformação natural que ocorre durante a fermentação. Esta inicia-se quando são combinados dois dos principais ingredientes do pão: farinha e água. Com a adição de sal, fermento, tempo e temperatura, o profissional equilibra todos os elementos da fermentação (SUAS, 2012, p.81). Como coloca o autor, a fermentação é um processo que demanda ingredientes básicos e que são determinantes para o resultado final. É a fermentação que influenciará no sabor e no aroma do pão. Sendo assim, entenderemos agora como se dá todo o processo interno de fermentação na massa, em que o amido e a proteína que abordamos no tópico sobre a farinha são itens determinantes. Primeiramente, deve estar claro que toda fermentação é relacionada à alteração de moléculas sob efeito de fungos (levedura e mofos) e bactérias. Utilizamos produtos fermentados todos os dias, sem, muitas vezes, ter consci- ência disso. A exemplo, podemos citar o queijo, que é resultado da fermentação do leite, bem como a manteiga e os iogurtes. Na panificação ocorre o que chamamos de fermentação alcóolica, pois os açúcares presentes na farinha (ou glicídios, que são carboidratos que incluem açúcares, amidos etc.) são transformados em álcool e dióxido de carbono (CO2). Além de a farinha ser constituída em 70% por amido (dis- tribuído em amilose e amilopectina), também se encontram nela enzimas beta-amilases adormecidas. Em contato com a água ocorre o processo de hidrólise, ou seja, as enzimas são acionadas e transformam os açúcares complexos em açúcares simples (amilose → maltose → glicose; amilopec- tina → dextrina → maltose → glicose). Esses açúcares simples servem de alimento para o fermento, que absorve a glicose e gera dióxido de carbono e álcool (SUAS, 2012). A ilustração a seguir simplifica a compreensão da fermentação alcóolica: Enquanto a fermentação ocorre e há liberação de CO2, conduz-se o processo de crescimento da massa. 41G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R Em paralelo ao processo de fermentação, ocorre o desenvolvimento do glúten, resultante da combinação das proteínas existentes na farinha com água e ação mecânica de sova ou do gancho da masseira/ batedeira. As duas principais proteínas do trigo – glutenina (proteína que tem algum efeito na elasticidade da massa) e gliadina (proteína que afeta a extensibilidade da massa) – são responsáveis pela formação da massa. [...] Na medida que inflam, elas se atraem mutuamente e formam cadeias de proteínas chamada glúten. Depois do glúten se formar, a operação mecânica do gancho vai produzir uma estrutura organizada por meio de dois movimentos distintos. O primeiro estende as cadeias de glúten, enquanto o segundo atrai as cadeias de volta. Depois de um período de mistura, essas cadeias se alongam cada vez mais, e se tornam cada vez mais finas, e mais sobrepostas (SUAS, 2012, p.63). Figura 7: Processo de fermentação utilizando fermento comercial Fonte: Suas (2012, p. 82). P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a O tempo de sova é fator determinante para o desenvolvimento do glúten. Um processo mais longo resulta num glúten bem desenvolvido, um período mais curto resulta em uma estrutura menos desenvolvida. Apesar disso, deve-se tomar cuidado para não exagerar no tempo de sova, pois o glúten superdesenvolvido torna a estrutura quebradiça, rompendo-se facilmente (KALANTY, 2012). “Os padeiros profissionais algumas vezes usam os termos glúten elástico e glúten plástico. A massaque é fácil de abrir e de transformar em filões é chamada de plástica. Por outro lado, aquela que volta apenas o suficiente e tem uma superfície lisa, com poucos rasgos ou pretas, é chamada de elástica. Diz-se que uma massa que exibe equilíbrio entre as propriedades plástica e elástica tem glúten de alta qualidade.” Fonte: Kalanty (2012, p.106). Figura 8: Este ponto de desenvolvi- mento do glúten da massa é chama- do de ponto de véu Fonte: Verdadeiro... (2014, online). 43G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R A elasticidade e a extensibilidade resultantes do desenvolvimento do glúten são responsáveis por conter o CO2 liberado pela fermentação alcóolica dentro da massa. Ou seja, enquanto o amido alimenta o fermento e este libera dióxido de carbono e álcool, o glúten desenvolvido deixa a massa resistente para que não haja um “estouro”, e os gases e álcoois se mantenham presos à massa, resultando em um pão volumoso e leve. Quanto de fermento devo utilizar? A quantidade de fermento utilizada controla a fermentação, ou seja, para que a massa tenha tempo suficiente para obter os benefícios da fermen- tação, deve-se usar em torno de 0,5% a 2% de fermento (fresco), tendo como base a quantidade de farinha. Se for uma massa doce, a quantidade será maior. Caso utilize o fermento seco ativo ou o seco instantâneo, o ideal é fazer a proporção de acordo com as indicações do distribuidor (SUAS, 2012). Além do efeito de crescimento da massa, a fermentação produz ácidos orgânicos que diminuem o pH da massa. Essa acidificação prolonga o processo de envelhecimento e aumenta a durabilidade do pão. Além disso, a fermenta- ção produz o aroma característico que conhecemos, tanto por conta do álcool liberado quanto dos ácidos produzidos (ibidem). O crescimento da massa Ainda relacionado à fermentação, o crescimento da massa exige alguns cuidados especiais. Depois de misturadas as matérias-primas e obtida uma massa consistente, com bom desenvolvimento de glúten, é hora de deixar que a massa descanse para crescer – quando começa realmente o processo de fermentação alcóolica. Isso é necessário para que a estrutura de glúten relaxe e volte a se tornar elástica – você verá que assim que ter- mina o processo de sova, a massa fica bem unida e não é manipulável com facilidade, o que chamamos de “glúten estressado” – para que as células de ar e bolhas de CO2 se espalhem de forma uniforme por toda a massa (KALANTY, 2012). P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a Três são os fatores cruciais para o bom crescimento de uma massa: tempe- ratura, tempo e umidade. Em tempo normal, sem aceleração do processo, uma massa deve crescer entre 21,11°C a 28,89°C, com umidade de 50% a 80% (quando há equipamentos específicos de panificação, tanto temperatura quanto umidade podem ser controladas com precisão). O tempo pode ser de 45 minutos a 1 hora e 30 minutos. Claro que são indicações de forma generalizada e o ideal é seguir o receituário e as indicações do padeiro para cada pão. Valendo-se de um lembrete importante: cuidado com a tempera- tura, pois o fermento é um ser vivo, a 45°C ele está em risco e a 60°C ele é aniquilado! Em caso de colocar a massa para crescer em estufa, o controle de temperatura deve ser ainda maior, não deixando extrapolar 35°C (ibidem). Na próxima unidade, nós abordaremos ainda mais especificamente a fermentação, pois você verá que não existe apenas um método de ação da levedura na fermentação, e sim, formas variadas de ativarmos a levedu- ra antes de adicioná-la à massa, resultando em pães com características diferenciadas, tanto em crescimento, quanto em aroma, sabor e textura. Espero-te por lá. Amido → açúcares → alimenta fermento → expele dióxido de carbônico (CO2) + álcool → crescimento da massa. Proteínas (glúten) → + água → + sova → formação de rede → estrutura e elasticidade do pão. 45G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R co ns id er aç õe s fi na is A o final desta etapa, você consegue entender de onde surgiu o nosso pãozinho de cada dia. Sabe que ele já foi mais pesado, sem fermentação, em formato diferente e rústico. Ao falar em Egito, consegue entender como a percepção desse povo com relação à agricultura influenciou positivamente os avanços na panificação. Avanços que também fizeram os romanos, com a moagem dos grãos e a criatividade de misturar ingredientes. Nesse patamar, também é possível optar por qual das teorias acerca da descoberta da fermentação você mais se adapta: foi a substituição da água pela cerveja ou o esque- cimento que fez a massa fermentar? Não se sabe, mas há adeptos das duas ideias. Reflita, no término desta unidade, como os fatores geográficos, sociais e religiosos interferem no percurso da história do pão. Na Idade Média isso ficou bem claro, pois com o aumento da população urbana acompanhado da escassez de grãos, muitas doen- ças tomaram conta das pessoas e, se não havia grãos, também não havia pães – ou, ao menos, não em mesma quantidade e qualidade. Temos então forte retorno às atividades pecuárias como foco na alimentação. Porém, note a influência religiosa: sabemos que atualmente o pão é comumente utilizado em Igrejas diversas, o que não era diferente na Idade Média, pois esse alimento já era tido como sagrado e a Igreja Católica teve forte empenho para incentivar novamente as plantações de grãos, o que possibilitou o retorno do grande consumo de pães. Além de todo esse contexto histórico, você começará a próxima unidade com uma boa base para entender a panificação de forma geral, pois sua trajetória também percorreu o grão de trigo, conhecendo cada um de seus componentes, sabendo que o endosperma é bem importante para a panificação, pois é daí que extraímos a farinha de trigo branca, e que não é apenas do trigo que podemos fazer a farinha. Conhecemos os três tipos de fermento comerciais – biológico fresco, seco instantâ- neo e seco ativo – e como é que esses seres vivos atuam para que o pão cresça, ou seja, como é que se dá o processo de fermentação. Porém, apesar da riqueza de conteúdo que já abordamos nesta unidade, não é suficiente para que você compreenda todo o processo de fermentação e o que são os pré-fermentos. Sendo assim, convido-te a me acompanhar a mais uma unida- de, cheia de informações a respeito desse alimento que faz parte da nossa base alimentar: o pão. P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a at iv id ad es d e es tu do 1. Existem duas teorias que fundamentam o surgimento do pão fer- mentado, quais são elas? 2. O grão de trigo é constituído por casca (farelo), gérmen e endosperma. De qual dessas partes provém a farinha mais utilizada na panificação? Explique as razões dessa escolha. 3. Com base na resposta anterior, explique o processo de fermentação alcóolica, como se dá o desenvolvimento da rede de glúten e sua importância para o crescimento da massa. 47G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R m at er ia l c om pl em en ta r Pão - Arte e Ciência Sandra Canella-Rawls Editora: Senac São Paulo Sinopse: Todos supõem conhecer bem o pão, esse alimento uni- versal e ao alcance diário do paladar de ricos e pobres, mas serão surpreendidos nesse trabalho pela variedade de informações que o tema fornece. Sua antiguidade, que faz desse alimento um produto tipicamente artesão, contrasta, por exemplo, com sua modernidade, no sentido do que já se criou em panifi cação e da interminável condição de continuar criando. (Gourmand World Cookbook Awards 2005 - Melhor Livro sobre Pão). Julice Vaz, formada em Confeitaria e Panifi cação, explica sobre as produções de pães artesanais em sua boulangerie, em São Paulo. Confi ra o conteúdo disponível em: . Acesso em: 09 jul. 2015. P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a le it ur a co m pl em enta r Pão egípcio da Antiguidade Autor: Desconhecido. Em: Parede da tumba de Senet, em Luxor, Egito. Triture os grãos em um pilão e peneire-os para retirar as cascas. Moa bem até obter uma farinha branca. Misture a farinha com água suficiente até formar uma massa bem uniforme. Sove-a em uma tigela grande ou amasse-a com delicadeza. Separe porções dessa massa e forme bolas. Asse diretamente sobre cinzas quentes ou coloque em fôrmas sobre uma chapa de cobre, no fogo. Fique atento durante o cozimento: assim que a parte inferior do pão começar a dourar, vire e asse do outro lado. Nas encostas quentes da colina de Sheikh Abd el-Qurna, com vista para o vale do Nilo, perto da antiga cidade de Tebas – atual Luxos –, fica a entrada discreta e humilde da tumba egípcia Senet. Esculpida na montanha de calcá- rio, é uma das centenas de câmaras funerárias da região. Nas tumbas jaziam após a morte os nobres, funcionários que exerciam o poder no reinado dos faraós do Egito Antigo. Nas paredes das tumbas estão pintadas cenas do cotidiano que eles gostariam que permanecessem na vida após a morte. Então, tudo o que era agradável – lembranças felizes, experiências e rituais – está registrado em detalhes, propiciando uma imagem clara do cotidiano de 4 mil anos atrás. Há cenas de caça e pesca, de colheitas diversas, cachos de uva, festas e da vida rural em geral. Quase todas as tumbas eram para homens, mas a tumba de número TT60 em Tebas é a de Senet. É a única de uma mulher, datada do período egípcio do Médio Império, entre 2055 e 1650 a.C., e a câmara mortuária mais antiga, cujas paredes decoradas se mantiveram bem. Além das imagens de caça, aragem e semeadura, há representações indicando a produção de pão. São tão detalhadas e coloridas que os que viram os murais atestam seu poder avassalador: “Estamos diante de representações excepcionais da verdadeira culinária do Médio Império”, escreveu o egiptólogo Thierry Benderitter ao vê-las na década de 1970. 49G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R le it ur a co m pl em en ta r Mas quem era Senet? Esposa ou talvez mãe de Antefoqer, um vizir – ancião que ficava entre o faraó e os súditos – que serviu ao rei Amenemhat I e depois ao seu filho, Sesóstris I, no início da 12ª dinastia, entre 1958 e 1913 a.C. O fato de ela ter recebido seu próprio hipogeu, ou tumba subterrânea privada, atesta a importância de Antefoqer, mas atualmente a entrada não é majestosa. Menor que outras na mesma colina, apresenta uma entrada de tijolos com uma porta simples de madeira, adicionada em 1914 pelo egiptó- logo inglês Norman Davies. Pouquíssimos túmulos estão abertos ao público, e este quase não é visita- do; a entrada é restrita, e fotografar, proibido, para evitar que o flash danifique os murais. Os poucos que têm acesso permitido devem se esgueirar pelos escombros intermináveis que circundam a entrada e até retirar uma pilha de pedras que muitas vezes bloqueia a porta verdadeira – simples, mas eficaz e segura. Assim que é aberta, essa porta revela um corredor longo, estreito e sombrio que se estende até a tumba, e o teto, descendente em altura, desperta uma sensação de compreensão. A passagem leva a uma câmara quadrada empoeirada, onde há uma estátua da própria Senet sentada, uma restauração, pois a escultura foi encontrada em fragmentos. Além da câmara, há outro corredor comprido, mas esse é claro, com pinturas nas cores ocre, amarela, vermelha e azul. Lá, o olho foi desenhado pela primeira vez, em uma imagem de Antefoqer, durante a caça, posando majestosamente com uma tanga, de acordo em punho. Em torno do pescoço, um colar elaborado azul, verde e branco, e os pulsos estão adornados com pulseiras que combinam. Há belos desenhos de galgos, hipopótamos e aves: gansos, patos e fla- mingos em um fundo azul-celeste vivo. Gazelas e lebres são perseguidas por cães; aves correm atrás das redes de peixes – são tão detalhados que é possí- vel determinar a espécie. E, então, no meio da passagem de vinte metros, à direita, estão as cenas culinárias. Nelas, ilustra-se o preparo da carne, por exemplo. Sob a proteção refres- cante de um toldo, homens esquartejam um boi e penduram as peças em P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a le it ur a co m pl em en ta r P a n i f i c a ç ã o C l á s s i c a e B r a s i l e i r a cordas, enquanto deixam outras ao sol para amaciar, batendo-as com pedras. À direita, um homem adiciona um osso a um caldeirão de sopa com uma das mãos, enquanto, com a outra, mexe o líquido usando uma vara. Outro personagem assa aves no espeto sobre uma grade levantada, estimulando as brasas com um leque em forma de meia-lua. É uma atividade intensa. Assim como a receita para o preparo de pão resumida no início desse capítulo, ela parece estar desenhada à perfeição. É claro que essas imagens não serviam para instruir o cozinheiro da casa, mas ajudavam os mortos a ter pão fresco decente na vida após a morte. Acima de tudo, é um registro histórico que nos informa sobre a panificação há milhares de anos. As imagens não só revelam como a farinha é preparada a partir de grãos, mas também a conversa (decifrada dos hieróglifos) entre os personagens, pintada perto da cabeça como balões de diálogo. A princípio, dois homens esmagam os grãos em um recipiente de ma- deira. “Embaixo!”, um ordena ao outro, que responde: “Faço conforme sua vontade”. Depois, a mulher peneira os grãos para retirar as cascas, enquanto a companheira deixa os grãos ainda mais finos usando uma mó. Em outra imagem, uma moça prepara pequenos rolos de massa, enquan- to a outra adiciona tiras finas em fôrmas cônicas altas. Atrás dela, vê-se um homem colocando os recipientes cônicos em um forno, cutucando as brasas com uma das mãos e protegendo o rosto do calor com a outra. Mas não parece satisfeito com o estado da lenha: “Esta lenha está verde”. Fonte: Sitwell (2013, p.11-12). 51G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R le it ur a co m pl em en ta r Panificação por Etapas SAMARA FERNANDES A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • A levedura e a fermentação • Outras matérias-primas • A porcentagem do padeiro • Entender a ação da levedura no processo de fermentação. • Conhecer os diferentes tipos de fermentação prévia. • Recordar outras matérias-primas com as quais se produz pães. • Praticar a porcentagem do padeiro. Plano de Estudo Objetivos de Aprendizagem IntroduçãoIntrodução Nesta unidade, estudaremos pontos muito importantes na panificação, antes de realmente colocarmos a mão na massa. O primeiro item são os tipos de fermentação primária e como as leveduras agem no processo de fermentação – você já deve ter em mente que, para um bom resultado, não deixamos a massa crescer apenas uma vez. Em seguida, veremos as matérias-pri- mas que podem ser utilizadas para se fabricar um pão, ingredientes que vão além da farinha, do fermento, do sal e da água. Por fim, você aprenderá o que é a porcentagem do padeiro e como utilizar na vida profissional. Para contemplar todo esse conteúdo, no primeiro tópico, falaremos apenas dos processos de pré-fermento, compreendendo que, para esta primeira fermentação, temos uma base seme- lhante, independentemente do processo, sendo que o que se modifica são as quantidades e as proporções. Além disso, você verá que podemos utilizar não apenas aqueles três tipos de fer- mentos industriais, mas também o fermento natural, obtendo resultados diferentes de acordo com a sua escolha. Depois deste tópico introdutório, você saberá diferenciar biga de esponja, de poolish, de massa pré-fermentada e de sourdough – além de suas funções, quantidades e de quando utilizar cada um deles. O segundo tópico contemplará as matérias-primas que são utilizadas na panificação e que vão além dos quatro ingredientes básicos. Se você já fez um pão, já