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PSICOFARMACOLOGIA AULA 4 Profª Anelise Montañes Alcântara 2 CONVERSA INICIAL A psicose é caracterizada como perda do contato com a realidade, sendo a característica fundamental dos transtornos psicóticos (Elisabetsky, 2021). A psicose acompanha diversas condições psiquiátricas, porém a esquizofrenia acaba sendo uma referência para a compreensão das psicoses e a principal indicação terapêutica dos antipsicóticos (Graeff; Guimarães, 2021). Os transtornos psicóticos mais comuns abrangem mania (transtorno bipolar), psicose induzida por drogas (cocaína) e esquizofrenia. A esquizofrenia é uma condição grave, crônica e altamente incapacitante, marcada por sintomas positivos (delírios, alucinações, comportamento desorganizado), negativos (isolamento social, embotamento afetivo, anedonia) e cognitivos (déficits de memória e prejuízo da função cognitiva). A prevalência é estimada em 1% da população mundial (Elisabetsky, 2021). O tratamento com antipsicóticos para esquizofrenia foi introduzido na década de 1950, possibilitando menor tempo de hospitalização e outras formas de tratamento. Esse período caracteriza a era da psicofarmacologia moderna, com o desenvolvimento da clorpromazina, com efeitos antipsicóticos. Tratava-se de um primeiro psicofármaco que os psiquiatras acreditavam tratar o transtorno mental. Esse psicofármaco foi inicialmente relacionado com o efeito de “calma emocional”, em que a pessoa ficaria em um estado de indiferença aos estímulos externos, porém sem perda de consciência. Por isso, os antipsicóticos foram chamados inicialmente de neurolépticos, que significa “segurar”, “controlar os nervos”. Outros antipsicóticos foram lançados nas décadas seguintes, semelhantes à clorpromazina, até o aparecimento da clozapina, primeiro antipsicótico atípico (Elisabetsky, 2021). Porém, esses medicamentos não curam a esquizofrenia e apresentam diversos efeitos colaterais (Graeff; Guimarães, 2021). Com a introdução desses medicamentos foi possível abandonar tratamentos amplamente empregados, dentre eles o estado de coma induzido por insulina e a lobotomia pré-frontal, uma cirurgia que ocasionava alterações da personalidade. A eletroconvulsoterapia também foi amplamente substituída, ficando reservada para situações específicas (Graeff; Guimarães, 2021). No Brasil, há o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) – Esquizofrenia, que estabelece critérios para o diagnóstico, o tratamento, o 3 acompanhamento e a verificação dos resultados terapêuticos que devem ser seguidos no Sistema Único de Saúde (Brasil, 2013). Todos os antipsicóticos disponíveis no mercado farmacêutico brasileiro estão presentes na lista C1 da Portaria n. 344/1998, sendo dispensados mediante apresentação da receita de controle especial. Esta etapa tem como objetivos: 1. abordar a esquizofrenia de maneira breve; 2. conhecer as intervenções psicossociais; 3. conhecer o tratamento farmacológico das psicoses; 4. identificar os antipsicóticos típicos e atípicos; 5. conhecer o perfil de efeitos colaterais dos antipsicóticos. TEMA 1 – AS INTERVENÇÕES PSICOSSOCIAIS NA ESQUIZOFRENIA A esquizofrenia é considerada a mais grave entre as condições psiquiátricas. Trata-se de um transtorno crônico e incapacitante, de natureza complexa, com múltiplas manifestações. Apresenta incidência semelhante em homens e mulheres. O episódio agudo da esquizofrenia é determinado pela presença de sintomas psicóticos positivos, tais como delírios, alucinações e agitação psicomotora (Graeff; Guimarães, 2021). O primeiro episódio psicótico ocorre após manifestações negativas, como o embotamento afetivo (expressão emocional reduzida, expressão facial empobrecida), a pobreza de linguagem, a falta de iniciativa, o isolamento social e as alterações cognitivas. Os sintomas negativos e as alterações cognitivas tendem a piorar com o decorrer da doença. O primeiro episódio tende a aparecer no final da adolescência ou no início da idade adulta. Pacientes não tratados podem desencadear quadro de esquizofrenia grave (Graeff; Guimarães, 2021). As causas da esquizofrenia não são conhecidas, embora haja o entendimento de que sejam uma interação de variáveis culturais, biológicas e psicológicas. A natureza genética tem um papel no desenvolvimento da esquizofrenia, como também os fatores socioambientais, como a exposição a traumas e drogas durante a infância e a adolescência. Mecanismos inflamatórios também têm sido associados (Graeff; Guimarães, 2021). O tratamento com antipsicóticos introduzido na década de 1950 alterou de forma significativa a vida das pessoas com esquizofrenia. Estudos 4 evidenciam que os antipsicóticos eliminam ou atenuam as manifestações agudas, assim como diminuem a frequência de recidivas, porém não curam a esquizofrenia (Graeff; Guimarães, 2021). As intervenções psicossociais envolvem a pessoa e seus cuidadores. A literatura costuma dar destaque para as orientações diretivas a serem feitas pelos profissionais da saúde. Algumas delas são (Opas, 2018): • explicar que os sintomas são causados por uma condição de saúde mental; • explicar que a psicose pode ser tratada e que a pessoa pode se recuperar; • esclarecer equívocos comuns sobre as psicoses, como não culpabilizar a pessoa ou a família pela causa dos sintomas; • esclarecer quanto à necessidade de administração dos medicamentos prescritos e ao retorno periódico para o seguimento terapêutico; • esclarecer que a piora dos sintomas pode acontecer e que a procura do estabelecimento de saúde deve ocorrer o mais rápido possível; • orientar a família a planejar uma agenda ocupacional, a fim de evitar o estresse da pessoa e dos cuidadores; • incentivar a pessoa com psicose a pedir conselhos ao tomar decisões importantes, como as relacionadas a dinheiro; • manter uma relação de harmonia com a pessoa, pois a confiança mútua entre ela e a equipe de saúde é crucial para maior adesão ao tratamento; • informar que o uso de álcool e de maconha pode agravar os sintomas psicóticos; • recomendar uma alimentação mais equilibrada, atividade física, sono regular e o autocuidado com a higiene pessoal; • explicar que o estresse pode agravar os sintomas psicóticos; • incentivar atividades sociais como meio de propiciar apoio psicológico e social, por exemplo reuniões familiares, saídas com amigos, visitas a vizinhos, atividades sociais no trabalho, esportes e atividades comunitárias; • oferecer capacitação para habilidades sociais para melhorar as aptidões para a vida; • orientar cuidadores a não tentar convencer a pessoa de que suas crenças são irreais e a oferecer apoio, mesmo diante de comportamentos 5 estranhos; as críticas em relação à pessoa com psicose devem ser evitadas; em geral, é melhor que a pessoa viva com a família ou com membros da comunidade em um ambiente acolhedor, fora do contexto hospitalar; • evitar a hospitalização prolongada. Perceba que essa lista de atribuições caracteriza uma atuação diretiva, de ensino, em que o profissional de saúde assume uma posição de professor na orientação de condutas. Essas atribuições referem-se a profissões que têm como método terapêutico intervenções voltadas para a parte consciente da personalidade. Quando se trata de psicanalistas, essa lista de atribuições não se aplica. Elas precisam ser feitas, mas não por psicanalistas. A contribuição do psicanalista vai se dar quando este oferecer ao paciente a oportunidade de falar livremente como se sente diante de sua condição de vida, com tantas orientações de conduta recebidas. É a oportunidade que o paciente tem de ser espontâneo ao falar de sua experiência com o tratamento, com as limitações e possibilidades de vida. Cada vez mais as políticas públicas estão induzindo a inclusão de pessoas comesquizofrenia em ambientes educacionais, de trabalho e sociais. Identificar e ocupar seu lugar social é um fator de proteção emocional e isso pode ser sustentado com a ajuda do método psicanalítico. TEMA 2 – ANTIPSICÓTICOS TÍPICOS OU DE PRIMEIRA GERAÇÃO Após a clorpromazina foram lançados diversos compostos com propriedades farmacológicas semelhantes, mesmo com estrutura química diferente (Quadro 1). Ainda que haja muitos antipsicóticos disponíveis, com exceção da clozapina não há superioridade de eficácia entre eles. Os típicos diferenciam-se quanto à potência, à farmacocinética e ao perfil de efeitos colaterais (Graeff; Guimarães, 2021). Com o uso dos antipsicóticos, a melhora inicial ocorre com a diminuição da ansiedade e da agitação. Esses fármacos são úteis no alívio de sintomas positivos e pouco eficazes no alívio dos sintomas negativos da esquizofrenia. Porém, alguns antipsicóticos atípicos apresentam alguma eficácia nesses sintomas (Graeff; Guimarães, 2021). Há resistência ao efeito benéfico dos típicos em torno de 30% dos pacientes com esquizofrenia. 6 O mecanismo de ação está relacionado com a neurotransmissão da dopamina. Estados psicóticos podem ser observados após a administração de anfetamina (agonista dopaminérgico), que libera dopamina nos terminais nervosos e inibe sua recaptação neuronial, e de cocaína, que bloqueia a recaptação neuronial de dopamina (Graeff; Guimarães, 2021). Quadro 1 – Fármacos antipsicóticos típicos Composto Dose diária Observações Clorpromazina* 200-800 Baixa potência, ↑ problemas cognitivos e cardiovasculares, menos SEP**, mais sedação, mais efeitos anticolinérgicos, menor incidência de discinecia. Tioridazina 150-600 Mesoridazina 75-300 Flufenazina 2-20 Alta potência, ↓ problemas cognitivos e cardiovasculares, mais SEP, menos sedação, menos efeitos anticolinérgicos, maior incidência de discinecia. Perfenazina 8-32 Haloperidol* 2-20 Fonte: Elaborado com base em Graeff e Guimarães, 2021; Costa, 2022. Notas: * Essas medicações geralmente estão disponíveis na rede pública de saúde. ** Sintomas extrapiramidais. Existem diversos tipos de receptores de dopamina, mas a potência terapêutica de vários compostos é diretamente relacionada ao bloqueio dos receptores D2. A potência clínica relaciona-se, então, com a afinidade pelo receptor D2; em outras palavras, quanto maior a força de ligação com esse receptor, menor a dose necessária para produzir efeito antipsicótico. Doses terapêuticas de antipsicóticos ocupam de 60 a 70% dos receptores D2 e o uso prolongado causa aumento do número desses sítios. Esse fenômeno poderia estar envolvido na discinesia tardia (Graeff; Guimarães, 2021). A ocupação em mais de 80% dos receptores provoca efeitos extrapiramidais. Isso significa que existe uma pequena janela entre a dose eficaz e a dose que afeta o sistema motor. Com a descoberta do mecanismo de ação dos antipsicóticos e com a observação de que sintomas psicóticos podem ser induzidos com agonistas dopaminérgicos, considerou-se que a esquizofrenia seria determinada por uma hiperatividade dopaminérgica. Entretanto, nem todos 7 os pacientes respondem ao tratamento, o que limitaria esse raciocínio (Elisabetsky, 2021). É preciso identificar as principais vias dopaminérgicas do SNC para entender as limitações e os efeitos adversos causados pelos antipsicóticos. Os sintomas psicóticos estão relacionados com aumento de dopamina na via mesolímbica e a hipoatividade na via mesocortical pode explicar os sintomas negativos e cognitivos da esquizofrenia. O tratamento com antipsicóticos típicos reduz dopamina nas vias (USP, 2015): • mesolímbica – controla sintomas positivos; • mesocortical – pode piorar sintomas negativos; • nigroestriatal – gera efeitos extrapiramidais; • tuberoinfundibular – gera aumento de prolactina. Esses medicamentos provocam com frequência síndromes extrapiramidais. Extrapiramidal refere-se a uma parte do sistema motor que controla e modula os movimentos. Esses efeitos podem aparecer de forma aguda ou subaguda (horas a semanas) como parkinsonismo (rigidez muscular, tremores, marcha em bloco, lentidão dos movimentos), distonias (contração muscular tetânica e dolorosa), acatisia (necessidade de movimentação, frequentemente das pernas) (Guimarães-Fernandes et al., 2021). A acatisia pode ser confundida com sintomas de uma crise psicótica e pode-se pensar que o antipsicótico não está fazendo efeito. Caso a dose seja aumentada, essa manifestação pode piorar. Nesse sentido, o perfil de efeitos adversos dessas medicações deve ser bem conhecido (Elisabetsky, 2021). Após anos pode aparecer distúrbio do movimento de instalação crônica, a chamada discinesia tardia. Essa discinesia caracteriza-se por movimentos involuntários e repetitivos, que podem incluir protusão da língua, movimentos rápidos das extremidades e movimentos de contorção de face, tronco e membros. Pode apresentar-se de forma irreversível, sendo altamente incapacitante. Na tentativa de se prevenir efeitos adversos, pode-se usar a dose eficaz mais baixa de antipsicótico (Elisabetsky, 2021). Ao se diagnosticar discinesia tardia, o uso de antipsicótico deve ser suspenso. Uma possibilidade de prevenção e manejo é usar um antipsicótico atípico, com menor propensão de provocar efeitos extrapiramidais. A valbenazina é o primeiro fármaco desenvolvido para tratar discinesia tardia. 8 Outros efeitos colaterais incluem a hiperprolactinemia, que se refere a níveis aumentados de prolactina no sangue (Elisabetsky, 2021). TEMA 3 – ANTIPSICÓTICOS ATÍPICOS OU DE SEGUNDA GERAÇÃO Até meados de 1980 um elevado número de compostos antipsicóticos foi desenvolvido, contudo um progresso na terapêutica com esses fármacos só foi possível com melhor conhecimento de sua farmacocinética e farmacodinâmica, o que ocasionou uso mais racional (Graeff; Guimarães, 2021). Os novos antipsicóticos receberam a denominação genérica de atípicos. No entanto, autores divergem quanto a esses fármacos constituírem um grupo independente. Além disso, tem-se questionado o termo atípico, sugerindo-se apenas o termo antipsicóticos de segunda geração (Graeff; Guimarães, 2021). De acordo com o PCDT de esquizofrenia, essa classificação nem deveria ser empregada, tampouco a tipicidade ou o período de síntese. Essa posição considera que os antipsicóticos constituem um grupo heterogêneo, com mecanismos de ação, eficácia, efeitos adversos e data de desenvolvimento distintos entre si (Brasil, 2013). Uma dificuldade seria que os efeitos extrapiramidais são em geral considerados de forma unitária, porém contemplam diferentes síndromes, como distonia aguda, acatisia e parkinsonismo. As escalas para medidas desses efeitos, em geral, consideram o conjunto dessas síndromes. Entretanto, a propensão dos antipsicóticos atípicos para essas síndromes difere; a risperidona, por exemplo, tem menor propensão para induzir parkinsonismo que a acatisia (Graeff; Guimarães, 2021). O mecanismo de ação comum dos atípicos reside no fato de serem antagonistas do 5-HT2A e do D2, com menor afinidade pelo segundo. A serotonina exerce um controle inibitório na liberação da dopamina. O bloqueio de receptores 5-HT2A favorece a liberação da dopamina, o que acaba compensando o bloqueio dopaminérgico na via nigrostriatal e reduzindo as consequências motoras (Graeff; Guimarães, 2021). Vários estudos clínicos demonstraram que não há superioridade alguma dos antipsicóticos atípicos em relação aos típicos. Estudos evidenciam que as principais diferenças concentram-se no perfil de efeitos adversos (Graeff; Guimarães, 2021). Considerando a heterogeneidade desses fármacos, alguns dos mais relevantes são apresentados a seguir. 9 3.1 Clozapina É um fármaco igual ou superior aos demais antipsicóticos, sendo maiseficaz em pacientes resistentes. Até 60% dos pacientes que não respondem ao tratamento com antipsicóticos típicos podem apresentar melhora com essa medicação (Graeff; Guimarães, 2021). O maior problema reside no aparecimento de agranulocitose, que se caracteriza pela redução acentuada do número de neutrófilos, o que torna o paciente suscetível a infecções graves. Devido à potencial letalidade da agranulocitose, seu uso é restrito a casos refratários aos tratamentos convencionais. Apresenta afinidade por diversos receptores de dopamina (D1, D3 e D4), serotonina (5-HT2A e 5-HT2C, 5-HT6 e 5-HT7), histamina (H1), muscarínico (M1) e α1 adrenérgico (Cunha, 2020). Vários efeitos adversos resultam da alta afinidade que a clozapina tem com receptores muscarínicos, noradrenérgicos e histaminérgicos. Os pacientes que utilizam clozapina precisam ser monitorados (hemograma) frequentemente (Elisabetsky, 2021). 3.2 Risperidona e paliperidona A risperidona é um antagonista de receptores D2, D4, 5-HT2A, 5-HT7, α1 e α2 adrenérgicos e H1. Estudos recentes não conseguiram concluir que a risperidona e outros compostos atípicos são mais eficazes que os antipsicóticos tradicionais. Em dosagem habitual, a incidência de efeitos extrapiramidais é menor comparada com o haloperidol, embora com doses maiores esses sintomas apareçam. Recentemente foi introduzida na clínica a paliperidona, metabólito ativo da risperidona que vem sendo utilizado pela forma de liberação lenta (Graeff; Guimarães, 2021). 3.3 Olanzapina Apresenta estrutura química e propriedades farmacológicas muito semelhantes às da clozapina com afinidade por vários receptores (D1, D2, D4, 5- HT2A, 5-HT2C, H1, α1- adrenérgicos e muscarínicos). Apresenta eficácia pelo menos igual à do haloperidol. Em relação à clozapina, essa comparação ainda não foi estabelecida. O benefício em relação à clozapina refere-se aos parâmetros hematológicos, uma vez que não foram verificados efeitos 10 significativos. Deve ser usada com cautela em pacientes com problemas cardíacos, cerebrovasculares e em hepatopatas (Graeff; Guimarães, 2021). 3.4 Aripiprazol Age como agonista parcial de receptores D2. Apresenta afinidade por receptores de serotonina, sendo antagonista ou agonista parcial de 5-HT2 e 5- HT1A. É desprovido de efeitos extrapiramidais, ganho de peso e hiperprolactinemia. Ensaios demonstram que é pelo menos tão eficaz quanto o haloperidol. Apresenta propriedades antimaníacas e antidepressivas (Graeff; Guimarães, 2021). De acordo com o PCDT de esquizofrenia, todos os antipsicóticos, com exceção da clozapina, podem ser utilizados no tratamento da esquizofrenia sem ordem de preferência (considerando somente os selecionados pelo protocolo). Os tratamentos devem ser realizados em monoterapia (um medicamento), considerando o perfil de segurança e a tolerabilidade do paciente. Em casos de falha terapêutica (uso de antipsicóticos por pelo menos seis semanas, em doses adequadas, sem melhora de 30% na Escala Breve de Avaliação Psiquiátrica – Brief Psychiatric Rating Scale – BPRS), um outro antipsicótico deverá ser utilizado (Brasil, 2013). TEMA 4 – OUTRAS INDICAÇÕES DOS ANTIPSICÓTICOS Outros psicofármacos incluem a quetiapina, a zotepina, a ziprasidona e a lurasidona. Todos têm propriedades farmacológicas complexas, como antagonistas de receptores D4 (quetiapina) e 5-HT2 (zotepina, quetiapina). A ziprasidona vai agir como antagonista do 5-HT2C e 5-HT1D, como agonista de 5- HT1A, vai aumentar a liberação de dopamina no córtex pré-frontal dorsolateral e inibir a recaptação de noradrenalina e serotonina (Graeff; Guimarães, 2021). Vários antipsicóticos atípicos, tais como a olanzapina, a risperidona, a quetiapina, o aripiprazol e a ziprasidona podem ser indicados (e são eficazes) para o controle da mania no transtorno bipolar e provavelmente o início do efeito é mais rápido do que com o lítio. Esses fármacos foram aprovados para o tratamento de mania aguda e a olanzapina já foi liberada para o tratamento de manutenção do transtorno afetivo bipolar I (Graeff; Guimarães, 2021). A 11 clozapina também possui propriedades antimaníacas em adição a suas propriedades antipsicóticas (Machado-Vieira et al., 2003). A quetiapina foi recentemente aprovada nos Estados Unidos como monoterapia em depressão bipolar. Também tem sido utilizada no tratamento da insônia devido ao seu potente efeito sedativo. Os antipsicóticos atípicos podem ser utilizados como potencializadores de fármacos antidepressivos no tratamento da depressão unipolar (Graeff; Guimarães, 2021). Os antipsicóticos apresentam um rápido efeito nos episódios maníacos e são usados para controlar hiperatividade e sintomas psicóticos nos casos mais severos. O uso de antipsicóticos típicos no transtorno afetivo bipolar está associado a um aumento dos efeitos colaterais neurológicos. Devem ser dados durante um período limitado para evitar a discinesia tardia (Machado-Vieira et al., 2003). A risperidona e o aripiprazol podem ser usados para controlar sintomas de irritabilidade e agressividade em crianças e adolescentes com transtorno do espectro autista (Elisabetsky, 2021). Em relação aos prejuízos cognitivos na esquizofrenia, foram durante bastante tempo pouco considerados do ponto de vista terapêutico. Os pacientes podem apresentar prejuízo na atenção, na velocidade de processamento, na memória, dentre outros. Esses sintomas não respondem aos antipsicóticos atualmente disponíveis. Contudo, novas abordagens estão em desenvolvimento para o tratamento de déficits cognitivos na esquizofrenia que incluem drogas nicotínicas (atuam em receptores nicotínicos) e facilitadores do sistema glutamatérgico e dopaminérgico mediado por receptores D1 (Graeff; Guimarães, 2021). Identificou-se que o bloqueio crônico em receptores D2 pode promover diminuição de receptores D1 no córtex pré-frontal, o que poderia ser um fator agravante de déficits cognitivos (Graeff; Guimarães, 2021). Na ausência de tratamentos específicos os antipsicóticos têm sido indicados para o manejo de transtornos do controle de impulso e da conduta e transtornos de personalidade (por exemplo, borderline). Embora o uso contínuo não seja indicado, antipsicóticos atípicos têm sido empregados no manejo de sintomas psicóticos e agitação em pacientes com demência. Esses medicamentos estão relacionados com o aumento da mortalidade. Seu uso pode ser justificado em pacientes com sintomas psicóticos graves e debilitantes, que colocam em risco a segurança de pacientes e cuidadores (Elisabetsky, 2021). https://www.psymeetsocial.com/blog/artigos/o-que-e-insonia 12 TEMA 5 – EFEITOS ADVERSOS DOS ANTIPSICÓTICOS O bloqueio de receptores dopaminérgicos é responsável por muitos dos efeitos colaterais dos antipsicóticos (Quadro 2). Esse bloqueio (na via tuberoinfundibular) aumenta a concentração de prolactina no plasma, resultando no aumento de tamanho e sensibilidade dos seios, redução da libido, infertilidade, amenorreia e galactorreia (produção de leite) em mulheres e ginecomastia em homens. A incidência de hiperprolactinemia é menor com antipsicóticos atípicos (Graeff; Guimarães, 2021). Os antipsicóticos típicos podem produzir os efeitos adversos extrapiramidais, sendo menos frequentes com os antipsicóticos atípicos. Esses efeitos ocorrem quando os receptores D2 estão ocupados entre 75% e 80%. Entretanto, essa ocupação nunca ultrapassa 67% com a clozapina, o que pode explicar seu baixo risco para esses efeitos (Graeff; Guimarães, 2021). A síndrome de Parkinson está relacionada a lentidão dos movimentos (bradicinesia), tremor variável das extremidades (aumenta com a movimentação), imobilidade da expressão facial, alteração da marcha e postura rígida (Graeff; Guimarães, 2021). As reações distônicas agudas são espasmos dos músculos da face, do pescoçoe da língua. A acatisia é um estado de desconforto intenso nos membros inferiores, acompanhado da incapacidade de manter as pernas paradas. A ocorrência de acatisia não parece ser significativamente menor com os antipsicóticos atípicos. Em casos de intolerância aos efeitos extrapiramidais, quanto foi realizado ajuste da dose do antipsicótico, o uso de biperideno ou propranolol, estará indicada a substituição por outro antipsicótico com menor perfil de efeitos extrapiramidais, como olanzapina, quetiapina ou ziprasidona. Em caso de intolerância com a risperidona, devido ao aumento de prolactina, poderá ser substituído por outro antipsicótico (Brasil, 2013). 13 Quadro 2 – Incidência relativa de alguns efeitos colaterais dos antipsicóticos Síndrome de Parkinson Receptores muscarínicos* Hipotensão postural2 Sedação3 Ganho de peso Clorpromazina ++ ++ ++ +++ +++ Flufenazina ++++ + + + +/- Tioridazina + +++ +++ +++ ++ Haloperidol ++++ + + + +/- Clozapina 0 +++ +++ +++ +++ Risperidona ++ + ++ + + Paliperidona ++ + ++ + + Olanzapina + ++ ++ + +++ Quetiapina 0 ++ ++ +++ + Ziprasidona + + + +/++ +/- Aripiprazol 0 0/+ 0/+ 0/+ +/- Sulpirida + + 0/+ ++ +/- Fonte: Elaborado com base em Graeff e Guimarães, 2021. Notas: * Boca seca, constipação, visão borrada, retenção urinária etc. ** Decorrente de bloqueio de adrenoceptores α1; *** Decorrente de bloqueio de receptores H1 de histamina. A clozapina poderá ser utilizada em caso de refratariedade a pelo menos dois antipsicóticos utilizados por pelo menos seis semanas, em doses adequadas, e se não houver pelo menos 30% de melhora na escala BPRS. Na discinesia tardia e na tentativa de suicídio, o medicamento em uso deve ser substituído por clozapina. Em caso de intolerância à clozapina, a troca poderá ser por olanzapina, quetiapina, risperidona ou ziprasidona (Brasil, 2013). Os antipsicóticos atípicos podem apresentar efeitos metabólitos que dificultam a adesão ao tratamento. Esses efeitos contemplam aumento do apetite, ganho de peso, hiperglicemia, aumento de triglicerídeos e hipertensão. Essas alterações metabólicas tornam o paciente mais suscetível ao desenvolvimento de diabetes e a aumento de eventos cardiovasculares. A clozapina e a olanzapina tendem a ter mais propensão de ganho de peso e demais alterações metabólicas (Elisabetsky, 2021). Caso essas alterações metabólicas aconteçam com o uso de olanzapina e quetiapina, deve-se considerar a substituição por ziprasidona (Brasil, 2013). 14 Os antipsicóticos estão relacionados à síndrome neuroléptica maligna, um transtorno raro e com risco de vida que causa rigidez muscular, hipertermia e elevação da pressão arterial (Elisabetsky, 2021). Os medicamentos disponíveis na rede pública de saúde para o tratamento da esquizofrenia são (Brasil, 2013): • risperidona – comprimidos de 1, 2 e 3 mg; • quetiapina – comprimidos de 25, 100, 200 e 300 mg; • ziprasidona – cápsulas de 40 e 80 mg; • olanzapina – comprimidos de 5 e 10 mg; • clozapina – comprimidos de 25 e 100 mg; • clorpromazina – comprimidos de 25 e 100 mg e solução oral 40 mg/ml; • haloperidol – comprimidos de 1 e 5 mg e solução oral 2 mg/ml; • decanoato de haloperidol injetável 50 mg/ml. A solução injetável é indicada como fármaco de depósito na impossibilidade de adesão ao tratamento na forma oral. Após aplicação o fármaco vai sendo liberado lentamente durante duas a quatro semanas. Essa possibilidade faz com que o risco de recaídas e hospitalizações devido a falta de adesão ao tratamento oral seja reduzido (Elisabetsky, 2021). A escolha do antipsicótico, em geral, é feita em função do perfil de efeitos colaterais, que se assemelha ao dos antidepressivos. O custo do antipsicótico atípico é consideravelmente maior em comparação com os típicos, outro fator que deve ser considerado na escolha do tratamento, bem como devem ser considerados os fármacos já utilizados, o estágio da doença e o risco-benefício. Após a melhora clínica, deve-se reduzir a dose na manutenção (Brasil, 2013). Tanto os efeitos adversos quanto a eficácia limitada fazem com que a adesão ao tratamento seja muito baixa (Elisabetsky, 2021). NA PRÁTICA Quando as pessoas com sofrimentos mentais e transtornos mentais graves não encontram um ambiente social que seja inclusivo, o risco de violência social é maior. Alguns filmes retratam episódios da vida real, dentre eles: • Bicho de sete cabeças, protagonizado por Rodrigo Santoro; • Estamira (documentário). 15 Esses dois filmes retratam a violência institucional que provocou males piores do que aqueles que a pessoa já tinha por causa do transtorno mental. Nos dois casos os pacientes estavam “em tratamento”. No entanto, o que se observa é que o tratamento pode anular a subjetividade das pessoas quando não dá lugar para que elas falem sobre o que sentem. O tratamento apenas medicamentoso tem foco no controle dos sintomas, mas não podemos chamar de cura uma pessoa bem ajustada, mas que foi desprovida de sua singularidade. Atualmente o que se busca é alcançar saúde por meio da compreensão de que saúde é o bem-estar biopsicossocial e não apenas a ausência de doenças. Quais seriam os objetivos da psicoterapia de adolescentes com diagnóstico de esquizofrenia? Os adolescentes com psicose provavelmente poderiam se beneficiar de tratamentos psicológicos apropriados à sua idade, considerando que estão saindo de um grupo social primário (família) e se inserindo em novos grupos sociais. A psicoterapia de grupo pode ser uma boa indicação para que esses pacientes possam se beneficiar de um laço social e encontrar um lugar nesse coletivo. Essas intervenções podem expor necessidades psicológicas e sociais, tais como o enfrentamento do estigma e da exclusão social. A psicoterapia pode ser um meio que ajude o paciente a integrar a experiência psicótica em seu contexto de vida, dando sentido a essa experiência. A psicoterapia pode atuar no sentido de identificar fatores estressores e encontrar formas de suportar, modificar ou compreender melhor as situações vividas. A psicoterapia pode desenvolver a capacidade de diferenciar, reconhecer e lidar com diferentes sensações e sentimentos. Pode aumentar a capacidade de gerenciar a própria vida, melhorar a autoestima e diminuir o isolamento. O que diferencia a psicanálise dos demais métodos psicoterapêuticos é a diretividade, ou seja, o discurso do terapeuta. O psicanalista dará oportunidade para a simbolização, para a elaboração, seja por meio de atividades artísticas, seja pela palavra. O psicanalista poderá ajudar os pacientes com psicose a diferenciar o “eu” do “não eu”. Sempre que a intervenção for prescrever e recomendar orientações de conduta, não será psicanalítica, pois o terapeuta está focando a parte consciente da pessoa, aquela parte que presta atenção, que entende racionalmente que é melhor seguir as orientações. O psicanalista 16 não tem como prioridade o treinamento de habilidades sociais nem a psicoeducação, ainda que concorde que ela seja feita por enfermeiros, médicos e psicólogos. FINALIZANDO Nesta etapa, evidenciamos que há um consenso de que os antipsicóticos possuem eficácia semelhante para a maioria dos pacientes com esquizofrenia, com exceção da clozapina. Sabe-se que os sintomas negativos e cognitivos na esquizofrenia não contam com um tratamento farmacológico eficaz. Dito isso, os antipsicóticos são selecionados com base no perfil de efeitos colaterais e do custo. Há uma baixa adesão ao tratamento e uma parte significativa dos pacientes com esquizofrenia não apresentam resposta com o uso de antipsicóticos. Os antipsicóticos atípicos têm sido usados em transtornos do humor, são eficazes em manias do transtorno bipolar e como potencializadores dos antidepressivos no tratamento da depressão.Alguns podem ser utilizados na irritabilidade e na agressão no transtorno do espectro autista. 17 REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria n. 344, de 12 de maio de 1998. _______. Ministério da Saúde. Portaria n. 364, de 9 de abril de 2013. COSTA, H. Psicotrópicos em mapas mentais. Farmácia Resumida, 2022. CUNHA, A. M. G. (Coord.). Farmacologia. 2. ed. Salvador: Sanar, 2020. ELISABETSKY, E. (Org.). Descomplicando a psicofarmacologia: psicofármacos de uso clínico e recreacional. São Paulo: Blucher, 2021. GRAEFF, F. G.; GUIMARÃES, F. S. Fundamentos da psicofarmacologia. 3. ed. Rio de Janeiro: Atheneu, 2021. GUIMARÃES-FERNANDES, F. et al. Clínica psiquiátrica: guia prático. 2. ed. Santana de Parnaíba: Manole, 2021. MACHADO-VIEIRA, R. et al. Neurobiologia do transtorno de humor bipolar e tomada de decisão na abordagem psicofarmacológica. R. Psiquiatr. RS, 25 (suplemento 1), p. 88-105, 2003. OPAS – Organização Pan-Americana da Saúde. MI-mhGAP Manual de intervenções para transtornos mentais, neurológicos e por uso de álcool e outras drogas na rede de atenção básica à saúde: versão 2.0. Brasília: OPAS, 2018. USP – Universidade de São Paulo. Farmacologia clínica. Disponível em: . Acesso em: 12 jun. 2023.