Prévia do material em texto
GUERRIERO, S. . Antropologia da religião. In: PASSOS, João Décio; USARSKI, Frank. (Org.). Compêndio de ciência da religião. 1ed.São Paulo: Paulinas; Paulus, 2013, v. 1, p. 243-256 Antropologia da Religião Silas Guerriero A religião sempre esteve presente como tema nos estudos antropológicos. Não existe até os dias atuais uma definição clara do que se compreende por antropologia da religião, a começar pela própria singularidade ou pluralidade da temática em foco. Para uns, não é possível falar em antropologia da religião no singular, pois essa unicidade indicaria a ideia de busca de uma essência da religião. Para outros, essa é uma questão menor. É por antropologia da religião que a disciplina ficou conhecida e não se faz exigência que o tema permaneça no singular ou no plural. No entanto, essa questão já aponta para um debate bastante sério que diz respeito ao objeto próprio. Afinal, qual o conceito de religião que se está utilizando? A antropologia se caracteriza pelo estudo do outro, do contato com a alteridade. Parceira da sociologia, insere-se no campo das disciplinas auxiliares da ciência da religião no que tange à dimensão sociocultural do fenômeno religioso. Os estudos de religião e especificamente a ciência da religião utilizam-se dessas disciplinas como instrumentos de compreensão de um dos componentes fundamentais da religião, sua conotação social e cultural. Afinal, não há religião que não esteja inserida numa sociedade e num ambiente simbólico e cultural. Além do mais, não há sociedade ou cultura que não apresente algum tipo de sistema de crenças religiosas. Para a ciência da religião, o fenômeno religioso não se limita aos aspectos sociais e culturais, mas existe uma compreensão que sem lhes dedicar um olhar apurado não será possível obter um entendimento global do fenômeno. No interior da antropologia o estudo da religião constitui uma temática em si, comparável a outras em importância como a do parentesco ou a das estruturas sociais, abrangendo uma complexidade no interior das suas próprias fronteiras. Essa complexidade, para a antropologia, se refere ao conjunto da dimensão social dos agrupamentos humanos ou ainda à complexidade da espécie humana, sendo a religião um dos componentes constituidores de ambas. Nesse sentido, a antropologia dá as costas à ciência da religião, prescindindo desta. Não se trata de definir qual delas é dependente e qual é matriz. O que nos importa reter é que a antropologia auxilia a ciência da religião no que se refere à discussão dos aspectos simbólicos que envolvem o fazer religião no interior das sociedades humanas. Tem por excelência o estudo de elementos básicos das religiões como o ritual, a mitologia e o sistema de crenças em geral. GUERRIERO, S. . Antropologia da religião. In: PASSOS, João Décio; USARSKI, Frank. (Org.). Compêndio de ciência da religião. 1ed.São Paulo: Paulinas; Paulus, 2013, v. 1, p. 243-256 As origens da antropologia da religião Em suas origens, a preocupação da antropologia com a religião, ou algo que naquele momento não se denominava religião, mas se aproximava do campo dos sistemas de crenças, não era tão nobre assim. A antropologia nasceu como fruto da exigência de compreensão sobre o outro, aquele que não era ocidental. À medida que a sociedade europeia avançava por sobre os outros povos e por outros continentes, houve a necessidade de compreender quem era aquele outro, que naquele momento já era visto como um ser humano, mas que em nada se assemelhava a um civilizado. Fruto do processo colonialista, a antropologia representou o esforço de empreendimento de um olhar científico sobre os outros povos. A grande indagação que moveu, e ainda move, a nascente ciência era a de compreender a imensa diversidade humana apesar da unidade biológica da espécie humana. Esse outro, seja ele um aborígene da Oceania, um negro do interior da África ou um índio da Amazônia, tinha de ser compreendido como um ser humano, dotado das mesmas condições que caracterizavam toda a espécie. Para alguns pais fundadores dessa ciência, o que mais chamava a atenção na comparação desses outros com o europeu branco, cristão e civilizado, era o fato de haver um enorme fosso no universo de compreensão e visão do mundo e nos hábitos um tanto exóticos daqueles nativos. Não se reconhecia nessas crenças uma verdadeira religião. Religião, afinal, seriam somente as monoteístas, reveladas e denominadas religiões do livro. No máximo poderiam ser incluídas as grandes tradições do Oriente, como as religiões da Índia, da China e do Japão. Os povos tidos como primitivos eram detentores, dizia-se, de uma mentalidade primitiva, que enxergava feitiçarias e animismos em todos os cantos. O estudo dessas crenças ditas primitivas entrou na antropologia como forma de diferenciação em relação ao modo de pensar considerado evoluído e civilizado e não como uma temática eleita com distinção. A antropologia da religião não nasceu como área específica, mas por vias paralelas como um esforço de compreensão das diferenças entre os povos. Pensar o diferente passava por pensar as diferentes mentalidades, fossem essas tidas por animista, mágica, mítica ou até pré-lógica. Dois dos mais eminentes fundadores da antropologia reservaram lugar especial à religião em suas análises. A preocupação de fundo de ambos era, justamente, perceber como esses povos primitivos podiam pensar de modo tão distante da maneira dos ocidentais. Tratava-se de perceber a espécie humana por meio de uma unidade psíquica que GUERRIERO, S. . Antropologia da religião. In: PASSOS, João Décio; USARSKI, Frank. (Org.). Compêndio de ciência da religião. 1ed.São Paulo: Paulinas; Paulus, 2013, v. 1, p. 243-256 ligaria o primitivo ao civilizado. O que os distinguiria seria justamente o estágio de desenvolvimento das ideias. Enquanto uns pensavam ainda de maneira animista ou mágica, outros já teriam alcançado um estágio superior de desenvolvimento e de compreensão da realidade, sabendo separar a ciência, voltada às coisas materiais, da religião, voltada à dimensão da relação com o criador e a verdade última. Para Edward Tylor (1832-1917) o animismo seria universal e o primeiro estágio do processo evolutivo daquilo que viria a se tornar a religião.1 Embora sem a crença em deuses, o primitivo atribuía os fenômenos naturais à intervenção de espíritos benevolentes ou malévolos. Para o animismo, o mundo estaria povoado por seres que habitam os objetos, as plantas, os animais e os homens. As experiências da doença, da morte e, sobretudo, dos sonhos, estariam nas origens da noção de alma. Isso levaria o primitivo a imaginar que existe um ser, dotado de uma substância espiritual, que estaria além do corpo físico. Com a evolução das culturas, o animismo daria lugar ao politeísmo e depois ao monoteísmo. É famosa a definição de religião elaborada por Tylor. Para esse britânico pioneiro, religião é a crença em seres sobrenaturais ou espiritualizados. Para ele, num gradiente evolutivo haveria desde a crença animista até a formulação mais sofisticada do divino. Essa definição básica de religião foi muito criticada, desde as formulações de Durkheim2 até as de muitos antropólogos atuais. No entanto, não são poucos os que retomam constantemente essa proposição básica, embora certamente reformulada e sem as conotações de cunho evolucionista que a original de Tylor carrega, como é o caso da posição das ciências cognitivas, que prefere substituir a noção de seres espirituais por agentes sobre-humanos. James George Frazer, outro dos grandes heróis civilizadores da antropologia, afirma ser a magia uma forma primitiva de ciência, mas que fracassou pela sua precocidade. Esse fracasso da magia em atingir os resultados materiais esperados leva o primitivo a desenvolver a religião. Frazer estabelece uma sequência evolutiva que vai da magia, passa pela religiãoe atinge o ápice na ciência moderna.3 Ele percebe a superstição como um desvio intelectual que desvirtuava o pensamento lógico. Frazer vê no feiticeiro alguém que acreditava compreender as leis que regem o mundo e assim controlar os fenômenos da natureza. Da mesma forma que a ciência, a magia também trabalha a partir da associação de ideias, numa relação causa e efeito. Se para Frazer a magia utiliza de maneira errônea o princípio de associação de ideias, pode então ser considerada como uma falsa ciência. Para ele, a magia é a primeira forma de pensamento humano. O primitivo procura controlar, por 1 Cf. E. Tylor, Primitive culture. 2 Cf. E. Durkheim, As formas elementares da vida religiosa. 3 Cf. J.G. Frazer, O ramo de ouro. GUERRIERO, S. . Antropologia da religião. In: PASSOS, João Décio; USARSKI, Frank. (Org.). Compêndio de ciência da religião. 1ed.São Paulo: Paulinas; Paulus, 2013, v. 1, p. 243-256 seus próprios meios, as forças da natureza. Após perceber que não consegue utilizar essas forças, abandona a magia para se dedicar à adoração de seres divinizados e superiores. Passa, assim, a uma etapa mais evoluída que, por meio da prece e do sacrifício em nome desses deuses, procura o caminho da salvação. Este seria o momento da religião para Frazer. Quando, enfim, percebe os limites da religião, o ser humano volta para o princípio da causalidade, mas dessa vez não mais de maneira mágica, mas sim experimental e científica. Desta forma, atinge o grau mais evoluído, ou seja, a moderna ciência da civilização ocidental. Frazer exerceu papel fundamental na legitimidade dos estudos de religião. Sua influência não se limitou ao meio acadêmico, mas teve forte impacto também entre os religiosos e na população em geral. Enfatizou a erudição e o estudo comparativo de civilizações antigas e trouxe para um público mais amplo o gosto pela busca das origens da religião. Nesses dois casos vemos que a religião, ou mesmo a magia, ganha espaço não como uma temática central, mas como instrumento de compreensão das formas mais primitivas e arcaicas da humanidade. A preocupação com as origens gerou muita especulação sobre qual teria sido a primeira religião da humanidade. Várias foram as escolhidas. Falou-se em fetichismo, baseado em feitiçarias, ou ainda em animismo ou o totemismo, visto que o culto ao totem, ou ancestral, assemelhava-se a um culto aos deuses. Embora essas teses tenham sido há muito tempo refutadas pela antropologia, permaneceram impregnadas no senso comum e no imaginário da nossa sociedade. De certa maneira influenciaram nossos modelos de pensamento sobre a religião dos outros. Esse alvorecer da ciência do antropos não foi o de uma antropologia da religião de forma exclusiva. Tanto Frazer como Tylor, assim como outros daquela época e das seguintes, preocuparam-se com vários outros elementos das sociedades estudadas. Para muitos antropólogos não se pode falar numa antropologia da religião propriamente dita, pois a antropologia se ocupa de várias temáticas. O que caracterizaria essa ciência seria o estudo da espécie humana em geral ou daquilo que ela carrega de especificidade, ou seja, a própria diversidade de comportamentos. Em última instância, não se poderia separar a antropologia da religião (ou das religiões) de outras antropologias, uma vez que essa ciência tem por pressuposto o estudo da cultura na sua totalidade, envolvendo aí aspectos materiais, práticas, regras, costumes, economia, política e também crenças, mitos, ritos e, por assim dizer, religião. O estudo do universo religioso de um povo é justificado pelo que pode contribuir para a compreensão dessa cultura como um todo. GUERRIERO, S. . Antropologia da religião. In: PASSOS, João Décio; USARSKI, Frank. (Org.). Compêndio de ciência da religião. 1ed.São Paulo: Paulinas; Paulus, 2013, v. 1, p. 243-256 A originalidade do olhar antropológico sobre as religiões Vários especialistas de diferentes áreas estudam, escrevem e falam sobre religião. Qual seria, portanto, a originalidade da abordagem antropológica sobre todas as demais? Costuma-se afirmar que o que caracteriza a antropologia não é seu objeto de estudo, a cultura ou as práticas e valores, mas uma maneira particular de olhar sobre as coisas humanas. Independentemente da abrangência do olhar antropológico, e aqui podemos incluir as mais diferentes aproximações, temos de levar em conta que se trata de uma disciplina teoricamente orientada. Ao longo de sua história a antropologia construiu diferentes teorias que com rigor acadêmico permitiram olhar para o fenômeno religioso de maneira bastante acurada. Essas diferentes teorias contribuíram, de maneira significativa, para uma melhor compreensão da religião, cada uma delas tomando significativo cuidado com os termos e conceitos utilizados.4 Mas a distinção mais significativa fica por conta dos métodos de estudo e dos tipos de religiões que foram sendo estudadas e que acabaram contribuindo para a construção das teorias apontadas. O trabalho de campo, a busca do “ponto de vista do nativo”, o olhar relativizador e o distanciamento são elementos essenciais desses métodos. Para uma antropologia que não segue mais os pressupostos evolucionistas preconizados pelos iniciadores, não existe uma religião mais verdadeira que outra. Nesse sentido, é o olhar do antropólogo que permite penetrar nas redes de significados das diferentes culturas e perceber os sentidos intrínsecos que cada sistema religioso possui. Não é fácil apagar a herança evolucionista. Permanece até hoje, sem seu cunho etnocêntrico, quando busca explicações mais amplas, genéricas, a partir de grandes comparações, sem se ater a particularidades muito específicas. Da busca de uma origem da religião permanece a dívida da procura, num amplo sentido, por uma essência ou natureza da religião. A negação dessas origens, por sua vez, trouxe a ênfase nos particularismos, nas negações das grandes comparações e também na busca das funções dos elementos culturais olhados numa totalidade circunscrita do grupo estudado. Esse olhar só poderia ser o das particularidades empíricas. Na antropologia da religião, como preferem os que tendem a pensar numa natureza religiosa do ser humano, ou na antropologia das religiões, para aqueles em que só é possível enxergar os aspectos empíricos ou as particularidades, qualquer teorização mais geral só ocorre a partir de infindáveis casos concretos. De acordo 4 R. Winzeler, Anthropology and religion, p. 13. GUERRIERO, S. . Antropologia da religião. In: PASSOS, João Décio; USARSKI, Frank. (Org.). Compêndio de ciência da religião. 1ed.São Paulo: Paulinas; Paulus, 2013, v. 1, p. 243-256 com Obadia, existem alguns postulados de base que servem a todos.5 Trata-se de um empirismo que rompe com qualquer perspectiva fenomenológica, não no que ela pode trazer de reflexões para a análise (com foco nas formas observáveis de religião), mas com o objetivo empreendido de busca de uma essência, suprassocial. Olhar para as outras culturas, diferentes da ocidental, força um olhar que nega uma universalidade do religioso identificada nos monoteísmos largamente conhecidos. Cada forma nova e diferente de sistema religioso que a antropologia foi desvendando foi estabelecendo a certeza que não se poderia mais pensar num sagrado para além das constituições históricas e nem mesmo para um continuum entre formas primitivas e civilizadas de religião. A religião do outro ganhou reconhecimento e valor. A magia, as feitiçarias em geral, os mitos e tudo que envolve qualquer sistema de crenças passaram a ser vistos no valor que trazem em si mesmos. Essa nova perspectiva está muito longe de uma antropologia religiosa. Não existe uma preocupação com a veracidade daquilo que épreconizado pelas religiões ou qualquer sistema de crenças. Em última instância isso significa dizer que não parte, como método de análise, do pressuposto da existência de uma essência do sagrado ou de uma divindade. Essa é uma questão que não cabe aos antropólogos. É famosa a colocação de Evans- Pritchard de que não se trata do antropólogo ter ou não uma religião, pois esse não está preocupado com a verdade ou falsidade do pensamento religioso uma vez que as crenças são fatos sociais.6 O que importa para a antropologia da religião são os significados subjacentes aos sistemas de crenças religiosas de um ou mais grupos sociais. Acrescenta-se, ainda, a preocupação com os hábitos, práticas e costumes desses mesmos grupos advindos desses sistemas. Para Radcliffe-Brown7, a função social da religião é independente da sua verdade ou falsidade. Todas as religiões, por mais excêntricas que possam parecer, desempenham papéis importantes no mecanismo social. Esse autor, assim como outros da primeira metade do século XX que buscaram inspiração a partir das ideias de Durkheim, como Marcel Mauss, Malinowski e Evans-Pritchard, romperam com o modelo explicativo dos evolucionistas, que viam a religião reduzida aos mecanismos mentais (falsos), e buscaram fundamentar suas análises a partir de um consistente conjunto de dados empíricos. O contato com o outro, com suas maneiras particulares de se comportar e de crer, possibilitado pelo imprescindível trabalho de campo, deslocou a preocupação sobre as origens da religião para o campo das funções sociais. Nesse processo abandonou-se a busca de uma teorização geral sobre a unidade psíquica humana e focou-se nos pormenores da 5 L. Obadia, Antropologia das religiões, p. 30. 6 E. Evans-Pritchard, A religião e os antropólogos. 7 Cf. A.R. Radcliffe-Brown, Estrutura e função na sociedade primitiva. GUERRIERO, S. . Antropologia da religião. In: PASSOS, João Décio; USARSKI, Frank. (Org.). Compêndio de ciência da religião. 1ed.São Paulo: Paulinas; Paulus, 2013, v. 1, p. 243-256 vida religiosa de um determinado povo. A grande contribuição para os estudos de religião foi, sem dúvida, o reconhecimento de valor desses universos religiosos que deixaram de ser vistos como vestígios de um passado para se tornarem atuais e alternativos aos modelos então considerados únicos, como o monoteísmo cristão. Houve uma ampliação conceitual sobre a religião. Malinowski e Evans-Prtichard contribuíram, sobremaneira, para uma compreensão das racionalidades do pensamento mágico e religioso. Ambos, cada um a seu modo, reconheceram que o pensamento mágico é também dotado de uma lógica e que o indígena tem consciência da distinção entre o racional e o não-racional. Religião e magia deixaram de ser categorizadas como heranças de uma situação pré-lógica, ilógica ou irracional. Importante ressaltar aqui que embora tenham características distintas quanto à finalidade e modo de operação, religião e magia passaram a ser vistas pelos antropólogos como elementos de um mesmo sistema mais amplo de crenças. A própria separação entre religião e magia, tão claramente definida por Durkheim8, deixa de ser tranquila, pois há vários sistemas mágicos em torno de comunidades semelhantes a que chamou de igreja, assim como há muito de magia nas religiões fortemente institucionalizadas. As duas dimensões se interpenetram e são tratadas como um todo. Também herdeiro dessa perspectiva funcionalista, porém com características bastante peculiares e com forte tom intelectualista, surge o pensamento estrutural de Claude Lévi-Strauss. Embora não haja em sua obra uma explicitação da religião em si, este autor desenvolveu um extenso estudo sobre as mitologias e sobre o pensamento dito selvagem ou pensamento mágico.9 A religião tem interesse na medida em que espelha as estruturas inconscientes da mente humana. Estas sim que serão sua preocupação central. De certa maneira retoma uma preocupação das origens da antropologia, pois estava em busca das invariáveis universais de pensamento presentes em toda a espécie. Para ele, o pensamento humano trabalha e sempre trabalhou conforme o mesmo princípio. Embora o contexto histórico marque os contornos de cada cultura, há um substrato comum que permanece sempre o mesmo. Em seu artigo “A ciência do concreto”, Lévi-Strauss defende que o selvagem elabora seu conhecimento a partir das mesmas regras que o civilizado. No entanto, enquanto a ciência moderna ocidental se faz a partir de abstrações, a ciência das sociedades tradicionais ou do selvagem, como ele prefere chamar, se faz a partir de classificações do mundo concreto. Mas nesse sentido não haveria uma distinção valorativa entre a magia e a ciência. 8 E. Durkheim, As formas elementares da vida religiosa, p. 32. 9 Cf. C. Lévi-Strauss, O pensamento selvagem. GUERRIERO, S. . Antropologia da religião. In: PASSOS, João Décio; USARSKI, Frank. (Org.). Compêndio de ciência da religião. 1ed.São Paulo: Paulinas; Paulus, 2013, v. 1, p. 243-256 Pelo que foi tratado até este momento, a maneira pela qual a antropologia retratou a religião trouxe implicações para a própria concepção sobre o outro, aquele que é diferente, mas ao mesmo tempo semelhante por ser também um ser humano. Ampliou a noção de humanidade e do reconhecimento de que as diferenças religiosas, tão caras uma vez em que podem separar povos e provocar conflitos bélicos, são frutos das vivências sociais e de como os diferentes povos constituíram, ao longo da história, suas trajetórias e visões de mundo. A constatação antropológica da não existência de povos ou culturas que prescindam da religião teve várias consequências. Essa universalidade da religião, que para um crente religioso pode ser atribuída à comprovação da existência do sagrado, para a antropologia trouxe mais indagações que certezas. Trata-se de uma natureza religiosa humana ou de uma origem religiosa da cultura e das sociedades humanas? Émile Durkheim, em sua famosa obra As formas elementares da vida religiosa10, afirma que a natureza religiosa do ser humano é um aspecto essencial e permanente da humanidade. Entretanto, Durkheim diz ser a religião um constructo das sociedades, numa evidente redução do religioso a um fato social. Mas mesmo em suas épocas iniciais nunca houve um consenso sobre a definição de religião e sobre os métodos de análise que poderiam ser empregados em seus estudos. Portanto, há aqui uma questão conceitual. Longe de demonstrar fraqueza teórica, essa diversidade evidencia uma riqueza e um eterno questionamento que fez com que essa ciência avançasse e renovasse a si mesma na busca de uma melhor compreensão da religião e do ser humano em geral. A definição de religião As teorias antropológicas de religião podem ser percebidas divididas entre aquelas que enfatizam os aspectos simbólicos, as que se preocupam principalmente com as práticas e aquelas que priorizam as estruturas sociais. No entanto, mesmo para aqueles de cunho mais intelectualista, como Lévi-Strauss, há o reconhecimento de um empirismo como negação da busca de uma essência para o religioso. A universalidade do religioso insere-se, assim, na escolha do conceito utilizado. Uma acepção clássica de religião, como aquela utilizada nos primórdios da antropologia incorreria no risco da impossibilidade de transpor o conceito para além do Ocidente e dos monoteísmos. O reconhecimento de que a palavra religião guarda fortes aspectos políticos e ideológicos, por se tratar de uma concepção ocidental colocada a força por sobre outros 10 E. Durkheim, As formas elementares da vida religiosa. GUERRIERO, S. . Antropologia da religião. In: PASSOS, João Décio; USARSKI, Frank. (Org.).Compêndio de ciência da religião. 1ed.São Paulo: Paulinas; Paulus, 2013, v. 1, p. 243-256 povos, levou alguns a uma rejeição pura e simples do conceito, embora isso não resolvesse a questão. Portanto, longe de rejeitar o conceito, ou negar sua existência, deve-se reconhecer que é preciso sempre levar em consideração o que se entende por religião. Lionel Obadia chama a atenção para o fato de que os antropólogos acabaram seguindo basicamente duas grandes definições de religião.11 Por um lado o conceito original de Tylor, já apontado anteriormente, e por outro o de Durkheim. Para o primeiro, a ênfase do religioso, ou o que torna um ato ou uma ideia religiosa, é o fato de se reconhecer a presença de seres espirituais ou sobrenaturais. Para Durkheim, é a ideia de sagrado, em oposição à de profano, que evidencia o religioso. Essas duas grandes acepções do religioso evidenciam a complexidade do fato e as dificuldades em se tentar reduzir num único parâmetro algo tão abrangente. Embora Tylor tenha influenciado alguns antropólogos de língua anglo-saxônica, é a posição de Durkheim que vai estar mais presente nos estudos antropológicos no que tange à ideia de religião como construção social. Essa vertente acabou sofrendo inúmeros acréscimos e modificações, inclusive na ampliação do conceito de maneira a abarcar a noção de representação coletiva, também pelas mãos de Durkheim, mas que com Marcel Mauss ganhou bastante consistência. É desse último a definição de religião como conjunto de crenças e ritos, discursos e atos, definição essa bastante abrangente e inclusiva, mas que permite delinear os contornos de um sistema religioso ou outro sem reduzi-los a um lugar comum. Afastando-se de uma perspectiva funcional, seja ela das funções sociais ou das psicológicas, o norte americano Clifford Geertz abre uma nova via para compreensão antropológica da religião. Em seu estudo ainda dos anos 1960 estabelece uma definição de religião tida como clássica nos dias atuais. Religião para ele é um sistema de símbolos e a possibilidade de estudo se dá por uma via hermenêutica e semiótica. Procura focar no que a religião representa para seus atores e como ela estabelece a nossa própria noção de realidade. Para este autor, religião é um sistema de símbolos que atua para estabelecer poderosas, penetrantes e duradouras disposições e motivações nos homens através da formulação de conceitos de uma ordem de existência geral e vestindo essas concepções com tal aura de fatualidade que as disposições e motivações pareçam singularmente realistas.12 Essa noção parece bastante útil. Não fala de sobrenaturalidade ou divindade, muito menos em sagrado, podendo ser, dependendo do que se busca compreender, bastante 11 L. Obadia, Antropologia das religiões, p. 31. 12 C. Geertz, Religião como sistema cultural, pp. 104-105. GUERRIERO, S. . Antropologia da religião. In: PASSOS, João Décio; USARSKI, Frank. (Org.). Compêndio de ciência da religião. 1ed.São Paulo: Paulinas; Paulus, 2013, v. 1, p. 243-256 conveniente. Pode-se perceber que ela serve tanto para religião como para as espiritualidades difusas. Geertz atribui o poder da religião ao fato desse sistema simbólico realizar a junção entre o ethos, a maneira de ser e de sentir de um determinado grupo, com a visão de mundo, a formulação da ordem geral das coisas elaborada por esse mesmo grupo. A junção dessas duas dimensões tem o poder de formular uma imagem geral da estrutura do mundo e um programa de conduta humana em que um e outro se reforçam mutuamente. Hanegraaff estabelece uma revisão crítica do conceito elaborado por Geertz de maneira a poder analisar aquilo que chamou de religião secular. Amplia enormemente a noção de religião. Sem fugir do dilema imposto pelos próprios antropólogos de se discutir religião em termos amplos, procura abarcar tanto a dimensão singular (religião) como a plural (religiões). Para esse antropólogo holandês, religião (aqui entendida como religião no singular) é qualquer sistema simbólico que influencia as ações humanas pela oferta de formas ritualizadas de contato entre o mundo cotidiano e um quadro metaempírico mais geral de significados13. Essa formulação responde, segundo o autor, pela noção de religião em geral, mas ela deve ser desdobrada para podermos enxergar as formas que efetivamente se manifestam socialmente. Para tanto, ele se utiliza de duas subcategorias: a de religiões (no plural) e a de espiritualidades. A diferença entre essas subcategorias da classe geral e mais ampla de religião está no fato de que nas religiões o sistema simbólico é representado por alguma instituição social. Assim, religião necessita inevitavelmente de um grupo articulado em torno de um conjunto de mitos, com hierarquia e papéis definidos, e de uma doutrina que manifeste ou demonstre um conhecimento sistematizado. Ao mesmo tempo, essa definição permite englobar sistemas de crença que não tratam explicitamente de aspectos sobrenaturais, de seres espirituais ou de distinção entre sagrado e profano. Essa ampliação conceitual é que permite compreender uma série de novas manifestações espiritualizadas da nossa sociedade, como a Nova Era, e que não são englobadas pelos conceitos mais tradicionais de religião. Tal discussão remete à questão do que é ou não é religioso. Uma vez que a antropologia não parte de um pressuposto da existência de uma manifestação de um sagrado, que responderia pela substância religiosa de um objeto, de um ato ou de uma ideia, é preciso procurar esses fundamentos em outros terrenos. A definição de Hanegraaff tem esse atributo. 13 W. Hanegraaff, The pragmatics of defining religion, p. 371. GUERRIERO, S. . Antropologia da religião. In: PASSOS, João Décio; USARSKI, Frank. (Org.). Compêndio de ciência da religião. 1ed.São Paulo: Paulinas; Paulus, 2013, v. 1, p. 243-256 É nessa direção que vem uma das críticas mais contundentes da definição de religião nos dias atuais. Talal Asad afirma que não é possível separar os símbolos religiosos daqueles que não são.14 É preciso, no entender desse antropólogo, ir a fundo ao contexto histórico em que se constituíram e se autorizaram esses símbolos religiosos. Asad parte de uma perspectiva que vem ganhando notoriedade nos estudos antropológicos, a de uma antropologia pós-colonialista. Essa disciplina deixa de ser uma construção de um olhar do ocidental sobre os demais povos, mesmo que relativizada e antietnocêntrica. Quem fala, agora, são os próprios “nativos”, como é o caso do próprio Talal Asad, saudita de nascimento e criado no Paquistão, filho de pai judeu convertido ao islamismo. A questão básica gira em torno da impossibilidade de uma tradução. Qualquer costume ou ideia fora de contexto, traduzido, perde em poder explicativo e corre o risco de ser utilizado como forma de dominação por quem o traduz. Esse é o caso da noção de religião. Fiona Bowie acrescenta que é preciso sempre ter em mente que a construção da categoria “religião” se baseou em línguas e costumes europeus.15 Em grande parte das línguas nativas não há palavras para definir o que os ocidentais entendem, ou pensam entender, por religião. O enquadramento a um significado preestabelecido é imediato. A perspectiva de quem escreve a história é fundamental nesse aspecto. Por que aqueles que não eram ocidentais foram obrigados a ler a história ocidental e o contrário não aconteceu? Para Asad, o fato está em que os nativos são vistos como “locais” enquanto que os cristãos são “universais”. Essa concepção de universalidade acaba, mesmo inconscientemente, justificando a sobreposição do mundo e dos valores ocidentais por sobre os demais povos.16 Asad procura examinar os caminhos pelos quais a busca teórica por uma essência da religião,trans-histórica, convidou a separar a religião da política. Faz isso por meio de uma análise da definição de Geertz. Seu argumento é que não pode haver uma definição universal de religião, não apenas porque seus elementos constitutivos e suas relações são historicamente específicos, mas porque essa definição é ela mesma um produto histórico do processo discursivo17. Para outros críticos, por se tratar de um conceito ocidental que guarda origem na expansão da sociedade ocidental capitalista, servindo muitas vezes como forma de dominação, o termo deveria ser simplesmente abandonado.18 Não poderia ser uma categoria 14 Cf. T. Asad, Genealogies of religion. 15 F. Bowie, The anthropology of religion, p. 19. 16 T. Asad, Genealogies of religion, p. 8. 17 Ibidem, p. 29. 18 T. Fitzgerald, The Ideology of Religious Studies. GUERRIERO, S. . Antropologia da religião. In: PASSOS, João Décio; USARSKI, Frank. (Org.). Compêndio de ciência da religião. 1ed.São Paulo: Paulinas; Paulus, 2013, v. 1, p. 243-256 analítica porque não trata de algo transcultural. O argumento central é a da inexistência da religião como fenômeno universal. Longe de haver qualquer possibilidade de consenso, a diversidade conceitual sobre religião demonstra a própria diversidade metodológica da ciência do antropos. É preciso reconhecer que nessa caminhada a antropologia muito tem contribuído para a ampliação dos horizontes sobre o que é religião e, especificamente, sobre as diferentes maneiras de compreensão da realidade praticada pelos diferentes povos. Como numa via de mão dupla, a antropologia elabora um esforço para compreender o universo religioso do outro, mas as populações em geral também se utilizam dessa produção intelectual para olharem para si mesmas e se posicionarem frente às diferenças, no eterno jogo das alteridades. Com o conceito de religião tem sido assim. Com a antropologia a sociedade aprendeu a olhar sempre de maneira mais crítica para aquilo que tenderia a ser visto como algo absolutamente natural e, em geral, menosprezando todos aqueles que ousam pensar de maneira diferente. Nesse movimento, a religião do outro deixa de ser mera superstição e passa a ser vista como uma maneira alternativa de compreender e se situar no mundo. Ao longo desse século e meio de ciência antropológica, a religião ganhou não necessariamente contornos mais definidos, mas visibilidade no seio das sociedades humanas. Pela própria trajetória do conceito pode-se perceber que está muito longe de se obter uma posição definitiva, ressaltando que isso não seria nada salutar. Mas, por outro lado, houve muito avanço na compreensão dos mecanismos e simbolismos que envolvem o universo religioso, aumentando a amplitude e a profundidade nas análises. Todo esse avanço trouxe para a ciência da religião o elemento fundamental da constituição simbólica e social da religião. Com ele tornou-se possível um incremento nos estudos sobre múltiplas manifestações religiosas presentes nas mais diferentes sociedades. Mitos, rituais, símbolos e crenças O estudo antropológico das religiões não se limitou à busca de uma definição mais precisa do conceito religioso. Muitas propriedades das religiões particulares que foram sendo estudadas ganharam um estatuto de objeto de estudo particular e constituíram campos autônomos de análises. Dentre esses podemos destacar as crenças, os rituais, os mitos e os símbolos. O estudo das crenças não se restringe necessariamente ao campo da antropologia da religião. Pode-se compreender que as crenças dizem respeito a um universo muito mais GUERRIERO, S. . Antropologia da religião. In: PASSOS, João Décio; USARSKI, Frank. (Org.). Compêndio de ciência da religião. 1ed.São Paulo: Paulinas; Paulus, 2013, v. 1, p. 243-256 amplo que vai além daquilo que poderíamos chamar de crenças religiosas, ou crenças sagradas. No entanto, em que pesem as críticas feitas à noção de crença, semelhantes às empreendidas ao conceito de religião, as crenças religiosas compõem um dos objetos verificáveis da antropologia da religião. Como um fenômeno mental, a crença foi considerada um objeto próprio da psicologia, mas se pensado em termos de sua materialidade, na encarnação em objetos específicos, as crenças ganham contornos específicos e são tratados de maneira especial pela antropologia. Nesse aspecto, não há necessário vínculo com a categoria “fé”, essa sim de cunho religioso. As crenças, para a antropologia, ganharam destaque na medida em que foram sendo estudadas em suas especificidades. Cada cultura possui, assim, um conjunto de elementos em que seus integrantes creem fazer parte do mundo e que termina por moldar os contornos da realidade mais ampla. No estudo clássico sobre a magia do feiticeiro, Lévi-Strauss afirma que o aprendiz de feiticeiro que ambicionava desmascarar os truques realizados pelos xamãs tornou-se ele próprio um grande xamã não pela sua convicção particular, mas pela crença coletiva e confiança depositada pelo grupo.19 Da mesma forma, no estudo sobre os Azande, Evans-Pritchard percebe que os nativos têm plena consciência de que as doenças podem ser tratadas com remédios, visto que têm um vasto conhecimento sobre ervas e plantas medicinais, mas é inconcebível não reconhecer que há obra de bruxaria ou feitiçaria em todos os casos em que alguém fica acamado.20 Essas crenças compõem a materialidade do mundo dos Azande. Talvez uma das mais fortes contribuições da antropologia para o estudo da religião se dê no fato dela ter dirigido especial atenção para a pesquisa de sistemas simbólicos.21 Considerar a cultura humana como fruto da capacidade de simbolização é apenas ponto de partida. A grande contribuição se dá porque compreende o universo simbólico como elemento fundamental das comunicações e das trocas. Percebe-se então o papel fundamental de Lévi-Strauss que não apenas delineou o funcionamento da magia através da eficácia simbólica, como trouxe enormes contribuições no campo das trocas simbólicas. Mary Douglas elaborou uma teoria sobre a naturalidade dos símbolos, ao menos como eles passam a ser manifestações previsíveis.22 Focada na dimensão do simbolismo da experiência corporal, Douglas enfatizou o ritual como um sinônimo de símbolo. O efeito do rito se liga à modificação da experiência. Experiências díspares ganham sentido quando 19 C. Lévi-Strauus, O feiticeiro e sua magia. 20 E. Evans-Pritchard, Bruxarias, oráculos e magia entre os Azande. 21 K. Hock, Introdução à ciência da religião, p. 157. 22 Cf. M. Douglas, Natural symbols. GUERRIERO, S. . Antropologia da religião. In: PASSOS, João Décio; USARSKI, Frank. (Org.). Compêndio de ciência da religião. 1ed.São Paulo: Paulinas; Paulus, 2013, v. 1, p. 243-256 vivenciadas num quadro de estruturas simbólicas. Para ela, o ritual consiste essencialmente em uma forma de comunicação. Clifford Geertz, como afirmado anteriormente, elegeu os sistemas simbólicos de uma cultura como centro de suas análises, como o religioso, o político, o científico e outros. A análise antropológica dos símbolos procura descobrir os sistemas de significado subjacentes, num esforço interpretativo empreendido pelo pesquisador. Para a antropologia, a simbolização reflete a maneira como os símbolos religiosos se constituem, se fixam e se transmitem na história e nas sociedades humanas. Ela se diferencia de outras abordagens sobre os símbolos tanto as que possam vir da psicanálise quanto as de uma concepção que parta do princípio que os símbolos têm um significado fixo, inerente a eles mesmos, em todas as religiões e culturas. Por fim, destacam-se ainda mito e ritual. Esses dois elementos da religião constituíram campos de dimensões abissais nos estudos antropológicos. Muitas vezes vistoscomo inseparáveis, pois um lida com o aspecto do imaginário e das mentalidades enquanto o outro trata do universo das práticas, há quem veja uma supremacia do ritual sobre o mito, como Jack Goody23 ou Victor Turner24. Outros, como Lévi-Strauss, se preocuparam com o estudo do mito, deixando o ritual praticamente de lado. O rito é um elemento essencial da vida religiosa. São tipos especiais de eventos, mais formalizados e estereotipados. Ritual é sempre comunicação. São formas que os próprios membros de um grupo encontram de dizer a eles mesmos quem eles são25, mas, mais que isso, é uma maneira evidente de comunicação entre o mundo dos humanos e o mundo dos deuses. O ritual tem o poder de instaurar uma condição social, reforçando os vínculos entre os indivíduos e estabelecendo os papéis sociais de cada um. É importante perceber que existe uma classe especial de rituais, estudada por Arnold Van Gennep26 e depois aprofundada por eminentes antropólogos, dentre eles Victor Turner: os ritos de passagem.27 Trata-se de uma ampla gama de rituais que marcam mudanças de estado, não apenas definitivas, como as passagens entre as fases da vida, mas também temporárias, como as festas de inversão de papéis que acabam, por fim, reforçando as posições sociais. Para Van Gennep, os rituais possuem três fases principais: uma separação, um momento de transformação e, por fim, um de reintegração. Todas essas fases são acompanhadas de 23 J. Goody, O mito, o ritual e o oral. 24 V. Turner, O processo ritual. 25 C. Geertz, Uma descrição densa. 26 A. Van Gennep, Os ritos de passagem. 27 V. Turner, op. cit. GUERRIERO, S. . Antropologia da religião. In: PASSOS, João Décio; USARSKI, Frank. (Org.). Compêndio de ciência da religião. 1ed.São Paulo: Paulinas; Paulus, 2013, v. 1, p. 243-256 outros rituais tornando o universo extremamente complexo. Turner, por sua vez, aprofundou suas análises no estado intermediário desses rituais, o do momento da transformação, denominado de fase limiar. Para esse autor, o ritual tem o poder de renovar a sociedade já que provoca uma abolição, mesmo que temporária, da estrutura social vigente e instaura uma antiestrutura em que as posições sociais são rompidas. Trata-se de uma abolição das hierarquias, das autoridades e das ordens sociais, numa espécie particular de comunidade, a communitas. Após a fase de liminaridade, há um retorno, quando a antiestrutura se refaz numa nova estrutura. Embora os ritos de passagem não se restrinjam ao universo religioso, é nele que são vistos em sua plenitude. Vários outros tipos de rituais foram bastante estudados pela antropologia da religião, como os rituais de sacrifício, as peregrinações e os cultos de um modo geral. Um ritual pode ser entendido como uma chave heurística, através da qual se podem ser acessados aspectos de uma sociedade que dificilmente se manifestam em falas ou discursos. Por meio de rituais podem ser observados aspectos fundamentais de como uma sociedade vive, pensa a si mesma e se transforma. De certa maneira os rituais encenam um ou vários mitos. Para muitos antropólogos, a relação entre ritual e mito é direta. Os mitos são narrativas coletivas, contadas a partir de um discurso metafórico, que tratam das questões mais íntimas de uma sociedade. Em geral costumam-se ver apenas as narrativas que tratam das origens das coisas, de ordem material ou social, e que ligam o mundo dos humanos ao dos deuses e heróis míticos. No entanto, o mito é uma forma de linguagem muito mais ampla e presente em todas as sociedades. Num primeiro momento, e seguindo as posições positivistas, a antropologia via nos mitos uma expressão da irracionalidade dos povos tradicionais. A partir da crítica que a antropologia empreendeu à visão evolucionista, os mitos começaram a ser compreendidos como tendo relação com a estrutura social. Como fazem sentido para os povos que os vivenciam, os mitos são tidos como manifestação de outra racionalidade, que tratam de verdades profundas do grupo. Longe de perceber o mito como uma fábula infantil ou um discurso ilusório, a antropologia percebe a presença de mitos em praticamente todas as religiões. As histórias e narrativas sagradas são, em última instância, mitos. Estão longe do que poderia ser chamado de falsidade. Trata-se de profundas expressões do imaginário humano. Os mitos estão entre os objetos mais apreciados pelos antropólogos, visto que permitem, na visão de muitos deles, penetrar nos universos cosmológicos e nas visões de mundo de povos muito diferentes. Dada a linguagem cifrada dos mitos, o seu estudo nunca GUERRIERO, S. . Antropologia da religião. In: PASSOS, João Décio; USARSKI, Frank. (Org.). Compêndio de ciência da religião. 1ed.São Paulo: Paulinas; Paulus, 2013, v. 1, p. 243-256 foi tarefa das mais tranquilas. Muitos dos primeiros estudiosos de religião se utilizaram de informações advindas dos levantamentos etnológicos para empreender esforços na tentativa de construções de mitologias comparadas. Utilizados também por outras chaves de leitura, como a psicanálise ou a filosofia, os estudos de mitos foram ganhando consistência teórica no interior da antropologia. O mito passou a ser visto como um sistema de códigos culturais da experiência ordinária dos povos tradicionais, indiferente às aparentes contradições lógicas internas. Claude Lévi-Strauss buscou as propriedades universais dos mitos, não aceitando a tese de que eles seriam a projeção ideológica do ritual. Esse autor se abstém de qualquer juízo sobre a realidade histórica ou veracidade dos mitos. Para Lévi-Strauss, o que interessa é a estrutura básica que está por detrás de várias versões de um mesmo mito e que permite acessar o quadro de estruturas primordial do pensamento humano. A antropologia nasceu como ciência das chamadas sociedades primitivas. Há um bom tempo deixou de lado essa peculiaridade e ampliou seus olhares por sobre as demais formas sociais. Hoje os antropólogos empreendem olhares sobre sociedades com dinâmicas altamente complexas, como é o caso das sociedades ocidentais pós-industrializadas. Crenças, símbolos, rituais e mitologias continuam sendo estudadas não mais no sentido de encontro com o totalmente outro, diferente desse ocidental, mas o que tem de religioso no seio de nossa própria sociedade. Há muito que a nossa sociedade deixou de ser vista como um caminho inevitável para formas cada vez mais desencantadas. Hoje, as mais diferentes formas de religiosidade são objetos de estudo dos antropólogos. As sociedades mantêm e reinventam antigas religiões ao mesmo tempo em que novas surgem a todo o momento. Além das religiões mais facilmente perceptíveis, por trazerem contornos institucionais visíveis e verificáveis, surge uma infinidade de outras formas de expressões religiosas, denominadas por alguns estudiosos como novas espiritualidades. A eles cabe perceber as características dessas novas vivências, bem como desvendar e compreender as lógicas subjacentes internas. Religiões interiorizadas e cada vez mais individualizadas parecem querer contradizer tudo o que se entendia por religião. É a sociedade com sua riqueza e imensa variabilidade que traz novos desafios para os estudiosos atuais. Atualmente a antropologia se abre a novos diálogos com outras ciências no estudo das religiões. Deixando de lado os particularismos que marcaram os avanços dessa ciência por todo o século XX, retoma algumas das preocupações de seus momentos iniciais, principalmente no tocante à busca da singularidade religiosa. Agora, as companheiras de GUERRIERO, S. . Antropologia da religião. In: PASSOS, João Décio; USARSKI, Frank. (Org.). Compêndio de ciência da religião. 1ed.São Paulo: Paulinas; Paulus, 2013, v. 1, p. 243-256 viagem são outras. As trocas e avanços se dão pelos diálogos com as ciênciascognitivas, a biologia, a psicologia evolutiva, a primatologia, a etologia e até, quem diria, a antropologia biológica. A religião permanece construção eminentemente humana, mas agora observada sob novos ângulos. O que há na formação da mente humana que permite essa simbolização e construção de universos religiosos? Terá sido a religião um elemento adaptativo no processo evolutivo humano ou será ela apenas um subproduto de outras faculdades da mente humana? Já são vários os estudos que apontam para uma forte relação entre o fazer religião e a evolução da mente humana.28 O enigma da persistência da religião permanece. As novas respostas procuram sinais que possam esclarecê-lo no próprio processo adaptativo evolutivo. Os avanços nessas áreas científicas vêm trazer novos alentos para os estudos da religião. Se a antropologia permanecer aberta a contribuições diversas continuará auxiliando para o avanço da compreensão do fascinante mundo da religião. A ciência da religião só tem a ganhar. Referências Bibliográficas ASAD, Talal. Genealogies of religion. Discipline and reasons of power in Christianity and Islam. London: The Johns Hopkins Press Ltd., 1993. BOWIE, Fiona. The anthropology of religion. An introduction. Oxford: Blackwell Publishing, 2006. DOUGLAS, Mary. Natural symbols: explorations in cosmology. London: Routledge, 1996. DURKHEIM, Emile. As formas elementares da vida religiosa. São Paulo: Martins Fontes, 2000. EVANS-PRITCHARD, E.E. A religião e os antropólogos. Religião e Sociedade. Rio de Janeiro, Iser, n. 13/1, março. EVANS-PRITCHARD, E.E. Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande. Rio de Janeiro: Zahar ed., 1978. FITZGERALD, Timothy. The Ideology of Religious Studies. New York: Oxford University Press, 2000. FRAZER, James G.. O ramo de ouro. Rio de Janeiro: Zahar, 1982. GEERTZ, Clifford. “A religião como sistema cultural” e “Uma descrição densa: por uma teoria interpretativa da cultura”. In: A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar ed., 1978. GOODY, Jack. O mito, o ritual e o oral. Petrópolis: Vozes, 2012. HANEGRAAFF, Wouter. Defining religion in spite of history. In: PLATVOET, J.G. and MOLENDIJK, A. The pragmatics of defining religion. Leiden, Boston, Köln: Brill, 1999. HOCK, Klaus. Introdução à ciência da religião. São Paulo: Loyola, 2010. 28 Cf. S. Minthen, A pré-história da mente. GUERRIERO, S. . Antropologia da religião. In: PASSOS, João Décio; USARSKI, Frank. (Org.). Compêndio de ciência da religião. 1ed.São Paulo: Paulinas; Paulus, 2013, v. 1, p. 243-256 LÉVI-STRAUSS, Claude. O feiticeito e sua magia. In: Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975. LÉVI-STRAUSS, Claude. O pensamento selvagem. São Paulo: Cia Ed. Nacional, 1970. MITHEN, Steven. A pré-história da mente. Uma busca das origens da arte, da religião e da ciência. São Paulo: Editora UNESP, 2002. OBADIA, Lionel. Antropologia das religiões. Lisboa: edições 70, 2011. RADCLIFFE-BROWN, A.R. Estrutura e função na sociedade primitiva. Petropolis, RJ : Vozes, 1973. TURNER,V. O processo ritual. Estrutura e anti-estrutura. Petrópolis: Vozes, 1974. TYLOR, Edward B. Primitive culture. Researches into the development of mythology, philosophy, religion, language, art and custom. New York: Gordon Press, 1976. VAN GENNEP, A. Os ritos de passagem. Petrópolis: Vozes, 1978 WINZELER, Robert L. Anthropology and religion. What we know, think and question. Plymouth: Altamira Press, 2008.