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Novas sínteses teóricas da Sociologia Apresentação A Sociologia do Conhecimento proposta por Berger e Luckman abre uma nova perspectiva para as análises da disciplina, uma vez que os autores se baseiam na dualidade da influência entre indivíduo e sociedade para a elaboração do conhecimento e, portanto, para a compreensão da realidade. Entre as teorias clássicas, os autores consideram que tanto a concepção durkheiminiana, a qual diz que todas as coisas são fatos sociais, quanto a noção subjetiva de construção de significados da ação, formulada por Weber, aparentemente antagônicas, contribuem para a sua proposta de definição da construção da realidade. Nesta Unidade de Aprendizagem, você vai aprender como se construíram os aportes teóricos conhecidos como "novas sínteses teóricas" da Sociologia. Essas abordagens emergem como fruto do processo de profissionalização da Sociologia e interpretam a relação entre indivíduo e sociedade a partir de uma dinâmica dialética, e não mais em oposição ou como supressão de uma das partes. Você vai ver como o diálogo entre indivíduo e sociedade contribui para a construção da realidade na perspectiva de Berger e Luckmann. Conseguirá definir a abordagem configuracional na obra eliasiana, em que o indivíduo e a sociedade são elementos diferentes, mas interdependentes. Aprenderá, ainda, como se definem os principais conceitos da Sociologia Construtivista Estruturalista de Bourdieu, se tornando apto a compreender as influências do sociólogo francês em dinâmicas sociais contemporâneas. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Descrever a perspectiva integradora entre indivíduo e sociedade na obra “A construção social da realidade”, de Peter Berger e Thomas Luckmann. • Explicar a abordagem configuracional da obra de Norbert Elias. • Definir espaço social, campo, capital, trajetória e habitus do Construtivismo Estruturalista de Pierre Bourdieu. • Desafio Nos termos de Pierre Bourdieu, a violência simbólica é exercida quando capitais culturais exercem ação coercitiva sobre determinados sujeitos sociais, de modo que haja a dominação de alguns agentes e a dominância por outros. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Ciente desse contexto, seu desafio é pensar em uma proposta que conscientize os homens sobre a importância de oferecer ambientes seguros às mulheres, independentemente de local, horário, vestimentas femininas, etc. Imagine que você trabalha em uma companhia de transporte público na cidade onde você mora. De acordo com as características regionais com as quais você convive - clima, organização socioeconômica - que medidas você tomaria para conscientizar os homens sobre a importância da valorização da liberdade e da proteção da mulher? Inove! Defina duas medidas não punitivas, ou seja, que ensinem os homens a não praticarem a violência, e não se foque na construção de dispositivos de punição. Lembre-se: ensinar as mulheres a se protegerem da ação do outro, apesar de necessário em alguns momentos, é uma reafirmação da violência simbólica. Pense em como alertar os homens sobre equilíbrio, respeito e responsabilidade social. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/ac6b714d-776b-4685-8744-4226d7cb84ef/c12b1cd8-d572-49a3-8ce2-e62ae3455d06.png Infográfico As chamadas "sociedades de informação" oferecem novos paradigmas para as relações e para os fenômenos sociais, pois os aportes tecnológicos alteram as formas de diálogo, a noção de tempo e de fronteiras globais. Um dos elementos que ajudam a compreender tais dinâmicas é a abordagem configuracional de Norbert Elias. Por seu trabalho ter sido produzido na primeira metade do século XX, talvez tenha sido um insucesso por descrever e analisar contextos ainda não visíveis nas sociedades daquele momento. Na segunda década do século XX, quase 100 anos depois da publicação de “O processo civilizador”, Elias passa a ser referência para as interpretações das sociedades da informação. Veja mais no Infográfico a seguir: Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/c0d3bb45-0677-468d-9c61-f666632052c2/5c417e49-d316-40e3-bca1-dd5dff6fca2d.png Conteúdo do Livro A proposta de Peter Berger e Thomas Luckman na constituição da Sociologia do Conhecimento conecta as ações entre indivíduos e sociedade. A abordagem configuracional da obra de Norbert Elias aponta indivíduo e sociedade como elementos interdependentes. No capítulo Novas sínteses teóricas da sociologia, da obra Sociologia contemporânea, você aprenderá as teorias fundamentais que expressam os processo de especialização da Sociologia, ou seja, a passagem dos estudos sociológicos clássicos, elaborados por teóricos com outras formações para o trabalho de sociólogos profissionais, que utilizam os aportes clássicos como ponto de partida para a construção de suas próprias visões. Nesse contexto, você verá que a valorização subjetiva do indivíduo se torna um movimento constante, encarado como algo tão importante como as estruturas sociais. Você vai aprender, ainda, os principais conceitos do Construtivismo Estruturalista na obra de Bourdieu e sua importância para a Sociologia dos séculos XX e XXI. SOCIOLOGIA CONTEMPORÂNEA Aline Michele Nascimento Augustinho Novas sínteses teóricas da sociologia Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Descrever a perspectiva integradora entre indivíduo e sociedade na obra A construção social da realidade, de Peter Berger e Thomas Luckmann. Explicar a abordagem configuracional da obra de Norbert Elias. Definir espaço social, campo, capital, trajetória e habitus do constru- tivismo estruturalista de Pierre Bourdieu. Introdução Neste capítulo, você aprenderá como se deram alguns dos desdobra- mentos da sociologia rumo à especialização, ou seja, o distanciamento das teorias clássicas sociológicas para novas abordagens, que podiam dialogar com as propostas anteriores, mas que expressavam novos olhares sobre os fenômenos sociais. Neste contexto, em meados do século XX, há um redirecionamento da ideia de composição e identificação das leis sociais que poderiam reger os comportamentos individuais para a ideia de relacionamento determinante e multicausal entre indivíduo e socie- dade. As abordagens da sociologia do conhecimento, configuracional e construtivista-estruturalista que você conhecerá a seguir são olhares teóricos preponderantes para os problemas e questões sociais do século XX. Ao longo deste texto, você conseguirá descrever a leitura Peter Berger e Thomas Luckman sobre a constituição da sociologia do conhecimento, que conecta as ações entre indivíduos e sociedade, poderá compreen- der e explicar a abordagem configuracional da obra de Norbert Elias, verificando o processo de redescoberta da obra eliasiana e aprenderá sobre os principais conceitos da revolucionária obra bourdieusiana e de sua teoria do construtivismo estruturalista, a partir da identificação dos conceitos de espaço social, campo, capital, trajetória e habitus. A sociologia do conhecimento e suas abordagens: Berger e Luckmann O texto A construção social da realidade, de Peter Berger e Thomas Luckmann, publicado pela primeira vez em 1966, trabalha a perspectiva da sociologia do conhecimento para explicar as relações entre sociedade e indivíduo, passando também por elementos da psicologia social. Os autores trabalham com as perspectivas objetivas e subjetivas da realidade a partir da signifi cação da sociedade pelo indivíduo e dos comportamentos do indivíduo em sociedade. A sociologia do conhecimento proposta por Berger e Luckman (2004) abre uma nova perspectiva para as análises da disciplina, uma vez que os autores se baseiam na dualidade da influênciaentre indivíduo e sociedade para a elaboração do conhecimento e, portanto, para a compreensão da realidade. Essa seria uma dinâmica de dupla causalidade, baseada na concepção mar- xista de infraestrutura e superestrutura. Entre as teorias clássicas, os autores consideram que tanto a concepção durkheiminiana, de que todas as coisas são fatos sociais, quanto a noção subjetiva de construção dos significados da ação, formulada por Weber, aparentemente antagônicas, contribuem para a sua proposta de definição da construção da realidade. De acordo com Berger e Luckmann (2004), a realidade seria construída socialmente, sendo função da sociologia do conhecimento explicar como esse processo ocorre. A realidade seria composta por eventos e fenômenos que aconteceriam independentemente da vontade humana, e os sujeitos “conhece- riam” esses fenômenos, por meio de seus efeitos e consequências, sabendo-se que são reais. A própria definição de conhecimento de realidade em termos sociológicos, para os autores, torna-se uma pauta problemática para a ciência, pois os conceitos poderiam ser distintos a partir da formação cultural dos indivíduos, bem como da intenção na realização de seus atos. Um aluno e um professor, em sala de aula, podem falar sobre um mesmo tópico, porém o conhecimento de ambos os sujeitos é diferente, bem como o emprego dado a ele. Dessa forma, para os autores, “[...] a necessidade da ‘sociologia do conhe- cimento’ está assim dada já nas diferenças observáveis entre as sociedades nos termos daquilo que é admitido como ‘conhecimento’ nelas [...]” (BERGER; LUCKMAN, 2004, p. 13). Ainda segundo os autores, esse segmento da so- ciologia deveria se ocupar de todas as formas de conhecimento estabelecidas, já que o conhecimento seria construído e transmitido em meios e situações sociais. Por isso, a sociologia do conhecimento não poderia ter outra apre- sentação senão a observação e a análise da construção social da realidade – o conhecimento, aprendido e ensinado em práticas e grupos sociais, seria Novas sínteses teóricas da sociologia2 a ferramenta de construção da realidade social em um determinado grupo (BERGER; LUCKMAN, 2004). Conhecimentos diferentes poderiam, assim, fomentar realidades diferentes. O fundamento da realidade, definido como o conhecimento, tem por seu campo de exercício a vida cotidiana, ou seja, as práticas derivadas do co- nhecimento que dirige a vida diária. A vida cotidiana é composta por tudo aquilo de mais próximo do indivíduo, como seu corpo, seu tempo presente, a composição dos elementos do “aqui e agora”. Este é o contexto manipulável pelo indivíduo, o contexto que lhe é acessível, pois, como destacam Berger e Luckman (2004, p. 40), “[...] a realidade da vida cotidiana [...] apresenta-se a mim como um mundo intersubjetivo [...]”. De acordo com essas proposições, a dimensão espacial teria pouca influência sobre a vida cotidiana e sobre a construção da realidade, porém o tempo seria o fator estruturante para a concepção de cotidiano, uma vez que a consciência que dirige as ações diárias é, para os autores, definida temporalmente (BERGER; LUCKMAN, 2004). A estrutura temporal da consciência, que é definida a partir das funções fisiológicas, como, por exemplo, quanto tempo é possível trabalhar até se cansar e ter sono, quanto tempo de vida um ser humano tem, a finitude imposta pela morte, é formada por elaborações intersubjetivas, que têm significados específicos para cada indivíduo, mas que existem inevitavelmente em todo sujeito social. Por outro lado, a estrutura temporal é também coercitiva, mesmo na vida cotidiana. Não é o sujeito quem determina o horário do transporte público que utiliza, nem o horário em que deve chegar à escola ou ao local de trabalho. Portanto, suas práticas cotidianas subjetivas estão condicionadas às segmentações temporais de dispositivos da vida social dos quais não tem nenhum controle, mas aos quais precisa se ajustar. Tipificações sociais também são elementos determinantes para a construção do conhecimento e da realidade social. As experiências dos outros, daqueles que mantêm relações sociais com um indivíduo, podem ter diferentes intensi- dades de influência sobre suas próprias decisões, como exemplo e elemento de comparação. No entanto, quanto mais as estruturas das experiências do outro se assemelham às estruturas do “aqui e agora” do indivíduo, mais próximo ou conectado a elas ele tende a se sentir. Por isso, a proximidade das estru- turas da vida cotidiana tipifica aquilo que se pode relacionar como próximo, semelhante, distante ou diferente. A linguagem humana é um dos processos que contribuem para a cons- trução da realidade, tratando-se de um processo de objetivações sociais dos processos subjetivos em que se estabelece a reciprocidade como fundamento. Por meio de símbolos, fonéticos e gestuais, o sujeito expressa e exterioriza 3Novas sínteses teóricas da sociologia seus pensamentos, ou seja, elementos subjetivos que são interpretados pelo ouvinte, que responde à comunicação. Em conjunto, os homens instituem as categorias simbólicas que estruturam a linguagem, e a linguagem também passa a formar o conhecimento e indicar comportamentos em seu exercício de formulação ou interpretação. Assim, Os homens em conjunto produzem um ambiente humano, com a totalidade de suas formações sócio-culturais e psicológicas. [...] Assim como é impossível que homem se desenvolva como homem no isolamento, igualmente é impos- sível que o homem isolado desenvolva um ambiente humano. O ser humano solitário é um ser no nível animal. [...] Logo que observamos os fenômenos especificamente humanos entramos no reino animal. A humanidade específica do homem e sua socialidade estão inextricavelmente entrelaçadas (BERGER; LUCKMANN, 2004, p. 75). Em conjunto, as ações humanas se tornam sociais, de modo que se es- tabelecem categorias simbólicas que organizam fenômenos, como o tempo, que é organizado entre passado, presente e futuro, a partir da vivência e da interpretação dos sujeitos, visto que, fora do contexto interpretativo humano, o tempo não possui categorizações. O tempo se torna segmentado a partir das categorias simbólicas que o definem mais próximo ou mais distante do “aqui e agora”, formado por uma lembrança (passado) ou uma projeção (futuro). A preocupação de Berger e Luckman (2004) era de formular uma ex- posição do papel do conhecimento para as sociedades em sua formação, estruturação e manutenção, salientando que o conhecimento não é intangí- vel pelas subjetividades, mas formado também por elas. O conhecimento moldaria também as práticas sociais e, por isso, teria uma relação de dupla causalidade entre indivíduos e sociedade – é formado por elementos objetivos, estruturalmente externos, e elementos subjetivos, estruturados internamente pelos indivíduos. Ao fazê-lo, mostraram ainda como as teorias clássicas podem ser estudadas e utilizadas a partir de outros olhares, fomentando novas abordagens para a disciplina. Berger e Luckman (2004) fazem parte do contexto em que a sociologia francesa, derivada dos estudos de Durkheim e Weber, era preponderante nas abordagens dos fenômenos sociais. Berger e Luckman (2004) mostram que a perspectiva francesa pode ser associada às leituras marxistas e até ao positivismo (na medida em que eles também destacam um conjunto de práticas para a interpretação dos fenômenos sociais, como o fizeram os positivistas). A sociologia do conhecimento proposta pelos autores expõe uma relação dialética entre indivíduo e sociedade, expressa na múltipla influência entre Novas sínteses teóricas da sociologia4 pensamentos e comportamentos subjetivos individuais e as estruturas sociais. Com isso, salientam, ainda, que a especialização da sociologia enquanto ciência necessita da exploração de esferas sociais de maneira sistematizada, como a sociologia da religião, por exemplo, uma vez que há áreas ou esferas sociais com estruturas particularesem que os conheci- mentos explicitados são construídos e interpretados de maneira diferente quando comparados a outras estruturas sociais. Estudante, preste muita atenção à definição teórica dos autores, que pode ser confun- dida com outras abordagens, se baseada no senso comum. A sociologia do conhe- cimento proposta por Berger e Luckmann (2004) trata da interação entre indivíduo e sociedade em diferentes estruturas sociais, fatores que levam a diferentes possibilidades de construção do conhecimento; a nomenclatura pode levar a confundir seus preceitos com a análise do conhecimento científico enquanto produção intelectual. A abordagem configuracional da obra de Norbert Elias A década de 1960 ofereceu diferentes possibilidades empíricas com as novas sínteses sociológicas, ou seja, com o aprimoramento dos profi ssionais da sociologia, a geração de cientistas que se formou academicamente na área, e desenvolveu novas teorias e olhares a partir da referência das teorias socio- lógicas clássicas. A chamada “Escola de Frankfurt”, corrente de teorias sociológicas de pesquisadores alemães, tomou proporção entre as décadas de 1940 e 1960, embora tenha se iniciado ainda no início do século XX. A Escola de Frank- furt não refutava a sociologia francesa de Weber e Durkheim, mas elabora perspectivas de análises que iam além da estruturação do comportamento social pela sociedade ou da significação subjetiva das ações sociais. Uma das vertentes dessa escola de conhecimento é retomada a partir da produção resgatada de Norbert Elias, sociólogo alemão que elaborou parte da leitura identificada como “a abordagem configuracional”, que eliminava a antítese entre indivíduo e sociedade na determinação dos comportamentos e fenômenos sociais, pautada na leitura conjunta das influências e nas possibilidades do exercício do poder ao longo dos processos civilizatórios. 5Novas sínteses teóricas da sociologia Elias é, no contexto contemporâneo, um dos sociólogos mais prestigiados, devido à sua contribuição ao arcabouço teórico da disciplina, no entanto, foi reconhecido tardiamente em sua vida. Sua principal obra, O processo civilizatório, teve grande influência entre sociólogos ingleses e franceses na década de 1970, mas sua primeira publicação, em alemão, ocorreu ainda na década de 1930. Entre os sociólogos brasileiros, Elias se torna vastamente conhecido apenas na década de 1990, ou seja, há um hiato de 30 anos entre a primeira e a segunda publicação da obra e o reconhecimento de seu trabalho. Para Elias (1996), conflito e consenso seriam dois polos interdependentes, isto é, precisariam um do outro para existir, e o conflito estaria ligado a ca- racterísticas emocionais e subjetivas dos sujeitos. O conflito estaria presente na natureza humana quando em contato com outras subjetividades, ou seja, o conflito emerge quando os indivíduos estão em sociedade. Já o consenso, a necessidade de manter o equilíbrio das relações entre interpretação e expressão – desde que não estivessem em jogo as temáticas ligadas ao poder – emergiria na mesma proporção. As estruturas sociais impedem, por seus dispositivos de regulação, que o conflito seja expresso descontroladamente. Quando isso, por ventura, ocorresse, se daria na forma de violência. Por isso, em sociedade, os sujeitos definiriam maneiras de expressar o conflito de forma ordenada e controlada. As “mímesis” – imitação de dinâmicas e sentimentos da vida real, em dinâmicas controladas – seriam construídas com a intenção de reproduzir situações que permitam a emergência de emoções e o conflito controlado, como acontece, segundo Eias, nos esportes (SOUZA; STAREPRAVO; MARCHI JUNIOR, 2014). O esporte proporcionaria uma dinâmica social de lazer em que seria possível equilibrar as emoções expostas como tensão ou conflito em busca do consenso: há disputa, tensão na busca do resultado, conflitos entre competidores, mas consenso quanto às regras, à duração do jogo. Para Elias (1996) e para os leitores de seus trabalhos, os chamados eliasianos, o equilíbrio emocional entre conflito e consenso observado no esporte é uma metáfora para o que acontece em outros campos da vida social, em que as subjetividades, voluntária e coercitivamente, equilibram a expressão das emoções na busca do consenso, mas não as sufocam ou eliminam. A abordagem configuracional da obra de Elias (1996) se baseia nas leituras de como elementos como o poder, as emoções, o conhecimento e a história imprimem marcas no comportamento social, pautado constan- temente como movimento entre conflito e consenso. Elias (1996) chega a essa configuração teórica ao analisar a civilização europeia e a trajetória dos comportamentos e interações sociais das etnias e sociedades europeias Novas sínteses teóricas da sociologia6 a partir da Idade Média. Em O processo civilizatório, Elias (1996) avalia os costumes, as dinâmicas políticas e a construção de poder, mas, mais atentamente, descreve os comportamentos cotidianos e como as emoções imprimem significado e direção aos comportamentos diários, bem como às estruturas rituais cotidianas, como as regras de etiqueta, por exemplo, que controlavam a forma de os sujeitos sentirem as emoções, ou ao menos a maneira como as expressavam. Os anos de domínio da sociologia francesa às práticas sociológicas fizeram a obra de Elias (1996), focada na abordagem da ação individual (especialmente pelas emoções), ser ignorada e criticada. Houve ainda críticas à interpretação de que o controle de emoções e comportamentos de desagrado à pessoa ou que desagradavam outros elementos da sociedade era uma espécie de “evolução”, e sua produção foi, por algumas décadas, associada de forma pejorativa à ideia de darwinismo social, ou seja, de melhoramento de grupos sociais por meio da adaptação de hábitos, comportamentos e culturas, que levariam algumas sociedades a estados mais “avançados”. Essa ideia foi descartada da década de 1970, quando o foco no comportamento individual e a identificação da sociedade civil como ator social emergem. Nesse contexto, Elias foi considerado um sociólogo à frente de seu tempo, que conseguiu se desvencilhar das abor- dagens materialistas-deterministas e funcionalistas, oferecendo perspectivas interessantes aos sociólogos que trabalhavam com a ideia de organização de redes e ação coletiva no fim do século. Aprofunde o seu conhecimento sobre a abordagem configuracional eliasiana por meio de uma leitura sobre as particularidades das sociedades do século XXI “A abordagem configuracional: uma estratégia de pesquisa para enfrentar os múltiplos desafios das sociedades da informação e do conhecimento” (SPENILLO, 2007). O construtivismo estruturalista de Pierre Bourdieu A abordagem sociológica do francês Pierre Bourdieu emerge na década de 1960, dialogando com abordagens fi losófi cas, teóricos frankfurtianos e componentes da escola de sociologia francesa. Refl etindo sobre as leituras propostas pelas te- 7Novas sínteses teóricas da sociologia orias sociológicas clássicas, Bourdieu não acredita no determinismo coercitivo das estruturas sociais presentes nas leituras funcionalistas, nem na completa composição subjetiva das ações sociais. Para ele, a sociologia contemporânea deveria se pautar em uma leitura que não colocasse o indivíduo e as estruturas como polos separados e opostos, nem como elementos preponderantes sobre os outros, mas sim como elementos cujas ações podem, ao mesmo tempo, ser estruturadas e estruturantes, ou seja, ser moldadas e moldar outras ações, confi gurando o estruturalismo construtivista, ou o construtivismo estrutura- lista: sim, existem dinâmicas que moldam os comportamentos individuais, promovidas pelas estruturas sociais, mas existem movimentos subjetivos que alteram as estruturas, especialmente quando derivados das lutas sociais. Dessa forma, não haveria a liberdade absoluta pautada nas subjetividades individuais, nem a determinação completa do comportamentopelas estru- turas, mas sim uma complexa rede onde as ações são socializadas por meio do movimento e do trânsito de corpos sociais, os indivíduos, que adquirem, reproduzem ou alteram o significado das ações a partir do contexto de poder que os cerca. O poder é o elemento principal na análise da ação individual bourdieusiana, e, por meio dele, pode-se compreender as formas de dominação de elementos, indivíduos e classes sociais. A constituição de relações entre indivíduo e sociedade a partir do poder, que permite dominar ou ser dominado, passa pela significação dos espaços e dos modos em que indivíduo aprende, expressa, valoriza ou relembra suas ações. A leitura desse processo na so- ciologia bourdieusiana passa ela definição dos conceitos de campo, habitus, capital, poder e violência simbólica e trajetórias de vida. O campo, para Bourdieu (2011), é o espaço simbólico onde se empreendem e se significam as ações humanas, a partir de um código de valores, inclusive as lutas sociais e o exercício da dominação e da violência simbólica. É onde elementos constituintes dos agentes sociais, como biografias, trajetórias e habitus, expressam o alcance de seus capitais simbólicos e onde se exerce o poder. Aqui, estão alocadas as regras sociais existentes na sociedade em questão. No campo, existem os “locus”, espaços específicos onde se desen- volvem lutas e disputas sociais. O habitus (BOURDIEU, 2004, 2011) um conjunto de sistemas que direciona a ação, definido a partir das influências de estruturas e da subjetividade do agente social. É um comportamento que, ao mesmo tempo, expressa as in- fluências da sociedade e da subjetividade individual, e seu exercício também interioriza no agente as referências sociais externas. O habitus não é uma ação social determinada, como uma lei, que obriga ou coíbe algo, mas sim uma consciência sobre qual tipo de ação pode ou deve ser tomada em situações Novas sínteses teóricas da sociologia8 sociais específicas. Por exemplo, o conhecido “jeitinho brasileiro”, a ideia de que, apesar de regras e leis, é possível suplantá-las, dar a volta, encontrar uma maneira de realizar algo mesmo que não esteja absolutamente dentro das regras ou do prazo. Esse é um comportamento cultural local que não costuma acontecer em outras nações. É um elemento não visível, intangível, mas que norteia comportamentos. Se alguém estaciona o carro na porta da garagem de alguém, é possível que pense “é rapidinho!”; “eu só vou ali e já volto”. Se é repreendido pela ação, pensa em como contorná-la: “vou explicar que fiquei aqui apenas 15 minutos e tudo ficará bem”. O capital (BOURDIEU, 2011, 2004) composto por elementos que podem ser adquiridos e que configuram a quantidade e a intensidade do poder do indivíduo em uma sociedade estratificada, ou seja, dividida em classes sociais. Bourdieu divide o capital entre capital econômico, capital social e capital cultural. O exercício de poder fundamentado em qualquer um desses três tipos de capitais é chamado de capital simbólico. O capital econômico é aquele promovido pelas possibilidades sociais geradas pelo acúmulo financeiro de dinheiro. Lembre-se de que apenas acumular riqueza não se configura como capital econômico, mas sim o exercício de privilégios, poder e domínio sobre outros indivíduos a partir das possibilidades ofertadas pelo capital econômico. O capital cultural é aquele adquirido pela educação formal e pela educação erudita, ou seja, formado pelo conhecimento adquirido em instituições de ensino, podendo ser utilizado para trânsitos sociais. O capital cultural pode, ao mesmo tempo, ser instrumento de libertação e de dominação e exercício de poder. O controle do acesso ao capital cultural mantém poucos agentes circulando nos espaços privilegiados, ao passo que seu amplo acesso promove um movimento na direção do equilíbrio social em um contexto de estratificação. O que Bourdieu explica é que pessoas sem o capital cultural são mais facilmente dominadas nos campos sociais, e que a aquisição de capital cultural pelas classes mais baixas permite mais trânsito social, diminuindo a violência simbólica daqueles que ocupam os espaços mais altos entre as classes sociais. O capital social é aquele exercido por meio de privilégios adquiridos pelo status social, como acessos e trânsitos sociais adquiridos pelo sobrenome de uma família, por exemplo. Para Bourdieu (2004) as trajetórias sociais são os movimentos, os tra- jetos, empreendidos por indivíduos, possibilitados por seu capital simbólico ou coibidos pela violência simbólica advinda da luta de classes na sociedade estratificada. São compostas por biografias, histórias de vida individuais. Segundo a óptica do sociólogo francês, as trajetórias sociais são conjuntos de feixes biográficos que se movimentam em um mesmo sentido por possuírem 9Novas sínteses teóricas da sociologia capitais simbólicos e sofrerem violências simbólicas semelhantes. Por isso, a sociologia de Bourdieu não trata de trajetórias individuais, mas sim de como as biografias individuais se apresentam no conjunto de trajetórias. As trajetórias sociais indicam, ainda, os movimentos empreendidos pelas classes sociais como produto das lutas sociais. A contribuição bourdieusiana para a sociologia contemporânea ainda é preponderante, e seus conceitos são constantemente retomados por sociólogos em todas as segmentações da disciplina. Saiba mais sobre a definição e as conexões entre o capital simbólico e a manutenção da estratificação das classes sociais por meio da violência simbólica por meio do texto de Bourdieu (2003) “Capital simbólico e classes sociais”. BERGER, P.; LUCKMAN, T. A construção social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento. 24. ed. Petrópolis: Vozes, 2004. BOURDIEU, P. O poder simbólico. Lisboa: Edições 70, 2011. BOURDIEU, P. Coisas ditas. São Paulo: Brasiliense, 2004. ELIAS, N. O processo civilizador: uma história de costumes. Rio de Janeiro: Zahar, 1996. v. 1. SOUZA, J.; STAREPRAVO, F. A.; MARCHI JUNIOR, W. A sociologia configuracional de Norbert Elias: potencialidas e contribuições para o estudo dos esportes. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Porto Alegre, v. 36, n. 2, p. 429-445, abr./jun. 2014. Leituras recomendadas BOURDIEU, P. Capital simbólico e classes sociais. Novos Estudos CEBRAP, v. 96, p. 105-115, jul. 2003. SPENILLO, G. M. D. A abordagem configuracional: uma estratégia de pesquisa para enfrentar os múltiplos desafios das sociedades da informação e do conhecimento. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE SOCIOLOGIA, 13., 2007, Recife. Anais... Recife: [s.n.], 2007. VARAJÃO, J. Espaço social: reflexão, representação, transformação. Porto: Faculdade de Arquitetura do Porto, [2010?]. Novas sínteses teóricas da sociologia10 Conteúdo: Dica do Professor A abordagem sociológica construtivista oferece um novo arcabouço para se pensar as desigualdades sociais, apontando instituições, como a escola, como responsáveis pela manutenção do problema. Entenda melhor na Dica do Professor. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Audiodescrição da Dica do Professor: Clique aqui https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/a31479499d48831aca975c8f378d1ac9 https://publica.sagah.com.br/publicador/objects/attachment/857152205/DICANovassntesestericasdaSociologia.docx?v=1395645945 Exercícios 1) Peter Berger e Thomas Luckmann contribuem para a definição teórico-metodológica da segmentação chamada “Sociologia do Conhecimento”, especialmente por meio da obra “A Construção Social da Realidade”, publicada pela primeira vez em 1966. Nesse texto, qual é o fenômeno social de interesse dos autores? A) Explicar a dinâmica de relacionamento nas cortes europeias, que construía padrões de aceitabilidade entre iguais e fortalecia traços da identidade. B) Explicar as razões e as consequências da luta de classes fora da teoria marxista,expondo uma perspectiva desassociada do materialismo histórico. C) Explicar a relação dual estruturada e estruturante das regras sociais, que moldam o indivíduo e são por ele reproduzidas, em uma relação impossível de transcender. D) Explicar as relações entre sociedade e indivíduo na produção de conhecimento para a compreensão da realidade. E) Explicar as regras do método sociológico para o fortalecimento da Sociologia como ciência. 2) A construção da realidade definida por Berger e Luckmann deriva das categorias interpretativas elaboradas pelo sujeito, que decodifica os eventos à sua volta, os conhece e, por isso, eles existem em sua perspectiva. Dado esse cenário, por que não se pode dizer que essa faceta sociológica se dá inteiramente pautada nas subjetividades? A) Embora seja fruto de uma junção de aportes individuais e sociais, é sim possível dizer que a elaboração da realidade se dá a partir de categorias inteiramente subjetivas, porque sem o indivíduo não há interpretação de eventos e construção da realidade. B) Não podemos dizer que a interpretação de fenômenos e a construção da realidade ocorrem de forma unilateral pelo indivíduo, porque esse processo necessita de categorias cognitivas construídas socialmente. C) Não podemos afirmar que a construção da realidade seja subjetiva porque as subjetividades não existem. Tudo é um fato social e as estruturas sociais imprimem as marcas que os indivíduos usam para interpretar os fatos. D) O processo de interpretação de fenômenos sociais pode ser subjetivo, mas as categorias que permitem a construção do conhecimento e da realidade são determinadas pelo condicionamento histórico. E) A interpretação da realidade é sim completamente subjetiva, porém a realidade não pode ser, já que acontece externamente aos indivíduos. 3) O sociólogo Norbert Elias produz um extenso estudo sobre comportamento, identidade e a relação desses dois fenômenos com a cultura e o contexto social. Qual a delimitação de sua abordagem teórica? A) Elias é o primeiro etnólogo reconhecido, já que observa de forma participante os hábitos e as construções culturais cotidianas das cortes europeias. B) Elias define a chamada abordagem configuracional, que entende que indivíduo e sociedade são categorias diferentes, mas interdependentes. C) Elias defende a chamada abordagem configuracional, que entende que as configurações históricas determinam as construções simbólicas utilizadas para a construção social da realidade. D) Elias é o primeiro sociólogo culturalista, já que estuda as perspectivas secundárias dos fenômenos sociais, como regras de etiqueta e de apresentação. E) Elias é o sociólogo que influencia a geração da década de 1970, como Castells, a identificar o conceito de redes de relacionamento e construir o termo “sociedade em rede”. 4) Habitus é um conceito que define práticas e comportamentos sociais na perspectiva Construtivista Estruturalista de Pierre Bourdieu. Como o habitus, enquanto construção conceitual, compreende as relações entre indivíduo e sociedade? A) Por meio da dinâmica mútua como componente “estruturante” e “estruturado”, em que as dinâmicas sociais se definem na ação empreendida dentro do campo social. B) Por meio da luta de classes, dinâmica que fomenta o desenvolvimento da história e altera os padrões de relacionamento e as dinâmicas sociais. C) Por meio da concepção culturalista, em que o habitus é fomentado por construções cognitivas derivadas da experiência pessoal, compreendida por meio das biografias. D) Por meio das trajetórias de vida desenvolvidas por grupos sociais com práxis semelhantes, que se movimentam pelo campo social na mesma direção. E) Por meio do processo de construção e de compreensão da realidade. 5) Como pode ser definido o conjunto de leituras sociológicas e abordagens teóricas chamado de “novas sínteses sociológicas”? A) Como um movimento de especialização da Sociologia, que altera a dinâmica de compreensão dos eventos da oposição entre indivíduo e sociedade para a dialética entre os dois agentes. B) Como um movimento intelectual que nega as referências teóricas clássicas - como as de Marx, Weber e Durkheim -, elaborando novas teorias que seriam mais adequadas aos estudos dos fenômenos sociais. C) Como um movimento social que demandava um posicionamento político dos especialistas em Sociologia sobre os problemas sociais e deficiências estatais que eles mesmos estudavam. D) Como um movimento de especialização da sociologia, em que intelectuais treinados a partir das teorias sociológicas clássicas reproduzem as teorias aprendidas, alterando somente o contexto observado devido a movimentos históricos. E) Como um movimento de readequação das práticas sociológicas orientadas pelos estados democráticos em oposição aos estados ditatoriais que emergiram no Cone Sul, a partir da década de 1950. Na prática As teorias sociológicas podem ser aplicadas em contextos cotidianos de diferentes formas. Às vezes, há a intenção de transpor uma teoria para o contexto social a fim de construir/reconstruir práticas sociais e levá-las a novos direcionamentos. Em outras situações, a aplicação se dá com uma mudança de olhar, sem necessariamente estar ligada às teorias, mas que comprovam os pontos que elas buscavam explicar. Veja um exemplo prático a partir de uma abordagem sociológica inovadora: Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/3b7d6834-6e3f-42ae-a4cd-29937e4ea88d/ce0065a2-d782-4579-b353-430b7a5d90fc.jpg Saiba mais Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Pierre Bourdieu, o investigador da desigualdade Para o sociólogo francês, a Sociologia era mais que uma ciência, mas uma responsabilidade do pesquisador. Por isso, ao identificar questões sociais, acreditava que era tarefa do sociólogo trabalhar não apenas para sua compreensão, mas para sua solução. Assim, se dedicou a questões como as desigualdades sociais. Acesse e entenda mais sobre a postura do pensador. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. A teoria de Norbert Elias: uma análise do ser professor No presente artigo, conforme o entendimento de que modelos teóricos subsidiam a compreensão de fenômenos investigativos, objetivou-se elucidar os conceitos da teoria sociológica de Norbert Elias, considerando-se que esta é uma excelente fonte de análise para se compreender o universo do ser professor, apesar de o autor não abordar diretamente questões relacionadas ao campo da educação. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Indivíduo e sociedade Diferentes, mas inseparáveis? O artigo do sociólogo Thiago Mello apresenta as formas de diálogo e de interação entre indivíduo e sociedade em contextos contemporâneos. http://novaescola.org.br/conteudo/1826/pierre-bourdieu-o-investigador-da-desigualdade https://www.scielo.br/j/ep/a/gfRGdFVTv784PHVf5HZ6JFy/?lang=pt Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. http://educacao.globo.com/sociologia/assunto/conflitos-e-vida-em-sociedade/individuo-e-sociedade.html